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As melhores traduções dos Sonetos de

Shakespeare
O professor de literatura inglesa John Milton, da USP, indica as melhores
traduções para o português da obra de William Shakespeare

28/10/2011 17:17
Texto Marion Frank

Os textos shakespearianos apresentam mil e uma armadilhas para quem deseja torná-los
compreensíveis em outro idioma

Traduções em português da obra de Shakespeare há de montão, basta acessar a internet


e se impressionar com a quantidade e a diversidade. Mas os textos shakespearianos
apresentam mil e uma armadilhas para quem deseja tornar compreensível, em outro
idioma, as ideias, os trocadilhos e os vocábulos inventados pelo Bardo genial. A esse
respeito, a professora da PUC-RJ, Márcia Martins, em artigo publicado na Revista
EntreClássicos (2006), ressaltou: "Há versões para quase todo tipo de expectativa ou
preferência, em prosa e verso, somente em prosa com dicção erudita, em linguagem
coloquial com maior ou menor ênfase nos trocadilhos, acentuando, mantendo ou
suavizando a linguagem chula... Enfim, uma ampla gama de "Shakespeares" em
português do Brasil vem sendo produzida há mais 75 anos."

Quantidade não faz rima com qualidade. E se causa assombro o volume de Sonetos
traduzidos para o português no reino da web, também é de espantar o quanto duvidoso
pode ser o seu valor. John Milton, professor de literatura inglesa da USP, tem expertise
sobre o assunto para separar o joio do trigo. "Uma das maiores dificuldades que o
tradutor em língua portuguesa encontra é lidar com o grande número de palavras de uma
e duas sílabas do inglês, característica muito bem aproveitada por Shakespeare em tudo
o que escreveu", assinala. "É por isso que o poeta concretista Haroldo de Campos usa a
imagem de arquiteto e a de engenheiro para definir o trabalho do tradutor - arquiteto no
sentido de conceber uma poética e engenheiro, no de voltar a erguer o ‘prédio’."
Apreciando as traduções à venda no nosso mercado segundo esse prisma, John Milton
fez escolhas e explica a razão.

Para ler, clique nos itens abaixo:


1. Sonetos, de Jorge Wanderley
"É a tradução que mais gosto, livro editado pela Civilização Brasileira, em 1990
- será um achado encontrá-lo nos sebos do País... A razão da preferência?
Porque ele soube manter, na tradução, a concisão que é típica de Shakespeare.
Wanderley foi um cardiologista que gostava de trabalhar com o idioma inglês
nas horas de lazer, ele morreu cerca de dez anos atrás. Em seu trabalho, é
notável a maneira como reescreve o soneto, sem tentar traduzir palavra por
palavra - e consegue fazê-lo, adotando o verso de dez sílabas tão caro a
Shakespeare. Naturalmente, Wanderley só conseguiu essa concisão porque
deixou de lado conteúdos em destaque no poema original. Esse é um problema
recorrente no trabalho de tradução, seja ele qual for: manter as rimas sem que
elas destoem entre si. Porque muitas vezes percebe-se que o tradutor realça uma
determinada palavra apenas para seguir a rima - e não ser fiel ao texto original.
No caso de Wanderley, não, ele não força a barra, nem enche lingüiça (algo que
o inglês chama de "padding"), mas sim faz uso de um imaginário semelhante ao
de Shakespeare, respeitando a concisão e as regras do decassílabo e das rimas.
2. Sonetos, de Carlos Alberto Nunes
"Foi outro médico apaixonado pelo universo shakespeariano, a ponto de ter sido
o único, no Brasil, a traduzir a obra completa do Bardo para o português. Por ser
um trabalho realizado décadas atrás, algumas opções adotadas por Nunes podem
soar obsoletas - é bom lembrar que hoje não existe mais aquela obrigatoriedade,
típica dos anos 50, de se alcançar a rima no verso custe o que custasse, mesmo
se ela não fizesse parte do texto original".
3. Sonetos Completos, de Vasco Graça Moura
"Esse trabalho, datado de 2005, leva a assinatura de um poeta (e político)
bastante conhecido em Portugal, Vasco Graça Moura. Chama a atenção o
esforço em usar decassílabos e criar imagens de algum modo próximas às de
Shakespeare. Para tanto, Vasco se serve de um vocabulário bem mais próximo
dos leitores portugueses que dos brasileiros. Um bom trabalho".
4. 30 Sonetos, de Ivo Barroso
"No Brasil, um dos tradutores mais conhecidos dos poemas de Shakespeare é
Ivo Barroso. Nesse trabalho, ele faz uso de palavras pomposas e de um
vocabulário pouco conhecido para atingir as rimas - é bom lembrar que a
linguagem utilizada por Shakespeare, em seu universo poético, não é de nível
tão elevado assim... Em 2005, Ivo Barroso lançou outra coletânea de poesias
shakespearianas, "42 Sonetos". Vale a pena ler e reparar na diferença de estilo
entre tradutores brasileiros."
5. Poemas de Amor, de Barbara Heliodora
"Barbara é muito conhecida como crítica e tradutora das peças teatrais de
Shakespeare, mas ela também assina traduções de sonetos, como as dessa obra
que teve seu lançamento em 2001. Ela também procura manter, na tradução para
o português, os decassílabos e o padrão das rimas, mas acaba perdendo imagens
fortes da poética de Shakespeare para se manter fiel ao modelo do soneto
inglês."

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