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Fabiola Andréa Silva | Cesar Gordon

Objetos vivos de uma coleção


etnográfica: A Curadoria da
Coleção Etnográfica Xikrin-
Kayapó no Museu de
Arqueologia e Etnologia da
Universidade de São Paulo1 O Museu de Arqueologia e Etnologia
da Universidade de São Paulo, preserva em seu
acervo uma das maiores coleções antropológicas
(etnologia e arqueologia) do país, mas em gran­
de parte, ela ainda necessita ser estudada e dada
a conhecer ao público em geral. Como pesquisa­
Fabíola Andréa Silva2 dores, nosso esforço tem sido tentar decifrar os
Cesar Gordon3 significados destes objetos, seguindo o princípio
de Franz Boas de que os pontos de vista a partir
dos quais as coleções devem ser vistas e estuda­
das variam caso a caso. A curadoria da coleção
etnográfica Xikrin-Kayapó é um exemplo deste
esforço e o seu objetivo não é apenas descrever
Introdução: e analisar os objetos produzidos por esta popula­
ção indígena, mas ao mesmo tempo, incentivar
o desenvolvimento deste campo investigativo e
Em uma carta direcionada ao Presiden­ contribuir na reflexão sobre o papel dos Museus
te do Museu Americano de História Natural e nos tempos contemporâneos.
datada de 29 de abril de 1905, Franz Boas expõe A coleção etnográfica Xikrin-Kayapó
seus pontos de vista sobre “as funções educati­ foi doada ao Museu de Arqueologia e Etnolo­
vas dos museus antropológicos”: gia da Universidade de São Paulo, em julho de
“o objetivo de uma grande coleção antropo­ 2001. Esta coleção foi formada pela Prof* Dr3
lógica é ilustrar todas as principais caracterís­ Lux Boelitz Vidal, ao longo de trinta anos de
ticas da história da civilização humana, desde pesquisa junto aos Xikrin. Ela iniciou seu traba­
as formas mais antigas até as mais elevadas, lho com esta população indígena, no início dos
na medida em que isso possa ser feito pela anos sessenta, sendo que deste resultou sua tese
apresentação de objetos materiais pertencen­ de doutorado, intitulada Morte e Vida de uma
tes a diversas culturas. Assim, os principais População Indígena (Vidal, 1977) e uma série
pontos de vista que devem ser enfatizados de outras publicações.
são a relação do homem com a natureza, o Trata-se de uma coleção de 393 peças,
desenvolvimento das técnicas de produção, relativamente bem conservadas e com objetos
as formas de costumes e crenças. Eles devem
ser explicados levando em consideração as muito diversificados. A mesma é constituída de:
condições históricas de cada povo.” (Franz adornos corporais feitos de penas (braçadeiras,
Boas in: Stocking, Jr., 2004:357) cocares, colares, peitorais, pingentes dorsais,
bandoleiras), de fibras de algodão (braçadeiras,
1 Trabalho apresentado na Mesa 2: Acervos etnológicos e bandoleiras, cintos), de palha (braceletes, cin­
curadoria científica.
2 Antropóloga. Programa de Pós-Graduação em Arqueo­
tos, tiaras), de madeira (tembetás e dilatadores
logia. Museu de Arqueologia e Etnologia. Universidade de orelha), de dentes e ossos de animais (cola­
de São Paulo. res), de miçangas (colares, cintos, bandoleiras,
3 Antropólogo. Instituto Multidisciplinar. Universidade braçadeiras), de sementes (cintos, bandoleiras,
Federal Rural do Rio de Janeiro. Pesquisador do Núcleo braçadeiras e colares), de concha (brincos e co­
Transformações Indígenas (NuTI) e do Núcleo Cultura
e Economia (NuCEC) do Museu Nacional da Universi­ lares); instrumentos musicais feitos de unhas
dade Federal do Rio de Janeiro. de animais (chocalhos), de taquara (buzinas e
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flautas), de cabaça (maracás), de palha (apito); cobrimento do Novo Mundo e foi levado a cabo
armas feitas de madeira (bordunas), de estipe de por viajantes e naturalistas que também se inte­
palmeira (arcos e flechas), de bambu (flechas); ressavam pela fauna e pela flora do novo conti­
brinquedos de palha, resina e envira (pequenos nente. A partir dessas coleções, foram criados
animais); utensílios e ferramentas em osso os chamados “Gabinetes de Curiosidades” que
(agulhas e escarificadores), em cerâmica (fu­ atraíam o público pelo seu caráter exótico e pela
sos), em semente (fusos), em unhas de animais peculiaridade dos materiais que apresentavam.
(escarificador), em madeira (pente riscador) e A Antropologia que se desenvolveu en­
recipientes de cabaça; trançados (cestos-car- quanto disciplina no final do século XIX, come­
gueiros, cestos bolsiformes, cestos estojiformes, çou a se interessar pelas coleções etnográficas
cestinhas, tipóias, esteiras, espremedores de realizando um trabalho de classificação desses
mandioca e máscara); exemplares de matéria- objetos em termos de aspectos como o meio am­
prima (penas, sementes, fibras vegetais). biente, a técnica e a forma. Ou seja, tratava-se
Esta coleção foi formada de forma não de um trabalho descritivo que procurava orde­
intencional, sem um planejamento prévio e de nar esses objetos seja em termos evolutivos, seja
forma, às vezes, bastante aleatória. Segundo Vi­ em termos de áreas geográficas e culturais. No
dal, ela recolhia as peças sem a intenção de for­ entanto, “os aspectos sociais e simbólicos, refe­
mar propriamente uma coleção, mas apesar dis­ rentes aos objetos, eram obscurecidos” (Ribeiro
so, sempre teve a preocupação em documentar e e van Velthem, 1998:104).
conservar as mesmas para uma possível doação Com o tempo, essas coleções foram
futura a um Museu. Cabe ressaltar que o MAE sendo negligenciadas enquanto objetos de estu­
foi a Instituição escolhida para recebê-la porque do, do mesmo modo que a cultura material era
se tratava de um lugar adequado, apresentando desvalorizada nas pesquisas etnográficas (Cf.
um corpo de profissionais qualificados e uma Ribeiro, 1990 e Ribeiro e van Velthem, 1998).
reserva técnica de toda a confiança. Somente após a percepção de que esta trazia
E importante dizer ainda que esta cole­ uma riqueza de informações sobre aspectos da
ção, sendo o resultado de um trabalho de vários vida social e sobre os simbolismos daqueles que
anos, pode ser entendida como um testemunho a produziram é que essa temática readquire im­
de parte da história da disciplina antropológica portância no interior da disciplina e, conseqüen­
em nosso país, pois representa e contextualiza temente, o estudo de coleções transforma-se em
uma parcela do trabalho de pesquisa da etnólo- uma estratégia a mais para a compreensão do
ga Lux Vidal. Além disso, ela também reflete a modo de vida das populações indígenas.
trajetória desse povo Jê e preserva aspectos do Atualmente, os estudos sobre coleções
seu modo de vida. Neste sentido, trata-se de um etnográficas ainda não são muito abundantes,
material de pesquisa extremamente relevante e inclusive porque as condições de muitos acer­
cuja curadoria era fundamental. vos não são muito animadoras. As mesmas po­
dem estar armazenadas sob condições precárias,
não ter boa documentação associada, estarem
incompletas, etc. No entanto, tem havido um
crescente reconhecimento da importância de se
trabalhar com esses documentos, procurando
O estudo de coleções etnográficas: contextualizá-los em termos do ambiente eco­
lógico em que se inserem aqueles que os produ­
ziram, da sua organização social, do seu mundo
Conforme salientaram Ribeiro e van simbólico e percepção estética, bem como, dos
Velthem (1998:103), as coleções etnográficas seus processos de interação com outras popula­
devem ser entendidas como “documentos que se ções (vide Barcelos Neto, 2002).
particularizam por serem materiais” Segundo Além dos aspectos colocados acima é
as autoras, o trabalho de colecionar os artefatos interessante ressaltar que, nos últimos anos, os
das populações ameríndias iniciou desde o des­ estudos de coleções também têm contemplado a
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discussão sobre os coletores e as motivações que formação das coleções etnográficas. Conforme
os levaram a formar um determinado conjunto já foi salientado na introdução, esta coleção é
de objetos, bem como sobre o papel dos curado­ um testemunho de uma parte da história da An­
res das coleções nos museus. Este aspecto tem tropologia brasileira, pois contextualiza o tra­
se tomado relevante na medida em que se tem balho de uma importante etnóloga cuja contri­
compreendido que uma coleção pode revelar buição acadêmica para a disciplina é de extrema
aspectos da intencionalidade e da identidade de relevância.
quem coletou, bem como do contexto histórico Acrescido a isso está o fato de que uma
em que urna determinada coleção foi formada e, parte do trabalho de curadoria desta coleção,
posteriormente conservada institucionalmente. foi realizado com o auxílio de representantes
Neste caso, os objetos são acrescidos de mais Xikrin, cuja visão êmica enriqueceu ainda mais
um significado, enriquecendo nossas possibili­ o trabalho de documentação e análise dos obje­
dades de leitura e pesquisa a respeito dos mes­ tos, bem como a sua contextualização. Este tipo
mos (vide p.ex. Gmpioni, 1998; Nash e Feinman de trabalho de curadoria ainda é pouco realiza­
(Eds), 2003; Hallam, 2000 e Shelton, 2000). do em nosso país, embora se constitua em uma
As coleções podem ser o resultado de oportunidade de instaurar um novo tipo de olhar
uma coleta intencional ou não intencional. No sobre as coleções etnográficas e sobre os traba­
primeiro grupo estariam aquelas coleções que lhos de curadoria relativos a esse tipo de objeto.
foram conscientemente formadas pelos coleto­ Cabe ressaltar, ainda, que iniciativas
res e que, por esta razão, são mais estmturadas como esta se inserem naquilo que Regina Abreu
e circunscritas a determinados temas, tipos de (2005:111) chamou de “novas propostas nos
objetos e períodos cronológicos. As coleções museus etnográficos” ou seja, de transformar
não intencionais, por outro lado, são aquelas que os museus em espaços de multivocalidade.
foram formadas sem um planejamento prévio e
de forma, às vezes, aleatória. Pode acontecer, “Se até os anos 50 os museus praticavam o
inclusive, que algumas dessas coleções venham colecionamento construindo e, em alguns
casos, cristalizando alteridades de povos
a ser percebidas como tais pelos seus coletores, que não se manifestavam ou não se conec-
somente com o decorrer do tempo - como foi o tavam com as propostas museológicas dos
caso desta coleção Xikrin. A partir disso, o ato ocidentais, hoje, algumas experiências de
de colecionar pode vir a se tomar consciente e práticas de colecionamento e de criação
alguns objetos vão sendo acrescidos à mesma de museus tribais gestados pelos próprios
em função de sua contribuição na obtenção de índios vêm alterando esse quadro. De re­
um determinado objetivo. Outro aspecto impor­ tratos de alteridades máximas, museus e
tante que é revelado quando se analisam as moti­ coleções sinalizam um deslocamento do
vações que levaram a formação de uma coleção olhar: aqueles que antes eram olhados
é o de que as mesmas, muitas vezes, refletem agora olham para si mesmos, tecendo seus
auto-retratos” (Abreu, 2005:112).
a ocupação daquele que as produziu. Assim, os
itens coletados são, também, veículos que ex­
pressam uma determinada experiência vivida
(Cf. Belk, 1999).
Uma coleção também pode ser formada
porque o colecionador procurou, através da mes­
ma, testemunhar a sua relação com determinadas Aspectos metodológicos do estudo
pessoas, ou ainda, para preservar determinados da coleção Xikrin:
objetos como uma história, ou seja, num sentido
de dar continuidade a uma determinada experi­
ência ou realidade (Cf. Formaneck, 1999). Segundo Prown (1999), a análise de um
O trabalho de curadoria que propomos artefato pode ser dividida em três diferentes es­
neste projeto também visava trazer subsídios à tágios: a descrição, a dedução e a especulação.
discussão sobre as motivações e o contexto de Na etapa descritiva, a análise privilegia os as­
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Museu, Identidades e Patrimônio Cultural.
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pectos mais genéricos e substanciais do objeto. mentação da mesma foi realizado com o auxílio
Assim, são feitas as medidas, pesos, descrição de Lux Vidal, através de uma série de entrevistas
dos materiais e a forma como eles estão articu­ e manipulação das peças em laboratório. Além
lados na fabricação do mesmo (p. ex. soldados, disso, a vinda dos Xikrin foi uma contribuição
costurados, colados, etc). Além disso, avalia-se fundamental para a complementação dos dados
os aspectos decorativos e se faz a análise formal de análise e documentação, bem como no que
tridimensional do mesmo. Na etapa dedutiva, se refere às reflexões sobre o restauro e a con­
por sua vez, procura-se verificar a funcionalida­ servação dos objetos etnográficos em museus.
de do objeto e como essa se adequa às caracte­ Acrescido a isso está o fato de que os demais
rísticas que o mesmo apresenta. E, finalmente, pesquisadores que têm colaborado com esta
na etapa da especulação, o pesquisador interage pesquisa desenvolveram trabalhos de pesquisa
ao máximo com o objeto, procurando entender sobre a cultura material desta população indíge­
os significados culturais subjacentes ao mesmo. na, facilitando ainda mais a compreensão desse
Para Pearce (1999b), por outro lado, ao conjunto de artefatos (p.ex. Gianinni, 1991; Sil­
analisar um artefato de uma coleção é preciso va, 2000, Cohn, 2000; Gordon, 2003).
que o pesquisador tente responder as seguintes A primeira etapa de trabalho consistiu
questões: O que? Como? Onde? Quando? Por na produção de uma primeira documentação fo­
quem? Por que? Assim, ele divide o estudo em tográfica, com o auxílio do fotógrafo do MAE,
4 áreas distintas: material, ambiente, história e Wagner Souza e Silva. Ou seja, cada peça foi
significância. É o entendimento articulado des­ fotografada individualmente de modo a ressaltar
tas propriedades que possibilita a interpretação suas principais características - foram fotografa­
do mesmo. das 393 peças. Posteriormente, - quando as pe­
Quando se contempla a área material, a ças já tiverem passado pelo processo definitivo
análise procura considerar os aspectos constru­ de conservação e armazenamento - pretendemos
tivos do objeto, seu design e características em refazer a documentação fotográfica a fim de for­
termos de procedência e técnica. Assim, elabo­ mar um banco de dados e imagens definitivo que
ra-se uma descrição do mesmo e uma primeira possa ser consultado por outros pesquisadores.
tipologia que permitirá que este seja comparado Além das imagens fizemos o registro
com outros exemplares. Em relação ao ambien­ dos objetos em uma ficha padronizada (vide
te, procura-se entender a relação do objeto com Anexo 2) que foi elaborada pelo setor de cura­
a paisagem e os recursos disponíveis no seu lo­ doria do MAE, através do projeto financiado
cal de produção e coleta. Para isso é necessário, pela FAPESP, intitulado: Projeto de Infra-Estru­
inclusive, fazer estudos de paisagem e de locali­ tura de Pesquisa (Processo 96/10598-3). Trata-
zação de recursos. No que se refere à história, o se de uma ficha bastante completa que permite o
pesquisador deve tentar resgatar as informações registro de diferentes aspectos do objeto. Além
sobre o artesão que produziu a peça, o seu uso das informações referentes à sua localização no
contextual e o seu histórico de coleta, publica­ acervo, a ficha permite a realização da descri­
ção e exibição. E, finalmente, no que se refere ção da peça em termos das suas características
ao significado, ele deve procurar entender o pa­ morfológicas, funcionais e históricas. Além dis­
pel social e simbólico do objeto em seu contexto so, pode-se descrever o seu estado de conserva­
de produção e uso. ção, registrar o pesquisador que a estudou, bem
Obviamente, os primeiros níveis desse como, a bibliografia disponível sobre a mesma e
esquema de análise são mais facilmente reali­ sobre o grupo que a produziu.
zados. Na medida em que se vai penetrando nos Todas as descrições das peças foram re­
aspectos funcionais e simbólicos dos objetos, a alizadas a partir da consulta do Dicionário do
análise toma-se mais árdua, pois nem sempre é Artesanato Indígena de Berta Ribeiro (1988).
possível alcançar todas essas informações. Posteriormente, as descrições foram conferidas,
No caso desta coleção, pudemos supe­ corrigidas e concluídas a partir das informações
rar grande parte dessas dificuldades, tendo em fornecidas pelos Xikrin. Estes contribuíram,
vista que todo o trabalho de pesquisa e docu­ principalmente, na determinação da nomencla-
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tura Xikrin para os objetos e na identificação da estudar os adornos plumários da cabeça. Todos
matéria-prima de produção e do modo de uso e foram descritos (medidos e caracterizados em
significados culturais dos mesmos. termos de matéria-prima, técnica de confecção,
A metodologia proposta por Ribeiro nomenclatura, uso e significado) a partir da con­
(1988:14-16) em seu livro Dicionário do Ar­ sulta dos trabalhos de Ribeiro (1987 e 1988)
tesanato Indígena consiste em dividir todos os (vide anexo 3: relatórios). Além disso, o aluno
objetos materiais em categorias, grupos e ti­ de Pós-Graduação Lucas de Melo Reis Bueno
pos. A definição das categorías leva em conta a realizou um trabalho de pesquisa com o conjun­
matéria-prima empregada, a técnica de confec­ to de flechas Xikrin da coleção, a partir de uma
ção que déla deriva, a morfologia e finalidade perspectiva etnoarqueológica. Para realizar a
do artefato. Dentro desta classificação geral, os descrição e classificação das flechas foram con­
artefatos são organizados em grupos que dizem sultados os trabalhos de Frickel (1968), Chiara
respeito às suas características gerais de uso e, (1986) e Chiara e Heath (1978) (vide anexo 3:
ao mesmo tempo, em tipos e subtipos que infor­ texto publicado).
mam sobre o modo de uso e as técnicas de pro­ Portanto, nossa metodologia de pesqui­
dução e morfologia peculiares de cada artefato. sa consistiu na descrição e análise das peças com
No que se refere à categoria adornos plumários, base na bibliografia corrente sobre classificação
por exemplo, os grupos são definidos em função de materiais etnográficos, bem como nas obser­
da parte do corpo onde são usados (cabeça, tron­ vações e entrevistas dos etnólogos que trabalha­
co ou membros) e os tipos e subtipos correspon­ ram com os Xikrin e dos próprios indígenas.
dem à forma, posição de uso, material de supor­
te das penas, etc. Assim, um cocar é classificado
primeiramente na categoria de adorno plumário
devido à sua matéria-prima, técnica e morfolo­
gia; como adorno plumário da cabeça, em fun­
ção da parte do corpo em que é usado e dividido A musealização dos indígenas ou
em tipos e subtipos (diadema, toucado ou aro a indigenização dos museus? Uma
emplumado; vertical, horizontal, etc) em função experiência com conservação e
das suas peculiaridades técnicas, morfológicas e restauro durante o processo de
modo de uso (Ribeiro, 1988: 113-127). curadoria da coleção Xikrin
Cabe ressaltar que nos meses de vigên­
cia do Auxílio Pesquisa dois alunos receberam
bolsas FAPESP para estudar conjuntos especí­ Sobre a questão da conservação e do
ficos de artefatos e utilizaram referenciais me­ restauro desta coleção toma-se importante sa­
todológicos específicos para os conjuntos que lientar que este projeto de pesquisa pode ser
estavam estudando. O aluno Chen Chin Cheng visto como uma contribuição ao aprofundamen­
recebeu uma Bolsa de Treinamento Técnico 3 to das discussões éticas sobre a conservação e
(Processo n° 03/12316-0) para estudar os objetos restauro do material etnográfico em um âmbito
trançados da coleção. Todos foram avaliados em mais amplo (vide p.ex. Froner, 1995; Froner,
termos de suas características gerais, sendo to­ Braga & Aldrovandi, 1998; Braga e Froner,
talmente descritos (medidos e caracterizados em 1999). Intervenções inadequadas em objetos
termos de matéria-prima, técnica de confecção, etnográficos podem trazer grandes prejuízos
nomenclatura, uso e significado), desenhados para as pesquisas futuras, bem como interpre­
e fotografados em detalhe. Para fazer a descri­ tações errôneas desse patrimônio material, além
ção foram consultados os trabalhos de Ribeiro de danos irreversíveis para os objetos. No ex­
(1985) e van Velthem (1998) e os desenhos das terior, essas discussões vêm sendo travadas, há
peças foram realizados a partir da técnica do de­ algum tempo, revelando exemplos que deverão
senho de observação (Cf. Castro, 1994). O aluno ser trazidos, discutidos, aprofundados e testados
Daniel Tibério Luz recebeu uma Bolsa de Ini­ em nossa realidade (Cf. Braga, 2002). Um dos
ciação Científica ( Processo n° 04/01244-1) para aspectos dessas discussões é a tentativa de se
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criar parâmetros para instaurar uma prática que sendo refeitas, enquanto para outros, foi uma es­
coloque, lado a lado, os pontos de vista do con­ pécie de subversão à soberania dos museus em
servador, do etnólogo e do criador dos objetos e, decidir sobre as intervenções que devem ou não
ao mesmo tempo, propor diretrizes interdiscipli- ser feitas no patrimônio que eles guardam. Estes
nares de atuação dos conservadores sobre estes diferentes pontos de vista demonstram a rique­
tipos de objetos (Braga, 2005-2006). za e complexidade do debate que se instaura em
Sabemos, pela experiência prática e tomo da curadoria de peças etnográficas, bem
contatos com outras instituições museológicas, como de sua conservação. O que se estabelece
que ora prevalece um ponto de vista, ora outro, é uma oposição entre uma proposta de “muse-
no que se refere à conservação e restauração de alização” dos povos indígenas e uma proposta
objetos etnográficos. Esses pontos de vista va­ de “indigenização” dos museus. Para a primei­
riam de acordo com os interesses e formações ra, o objetivo seria o de transmitir a estes povos
intelectuais e culturais dos responsáveis pelas os “nossos” princípios de curadoria, conserva­
coleções e seus produtores. ção, restauro e exposição de seus objetos; para
Durante a curadoria da coleção Xikrin, a segunda, seria o de permitir que os princípios
vivenciamos momentos em que estas questões “deles” definissem a maneira de fazer a curado­
sobre ética, conservação e restauro dos objetos ria, conservação, restauro e exposição dos seus
etnográficos e sobre a contraposição de pontos objetos nos museus. Certamente, na medida em
de vista, se apresentaram de forma “perturbado­ que as populações indígenas, conservadores e
ra” para todos que estavam envolvidos na pes­ pesquisadores passarem a estabelecer um diálo­
quisa. Uma das atividades desenvolvidas duran­ go mais freqüente, o papel dos museus enquanto
te a estada dos índios Xikrin em São Paulo, foi detentores de acervos etnográficos e a partici­
tentar verificar as suas noções sobre a questão pação dos povos indígenas no gerenciamento
da conservação e restauro das peças. Assim, fo­ destes acervos, deverá ser revisto e discutido da
ram mostradas a eles peças que estavam danifi­ mesma forma como já vem acontecendo com os
cadas e a sua reação imediata foi reparar aquelas aspectos relativos aos direitos de imagem, divul­
que eles consideraram passíveis de reparo e, por gação de etnoconhecimentos, etc.
outro lado, desfazer-se daquelas que segundo
eles estavam muito danificadas. Eles, inclusi­
ve, refizeram a amarração de um dos chocalhos
que originalmente era de envira, substituindo
este material por fios de algodão. Além desta
peça, eles também refizeram a emplumação de Conclusão:
um grande cocar pois, segundo eles, o restaura­
dor anterior havia colocado a fieira de penas de
forma incorreta. Segundo o conservador, muitas Uma coleção etnográfica resulta da
vezes, a conservação e o restauro de peças etno­ seleção e coleta de objetos que possuem, num
gráficas, especialmente da plumária se toma uma determinado contexto, um significado e valor
tarefa extremamente complexa e implica em mui­ cultural. Quando estes objetos vão para um
ta reflexão sobre a legitimidade de se substituir museu, os mesmos são acrescidos de um outro
as matérias-primas danificadas ou de preservar as significado e valor. Ou seja, eles tomam-se bens
mesmas a fim de manter a “integridade” da peça. que serão preservados e vistos e estudados por
Para o conservador, inclusive, as intervenções dos diferentes pessoas que, por sua vez, darão a eles
Xikrin nas peças deveriam ser entendidas como significados distintos de acordo com os seus
uma forma de elaboração de novas peças, ou seja, olhares e experiências vividas.
como se a intervenção deles nos objetos os tives­ É por essa razão, que Pearce (1999a)
sem recriado dando a eles uma nova identidade. afirma que os objetos de museu são polissemân-
Estas duas experiências suscitaram rea­ ticos e enquanto existirem como realidade ma­
ções diferenciadas entre os pesquisadores. Para terial, seus significados poderão ser sempre ree-
alguns foi um tanto perturbador ver as peças laborados. Isso, ao mesmo tempo, faz com que
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os mesmos sejam sempre objetos atuais. Além Passado Pré-Colonial. São Paulo, EDUSP/Museu de
disso, esses objetos são signos que unem a men­ Arqueologia e Etnologia da USP. 2001. pp.59-64.
sagem (significado) à materialidade (significan- BRAGA, G. B. Conservação Preventiva: Acondicio-
te) e operam sobre nós, em termos de relações namento e Armazenagem de Acervos Arqueológicos e
metonímicas e metafóricas. Etnográficos em Áreas de Reserva Técnica. Relatório
Assim, a coleção etnográfica Xikrin, de Qualificação apresentado ao Programa de Pós-Gra­
ao mesmo tempo em que nos remete, através duação em Ciências da Informação e Documentação
destes objetos, a esta população indígena, tam­ da Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. 2002.
bém nos revela aspectos do seu modo de vida.
Apesar do arcabouço material dos brancos ter se BRAGA, G. B. Conservação Preventiva: Armazena­
tomado cada vez mais fundamental na vida dos mento e Acondicionamento de Acervos Complexos
Xikrin eles, apesar disso, não parecem dispostos em Áreas de Reserva Técnica - o Caso do MAE/USP.
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa
a abandonar o seu modo de vida. Pensando nis­ de Pós-Graduação em Ciências da Informação e Do­
so, pode-se apreender esta coleção Xikrin como cumentação da Escola de Comunicações e Artes da
um testemunho de um determinado tempo e das Universidade de São Paulo. 2003.
transformações que a cultura material deste povo BRAGA, G.B. “Teoria da Restauração de Brandi”:
vem sofrendo ao longo do seu processo históri­ uma abordagem para objetos artísiticos, arqueológi­
co. É nisso que reside a importância de seu estu­ cos e etnográficos. Revista do Museu de Arqueologia
do, pois ao olharmos estes objetos nós veremos e Etnologia. Universidade de São Paulo, 15/16:337-
os Xikrin dos tempos passados e os de hoje, bem 346. São Paulo. 2005-2006.
como todo o seu esforço em conviver conosco. BRAGA, G.B. & FRONER, Y.A. The Storage of Eth­
E os Xikrin? Esperemos que olhem para estes nographic and Archaeological Museum Collections
objetos e vejam neles os Xikrin de sempre. of the University of São Paulo, Brazil. ICOM Ethno­
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