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Nada Além do

Sangue
Por
Eliezer Oliveira

1
Para o meu amor, Jessica Steffen, a completa causa de tudo em mim estar
pulsando de alegria a cada parágrafo desse livro. Tudo no Evangelho é
vivido de forma perfeita quando compartilhamos, e é contigo que desejo
viver para sempre cada verdade que aqui apresento.

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Comentários

Eliezer Oliveira é parte de uma nova geração de cristãos


que descobriram e continuam a descobrir de forma
simples, mas extremamente clara e reveladora, os
princípios bíblicos da Graça de Deus. Essa é uma
descoberta surpreendente porque não se deixa aprisionar
dentro de caixas denominacionais. Calvinismo,
Arminianismo, nada disso jamais conseguiu revelar, muito
menos explicar de forma satisfatória e plena a graça
divina. Mas essa nova geração, cansada do legalismo que
permeia a teologia e a prática de certas igrejas e
denominações, insatisfeita com a insuficiência dos
sistemas teológicos tradicionais, sem ser uma geração
revoltada ou rebelde, movida por um novo entendimento,
cheia do amor de Deus, tem se mobilizado para fazer da
igreja do Senhor Jesus aquilo o que ela foi projetada para
ser: um lugar tão repleto da Graça de Deus, que sem
necessidade de fazer força para tal, naturalmente se torna
um local de acolhimento, restauração, recomeço, vida
abundante, cura, liberdade e alegria. Eliezer escreve de
modo claro e direto, sempre suportado por forte base
bíblica. “Nada Além do Sangue” fala da suficiência de Jesus
para todo aquele que crê. Perdão completo de todos os
pecados, vida plena, amor incondicional, tudo isso foi
conquistado por Jesus e concedido pra todos que desejem
receber, de forma graciosa, gratuita, generosa. Creio que a
leitura desse novo livro do Eliezer vai trazer uma nova luz
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e fazer com que muitos entendimentos que, para muitas
pessoas estavam como que caídos numa vala, ocultados
por sombras da religiosidade, sejam trazidos de volta para
o centro da estrada, para um ponto onde a luz de Cristo os
torna visíveis e compreensíveis.

- Maurício Fragale. O pastor Maurício é o pastor


sênior e fundador da Nova Igreja, cuja sede está
localizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Autor
dos livros Sua Nova Identidade e Vencedor ou Vitima.

"Não importa se você não é cristão, se conheceu o


evangelho a pouco tempo ou se já vive na fé a muitos
anos, o livro Nada além do Sangue com certeza irá abrir
seus olhos e seu coração para uma realidade que irá
impactar sua vida e de todos que lhe cercam para sempre.
Focado totalmente em mostrar ao leitor a suficiência em
Cristo, ele nos conduz a uma jornada de compreensão
mais profunda sobre tudo aquilo que temos direito
através da obra da cruz e como desfrutar desses
benefícios. Temas como justificação e santidade, que por
muito tempo foram temas confusos para a maioria das
pessoas entenderem, nesse livro o autor esclarece com

5
muita simplicidade e didática, removendo os sofismas e
tirando peso de culpa e condenação que muitos ainda
carregam."

- Helder Jorge. Helder é pastor de jovens há 10 anos e


atualmente pastor da Igreja no Cinema em Curitiba.
Também atua como pastor e professor no Central
Bible College, uma escola ministerial
interdenominacional, com ênfase no ensino da Graça.

A suficiência do Sangue de Jesus foi minuciosamente


esclarecida com propriedade pelo autor Eliezer Oliveira.
De maneira clara e pratica o autor ressalta como ainda
existem praticas, ritos e rituais religiosos impedindo que o
homem viva a plenitude da Graça, não como uma
doutrina, mas Cristo em seu ser. Com certeza a leitura
deste livro trará luz ao seu espírito, revelando a
completude de Cristo depositada em todos nós, para
vivermos uma vida de fé, inteiramente baseada em Nada
mais Além do Sangue.

6
- Reinaldo Garcia. Reinaldo é pastor na Nova Church
Atlanta, e junto com Fragale e toda a Nova Igreja,
proclama a pura mensagem da graça

"O livro Nada além do Sangue é uma jornada incrível


sobre a suficiência de Cristo em nossas vidas, ao mesmo
tempo que proclama a nossa insuficiência em nós
mesmos. O livro nos lembra, com incríveis detalhes na
revelação da Palavra, que a plenitude de Deus, em Cristo,
está também em nós quando O recebemos, e por isso,
podemos parar de buscar em coisas e pessoas o que
temos em Cristo. Ele também desafia a todos os leitores,
incluindo os próprios cristãos, a descansar suas almas
sedentas, sabendo que todos os anseios dessa vida
cessam em Jesus Cristo."

- Leo Francisco. Leo é ministro do evangelho - ama


ouvir, ensinar e pregar o evangelho puro da graça de
Deus. Dono do canal "Ministrando Graça" no
YouTube, em que posta vídeos de diversos pregadores
falantes de inglês com legendas em português que ele
mesmo faz. Revisor do livro E Ele nos tornou Santos, e
o tradutor do mesmo livro para o inglês (Futuro Ande
he made us Holy)

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Índice
Introdução 5

Capítulo 1
O Homem insuficiente 9

Capítulo 2
Religiosidade: Uma tentativa humana de preencher o vazio 27

Capítulo 3
Jesus é suficiente 53

Capítulo 8
Nada Além do Sangue 83

Bibliografia 126

Agradecimentos 128

Página do autor 130

8
Introdução

Em uma certa manhã, em um certo sábado, em um certo


ano, em certo lugar alguém estava completamente errado.
Necessitando de um socorro rápido, de uma salvação
urgente e eficaz. Esse alguém, o autor dessa obra, estava
completamente errado, mas nos lugares e ocasiões certas,
projetadas por um Deus certo. Essa é a descrição de um
jovem que necessitava de salvação. Os seus muitos pecados
o tornaram completamente errado, e nesse estado, o
jovem se sentia completamente insatisfeito, infeliz e
incompleto. O autor precisava de um salvador, de alguém
que lhe desse perdão, vida nova, que preenchesse seu vazio
por identidade, significado existencial e plenitude. Já estava
cansado de procurar tudo isso em lugares totalmente
pobres, em lugares que apenas ofereciam migalhas do
pecado. Felizmente, o jovem encontrou plenitude, na
verdade, de certa forma, a Plenitude o encontrou.

Na ocasião certa, naquela manhã de sábado enquanto


andava na garupa da bicicleta do meu pai, comecei a
escutar a música "Nada Além do sangue" do famoso cantor
gospel Fernandinho. A música certa, a hora certa, o lugar
9
certo e o momento certo para um jovem que estava
vivendo errado. Enquanto eu escutava aquela canção,
presenciei a Cruz em minha frente, vi nela o Cristo, e sobre
Ele os meus inúmeros pecados, todos eles agora estavam
sendo perdoados. Naquele momento, eu me senti amado,
aceito, completo, eu fui justificado. Daquele dia em diante
eu não seria mais um jovem sem identidade, mas alguém
completamente justificado pela fé, diante de Deus. E tudo
isso foi resultado do sangue, do sacrifício, do Cristo. Nada
Além de Cristo poderia fazer isso em mim.

Sete anos depois, estou escrevendo um livro sobre a


suficiência de Cristo e sua Obra. Passo os dias pensando em
qual seria o título certo. São várias alternativas (qualquer
escritor entende tal situação), mas parece que não consigo
encontrar um nome que defina o livro de uma forma
simples, e chame a atenção do leitor. O bom é que o Pai
sempre trabalha nos detalhes perfeitos. Em um dia estava
conversando com o meu amor, a minha namorada Jessica
Steffen, a respeito do livro e sobre qual poderia ser o seu
título. Ela me conhece de uma forma única e perfeita, sabe
da minha relação com a canção "Nada Além do Sangue". Na
ocasião, ela citou o nome da música. Eu logo pensei, "É
completamente isso!" Como eu posso agradecer a minha
amada por isso? O nosso relacionamento foi construído
sobre as verdades do amor de Deus. Isso é suficiente para
explicar ao leitor como o Pai tem liberdade para agir em
nós, e através de nós. Preciso destacar que esse livro mexeu
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e transformou a nós dois. O que temos é um constante
resultado do "Nada Além do Sangue", da suficiência de
Cristo.

"Nada Além do Sangue!" Quando li isso, quando o meu


amor disse isso, eu fui transportado para uma experiência
de contemplação da Cruz, da mesma forma que vivenciei
naquele dia quando recebi a salvação. Só que agora, eu
contemplava as minhas palavras descrevendo com
magnitude e exatidão a essência dAquele que estava sendo
crucificado. O livro Nada Além do Sangue é um tratado,
uma obra que explana e proclama a Obra da Cruz. São
quatros capítulos, inúmeras palavras que descrevem com
simplicidade e coesão a verdade da suficiência de Cristo.

Qualquer cristão defenderá com ênfase que Jesus é


suficiente, mas quando levamos essa afirmação as suas
implicações, percebemos que são poucos cristãos que
realmente aceitam e acreditam nessa verdade. A verdade
da suficiência de Jesus modifica e altera todas as nossas
crenças a respeito de Deus e de nossa relação com Ele.
Muitos cristãos, tendo opiniões que partem de princípios
religiosos e legalistas, sem perceberem, negam a
suficiência de Cristo. Quais são as implicações e
consequências da suficiência de Jesus? Esse livro procura
mostrar ao leitor que crer na suficiência de Jesus é algo
mais profundo e traz consequências mais grandes do que
estamos acostumados a pensar. Nada Além do Sangue é
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nada menos do que uma contemplação de Cristo e Sua
Obra. A mesma contemplação que tive no dia em que fui
salvo. Nada Além do Sangue é Nada Além de Cristo e sua
Obra consumada.

Por Eliezer Oliveira

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O Homem insuficiente
Capítulo 1

“A personalidade criada pelo homem só pode encontrar seu significado…


quando está imersa no Divino - Seu Espírito em nosso espírito; Sua mente,
vontade, Seus sentimentos expressos através dos poderes de nossa alma;
Suas ações através do nosso corpo. ... O eu humano é para sempre um
recipiente ... mas nunca aquele em si mesmo.”

- Norman Grubb

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Eu quero mais!

As crianças estavam agitadas na frente da sorveteria. A mãe


olhava para a placa com os preços e os sabores de sorvetes,
se perguntando quais comprar. A filha mais nova puxa a
saia da mãe e diz: “pega o grandão”. Quando a mãe entrega
todos os sorvetes a todas as crianças, a filha questiona:
“Não tem um maior? Queria mais!” Todas as crianças em
uníssono começam a dizer: “Quero mais, mais, mais.”
Quando estarão satisfeitas? Quando a barriga estiver
cheia? Até lá haja dinheiro e paciência para essa mãe (você
sabe, é sarcasmo).

Na frente da televisão, o vendedor diz: “Dessa vez o


produto está melhor, mais acessível, mais bonito, mais
barato, mais incrível”. A hamburgueria coloca em sua
propaganda, “esse Hambúrguer está ainda mais saboroso”.
A vendedora da loja diz: “Essa roupa está mais barata”.
Quando você desliga a TV e vai ao supermercado fazer
aquelas compras diárias e básicas se depara com um
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banner que diz, “esse achocolatado está ainda mais
delicioso.” Você só iria comprar um café e algumas maçãs,
mas sai de lá com um achocolatado “mais” delicioso.

Quando chega no trabalho o chefe está gritando:


“Precisamos vender mais, tirar mais, ganhar mais, fazer
mais”. No trabalho, a música que toca ao fundo diz: “Quero
mais de você para mim…”. É época de eleição e os
concorrentes gostam de afirmar: “Faremos muito mais,
vamos investir mais em saúde, educação e infraestrutura”.

Queremos mais, precisamos de mais, e temos mais.


Queremos mais sexo, mais prazer, mais alegria, mais
drogas, mais dinheiro, mais chocolate, mais carne, mais
desejos, mais sonhos realizados, mais e mais de tudo que
pode ter mais.

De certa forma o mais chama a nossa atenção. É uma


palavra que ecoa no profundo do nosso ser. Ela nos cativa,
nos prende. Somos abduzidos por qualquer coisa que
podemos ter a mais do que temos. É nossa necessidade,
nosso desejo, nosso anseio. O mais revela a nossa completa
insatisfação. Essa palavra revela que nossa barriga ainda
não está cheia, por isso corremos atrás de mais e mais
sorvetes para tentar solucionar esse vazio. O que estamos
procurando? Por que queremos mais e mais? A
profundidade do nosso desejo revela a profundidade do
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nosso vazio. Estamos famintos e o que estamos colocando
para dentro de nossas bocas são apenas meros aperitivos
que não saciam a nossa fome indomável.

Estamos desesperados e quanto mais procuramos, mais


mergulhamos no vazio de nosso ser. Assim, a cada dia
entendemos a profundidade de nossa miséria. Porque
comemos gorduras de "mais", adentramos em quadros
clínicos que ameaçam a nossa saúde. Depois de desejarmos
mais e mais prazeres e sexo, nossos relacionamentos são
destruídos pelo sufoco e pela traição. Quando
mergulhamos mais e mais nos desejos e prazeres para
tentar solucionar o vazio, nos encontramos destruídos,
abandonados, angustiados, aflitos e desesperados. É como
se a cada sorvete que ingerimos para matar a fome fosse
rejeitado pelo nosso vazio existencial. Não é de sorvetes
que precisamos, mas de algo tão profundo e imenso que
nosso dinheiro e esforços jamais irão comprar. Isso pode
ser desesperador.

Tudo é insuficiente?

O que o homem sente todo dia é uma sede insaciável, não


importa quantas bebidas ele beba, essa sede ainda grita em
seu ser: “Você está oco, você está vazio, seco como um
deserto”. A fome que sente é insuportável. O desejo que o
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homem tem é por uma satisfação que vá além de qualquer
coisa que já sentiu. É o desejo por algo indescritível, gigante
e avassalador. Percebemos essa busca constante em nossa
vida diária. Vivemos vidas infelizes e incompletas,
procuramos a todo custo acabar com isso por diversos
meios e formas, todas elas no fim, se mostram insuficientes
e incapazes de nos ajudar.

O sonho do homem é ter algo que o coloque na total


aceitação, no pleno significado de existência, em uma
formosa identidade. Ele deseja uma identidade, deseja
significado de vida, e é simplesmente a falta disso que o
torna e o leva a se sentir tão vazio.

A insatisfação, a falta de identidade e significado de vida do


homem leva-o a cometer toda forma de maldade e
dissolução, pois são essas ações que refletem o seu estado
de frustração. É dessa forma que se originam todas as
formas de maldade, e ações que contrariam o amor. O filho
sem identidade e significado de vida procura nas drogas
pequenas doses de alegria e prazer que gradualmente dão
a ele a identidade de um mero animal que vive, e sobrevive
para sentir prazer, e é nisso que ele coloca sua identidade:
Um mero ser criado para ser preso aos prazeres do
momento. A filha sem identidade e significado de vida
cresce buscando prazeres e amores humanos, ela acredita
que as paixões de homens e desejos carnais poderão
satisfazer seu anseio por identidade, assim ela passa a
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colocar a sua identidade nessas paixões. Tudo isso não é
culpa meramente dos pais, isto porque a falha dos pais é
uma amostra de que o homem, em si mesmo, não possui
identidade e significado de vida. Tanto o filho quanto a filha
cresceram assim porque esse é o estado do homem atual:
sem identidade e significado de vida. Da mesma forma, a
prostituta pensa que a sua identidade é a de escrava de seu
corpo e do uso dele para o dinheiro. O ladrão acredita que
a pobreza o condicionou a ser quem é, sua identidade,
segundo ele, reside na completa falta, ele rouba porque se
sente insatisfeito, e é nessa insatisfação que fundamenta a
sua identidade. O que ele é, segundo ele? Um mero ladrão
incompleto, insatisfeito. Tudo isso são representações
fidedignas da nossa total insatisfação por tudo o que existe.
Nada parece nos levar a verdadeira satisfação. Tudo aqui
embaixo é tão contingente e inútil para acabar com o nosso
vazio.

Tanto no filho que está nas drogas quanto no ladrão ou na


prostituta, existe um padrão de pensamento que os leva a
serem assim: acreditam que podem acabar com o vazio
através daquilo que é natural, através dos prazeres desse
mundo. Na nossa civilização e cultura somos orientados de
que o mundo é o visível e palpável. Não digo somente
aquilo que pode ser tocado, mas que pode ser
experimentado de certa forma por qualquer um dos
sentidos humanos. Quando me refiro ao material não estou
tratando apenas do dinheiro ou de objetos, estou me
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referindo ao mundo humano, ao mundo físico, a tudo o que
o nosso homem natural pode ter contato.

A vida, segundo a nossa percepção, não passa de matérias


e emoções. Tudo que está presente aqui está envolto em
algo natural e sentimental. A vida é o carro que comprei, o
amor que tenho por aquela garota, a passagem de avião, o
chocolate delicioso, a cerveja gelada, o sexo prazeroso, a
amizade duradora. Pensamos que a vida se resume a essas
matérias e coisas mentais. Não existe nada fora disso, e é
nisso que nossa filosofia se baseia. Ora, se tudo que existe
na vida e na existência humana está resumida ao mundo
material e mental, logo, o vazio precisa ser preenchido por
alguma dessas coisas, ou seja, a nossa identidade precisa
estar em algo natural. Vamos comer muito, ganhar muito,
gastar muito, ter muito prazer e tudo isso colocará um fim
no vazio que tanto nos assusta.

No entanto, esse pensamento idealista não possui


nenhuma verdade. Se fosse verdadeiro, Salomão seria o
homem mais completo e satisfeito com sua identidade que
já existiu. Ele tinha tudo, tinha tudo o que qualquer um em
sua época almejava e desejava. Ele tinha riquezas
incontáveis, tal riqueza que nunca houve homem como
Salomão, tinha paz com todos os povos ao seu redor
durante o seu reinado, possuía posição e posse que o
tornavam insuperável. Salomão tinha todos os “mais” que
o homem tanto anseia. Todavia, sua sabedoria, aquela que
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recebeu do próprio Deus, fez com que dissesse que: “Tudo
é vaidade! Nada faz sentido, tudo é em vão” (Eclesiastes
1:2). Salomão, em toda a sua glória, disse que tudo é
vaidade. Em todo o livro de Eclesiastes percebemos a
declaração de Salomão do estado do homem sem Deus,
nesse estado todos os prazeres, trabalhos e desejos
naturais são inúteis e insatisfatórios. Nada aqui pode
acabar com o vazio existencial do homem.
A cada dia o vazio se torna mais visível, a cada hora
sentimos e presenciamos mais, percebemos mais, e
vivemos mais dele. A dor que sentimos na traição, no luto,
na doença e no mal são apenas representações da nossa
dor maior: estamos vazios. Existe algo muito importante
faltando aqui, algo que nascemos para ter, e fomos criados
para expressar.

Vasos vazios

Para o que o homem foi criado? Precisamos saber qual é a


razão de Deus ter criado o homem. Isso nos dará respostas
sobre o seu vazio. Segundo o relato de Gênesis, Deus o
criou e disse que ele seria “a sua imagem e semelhança…”
(Gênesis 1:26-27). Deus fez o homem, a sua imagem e
semelhança. Isso fala de identidade, a nossa identidade e
imagem está baseada em quem? Deus. Foi Ele quem nos
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criou e o criador define a sua criação. Deus criou o homem
para derivar a sua identidade e imagem dEle. Portanto, o
homem só pode ter uma identidade em Deus.

Depois disso Deus dita as atividades e trabalhos que o


homem faria. Ele deveria “dominar sobre peixes, aves e
sobre todo gado, e sobre toda à terra, e sobre todo réptil…
frutifiquem… sujeitem… dominem” (28–30). Perceba,
primeiro Deus diz o que o homem é (a sua imagem e
semelhança), e depois diz o que ele deveria fazer (frutificar,
sujeitar, dominar). Ou seja, primeiro vem a identidade e
depois o comportamento. Isso é de suma importância. A
identidade vem muito antes de qualquer comportamento.
O “ser” vem antes do “fazer”. O homem em seu estado
atual, depois do pecado de Adão, procura ser através do
fazer. Todo o anseio e desejo humano é ter uma identidade,
é chegar ao ser, e para tentar obter isso ele procura
qualquer coisa terrena e contingente. O mais é a mera
tentativa humana de ser a partir do fazer.

Como vimos, Deus criou o homem para ser a sua imagem e


semelhança. Precisamos entender qual é a natureza do
homem, isto é, o que o homem é. Se os prazeres naturais e
coisas materiais não podem acabar com o vazio do homem,
como vimos antes, é porque ele não é, primeiramente, um
ser material e natural. Então o que ele é? Se o homem é a
imagem e semelhança de Deus, então é necessário saber

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de antemão o que Deus é, e somente assim saberemos o
que o homem é. O Evangelho de João nos dá essa resposta:

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o


adorem em espírito e em verdade.
- João 4:24

Deus é Espírito, portanto o homem sendo a sua imagem, é


um espírito. A identidade do homem reside em Deus (a sua
imagem e semelhança), e Deus é Espírito, ou seja, a
identidade do homem está no espírito. O homem é o que o
seu espírito é. Dessa forma entendemos o motivo do
homem não poder ter uma identidade a partir do mundo
natural, isso porque ele é um ser espiritual, criado para
derivar sua identidade somente do Espírito de Deus. Paulo
ilustra isso quando diz que: “O Espírito testifica com o nosso
espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:16). A
nossa filiação é espiritual, somos filhos de Deus no espírito,
ou seja, a nossa identidade de filhos está no nosso espírito.

Perceba que Deus criou o homem para desfrutar de um


relacionamento com Ele a partir do mundo espiritual. Ele
criou o homem para ter comunhão com ele, e a partir disso,
o homem agiria sobre o mundo natural ao seu redor. Isso
quebra a crença de que o homem foi criado somente para
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fazer algo para Deus. Ele não foi criado somente para
adorar a Deus, servir a Deus ou fazer algo para Ele. O
homem não foi criado por Deus para somente fazer algo
para Ele, mas para ser algo para Ele. O homem foi criado
para ser um filho, para ser amado, para ser uma fonte de
expressão do Seu amor. Deus criou o homem para ter
comunhão com Ele, comunhão de Pai e filho.

Adão tinha tudo a partir de sua identidade. Ele dominava e


sujeitava tudo porque sabia quem era: a imagem e
semelhança de Deus. No entanto, o homem pecou. Qual foi
o pecado do homem? Foi não crer em quem ele era em
Deus.

A serpente disse: “Coma desse fruto e você será como


Deus” (Gênesis 3:5). O homem já tinha tudo ao seu redor.
Já tinha o domínio e todo o poder que Deus o havia dado.
identidade do homem estava totalmente baseada em Deus
e ele tinha consciência disso como um fato. O homem já era
como Deus. A serpente mentiu dizendo que ele precisava
comer do fruto para receber sua identidade. Perceba, a
serpente estava dizendo a Adão que para ele ser algo, ele
precisava fazer algo.

Mencionamos anteriormente que o ser vem antes do fazer.


Deus disse quem Adão era e depois disse o que faria. A
serpente disse o que ele deveria fazer para ser. O pecado
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de Adão teve seu início em tentar fazer algo para ser
alguém, alguém que ele já era. Outro detalhe de extrema
importância é que Adão tentou adquirir uma identidade
espiritual a partir de algo meramente material e físico (fruto
proibido). Ele tentou em sua própria força conquistar algo
espiritual e que ele já tinha recebido.
O pecado de Adão fez com que ele perdesse a identidade
que já tinha em Deus, e esse panorama tomou proporções
ainda maiores. Hoje o homem tenta a todo custo retomar
a identidade e significado espiritual que possuía antes da
queda. Como ele faz isso? Exatamente como Adão tentou
fazer: através da sua força, através daquilo que é natural e
material. Através de meras obras humanas e ações sobre o
mundo natural.
O homem tenta preencher o vazio, tenta adquirir a sua
identidade, o seu significado de vida, através daquilo que
está no mundo natural. Aqui entra todos os mais que
mencionei anteriormente. Todos os sorvetes, bebidas,
prazeres sexuais, pecados de luxúria, orgulho, dinheiro e
riquezas financeiras, dissoluções, obras humanas e tudo
mais. Adão tentou usar algo natural para adquirir uma
realidade espiritual, e é isso que o homem tem feito ao
longo de todos esses anos depois da queda. Ele tem
tentado preencher o vazio de sua identidade através de
coisas naturais e totalmente passageiras. A tentativa
humana é, na verdade, tentar adquirir significado
existencial totalmente longe da verdadeira fonte: Deus. Ou
seja, o homem recorre ao mesmo erro que Adão cometeu,
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ao mesmo deslize que o trouxe até a esse estado de total
solidão e insatisfação. Que panorama diabólico e infeliz
esse que apresento! Infelizmente, é a nossa realidade atual.

O homem procura no mundo natural aquilo que está no


espiritual. Não vamos preencher o vazio com sorvetes e
elogios humanos. Jamais iremos acabar com o vazio
experimentando dos prazeres dessa vida. Não há nada no
natural que possa acabar com a insatisfação que habita em
nosso espírito humano. Somente o que é espiritual pode
preencher esse vazio. O que procuramos está além do
mundo natural, está além das descrições dos nossos olhos
e sentidos. Está além de qualquer coisa que
experimentamos nessa terra. Necessitamos de algo
extremamente gigante, incomparavelmente profundo e
eternamente indescritível. Necessitamos da Plenitude de
Deus. Somente Ele se encaixa nos nossos requisitos, no
nosso desejo, no nosso mais.

Deus criou o homem para possuir uma identidade nEle. Ele


foi criado para derivar sua identidade e significado somente
de Deus. “A nossa imagem e semelhança”. A humanidade
não pode criar ou autogerar identidade e significado
existencial. Por não conseguir isso, e devido ao pecado de
Adão, o estado atual do homem é de um completo e total
vazio, sem forma e substância dentro de si. Totalmente
sozinho em meio ao caos do pecado, ele não sabe para o
que existe e qual sua relação com o mundo.
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No homem não há nada que possa satisfazer sua sede e o
vazio por uma identidade. Por isso, ele procura algo fora e
tentar construir a partir do mundo material algo que possa
terminar com sua sede. Ao procurar algo fora de si mesmo,
na tentativa preencher o vazio, ele demostra que não
possui a plenitude em si mesmo, que precisa recorrer a algo
fora de si mesmo. Assim, esse algo se torna a fonte de
significado e respostas a identidade que o homem tanto
procura. Esse algo se torna um ídolo.

Ídolo de ossos

Se você folhear o Antigo Testamento irá perceber que o


pecado mais cometido pelos povos antigos e até mesmo
pelo povo de Israel era a idolatria. Durante todo o livro de
Juízes o povo de Israel era levado a adorar ídolos e se
afastar da fé em Deus. Os livros proféticos como Isaías e
Jeremias possuem inúmeras exortações de Deus aos
hebreus sobre a idolatria. O pecado de idolatria é descrito
durante todo o AT, e era o mais praticado. Desde o pecado
de Adão, o pecado que mais tomou a humanidade foi a
idolatria. Essa afirmação pode te causar espanto, mas irei
me dedicar a explicá-la.
O AT nos fornece informações sobre a idolatria e os ídolos.
Os ídolos eram fabricados pelo homem (Isaías 2:20), "obra
das mãos dos homens" (Salmos 115:4), eram criados e
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formados com ouro, prata, pedras e madeiras
(Deuteronômio 29:7). O povo de Israel sacrificou diversas
vezes a esses ídolos, os colocando como sua fonte de vida
e existência (Ezequiel 36:18; Levítico 26:1). O ídolo é visto
como uma fonte de identidade e plenitude. Ele é colocado
como tudo aquilo que o homem não é e contendo tudo
aquilo que o homem não tem.
A idolatria tira Deus do centro e da fonte de tudo o que o
homem precisa para sua identidade e coloca qualquer
outra coisa do mundo natural. Somente Deus deve ser essa
fonte. O homem foi criado para derivar de Deus aquilo que
ele não possui e aquilo que ele não é. Somente em Deus o
homem é realmente amado, somente em Deus o homem
possui identidade. Quando o homem tenta obter tudo isso
fora de Deus, ele está criando um ídolo, ele está cometendo
idolatria.
Aqui entra um aspecto importante sobre a idolatria dos
povos antigos, ela está baseada naquilo que é material e
natural. Os ídolos feitos pelos povos antigos eram
construções humanas de pedras, madeiras, ouro, etc. Isso
não te lembra algo? O pecado de Adão estava envolvido em
adquirir identidade e plenitude usando algo do âmbito
natural, e é exatamente isso que os povos antigos faziam.
Eles usavam os ídolos de pedra e ouro como fontes de vida
e existência. O homem sempre esteve nesse pecado
materialista e humanista completamente desprovido da
essência de Deus. Tudo isso devido ao pecado de Adão.

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O leitor pode me dizer que na atualidade isso não é tão
comum, mas é nesse ponto que passamos a entender que
o ídolo é mais que uma escultura física e palpável, mas um
espaço, um lugar, um objeto, uma característica ou
qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus em nosso
significado e identidade.
Geralmente o ídolo é algo agradável, bom e que precisa ser
apreciado. Ele pode ser a família, os amigos, a faculdade, a
aceitação das pessoas, a paixão, as virtudes e obras
humanas. Tudo isso possui um valor bom e agradável. No
entanto, podem se tornar ídolos. Quando o homem
procura obter das pessoas a fonte de sua existência e
significado, passa a desejar a todo custo a aceitação
humana, ele passa a viver para isso. Se não recebe isso, seu
mundo desaba e tem a sensação de que não possui mais
propósito de vida.
Deus é nossa fonte de aceitação. A Bíblia nos diz que nós
somos aceitos “no Amado” (Efésios 1:6). Nossa fonte de
aceitação está fundamentada em Jesus. Quando tiramos
Ele e colocamos alguma coisa nesse lugar passamos a criar
um ídolo, algo que nos dê a aceitação que tanto nosso
espírito almeja.

Humanismo em cada canto humano

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O homem vazio procura em tudo nessa terra algo que possa
acabar com sua insuficiência. Nesse processo de tentar
encontrar algo que acabe com toda a sua solidão, ele cria
uma adoração e idolatria a si mesmo. Porque acredita que
possui a capacidade de acabar com seu vazio através de
algo que ele faça, crie ou experimente, o homem se coloca
na posição de capaz, de autogerador da plenitude,
identidade e significado existencial.

Esse é o princípio que norteia a filosofia Humanista: o


homem possui a potencialidade para criar e produzir tudo
a partir de si mesmo. Com um discurso de poder e
autoridade, o humanismo coloca Deus na estante e diz que
o trabalho de adquirir plenitude e acabar com o vazio
humano é um serviço totalmente do homem. Na filosofia
humanista o homem é considerado a causa de seus
próprios efeitos, o meio para seus próprios fins e o mestre
de seu próprio destino. Ele é o autor de sua identidade e
significado de vida, o criador de sua própria salvação e o
gerador de sua plenitude.

Na segunda carta aos coríntios Paulo mostra que o homem


não possui capacidade em si mesmo para fazer isso, mas
que ele é apenas o recipiente da plenitude de Deus. “Somos
vasos de barro” que contém o tesouro que é Cristo (2
Coríntios 4:17).

29
Não fomos criados para autogerar, derivar ou realizar de
nós mesmos a nossa identidade e plenitude. Fomos criados
para derivar de Deus tudo e expressar dinamicamente o
caráter dEle através da receptividade a graça. Fomos
criados para sermos a expressão da essência de Deus.
Como disse o teólogo Norman Grubb, não somos um eu
independente:

“O eu nunca é um eu independente. Nunca foi um eu


auto operacional e, portanto, nunca operou
expressando sua própria natureza … não temos um eu
independente, mas expressamos Seu eterno Eu divino
… expressamos a natureza fixa de Deus” (1)

O homem foi criado para receber, para ser o vaso, o


recipiente, o filho amado e aceito, a expressão do amor de
Deus. Tudo isso é feito por Deus, o homem apenas recebe
e deixa Cristo ser tudo isso nele. Ele foi criado para ser o
filho amado, aquele que recebe o amor. Para ser aceito,
aquele que recebe a aceitação. Para ser o vaso, aquele que
recebe o tesouro. Qualquer tentativa do homem em tentar
se tornar ou gerar isso é ir contra o projeto de Deus para
ele. Fomos criados para recebermos de Deus tudo, criados
para derivar de Deus a plenitude, a identidade e o
30
significado existencial. Sozinhos somos completamente
insuficientes.

31
32
Religiosidade: Uma tentativa humana de
preencher o vazio
Capítulo 2

“...a revelação de Deus é a abolição da religião”


- Karl Barth

33
Cristocentrismo

O que é legalismo? O que é religiosidade? Preciso dizer que


ambos são sinônimos da mesma coisa. A grande parte dos
grupos cristãos (Me refiro aqui as variadas denominações,
credos e visões teológicas) definem legalismo como a
perspectiva de que a salvação é alcançada por meio das
obras e esforços humanos, através da obediência à Lei.
Dessa forma, o religioso é aquele que acredita que o
homem é salvo através da sua obediência a Deus, através
de suas obras.

A crença de que a salvação é por obras sempre foi alvo de


críticas ao longo da história da Igreja. Como se esquecer do
debate histórico entre Pelágio e Agostinho de Hipona?
Pelágio cria que o homem, em seu estado após a queda,
não era depravado, o pecado de Adão não havia o afetado,
por isso ele poderia se achegar a Deus livremente sem a
operação da graça de Deus. O homem, na opinião de
Pelágio, poderia ser salvo através de seu próprio mérito.
Agostinho atacou fortemente as crenças de Pelágio,
defendendo que a salvação é somente através da graça
porque o homem é completamente depravado, e assim não
pode se salvar. De forma semelhante, Martinho Lutero
enfrentou a opinião majoritária de sua época de que o
homem era justificado pelas obras de esforço próprio.
34
Lutero criticou a Igreja Romana, proclamando que essa
denegria a graça de Deus ao defender que o homem é salvo
pelo seu próprio trabalho.

A maior parte da Igreja tem esses dois eventos como


exemplos de legalismos, exemplos de opiniões contrárias a
salvação pela graça de Deus. Em nossa atualidade, o
legalismo é visto como um erro soteriológico (área da
teologia que estuda a respeito da salvação), ou seja, o
legalismo é uma visão distorcida a respeito do processo de
salvação. O religioso é aquele que possui uma visão
deficiente da salvação, pois acredita que ela é alcançada
pelas obras, e não pela graça.

Quando algum teólogo ou escritor decide se aventurar e ir


contra essa definição de legalismo, é automaticamente
colocado como um extremista. Se a religiosidade é a
perspectiva de que a salvação é alcançada pelo trabalho
humano, esticar essa definição além disso certamente se
configura um erro extremo. O legalismo, para a grande
parte dos cristãos, é colocar obras no processo de salvação,
mas não no processo de santificação. A salvação, para eles,
é de graça, mas a santificação é um trabalho árduo. Para
que possamos crescer em santidade, ter “as qualidades e
frutos do espirito”, são necessárias longas orações, muitas
35
leituras e jejuns, muitos esforços. Desse modo, aqueles que
defendem uma visão rígida de obras e esforços para o
crescimento cristão na santidade, não são denominados
legalistas. Se o legalismo é um mero erro na Soteriologia,
então aqueles que defendem que a salvarão é de graça,
mas que a santidade é uma meritocracia, não podem ser
definidos como legalistas. É isso que grande parte dos
círculos cristãos defende.

A questão que quero propor aqui, e me debruçar em


trabalha-la ao longo desse capitulo é: O legalismo é
realmente um mero erro Soteriológico? De antemão digo
ao leitor que, na verdade, o legalismo é primeiro, um erro
cristológico.

Paulo escreve a carta de gálatas com o objetivo de alertar


aos cristãos da (Galácia) sobre uma espécie de legalismo
que progressivamente estava dominando grande parte
desse território. Os gálatas haviam crido na mensagem de
que a salvação é recebida pela fé, mas aos poucos
começaram a crer que ela era mantida através da
obediência à Lei Mosaica, e que o crescimento cristão era
resultado dessa obediência (Gálatas 3:1). Portanto, os
gálatas estavam adquirindo uma perspectiva equivocada a
respeito da salvação, estavam errando na Soteriologia. No
36
entanto, Paulo ao enfrentar esse ensino, demonstra que
esse equívoco é mais fundo do que muitos pensam:

Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele


que vos chamou à graça de Cristo para outro
evangelho; … Há alguns que vos inquietam e querem
transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós
mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro
evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja
amaldiçoado.
Gálatas 1:6-8

A maneira incisiva de Paulo enfrentar tal ensino deixa mais


do que claro que não era um mero erro sobre a salvação.
Muitos cristãos concordam que o Evangelho não é somente
a salvação, ou seja, não se resume a Soteriologia. A
justificação pela fé é uma parte do Evangelho. Paulo declara
que os gálatas não estavam somente errando na
Soteriologia (na salvação), mas crendo em outro
Evangelho. Ou seja, estavam crendo de forma errada na
essência de tudo, e não apenas em uma parte específica,
como a salvação.
O que era o Evangelho na mente de Paulo? No versículo que
citei, Paulo diz que o Evangelho é o “Evangelho de Cristo”
37
(Gálatas 1:7). Na mente de Paulo, Evangelho é simples e
totalmente Cristo. Nos versículos de abertura de (1 Cor 15),
O Evangelho, o que é “de primeira importância”, é definido
em termos surpreendentemente cristológicos, Cristo é
enfatizado em cada versículo (vv. 1-8). Da mesma forma, na
carta aos romanos, Paulo descreve o Evangelho como o
Evangelho de Cristo (Romanos 1:16).

Os gálatas não estavam apenas distorcendo a verdade a


respeito da salvação pela fé, mas alterando as verdades do
Evangelho, a respeito de Cristo. Paulo, de forma direta,
questiona se eles se esqueceram da crucificação de Cristo,
da obra consumada (Gálatas 3:1). Além disso, Paulo declara
que se tentavam se justificar diante da Lei, Cristo havia se
tornado sem efeito para eles, se acreditavam que eram
justificados pelas obras, então caíram da graça (Gálatas
5:4). Quando os gálatas defendiam que poderiam manter
sua salvação através da obediência à Lei, mostravam que
estavam diminuindo a obra consumada de Cristo, e
consequentemente diminuindo o próprio Cristo.

É preciso lembrar que os gálatas não somente criam que a


salvação envolvia obras de esforço próprio, mas que o
processo de crescimento cristão, ou seja, a santidade,
também se dava por esforços humanos. A visão distorcida
dos gálatas a respeito da obra da cruz e de Cristo, fez com
que aderissem às perspectivas erradas sobre a salvação, e
o crescimento cristão. Perceba, a raiz de tudo estava na
38
visão deles sobre Cristo, na cristologia. Porque diminuíam a
suficiência de Cristo e sua Obra, acabavam crendo que seus
esforços eram a fonte de sua salvação, identidade e
crescimento cristão.

Quando alteramos ou diminuímos a suficiência de Cristo e


sua obra, a nossa visão sobre salvação, identidade e
crescimento cristão são completamente alterados. Dessa
forma se diminuímos a suficiência de jesus, passamos a crer
em salvação por obras e colocamos esforço humano no
crescimento cristão, e assim, nos tornamos legalistas.
Portanto, o legalismo não é apenas uma visão deficiente da
salvação, mas uma distorção completa da suficiência de
Jesus. Mas qual seria o oposto do legalismo, qual é a
antítese do legalismo? O cristocentrismo, o Evangelho. Só
cremos corretamente no Evangelho quando Cristo é a fonte
de tudo, da nossa salvação, identidade e crescimento
cristão. Apenas o cristocentrismo é o Evangelho, apenas
Cristo é o Evangelho.

39
João Batista diminuído

Eu tinha sete anos, estava sentado naquela cadeira ao


fundo da igreja enquanto o pregador dizia: “Que ele cresça
e você diminua” (citando João Batista). Logo depois
pronunciou frases com: “Você precisa dar mais a Deus,
precisa orar mais, se santificar mais, fazer mais coisas a
Ele”. Com meus sete anos, antes de entrar em uma igreja,
eu sabia que Deus era grande, que Ele era bom e era o
Papai. A partir dessa pregação eu não passei a diminuir e a
deixar Ele crescer, Ele diminuiu e eu cresci. Aumentou a
lista de coisas que eu tinha que fazer, o meu esforço e o
espaço do meu “eu” cresceu, e Deus agora não tinha tanto
espaço assim.

Existem muitos cristãos vivendo essa esquizofrenia cristã.


Por um lado, são exortados a “diminuírem”, enquanto, ao
mesmo tempo são orientados de que precisam fazer mais
e mais, e assim seu campo de atuação se estica. Se passam
a ser responsáveis pela criação de sua própria salvação,
identidade e plenitude não estão diminuindo, mas
crescendo.
João Batista viveu no deserto, comeu gafanhotos e mel
silvestre, tentou a todo custo ser um homem exemplar e
irrepreensível segundo a lei (Marcos 1:3-7; Lucas 3:1-20).
40
Ele é o exemplo de um homem que chega no limite de seu
esforço diante da lei. O ministério de João Batista esteve
focado em mostrar que temos que fazer muito, se esforçar
e tentar muito, não para conseguirmos alguma coisa, mas
para que pudéssemos aprender que mesmo diante do
esforço jamais conquistaremos o que somente uma Pessoa
pode conquistar.

Gafanhotos, mel silvestre, desertos e as muitas obras de


João Batista se esfacelaram quando viram Cristo. Quando
João viu Jesus, ele proclamou aquilo que nenhum de seus
esforços conseguiu lhe dar: "Eis o cordeiro de Deus que tira
o pecado do mundo” (João 1:29).

Só Jesus tira o pecado do mundo, incluindo o de João


Batista. É nesse momento que o ministério de João Batista
diminui, é quando Ele diz quem tira o pecado, aquele que é
digno, o filho de Deus, aquele que não somos dignos de
desatar suas sandálias, quando João Batista mostra que
somente Ele é a suficiência e a plenitude, seu ministério
diminui, e Jesus cresce.

O ministério de João Batista diminuiu não quando obteve


uma lista de regras a mais e conquistou mais méritos diante
de Deus, mas quando viu diante dele o perfeito Cordeiro de
Deus que é a própria suficiência. Quando João Batista viu o
Cristo, seu ministério acabou e ali Cristo cresceu.
41
Você quer diminuir? Quer desaparecer para que Ele
apareça? Então pare de crer na ilusão de que você é o autor
e gerador de sua própria identidade e significado
existencial. Seus esforços são inúteis para conquistar aquilo
que apenas Cristo pode. A essência de Deus é o que o
homem precisa e o homem não pode produzi-la em sua
própria força. Ele não foi criado para gerar isso.

Toda essa história de João Batista, gafanhotos e pregadores


confusos nos faz compreender algo extremamente triste:
existe algo de errado com a igreja.

A Igreja cristã vive em um panorama completamente


diferente do que a Bíblia apresenta. As pregações estão
distantes daquelas apresentadas pelos apóstolos. Em
nossos púlpitos estamos proclamando apenas as obras e
esforços humanos. Ouvimos apenas a respeito da
capacidade do homem de produzir salvação e identidade, e
somos exortados a praticar certas atividades cristãs para
conseguir tudo isso. O cristianismo está completamente
distante de Cristo.

42
Cristianismo sem Cristo

O que é o cristianismo? Para muitos é mais uma religião. É


apenas mais uma perspectiva sobre aquilo que é espiritual,
divino e imaterial. É misterioso e controverso. Dentro do tal
cristianismo existem inúmeras igrejas, credos e visões
teológicas. Então o que é cristianismo?

Por causa da variedade de Igrejas, pessoas e credos


diferentes dentro do cristianismo é difícil para muitos de
nós definirmos. Cristianismo é a igreja católica? Luterana?
Batista? Assembleia? Cristianismo é a mensagem que uma
igreja específica carrega? Um credo? Uma perspectiva
sobre o mundo imaterial e sobre Deus?
Todas essas questões identificam o cristianismo como uma
coisa, um ensinamento, uma visão, cristianismo é algo. É
algo dado ao homem para levá-lo até Deus. É um
ensinamento que contém o passo a passo de como chegar
aos céus, e esse ensinamento com certeza está contido na
Bíblia, o componente que contém o cristianismo. Assim,
quem é cristão? Aquele que anda nos ensinamentos do
cristianismo, aquele que possui esse algo, que possui o
passo a passo, seja ele qual for.
Dessa forma, vamos à igreja ouvir o cristianismo que será
anunciado através da Bíblia, e se obedecermos e seguirmos
cada ensinamento minuciosamente, então seremos
cristãos, seremos salvos. É tão simples, não é mesmo? É
43
disso que nosso ser anseia, é isso que preencherá nosso
vazio e nos levará a uma fonte de identidade e plenitude,
são os ensinamentos, o cristianismo. Não é disso que
precisamos?

Todavia, por que depois de tudo isso ainda nos sentimos


tão vazios? Por que quando chegamos no culto o sermão é
sobre “fazermos mais e mais para Deus, desejarmos mais e
mais dEle”. Não estamos completos? Não estamos plenos?
Se o ensinamento “Cristianismo” é o que nosso espírito
deseja por que ficamos insatisfeitos depois de ouvi-lo? Por
que o pregador se sente insatisfeito, vazio e angustiado?
Por que ele parece se sentir com medo, culpado e
condenado se possui tudo o que precisa? Quer dizer que o
cristianismo não é a verdade para o nosso vazio espiritual?
Na verdade, Ele é.
A cada culto queremos mais, fazer e trabalhar mais, e
quanto mais fazemos, mais nos sentimos insatisfeitos. Isso
não te lembra algo? Não te lembra dos sorvetes que
mencionei no primeiro capítulo? O homem tenta a todo
custa buscar uma identidade a partir do natural, e para isso
ele é até capaz de interpretar erroneamente aquilo que é
espiritual. A humanidade transformou o cristianismo em
uma religião — em um legalismo —, uma religião de uma
coisa, de ensinamentos. Ela transformou o cristianismo em
uma religião de deveres e obrigações. O cristianismo não se
trata de algo, mas de Alguém, não de um ensinamento, mas
de um Mestre, não de uma salvação dada através de
44
trabalhos do suor humano, mas de um Salvador que salva
unicamente pela Graça.

O fato é que por todo o lado em nosso planeta azul o


Evangelho foi transformado em qualquer coisa à parte
dAquele que é a plenitude para o homem. Ele se tornou
apenas uma forma humana de tentar se religar a Deus.

Religião é uma tentativa humana de preencher o vazio, de


se relacionar com Deus e adquirir plenitude.
O teólogo alemão Karl Barth disse:

“A religião é claramente vista como uma tentativa


humana de antecipar o que Deus em Sua revelação
deseja fazer e faz. É a tentativa de substituição da obra
divina por uma manufatura humana.” (2)

Robert Capon disse algo similar:

“Quero que você deixe de lado a noção da religião


cristã, porque é uma contradição em termos. Você não
aprenderá nada positivo sobre a religião do

45
cristianismo, e se você procurar Cristianismo na
religião, você nunca o encontrará. Para ter certeza, o
cristianismo usa as formas de religião e, para ser
honesto, muitos de seus seguidores agem como se
fosse uma religião; mas não é uma, e é isso. A igreja
não está no ramo da religião; ela está no negócio da
proclamação do evangelho. O evangelho é as boas
notícias de que todo o barulho e trabalhos de todo
homem sobre seu relacionamento com Deus é
desnecessário porque Deus, no mistério da Palavra que
é Jesus, foi e se consertou. Então deixe isso passar.” (3)

Religião envolve trabalhos e méritos humanos. A


religiosidade defende o princípio de que é o esforço
humano que gera salvação, identidade e plenitude.
Tiago diz que a religião pura e imaculada é: “visitar os órfãos
e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção
do mundo” (Tiago 1:27). Perceba, Cristo nem sequer é
mencionado. A religião está focada na ação humana e nas
virtudes, e comportamentos morais. O cristianismo é
Cristo; não é nada além de Cristo, é somente Cristo.
Infelizmente não é isso que muitos interpretam sobre ele.
Na política o cristianismo é conhecido como a religião da
moralidade, dos preceitos e valores que podem ser usados
como poder, na mundanidade ele é conhecido como a
religião da santidade que vomita regras, na faculdade o
cristianismo é definido como a religião da inquisição, da
punição e do medo, na juventude ele é visto como a religião
46
da insatisfação e ignorância, e no próprio meio cristão, ele
é visto como a religião dos princípios, da Lei, do dever moral
e espiritual. Apenas no céu e para poucos corações cristãos
aqui na terra que o cristianismo não é uma religião ou uma
moralidade, mas Cristo. Cristianismo é Cristo.

Fazendo um contra ponto a declaração de Tiago sobre


religião, veja algumas declarações de Paulo sobre o
Evangelho, o cristianismo:

Quero lembrar-lhes o evangelho que lhes preguei, o


qual vocês receberam e no qual estão firmes.
Pois, o que primeiramente lhes transmiti foi o que
recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras,
foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as
Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze.

1 Coríntios 15:1-5

Não me envergonho do evangelho, porque é o poder


de Deus para a salvação de todo aquele que crê:
primeiro do judeu, depois do grego.

47
Romanos 1:16

O Evangelho é totalmente Cristo, Ele é a salvação, o


Salvador, a ação e o agente. A religiosidade, como Tiago
menciona, está focada nas obras humanas, enquanto o
Evangelho coloca nossos olhos na Obra de Cristo. A religião
está preocupada com as virtudes morais e
comportamentos corretos, já o Evangelho coloca sua
atenção na salvação do homem por meio da Obra de Cristo.
Perceba que o religioso que vive uma religião pura é aquele
que anda nos comportamentos corretos, já no Evangelho a
pureza está em Cristo e em sua obra. A religiosidade é sobre
o homem tentar ser aceito e puro através de suas ações, o
Evangelho é o anúncio que somente o sangue de Jesus, e
não as nossas ações, nos purificam (Hebreus 10:10). O
Evangelho é Cristo.

Como vimos anteriormente, muitos acreditam que o


cristianismo é mais um conjunto de ensinos sobre a vida
espiritual e sobre Deus. Para eles, o Evangelho é uma
religião de ensinamentos práticos e crenças sobre Deus.
Portanto, o cristão é aquele que acredita nesses conjuntos
e cumpre cada um ou a maioria desses ensinamentos.

48
Na carta aos colossenses Paulo se posiciona contra heresias
que estavam influenciando a Igreja de Colosso e afastando-
a do simples Evangelho. Essas heresias tentavam tirar Cristo
como fonte de plenitude e salvação da igreja de colosso.
Elas diminuíam Cristo e colocavam “coisas” e ensinamentos
em seu lugar.

Em cada capítulo de colossenses Paulo tece críticas a essas


heresias e em todas essas críticas ele centraliza Cristo como
o centro do Evangelho e da suficiência para o homem. Os
hereges religiosos de colosso diziam que o espírito humano
era salvo quando esse recebia um conhecimento oculto e
“secreto”. Paulo responde a isso dizendo que: “o mistério
que esteve oculto durante épocas e gerações, mas que
agora foi manifestado a seus santos. A ele quis Deus dar a
conhecer entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério,
que é Cristo em vocês, a esperança da glória.” (Colossenses
1:26-27). O conhecimento secreto é que Cristo vive em
mim e que isso é a esperança de minha salvação. Cristão
não é aquele que possui um conjunto de ensinamentos ou
conhecimentos secretos, mas aquele que possui a Vida de
Cristo, aquele que está identificado com o Cristo em você.

Os religiosos de colosso acreditavam que o homem era


pleno e completo através de práticas místicas e esforços
humanos, Paulo é rápido e objetivo em mostrar que
“estamos completos nEle” (2:10) e que nenhuma prática
mística ou de esforço humano pode nos trazer plenitude
49
(2:16-23), somente Cristo. Aquilo que é material e natural
não pode produzir suficiência, salvação e identidade,
apenas Cristo é o que precisamos. Cristo é nossa
identidade, Cristo é nossa plenitude, Cristo é o cristianismo.

Evangelho de elementos

Eu amo uma torta de bolachas. O que não pode faltar na


torta de bolachas? A Bolacha, com certeza. É o ingrediente
especial e mais importante desse delicioso prato. No
entanto, existem outros ingredientes, não é mesmo?
Creme, leite condensado, e outras coisas. Todos são
extremamente importantes. Para formar a torta é
necessário misturar e usar todos os ingredientes. Ainda que
o nome seja torta de bolacha, nós sabemos que não se faz
uma torta de bolachas apenas com as bolachas! Precisamos
de vários ingredientes e alimentos que irão compor a torta
de bolacha e nos darão vontade de comer umas dez vezes.

Para muitos de nossos irmãos o Evangelho é como uma


torta de bolacha, possui diversos ingredientes. O Evangelho
tem Cristo? Sim, com certeza! Ele é o principal! Aquele pelo
50
qual todos os outros ingredientes estão sendo usados. Mas
não é só Ele, temos outros ingredientes e somente na
junção do todo que podemos ter o Evangelho. O Evangelho
não é somente Cristo sozinho e solto, mas sim Cristo e mais
vários elementos. Esses elementos com Cristo formam o
Evangelho. Cristo é apenas um dos elementos e não o todo.

A pergunta que podemos fazer é: O que é ser evangélico?


Os que acreditam no “Evangelho de Elementos” irão dizer
que é crer em Jesus, jejuar, orar, ler a Bíblia, ir à Igreja,
obedecer aos mandamentos, seguir uma lista de regras
sociais e mais alguns acréscimos. Para eles o Evangelho é
todo o conjunto de Jesus mais diversas obras e trabalhos
humanos. Assim, temos nossa torta do Evangelho.

Esses elementos são denominados de práticas cristãs. Para


esses irmãos, cristão é aquele que segue um conjunto de
regras e trabalhos humanos, que pratica todos os
elementos. O Evangelho de Elementos defende que você é
salvo, completo e santo quando realiza e anda em cada um
desses elementos. O jejum e a oração servem para te tornar
mais justo, santo e te “trazer mais de Jesus”. A bolacha é
Jesus, mas os demais ingredientes são as nossas ações e
obras, e quando juntamos tudo, advinha? Temos a torta, o
Evangelho. É o Evangelho de Elementos que diz: “o
Evangelho rasga, o Evangelho é duro, ele exige renúncia,
esforço e obediência”. Essas são frases que vem nas
embalagens da “torta” do Evangelho de Elementos. A
51
mistura das nossas ações “mais” Jesus com certeza tornaria
a torta doce em um prato amargo e completamente
repugnante.

O Evangelho de Elementos diminui Cristo a um mero


ingrediente da torta. Na verdade, Jesus é a torta inteira.
Jesus é o pão (João 6:35) e não apenas um dos ingredientes
que formam o pão. Nosso espírito anseia pelo pão, pela
plenitude, e se diminuímos Cristo a um mero ingrediente
do pão então teremos que ter mais elementos para
satisfazer nossa fome. É aqui que percebemos a ideia
principal da religiosidade: ela diminui Cristo e acrescenta
junto a Ele o trabalho humano.

O vazio existencial do homem é uma fome, e somente


Cristo pode satisfazê-lo. Ele é o pão vivo que desceu do céu.
Jesus disse: "Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim
não terá fome” (João 6:35). A afirmação “não terá fome”
demostra a completa suficiência de Jesus para acabar com
o vazio humano. Quando vamos a Ele, comemos o pão e
assim não temos mais fome. Cristo é o nosso pão completo,
a nossa torta, e só precisamos Dele para estarmos fartos.
Todavia, a religiosidade diminui Jesus a um mero
ingrediente, ela aniquila sua suficiência e acrescenta o
trabalho humano, formando um prato completamente
estranho. Ou seja, Jesus deixa de ser suficiente e agora
passamos a recorrer a obras humanas de jejum e oração
para adquirir mais de Cristo, mais do pão, a torta completa.
52
Nos tornamos como as crianças pedindo sorvetes. Ainda
estamos com fome, e estamos com fome porque não
sabemos que já ingerimos a plenitude de Cristo.

Transformamos o jejum, a oração, a leitura da Bíblia, o


congregar e as demais atividades em formas de conquistar
um pouco mais de Jesus, de se encher do Espirito, ou de se
tornar mais santo. Enquanto isso a Bíblia proclama que
toda a torta, toda a plenitude reside em Cristo e que em um
simples ato de fé o recebemos completamente
(Colossenses 2:10). Ele é santo, completo e perfeito, e se o
recebemos então nos tornamos totalmente santos,
completos e perfeitos.

O único elemento da Vida Cristã é o próprio Cristo, Ele é o


nosso pão, Ele satisfaz completamente a nossa fome, e de
uma vez por todas. Somente Ele é suficiente. Jesus inteiro
é o que o homem vazio necessita.

53
Um Cristo despedaçado

No início da minha vida como cristão eu desejava a todo


custo estar cheio de Jesus. Havia dias que me sentia assim,
e dias que me sentia vazio, em falta. Minhas leituras diárias
consistiam em ler diversos livros da Bíblia. Minhas orações
aumentavam a cada dia o seu tempo de duração, chegando
até duas horas. Meus momentos de meditação tomavam
espaço das demais atividades de lazer, escola e trabalho. Eu
queria me sentir cheio de Deus todos os dias, eu queria ser
justo e para isso precisava me policiar e viver uma vida
dedicada ao Senhor. Qual cristão não quis isso? Eu queria a
todo custo, e fazia de tudo.

Meu coração ansioso e sedento me tornou maleável, me


tornou sensível a qualquer movimento espiritual que me
desse a promessa de que eu receberia poder, virtude,
santidade e plenitude. Assim, me tornei dependente de
sensações emocionalistas e profecias espirituais, minha
vida se tornou uma busca pelo preenchimento do espirito.
Estacionei na crença de que precisava estar em constante
poder espiritual, recebendo “mais de Cristo” a cada dia.
Porém, a cada movimento, profecia, sensação e esforço eu
me senti mais vazio. Era como se nada fosse suficiente para
me tornar justo, completo e perfeito. Deus sempre estava
insatisfeito com as minhas obras e ações. Eu sempre estava
em falta e em dívida com Ele.

54
Quando eu não tinha paciência, orava pedindo, “a paciência
de Jesus”. Quando sentia que me faltava pureza, eu lia a
Bíblia pensando que através dela eu iria adquirir mais
pureza de Cristo. Os elementos da vida cristã eram formas
de adquirir mais de Cristo. Ou seja, eu não tinha tudo de
Cristo em mim, havia pedaços Dele, como a sua paciência e
pureza, que eu precisava adquirir. A religiosidade me
ensinou que Cristo não estava completamente em mim,
mas por algum motivo Ele exigia tudo de mim a Ele.

De fato, isso é uma meia verdade. Só posso me doar


completamente a Ele quando o possuo completamente.
Somente quando o possuo completamente que posso Ser
Dele completamente. É nesse momento que sou como Ele
é, justamente porque o que há em mim, é somente Ele. Não
posso ser outra coisa porque a única coisa que tenho é o
Cristo completo. É isso que a religiosidade quer, mas é isso
que ela é incapaz de fazer. É isso que o esforço humano é
incapaz de fazer.

Aqui que está todo o problema: O religioso não se sente


completo porque prega um Cristo incompleto, um Cristo
que se dá pela metade e que o recebemos em parte.

Paulo compreendia perfeitamente tudo isso. Ele disse:

55
Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem
vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no
corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e
se entregou por mim.
Gálatas 2:20

“Cristo vive em mim… Já não sou eu quem vive”. Cristo só


pode viver completamente quando o homem não vive
completamente. A afirmação de Paulo nos ensina que, ou
Cristo vive, ou Ele não vive em mim. Ou seja, Ele não vem
em pedaços, ou Ele está em mim, ou não está. “Cristo em
vós” ilustra isso da mesma forma. Quando Deus se doou,
Ele se doou completamente ao homem, e quando Ele
habita no homem, Ele habita completamente. Paulo ainda
diz a “vida que agora vivo”, ou seja, o que ele é agora é
totalmente o que Cristo é. A vida de Cristo estava em Paulo,
ou seja, tudo de Cristo, e não pedaços Dele. Paulo recebeu
o Cristo completo, e não despedaçado, e assim Paulo se
tornou completo, pleno.

O desejo de querer mais e mais de Cristo é uma forma de


dividir Cristo. Estamos desejando mais partes de Cristo, sua
humildade, pureza, poder, virtude e toda a sua essência.
Acreditamos que não o possuímos totalmente, por isso
ainda desejamos tudo o que Ele é. Enquanto isso, a Bíblia

56
nos diz que já o recebemos completamente (Gálatas 2:20),
já temos tudo o que Ele é.

Na carta aos colossenses Paulo diz que em Jesus: “habita


corporalmente toda plenitude da divindade” (Colossenses
2:9), tudo o que Deus é, habita em Jesus. Jesus é Deus
completamente. Tudo de Deus está em Jesus. Jesus é
composto de todo o caráter de Deus. Paulo vai um passo
além ao afirmar que “estamos nEle” (2:10), estamos em
Jesus. Ele diz que Jesus é completo, possuindo tudo de
Deus, e que porque estamos Nele possuímos tudo de Deus,
estamos completos. Não temos uma parte de Jesus, se
estamos nEle, estamos completos, temos tudo de Cristo.
Ainda em colossenses Paulo diz:

Portanto, assim como vocês receberam a Cristo Jesus, o


Senhor, assim andai nele
Colossenses 2:6

Perceba que Paulo não pede para os colossenses ansiarem


mais de Cristo, isto porque eles já “o receberam”. Agora,
não precisamos buscar mais de Cristo, mas andar Nele. Não
devemos nos “encher mais” porque temos o Cristo
completo. Agora, devemos viver nEle, expressar tudo dEle
que já está completamente aqui.

57
Portanto, não deveríamos estar buscando mais de Cristo,
mas expressando mais de Cristo. A igreja recorre a
movimentos emocionalistas, avivamentos e estratégias
superficiais porque se sente insatisfeita, incompleta,
desejando mais de Jesus, e isso é terrível. Devido à
insatisfação, inúmeros cristãos desejam mais e mais de
Deus e não expressam nada de Deus para o mundo. Como
mostrarão Cristo se não creem que o receberam
completamente? Como expressarão Cristo se se sentem
insatisfeitos e vazios dEle?
Cristo não está quebrado, Ele é completo e nós recebemos
essa completude. Estamos inteiros porque o inteiro Cristo
está em nós.

58
Jesus é suficiente
Capítulo 3

“A vida cristã começa com graça, deve continuar com graça,


terminar com graça. Graça, graça maravilhosa!”
- Martyn Lloyd Jones

59
O Cristo Completo

Se Cristo não vem em pedaços, mas o recebemos


completamente, então recebemos o Cristo completo. É
óbvio que tal descrição é um tanto quanto estranha. Cristo
é completo, mas é necessário usar essa definição para
entendermos que a religiosidade desmonta Cristo em
várias partes. Ao contrário do legalismo, o Evangelho
anuncia um Cristo que é recebido totalmente, com todo o
seu Ser e essência. Quando o recebemos, recebemos tudo
o que Ele é. Mas a questão é: se Cristo é completo e o
recebemos completamente, Ele é completo e cheio do
que?

Sempre que vou tomar um milkshake gosto de pegar o


sabor chocolate.
- Quero um milkshake tamanho médio!
- Qual sabor senhor?
- Chocolate!
- Quer mais algum sabor junto?

60
- Não, somente chocolate!
Milkshake de chocolate é cheio de? Advinha...chocolate!
Isso é tão simples, não é? No entanto, quando levamos essa
matemática para a nossa compreensão a respeito da
natureza e completude de Cristo, modificamos os valores
somados e os elementos calculados.
Cristo é completo de quê? Ele é completo dEle mesmo. Isso
não é óbvio? Não tanto quando parece. A questão se torna
mais clara quando fazemos o seguinte questionamento:
Deus é cheio do quê? A resposta costuma ser bem extensa,
descrevendo as diversas qualidades e os atributos de Deus:
amor, paz, longanimidade, paciência, justiça, bondade,
fidelidade, pureza etc. A perspectiva dessa resposta parte
do princípio de que Deus é completo de atributos e
qualidades, e que se queremos saber do que Ele é formado,
devemos verificar essas diversas qualidades.
Perguntaram ao apóstolo João, Jesus é cheio e completo de
quê? e João respondeu:

"E o verbo se fez carne e habitou entre nós...cheio de


graça e verdade (...) E todos nós recebemos também
de sua plenitude, graça sobre graça"
- João 1:14,16

"Cheio de graça e verdade". O que isso significa?


"Recebemos a sua plenitude (todo o seu ser)". Qual é a
plenitude de Cristo, do que Ele é formado? De "graça sobre
61
graça". A plenitude de Cristo, o conteúdo pelo qual Ele é
formado é a Graça. Agora voltamos ao milkshake de
chocolate; Ele é formado do quê? Do que ele é, de
chocolate. Cristo é formado do quê? Do que Ele é, Graça
sobre Graça. Logo, Graça é o quê? O próprio Cristo.

A Graça é uma Pessoa

Jesus é a Graça? Nos ensinaram, em alguns círculos, grupos


cristãos e escolas dominicais que a Graça é um dos aspectos
de Deus, um de seus atributos essenciais e mais
importantes, uma das partes de seu caráter, a parte
benevolente e compassiva. A Graça seria uma expressão da
bondade de Deus. A pergunta que faço aqui é: a Graça
sempre foi revelada? O AT expressa a bondade de Deus,
portanto a "Graça" sempre foi demonstrada e expressada
completamente?
Outro grupo, descreveu a graça como um elemento, uma
energia pela qual somos divinizados e capacitados a realizar
a mecânica da santidade prática (Catolicismo Romano). A
graça, segundo esse grupo, é adquirida por meio de
sacramentos e torna o receptor capaz de agir em santidade.
Nesse aspecto, a graça está associada ao mover do Espírito
Santo.

62
A Graça seria um dos poderes realizados pelo Espírito,
associado completamente a atividade dEle no homem, e
essa atividade só era recebida mediante aos sacramentos
realizados pelo mesmo. Devido a esse grupo identificar o
Espírito Santo como uma energia, é fácil compreender
porque tal perspectiva fez uma união entre graça e Espírito.
Nesse panorama, a graça possui um custo dispendioso para
aqueles que querem ser santos. Outro ponto é o caráter da
graça na visão católica. Ela é um poder ativo com vontade
própria, capaz de guiar o receptor as ações corretas? Se
sim, então ela assume caráter pessoal. Dessa forma, como
pode ser definida como uma mera força?

O protestantismo, por sua vez, levantou sérias críticas ao


conceito de graça apresentado pelo catolicismo romano.
Os protestantes ao defenderem que a Graça não é um
poder capacitador recebido através da realização de
sacramentos, mas uma obra salvadora de Deus realizada no
evento da fé em Cristo, definiram uma completa distinção
entre justificação e santificação. A Graça, segundo eles,
está associada ao evento da salvação (justificação), ela não
é um meio ou um instrumento capacitador de boas obras
para a justificação. O catolicismo defendia que a Graça
recebida pelo homem o manteria em santidade, e assim ele
seria salvo. O protestantismo defendeu que a graça era a
obra salvadora de Deus realizada pela fé em Jesus, e que a
santificação não era um evento, mas um processo, algo
distinto e subsequente a salvação, realizado não pela graça,
63
mas sim pela ação e colaboração do homem com o Espírito
Santo. A questão que posso propor ao protestantismo é: a
graça está contida em um evento? Então a santificação é
um processo onde a Graça não possui qualquer papel? Se
ela possui, então a Graça deixa de ser um evento e passa a
ser ativa, e sendo ativa, não recebe caráter de
pessoalidade, deixando de ser uma mera obra?
A questão católica e protestante será abordada mais
explicitamente nas próximas partes desse capítulo. É
necessário dizer que existem conceitos corretos de ambos
os lados desse debate histórico.

A primeira perspectiva a respeito da graça apresentada


aqui, é a visão de que a graça não é Cristo, mas mais um de
seus atributos. Nessa perspectiva, a graça não é Jesus
porque ele está "cheio de graça" (João 1:14), ou seja, a
graça é algo que Ele possui, assim como outros diversos
atributos.
Isso está errado por três motivos:

1) Jesus possuir graça não o torna apenas um mero


recipiente dela. Ele é composto do que Ele é. O que Ele
tem, em cada parte de seu ser é graça e isso o torna
em essência, graça. Cristo é cheio da essência do ser
de Deus, cada parte do seu ser está cheio da essência
de Deus. Isso o torna Deus.

64
2) João 1:16 diz: "e todos nós recebemos também
de sua plenitude, graça sobre graça". Agora vejamos
o que Paulo diz:

"Porque nele (em Jesus) habita corporalmente toda a


plenitude da divindade" - Colossenses 2:9

Toda a plenitude da divindade (Deus) habita em Jesus.


João disse qual é essa plenitude: "graça sobre graça".
A plenitude é tudo o que Deus é, e nós recebemos essa
plenitude; essa plenitude é a graça.

3) João 1:17 diz "porque a lei foi dada por meio de


Moisés, mas graça e verdade vieram por meio de Jesus
Cristo."
A graça "veio" através de Jesus, ela apareceu através
dEle. Ou seja, antes ela não havia aparecido a nós.
Agora veja o verso (18):

"Deus não foi visto por ninguém, o filho unigênito, que


está no seio do Pai, esse o revelou"

Jesus apareceu e revelou o que de fato Deus é. A graça


apareceu, surgiu em Jesus, antes ninguém a conhecia.
Ligou os pontos? Graça = Jesus = Deus.

65
O entendimento de que a Graça é uma das qualidades do
ser de Deus levará a ideia de que ela é mais um ensino na
grade teológica de qualquer seminário cristão. A graça é
apenas um aspecto de Deus, juntamente com ela temos
misericórdia, justiça ou a pureza. Nesse ponto a graça
perde seu caráter pessoal e passa a ser um mero ensino
dentro da caixa de temas teológicos.
Paulo enfrentou, como demonstramos no capítulo 2,
quaisquer ensinamentos que destruíam as características
pessoais da graça, que rebaixavam Cristo de sua suficiência.
Na carta a Tito, ele escreve:

"Porque a Graça de Deus, que trouxe salvação,


manifestou-se a todos os homens, ensinando-nos que,
renunciemos à impiedade e as concupiscências
mundanas, vivíamos de maneira justa..." (Tito 2:11-12)

1) A Graça "se manifestou". Quem se manifestou? Jesus,


Ele se manifestou, apareceu. Isso demonstra que a Graça
não é uma das qualidades de Deus, pois todas as suas
qualidades foram reveladas em todo o AT. A graça, no
entanto, se manifestou apenas agora, na Pessoa de Jesus
Cristo. A manifestação é um componente da Pessoalidade.
2) "Ensinando-nos". A graça não é um ensinamento ou mais
um dos ensinos da grade teológica, a graça é o ensinador (é
ela quem ensina). Paulo ao confrontar qualquer
66
comportamento contrário a nova criatura destaca: “mas
vós não aprendestes assim de Cristo” (Efésios 4:20). A
Graça, o Cristo, é o mestre, aquele que nos ensina como
viver a realidade de quem somos. Esse é mais um dos
aspectos que comprovam a pessoalidade da Graça. Ela é
uma Pessoa, a Pessoa de Cristo.

O leitor pode me questionar: "mas e a verdade? João não


diz que Jesus era cheio de graça e verdade (João 1:17)?"

Jesus é a verdade (João 14:6-7). E Jesus é quem? A graça. A


verdade em (João 1:17) é a verdade sobre Deus. O versículo
(18) diz:

"Deus nunca foi visto por ninguém. O filho unigênito,


que está no seio do Pai, esse o revelou"

Através de Jesus, Deus revelou a verdade sobre quem Ele é.


O filho carrega o testemunho da verdade sobre o Pai (1
João 5:10). A verdade é a verdade sobre Deus, aquela à qual
não foi revelada antes, mas que o filho, sendo a expressão
exata do ser de Deus revelou (Hebreus 1:3).

67
A Graça não é estática

Definir graça somente como um "presente", é defini-la


como algo estático. O "favor imerecido de Deus" ainda
sofre a mesma tendência, ainda que menos abstrata.
A conceituação de graça como um elemento, poder
capacitador ou uma coisa, é uma tentativa de desfazer o
caráter pessoal da Graça. A perspectiva de que a Graça é
um poder infundido no homem, capacitando-o para andar
em boas obras é uma visão limitante sobre a natureza da
insuficiência do homem. Segundo essa concepção, a
necessidade do homem é tão pequena que um mero
elemento de Deus, que ele dá a parte de si mesmo, é
suficiente para o homem. Porém, mais do que uma visão
limitada sobre a insuficiência do homem, definir Graça
como um poder capacitador é separar a Graça da atividade
de Deus, tornando-a algo à parte da sua essência.
A graça não é uma entidade separada ou uma benção
espiritual que pode ser dispensada por Deus. Ela não é algo
mecânico e separado de Deus. A Graça é pessoal, é
indivisível do próprio Deus e nunca deve ser separada de
seu próprio ser.

68
A graça é essencial para a humanidade, pois é a
"interpenetração da essência" (4) de Deus na humanidade.
Karl Barth, teólogo suíço do século XX, destacou novamente
as realidades pessoais, essenciais e cristocêntricas da graça
de Deus, talvez mais do que qualquer outro:

“O próprio Deus faz de si mesmo o presente,


oferecendo-se em comunhão com o outro e, assim,
mostrando-se em relação ao outro como Aquele que
ama ... “

"... a graça não é meramente um presente de Deus que


Ele pode dar ou não dar, ou um atributo que pode ser
imputado a Ele ou que não é imputado. Não, a graça é
a própria essência do ser de Deus. ... O próprio Deus
está nela. Ele revela Sua própria essência nesta
corrente de graça ... nesta ação, Ele não interpõe nada
menos que Ele próprio para nós ... ... Nesta ação, Ele
se manifesta em toda a sua majestade ... Se
encontramos, reconhecemos e recebemos Sua graça,
encontramos e reconhecemos e recebemos nada
menos e nada além de Si mesmo." (5)

69
A concepção católica sobre a graça é errônea desde a raiz
de seu pensamento. Esse grupo associa graça ao "poder do
Espírito Santo". Essa visão distorcida e equivocada sobre a
Graça é o resultado de uma compreensão defeituosa sobre
a Trindade. A Graça está associada a Trindade, mas é
apenas compreendida plenamente na Pessoa de Jesus
Cristo. Não deve ser negado as características pneumáticas
(do Espírito) da Graça, mas é preciso entender que ela está
associada totalmente e é compreendida unicamente na
Pessoa de Jesus. Separar a graça de Cristo levará a um
entendimento distorcido dela. Ela perderá seu caráter
pessoal.
O desapego da graça de Cristo e sua obra levou a inúmeros
equívocos a respeito da natureza de Deus, da Graça. Paulo
ao falar da graça sempre elimina completamente esse
desapego. Ele destaca que somos salvos pela graça de
Cristo (Atos 15:11), e que ela foi dada em Jesus (1 Coríntios
1:4).

O escritor Dane Ortlund observa isso:

“... puramente falando, não existe ‘coisa’ como graça.


Essa é a teologia católica romana, na qual a graça é
um tipo de tesouro acumulado que pode ser acessado
por vários meios cuidadosamente controlados. Mas a
graça de Deus chega até nós nem mais nem menos que

70
Jesus Cristo vem até nós. No evangelho bíblico, não nos
é dado nada; nos é dada uma pessoa.” (6)

A graça está também associada ao Espírito Santo, mas


devido a compreensão errônea a respeito da atividade do
Espírito Santo, a igreja criou uma visão onde a graça está
separada de Cristo e sua Obra. O Espírito Santo é o Espírito
de Cristo (Romanos 8:9). A separação de Cristo e do Espírito
cria uma teologia Trinitária deficiente e leva a um
entendimento distorcido da graça.
Da mesma forma, se a graça é um poder que possui o
desejo, e cumpre esse desejo ao levar o homem a praticar
boas obras, então a graça é um poder pessoal e com
vontade própria, ou seja, uma pessoa. A tentativa romana
de afastar a graça da pessoalidade de Jesus chega ao
término quando percebemos que as características da
"graça capacitadora" levam a conclusão de que na
verdade, ela é O Capacitador.
Quando se trata de crer que a graça é ativa e dinâmica, o
catolicismo romano não está longe da verdade. De fato, a
graça não é um objeto estático ou uma obra estacionada
no evento da justificação (como defendem os
protestantes). Ela é ativa e dinâmica no homem.
Os protestantes defenderam que a graça é a obra de Deus
realizada para justificação através da fé em Jesus Cristo.
Novamente, definir graça como uma "obra" é desunificar a
Graça da Pessoa de Jesus. Os protestantes se espalharam
71
em perspectivas diferentes a respeito do papel da graça na
santificação. Não existe, da parte deles, uma negação
explícita da importância da graça na prática da santidade.
Todavia, a perspectiva protestante sobre a santificação é de
que essa é um processo realizado entre a cooperação entre
o homem e o Espírito Santo.
O equívoco protestante a respeito da graça começa em sua
visão a respeito da justificação. Para eles, a
justificação/salvação é um evento realizado pela obra da
Graça. Devido a justificação ser um evento, a graça é uma
obra de um evento no passado, completamente estática.
Paulo mostra que a salvação não é um evento, mas um
estado de ser:

"Porque pela graça somos salvos..." Efésios 2:8

Paulo não diz que fomos salvos, mas que somos salvos. Nós
não dizemos constantemente, acreditando ou não, que
somos "salvos"? Isso denota constância, estado de ser e
não um evento realizado no passado.
Agora, perceba que ao identificar o estado de ser de seus
leitores (salvos) Paulo associa esse estado a Graça. Se o
estado de ser é constante, então o causador desse estado
também é. Se a salvação é algo constante, a graça também
é. Ou seja, ela não é uma mera obra estacionada em um
evento no passado, mas algo que toma proporções tão
gigantes que é responsável pelo estado constante de ser
72
dos cristãos. O recebimento da graça, é algo que aconteceu
em um momento específico, mas sua ação não está ligada
a esse momento e somente a ele, mas a toda vivência e vida
cristã.
Devido à perspectiva imprecisa do protestantismo a
respeito da graça ser uma obra de um evento, fica fácil
compreender porque construíram uma perspectiva tão
distorcida sobre a santificação. Para eles a santificação é
um processo gradual e gradativo. Nos tornamos "mais
santos" diariamente. É claro que a cada dia nossos atos
tomam formas mais corretas. No entanto, tanto a
justificação quanto a santificação são a mesma coisa,
acontecem no mesmo momento e são produzidas pela
mesma causa: A graça. Nos tornamos santos e justos no ato
de fé. Nossos atos são alterados a partir do momento em
que temos a consciência de quem já somos em Cristo.
É necessário distinguir algumas coisas:
1) Quando dizem que a justificação é um evento estão
dizendo que ela é algo do passado sem proporções futuras
e que não possui constância. É algo fixo em um momento.
"Fomos salvos" representa isso. Na verdade, nós somos
justificados, nós somos salvos. Paulo em Romanos 8:33
declara: “Quem acusará alguma coisa aos escolhidos de
Deus? É Deus quem os justifica”. Esse verso declara que a
justificação toma proporções constantes, estamos em um
constante fluxo de justificação com o Espírito Santo. Como
um rio que corre sem parar, estamos compartilhando da
justiça de Deus diariamente (estado de ser).
73
2) Afirmar que a santificação é um processo é dizer que a
cada dia nos tornamos mais santos ou menos santos.
3) Quando eu afirmo que ser santo e justo é um estado de
ser estou dizendo que são identidades em que não estamos
crescendo ou diminuindo, é o que somos em nosso espírito
criado em Cristo, mas podemos estar vivenciando
totalmente ou não essa realidade (santidade prática). Esse
estado de ser é algo eterno e inalterável, estamos
compartilhando da justiça divina diariamente e
constantemente (2 Pedro 1:4), mas podemos estar ou não
vivenciando plenamente em nossa vida diária. Não é um
evento porque toma proporções eternas e está
constantemente sendo ativado, e não é um processo
gradativo porque não estamos deixando ou aumentado
nossa identidade de santos ou justos, possuímos uma
identidade eterna.
A igreja protestante tirou a graça da "santificação" e assim
tornou ela um processo. A graça nesse momento passa a
ser estática e estacionada, e quando a graça é estática, o
homem age. Quando a graça é estática, o homem se
encarrega do "processo", mesmo que diga que é um
"processo dele e o Espírito Santo". O Espírito Santo não é
um mero coadjuvante na vida cristã. A natureza e essência
de Deus é completamente única e distinta, Ele é dinâmico
e operacional a partir de si mesmo. Ele age com todo o seu
ser. Ele é o "Eu sou". Por isso, o homem não é um ajudador
de Deus, mas um receptor de tudo o que Ele é.

74
Alguns podem afirmar que isso torna o homem passivo. Na
verdade, isso torna a graça ativa, dinâmica. O homem não
é passivo, mas receptivo à dinâmica da graça de Jesus
Cristo. A receptividade do homem é um ato de fé constante
na graça de Deus: "o justo viverá pela fé" (Romanos 1:17).

A graça não deve ser limitada à graça redentora ou graça


regenerativa ou graça de conversão ou graça justificativa.
Quando a graça é definida pelos benefícios concedidos por
Deus em Cristo, e não pelo dinâmico Ser de Deus em Cristo,
ela se degenera em uma mercadoria em vez da dinâmica
sempre presente e contínua da atividade de Deus que
expressa Seu caráter.

A graça é a essência de Deus

Quebra-cabeça é um jogo divertido. Quem nunca jogou? Às


vezes não é tão simples, mas é sempre divertido juntar
todas as peças e ver a imagem completa. Quando as peças
estão jogadas e soltas no chão, completamente misturadas,
tudo é uma bagunça e elas não fazem nenhum sentido de
forma separada. No entanto, quando começamos a
encaixar as peças tudo começa a fazer sentido e
percebemos sua total unidade.
75
De fato, é assim que podemos discorrer a respeito de Deus
e sua natureza. No AT a natureza de Deus era revelada em
pedaços soltos, em "atributos separados", assim não
compreendíamos totalmente quem Ele é. Irado? Amoroso?
Compassivo ou distante? Tudo é resultado de uma teologia
de quebra cabeças. Quando procuramos conhecer Deus
olhando para as peças soltas e misturadas jamais iremos
compreender tudo isso. Apenas quando reunimos todas as
peças e as encaixamos que podemos ver o "quadro geral e
completo"
É em Jesus que o quebra-cabeças é completamente
definido e ajustado:

"O qual (Jesus) sendo o resplendor de sua glória e a


imagem exata de seu ser"
- Hebreus 1:3

"Aquele que é a imagem exata do Deus invisível"


- Colossenses 1:15

É Jesus que estabelece o quadro geral e a imagem


completa de Deus. E Jesus é a Graça. A graça e a verdade
"vieram" (João 1:17). A verdade sobre Deus, a imagem
exata, o quebra-cabeças montado a respeito dEle é visto na
Graça. Ela é a essência de Deus, a totalidade de Seu caráter.

76
Quando falo de essência me refiro a expressão completa, a
definição fidedigna e exata, a raiz, o caráter completo, a
imagem real e única, o quebra-cabeças devidamente
montado. A Graça é a essência de Deus, Ela é tudo o que
Deus é. Os atributos de Deus são apenas as peças soltas e
misturadas sem qualquer conexão, a graça é a junção de
tudo o que Deus é, a junção de todas as peças formando
um quadro geral, a Pessoa de Jesus Cristo. Graça é Cristo e
Cristo é Graça.
Cristo, a Graça, não é um dos atributos de Deus, mas a
junção de todos os atributos Dele. A graça não é mais uma
das qualidades de Deus, todos as qualidades Dele estão
inseridos nela. Justiça, bondade, unidade, fidelidade,
misericórdia, liberdade e todos os atributos de Deus
formam e compõe a essência de seu ser: a graça. Podemos
observar isso quando Paulo afirma que Deus se mostra
justo quando justifica o pecador pela Graça (Romanos 3:21-
26). Nós fomos feitos a "justiça de Deus" através da Graça
(2 Coríntios 5:21), isso corresponde ao ato de completa
bondade (Efésios 1:7), e é através desse ato que tudo é
unificado em sua unidade, a graça é a causa de Deus ter
reconciliado consigo mesmo todas as coisas (Colossenses
1:20), da inimizade ser rompida e a unidade proclamada
(Efésios 2:14-16). É a graça que expressa a misericórdia de
Deus (Efésios 2:4-5). Ela é a completa liberdade (Gálatas
5:1-4). Em todos os atributos de Deus destacados aqui, qual
é o ponto chave, aquilo que destaca, explica e une todos
eles? A Graça.

77
Sem a graça não iríamos compreender todas as qualidades
de Deus, não iríamos ver o quadro geral e sua completa
união.

Karl Barth, na Carta aos Romanos destaca:

“A graça da criação, como a graça da redenção, não é


uma dádiva que vem junto com outras dádivas; ela é a
relação indivisível na qual estão todas as dádivas
[divinas].” (7)

O posicionamento de Paulo a respeito da atividade e


importância da Graça em sua vida denota o caráter
completo dela. Paulo atribui sua necessidade a graça (2
Coríntios 1:12), ele atribui a generosidade a Graça (2
Coríntios 8:7), a nossa aceitação e perdão reside na graça
(Efésios 1:6-8), o nosso ministério é devido a graça (3:7).

78
Paulo faz uma declaração indescritível e imensurável a
respeito da Graça. Não existe para mim outro versículo que
descreva de forma tão exuberante a completude e a total
inadequação da graça. Esse verso destaca de forma única
que a graça contém em si mesma todos os atributos de
Deus, todos os componentes que o homem precisa para
todas as coisas.

"E Deus é capaz de fazer toda a graça abundar em vós,


para que vós, tendo sempre toda a suficiência em
todas as coisas, abundeis em todo bom trabalho" –
2 Coríntios 9:8

1) "Toda a Graça" - Não uma parte dela, mas tudo


dela. Não podemos diminuir a graça, mas a nossa
79
compreensão a respeito dela pode ser limitada através
de crenças religiosas.
2) "Abundar em vós". Toda a graça abundar, encher,
preencher, nos tornar completos.
3) "Tendo sempre". Apenas a graça completa, a
total essência de Deus, leva a constância.
4) "Toda a suficiência". A graça é completamente
suficiente. Ela não precisa de aditivos. Como disse o
teólogo James Moffat: "a graça não precisa de
suplementos". Ela é tudo o que precisamos porque é
Cristo, e Cristo é tudo o que precisamos.
5) "Todas as coisas". Quantas coisas? Todas as
coisas. A graça é para todas coisas, para a expressão,
atividade e dinâmica de todo o caráter de Deus no
homem.
6) "Abundeis em todo bom trabalho". A graça é
suficiente para que abundemos em todo trabalho. Não
apenas uma parte dele. Não é necessária uma
“cooperação nossa com o Espírito." A graça é suficiente
para todo o trabalho.

De forma resumida, o que esse verso está dizendo é: a


graça é composta por tudo de Deus, e por ser isso, por ser
a essência Dele, ela é tudo o que o homem precisa para
todas as coisas.

80
O cristão vive dia a dia pela graça de Deus. Todo o processo
pelo qual o caráter santo de Deus se manifesta em nosso
comportamento é representado pela graça de Deus. É por
isso que Paulo incentiva os cristãos a "continuarem na
graça de Deus" (Atos 13:43). "A graça de Deus apareceu, ...
instruindo-nos a negar a impiedade e os desejos do mundo
e a viver de maneira sensata, justa e piedosa na era atual"
(Tito 2: 11,12). Progressivamente "crescemos na graça" (II
Pedro 3:18), enquanto continuamos a permitir que a
atividade da graça de Deus funcione em nosso
comportamento.
A graça de Deus é a base da nossa identidade cristã: "Eu
sou o que sou pela graça de Deus" (1 Coríntios 15:10). A
graça de Deus é a base de nossa posição: "esta graça em
que estamos" (Rm 5: 2). A graça de Deus é a base do nosso
comportamento: "na graça de Deus nos conduzimos no
mundo" (II Cor. 1:12). A graça de Deus é a base do nosso
viver: pela "abundância da graça reinamos na vida por Jesus
Cristo" (Rom. 5:17) pela "graça da vida" (1 Pedro 3: 7).
A graça de Deus é a base de nossa força para viver: "Seja
forte na graça que há em Jesus Cristo" (II Tim. 2: 1), pois "é
bom que o coração seja fortalecido pela graça" (Hb 13: 9) A
graça de Deus é a base do nosso discurso: "Seja sempre o
seu discurso com graça" (Col. 4: 6).
A graça de Deus é a base de nossa suficiência: "Minha
graça é suficiente para você" (2 Cor. 12: 9). A graça de Deus
é a base para lidar com as provações, tribulações e
dificuldades da vida:" graça para ajudar em tempos de
81
necessidade "(Hb 4:16). "Sofreste por pouco tempo ... o
Deus de toda graça ... aperfeiçoará, confirmará, fortalecerá
e estabelecerá você" (1 Pedro 5:10).
A graça de Deus é a base de todo ministério cristão:
"sirvam-se uns aos outros como bons mordomos da
múltipla graça de Deus" (1 Pedro 4:10). A graça de Deus é a
base de tudo na vida cristã.
Até o futuro a graça de Deus é operativa, porque Deus é
eterno e Sua graça continua para sempre. "Fixe sua
esperança completamente na graça que lhe é trazida na
revelação de Jesus Cristo" (1 Pedro 1:13). Nada além de
Cristo é nada além da graça, ela é suficiente!

82
Nada Além do Sangue
Capitulo 4

“Qualquer coisa que não seja o reconhecimento do poder da


graça de Deus na ‘obra consumada’ de Jesus Cristo, será
inevitavelmente algum tipo de esforço próprio que anula a cruz
de Cristo”
- Jim Folwer

O derramar do sangue

Acredito que até agora compreendemos três pontos


fundamentais:

83
1) A insuficiência do homem. O homem é incapaz de
produzir sua própria identidade e plenitude. Ele não
foi criado para produzir, mas para ser o recipiente da
plenitude.
2) A insuficiência da religiosidade. Se o homem é
insuficiente, a religião também é. Através dela que o
homem tenta adquirir identidade e significado
existencial, caindo no primeiro ponto (A insuficiência
do homem).
3) Cristo é suficiente. Apenas Cristo, a graça, é
suficiente para o homem. Ele é tudo o que Ele precisa
para todas as coisas. Cristo é o fundamento e a fonte
de identidade e plenitude para o homem.

Agora, a questão que precisamos responder é: Tendo em


vista que Cristo é a totalidade da suficiência para o homem,
e sabendo que o pecado do homem o fez deixar de ser
quem era no Éden, como pode o homem retornar ao seu
estado anterior, como pode ele novamente possuir sua
identidade em Deus? Qual é a forma de perdoar o pecado
humano, eliminando sua separação de Deus, e preenchê-lo
com a plenitude?
É aqui que precisamos de algo, de sacrifícios, de sangue, da
cruz.


84
A pequena criança está com fome e a mãe já percebeu isso.
O que ela quer comer? Acredito que seja as bolachas
deliciosas que a mamãe acabou de colocar na mesa depois
de comprar. A criança ainda é pequena demais, os
dentinhos ainda estão nascendo. A mamãe percebe o olhar
da criança fixo nas bolachinhas, por isso pergunta - você
quer né Manu? - sem hesitar com a pergunta da mãe, ela
sorri mostrando que quer.
A mãe pega uma pequena colher, um pratinho e enche ele
de leite. Ela quebra algumas bolachas em pequenos
pedaços e amassa no leite. Ela deixa as bolachas
completamente "comestíveis" para a pequena Manu. A
pequena menina agora pode comer as bolachas porque a
mamãe se deu ao trabalho de adaptar tudo para ela.
Nós somos como a pequena Manu, estamos com muita
fome. O nosso vazio grita, "eu quero as bolachas, eu quero
a plenitude!". O nosso "Papai" já sabia disso, e Ele sabe que
não podemos comer aquelas bolachas. A plenitude é tão
imensa e indescritível que nossos dentinhos não estão
preparados para recebê-la. Nosso estado atual, depois da
queda, nos torna inadequados para receber a plenitude.
Deus, sabendo disso, providenciou a colher, o prato, o
sangue.
Cristo foi esmagado na cruz para que pudéssemos ter a
plenitude. O sangue de Jesus é o Cristo esmagado para
preencher o vazio humano e assim levá-lo a ser quem ele
foi criado para ser.
85
Sem derramamento de sangue não há remissão de
pecados (Hebreus 9:22)

Contudo, agradou ao Senhor moê-lo (Isaías 53:10)

Cristo se esvaziou de sua glória para se tornar homem antes


da Cruz, mas é na cruz que ele se esvaziou de sua plenitude
para encher o homem de sua suficiência. É na cruz que
cristo se esvazia ao derramar seu sangue e dar sua vida. É a
vida de Cristo que o homem anseia, deseja e quer desde os
primeiros segundos de sua existência. É nessa vida que está
toda a plenitude, identidade e significado que o homem
deseja, é nela que está tudo o que ele precisa. A vida de
Cristo é o próprio Cristo, e Ele veio para dá-la ao homem,
para dar a si mesmo a ele através do seu sacrifício, quando
foi esmagado na cruz.

Todavia, tratando sobre o sangue de Jesus precisamos


descrever um ponto extremamente importante. A
terminologia bíblica "sangue de Jesus" não representa
meramente o sangue derramado, mas a morte sacrificial de
Jesus. Não há um poder místico ou supernatural no sangue
em si, há poder no processo redentivo de Jesus, de sua
morte até sua ressurreição, e é isso que a Bíblia denomina
"sangue de Jesus". O sangue de Cristo é a crucificação, e de
certa forma, a sua ressurreição. Portanto, a ênfase desse
86
livro não está no sangue material de Jesus, mas na obra de
redenção realizada pela morte de Cristo. Em outros termos,
poderíamos dizer que "Nada Além do Sangue", é nada
menos do que "Nada Além da Cruz".

De acordo com o teólogo e pregador escocês James S.


Stewart,

"... a frase 'o sangue de Cristo' representava


simplesmente um sinônimo para a morte de Cristo, um
sinônimo que expressa de uma maneira
particularmente vívida e enfática o preço pelo qual a
redenção foi comprada e o caráter absoluto da
devoção. com o qual o Redentor se entregou pelos
homens ". (8)

Johannes Behm escreve:

"Como a cruz, o 'sangue de Cristo' é simplesmente


outra frase ainda mais gráfica para a morte de Cristo
em seu significado soteriológico". (9)

"A representação cristã primitiva do sangue de Cristo


como sangue sacrificial é simplesmente a roupa
metafórica que veste o pensamento de oferenda, a

87
obediência a Deus, que Cristo demonstrou na
crucificação". (10)

"O sangue de Cristo ... é simplesmente um símbolo


verbal para a obra salvadora de Cristo ... a linguagem
é metafórica ... o sangue é apenas um termo gráfico
para a morte." (11)

A eficácia do sangue de Jesus deve ser entendida pelo fato


de Jesus ter entregue seu sangue físico e material em
obediência até a morte (Filipenses 2:8). Por sua morte na
cruz, a pena de morte é paga. Assim, somos redimidos e
reconciliados com Deus, a fim de participar da vida
espiritual de Cristo. Não se trata de participar de Seu
material, sangue líquido correndo em nossas veias, mas de
Seu Espírito dentro de nosso espírito, pois, como Paulo
escreve: "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, ele não é
dEle" (Romanos 8:9).

É através do sangue, da obra da cruz que somos justificados


(Romanos 3:24-25), essa justificação é algo constante e
com proporções eternas e inalteráveis (1 João 1:7). Através
da obra de Cristo somos santificados (1 Coríntios 6:11;
Hebreus 10:10,14). Foi a obra da cruz que nos perdoou
completamente (Efésios 1:7) e nos aproximou totalmente
de Deus (2:14). Como já destacamos, o homem é
88
insuficiente em si mesmo para produzir tudo isso, apenas
Cristo pode e ele fez isso em sua obra consumada. Se essa
obra nos aproximou, nos santificou, justificou, nos tornou
aceitos e perdoados, então não podemos produzir isso em
nossa própria força. Por que então, cremos que podemos
alterar ou aumentar tudo isso através de nossas próprias
obras? Por que cremos, erroneamente, que podemos nos
tornar mais santos e aceitos através de nossos próprios
trabalhos? O sacrifício, que nos deu tudo isso, não é
suficiente para mostrar que não podemos fazer nada para
obter plenitude?

O autor de Hebreus destaca a completa suficiência do


sangue, isto é, do sacrifício de Jesus:

" Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas


pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos
Santos, uma vez por todas, e obteve eterna redenção.

Hebreus 9:12

Em apenas um sacrifício, apenas uma vez, Cristo


providenciou uma redenção eterna. Como podemos
rebaixar esse poder e acreditar que podemos "cooperar"
com esse sacrifício, alterando nosso estado diante de
89
Deus? Ele é completamente suficiente para nos trazer uma
redenção eterna e inalterável. Diminuir a suficiência do
sacrifício é diminuir a suficiência de Jesus e assim diminuir
a insuficiência do homem. Se o homem pode modificar,
alterar ou aumentar seu estado e plenitude, então ele não
é insuficiente em si mesmo e o sangue, o sacrifício, não é
completamente suficiente, ou seja, Cristo não é suficiente.
Essa conclusão é inegável quando temos em vista todo o
panorama apresentado até aqui. É nada além do sangue,
nada além da obra da cruz porque é nada além de Cristo.
Nós somos os vasos, os receptores, criados para receber e
expressar. Somos vasos que possuem o tesouro que é
Cristo (2 Coríntios 3:7). O sacrifício de Cristo enche o vaso,
nos enche da plenitude de Deus.
O que será enfatizado em cada parte desse capítulo é que
nada além da obra consumada de Cristo pode providenciar
ao homem identidade e plenitude. É somente através dela
que o homem se torna completo ao receber a vida de
Cristo. Ela é o meio pelo qual Cristo nos enche de sua
suficiência.

Ser e fazer

90
Moisés é um personagem Bíblico extremamente conhecido
e importante. Ele foi adotado pela filha de faraó. Não é de
se esperar que isso tenha dado a Moisés uma ótima
estrutura e posição. No entanto, o Egito baseava tudo em
poder e capacidade. Os escravos hebreus eram tratados
como insignificantes e inferiores. O trabalho escravo era
uma alusão a visão egípcia a respeito de qualquer povo que
não tinha "capacidades honoráveis". Moisés estava no alto
topo da "pirâmide" egípcia, possuindo diversos benefícios
que qualquer pessoa da época desejaria. Com a estrutura e
a criação de Moisés é de se esperar que ele enxergasse
tudo em termos de "habilidades e capacidades". Se até os
deuses do Egito, como o "deus do sol ou da chuva", são
adorados especificamente pelas suas habilidades,
classificados e conhecidos por poderes (sol, chuva e etc.)
tanto os homens do Egito, quanto Moisés deveriam ver a si
mesmo?
Moisés possuía uma mentalidade de "fazer". Ele tinha uma
perspectiva onde a identidade e significado de vida de um
homem reside em suas habilidades, em si mesmo, no
"fazer". Ao subir o monte Horebe a perspectiva e a
mentalidade de Moisés tiveram um encontro com a
mentalidade divina, a mentalidade do "ser".

"E Deus disse: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de


Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó" (Êxodo
3:6)

91
Deus se apresentou como o Deus do ser, e esse ser se
identifica e se expressa em pessoas. Os deuses do Egito
eram identificados por suas habilidades pessoais e
subjetivas, o "deus do sol" estava ligado à sua expressão no
sol e através do sol. Eles foram associados a poderes,
elementos e coisas. No entanto, Deus prefere se apresentar
como um Deus de pessoas, "o Deus de Abraão". Assim
como os deuses do Egito eram conhecidos por se
expressarem através de algo da natureza, Deus mostrou
que deseja manifestar sua essência através de pessoas. O
que isso nos diz? Que o homem foi criado, como já
aprendemos, para ser a expressão da essência de Deus,
para ser algo para Ele.
Essa mentalidade vai de encontro a mentalidade em que
Moisés esteve inserido. Deus deseja expressar seu ser,
quem realmente é, em pessoas. Deus possui inúmeras
habilidades e poderes, mas ele não quis identificar seu ser
com nenhuma delas para falar com Moisés. Ele decidiu
identificar sua essência não com qualidades e poderes
específicos, mas com pessoas. Moisés, no entanto, fez o
oposto:

"E disse Moisés a Deus: Quem sou eu, para que vá a


faraó, e para que tire os filhos de Israel do Egito?"
(Êxodo 3:11)

92
Moisés estava dizendo: "Eu não tenho habilidades para
isso, eu não sou qualificado, eu não tenho capacidades, isso
é demais para mim". A questão aqui é que Moisés estava
focado no que ele era em si mesmo, e não no que Deus
poderia ser nele, e assim, no que o próprio Moisés poderia
ser em Deus. Por isso, Deus procura tirar Moisés do foco de
si mesmo para olhar para Ele:

"Certamente estarei contigo... e disse Deus a Moisés:


Eu sou o que sou. Assim dirás aos filhos de Israel: Eu
sou me enviou a vós" (Êxodo 3:12,14)

O que Moisés precisava era visualizar que Deus é, e que isso


basta até mesmo para quem Moisés precisava ser.
Enquanto ele focava em suas habilidades dizendo que não
era capaz, que não tinha qualificações, que não sabia "falar"
(4:10), Deus mostrava sua essência: Eu sou, Eu sou o que
você precisa, e você é o ser criado para expressar a minha
essência, por isso não olhe para o que você não tem, olhe
para quem Eu sou.
Deus sempre foi o Deus do ser e o homem, em sua finitude,
limitado pelo pecado de Adão, é o homem do fazer. Deus
criou a imagem e semelhança dEle, e isso nos mostra dois
aspectos importantes que estou procurando ressaltar ao
leitor em todo o livro: 1) A identidade e plenitude do
homem reside somente em Deus, pois ele é a base de quem
nascemos para ser. 2) Se Deus é o Deus do ser, e o homem
foi criado para "ser" a imagem e semelhança dele, então o
93
homem foi criado com o objetivo de "ser" e não
meramente "fazer".
O pecado de Adão modificou a perspectiva do homem,
juntamente com o seu espírito, a parte central de seu vazio
por identidade e plenitude. O homem possui uma visão tão
limitada a respeito da plenitude e da fonte que precisa para
seu vazio. O pecado leva a finitude, mas Deus é infinito em
sua compreensão. O ser de Deus o torna completamente
acima do espaço-tempo, não há momentos passageiros
que o limitam, Ele não está amarrado ao agora e a ação no
presente. O "ser" de Deus se reflete no "é", na eternidade
e na infinitude de sua natureza imutável. Por que essa
descrição de sua natureza é necessária? Porque o homem
possui uma mentalidade limitada pelas ações que faz e
pelos acontecimentos que o cercam no agora, tornando ele
um prisioneiro da atualidade. Assim, o homem reside sua
identidade no que percebe ao seu redor. Ele pensa ser o
que vê, o que sente, o que o move, o que o cerca e tudo
que influencia-o. Se o ambiente se modifica, e esse
ambiente modifica o homem, ele acredita ser o que o
ambiente diz.
Essa mentalidade era a visão que Gideão tinha de si mesmo.
Deus havia escolhido Gideão para lutar por Israel, mas ele
não se achava apto ou a pessoa certa para esse feito. Deus
disse a Gideão:

"O Senhor está contigo, homem poderoso e valente"


(Juízes 6:12)
94
Gideão, limitado pela situação e pelo ambiente em que
estava inserido, respondeu:

Mas Gideão lhe respondeu: Ai, Senhor meu, se o Senhor


é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? E que é
feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos
contaram, dizendo: Não nos fez o Senhor subir do
Egito? Porém agora o Senhor nos desamparou, e nos
deu nas mãos dos midianitas.

Juízes 6:13

A questão é: Gideão estava sendo poderoso e valente como


Deus havia o chamado? Parece-me que o ambiente e as
reações de Gideão sugerem que ele estava com muito
medo. Deus, contrariando todas as reações de Gideão
disse: "Vai neste poder, e tu salvaras Israel da mão dos
midianitas"(14). Mas Gideão continuava focado em sua
situação presente e contingente (15). Enquanto ele
baseava sua identidade no ambiente em que estava e nas
circunstâncias que o cercava, Deus olhava para o infinito de
sua imutável natureza, devido a essa mentalidade, Deus
enxergava a identidade de Gideão além do momento
95
presente, Ele viu a identidade de Gideão Nele, quem ele foi
criado para ser.
Assim como com Gideão, Deus vê quem somos Nele, a
identidade que fomos criados para ter, o ser que fomos
criados para expressar. Tudo o que somos precisa estar
baseado no que Ele é. A nossa identidade precisa estar
fundamentada na essência de Deus porque esse é o motivo
pelo qual fomos criados, "para sermos" algo para Ele. Não
é uma imitação de Deus, é ser receptivo a plenitude Dele, e
expressar essa plenitude na graça, em Cristo.

O Apóstolo Pedro descreve isso de uma forma única:

"Mas como é santo aquele que vos chamou, sede vós


também santos em toda a vossa maneira de viver" (1
Pedro 1:15)

A nossa noção a respeito dessa proclamação possui tons de


severidade. Acreditamos que esse "ser santo como Ele" é
um trabalho árduo da vida cristã diária. Porém, preciso
questionar esse fundamento antigo. Se precisamos ser
Santos como Deus é santo, a pergunta certa é: Qual esforço
Deus utiliza para ser Santo? Qual a medida de trabalho e
dura severidade Deus utiliza em si mesmo para levá-lo a ser
santo? A resposta é: nenhuma. Deus é Santo naturalmente,
é sua natureza ser santo. Outra questão é: Deus precisa
"fazer" para "ser" santo ou Ele é em essência santo antes
96
mesmo de qualquer comportamento? Assim como Deus,
somos santos antes de qualquer comportamento, antes do
"fazer".
Se devemos ser Santos como Ele é, qual é a medida de
esforço que devemos utilizar? Nenhuma, é algo natural,
somos Santos por natureza. O nosso "ser" precisa ser santo,
e ele é santo apenas em sua ligação com Cristo. Como
veremos na próxima parte desse capítulo, ser santo é ser
completo, é ser pleno. O que precisamos para sermos
completos? De Cristo. Se nós o recebemos, temos tudo que
precisamos.
"Sede santos em toda a vossa maneira de viver". Como já
mencionei, ser Santo é ser completo, e Pedro está dizendo
que devemos agir como santos em toda a nossa maneira de
viver. Em quantas coisas? Em todas. Isso descreve
exatamente o que é ser santo, ser completo. Só podemos
viver de forma correta em todas as áreas se possuímos tudo
o que é necessário para cada área. O mesmo Pedro mostra
que possuímos essa plenitude:

"Conforme o seu divino poder, deu-nos todas as coisas


que dizem respeito a vida e a piedade, pelo
conhecimento daquele que nos chamou para a glória e
virtude." - 2 Pedro 1:3

Deus nos deu quantas coisas? Todas as coisas, Ele nos deu
tudo para a vida e a piedade. Ou seja, podemos ser santos
97
"em toda a maneira de viver" porque possuímos todas as
coisas, porque possuímos tudo para viver assim, não
precisamos buscar, procurar ou criar nada, já possuímos
tudo o que pertence a vida e a piedade. Somos completos,
somos santos, agora só precisamos vivenciar essa plenitude
em todas as áreas da nossa vida.
Como lemos, Deus nos chama para sermos como Ele, a sua
semelhança e imagem, é Ele a nossa identidade. Fomos
criados para basearmos a nossa identidade Nele, e na obra
da cruz, Cristo providenciou a restauração da nossa
identidade.
Nossa identidade não pode ser recuperada ou conquistada
através de nossas obras, porque como já sabemos o
homem não é um ser autossuficiente para gerar e criar sua
própria identidade. Ele foi criado para derivar e expressar
sua identidade em Deus. E Cristo, através de sua obra
redentiva, é o único meio de restauração da identidade que
o homem foi criado para ter. É apenas Nele que somos
quem fomos criados para ser. Nada além do sacrifício de
Cristo pode providenciar isso.

Os elementos de Cristo

"Mas e o fazer? Qual a relevância e a importância


dele? Não devemos fazer nada?"

98
Como já mencionamos, o ser antecede o fazer. Nossa
identidade vem antes de qualquer comportamento. Mas o
comportamento possui alguma importância? Com certeza.
O comportamento, o fazer, é um processo que sai do ser. O
comportamento é o resultado de uma consciência do ser.
Aqui é necessário compreender três pontos
completamente distintos:

1) O "ser": é o que somos, a nossa identidade, aquilo


pelo qual fomos criados para ter e expressar. O "ser"
reside em nosso espírito nascido de novo através da
obra redentiva de Jesus. O espírito é a sede da nossa
união e relação com o Espírito de Deus, e nessa união
passamos a desfrutar da identidade que fomos criados
para ter.
2) O "fazer": São as obras, as atividades, os
comportamentos que fluem da identidade que
possuímos em Cristo. O fazer compõe-se de
elementos, de partes ou componentes. A oração, o
jejum, a leitura das escrituras e demais atividades
"puras".
3) A "consciência do ser": É o entendimento e a
compreensão que temos a respeito do "ser", a
respeito da nossa identidade. A consciência do ser não
é um mero conhecimento raso e superficial, mas uma
compreensão abrangente que resulta em uma crença

99
firme e convencida de quem somos em Cristo. É uma
fé profunda na nossa identidade.

Desses três pontos o único que é inalterável, imutável e


completamente fixo é o "ser". A nossa identidade possui
uma base totalmente firme na Pessoa de Jesus e em sua
obra. O apóstolo João demonstra a natureza dessa
imutabilidade em nossa identidade:

"Como ele é (Jesus), nós somos nesse mundo" - 1 João


4:17

A palavra grega usada para "é" aqui é (esti) e está na forma


verbal indicativa atual. Significa que, como Cristo está
continuamente, agora em sua glória, da mesma forma nós
estamos. Lembre-se que na parte anterior desse capítulo
mencionamos que o ser de Deus se reflete no "é", na
eternidade e na infinitude de sua natureza imutável, isto é,
o que Ele é está além do espaço-tempo, além de momentos
contingentes e do ambiente atual. A nossa identidade
reside em Cristo, como Ele é, ou seja, na semelhança do seu
ser, nós o somos. Da mesma forma que a identidade de
Cristo é inalterável e imutável, ela simplesmente "é", a
nossa identidade possui o mesmo aspecto porque está
fundamentada Nele, nós somos como Ele é.
Distintamente do ser, o fazer e a consciência do ser são
mutáveis, são passíveis de alteração. Podemos crescer ou
100
diminuir em ambos. Paulo, ao tratar de alguns irmãos de
coríntio que estavam dormindo com prostitutas, mostra de
forma única esses três pontos e suas diferenças:

Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de


Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo, e os farei
membros de uma meretriz? Não, por certo.
Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-
se um corpo com ela? Porque serão, disse, dois numa
só carne.
Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo
espírito.
Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem
comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra
o seu próprio corpo.
Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito
Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que
não sois de vós mesmos?
Porque fostes comprados por bom preço; glorificai,
pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os
quais pertencem a Deus.
1 Coríntios 6:15-20

Podemos extrair desse texto os três pontos.

101
1) Ser: Paulo menciona que esses irmãos, “foram
comprados por um preço"; são um com o Espírito
Santo; são templos do Espírito Santo. Perceba que
Paulo não diz que devido ao pecado que estavam
cometendo eles deixaram de "ser". Eles ainda eram
"templos do Espírito Santo". A identidade desses
irmãos não foi alterada pelos seus comportamentos
errôneos.
2) Fazer: Paulo exorta, orienta e pede para que eles
deixem a prostituição, que parem de se unir a
prostitutas. Isso corresponde a uma ação, a um
"fazer".
3) Consciência do ser: Paulo diz, "Não sabeis (Não se
lembram? - consciência) que os seus corpos são
membros de Cristo?... que sois templos do
Espírito?...fostes comprados por um preço (lembrem-
se disso)."

Os coríntios estavam deixando de agir segundo aquilo que


é puro (fazer) porque haviam se esquecido (consciência do
ser) de quem eram em Cristo (ser).
Compreendendo esses três pontos podemos mergulhar no
verdadeiro entendimento do fazer. Acredito que a
compreensão certa do "fazer" parte de um entendimento
verdadeiro e exato sobre o "ser". Quando não entendemos
o ser, ou não possuímos um entendimento correto sobre a
nossa identidade transformamos o significado original e
102
verdadeiro do "fazer". Não digo somente que a vida cristã
se inicia no ser, mas que ela é o ser. Ser cristão é possuir a
identidade de, e em Cristo. Ou seja, se quisermos
compreender o papel real do fazer, devemos olhá-lo
através de um entendimento correto do ser.
Como já sabemos, o ser é inalterável porque está
fundamentado em Cristo, e Ele é inalterável em seu ser.
Isso já é suficiente para nos mostrar que o fazer não pode
modificar o ser. Os nossos comportamentos não alteram a
nossa identidade. Outro ponto é que o ser é o objetivo pelo
qual fomos criados. Não fomos criados para fazer. Ou seja,
o fazer não é um fim. Da mesma forma o fazer não é um fim
em si mesmo, não fazemos por fazer, não agimos por agir,
ou andamos em santidade "porque devemos andar em
santidade", o fazer não é uma obrigação. Ele não é um fim
em si mesmo, mas um meio para um fim.
Qual é esse fim? Qual é o motivo final para andarmos em
santidade? Simplesmente por causa do ser. O ser é o
princípio, o motivo, a razão de tudo que corresponde ao
fazer. Quando digo isso não me refiro ao fazer para ser, mas
ao fazer por ser. O motivo para andarmos em santidade é
porque agora somos santos. A razão de vivermos
corretamente é porque em nosso ser somos perfeitos.
Paulo ilustra esse panorama em suas cartas:

"...a formicação e toda impureza nem ainda se


nomeiem entre vós (fazer), como convém a Santos

103
(ser) ...noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz
(ser) no Senhor; andai (fazer) como filhos da luz"
- Efésios 5:3,8

Porque agora somos filhos da luz, devemos andar


como tais. Não devemos viver na prática de impurezas
porque somos santos. "Que diremos pois?
Permaneceremos no pecado, para que a graça
abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos
para o pecado, como viveremos ainda nele?...De sorte
que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte;
para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os
mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também
em novidade de vida. Porque, se fomos plantados
juntamente com ele na semelhança da sua morte,
também o seremos na da sua ressurreição"
Romanos 6:1-5

Estamos mortos para o pecado, e assim como Cristo


ressuscitou, nós ressuscitamos com Ele, completamente
novos e justos, por isso devemos viver em novidade de vida.
Devemos viver em novidade de vida porque somos novos,
devemos andar corretamente e produzir frutos de justiça
porque somos justos.
O fazer é o meio para expressar o ser, é a forma de vivenciar
a realidade já existente do ser. Como podemos perceber
nos textos apresentados a cima, a "consciência do ser" está
104
completamente ligada ao fazer. Paulo lembra e relembra
seus leitores a respeito da identidade que possuíam em
Cristo para que assim possam andar corretamente. A
consciência do ser nos leva a agir conforme a nossa
identidade em Cristo. Quanto mais consciência do ser nós
temos, mais conseguimos agir segundo a nossa real
identidade.
O que me mantem realizando as obras e praticando os
elementos e atividades cristãs (oração, leitura da bíblia,
obras de pureza e etc.) é a consciência de quem eu sou em
Cristo. Todavia, ao mesmo tempo as obras e os elementos
cristãos servem para me lembrar diariamente de quem eu
sou em Cristo. Os dois estão completamente entrelaçados:
A consciência de quem sou, e a ação de quem sou. Quando
tomo consciência de quem eu sou, passo a agir segundo
quem sou, e consequentemente agir conforme quem eu
sou me lembra ainda mais da minha identidade. O fazer se
torna uma forma de tornar mais abrangente a consciência
de quem sou. Quando faço sabendo quem sou, entendo
ainda mais quem sou.

Tudo cheio

105
Durante esses capítulos creio que o leitor pensou em
questões fundamentais: Se o fazer não nos leva ao ser,
então o que o leva? O que precisa ser feito para possuímos
identidade? Fomos criados para "ser", mas para ser o que?

Uma mulher estava com a garganta seca. Quem sabe, as


roupas e utensílios de sua casa estavam sujos, por isso
precisava de água. Havia um poço próximo de sua casa. Ela
foi até lá para pegar alguns baldes de água e levar a sua
casa. A mulher, que era conhecida como samaritana, tinha
um objetivo: pegar água e voltar para casa. No entanto,
inesperadamente - como é de costume desse homem
inesperado - Jesus queria que ela retornasse para seu lar,
completamente cheia, de uma água que apenas Ele, em si
mesmo, poderia lhe proporcionar.

A mulher samaritana ao chegar no poço e se encontrar com


o Messias, percebeu que estava mais vazia do que os baldes
que trouxera. Ela precisava muito mais de água do que
aquilo que iria lavar em sua casa. De fato, tudo o que ela
estava procurando o tempo todo, em sua vida finita e
contingente, era uma espécie única de plenitude.
106
No diálogo com Jesus, percebemos que a mulher
samaritana teve cinco maridos, e agora estava com um
homem que não era seu marido (16-18). O que ela ansiava?
O que seu ser desejava que a fez procurar em vários
homens diferentes, e mesmo assim não encontrou? Ela
tivera tantos maridos, mas não parecia estar oca de amor?
O amor, em pessoa, veio visita-la trazendo um oceano do
que ela necessitava.

Jesus disse a mulher de baldes e interior vazios:

"Quem beber desta água terá sede outra vez, mas


quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá
sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará
nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna".

João 4:13-14

A sede insaciável dessa samaritana se refletia na sua


constante busca por prazer e amor em homens e pessoas
diferentes. Lembra do que mencionamos no primeiro
capítulo sobre o desejo de "mais e mais"? Essa mulher
ansiava mais e mais, e isso demonstrou o vazio e a

107
insuficiência em que ela estava. Convicta de que o vazio era
apenas a falta de amor matrimonial e paixões passageiras,
ela buscou isso em toda a sua vida. Como todo e qualquer
desejo que mostra a nossa insuficiência, no final, a mulher
samaritana estava como os baldes, completamente vazia.

O visitante inusitado, o mestre, o Messias, o Rei, havia se


apresentado a ela e demonstrado que tudo o que ela
precisava era aquilo que apenas ele poderia dar. A água viva
mencionada por Jesus não é nada mais e nada menos que
a própria vida dEle, aquela que ele entrega pela sua livre e
própria vontade. Essa água viva contém tudo o que aquela
pobre mulher precisava: Amor, aceitação, perdão,
perfeição, justiça.

Todos os anos de sua existência estavam sendo gastos na


tentativa de adquirir amor através de paixões passageiras,
aceitação através de meros homens carnais, e perdão
através de suas próprias obras de "adoração". Tudo o que
ela ansiava e precisava estava na sua frente. O Cristo vivo é
a própria água viva, e Ele se oferece completamente a ela.

O que ela precisava fazer? Beber, receber. Quem lhe daria?


Cristo, Ele mesmo. Isso responde a uma questão que
levantamos no início, "O que leva ao ser?". O receber. A
mulher samaritana só precisava beber da água, receber de

108
graça essa água e bebê-la. E ao beber, ela estaria cheia,
completa.

Não fomos criados para criarmos a nossa identidade, mas


para recebê-la através da nossa ligação com Cristo pela
graça. A fé é a boca, a recepção simples da água que é o
Cristo vivo.

A mulher samaritana foi criada para "ser" amada, mas


procurava preencher o vazio do amor essencial de Deus
com amores meramente humanos e passageiros. Ela foi
criada para ser aceita, mas procurava aceitação de homens.
Ela foi criada para ser perfeita e justa, mas acreditava que
a mera religiosidade de rituais e regras poderia preenchê-
la desse vazio. Quando encontrou Cristo percebeu que todo
o amor e aceitação que ansiava, toda a justiça e retidão que
procurava criar, estavam inseridos e entrelaçados na
Pessoa de Cristo, e que seu único trabalho era receber,
beber de sua plenitude.
O nosso ser é definido a partir do receber. Quando
recebemos a Cristo, quando bebemos a água viva, no ato
de fé, o ser é completamente definido. O ser vem de
receber a Cristo, e assim receber todas as partes do ser
dEle.

109
Fomos criados para sermos amados, aceitos, perfeitos,
justos, para sermos santos. E passamos a usufruir e
vivenciar tudo isso quando recebemos Cristo pela fé. É nEle
que está tudo o que ansiamos, Ele é em si mesmo tudo o
que ansiamos. Quando o recebemos, nos tornamos
completamente cheios. E essa plenitude é estar cheio de
amor, perdão, aceitação, justiça e perfeição. Nos tornamos
completos em nosso espírito. Como Jesus disse a mulher
samaritana: "você nunca mais terá sede". É o anúncio da
completa suficiência que obtemos ao bebermos da água da
viva.

Após o pecado de Adão o homem nasce completamente


separado de Deus, e essa separação o leva a ter a falta de
santidade e justiça. Não me refiro diretamente as ações de
justiça e santidade, mas aos componentes de santidade e
justiça de Deus que estavam conectados no homem. Deus
compartilhava com o homem de sua justiça e santidade. É
necessário dizer, de antemão, que não é a falta de
santidade e justiça que levou Adão a se separar de Deus,
mas a separação de sua ligação com Deus o levou a perder
esses caráteres compartilhados com a divindade.

110

Isso nos explica muito a respeito da nossa atual ligação


com Deus, em Cristo. Ao confiarmos em Jesus, somos
colocados "em Jesus", estamos "em Cristo", e dessa forma,
como Adão era antes da queda, compartilhamos da justiça
e santidade de Cristo. Somos orientados a nos vestir do
novo homem (interior - que está ligado em Cristo) que
segundo Deus, é criado em justiça e santidade (Efésios
4:24).

Porém, antes mesmo de chegarmos a esse estado de ser,


necessitamos de reconciliação. A ligação com Deus leva ao
compartilhamento da santidade e justiça, ou seja, de sua
natureza divina. Todavia, o pecado de Adão trouxe a
separação do homem e Deus, fazendo com que o homem
perdesse esse estado de ser. Para que ele retorne a esse
estado é necessário que seja reconciliado com Deus, e essa
reconciliação é feita no perdão e aceitação do sangue de
Cristo:

111
Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo
mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da
reconciliação,
ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo
o mundo, não lançando em conta os pecados dos
homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.

2 Coríntios 5:18,19

Não há como o homem receber justiça e santidade sem


ligação com Cristo, e não há ligação com Cristo sem perdão
e aceitação. No momento em que o homem deposita sua
confiança no Cristo salvífico, ele é redimido e
completamente aceito, recebendo em si mesmo aceitação
e perdão, e assim, acontece nele a infusão dos caráteres de
justiça e santidade de Cristo. Ele passa a compartilhar da
justiça e santidade de Cristo. Dessa forma, o homem recebe
perdão, aceitação, justiça e perfeição no momento em que
crê em Cristo e passa a estar em ligação com Ele. Ou seja,
Ele é "completo em Cristo" (Colossenses 1:9-10). Isso
porque em sua ligação com Cristo, Ele compartilha de tudo
o que Cristo é.

112
O pecado de Adão separou o divino do humano, separou
Deus do homem, mas Deus trouxe a reconciliação através
do homem-Deus, através do divino-humano. Cristo, em sua
essência e ser, demonstra que o plano real de Deus sempre
foi unir o homem receptivo ao Ser divino ativo. E essa união
é feita na essência do ser de Deus, a graça. Quando o
homem crê na Graça ele é perdoado, aceito, justificado,
aperfeiçoado e santificado. Ou seja, a graça alcança tudo ao
homem através da fé. Isso não somente porque "é de
graça", mas porque como já mencionamos, devido a graça
ser a essência de Deus, ela contém em si mesma tudo de
Deus. Quando a recebemos, recebemos perdão (Romanos
3:24), aceitação (Efésios 1:6), justiça (Romanos 5:1),
santidade (Hebreus 10:10), perfeição (Hebreus 10:14),
recebemos tudo (Romanos 8:32).

Nós recebemos aceitação, perdão, justiça e perfeição, e


essa recepção não é uma "recepção alienígena", ou seja,
que está fora do homem, não ligado a ele como algo
meramente externo. Ela é uma recepção interna, uma
infusão de tudo isso no espírito humano.
A aceitação e o perdão foram embutidos no espírito
humano completamente no ato de fé. Ou seja, o nosso
espírito contém aceitação e perdão. E isso é o mesmo

113
quando se trata da justiça e da perfeição. Nós temos tudo
em nosso espírito criado em Cristo.

Lembra que mencionamos que o ser é o resultado do


receber? O homem foi criado para receber a identidade e
não para gerar de si mesmo. Dessa forma, quando ele
recebe a aceitação, ele se torna aceito, quando recebe o
perdão se torna perdoado, quando recebe a justiça se torna
justo, quando recebe a perfeição se torna perfeito. Essa é a
identidade real que o homem possui em seu espírito.
Agora, estando em Cristo, seu espírito é perfeito, justo,
perdoado e aceito. É claro que os caráteres e componentes
recebidos pelo homem são diversos. Esses que menciono
são apenas alguns da multiplicidade e totalidade que ele
recebe. Destaco esses para explicar que a recepção de tais
componentes no espírito humano o torna o "ser" desses
componentes. Receber justiça como uma dádiva o torna
justo, o torna fonte de justiça. Assim como a mulher
samaritana que ao beber da água se torna em si mesma
uma fonte de água viva, quando recebemos a justiça, nos
tornamos fontes de justiça. A mulher samaritana após
receber a plenitude, passa a fazer justamente aquilo que
Jesus disse que ela faria, ela passa a transbordar plenitude,
decide compartilhar das boas novas que havia recebido.
Aqui é necessário desdobrar três pontos cruciais na
descrição sobre o processo de construção do ser do
homem. O homem, ao receber, se torna, e ao se tornar,
compartilha.
114
Explosão de santidade

Santidade?

Existe um termo que o leitor, porventura, tenha sentido


falta nesse livro? Creio que você possa me questionar:
"Onde está a santidade? Você não a mencionou". Caro
leitor, esse foi o termo mais usado e aproveitado durante
cada parágrafo aqui, ele está minunciosamente descrito em
cada capítulo. Chegamos ao final desse tratado sobre a
suficiência de Jesus e o que eu posso lhe dizer é que tudo
aqui é sobre santidade.

Desde o início tenho demonstrado que o homem é vazio e


incompleto sem a Graça de Deus, a pessoa de Jesus Cristo.
E que esse vazio é preenchido quando o homem, pela
recepção da fé, aceita a dádiva da salvação e plenitude de
Cristo. Ora, o vazio do homem resulta em todos os pecados
e origina todas as maiores iniquidades existentes. Qual é o
oposto de todo e qualquer pecado? Isso leitor, é a
santidade! A santidade resulta em todas ações puras e
comportamentos corretos que nós tanto admiramos. Ou
seja, santidade é oposto do vazio, santidade é plenitude.

115
Perceba agora leitor que a cada parágrafo, página e verso
desse livro sobre a suficiência de Jesus é destacado,
proclamado e descrito a santidade de Deus. Santidade é
plenitude, é totalidade, é inteireza. O homem caído se
tornou quebrado, vazio e destruído. Quando Ele se torna
novo, completo e inteiro? Quando crê em Jesus Cristo e
assim o recebe como a sua suficiência. Santidade é
plenitude, é graça, é Cristo.

Santidade não é um contraponto a graça de Deus, não é


uma antítese ao caráter gracioso de Deus. Não existe, nas
profundas raízes do ser do Pai uma divisão de graça e
santidade. Graça é santidade. Ambos definem e expressam
plenitude. A Graça, sendo a essência de Deus, se mostra no
cuidado e amor do Pai pelos maiores pecadores, e o desejo
inalienável dEle de salvá-los e enchê-los de seu amor. Graça
116
é o Pai correndo atrás de seu filho pródigo. É o Cristo
morrendo por pecadores que, naquela hora, estavam o
crucificando. Ou seja, a graça não para no pecado, ela
abraça e persegue o pecador até as profundezas mais
densas e pecaminosas. Ela não se intimida com a
iniquidade, nela existe um anseio por imundos e o desejo
imutável de salvá-los. Não importa o pecado, pecados e
iniquidades, o Deus da Graça, a Graça do Cristo, leva sobre
si cada um deles e salva os seus praticantes.

Santidade, dirão alguns, é o desejo desse mesmo Deus


gracioso de purificar seus filhos e levá-los a um nível de
intimidade e pureza. Como a santidade é oposta ao pecado,
na santidade Deus mostra sua ira contra toda iniquidade do
homem. A santidade, segundo muitos, não abraça o
pecador no pecado, mas o confronta e exige dele uma
mudança radical e efetiva, caso contrário será desposto de
sua identidade.

Acontece que aqui temos um Deus que vive em um dilema


do qual não há saída: Como devo agir? Agirei como santo e
punirei com a minha ira? Agirei com graça e amarei de tal
forma esse pecador que todas as suas iniquidades serão
perdoadas?

Na verdade, santidade não se assemelha nem um pouco


com essa visão religiosa. Pense comigo, quanto mais o
117
coração de uma pessoa é puro, mais ela se compadece com
os necessitados, maior é o desejo de ajudar, aliviar,
proteger e amparar aqueles que precisam. Nós
percebemos que quanto mais uma pessoa possui um
"coração bondoso", mais ela é afetada pelos males ao seu
redor. De forma oposta, quanto mais uma pessoa "possui
um coração mal" menos é afetada pelos males ao redor.

Colocando tudo isso na descrição sobre a santidade de


Deus, Dane C. Ortlund escreve:

Assim como o coração mais puro, mais horrorizado


com o mal, também o coração mais puro, mais ele é
naturalmente atraído para ajudar, aliviar, proteger e
confortar, enquanto um coração corrupto fica parado,
indiferente. Assim com Cristo. Sua santidade considera
o mal revoltante, mais revoltante do que qualquer um
de nós jamais poderia sentir. Mas é essa mesma
santidade que também atrai seu coração para ajudar,
aliviar, proteger e consolar. (12)

Em meu primeiro livro (E Ele nos tornou Santos) eu escrevo


sobre como a santidade de Deus o leva a desejar
intensamente nos encher dEle. Santidade é plenitude, e
Deus é tão completo que deseja acolher, cuidar, proteger,
118
ajudar e amparar a todos os seus filhos em seus maiores
pecados. Ou seja, porque Ele é Santo, porque Ele é
completo, deseja nos encher dessa plenitude, ela está
transbordando para fora dEle. Deus é tão completo e cheio
que está explodindo, de fato, explodindo santidade.

Receber - Ser - Compartilhar

Nesse momento em que nos aproximamos do final, quem


sabe o leitor tenha se levantado da cadeira, do sofá ou da
cama. Eu peço que fique mais um pouco. Nessas próximas
páginas e parágrafos finais tratarei de explicar e responder
a dúvidas que quem sabe você tenha tido durante a leitura
do livro.

Como vimos, através do receber, o homem passa a ser


aquilo que foi criado para ser. Deus é o único Ser que não
precisa receber, pois é autossuficiente, é o próprio gerador
de sua identidade e plenitude. Ele é o que é, e
simplesmente ninguém mais é assim. Por isso, somente Ele
119
é Deus. Perceba como a religiosidade é um monstro
maldito. Através de ensinamentos e conceitos obscuros, ela
coloca o homem como um "deus", gerador e criador de sua
própria identidade e plenitude. O Evangelho, ao contrário,
anuncia que o homem foi criado para ser apenas em Deus.
Apenas em Cristo o homem deriva sua identidade e
plenitude.

Para que o homem pudesse ser ele precisava receber.


Agora ele possui, agora ele é. E nesse ser ele é incentivado
e criado para compartilhar do que recebeu. Assim como
recebeu de Deus, o homem é chamado a compartilhar
daquilo que recebeu. É isso que eu chamo de receber, ser
e compartilhar. O compartilhar é expressar aquilo que ele
recebeu em Cristo.

O que o homem recebeu em Cristo? Perdão, aceitação,


amor, justiça, pureza e etc. Ele recebeu tudo. Agora ele é
chamado a vivenciar essas realidades de modo a expressar
tudo isso, ou seja, praticar.

O homem recebeu justiça (Romanos 5:17), assim se tornou


justo e a justiça de Deus (Romanos 5:1; 2 Coríntios 5:21) e
agora irá expressar (compartilhar) essa justiça, em suas
ações (1 João 2:19). Ele recebeu aceitação e se tornou
aceito (Efésios 1:6) e agora irá aceitar (Romanos 15:7). Ele
foi perdoado completamente (Colossenses 2:13-14) e
120
agora é chamado a perdoar completamente; "perdoando-
vos uns aos outros como Deus vos perdoou em Cristo"
(Efésios 4:32). Depois de receber pureza (Hebreus 10:14),
ele se tornou puro e chamado a vivenciar essa pureza
(Efésios 5:3-8). Após recebermos o amor em nosso coração
(o amor do Espírito foi derramado em nossos corações -
Romanos 5:5 ), somos chamados a amar nesse amor.

O cristão possui em si mesmo perdão, aceitação, amor,


justiça e perfeição. Ele tem a plenitude de Cristo em si
mesmo. Cristo é completo, e ao estarmos nEle, nos
tornamos completos e chamados a vivenciar essa
plenitude, a compartilhar, expressar aquilo que recebemos.
De modo geral, posso elucidar isso melhor da seguinte
forma:

Recebeu aceitação - aceito - pode aceitar

Recebeu perdão - perdoado - pode perdoar

Recebeu justiça - justo - pode produzir frutos de justiça

Recebeu amor - amado - pode amar

121
Recebeu perfeição - perfeito - pode produzir frutos de
perfeição

Recebeu completo agrado - se tornou agradável -


pode viver essa realidade

Se temos tudo isso, se podemos perdoar, aceitar, amar e


andar em perfeição, justiça e de modo agradável, então
somos completos, somos santos. Santidade é ser completo.
O santo é aquele que possui tudo, e se temos Cristo, se
temos tudo isso, somos santos. Agora, somos chamados a
jorrar dessa plenitude, a "explodir de santidade", a viver a
realidade de quem somos em Cristo.

A mulher samaritana bebeu da água (recebeu), se tornou


uma fonte de água viva (ser) e após isso saiu para anunciar
sobre Jesus (compartilhar), ela estava jorrando água da vida
eterna como Jesus disse que ela faria. É esse processo que
perpetua nossa vida cristã. Hoje em Cristo, você é chamado
a viver, expressar, a manifestar tudo aquilo que é em Cristo.
Se temos justiça, perfeição, perdão, amor, aceitação e etc.,
então temos tudo, estamos "cheios". Agora é só derramar
tudo isso para fora.

Mas...sabe...como eu farei isso? Será automático? Eu


vou simplesmente fazer isso? Eu já tentei me esforçar
e não consigo!
122
O esforço na vida cristã não é o esforço em efetuar a
identidade e realidade de quem somos. Na verdade, o
esforço é o esforço em se lembrar diariamente da
identidade e realidade de quem já somos. O esforço não é
para expressar a identidade, mas realizar a contínua
lembrança de quem já somos em Cristo. É dessa forma que
podemos viver a nossa identidade, como já aprendemos,
tendo uma consciência de quem somos. Quanto mais
consciência tivermos mais iremos viver segundo a nossa
identidade. O esforço no Evangelho é o esforço para se
lembrar constantemente do Evangelho. É o esforço para
entrar no descanso (Hebreus 4:11). Ou seja, descansar no
está consumado, na nossa identidade já estabelecida em
Cristo.

Se esquecemos de quem somos e não lembramos daquilo


que recebemos não iremos agir, não iremos expressar. Por
isso cada anúncio das Escrituras sobre o fazer, traz antes a
lembrança do ser. Para que possamos perdoar precisamos
lembrar que somos perdoados e que assim devemos:
"perdoar como Deus nos perdoou em Cristo" (Efésios 4:32).
Para que possamos aceitar devemos lembrar que fomos
aceitos, e assim: "aceitar como Cristo nos aceitou"
(Romanos 15:7). Para que possamos ter comportamentos
puros precisamos nos lembrar que fomos purificados (1
Coríntios 6:11). Só podemos agir a partir da consciência de
123
quem somos e do que recebemos. Caso contrário, não
haverá expressar.

Agora, esse livro proclama que você é amado, aceito, justo,


perfeito, agradável e completo em Cristo! Você é Santo!
Você é completo, você tem tudo, você tem Cristo! Agora
que sabe do que tem, o que vai fazer? Vai ficar procurando
obter o que já tem? Vai ficar se culpando sabendo que é
perdoado e aceito? Se eu dissesse a você que você é
bilionário, que tem todo o dinheiro do mundo, o que vai
fazer? Vai ficar parado olhando para o dinheiro? Paulo,
sabendo da riqueza que tinha, sabendo da plenitude que
recebeu, proclamou:

"Eu posso todas as coisas naquele que me fortalece"


(Filipenses 4:13)

Nós podemos todas as coisas porque, como Pedro


menciona, recebemos: "todas as coisas que pertencem a
vida e a piedade" (2 Pedro 1:3). Recebemos todas as
bênçãos espirituais em Cristo (Efésios 1:3). Quando
recebemos Cristo, recebemos com Ele todas as coisas
gratuitamente (Romanos 8:32). E essas coisas são perdão,
aceitação, justiça, perfeição, amor e etc. Podemos viver e
expressar tudo porque recebemos tudo! Eu posso tudo
porque tenho tudo, tenho Cristo! Sou completo nEle, sou
santo nEle!
124
O que você vai fazer agora leitor? Agora que sabe quem é
em Cristo e o que você possui, agora que sabe que possui
um oceano dentro de ti, o que acha de compartilhar e
expressar essa totalidade? O que acha de viver a realidade
da sua nova identidade em Cristo? Eu te convido a crer no
Evangelho todos os dias! Você é justo em Cristo, e o
evangelho anuncia que o justo vai viver pela fé (Romanos
1:16), e esse viver é viver a realidade de sua justiça. Ele não
irá viver pelo esforço ou através de muito trabalho, mas
pela fé. A fé é confiar que o Evangelho é verdade acima de
tudo! Você confia nisso? Essas palavras que aqui escrevo
não são meras letras ou frases, elas são o Evangelho, e o
Evangelho é o poder de Deus (Romanos 1:17). Existe poder
nessas palavras, poder que irá operar nos que creem!

Leitor, o que acha de inundar a sua família, amigos,


trabalhos e todas as áreas da sua vida com amor, aceitação,
perdão, justiça e perfeição? Agora é a hora de você explodir
santidade!

125
Bibliografia

(1) http://vidatrocada.com/a-vida-crista-e-um-saco/
(2) Barth, Karl, Church Dogmatics . Vol. Eu, Pt. 2.
Edimburgo: T&T Clark. pág. 302.
(3) Capon, Robert, entre meio-dia e três: uma
parábola do romance, da lei e da indignação da
graça. São Francisco: Harper e Row. 1982. pág.
136.
(4) Martin, AS, Dicionário da Igreja Apostólica. pág.
510.
(5) Barth, Karl, Church Dogmatics. II, 1, pág. 355.
(6) https://www.crossway.org/articles/the-reason-we-
dont-feel-the-weight-of-our-sin/
(7) Barth, Karl, Carta aos Romanos. Capítulo 4, pág.
211.
(8) Stewart, James S., Um Homem em Cristo: Os
Elementos Vitais da Religião de São Paulo. Nova
York: Harper and Brothers. e pág. 237
(9) Kittel, Gerhard, ed., Dicionário Teológico do Novo
Testamento. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans
Publishing Co., 1964, Volume I, pág. 174
(10) Kittel, Gerhard, ed., Ibid., Pg. 175.
(11) Kittel, Gerhard, ed., Ibid., Pg. 175.
126
(12) https://www.crossway.org/articles/the-reason-we-
dont-feel-the-weight-of-our-sin/

127
Agradecimentos
Primeiramente, ao meu amor, Jessica Steffen, aquela que
escreve em conjunto comigo, a mais bela história de amor
já vista. O Aba, Pai – é assim que nos referíamos ao
Soberano Deus – nos uniu em apenas uma palavra: Graça.
Foi através da nossa união nEle, que o título do livro
apareceu, e com ele, todas as vivências descritas aqui.
Minha futura esposa é minha eterna companheira e minha
maior incentivadora. Eu te amo muito!

A todos os meus familiares, mãe, pai, e meus três irmãos


que, em todos os dias, em todos os momentos, cada um
em sua forma, acreditou em mim. Eu sou eternamente
grato aos meus pais, Lúcia e Aguinaldo, pelas sinceras
orações que fizeram por mim para que a maravilhosa
graça me alcançasse.

Agradeço ao meu pastor Herso Meus, e a todos os que me


apoiaram da minha Igreja Quadrangular em Parobé.
Agradeço ao pastor por me inspirar em meu primeiro livro
e por me orientar nesse segundo.

A Ted Angell por me proporcionar ligações com


importantes ministros do Evangelho da Graça. Sou grato a
ti por me apoiar e incentivar meu ministério de várias

128
formas. Agradeço por me ligar a homens como Victor
Azevedo e Helder Jorge (Comentarista desse livro)

Aos irmãos Lucas e Matheus Almeida por me inspirarem, e


trabalharem comigo no Blog Vida Trocada com o objetivo
de anunciar o pleno Evangelho. Cada palavra de vocês me
trouxe ajuda e edificação.

A Mauricio Fragale, Helder Jorge, Reinaldo Garcia e Leo


Francisco por aceitarem comentar esse livro. Isso é tão
importante para mim que eu não teria palavras para
agradecê-los. Vocês são honrados ministros e mestres da
graça, e para mim é uma dádiva e honra tê-los aqui
comigo.

A Vitor Barbosa, por me ajudar com o design de capa e as


demais imagens do livro. Obrigado amigo por usar o seu
talento para me auxiliar na proclamação das boas novas.

129
Página do autor
Eliezer Oliveira é estudante de psicologia da FACCAT no Rio
Grande do Sul. Membro da Igreja do Evangelho
Quadrangular templo central na cidade de Parobé. Editor-
chefe do blog Vida Trocada, e escritor no blog
Bibliosofando. É o autor do livro E Ele nos tornou Santos
(Também disponível na Amazon).
Eliezer tem dedicado sua juventude ao estudo do
Evangelho. Seus textos sobre a maravilhosa e
transformadora graça de Deus, compartilhados em suas
redes sociais, tem tocado diversas pessoas de vários
lugares do Brasil e de outros países.
Acesse o blog Vida Trocada para mais informações:
http://vidatrocada.com/

130
Se você gostou desse livro, vale a pena conhecer esse, do
mesmo autor:

E Ele nos tornou Santos

"Nem a beleza do universo se


compara a formosura da
santidade"

O livro “E Ele nos tornou Santos” lida com um tema


extremamente importante para a igreja: santidade. Mesmo
sendo um tema importante e bastante discutido no meio
cristão, o autor mostra que o conhecimento da igreja sobre
santidade ainda é muito superficial. O livro procura mostrar
os motivos por trás da ignorância sobre esse tema, e leva o
leitor a mergulhar na profundidade e riqueza do que é ser
Santo.

131
Acesse e adquira: https://www.amazon.com.br/Ele-nos-
tornou-Santos-ebook/dp/B0821T2BSQ

132

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