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MUYRAKYTÃ OU MUIRAQUITÃ, UM TALISMÃ ARQUEOLÓGICO

(1) (1)
Marcondes Lima da COSTA , Anna Cristina Resque Lopes da SILVA ,
(1)
Rômulo Simões ANGÉLICA
RESUMO - Aparentemente os primeiros dados documentados sobre a história dos muiraquitãs,
ainda que inferidos, surgem com Orellana, tido como o primeiro explorador a navegar o rio
Amazonas rio baixo, ainda em 1542, quando teria combatido com índias guerreiras valentes,
sem maridos, as quais denominou de Amazonas. Posteriormente De la Condamine em sua viagem
ao longo deste rio, em 1735, descreve amuletos batraquianos em pedras verdes semelhantes a
jade. Spix e Martius escrevem sobre pierres divines como pingente batraquiano em madrepérola
e com nome de muraquêitã. Antigos escritos de Maurício Heriarte de 1662 descrevem amuleto
com termos similares: baraquitãs, buraquitãs, puúraquitan, uuraquitan e mueraquitan. Finalmente
Barboza Rodrigues em 1875 emprega o termo muyrakytã modificado por Barata em 1954 para
muiraquitã, que entende como artefatos em forma de sapo confeccionados em pedra verde, com
dois furos laterais. Teriam sido usados pelos povos Tapajó/Santarem e Conduri, que habitavam
o Baixo Amazonas até a chegada do colonizador europeu, que os dizimou. Para elaborar os
muiraquitãs acredita-se que esses povos utilizavam instrumentos engenhosos, mas principalmente
muita paciência e habilidade. Os estudos mais recentes mostram que o maior centro produtor
estava na região, da mesma forma como a fonte da matéria-prima e não na Asia como suposto
pelos historiadores. Eram utilizados como amuletos, símbolos de poder, e ainda como material
para compra e troca de objetos valiosos. Sobre eles há muitas lendas e mitos sempre envolvidos
com as índias Amazonas, extintas ou lendárias.

Palavras-chave: Muiraquitã, muyrakytã, Amazonas, Amazônia, história, lendas

Muyrakytã or Muiraquitã, an Archaeological Jade Talisman Coming from Amazonia:

ABSTRACT - The first indirect written informations about the muiraquitãs, are related to
Orellana, who traveled the Amazon river for the first time downstream in 1542 and mentioned
presence of the Amazonas Indians, living without husbands and act as brave fighters. De la
Condamine during his travel in 1735 along the Amazonas discribed frogshape amulet made of
greenstone like jade used by Amazonas. Spix and Martius written about pierres divines, and used
the name Muraquêitã for frogshape pendant made of motherpearl. However older writtens of
Maurício Heriarte used therms close to muiraquitã: baraquitãs, buraquitãs, puúraquitan,
uuraquitan, mueraquitan. Finally Barboza Rodrigues at 1875 brought the name muyrakytã to
well acept therminology which was reinforced by Francisco Barata in 1954 as muiraquitã. Barata
defines as a frogshape artifact sculptured in greenstones, jade. Muiraquitã is of tupi origin meaning
using frogshape pendant. They were used by Indians of Tapajó/Santarém and Conduri

Key-words: Muiraquitã, muyrakytã, Amazonas, Amazonia, history, legends


(1)
Centro de Geociências/Universidade Federal do Pará, Belém-PA, Brazil
Os Europeus Deparam-se com as os seus arcos e flechas nas mãos,
Guerreiras Amazonas e os fazendo tanta guerra como dez índios.
Muiraquitàs Mas os índios não falavam de
Amazonas, e sim Ikamiabas (mulheres
Orellana e as Amazonas
sem maridos) que habitavam o rio
Em 1499, cinco anos após a Nhamundá ou Yamundá (Monteiro,
assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1997).
o navegador espanhol Vicente Yanez
De La Condamine e as Pedras
Pinzón era o primeiro navegador
Verdes
europeu a registrar sua passagem pela
costa nordeste do que hoje N o século XVIII a Europa,
conhecemos como Brasil, ainda um preocupada com a América do Sul,
mundo desconhecido dos europeus e envia uma série de pesquisadores e
asiáticos. Nesta viagem navegou pelas cientistas. Entre estes destaca-se
águas da d e s e m b o c a d u r a do rio Charles-Marie De La Condamine, que,
Amazonas, denominando-a de mar de de 1735 a 1745, percorreu o rio
água doce (Mar Dulce). Pedro Alvares Amazonas, e ficou impressionado com
Cabral, navegante português, que as pedras verdes que encontrara em
chegou ao Brasil um ano mais tarde, posse dos índios da região do Baixo
em abril de 1500, tornou-se o Amazonas (essa região
descobridor do Brasil. Desde então, o correspondente hoje àquela ocupada
Brasil, e em especial a Amazônia, foi pelas cidades de Ó b i d o s , Faro,
visitada por viajantes, exploradores, Nhamundá e Santarém, de domínio
aventureiros, missionários e dos povos indígenas os Tapajó). De La
posteriormente pesquisadores de C o n d a m i n e foi assim um dos
ciências naturais. Um dos primeiros e primeiros a registrar por escrito o uso
o mais destacado explorador foi Fran- de pedras verdes pelos índios. Essas
cisco de Orellana, que entre 1540 e pedras eram conhecidas também como
1542, desceu o rio Amazonas em toda pedras das amazonas, uma alusão às
sua extensão, de Quito até o Oceano índias guerreiras descritas por
Atlântico. Nessa expedição Orellana, Carvajal. Antes de aí chegar, De La
através de seu cronista Frei Gaspar de Condamine fora previamente
Carvajal, informa que encontrou informado da ocorrência dessas
índias guerreiras, sem maridos, as pedras. Ainda no Alto Amazonas um
Amazonas (do grego: amazos = sem ancião, cujo avô teria visto as
seios), com que revidaram o combate Amazonas, lhe relatou sobre as pedras
com grande bravura. Segundo ele as verdes e as Amazonas. Segundo De Le
Amazonas são muito alvas e altas, Condamine, história semelhante era
com o cabelo muito comprido, contada por toda parte. Ε assim
entrançado e enrolado na cabeça. São insistiu em ver in loco as pedras
muito membrudas e andam nuas em verdes e as amazonas. De La
pelo, tapadas as suas vergonhas, com Condamine (1992) em seu livro Voy-
age sur I 'Amazone menciona "entre os ao m a n u s c r i t o de M a u r í c i o de
Tapajós, encontramos hoje, mais Heriarte, em 1662, grafado como
facilmente do que alhures, as pedras baraquitãs e buraquitas. Em 1759, o
verdes conhecidas com o nome de padre José de Moraes, menciona
pedras das Amazonas, cuja origem è puúraquitan; e o bispo Frei João de S.
ignorada e que foram muito José de Q u e i r o z , de 1 7 6 2 - 1 7 6 3 ,
procuradas outrora, por causa das uuraquitan. Ε interessante frisar que
virtudes que lhes eram atribuídas na no período de todo século XVI até o
cura do cálculo e da eólica renais, final do XVIII, nem missionários e
bem como da epilepsia ". Portanto, só nem cronistas fizeram referências ao
a partir do século XVII é que os uso das pedras verdes, só vindo
povos da região c o m e ç a v a m a acontecer com De La Condamine.
relacionar as lindas pedras verdes com Grafia semelhante a muiraquitã surge
a fabulosa história das índias impressa pela primeira vez em 1873
guerreiras, as amazonas, de Orellana. no livro do Cônego Francisco Bernar-
dino de Souza " Lembranças e
Origem da Denominação Curiosidades do Valle do Amazonas ",
Muyrakytã ou Muiraquitã como mueraquitan, e logo depois na
Embora a região dos Tapajó edição de Viena do manuscrito de
tenha sido visitada e vivida por Heriarte (1874), encomendado pelo
missionários, navegantes e Barão de Porto Seguro. Rodrigues
p e s q u i s a d o r e s , todos eles apenas (1875), em seu "Relatório sobre o
faziam vagas referências às pedras Yamundà " refere-se a muyrakytã.
verdes, sem fazer uso de qualquer Ainda em 1879 Smith (1879) em
outro t e r m o específico. Spix e seu livro, Brazil - The Amazons and
Martius, que aqui estiveram de 1817 the Coast, influenciado por Rodrigues
e 1820, registraram em sua obra Reise (1875), refere-se às pedras verdes,
in Brasilien, a designação em tupi das com formas zoomormas (pássaros e
pierres divines, que tanto perseguiram, animais, e ainda formas cilíndricas e
e uma única vez se referem a contas ), denominadas de muirá-
Muraquêità (Barata, 1954) talhado em kitans, encontradas na região do
madrepérola. Barata (1954) ainda Tapajós, terra habitada pelos índios
reconhece que é quase impossível Tapajó, da nação Tupinambás e
precisar a época em que surgiu o sempre conectadas com a história das
termo atual muiraquitã, j á que a amazonas.
maioria dos missionários e cientistas Para Barata (1954) o t e r m o
da época, na sua convivência com as muiraquitã popularizou-se a partir da
tribos, não teria se preocupada com a obra de Barboza Rodrigues
grafia correta dos termos empregados (Rodrigues, 1899), "O Muyrakytã",
pelos índios para designar as pedras publicada em Manaus em 1889 e
v e r d e s . Para Barata ( 1 9 5 4 ) , a reeditada no mesmo ano no Rio de
primeira referência à grafia, remonta Janeiro. O termo muiraquitã
populariza-se exatamente na boca 1875; Exploração do Rio Jamundà, de
dos civilizados e semicivilizados, 1875; O Muyrakytã - Estudo da
quando os índios portadores desse origem Asiática da civilisação do
artefato lítico já estavam Amazonas nos tempos prehistóricos,
praticamente extintos, manifesta-se de 1889; O Muirakytã e os ídolos
Barata (1954). Symbólicos, de 1899 (Rodrigues,
A literatura antropológica e 1875, 1899; Barata, 1954). Este
arqueológica sobre a A m a z ô n i a último teve a m p l a d i v u l g a ç ã o e
Brasileira registra a partir do final do repercussão. Ele propunha que as
século XIX muitas lendas sobre os pedras verdes tivessem sido trazidas
muiraquitàs e as amazonas. Sua beleza da Ásia pelos primeiros imigrantes
associada às lendas e poderes místicos que povoaram a América. Enfrentou
d e s p e r t a r a m a curiosidade dos duras críticas, principalmente após a
viajantes, que levaram muitas peças de descoberta de j a d e a nephrita no
muiraquitàs para Europa. Hoje Brasil. Mas simultaneamente a ciência
encontram-se em museus e com americanista, por outros m e i o s ,
colecionadores particulares. No Brasil concluía que foram asiáticas as
algumas peças estão com particulares, primeiras correntes h u m a n a s a
quatro exemplares no Museu Paraense povoarem a América, fortalecendo
Emílio Goeldi (MPEG), na cidade de assim a idéia de Rodrigues.
Belém do Pará, e cinco no Museu Novos trabalhos sobre
Paulista de Arqueologia e Etnologia muiraquitàs foram publicados ainda ao
(MAE) da Universidade de São Paulo final do século XIX e início do XX
(USP), em São Paulo-SP. Se no século como Investigações sobre a
p a s s a d o eram raros, hoje são Archeologia Brasileira, de 1885, por
raríssimos e valiosos e de difícil Ladislau Netto ( N e t t o , 1885);
acesso. Suas lendas, seu valor como Archeologia comparativa do Brazil, de
amuleto e sua raridade os tornaram 1906, por Heinrich von Ihering
muito cobiçados. (Ihering, 1904; 1906).
No trabalho Sobre o Jade no
O Legado Escrito
Brasil, de 1932, Luciano Jacques de
Muito tem sido escrito sobre os Moraes (Moraes, 1932), refuta origem
muiraquitàs. Das primeiras obras se asiática para o muiraquitã, tendo em
destacam as de De La Condamine vista a ocorrência de jade a nefrita no
(1944, 1992) Voyage sur VAmazone Brasil.
(1735-1745) e de von Martius Koehler-Asseburg (1951) em seu
(1867), Beitrãge zur Ethnographie trabalho O Problema do Muiraquitã,
und Sprachenkunde Amerikas zumal discute, com base em ampla pesquisa
Brasiliens. bibliográfica, aspectos históricos,
Barboza Rodrigues deixou um etnográficos, uso, p r o c e d ê n c i a ,
grande legado através dos trabalhos c o m p o s i ç ã o , aspectos físicos,
Exploração do Valle do Amazonas, de simbolismo e lendas e ainda avalia o
acervo do Museu Paulista. (Ferreira, 1997), que descreve o
O Muiraquitã e as Contas dos muiraquitã como "artefato talhado em
Tapajó, Frederico Barata (Barata, nefrita, com formas diversas, algumas
1954), um trabalho exaustivo e crítico vezes de batràquios, quelónios, seipentes,
que propõe como muiraquitàs os etc, que tem sido encontrado no baixo
artefatos em pedra verde com forma Amazonas, eao qual se atribuem virtudes
batraquiana com furos laterais duplos, de amuleto"; São conhecidos também
não visíveis pela parte frontal. como pedra verde, pedras das amazonas.
E m b o r a não enalteça os Barata (1954) admite apenas as
muiraquitàs, mas os artefatos pré- formas batraquianas com duplos furos
colombinos de pedras verdes {green laterais como verdadeiros muiraquitàs.
stones, the amazon-stones, pierres No presente trabalho entende-se como
vertes), entre os quais inclui os muiraquitã a forma batraquiana de
muiraquitàs, Boomert (1987), Gifts Barata (1954), que é a dc maior
of the Amazons: "green stone" pen- aceitação, esculpida cm minerais e
dants and beads as items of cerimonial rochas verdes (Fig. 1). Estender o
exchange in Amazonia and the Carib- termo a outros artefatos líricos
bean, é o mais recente trabalho e abundantes na região, e sem o esmero
envolve ampla cobertura bibliográfica dos muiraquitàs, seria colocá-los no
c uma discussão geográfica mais lugar comum dos demais (Fig. 2). A
abrangente, incluindo estudos reconstituiçao histórica destes
mineralógicos. Ele, porém, não dá a artefatos é dificultada pelo fato de que
d i m e n s ã o que os muiraquitàs os povos colombinos da Amazônia,
representaram ou representam hoje que os confecionaram e usaram, não
para a Amazônia, mas é um dos únicos fizeram uso da escrita. Até o próprio
trabalhos a mostar quão importante e termo muiraquitã pode ser
ampla foi a cultura da pedra verde na questionado, captado apenas pelos
forma batraquiana (frog-shaped) em exploradores europeus, não sendo um
todo região setentrional da América do legado de próprio punho dos nativos.
Sul (Caribe e Amazônia). Para Barata o termo muiraquitã é
"nome tupi dado ao objeto em época
O Que São Muiraquitàs posterior à conquista da Amazônia e,
Rodrigues (1899) entende que os portanto, sem a menor
muiraquitàs sejam artefatos correspondência com a antigo e
confeccionados em pedras verdes, legitimo conceito indígena, que talvez
nefrita, com diferentes formas nos seja impossível conhecer". Os
(zoomorfas, especialmente batraquianas, registros escritos após a chegada dos
cilíndricas, fusiformes, etc), encontradas europeus à Amazônia são frutos em
na região de Óbidos, no Baixo grande parte de lendas contadas por
Amazonas. É o que foi registrado no ribeirinhos e exploradores. Boomert
Dicionário da Lingua Portuguesa no (1987) deixa entender que muiraquitàs
Brasil - Novo Dicionário Aurélio são apenas as formas batraquianas do
Baixo Amazonas, que são provém do Baixo Amazonas,
artisticamente diferentes das demais especialmente da área do rio Tapajós,
regiões (Caribe, índias Ocidentais, ocupada pela atual cidade de Santarém e
Venezuela, Guiana, Suriname). outras vilas e cidades próximas (Alter do
Boomert assim descreve um Chão, Belterra) (Fig. 3). Nesta região
muiraquitã do Baixo Amazonas: The desenvolveu-se uma das culturas mais
most elaborately sculptured specimens avançadas do Brasil, a cultura/tradição
have more or less triangular heads Tapajó/Santarém e Konduri, dizimadas
which are clearly separated from the pelo contato com a arrogância e
body. Toes, mouth and legs are brutalidade do colonizador europeu a
seldomly indicated. The provision for partir do século XVI. A cultura Tapajó
suspension typically consists of two deixou um grande legado em cerâmica
connected drillings, one lateral and policrômica. Há notícias de ocorrências
one dorsal, on either side. de muiraquitàs no rio Nhamundá, nos
municípios de Óbidos e Faro, também no
Etimologia Oiapoque, ilha do Marajó, às
Rodrigues (1875) usou o termo proximidades de Manaus e no alto Rio
com a grafia Muyrakytã. Embora seja Negro (Fig. 3), que não especificam se a
ainda motivo de controversa a forma é batraquiana ou não. Em Faro
etimologia do termo muiraquitã, hoje (Koehler-Asseburg, 1951) encontrou
aceita-se como verbete de origem tupi muiraquitàs em nefrita ou jadeíta como
[miraki'ta], tipicamente amazônico. amuletos, muito estimados pelos índios
Correntemente é grafado Muiraquitã, Uaboi, por estes fabricados (habitam o
conforme consta no trabalho de Barata rio Nhamundá, outrora habitado pelas
(1954). Em seu trabalho, com base Amazonas, segundo a lenda, que delas
em carta de Max Boudin, conclui que teriam aprendido a arte de confecção).
o termo em tupi seria pu'ir-a(w)ki- Todas as lendas são unânimes ao
(i)tã ou mu 'ir-a(w)ki-(i)tã fpu 'ir ou relacionar a região Trombetas/
mu 'ir = missangas, contas, enfeites, Nhuamundá, próxima a Santarém (Fig.
e t c ; a(w)ki =mexer, usar, tocar; itã = 3), como a região onde habitaram as
espécie de sapo ou rã. A grafia guerreiras Amazonas. A concentração de
muiraquitã já está consagrada no Novo peças na área do Tapajós, em área
Dicionário A u r é l i o , da lingua geográfica das culturas TapajóSantarém
portuguesa no Brasil. e Konduri, encontrada ao tempo de sua
extinsão, é uma forte evidência da relação
Ocorrência Geográfica e entre estes povos e os muiraquitàs.
Etnografia Embora todas as crônicas e trabalhos
mostrem essa relação, Barata (1954)
Os principais documentos e
informa, com base em pesquisas
publicações sobre os muiraquitàs
arqueológicas, que os Tapajó não mais
(Rodrigues, 1899; Koehler-Asseburg,
utilizavam nefrita ou jadeita em seus
1951; Barata, 1954; s/d; Boomert, 1987)
trabalhos líticos, nem um só muiraquitã
mostram que a maioria dos muiraquitàs
A1 A2

B1 B2

C1 C2
Figura 1. O muiraquitã segundo Barata (1954) cm pedra verde com furos laterais. Vistas frontal
e posterior. Proprietários do acervo: Al c A2) MAE, São Paulo; BI c B2: MPEG, Belém; Cl Ε
C2: profa. Amarilis Tupiassu, Belém.
Figura 2. Contas e formas cilíndricas confeccionadas em jade {nefrita) do Baixo Amazonas.
Acervo do MPEG, Belém.

desse material foi encontrado em em países vizinhos de domínio


Santarém e adjacências, para ser capaz de Amazônico, da América Central e índias
comprovar a proveniência local. Peças Ocidentais. No Baixo Amazonas estes
batraquianas foram encontradas na Ven- artefatos foram encontrados com os
ezuela, Guiana, índias Ocidentais índios Tapajó e Uaboi.
(Antilhas, Mar do Caribe), America Cen-
Material Constituinte dos
tral Continental, Colômbia, Venezuela,
Muiraquitàs
Guiana, Guiana Francesa, Suriname
(Palmatary, 1960; Boomert, 1987). Todos relatos históricos (livros e
Segundo eles isto demonstra a estreita crônicas) relacionam os muiraquitàs às
conexão destas áreas com a Amazônia pedras verdes, que Charles-Marie De
Brasileira. Pelo exposto verifica-se que os La Condamine, no século XVIII, já
muiraquitàs (formas batraquianas) foram correlacionara com jade: " ne differ-
encontrados principalmente no Baixo ent ni en couleur, ni en dureté du jade
Amazonas, em área hoje ocupada por oriental; elles resistem a la lime et on
Santarém, Óbidos e Faro e seus rios η 'imagine pas, par quel artifice les
principais como Tapajós c Trombetas- anciens Américains out pú les tail ler
Nhamundá (Yamundá). Além da et leur donner diverses figures
Amazônia Brasileira eles são encontrados d'animaaux " (Koehler-Asseburg,
1951). Nessa época sabia-se que as quase preto. A cor dominante é verde
esculturas de pedras verdes (green clara, com " v e i a s " de tonalidade
stones, pedra do Amazonas, Amazon- ligeiramente mais escura ou mais clara,
stone, Amazonstein, pierres vertes, que é característica de jade, e a mais
piérre divine da América, Europa e apreciada (Fig. 1). A dureza é elevada
Asia), as de maior valor, eram (em geral de 5 a 6, até 7), quando em
elaboradas normalmente em jade a jade, quartzo, feldspato, amazonita,
nefrita. Netto(1885) ainda comenta a diorito, rocha básica ou granito ou
preferência dos povos antigos pelas baixa, quando em talco (talcoxisto ou
pedras verdes, da mesma forma que os esteatito) ou serpentina. Entre os
povos atuais, ditos civilizados, sao historiadores, pesquisadores e cronistras
atraídos pelas mesmas pedras, a que se preocuparam com os
exemplo da esmeralda, turmalina, safíra, muiraquitãs, apenas Koehler-Asseburg
por que não acrescentar malaquita, (1951) e Boomert (1987) fazem
crisoprásio, turquesa. considerações sobre suas características
Os muiraquitàs e outros artefatos do físicas (cor, dureza, densidade,
Baixo Amazonas, foram esculpidos em dimensões, talhe, homogeneidade do
nefrita, ou seja em jade, além de talco, material, transparência, e t c ) . Os
amazonita, chloromelanita (variedade de muiraquitãs tem comprimento de 44 a
jadeíta), quartzo, diorito, dolerito, 64 mm, largura de 22 a 57 mm e
serpentina, argila, mas nunca resina espessura de 15 a 19 mm. O material é
(Rodrigues, 1875; Koehler-Asseburg, geralmente microcristalino, ligeiramente
1951). Os pingentes em formas fibroso, visível apenas localmente no
batraquianas encontrados fora do Baixo artefato, lembrando a feição de nó-de-
Amazonas, por outro lado foram pau, o que levou a interpretar a
elaborados principalmente (segundo etimologia da palavra muiraquitã, como
análises de difração de raios X) em nó-de-pau. Detalhes morfológicos,
serpentina, além de vários minerais semi- físicos, mineralógicos e químicos para
preciosos, como amethista, peridoto, as peças do MPEG e MAE são
aventurina, turquesa, cornelian, nefrita, etc. apresentados por Costa et al. (2002).
(Boomert, 1987). Os trabalhos quando
A Arte de Esculpir os Muiraquitãs
citam jade dão a entender a nefrita.
Estudo mineralógico e químico atual dos Os principais passos sugeridos
muiraquitàs está sendo publicado nesta para a confecção de um muiraquitã
revista por Costa et al. (2002). estão indicados na Figura 4. Os
elementos corporais externos da rã são
Aspectos Físicos Gerais Segundo a indicados através de incisões sobre a
Literatura pedra. Os artefatos ainda apresentam
Os muiraquitãs apresentam-se em os dois furos laterais no lado posterior,
vários matizes de verde, desde o branco não visíveis pela parte frontal. Para
ao esverdeado, verde amarelado, Barata (1954) esses furos são
azeitonado, leitoso, até o verde escuro, características fundamentais para
distinguir os muiraquitãs verdadeiros povos poderiam, com instrumentos
dos falsos. As quatro peças do acervo rudimentares e improvisados,
do MPEG e aquela da profa. Amarilis chegarem a produtos tão bem
Tupiassu de Belém se enquadram na esculpidos, elaborados e polidos. Eles
classificação de Barata (1954), supõem que para perfurar e esculpir a
e n q u a n t o as 5 peças do M A E o pedra, os índios utilizavam
enquadramento é apenas parcial. As procedimentos engenhosos, e que os
formas batraquianas encontradas além produtos finais eram frutos de muito
do domínio do Baixo A m a z o n a s paciência e habilidade. Eles estavam
apresentam um design distinto e na verdade elaborando preciosos
geralmente são muito m e n o s amuletos a partir de pedra rara..
elaboradas do que aquelas dessa região Barata (1954) encontrou em sítios
(Boomert, 1987). arqueológicos vários instrumentos
As populações pré-colombinas líticos como serras, pedras para
da Amazônia produziram artefatos em polimento e raspadores (Fig. 5), que
pedra, ossos e cerâmica, que, poderiam ter sido utilizados para
entretanto, não tinham o acabamento confecção dos muiraquitãs. Rodrigues
esmerado, observado nos muiraquitãs. (1899) imagina que, para fazer os
Antropólogos e arqueólogos ainda não furos laterais, utilizavam
conseguiram entender como esses procedimento semlhante ao dos índios

Figura 3. Localização das regiões onde os muiraquitãs e outras formas batraquianas teriam sido
encontrados, segundo Boomert (1987)..
Uaupés. Estes com auxílio de uma de habilidade, paciência e tempo, e
varinha de grela da pacova sororoca obviamente um objetivo maior, um
(Ucrânia Amazônica) e com areia fina amuleto. Admitir elaboração asiática e
e água, prendendo-se a pedra entre os chegada à Amazônia através de
dedos polegar e indicador de um dos pés movimentos de povos e troca, como
e fazendo-a girar entre as palmas das evocou Rodrigues (1875), é desmerecer
mãos, com habilidade, paciência e a capacidade dos povos que habitavam
tempo, conseguiam perfurar. Pelo a região. Além disso não são reportados
acabamento apresentado pelos muiraquitãs batraquianos ou similares
muiraquitãs, supõe-se que a eles em nefrita na Ásia. Há obviamente
dedicaram-se os melhores artesãos da muito artefatos em pedras com motivos
época, já que tinham a tarefa de esculpir batraquianos, porém com design
um artefato (amuleto) para uma completamente distinto dos muiraquitãs.
finalidade muito especial a partir de uma Ao mesmo tempo Rodrigues (1875)
pedra rara e dura. contradiz-se ao relatar que no Baixo
Nhamundá, local das Icamiabas (as
Principais Centros de Confecção
Amazonas de Orellana), encontrara
A maioria dos pesquisadores fragmentos de rochas e lascas do mate-
acredita que os muiraquitãs não foram rial com que eram confeccionados os
confeccionados na região onde foram muiraquitãs. As lendas também aludem
encontradas. Mas Barata (1954), como procedência local, ao contarem que os
mencionado anteriormente, faz muiraquitãs eram magicamente
referência a ocorrência de sítios elaborados a partir da lama de um lago
arqueológicos às proximidades de da região do Yamundá (Figs. 3 e 6) ou
Santarém contendo fabulosos que os muiraquitãs eram formas vivas
instrumentos em pedra (serras, pedras de encontradas nos lagos dessa região.
polimento e raspadores) adequados à Alguns europeus, nos primeiros séculos
confecção de artefatos líticos. Porém da conquista, espalharam que
nenhum muiraquitã sensu stricto foi aí muiraquitãs já existiam moles embaixo
encontrado. As pesquisas arqueológicas d'agua no lago, e que, ao serem
à época de Barata mostravam que os retirados da água, endureciam em
Tapa/o não utilizavam nefrita ou jadeíta contato com o ar. A procedência
em seus trabalhos líticos. Nenhum amazônica é contada por Ferreira
muiraquitã foi encontrado em Santarém (1885): este rio demora distante do
e adjacências em condições de Amazonas 15 léguas subindo-se pelo
comprovar uma fabricação de lado direito do Trombetas. Nas suas
proveniência local (Barata, 1954). Esses cabeceiras existe um lago, onde se
argumentos, por outro lado, não são encontram umas pedras verdes de
convincentes para eximir os índios da vários feitios, que se suppõe serem
capacidade de elaborar com os engenhos formadas de um barro que petrifica-se
da época, peças artisticamente tão bem η 'agua. Mesmo sendo lendas, reforçam
trabalhadas, necessitando tão somente a proveniência local.
a a
I Etapa: Desbaste 2 Etapa: Entalhes
O mineral era desbastado com auxílio do Com auxilio das serras friccionadas com água
raspador, confeccionado geralmente em e areia, surgem os delicados entalhes formado-
quartzo. Nessa etapa já se obtinha a forma res dos olhos, pernas e pescoço,
escolhida com as reais dimensOes.

a a
3 Etapa:Perfuração dos furos 4 Etapa: Polimento
Com auxilio de um objeto pontiagudo (ossos Utilizando a pedra de polir e areia fina os
m d o s
de animais ou mesmo pedaços de minerais ou í > arredondavam as laterais dos
rochas), os índios marcavam os canais e muiraquitàs e depois poliam usando o mesmo
posteriormente friccionando com água e areia processo,
os perfuravam.

Figura 4. Fases de elaboração de um muiraquitã segundo SILVA et α/.(1997).

c η
Figura 5. Artefatos em pedra encontrados por BARATA (1954) nos arredores de Santarém que
supôs terem sido utilizados para a manufatura de pingentes tipo muiraquitãs.
Os povos pré-históricos da produção de muiraquitãs em rochas
Amazônia, em especial aqueles do Baixo verdes. A área de influência ocupava
Amazonas, das culturas Santarèm/Tapajó o baixo curso dos rios Nhamundá,
e Konduri, ou seus antecessores, eram Trombetas e Tapajós. Essa extensa
capazes de esculpir artefatos em rocha região c o r r e s p o n d e ao contexto
dura como aquela dos muiraquitãs, já arqueológico dos complexos pré-
que, confeccionaram grande quantidade históricos tardios Konduri e Santarém
de artefatos em rocha e mineral tão duros (Séries Ceramista da Amazônia, estilo
ou mais duros que o jade a nefrita, ou inciso e p o n t i l h a d o ) , que se
teriam sido estes também confeccionados estenderam aos tempos históricos e
além das fronteiras amazônicas (?). São são c o r r e l a c i o n á v e i s às Séries
exemplos as setas das pontas de flechas, Arauquinoid da bacia do Orinoco e
em quartzo (cristal de rocha e que ainda podem ser correlacionadas
calcedônia), muitas delas de esmerado com a Tradição Policrômica
acabamento, embora desprovidas de Marajoara do arquipélago do Marajó.
polimento (que era denecessário) e Neste centro os p i n g e n t e s eram
machadinhos com fino acabamento e elaborados principalmente em jade
polimento; também contas cilíndricas nefrítico e com estilo próprio. Peças
bem elaboradas e com polimento (Fig. 2). foram encontradas ainda no Suriname,
Ε possível, por outro lado, que tenha no Marajó (Boomert, 1987). Ihering
havido troca, comércio e doação de (1906), quase um século atrás, já
presentes, entre os povos que habitavam deduzia a existência de duas regiões
não só a atual Amazônia Brasileira, como produtoras de jade no Brasil: Baixo
aqueles da América Central e América do Amazonas no Pará e Amargosa na
Sul (Koehler-Asseburg, 1951; Boomert, Bahia, confeccionando artefatos
1987). Ε difícil imaginar uma única muitos distintos entre si. Não se
região produtora de muiraquitãs, já que conhece muiraquitãs em Amargosa.
os mesmos tem sido encontrados em
vários locais da América Central, embora 2.) Centro Setentrional do Suriname
sem a denominação amazônica e ainda Está associado com o complexo
com diferenças na arte final e na Kwatta da zona costeira central, uma
composição do material. tradição ceramista pré-histórica tardia, um
É Boomert (1987) que através de membro da série Arauquinoid. A maioria
trabalho crítico e detalhista, cobrindo dos pingentes são batraquianos, com de-
toda a região de ocorrência de formas sign distinto dos muiraquitãs, feitos de
batraquianas em pedras verdes, discute riolitos, seguidos por tremolita, nefrita,
três importantes centros de produção quartzo, metabasalto, greisen e laterito
destes artefatos, incluindo os (Boomert, 1987). A forma e o design
muiraquitãs: batraquiano variam muito e lembram os
espécimes amazônicos. Mas pingentes
1.) Centro do Baixo Amazonas bem elaborados são raros. Os poucos
Foi o principal centro de confecionados em nefrita (tremolita)
devem representar importações da os tempos Salaoid deve ter existido uma
Amazônia (Boomert, 1987); rede complexa de intercâmbio nas
Antilhas, quando houve uma intensa
3.) Centro Montserrat-Prosperity-
movimentação, em particular, de pedras
Vieques—Antilhas
semi-preciosas e outras matérias-primas,
Uma grande quantidade de que como ornamentos elaborados, inclu-
espécimes batraquianos, mais de 1400, sive pedras verdes, ao norte,
em todos estágios de confecção, deslocavam-se para sul, até a costa da
encontrados no contexto Saladoid, foram América do Sul (Boomert, 1987).
aí encontrados e foram confeccionados
Uso
em serpentina, ametista, peridoto,
aventurina, turquesa, cornelian, nefrita, Os muiraquitãs eram utilizados
entre outros (BOOMERT, 1987). Durante p r i n c i p a l m e n t e como a m u l e t o s
(pingentes), ainda ao tempo quando feições femininas, onde as mulheres
eram relatados apenas como pedras auxiliavam nas batalhas, e Orellana
verdes, como mostram os relatos da intencionalmente confundira com as
maioria dos historiadores e Amazonas da mitologia grega.
pesquisadores: Koehler-Asseburg (1951) diz ainda:
De La Condamine, no século "Estes objetos, dotados de virtudes
XVIII, já menciona que as pedras verdes maravilhosas, inatas ou adquiridas,
(os muiraquitãs) eram utilizados sob a constituíam (e constituem) amuletos que,
forma de pendente peitoral (De La por tal motivo pertenciam à magia.
Condamine, 1992). Todavia, para o seu pleno efeito, deviam
Martius (1867) cita uso como ser impessoais, inconscientes e portáteis ".
Halsschmuck (colar) com força de Nimuendaju (1948) acredita que
amuleto: "Diese Steine sind uebrigens eram utilizados como jóias apostas a
nicht das einzige Amulet, welches sie gegen testa, suspensos por cordéis que
Krankheiten, Schlangenbiss und andere atravessavam os furos laterais. Barata
Übel am Halse tragen. Gleiche Krqfte (1954) refuta esta idéia, pois a grande
schreiben sie dem Muraquè-ità, einem aus dimensão de várias peças seria
dem Ruecken der grossen Flussmuschel inconveniente para uso na testa.
geschnittenen, unfonnlichn Halsschmucke, Fernandes (1990) informa que índios
der Perlmutter oder irgend einem gtOssen, Pariukur do rio Arukuá do Estado do
abgerundeten Fischknochen zu". Ε Pará usavam muiraquitã pendurado no
seguido por Netto (1885), que menciona nariz, e que quando morriam eram
ouso pelos caciques. enterrados com o mesmo. Rodrigues
Para Heriarte (1874) eram pedras (1899) conheceu uma velha índia da
de grande estima, utilizadas como dote tribo Tapuyus {Tapajó) com cerca de 120
e para compra de mulheres para o anos, que contara, que quando era
casamento, escravos e cães de caça. menina trocavam-se produtos por
Rodrigues (1875) relata que velho muiraquitãs no rio Yamundá (Figs. 3 e
índio tapuya possuía um muiraquitã, 6) ou que os muiraquitãs eram usados
legado de seu pai, guardado como como amuletos pendurados no pescoço.
precioso tesouro, que não trocava e nem Para Boomert (1987) the "green
vendia por conter virtudes imaginárias, stones formed one of the principal
protegendo-o de certas moléstias como media of intra- as well as interethnic
epilepsia, esquinência, eólicas, e além ceremonial exchange throughout the
de ter virtudes e encantos; traziam-no Tropical Forest area of northern South
pendurado ao pescoço. America. Obviously they represent
Embora Frei Gaspar de Carvajal primitive valuables, which were
durante a expedição de Orellana, não exchange between the elites of the
mencione as pedras verdes, Rodrigues chiefdoms in the Amazon and Orinoco
(1899) acredita que as Ikamiabas já floodplains and between the big men
usavam os muiraquitãs. Para ele as of the tribal communities beyond the
Icamiabas eram tribo indígena com major riverine systems of the region.
The amazon-stones represented highly animais também lembra a forma externa
prestigious items of adornment: they do órgão reprodutor feminino e sua
were ways of exhibiting wealth and localização corporal, o que reforça ainda
visual symbols of successful mais a idéia relativa a fertilidade. A alta
participation in the regional exchange fecundidade dos batráquios já era
network". admirada há muito tempo pelos povos
Pelo exposto e pela presença dos antigos. Juntos, cor e forma
furos laterais, caminhos para o cordel, batraquianas, estariam aludindo à
está claro que os muiraquitãs eram fertilidade na reprodução humana, na
pendurados em algum lugar do corpo época muito importante para formação
humano, até como tanga, como enfeites de guerreiros e agricultores/coletores.
para vaidade, como superstição, ato Essa analogia entre o muiraquitã (forma
religioso. Indubitavelmente era um batraquina) e a anotomia externa do
elemento muito estimado, um amuleto, sexo feminino, como parecem indicar as
e que provavelmente ao longo dos lendas e ditos populares, j á fora
séculos tenha tido outros usos, como os identificada por Koehler-Asseburg
mencionados anteriores. (1951). Ε essa correlação entre
muiraquitãs e lenda das guerreiras
Simbolismo da Forma Amazonas, como será mostrada a
Batraquiana seguir, não aconteceu por acaso. A cor
Não deixa de ser extraordinário o verde dos batráquios, perpetuada na
tributo que o povo Tapajó devotava aos forma de muiraquitãs, retrataria ainda a
muiraquitãs. A combinação pedra verde cor das águas, mais especificamente do
(jade) e forma batraquiana não deve ter rio Tapajós e dos inúmeros lagos que se
ocorrida por acaso. Embora os povos estendem pela região, o centro princi-
Tapajó confeccionassem em pedras pal da cultura Tapajó; da mesma forma
muito objetos para diferentes utilidades, retratava a cor da floresta verdejante.
apenas os muiraquitãs foram feitos em Mata e águas constituindo o mundo dos
jade. Entende-se que essa pedra tinha povos pré-colombinos da região.
e tem algo de especial, além de sua Rodrigues (1899) mostra ainda
possível raridade, como bem descreve que nas tribos atuais, os batráquios
Harder (1992). Às pedras verdes, como exercem poder místico e respeitoso,
o jade, em países da Ásia, como a fato possivelmente herdado, através
China, e da América Central, são dos tempos, dos seus antecessores. A
creditadas virtudes medicinais e rã e o sapo tem importante papel no
espirituais, assumindo a função de mundo mental e na arte de muitas
verdadeiros amuletos. Na Amazônia não culturas, observado em diferentes
poderia ter sido diferente. O muiraquitã regiões da Ásia, Oceania e América. A
na forma batraquiana poderia estar eles se ligam não só artisticamente,
retratando a fertilidade, já que animais como também lhe atribuem funções
como as rãs tem alto poder de boas e más, ou mesmo o papel de
reprodução. A forma geral desses verdadeira d i v i n d a d e ( K o e h l e r -
Asseburg, 1951). Ε nos índios da de outros materiais. De todos estes,
A m é r i c a do Sul não teria sido apenas jade não seria conhecido na
diferente, segundo Wassen (1934a; b). Amazônia, nem no resto do Brasil. No
Eles os consideram venenosos na final do século dezenove, em 1875,
alimentação, relacionam o seu coaxar Fischer (1880a; b), em seu trabalho
com a chuva e a fertilidade. O valor Nephrit und Jadeit, estudou enúmeros
não material atribuído aos batráquios, artefatos líticos encontrados em vários
segundo Wassén, surgiu na América, sítios arqueológicos da Europa, que
entre os índios, que viviam cercados eram feitos em jade. Sabendo que jade
por eles. Sapos e rãs são animais que era desconhecido também na Europa,
se apresentam misteriosos e cheios de ele propôs que o mesmo tivesse vindo
p r e d i c a d o s m á g i c o s , benéficos e da Asia. Era a primeira vez que se
maléficos, para os povos indígenas da aplicava a mineralogia à arqueologia.
Amazônia. Ainda hoje são assim Esta conclusão promoveu a procura por
vistos por certos povos ou jade na Europa, tendo sido encontrado
comunidades. Muitas tribos indígenas imediatamente, invalidando a conclusão
brasileiras atuais continuam de Fischer. Logo depois Fischer (1884)
devotando a esses animais poderes descreve nefrita no Brasil e na Venezu-
sobrenaturais. Recentemente pajé ela. Em seguida Barboza Rodrigues
indígena brasileiro tentou curar o publicava seu primeiro trabalho sobre
indigenista brasileiro Augusto Rushi muiraquitãs (Rodrigues, 1899), e ao
que teria sido atingido pelos poderes tomar conhecimento do primeiro
maléficos de batráquios da Amazônia. trabalho de Fischer, estendeu as
mesmas idéias para o jade da Amazônia.
Origem da Matéria-Prima e O jade aqui teria vindo também da Ásia.
Aspectos Etnográficos Ε assim escreveu: O muyrakytã è um
Uma das questões mais intrigantes monumento Asiático deixado em solo
que permanece até hoje, e que surgiu há Americano por um ou mais povos
mais de dois séculos atrás é, qual a imigrantes. Essas hipóteses imaginativas
procedência do jade utilizado na baseadas em lendas e na lingüística,
confecção dos muiraquitãs (pingentes harmonizadas com a gênese bíblica para
batraquianos) e formas não explicar a corrente migratória da Ásia
batraquianas, encontrados na Amazônia, até a Amazônia, foi duramente criticada.
principalmente no Baixo Amazonas e Elas parecem não ter fundamento.
ainda em locais na porção setentrional Mas nefrita foi encontrada em
da América do Sul e Central. Ainda hoje várias partes do Brasil, a partir do
não se dispõe de resposta satisfatória a século XX. Uma revisão bibliográfica
estas questões, embora muitas recente a esse respeito foi feita por
explicações tenham sido dadas, algumas Hoover (sem data) e outra mais antiga
bastante imaginativas. Ainda no século de Silva (1917). Jade a nefrita já foi
passado se sabia que os muiraquitãs registrado em Baytinga (Amargosa-BA),
eram elaborados em jade, nefrítico, além como seixos rolados e como artefatos
(Ihering, 1906); Vitória da Conquista-BA estão envoltos em lendas de romântica
(Hoover, sem data); em Cabo Frio no beleza e que representam a forma de
interior do Rio de Janeiro (Silva, sem seu povo mostrar o entendimento de
data) e em Guarapuava no Paraná seu meio, expressando respeito e
(Moraes, 1932); em Piumhy de Minas admiração aos possíveis poderes
Gerais como machadinhos (Nephritbeile) sobrenaturais que o regem (Moura &
(Fischer, 1884); Ubatuba-SP como Silva, 1929; Bezerra, 1985; Borges,
matéria-prima (Franco et al., 1972 ); 1986; Dieguez & Silva, 1996; Silva,
Olinda-PE (Silva, sem data). 1997; Silva et a/., 1997). Entre elas
Sobre nefrita na Amazônia, na destacam-se:
forma de muiraquitãs, MORAES (1932) Segundo as Ikamiabas
acredita que a fonte da matéria-prima
encontra-se nos terrenos cristalinos do Elas eram uma tribo de mulheres
Pré-Cambriano, tanto ao norte nas guerreiras, sem maridos, as Amazonas
cabeceiras dos rios Jari, Paru, Trombetas de Orellana, que não admitiam entre
e Negro como ao sul nos cursos si a presença masculina e nem a sua
superiores dos rios Tocantins, Xingu, aproximação. Manejavam o arco e a
Tapajós e afluentes do Madeira. Para flecha com destreza. Para isso
Moraes (1932) Carece pois, de toda queimavam o seio direito das filhas.
importância, no ponto de vista Uma vez ao ano, nas fontes do rio
archeologico, a presença de jade na Jamundá (Nhamundá ou Yamundá)
região do Amazonas. O encontro dessa (Fig.7), na serra Yacy-taperê, onde
substancia alli não constitue argumento havia um lago formoso, consagrado à
a favor das hypotheticas incursões de lua, o Yacy-uaruá (espelho da lua), nas
povos euro-asiaticos àquellas paragens, fontes do rio Jamundá, as lacamiabas
uma vez que ella pôde existir em seus faziam, certa época do ano, uma
depósitos originaes no próprio valle grande festa em nome de lacinará
amazônico. (Fig. 8). Pouco antes da meia-noite,
quando a lua estava quase a pino, em
Jade nefrítico é encontrado em várias
procissão, dirigiam-se ao lago, tendo
partes do mundo, tanto em ambientes
nos ombros, potes cheios de perfume,
geológicos jovens como no Proterozóico
que eram derramados na água para
e Arqueano, que estão bem representados
purificá-la. Dançavam, cantavam e
no Brasil e na Amazônia. Existe muito jade
depois atiravam-se ao lago para o
nefrítico nas Américas incluindo o Canadá
banho purificador. À meia-noite,
e ainda na Austrália, sem mencionar os
quando a lua se refletia na face lisa
países asiáticos, onde o jade vem sendo
do lago, após fazer amor com os
usado desde os tempos históricos (por mais
Guaçaris (homens de tribo indígena
de 2000 anos) até o presente (Harder, 1992;
especialmente convidados para a
Weise, 1993).
festividade), mergulhavam e traziam
Lendas e Mitos do fundo do lago um barro mole e
Os muiraquitãs da Amazônia verde, ao qual davam a ele formas
Figura 7. Figura estilizada do possível lago Espelho da Lua onde as Ikamiabas supostamente
realizavam seus rituais, o lacinarà. segundo Moura (1929).

Figura 8. Figura estilizada das Ikamiabas em torno do lago. Modificado de Monteiro (1997).
batraquianas (os muiraquitãs), que Segundo o Livro de Histórias
endureciam ao ser retirados da água. Infantis Vovó Amazônia (Pese,
Com esses objetos presenteavam os 1981, adaptado).
Guaçaris, como amuletos, que eles
Há muitos e muitos anos vivia
traziam pendurados ao pescoço.
uma tribo de índios em Tunaí, no rio
Outra versão conta que no lago
Içana (Alto rio Negro). Viviam felizes
morava a mãe dos Muiraquitãs, e que
da caça, pesca, da agricultura e coleta
quando as Amazonas mergulhavam no
de frutas. Em tempos de paz, os homens
lago, recebiam dela o muiraquitã. Na
cuidavam do sustento da família e as
festa do ano seguinte as mulheres que
mulheres da casa, dos filhos e roçado.
tinham dado a luz meninos os
Na guerra, eles defendiam a taba, e elas
entregavam aos pais, enquanto as
limpavam as armas, cuidavam dos
filhas permaneciam com as mães.
idosos e das crianças que ficavam.
Segundo os índios Uaboi Quando os homens voltavam da luta,
No lago Yacy-uaruá moravam a encontravam o remédio milagroso para
mãe dos muiraquitãs e os muiraquitãs, curar as feridas e a rede de tucum para
e que só as mulheres podiam apanhá- embalar o corpo cansado. As índias
los. Para tal, feriam uma parte do eram delicadas e dóceis, faziam tudo o
corpo, e deixavam cair sobre aquele que os homens mandavam (moquear,
que desejavam possuir, uma gota de preparar cauim, cozinhar bolo de milho,
seu sangue. O muiraquitã morria e elas etc). O chefe do tribo, Izi, neto do Sol,
facilmente m e r g u l h a v a m e o considerado sábio e divino, ditava as
apanhavam. Havia muiraquitãs de leis, severas, principalmente para as
várias formas e cores, e com eles, as mulheres, que eram tratadas entre eles
mulheres que tinham dado à luz, sem grande consideração. Essas leis
recompensavam seus amantes, pais de proibiam as mulheres até de
suas filhas. participarem no culto de seus deuses e
de ouvir os sons da orquesta sagrada
Segundo os índios Uaupés
(pirei). Certo dia Izi com seus homens
Os velhos da tribo Uaupés subiu a montanha para lhes apresentar
contam que, antigamente, junto ao rio as novas leis. Algumas índias não
de mesmo nome, havia um lago onde contiveram a curiosidade, e foram
morava uma anciã conhecida como a espiar. Foram flagradas, e como castigo,
mãe do muiraquitã. Certa manhã a o chefe transformou-as em estátuas de
anciã saiu pelo mato a passear, pedra. Vendo assim as companheiras, as
transfigurando-se em serpente. Um outras índias ficaram tristes, indignadas
homem, que havia ido caçar, deparou- e passaram a chorar e clamar por
se com a serpente e a matou. vingança. Enquanto os índios
Imediatamente o rio cresceu, construíam um templo mais distante,
inundando tudo e afogando toda a onde as mulheres não podiam ir,
tribo, ficando apenas a marca da pobre surgia uma índia destemida, Naruna,
velha, o muiraquitã.
disposta a c o m a n d a r a vigança. elas quisessem. Mas tanto imploraram
C o n c l a m o u as c o m p a n h e i r a s a que chegaram a um entendimento. Os
abandonar os homens, pois só assim maridos viveriam com elas alguns dias
eles iriam sentir a sua falta, pois eram por ano. Quando os filhos nacessem,
elas que preparavam a comida, teciam entregariam os meninos aos pais e
as redes que dormiam, carregavam as ficariam com as meninas. Nesse caso,
armas, cuidavam das crianças. - Ε que dariam a eles um a m u l e t o , o
fazem eles? D e s p r e z a m - n o s ! - muiraquitã. No lago vivia um
Decidiram ir embora e viver sozinhas, infinidade de peixinhos de várias
numa terra só delas, em que nenhum cores. Eles eram denominados de
homem pudesse mandar. - Ε os filhos muiraquitãs. Quando chegava a época
homens, vão crescer! -, concluíram dos homens visitá-las, as cunhatãs
outras, o que fazer? Decidiram deixá- golpeavam-se e deixavam cair na água
los na aldeia, à própria sorte, a espera o próprio sangue ainda quente. Em
dos pais. Levaram apenas as meninas. contato com o sangue, os peixinhos
Ε assim em várias canoas desceram o encantavam-se, transformando-se em
rio Içana, entraram no rio Negro e pedras de vários feitios, conservando,
passaram muitas de suas cachoeiras. entretanto a própria cor. As índias
Abandonaram o rio c entraram na então mergulhavam e iam apanhar o
mata, e depois de muito andar, precioso amuleto no fundo do lago, e
encontram um grande rio, que se abria o ofereciam aos pais de suas filhas.
formando lagoas e lagoinhas, com Essa pedra, por isso, ficou
colinas verdejantes. Decidiram ali simbolizando a paz e a felicidade.
ficar, e batizaram o lugar de Iaci-
Taperê (serra da Lua). Junto à colina Conclusões
havia um lago, que denominaram de Os muiraquitãs em sua forma
Iaci-Uaruá (espelho da lua). Ε ali batraquiana, confecionado em rocha
nasceu a tribo das cunhatãs teco-imãs verde, são um artefato arqueológico real.
(mulheres que vivem sem homem). Sua história por outro lado está envolta
Por sua vez quando os índios voltaram em lendas e mitos, que tem um cunho
a tribo, encontraram apenas os eminentemente amazônico, do Baixo
meninos, que lhes contaram o que Amazonas, a terra da lenda das
havia acontecido. Só assim Amazonas de Orei lana, das Ikamiabas.
compreenderam que foram injustos São artefatos cuidadosamente
com suas mulheres. Saíram esculpidos, em mineral ou rocha verde,
imediatamente ao encalço delas. normalmente jade nefrítico, que tinha
Depois de muitos dias de caminhada um grande valor simbólico, usado para
encontraram as companheiras naquela vários fins, mas principalmente como
beleza de paisagem colinosa e amuleto. Formas similares foram
lacustre. Foi em vão a tentativa de fabricadas além das fronteiras do
fazerem as pazes e de retornarem à Baixo Amazonas, até a região do Car-
taba, mesmo prometendo tudo o que ibe, mas aparentemente não tinham o
simbolismo que tinha o muiraquitã, Museu de Arqueologia e Etnologia-
além de não terem a perfeição destes. MAE da Universidade de São Paulo,
Mas os povos Além-Amazônicos que através de sua então diretora, Dra.
sabiam de sua existência, e os Sílvia Maranca e seu colaborador Dr.
utilizavam como intercâmbio. A Eduardo Goes Neves, nos receberam
matéria-prima era de origem amazônica com distinção e atenção e nos deram
ou mesmo da América Central, Caribe, acesso aos muiraquitãs do MAE. Ao
Antilhas e de outras regiões de países prof. Dr. Raimundo Ν. Ν. Villas, do
amazônicos vizinhos ao Brasil. Por sua Centro de Geociências/UFPa, que
vez jade a jadeíta não é conhecido na também nos levou até a peça da Profa.
Amazônia e nem no Caribe e nem nas Amarilis Tupiassu.
Antilhas, mas tem sido encontrado com
freqüência na América Central (Guate- Bibliografia citada
mala, México) em sítios arqueológicos
Barata, F. 1954. O muiraquitã e as contas dos
e em fontes geológicas (Gendron, 1999; Tapajó. Revista do Museu Paulista, 8:
Johnson & Harlow, 1999). Assim os 229-252.
muiraquitàs, confeccionados Barata, F. s/d. Arqueologia —As Artes Plásticas
principalmente em jade nefrítico, são no Brasil. Rio de J a n e i r o : Editora
expressões artísticas próprias dos povos Tecnoprint S.A., 151p.
que habitavam a região do Baixo Bezerra. A M. 1985. Lendas e mitos da
Amazônia. Belém, DEMEC, 102p.
Amazonas e não artefatos importados
durante a imigração de povos pré- Boomert, A. 1987. Gifts of the Amazons;
"green stone" pendants and beads as items
históricos da Ásia para as Américas. of ceremonial exchange in Amazonia and
Nesta região habitavam, como the Caribbean. Antropológica, 67:33-54.
mencionado anteriormente, povos que Borges, R. 1986. Muiraquità. In: Borges, R.
desenvolveram a melhor expressão da (Ed.) Vivência Amazônica. Belém, Edições
arte ceramista, como os Santarém/ CEJUP, p.629-630.
Tapajó e Marajoara, que certamente Costa, M.L.; Silva, Α.; Angélica, R.S.; Pollmann,
teria sido capazes de elaborar objetos em H.; Schukmann, W. 2000. Muyrakytã ou
muiraquitã: um talismã arqueológico em
pedra como os muiraquitàs. jade procedene da Amazônia: aspectos
físicos, mineralogia, composição química c
Agradecimentos sua importância etnográfica-geológica. Acta
Amazonia: 32( 3)
Ao CNPq pelo apoio financeiro De La Condamine, M. 1944. "Viagem na
(Proc. 520.041/95) e a CAPES pela America Meridional descendo o rio das
concessão de bolsas de estudos; ao Amazonas". Biblioteca Brasileira de
Cultura, No. 1, Rio.
Museu Paraense Emílio Goeldi-
De La Condamine, M. 1992. Viagem pela
MPEG, em Belém-PA, através das
Amazonas 1735-1745.Tradução de Maria
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Guapindaia e Edith Pereira, pelo apoio sur 1'Amazone. Rio de Janeiro: Nova
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Aceito para publicação em 04/06/2002

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