Você está na página 1de 2

São Paulo, segunda-feira, 10 de setembro de 2001

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

CONSUMO

INADIMPLÊNCIA

Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como


tornar pública a dívida; poucos consumidores reclamam

Cobrador usa intimidação como


estratégia
EUNICE NUNES
FREE-LANCE PARA A FOLHA

Se você atravessa um período de dificuldades e deixou de


pagar as contas em dia, não se intimide com o cobrador
insolente, que liga insistentemente para sua casa, seu
trabalho, até para vizinhos, e faz alarde da situação de
devedor.
Essa "metodologia" de cobrança -que humilha, expõe ao
ridículo, persegue e acua o devedor- é ilegal e pode até
configurar crime contra as relações de consumo. O credor
pode e deve cobrar seu crédito, mas nos limites legalmente
estabelecidos.
Apesar de proibidas por lei, as abordagens intimidadoras
para com os devedores são comuns. Paradoxalmente, não há
quase registros de reclamações de abusos na forma de cobrar.
Segundo Edila Moquedace de Araújo, assistente de direção
do Procon/SP, a cobrança vexatória nunca é o objeto
principal da reclamação. É sempre acessória. O consumidor
procura o Procon, por exemplo, para se queixar dos
acréscimos cobrados pelo atraso e acaba reclamando do
cobrador.
"Em parte isso ocorre porque o consumidor desconhece a
legislação. E também porque quem deve sente-se culpado
por estar devendo", avalia a assistente de direção.
Como consequência, acrescenta Aparecido Donizete Piton,
presidente da Andif (Associação Nacional de Defesa dos
Consumidores do Sistema Financeiro Nacional), o devedor
intimidado cede às pressões e acaba assinando acordos
desonestos, com juros e acréscimos extorsivos, ou, o que é
pior, recorrendo a agiotas.
"A situação é muito séria. O pessoal contratado por empresas
supostamente especializadas em cobrança é desqualificado,
com pouca cultura e excesso de truculência", afirma Piton.

Domínio público
Uma das táticas usadas pelos cobradores para pressionar os
devedores é dar publicidade à cobrança. Seja ligando para a
casa do devedor e falando com qualquer pessoa que atenda
ao telefone, seja ligando para os vizinhos e colocando-os a
par da situação com a desculpa de que precisam dar um
recado, ou até mandando correspondência cujo envelope
denote tratar-se de cobrança.
"O débito é pessoal, portanto, a cobrança dá-se apenas entre
credor e devedor. Além disso, o cobrador não pode interferir
no trabalho, descanso ou lazer do consumidor", informa a
advogada Elisabete Joly Navega.
Por exemplo, infringem a lei listas em corredores de escolas
particulares com nomes dos alunos inadimplentes, assim
como o quadro no caixa da padaria expondo os cheques sem
fundos.
Também atenta contra a lei o envelope que estampa a
expressão "cobrança" ou "aviso de registro no SPC/Serasa".
Ameaças, afirmações falsas ou enganosas do tipo "se não
pagar, vai preso" são inadmissíveis.
Visitar ou telefonar com insistência para o trabalho do
devedor, levando inclusive o problema ao conhecimento do
seu superior -há quem perdeu o emprego por causa disso- ,
nem pensar.
"A técnica utilizada visa primeiro desestabilizar
emocionalmente o devedor. Depois, quando ele, fragilizado,
tenta encontrar uma solução, as empresas de cobrança dão o
"bote'", diz Piton.
Nessa segunda fase, segundo o presidente da Andif, o
cobrador tem outro perfil: é mais cordial. E induz a pessoa a
fechar um acordo, quase sempre cobrando encargos e
acréscimos indevidos.
O consumidor pode pedir indenização por danos morais
decorrentes da humilhação causada pela cobrança abusiva. O
valor será livremente arbitrado pelo juiz. Se houver dano
financeiro, como a perda do emprego, cabe também
indenização por danos materiais.

Texto Anterior: Livros jurídicos - Walter Ceneviva


Próximo Texto: Código prevê multa, detenção e perda de
licença
Índice

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em
qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.

Você também pode gostar