Você está na página 1de 489

Copyright ©2021 Jéssica Macedo

Todos os direitos reservados. É proibido o


armazenamento ou a reprodução de qualquer parte desta
obra - física ou eletrônica -, sem autorização prévia do
autor. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido
na Lei nº 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código
Penal.

Projeto Gráfico de Capa e Miolo


Jéssica Macedo
Preparação de Texto
Aline Damaceno
Revisão
Ana Roen

Esta é uma obra de ficção. Nomes de pessoas,


acontecimentos, e locais que existam ou que tenham
verdadeiramente existido em algum período da história
foram usados para ambientar o enredo. Qualquer
semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
Sumário
Sumário
Sinopse
Prólogo
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Quatorze
Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis
Capítulo Dezessete
Capítulo Dezoito
Capítulo Dezenove
Capítulo Vinte
Capítulo Vinte e Um
Capítulo Vinte e Dois
Capítulo Vinte e Três
Capítulo Vinte e Quatro
Capítulo Vinte e Cinco
Capítulo Vinte e Seis
Capítulo Vinte e Sete
Capítulo Vinte e Oito
Capítulo Vinte e Nove
Capítulo Trinta
Capítulo Trinta e Um
Capítulo Trinta e Dois
Capítulo Trinta e Três
Capítulo Trinta e Quatro
Capítulo Trinta e Cinco
Capítulo Trinta e Seis
Capítulo Trinta e Sete
Capítulo Trinta e Oito
Capítulo Trinta e Nove
Capítulo Quarenta
Capítulo Quarenta e Um
Capítulo Quarenta e Dois
Capítulo Quarenta e Três
Capítulo Quarenta e Quatro
Capítulo Quarenta e Cinco
Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
Outras obras
Sinopse

Marco Bellucci era o grande chefe da máfia italiana. Antes de assumir


seu posto, ele foi criado com regras rígidas de sangue e honra. Ele era um
líder que governava com pulso de ferro e sabia que não existia nada mais
importante do que a família. Sua vida sempre foi em função da máfia e ele
sabia que cada decisão tinha que ser feita pensando nos seus, inclusive o
matrimônio.

Em pleno século 21, casamentos ainda eram contratos, mulheres não


tinham voz e eram tratadas como peça de barganha que favoreciam homens
da máfia. Laís tinha apenas onze anos quando ficou noiva em um acordo que
traria proteção à sua família em Portugal e beneficiaria os italianos. Era
apenas uma menina quando se tornou posse do chefe. Levada à Itália, foi
colocada em um convento até que completasse vinte e um anos e pudesse se
casar com um homem quinze anos mais velho e líder de uma das maiores
organizações criminosas do mundo.

A virgem prometida só conhecia o que falavam do seu futuro marido,


a pior face do cruel criminoso e, a caminho do casamento, ela tomou a
arriscada decisão de fugir, para descobrir que a vida fora do convento não era
nada do que ela imaginava.

Ao ser deixado no altar por uma jovem ingênua que não tinha ideia do
que está fazendo, Marco tinha duas escolhas: continuar a aliança e encontrá-
la ou começar uma guerra.
ATENÇÃO! Essa história contém cenas impróprias para menores de
dezoito anos. Contém gatilhos, palavras de baixo calão e conduta inadequada
de personagens.

A opinião política e religiosa da autora não se expressa nesse livro.

A autora não apoia nem concorda com o comportamento duvidoso


dos personagens.

Essa é uma obra de ficção e não retrata a realidade da máfia italiana.


Para minha leitora Laís, do grupo do Whats App “Leitores da Jéssica”,
e para a minha querida Rosimeire, mãezinha do coração e mãe dos meus mafiosos.
Prólogo

Dez anos atrás...

O sol batia forte no para-brisas do carro naquela manhã de verão. Se


existiam várias coisas que eu odiava na vida, o calor era uma delas. Era
irritante, me deixava suando e com a cabeça doendo. Contudo, aquele era um
dia que não poderia me deixar incomodar por algo tão trivial quanto o clima.

Fazia uma semana que meu pai havia morrido em uma emboscada por
uma família rival e rapidamente precisei assumir os negócios da família.
Ainda que eu houvesse sido preparado para isso a minha vida inteira, como
um príncipe que era treinado desde criança para assumir um reino, nada era
como a prática. Um evento traumático, como a morte de um pai, de repente te
tirava das sombras e o tornava imperador.

Por sorte, eu tinha os meus irmãos mais jovens ao meu lado.


Poderiam dizer que era idiotice, mas eu confiava neles com a minha própria
vida. Theo e Mateo estavam comigo naquele momento quando desci do carro
diante de uma grande mansão em Almada, uma cidade perto de Lisboa.

Bati a porta, ouvindo o impacto diante da minha força, e arrumei os


óculos de sol sobre meu nariz. Maldito sol que deixava a minha cabeça
latejando. Ajeitei o meu blazer, certificando-me de que a arma escondida na
minha cintura estava encoberta. Balancei a cabeça e mexi no meu cabelo
preto antes de seguir na companhia dos meus homens para o interior da
grande mansão. O hall muito claro e bem iluminado parecia ofuscar o
dinheiro sujo com que, provavelmente, aquela casa e os carros na garagem
foram comprados.

Assim como qualquer governante na minha posição, eu era


responsável por política. Era impossível se manter um bom regime sem
alianças importantes, e aquele era meu dever diante da minha reunião com
Afonso Barbosa, o chefe da maior máfia portuguesa.

Segui pelo corredor, muito bem decorado com pinturas que não dei a
menor importância e avancei até uma enorme sala de estar. Meus homens se
dispuseram na entrada, pacificamente, mas com as mãos próximas as armas,
prontos para usá-las caso algo saísse do controle.

O homem sentado em uma poltrona marrom de couro levantou-se,


segurando um copo de uísque. Ele tinha uma expressão séria, mas sorriu
quando seus olhos castanhos me encontraram na entrada da sala, com uma
postura altiva e firme. Eu tinha apenas vinte e seis anos, mas a minha arma já
havia disparado mais balas do que eu era capaz de contar.

— Marco Bellucci.

— Afonso Barbosa.

— É um prazer ver que se dispôs a vir a minha casa.

— Vamos até onde os negócios nos levam, não é mesmo? — Dei de


ombros e mostrei o meu melhor sorriso amistoso. Confesso que não era bom
nisso, minha mãe, desde quando eu era criança, costumava me chamar de
carrancudo. Estava sempre de cara fechada e, dificilmente, me viam rindo ou
brincando com outros garotos. Ela reclamava por meu pai ter colocado o peso
da máfia cedo demais sobre os meus ombros, porém acho que ele fez certo,
ou eu não estaria tão pronto para sua morte caso houvesse agido de forma
diferente.

— Você tem razão. — O homem deixou o copo sobre uma mesa


redonda ao lado da poltrona e caminhou na minha direção.

Meus homens não se moveram, apenas encararam os dele, que


também tinham armas a postos. Caso um dos lados decidisse atirar,
certamente começaria uma verdadeira chacina, o que não era bom para
ninguém.

— União de famílias por casamento é um costume muito antigo e


usado para selar acordos há milênios.

Infelizmente, uma grande idiotice que se perpetuava, apenas pensei.


Eu sabia, desde que fora preparado para assumir aquela posição que, muitas
vezes, a minha opinião pessoal iria bater de frente com os interesses do meu
império e teriam que ser colocadas de lado, assim como daquela vez.

A negociação com Afonso havia começado antes mesmo do meu pai


morrer e, após eu assumir, não poderia voltar atrás, ou criaria uma inimizade
com os portugueses que não precisávamos. Além disso, aquele acordo seria
benéfico.
— Nós precisamos do seu porto para a entrada do contrabando que
vem da América Latina e vocês precisam da nossa proteção contra os Costas,
então parece bem justo para mim.

— Para isso entregarei para você o bem mais precioso que eu tenho.

Fiquei imóvel, mas me contive para não bufar. Aquela balela não
funcionava para mim. Nenhum homem entregaria a sua filha ao chefe da
máfia de outro país se ela fosse realmente o seu bem mais precioso.

— Você quer vê-la?

Balancei a cabeça em afirmativa. Era para isso que havia ido até ali,
conhecer a minha futura esposa. Assim como acontecia com outros soberanos
ao longo da história, o casamento não passava de um simples jogo político e
não envolvia desejos do coração. Esse fator da minha posição me era bem
claro desde que eu era criança e não tive a ilusão que escolheria uma garota
pelo qual me apaixonaria e juraria amor e fidelidade pelo restante da minha
vida. Teria uma esposa para fortalecer a máfia e quantas putas fosse
necessário para satisfazer meus desejos de homem.

— Venha comigo, por favor. — Ele apontou para a escada e eu


assenti com um movimento de cabeça.

Mateo deu um passo para vir atrás de mim, mas entendi a mão para
que ele parasse. Iria subir sozinho, e essa minha atitude por si só já era um
voto de confiança.
Afonso deslizou os dedos pelo corrimão escuro de madeira e subiu
degraus acima. Numa distância confortável, eu o acompanhei. Minha arma
estava a fácil acesso e eu usava um colete a prova de balas debaixo do terno e
da roupa bem passada. Eu estava acreditando no meu aliado, mas não era um
idiota.

Adentramos um corredor e seguimos até a penúltima porta. Ainda em


uma distância confortável, esperei que Afonso abrisse a porta. Ele olhou para
dentro e esperou que eu me aproximasse.

A primeira coisa que reparei ao olhar dentro do quarto foram as


paredes rosas e a cama com dossel que parecia pertencer a uma princesa.
Irônico, pois nada mais adequado para a esposa de um rei. Havia uma enorme
estante com brinquedos, e sentada num tapete felpudo e branco estava uma
garotinha brincando com uma boneca. Ela estava distraída e parecia se
divertir, por isso levou um tempo para notar a minha presença na companhia
do pai, porém, quando ela nos viu, levantou-se e saiu correndo, fazendo da
poltrona rosa um escudo para protegê-la do meu olhar curioso e nitidamente
supresso.

— É só uma menina! — Voltei-me para Afonso com um misto de


confusão e revolta. — Esperava vir aqui e encontrar uma esposa e não uma
fedelha para cuidar. Quantos anos ela tem?

— Ela tem onze anos. — Ele engoliu em seco.

Eu não podia dizer que era um homem correto, já havia cometido


muitas atrocidades em nome da máfia e cometeria outras até piores, mas levar
uma menina de onze anos como esposa era impensável.

— Ela ainda brinca de bonecas. — Balancei a cabeça em negativa.

— Não imagino que se case com ela agora. Céus! Peço para que não,
mas pode mantê-la sob sua tutela até que ela complete idade e possa se tornar
sua esposa.

Meu primeiro intuito foi dizer que não. Eu tinha coisas demais para
me preocupar e não queria que uma criança se tornasse uma delas, mas ela
era o preço de ter o controle sobre um dos portos mais estratégicos no
Atlântico.

— Verei o que vou fazer com ela. — Acabei assentindo.

Meu pai havia me dito que, quando eu assumisse o controle dos


negócios, teria que estar pronto para fazer qualquer coisa.

— Tome conta dela. — Afonso estendeu a mão para apertar o meu


ombro, mas recuou, mudando de ideia quando encontrou o meu olhar pouco
receptivo.

— Farei o meu melhor. — Minha voz soou fria e pouco expressiva.


Eu poderia ser um monstro, mas o pai dela não ficava muito atrás.

Ouvi o choramingo vindo de outra porta e resmungos de uma mulher.


Imaginei que pudesse ser a mãe da garota, mas não cabia a mim lidar com a
felicidade dela. Na máfia tudo era negócios, inclusive filhos, familiares e o
próprio coração.

— Arrume as coisas da menina, eu irei levá-la. — Dei as costas e fui


para sala.

Esperei por pouco mais de uma hora. Meus irmãos trocaram olhares
comigo e não falaram nada. Eles sabiam o quanto aquela aliança era
importante para nós e que não era apenas o meu casamento em jogo. A
decisão era minha como futuro noivo e chefe da família.

Afonso desceu de mãos dadas com a garota e, chegando perto de


mim, ela me encarou com um ar de curiosidade. Não sei o que o pai pode ter
falado com ela, mas o espanto desapareceu dos seus olhos castanhos e
arregalados.

— Vai me levar para passear?

— Vou.

— Posso levar a minha boneca?

— Pode.

— Para onde vamos?

— Para um convento.

Segurei a mão da menina e meus irmãos pegaram as malas dela. Os


seus dedos eram tão pequenos que parecia até difícil conter entre os meus.
Admito que não havia me atido a idade da garota. Minha única preocupação
era ir até Portugal e firmar um acordo, mas esperava voltar para Itália com
uma mulher para aquecer a minha cama e não com uma criança para cuidar.

A melhor ideia que tive em tão pouco tempo foi deixá-la em um


convento, para que fosse cuidada por freiras até que completasse a maior
idade, e eu não precisasse me preocupar com ela até então. Protegida em um
dos muitos conventos da Itália, a menina não me traria dores de cabeça até
que se tornasse uma mulher.
Capítulo Um

É surreal pensar que pertenço a um homem desde que nem tinha idade
para saber o que era o amor. Seria cômico se não fosse tão trágico.

Minhas lembranças antes de ter sido largada sob a tutela das freiras
eram muito vagas. Eu lembrava de um quarto muito colorido e iluminado,
diferente daquele cinzento com uma cama pequena e desconfortável, que eu
era obrigada a dormir todos os dias. Outras noviças diziam que eu tinha sorte,
pois, ao contrário delas, não me tornaria esposa de Deus, iria pertencer a um
homem de carne e osso, que me esperava depois dos muros que cercavam a
cidade do Vaticano.

Poderia até parecer romântico para elas, mas não era para mim. Não
havia nada de conto de fadas em me casar com um homem quinze anos mais
velho do que eu, que havia me largado em um convento para levar uma vida
pudica até que completasse vinte e um.

Eu não via a minha família há dez anos e me perguntava todos os dias


se eles sentiam a minha falta. Imaginava que não, já que não me ligaram, ou
perguntaram sobre como eu estava. Já questionara a madre superiora muitas
vezes, mas ela não tinha nada a dizer. Até a minha língua natal, o português,
já ia se tornando uma lembrança cada vez mais vaga na mente.

Deveria estar empolgada com o meu aniversário se aproximando,


mas, honestamente, eu não sabia o que me esperava, e algo dentro de mim me
dizia que um futuro ao lado de Marco Bellucci poderia ser bem pior do que
os dez anos de penitência e castidade.

— Laís? — Ouvi uma batida na minha porta que fez com que eu me
levantasse.

— Sim, irmã Maria? — Levantei-me e fiquei de pé, pouco antes da


porta ser aberta e revelar uma mulher baixinha e com feições roliças, quase
infantis. Dentre as muitas responsáveis pelas noviças, irmã Maria era a mais
gentil. Às vezes me iludia com a ideia de que ela pudesse ser uma mãe
adotiva, estando ali para cuidar de mim. Poucas das informações que eu tinha
sobre o mundo vinham dela, já que nosso acesso ao exterior era bem restrito.
Tínhamos uma televisão na sala, jornais do Vaticano, que ficavam
disponíveis na biblioteca, e uma internet muito limitada e cheia de travas nos
computadores, que podiam ser utilizados apenas duas vezes por semana
durante o período de uma hora. Eu não tinha celular, apesar de saber o que
era, não tinha amigos, e tudo o que sabia fora ensinado sobre a tutela das
freiras. O que vinha de novo era trazido pelas noviças recém-chegadas, essas
vindo pelos mais diversos motivos. Algumas por escolha própria e outras
sentenciadas a viver a ali, assim como eu, por alguém que achava que tinha o
poder de decisão sobre suas vidas.

A melhor delas havia sido a Fabiana Rossi. Ela era filha de uma
família abastada, mas que vivia se metendo em problemas, e seus pais a
mandaram para o convento para ver se tomava jeito. Certamente não deu
muito certo e ela foi expulsa semanas depois de entrar, porém, no período em
que passou conosco, ela me mostrou uma réplica em borracha do órgão
sexual masculino. Nunca havia visto nada parecido antes e não imaginava
que fosse voltar a ver até a minha noite de núpcias.

Eu não teria contato com outros homens além do Marco, nem mesmo
no colégio. Prestes a completar vinte e um anos, eu seria a bonequinha de
louça dele, ao menos era o que diziam as outras noviças que tinham um
pouco mais de noção de mundo do que eu.

Tinha certeza de poucas coisas na vida, principalmente pela minha


limitada noção de mundo, porém não estava ansiosa para subir no altar com o
Marco. Minhas lembranças dele também eram vagas. Durante o tempo que eu
estava ali no convento, o homem não se deu ao trabalho de me visitar e eu
não sabia o que me aguardaria quando ficasse frente a frente com ele
novamente. Um velho barrigudo e careca? Era uma possibilidade.

— Já terminou suas orações da manhã? — perguntou a irmã, tirando-


me dos meus devaneios e fazendo com que eu voltasse a fitá-la.

— Terminei, sim.

— Parece distante, criança.

— Só impressão sua, irmã — menti. Não queria falar para ela que
estava pensando sobre o meu inevitável casamento. Estava cansada de ouvir
que era a vontade de Deus e que eu deveria cumpri-la de bom grado.

Como Deus iria querer que eu me casasse com o chefe da maior


família de mafiosos na Itália? Não que comentassem diretamente comigo,
mas sempre fora uma boa ouvinte e pescava as conversas, principalmente
aquelas que diziam respeito a minha vida.

— Vamos, você precisa tomar seu café e ajudar as outras na limpeza


do convento.

Apenas assenti e segui a irmã para além do corredor até o refeitório


onde as outras noviças se reuniam para comer um pastoso e nada apetitoso
mingau de aveia.

Afastei-me da irmã e me sentei em um espaço vazio entre Felícia e


Nina.

— Bom dia! — Sorri para as duas, alternando o meu olhar entre elas.

— Faltam três dias! Você está empolgada? — Nina deu um pulinho


do meu lado e eu coloquei a mão aberta sobre o rosto, para me proteger da
chuva de aveia.

— Muito. — Fui irônica e Nina abriu um sorriso amarelo.

— Não tem como você ligar para o seu pai e dizer para ele que não
quer se casar com o mafioso? — perguntou Felícia com toda a sua inocência.
— Na bíblia, falam sobre o livre arbítrio e o nosso direito de escolher qual
caminho damos para as nossas vidas.

Apoiei os cotovelos na mesa gelada de metal e inspirei


profundamente antes de tombar meu queixo na palma da mão.
— Eu tinha onze anos quando meu pai me entregou para esse homem.
Você realmente acha que ele pode ligar para esse assunto de livre arbítrio? —
Revirei os olhos, irritada. Não havia outra alternativa para mim que não fosse
aceitar o meu destino, ao menos, era o que eu acreditava até o momento.
Capítulo Dois

Peguei um maço com notas de cem euros e dois pentes de balas da


minha pistola automática, colocando-os no bolso da minha calça. Eu não
pretendia deixar a mansão naquele dia, mas o meu pai havia me ensinado
bem sobre a importância de dormir com um olho aberto e outro fechado. Eu
precisava estar sempre pronto para as mais adversas situações.

Durma, mas sempre se mantendo atento, dizia, você nunca sabe quem
pode tentar apunhalá-lo no momento em que baixar a guarda. Lorenzo
Bellucci sempre soube o que fazer e ainda assim, acabou sendo pego
desprevenido. Isso fazia com que eu me lembrasse que precisava ser ainda
mais esperto do que o meu pai.

— Aqui está o dinheiro. — Entreguei as notas para Theo.

— Obrigado. — Meu irmão contou as notas rapidamente antes de


guardá-las no bolso. — Vou providenciar o reforço do nosso armamento.

— Eu quem agradeço por cuidar pessoalmente da nossa segurança.

— Não podemos fazer nada se estivermos mortos, não é mesmo? —


disse em um tom de deboche que eu estranhei, pois dentre nós três, era o
Mateo, o caçula, quem costumava fazer piadinhas.

Eu ignorei o comentário e puxei a minha cadeira de couro,


acomodando-me nela. Estalei os dedos antes de voltar a elevar o olhar e
procurar pelo meu irmão.

— O Mateo foi inspecionar pessoalmente o nosso carregamento que


está chegando da Bolívia?

— Sim. — Theo puxou a manga do blazer e viu as horas no seu


relógio sofisticado e caro. Meu irmão gostava de ostentar, mas eu não podia
dizer que ficava muito atrás. — Ele já deve estar no porto a essa hora. É
provável que fique em Portugal até amanhã para garantir que a carga, que
chega de madrugada, siga nos veículos camuflados aqui para a Itália e para
outras partes da Europa.

— Excelente.

— Esse porto em Portugal tem sido uma parte crucial dos nossos
negócios nos últimos anos.

— Nisso você tem razão — comentei, fingindo não estar atento ao


assunto, porém eu precisava sempre me ater a cada nuance se não quisesse
ser passado para trás ou perder algo.

— Ansioso para o casamento em alguns dias?

— Tenho assuntos mais importantes para me preocupar.

— Vai dizer que não está com nem um pouco de vontade de tomar
aquilo que é seu?

— O acordo está firmado há dez anos, desde que eu trouxe a garota


para Roma. É isso que importa. — Dei de ombros. Levantei a tela do
computador e abri um dos e-mails criptografados que trocava com meus
fornecedores.

Assim como um grande órgão do governo, a nossa segurança


precisava ser instransponível, para que a polícia não conseguisse quebrá-la. A
nossa sorte era que, agindo fora da lei, tínhamos muito mais recursos e os
melhores profissionais possíveis.

— Logo terá uma virgem intocada na sua cama. Isso não o anima nem
um pouco? — Theo insistiu com o assunto e o encarei com um ar de poucos
amigos. — Eu estaria minimamente empolgado.

— Como se nunca tivesse visto mulher antes, meu irmão.

— Já vi mais tetas e bocetas do que sou capaz de contar, mas essas


devem ter um gosto especial.

— É como qualquer outra garota, o problema é que deve ser uma


beata chata e cheia de não me toques religiosos.

— Foi você quem a colocou num convento.

— Pode não ter sido a melhor decisão que tomei, mas era o lugar em
que ela teria proteção e uma boa tutela.

— E longe de qualquer outro homem. Não haja como se não fosse um


possessivo desgraçado como qualquer um de nós. — A voz de Theo era
firme, mas seu olhar era de puro deboche, deixando claro que estávamos
tendo uma conversa leve e descontraída.

— Ela é minha, é claro que não queria nenhum urubu perto dela antes
que chegasse o meu momento de tê-la.

Theo riu e eu voltei a prestar atenção na tela do computador.

Eu não me importava com Laís, ao menos era a imagem que deixava


transparecer. Em nome do meu acordo com seu pai, precisava cuidar da
garota e mantê-la em segurança. Fora o que eu havia garantido durante o
período dela em um convento do Vaticano. Além da segurança do próprio
local, havia duas mulheres infiltradas para garantir que a garota ficasse
inalcançável para os meus inimigos ou os do seu pai, que não eram poucos.
Até que o nosso casamento acontecesse, ela era o elo fraco do nosso acordo.

Se a garota fosse ferida ou, no pior dos casos, morta, toda a aliança
feita com os Barbosa iria ruir. Eles iriam tirar nosso acesso ao porto
estratégico para os negócios feitos com o Atlântico, e por consequência,
perderiam nossa proteção contra os Costas, uma família rival que disputava
os territórios em Portugal.

— Ela vai ser minha esposa, uma Bellucci, e o nosso acordo com os
Barbosa vai ser inviolável. É bom para nós e melhor ainda, para eles. Quando
eu vou ou não romper o lacre dela, não importa.

— Se quiser, eu rompo para você. Pela última foto que as freiras


mandaram dela, a menininha virou uma mulher muito gostosa.
Eu tirei a minha arma da cintura e a coloquei com força sobre a mesa.
O impacto fez com que meu irmão tomasse um susto e recuasse alguns
passos para trás.

— Você não tem negócios para resolver?

— Sim, assunto encerrado.

— Perfeito. — Apontei para a porta com a cabeça e meu irmão


deixou a minha sala.

Eu não era um homem muito flexível, muito menos dividia o que era
meu. Nem com os meus irmãos que, juntamente com a minha mãe, eram as
pessoas mais importantes para mim. Estava ciente que, como chefe da máfia
Bellucci, não me casaria por amor, mas isso não tornava Laís Barbosa menos
minha.

Eu tinha sido paciente para tomar o que era meu, acompanhando seu
crescimento através de fotos enviadas por Antonella, uma das mulheres de
minha confiança que eu havia designado para ficar de olho na garota. Sobre
isso Theo tinha razão, Laís havia deixado de ser uma menininha para ganhar
curvas sedutoras de mulher. Porém, me envolvia com mulheres bonitas o
tempo todo. Poderia ser paciente, uma vez que não fora casto durante os
últimos dez anos e não esperava me tornar após o casamento.

Laís era o meu prêmio por aquela aliança, e eu a enxergaria apenas


assim.
Capítulo Três

Eu sentia meu estômago embrulhar e meu ânimo estava bem diferente


do dia ensolarado daquela manhã de primavera. Viriam me buscar e eu
finalmente deixaria as paredes daquele convento e seguiria para o meu
casamento. Porém, ao contrário do que minhas amigas noviças pensavam, eu
não estava me libertando, sentia que iria sair de uma gaiola e ir para outra,
nunca poderia voar livre como um pássaro. Eu não sabia o que me esperava
naquele casamento e temia que pudesse ser pior do que os dias de oração e
jejum intermináveis.

Ouvi uma batida na porta e me levantei da cama.

— Pode entrar. — Engoli em seco, mas o novelo de lã instalado na


minha garganta não desceu, permanecendo ali, tornando a minha respiração
angustiante, difícil.

— Bom dia, Laís.

— Bom dia, irmã Antonella. — Esfreguei as mãos uma na outra, na


tentativa de livrar-me do suor frio.

— Pode me chamar apenas de Antonella. — Ela puxou o véu e eu


fiquei boquiaberta ao ver um cabelo loiro, lindo e muito bem cuidado,
diferente do cabelo curto ou cabeça raspada que eu esperava.

— Você não é freira, não é? — Eu poderia até não ter acesso a muita
informação, mas sempre fora uma garota bastante esperta.

— Não.

— Estava aqui porque ele mandou você, não foi?

— Exatamente. Alguém precisava cuidar de você.

— Por que não ele mesmo?

— O senhor Bellucci é um homem muito ocupado, você verá.

— E o que ele fará comigo depois do casamento? Devolver-me para


cá?

— Não, você irá viver na mansão, acompanhada da senhora Bellucci.

— Ele tem outra esposa? — Arregalei os meus olhos castanhos. Foi


difícil não conter a minha surpresa diante daquela informação. Eu sabia que
poderia esperar de tudo da máfia, mas achava que respeitassem minimamente
a religião que regia a cidade e todo o país, onde o casamento era apenas um e
para o restante da vida.

— Não, tolinha. A senhora Bellucci a quem me refiro é a mãe dele.

— Ah! — Abri um sorriso amarelo.

— A equipe já deve estar chegando para arrumar você.

— Vou sair daqui direto para a igreja?


— Sim. Quer ir à capela fazer suas orações antes?

Balancei a cabeça em negativa e cruzei os meus braços. Eu já havia


rezado muito ao longo de todos esses anos para ser mais do que apenas um
fantoche na mão de um mafioso. Esperava acordar um dia e meu destino ter
mudado, mas isso não aconteceu e não esperava que fosse acontecer de
última hora.

Iria me casar com Marco Bellucci, assim como fora decidido há mais
de uma década sem consultarem a minha opinião, e não havia nada que eu
pudesse fazer.
Capítulo Quatro

— Você está lindo. — Notei as mãos dela subirem pela lapela do meu
colarinho e ajeitarem a minha gravata.

— Obrigado, mãe. — Segurei as mãos dela entre as minhas antes de


encará-la.

Eu tinha trinta e seis anos e havia aguardado muito por aquele


momento, quando iria me unir a uma mulher diante dos olhos da família e da
sociedade. Aquele casamento era nada além do selamento de um acordo feito
anos atrás. Sabia que iria acontecer e tive tempo para me preparar para aquele
instante, e tudo aconteceria exatamente como previsto. Sem surpresas.

— Você está cada vez mais parecido com o seu pai. — Ela ajeitou
uma mecha do meu cabelo que havia escapado do gel que moldava o
penteado perfeito.

— Estou velho, mãe.

— Nada disso, Marco! Ainda é um garoto.

— Aos seus olhos, sempre serei. — Eu ri e ela também.

— Escute, meu filho. — Minha mãe inspirou profundamente e eu não


sabia se estava disposto a ouvir o que ela teria para falar a seguir, mas não me
restava escapatória. Ainda que eu fosse o chefe e a voz de maior poder
naquela mansão e por toda Roma, Rosimeire Bellucci ainda era a minha mãe.

— Estou ficando sem tempo. — Olhei para os ponteiros do meu


relógio de pulso. Faltavam pouco menos de uma hora para o casamento, que
aconteceria na Basílica de São Clemente, uma antiga e importante igreja de
Roma. A verdade era que eu queria apenas uma desculpa para fugir daquele
assunto com a minha mãe. Amor era um negócio, assim como o contrabando,
não importava o que ela pensasse a respeito.

Por falar em negócio, minha ligação com a igreja também deveria se


aplicar a isso. Interesses da máfia e do Vaticano, principalmente daqueles que
o regiam, muitas vezes caminharam lado a lado, o que nos fazia aliados bem
prováveis.

— Sei que para você são apenas palavras vazias... — Ela começou e
eu franzi o cenho para encará-la. — Sei que as circunstâncias não são as mais
propícias, mas o casamento é muito mais fácil de lidar se você aprender a
amá-la.

— Espero que a senhora lide bem com ela. — Dei de ombros.

— Não está pensando que vai deixá-la aqui e desaparecer, não é?

Não respondi e o meu silêncio foi o suficiente para que a minha mãe
tivesse a exata certeza de que era exatamente o que eu pretendia fazer.
Obviamente a visitaria em um momento ou em outro, ter um ou dois filhos
com ela não seria ruim, uma vez que eu ainda não tinha herdeiros e esse
também era o papel de um soberano. Admito que não me preocupava com
isso, pois com meus irmãos ao meu lado, sabia bem que poderiam me
substituir em um momento de crise. Contudo, com uma esposa jovem e
bonita, engravidá-la era a desculpa perfeita para levá-la para a cama.

— Não espero ser o melhor marido do mundo e torço para que ela não
seja ingênua o bastante para acreditar que tem o direito de exigir isso de mim.

— Mas você pode ser e torço para que ela seja esperta o bastante para
saber conduzi-lo.

— Por favor, mãe. Não encha a cabeça dela de asneiras ou poderá ser
ruim para vocês duas.

Ela inspirou, no entanto não se atreveu a continuar aquela conversa.


Era melhor assim e, felizmente, minha mãe foi sábia o bastante para perceber
que não era o momento certo. Meu pai havia se apaixonado por ela, mas isso
não significava que iria acontecer o mesmo com os seus filhos.

Peguei a caixa com as alianças que estava sobre a minha cama, que
em breve veria uma virgindade ser rompida, e segui escada abaixo, sendo
acompanhado de perto pela minha mãe. Na sala, meus irmãos aguardavam
para que seguíssemos, junto com os soldados para a igreja.

Não deveria ser um grande evento para a minha vida, apenas o


cumprimento de um acordo, assim como vários outros. Eu só não previa que
tudo pudesse sair do controle.
Capítulo Cinco

— Levante-se, querida. — A cabelereira puxou a minha mão logo


após ter colocado o véu sobre a minha cabeça.

Eu assenti e fui até o espelho, parando na frente dele para observar,


através do tecido transparente, meu lindo penteado e o vestido de princesa.
Ele era rodado e cheio de rendas e pedrarias. Eram tantos cristais que
brilhavam como escamas de uma sereia. Sobre o meu cabelo preso em coque,
estava uma linda tiara muito brilhante e brincos pesados combinando com a
peça pendiam das minhas orelhas. Eu não tinha a menor noção para ter
certeza, mas imaginava que deveriam custar muito caro por todo o peso e a
quantidade de pedras.

— Ficou maravilhosa — comentou Antonella próxima a mim. Pensar


que aquela mulher esteve ali nos últimos dez anos para ficar de olho em mim
ainda me chocava, porém tentei não me preocupar com isso, pois já havia
passado e não havia nada que eu pudesse fazer.

Na verdade, não havia nada que eu pudesse fazer sobre a minha vida
inteira. Cada um dos meus passos estavam sempre sendo vigiados e não
imaginava que seria diferente dali em diante. Suspeitava que muitas mulheres
poderiam ficar imensamente felizes com a data de seus casamentos, mas não
era o meu caso. Iria ser entregue a um homem com o qual nem tivera a
oportunidade de conviver, e isso era aterrorizante.
— Senhora Loureiro, os seguranças então lá embaixo esperando para
levá-las a igreja. — Irmã Maria apareceu na porta do quarto e eu engoli em
seco ao vê-la ali. Por mais que nunca fora escondido de mim que aquele dia
chegaria, não deixava de causar um entranho amargor na minha boca.

Não sabia ao certo se sentiria falta daquele lugar, porém esperava que
a minha vida dali para frente fosse, minimamente, feliz para que eu não
vivesse em eterno amargor.

— Boa sorte, menina.

— Obrigada, irmã. — Dei o meu melhor sorriso, ou tentei, pois estava


certa de que não conseguiria sorrir dignamente até ter certeza do que o
destino reservava para mim.

Ela acenou e sumiu de vista novamente. Quando não pude mais


enxergar a irmã, tive certeza de que a minha estadia no convento havia
acabado e não haveria nada que pudesse fazer.

— Antonella? — Virei-me para a mulher e meu estômago se revirou


com mais intensidade. Resisti o mais bravamente possível, pois não queria
que o meu vômito sujasse aquele belo vestido.

— Sim.

— Me permite fazer uma pergunta?

— Seja breve, garota.


— E-ele... — gaguejei diante da expressão dela. Tive receio, mas
acabei externando um tolo questionamento de menina. — Ele é bonito?

Antonella me encarou e começou a rir.

Eu encolhi ao perceber o quanto idiota fora ao abrir a boca.

— Irá descobri quando vê-lo no altar.

Eu não disse mais nada. Consentir e servir, sem qualquer


questionamento. Era um lema que eu havia aprendido no convento e,
certamente, se aplicaria a minha vida como esposa.

— Agora vamos. — Ela apontou para a porta e esperou que eu


seguisse na frente. — Não vamos deixar o senhor irritado com um atraso
desnecessário.

Segurei a barra do vestido e caminhei pelo longo corredor com janelas


côncavas que ladeava o convento. Olhei cada traço, coluna e arco, pois era a
última vez que os veria. Na matéria de beleza, certamente aquela fora uma
ótima prisão. A arquitetura era ímpar, digna dos mais renomados artistas.

Chegamos a um belo jardim onde havia três carros pretos. Fiquei


imaginando o motivo de tantos veículos, já que caberíamos tranquilamente
em um. Porém, eu não saíra daquele convento nos últimos dez anos e não
sabia o que poderia me esperar lá fora.

Antonella fez um gesto para mim antes de abrir a porta de trás de um


dos veículos. Eu me acomodei e o vestido se esparramou por todo o banco.
Quando ela foi para a frente e ficou no banco do carona, presumi que daria
bastante espaço para a impecável saia branca, para que ela não chegasse à
igreja completamente amassada.

Não tardou para que o motorista ligasse o veículo e rumasse para os


portões do convento.

Aproximei bem o meu rosto da janela. Poderia não estar ansiosa para
o casamento, mas queria muito ver o mundo, ainda que esse se resumisse à
meia dúzia de ruas de Roma. Logo que deixamos a cidade do Vaticano, meu
coração trepidou no peito. Vi pessoas diferentes das quais eu estava
acostumada, turistas tirando fotos e sorrindo ao olhar uns para os outros.
Fiquei imaginando se as grades da minha nova gaiola, ao menos, teriam vista
para belas construções e muitas pessoas diferentes. Iria ser muito bom poder
observar tudo, nem que fosse bem de longe.

Será que eu poderia pelo menos assistir televisão e ter acesso à


internet de maneira mais ilimitada? Corei ao me recordar do que as noviças
disseram que poderia encontrar na internet.

Suspirei ao encostar a cabeça no vidro da janela. Por um momento


pensei em como seria a minha vida se eu fosse livre. Ah, como eu queria
realmente ser livre.

Estava distraída até que voltei a minha atenção para o carro e percebi
que estávamos parados em um sinal. Havia vários outros veículos ao lado e
na nossa frente, parecia difícil sair dali e pela forma como o homem que
dirigia resmungava com Antonella, de fato deveria ser. Olhei para a calçada,
logo após a interminável fila de carros, e para o meu enorme vestido de
noiva. Voltei a mover a cabeça e vi que os outros veículos também estavam
presos atrás de nós.

Não sei exatamente como ou porque um súbito lampejo de rebeldia


tomou conta de mim. A verdade é que eu queria me permitir ser levada como
uma pena ao vento. Talvez eu pudesse fugir, quem sabe fosse possível correr.
Se não conseguisse, seria levada de volta ao casamento com um homem que
eu mal conhecia e definitivamente não cultivava qualquer amor. Porém, se
conseguisse, era possível ser um pássaro fora da gaiola.

Puxei a maçaneta da porta e empurrei-a com o meu corpo. Com a


pressão, ela se abriu e eu tombei para fora. Movi o corpo rapidamente e
coloquei os pés na rua.

— Garota, o que você está fazendo? Fecha essa porta! — Quando


Antonella terminou de falar, eu já havia corrido até a calçada. — Laís!

Tirei o véu que dificultava a minha visão e o joguei no chão. O mais


rápido que consegui, abandonei os sapatos e os segurei juntamente com a
enorme saia. Olhei para trás por uma breve fração de segundo e vi Antonella
descer do carro. Ela parecia furiosa e bufava como um touro. Quando deu um
passo para correr até mim, uma moto passou zumbido por ela e buzinou,
quase atropelando-a. Assim que percebi que as portas dos outros carros
estavam sendo abertas, eu não fiquei parada esperando o que aconteceria a
seguir, e entrei correndo por um beco, o mais rápido possível. Esbarrei em
algumas pessoas pelo caminho, o vestido volumoso era muito grande e era
difícil passar por um espaço apertado sem derrubar tudo.

— Desculpa — disse ao passar a saia por uma banca de fruta e fazer


com que tudo saísse rolando para o chão.

O vendedor gritou alto algumas palavras feias, que eram


extremamente inibidas no convento, e eu fingi não ouvi-las. Não parei de
correr. Quando virei na esquina, senti o gosto da liberdade e me encantei por
ela. Só desistiria da minha fuga quando estivesse esgotada demais e não
conseguisse mais correr.

— Laís! — Ouvi um grito estridente, mas não foi o suficiente para me


fazer parar.

Soltei os sapatos no chão quando percebi que eles eram um peso


morto. Foi um pouco mais fácil correr sem eles. Vi Antonella através do
reflexo de uma vitrine e ela não estava sozinha. Os homens que a
acompanhavam corriam mais rapidamente do que ela. Precisei apertar o
passo ou acabaria sendo pega. Naquele momento, percebi que tinha duas
escolhas, correr como nunca havia corrido na vida, ou deixar que eles me
pegassem e ser forçada a me casar, isso se algo pior não acontecesse.

Meu diafragma estava doendo pela respiração pesada e acelerada, mas


não deixei que isso diminuísse o meu ritmo. Só iria parar quando tivesse
certeza de que eles não iriam me alcançar.

Virei numa outra esquina e a saia agarrou na parede. Eu o puxei com


tanta força que ele saiu rasgando e duas camadas das volumosas saias ficaram
na parede. Agradeci pelo vestido ter ficado mais leve, mas odiei o fato de
estar deixando um caminho de migalhas até mim. Eu me lembrava de ter
ouvido várias vezes durante a minha infância a história de João e Maria. Se
havia algo que eu não queria que acontecesse era ser encontrada.

Pisei numa poça e uma água barrenta espirrou no vestido, deixando


toda a barra lamacenta. Ainda que me pegassem, imaginava que não fossem
me levar para a igreja daquele jeito. Atravessei uma avenida movimentada e
os carros precisaram manobrar para desviar de mim, mas um, por pouco,
quase me atropelou. Em meio a toda aquela adrenalina que eu tirava de um
canto desconhecido de mim, e após ter escapado de vários potenciais
atropelamentos, até consegui acreditar que pudesse haver alguém cuidando
de mim.

Continuei correndo e corri sem parar, como se a minha vida


dependesse disso, o que de fato eu acreditava depender.

Parei por alguns segundos e apoiei as mãos nos joelhos. Respirei e


inspirei novamente, várias vezes. Assim que recuperei o fôlego
minimamente, voltei a sair em disparada.

— Garota! — Ouvi um grito.

Achei que pudesse ser Antonella e meu coração se apertou outra vez.
Porém, assim que reparei melhor, vi que era uma senhora do outro lado da
rua, ela fazia um gesto com a mão e me incentivava a chegar perto dela. Eu
não deveria confiar, não conhecia nada nem ninguém além das paredes do
convento, para ser sincera, nem dentro delas, mas estava ficando exausta e
não iria conseguir correr por muito tempo.

Atravessei a rua e fui até a senhora.

— O que está acontecendo? — questionou assim que eu parei na sua


frente.

— Estou fugindo do meu casamento — disse com a voz entrecortada


em meio a respiração ofegante.

— Vamos, entre! — Ela indicou uma pequena portinha.

— O que a senhora quer?

— Entre logo, garota!

Percebi que eles poderiam chegar a qualquer momento e me alcançar.


Não pensei direito, apenas entrei e me deparei com os fundos de uma
pequena padaria, onde a lenha queimava para aquecer um forno de tijolos,
assim como um que havia no convento.

— Tire esse vestido de noiva.

— Quê? — Arregalei os olhos diante da ordem inesperada da


senhora.

— Quer ou não fugir? O vestido chama atenção demais. Rápido, tire-


o! Eu irei ajudá-la.
Eu me virei de costas e ela abriu os botões de pérolas. Encolhi-me ao
ficar apenas de roupas íntimas. Felizmente, eu não estava num ângulo em que
pudesse ser vista através das janelas.

A mulher pegou o que havia restado do enorme e luxuoso vestido de


noiva e o jogou no forno de barro. Rapidamente ele foi consumido pelas
chamas e se reduziu em cinzas.

— Obrigada, mas não posso correr na rua assim.

— Venha comigo. Você é magrinha, mas deve ter alguma roupa velha
da minha filha que pode servir. — Ela pegou uma sacola de plástico em uma
bancada enquanto me guiava para uma escada em espiral que subia para o
andar de cima. — Tire a tiara, solte os cabelos e a guarde junto com os
brincos nessa sacola. Parecem muito valiosos, você pode tentar vendê-los.

— Obrigada. — Acatei todos os conselhos e tirei as joias.

Chegamos em um corredor estreito e logo percebi que a casa era bem


humilde. Do alto, através da janela, vi Antonella e vários homens passarem
pela rua. Eles ainda estavam atrás de mim e eu não imaginava que fossem
descansar tão cedo.

— Saia de perto da janela. — A senhora me puxou e me entregou um


vestido florido.

— O-obrigada.

— Vista-se logo.
Assenti e coloquei a roupa primeiro pela cabeça e o puxei para baixo,
até que se alinhasse com o meu corpo. Meu coração ainda estava acelerado,
mas à medida que minha respiração se normalizava, meus membros
começavam a doer. Exigira demais deles.

— Esses sapatos devem servir em você. — Ela abriu um baú e me


entregou um par de sapatilhas.

— Muito obrigada, mas porque está me ajudando?

— Para você estar fugindo do casamento, deve ter um ótimo motivo.

— Eu tenho. Sou imensamente grata, mas preciso ir antes que eles me


encontrem aqui. Não quero trazer problemas para a senhora.

— Eles quem?

— Meu casamento era com Marco Bellucci.

— A máfia. — A mulher ficou pálida e deu um passo cambaleante


para trás. Não poderia culpá-la por ficar amedrontada, pois eu também estava,
por mais que soubesse que havia nascido em uma família que também mexia
com atividades ilícitas. — Realmente você precisa ir. Logo eles devem
começar a vasculhar as casas atrás de você.

Assenti, e fiz de tudo para não tremer. Por dentro estava me


perguntando se fugir daquele casamento não havia sido a decisão mais
estúpida que poderia ter tomado na vida. Contudo, era algo que apenas o
tempo iria me mostrar.
Capítulo Seis

A igreja estava lotada. Aconteceria ali um enorme circo e uma plateia


adequada se fazia necessária. Eu estava sentindo calor naquele terno e estava
ficando inquieto, impaciente para ser mais específico, mas mantive a postura.
Ela sempre fora crucial para pessoas numa posição de dominância como a
minha. Grandes líderes não poderiam ficar desesperados em nenhuma
circunstância, pois todos se apoiavam nele para não desesperar também.

Embora eu tentasse parecer impassível no altar, ainda podia observar


algumas cabeças se movendo até a enorme porta dupla na entrada da igreja.
Assim como eu, deveriam estar se perguntando o momento em que a noiva
deveria passar por elas. Aquele era um dos clímaces do casamento e a
impaciência ia se tornando mais evidente no rosto de cada um.

Tentei não verificar as horas no meu relógio de pulso para não


demonstrar inquietude. Ela estava atrasada, mas eu não sabia dizer
exatamente o quanto.

Percebi que Afonso, o pai da minha noiva, também estava impaciente.


Queria que ele se contivesse, mas não o fez. Quando ele se levantou do banco
e caminhou até mim, todos os convidados souberam que havia algo de errado
acontecendo.

— Onde está a minha filha?


— Estou aqui esperando, assim como você.

— Ela já deveria ter chegado.

— Acha que eu estou contente por ainda não vê-la? — Olhei com
firmeza, exibindo ligeiramente os dentes e o homem recuou. Me provocar
naquele momento era a atitude mais estúpida que ele poderia tomar.

Antes que Afonso ousasse abrir a boca mais uma vez, as portas se
abriram como se houvessem sido sobradas por uma lufada forte do vento de
inverno, porém não vi a minha noiva além delas como esperava, mas sim
Antonella, descabelada e ofegante.

Os olhares de todos os convidados, assim como o meu, estavam


voltados para ela. Quando esses mesmos olhos se voltaram para mim
novamente, percebi que estavam se questionando, como eu, o que poderia ter
acontecido. Dentre todas as possibilidades daquele dia que passaram na
minha mente, nenhuma delas incluía minha noiva não caminhar naquele
tapete vermelho em minha direção.

Desci do altar. Theo e Mateo se levantaram do primeiro banco de


madeira onde estavam como padrinhos e seguiram atrás de mim rumo a
entrada da igreja. Com o canto de olho, percebi os meus homens, fortemente
armados, moverem-se para me proteger de um possível ataque que poderia
vir de qualquer direção.

— Onde está Laís? — Fui direto na minha pergunta e minha voz


soou como um rugido feroz de um leão.
Antonella costumava ser firme, era uma guerreira impiedosa e pronta
para qualquer situação e fora por esse motivo que eu a havia colocado como
responsável pela garota durante os últimos anos. Contudo, quando a vi
recuar, percebi que algo de muito errado poderia ter acontecido.

— Senhor... — Ela engoliu em seco e meu olhar se tornou ainda mais


mortal.

Abaixei a mão e segurei a pistola que estava presa ao meu cinto. Ela
tinha um minuto para responder, e sabia muito bem que eu atiraria antes de
perguntar novamente. Antonella me conhecia o suficiente para entender isso.

— Ela... ela fugiu.

— Fugiu?!

Antonella balançou a cabeça em afirmativa.

— Me diz como uma garota de vinte e um anos, que estava desde os


onze trancada em um convento, conseguiu fugir de você e de meia dúzia dos
nossos melhores homens? — questionou Theo ao meu lado. Aquela era a
pergunta que não apenas ele, mas todos nós estávamos nos fazendo.

— Ela aproveitou um congestionamento e saiu correndo.

Num movimento rápido, eu agarrei Antonella pelo pescoço e apertei


meus dedos contra sua garganta e seu maxilar. Eu podia sentir a pressão que
meus dedos firmes faziam sobre seus ossos. Eu tinha força para quebrá-los
como se fossem feitos de isopor. Saquei minha pistola.
— Como assim ela saiu correndo? — Apontei a arma para a sua
têmpora. — É só o caralho de uma garota.

— Ela entrou pelos becos e eu fui atrás. — Antonella estava tremendo


de uma forma que eu nunca havia visto antes.

— Então cadê ela? — Eu destravei a arma e todos ouviram o click.


Estava pronto para atirar e aquela seria minha última pergunta.

— Escapou. — Engoliu em seco.

Eu ia atirar, espalhar seus miolos no chão claro e no meu terno fino,


mas antes que disparasse, minha mãe segurou o meu braço.

— Marco, por favor, não suje os degraus da casa de Deus com


sangue.

— Minha noiva... — resmunguei entre dentes.

— Você vai encontrá-la.

— Eu vou matá-la! — Estava bufando, furioso.

Quem aquela mulher pensava que era para me deixar no altar?

— Theo e Mateo, tirem o seu irmão daqui e o levem para casa. Eu


vou dispensar os convidados.

— Vamos embora, Marco. — Theo puxou o meu braço, mas eu me


esquivei. Estava furioso, não iria deixar o meu próprio casamento daquele
jeito, humilhado por uma fedelha que não sabia com quem estava mexendo.

Queria derramar sangue e fazer com que alguém pagasse pela minha
desonra. Se a minha mãe não houvesse me parado, eu teria começado por
Antonella. Porém, o castigo dela ainda viria. Não ficaria impune por ter
falhado em uma missão tão simples quanto trazer uma noiva à igreja.

Na companhia dos meus irmãos, eu fui para o meu carro. Mateo


sentou no banco do carona ao meu lado e Theo foi no seu, e me dirigi para
casa, sendo seguido por dois outros veículos com nossos homens.

Eu não sabia o que minha mãe falou naquela tarde para dispensar os
convidados, mas não me importava. Inexistia desculpa que ela pudesse dar
que apagasse o fato de eu ter sido abandonado no altar.

Laís era mesmo uma garota boba e ingênua, pois não sabia a confusão
que poderia ter trazido para si mesma e para todos os que a rodeavam. A
relação que eu tinha com os Barbosa dependia daquele casamento e se ele
não acontecesse, tudo poderia ruir. Eu não iria mais comprar a briga deles
com os Costas e nosso acesso ao porto seria retirado. Era muito ruim para as
duas famílias, mas seria ainda mais para os Barbosa, pois caso perdessem a
nossa proteção, eles iriam perder o controle do território. Tudo o que eu
precisava era esperar que uma nova família assumisse os negócios e fazer
uma aliança, porém não era apenas por negócios, ela havia mexido com o
meu ego.
Capítulo Sete

A senhora puxou a cortina do quarto e olhou para a rua. Ela analisou


tudo com muita cautela antes de se virar para mim e me encarar.

— Eles não estão mais na rua. Você precisa ir. Eu nem quero pensar
no que pode acontecer comigo se descobrirem que eu a ajudei. — Ela passou
as mãos suadas pelos cabelos ralos e quase brancos.

— Então por que está me ajudando? — Não consegui conter a minha


curiosidade, ainda que a situação fosse desesperadora.

— Sei muito bem o que é passar a vida casada com um homem que
não se desejava.

Eu observei o seu olhar e senti pena dela, ainda que a minha situação
também não fosse a das melhores. Queria perguntar o que havia acontecido,
desejei ouvir sua história, mas eu não tinha tempo. Como a própria senhora
havia falado, a máfia poderia puni-la severamente caso descobrisse que ela
estava me abrigando.

— Eu posso saber o seu nome?

— Ana.

— Muito obrigada, Ana. Eu sou a Laís.

— Vamos! — Ela me empurrou de volta a escada. — Vou dar a você


o pouco dinheiro que tenho aqui comigo. Você vai seguir até a esquina, onde
tem um ponto de táxi. Vai pegar um até a estação de trem. Lá você comprará
uma passagem para o mais longe que conseguir. Quando chegar ao seu
destino, tente vender as joias que tem para conseguir mais um pouco de
dinheiro, mas não venda tudo. Irão tentar aproveitar de você e pagarão uma
micharia. Lembre-se que o importante é ficar longe de Roma e até mesmo da
Itália o mais rápido possível. A máfia tem olhos em todos os lugares e será
impossível ficar livre deles se você continuar aqui.

— Entendi. — Assenti enquanto descia a escada de volta a cozinha.

Ana parou diante de um balcão e abriu uma caixinha de madeira.


Tirou dela umas notas amassadas e as entregou para mim. Eram apenas
alguns trocados, imaginei que não conseguiria ir muito longe, mas era muito
mais do que poderia esperar que ela fosse me dar.

— Muito obrigada! — Abracei o dinheiro junto ao peito.

— Não diga a ninguém quem você é e o motivo de estar fugindo.

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Agora, vá, menina, corra!

— Obrigada!

Saí pela porta por onde eu havia entrado sem olhar para trás. Algo
dentro de mim me dizia que eu nunca mais voltaria a ver aquela mulher que
havia me ajudado de tanto bom grado, porém eu seria eternamente grata por
tudo o que ela havia feito e a chance de conseguir levar uma vida diferente de
tudo o que haviam decidido para mim.

O passarinho finalmente teve a chance de libertar-se da gaiola e


poderia voar livre. Atravessei a rua rapidamente e corri por entre as pessoas
até chegar ao outro lado da calçada. Continuei seguindo rumo ao ponto de
taxi que Ana havia me informado.

Parei por um segundo para tomar fôlego antes de caminhar até um


homem que estava em uma cabine de madeira. Distraído, ele encarava o céu e
lugar nenhum, pitando seu cigarro como se não tivesse nada com o que se
preocupar, muito diferente de mim que temia ser alcançada a qualquer
momento.

— Senhor, por favor, pode me levar até a estação de trem?

— Sim! — Ele apagou o cigarro na parede onde estava escorado e me


encarou com um sorriso mais amistoso. — Onde estão suas malas?

— Não tenho malas.

— Ah, vai buscar alguém. Aposto que é um namorado — brincou ao


tirar conclusões precipitadas, mas achei melhor não discutir com ele, muito
menos dizer que eu estava indo embora para qualquer lugar com apenas a
roupa do corpo.

Ele caminhou até um dos veículos de cor branca e abriu a porta.


Entrei sem demora. Não tinha tempo a perder, quanto mais ficasse na rua,
mais arriscado era para mim. Eu havia deixado o chefe da máfia no altar e
não poderia esperar que ninguém mais viesse me procurar.

Assim que eu me acomodei, o taxista deu a volta no carro e assumiu o


banco do motorista. Acomodei a sacola que carregava no colo e esfreguei as
mãos uma na outra, impaciente, enquanto ele ajeitava o retrovisor, como se
tivesse todo o tempo do mundo.

— Se puder ir mais rápido, por favor, eu ficaria muito grata.

— Ansiosa para rever o namorado?

— Muito — menti.

— Em alguns minutos já estaremos lá.

Esperei que ele ligasse o veículo e escorreguei no banco quando vi


um carro preto como o que eu havia saído do convento passar por nós. Era
bem provável que eles haviam voltado a vasculhar por mim.

Permaneci de cabeça baixa, fingi estar encarando as minhas mãos


para que o taxista não me questionasse. Foi a melhor forma que encontrei de
encobrir o meu rosto e tentar passar desapercebida. Eu não era a única garota
de longos cabelos castanhos em toda Roma.

Levou alguns minutos até que o taxista parasse o carro na frente da


estação de trem.

— São cinco euros, por favor.


— Obrigada. — Abri a sacola de plástico em que carregava as minhas
joias e o dinheiro que Ana havia me dado. Peguei uma nota de cinco euros
em meio as outras emboladas e entreguei para o taxista.

— Espero que o namorado a peça em casamento. Você é uma moça


muito bonita e ele não pode deixar que escape.

Acabei rindo, pois diante da situação, aquele comentário soou muito


engraçado. O sujeito não fazia ideia de que eu estava era fugindo de um
homem ao qual eu pertencia desde os meus onze anos e com quem deveria
me casar.

Saí do táxi e entrei na estação Termini, a maior estação de trem de


Roma, que estava muito movimentada, com pessoas indo de um lado para o
outro, preocupadas com seus próprios compromissos, e não se importavam
com quem eu era ou o que estava fazendo ali.

Ao contrário do que eu podia imaginar, era uma estação muito


moderna, com escadas rolantes e muitas lojas que a faziam se assemelhar a
um shopping. Parei na frente de uma Vitória’s Secret e fiquei olhando tudo
com um ar abismado e encantado.

Precisei que uma mulher passasse por mim e acabasse esbarrando no


meu ombro para que me recordasse de que eu não tinha tempo, assim como
todos que passavam de um lado para o outro. Segui até a primeira bilheteria
mais vazia, pois havia muitas de várias empresas e me debrucei perto do
vidro, encarando a mulher distraída que estava lixando a unha.
— Por favor, preciso de uma passagem para qualquer lugar o mais
longe possível de Roma.

— Tenho um trem que sai para Milão em vinte minutos.

— É longe?

— Fica na Lombardia, há alguns quilômetros da França. — Ela


franziu o cenho, encarando-me com um ar de questionamento de quem não
compreendia as minhas perguntas.

Eu refleti por alguns segundos diante da minha noção precária de


geografia. Confesso que nunca fora um dos meus maiores interesses enquanto
eu estava no convento. No entanto, se era perto da França, iria servir.

— Pode ser. — Peguei o dinheiro que eu tinha dentro do saco e


entreguei para ela.

A mulher contou as notas enquanto continuava me encarando com um


ar de questionamento e ressalvas. Era visível que eu estava fugindo de algo
ou alguém, mas ela não fez nenhuma pergunta mais íntima. Achei melhor
assim, de fato, não era da conta dela.

Ela empurrou, através do buraco no vidro, algumas moedas e um


bilhete de trem. Do dinheiro que Ana havia me dado, sobrara apenas aquilo, e
eu teria que me virar para conseguir mais quando chegasse à Milão.

Com a passagem nas mãos, rumei para a direção indicada pela


mulher. O trem iria partir da plataforma cinco. Já estava parado lá e muitas
pessoas subiam com seus pertences, a maioria tinha malas ou bolsas. Eu
carregava apenas a sacola de plástico e toda a minha coragem.

Entrei no trem atrás de uma família com um casal de filhos, com no


máximo cinco anos, e segui até o meu assento. Afundei na poltrona vermelha
e tombei a cabeça no vidro. Enquanto divagava, observei as pessoas que
passavam na plataforma e seguiam para outras, despediam de entes queridos
ou entravam no trem.

Não levou muito tempo para que o veículo começasse a se mover e eu


respirei, aliviada. Estava deixando Roma para trás e imaginava que, com isso,
deixasse também o meu destino de me casar com Marco Bellucci.
Capítulo Oito

Ouvi o som das súplicas e o choramingo antes que o estrondo do tiro


ecoasse pelo porão pouco depois do clarão do disparo da minha arma. Eu
poderia não ter espalhado o sangue da Antonella na entrada da igreja, mas
escorreu pelo chão do local onde eu costumava torturar e executar os meus
inimigos.

Além de extravasar a minha raiva, a morte dela servia como exemplo.


Quem não cumprisse as missões que eu designava, seria punido na mesma
moeda.

Eu estava furioso. Ser abandonado no altar e ter uma noiva em fuga


não colocava apenas o meu poder em questionamento, mas a minha
influência sobre as pessoas.

Quando eu era criança, meu pai tinha o hábito de ler O Príncipe, de


Maquiavel, para mim e se havia algo que eu aprendera muito bem era que “é
melhor ser temido do que amado”. Na máfia as coisas funcionavam muito
bem dessa forma, quanto mais te temessem, mais te respeitavam e mais poder
você tinha.

Guardei a arma na minha cintura e caminhei até a escada que levava


aos fundos da mansão. Olhei para o céu através da janela, ao passar pela
cozinha, e vi que já estava escurecendo. O dia havia passado e
definitivamente não terminara como eu havia imaginado. De fato, derramei
sangue, mas não foi por tomar uma virgem pela primeira vez nos meus
lençóis brancos.

Voltei para a sala de estar da mansão e encontrei os meus irmãos


sentados em um sofá, encarando Afonso Barbosa no outro. O clima já parecia
tenso, mas se tornou ainda mais quando eu entrei.

— Onde está a minha filha?! — Afonso levantou do sofá e veio


correndo na minha direção, mas parou no meio do caminho quando eu saquei
a minha arma e apontei para ele.

Segurei o cabo da arma e botei o dedo no gatinho. Meu polegar


abaixou a trava e o chefe da família Barbosa recuou alguns passos.

— Eu quem deveria fazer essa pergunta. Ela é a sua filha.

— Abri mão dela há dez anos. Esperava que fosse, minimamente,


capaz de cuidar da minha garotinha.

— Ela foi bem cuidada, mas não sou responsável pela tola ideia de
fugir. Os genes dela provavelmente não são dos melhores.

— Se tivesse cuidado melhor da menina, ela não teria fugido.

— Tem razão. Acho que esse acordo foi uma idiotice. Imagino que
será melhor lidar com os Costas quando eles assumirem o controle do porto.

— Vai retirar a nossa proteção? — O homem arregalou os olhos


como se houvesse levado um grande susto.
— Sem casamento, sem acordo. — Travei a arma e voltei com ela
para a cintura.

— Não pode fazer isso.

— Não? — Eu gargalhei e a minha voz severa ecoou por toda a sala.


— Acho que é a sua filha quem não deveria ter me deixado no altar.

— Ela é só uma garota ingênua, que não tem ideia do que fez, mas irá
se arrepender.

— Ah, pode apostar que sim. — O meu olhar sombrio fez com que
ele recuasse.

— Tenho certeza de que a Laís ainda está em Roma. Iremos encontrá-


la e o casamento vai acontecer. Não se preocupe.

Estava furioso e a minha vontade era atirar na cabeça daquele homem


também, mas poderia começar uma guerra da qual me arrependeria. Ainda
que a garota houvesse traído o único papel que precisava cumprir, a aliança
com os Barbosa, no momento, era muito benéfica. Dependíamos muito do
porto deles.

— Eu não aceitarei ser humilhado dessa forma novamente. O erro


pode ter sido dela, mas todos vocês pagarão.

— O erro não irá se repetir.

Eu o deixei falando sozinho e dei as costas. Não estava disposto a


continuar ouvindo desculpas. Meus homens estavam por toda Roma atrás da
menina e caso não a encontrassem, a família dela iria pagar pela transgressão.
Ela provavelmente poderia não fazer ideia, mas o seu capricho seria o
estopim para uma guerra.
Capítulo Nove

O céu ficou laranja e por fim ganhou nuances de um azul muito


profundo, quase ébano, enquanto eu o admirava através da janela do trem. Eu
nunca o havia comtemplado daquela forma, por mais que já houvesse
passado muitas horas debruçada no parapeito da janela no meu quarto do
convento apenas olhando para o alto. O céu, quando se era livre, parecia
ainda mais bonito.

Ouvi o som do trem parando e esperei que o senhor sentado ao meu


lado se levantasse, antes que eu acompanhasse o fluxo para fora do vagão.

Finalmente, estava longe de Roma e esperava que estivesse


inalcançável. Não sabia o que fazer, não tinha dinheiro, mas o mundo vasto e
cheio de possibilidades parecia incrivelmente mágico. Eu poderia não ser
nada, mas poderia ser qualquer coisa, e isso era inacreditável. Minha barriga
revirou e percebi que estava faminta. A adrenalina, o medo e a vontade de
chegar o mais longe possível no menor período de tempo me alimentou por
várias horas, mas já não era mais o suficiente, eu precisava de comida. Tinha
que nutrir o meu corpo ou acabaria desmaiando.

A brisa fresca fez com que eu me abraçasse quando segui para fora do
local de desembarque. Mais uma vez, assim como em Roma, eu não era
ninguém em meio ao fluxo que ia e vinha.

Caminhei para perto das lojas e vi a bela vitrine de uma lanchonete.


Os pães, bolos, roscas e doces encheram os meus olhos e me fizerem salivar.
Eu morri de vontade e me aproximei para ver os preços. Abri a minha sacola
com as mãos trêmulas e contei as moedas, lutando para que não escapassem
por entre os meus dedos, mas não eram o suficiente para comprar nenhuma
das belas comidas ofertadas na vitrine. Ainda assim, eu entrei. Fui até o
balcão onde havia uma mulher distraída e coloquei as moedas na frente dela.

— O que eu consigo comprar com isso?

Ela olhou para as moedas e para mim várias vezes e afunilou os olhos
antes de pegá-las e colocar no caixa.

— Você prefere café ou chocolate quente?

— Chocolate.

— Qual seu nome?

— La... — Mordi a língua antes que dissesse o meu nome de verdade.


Lembrei-me do conselho de Ana. Se eu não queria ser identificada, não
deveria usar meu verdadeiro nome.

— La?

— Não! Eu estava pensando alto.

— Então qual é o seu nome, garota?

— Emanuelle.
Ela escreveu o nome que eu havia pensado na hora na lateral de um
copo e apontou para uma cadeira onde eu poderia esperar.

Fiquei observando, poderia parecer simples, mas eu estava encantada.


Ver o mundo era incrível. Nada se comparava a sensação de que eu poderia
conhecer tudo.

— Emanuelle — chamou a mulher e eu levantei da cadeira para


recolher o meu pedido.

Estava tão faminta que fui com tudo, mas assim que o líquido
fumegante tocou a ponta da minha língua, eu choraminguei.

— Está muito quente! — Passei bastante saliva na língua, na


esperança de que parasse de doer.

— É por isso que se chama chocolate quente. — A atendente deu de


ombros como se houvesse achado tola a minha observação.

Fiquei segurando o copo entre as mãos e balançando de leve na


esperança que esfriasse o mais rápido possível e eu pudesse tomar.

— Quer mais alguma coisa? — ela me perguntou quando percebeu


que eu a encarava fixamente.

— Sabe onde eu posso vender algumas joias?

— Você roubou, garota?

Balancei a cabeça em negativa. Bom, haviam colocado em mim para


que eu usasse no casamento. Então tecnicamente não era roubo, era?

— Tem uma loja de penhora há dois quarteirões daqui. Se você sair


da estação pela entrada que fica logo depois das escadas rolantes, você segue
reto e vira à direita na segunda esquina.

— Muito obrigada!

— Por nada.

Me guiei pelas informações dela enquanto equilibrava o copo de


chocolate quente nas mãos. Eu soprava, girava, mas não parecia que esfriaria
nunca. Tomava alguns goles quando a fome apertava, mas o calor logo me
fazia recuar. Virei à direita como indicado e logo vi a vitrine da loja que era
exatamente o que eu estava procurando.

Muitas peças antigas eram exibidas e chamaram a minha atenção.


Fiquei observando por vários minutos até que um senhor saiu de dentro da
loja e parou ao meu lado, reparando no que eu estava fazendo.

— Está procurando algo em especial para comprar?

— Não. Só achei muito bonito.

— Ah, sim! Existem peças incríveis.

— Realmente. Esse castiçal parece antigo. — Apontei para a peça em


exibição.

— Sim. Ele é do século dezoito.


— Vi vários assim no convento.

— Convento?

— Sim, um que eu visitei uma vez.

— A igreja guarda muitas peças da história. Tantas magníficas! Meu


sonho era poder visitar o Vaticano e ter acesso aos tesouros que são mantidos
lá. Uma pena que é uma dádiva para poucos.

— Quem sabe o senhor não tenha a oportunidade um dia?

— Por que não sonhar? — Sorriu para mim de maneira amistosa.

— Eu vim até aqui porque me disseram que é uma casa de penhor.

— Sim. Você trouxe alguma coisa? — Ele olhou para a sacola que
estava pendurada no meu braço.

— Essas joias eram do casamento da minha mãe e queria que você


desse uma olhada nelas e visse o quanto pode pagar.

— Posso? — Ele estendeu a mão esperando que eu entregasse a


sacola.

Assenti e equilibrei o copo numa mão para entregar a sacola a ele com
a outra.

— Sabe, moça, eu já deveria ter fechado a loja. São quase oito da


noite, mas acabei me distraindo observando algumas peças. Pela forma como
você olhava para a vitrine, acho que vai me entender.

— Tem muitos itens admiráveis aqui. — Movi a cabeça, olhando em


volta.

— Sim.

Deixei o copo de chocolate quente sobre o balcão enquanto o


observava tirar as joias da sacola e analisá-las com uma lente de aumento.

— Você tem belos diamantes aqui.

— Tenho. Ficaram lindos nela no dia, o senhor precisava ver.

— Eu consigo imaginar.

Sorri para ele e o homem me sorriu de volta. Assim como a Ana, ele
me lembrou a irmã Maria, sempre gentil e me fazendo enxergar o melhor
lado das pessoas.

— Ouça bem, moça. Não tenho a quantia aqui para ficar com todas
essas peças. Juntas valem vários milhares de dólares, mas tenho interesse
nesse anel. Eu posso pagar por ele o valor de cinco mil euros.

— Cinco mil?

— Entenda que eu não posso pagar o valor que a peça vale, pois
preciso revender para recuperar o meu investimento, e como é uma peça cara,
vai demandar tempo.
— Tudo bem, cinco mil parece bom. — Eu sorri para ele, estava
muito contente por pensar que ao menos teria o que comer e dinheiro para
procurar um lugar para dormir. — Eu posso ficar com aquela bolsa também?
— Apontei para uma pequena bolsa marrom que estava no alto de uma pilha
de sapatos antigos.

— Gostou dela? — Ele arqueou as sobrancelhas.

Fiz que sim.

— Pode ficar.

— Muito obrigada. — Fui até a bolsa e a peguei. Guardei nela a tiara,


a gargantilha e o par de brincos que o homem não demonstrou interesse. Eu
os poderia vender em outra loja de penhor depois.

— Vou pegar o dinheiro para você. — O senhor entrou com o anel


para os fundos da loja e eu fiquei esperando.

Peguei o copo de chocolate e ele finalmente havia esfriado. Tomei


tudo em apenas algumas goladas e meu estômago pediu por mais. Porém, eu
teria que esperar.

— Aqui está seu dinheiro. — O senhor me entregou um envelope de


papel volumoso que imaginei conter as notas.

— Agradeço demais.

— Você não parece daqui.


— Não sou. — Inspirei quando percebi que estava mais uma vez
passando informações sobre mim que não deveria.

— Tome cuidado com essas joias e esse dinheiro por aí.

— Obrigada pelo conselho. Você tem lixo? — Balancei o copo de


papel no ar.

— Pode me entregar que eu jogo fora.

Fiquei nas pontas dos pés e me curvei para entregar o copo para ele.
Eu me despedi e voltei para rua, segurando firme as alças da bolsa recém-
adquirida.

Estava ficando ainda mais escuro e as pessoas minguavam nas ruas,


assim como os carros. Com o dinheiro que havia conseguido pelo anel,
poderia arranjar um local para dormir e uma refeição saborosa para não ficar
com o estômago doendo.

Continuei caminhando, observando as construções, as pessoas e até


mesmo os postes. Comecei a cantarolar, pois, apesar de não ter rumo, eu
estava livre e poderia ir para qualquer lugar. Rodopiei na ponta dos pés e
girei de braços abertos, sentindo a brisa fresta se mover pelo meu rosto e
pelos fios do meu cabelo castanho.

Algumas pessoas que passavam na rua olhavam para mim, e deveriam


me achar louca, mas nenhuma delas poderia prever que eu havia fugido de
um casamento com um cara que eu nem conhecia, a não ser das vagas
lembranças de quando eu tinha onze anos e por ele ter me deixado num
convento.

Eu mal sabia quem era eu mesma ou o que seria de mim se o meu


destino fosse diferente. No convento eu não possuía personalidade, não podia
escolher minhas próprias roupas ou falar com quem eu quisesse. Não tinha
amigos, não tinha família, apenas a promessa de que, quando completasse
vinte e um anos, sairia de lá para me casar com um homem perigoso.

Estando livre, eu poderia ser quem eu quisesse, encontrar a minha


própria razão para pertencer aquele mundo.

Continuei caminhando e virei a esmo em uma e noutra esquina, até


que parei diante de uma placa onde estava escrito há vagas, logo depois do
nome de um hotel. Subi a escadinha e segui até a entrada. Dei duas batidinhas
e ela se abriu.

Segurei a maçaneta para passar e fechei a porta logo atrás de mim


quando entrei. Meus olhos foram atraídos para uma parede com suportes
onde havia inúmeros panfletos muito coloridos. Só com o olhar eu não
consegui determinar sobre o que eles eram, mas não me atrevi a pegar
nenhum. Tinha ouvido muito no convento que não deveria mexer em nada
que não me pertencia ou a punição poderia ser severa. Engoli em seco ao
pensar nos castigos que já tivera naquele local por transgredir as regras.

— Posso ajudá-la? — perguntou uma mulher atrás do balcão da


recepção, e eu dei um pulinho de susto.
— Ah, oi! — Virei-me para ela toda sem jeito. Cocei a cabeça e
depois me abracei, num ato involuntário de me proteger, ainda que não
existisse nenhuma real ameaça. — Eu vi a placa dizendo que havia vagas.

— Você precisa de um quarto?

— Preciso.

— Por quanto tempo?

— Eu... e... — Parei para pensar. Lembrei do conselho de Ana. Ainda


estava na Itália e era melhor que não passasse muito tempo ali ou fosse para
um local onde eu não seria encontrada.

— Só uma noite?

— Sim. — Balancei a cabeça em afirmativa, saindo do transe.

— Vou precisar da sua carteira de identidade ou o passaporte para


fazer o seu cadastro.

— Não, não tenho... — Abracei a bolsa e recuei.

— Você não tem documentos? — Ela arregalou os olhos verdes e se


debruçou sobre o balcão fazendo com que eu recuasse.

— Não tenho.

— Está fugindo da polícia?

— Não, da polícia não.


— Por que não tem documentos então?

— Eu perdi, mas... mas eu... eu posso procurar outro lugar para


dormir.

— Você pelo menos tem dinheiro?

— Sim, dinheiro eu tenho. — Abracei a bolsa com ainda mais força.

— São trinta euros pela noite.

— Tudo bem. — Abri a bolsa e o pacote com dinheiro dentro dela.


Havia várias notas de cinquenta euros e peguei uma delas para entregar a
recepcionista.

— Obrigada. — Ela avaliou bem a nota antes de guardá-la e pegar


outra para me dar de troco.

— Também queria algo para comer. Estou faminta.

— Dá para perceber. — Ela pegou um papel debaixo do balcão e o


entregou para mim. — Esse é o cardápio da cozinha, você pode escolher
algo.

— Pode ser esse macarrão — disse sem pensar muito.

— Vou providenciar e mando entregar no seu quarto. — Ela me deu


uma chave e dez euros de troco.

Caminhei até a escada que a recepcionista indicou com um gesto de


mão e segui para o quarto onde eu passaria a noite. Estava ansiosa para tomar
um banho e descansar um pouco. Meus joelhos ainda doíam muito por eu ter
corrido tanto. Pela primeira vez, pensei que poderia ter me esforçado um
pouco mais nos exercícios no convento. Eu não seria tão sedentária se
houvesse dado o mínimo de atenção para a irmã Dulce.

Abri a porta. Tirei a bolsa e a coloquei sobre a cama antes de me


despir do vestido e das roupas intimas para caminhar até o chuveiro. Eu
estava com uma cinta liga e uma lingerie provocante, apesar de branca.
Certamente, um agrado para o homem que eu havia deixado esperando no
altar.

Engoli em seco ao pensar no quanto ele poderia estar furioso, mas


logo afastei esses pensamentos. Precisava aproveitar a minha chance de ter
uma vida diferente daquela que outros haviam escolhido para mim.
Capítulo Dez

Escorreguei o copo sobre a superfície da mesa antes de levá-lo a boca


e tomar alguns goles do uísque single malte mais forte que encontrei no meu
bar. Aquela, definitivamente, não era a forma como eu esperava concluir a
minha noite. Seria um mentiroso se dissesse que estava ansioso por aquele
casamento, principalmente porque ele era apenas uma peça no jogo político
que eu travava, porém a frustação por tudo não ter ocorrido exatamente como
eu previra era enorme.

Há dez anos eu havia assumido o compromisso de me casar com Laís


Barbosa. Havia a deixado num convento e esperara até o momento que ela
completaria vinte e um anos. Deveria ser um circo, mas fácil de reger. O que
eu não previa era que Laís fosse capaz de virar o jogo e tirá-lo do meu
controle. Se havia algo que eu odiava era perder o controle da situação.

— Está muito furioso? — Ouvi a voz do Mateo.

Tomei mais um gole do meu uísque e fiquei encarando a janela antes


de colocar o copo sobre a mesa e girar o corpo para encarar o meu irmão.

— Não estou furioso, estou puto. — Respirei e inspirei, para conter a


vontade de pegar o copo e tacá-lo na parede. Sempre fui um homem muito
estável, e saber lidar com qualquer situação me fazia tão temido.

— O que você vai fazer agora?


— Estão vasculhando Roma atrás da garota? — respondi o meu irmão
com outra pergunta.

— Assim como você ordenou, mas estão todos curiosos para saber se
o casamento prosseguirá e como será a nossa relação com os Barbosa depois
do que a filha deles fez com você. Foi uma enorme afronta.

— Sim, uma transgressão gigante. — Peguei o copo de uísque mais


uma vez e tomei outro gole. Minha garganta estava seca e nem o ardor da
bebida alcoólica estava servindo para amenizar. Eu deveria estar usando cada
gota no meu corpo para manter o controle.

— Alguns esperam uma guerra — Mateo prosseguiu. Ele ainda não


havia percebido que eu não queria conversar.

— Eu poderia começar uma guerra. — Arremessei o copo na parede,


bufando.

— E não vai?

— A tola não faz ideia do que fez.

— Com certeza não. — Mateo gargalhou. — Deve ser muito ingênua


para não ter ideia da trilha de corpos que uma fuga dessas deixaria.

— Eu tenho duas escolhas nesse momento, irmão. Criar essa trilha de


corpos e derramar bastante sangue, inclusive dos nossos, ou ir atrás dela e
resolver essa situação.
— Não deve ser tão difícil encontrá-la. Afinal, uma garota que passou
metade da vida em um convento, sozinha e sem recursos, não pode ir muito
longe.

— É o que eu espero... Mande vasculhar cada canto de Roma, cada


ruela e beco. Até debaixo dos bueiros se for preciso. Mande um alerta para
todos os chefes de gangues. Um deles deve ter visto uma noiva em fuga. Se
ela foi além dos limites da cidade, pode ter tido ajuda e eu vou querer saber
de quem.

Surpreendi-me com o som do meu celular vibrando no bolso. Não


estava disposto a jogar conversa fora naquele momento, porém estava
esperando notícias da minha prometida. Puxei-o do bolso e atendi.

— Quem é?

— Olá, Marco Bellucci — disse uma voz debochada do outro lado da


linha.

— Senhor Bellucci — corrigi num tom autoritário. Não sabia quem


era, mas odiei a forma como estava falando comigo.

— Certo, senhor Bellucci. Presumo que não esteja tendo um dos seus
melhores dias, já que a sua bela e jovem noiva o abandonou no altar.

— Quem está falando? Vou perguntar apenas uma vez antes que eu
dê um jeito de rastrear a ligação e mande matá-lo.

— Sou Benjamin Costas, imagino que já tenha ouvido falar de mim.


Afonso Barbosa e eu somos velhos conhecidos.

— Por que está ligando para mim? Como conseguiu o meu celular?

— Você não é o único que possui contatos, senhor Bellucci.

— Imagino que você nunca tenha ouvido que o inimigo do meu


aliado também é meu inimigo.

— Sim. Inclusive lamento o fato de vocês fazerem jus a esse ditado


tão piamente. Porém, o acordo com os Barbosa não parece valer tanto assim,
já que Laís o deixou no altar.

— Aonde pretende chegar com isso?

— O que vai acontecer se não houver casamento?

— Ela é só uma garota.

— Mas é o elo entre as duas famílias, não é mesmo?

— Fique longe dela — disse com a voz firme, porém serena.

— Como você mesmo disse, é só uma garota. Por que deveria se


preocupar com ela? Podemos ser ótimos aliados, Marco. Se quer uma esposa,
posso encontrar outra portuguesa bem obediente que não o irritará.

— Isso é tudo?

— Tenha uma boa noite, meu caro. — Ele desligou, mas a sua
gargalhada ecoou na minha cabeça por alguns segundos.
— Maldito filho de uma puta!

— Quem era, Marco? — Meu irmão fechou a porta e chegou mais


perto.

— Benjamin Costas.

— O que ele queria?

— Me lembrar da fragilidade da nossa relação com os Barbosa, agora


que a Laís me deixou no altar.

— Que cuzão!

— Eles vão atrás da Laís e irão matá-la.

— Ele disse isso? — Meu irmão arregalou os olhos verdes.

— Não explicitamente, mas reforçou o quanto será mais vantajoso


fechar negócios com eles. Me ofereceu até uma esposa obediente. Se eles
tirarem a Laís da equação, podem tomar o porto e se aliarem a nós.

— Não temos muito o que perder, já que poderemos continuar


trazendo o nosso contrabando através de Portugal.

— Só a nossa palavra e um acordo firmado há dez anos.

— E o que você pretende fazer?

— Ir atrás da garota imbecil antes que os Costas metam uma bala na


cabeça dela.
— Espero que sejamos os primeiros a encontrá-la.

— Para o bem da menina, torço por isso. — Cocei o queixo,


pensativo.

Estava furioso e meu primeiro pensamento era deixar que os Costas se


livrassem dela. Seria um problema a menos para mim, mas teria que esperar
que uma guerra sangrenta eclodisse em Portugal para que tivesse novamente
o acesso ao porto. Isso poderia prejudicar os meus negócios, mas não por
muito tempo. Contudo, havia honra entre os bandidos. Eu não podia
simplesmente dar as costas para um acordo de dez anos sem esperar que em
algum momento o mesmo acontecesse comigo. Éramos o elo mais forte
daquela corrente, mas para continuar dessa forma, precisava continuar
contando com os meus aliados.

— Vamos para a boate? Você pode se distrair com uma das


dançarinas...

— Não estou com cabeça para puta hoje — interrompi meu irmão.

— Certo, irei deixá-lo sozinho. Se precisar de mim...

— Eu chamo.

Mateo assentiu com um movimento de cabeça e deixou o meu


escritório.

Caminhei até a janela e coloquei as mãos abertas sobre o vidro


enquanto encarava a fonte e o jardim no pátio central da mansão.
Já tinha muitos problemas para lidar, mas precisava correr contra o
tempo para encontrar uma noiva em fuga antes que a tola fosse capturada e
morta por uma família rival. Odiava ter um ponto fraco e Laís se tornou o
meu antes mesmo de nos casarmos.
Capítulo Onze

Espreguicei na cama ao sentir os ternos raios de sol adentrarem a


janela do quarto de hotel. Apesar de todo o receio, eu havia dormido bem
como nunca. Estava revigorada.

— Bom dia, sol! — Levantei da cama e a abri, inspirando


profundamente o cheiro da manhã. Ele vinha acompanhado de um aroma de
padaria. Imaginei que houvesse uma não muito longe dali. Com o dinheiro
que eu tinha devido a venda do anel, poderia tomar um belo café da manhã.

Fui até o banheiro bem arejado e iluminado. Joguei uma água no rosto
e encarei a minha imagem no espelho. Meus olhos estavam fundos e meu
cabelo bastante desgrenhado. Não era uma noite bem dormida que
recuperaria todas as outras da última semana, porém seria o primeiro passo.

Prendi o cabelo com o elástico que unia dois sabonetes e bochechei


apenas com água. Também iria precisar comprar escova de dentes e roupas
novas.

Eu sabia muita coisa sobre história, principalmente da Itália e do


cristianismo, além de outras informações que me foram passadas no
convento. Imaginava que com isso pudesse encontrar um trabalho, uma vez
que o dinheiro das joias não duraria por muito tempo e eu iria precisar
conseguir mais.
— Ela está ali. — O silêncio fez com que eu ouvisse uma voz no
corredor. — Chegou ontem e não tem documentos. Vi que está com muito
dinheiro, imaginei que pudesse ser alguma fugitiva da polícia. — A voz
feminina me recordou da recepcionista que me atendera na noite anterior.

Ela havia chamado a polícia para mim?

Eu não podia ser presa, não conseguiria explicar o que estava


acontecendo comigo e certamente voltaria para as mãos daqueles de quem
estava tentando fugir.

— Senhorita! — Uma voz masculina bateu na porta.

Eu não respondi. Peguei a bolsa em cima do móvel de cabeceira e


corri apara a janela. Eu estava no segundo andar, mas não sabia se iria
conseguir pular sem me machucar feio, porém eu não tinha outra alternativa.

Encarei a rua e subi no parapeito da janela. Lá embaixo, estava


relativamente movimentado e vi um caminhão se aproximar no horizonte.
Esperava ter calculado o pulo certo, pois saltei no momento que ouvi a porta
ser aberta. Havia um risco muito alto que eu me esborrachasse no chão e o
veículo passasse por cima.

Fechei os olhos e senti o impacto. Minhas mãos se chocaram contra a


superfície de metal da carroceria. As palmas ardendo, sinalizavam que
haviam recebido boa parte da colisão, mas os braços e os ombros também
estavam dormentes.
Virei a cabeça e vi os policiais, juntamente com a recepcionista,
aparecerem na janela do quarto onde eu estava há pouco. Eles me encararam,
mas não se arriscaram a vir atrás de mim. Imaginei que a atitude que eu havia
tomado fora insana.

Tentei ficar de pé, mas o veículo começou a se mover e eu não tive


equilíbrio. Havia sido difícil cair sobre o caminhão e seria ainda mais descer
dele.

Segurei nas ranhuras no metal, fazendo o máximo para não rolar e me


deixei ser levada pelo transporte improvisado. Ele virou em uma esquina e
em outra, mas logo comecei a ouvir o som das sirenes do carro policial. Eles
estavam atrás de mim, eu não precisava ser uma grande gênia para ter certeza
disso.

Eu já estava fugindo da máfia, não precisava de problemas com a


polícia também. Contudo, achava pouco provável simplesmente conversar
com eles. Eu não tinha documentos, não era ninguém. Iriam me devolver para
algum lugar ou me manter presa até que checassem a minha história, seria
uma questão de tempo para que aqueles de quem eu fugia acabassem me
encontrando.

O vento soprava o meu cabelo desgrenhado no rosto, meu coração


batia acelerado e minha respiração era difícil. Porém, a adrenalina ainda
estava no máximo. Sentia no meu âmago que precisava fugir se quisesse uma
chance de ter uma vida longe de uma gaiola e na cama de um monstro.
O caminhão encostou no meio fio e parou. Ao longe, pude ver o
veículo da polícia se aproximando. Eu não tinha outra alternativa que não
fosse correr.

Olhei para a calçada, era alto, mas não tinha nenhuma escada, eu
precisava pular. Saltei com toda a adrenalina que corria pelo meu sangue,
senti o impacto quando meus joelhos se curvaram para impedir que eu
rolasse. Quando o meu corpo esfriasse, tinha certeza de que sentiria muito
mais dor nas articulações.

Olhei para o carro dos policiais, cada vez mais perto e saí em
disparada. Entrei dentro de uma loja de roupas e segui correndo. Um dos
seguranças me avistou e veio atrás de mim e precisei me esquivar dele, indo
para trás de algumas ilhas de roupas.

— Você precisa sair da loja!

Não respondi. Era o que eu pretendia fazer, mas não pela mesma
porta que eu havia entrado. Vi uma outra saída do outro lado e segui para ela.
Um sujeito na porta tentou me interceptar, mas acabou me deixando ir
quando percebeu que eu não estava roubando nada.

Saí por outra rua e continuei correndo. Esbarrei em uma mulher cheia
de sacolas que brigou comigo, mas não parei para ajudá-la a recolher.

— Presta atenção por onde anda!

— Desculpa! — gritei sem parar de correr.


Esgotei até a última gota do meu fôlego correndo e correndo, pois a
minha vida de fato dependida disso. Quando não consegui mais, eu me
escorei em uma parede ao lado do que me pareceu ser um caixa eletrônico e
inspirei profundamente. Meu diafragma estava doendo, assim como meus
joelhos.

Precisava parar, descansar um pouco, mas não podia.

Voltei a correr até parar na frente de um enorme centro de compras.


Era uma galeria gigantesca, e imaginei que seria muito mais difícil ser pega
pela polícia ali dentro, além disso, precisava comprar roupas novas.

Quando eu entrei pelas portas automáticas, passei a mão pelo meu


cabelo desgrenhado e tentei parecer minimamente apresentável. Tudo o que
eu não precisava era que chamassem a polícia para mim outra vez.

Na primeira loja a minha direita, avistei um manequim com roupa de


praia e um enorme chapéu branco e óculos de sol. Pensei em comprar o
chapéu, mas poderia acabar chamando ainda mais atenção, no entanto os
óculos poderiam vir a calhar.

— Olá. — Aproximei-me da vendedora.

— Sim? — Ela me olhou de cima abaixo e fez uma expressão de


descaso.

— Quero esses óculos, por favor.

— São cem euros.


— Tudo bem. — Abri a bolsa e peguei o dinheiro, fazendo com que
ela arregalasse os olhos e prestasse atenção em mim. — Você só tem roupas
de praia ou algo mais casual também?

— Entre na loja, por favor. Eu posso apresentar outros modelos para


você.

— Obrigada.

Segui com ela para o interior da loja e a vendedora me mostrou várias


peças do casual até um estilo mais para festa.

Comprei dois vestidos e sapatos, pois os que eu estava usando


estavam bem desgastados da correria desenfreada. Se fosse manter aquele
ritmo, teria que encontrar tênis de corrida para poupar as minhas articulações.

Depois eu fui até a praça de alimentação e me troquei em uma das


cabines do banheiro público. Imaginava que com outra roupa seria mais
difícil ser encontrada pelos policiais que, provavelmente, ainda estavam me
procurando.

Precisava encontrar um local para tomar banho. De preferência um


que não me pedisse documentos ou perguntasse quem eu era, muito menos
chamasse a polícia para mim.

Quando eu saí correndo em um impulso e fugi do meu casamento, não


imaginava que seria tão difícil me manter livre. Era como se todos quisessem
que eu voltasse a ser aquela mulher que diziam o que deveria ou não fazer.
No convento me falavam muito que eu deveria sempre obedecer e
servir. Ir contra isso poderia ser bem mais complexo do que eu imaginava.
Capítulo Doze

— O carregamento que chegou da Bolívia já foi distribuído nas ruas?


— questionei o homem que estava parado na minha frente e me encarava
com o ar firme.

— Sim, senhor. Já está sendo comercializado por nossos homens por


toda Roma.

— Ótimo.

— Não é isso o que me preocupa.

— O que então?

— O território dos ciganos está se expandindo.

— Como assim território dos ciganos? — Franzi o cenho e cerrei os


dentes.

O homem diante de mim recuou, pressionando as costas contra o


encosto da cadeira. Eu sempre fora um leão e não era bom me provocar.
Além disso, não estava nos meus melhores dias. Minha noiva não só havia
me arrumado uma grande dor de cabeça, mas também, uma guerra fria com
os Costas.

— Roma inteira é território dos Bellucci — ressaltei, lembrando-o de


quem mandava ali.
— Sim, senhor, mas eles são uma praga. Negociam armas e drogas
bem debaixo do nosso nariz e acham que sairão impune.

Reparei num mosquito que estava voando entre nós dois. Ele estava
no meu escritório desde o momento em que o homem havia entrado, mas,
naquele momento, dei atenção para ele. Movi a mão e o capturei, esmagando-
o entre meus dedos.

— Sabe o que fazemos com pragas, Martino? — Abri a mão,


mostrando o mosquito esmagado quando ele não disse nada. — Nós
eliminamos. Encontre um bom pesticida e lembre-os de quem manda em
Roma e em toda a Itália.

— Sim, senhor. — Ele balançou a cabeça diversas vezes de um jeito


irritante.

Ouvi uma batida na porta e em seguida o meu irmão caçula, Mateo,


passou por ela.

— O que foi? — Peguei um lenço e o encarei ao limpar a minha mão.

— Tem um minuto para conversarmos? Eu tenho notícias.

— Saia, Martino. Continuaremos essa conversa depois. Fale com o


Theo sobre o problema com os ciganos, meu irmão saberá o que fazer.

O homem de meia idade e cabelos grisalhos assentiu com um


movimento de cabeça, fazendo uma breve reverência e deixou a sala.
Mateo trancou a porta assim que o homem deixou o cômodo e veio
para perto de mim. Passou a mão pelo cabelo escuro e curto e puxou a
cadeira antes ocupada por Martino e se sentou nela. A minha relação com os
meus irmãos sempre foi muito boa. Poderia dizer tranquilamente que tinha a
ajuda deles para reger aquele império e que seria muito mais difícil se eu não
os tivesse ao meu lado. Minha mãe sempre me dizia que a família era tudo, e
essa era uma das poucas coisas que eu concordava cem por cento com ela.

— O que você conseguiu? — Levei a mão ao pescoço e afrouxei


minha gravata. Estava tenso e o tecido apertado estava começando a
incomodar.

— Usei nossos contatos na polícia para vasculharem as câmeras da


cidade atrás dela. Consegui todas as imagens das câmeras públicas no
período das últimas vinte e quatro horas. Nunca imaginei que usaríamos a
nossa equipe de informática e o melhor software de reconhecimento facial
para encontrar uma noiva fujona.

— Vá direto ao ponto, Mateo.

Meu irmão sempre gostou muito de assuntos relacionados à


informática e a computação. Muitas vezes era praticamente impossível conter
a empolgação dele em relação a esses assuntos. Aos trinta anos, ele ainda
parecia um menino empolgado diante de um brinquedo novo.

— Ela não está mais em Roma. Pegou um trem para Milão.

— Como?! — Bati com as mãos na mesa. Admito que não estava


mais conseguindo manter o controle sobre aquela situação, porque eu odiava
ser desafiado. — Explique-me como uma mulher pegou um trem para fora de
Roma vestida de noiva e sem dinheiro?

— Ela teve ajuda, pois nas câmeras está com outro vestido.

— De quem, como?

— Ainda não sei. Ainda estamos vasculhando Roma atrás de pistas,


mas seja lá quem foi, não vai querer contar.

— Quero que mande interrogar todos os que tiveram contato com ela
no convento. Alguém deve saber de alguma coisa.

— Já fiz isso. Ninguém sabe de nada.

Bufei.

— Quer que eu vá para Milão? Irei trazê-la pelos cabelos.

— Não.

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso com a minha resposta.

— Vai deixá-la para lá? Se ela morrer nas mãos dos portugueses, a
culpa será inteiramente dela.

— Não, eu vou para Milão. Você e o Theo ficam de olho em tudo por
aqui. A garota é problema meu e eu mesmo darei um jeito nela. Quero ajuda
de alguns dos seus homens, os melhores e os mais discretos, para rastreá-la.
— Como você desejar. — Ele assentiu. Mateo me conhecia bem.
Existiam coisas que eu gostava de fazer com as minhas próprias mãos.

— Mande preparar tudo. Saio em duas horas.

— Certo.

— Martino está com problemas com os ciganos. Mande um recado


para eles. Faça-os se lembrar de quem manda em Roma. — Levantei da
minha cadeira e saí do escritório, deixando o meu irmão sozinho.

Atravessei o enorme corredor e subi uma escada que levava para os


quartos no terceiro andar.

Entrei na minha suíte e tirei o blazer, me despi da camisa social e da


calça. Troquei por um jeans, camisa polo e uma jaqueta de couro.

Mal via a hora de botar as mãos naquela garota. Ela deveria mesmo
ser muito ingênua para não ter ideia do enorme problema que havia causado
não apenas para si, mas para todos que dependiam daquele casamento.

Peguei os óculos de sol sobre a cômoda e fui até o cofre que ficava no
fundo do meu closet. Peguei alguns maços de euro e dólar, uma pistola
automática e vários pentes de bala. Torcia para que não tivesse que abrir
caminho a tiros para reaver a minha noiva, porém precisava estar preparado
para tudo.

Coloquei a arma no meu coldre junto com a outra que já estava ali.
Peguei um colete à prova de balas, o carregador do meu celular e deixei o
quarto.

— Marco. — Fui surpreendido com a minha mãe no corredor.

— Não tenho tempo para conversar agora. — Fui ríspido. A verdade


era que eu não queria ficar de papo furado. Minha cabeça estava latejando.
Estava irritado.

No fundo, até estava torcendo para encontrar um Costas. Não seria


mal descarregar um pente de balas em um deles.

— Para onde está indo?

— Para Milão.

— Algum assunto importante?

— Minha noiva fujona e estúpida foi parar lá.

— Como? — Ela arregalou os olhos esverdeados.

— É o que eu quero descobrir. Agora eu preciso ir.

— Marco. — Minha mãe segurou o meu pulso, impedindo que eu


prosseguisse pelo corredor e a encarasse. — Não a mate. Ela é jovem e está
assustada. Não sabe o que está fazendo.

— Irei trazê-la para cá, mas espero que não me cause mais problemas.

A verdade é que, apesar de toda a minha raiva, eu não iria matar a


garota. Se a minha intenção fosse essa, deixaria que os Costas sujassem as
mãos no meu lugar.

— Agora preciso ir. — Tirei a mão da minha mãe do meu braço e


segui escada abaixo.

Ao chegar na sala, os homens que meu irmão havia designado para


irem comigo já estavam aguardando, juntamente com mais três que
garantiriam a minha segurança. Por mais arriscado que fosse, era melhor eu
não mobilizar um exército para Milão, ou acabaria chamando atenção
demasiada.

— Vamos. — Fiz um gesto para que me seguissem.

Descemos até a garagem. Assim que entramos no espaço grande onde


guardávamos os carros da família, os sensores ligaram as luzes de imediato.

Fui até o meu Venon preto. Enquanto meus irmãos exibiam suas
Ferraris, aquele era o meu favorito, não apenas pelo design, mas pela
velocidade que conseguia atingir. Era um verdadeiro avião sem asas.

— Sandro, você vem comigo. — Apontei para um deles, que assentiu


com a cabeça. — O restante de vocês segue nos SUVs. Quero chegar em
Milão o mais rápido possível.

— Sim, senhor Bellucci

Abri a porta do meu carro e entrei no banco do motorista. Dedilhei o


volante, sentindo sua textura antes de envolvê-lo com meus dedos. Afastei a
mão direita para ligar o automóvel e dar a ré para deixar a garagem.
A caminho de Milão, só pensava em resolver tudo o mais rápido
possível, porém achar que ela não me traria mais problemas era subestimar a
Laís. Por mais ingênua e inofensiva que ela parecesse, poderia me causar
outra bela dor de cabeça.
Capítulo Treze

A minha ideia de entrar no centro de compras foi muito boa, pois


consegui despistar os policiais. Porém, ainda precisava encontrar um lugar
para dormir e comer sem que me fizessem perguntas. Algo dentro de mim me
dizia que eu precisava sair daquela cidade. Ainda estava na Itália e poderia
ser encontrada por aqueles que estavam me procurando, porém estava
cansada demais para pensar em um lugar para ir.

Meus joelhos doíam muito e a minha cabeça chegava a pulsar.


Precisava descansar. Felizmente estava de barriga cheia, pois havia comprado
o que comer na praça de alimentação da galeria.

Segurando as sacolas, segui de volta para a rua. Vi vários hotéis


enquanto caminhava, porém imaginei que qualquer um deles fosse me pedir
documentos e o medo de que chamassem a polícia novamente era bem
grande.

Percebi que sem documentos eu não era assim tão livre, pois não
poderia ir a qualquer lugar onde ou como eu bem entendesse. A verdade, que
ia ficando cada vez mais clara, era que eu viveria sempre fugindo e me
escondendo.

Como conseguir um trabalho descente e levar uma vida se eu teria


sempre que me esconder?
Ouvi o som de uma moto passando por mim e mal tive tempo de
reagir antes que o motoqueiro agarrasse a minha bolsa.

— Solta! — Segurei a alça com toda a minha força, mas era muito
difícil fazer isso com a as outras sacolas que eu carregava.

Ele acelerou e arrastou a bolsa. Puxei de volta, não podia deixar que
levasse. Tudo o que eu tinha eram aquelas joias e o dinheiro da venda do
anel. Sem identidade eu não poderia conseguir mais nada.

Segurava com toda a força e podia sentir o couro da alça machucar os


meus dedos, mas eu não podia soltar. Tinha que agarrá-la o mais forte
possível, pois eu não sabia o que iria fazer sem ela.

O motoqueiro chutou a minha barriga e arrancou a bolsa de mim com


um tranco firme. Eu caí sentada no chão de pedra quando a alça arrebentou.
Fiquei apenas com ela na mão enquanto a moto acelerava para longe com
tudo o que eu tinha.

O choque foi tão grande que não consegui pensar em gritar ou chorar.
A verdade é que eu não sabia nada do mundo e viver sozinha e sem proteção
poderia ser muito mais difícil do que eu imaginava.

— Tadinha. — Vi uma mulher parar na minha frente e me estender a


mão. — Você está bem?

Balancei a cabeça em negativa enquanto as lágrimas se acumulavam


no meu rosto. Eu queria chorar, o desespero era muito grande, mas foi como
se elas houvessem apenas se acumulado nos meus olhos.

— Ele... ele... — Solucei. Não sabia se era por causa do medo ou do


cansaço, mas não conseguia falar.

— Você foi roubada.

— Sim.

— Eu vou ligar para a polícia.

— Não, por favor, a polícia não. — Levantei cambaleando e dei


alguns passos trôpegos para trás.

— Eles podem ajudar.

— Não. — Eu corri para longe da mulher sem que ela tivesse chance
de falar qualquer outra coisa.

Estava com muito medo da polícia, medo de tudo. Não sabia em


quem confiar e, sem dinheiro, não tinha para onde ir.

Voltei a correr. Tudo o que eu tinha nas mãos era uma sacola de papel
com o vestido antigo, que acabei deixando cair quando esbarrei em uma
pessoa.

Segui o fluxo das pessoas e atravessei a rua até avistar as grades


verdes de um enorme parque. Vi um arco admirável, branco e com soldados
em cima, um arco do triunfo. Sem conseguir pensar direito, entrei na
esperança que as árvores me fizessem pensar melhor.
Sempre amei um jardim. O verde e as plantas me harmonizavam e
traziam paz, mesmo em dias que eu tinha pesadelos. Quando as irmãs
distribuíam tarefas no convento, eu sempre pedia para cuidar das plantas.

Esperava que ao menos ali não aparecesse ninguém querendo chamar


a polícia para mim.

Acreditava que era sozinha no convento, mas do jeito que eu estava


agora era muito pior do que qualquer amizade efêmera que consegui com as
noviças.

Quando fugi, achava que a vida livre seria mais agradável do que a
que esperava por mim no altar. Poderia estar errada?

Segui o caminho de pedras por entre a grama verde e sentei em um


banco de ferro. De mãos vazias, olhei para os meus dedos. Havia um corte e
sangue seco e a pele estava vermelha na região.

As circunstâncias estavam mostrando que a vida fora do convento não


era nada fácil. Felizmente, eu ainda não estava com fome e o sol da tarde
aquecia os meus ombros. Seria muito mais complicado quando ficasse escuro
e começasse a fazer frio.
Capítulo Quatorze

Estacionei o carro diante de um hotel em Milão que pertencia a minha


família. Tínhamos muitos hotéis, restaurantes, vinhedos e outros negócios
espalhados por toda a Europa que eram usados para lavar o dinheiro sujo da
máfia. Hotéis como aquele tinham sempre uma cota de quartos sempre
alugados por hóspedes fantasmas que eram pagos com dinheiro sujo.

Entreguei a chave para o manobrista e segui até a recepção.

— Boa tarde, quero a chave da suíte presidencial.

— Ah, sim... — A recepcionista estava distraída lendo algo na tela do


computador, mas tomou um susto quando levantou a cabeça e me viu parado
a encarando. — Senhor Bellucci.

— A chave.

— Sim, um instante. — Ela procurou por um cartão chave debaixo


do balcão e o entregou para mim.

— Tenha uma boa estadia.

— Obrigado.

Eu e os meus homens fomos para a maior suíte do hotel. Ela sempre


ficava vazia, mas era usada por nós quando precisávamos vir a cidade para
resolver algum assunto.
Não disse uma palavra até abrir a porta e nos reunimos na sala de
estar. Os homens ficaram me encarando e eu apontei para a enorme mesa
com lugar para dez pessoas.

— Quero que usem o mesmo software de reconhecimento facial para


tentar identificá-la. Não almejo perder muito tempo aqui, então o quanto mais
rápido nós a encontrarmos, melhor.

Os homens responsáveis pela informática, que o meu irmão havia


enviado, tiraram os notebooks das mochilas e se acomodaram na mesa.

Enquanto esperava, fui até o frigobar do quarto, sempre abastecido, e


peguei uma garrafa de água gelada. Ainda era primavera, mas o calor se
equiparava ao do verão, talvez fosse porque eu odiava por demais aquele
clima. Eu preferia o inverno onde não suava tanto, as roupas não me
incomodavam e os dias eram mais curtos.

Caminhei pelo quarto até encontrar o controle do ar condicionado,


para reduzir a temperatura do cômodo. Depois fui até a janela e, bebericando
a água, fiquei observando as pessoas passando pela Via Monte Napoleone.
Muitos carregavam inúmeras sacolas. Milão era uma cidade conhecida
mundialmente como um distrito da moda e vinham pessoas do mundo inteiro
gastar milhares de euros em compras.

Senti meu celular vibrar no bolso e o puxei. Olhei o nome na tela e


coloquei no ouvido ao atender.

— Theo?
— Mateo falou que você foi para Milão atrás da noiva fugida.

— Sim. Estou no Monte Bello esperando que a encontrem com esse


software de reconhecimento facial.

— Pelo menos os milhares de euros que nosso irmão gastou no


mercado negro para comprar isso valeu de alguma coisa.

— Como ainda não a encontrei, não posso dizer ao certo.

— Quero só saber como ela foi parar em Milão.

— Ainda temos muito o que saber quando eu botar as minhas mãos


nessa garota.

— Pelo menos fará isso antes que os Costas o façam. Por falar neles,
teve algum sinal daqueles desgraçados?

— Desde a ligação deles, não.

— Às vezes só queriam latir um pouco.

— Menosprezamos uma tola garota que cresceu em um convento e


veja só o que aconteceu. Estamos nesse meio há muito tempo para nos
darmos ao luxo de não nos preocuparmos com nossos inimigos, irmão.

— Você tem toda a razão. Espero que encontre ela logo e volte rápido
para casa.

— Algum problema? — Minha voz ficou tensa enquanto eu pensava


nas milhares de coisas que poderiam acontecer longe da minha presença.

— O de sempre, mas não precisa se preocupar. Consigo segurar


algumas bombas por você.

— Ainda está lidando com aquele assunto?

— Estou sempre fazendo isso, irmão. Porém, até o momento, não


tenho nenhuma novidade. Garanto que o manterei informado se descobrir
alguma coisa.

— Obrigado.

— Se precisar de mim, você me liga.

— Certo. Até mais, Theo.

Fazia pouco mais de dez anos desde a morte do meu pai. Uma guerra
se estabeleceu em Roma depois disso, mas não encontramos o culpado. Para
nós, família era tudo e sangue dos nossos era sempre pago com mais sangue.

Theo fora o primeiro a ver o nosso pai morto e havia jurado sob o
corpo que faria o culpado pagar.

— Senhor? — Ouvi um chamado e virei a cabeça.

— Sim? — Guardei o celular de volta no bolso da calça e caminhei


até a mesa.

— Demorei um pouco para conseguir invadir as câmeras, mas eu a


encontrei nas gravações de imagens de trânsito perto da estação de trem.

— Quando?

— Ontem no fim da tarde.

— Faz muito tempo! — Bufei.

— Ainda estou procurando.

— Procure mais rápido! É só uma mulher sem dinheiro e sem


recursos. Ela não pode ter ido muito longe.

Terminei de tomar a água e amassei a garrafa, arremessando-a contra


um canto do quarto.

Onde você está Laís?

Voltei para perto da janela. Optei por não ficar em cima dos homens.
Eles tinham trabalho para fazer e eu bufando em seus pescoços não iria
ajudar em nada.

Tirei o meu telefone do bolso outra vez e liguei para uma velha
conhecida, estava no momento de começar a cobrar favores.

Escorei a cabeça no batente da janela e esperei que a chamada fosse


atendida. Fazia muito tempo que eu não conversava com ela e não sabia
como seria recebido, uma vez que não havíamos nos afastado muito bem.

— Quem é vivo sempre aparece, não é, Marco? — A voz feminina


com tons angelicais não revelava a cobra venenosa que ela era.

Donatella Rossi era uma figura importante da sociedade italiana.


Sempre envolvida em grandes eventos de caridade e vinhos, mascarava os
reais negócios criminosos de sua família. Nós dois erámos velhos conhecidos
e não havíamos nos envolvido apenas por negócios. O caso que tive com ela
certamente era um dos meus maiores arrependimentos.

— Como você está?

— Sendo gentil? — Ela gargalhou. — Tem certeza que é o mesmo


Marco Bellucci que me ligou?

— Estou tentando ser amistoso.

— Quero saber o motivo, pois da última vez que nos falamos, você
me chamou de vadia venenosa.

— Ter ligado foi uma péssima ideia.

— Imagino que queira o meu consolo depois de ter sido deixado no


altar. Confesso que gargalhei ao descobrir que até uma tolinha que foi criada
em um convento saiu correndo de você...

Desliguei a chamada.

Donatella e sua família dominavam Milão há anos, e se alguém tinha


o controle da polícia e todos os recursos para encontrar uma agulha naquele
palheiro era ela. Contudo, a pior ideia que eu poderia ter era remexer em
velhas feridas.

Ela ligou de volta, mas eu não atendi. Deixar que Donatella soubesse
que Laís estava perdida em Milão poderia apenas atrair ainda mais confusão.
Já bastava os portugueses tentando matar a garota.

— Algum sinal da minha noiva? — Voltei para perto dos homens.

— Ainda não, senhor.

— Sejam mais rápidos. Fiquem atentos às estações de trem,


rodoviárias ou qualquer forma de deixar a cidade. Ela não pode sair de Milão.

— Sim, senhor.

Debrucei-me sobre a mesa e fiquei observando-os trabalhar. O tempo


estava passando e, a cada minuto longe da minha proteção, Laís estava
correndo ainda mais riscos. Eu tinha medo de ter atraído ainda mais atenção
do que ela precisava naquele momento.

Donatella Rossi era uma mulher linda, mas por trás do cabelo ruivo e
o sorriso de fada, ela escondia um veneno fatal. Havia me envolvido com ela
durante o tempo que tratei de negócios com a sua família. O nosso caso havia
durado menos de um ano. Eu já havia assumido o compromisso de me casar
com a Laís e não poderia prometer nada a Donatella, porém ela nunca lidou
muito bem com isso. Ela me fez entender bem o quanto as mulheres
poderiam ser vingativas se não tinham aquilo que desejavam.

— A polícia emitiu um alerta para uma mulher com as características


dela hoje pela manhã. — A voz de um dos técnicos chamou a minha atenção.

— Ela está presa?

— Ela fugiu.

É mais escorregadia do que parece, garota. Ri sozinho ao pensar em


como ela já havia se esquivado de tantas pessoas e ainda estava por aí
sozinha na rua.

— Sabem onde ela está?

— Não.

— Caralho! — Bati a mão na mesa.

Já estava escurecendo e parecia que, quanto mais tempo ela passava


perdida, mais difícil se tornava encontrá-la.
Capítulo Quinze

Sentada no banco do parque, observei as pessoas passarem de um


lado para o outro, crianças brincarem, vi piqueniques e carros de fastfood que
deixaram a minha barriga doendo. Estava faminta, mas, sem uma única
moeda, não podia comprar nada para comer.

O sol se pôs atrás das árvores e do arco do triunfo, e com ele, pouco a
pouco, foi indo embora o calor. Eu me abracei quando a brisa gelada fez com
que eu estremecesse. Deveria ter comprado uma blusa de frio também antes
de perder todo o dinheiro, mas já era tarde.

Aos poucos, o parque foi ficando vazio e percebi que se aproximava


do horário de fechar. Eu deveria ir embora, mas não tinha para onde ir e algo
me dizia que aquele era o melhor local que eu conseguiria para passar a noite.

— Iremos fechar em breve, senhorita — disse um homem


uniformizado ao passar por mim e seguir pelo caminho de pedras para avisar
as outras pessoas.

Assenti com um movimento de cabeça como se tivesse compreendido


e fosse ir embora. Levantei do banco e segui o caminho até a saída, mas
passei direto e fui para trás de uma árvore. Esperaria escondida ali tempo o
suficiente para que os responsáveis pelo parque não me encontrassem. Torci
para que não saíssem vasculhando o local. Afinal quem iria querer ficar preso
ali além de mim?
Presa...

Suspirei quando a palavra não poderia ter soado mais irônica. Eu não
tinha lugar para ir e preferi ficar presa.

Fiquei escondida atrás da árvore e esperei que os sons do parque


diminuíssem. Felizmente as luzes não foram desligadas e eu não fui
condenada ao completo escuro. Assim que imaginei ser seguro, eu saí do meu
esconderijo e segui o caminho por entre outras árvores até chegar em um belo
lago.

Parei bem no meio de uma ponte com uma arquitetura antiga e fiquei
olhando para a água, que se movia sem pressa. Ao contrário de mim, ela tinha
destino e não precisava se preocupar com nada.

Surpreendi-me quando um pássaro pousou no guarda-corpo e


assobiou, chamando a minha atenção.

— Boa noite para você também. — Ri. — A lua está bonita, não é
mesmo? — Levantei a cabeça, procurando-a no céu em meio a desculpa para
puxar assunto.

Voltei-me para o pássaro e acho que o meu movimento abrupto


acabou o assustando, pois ele saiu voando.

— Parece que ser livre como você não é tão fácil para os humanos. —
Suspirei ao apoiar os cotovelos no guarda-corpo da ponte.

Os passáramos poderiam voar para qualquer lugar. Tinham asas e


poderiam viver de pequenos insetos e folhas. Para eles não existia dinheiro,
polícia, máfia ou os milhares de problemas que eu havia atraído para mim
mesma. Era inevitável não pensar se os meus pais imaginavam que eu
passaria por tudo aquilo quando me entregaram para me casar com Marco
Bellucci. Tinha lembranças muito vagas da minha infância, mas do que me
recordava, ela fora feliz. Vivera cercada de muitos brinquedos em um quarto
de princesa. Se a minha memória não estava falhando, eu tinha um irmão
mais velho, mas nem conseguia me lembrar do rosto.

Será que eles não sentiam saudades de mim?

Lembrei-me da vez que perguntei para a irmã Maria sobre a família


dela e me disse que havia aberto mão de tudo para seguir o seu voto, e que eu
deveria fazer o mesmo. No entanto, a diferença entre nós duas era que ela
havia escolhido a vida como freira, e eu mal tinha idade para dizer não.

Embora eu quisesse voar como um passarinho, estava evidente que


não seria tão simples. Eu sentia fome, estava com frio, com sede e não sabia
para onde ir. Ouvira muito sobre o fato de termos um destino, que existiam
coisas que deveríamos fazer independente da nossa vontade. Eu nunca levei
isso muito a sério, talvez por influência da noviça Felícia, que dizia ser
impossível ter alguém determinando o que cada um de nós faria na vida
inteira. Estava começando a acreditar que havia, sim.

Vi uma onda se formar na água com um raio que ia expandindo o


diâmetro até desaparecer. Essa onda foi seguida de várias outras até que senti
gotinhas de água baterem no alto da minha cabeça e nos meus braços nus.
Chuva! Era só o que me faltava...

Sempre amei a chuva. Adorava a sensação de ter a água tocando no


rosto, mas nada poderia ser mais irônico naquele momento. Eu não via lugar
para me abrigar, não tinha guarda-chuva nem roupas para me vestir depois
que me molhasse.

Senti as gotinhas vindo calmas, mas quando a tempestade se mostrou


intensa, eu corri por impulso. Meu corpo já parecia estar acostumado a fazer
aquilo. Olhei de um lado para o outro enquanto as gotas da chuva
embaçavam a minha visão. Levou um tempo para que eu encontrasse abrigo
debaixo da marquise de uma pequena construção, mas começou a ventar,
então não resolveu muito. Estava de noite e eu, completamente ensopada.

O ar cada vez mais frio fez com que eu começasse a tremer. Ele
passava pelos meus braços e rosto como lâminas afiadas que deixavam a
minha face dolorida. A chuva não deu trégua por vários e vários minutos, ou
talvez horas, pois eu não tinha a menor noção do tempo. A barra do meu
vestido já estava pesada de tanta água e o tecido havia se grudado ao meu
corpo, como se estivesse embebido em cola.

Eu me abracei firme, na tola esperança de parar de tremer. Não


resolveu, porém o frio espantou a minha fome.

Esfregava as minhas mãos agitando-as rápido, era o melhor que


conseguia fazer para não me transformar em um cubo de gelo em meio a
baixa temperatura.
Desejava que a chuva parasse, mas também não sabia o que iria fazer
para me secar. Queria que o sol nascesse logo, mas ainda deveriam faltar
muitas horas.
Capítulo Dezesseis

Eu fitava o uísque parado no copo como se ele fosse um espelho


mágico que me permitisse ver além. Havia servido uma dose no automático,
mas não achei prudente beber. Caso precisasse sair a qualquer momento, eu
precisava estar sóbrio e com controle pleno das minhas faculdades mentais.

No fundo, estava preocupado, temia ter cometido um erro e chamado


ainda mais atenção desnecessária para a Laís. Na posição em que eu estava,
como líder e chefe da máfia, erros eram fatais e imperdoáveis. Contudo, eu
fora treinado e crescera para saber reverter ao meu favor a pior das situações.

Pensando melhor, se o que eu realmente estava temendo acontecesse,


poderia não ser tão ruim quando parecia no primeiro momento.

Levantei da cama onde estava sentado e voltei até a sala onde meus
homens estavam reunidos. Parei na cabeceira da mesa, com as mãos sobre a
madeira clara e os encarei.

— Acharam a garota?

— Ainda não, senhor — disse um ao engolir em seco, parecia com


medo da minha reação.

Eu não podia dizer que era um homem cruel que punia


indiscriminadamente, porém costumava ficar muito irritado quando a
situação não corria como esperado. Quando se era o chefe, ser metódico se
fazia necessário, ou tudo poderia desandar em um piscar de olhos.

O pai de Donatella sempre foi um capo fiel durante a administração


do meu, mas quando ela assumiu, podia dizer que era no mínimo instável. Eu
não podia julgá-la, pois precisava de muito equilíbrio e determinação para
não se corromper completamente estando no lado do crime. Eu não
imaginava que ela pudesse ser tão inconstante quando nos envolvemos, mas,
aos poucos, Donatella foi se mostrando e percebi que precisava me afastar ou
criaria enormes problemas para mim e todo o restante da família.

— Querem que fiquem de olho em uma pessoa. Ela gosta de se exibir


e chama tanta atenção quanto um pavão. Pode ser bem mais fácil de rastrear:
Donatella Rossi.

Os técnicos me encararam antes de voltar seus olhos para a tela dos


computadores. Eu os deixei trabalhar e voltei para perto da janela. A chuva
caía forte, como uma típica tempestade de verão, e parecia que iria varar a
noite. Eu gostava daquele clima, não apenas por refrescar o dia tão quente,
mas também por lavar tudo e levar consigo provas e pecados.

Precisava encontrar a minha noiva logo e voltar para Roma. Não que
temesse as atitudes dos meus irmãos, eles sempre foram excelentes
subchefes, mas sim por todos os problemas que Laís poderia atrair para mim
e para si mesma estando sem proteção.
Capítulo Dezessete

O jardim era tão florido e perfumado que me deixava inebriada. Sob o


tato dos meus dedos eu podia sentir a textura das pétalas aveludas. O sol
estava quente e tocava a minha pele em um abraço amistoso e cálido.

Eu não sentia fome ou sede. O vento que tocava a minha pele era
sereno e raspava os meus ouvidos, como um doce e delicado cantar de fadas.

A paz era tão serena que parecia inacreditável. Nunca vivi um


momento como aquele. Nem nos meus melhores dias no convento.

Será que eu havia morrido e encontrado o céu?

Movi o corpo num súbito e bati a cabeça em uma haste de metal. A


dor fez com que abrisse os meus olhos. A primeira coisa que vi foi a copa das
árvores e a aurora do amanhecer. Sentei às pressas e percebi que havia
pegado no sono em um dos bancos do parque. Não estava mais chovendo,
mas meu vestido não havia secado e grudava ao meu corpo. Eu tremia, no
entanto, deveria ter me acostumado com o frio, pois ele já não me
incomodava tanto. Já a fome, essa fazia o meu estômago doer. Eu não comia
nada desde o horário do almoço do dia anterior e não sabia quando iria comer
novamente.

Voltei a esfregar os meus braços para que meu corpo se concentrasse


em outras sensações que não fossem a fome e o frio. Eu não conseguia ver
nenhuma saída de imediato, mas precisava pensar em algo antes que
morresse de frio e desnutrição.

Engoli em seco, pois até a minha saliva sinalizava a falta de água no


meu corpo. Também não havia bebido nada. Talvez conseguisse encontrar
um bebedouro público no parque e essa ideia me animou um pouco.

— Ela está ali. — Ouvi uma voz masculina quando decidi me


levantar.

Virei a minha cabeça de imediato, em um instinto natural de procurar


pelo dono da voz e vi um homem há alguns metros. Ele vestia uma roupa
preta e tinha uma arma em punho. Não pensei muito, pela sua postura e o fato
de não estar fardado, presumi que fosse um membro da máfia atrás de mim.
Eles iriam me procurar, isso não era surpresa alguma, porém uma parte de
mim foi tola o suficiente para chegar a acreditar que eu não estava mais
correndo risco.

— Peguem-na, viva ou morta. — A voz feminina num tom furioso,


em nada se parecia com a de Antonella.

Recusei-me a esperar para ver quem era. Corri na direção contrária e


segui o caminho de pedras até a ponte que passava sobre o lago. Não parei
para admirar, continuei correndo. O sol aos poucos mostrava a sua cara e com
ele chegavam os primeiros raios de luz do dia.

Percebi que o parque já estava abrindo quando um homem puxava o


enorme portão de ferro de uma das entradas. Ele ficou surpreso quando me
viu.

— Entrou por onde, senhorita?

— Ah, por outra portaria — menti.

— Ela seguiu por ali. Venham! — Ouvi a voz de um dos meus


perseguidores e apertei o passo. Não tinha tempo para ficar jogando conversa
fora com um dos porteiros.

Eu poderia continuar correndo por dentro do parque e dar voltas


intermináveis, mas poderia acabar encurralada, então ouvi o som de um
disparo, que passou não muito longe de mim, que me fez mudar de ideia.

Viva ou morta...

Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça e percebi o quanto minha


vida estava correndo um enorme risco. Saí do parque e disparei pelo passeio
que o ladeava. Arrisquei-me a olhar para trás e percebi que três homens
vinham em minha direção. Com armas em punho, eles pareciam disposto a
me matar. Era o que eu merecia por ter fugido do meu casamento? Parecia
que sim.

Ouvi outro disparo e ele acertou uma lata de lixo em um poste


próximo. Por reflexo, protegi o meu rosto com os braços, mas não parei de
correr. Passei por algumas pessoas em um ponto de ônibus, que,
provavelmente, deveriam estar saindo para trabalhar, e percebi o quanto
estava levando o perigo para perto delas.
Eu atravessei a rua e um carro parou a centímetros de mim. Ouvi a
buzina ecoar na minha cabeça, mas não parei.

Entrei em um beco e percebi que os homens vieram atrás de mim.


Não havia outras pessoas, então eles voltaram a atirar e por muita sorte
nenhuma das balas me acertou.

Continuei, mas havia corrido tanto nos últimos dias que meus joelhos
já não aguentavam mais. Era certo que não conseguiria ir muito longe.

Será que acabaria morrendo desse jeito? Seria melhor do que ter me
casado com Marco Bellucci? Nunca iria saber.

Saí do beco com o coração quase escapulindo pela boca. Era fato, iria
tomar um tiro, pois não conseguia mais correr.

Saí em uma enorme rua muito movimentada e com trânsito pesado de


veículos. Tirei cada gota de energia de mim para continuar me movendo.

Foi então que eu vi um carro preto. Ele era esportivo, com a


carroceria próxima ao chão e enormes rodas. Ele cantou pneus em meio a
uma manobra arriscada e parou na minha frente. A porta do motorista abriu
para cima como asas de um morcego e do carro saiu um homem segurando
uma arma em punho.

Dez anos haviam se passado desde que eu o vira, dez anos em que ele
havia me condenado a vida em um convento, mas aquele par de olhos azuis
eram inconfundíveis. Algo dentro de mim revirou. Era ele: Marco Bellucci.
Eu virei para trás e vi os homens que me perseguiam. Eles olharam
para Marco e abaixaram suas armas, recuando alguns passos. Eu conhecia
pouco sobre aquele mundo, mas imaginei que houvesse uma regra implícita
de não se ameaçar o chefe.

Pensei em dar meia volta e continuar correndo, mas antes que eu


mandasse qualquer comando ao meu corpo para que ele continuasse se
movendo, entrei em colapso. De repente, minha visão foi ficando embaçada,
mas antes que eu perdesse o sentido completamente, percebi os braços de
Marco me envolvendo.

Ele me pegou no colo antes que eu desmoronasse no chão e tudo ficou


escuro.
Capítulo Dezoito

Eu estava certo, os homens da Donatella realmente foram atrás da


Laís. Donatella poderia ser instável, mas era muito astuta. Quando eu liguei,
ela foi esperta o bastante para unir os pontos e presumir o que eu estava
fazendo em Milão. Com seus contatos, ela conseguiu encontrar Laís mais
rápido do que eu ou os Costas, e bastou segui-la para encontrar quem eu
estava procurando.

O que eu não esperava era que a garota estivesse tão debilitada. Suas
roupas estavam úmidas, o corpo gelado e a pele pálida. Pelo seu estado, era
evidente que ela havia tomado a chuva da noite anterior. Onde ela estaria com
a cabeça para fugir daquele jeito e viver como indigente?

Parei meu carro na garagem e peguei-a no banco do carona. Fui até o


elevador com ela nos braços. Era tão pequena e leve, que eu tinha as minhas
suspeitas que estivesse desnutrida. Os homens, que me seguiram em outro
carro, me acompanharam e voltamos para a suíte. Um deles se ofereceu para
carregar Laís, mas eu recusei, mantendo-a nos meus braços.

Entrei com ela no quarto com os homens abrindo todas as portas para
mim. Deitei-a na cama e fechei a porta que separava o cômodo dos demais da
suíte.

Fui até o banheiro e peguei um roupão. Sentei ao lado da cama e tirei


seu vestido, a peça de roupa estava suja e rasgada em algumas partes. Assim
como seus braços e joelhos ralados. Havia roxos por todas as partes, de seus
braços às coxas. Fiquei me perguntando no que havia se metidos nesses dias
para se machucar tanto.

Ela era incrivelmente bonita, mais linda do que pelas fotos que
Antonella enviava, no entanto, tão delicada quanto uma flor, parecia fácil de
se ferir ou quebrar.

Tentei não ficar analisando-a. Teria tempo para isso depois,


principalmente quando se livrasse do cheiro de cachorro molhado de quem
havia tomado chuva a noite inteira.

Fiquei em dúvida se tirava ou não suas roupas íntimas, mas também


estavam molhadas, então retirei as peças. Iria providenciar roupas limpas para
que ela vestisse quando acordasse. Depois de despi-la, a cobri com o roupão e
a acomodei na cama.

Estava tão exausta que não acordou. Deixei que descansasse e saí do
quarto. Ao menos ela respirava e isso era um bom sinal.

Garota, tola!, pensei quando parei na porta do quarto e a encarei


deitada na cama. Eu esperava que não tomasse nenhuma outra atitude
estúpida como aquela novamente, pois não colocava apenas a sua vida em
risco, mas também de todos que a cercavam.

Saí do quarto e a deixei só. Iria esperar que acordasse antes de tomar
qualquer atitude a respeito do que havia acontecido.
— Ela está bem, senhor? — perguntou um dos meus associados.

— Para o bem dela, é melhor que fique — disse sem muito


sentimentalismo.

Caminhei para longe dele e fui para uma das sacadas do quarto, que
me permitia observar o movimento da rua.

Debrucei-me sobre o guarda-corpo e peguei o meu celular. Disquei o


número do meu irmão caçula. Levou apenas alguns toques para que Mateo
atendesse a chamada. Levantei a minha cabeça e fitei o céu azul antes que ele
começasse a falar.

— Marco, alguma novidade?

— Sim, estou com ela.

— Maravilha. Como está?

— Terrível. Parece que passou meses na rua e não apenas um


punhado de dias.

— Definitivamente não estava pronta para o mundo. Quando você


volta?

— Em algumas horas. Vou esperar que ela acorde e coma alguma


coisa. Está tudo bem por aí?

— Sim. Mandamos um recado para os ciganos, eles não serão mais


um problema.
— Ótimo!

— Vejo você mais tarde, irmão.

— Até, Mateo.

— Deixem-me entrar! — Uma voz feminina estridente ecoou no


corredor seguida de batidas firmes na porta. — Marco, eu sei que você está
aí, querido.

Os homens não disseram nada, apenas olharam para mim, esperando


uma ordem para que soubessem como reagir. A minha atitude foi resposta o
suficiente para eles quando abri a porta e fui para o corredor.

Donatella estava escorada na madeira e eu a peguei pelos ombros,


pressionando-a contra a parede. As pupilas dos olhos cor-de-mel dela se
dilataram, tingindo o dourado de um escuro tão profundo quanto o seu
caráter.

— O que está fazendo aqui? — questionei-a com voz firme e ela


estremeceu, mas imagino que não tenha sido por medo.

— Sabe que eu adoro quando você me segura firme assim. — Olhou


para os meus dedos afundados na pele nua dos seus ombros e abriu um
sorriso perverso.

Afastei as mãos e ela suspirou. Ajeitou seu cabelo pintado de uma


vermelho vivo como sangue e passou a língua pelos lábios no mesmo tom,
umedecendo-os.
Eu não era adepto de mortes injustificáveis. Geralmente elas
provocavam desejos por vingança que só culminavam em mais
derramamento de sangue, porém, em alguns momentos, eu chegava a me
questionar sobre isso.

— Ela está aí? — esticou a cabeça para olhar dentro do quarto.

— Não vai vê-la, Donatella.

— Uma pena você ter chegado antes que os meus homens dessem um
jeito nela.

— Se a tivesse machucado, teria uma guerra na sua porta que não


precisa nesse momento.

— Você não derramaria sangue por uma mulher que ainda nem é sua.
— Donatella ficou na ponta dos pés e encostou seus lábios nos meus.

Segurei seu rosto, pressionando sua mandíbula com as pontas dos


dedos.

— Mais forte — gemeu, revirando os olhos, como se eu houvesse


feito algo que provocasse prazer nela.

— Você é doente. — Soltei-a e Donatella cambaleou para trás.

— Você bem sabe que eu gosto com força. — Riu ao mexer no


cabelo. O que ela não sabia era que o seu charme não tinha mais qualquer
efeito sobre mim.
Eu podia dizer seguramente que todos nós na máfia éramos
perturbados em algum grau. Crescíamos em condições diferentes das pessoas
normais, vivíamos a margem e lidávamos com a morte desde cedo, porém
Donatella ia além. Ela gostava de ser submissa ao ponto de se machucar, o
que era irônico para uma mulher em uma posição de poder como a dela.

— Vá embora daqui.

— Ainda vai se casar com ela depois de ter sido deixado no altar?

— Eu assumi um compromisso.

— Essa sua honra tola ainda irá destruí-lo.

— Existe honra até mesmo entre os ladrões.

Donatella balançou a cabeça em negativa.

— É melhor você ir embora. — Apontei para o elevador.

Ela cerrou os dentes e bufou como um touro. Era evidente que ainda
continuava inconformada com a ideia de que eu honraria o meu acordo me
casando com outra mulher, e não com ela. A verdade era que, mesmo sem o
noivado, eu jamais me casaria com Donatella. Ela era instável como uma
ogiva nuclear. Já bastavam todos os meus compromissos e imprevistos
regendo uma máfia italiana, não precisava de uma bomba relógio dentro de
casa.

— Ela vai entediá-lo tão rápido que você vai me procurar pedindo por
diversão.

— Vá embora!

— Tudo bem. — Ela passou a mão pelo cabelo, em um ar de


superioridade, jogando-o para trás. — Sei que você se lembra do meu
número.

Ela caminhou rebolando para o elevador, chamando a minha atenção


para a sua bunda. A minha mente se encheu de imagens das inúmeras vezes
que eu já havia a chicoteado. Balancei a cabeça para afastá-las. De fato, eu
era um homem muito pior na companhia de Donatella.
Capítulo Dezenove

Todo o meu corpo doía, latejava e pulsava como se tivesse vida


própria. A adrenalina havia baixado e eu conseguia sentir toda a exaustão.
Levou minutos intermináveis para que eu tivesse força e coragem de abrir os
olhos.

A última coisa que eu me lembrava era de ter desmaiado nos braços


de Marco Bellucci e não sabia onde poderia acordar. O que ele teria feito
comigo? Certamente deveria estar furioso por eu tê-lo abandonado no altar,
entretanto, se meu corpo doía tanto, eu deveria ainda estar viva.

Finalmente abri os olhos. Minhas pálpebras estavam pesadas e a luz


que entrava pela janela era forte. Quando finalmente consegui enxergar algo,
vi um teto muito bonito, ornado com enfeites dourados, que se assemelhavam
a acabamentos que eu tinha visto dentro do Vaticano.

Imaginava que no céu não sentíssemos dor, mas eu poderia estar


enganada, pois o lugar era sofisticado e confortável demais para ser o inferno.
Eu me movi na cama e reparei no tecido felpudo e muito macio que me
envolvia. Era um roupão branco e percebi que, por debaixo dele, eu não
usava mais nada. Minhas bochechas coraram quando pensei nas inúmeras
circunstâncias para ter ficado daquela forma.

Sentei na cama e bati as minhas costas na cabeceira. Chiei baixinho


com toda a dor acumulada. A correria, todos os tombos e machucados
pareciam estar cobrando o seu preço. Abracei-me em posição fetal enquanto
observava o ambiente ao meu redor. Havia cortinas muito pesadas de um tom
creme nas janelas, um móvel de cabeceira de cada lado da cama, e uma
pequena mesa redonda em um canto contendo um belo arranjo com rosas-
chá. Vi algumas portas, uma pertencia a um banheiro, pois estava semiaberta,
e a outra, imaginei que levasse à saída.

Levantei-me e pensei em correr, mas estava tão exausta que


cambaleei e caí sentada na cama.

Definitivamente não conseguiria ir muito longe.

A porta que estava fechada se moveu. Eu levantei, procurando algo


para usar na tola esperança de que poderia me defender de quem quer que
fosse.

Logo ele entrou no quarto e minha respiração parou, como se sua


presença houvesse roubado todo o ar. Marco parecia ainda mais imponente
do que eu me recordava quando criança. Ele era alto, com costas e ombros
largos, seu cabelo escuro com topete estava muito bem arrumado e os olhos
azuis... esses pareciam deter todo o poder de me congelar.

— Você acordou. — A voz era completamente compatível com a sua


aparência. Altiva, imponente, o que deixou as minhas pernas ainda mais
bambas e fez com que decidisse me sentar na cama.

Ele caminhou na minha direção e eu recuei como um animal indefeso


e amedrontado.
Não havia para onde fugir, eu não aguentava mais correr e aquele
seria o meu fim.

Ele se sentou na beirada da cama e, para a minha total surpresa, nem


tentou me tocar.

— Sua aparência está terrível.

Eu não respondi, mas a minha barriga roncou alto, falando por mim.

— Parece que está com fome também.

— Eu... e... — Engasguei, não tinha coragem, e também não sabia


como ou o que falar.

— Está com fome? — ele insistiu de forma mais amistosa do que eu


imaginava.

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Vou pedir algo para você comer.

— Onde... onde... minhas roupas? — Estava tão tremula e


amedrontada que não conseguia formar uma frase completa sem gaguejar.

— Joguei fora.

Arregalei os olhos. Foi ele quem me deixou pelada! Minhas


bochechas coraram tanto que começaram a arder.

— Seu vestido estava molhado, rasgado e sujo. Você já não está bem,
se continuasse com ele iria acabar ainda mais doente. Pedi que comprassem
roupas novas para você. Elas devem chegar logo. Enquanto isso, pode tomar
um banho.

— O-obri-obrigada.

Ele estendeu a mão e dessa vez eu não recuei. Imaginei que fosse o
magnetismo dos seus olhos que me aprisionava. Seus dedos eram quentes,
macios e escorregaram pela lateral do meu rosto até segurarem o meu queixo.

— Tão linda e tão tola. — Riu sozinho e eu voltei a recuar.

Abri a boca várias vezes, mas não consegui falar nada. Marco não
tirou a mão do meu rosto e continuou me encarando com seus potentes olhos
azuis. Parecia completamente impossível desviar-me deles.

— Sua vida pode não ser um inferno se você parar de me ver como
um demônio — falou firme, sem piscar.

Sua mão caiu do meu rosto e ele levantou da cama, deixando o quarto
antes que eu conseguisse absorver o que tinha acabado de falar comigo.

Será que ele podia não ser mesmo um demônio?

De fato, sua aparência era completamente diferente do que eu havia


suposto por todos esses anos.

Eu cambaleei para o banheiro e fechei a porta. Tinha certeza de que


não era o suficiente para mantê-los do lado de fora, mas a ilusão de segurança
teve que servir para que eu tivesse coragem de despir meu roupão.

Todo o meu corpo estava dolorido e era difícil até me mexer, mas abri
a água da banheira e deixei que enchesse. Depois, com todo cuidado, eu
entrei e me acomodei. A água quente relaxou meus músculos e fez com que
eu suspirasse.

Vi ao lado da banheira, em um suporte, vários pequenos frascos, um


deles era um shampoo e eu o peguei. Meu cabelo estava coçando e resolvi
lavá-lo.

Durante o tempo que passei na banheira, meus dedos ficaram


enrugados, mas os meus músculos relaxaram e os machucados pareceram
incomodar menos. O efeito foi muito bom depois de tudo o que eu havia
passado.

Pensei mais uma vez no que o Marco havia falado para mim. Imaginei
que se ele fosse me matar já teria o feito. Contudo, ainda não tinha certeza se
poderia confiar plenamente nele. Estava na minha vida há dez anos, mas
ainda era um completo desconhecido para mim. Tudo o que eu sabia dele era
o fato de ser um poderoso chefe da máfia e as informações que chegavam
através das noviças no convento. Um homem tão temido quanto ele poderia
mesmo não ser um demônio?

No fundo, eu torcia para que sim, mas me sentia uma tola por ter
fugido. Só havia conseguido me machucar e, no fim, acabara nos braços dele
novamente.
Só levantei da banheira quando senti a minha barriga voltar a doer,
lembrando-me de que eu não comia nada há mais de vinte e quatro horas.
Enxaguei meu corpo em uma ducha e enrolei o cabelo em uma toalha,
colocando o roupão novamente.

Quando deixei o banheiro e voltei para o quarto, deparei-me com


algumas sacolas de lojas femininas sobre a cama e uma refeição servida na
mesa redonda. Ignorei as roupas e fui direto para a comida. Tomei o copo
com suco de laranja e bebi o conteúdo em poucos goles. Havia uma salada
bonita, com pedaços de pão, mas minha atenção toda foi para o prato de
macarrão com um vibrante molho vermelho.

Puxei a cadeira, peguei os talheres ao lado do prato e comi o mais


rápido possível, engasgando algumas vezes. Estava com tanta fome que não
consegui ter paciência. Assim que limpei o prato, enchi o copo com mais
suco, que estava em uma bonita jarra, e comi a salada. Era capaz de repetir
aquela refeição, mas poderia passar mal se fizesse isso.

Quando a comida assentou, eu fui até as roupas. Havia um luxuoso


vestido preto, roupas íntimas e um sapato de salto. As peças eram lindas e de
muito bom gosto.

Eu me vesti e penteei os cabelos com as pontas dos dedos, ajeitando-


os minimamente. Olhei para a porta e fiquei me perguntando se deveria ir até
ele ou se ficaria esperando o que Marco decidiria a seguir. A verdade era que
eu estava apavorada com o casamento antes de conhecê-lo, mas, diante dele,
eu não sabia de mais nada.
Capítulo Vinte

Estava distraído, lendo uma notícia sobre um terreno que pertencia ao


Vaticano, que eu almejava comprar para expandir os negócios de forma legal
e fomentar a lavagem do dinheiro sujo que vinha das ruas, quando ela saiu do
quarto. Laís só parecia uma ratinha assustada, mas vê-la naquele vestido
preto, que se moldava às suas curvas e ressaltava que a menina havia se
tornado uma mulher, me fez notar o diamante bruto que precisava ser
lapidado.

Todas as fotos que eu tinha dela durante o tempo que passou no


convento mostravam uma mulher bonita, mas casta demais, quase uma freira,
como as mulheres que a criaram. A verdade é que eu não ansiava por ela
porque não a via como mulher, mas foi o que aconteceu naquele momento. A
garotinha que eu havia trazido de Portugal havia saído do casulo e ganhado
relevância diante dos meus olhos. Só precisava mostrar a ela que não
precisava se aterrorizar diante de mim e poderíamos sustentar aquele
casamento.

— O-obrigada... Obrigada pelas roupas e pela comida.

— Precisa de mais alguma coisa?

Ela balançou a cabeça em negativa.

Para ser a minha esposa ela teria que aprender muito, principalmente a
tirar aquela expressão de espanto e temor do rosto.

— Então vamos embora. Eu preciso voltar para Roma. Já passei


tempo demais aqui.

Ela engoliu em seco e ficou me encarando, mas não disse nada que
contrariasse a minha posição. Talvez aprendesse mais rápido do que eu
supunha.

Levantei da poltrona, joguei o celular no bolso e estendi a mão para


ela. Aquela era a minha tentativa de quebrar o gelo e permitir que se
aproximasse de mim.

Ela olhou para mim e para a minha mão, várias vezes, num período de
mais de um minuto, até que esticou os dedos trêmulos e colocou-os sobre os
meus.

— Vamos. — Puxei-a comigo e a levei até a porta.

Podia sentir o seu suor frio contra a minha pele enquanto segurava a
sua mão. Seu medo exalava pelos seus poros, mas caminhou ao meu lado em
silêncio, até que chegamos ao meu carro no estacionamento do hotel e eu abri
a porta para que ela se acomodasse no banco do carona.

Dei a volta e assumi o volante, manobrei para deixar o local e


aguardei que o veículo dos meus homens se juntasse ao meu para que eles me
escoltassem de volta a Roma.

Ela ficou em silêncio durante quase todo o percurso. Olhou para mim
algumas vezes, mas não teve coragem de dizer nada.

— Pode falar comigo. — Tirei uma das minhas mãos do volante e


coloquei sobre a sua coxa.

Laís surpreendeu-se e deu um saltinho, arregalando os olhos


castanhos.

— Desculpa. — Afastei a mão ao perceber que a havia assustado.

— Você... Você...

— Eu? — incentivei-a a prosseguir.

— Você vai me matar?

— Não, se me prometer que não vai fugir de novo.

— Não... Eu não vou. — Ela balançou a cabeça em negativa várias


vezes.

— Escuta — virei-me para ela quando parei em um sinal de trânsito.


— Eu não quero que você morra, mas existem muitos que querem. Sair da
minha proteção só vai atrair a atenção deles para você. Poderia ter morrido
hoje se eu não tivesse chegado antes daqueles homens que a perseguiam.

— Quem eram eles?

— Eles servem a uma pessoa que não lidou muito bem com a aliança
que eu fiz com o seu pai e o meu compromisso de me casar com você. Além
dela, os inimigos do seu pai também não querem esse casamento. Não fazia
ideia do perigo que a rondava enquanto estava correndo por aí. Fico me
perguntando o que passou na sua cabeça para tomar uma atitude tão estúpida.

— Desculpa. — Desviou o olhar, envergonhada.

— Só não faça isso novamente.

— Ainda vamos nos casar?

— Vamos.

— Quando?

— O mais breve possível.

— Está me levando para o convento de novo?

— Não. Você vai para minha casa, ficará sob os cuidados dos meus
homens. É perigoso demais permanecer longe da minha proteção.

— A Antonella...

— Não pergunte sobre o que você não quer saber a resposta. —


Assumi um tom mais ríspido.

Eu poderia até ser gentil às vezes, mas também sabia punir.

Ela virou a cabeça e ficou observando o trânsito. Laís não fez


nenhuma pergunta e eu também não falei mais nada.
Continuei dirigindo até chegarmos à mansão Bellucci.
Capítulo Vinte e Um

Quando Marco estacionou o carro em uma enorme garagem ao lado


de muitos outros veículos, esperei que ele descesse antes de fazer o mesmo.
A nossa conversa no carro foi curta, mas havia sido bastante esclarecedora.
Só fazia com que eu me sentisse ainda mais boba por ter fugido, não apenas
tola, mas culpada, pois a resposta dele, apesar de evasiva, me dizia que
Antonella havia sido punida no meu lugar.

Sentia o meu estômago embrulhar em pensar que o que havia


acontecido com ela era uma culpa que eu sempre carregaria comigo.

Marco parou na minha frente e fez um gesto com a cabeça para que
eu o seguisse. Saímos da garagem e caminhamos por um longo corredor
lateral com vista para um belo jardim até entrarmos por uma porta, que nos
levou até uma antessala e depois a uma sala de estar.

A primeira pessoa que vi foi uma mulher mais velha sentada em um


dos enormes sofás. Ela estava distraída lendo um livro, mas surpreendeu-se,
levantando as sobrancelhas, quando nos viu.

— Você a encontrou! Como?

— Segui os rastros deixados pela cobra.

— Donatella também foi atrás dela? — A mulher pareceu ainda mais


assustada.
— É uma longa história, mãe.

Então aquela era a mãe dele? Eu deveria ter percebido pelas


semelhanças físicas que eles tinham.

— Eu preciso sair. Então a senhora toma conta dela? Não deixe que
faça nada impulsivo, por favor.

— Pode deixar.

— Fique aqui. — Marco se virou para mim e me encarou com um


olhar firme e autoritário. — Lembre-se que se se meter em problemas, você
será a maior prejudicada. Eu não quero machucá-la, Laís, mas tem muitos
que querem.

Eu apenas balancei a cabeça em afirmativa e ele deu as costas.


Observei-o sumir de vista, enveredando-se para algum cômodo à esmo da
mansão, antes de me virar para a mãe dele, que estava parada ao meu lado.

— Eu sou a Laís.

— Eu sei, querida. Eu sou a Rosimeire, mas pode me chamar de Rosi.


Vou tomar conta de você.

— Obrigada.

— Que bela confusão você se meteu, hein?

— Eu... é... — Engoli em seco.


Rosimeire colocou a mão sobre o meu ombro e me guiou para uma
escada larga que seguia para o andar superior da mansão. Ela estava tentando
ser gentil e eu me permiti ser menos arredia na sua presença.

— Está com medo, sei disso. Você pode não imaginar, mas eu a
entendo melhor do que ninguém, pois já estive na mesma posição. Também
já fui uma simples garota dada em casamento a um chefe da máfia. Pode
parecer terrível no primeiro momento, mas como tudo na vida, temos que
aprender a lidar com os desafios que temos.

— Eu tinha muito medo, ainda tenho — confessei quando percebi que


estávamos sozinhas e havíamos entrado em um quarto.

— Do que mais tem medo? — Ela guiou-me até a cama e sentou-se


ao meu lado.

— Dele.

— Por quê?

— O que disseram... As coisas que a máfia faz.

— Escute, Laís, permita-se conhecer o homem que Marco poder ser


com você e tente não se preocupar com o que ou como ele é com outras
pessoas.

— Ele vai me punir por ter fugido?

— Se fosse fazer algo ele já teria feito, mas a trouxe para casa e a
deixou comigo. Marco é um homem de palavra e por isso gostam tanto dele
como líder. Para o bem ou para o mal, meu filho cumpre o que promete.
Você é parte de um acordo que fez com o seu pai.

— Como conseguiu? — Minha pergunta era sobre ela e Rosi


percebeu.

— Eles são chefes da máfia, mas ainda são homens e, ao seu modo,
possuem um coração. Eu conquistei meu espaço e consegui ser feliz. Ainda
lamento muito a morte do meu marido. — Rosi abaixou a cabeça e desviou o
olhar. Percebi a verdade em suas palavras.

Eu afaguei a sua mão e abri um sorriso amistoso para ela.

Será que havia mesmo uma forma de conquistar um espaço no


coração do Marco e a minha felicidade como consequência? Poderia ser que
sim ou que não, mas quis me agarrar aquela esperança, pois seria mais fácil
aceitar o meu destino.

Depois de jantarmos juntas, Rosimeire me acompanhou na escolha de


algumas roupas dentre os modelos trazidos por um estilista. Fiquei grata, pois
precisava de roupas novas, porém achava que ainda não havia conquistado a
confiança deles para que me deixassem ir a um centro de compras.

A verdade que eu consegui perceber mais claramente, naquela tarde


de conversa com a mãe do Marco, era que eu havia nascido em uma
sociedade distinta daquelas que se via nos filmes, onde as pessoas tinham
direito de escolha sobre basicamente tudo. Na máfia ainda se aplicavam
velhos conceitos. Se o meu pai não tivesse me dado em casamento ao Marco,
teria sido a outro homem.

Ver que Rosimeire havia feito funcionar com seu marido fez com que
eu tivesse esperanças de que eu pudesse também.

Não iria mais fugir do Marco.

Sua vida pode não ser um inferno se você parar de me ver como um
demônio... Aquela fala dele soava com uma promessa na qual iria me agarrar.

Estávamos em uma bela biblioteca que Rosimeire disse que Lorenzo


havia construído para ela, quando um homem entrou e sussurrou algo no
ouvido da mulher.

— Diga que já estamos indo.

O homem assentiu e nos deixou sozinhas outra vez.

— O que foi? — Não consegui conter a minha curiosidade.

— Seus pais estão aqui para vê-la.

— Meus... meus...

— Não os vê há muito tempo, não é mesmo?

Balancei a cabeça em afirmativa.

Para ser sincera, nem sabia se queria vê-los. Era muito jovem quando
eles me deixaram para seguir um destino e nunca mais se preocuparam em
manter contato ou saber como eu estava. Ao menos era nisso que eu
acreditava.

— Pode ser bom vê-los — disse Rosi de maneira amistosa. Ela era
supreendentemente otimista diante de tudo.

— Não sei.

— Eu posso dizer a eles para irem embora, mas vai encontrá-los no


casamento e pode ser mais difícil enfrentá-los em meio a muitas outras
pessoas do que agora.

— Eu vou vê-los.

— Estarei lá com você. — Ela sorriu.

Me levantei do enorme e confortável sofá vermelho e segui com


Rosimeire pelo corredor até descermos as escadas e chegarmos à sala.

A primeira pessoa que eu vi foi o Marco. Quando nossos olhares se


cruzaram, senti algo revirar no meu peito, mas não foi uma sensação ruim.
Era como se conhecê-lo melhor houvesse colocado um pouco de luz na
imagem encoberta por sombras que eu tinha dele.

— Laís! — Ouvi um grito antes que braços envolvessem o meu


pescoço.

Olhei confusa para a figura que estava me apertando ao ponto de me


sufocar e movi a cabeça para tentar enxergar quem era.
— Ah, querida, você cresceu tanto.

— Quem é você? — Segurei-a pelos ombros e a afastei.

Era uma mulher que parecia estar na casa dos quarenta anos, mas era
difícil ter certeza, pois seu rosto parecia ter sofrido alguma intervenção
cirúrgica. Percebi que os olhos castanhos dela haviam ficado marejados.

— É triste a minha própria filha não se lembrar de mim. — Ela se


afastou. Estava chateada, e olhou com dureza para um homem parado a
alguns passos. Seu olhar o culpava por alguma coisa.

A imagem dele já me era um pouco mais reconhecível diante das


parcas lembranças que eu possuía. Era meu pai.

— Não faz ideia de quanto ficamos contentes quando Marco disse que
havia encontrado você.

— É, ele me achou.

— Onde estava com a cabeça para tomar uma atitude tão estúpida?

— Não sei.

Diante deles eu estava completamente sem reação. Deveria abraçá-los


e dizer que estava com saudades? Uma parte de mim dizia que não, mas
havia tomado atitudes ruins por simplesmente não saber o que fazer.

— Você está bem? — perguntou a mulher que eu deveria chamar de


mãe, mas eu mal lembrava o nome dela.
Balancei a cabeça em afirmativa.

— Eu fiquei muito triste quando você veio morar na Itália. — Ela


voltou a me abraçar e eu, estranhamente, percebi a verdade em suas palavras.

— Por que não me escreveu? Mandou um e-mail ou um cartão postal?

— Eu... — Ela voltou a olhar para o meu pai e foi fácil concluir que
ele não havia deixado.

— Você precisava se concentrar nos seus deveres — falou em um


tom frio.

Minha vontade foi bufar, mas me contive. Talvez fosse mais fácil
lidar com tudo se eu não estivesse tão sozinha.

— Quando acontecerá o novo casamento? — Meu pai perguntou ao


Marco.

— Em alguns dias, só precisamos preparar tudo outra vez.

— Tenho certeza que a Laís não vai causar mais problemas. — Ele
me lançou um olhar severo, tentando me recriminar pelo que eu havia feito.

Dei um passo para trás, mas parei de recuar quando a mãe do Marco
colocou a mão sobre o meu ombro em um gesto afetuoso.

— Ela não irá — respondeu Rosimeire.

— Não se preocupe, Afonso. Laís está bem, o nosso acordo será


mantido — garantiu Marco. — Vocês podem retornar para Portugal e voltar
em alguns dias para o casamento.

— Ótimo!

— Estava pensando em ficar com a Laís um pouco mais, quem sabe...

— Voltamos em alguns dias, mulher.

— Você pode ligar para ela. — Rosimeire sorriu para minha mãe, que
sorriu de volta.

— Obrigada.

Meu pai veio até mim, segurou o meu braço e me puxou para um
canto afastado de todos. Ele me encarou com tamanha fúria que sentia cada
parte do meu corpo revirar.

— A sua atitude quase custou nossa família inteira. Se o acordo com


os Bellucci for rompido, os Costas vão nos destruir e todos seremos mortos,
não apenas você. Não tome outra decisão estúpida como essa, ouviu bem?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Você tem um compromisso, Laís. Comigo e com toda a nossa


família. Não se esqueça disso de novo.

— Eu não vou — garanti a ele.

Havia aprendido da pior maneira possível que decisões erradas


custavam vidas. A minha fuga havia custado a vida da Antonella. Era algo
que eu nunca iria esquecer. Eu poderia não me lembrar direito do convívio
com a minha família, mas não queria o peso da morte deles nas minhas
costas.

Eu não sabia de quase nada quando saí do convento, mas aprendi


coisas cruciais muito rápido. Duas delas eram as mais importantes: jamais
sobreviveria sozinha e havia pessoas que eu nem conhecia direito cujas vidas
dependiam de mim.

Parei de encarar o meu pai e fui para perto do Marco. Ele sorriu
amistosamente e passou a mão ao redor da minha cintura, colando-me no seu
corpo. O toque e a atitude dele fez com que um calafrio me varresse inteira.
A sensação foi boa, mas precisei me conter para que ela não me fizesse
encolher.

— Muito bem. — Meu pai exibiu um sorriso. — Ela vai ficar aqui até
o casamento?

— Vai — garantiu Marco. — Não quero que os Costas a machuquem,


e um ataque à minha casa é um ataque direto a mim. Eles não seriam capazes
de tanto.

— Você tem toda a razão. Laís estará muito bem aqui. Além disso, já
era para vocês dois estarem casados. Afinal, esperou por tanto tempo. —
Havia alguma insinuação na frase do meu pai que eu não consegui
compreender e Marco não rendeu o assunto.
— Vocês voltam em alguns dias.

— Perfeito. Vamos, Madalena. — Ele passou a mão na cintura da


minha mãe e a conduziu, mas ela parou no meio do caminho.

— Espera. — Esgueirou-se do agarre e parou na minha frente.

Abraçou-me e levou alguns instantes para que eu abraçasse de volta.

— Me liga se precisar de alguma coisa.

— Tudo bem.

Ela afastou meu cabelo, colocando-o para trás, e beijou-me no alto da


testa antes de voltar para perto do marido e ir embora.

— Vou pedir que arrumem um dos quartos de hóspedes para Laís —


anunciou Rosi, antes de se afastar.

Iria dizer que ia com ela, mas antes que eu me pronunciasse, ela
desapareceu de vista, deixando-me sozinha com Marco e dois outros homens,
que pela aparência, deveriam ser irmãos dele.

Abaixei a cabeça e notei que seu braço ainda estava ao redor da minha
cintura. Ao ver minhas bochechas corarem, e ele se afastou. Os sujeitos que
estavam conosco riram, como se tivessem ouvido uma piada que eu perdi.

— Vou me arrumar para a viagem a Sicília — anunciou um deles ao


sair. O outro foi atrás sem se justificar e, quando percebi, Marco e eu
estávamos sozinhos na sala.
— Gostei da forma como se portou diante dos seus pais. — Ele
buscou os meus olhos e eu me perdi na imensidão azul dos seus novamente.

— Obrigada.

— Não vai mesmo fugir?

— Acho que já aprendi a minha lição.

— A tarde com a minha mãe foi boa. Você até consegue falar. — Ele
riu.

Abri um sorriso em retribuição.

— Como conseguiu tantos hematomas?

— Caí de cima de um caminhão.

— Quê?

— Fugindo da polícia. — Abaixei o rosto quando a vergonha voltou a


me acometer.

— Parece que teve uma aventura e tanto. — Ele colocou os dedos sob
o meu queixo e ergueu o meu rosto para que eu voltasse a encará-lo.

Marco pegou algo no bolso e depois segurou a minha mão.

— Não tire esse anel novamente, entendeu? — Ele o colocou de volta


no meu dedo e me surpreendi ao vê-lo. Eu o havia vendido em uma loja de
penhor em Milão e o dinheiro me sustentara por um tempo.
— Como o conseguiu de volta? — Fiquei encarando o pesado
diamante.

— Escute, Laís, haverá coisas que você vai me perguntar e eu não irei
responder. Acho que é melhor poupá-la de alguns assuntos, principalmente
aqueles que tangem como eu lido com tudo sendo o chefe da família. Gosto
da inocência no seu olhar e é algo que eu não quero perder.

Balancei a cabeça em afirmativa e engoli em seco, mas não disse


nada. Minha mente passeou sobre os piores resultados possíveis e percebi que
qualquer coisa que pudesse ter acontecido com o dono da loja de penhor
também era consequência das atitudes que eu havia tomado.

Aqueles poucos dias no mundo real haviam me ensinado muito mais


do que uma vida inteira no convento.

— Olhe para mim. — Marco voltou a levantar o meu rosto.

Havia uma serenidade nos seus olhos azuis que era quase plena.
Poderia encontrar uma estanha paz neles e, de certa forma, isso me seduzia.
Não conseguia parar de buscar seus olhos, ir o mais longe possível naquele
azul imenso e me perder ali.

Ele era, sim, um demônio para algumas pessoas, mas percebi que
estava se esforçando para mostrar para mim a sua melhor versão, e descobri
que queria conhecê-la.

— Desculpa por ter fugido.


— Vamos deixar isso no passado.

— Sim. — Abri um leve sorriso e ele me sorriu de volta.

— Posso? — Ele levantou mais meu queixo e puxou o meu rosto para
cima, ficando apenas alguns centímetros do seu.

Meu coração disparou e foi como se a sala ao nosso redor girasse, até
desaparecer logo em seguida. Nunca havia sido beijada. Confesso que não
imaginava que fosse acontecer assim. Havia ouvido muito que a máfia não
pedia, ela tomava, mas o Marco me pediu um beijo. Por alguns segundos, ele
me deixou ter a ilusão de que poderia rejeitá-lo se eu quisesse. Foi gentil da
parte dele, ainda que as minhas atitudes não houvessem sido das melhores
nos últimos dias.

Mas eu não iria rejeitá-lo mais. Aceitara que meu destino era ao lado
dele e sua mãe havia me mostrado que eu poderia fazer com que isso
funcionasse.

Balancei a cabeça em afirmativa e a mão dele escorregou do meu


queixo e foi parar na minha nuca. Seus dedos subiram pelo meu cabelo e se
embrenharam nos fios. O toque delicado foi posto de lado quando sua outra
mão envolveu a minha cintura e eu percebi o quanto ele era forte.

Marco me pressionou contra o seu corpo e meu coração acelerou


ainda mais quando os botões da sua camisa fizeram pressão no meu tórax.
Pareceu que uma eternidade havia se passado e não apenas alguns segundos
até que ele grudasse seus lábios aos meus. Ele pressionou a língua e percebi
que deveria deixá-la passar. Assim que foi de encontro com a minha, senti
um calor enorme, como se lava corresse pelas minhas veias, e eu não sabia de
onde vinha.

Levei a minha língua até a sua, descobrindo como aquela dança


funcionava, e Marco me apertou ainda mais, como se fosse capaz de fundir o
meu corpo ao seu.

Confesso que havia criado algumas teorias sobre como seria quando
ele me beijasse pela primeira vez, mas em nenhuma delas fui capaz de supor
que seus lábios seriam tão quentes, tão doces e inebriantes.

Levantei as minhas mãos e as coloquei sobre os seus ombros. Ele não


me afastou, ao invés disso, girou-me e me pressionou contra uma coluna que
sustentava a sala. Estava ficando sem fôlego, mas não queria que ele parasse.

Sua mão, que estava na minha nuca, escorregou, descendo pelo meu
pescoço até alcançar o meu seio protegido pelo vestido sem decote e o sutiã
meia taça. Soltei um gemido por reflexo e quando Marco afastou a boca da
minha, imaginei que ele não fosse me beijar mais, porém escorregou os
lábios pelo meu pescoço e chupou-o na base.

Senti uma pulsação na minha feminilidade que ficou mais intensa. Era
um calor bom, estranho e desconhecido, uma sensação que vinha em ondas e
parecia crescer ainda mais à medida que os beijos e as carícias do Marco se
tornavam mais profundas.

A mão que segurava a minha cintura também tomou outro rumo,


escorregou pela minha coxa e entrou no meu vestido. Senti cócegas e
calafrios enquanto ela escalava a parte traseira da minha coxa até tocar a popa
da minha bunda. Era como se os dedos dele fossem pequenos fios
desencapados que davam choque por onde iam passando.

Sua língua traçou a base do meu pescoço e sua mão apertou minha
nádega. Em um ato involuntário, de pura surpresa, arqueei o corpo contra a
parede. Eu estava queimando e as pulsações na minha feminilidade se
tornaram ainda mais intensas, era uma sensação perturbadoramente boa.
Deveria ser por isso que as irmãs falavam que a luxúria era um dos piores
pecados.

Com a mão na minha bunda, Marco pressionou meu corpo ao dele e o


volume que estufava a braguilha da sua calça encostou no meu sexo. Ele me
domava e me envolvia, como um leão faminto, e eu queria ser devorada.

Num instante ele estava com a boca a meio caminho dos meus seios e
uma das mãos dentro do meu vestido, mas, no seguinte, ele se afastou e eu
tombei, procurando apoio na coluna, pois as minhas pernas não pareciam
serem capazes de me sustentar.

Ele havia tacado fogo em mim e se afastado para me deixar


queimando.

— Eu... — Ofeguei. — Eu fiz algo de errado?

— Não. — Marco balançou a cabeça e ajeitou a calça, recompondo-


se. — Você vai ser a minha esposa, e existem regras que preciso seguir. Eu
não posso fodê-la na sala como se fosse uma puta qualquer. Eu a terei no
momento certo.

— Quando será esse momento? — Me arrependi de imediato, não


deveria ter feito aquela pergunta, pois tinha medo da resposta, porém ela saiu
antes que eu conseguisse contê-la.

— Quando nos casarmos. — Ele me respondeu sem rodeios, mas


também não houve rispidez em sua voz, o que me deixou aliviada.

— Tudo bem. — Ajeitei o vestido.

— Suba e procure pela minha mãe. Ela vai mostrar o quarto onde
você irá dormir nos próximos dias até o casamento. Apenas o tempo de
refazer tudo, inclusive o seu vestido de noiva.

Balancei a cabeça em afirmativa.

Não pedi desculpas novamente. Ele sabia que eu estava arrependida


pela fuga, e isso deveria bastar.

Marco saiu da minha frente e subiu a escada primeiro, deixando-me


sozinha na sala. Olhei em volta e respirei fundo. Minhas pernas ainda
estavam trêmulas pelo beijo, mas imaginava que conseguiria andar.

Puxei a barra do vestido e subi a escada atrás da mãe do Marco. Não


foi difícil encontrá-la na biblioteca, uma vez que ela havia me dito que era o
seu lugar favorito em toda a mansão. Imaginei que, além dos livros, era ali
que ela conseguia matar as saudades do período de tempo que passara com o
marido.

— Laís, está tudo bem? — Perguntou ao colocar os olhos em mim.

Fiz que sim com a cabeça.

— Você está vermelha.

Imaginei que fosse por causa de todo o calor que Marco havia me
feito sentir há pouco, mas achei que era melhor não falar isso para ela.

— Meu filho fez alguma coisa?

— Não. Ele foi um perfeito cavalheiro. — Não era a melhor resposta


a se dar, mas fora o que consegui pensar em tão pouco tempo. — Ele me
falou que você me mostraria onde vou dormir.

— Sim. — A matriarca da família fechou o livro e seguiu na minha


frente, orientando-me o caminho até um quarto grande e bem arejado. —
Você ficará aqui até que o casamento aconteça. Depois, irá dormir com o
Marco no quarto dele.

— Obrigada.

— Qualquer coisa você pode mandar me chamar. Amanhã eu vou


mostrar a você como tudo funciona aqui na casa.

Assenti.

— Tenha uma boa noite, querida.


— Obrigada.

Ela me deu um beijo no rosto antes de me deixar sozinha.

Fechei a porta e fui até o guarda-roupa. Ali estavam todas as peças


compradas mais cedo. Escolhi algo confortável para dormir e fui até o
banheiro. Lavei o meu rosto e escovei os dentes.

De certa forma, eu estava contente com tudo o que havia ocorrido,


pois poderia ter sido bem pior. Eu já não estava mais temendo o meu
casamento com o Marco, agora estava ansiosa por ele.
Capítulo Vinte e Dois

— Me expliquem melhor que porra foi aquele tiroteio na comuna de


Anzio ontem. — Encarei Mateo, meu irmão mais jovem e subchefe, antes de
alternar os meus olhos entre os capi que estavam presentes na reunião que eu
havia convocado.

Estávamos em um velho galpão que eu utilizava para me encontrar


com os capi, os associados e, às vezes, para execuções, nem sempre uma de
cada vez.

Estalei os meus dedos e afunilei ainda mais os olhos, analisando cada


um deles, suas expressões, bem como suas reações a minha. Eu não gostava
de quando a situação saia do controle e todos sabiam muito bem disso. Havia
uma lei muito clara: sangue sempre se pagava com mais sangue.

— O Emiliano Esposito morreu ontem de manhã e estão começando a


achar que foram os Galo. Os Esposito querem vingança, e começaram
atacando um café conhecido como principal ponto de distribuição no meio do
território dos Galo — começou Martino.

Eu virei a cabeça para o Mateo, que apenas me encarava. Quis


perguntar por que não tinha me contado antes sobre o possível estopim para
uma guerra que acontecia debaixo do meu nariz, mas imaginei que o meu
irmão houvesse tentado lidar sozinho com tudo enquanto eu corria atrás da
minha noiva fujona em Milão.
— Há alguma prova de que foram os Galo?

— Não — foi Mateo quem respondeu. — O velho estava em uma


festa com muitas putas e bagulho rolando solto. Ninguém tem coragem para
dizer se viu algo e pode ter sido qualquer um, mas é pouco provável que
tenha sido os Galo.

— Quem assumiu?

— Leonel Esposito, o filho.

— Convoque-o para vir até mim. O líder dos Galo também. Eles
podem estar querendo vingança ou apenas aproveitando a oportunidade para
conquistar mais território. Seja lá como for, eu irei resolver.

— Quando chega a nova remessa da América Latina? — questionou


um dos homens, mudando de assunto.

— Na semana que vem.

— Estão falando que os ciganos estão comprando de outro fornecedor


e colocando nas ruas. Sei que já estão tomando conta disso, mas temo que
ainda possam dar algum problema.

— Se o recado que mandei não foi o suficiente, farei com que se


lembrem novamente quem manda em Roma e em toda a Itália — ressaltou o
meu irmão.

— Usaremos um pesticida mais eficiente se eles continuarem dando


trabalho — reforcei com uma postura firme. — No mais, espero todos no
meu casamento nesse sábado.

— Encontrou a fujona? — debochou um dos homens e eu tirei a arma


da cintura e a coloquei sobre a mesa, apontada para ele.

— Foi apenas um contratempo — disse com voz fria, lembrando-o


que debochar de mim era sempre a pior escolha que ele poderia tomar.

— Sim. — Ele engoliu em seco. — Desejo toda a felicidade do


mundo. — Abriu um sorriso amarelo, recuando da ameaça, e eu guardei a
arma. Era bom lembrá-los de quem mandava e com quem não poderiam fazer
piadinhas.

— Estão dispensados. — Levantei da cadeira e caminhei até uma


escada, que levava a um mezanino.

Do alto, podia ver os homens se dispersarem e irem para os carros que


estavam parados do lado de fora do galpão.

Estava observando o lustre precário com uma lâmpada redonda que


pendia do teto quando notei que o Mateo havia subido e estava ao meu lado.
Meu irmão mais jovem debruçou-se no guarda-corpo do mezanino antes de
virar a cabeça para me encarar.

— Odeio qualquer situação que me faça parecer minimamente idiota


diante dos meus homens e isso tem ocorrido demais nos últimos dias. Se não
quiser que os nossos sejam punidos, recomendo que evite que isso volte a
acontecer. — Eu o olhei com frieza, para que o Marco se lembrasse que,
apesar da nossa ligação de sangue, a minha ainda era a posição de maior
poder naquela hierarquia.

— Você estava atrás da Laís e eu iria resolver, achei que não


precisava importuná-lo.

— Não volte a achar de novo, consulte-me primeiro.

— Sim, chefe.

— Ótimo. Quando os Esposito e os Galo chegarem, vamos lembrá-los


de quem faz as regras e que eles têm o privilégio de operar em territórios que
nós designamos para eles. Se começarem uma guerra que eu não autorizei,
serão esmagados.

— Achei que fosse acordar com um humor melhor hoje — brincou.


— Afinal sua esposa já está em casa, e parece que a coelhinha não vai mais
escapar.

— Eu nem toquei nela.

— Não foi o que vi ontem.

— Estava me espionando, seu voyeur do caralho? — Cerrei os dentes.

— Não. Eu só precisei passar pela sala para ir até a cozinha, mas ela é
sua, ninguém irá julgá-lo por tomar aquilo que é seu. Além disso, é muito
linda.
— É melhor que você e o Theo mantenham os olhos bem longe dela.

— É a sua coelhinha, não quero problemas. Apenas torço para que


esse casamento aconteça logo para que comessem a falar sobre outra coisa.

— Estão falando demais, talvez não tenham trabalho o suficiente, mas


vou mudar isso.

— O que o Theo foi fazer na Sicília? — Mateo mudou de assunto.

— Ele ainda está tentando descobrir o que aconteceu com o nosso pai.

— Ele não chega a lugar nenhum, parece apenas um cachorro que fica
correndo atrás do próprio rabo. Foi culpa dos ciganos.

— Precisamos parar de culpar os ciganos por todas as merdas que nos


acontecem. Eu concordo com o Theo, acho que foi um traidor, alguém dos
nossos. Quem sabe não foi alguém que estava trabalhando para a polícia?

— Eu não sei. Só tenho medo de que ele fique paranoico com isso.

— Theo sabe o que faz.

— Espero que sim. — Mateo apertou o meu ombro antes de descer a


escada e me deixar no mezanino.

Fiquei observando do alto enquanto esperava o tempo passar. Theo


acreditava que poderia encontrar o culpado pelo que tinha acontecido com o
nosso pai e eu o apoiava. Parecia o certo a se fazer e era a minha forma de
horar a memória do meu pai também.
Capítulo Vinte e Três

— Essa é a Auristela, a governanta da casa e responsável por todos os


empregados. Se precisar de algo, pode se dirigir diretamente a ela, que irá
solucionar o problema para você.

— Obrigada. — Assenti enquanto Rosimeire caminhava comigo ao


lado da fila feita pelos empregados da mansão. Eram muitos, eu havia
contado pelo menos umas vinte pessoas. Para manter um lugar daquele
tamanho funcionando deveria ser necessário.

— Bianca, Eliza e Giovana cuidam da cozinha, Sandra, Valentina e


Gabriela cuidam da limpeza dos cômodos. Eugenio, Pietro e Tadeu trabalham
no jardim e nas demais áreas externas, como na manutenção das piscinas... —
Rosimeire foi apresentando cada um deles e eu fui acompanhando com o
olhar e retribuía o sorriso que eles dirigiam para mim.

Eu seria a senhora daquela casa. Em dois dias haveria um novo


casamento, e dessa vez eu não iria fugir. Depois da cerimônia, eu me tornaria
a senhora Bellucci. Eu não queria irritar o Marco. Havia gostado muito do
momento que tivemos juntos no fim da tarde. Tinha sido muito bom e eu
queria mais como aqueles.

— Com o tempo você vai se acostumar com tudo. Também não deve
ser preocupar, pois eu estarei aqui para ajudá-la no que precisar.
— Muito obrigada, Rosi. Eu não sei como agradecer.

— Faz parte do meu papel orientá-la.

— Está fazendo mais do que isso.

— Você vai se casar com o meu filho e vê-los felizes é o que eu mais
posso desejar.

Sorri, alegre, e ela afagou o meu rosto em um ato gentil.

— Se depois quiser ligar para a sua mãe, é só me falar.

— Você tem o contato dela?

— Tenho os meus meios de conseguir.

— Não sei se quero falar com ela.

— Siga o seu coração e não se culpe pelo que ele decidir. Você foi
afastada da sua família muito jovem e perdeu alguns laços, que precisam de
tempo e convivência para serem reatados. Não deve se preocupar, minha
criança. Em breve você vai encontrar o seu novo normal.

— Muito obrigada, Rosi.

Ela afagou o meu rosto mais uma vez e me dirigiu um sorriso muito
amistoso. Ficava muito feliz na presença dela e sabia que, com a minha sogra
por perto, iria ser bem mais fácil me acostumar aquela nova vida.

Estávamos na sala quando um dos homens que fazia a segurança se


aproximou e sussurrou algo no ouvido dela.

— Não deixem que ela entre.

— Ela quem? — Franzi o cenho quando a curiosidade foi demais,


porém logo me lembrei do que Marco havia dito para mim. Haveria coisas
que, para o meu bem, era melhor que eu simplesmente não soubesse.

— Um problema — a resposta de Rosi foi vaga e completamente


esquiva.

— Quem? — Eu a encarei suplicante. Pela expressão da Rosimeire,


deveria ser algo preocupante, mais um motivo para que eu não insistisse,
contudo eu o fiz assim mesmo, pois poderia ser algo que dissesse respeito a
mim.

— Laís, o que acha de darmos um passeio no jardim? — Ela me


estendeu o braço e eu assenti, caminhando com a minha futura sogra para
fora da sala de jantar até um caminho de pedra em meio a grama e muitos
canteiros de flores.

— Durante os últimos anos, Marco teve alguns casos e se envolveu


com inúmeras mulheres, mas nenhuma delas era tão perigosa quanto
Donatella Rossi. Eu a odiei desde o primeiro momento que a vi, ainda na
companhia do pai, em uma das reuniões de famílias da máfia. Ela era o tipo
de mulher fria como uma cobra, que muitas vezes se mostrava ainda mais
perigosa. Ela é muito bonita e essa beleza certamente chamou a atenção do
meu filho, mas eu tenho certeza que ele subestimou todo o veneno que
Donatella pudesse ter. Desconheço os detalhes do relacionamento deles, mas
durante esse período foi quando vi o meu filho mais violento. Não quero que
essa situação se repita.

— E o que ela quer aqui? O Marco não está.

— Provavelmente ver você e fazer algumas ameaças. — Fiquei


pálida, mas Rosimeire continuou o seu relato. — O seu compromisso com o
meu filho é antigo, mas durante o período em que você crescia e se tornava
mulher, algumas outras tentaram dissuadi-lo desse casamento. Marco é um
homem muito poderoso e sei bem que estar ao lado de um chefe da máfia
pode ter as suas vantagens. Durante o meu tempo, no seu lugar, eu podia ter
tudo o que queria. Contudo, como eu disse, meu filho é um homem que honra
a sua palavra, assim como o compromisso de se casar com você. Quando
Donatella percebeu que não iria conseguir dissuadi-lo de cumprir a promessa,
ela saiu do controle.

— Está me dizendo que ela tem ciúmes do fato de que eu irei me


casar com o Marco?

— Essa é uma forma bem eufêmica de descrever a situação. Tenha


cuidado com Donatella, Laís.

— Acha que ela pode fazer com que o Marco mude de ideia e se case
com ela? — Meu estômago embrulhou, e eu senti pela primeira vez o medo
de perder algo que eu havia reconhecido como meu muito recentemente.

— O Marco não, mas ela pode tentar fazer algo contra você.
— Eu vou ficar atenta.

— Ótimo. Lamento despejar isso assim em cima de você, mas


existem coisas que é melhor saber e aprender para a sua própria proteção.

— Eu percebi.

Rosimeire sorriu para mim e afagou o meu ombro em um gesto


afetuoso. Ela estava se mostrando uma grande aliada que eu teria naquele
lugar.

— Vamos voltar para dentro de casa. — Ela segurou a minha cintura


e me guiou pelo caminho de volta.

Mais tarde um estilista viria fazer a prova do novo vestido de noiva


para os ajustes finais, uma vez que eu havia acabado completamente com o
último.

Dessa vez o casamento iria acontecer.


Capítulo Vinte e Quatro

Os dias que antecederam a nova data do casamento passaram rápido.


Eu precisei solucionar pequenos conflitos dentro da máfia e lidar com uma
investigação em assuntos do Vaticano que poderiam respingar em nós, o que
tomou muito do meu tempo. Vi a minha noiva nos jantares com a família,
mas não voltamos a ficar sozinhos, dessa forma, beijos como o da primeira
noite em minha casa não voltaram a se repetir.

Eu tinha esperado dez anos para ter aquela mulher na minha cama e
poderia esperar mais alguns dias.

Minha mãe me disse que Donatella apareceu querendo ver a Laís,


num gesto amistoso, que não enganava a ninguém, mas que me deixou
alarmado. Enquanto não fosse a minha esposa, Laís estaria correndo perigo.
Como minha mulher, ela seria intocável, e qualquer ato contra ela afetaria
diretamente em mim. Eu fazia o meu poder valer para que todos estivessem
muito cientes das complicações de um ataque contra o chefe. Esperava que
Donatella fosse minimamente inteligente para levar os alertas em
consideração antes de tomar qualquer atitude estúpida.

O casamento finalmente aconteceria. Eu acordei cedo naquela


manhã, resolvi alguns assuntos e me arrumei para a cerimônia. Dessa vez,
Laís seria acompanhada pelos meus irmãos e não haveria riscos, ou era o que
eu imaginava, pois não havia em quem eu confiasse mais do que nos dois.
Olhei para a minha mãe e ela sorriu. Aquele momento na igreja foi
como um déjà-vu, como se tudo aquilo fosse acontecer novamente, e odiei a
sensação. Já não havia sido fácil fazer com que os meus homens engolissem
um casamento fracassado, eu não precisava de outro.

Quando as portas duplas se abriram, eu prendi a respiração. Estava no


topo da cadeia alimentar, mas também tinha as minhas inseguranças. Porém,
segundos depois, eu a vi. Ela estava completamente coberta de branco,
simbolizando seu status imaculado de virgem. Laís caminhava na minha
direção de braços dados com o pai, que já havia a entregue para mim quando
ainda era uma menina. O véu que cobria o seu rosto era fino o suficiente para
que eu fosse capaz de ver através dele a face de um anjo, e me dar a certeza
de que era ela.

— Entrego-a para você. Cuide bem da minha filha.

Mantive o sorriso diante da frase mais estúpida que Afonso poderia


ter me dito. Ele já havia entregado Laís para mim muitos anos antes, e aquela
cerimônia era apenas uma formalização.

Peguei as mãos pequenas e delicadas dela entre as minhas e fiz com


que me encarasse. Sorri para ela e Laís correspondeu quando puxei o véu
para cima e expus seu rosto aos convidados que nos assistiam.

Virei de lado e fiz com que ela fizesse o mesmo antes de nos
ajoelharmos diante do padre, que vestia uma batina branca e trabalhada com
muitos ornamentos dourados.
Enquanto ele falava sobre coisas que eu não dei importância, eu
olhava para Laís com canto de olho. Ela parecia compenetrada e ouvia cada
palavra.

Minutos intermináveis se passaram quando o padre abriu a boca para


falar o que não deveria.

— Há alguém que tem algo contra esse casamento?

Laís olhou para trás e eu fiz o mesmo. Vi Donatella se levantar de um


dos primeiros bancos, mas ela foi rapidamente repreendida por Theo, que
estava postado logo atrás dela. Imaginei que ele havia apontado uma arma
para as suas costas, pois era a única justificativa para que ela fizesse aquela
cara e voltasse a se sentar.

— Termine logo esse casamento, padre — falei em um tom mais


ríspido.

— Eu vos declaro marido e mulher. — Fez um gesto para que nos


levantássemos. — Agora pode beijar a noiva.

Segurei o queixo da Laís e trouxe o rosto dela para perto, dando um


beijo bem mais sutil e delicado se comparado ao que havíamos trocado na
sala.

A igreja inteira vibrou e bateu palmas, parabenizando-nos pela união.


Depois de dez anos, o acordo finalmente havia sido selado e Laís era minha
esposa.
Segurei a mão dela e seguimos para a entrada, onde derramaram uma
chuva de arroz sobre nós. Não parei de andar e segui para a limusine que nos
esperava. Deixei que Laís entrasse primeiro e me sentei ao lado dela, batendo
o blazer do terno e balançando o cabelo, como um cachorro molhado, para
me livrar do arroz que havia se acumulado.

— Você não fugiu dessa vez. — Encarei-a e Laís parou de olhar para
a janela do carro e se voltou para mim.

— Acho que seria impossível com a escolta dos seus irmãos.

— Eles são eficazes.

— Percebi, mas eu não ia fugir.

— Que bom!

Continuei encarando-a e as bochechas de Laís ficaram vermelhas. Eu


gostava muito quando ela reagia daquela forma. Era um sinal que a sua
inocência ainda não havia sido completamente corrompida pelo mundo onde
nascemos.

— Vem aqui. — Coloquei a mão por debaixo do seu coque e puxei o


rosto dela para mim, requisitando o direito à boca que era minha.

Laís tombou a cabeça na minha direção e permitiu que eu a beijasse.


Diferente da igreja, onde todos estavam nos assistindo, penetrei a fenda dos
seus lábios com a língua e tornei o beijo mais intenso. Queria puxá-la para o
meu colo e enfiar os meus dedos no seu coque para desfazê-lo. Uma pena que
aquele maldito vestido era volumoso demais.

Queria ter Laís como mulher logo. Provavelmente o fato de ter


passado os últimos dias ocupado demais para ter qualquer outra estivesse me
deixando ainda mais ansioso.

Afastei-me do beijo em busca de ar e Laís se ajeitou no banco


novamente.

— Vamos voltar para a mansão agora?

— Não. Haverá uma recepção no Palazzo Poli.

— Onde fica a Fontana di Trevi? — Os olhos arregalados dela me


surpreenderam, juntamente com a sua pergunta.

— Sim.

— É um monumento muito romântico. Ao menos, é o que eu ouvi


falar.

— É por isso que a recepção do nosso casamento será na sala Dante,


que tem uma linda vista da fonte. É um lugar muito utilizado para casamentos
de pessoas importantes, de Roma e do mundo.

— Imagino que deva ter custado muito caro.

— Dinheiro é algo com que nunca vai precisar se preocupar.

— Obrigada.
A limosine parou na entrada do edifício e eu desci, estendendo a mão
para que a minha jovem esposa viesse comigo. Era um belo palácio em
arquitetura antiga que havia sido construído muitos séculos atrás, como
diversos outros prédios de Roma. A cidade inteira tinha milênios e muitas
construções que precediam o catolicismo, que agora a regia.

Seguimos direto para o enorme salão, que já contava com a presença


de muitos convidados. Logo fomos rodeados por muitos deles. Alguns
queriam me dar os parabéns, outros apenas ambicionavam ver Laís de perto.
Era uma mulher que, mesmo que não soubesse, seria um ícone por muito
tempo. Ela havia desafiado a estrutura de como tudo funcionava e, ao invés
de estar morta, posava para fotos ao meu lado. Torcia para que ela aprendesse
rápido e não voltasse a cometer nenhuma loucura.

— Molto bella! — Uma anciã acariciou o rosto da Laís, que sorriu


para ela.

— Obrigada.

— Torço para que vocês tenham um casamento feliz e com muitos


filhos — disse a velha senhora para mim.

— Obrigado. — Apenas agradeci em um gesto involuntário, mas, por


um momento, eu cheguei a pensar que não haveria nada de mal em ter um
casamento como o dos meus pais. Era certo que eu estava ali pelo dever e
faria tudo por isso, porém unir o útil ao agradável nunca foi mal visto. De
todo modo, filhos era uma parte da nossa obrigação, pois um líder sem
herdeiros poderia ser facilmente substituído. Eu havia gerenciado bem
durante todos aqueles anos, mas estava ficando sem tempo para ser pai.

— Parabéns! — Theo parou na minha frente e eu percebi o tom de


deboche na sua fala, mas fingi não notar.

Ele achava que tinha sorte por não estar no meu lugar, mas ele e
Mateo também tinham papéis e funções dentro daquela família.

Vários capi, chefes locais da máfia por toda a Itália que respondiam a
mim, vieram me parabenizar pelo casamento. Todos foram sensatos o
bastante para não tocar no incidente da fuga de Laís. Eles sorriam, me
abraçavam e ressaltavam o quanto ela era bonita, ao ponto de me deixar
incomodado. Ela era minha, e agora, depois do casamento, mais do que
nunca.

Após os cumprimentos, nos sentamos em uma mesa em uma


plataforma, local em que todos poderiam nos ver, e fomos servidos pelo
buffet.

— A comida está deliciosa. — Sorriu para mim de maneira simpática.

— Que bom que gostou. — Beberiquei a minha taça de champagne


sem dar muita importância ao comentário dela.

Finquei o garfo no meu prato e comi também.

Ficamos ali por alguns momentos até que fomos chamados para
dançar. Fazia muito tempo que eu não ia a um casamento e havia me
esquecido de muitos detalhes tediosos. Quando a música acabou, puxei a mão
da minha esposa e a arrastei até o local que dava vista para a fonte.

— É lindo! — Suspirou enquanto observa as estátuas e a água cair do


alto.

Parei ao lado dela e Laís tomou a liberdade de encostar a cabeça no


meu peito. Não a recriminei. Era o dia do nosso casamento e não havia
motivos para afastá-la.

Enfiei a mão no bolso e vasculhei pela minha carteira até encontrar


uma moeda. Então entreguei para ela.

— Para que isso?

— Para você fazer um pedido.

— Qual pedido?

— O que você quiser.

— Qualquer um?

— Isso mesmo. Basta fechar os olhos, fazer o pedido e jogar uma


moeda na fonte. É o que eu já ouvi dizer, mas não acredito nessas
superstições bobas.

— Então por que me deu a moeda?

— Achei que você pudesse se divertir, mas se não quiser...


— Vou fazer o pedido. — Ela segurou a moeda entre as mãos e
fechou os olhos, depois beijou-a e jogou na fonte.

— O que você pediu? — Encarei-a curioso.

— Existem coisas que você vai preferir não saber — disse em um tom
firme, quase me imitando.

— Você aprende rápido.

Ela riu e eu puxei o seu rosto para o meu novamente. Gostava do


sabor dos seus lábios.
Capítulo Vinte e Cinco

Depois da recepção, nós voltamos para a mansão e Marco se separou


de mim novamente. Ainda suspirava pelo momento que compartilhamos
diante da fonte. Marco estava se mostrando um homem amável quando
ficávamos sozinhos, e eu tinha esperanças de que o meu pedido de sermos
um casal de verdade se realizasse.

Fui levada até o meu quarto por uma das mulheres que me arrumara
para o casamento. Ela tirou o meu volumoso vestido e o substituiu por uma
fina camisola branca, que mal encobria a lingerie da mesma cor e a cinta-liga.
Estava exposta e isso me deixou envergonhada, por mais que eu já tivesse
ouvido muitas vezes sobre as intimidades de um casal e os deveres conjugais.
Contudo, apesar da vergonha, eu estava ansiosa para ficar sozinha com o
Marco novamente. Imaginava que seria como o nosso primeiro beijo, ou
ainda mais intenso.

Ouvi uma batida na porta, que fez com que eu me virasse. Minhas
mãos suavam frio e eu esfreguei uma na outra.

— Pode entrar — disse imaginando que fosse o Marco.

A porta foi aberta em um rangido que acelerou ainda mais o meu


coração, porém, ao invés de ser o meu marido, a imagem que vi foi de uma
mulher alta com olhos dourados como mel e um cabelo vermelho como
sangue.
— Quem é você? — Recuei contra a penteadeira quando ela fechou a
porta.

— Camisola branca, sério? Impossível ser mais insossa. Tenho


certeza de que o Marco vai se cansar de você muito rápido.

— Saí daqui! Ele já está vindo. — Tateei o móvel em busca de algo


para me defender dela.

— Ou o quê? Vai gritar? — Ela gargalhou e sua voz histérica e


sombria ecoou por todo o quarto.

— Não sei como entrou aqui, mas quero que você vá embora.

Ela me ignorou completamente e se curvou, tirando uma lâmina


afiada da canela. Ela veio para cima de mim e apontou a arma para o meu
pescoço. Tentei me esquivar, mas ela segurou uma das minhas mãos e chiou
no meu ouvido.

— Quietinha, é melhor fazer silêncio.

— Eu sou a esposa do Marco, você não pode me matar se não quiser


começar uma guerra.

— Ah, queridinha, acha mesmo que ele iria tão longe por você? Não
passa de um fardo na vida dele. Um compromisso que o Marco assumiu e não
consegue se livrar.

Engoli em seco e senti a lâmina afiada contra a minha garganta. O


cheiro férrico que tomou o ar era um sinal de que ela poderia ter me cortado.

A porta foi aberta novamente, mas eu nem arrisquei virar o pescoço


para ver quem era, pois tinha medo de que a lâmina terminasse o seu
trabalho. Eu não queria morrer naquele momento, havia acabado de me casar
e precisava descobrir o que seria da minha vida a partir daquele instante.

— Solta ela! — Vi a mão do Marco puxar a da Donatella, fazendo


com que a faca caísse no chão.

Inspirei profundamente e levei a mão ao pescoço. O corte era fino,


mas o suficiente para doer.

Vi Marco pressioná-la contra a parede na outra extremidade do quarto


e a mulher revirou os olhos, como se a atitude dele provocasse alguma forma
de prazer.

— Sua louca! — Ele rosnou, mostrando os dentes como um animal


feroz. — Como entrou aqui? Eu vou...

— Vai o quê? — Donatella o interrompeu. — Me matar? Então mata!


Mostra para sua noivinha o quanto você é cruel e impiedoso. Ou pode me
foder na frente dela, eu também não me importo. — Ela abriu um sorriso
sombrio e passou a língua pelos lábios vermelhos, ressaltando-os.

— Sua puta desgraçada! — Marco urrou, socando a parede ao lado do


rosto de Donatella, e o movimento abrupto fez com que eu me assustasse.

— Está amedrontando a sua virgem. Será que ela sabe o que você já
fez comigo e que pode fazer com ela também?

— Cala a boca. — Marco envolveu o pescoço dela com uma das


mãos e a mulher não tirou o sorriso do rosto, mesmo quando era sufocada.

— Vai, me mata. — Ela riu. — Joga Milão inteira contra você.

Marco bufou e soltou-a, fazendo com que Donatella caísse no chão


como um saco pesado, o som ecoando pelo assoalho. Antes que ela dissesse
qualquer outra coisa, ele pegou-a pelos cabelos e arrastou-a para fora do
quarto.

Ouvi eles se afastarem e coloquei a mão sobre o peito. Nem conseguia


respirar, era como se o meu diafragma houvesse sido paralisado pelo terror.
Busquei apoio na penteadeira e inspirei e expirei várias vezes, enquanto
tentava me normalizar diante do pânico.

Não sei quanto tempo levou para que o Marco retornasse para o
quarto, mas ele me encontrou na mesma posição, estática e de olhos
arregalados.

— Você está bem?

Balancei a cabeça em afirmativa, porém não tinha qualquer certeza.

— O que ela disse para você? — Ele botou as mãos na minha cintura
e eu desmoronei nos seus braços.

— Que estaria fazendo um favor para você caso me matasse.


— Donatella tem sérios problemas, mas não era para ela ter
conseguido entrar aqui. Os homens devem ter se distraído com o casamento.
Isso não vai acontecer de novo, Laís. — Ele me envolveu com seus braços
quentes e consegui ficar mais tranquila.

Apoiei a cabeça no seu peito e ficamos assim por algum tempo. O


batimento do seu coração normalizou o meu.

— Ela cortou você. — Ele tombou a cabeça para examinar o


ferimento no meu pescoço.

— Não está doendo — menti ao cobrir o local com a mão.

Marco segurou meu braço e afastou a minha mão. Ele aproximou a


cabeça do ferimento e o lambeu, provocando uma corrente elétrica, que me
varreu inteira.

— A saliva é um bom cicatrizante. — Ele segurou a minha nuca e


acariciou minha bochecha com o polegar. — Você está linda, estava o dia
todo.

— Obrigada.

— Vamos para o meu quarto ou você quer continuar aqui?

Levantei a cabeça e procurei o seu olhar, firme e voraz, dizendo-me


muito mais do que suas palavras. Marco havia esperado dez anos para me ter,
e o que acabara de acontecer com Donatella não seria desculpa o suficiente
para o impedir de continuar, mas a verdade era que havia um fogo que ele
despertou dentro de mim que não queria nenhuma desculpa.

— O seu quarto parece bom.

Ele sorriu e imaginei que fosse segurar a minha mão para me


conduzir, mas, ao invés disso, me pegou no colo. Abracei seu pescoço e
deixei que ele me levasse. Marco subiu os degraus da escada para o terceiro
andar comigo em seus braços e abriu a porta com um pontapé, fechando-a do
mesmo modo logo em seguida.

Não tinha escapatória, mas eu não queria escapar.

Marco me deitou e meus cabelos se espalharam sobre o lençol. Ele


ficou olhando para mim como se me admirasse, como se quisesse memorizar
cada detalhe do meu corpo.

— Bella!

Ele se ajoelhou na cama e avançou para cima de mim, como o


predador que era. Seus olhos capturaram os meus. Não havia para outro lugar
que eu quisesse fitar que não fosse aquela imensidão azul.

Marco segurou a minha mão com a sua, firme, e puxou o meu rosto
para o seu. Sua boca tomou a minha e o beijo foi feroz. Não tive qualquer
receio em acolher a sua língua e deixar que me explorasse, que me tomasse, e
me rendi. Quanto mais o Marco me beijava, mais eu queria ser beijada. Seus
lábios eram quentes e ardiam feito pimenta, me deixando queimando de
dentro para fora.
Com uma mão segurando firme o meu rosto, a outra deslizou pela
minha coxa, pesada, firme e quente como brasa, deixando a minha pele
latejando, sensível e pulsante por onde passava, provocando um efeito ainda
mais intenso na região entre as minhas pernas.

Queria que ele não parasse. Seu toque era bom e eu o desejava em
todas as partes do meu corpo. Confesso que havia feito as piores imagens
mentais de Marco enquanto estava no convento. Imaginava um velho de
aparência estranha e desprezível, não o belo homem de olhos azuis com um
toque tão ardente quanto de mil fogueiras.

Estava completamente à mercê dele e ansiava para saber até onde iria.

Seus lábios desceram dos meus para o meu queixo. Pude respirar um
pouco, ao mesmo tempo que me arrepiava toda devido ao seu hálito quente
tocando a pele sensível. Sua mão subiu pela lateral do meu corpo e alcançou
o meu seio. Gemi baixinho quando ele o apertou sobre o tecido fino da
camisola.

Fechei os meus olhos e permiti me entregar as sensações, que ficavam


mais intensas à medida que o pudor desaparecia por completo perante os
toques do Marco. Ele pressionou meu mamilo arrepiado e fez com que eu
soltasse um gritinho, que foi abafado pelos seus lábios, que estavam de volta
aos meus.

A sua mão, que comprimia e perturbava o meu seio, desceu


procurando por uma das minhas e a segurou, puxando-a até que pousasse
sobre os botões do seu blazer. Quando meus dedos delicados escorregaram
por eles, entendi, sem que o Marco precisasse falar em voz alta, que ele
queria que eu os abrisse. Subi a outra mão e enquanto nos beijávamos, abri o
blazer e o empurrei pelos seus ombros.

Marco mordicou meu lábio superior e eu revirei os olhos. Dei um leve


gemido, mas as minhas mãos não se afastaram do seu peito, nem do nobre
trabalho de tirar a sua gravata e a camisa. Ansiava por ver seu peito e os seus
músculos. Quando terminei de abri-la, Marco puxou a peça para trás e a
arremessou para um canto remoto do quarto, ao qual não dei a menor
importância de saber onde cairia.

Desci com as mãos abertas pelo seu tórax e abdômen até o início da
pélvis, onde começava a sua calça. Senti os fios pretos do cabelo que descia,
indicando o caminho entre suas pernas. Minha boca salivou quando a minha
mente pensou nas mais diversas perversões. As irmãs no convento viviam
alertando sobre os perigos da luxúria, mas eu estava muito ansiosa para
prová-la.

Meu coração batia acelerado, minhas pernas e minhas mãos estavam


trêmulas, mas não pensava em afastá-las de Marco.

— Minha vez. — Ele me lançou um sorriso maroto junto com os


olhos semicerrados que me fez revirar por dentro de expectativa.

Suas mãos subiram por minhas coxas, foram até a minha cintura e
escalaram a lateral do meu corpo, levando consigo a minha fina e inocente
camisola branca. Aquele era o primeiro passo para que ele me tomasse por
completo. Levantei os braços e deixei que ele a tirasse, colocando-a sobre a
cabeceira da cama.

Suas mãos retomaram o caminho até a minha cintura e ele puxou a


minha calcinha, escorregando-a pelas minhas coxas até tirá-la pelas pontas
dos meus pés.

Por reflexo, cobri-me com os braços ao perceber que estava nua,


usando apenas a cinta-liga branca e o par de meias três quartos. Marco riu ao
segurar meus pulsos e puxá-los, afastando-os dos meus seios.

— Não precisa esconder nada de mim. — Encarou-me como se fosse


capaz de enxergar a minha alma com seus olhos. Imaginei que ele estivesse
se referindo ao meu corpo, mas a afirmação parecia se expandir para todos os
meus segredos.

Eu assenti, mantendo os braços abertos e Marco abaixou a cabeça.


Sua língua encontrou a ponta enrijecida do meu seio e eu arqueei o corpo ao
ser varrida por uma corrente elétrica. Meu gritinho de surpresa foi substituído
por um gemido mais longo quando Marco envolveu meu peito com os lábios
e começou a sorvê-lo, enquanto sua língua muito hábil brincava com meu
mamilo.

Arquejei, revirando-me e retorcendo-me sobre o lençol branco e


muito macio, meu corpo inteiro vibrando a cada novo estímulo. Estava
gostando muito de descobrir como Marco me fazia sentir ao tomar-me como
sua mulher. A boca dele se moveu e Marco lambeu o vale entre os meus
seios, iniciando uma nova onda de pulsações. Eu sentia sua respiração, sua
língua, seus lábios e até mesmo os seus dentes enquanto ele deixava um
caminho molhado até o meu sexo.

Arregalei os olhos quando Marco agarrou as minhas coxas pela face


externa e as puxou, separando-as bem, e a sua boca alcançou a minha
intimidade. Imaginava que beijos não fossem dados daquela forma, porém
parei de pensar racionalmente quando sua boca encontrou o meu sexo. Marco
afundou os dedos na minha pele, apertando as minhas coxas de forma
dolorida enquanto sua língua, seu hálito e seus lábios me mostravam o que
era o prazer.

Arqueei o corpo, afundando a cabeça no travesseio e estiquei os


braços segurando na cabeceira, enquanto a minha vontade era me retorcer de
dentro para fora em meio a sensações novas e desconhecidas, mas
incrivelmente boas. Senti-o deslizar pelos lábios da minha feminilidade e
irem de encontro ao centro do meu prazer. A tensão que crescia ali era muito
intensa e dava a impressão de que eu explodiria a qualquer momento. A
vontade de gemer era cada vez mais intensa e eu não a contive.

A língua, o hálito e os lábios do Marco logo me mostraram que


sensações também podiam ser uma bomba se bem alimentadas. Com o
estímulo certo, eu poderia facilmente explodir. Soltei um gemido intenso e
todo o quarto ao meu redor começou a girar quando meu êxtase chegou ao
ápice. Aquela onda que ainda pulsava formigante nas minhas veias, quente
feito lava, era a melhor experiência que havia provado na vida e desejava
muito mais.

Marco lambeu minha virilha enquanto eu ainda revirava os olhos,


subiu pelo meu ventre, pelos meus seios e por fim sua boca voltou para
minha, permitindo que eu experimentasse o meu próprio gosto.

Estava ofegando, meu peito subia e descia em frenesi, mas não deixei
de beijá-lo, pois não queria que ele parasse, mas ele parou. Antes que eu
protestasse com resmungos, o vi tirar a calça e a cueca, ficando nu diante dos
meus olhos curiosos. Contemplei a sua ereção e se não tivesse tão
entorpecida pelo êxtase, teria corado. Não sabia se o meu corpo iria suportar
tamanho volume.

Marco voltou para cima de mim e seu corpo cobriu o meu com uma
pressão deliciosa. Sua boca tomou o caminho de volta para minha, rendendo-
me em mais um beijo deliciosamente doce, ao passo que ele se acomodava
entre as minhas pernas. Suas mãos percorrendo o meu corpo com carinho
deixavam-me mais ansiosa pelo o que viria a seguir.

Seu membro roçou na minha intimidade e, por reflexo, eu fechei as


pernas, mas só consegui apertá-lo ainda mais contra mim. Marco esfregou o
pênis na entrada do meu canal repetidas vezes, fazendo-o pulsar, pedindo
para que fosse penetrado. Não fazia ideia do tamanho da minha vontade até
experimentá-lo.

— Marco... — gemi quase em súplica.


— Tenha calma, estou preparando você. — Sorriu ao passar o
indicador pelos meus lábios e pressioná-lo até que entrasse na minha boca.

Chupei seu dedo por reflexo e, instantes depois, Marco afastou a mão
e a levou até a minha intimidade. Surpreendi-me quando, ao invés do seu
membro, o que entrou em mim foi seu dedo. Eu me retorci com o prazer,
flexionando os dedos das mãos e dos pés. Ele agitou o dedo dentro de mim,
provocando uma nova onda de prazer desconhecido e extraindo um néctar
que molhava a sua mão e as minhas coxas.

— Pronta? — perguntou com a boca na minha orelha, arrepiando


mais uma vez todos os pelos do meu corpo.

— Acho que sim. — Escondi o rosto no seu peito, pois estava


ligeiramente envergonhada.

Marco era o meu marido, e não faria nada além do que era dele por
direito, tomar o meu corpo.

Senti-o tirar o dedo e substituí-lo por outra coisa, muito mais grossa.
Agarrei seus ombros, abraçando-o quando a pressão foi me provocando dor.
Ele estava se forçando para dentro de mim e eu achava que não conseguiria
comportá-lo.

Meu grito dessa vez foi de dor e tentei girar o corpo para sair debaixo
dele, mas seu peso sobre mim não me deixaria ir muito longe.

— Dói — resmunguei em protesto.


— Calma, Laís. — Ele voltou a segurar o meu rosto com uma das
mãos, fazendo com que mais uma vez os meus olhos encontrassem os seus.
Tão azuis, tão serenos.

Ficamos nos encarando, mas antes de voltar a forçar a entrada em


mim, Marco tomou meus lábios em outro beijo quente, que derreteu as
defesas que eu havia criado pela dor e fez com que eu voltasse a relaxar.

Marco deu um tranco mais firme e eu o senti me rasgar. Abracei seus


ombros em meio a um grito, mas ele não parou de me beijar e essa insistência
fez com que logo a dor diminuísse e um impulso fizesse com que eu levasse o
meu corpo ao dele. Ele começou a se mover enquanto acariciava o meu rosto
com uma mão e o meu corpo com a outra.

A dor, muito intensa no primeiro momento, foi diminuindo com os


estímulos e logo comecei a desfrutar da sua presença em mim e da sensação
que era estar sendo preenchida por um homem.

Não tardou para que eu notasse Marco parando de se mover e todos os


seus músculos ficarem rígidos. Busquei seu olhar, que estava firme no meu, e
logo o senti ofegar no momento em que um líquido quente preenchia meu
ventre.

Ele ficou em cima de mim e me deu mais uns beijos rápidos até que
sua respiração chegou mais perto do normal e ele tombou para o lado.

— Ainda dói? — Ele pegou a minha mão e a levou ao rosto, beijando


o dorso.
— Lateja um pouco.

— Vai parar de doer com o tempo.

Com o tempo? Fiquei contente ao perceber que Marco pretendia fazer


mais vezes.

— Tenho certeza que sim. — Me movi na cama e deitei a cabeça no


seu ombro.

Ele não me rejeitou, pelo contrário, afagou o meu rosto de uma forma
carinhosa.

— Marco?

— Sim.

Engoli em seco, me arrependendo de puxar assunto. Contudo, se não


fosse naquele momento, eu poderia não falar nunca.

— Quero aprender a me defender.

— A se defender? — Ele virou o rosto para me encarar melhor e


franziu o cenho, certamente estranhando o meu pedido incomum.

Fiz que sim.

— Você é a mulher do chefe, tem um exército para protegê-la.

— Ainda assim, eles podem falhar. Não quero me sentir tão impotente
de novo como aconteceu hoje mais cedo.
— Eu não quero que você tenha que sujar as mãos, Laís. Eu prefiro
sujá-las por você.

— É horrível sentir que não posso fazer nada, Marco. Se você não
tivesse chegado, a Donatella poderia ter me matado. — Eu suspirei e ele
assentiu com um movimento de cabeça.

— Eu odeio isso... — inspirou profundamente. —, mas você tem


razão. Vou treinar você.

— Obrigada. — Sorri, virando-me para beijá-lo por puro impulso,


mas Marco não me afastou, deixando que eu desfrutasse do sabor dos seus
lábios.

Antes de me casar, eu estava temendo aquele casamento, mas nos


braços do Marco, depois dele ter me tomado como sua mulher, eu não tinha
mais medo do que poderia aguardar desde que ele estivesse ao meu lado.
Capítulo Vinte e Seis

Dormi com Laís nos meus braços. Nem me lembrava da última vez
em que estive tão próximo de uma mulher assim e com barreiras abaixadas.
Eu não costumava ser o tipo de homem que deitava de conchinha e fazia
carinho. Trepava, fodia, gozava e ia embora depois de saciar a minha
vontade, mas com ela era diferente. Laís não estava ali só para saciar os meus
desejos carnais, de fato essa nem era a principal função dela, mas sim estar ao
meu lado como esposa do chefe da família. Isso poderia mudar tudo além do
inimaginável.

Levantei-me da cama, tirando-a do meu peito e pousando-a sobre os


travesseiros da forma mais gentil possível para não acordá-la. De pé, eu a
observei dormindo, como o anjo sereno que era. Parecia tão inocente e
indefesa, porém precisou ter muita coragem para fugir do casamento naquela
primeira vez como havia feito.

Ela podia ser meu anjo, minha inocência em meio ao mundo de


perversão que eu vivia. Não gostei de pensar na ideia de tê-la sujando as
mãos. Ela não precisava matar ninguém, pois eu estava ali para fazer isso por
ela. No entanto, compreendia muito bem todos os seus medos. Donatella era
insana e realmente poderia ter feito algo pior se eu não tivesse aparecido. Laís
tinha razão, ela precisava se proteger, gostando eu ou não.

Vi de relance no lençol a mancha de sangue e sêmen, o sinal claro de


que eu havia tirado a virgindade dela e depositado minha semente no seu
ventre. Foram dez anos de espera até que aquele momento chegasse. Eu não
estava desapontado, pelo contrário, havia desfrutado de cada gemido, de cada
som enfático da sua voz enquanto ela se retorcia sob mim, porém eu estava
preocupado. A garotinha que eu havia deixado em um convento para que
fosse cuidada por freiras até completar a maior idade, finalmente teria que
lidar com as escolhas que não foram feitas por ela.

Queria pensar que o seu único problema seria abrir as pernas para
mim quando eu estivesse a fim de tomá-la, que graças ao fato de ser linda não
seriam poucas vezes. As preocupações eram maiores e envolviam todos os
inimigos que ela ganhava ao ser a esposa do chefe. Um homem precisava de
uma família, mas também acabava ganhando um ponto fraco.

Se os caminhos que a minha vida tomou haviam me transformado em


um demônio, Laís seria o meu anjo, e eu seria capaz de transformar a Terra
num inferno se tentassem machucá-la outra vez.

Fui até o meu closet pegar roupas limpas para vestir e quando voltei
para o quarto, abotoando a minha camisa, a vi se sentar na cama, puxando o
lençol para esconder o corpo. Ainda iria levar um tempo para que se
acostumasse a ficar nua na minha frente, mas o que eu poderia esperar de
uma garota que crescera em um convento?

— Bom dia! — Abri um sorriso para ela.

— Bom dia. — Ela retribuiu com um sorriso que iluminou todo o seu
rosto e deixou seus olhos castanhos ainda mais iluminados.

— Como você está? — Sentei na cama mais perto dela e estendi a


mão para tocar a sua face. Apesar da evidente vergonha, ela não recuou.

— Bem.

— Ainda dói? — Coloquei a outra mão sobre a sua coxa, protegida


apenas pelo fino lençol.

— Não mais.

— Isso é ótimo.

— Eu... você...

— O que foi? — insisti para que continuasse a falar.

— Nós agora...

— Se vamos transar, agora, de novo? — Perguntei, achando graça da


dificuldade dela em falar. Balançou a cabeça em afirmativa e escondeu o
rosto corado com o lençol.

— Admito que eu gostaria de passar o dia com você nessa cama, mas
tenho trabalho a fazer.

— Não pode me levar junto?

— É melhor não.
— Tudo bem.

— Fique aqui. Descanse mais, dormimos pouco na noite passada. Vou


pedir que a minha mãe traga roupas para você se vestir e que peça a uma das
empregadas para trocar os lençóis. Se precisar de alguma coisa, fale com a
minha mãe que ela irá providenciar para você. — Curvei-me para cima dela e
toquei seus lábios de uma forma muito mais serena do que os beijos que
trocamos durante o sexo.

Quando me afastei, ela ainda estava de olhos fechados e tive certeza


de que sua entrega para mim era profunda. Depois da fuga, eu finalmente
parecia estar domando-a. Meu pai era do tipo que esmagava seus inimigos,
mas a minha mãe também havia me ensinado lições muito preciosas. Era
possível cativar as pessoas e fazer com que elas lhe fossem fiéis com um
pouco de carinho. Meus pais gostavam muito de livros com a palavra
príncipe no título, mas O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, e O Pequeno
Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, tinham filosofias muito distintas
sobre como deveríamos levar a vida.

— Voltarei a vê-lo hoje?

— Vai, sim.

— Que bom. — Voltou a sorrir de um jeito tão doce que me


contagiava.

— Dependendo do horário que eu voltar, posso ensiná-la algumas


coisas.
— Iria ser perfeito.

— Ótimo. — Beijei-a na testa e peguei um blazer, que estava sobre


uma poltrona, antes de deixar o meu quarto.

Fechei a porta e desci para a sala de jantar. Cheguei ao cômodo para


tomar café da manhã e me deparei com os meus irmãos sendo servidos por
uma empregada.

— Onde está a mamãe? — Puxei a cadeira no topo da mesa e me


sentei.

— Ela saiu mais cedo com alguns soldados. Queria comprar algumas
coisas no centro, mas não dei muita importância para o quê — respondeu
Mateo, puxando um cacho de uva para o seu prato.

— Não quero que a mamãe fique circulando por aí. É muito perigoso
— disse em um tom sério e enérgico.

— Como se nós não tivéssemos falado com ela. — Theo deu de


ombros ao passar manteiga em uma torrada. — Certamente somos cabeças-
duras por causa dela.

— Ela vai ficar bem — garantiu Mateo, mas eu não tinha qualquer
certeza disso.

— Por falar em bem... — Theo deu uma risadinha. — Como está a


sua esposa?
— Bem. — Foi a minha vez de dar de ombros.

— Você foi gentil com ela ou agiu como um louco esfomeado?


Afinal, dez anos de espera é muito tempo. Além do fato dela ter saído
correndo da primeira vez.

— Laís não é mais virgem, mas está bem.

Mateo gargalhou e empurrou meu braço cheio de gracejo.

Olhei para ele com uma expressão severa que fez com que se
encolhesse.

— Por que não arrumam suas próprias esposas, ao invés de se


preocuparem com a minha?

— Para que uma mulher no meu pé se eu posso ter várias sem dar
satisfação nenhuma a ninguém? — questionou Theo ao bebericar um copo de
suco de laranja.

— Somos a porra dos chefes da Itália, controlamos o país inteiro.


Quando quisermos uma mulher, iremos tê-la — disse Mateo cheio de
convicção, e eu tinha as minhas dúvidas.

Eu poderia ser chefe da maior organização criminosa da Itália, ainda


assim eu não escolhi a minha noiva por amor.

— Casamento é importante e envolve muito mais do que tesão.


Precisamos fazer dar certo. — Puxei uma garrafa de café e me servi uma
dose.

— Fazer dar certo? — Theo gargalhou. — Parece que você teve uma
noite muito boa.

Eu os ignorei, preocupando-me com o meu café da manhã.

— Temos um carregamento de armas para chegar no fim da tarde.


Elas entraram através do porto dos Barbosa e estão seguindo para cá em
caminhões de eletrodomésticos vindos da China. Precisamos pegar a
mercadoria para reforçar os nossos soldados. Mateo, certifique-se de que
tenha mais homens na casa. Não quero ser surpreendido novamente com
qualquer visita indesejada.

— Ainda está puto com o que a Donatella fez? — Theo franziu o


cenho.

— Queria ter matado aquela desgraçada. Ela merecia uma bala bem
no meio da testa pelo que fez a Laís. Como entra na minha casa e ameaça a
minha esposa desse jeito?

— Deveria ter matado. — Bufou Mateo.

— A desgraçada agora é a capo de uma família muito importante.


Milão é dos Rossi há séculos, mulher ou não, eles a respeitam e a seguirão. Ir
contra a Donatella é enfrentar os Rossi e estar disposto a colocar outra família
dominando o território de Milão — ponderou Theo, sensato.

— Foi por isso que não a mandei em um caixão de volta para casa
ontem, independente do tamanho da minha vontade. — Tomei um gole do
café, que desceu ardendo a minha garganta.

— O que tinha no caralho daquela boceta para você ter se envolvido


com aquela louca? — Theo colocou as duas mãos sobre a mesa e me encarou
com um olhar carregado de questionamentos.

— Donatella é uma das muitas merdas que cometi na vida. Acho que
nenhum de nós está isento de cometer erros desses — falei, pensativo. Não
queria divagar sobre o que eu já havia feito com e por causa daquela mulher,
mas quanto mais eu lutava contra as imagens, mais elas tomavam a minha
mente.

Eu caminhava pelo quarto enquanto a encarava amarrada na cama,


à mercê de todas as minhas vontades e disposta a ver o meu lado mais cruel.
Eu não tinha ideia do que eu era capaz de fazer com uma mulher até
começar a me envolver com Donatella. Embora eu fosse impiedoso com os
meus inimigos, fazia o máximo para não ferir inocentes, porém aquela
mulher não era inocente, mas também não era minha inimiga.

— Vem, Marco! — Ela gemeu com sua voz melodiosa. — Eu fui uma
menina muito má. Me pune. Eu mereço, você sabe.

Subi em cima da cama e passei as cordas do chicote pela extensão


das suas coxas antes de golpeá-las sem moderar a minha força, deixando um
vergão feito pelas cerdas.
Balancei a cabeça, fazendo o possível para afastar aquelas imagens.
Eu havia sido o pior carrasco com a Donatella, mas ela gostava disso, amava
principalmente quando o que ela incitava que eu fizesse na cama refletisse no
homem que eu era fora dela. Eu precisava ser firme, muitas vezes atirara sem
pensar. Já havia tirado mais vidas do que era capaz de contar, porém eu
também poderia ser político e resolver com conversas ou simples ameaças.
Entretanto, para o homem que eu tinha sido ao lado da Donatella, quanto
mais sangue, melhor.

— Marco, tudo bem? — Mateo chamou a minha atenção.

— Sim. — Voltei a bebericar o café, com mais cuidado dessa vez.

— Ficou encarando o nada.

— Estava concentrado, mas em nada importante. Mas vamos reforçar


a segurança aqui em casa e evitar um rastro de sangue daqui até Milão.

— Farei isso — Mateo garantiu.

— Obrigado.

— Ninguém quer a sua jovem e adorável esposa morta, irmão.

— Que bom que pensamos igual. — Levantei da mesa e ajeitei a arma


na minha cintura. — Eu vou acompanhar uma entrega de mercadoria em
Óstia. Quero que venha comigo, Mateo. Theo fica aqui e cuida da segurança
da casa.

— Vou encontrar vocês dois para a entrega das armas mais tarde? —
perguntou meu irmão do meio.

— Sim.

— Ótimo.

Saí da casa seguido por Mateo, meu irmão caçula, e entramos em um


carro sedan discreto, juntamente com três de nossos soldados. Outros nos
acompanhavam em uma vã e em dois outros carros. Esses geralmente
aguardariam por perto, sem se mostrar, mas eu sabia que a situação sempre
poderia sair do controle, principalmente quando eu tinha que cobrar pelo
produto.

Desde quando nasci fui preparado para aquele momento, porém não
significava que não seria um desafio diário. A polícia em si era um dos
nossos menores problemas. Percebi com pouco tempo que precisava ser um
excelente gestor de recursos, tinha que controlar pessoas, resolver crises e
lidar com o ego dos políticos da comuna e dos clérigos do Vaticano. Percebi
também que todos tinham um preço, alguns mais caros do que outros, mas
todos se corrompiam com os estímulos certos.

Como líder, eu tinha que estar sempre no controle das coisas.


Capítulo Vinte e Sete

— Senhora. — Uma das empregadas bateu na porta do quarto,


enquanto eu ainda estava envolta em um lençol e parcialmente dormindo na
cama que tinha tanto do cheiro do Marco.

Meu marido... Aquelas duas palavras ecoavam na minha mente e


pareciam possuir tanto significado!

Eu era dele e sentia que ele também poderia ser meu. Fechei os olhos
mais uma vez e me recordei dos seus lábios nos meus e toda as sensações que
eu havia experimentado na noite passada.

— Senhora? — A empregada insistiu.

— Desculpe-me, pode entrar. — Ajeitei-me na cama, cobrindo o meu


corpo da melhor forma possível, mas fiquei envergonhada quando enxerguei
as peças que eu vestia na noite anterior espalhadas pelo quarto.

Estendi a mão e puxei a minha calcinha, que o Marco havia colocado


sobre o móvel de cabeceira.

A criada olhou para mim e riu discretamente, mas não fez qualquer
comentário.

— O senhor Bellucci me pediu para trazer roupas limpas para a


senhora e trocar a roupa de cama.
— Obrigada, pode deixar ali. — Apontei para uma mesinha redonda
que ficava perto da janela, que era coberta por uma bela cortina de cor creme.

— Sim, senhora. — A mulher assentiu e colocou a pilha que


carregava no local que eu havia indicado e fechou a porta.

Levantei-me rapidamente e girei a chave para me trancar sozinha do


lado de dentro. Quando tive certeza de que ninguém mais entraria, deixei o
lençol cair e examinei o meu corpo rapidamente. Ele parecia exatamente o
mesmo, a única lembrança visível da noite passada era o pouco de sangue
seco no interior das minhas coxas, bem próximo a minha intimidade.

Ri sozinha ao pensar nos temores que eu havia aprendido no convento


e carregara comigo até pouco antes de ser tomada pelo Marco. Certamente
não fora terrível como elas falavam. Tinha certeza de que, com um pouco
mais de prática, eu poderia vir a gostar muito de compartilhar a cama com o
meu marido.

Luxúria... O pecado tão terrível poderia me proporcionar uma das


melhores sensações.

Fui até a mesa redonda e peguei as roupas limpas que estavam ali para
que eu as colocasse. Era uma calça com tecido macio e uma blusa branca de
aparência confortável, juntamente com um conjunto de roupas íntimas.

Tomei a liberdade de ir até o banheiro do quarto e me lavar.

Quando deixei o cômodo para que a empregada pudesse limpá-lo,


procurei pelo Marco por alguns instantes, mas logo me recordei de que ele
não estaria em casa, pois havia me avisado que sairia. Assuntos da máfia, eu
tinha certeza. Era melhor eu não perguntar.

Lembrei-me da conversa que tive com a mãe dele pouco antes do


casamento, em que me disse que o importante era o homem que Marco fosse
comigo e não com as outras pessoas. Assim nossa união poderia funcionar, e
eu queria que funcionasse.

— Laís, querida! — Vi Rosimeire aparecer no corredor carregando


algumas sacolas, seguida de um homem que carregava muitas outras.

— O que é tudo isso? São roupas?

— Não, são livros.

— Nossa! Sua biblioteca vai ganhar muitos novos títulos.

— Não é para mim.

— Para quem é?

— Eu nasci na máfia, meu pai era um dos capi do Lorenzo, e aprendi


muito desde cedo. Imagino que para você tenha sido um pouco diferente,
porque você saiu do convívio da sua família quando criança. Mas saiba que
nesse mundo tem muito luxo, mas também tem a parte mais pobre. Os
negócios da minha família predominavam em uma região muito carente da
cidade e vi pessoas, principalmente crianças, passando inúmeras dificuldades.
Eles estão preocupados em sobreviver e o acesso ao conhecimento é
praticamente escasso. Depois que me casei com o Lorenzo, eu fiz um acordo
com ele. Poderia ir a região uma vez por ano e distribuir livros entre as
crianças. Faço isso há quase quarenta anos.

— É uma atitude incrível e muito nobre da sua parte.

— Apenas uma gotinha no oceano.

— Mas o oceano é feito de muitas gotas como essa. — Sorri. — Eu


posso ir junto quando você for doar os livros?

Ela me encarou por alguns minutos, parecia estar ponderando o que


responder para mim, pois abriu a boca várias vezes e custou a dizer alguma
coisa.

— Vou conversar com o Marco e pedir a ele.

— Muito obrigada! Vai ser ótimo poder conhecer um pouco da cidade


e fazer algo bom com o meu tempo.

— Coloque na biblioteca. — Ela entregou as sacolas que carregava ao


soldado, que assentiu com um movimento de cabeça.

Depois que o homem continuou o caminho pelo corredor, Rosimeire


segurou o meu braço e afagou o meu rosto. Mantive o sorriso mesmo sem
saber o motivo pelo qual ela me encarava daquela forma. Estava ficando
envergonhada, mas tentei disfarçar.

— Por falar no meu filho, você está bem?


— Por que não estaria? — Coloquei uma mecha do cabelo atrás da
orelha e virei o rosto, disfarçando.

— Vocês se casaram ontem e tiveram a primeira noite como marido e


mulher. A primeira vez sempre é dolorosa.

— Ele foi cuidadoso — disse a primeira coisa que me passou pela


cabeça, sem saber como conversar sobre esse assunto com a minha sogra.

— Foi mesmo?

Balancei a cabeça em afirmativa e ela suspirou profundamente,


parecendo aliviada.

— Que bom!

— Estou seguindo o seu conselho e considerando o homem que ele é


apenas comigo, sem me preocupar com o que ouvi de outras pessoas ou com
os boatos.

— É uma ótima decisão a se tomar. Querer que o casamento funcione


é um passo importante para que ele funcione de verdade. Eu sei que o meu
filho pode não ser uma das pessoas mais fáceis de se lidar, porém o primeiro
passo é você querer.

— Eu quero. — Balancei a cabeça.

Fugi daquele casamento por medo de um homem que eu não conhecia


e sempre era mostrado para mim com a sua pior face possível. Para os outros,
Marco era o temido chefe da máfia, o homem que controlava o crime por
toda a Itália, mas para mim, quanto mais tempo passava perto dele, podia vê-
lo simplesmente como meu marido.

Minha barriga roncou e eu encolhi, envergonhada.

Rosimeire gargalhou.

— Desculpa.

— Você ainda não comeu nada, não é?

Fiz que não.

— Vamos ver se a mesa do café ainda está posta, caso contrário vou
levá-la até a cozinha para comer alguma coisa.

— Muito obrigada.

— Vem! — Ela me deu o braço e seguimos juntas para a sala de


jantar, com uma enorme mesa e espaço suficiente para uma família grande.

Assim que chegamos na porta, cruzamos com Theo, um dos irmãos


do Marco.

— Bom dia, mãe. — Ele se curvou para beijá-la no rosto. — Bom dia,
cunhada.

— Bom dia, querido.

— Onde você estava hoje de manhã? Os homens falaram que você


saiu e o Marco não ficou nada contente com isso.

— Marco se preocupa demais. — Ela fez bico.

— Depois do que aconteceu com a Laís ontem, ele está em alerta. Me


pediu para aumentar a segurança na mansão. Vou atrás de alguns homens
para transformar esse lugar em uma fortaleza.

— O que aconteceu com a Laís ontem? — Rosimeire ficou pálida e


girou nos calcanhares para olhar para mim.

Eu engoli em seco e coloquei a mão no pescoço, cobrindo o pequeno


ferimento que estava ali. Era uma linha fina que já havia dado casca, mas me
lembrava do quão perto Donatella havia estado de me matar.

— É... Eu... É que...

— Donatella entrou no quarto dela e quase a matou ontem.

— Santo pai! — Rosimeire levou a mão aos cabelos castanhos e a sua


expressão de espanto e choque se tornou ainda mais evidente. — O que ela
fez?

— O Marco chegou antes.

— Aquela desgraçada! — Bufou. — Achei que depois do casamento


a veria longe do meu filho, mas a cobra criada não larga o osso.

— Donatella está furiosa com a ideia do meu irmão ter se casado com
outra mulher que não ela. Essa cobra é perigosa, principalmente devido a
força que tem em Milão depois de ter assumido os negócios do pai. Uma das
piores escolhas que o Marco fez foi ter aceitado o fato dela ter se tornado
capo e não um dos primos.

— Theo, vá resolver isso com os homens.

— Sim, mãe. Vocês duas fiquem bem aqui até eu voltar, e não
autorizem a entrada de ninguém na mansão.

— Tudo bem. — Assentiu Rosi.

— Já volto, mãe. — Ele a beijou no topo da cabeça antes de seguir


andando até desaparecer no fim do corredor.

— Vamos, você precisa comer. — Rosimeire me segurou pelos


braços e me empurrou para dentro da sala de jantar até que eu me sentasse
diante da mesa posta.

— Achei que, depois do meu casamento com o Marco, eu seria


intocada.

— Em teoria, é assim que funciona. Nenhum dos capi ousaria desafiar


o chefe tocando em um fio de cabelo seu, porém existem loucos assim como
a Donatella, que não se importam em atrair uma guerra para sua porta.

— Eu não estou segura, não é? — Tentei parecer firme, por mais que
estivesse apavorada por dentro.

— Querida, — Rosi tocou o meu rosto e me afagou de forma


carinhosa, quase maternal —, Marco é o seu marido. É dever dele cuidar de
você, e ele vai protegê-la, não precisa se preocupar.

— Ela botou uma faca no meu pescoço ontem. — Engoli em seco ao


deixar que a minha sogra notasse o machucado.

— Céus! Mas você está bem, não está?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Marco deve estar furioso.

— A forma como ele tirou ela do quarto não foi nada amistosa.
Queria que ele pudesse matá-la. — Cobri a boca, espantada com o que havia
acabado de falar. Se uma das irmãs estivesse ao meu lado, me daria um dos
piores castigos por eu ter desejado a morte de alguém, mesmo sendo a de
uma pessoa que havia tentado me matar.

Rosimeire gargalhou diante da minha reação.

— Não se preocupe, Laís. Você não é a única que quer a Donatella


morta.

— A vida aqui fora funciona de um jeito muito diferente de como era


dentro do convento.

— No convento, você não tinha ideia de como era a vida real, mas vai
aprender em pouco tempo.

— Obrigada por toda a sua ajuda.


— Eu não tive filhas. De certa forma eu sou grata, pois o mundo que
vivemos é muito mais difícil quando se nasce com o nosso sexo. A sociedade
pode já ser muito liberal para diversos assuntos, mas a máfia ainda é muito
machista. Admito ser admirável que a Donatella esteja na posição que tem
hoje, talvez só tenha conseguido por ser tão louca. Apesar de tudo, sempre
ansiei pelo casamento dos meus filhos, para ter mulheres e crianças nessa
casa. Boa parte da minha alegria se foi com a morte do Lorenzo e, às vezes,
eu fico sem ter o que fazer, principalmente com os meus filhos
superprotetores. Eles não querem me ver metida em nada que possa colocar a
minha vida em risco. Nos últimos anos, a biblioteca foi a minha maior
distração.

— Ela é incrível. — Sorri.

— Sim, mas estou muito contente de ter você aqui. — Abraçou-me e


me deu um beijo na testa.

— Eu estou sendo tão bem acolhida que fico me perguntando por que
fugi. — Abracei a mim mesma, envergonhada.

— Não menospreze seu próprio medo. Ele existe para fazer com que
sobrevivamos.

— Muitas pessoas pagaram o preço pela escolha precipitada que eu


tomei. — Abaixei o olhar, fitando o chão. — Eu me arrependo muito do que
fiz pelo o que aconteceu com todos, principalmente com Antonella.

— Ela sabia os riscos e era o trabalho dela ficar de olho em você. Não
deve ficar se martirizando por isso, principalmente porque, às vezes, soldados
dão a vida para nos proteger.

Esfreguei a minha mão que suava frio na lateral da calça, mas não
disse mais nada. Rosimeire ainda me ensinaria muitas lições ao longo da
minha vida sobre como ser a mulher do chefe, porém, para aquele dia, já era
o bastante para absorver.

— Coma, você precisa se alimentar.

— Obrigada. — Peguei alguns morangos e outras frutas vermelhas,


jogando-as em uma pequena travessa com iogurte.

Minha sogra ficou ao meu lado enquanto eu comia, depois fomos para
a biblioteca para que ela me mostrasse os livros, em sua maioria infantis, que
ela havia comprado para as crianças da comunidade onde havia crescido.

Rosimeire estava muito bem adaptada àquele mundo e eu esperava


chegar nessa mesma posição. Seria estável, como a mulher do chefe deveria
se portar, e faria com que Marco se orgulhasse de me ter ao seu lado.

— Quantos livros você tem aqui? — Olhei em volta, ficando nas


pontas dos pés enquanto girava sobre o chão carpetado da biblioteca.

— Milhares. — Minha sogra suspirou escorada no braço do sofá. —


Foi o meu maior capricho ao longo dos anos. Tenho peças de valor
inestimável da história de todo o mundo.

— Parece muito espetacular. — Fui até uma das estantes e corri os


dedos pelas lombadas de uma prateleira em uma estante alta de madeira.

— E é.

— Rosi? — Sentei-me ao lado dela com um certo embaraço no


estômago.

— O que foi, querida? — Colocou a mão sobre o meu ombro e o


acariciou gentilmente.

— Eu posso ligar para a minha mãe?

— Decidiu falar com ela?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Percebi que ela não tinha o poder de decidir se eu ficava ou vinha


para Roma com o Marco. Ela podia estar sendo sincera quando disse que
sentia a minha falta.

— Eu acredito que estava.

— Então, quero falar com ela.

— Vamos até a sala. Vou dar um jeito de ligar para alguns contatos e
conseguir o número dela.

— Muito obrigada. Nunca vou conseguir agradecer tudo o que está


fazendo por mim.

— É como uma filha para mim agora, Laís. Lembre-se disso.


— Sou muito grata.

Rosimeire me abraçou e ficamos assim por alguns minutos até que ela
me guiou para a sala. Sentei na poltrona enquanto minha sogra fazia algumas
ligações. Seus filhos eram muito poderosos e seu marido foi um homem
temido, mas eu não duvidava que ela tivesse a própria força. Em poucos dias
eu havia percebido que era praticamente impossível sobreviver àquele mundo
sem se equiparar aos leões.

— Sim, quero falar diretamente com Madalena Barbosa. Quem sou


eu? Sou Rosimeire Bellucci... Exatamente, a mãe do Marco Bellucci. Ótimo,
vou esperar.

Fiquei aguardando ao lado enquanto ela conversava com alguém do


outro lado da linha que não parecia ser a minha mãe.

De repente meu estômago revirou. Parecia uma decisão muito simples


querer falar com ela, porém, aproximando-me daquele momento, fiquei com
medo das lembranças que poderiam ou não ser invocadas durante a conversa.
Não era mais a garotinha que deixou Portugal há uma década e não podia
imaginar o que ela esperaria de mim. Durante o casamento, eu mal tinha a
visto e não sabia se ela, meu pai e meu irmão ainda estavam na Itália.

— Madalena, sua filha quer falar com você. Vou passar para ela.

Prendi a respiração. Fiquei com medo e não sabia se havia tomado a


decisão certa.
Rosi entregou o celular para mim e eu o aproximei da orelha.
Consegui ouvir uma respiração enfática do outro lado da linha. Será que ela
estava tão nervosa quanto eu?

— Laís?

— Madalena?

— Filha, sou eu! Estou tão feliz que você tenha me ligado. Chegamos
em Portugal pela manhã, se eu soubesse que você queria falar comigo, teria
dado um jeito de passar mais tempo em Roma.

— Pelo telefone está bom. — Era mais fácil quebrar o gelo daquela
forma. Imaginava que pudesse ficar ainda mais sem jeito e desconfortável se
estivéssemos cara a cara. Ela era a minha mãe, mas se passaram dez anos sem
nenhum contato e eu não sabia quais laços ainda existiam e quais poderiam
ser recuperados com o passar do tempo.

— Você está bem? — perguntou, tentando quebrar o gelo.

— Sim.

— Como está o casamento?

— Estou me acostumando.

— Sinto muito por você ter sido colocada na cama de um estranho,


um criminoso, um homem muitos anos mais velho do que você. Deus sabe
que se fosse uma escolha minha, isso não teria acontecido. Fiquei tão
desesperada quando soube que você tinha fugido, tive medo de que ele a
matasse.

— Estou bem.

— Tem certeza? Você foi bem recebida?

— Fui.

— O seu marido...

— Eu gosto do Marco — falei sem pensar muito, e não sabia se a


palavra gostar era a certa para ser dita naquele momento, porém eu me sentia
bem diante da presença dele desde que meu marido havia ido atrás de mim
em Milão. No momento em que desmaiei nos seus braços, era como se
soubesse que ele iria me proteger.

— Gosta?

— Ele é gentil comigo, faz com que eu me sinta segura.

— Isso é ótimo! Fico muito contente em ouvi-la dizer isso. Fiquei tão
preocupada que ele fosse um monstro com você. Homens como ele não são
nada fáceis de lidar.

Imaginei que ela estivesse se referindo ao meu pai, mas preferi não
perguntar. Levaria um tempo para que eu aprendesse sobre o que e como eu
deveria conversar com ela.

— Eu vou desligar agora...


— Laís!?

— Sim?

— Eu vou poder ligar para você em outros momentos?

Fiquei em silêncio, segurando o celular junto a orelha e pensei por


alguns minutos.

— Eu não sei.

— Você não tem um celular?

— Não tenho celular.

— Posso pedir para comprar um para você — Rosi se intrometeu na


conversa.

— Eu ficaria grata. — Sorri para a minha sogra.

— Vai ser perfeito se você tiver o seu próprio celular — disse a


minha mãe do outro lado da linha. — Tem papel e caneta?

— Eu não sei... — Vasculhei a sala com os olhos até que encontrei


uma e um bloco de anotações sobre uma pequena mesa onde ficava o telefone
fixo. — Pode falar.

Madalena recitou os números e eu repeti para ter certeza que havia


anotado certo.

— Sei que não pude fazer muita coisa por você, filha, mas saiba que
eu estarei aqui por você. Nem que seja para ouvi-la.

— Obrigada e até mais.

— Até mais, filha.

Desliguei a chamada e devolvi o aparelho para a minha sogra.

— Foi bom ter conversado com a sua mãe? — Ela me encarou


analiticamente, tentando detectar alguma coisa através do meu olhar.

Antonella costumava dizer que eu era um livro aberto, porém como


alguém poderia saber algo que nem eu tinha certeza?

— Acho que me fez bem, mas ainda vou ter que me acostumar com a
presença dela outra vez.

— Vai ser só uma questão de tempo com vocês conversando mais.


Podemos olhar um telefone para você na internet. Tenho certeza que o Marco
poderá providenciar um cartão de crédito para que você possa fazer compras.

— Não quero perturbá-lo com isso.

— Querida, certamente isso não é perturbação nenhuma. Ser esposa


do Marco tem suas limitações, mas também tem suas vantagens.

— Ela já casou, mãe. Não precisa ficar fazendo propaganda do Marco


para ela. — Riu Mateo e eu me virei no sentido da voz do irmão caçula e vi
os três entrarem na sala quase em fila indiana.
Marco era o último e parecia escondido atrás dos irmãos. Ele não me
olhou diretamente até que eu o encarei, mas nossos olhos se encontraram por
apenas uma fração de segundos antes que ele virasse o rosto.

Theo acabou dando um passo para o lado e deixou que eu visse o meu
marido melhor. O blazer que ele usava era escuro, mas eu pude ver a parte
exposta da camisa completamente suja de vermelho.

— Marco! — Corri até ele sem pensar duas vezes. — O que


aconteceu?

— Laís, sai de perto de mim! — rosnou num tom mais frio do que
nunca.

Arregalei os olhos, surpresa com a sua reação, mas não consegui


raciocinar direito, pois era tanto sangue na sua roupa que me deixou
desesperada. Era incapaz de prever o quanto me preocupava com ele até
aquele momento. Tinha tanto sangue...

— Você está machucado? — Tentei abraçá-lo, mas Marco me


empurrou para trás, fazendo com que eu cambaleasse alguns passos e só
parasse ao ser amparada pelas costas do sofá.

De olhos arregalados eu o encarei, confusa. Era sua esposa e achava


que fosse um dos meus papéis me preocupar com ele.

— Ele está bem. — Foi Theo quem me respondeu.

— Esse sangue não é meu — disse Marco distante. — Não queria que
me visse desse jeito.

Eu não falei mais nada ou fiz qualquer pergunta. Se aquele sangue


todo não era dele, isso me bastava. Aquela era uma das muitas situações que
era melhor não saber o que havia acontecido. Marco poderia não ser um
monstro para mim e teria que me esforçar para não vê-lo dessa forma.

— Vou tomar um banho. — Ele passou por nós e seguiu escada


acima.

— Você está bem, querida? — Rosimeire veio para perto de mim e


segurou a minha mão.

Balancei a cabeça em afirmativa e continuei encarando a escada por


onde meu marido já havia desaparecido.
Capítulo Vinte e Oito

Abri o registro do chuveiro e deixei que a água quente escorresse pelo


meu corpo e lavasse o sangue que havia manchado meu peito e braços.
Geralmente a situação não fugia do controle. Era para ser uma simples
entrega de armas, porém em alguns momentos enfrentávamos imprevistos.

Na posição em que estávamos, inimigos eram comuns, não apenas a


polícia, mas outras facções criminosas. Em sua maioria, não eram loucos o
suficiente para nos enfrentar de frente, mas, em outras, aproveitavam pistas e
brechas para tentar nos encurralar.

Estávamos perto do porto de Fiumicino, para pegar a mercadoria que


haviam chegado através do Mar Mediterrâneo, quando fomos surpreendidos
por membros de outra organização que acreditavam que poderiam nos roubar.
Em meio ao tiroteio, um dos meus homens foi abatido tentando me proteger e
usei seu corpo como escudo para passar pela chuva de tiros e ir para perto dos
meus irmãos e outros soldados. Devido a isso, o sangue acabou indo parar na
minha roupa.

Estava irritado pela situação ter saído do controle, mas mais ainda por
ter deixado que a Laís me visse daquela forma.

Abaixei a cabeça e deixei que a água caísse pelos meus cabelos e


rosto.
— Fico contente que você esteja bem.

Virei-me e a vi parada na porta do banheiro. De braços cruzados,


estava escorada no batente da porta e me encarava analiticamente.

— Está mesmo contente? — Virei-me para ela e passei a mão pelos


cabelos, jogando-os para trás e tirando a cabeça debaixo do chuveiro.

Laís corou levemente ao me ver completamente nu, mas se esforçou


para não deixar transparecer o embaraço. Era o único homem que ela havia
visto pelado e ansiava para que a situação continuasse assim.

— Por que não estaria?

— Sem marido, não tem casamento.

— Não tenho mais medo do matrimônio. — Sorriu para mim e eu


retribui.

— Isso me deixa feliz. — Estendi as mãos para ela. — Vem aqui.

Laís não questionou o fato de o chuveiro ainda estar aberto, apenas


tirou os sapatos antes de segurar as minhas mãos. Puxei-a para perto de mim
com roupa e tudo, deixando que a sua blusa branca molhasse e se tornasse
completamente transparente, mas, infelizmente, o sutiã de bojo não me
permitiu ver muita coisa.

— Vou cuidar de você e de todos aqui nessa casa. — Segurei o seu


rosto e acariciei a sua bochecha com o polegar.
— Já fico contente se você cuidar de si mesmo. — Levou as mãos ao
meu peito, onde há pouco estava acumulado a maior quantidade de sangue.

— Tenho você para cuidar — disse num tom brincalhão ao erguer seu
queixo e fazer com que ela me encarasse.

Laís sorriu para mim de forma amistosa e eu sorri para ela de volta.
Puxei seu rosto até o meu e a beijei gentilmente, enquanto a água ainda caía
sobre nós. O toque começou calmo, sereno e numa troca gentil de carícias,
mas quando afundei a minha língua na sua boca, lembrei-a de que não era um
homem tão delicado assim e a pressionei contra a parede azulejada do box.

Laís suspirou contra mim enquanto minhas mãos escorregavam pela


lateral do seu corpo e alcançavam as suas nádegas protegidas pela calça
molhada.

Nem me dei ao trabalho de fechar a porta do banheiro enquanto,


habilmente, abria os botões da camisa branca dela. Logo a peça ensopada
caiu no chão e minhas mãos envolveram seus seios sobre o sutiã, que não
eram grandes demais, mas também não eram pequenos, tinham tamanho
suficiente para encher as minhas mãos.

A minha doce e delicada mulher era muito inocente, mas desejável na


mesma proporção. Era linda como um anjo, fazendo com que não fosse
nenhum sacrifício cumprir meus deveres como marido com ela. Eu a desejava
muito, e saber que era minha inflava o meu ego.

Abri o zíper da sua calça e a puxei para o chão. Laís segurou os meus
ombros e moveu sua cabeça para que os lábios encontrassem os meus
novamente. Ela poderia ter apenas uma noite de experiência, mas já sabia
exatamente o que eu queria com ela. Depois de quase ter morrido naquela
tarde, iria ser bom relaxar nos braços da minha adorável esposa.

Minha língua procurava a sua com cada vez mais fome, o beijo era
ardente e ela era um mel doce com o qual queria me esbanjar. Mordisquei seu
lábio inferior e a fiz gemer em meio ao baile de línguas enquanto subia com
as mãos pelas suas costas à procura do fecho do seu sutiã. Eu estava bem
colado nela e esfregava a minha ereção firme e pulsante na sua vagina,
protegida pela fina camada de tecido da calcinha.

Suas mãos delicadas subiam pelos meus ombros, pescoço e nuca, até
se embrenhar no meu cabelo, puxando os meus fios e fazendo com que a
minha boca continuasse na sua.

Assim que me livrei do sutiã, pendurando-o no registo do chuveiro, eu


escorreguei a calcinha por suas pernas longas e torneadas, e fiz o mesmo.
Logo ela estava nua, assim como eu. Desci com a boca e mordisquei a
saborosa pele da sua garganta, fazendo com que Laís tombasse a cabeça para
trás e gemesse baixinho.

Meu pau pulsava. Estava doido para meter nela e até tentei ter um
pouco de paciência, saboreá-la um pouco mais, porém deixei para fazer isso
em outro momento. Queria sentir o seu canal e a fricção do meu corpo no
seu.
Peguei a sua perna direita e a coloquei ao redor da minha cintura. Laís
era mais baixa do que eu, mas não muito, o que facilitava o sexo de pé.
Segurei o seu quadril com uma das mãos e com a outra encaixei o meu pau
na sua entrada.

Ela gemeu e cravou as unhas nos meus ombros.

— Ainda dói? – perguntei, preocupado.

— Um pouco.

— E assim? — Com uma mão ainda firme na sua cintura, levei a


outra até o seu clitóris e o pressionei com o dedo, fazendo movimentos
circulares.

Laís soltou um gemido mais longo e abafado ao rebolar comigo


dentro dela, apoiando contra a parede azulejada.

— Assim é bom — admitiu baixinho.

Sorri ao começar a me mover no seu canal. Minhas estocadas eram


lentas e demoradas, deixando que ela se acostumasse com o meu vai e vem,
mas eu desfrutava deliciosamente da pressão que o seu canal fazia no meu
membro.

Subi com a mão que estava em sua cintura e envolvi o seu seio,
apertando e pressionando o mamilo com o polegar. Voltei a provar do mel
dos seus lábios e ia aumentado o ritmo das minhas investidas para dentro
dela, gradualmente.
— Ah! Marco... — gemia Laís no meu ouvido, e meu dedo agitava
ainda mais sobre seu clitóris. As contrações da sua vagina no meu pau se
intensificando me mostravam que ela também estava sentindo prazer. Eu
preferia que fosse assim. Não queria que apenas eu gostasse do ato, porque se
fosse algo que partisse de ambos, a chance de fazermos mais vezes,
consequentemente, seria maior.

Fechei o registro do chuveiro e a peguei, ainda molhada, e fui para o


quarto. Fiquei alguns momentos fora dela, mas os protestos de nossos copos
se findaram quando eu me sentei na cama e a acomodei no meu colo, fazendo
com que ela rebolasse em mim, ditando seu próprio ritmo.

Segurei sua cintura com as duas mãos e a ajudei a quicar em mim


com mais afinco. Desfrutei a visão dos seus seios balançando e seus olhos
revirando de prazer, e até me esqueci do dia de merda que havia tido. Eu
amava a minha mãe, mas ter uma esposa se mostrava um motivo ainda mais
forte para voltar para casa todos os dias.

Subi com a mão pela sua nuca e reclamei o direito aos seus lábios. Em
meio a tantos gemidos, era difícil permanecer nos beijando, mas me esforcei
para que ela continuasse.

Não consegui me conter por muito mais tempo e me derramei nela,


ejaculando no seu ventre enquanto Laís ainda rebolava em mim.

Fiquei ofegante e com a respiração descompassada por alguns


minutos, mas assim que recuperei o meu fôlego, voltei a estimular o seu
clitóris e logo seus gemidos agudos e o peito subindo o descendo em frenesi
indicavam que ela havia se juntado a mim.

Laís tombou a cabeça, encostando a sua testa na minha e sorriu ao


colocar as mãos sobre os meus ombros.

— Parece que fica melhor com o tempo.

— Vai ficar muito melhor quando você se acostumar. — Segurei o


seu rosto e a beijei.

— Deve ser por isso que chamam de pecado. — Ela riu.

— Eu sou um grande pecador.

— Quero pecar com você.

— Pode ter certeza que ainda farei com que você peque muito. —
Examinei o rosto dela em uma breve vistoria com o olhar.

Sorriu, com as bochechas coradas de um jeito que a deixava ainda


mais bonita.

Tirei os fios de cabelo que haviam grudado no seu rosto suado e a


encarei, antes de beijá-la mais uma vez e pegá-la no colo novamente.

— O que está fazendo?

— Agora é você quem precisa de um banho. — Coloquei-a de pé no


meio do box.
— É verdade. — Laís escondeu o rosto, envergonhada quando viu
meu sêmen escorrer por entre as suas coxas.

— Faz parte. — Ri ao ligar o chuveiro outra vez.

Dei banho nela e, quando ambos já estávamos vestidos, saí da suíte.

— Marco! — Ouvi meu nome e vi a porta do quarto do Theo aberta.

Fui para perto dele e parei ao lado da poltrona onde ele estava
sentado. Cruzei os braços e o encarei com o olhar baixo.

— O que foi?

— Parece que você e a Laís se resolveram bem rápido — debochou.


Pelo risinho no rosto dele, meu irmão do meio deveria ter ouvido o sexo que
eu havia acabado de fazer.

— Ela só estava com medo.

— E você resolveu tudo se cravando dentro dela?

— Ela é minha esposa. Esposas se preocupam. — Desviei o assunto.


Nunca tive problemas em conversar com os meus irmãos sobre as mulheres
com quem eu trepava. Contudo, senti ciúmes e não quis falar sobre o que
tinha acontecido, pois não queria que ele sequer imaginasse a Laís nua.

— Não pensei que você fosse ficar assim.

— Assim como? — Franzi o cenho.


— Tão casado. — Ele riu.

— Esse casamento é muito importante para todos nós. É o meu dever


fazer com que ele funcione.

— Isso não tem nada a ver com o fato dela ser linda?

— Contribui.

Theo gargalhou e eu dei de ombros.

Saí do quarto do meu irmão, enquanto os votos que eu havia feito


durante o casamento ecoavam na minha cabeça.

Aceito você, Laís, para ser minha esposa, para ter e manter deste dia
em diante, para melhor, para pior, na riqueza e na pobreza, na saúde e na
doença, para amar e respeitar, até que a morte nos separe.

Eu havia prometido, diante de Deus e, principalmente, diante dela e


de todos os nossos entes, que eu a amaria, respeitaria e protegeria. A escolha
de Laís como minha esposa poderia não ter sido feita por algum ato de paixão
avassaladora, mas eu havia decidido com a minha honra e aceitei tê-la. De
certa forma, achava que precisava ser grato, pois as circunstâncias do meu
casamento e a minha esposa poderiam ser bem piores.

Independente do que eu gostasse, achasse justo ou não, a Itália era o


centro da igreja católica no mundo e esses costumes refletiam sobre mim e
sobre todos os homens que eu regia. Se quisesse que me seguissem, eu
precisava respeitar esses costumes, honrando a minha esposa.
A preocupação que Laís demonstrou comigo mais cedo, me fez
perceber que ela também estava disposta a fazer com que o casamento
funcionasse, apesar de ter fugido da primeira vez. Isso me deixava aliviado.

— Será que o jantar já está pronto?

Surpreendi-me ao vê-la atrás de mim.

— Acho que sim. Está tarde. Por que não vamos descobrir? —
Estendi a minha mão para ela.

— Obrigada. — Laís entrelaçou seus dedos aos meus e me lançou um


largo sorriso capaz de iluminar aquela mansão inteira. — Liguei para a minha
mãe hoje.

— Foi? — Fiquei supresso por ela ter me revelado aquilo, mas a


incentivei a continuar, pois não queria que escondesse nada de mim.

— Sim.

— Sobre o que falaram? — Peguei as costas da sua mão e a levei até


a boca, beijando-a gentilmente.

— Quase nada, ainda é estranho.

— Por quê?

— Passei dez anos sem vê-la e não sei nada dela.

— Você passou dez anos longe de mim. — Coloquei uma mecha do


cabelo dela atrás da orelha e Laís parou no corredor, encarando-me.

— Com você é diferente. Eu sempre soube que viria para cá, que seria
sua esposa. Ouvia falar muito de você, ainda que nem sempre coisas boas.

— Mas você fugiu de mim da primeira vez.

— Eu tinha medo.

— Não tem mais?

Balançou a cabeça em negativa.

— Eu pertenço a você.

— Sim. — Afaguei o seu rosto e ela fechou os olhos, deixando-se


envolver pelo meu toque.

— Espero que você possa me pertencer um dia.

— Sou seu marido, Laís. Eu pertenço a você.

Ela jogou os braços ao redor do meu pescoço e me beijou. Retribui


com o mesmo fervor. A vida era muito mais fácil quando não se nadava
contra a corrente. Tinha a escolha de ser um marido ruim e infiel,
simplesmente porque eu podia, ou fazê-la feliz e, por consequência, ser feliz
também.

Uma esposa feliz é a garantia de uma vida feliz. Lembrei-me do que


meu pai havia falado para mim em relação as escolhas que havia feito sobre o
casamento dele com a minha mãe, que aconteceu em condições semelhantes
ao meu com a Laís. Ele não pareceu tão sábio na época quanto parecia
naquele momento.

— Vamos jantar. — Laís voltou a entrelaçar seus dedos nos meus e


me puxou escada abaixo.

Enquanto ela estivesse bem e sorrindo, tudo estaria bem também.


Capítulo Vinte e Nove

Abri os olhos devagar e vi que ele me observava deitado de lado na


cama e com o rosto apoiado na palma da mão.

— Bom dia.

— Bom dia. — Sorri cheia de alegria por encarar aqueles olhos de um


azul tão vivo pela manhã.

Já fazia uma semana que estávamos casados e eu me sentia mais


encantada a cada dia.

— Tem compromissos importantes hoje?

— Nada muito importante, por quê? — Traçou o contorno do meu


rosto com as pontas dos dedos e eu fechei as pálpebras, completamente
rendida ao calor do seu tato.

— Você prometeu que me ensinaria a me defender.

— Armas são perigosas, Laís. — Percebi ele afunilar o cenho e me


encarar com uma expressão pouco receptiva, diferente do jeito carinhoso que
estava me tratando desde que nos casamos.

— Serão menos se você me treinar a usá-las.

Ele ficou me encarando por longos minutos. Seu olhar prendeu o meu
e imaginei que fosse mudar de assunto, mas ele respirou fundo e bufou antes
de responder.

— Tudo bem. Eu irei ensiná-la, mas lembre-se de que não é uma


brecha para que você saia por aí sem a proteção dos meus soldados. A
Donatella não é a única que pode querer feri-la por ser a minha esposa.

— Já percebi, por isso todo cuidado é pouco.

— Tem razão quanto a isso. Todo cuidado é pouco. — Ele acabou


cedendo.

— Obrigada. — Espichei o meu pescoço para que meus lábios


encontrassem os seus.

Marco rolou para a beirada da cama e ficou de pé. Fiquei examinando


o seu corpo nu enquanto ele caminhava até o closet para pegar algo para
vestir. Suas costas eram largas e os músculos muito bem definidos. Ele estava
no melhor do seu preparo físico. Imaginava que a sua posição exigisse isso.
Tinha que estar pronto para enfrentar qualquer situação.

Deixei o cobertor de lado e saí da cama atrás dele. Abri uma gaveta
do closet e peguei roupas íntimas limpas. Vestia-as para depois colocar uma
blusa azul e um short jeans.

Depois de nos arrumarmos, descemos para a sala de jantar onde o


restante da família se reunia para tomar o café da manhã. Rosimeire sorriu
quando seus olhos me encontraram e eu retribui.
— Bom dia, querida.

— Bom dia. — Puxei uma cadeira e me sentei diante dela, com


Marco ocupando a cabeceira da mesa ao lado de nós duas.

— Prove esses croissants franceses. — Ela me empurrou o prato. —


Estão magníficos.

— Obrigada!

— Theo, pode se reunir com os Fontana em Tivoli por mim?

— Sim. — O irmão do meio abaixou a caneca que bebericava para


encarar o mais velho. — Tem algum outro compromisso hoje?

— Quero passar o dia com a Laís.

Mateo deu uma risadinha debochada, mas sua expressão mudou


quando o olhar firme do Marco o encontrou.

— Prometi ensiná-la a usar armas.

— Ela não precisa disso — resmungou Theo.

— O lugar dela é aqui com os filhos que vocês irão ter — disse
Mateo.

— Donatella quase me matou na noite do nosso casamento, e se não


fosse pelo Marco eu poderia não estar aqui — impus-me na conversa dos
homens. Fiquei surpresa com a minha própria audácia em dizer algo, ao invés
de simplesmente acatar o que decidiam por mim, assim como fora feito
durante toda minha vida. Eu era a esposa do chefe, e isso tinha que valer de
alguma coisa para que ao menos eu tivesse a minha voz.

— Mas Marco a protegeu e você está bem aqui.

— E se ele não puder me proteger sempre? — Encarei o Theo com


um pouco mais de coragem quando vi que o meu marido não me recriminou
pela minha fala inicial.

— É dever dele, nosso, proteger você. Bem como a minha mãe e as


mulheres nessa família.

— Marco? — Mateo interveio, chamando a atenção do irmão para


que ele tomasse o rumo da conversa.

— Quero que a Laís esteja segura, e se ela acha que precisa aprender
a se defender com as próprias mãos para sentir que está protegida, para mim
tudo bem. Não vai ser a primeira nem a última mulher na máfia que aprende a
usar uma arma.

— Ela é só uma bonequinha de louça. — Theo deu de ombros.

— Sim, a minha bonequinha. — Marco segurou a minha mão sobre a


mesa, e o seu gesto foi o suficiente para que cessassem os questionamentos
dos irmãos.

O apoio dele a algo que eu considerava muito importante me deixou


imensamente feliz.
— Faz bem em ouvir a sua esposa, filho. — Rosimeire acariciou o
ombro dele ao sorrir amavelmente.

Marco não disse nada, concentrando-se no café da manhã. Eu fiz o


mesmo.

Saímos da sala de jantar logo depois dos irmãos dele. Marco me levou
através do belo jardim até uma pequena construção, que eu imaginava
guardar utensílios de jardinagem, mas quando ele abriu a porta, eu vi um
espaço grande com vários alvos e caixas que imaginei conter armas.

— Quer mesmo fazer isso?

— Quero — disse muito convicta.

— Tudo bem.

Ele caminhou até uma das caixas e pegou uma arma pequena e voltou
para perto de mim, entregando-a na minha mão.

— Já atirou antes?

Balancei a cabeça em negativa.

Marco veio para trás de mim e segurou os meus braços, levantando-os


para cima até que eu os esticasse e apontasse o revólver para frente.

— Muito cuidado com a forma com que você o segura. Ela é crucial
para que o tiro tenha precisão e estabilidade, além de não correr o risco de
machucar você. Sua mão de maior força é à direita, não é?
— Sim.

— Com sua mão direita, você deve segurar no cabo da arma o mais
alto possível. Está vendo o V entre o seu polegar e o seu indicador? Encaixe-
o aqui. — Posicionou a minha mão.

— Assim?

— Isso. Quando o tiro é efetuado, sempre tem a ação e a reação. O


disparo vai para frente e a arma tende a ir para trás, portanto é muito
importante que a sua mão esteja estável. — Ele puxou o meu cabelo para trás,
o afastando do meu pescoço e ombros.

Tentei não suspirar enquanto ele acariciava minha pele, mas era muito
difícil. Concentração não era fácil com o marido provocando daquele jeito.

— Com a outra — ele correu os dedos pelo meu ombro, braço e pulso
para mover minha mão até a arma — você vai dar estabilidade para a arma
para que ela não se mova para o lado nem para cima durante o tiro. Cubra
todo o cabo com a sua palma e mantenha os polegares apontados para frente.

Não parecia tão difícil enquanto ele falava. Eu estava concentrada,


pois realmente queria aprender. O fato de eu poder ou não me defender
poderia ser decisivo sobre a minha vida em algum momento.

— Com o indicador direito você vai acionar o gatilho, mas primeiro


precisa mover a trava de segurança.

Ele me moveu e puxou a minha mão, apontando a arma para um alvo


a poucos metros.

— Posso atirar?

— Use a alça para mirar. — Sinalizou para uma parte acima da arma.

Assenti e olhei o alvo. Movi a mão até que alinhasse a arma com ele
através da alça de mira. Antes que Marco voltasse a falar, eu pressionei o
gatilho e me surpreendi com o coice que a arma deu, impulsionando-me para
trás. Se o meu marido não estivesse atrás de mim segurando na minha
cintura, eu poderia ter cambaleado e caído.

— Toma cuidado — repreendeu-me. — Isso não é um brinquedo,


Laís, e pode machucá-la.

— Sei disso, desculpa.

— Tudo bem. — Ele desceu com a mão da minha cintura pela minha
coxa até tocar minha panturrilha. — Coloque essa perna um pouco para
frente e flexione o joelho. Vai ajudar a estabilizar o seu corpo.

Tão perto de mim, com seu corpo grudado ao meu e minhas roupas
esfregando nas suas, eu podia sentir a ereção do Marco, que estufava o tecido
da sua calça, e virava e mexia era pressionada contra a minha bunda. Eu não
era a única ali tentando conter meus instintos.

— Agora tente de novo. — Aproximou a boca da minha orelha e


meus pelos todos se arrepiaram.
Dei outro tiro e dessa vez meu corpo não foi impulsionado para trás.

— Consegui.

— Agora só falta acertar o alvo. — Ele apontou para a parede dos


fundos no espaço onde deveriam estar cravados os dois tiros que dei.

— Sim. — Abri um sorriso amarelo.

— Tenta de novo.

— Claro.

Disparei novamente e dessa vez o tiro passou pelo alvo, mas bem
longe do centro. Acertar alguém parecia muito mais difícil do que nos filmes
de Hollywood.

— Um pouco melhor.

— Estou tentando.

— Temos o dia inteiro. — Ele afagou o meu ombro exposto pela


manga da camisa e o beijou.

— Sim. Obrigada por tirar o dia para passar comigo.

— Vai ter um preço. — Voltou com a boca para perto da minha


orelha e algo se retorceu dentro de mim.

— Preço? — Engoli em seco ao ficar pálida.


— Sim. — Ele riu e pressionou a sua ereção com mais ênfase contra a
minha bunda.

Minha intimidade pulsou, recordando-me do quanto gostava de ter o


meu marido ali.

— Acho que posso pagar esse preço. — Ri num misto de perversão e


vergonha.

Havia crescido em um lugar que abominava o fato de mulheres sequer


se interessarem pela vida sexual, mas com Marco, parecia impossível não ser
seduzida por aquele pecado.

— Tente de novo. — Ele deu um passo para trás e precisei me


equilibrar para não tombar, pois o seu calor havia me deixado bamba.

Não sei por quanto tempo fiquei disparando, minutos, ou talvez horas.
Marco colocou mais munição na arma algumas vezes. Dei alguns tiros de
sorte mais próximos do alvo, mas poucos, iria precisar exercitar bastante.

— Vou precisar de mais treino.

— Vai, sim.

— Posso vir para cá quando você não estiver, para treinar? Vai ser
bom para passar o meu tempo. Em alguns dias eu não tenho muito o que
fazer.

— Vou ver se algum dos homens pode vir orientá-la.


— Me orientar? — Umedeci os lábios e vi uma dose de raiva tomar
conta da sua expressão serena. Havia o provocado e só me dei conta quando
Marco tirou a arma da minha mão, travou-a, jogou no chão e segurou a minha
cintura.

— Você é minha, ouviu bem? Não me faça imaginar qualquer coisa.

— Não queria que pensasse nisso. Eu juro.

— Estou honrando esse casamento, e espero que seja o mínimo que


você faça.

Encarei seus olhos furiosos e entendi exatamente ao que ele estava se


referindo, mas ao invés de recuar, coloquei as minhas mãos sobre o seu rosto,
fazendo com que sua expressão se suavizasse.

— Não quero outro homem, Marco.

Antes que ele dissesse qualquer outra coisa, eu o puxei para mim.
Marco havia acabado de dizer que estava disposto a me honrar e era tudo o
que eu desejava dele. Me recordava bem do que ouvira de noviças no
convento quando contaram sobre o destino que me aguardava quando
completasse vinte e um anos.

Ele vai sempre chegar bêbado, depois de ter passado a noite com
prostitutas, e vai te estuprar até que você tenha tantos filhos para se ocupar
com eles que não terá forças para reclamar de nada.

Aquela poderia ser uma terrível realidade, mas eu tinha sorte por
Marco estar sendo bem diferente disso comigo.

Ele segurou a minha cintura e minha nuca. Sua boca dominou a minha
com fogo e fome. Ele devorou a minha boca com tanta ânsia que roubou
completamente o meu ar e o meu equilíbrio. Sua língua dançava com a minha
e eu movia a minha cabeça para um lado e para o outro em busca do melhor
encaixe.

Marco abriu a minha calça, puxou o elástico da minha calcinha e eu


gemi alto quando seu dedo escorregou pelos meus lábios até encontrar o meu
clitóris. Remexi na sua mão, incentivando-o a continuar.

Ele me empurrou para trás e fui dando passos até que as minhas
costas fossem paradas por um móvel de madeira. Marco me pegou no colo e
fez com que eu me sentasse na superfície. Ele apertou as minhas coxas e se
acomodou entre elas. Meu marido interrompeu o beijo para escorregar os
lábios pelo meu pescoço, lançando-me em uma sequência intensa e deliciosa
de calafrios.

Marco puxou as mangas da minha blusa e as alças do meu sutiã


expondo meus seios. Eu estufei o peito para frente num pedido silencioso,
que ele logo atendeu ao abocanhar um dos meus mamilos. Joguei a cabeça
para trás quando meu corpo inteiro clamou por mais toques do meu marido.
Queria a sua boca ali, pelo meu corpo inteiro.

— Senhor...

Num instante Marco estava me enlouquecendo com sua língua, no


seguinte, ele erguia a cabeça rapidamente e escondia o meu corpo com o seu,
me protegendo.

— O que está fazendo aqui? — rosnou para o intruso que havia nos
atrapalhado.

Eu puxei as alças e ajeitei a minha roupa o mais rápido possível.

— Luigi Lombardi está aqui e exige uma audiência com o senhor.


Parece que roubaram os laboratórios dele.

— Que porra! — praguejou Marco. — Ele sabe quem foi?

— Disse que só fala com o senhor.

— Estou ocupado.

— Tudo bem. — Segurei o ombro do Marco. — Pode ir. Eu vou ficar


aqui treinando.

— Tem certeza?

Balancei a cabeça em afirmativa e dei um sorriso amistoso.

— Tome cuidado, não quero que você se machuque. — Acariciou o


meu rosto com tamanha gentileza que me deixou suspirando.

— Não vou.

Marco me deu um rápido selinho e saiu do galpão, acompanhado do


soldado.
Desci de onde ele havia me deixado sentada e peguei o revólver do
chão. Posicionei-me como Marco havia me ensinado e segurei a arma como
ele havia me indicado. Destravei e disparei. Mirei e atirei outra vez. Fiz isso
repetidas vezes, até que a munição acabasse.

Estava me divertindo. Iria ter que pedir para o Marco me ensinar a


recarregar a arma.

Aproveitei a pausa para voltar para a casa. Estava com fome e


imaginava que já houvesse se aproximado do horário do almoço.

Do caminho de pedras no jardim tinha um ângulo que me


possibilitava ver a entrada da casa. Ao longe, vi o Marco, com Mateo ao seu
lado. Havia um homem ajoelhado e outro apontava uma arma para sua
cabeça. A curiosidade me impulsionou a ficar, mas havia outra parte de mim
que sabia que eu iria me arrepender.

Marco poderia ser um monstro para os outros desde que continuasse


um bom marido para mim, recitei em pensamentos.

Decidi entrar na casa pelos fundos. Fui para a sala de estar e a


primeira pessoa que vi foi a minha sogra sentada no sofá lendo um livro.

— Está tudo bem, Laís?

Balancei a cabeça em afirmativa e me sentei na outra ponta do sofá.

— Achei que o meu filho estivesse com você.


— Ele precisou resolver algo.

Ouvimos o som de um tiro e eu engoli em seco. Minha mente viajou


com a possibilidade do que poderia ter acontecido, mas eu não disse nada.
Rosimeire também não. Com o passar dos anos, ela deve ter aprendido muito
bem a fingir que não via nem ouvia nada.

— Ele estava te ensinando a atirar?

Fiz que sim.

— Isso é bom.

— Você sabe?

— Nunca me interessei muito por isso, mas eram outros tempos.


Acho importante que você queira aprender.

— Você já levou os livros para as crianças? — mudei de assunto.

— Ainda não. Theo me pediu para deixar para semana que vem.
Parece que está havendo uma disputa de território nas ruas. Não é prudente
que eu me exponha em qualquer conflito.

— Sim. É melhor esperar. Eu só queria saber se vou poder ir junto.


Ficaria muito feliz se pudesse fazer algo assim com você.

— Fazer o quê?

Virei a cabeça e encontrei o Marco entrando na companhia do irmão


mais novo.

— Quero ir com a sua mãe entregar os livros na comunidade onde ela


nasceu.

— Você não precisa fazer isso.

— Sei que não, mas eu quero.

— Essa sabe o que quer. — Mateo começou a rir, mas parou quando
seus olhos encontraram os severos de sua mãe.

— Vai fazer bem para ela, Marco — minha sogra intercedeu por mim.

— Pode ser perigoso.

— Só vamos distribuir alguns livros e voltar para casa.

— A situação lá está caótica.

— Vamos esperar vocês resolverem tudo, como já havia conversado


com o Theo.

Marco olhou para mim e eu curvei os lábios num sorriso amistoso,


implorando com o olhar para que ele me deixasse sair com a mãe dele. Iria
ser ótimo conhecer outras partes de Roma que não fossem o convento e
aquela mansão.

— Por favor...

— Certo, mas a segurança vai ser redobrada.


— Muito obrigada.

— Estou com fome. O que acham de todos irmos almoçar? — Mateo


apontou para a sala de jantar antes de seguir na frente de todos.

Levantei do sofá e caminhei para perto do Marco. Ele envolveu a


minha cintura com o braço e me guiou para o cômodo. Fomos seguidos de
perto por sua mãe.

Sabia que, com jeitinho, ele poderia me deixar fazer muitas coisas.

— Minha mãe entregou para você o cartão de crédito? — perguntou


ao puxar a cadeira para que eu me sentasse.

— Sim, ontem, muito obrigada.

— Se precisar de dinheiro vivo é só me falar, mas com o cartão você


pode comprar praticamente tudo.

— Já pedi o celular. Deve chegar hoje no fim da tarde ou amanhã.

— Para conversar com a sua mãe?

— Sim.

— Vocês voltaram a se falar depois daquele dia?

— Uma vez. Ela está se esforçando.

— Imagino que sim. — Ele tocou o meu rosto sem qualquer


cerimônia na frente da família. — É difícil não querer ficar perto de você.
Eu sorri envergonhada e puxei o meu prato para me servir.

Estava cada vez mais envolvida com o Marco e não queria que aquela
bolha que estávamos construindo fosse estourada.
Capítulo Trinta

Acomodei-me na poltrona enquanto observa o Mateo servir um copo


de uísque e caminhar para perto da janela, observando o jardim que se
estendia por toda a enorme propriedade da família.

— Você está ficando mole.

— Eu... mole? — Semicerrei os olhos diante da afirmação absurda do


meu irmão caçula.

— Sim, você. Não tem um mês de casado e já parece completamente


de quatro por ela.

— Não seja exagerado. — Estalei os dedos enquanto exibia uma


expressão de pouco caso.

Só o que me faltava era o meu irmão me torrando a paciência por


causa de uma besteira sem sentido como essa.

— Hoje você fez tudo o que ela quis. Só falta me dizer que está
apaixonado.

Apaixonado?... Aquela palavra era muito incomum em nossas


conversas, tanto que me gerava certa estranheza ouvi-la. Nunca tinha me
apaixonado antes, não seria dessa vez. Estava apenas honrando o meu
compromisso como marido.
— Não seja idiota. Eu só não quero que ela se machuque, então é bem
prudente o pedido para aprender a atirar. Também pode ser relevante designar
alguém que a ensine a lutar e se defender.

— Isso tudo é para defendê-la da Donatella?

— E de qualquer outra ameaça.

— Então por que deixou que Laís vá com a nossa mãe fazer aquela
idiotice que ela faz todos os anos?

— Não posso simplesmente mantê-la trancada dentro dessa casa.

— Se está tão preocupado com a segurança dela, é o mais cauteloso a


se fazer.

— Temos que proteger nossa mãe também. As duas estarão seguras.

— Você é o chefe.

— Sim, eu sou. Sabe se o Theo já chegou? — mudei de assunto. Falar


sobre a minha esposa não nos acrescentaria em nada naquele momento.

Eu queria a Laís feliz e era apenas isso, não queria o Mateo


levantando inúmeras teorias a respeito do que eu sentia ou não por ela.

— Ainda não. — Tomou um gole do seu uísque.

— Está demorando. Será que algo não correu como esperado? Era
para ser uma reunião simples.
— Você sabe muito bem como os capi são, todos cheios de ego e
desesperados pela nossa atenção. Somos os Bellucci.

— Espero que seja apenas isso. — Cocei os pelos que estava


crescendo no meu rosto. Já estava passando da hora de me barbear.

— Por falar na sua querida esposa, não tivemos mais notícias dos
Costas. Em um momento ou em outro, nesses últimos dez anos, eles sempre
tentaram atacar os Barbosa e principalmente tomar o controle do porto que é
a nossa principal rota do Atlântico. Será que desistiram completamente
depois do casamento?

— Espero que sim, mas não botaria a minha mão no fogo por causa
disso. Podem simplesmente ter se cansado de dar murro em ponta de faca e
estarem esperando o momento certo para tentar atacar novamente.

— Deveríamos esmagá-los de uma vez.

— Não é tão simples e essa briga é dos Barbosa. Oferecemos apenas


proteção no porto caso queiram atacar. Não precisamos entrar em uma guerra
desnecessária e perder homens e armas. Não é o momento de nos
enfraquecer.

Ouvimos um barulho e Mateo e eu nos viramos na direção da porta.


Vimos Theo entrar com a mão no braço, segurando um pedaço
ensanguentado da própria camisa.

— Porra, o que aconteceu?! — Mateo largou o copo na beirada da


janela e correu para perto do nosso irmão.

— Acho que cutuquei alguma coisa. — Ele abriu um sorriso amarelo


como se estivesse achando graça da situação.

— Seu otário, idiotia. — Bufei e Theo riu. — Já ligou para o médico?

— Nem sei como consegui chegar dirigindo até aqui.

— Merda.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem urgente para um dos


nossos associados que era médico. Não podíamos simplesmente aparecer em
um hospital quando tomávamos um tiro, assim médicos associados da máfia
nos atendiam em casa.

— Senta, caralho. — Mateo apontou para um sofá perto da porta.

— Em que diabos você se meteu? Eu não acredito que tomou um tiro


dos Fontana.

— Não. Foi bem rápido lá. Eles queriam só discutir algumas besteiras
triviais, mas eu fui para outro lugar depois. — Meu irmão estava fazendo
caretas e imaginei que estivesse se contorcendo para não deixar transparecer
que estava sentindo dor.

— Para onde foi?

— Recebi uma pista que o assassino do nosso pai poderia estar em um


restaurante em Borgo, perto do Vaticano.
— Aposto que você foi para lá sozinho.

— Era só uma averiguação. — Tentou dar de ombros, mas quase não


conseguiu se mexer por causa da dor.

— A mamãe viu você desse jeito? — Mateo questionou-o.

— É melhor que ela nem sonhe.

— Theo, você parece um cachorro correndo atrás do próprio rabo. É


melhor você parar com essa busca.

— Eu estou chegando perto, irmão.

— Se for o de levar um tiro, você chegou lá.

— Caralho, parece que vocês dois não estão nem aí para quem matou
o nosso pai.

— Acha que não estamos? — Foi a minha vez de levantar a voz. —


Derramamos sangue por toda a Itália por meses. Fomos atrás de cada máfia
nesse país e quase batemos na porta dos russos, mas não chegamos a lugar
nenhum.

— Já disse que estou perto.

— Foda-se o quão perto você está. É o meu irmão, o consigliere e o


meu braço direito. Eu não quero jogá-lo na mesma cova que o nosso pai antes
do tempo.
Theo apenas bufou como um touro, mas não disse nada.

— Senhor, o médico está aqui — anunciou um dos soldados ao


chegar na porta.

— Mande-o ir até o meu quarto, estarei esperando lá para ser


costurado. — Theo saiu pisando duro.

Eu conhecia bem o gênio do meu irmão para ter certeza de que ele
não desistiria com uma simples bronca minha. Era como se ele nunca fosse
descansar até que o culpado pela morte do nosso pai fosse pego, mas o meu
maior medo era que o Theo acabasse tendo o mesmo destino antes que
conseguisse se vingar.

— Ele vai ficar bem, não vai? — perguntou Mateo.

— Do tiro, sim.

— Não quero que o Theo acabe morto.

— Nenhum de nós.

— Quem sabe não foi a polícia, ou qualquer máfia do sul que já


tentou nos derrubar antes?

— Pode ter sido qualquer um — resmunguei pensativo.

Ao contrário do que o Theo imaginava, eu também tinha tentado a


minha própria cruzada para encontrar o culpado. Não era porque eu havia
assumido a posição de chefe que não me preocupava com o que havia
acontecido. Para nós, a família sempre está acima de tudo, e foi justamente
por isso que eu parei, porque não queria perder mais ninguém. Meus irmãos e
a minha mãe eram importantes demais para mim.

— Acho que ele também precisa de uma esposa. Quem sabe assim se
distraia? — debochou Mateo, e eu fingi não perceber que ele estava me
alfinetando.

— Você precisa de uma também — devolvi a provocação.

— Se for tão bonita quanto a Laís e gemer tanto quanto ela, quem
sabe eu não me animo?

Eu rugi e ele se encolheu, mas começou a rir logo em seguida.

— Ela vai domar você, como a mamãe domou o nosso pai.

— Se preocupe com coisas mais relevantes, irmão. — Fui até a mesa


com as bebidas e me servi uma dose de whiskey.

Mateo continuou rindo, mas não disse mais nada. Para ele, o meu
relacionamento era apenas uma diversão. Tanto ele quanto Theo
aproveitavam muito bem o status de solteiros e não haviam assumido nenhum
compromisso em nome da família. Para eles, a visão poderia ser muito
diferente. Desde que não trouxessem problemas para a família, eu não me
importava com quem transavam.

A minha maior preocupação em relação aos meus irmãos era o Theo e


o quão longe ele poderia ir em busca de vingança.
Capítulo Trinta e Um

— Olá, mãe. — Aquela palavra já saía mais fácil da minha boca após
passado um tempo que mantínhamos contato.

Desde que o meu celular havia chegado e eu me adaptara a usá-lo,


Madalena ligava para mim todos os dias, nem que fosse para apenas alguns
minutos de uma conversa corriqueira.

— Você está bem, filha?

— Estou sim. — Tirei os sapatos e acomodei-me no sofá da


biblioteca. — E você?

— Também estou bem. Seu irmão mandou um abraço.

— Mande outro para ele.

— Pode deixar.

Esperei que ela falasse do meu pai, mas não falou. Ela nunca falava.
Eu não precisava ser uma grande adivinha para perceber que a relação dela
com ele não era das melhores. Existiam lugares onde nascer mulher era a pior
merda que poderia acontecer, e na máfia era um deles. O mundo parecia
evoluído em relação há muitos costumes, mas a máfia ainda estava
mergulhada em costumes medievais.

— Madalena? — ouvi a voz do meu pai do outro lado da linha e senti


um certo desconforto, mas eu não fui a única a ficar tensa.

— Eu preciso desligar agora, filha. Ligo para você depois.

— Tudo bem, mãe.

— Fique bem, querida.

— Você também.

Não tive tempo de falar mais nada pois ela desligou a chamada.

Fiquei encarando o celular na minha mão por alguns minutos. Ainda


ficava abismada com tudo que poderia fazer com aquele aparelho. Era como
se tivesse acesso ao mundo todo na palma das minhas mãos.

— Laís?

Movi a cabeça e me surpreendi ao encontrar Marco na porta da


biblioteca.

— Oi? — Um sorriso involuntário apareceu no meu rosto e se tornou


ainda maior quando percebi que meu marido me sorria de volta.

Marco entrou na biblioteca e se sentou ao meu lado no confortável


sofá vermelho.

— Parece que você está compartilhando a paixão da minha mãe por


esse lugar.

— É um dos melhores locais nessa mansão e onde encontro mais


coisas para fazer.

— E o que você está lendo no momento?

— Um livro de romance, que se passa na Arábia do século dezoito.

— E está se divertindo?

— Sim. — Minhas bochechas coraram e eu desviei o olhar. Odiava o


fato de ser sempre um livro aberto e não conseguir esconder facilmente as
minhas expressões.

— Romance, é? — Marco gargalhou e aproximou o seu rosto do meu.


— Com cenas explícitas? — perguntou com a boca na minha orelha e eu não
sabia se me encolhia ou se estremecia pela proximidade provocativa dele.

— Não posso? Eles são livros da sua mãe, achei que não houvesse
problema...

Meu marido pousou os lábios sobre os meus e me silenciou com um


selinho carinhoso.

— Não me preocupo com o que lê, desde que faça apenas comigo.
Não prego a mesma castidade do convento, as pessoas aqui fora fazem sexo,
é algo natural.

— Que bom. — Esfreguei as bochechas ardendo de vergonha com as


costas das mãos, mas tive a impressão que elas ficaram ainda mais
vermelhas, pois meu marido riu com gosto ao olhar para mim. — Desculpa.
— Não precisa se desculpar por isso. — Ele segurou o meu queixo e
fez com que eu o encarasse. — Sei que não tem muito o que fazer aqui e sei
que pode ser um saco ficar trancada nessa casa, mas você é a minha esposa,
Laís, e eu sou um homem com muitos inimigos. Não quero que nenhum deles
tente fazer algum mal a você.

— Entendo isso.

— Entende mesmo?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Não significa que você não sairá daqui nunca. O que acha de sair
comigo hoje?

— Eu adoraria. — Fui tomada por uma felicidade que não cabia em


mim, mesmo sem saber para onde o meu marido me levaria.

— Não posso viajar para uma grande lua de mel, mas podemos passar
bons momentos juntos.

— Vai ser perfeito.

— Que bom. — Afagou o meu rosto e me deu mais um selinho. —


Arrume-se para sairmos em alguns minutos. Coloque algo bonito.

Marco se levantou do sofá e me deixou sozinha na biblioteca


novamente. Suspirei enquanto o via desaparecer através do corredor.

Rosimeire estava certa sobre tudo o que havia dito em relação ao


filho. Apesar do que ele tinha que fazer em nome da máfia, estava sendo um
bom marido e honrava o seu casamento comigo. Fugi da primeira vez por
medo, pois não sabia que poderia ser tão feliz e me apaixonar por ele cada dia
mais.

Levantei e fui para o quarto. Escolhi um vestido rosa claro, um par de


sandálias brancas e uma bolsa da mesa cor do calçado. Penteei o meu cabelo
ondulado e passei um pouco da maquiagem que Rosimeire havia me dado.
Escolhi cores neutras, pois não sabia usar direito e não queria parecer
exagerada.

Desci para a sala de jantar e encontrei o meu marido conversando


com o irmão. Theo foi o primeiro a se virar para mim e soltou um uau!.
Porém, logo se arrependeu ao tomar uma cotovelada do irmão.

— Pronta? — Marco perguntou a mim.

— Estou.

— Para onde vocês vão? — perguntou Theo, curioso.

— Não é da sua conta — cortou Marco.

— Idiota. — Bufou meu cunhado, fazendo-me rir.

Marco passou a mão ao redor da minha cintura e me guiou para fora


da sala. Seguimos andando até a garagem. Marco puxou a porta do seu
esportivo preto e ela abriu para cima. Esperou que eu me acomodasse no
banco do carona antes de dar a volta e assumir o volante. Ligou o carro e,
quando manobrou para sairmos pelos portões que guardavam a bela
residência, notei que dois outros veículos vieram atrás de nós. Eu não podia
ver quantos homens havia dentro deles devido aos vidros escuros, porém
tinha certeza de que nos seguiriam para qualquer lugar para garantir a nossa
segurança.

Debruçada sobre a janela do carro, eu observava as construções da


cidade. Roma inteira parecia uma mescla do velho com o novo, pois em meio
a algumas construções antigas, destacavam-se prédios muito modernos. Era
lindo e fascinante ver tudo de tão perto, ao invés de apenas pelos noticiários
da televisão.

Passamos diante da Fontana di Trevi, um lugar lindo que eu nunca


iria esquecer pelo fato de ser parte do cenário do nosso casamento.

Marco continuou dirigindo até que entramos no estacionamento de


um grande centro de compras. Fiquei surpresa, pois não era o lugar que
estava imaginando que ele me levaria. Ele parou o carro, deu a volta, abriu a
porta e me deu a mão.

Entrelacei meus dedos aos dele e caminhamos para a entrada da


galeria. Olhei para trás e vi que cinco homens nos seguiam em uma distância
segura, e havia outros mais atrás deles. O pequeno exército estava tentando
ser discreto, se dividindo em pequenos grupos e fingindo não estar nos
vigiando.

Parei de me preocupar com a escolta e me permiti olhar em volta. O


prédio era alto e muito bonito, e pude ver que havia muitos andares. A
construção mesclava muito bem o antigo com o novo. No teto havia lindos
vitrais, com mosaicos de vidros coloridos que formavam desenhos e figuras
geométricas.

— Aqui é tão lindo! — Tombei a cabeça no ombro do meu marido,


completamente encantada.

— É só uma galeria com lojas.

— Então por que me trouxe até aqui?

— Para fazer compras.

— Ah. Comprei muitas coisas pela internet com o cartão que me deu.

— Sim, mas hoje faz parte do nosso passeio e eu quero dar presentes
a você.

— Obrigada.

— Vem. — Com os dedos entrelaçados aos meus, Marco me puxou


até entrada de uma loja.

Era uma bela joalheria com paredes decoradas em preto, branco e


dourado, e em suas muitas vitrines estavam exibidos colares, brincos, anéis e
pulseiras.

— Boa tarde, em que posso ajudá-los? — Uma vendedora se


aproximou de nós e o seu olhar foi diretamente para o meu marido.
O olhar dela passeou pelo Marco e a mulher jogou o cabelo loiro para
trás. Pode ter sido apenas uma impressão minha, mas não gostei nem um
pouco da forma como ela olhou para ele. Marco era meu.

— Meu marido me trouxe para comprar uns presentes para mim. —


Apertei os dedos dele entre os meus e estufei o peito.

— Isso. — Marco me beijou no topo da cabeça.

— Tenho certeza que temos peças perfeitas para você. — Ela apontou
para duas cadeiras no centro da loja diante de uma mesa.

Marco e eu nos sentamos e a vendedora pegou algumas peças.


Colocou-as sobre a mesa e deixou que nós dois olhássemos. Eram tantas
cores e modelos que eu nem sabia por onde começar a olhar. As pedras eram
encantadoras e brilhavam muito.

— Esse vai ficar lindo em você. Acho que vermelho combina com os
seus olhos. — Marco pegou um colar com uma mão e com a outra puxou
meu cabelo, tirando-o do caminho para poder colocá-lo no meu pescoço.

— Essa peça é linda — disse a vendedora. — É um conjunto com


rubis em formato de gota e ladeados de pequenos diamantes.

A mulher me deu um espelho e examinei o colar no meu pescoço.


Toquei as pedras vermelhas com as pontas dos dedos, completamente
encantada pela peça. Peguei o brinco e o coloquei ao lado da minha orelha
para ver como ficava.
— O que acha? — Marco perguntou a mim.

— É maravilhoso. — Coloquei o brinco de volta no mostruário e


levantei a mão para tirar o colar, mas Marco a segurou.

— Fica com o colar, vamos levá-lo.

— Obrigada.

— O conjunto é nove mil euros, senhor — disse a vendedora, rindo de


uma orelha a outra.

— Certo. — Marco fez um gesto para que um dos seus homens se


aproximasse.

O sujeito, vestido de preto que estava parado do lado de fora da loja,


segurava uma pequena maleta e a entregou para o seu chefe. Marco a abriu e
eu pude ver que havia muito dinheiro lá dentro, mais do que eu seria capaz de
contar. Meu marido pegou uma quantidade de notas, contou-as rapidamente e
a entregou para a vendedora.

— Obrigada. Quer que eu embale para presente?

— Não. — Ele pegou os brincos e os entregou para mim. Percebi que


queria que eu os colocasse e foi o que eu fiz.

— São lindos. — Examinei-os na minha orelha enquanto encarava o


espelho.

— Você é linda. — Marco pegou a minha mão e colocou o anel nela,


depois beijou os meus dedos, fazendo com que não apenas eu, mas todas as
mulheres na loja suspirassem.

— Tem um marido e tanto — comentou a vendedora.

— Sim, eu tenho. — Acariciei o rosto dele e Marco beijou a minha


mão antes de me puxar para que eu o acompanhasse.

Passamos por uma loja de cosméticos femininos e eu experimentei


muitos cremes, perfumes e outros produtos de beleza. Saí de lá com quatro
sacolas cheias, que Marco entregou para que um dos soldados carregasse.

Na loja de roupas, as sacolas triplicaram enquanto ele escolhia


modelos e pedia para que eu os experimentasse.

— Esse ficou perfeito. — Me esquadrinhou com o olhar quando eu


saí do provador usando um vestido preto muito justo.

— Não é pequeno demais? — Passei a mão na lateral do corpo,


descendo da cintura até as minhas coxas, mostrando a saia. Foi um gesto
involuntário, mas fez com que o Marco me devorasse com o olhar.

— É perfeito.

Envergonhada, eu voltei para dentro do provador, mas antes que eu


fechasse a cortina, Marco a segurou, entregando-me um cabide.

— Prova isso agora.

— Lingerie? — Fiquei ainda mais envergonhada quando vi que era


um conjunto de calcinha e sutiã.

— Sim, quero ver como fica.

— Tudo bem. — Segurei o cabide com os dedos trêmulos. Apesar da


vergonha, não havia motivos para negar o pedido dele.

Marco soltou a cortina do provador e me deixou só lá dentro. Tirei o


vestido e toda a minha roupa íntima para experimentar a indicada pelo meu
marido. Era preta, de renda, e a calcinha tão pequena, que desaparecia dentro
das minhas nádegas. No primeiro momento eu me senti muito envergonhada,
mas depois me senti sexy.

— Marco? — Afastei um pouco a cortina e coloquei só a cabeça para


fora.

Ele estava sentado em um puff, mas se levantou com o meu chamado.

— Experimentou?

— Sim.

— Quero ver como ficou.

Olhei para atrás dele e vi que, além dos soldados da máfia, havia
outras pessoas dentro da loja, e não queria que mais ninguém me visse só de
roupas íntimas.

Balancei a cabeça em negativa e Marco riu.


— Eu vou entrar. — Antes que eu pudesse protestar, Marco afastou a
cortina do provador e me empurrou para dentro com o seu corpo.

Ele fechou a cortina e ficamos apertados no pequeno espaço quadrado


que continha um espelho. Meu marido abaixou o olhar e o passeou pela roupa
íntima e pelas partes expostas do meu corpo. Não recuei diante da sua
inspeção e deixei que ele visse tudo. Marco segurou a minha cintura e me fez
girar. Mantendo as mãos em mim, ele me admirou de costas, observando
principalmente o pouco tecido que mal cobria a fenda entre as minhas
nádegas.

— Linda. — Levou a boca até a minha orelha e pressionou o meu


corpo com o seu, espremendo-me contra o espelho.

— Marco... — gemi seu nome, quando suas mãos subiram pelas


minhas nádegas.

— Quero que você leve vários conjuntos desses. — Passou o dedo


pela lateral da calcinha, enfiando-o por debaixo do elástico e da renda.

— Estamos dentro do provador de uma loja — resmunguei quando a


sua mão percorreu por dentro da calcinha até alcançar o meu monte.

— Eu sei. — Seu dedo desceu pelos meus lábios e alcançou o meu


clitóris. Precisei cerrar a boca para não gemer, mas foi impossível conter o
meu rebolado contra a sua pélvis.

— Tenho que tirar essa lingerie e colocar a minha.


— Concordo que tenha que tirar. Uma pena, porque você fica linda
com ela.

Imaginei que Marco fosse sair do provador de roupa e deixar que eu


me trocasse, mas, ao invés disso, ele puxou a calcinha e fez com que ela
caísse nas minhas canelas. Suas mãos abriram o fecho do sutiã nas minhas
costas.

— É difícil me vestir com você aqui dentro. O espaço é pequeno.

— Quem disse que você vai se vestir agora? — Mordeu a alça do


sutiã e a puxou, fazendo com que a peça escorregasse para o chão.

— Marco estamos no provador de uma loja.

— Já disse que não me importo. — Ele puxou meu cabelo para o lado
e expôs a minha nuca. Quando ele me beijou ali, o meu corpo inteiro ardeu
em brasas e foi difícil pensar direito.

Ouvi o zíper da sua calça e percebi que ele a havia aberto quando o
seu membro veio parar entre as minhas coxas. Marco ficou esfregando-o do
lado de fora, roçando-o na minha intimidade enquanto suas mãos passeavam
pelo meu corpo, deslizavam nas minhas curvas e apertavam as minhas
nádegas. Meu marido mordiscou a minha nuca, meus ombros e minhas costas
e derreteu qualquer protesto que faria com o seu calor.

Suas mãos seguraram firme a minha bunda e ele fez com que eu a
empinasse para trás. Seu pênis entrou em mim sem qualquer cerimônia e eu
arranhei o espelho onde estava apoiada. Foi quase impossível não gemer
quando ele se cravou em mim.

Marco não teve qualquer pudor ao começar a fazer sexo comigo


dentro do provador da loja. Logo parei de me preocupar com isso quando o
prazer me tomou de forma intensa. Era como se o frio na barriga provocado
pelo perigo de sermos pegos tornasse tudo ainda mais gostoso. Rebolei nele,
esfregando as minhas nádegas, e Marco aumentou o ritmo.

Mordi os lábios com força para não gemer e delatar as pessoas do


lado de fora o que nós dois estávamos fazendo, mas era muito difícil. Meus
olhos reviravam e Marco não me dava trégua. Era como se ele quisesse me
ouvir gritando de prazer.

Sua boca passeava pelo meu pescoço, meus ombros e minha orelha,
enquanto suas mãos escorregavam pelos meus seios, a lateral do meu corpo e
minhas nádegas. A pressão do seu corpo se chocando contra o meu era muito
intensa e provocava estalos, como se fossem aplausos.

De repente ele tirou o membro de mim e puxou uma camiseta que eu


havia colocado em um dos ganchos na parede. Senti a sua respiração no meu
pescoço enquanto aguardava que ele recuperasse o controle sobre o próprio
corpo.

Ele jogou a camisa no chão e me girou de frente. Meu olhar foi


capturado pelo seu e percebi que o azul estava tomado pelo negro das pupilas
dilatadas. Marco dominou a minha boca com a sua e sua mão escorregou pelo
meu corpo até o centro da minha feminilidade. Enquanto a sua língua duelava
ferozmente com a minha, seu dedo se movia em círculos sobre o meu clitóris.

Logo o prazer me atingiu em cheio e minhas pernas ficaram bambas.


Foi impossível não gemer, mas, felizmente, seus lábios nos meus abafaram o
som.

Ele se afastou e eu me apoiei no espelho, completamente entorpecida.

— Pode se vestir agora. — Ele saiu do provador e me deixou lá.

Precisei de alguns momentos para me recuperar. Minhas pernas mal


sustentavam o meu peso e a minha respiração ainda não havia se
normalizado.

Assim que consegui, vesti as roupas com as quais viera e ajeitei o


meu cabelo. Saí com um sorriso, mas me esforcei ao máximo para não
demonstrar que havia acontecido algo dentro do provador.

— Pronta para irmos? — Marco parou de mexer no celular e estendeu


a mão para mim.

— Quero levar mais algumas lingeries daquela.

— Escolhi várias. — Ele me fitou com um ar de predador e foi


impossível não corar dos pés à cabeça.

— Obrigada.

Ele pagou pelas compras e um dos soldados ganhou várias sacolas


para carregar.

Marco segurou a minha cintura e me guiou de volta para o


estacionamento onde estava o seu carro.

— Vamos voltar para casa? — perguntei, curiosa, ao colocar o cinto.

— Já quer voltar?

— Não. Só imaginei que fôssemos voltar. — Sem jeito, coloquei o


cabelo atrás da orelha.

— Fiz planos, Laís, e não pretendo levá-la de volta para a mansão


hoje.

— E para onde vai me levar agora? — Tentei conter a empolgação,


mas foi impossível.

— Para um restaurante. Um dos muitos que me pertencem.

— Você tem restaurantes? — Arregalei os olhos.

— Sim. Em Roma, Veneza, Milão e em várias outras cidades da


Itália.

— Não sabia.

— Minha família tem muitos negócios lícitos para lavar o dinheiro


ilícito. É comum nas máfias.

— Ah, entendi.
— Tem muita coisa que você vai acabar descobrindo com o tempo —
ele tirou uma das mãos do volante para acariciar o meu rosto —, mas você
não precisa se preocupar com isso. Tenho recursos o suficiente para te dar o
mundo.

— Por enquanto, bastam os presentes que comprou para mim hoje. —


Olhei para o colar através do retrovisor.

— Merece ficar linda.

Marco dirigiu por mais alguns minutos e logo chegamos a um belo e


sofisticado restaurante, próximo ao movimentado Coliseu, um ponto turístico
que reunia pessoas do mundo inteiro. Acredito que, assim como eu, muitas
pessoas não iriam imaginar que um restaurante como aquele pertencia a
máfia.

Descemos na entrada do estabelecimento e Marco entregou a chave


para um dos manobristas. Os soldados ficaram do lado de fora, dentro dos
carros, e pude ter a ilusão de que jantaríamos sozinhos.

Entramos de braços dados, com Marco acariciando a minha mão.


Meus olhos vasculhavam o lugar inteiro, observando cada detalhe. As
paredes eram revestidas de madeira na cor branca e adornadas de fios
dourados. O teto tinha pinturas que me lembravam vários afrescos que vira
durante o meu tempo no Vaticano. As mesas eram cobertas por uma toalha
branca e as cadeiras, feitas em madeira, tinham estofados claros que também
eram ornamentados com dourado. Era ouro, exibido nos mínimos detalhes.
— Boa noite. — Marco se aproximou de um homem que estava em
um púlpito na entrada.

— Senhor Bellucci! — O homem pareceu surpreso em ver o Marco.


Imaginei que ele não deveria ir muito ali.

— Quero uma mesa para mim e para a minha esposa.

— Eu irei providenciar. Me sigam, por favor. — Fez um gesto para


que fôssemos atrás dele.

— Se tiver uma perto da janela para que eu possa ver o Coliseu, eu


ficaria muito grata.

— Na janela — disse Marco para o homem.

— Sim, senhor.

— Aqui você não pede, amor, você exige — disse ao pé do meu


ouvido para que apenas eu ouvisse.

De toda a frase que ele disse, me atentei apenas a uma palavra:


amor... Meu marido me chamou de amor.

— Essa é do seu agrado, senhora Bellucci? — Paramos ao lado de


uma mesa e o homem apontou para ela.

Olhei para a janela e para a mesa, analisando o ângulo.

— Eu prefiro aquela ali. — Apontei para a da frente.


Marco apenas olhou para o homem e ele foi até a mesa da frente, tirou
os papéis com os nomes que havia nela e fez um gesto para que nos
aproximássemos. Marco puxou uma cadeira para mim e me acomodei, antes
que ele desse a volta e sentasse na minha frente.

— Traga o cardápio e o seu melhor sauvignon blanc — ordenou


Marco.

— Sim, senhor.

— Você entende de vinhos? — Debrucei-me sobre a mesa para atrair


a atenção do meu marido para mim.

— Um pouco.

— Vai me dizer que vocês também têm vinhedos?

— Temos muitos negócios, Laís. Para que lugares como esse não
levantem suspeitas, é necessário que eles sejam mantidos em pleno
funcionamento.

— Você me levaria para conhecer os vinhedos um dia? Tenho muita


vontade de ver um de perto.

— Sim. — Ele esticou a mão a acariciou o meu rosto com o polegar.

— Obrigada, Marco.

— Casar comigo não foi tão ruim assim, foi? — questionou em um


tom brincalhão.
— Tenho que pedir desculpas mais uma vez por ter fugido. Você é
incrível!

— Não sei se essa é a palavra certa, mas não quero ser de forma
alguma um pesadelo para você.

— Pode ter certeza de que não é. — Beijei as pontas dos seus dedos.
— Marco... — Engoli em seco e parei no meio da frase.

— Sim? Diga! Não precisa me esconder nada, Laís.

— Eu... estou apaixonada por você.

Vi os olhos dele se moverem, mas logo ele voltou para uma expressão
ilegível. Fiquei com vergonha e não sabia se deveria ou não ter falado o que
havia dito. No casamento que tínhamos havia espaço para paixão? Marco não
queria ser um monstro para mim, mas era certo amá-lo?

Durante os minutos que ele ficou me encarando sem dizer nada, fui
tomada por dúvidas. Logo me arrependi de ter dito o que dissera, pois,
certamente, ele não parecia pronto para ouvir aquelas palavras.

Um garçom se aproximou de nós e serviu as taças com o vinho


branco. A presença dele foi o suficiente para dissolver o clima tenso que
havia se acumulado. Fiquei grata por isso e me perguntei se poderia fingir
que não havia dito nada.

Marco pegou sua taça, girou o vinho, cheirou e tomou um gole.


— Bom.

— Obrigado, senhor. — Agradeceu o garçom.

— Experimente. — Marco fez um gesto para que eu pegasse a minha


taça.

Tomei um gole e tentei não fazer uma careta, mas não me saí muito
bem, pois Marco gargalhou.

— Não gostou?

— Um pouco amargo.

— Ainda preciso treinar o seu paladar para apreciar boas bebidas.

— Desculpe desapontá-lo.

— Não me desaponta. Gosto de ensiná-la.

Sorri para ele e tomei outro gole do vinho.

— Traga para ela um rosé suave — disse meu marido ao garçom. —


Minha esposa ainda toma bebida de criança.

Ri e mandei um beijo para ele. Marco piscou para mim em retorno.

Apesar do desconcerto quando disse que estava apaixonada por ele,


Marco logo amenizou o clima e eu voltei a sorrir feliz. Eu poderia até não tê-
lo morrendo de amores por mim, mas poderia ser uma mulher alegre.
O garçom retornou com um outro vinho e uma taça. Serviu uma dose
para mim e eu bebi. Ele tinha o amargo do álcool, mas era bem mais doce do
que o outro que eu havia tomado com Marco. Agradeci com um sorriso e o
homem deixou a garrafa.

— Salada Caprese para a entrada e Ravioli de pato como prato


principal. — Marco fechou o cardápio e o devolveu ao garçom.

— Irei providenciar.

— Obrigada. — Agradeci, e Marco não reprendeu meu ato de


gentileza.

Virei a cabeça e fiquei admirando o Coliseu através da janela. Já era


noite, mas as luzes destacavam o enorme monumento em meio ao céu escuro.

— Gostando da visão?

— Muito.

— Fico contente.

— Às vezes você tem tempo para isso?

— Isso o quê?

— Vir a restaurantes, ficar admirando monumentos, essas coisas mais


triviais.

— Eu posso tirar tempo por você.


— Ficaria muito grata.

Nossos olhos ficaram firmes um no outro mais uma vez, mas Marco
desviou quando o garçom trouxe nossas entradas.

Comemos em silêncio e logo chegou o prato principal. Meu marido


fez uma ou outra afirmação sobre a comida, mas deixou que eu comesse
tranquilamente.

— Tem espaço para sobremesa? — perguntou quando eu terminei.

Balancei a cabeça, fazendo que sim.

Marco levantou a mão e o garçom veio até nós.

— Zabaione gratinado com morangos.

— Já trarei, senhor.

— Ficaria muito feliz se você me trouxesse a esse restaurante outras


vezes.

— Tem vários outros para você conhecer.

— Parece uma boa ideia também.

— Imaginei que fosse gostar.

Desfrutei da sobremesa enquanto olhava para ele. Marco parecia


ainda mais bonito quando sorria para mim. Tirando a forma como chegamos
no restaurante, durante o jantar até pude esquecer de que ele era o chefe da
máfia, e o vi apenas como o meu marido.
Capítulo Trinta e Dois

Marco havia dito que não voltaríamos para a mansão naquela noite e
eu estava ansiosa para saber onde ele me levaria depois do jantar. Apesar de
morar em Roma há anos, eu não conhecia quase nada da cidade. A minha
vontade de ser um pássaro livre havia morrido durante o tempo de fome e frio
em Milão, mas quando estava com o Marco, era como se ele me fizesse voar.

— Para onde vai me levar agora? — Envolvi seu braço com os meus
quando saímos do restaurante.

— Não está cansada?

— Posso dormir amanhã quando voltarmos para casa.

Ele riu e balançou a cabeça em negativa.

— Meu plano envolvia um lugar com uma cama.

— Onde?

— Ali. — Ele apontou para um belo hotel do outro lado da rua. —


Vamos dormir fora, mas não significa que não vamos dormir.

— Parece um lugar lindo.

— Você verá por dentro. — Segurou a minha mão e me guiou até a


faixa de pedestres para que pudéssemos atravessar.
Assim que pisamos nos degraus de pedra amarelados da entrada do
hotel, uma chuva fina começou a cair e eu ri. Apertamos o passo para entrar
na recepção.

— Foi por pouco.

— Na verdade, eu acho uma pena.

— Por quê? — Franzi o cenho.

— Gosto de vê-la molhada. — Ele me dirigiu um sorriso malicioso e


eu cobri o rosto ao me recordar de quando havíamos feito sexo debaixo do
chuveiro.

— Então vem. — Puxei a mão dele e o arrastei de volta para a calçada


diante do hotel.

— O que está fazendo? — Cruzou os braços e me recriminou


enquanto as gotas da chuva caiam sobre seus ombros e eram absorvidas pelo
blazer do seu casaco.

— Dançando na chuva. — Girei nas pontas dos pés e abri os braços,


recebendo a água que caía com calma.

— Ficou louca, Laís?

— Não. Só estou me divertindo. — Balancei de um lado para o outro


enquanto a chuva tornava o meu cabelo cada vez mais grudado ao corpo.

— Vai ficar resfriada.


— É só uma chuva, Marco.

— Vamos entrar. — Ele veio até mim e me pegou no colo. Por


reflexo, envolvi o seu pescoço e tombei a cabeça no seu ombro.

Meu marido foi comigo nos braços até a recepção e não me soltou ao
chamar a atenção das mulheres que trabalhavam atrás do balcão.

— A chave da suíte master.

— Sim, senhor Bellucci. — Uma das mulheres se curvou, pegou uma


chave e a entregou para o meu marido.

Comigo nos braços, Marco foi até o elevador e subiu para o último
andar do hotel. Eu me encolhi e esfreguei os braços quando o ar
condicionado me lembrou que eu estava molhada.

— Poderia ficar doente. — Marco abriu a porta e me colocou de pé no


centro de uma bela sala de estar, com móveis que me lembravam séculos
passados. As paredes eram decoradas com belas pinturas no estilo barroco e
as janelas estavam fechadas.

— Você iria cuidar de mim.

— Não abusa. — Ele segurou o meu rosto com as duas mãos e seu
olhar fez com que eu ficasse quente novamente.

Examinei seu cenho franzido, suas sobrancelhas escuras, os olhos


azuis, o nariz em um triângulo perfeito e a boca fina. Umedeci os meus
lábios, chamando sua atenção para eles e Marco se curvou. Sem tirar as mãos
do meu rosto, ele dominou a minha boca e me tornou refém da sua língua. O
beijo ardente até me fez esquecer de que o meu corpo estava molhado, pois
todo o calor que eu perdia para aquecer a roupa era reposto por ele.

— Estamos molhados. — Ele afastou a boca para dizer.

— Então tira a minha roupa — pedi sem pensar muito. Havíamos


feito sexo dentro da loja, mas havia sido rápido demais, com urgência.
Depois do dia que tivemos juntos, queria saborear o momento íntimo com
meu marido.

Não precisei falar de novo. Marco subiu a mão pelas minhas costas,
encontrou o zíper do meu vestido e deslizou-o até a minha cintura. Puxou as
mangas da peça e eu movi os braços para que Marco a empurrasse para o
chão.

Meu marido voltou a me pegar no colo e atravessou a sala, entrando


no quarto e me levando até um banheiro. Ele me botou no chão sobre um
tapete macio e abriu o registro da enorme banheira branca.

Ele me tomou em um beijo de novo enquanto esperava a água estar


adequada para o nosso banho. Seus lábios pressionavam os meus em uma
fricção deliciosa, quando subi com as mãos pelo blazer do seu terno e abri os
botões. Empurrei a peça para trás e Marco estendeu os braços para que eu
pudesse removê-lo. Assim que a peça caiu no chão, fiz o mesmo com sua
camisa. Daquela vez, eu não iria ficar nua sozinha.
Marco removeu o meu sutiã e eu puxei sua calça para baixo. Tirei
minhas sandálias ao passo que ele tirava os sapatos e as meias. Logo ele
estava apenas com a cueca e eu com a calcinha. Marco fechou o registro da
banheira, derramou umas gotas do frasco que estava na beirada com sais de
banho e ligou a hidromassagem, fazendo espuma.

— Vem aqui. — Ele me puxou pela cintura e empurrou minha roupa


íntima para baixo. Rebolei até que a peça escorregasse pelas minhas coxas e
fosse parar no chão. — Tem algo que quero ensiná-la.

— O quê?

— Ajoelha. — Ele se sentou na beirada da banheira e abriu as pernas.

Segui a orientação e me ajoelhei entre as suas pernas. Marco pegou as


minhas mãos e as colocou na sua cintura, sobre o elástico da cueca boxer.
Entendi que era para tirá-la e foi o que eu fiz, e seu membro logo saltou,
rígido, diante dos meus olhos. Devido a minha vida conjugal com o Marco,
eu já havia me acostumado a vê-lo como veio ao mundo e não me
embaraçava mais quando se despia.

Ele subiu com a mão pela minha nuca e segurou firme o meu cabelo.
Imaginei que fosse me beijar, mas, ao invés disso, moveu a minha cabeça
para baixo até que a ponta do seu membro estivesse bem perto do meu rosto.

— Abre a boca, Laís. — Sua voz era rouca e eu podia perceber a sua
excitação em me ver daquele jeito.
— Quer que eu...

— Chupa! Quero que me chupe. É simples, só me colocar na boca e


me envolver com os lábios. Nada de usar os dentes.

Com a mão livre, ele pegou uma das minhas e a colocou rodeando a
base do seu membro. Deixei de lado a vergonha, abaixei a cabeça e toquei a
ponta pulsante. Sorvi o líquido que havia acumulado ali e percebi o Marco
revirando os olhos em antecipação ao que eu faria a seguir. Abri bem a boca
e o acomodei na minha língua, deixando que escorregasse até tocar a minha
garganta.

— Isso! — Marco gemeu, movimentando a minha cabeça para que eu


subisse e descesse por sua extensão.

Coloquei a outra mão ao lado da que já o envolvia e segurei o pênis


com mais firmeza. Marco, agarrando o meu cabelo, ditava os meus
movimentos e me ensinava como dar prazer a ele daquela forma. Minha boca
salivava muito, saboreando o fato de tê-lo ali.

A boca não era a única parte do meu corpo que reagia ao beijo íntimo.
Meu sexo pulsava a cada movimento que eu fazia, latejava, pedindo para ser
preenchido. Era como se não fosse justo a minha boca estar recebendo
atenção ao invés dele. Quanto mais eu chupava o pênis do Marco, maior era a
vontade de que ele me penetrasse e mais eu esfregava minhas coxas uma na
outra.

Meu marido soltou o meu cabelo, no entanto eu continuei me


movendo, mais rápido e com mais afinco, até que fui surpreendida com o seu
líquido. Não parei de chupar até engolir a última gota, e a pulsação no meu
sexo ficou frenética.

Ele acariciou a minha cabeça e puxou-a para trás, fazendo com que eu
parasse.

— Chega.

Assenti ao me apoiar nas suas coxas e me levantar.

Marco me guiou para dentro da banheira e fez com que eu me


sentasse de costas para ele, acomodada entre suas pernas e apoiada no seu
peito.

Ele abriu um pequeno frigobar que havia na lateral e tirou dele duas
taças e uma garrafa de champagne. Removeu a rolha em um estalo e serviu
para nós dois, derramando um pouco dentro da água.

Meu marido bateu a taça na minha em um brinde e eu tomei uma boa


dose, deixando que as bolhas da bebida tirassem o gosto adstringente na
minha boca.

Marco também tomou um pouco antes de colocar a garrafa e a taça na


lateral. Ele enrolou o meu cabelo e o colocou sobre o meu ombro esquerdo.
Sua boca veio parar na minha nuca e eu movi o corpo para frente por reflexo,
arrepiando-me toda.

— Você é muito bonita, mas eu não pensava que fosse gostar tanto.
— Gostar do quê?

— Do seu cheiro. — Fungou o meu pescoço. — Do seu sabor. —


Lambeu a minha pele.

— Posso dizer o mesmo.

Antes de estar frente a frente com o meu marido, eu não imaginava


que ele fosse um homem tão bonito e desejável.

Com as mãos cheias de sabão, ele envolveu os meus seios e os


pressionou. Joguei a cabeça para trás e apoiei no seu ombro, esfregando o
meu corpo no seu. Com os dentes raspando pelo meu pescoço e a língua
brincando com o lóbulo da minha orelha, Marco me acariciava e brincava
com os meus mamilos.

Completamente embriagada pela excitação, meu sexo latejava e eu


roçava meu corpo no dele, mesmo o sabão me fazendo escorregar, e sentia a
minha pele ficando cada vez mais quente.

Peguei uma das suas mãos e a coloquei no meio das minhas pernas.

— Marco — gemi em súplica.

— Você me quer?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Diga, Laís! Deixe-me ouvir a sua voz.


— Sim, eu quero, por favor.

— Se apoie na lateral da banheira.

Tombei o meu corpo para frente e segui sua instrução. Fiquei


ajoelhada, com os meus seios pendulando sobre a água. Marco se acomodou
atrás de mim. Virei a cabeça para trás e encontrei seus olhos. Lá fora eu podia
ouvir a chuva caindo, mas meu marido era a única coisa que prendia a minha
atenção.

Senti seu pênis firme escorregando pelo vale entre as minhas nádegas
até encontrar a minha fenda pulsante e muito úmida. Marco segurou a minha
cintura e entrou num tranco firme sem qualquer obstáculo.

Gemi alto e cravei minhas unhas no azulejo em meio aos espasmos de


prazer intensos que vieram com a primeira estocada. Felizmente, naquele
quarto, assim como no nosso, eu não precisava fazer silêncio.

— Você gosta? — Ele se moveu lentamente para fora e eu chiei.

— Sim... — murmurei quando Marco investiu com força outra vez.

Rebolei nele e o incentivei a continuar. Logo os movimentos foram se


tornando mais velozes e o vai e vem, frenético. Não conseguia fazer outra
coisa que não fosse agarrar-me na banheira e gemer, enquanto meu marido
impulsionava o meu corpo para frente.

Marco agarrou o meu cabelo molhado e me puxou para trás. Com


uma mão na minha cintura e a outra me segurando firme, ele beijava o meu
pescoço e eu me retorcia de prazer a cada investida.

Não demorou para que o meu corpo explodisse em efeitos


formigantes, que me deixaram completamente paralisada. De olhos
arregalados, fiquei encarando o teto branco e decorado com fios dourados e
gessos enquanto gemidos saiam do fundo da minha garganta.

Marco só parou de se mover quando ele chegou ao ápice pela segunda


vez. Sua língua deslizou até a minha orelha e pude ouvir a sua respiração
ofegante enquanto nós dois esperávamos nos recuperar do estopim.

Quando ele sentou na banheira, me puxou para os seus braços e me


envolveu. Fiquei com a cabeça apoiada no seu peito e permiti que me
afagasse durante os longos minutos em que não falamos nada, apenas
sentimos o calor um do outro.

— Gostou de hoje? — Escorregou os dedos pelo meu cabelo.

— Só tem uma coisa que não gostei.

— O quê? — A voz dele ficou tensa, mas não parou de acariciar o


meu cabelo.

— Ele está acabando.

Marco riu e percebi que seu semblante se aliviou.

— Isso não é um problema.

— Como não?
— Porque não é o único dia como esse que teremos.

— Então vou ansiar muito pelos próximos. — Voltei a deitar-me nele.

Ficamos na banheira por muito tempo até que a água começou a


esfriar. Tomamos uma ducha rápida para tirar o sabão e fomos para a cama.

Pensei se alguma das muitas noviças que havia conhecido no


convento acreditaria se eu contasse como estava sendo a minha vida como
esposa do chefe da máfia italiana.
Capítulo Trinta e Três

Estou apaixonada por você...

Ouvi a voz da Laís ecoar na minha mente quando pensei no jantar que
tivemos juntos há alguns dias. Era bom que a minha esposa me amasse, isso
tornava tudo bem mais fácil, porém o que me incomodava tanto era o fato de
que eu não soube o que fazer ou como reagir, assim acabei desviando do
assunto. Eu poderia ter dito qualquer coisa, mas não disse nada. O que isso
significava? Será que eu também estava apaixonado pela minha esposa
quinze anos mais jovem do que eu?

O chefe da máfia também era capaz de se apaixonar?

— Marco?

Pisquei os olhos quando percebi que o Theo estava me chamando.


Desci do carro diante de um velho prédio abandonado, ou ao menos era o que
pensavam.

Fazia anos que um dos capi, o chefe da família D’Angelo, usava


aquele lugar como centro de operações no bairro Quadraro, o território que o
meu bisavô havia designado para a família deles muitos anos antes.

Chequei à arma na minha cintura e me certifiquei de que havia um


canivete escondido no bolso interno do meu blazer, antes de seguir pelo velho
portão de ferro atrás dos meus homens e com o meu irmão ao meu lado.
Muitos chefes antes de mim, incluindo o meu avô, tinham o péssimo hábito
de andarem sozinhos. Não me surpreendia que acabaram sendo mortos pela
polícia ou por rivais.

O chão rangeu quando pisei no assoalho. Aquela casa era tão velha
por dentro quanto parecia por fora. Esperei que os meus homens seguissem
até passar do hall e ir para a sala. Entrei no espaço mal iluminado, devido as
pesadas cortinas nas janelas, mas nem foi isso o que mais me incomodou e,
sim, o cheiro de poeira.

Olhei melhor para a sala e vi no fundo dela Sânzio D’Angelo, o chefe


da família, sentado em uma poltrona no centro do cômodo, como se fosse a
porra de um rei. Bufei. Se havia um rei naquela merda era eu, mas não
imaginava ter vindo tão longe só para mostrar isso a ele.

— Espero que tenha algo muito importante para contar ao me fazer


vir até aqui.

— Sabe que eu não o desapontaria.

— Estou ouvindo. — Cruzei os braços e o encarei.

— Resta apenas me dizer quanto vai me pagar por essa informação.

— Primeiro você fala, depois eu decido o quanto vale. Pelo seu bem,
é melhor que valha ao menos o meu tempo, pois tenho muito mais o que
fazer.

— Quero dez por cento a mais na venda da próxima entrega.


— Está exigindo demais sem ter nos dado nada em troca. — Theo
tirou a arma do coldre e a apontou para a cabeça do homem.

Os nossos soldados se moveram, mas os homens de D’Angelo


também. Sabia que o meu irmão estava apenas ameaçando, mas se Theo
atirasse, facilmente transformaria aquilo em um tiroteio. Eu não queria
derramamento de sangue desnecessariamente.

— Estou ouvindo. — Segurei o cano da arma do meu irmão e a


apontei para o chão. — Dou os dez por cento se achar que a informação valha
isso.

Theo recuou e guardou a arma.

— Meu filho estava em Milão. Ele tem interesse em se casar com


uma das primas de Donatella.

— Quer os meus parabéns? — disse Theo ríspido.

— Deixe-me terminar — interveio o homem. — Ele presenciou uma


reunião dela com o chefe dos Costas, de Portugal.

— O que eles disseram nessa reunião? — Não demonstrei, mas ele


tinha conseguido prender a minha atenção.

Sânzio fez um gesto e um homem saiu do lado dele e parou na minha


frente.

— Eles conversavam sobre você e a sua esposa.


— O quê, especificamente?

— Seu casamento nãos os agradou.

— Nem Jesus agradou a todos. Isso não é nenhuma novidade para


mim, sei muito bem que Donatella não queria a Laís na posição em que está,
mas resta a ela apenas aceitar.

— Eles estão tramando algo.

— O quê?

— Não consegui ouvir a conversa toda. Os homens dela iriam me ver


e eu precisei sair.

— Então não tem nada — rosnou Theo.

— Ganhou a generosidade do meu tempo — falei para Sânzio


D’Angelo. — Se quiser os dez por cento, me traga a informação completa.

— Eu trouxe, disse que a sua mulher está correndo risco.

— Ela sempre vai correr riscos. É a mulher do chefe. — Dei às costas


e fiz um gesto para que os meus homens me seguissem.

Donatella já era muito perigosa sozinha, mas aliada aos Costas ela
poderia ser letal. Queria acreditar que eu tinha conseguido blindar a Laís dela,
mas não conseguiria respirar aliviado até que não houvesse mais qualquer
ameaça.
Capítulo Trinta e Quatro

Finalmente os filhos deixaram que Rosimeire saísse para fazer a


entrega dos livros, que ela comprava anualmente para as crianças da
comunidade onde nasceu. Marco me deixou ir junto e eu não poderia estar
mais feliz. Iria ser ótimo sair da mansão para fazer algo útil na companhia de
uma pessoa que eu gostava muito, a minha sogra.

— Laís?

— Oi? — Estava olhando o movimento da rua no lado de fora do


carro e me virei para a Rosi quando notei que ela estava falando comigo.

— Eu fiz uma pergunta.

— Desculpa, eu não ouvi.

— Você e o Marco estão bem, não estão? Ao menos é o que parece, e


isso me deixa muito contente, pois o meu filho merece ser feliz, e você
também.

— Acho que estamos.

— Acha? — Ela franziu o cenho e eu percebi que havia falado algo


que não devia. Existiam pensamentos que eu deveria guardar apenas para
mim.

— Estamos! Estamos, sim.


— O que aconteceu, querida? — Viajávamos sentadas no banco de
trás do carro e ela estendeu a mão para tocar a minha, que estava sobre a
minha coxa.

— Não é nada.

— Parece que algo a está perturbando.

— Você tem razão, como sempre tem. Marco está sendo um bom
marido. É gentil, cuidadoso e faz com que eu me sinta especial.

— Mas...

— Eu me apaixonei por ele. Não sei se fiz certo, mas revelei os meus
sentimentos quando saímos alguns dias atrás e ele não disse nada. Creio que
não gostou. Eu não sei... — Balancei a cabeça em negativa. Não sabia se
deveria revelar os meus anseios para a minha sogra, mas aquilo estava me
incomodando por demais.

— É pouco provável que ele não tenha gostado. É seu marido, por que
não iria querer que você se apaixonasse por ele?

— É que... — Engoli em seco, sem saber exatamente o que dizer.

— Pode até não parecer, mas para o Marco tudo é tão novo quanto é
para você. Dê um tempo para a ele, irão encontrar uma forma de fazer esse
relacionamento funcionar, como já estão encontrando.

— Obrigada, Rosi. Seus conselhos estão sendo muito preciosos para


mim. Eu não tinha em quem me apoiar até conhecê-la.

— Sempre estarei aqui, filha. — Sorriu para mim de forma amistosa.


— Quero ver você e o meu filho felizes. Sei que no mundo em que vivemos
parece impossível à primeira vista, mas eu sei por experiência própria que é
possível.

— Sim, é possível. Estou muito feliz por estar aqui com você. Vai ser
ótimo conhecer outros lugares de Roma e interagir com outras pessoas,
principalmente com crianças.

— Faz muito bem, você verá. Sei melhor do que ninguém o quanto é
terrível ficar presa naquela mansão, mas é para a nossa segurança. Somos o
ponto fraco deles e irão querer nos atingir sempre.

— Isso não para nunca?

— Infelizmente, não. Temos que nos curvar às regras desse mundo.

— O que acontece com quem não se curva?

— Quebra.

Engoli em seco.

— Continue assim. Você está indo muito bem. Marco está


visivelmente feliz e isso é tudo o que importa. Só Deus sabe quanto eu rezei
para que o meu filho saísse da influência daquela mulher. Você é esse
milagre, Laís.
— Está falando da Donatella?

— Sim. É realmente verdade quando dizem que por trás de um grande


homem, existe uma grande mulher. Marco era um monstro quando estava
com aquele demônio, mas você, querida, é um anjo, tudo o que ele precisava
para não ser corrompido completamente pela escuridão que o cerca.

— Acha que ela ainda conseguirá o que quer, ter o Marco de volta?

— Enquanto o Marco tiver você, ele não voltará a ceder a ela.

Eu sorri. Deveria estar contente com isso, porém logo me lembrei da


imagem da Donatella com a faca afiada no meu pescoço. Rosimeire sabia o
que o seu filho precisava para ficar longe daquela mulher, mas eu tinha
certeza de que Donatella também tinha esse mesmo conhecimento.

Estava tão distraída com os meus pensamentos, que só notei que o


carro havia parado quando Rosimeire desceu assim que um dos soldados
abriu a porta do veículo para ela. Estava cada vez mais acostumada a ser
seguida por eles para todo lugar, que nem me incomodava mais. Estavam ali
para a minha proteção. Com Donatella por aí, era melhor que eu não abusasse
da minha própria sorte.

Entramos no que me parecia ser uma escola pública. Os muros


externos estavam pichados e as paredes do interior também. Vi algumas
janelas danificadas e imaginei que pudessem ter sido quebradas por alguns
vândalos. Eu havia sido instruída dentro do convento por freiras que tinham
conhecimento em diversas áreas. Algumas tinham inclusive sido professoras
antes de decidirem pelo caminho da devoção eterna. Não fazia ideia de como
seria estudar em um lugar daqueles, mas imaginei que não fosse fácil.

Os homens de Marco se espalharam por todo o prédio. Cobriam


entradas e saídas, ficando perto das principais janelas e se posicionando
estrategicamente no ginásio quando Rosimeire e eu entramos no local. Fiquei
me perguntando se a segurança de princesas ou de outras personalidades
importantes era tão grande quanto aquela, ou maior.

Os homens trouxeram caixas e mais caixas de livros que Rosi havia


comprado e as colocou em uma pilha perto da arquibancada.

— Pode me ajudar aqui, Laís? — Ela fez um gesto para que eu me


aproximasse.

— Sim. O que posso fazer?

— Ajude-me a distribuir. As crianças devem chegar logo. Essas


caixas aqui — apontou — têm livros mais infantis. Já aquelas outras ali têm
livros para adolescentes, que já tenham um domínio melhor da leitura.

— Certo.

Logo eu ouvi gritos e quando me virei, vi crianças entrando em fila


indiana atrás de homens e mulheres, que imaginei que pudessem ser seus
professores.

— Oi! — Sorri para uma menina que se aproximou de mim.


— Oi. — Ela sorriu de volta.

— Tenho uma ajudante dessa vez — disse Rosimeire para as pessoas


mais velhas que se aproximaram.

— Nós agradecemos muito pelo carinho com as crianças, senhora


Bellucci.

— É só um pouquinho que eu faço para que elas possam ter mais


conhecimento. São muitos títulos diferentes, de autores do mundo inteiro.
Peço que vocês os incentivem a trocar os livros, depois que terminarem, para
que possam tem acesso ao maior número de histórias possíveis.

— Sim, faremos isso.

Eu abri umas caixas e fui entregando os livros para as crianças que se


aproximavam de mim. A alegria que sentia naquele momento era
indescritível. Ficava emocionada com cada exemplar que entregava. Entendi
bem por que Rosimeire fazia isso todos os anos. A satisfação pessoal ao ver
aquela pequena nação tão contente era enorme.

Logo as caixas foram esvaziando e muitas crianças saíam contentes


com um livro nas mãos.

— Moça! — Uma das crianças puxou a barra da minha saia e eu


curvei a cabeça para encará-la.

— O que foi?
— Você pode ler para nós? Sempre gosto quando a minha mãe lê para
mim.

Eu olhei para a Rosi e ela balançou a cabeça em afirmativa,


incentivando-me a atender o pedido.

— Vou ler o primeiro capítulo, tudo bem? — Peguei o livro da mão


da menina e ela balançou a cabeça, concordando com a minha condição.

Fui para a outra extremidade do ginásio e quando me sentei no


primeiro degrau da arquibancada, vi que uma roda com muitas crianças havia
se formado ao meu redor. Abri o livro e olhei para eles antes de começar a
ler.

— Lorenzo subiu até o alto de uma enorme montanha, com muito


esforço, pois a caminhada era íngreme, mas quando ele chegou lá em cima,
olhou ao redor, podendo ver tudo do ponto mais alto da cidade e viu que a
caminhada árdua havia valido a pena...

Enquanto eu lia, podia ver o rosto de cada criança e toda a


concentração. Estava fazendo uma coisa simples, mas era algo bom, que
tocava o coração de cada uma delas e isso me deixou muito feliz. Com
certeza iria querer fazer parte daqueles momentos mais vezes.

Quando eu vi, já tinha lido muito mais do que o primeiro capítulo e


estava quase no meio do livro.

— E o que acontece agora, moça? — perguntou um menino ao


levantar a mão.

— Vão ter que ler para descobrir.

— Ah...

— A graça é vocês lerem o livro.

— Queremos saber o que vai acontecer.

Olhei para Rosimeire parada logo atrás da roda de crianças e imaginei


que ela deveria estar me esperando para irmos embora, porém não disse nada
para não me interromper.

— Quem se candidata a vir aqui para assumir o meu lugar?

— A moça, continua você, conta tão bem-disse outra criança da


pequena multidão.

— Quem sabe numa próxima oportunidade?

Uma professora veio para perto de mim e pegou o livro, assumindo o


meu lugar.

— Obrigada.

— Nós quem agradecemos pelos livros e por terem dedicado um


pouco do precioso tempo de vocês duas para ficarem com as crianças.

Tempo era algo que eu tinha de sobra, mas, infelizmente, eu não


poderia ir até ali sempre, principalmente na mira da Donatella.
— Vamos? — chamou Rosimeire, quando me aproximei dela.

— Sim. Muito obrigada por ter me trazido. Estou feliz por esse
momento que passei com eles.

— Você tem jeito com crianças, certamente será uma ótima mãe.

Não disse nada. Para ser sincera, não sabia o que dizer, pois não tinha
pensado sobre quando isso aconteceria. No convento, sempre me diziam que
Marco iria me encher de filhos, mas depois de tudo estar sendo tão diferente
do que pregavam, não me preocupei com isso. Era incapaz de ter certeza
sobre como ou quando aconteceria. Sabia muito pouco da relação de marido e
mulher, pois tudo o que tinham dito era só para me assustar. O máximo que
eu tinha certeza era que filhos aconteciam com o sexo, e isso estávamos
fazendo bastante.

Rosi fez um gesto com a cabeça e eu a segui pelo caminho por onde
havíamos entrado e fomos em direção ao carro em que viemos, que era
dirigido por um dos homens que servia ao meu marido.

Um dos soldados se aproximou da porta para abri-la e antes que Rosi


e eu chegássemos mais perto do veículo, uma menina veio correndo e
abraçou a minha perna.

— Muito obrigada.

Eu ia me ajoelhar para abraçá-la, para dizer que era eu quem estava


contente pelo momento que passei com eles, porém, antes que eu movesse o
meu corpo, ouvi um estrondo. Virei a cabeça e vi um clarão tomar conta do
|veículo. Não tive tempo de pensar racionalmente ou mesmo refletir sobre o
que estava acontecendo antes que uma força muito intensa me impulsionasse
para trás e me fizesse voar alguns metros.

Então tudo ficou escuro.


Capítulo Trinta e Cinco

Abaixei o mapa que analisava e olhei os meus irmãos que estavam me


encarando em busca de uma solução para o conflito em Gregna.

— Então, o que acha que devemos fazer? — perguntou Mateo.

— Querem tomar a região e eu não quero dor de cabeça. Então não


deixem que vire uma guerra de gangues. A eleição para o novo prefeito de
Roma está chegando e, para que o nosso candidato seja reeleito, é melhor que
a cidade pareça o mais segura e pacífica possível.

— Então o que quer que mandemos fazer com os Pagano? — Theo


saiu de perto da janela e caminhou para perto da mesa, parando na minha
frente.

— Mande dar uma lição neles. Se não for o suficiente, esmague-os,


mas tenham certeza de que nada sairá nos jornais ou na televisão. Mantenham
contato com os editores. Quero a garantia de que até a eleição não haverá
nenhum incidente que possa mudar a opinião da população a respeito do
prefeito.

— O pronunciamento do cardeal Muller vai ao ar hoje à noite, e ele


me garantiu que transmitirá uma mensagem sutil de apoio ao atual prefeito.
Sabe bem quanto a opinião dos clérigos é decisiva.

— Garanta que ele faça isso ou lembre-o de esquecer qualquer


possível indicação...

A minha fala foi interrompida por um homem que entrou ofegante no


meu escritório. Ele bateu na porta, mas abriu-a antes que eu ou um dos meus
irmãos dissesse qualquer coisa.

Rosnei e Theo apontou uma arma para ele.

— Como ousa entrar assim? — Levantei da minha cadeira e bati com


as duas mãos na mesa em um ato de fúria.

— Desculpe-me, senhor, mas algo terrível aconteceu.

— O que houve de tão terrível para ousar provocar a ira do chefe?

— Uma bomba explodiu no carro que levava a sua esposa e a sua


mãe.

— Bomba? — repeti, incrédulo, e pela primeira vez em anos eu senti


as minhas pernas vacilarem.

Eu tinha me deparado com inúmeros desafios ao longo da vida,


também enfrentara a morte de diversas formas. Acreditava que estaria pronto
para qualquer coisa, pois fora criado para isso. No entanto, percebi naquele
momento que havia algo que poderia me fazer estremecer.

— A Laís...

— Ela e a sua mãe estão em um hospital. Foram levadas para lá pelos


homens que estavam com elas.
— Qual hospital? — Eu empurrei a mesa e saí de trás dela,
praticamente tropeçando até atravessar o escritório e agarrar o homem pelo
colarinho da camisa. Levantei-o no ar e ele engasgou. — Qual hospital,
porra?!

— O San Giovanni.

Soltei o homem no chão e ele caiu como um saco de frutas podres.


Avancei para o corredor, mas Mateo segurou o meu braço, retendo o meu
avanço.

— Ou vocês vão comigo ou saiam do meu caminho! — rugi como o


leão feroz que era.

— Deixa que eu dirijo — Mateo soltou o meu braço e ele e Theo me


seguiram até a garagem. Entrei em uma Ferrari com o Mateo e deixei Theo
articulando para que ele e os soldados seguissem em outros carros.

Enquanto o Mateo dirigia, a minha mente viajava entre as mais


inúmeras possibilidades e eu ficava cada vez mais aflito. Se elas estavam em
um hospital, significava que ainda estavam vivas, mas em quais condições?
Era impossível imaginar.

Eu senti uma dor no peito que jamais havia experimentado antes.


Estava preocupado com a minha mãe e, pela expressão dos meus irmãos, eles
também estavam, porém o meu desespero era evidentemente muito maior do
que o deles. Pensar na possibilidade de que algo pudesse ter acontecido a
Laís me deixava louco.
Estou apaixonada por você... Lembrei-me da declaração dela durante
o nosso jantar. Naquele momento fui incapaz de respondê-la, porque achava
que não fosse me apaixonar, isso não era para homens como eu. Seria um
marido digno e ela, uma boa esposa. Era tudo o que poderíamos ter, ao menos
foi o que pensei até experimentar o agonizante e terrível sentimento de
desespero. O que aconteceria se eu a perdesse?

Balancei a cabeça, não queria pensar nessa possibilidade, pois era


desesperadora. Na minha posição não cabia desespero. Tinha que agir
friamente sempre, mas, daquela vez, eu não conseguiria.

— Calma, Marco. Sua esposa está bem — disse Mateo, tentando me


tranquilizar. Meu irmão me conhecia o suficiente para saber o nome do meu
desespero. — A mamãe também vai estar.

— Eu quero sangue! Quero o desgraçado que tentou matá-la


esquartejado e seu corpo espalhado por toda Roma!

— Tenha calma, irmão.

Eu não podia transformar a cidade em um faroeste às vésperas das


eleições, mas era muito difícil pensar racionalmente.

Meu irmão parou o carro na frente do hospital e eu desci antes que ele
desligasse o motor. Adentrei as portas duplas e cheguei à recepção ofegante,
mas qualquer cansaço físico era irrelevante diante do martírio mental.

— Onde elas estão?


— Quem, senhor? — perguntou uma das enfermeiras ao se aproximar
de mim.

— Minha mãe e a minha esposa, onde elas estão?

— Quem elas são?

— Senhor Bellucci. — Um dos meus homens apareceu e a enfermeira


recuou alguns passos quando ouviu o meu nome.

— Onde?

— Venha comigo, por favor. — Ele fez um gesto para que fosse
seguido e eu o acompanhei por um longo corredor branco até entramos em
um elevador que ficava no final da ala.

Subimos alguns andares. Eu sentia o meu coração acelerado, o que


refletia na minha respiração e no suor que fazia com que os fios do meu
cabelo grudassem na minha testa.

— Elas... — Nem consegui terminar de falar.

— Estão vivas, senhor. Trouxemos elas para cá para que pudessem


ser examinadas. Só o Andreoli, que estava responsável pela direção, foi
explodido junto com o carro. Foi um milagre as duas estarem longe do
veículo no momento em que ele abriu a porta.

— Quem colocou a bomba?

— Não vimos nada.


— Como não viram nada?! — Eu estava a um fio do total
descontrole. Haviam mexido com a única coisa que para mim era intocável, a
minha família.

— Estávamos todos muito concentrados em protegê-las.

— E falharam miseravelmente, seus inúteis!

— Não estávamos esperando uma bomba, senhor.

— Vocês têm que estar prontos para tudo.

A porta do elevador se abriu e ele não disse mais nada. Saí num outro
corredor branco e vi as portas de vários quartos. O homem seguiu na minha
frente e me guiou até um deles. Abri a maçaneta de uma vez e vi Laís deitada
na cama e, ao lado dela, estava a minha mãe, de pé, junto com alguns
profissionais do hospital.

Em uma busca rápida com o olhar, vi que a minha mãe tinha algumas
lesões superficiais, mas estava bem. O que realmente me deixou fora de mim
foi o fato de Laís estar deitada na cama.

— Saiam da frente! — Empurrei os profissionais médicos.

Parei ao lado da cama e ela sorriu para mim.

— Marco!

Examinei a minha esposa com o olhar e vi que ela tinha um


machucado no rosto e os braços estavam ralados.
— Como você está?

— Eu estou bem. — Sorriu para mim do jeito manhoso que sempre


fazia.

— Por que está deitada?

— Estavam fazendo alguns exames, mas eu só me ralei, você não tem


com que se preocupar.

— Vem aqui! — Peguei a cabeça dela e a levantei, fazendo com que


se sentasse. Laís girou as pernas e as colocou para fora da cama. — Eu
também. — Não disse a frase completa, porque ainda não estava acostumado
a expressar tais sentimentos em palavras.

A forma como Laís envolveu meu pescoço com os braços e sorriu


para mim foi suficiente para eu perceber que ela havia compreendido ao que
eu estava me referindo.

— Fora todos! — rosnei. — Fora!

Vi a minha mãe empurrá-los para fora do quarto, mas nem me dei o


trabalho de ter certeza de que tinham deixado o cômodo antes de segurar a
cintura da Laís e a puxar bem para a beirada da cama, acomodando-me entre
as suas pernas.

Eu estava desesperado. A aflição e o medo dentro de mim eram


sentimentos que eu nunca havia experimentado tão intensamente, e me
roubaram o controle. Com o peito subindo e descendo rápido pela respiração
ofegante, só conseguia pensar na minha esposa e no quanto precisava dela.

Segurei seu cabelo, ainda com a mão na sua nuca, e apoiei a minha
testa na sua.

— Eu preciso estar dentro de você. — A minha voz soou rouca,


pesada, e deixei transparecer toda a minha falta de controle.

Muitas vezes eu pisava em ovos diante da Laís para não parecer


monstruoso demais. Contudo, o medo de perdê-la foi tão grande, que não
consegui conter a ânsia desvairada de lembrá-la de que era minha e de que eu
precisava do seu calor.

— Então me toma — falou firme, esfregando as coxas na lateral da


minha cintura.

Levantei a camisola médica que ela usava e encontrei uma pequena


calcinha amarela. Estava tão afoito e desesperado que não tive tempo nem
para tirá-la. Segurei na lateral com as duas mãos e a puxei, a peça cedeu ante
a minha força e rasgou. Abri a minha calça, abaixei a minha cueca e tirei o
pênis o mais rápido possível. Puxei a minha esposa pela cintura e sem
qualquer calma ou ternura, eu a penetrei.

Laís não estava suficientemente úmida e eu senti muito atrito na


parede do seu sexo ao invadi-la. Minha esposa soltou um gritinho, que foi
abafado pelo meu ombro, mas abraçou-me com as pernas incentivando-me a
continuar ali.
Com as mãos na sua cintura, procurei seus lábios e a beijei com fome
e fogo. Devorava sua boca com minha língua enquanto meu corpo se movia
para o seu com estocadas firmes. O sexo, que começou selvagem e
desvairado, foi me acalmando e tê-la, pouco a pouco, devolveu a minha
razão.

Escorreguei a mão pelo seu rosto e comecei a fazer carinho nela ao


começar a me mover mais devagar. Seus gemidos de prazer me embalaram e
eu me esqueci do restante do mundo. Se Laís estava bem, eu também ficaria.

Meu pai me disse uma vez que soube que havia se apaixonado pela
minha mãe ao perceber que o seu coração batia fora do peito. O meu
certamente já não me pertencia mais. Com jeitinho de anjo e a inocência de
uma criança, Laís havia roubado-o de mim sem que eu percebesse.

Gozei nela e logo meus batimentos e minha respiração se acalmaram.


Levei uma das mãos até onde nossos corpos se uniam e a estimulei até que
seus gemidos me dissessem que ela havia chegado lá.

Segurei seu rosto pelo queixo e fiz com que me encarasse.

— Nunca mais me dê um susto desses, amor.

— Eu não sei o que aconteceu.

— Mas eu sei... — Cerrei os dentes ao pensar em um nome.

Donatella.
Ela gostava de me ver como monstro e iria conhecer meu pior lado,
por ousar tocar no que era precioso para mim.
Capítulo Trinta e Seis

Saí do banheiro onde havia entrado para me limpar. Meu corpo ainda
estava todo dolorido pelo impacto da bomba, mas eu estava feliz por estar
viva e por Rosimeire estar bem. Foi um grande golpe de sorte aquela
criancinha ter me parado. Engoli em seco ao ter certeza de que se não fosse
por isso, eu teria explodido juntamente com o carro.

Como esposa do chefe da máfia, eu sabia que poderia correr riscos


por causa dos muitos inimigos que Marco tinha, porém só nesse momento,
estando tão perto da morte, eu tive noção do real perigo.

Ao fechar a porta do banheiro atrás de mim, vi Marco ainda de pé no


meio do quarto. O rosto dele estava vermelho, suas veias estavam saltadas, os
olhos afunilados e os dentes cerrados. Nem o sexo selvagem que ele tinha
feito comigo há poucos minutos fora o suficiente para amenizar seu ânimo.
Eu poderia ser muito ingênua sobre tudo o que ele fazia ao cuidar dos seus
negócios, mas pela sua expressão pude ter certeza de uma coisa: tinham
tentado me matar e ele iria derramar sangue por isso.

Ouvi uma batida na porta. Marco colocou a mão na cintura, e percebi


que ele segurava o cabo da arma, mas o soltou quando um médico entrou.

— Senhor Bellucci, podemos conversar? — O médico de cabelos


grisalhos, que parecia ter algo em torno dos cinquenta anos, olhava para uma
pasta cheia de papéis antes de levantar o olhar e encarar o meu marido.
— Não tenho tempo a perder. Quero levar a minha esposa de volta
para casa.

— Ela está bem, e já, já poderá levá-la — respondeu o homem de um


jeito que me fez respirar aliviada. — Na verdade, os dois estão.

— Dois? — Marco e eu perguntamos juntos.

— A senhora Bellucci está grávida de quatro semanas. Fizemos vários


exames nela quando chegou aqui, para ter certeza que não havia nenhuma
hemorragia interna, e durante o ultrassom detectamos o saco gestacional.
Imagino que ainda não soubessem da gravidez.

Balancei a cabeça em negativa e Marco não disse ou fez nada. Nos


últimos dias, eu estava tão ansiosa para a visita à escola que não me
preocupei se o meu sangramento estava ou não em dia.

Ficamos em silêncio por vários minutos, e a cada segundo que se


passava eu ficava mais tensa. Não sabia exatamente como Marco reagiria
aquela notícia e, confesso, que senti um pouco de medo. Ser mãe...

— Os dois não correm riscos?

— Não, senhor.

— Deixe-nos sozinhos.

O médico assentiu e deu as costas, fechando a porta atrás dele quando


deixou o quarto.
— Marco... — comecei a dizer o nome dele, mas me calei quando não
sabia exatamente o que dizer.

Meu marido se virou para mim e me encarou por um momento.

— Vem aqui. — Fez um gesto com a mão para que eu me


aproximasse.

— Eu... Eu não sabia.

— Presumo que não. — Ele segurou a minha cintura e me puxou para


bem perto. — Terei um herdeiro. — Ele sorriu e eu sorri junto, o que tirou
um peso enorme das minhas costas.

Marco usou a mão livre para segurar o meu queixo. Ele levantou a
minha cabeça e me beijou na testa. Suspirei, envolvida pelo seu toque
singelo.

— Terá, sim. — Peguei a mão dele e a coloquei sobre o meu ventre.

— Entende agora quando eu digo que você precisa ficar em


segurança, Laís? — Ele acariciou o meu rosto e colocou uma mecha do meu
cabelo atrás da orelha. — Eu poderia ter perdido vocês dois hoje.

— Eu sei.

— Não quero que deixe a mansão até segunda ordem, tudo bem?

— Sim.
— Eu vou aumentar a segurança e garantir que você seja protegida
vinte e quatro horas.

Balancei a cabeça em afirmativa. Depois do que havia acabado de


acontecer, eu não tinha qualquer argumento para discutir com o Marco. Ele
queria me proteger e eu precisava ser protegida.

— Vamos para casa. — Ele entrelaçou seus dedos aos meus.

Saímos para o corredor e eu notei que ainda estava usando a camisola


do hospital. Encolhi-me com medo de estar mostrando demais, pensei até em
perguntar pelas minhas roupas, mas imaginei que pudessem ter estragado
com a explosão. Marco percebeu que eu estava sem jeito e tirou o blazer do
seu terno e o colocou sobre os meus ombros.

— Obrigada.

Ele não disse nada, nem sorriu, como eu esperava. Contudo, percebi
que os seus homens estavam distribuídos a cada metro do corredor, formando
um túnel para nós até a saída. Os sorrisos do meu marido pareciam algo
restrito apenas a mim, e não me importava, desde que o meu esposo
continuasse me guardando a sua melhor face.

Seguimos pelos corredores brancos até o elevador e, ao chegarmos na


saída, fomos rapidamente em direção a um carro que estava estacionado na
frente do hospital. Um dos homens abriu a porta para que entrássemos no
banco de trás e eu recuei, sendo amparada pelo peito do meu marido.
— Está tudo bem — sussurrou ao pé do meu ouvido, antes de segurar
a minha cintura e me direcionar para dentro do veículo.

Sentei-me no banco de trás de um utilitário preto e Marco se


acomodou ao meu lado, com um dos braços ainda ao redor de mim. Um dos
homens já estava ao volante e deu a partida, se afastando sem demora do
local.

Tombei a cabeça para cima do ombro do Marco e ele acariciou o meu


rosto.

— Onde está a sua mãe?

— Ela está com os meus irmãos.

— Vai ficar tudo bem com a Rosi?

— Sim.

Eu assenti e voltei a me aconchegar nele. Tive medo por alguns


segundos, mas o calor dos braços do Marco me envolvendo fizeram com que
eu voltasse a me sentir segura. Seja lá quem havia tentado fazer aquilo
comigo, era muito perigoso, mas meu marido era mais.

Eu me distraí observando alguns monumentos de Roma passando pela


janela e nem percebi que tínhamos chegado aos portões da mansão. Marco e
eu descemos do carro e entramos na casa. Paramos no meio da sala, meu
marido segurou as minhas mãos e olhou bem para mim.
Eu também. Lembrei-me da sua declaração no hospital, que poderia
não significar nada para a maioria das pessoas, mas para mim, era tudo.

— Tome um banho, e depois peça que te sirvam uma boa refeição.


Agora mais do que nunca você precisa comer bem. — Ele acariciou o meu
ventre e curvou a cabeça para dar um beijo carinhoso nos meus lábios. —
Descanse.

— Você vai sair? — Era uma pergunta óbvia.

— Ninguém tenta atingir a minha família e sai impune.

— Só volte inteiro para mim. — Acariciei seu rosto e ele sorriu ao


beijar as pontas dos meus dedos.

Minha intenção foi ficar nas pontas dos pés e unir meus lábios aos
seus, porém, antes que eu o fizesse, ouvi um barulho e Theo, Mateo e
Rosimeire entraram na sala.

— Os homens estão lá fora?

— Em cada milímetro do jardim, no telhado e em todo lugar —


respondeu Theo.

— Ótimo. Vocês dois vêm comigo. — Marco fez um gesto para que
os irmãos o seguissem e caminhou para fora da sala. Eu os acompanhei com
o olhar até que desaparecessem completamente de vista.

Confiava no meu marido, mas era difícil não sentir uma dor incômoda
no peito e um frio na barriga. Só de me lembrar da vez que ele havia chegado
em casa com a roupa suja de sangue me causava um medo difícil de
controlar.

— Ah, querida. — Rosimeire veio até mim e me abraçou. — Ainda


bem que você não se machucou muito.

— Foram só uns ralados. — Olhei para os meus braços e os arranhões


que havia neles. — E a senhora?

— Estou com uma dor horrível nas costas, mas também ficarei bem.

— Eu estou grávida — falei baixinho, pois ainda estava me


acostumando com a ideia.

— Grávida? — Os olhos da minha sogra se iluminaram.

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Oh, e você não disse nada, menina?

— Foi o médico quem contou para mim e para o Marco quando


estávamos no quarto. Eu... — Abaixei a mão e toquei o meu ventre,
acariciando-o. — Eu não sabia.

— Imagino que seja recente. Só faz alguns meses que vocês estão
casados, mas era de se esperar que acontecesse logo. Meu filho deve estar
muito feliz.

— Ele parece ainda mais irritado com tudo o que aconteceu.


— Eu não o culpo, foi muito mais do que uma simples afronta, mas o
importante é que nós duas estamos bem.

— O que o Marco vai fazer agora?

— Não deve ser preocupar com isso, querida. — Rosimeire colocou a


mão sobre o meu ombro e me dirigiu um sorriso gentil.

— Deixe que o Marco e os garotos resolvam essa questão. A sua


única preocupação agora é ficar bem e garantir que o próximo chefe nasça em
segurança.

— Próximo chefe... — Voltei a tocar a minha barriga e pensei que se


o bebê que crescia dentro de mim fosse um menino, ele seria criado para
assumir o lugar do pai um dia.

A verdade era que, menino ou menina, não importava, nasceria para a


máfia e a sua vida seria definida por ela.

— Vá para o seu quarto, tome um banho e descanse. Vou pedir a


governanta para mandar servirem para você uma boa refeição. Ninguém
merece aquela comida do hospital.

— Mas e a senhora?

— Vou para o meu quarto e farei o mesmo.

— Como fica tão tranquila quando sabe que eles vão para uma
guerra?
— Mantenho a expressão serena, porque é tudo o que me resta. Com
o tempo, você também vai aprender a usar essa máscara, porém eu sempre
morro um pouco quando me deparo com a possibilidade de que um deles
pode nunca mais voltar para casa.

— Como foi quando o Lorenzo se foi?

— Eu continuei firme, mesmo com o coração despedaçado, e me


dediquei aos meus filhos. Apesar da biblioteca e de tudo mais que ele fez
para me agradar, meus filhos são o maior bem que meu marido me deu.

— Imagino que sim. — Voltei a acariciar a minha barriga, que ainda


não dava nenhum sinal da gravidez.

— Agora vá descansar, você precisa.

— Obrigada.

Dificilmente eu conseguiria cochilar, mas me faria bem ficar na cama


e nos lençóis que carregavam o cheiro do Marco.

Entrei no quarto e me aproximei da janela. Afastei a cortina e vi o


jardim. A bela paisagem dos canteiros de flores e parte da piscina estavam
tomadas por homens. Todos eles carregavam armas e olhavam uns para os
outros. Pareciam prontos para enfrentar uma guerra, que eu esperava que não
viesse até nossos portões.
Capítulo Trinta e Sete

— Eu quero sangue. — Rosnei, ao bater a porta do carro com força


assim que desci dele.

Estávamos em um ferro velho, nos limites da cidade, que


utilizávamos para reuniões com os meus capi e outros chefes locais de
organizações que comandavam territórios em Roma e em toda a região
metropolitana. Queria que todos estivessem ali, cada líder local, da Sicília à
Lombardia, porém era impossível que atendessem tão rápido ao meu
chamado.

— O que aconteceu para nos chamar aqui? — perguntou um dos capi


cruzando os braços e levantando o olhar para me encarar.

— Nem todos sabem ainda, Marco — sussurrou Theo para que


apenas eu ouvisse.

— Estamos às vésperas da eleição para prefeito no país todo. Essa


reunião é sobre algo que aconteceu? — comentou outro homem.

— Achei que tudo estivesse sob controle — disse outro.

— Todos os nossos candidatos aliados estão liderando as pesquisas,


não há com o que se preocupar — assegurou Theo.

— O problema é que estouraram uma bomba e quase mataram a


minha esposa, meu filho e a minha mãe. — Eu cerrei os dentes. Estava
bufando como um touro.

— Onde? — questionou um.

— Na periferia de Roma. Elas estavam em uma escola.

— Quem foi o idiota que deixou as mulheres saíram de casa? — Riu


um dos sujeitos, que estava de braços cruzados e escorado em um carro.

Saquei a minha arma e atirei. O tiro preciso pegou na perna do


homem e fez com que ele caísse de joelhos, chiando.

Todos ficaram de olhos arregalados e engoliram em seco ao me


encarar. Viram sangue nos meus olhos e recuaram. Eu costumava ser racional
e agir friamente, mas haviam tocado onde não deveriam e isso me tirou o
controle.

— Alguém mais quer fazer algum comentário imbecil? — Olhei nos


olhos de cada um e vi medo, mas eu queria um temor ainda maior nos olhos
de quem tinha ousado tentar matar a minha esposa e a minha mãe.

— Não, senhor. — Alguém se arriscou a responder.

— Foi ela, não foi? — Sânzio D’Angelo me questionou. — Achou


que a minha informação não valia de nada, mas está aí a sua prova.

— Ela quem? — os capi começaram a questionar, o burburinho e a


conversa atravessada entre eles se tornando ainda maior. Eu estava fora de
mim e foi muito difícil me controlar para não sair simplesmente atirando em
todos e transformar aquele lugar numa zona de guerra, aumentando a minha
lista de inimigos, que já não era pouca.

— Donatella Rossi — respondi em uma voz fria e distante.

— Aquela louca? — questionou um.

— É só uma mulher — resmungou outro. — Nem sei por que


permitiu que ela se tornasse um capo, certamente não tem o controle
necessário para estar em uma posição como essa.

— Você fodia a puta e agora ela está com ciúmes, mas isso não é
problema nosso.

— É bem isso!

Falavam comigo e entre si, e eu mal conseguia distinguir quem estava


dizendo o quê. Minha vontade foi atirar para o alto ou em todos eles, o que
fosse mais fácil ou me desse mais prazer. Certamente não era o aconselhado.

— Calados!

— Ao menos tem provas que foi ela? — Flávio Barbieri descruzou os


braços e me encarou com um pouco mais de atenção. Ele era um dos chefes
locais de Roma, vindo de uma família muito importante e com vários
contatos dentro do Vaticano.

— Não. — Descruzei os braços e coloquei as mãos dentro dos meus


bolsos. — Ainda não sabemos quem ou como a bomba foi implantada em um
dos meus carros oficiais. Todos os meus homens presentes afirmam não ter
visto nada e o motorista foi pelos ares.

— A minha família faz negócios com a sua há muito tempo, Marco.


Dependemos dos Bellucci para ter as drogas que comercializamos nas ruas,
porém não me parece sensato começar uma guerra as vésperas da eleição.

— Flávio, nenhum de nós quer transformar a Itália em um faroeste.


— Meu irmão colocou a mão sobre o meu ombro e agiu como o que era, ao
menos na maior parte do tempo: meu conselheiro. — Sabemos bem que
qualquer instabilidade no sentimento de segurança das pessoas refletirá
diretamente nas eleições, e é melhor para todos nós que os nossos candidatos
sejam reeleitos. Agora, também preciso que vocês entendam que atentaram
contra os Bellucci, contra a minha mãe e a minha cunhada. Isso não pode
ficar por isso mesmo.

— Família é família, Bellucci, nós sabemos disso. Mas se vocês não


têm provas contra a Donatella, é melhor que também não façamos nada.
Hoje, vocês se viram contra os Rossi com a nossa ajuda e os massacram,
amanhã pode ser qualquer um de nós.

— Provem que foi a Donatella e iremos até o inferno com vocês. Do


contrário, não faremos nada. — Repetiu outro.

— Está certo. — Assentiu o Theo e eu cerrei os dentes.

Estava prestes a gritar. Quem eles pensavam que eram? Sempre foi
assim, eu mandava e eles obedeciam. Nunca foram a favor de eu ter tornado
uma mulher chefe, por que diabos agora estavam do lado dela?

— É isso, agora vocês podem ir. — Mateo fez um gesto, dispensando-


os.

Os capi e seus soldados entraram nos carros e foram rapidamente


embora. Minutos depois, eu estava sozinho no ferro velho com meus irmãos e
meus soldados.

— Que porra foi essa, caralho?! — Empurrei Theo pelos ombros


contra a lateral do carro. — Por que simplesmente concordou com eles e
deixou-os ir embora?

— Queria que eu fizesse o quê? Matasse todo mundo para descontar a


raiva que você está sentindo da Donatella? Você está fora de si, meu irmão.
Se estivesse pensando direito, também iria perceber que era o sensato a se
fazer.

Theo tinha razão, eu estava completamente fora de mim. Era a


primeira vez que eu me sentia tão descontrolado. Nem após a morte do nosso
pai eu quis tanto criar um rastro de sangue por toda Roma e quem dirá, a
Itália inteira.

— A nossa mãe poderia ter explodido junto com aquele carro.

— Mas não explodiu — comentou Mateo e eu pude perceber o alívio


em sua voz.
— Marco, escuta! — Theo segurou os meus ombros, massageando-os
— Sei que você está puto. Nós também estamos. Eu quero vingança, cara,
assim como quero pelo o que aconteceu com o nosso pai, mas vingança é um
prato que se come frio.

— Quer que eu não reaja e finja que nada aconteceu? — Eu estava


ofegante. Meu peito subia e descia em frenesi. Não sabia como era ficar
instável até aquele momento.

Desde moleque eu fora criado para ser o próximo chefe. Me


prepararam para tudo, para todos os tropeços e desafios que teria que
enfrentar, porém havia algo que não me ensinaram e para o qual eu não
estava preparado: amar alguém e correr o risco de perdê-la. Sim, me
ensinaram que eu poderia perder pessoas que me são estimadas, e o
assassinato do meu pai me mostrou na prática como todos corriam riscos, até
mesmo o chefe. Contudo, a Laís deveria ser apenas a minha esposa, aquela
que me daria filhos e posaria sorridente ao meu lado. Não deveria ter dado a
ela a única parte limpa e viva existente no meu coração, que foi corrompido
por uma vida inteira na máfia, mas já era tarde demais.

— Vamos encontrar uma prova de que foi a Donatella e mostrar aos


homens. Você é um rei, irmão, mas bem sabe que um rei sem súditos não é
nada. Os Rossi são muito poderosos, liderados ou não, por uma mulher.
Donatella tem apoio dos primos, de todos os familiares, na verdade, possui
muitos soldados e dinheiro. Podemos ir atrás dela e até conseguir matar
todos, no entanto, sem provas reais de que ela é a mandante do atentado
contra a Laís e a mamãe, podemos colocar os outros capi contra nós. Foi o
que o Flávio falou, eles vão ficar com medo. Hoje estamos caçando os Rossi,
e amanhã pode ser qualquer um deles.

— Guerra não é algo bom para os negócios, irmão — completou


Mateo.

— Quero botar as mãos naquela vagabunda...

— Vamos dar um jeito de pegá-la, Marco. — Theo me soltou. —


Depois que tivermos certeza de que foi ela quem mandou colocar a bomba no
nosso carro, você vai poder fazer o que quiser com aquela puta.

— Nossos homens estão atrás de quem plantou o dispositivo. Vamos


varrer cada canto de Roma. Não haverá lugar na luz ou na sombra onde o
infeliz possa se esconder.

Eu inspirei profundamente e passei as mãos pelos meus cabelos,


jogando-os para trás. Havia muitas coisas que eu odiava, mas a pior de todas
era me sentir impotente. Na maioria das vezes, tudo era resolvido com
ameaças, dinheiro ou ambos.

— Vamos para casa. — Theo abriu a porta do carro e entrou.

Independente de eu gostar disso ou não, não havia mais nada que eu


pudesse fazer, então o segui. Mateo ocupou o banco do carona ao lado do
motorista e pegamos de volta a rodovia que nos levaria para o bairro em
Roma onde ficava a mansão.
Olhei para a rodovia através da janela enquanto a minha cabeça estava
a mil. Um dos meus maiores ódios era ficar de braços cruzados. Isso me fazia
parecer atingível, e de certo não era uma boa imagem para se passar na minha
posição.

Meu telefone vibrou dentro do bolso e eu o puxei para atendê-lo.

— Alô!

— Chefe, nós encontramos o cara.

— Onde?

— Ele estava tentando sair da cidade por uma rodoviária.

— Como o encontraram?

— Os homens do Mateo e aqueles aparelhos.

Meu irmão não estava ouvindo o telefonema, pois, do contrário,


estaria sorrindo. Ele vivia me dizendo que a equipe de informática que ele
havia montado era tão crucial para os nossos negócios quanto aqueles que
sabiam atirar.

— Para onde o levaram?

— Para as catacumbas ao sul do Coliseu.

— Estou indo para aí.

— O que foi? — Theo virou para me encarar depois que eu desliguei


a chamada.

— Encontraram o cara que plantou a bomba. Levaram-no para as


catacumbas.

— Vamos para lá então. — Assentiu o meu irmão. Levou alguns


minutos para que atravessássemos a cidade e chegássemos ao Coliseu. O
monumento, com milhares de anos e que atraía visitantes do mundo inteiro,
também escondia entradas para um dos muitos túneis que cortavam a cidade
de Roma. Como várias outras cidades antigas do mundo, a capital italiana
possuía incontáveis labirintos subterrâneos que tiveram diversas utilizações
ao longo dos séculos.

Deixamos os carros em uma das esquinas e entramos em uma velha


tabacaria, que ficava próxima ao monumento. O homem que cuidava do lugar
apenas assentiu para nós com um movimento de cabeça enquanto íamos até
os fundos.

Theo puxou um tapete estendido sobre um dos cômodos e revelou um


alçapão. Eu o abri, expondo uma pequena e apertada escada que levava a um
túnel escuro. Deixamos que cinco dos nossos homens fossem primeiro antes
que Theo, Mateo e eu descêssemos.

Nossos homens sacaram lanternas e guiaram o caminho, que possuía


marcas sutis nas paredes. Durante muitos e muitos anos foram usados aqueles
túneis para entrar com armas, drogas, bebidas e todo tipo de contrabando na
cidade, mas com o tempo ficou muito mais fácil usar os carros e comprar
qualquer possível fiscalização que pudesse nos causar problemas.

Eu ouvi um gemido e o sinal de uma luz antes que chegasse a uma


galeria iluminada por um refletor postado no chão, onde alguns dos meus
homens se reuniam ao redor de um sujeito que estava com os braços
amarrados. Ele era magro e franzino, não tinha tatuagens, muito menos se
parecia com um membro de gangue. Era o tipo de sujeito perfeito para passar
desapercebido, pois, com as roupas certas, ele poderia se mesclar em
qualquer lugar.

— O que ele falou? — Minha voz ecoou grossa pelas paredes de


pedras e chamou a atenção de todos.

— Ainda nada, chefe.

Caminhei para perto deles e os homens abriram caminho para que eu


parasse diante do desgraçado que tentou matar a minha esposa e a minha
mãe.

— Quem mandou você plantar a bomba?

— Filho da puta. — Ele rosnou e cuspiu em mim.

Cerrei os dentes e o acertei com um soco no estômago, usando toda a


minha força e fiz com que ele cuspisse sangue.

— Era eu quem deveria estar chamando-o de filho da puta, seu


desgraçado. — Agarrei o rosto dele e pressionei meus dedos contra a sua
mandíbula, forçando-o a ficar de boca aberta. — Quem mandou você colocar
uma bomba no carro onde estariam a minha esposa e a minha mãe?

— Porra, elas deram sorte pra caralho de não estarem perto do


motorista quando tudo foi pelos ares. — Ele deu uma risadinha debochada,
que me fez ficar ainda mais furioso.

— Escuta aqui! — Apertei seu rosto com mais força, sentindo o osso
ceder ante a minha pressão. — Vou perguntar mais uma vez e espero uma
resposta adequada. Quem mandou você plantar a bomba? Você pode contar
agora ou vamos forçá-lo a contar.

— Por que eu contaria? — Ele me desafiou no pior dia possível. —


Vou morrer de qualquer jeito.

— Você tem razão. Vai morrer, mas a sua colaboração vai definir se
vai morrer rápido ou da forma mais dolorosa possível. Honestamente, depois
do que você fez, eu prefiro que escolha da forma lenta.

— Não vou falar nada. — Ele tentou me morder, mas tudo o que
conseguiu foi que eu apertasse o seu rosto de forma mais firme.

— É você quem sabe. Eu estou muito a fim de fazê-lo sangrar. — Eu


estendi a mão e esperei que um dos homens me entregasse um alicate.

— Achei que não sujasse as mãos.

— Não sabe do que eu sou capaz quando ameaçam a minha família.

Peguei o instrumento e o coloquei dentro da boca do homem, prendi-o


em um dos seus dentes e puxei. O grito de dor ecoou por todo o túnel, mas foi
silenciado pelas paredes grossas e todo o concreto da cidade moderna acima
de nós.
Capítulo Trinta e Oito

Sei que deveria ficar calma, mas não era nada fácil depois do dia que
havia passado. Após ter vivido um momento único, cercada de crianças, eu
quase fui pelos ares, e descobri que teria o meu próprio bebê. Queria que o
Marco estivesse comigo, mas eu não poderia simplesmente esperar que ele
não fizesse nada depois do que havia acontecido comigo e com sua mãe. No
fundo, eu mesma queria que ele fizesse alguma coisa.

Havia aprendido a lutar e a atirar, mas isso de nada teria valido se


houvesse estado perto do carro no momento em que a bomba explodiu.
Gostasse ou não de admitir, não fazia ideia de como proteger a mim mesma.
Me recordava muito bem de ter fugido do casamento e ter ido parar em
Milão, e que não fora nada fácil passar aqueles dias por lá. Tinha que
acreditar no meu marido e no que ele julgava ser o melhor para mim.

Meu marido... Suspirei quando a imagem do Marco ficou mais


evidente na minha mente justamente quando uma brisa fresca de outono
entrava pela fresta da janela. Queria que Marco voltasse logo para casa. Já era
madrugada e eu estava na mesma posição desde que havia comido algo e
tomado um banho, parada ali encarando a janela e o jardim.

Será que ele não voltaria? A pergunta ecoava na minha mente. Havia
uma vontade grande de ligar para ele, mas sabia que não poderia fazer isso.

— Ainda acordada?
Tomei um susto quando ouvi uma voz vindo detrás de mim e me
surpreendi ao vê-lo parado na porta do quarto.

— Não consegui dormir, estava esperando você — falei a verdade ao


virar o corpo completamente para encará-lo de frente.

— Eu não tinha previsão de hora para retornar.

— Não tem problema.

Dei alguns passos para mais perto dele e percebi que as mangas da
sua camisa estavam sujas de sangue, assim como as mãos. Eu as peguei para
observá-las melhor. Apesar do sangue, Marco não fez qualquer resistência
em me deixar examiná-las.

— Você machucou seus dedos. — Levantei a mão dele e dei um beijo


perto das falanges, que estavam esfoladas.

— Foi por causa dos socos que dei num idiota.

— Você a pegou? — Um sorriso surgiu nos meus lábios, foi mais


forte do que a minha vontade de não expressar satisfação com o sofrimento
de alguém.

— Infelizmente, não. Torturei o desgraçado que plantou a bomba no


carro, mas ele não disse nada. Sem um depoimento, não tenho como ligar a
Donatella ao incidente e, dessa forma, os outros capi não concordam com
qualquer investida contra ela.
— Quer dizer que você não pode fazer nada? — Minha decepção era
mais evidente do que eu gostaria de demonstrar.

— Por enquanto, não.

— Que saco!

— Vou dar um jeito em tudo.

— Tenho certeza que sim. — Sorri para ele. Escorreguei as mãos pelo
seu peito até o colarinho da sua camisa e abri o primeiro botão. — Tira essas
roupas sujas.

Marco moveu os braços para trás e deixou que eu empurrasse o blazer


para baixo. Abri um a um os botões da sua camisa e também joguei a peça no
chão.

Meu marido me encarou e seus olhos alcançaram tão fundo na minha


alma que me fizeram estremecer. Por um momento até pensei que ele fosse
entrar no banheiro para se limpar, mas no seguinte, quando meu marido me
pegou pela cintura e me empurrou contra a parede do quarto, tive certeza de
que o banho ficaria para depois.

— Fecha a porta — pedi em meio a um suspiro, e ele atendeu


prontamente.

Marco voltou com as mãos para o meu quadril e subiu com a minha
camiseta, deixando um caminho de pele arrepiada até puxá-la pelos meus
braços quando levantei as mãos. Segurei seus ombros largos enquanto ele
abria a minha calça e dava para ela o mesmo destino das roupas já tiradas, o
chão.

Coloquei uma das mãos nas minhas costas e tirei o sutiã. A atitude fez
o meu marido sorrir em aprovação. Marco abaixou a cabeça e abocanhou um
dos meus mamilos e eu arqueei o corpo para trás, apoiando-me na parede
quando uma corrente de excitação me atravessou inteira. Levei uma das mãos
ao seu cabelo e o acariciei enquanto Marco sugava o meu seio com afinco.
Meu marido tinha a mesma selvageria de sempre, mas, daquela vez, houve
bem mais calma do que o sexo que fizemos no hospital.

Ele lambeu o contorno dos meus peitos e eu fechei os olhos ao gemer


baixinho, desfrutando das sensações deliciosas cada vez mais quentes que me
dominavam. Marco foi se agachando e escorregou a língua pelo vale entre os
meus seios até alcançar o meu ventre. Ele me beijou carinhosamente ali e
sussurrou algo que eu não consegui compreender, mas imaginei que fosse
para o nosso bebê e não para mim.

Sua boca continuou descendo até chegar à minha calcinha. Marco a


puxou e eu rebolei para facilitar que a peça escorregasse, e no instante
seguinte ela estava no chão.

Meu marido afastou as minhas pernas o máximo possível e eu me


agarrei a parede para não perder o equilíbrio. Quando seu hálito quente
encontrou a minha intimidade, eu me retorci de dentro para fora e soltei um
gemido, abafado pelos lábios cerrados. Marco beijou o interior da minha coxa
e a lambeu até se aproximar da minha virilha e parar ali, indo fazer do mesmo
jeito do outro lado.

A região pulsou intensamente, ansiando por ele. Eu me remexi e


rebolei de leve contra a parede, chamando sua atenção para o meu sexo.
Marco subiu com as mãos e agarrou as minhas nádegas. Seus dedos cravaram
no meu músculo e ele me impediu de me mover demais. Estava prestes a
soltar um gemidinho de protesto quando a sua boca chegou mais perto,
aproximando-se lentamente até alcançar o objetivo.

Meu gritinho foi mais alto e eu segurei sua cabeça quando ele passou
a língua pelo meu clitóris e deu pancadinhas, que eram capazes de me fazer
enlouquecer da forma mais deliciosa possível. Tive certeza naquele momento
de que só tratavam o sexo como pecado por ser bom demais e terem medo de
que as pessoas não pensassem em outra coisa que não fosse fazê-lo. As
poucas vezes que eu tinha ouvido a respeito, falavam que sexo deveria ser
usado exclusivamente para criar vida, mas eu já estava grávida e Marco não
parecia ter qualquer ambição de parar por causa disso. Admito que gostava
muito de tê-lo agindo assim.

Ele me segurou colocando os braços por dentro da minha coxa e as


mãos nas minhas nádegas. Tombeei, apoiando-me nos seus ombros, com
medo de cair, mas Marco era muito forte e isso não aconteceu. Meu marido
me deitou na cama e sua boca não parou de me provocar, de me enlouquecer.
Voltei a puxar seu cabelo, incentivando-o a continuar e afundei a minha
cabeça no travesseiro. Sentia sua língua, seus lábios e seu hálito a cada
movimento que ele fazia usando a boca para estimular o meu sexo. Marco
introduziu um dedo em mim e eu me espichei, batendo na cabeceira, mas não
parei de me contorcer em suas mãos. Estava bem perto do ápice e queria que
ele continuasse até que eu chegasse lá.

Um gritinho escapou do fundo da minha garganta quando meu corpo


todo explodiu. Gozei sob o controle do seu estímulo e vi todo o quarto rodar,
mas mesmo com os meus gemidos, que delatavam o meu orgasmo, Marco
não afastou a boca e eu senti sua saliva escorrendo até a junção das minhas
nádegas.

Minutos depois, quando eu já estava me recuperando do estopim, ele


me virou de bruços e pegou um dos travesseiros, colocando-o sob o meu
ventre. Marco cobriu o meu corpo com o seu e aproximou a boca da minha
orelha para sussurrar.

— É hora de tirar a virgindade de outra parte sua.

— Marco... — Chiei, tensa, sem ter a menor ideia do que ele iria
fazer.

— É só relaxar e ficar calma que não vai doer. — Sua voz era muito
firme e sedutora, capaz de me convencer de qualquer coisa.

Afundei meus dedos no colchão da cama e esperei. Senti seu membro


escorregando pelas minhas nádegas até encontrar a fenda entre elas e
pressioná-la, forçando passagem.

Eu me espichei.
— Calma. — Ele segurou a minha cintura e tentou me manter o mais
imóvel possível enquanto se introduzia em uma parte de mim que eu
imaginava que deveria ficar intocada.

Houve um incômodo da presença inesperada, mas não senti dor como


na primeira vez em que fizemos sexo. Contudo, Marco também teve a
paciência de esperar que eu me acostumasse antes de começar a se mover.
Logo seus gemidos guiaram o ritmo de nossos corpos e não demorou para
que Marco alcançasse o clímax.

Ele ficou deitado em cima de mim por um tempo até que se


recompusesse, e então levantou.

— Agora você também precisa de um banho. — Ele me pegou no


colo e me levou para o banheiro, pousando-me de pé dentro do box.

Marco abriu o chuveiro e me puxou junto. Passei os braços ao redor


do seu pescoço e o encarei.

— Acha que ela pode tentar alguma coisa quando souber que eu estou
grávida? — Depois que o êxtase do sexo passou, era impossível esconder que
havia algo me incomodando.

— Eu gostaria de dizer que ela não seria louca a esse ponto, mas,
depois da bomba, eu tenho certeza de que a Donatella é capaz de qualquer
coisa. No entanto, você não precisa se preocupar. — Acariciou o meu rosto
com a água do chuveiro escorrendo por ele.
— É difícil não me preocupar.

— Sei disso, mas eu vou cuidar de tudo.

Confiava plenamente no Marco e, por enquanto, isso tinha que bastar,


ainda que o medo sussurrasse no meu ouvido que eu precisava tomar
cuidado.

— Não tenho só você para proteger agora. — Marco baixou a mão e


acariciou a minha barriga.

Botei a minha mão sobre a sua e tombei a minha cabeça no seu peito,
e ficamos assim por alguns minutos. O som do seu coração me tranquilizou e
era o que eu precisava nesse momento.
Capítulo Trinta e Nove

Servi uma boa dose de uísque para mim e outra para o meu irmão
Theo antes de me sentar na cadeira atrás da mesa de madeira escura.

— Se o desgraçado que instalou a bomba não quis admitir que foi a


Donatella, como vamos ter uma desculpa para justificar a morte dela diante
do conselho?

— Desculpa, irmão, mas não temos como. — Mateo descruzou os


braços e saiu de perto da janela e veio para junto de nós, sentando-se ao lado
do Theo. — Ela é uma vadia, mas é esperta. É obvio que quer a Laís morta,
mas conseguiu pensar em uma forma de fazer isso sem apontar todas as
armas da máfia para ela.

— Seus homens estavam trabalhando nisso. Eles não encontraram


nada?

— Infelizmente, não. Não há sequer um telefonema entre os números


conhecidos da Donatella e o que estava registrado no nome do homem. Ela
pode nunca ter falado diretamente com ele. Isso é impossível saber.

— Nas contas dele não tem nenhuma transferência partida de um dos


Rossi?

— Somos mafiosos.
Bufei ao perceber, com a resposta dada por Mateo, que eu tinha feito
a pergunta mais idiota do mundo. Nenhum de nós costumava fazer
pagamentos por meios lícitos. Trabalhávamos com dinheiro vivo, pois a
maioria dele era sujo e vinha dos nossos negócios nas ruas.

Eu abaixei a cabeça e massageei as têmporas. Estava irritado, mas já


havia perdido o controle o suficiente, inclusive diante de vários chefes de
famílias para quem eu deveria parecer invulnerável.

— Então a Laís está grávida? — Theo finalmente abriu a boca e


procurou o meu olhar.

— Grávida? — Mateo pareceu surpreso com a pergunta do nosso


irmão.

— Marco falou sobre a bomba quase ter matado o filho dele. Até
onde eu sei, estavam apenas a Laís e a mamãe naquele carro.

— Sim, a Laís está grávida — afirmei antes que o Theo começasse a


fazer suposições infundadas. — Descobrimos no hospital. Fizeram um
ultrassom para verificar se não havia nenhuma hemorragia interna e
detectaram a gravidez.

— Você deve estar muito feliz. — Theo abriu um meio sorriso e


percebi que ele estava tentando amenizar a minha frustação por não ter armas
o suficiente para ir atrás da Donatella.

Éramos mafiosos, criminosos, mas até no submundo havia regras a


serem respeitadas. A morte de um de nós, principalmente de um dos chefões,
poderia causar uma guerra que eu poderia não ser capaz de lidar. Se eu era
um rei, meus capi eram como duques, e eu precisava ter controle sobre eles e
sobre o território de cada um para dominar completamente a Itália. Eu não
podia assassinar Donatella sem justificativas muito evidentes e esperar que
não houvesse uma retaliação por parte dos demais líderes locais.

— Marco? — Theo chamou a minha atenção quando percebeu que eu


estava distante e com os olhos vazios.

— Eu estou feliz. Algum de vocês não estaria se soubesse que vai ser
pai?

— Não é o que a sua cara está mostrando. — Mateo deu de ombros.

— É um momento complicado para fazer comemorações. Sei que


enquanto a Donatella estiver por aí, a Laís vai estar correndo riscos, agora
mais do que nunca.

— E se dermos um jeito para que um dos primos dela assuma o poder


como deveria ter sido? Ela não tem marido, os primos não irão apoiá-la.
Derrubá-la do posto de capo pode ser o primeiro passo para podermos matá-
la — sugeriu Theo. Meu irmão costumava ter bons conselhos, mas daquela
vez não achei dos melhores.

— Vamos estar armando um golpe contra um dos nossos de qualquer


forma. No fim das contas, pode acabar parecendo a mesma coisa sob a visão
dos outros capi. — Cocei o queixo. Sim eu queria matá-la, arrancaria seus
olhos com as minhas próprias mãos se pudesse, mas eu precisava ter muita
cautela ao agir para que minha atitude não colocasse em risco a hegemonia de
décadas que os Bellucci tinham conquistado. As outras famílias nos
respeitavam, mas se houvesse uma chance de tomar o controle dos negócios,
eu tinha certeza de que elas tomariam.

— Chama ela para transar e fala que acabou matando-a no meio de


uma daquelas coisas loucas que vocês faziam. — Mateo deu uma risada
debochada. — Nunca vi uma mulher gostar tanto de tortura quanto ela.

— É uma péssima ideia — Theo respondeu por mim. — Infelizmente,


vamos ter que esperar um próximo passo dela, e proteger a Laís e a nossa
mãe com todas as forças que tivermos. Precisamos lembrar que ela é só uma
Rossi e nós somos os Bellucci. Se não baixarmos a guarda, podemos manter a
Laís em segurança.

— Dá próxima vez, enfia o pau em uma mulher menos psicótica. —


Mateo debochou.

— Ah, vai se foder! — vociferei. Eu não estava com saco para


piadinhas daquela vez.

Meu irmão mais novo abriu um sorriso amarelo e Theo riu.

— Antes de você ir, quero que converse com os seus homens e peça
para que coloquem câmeras em todo lugar e alarmes em todas as entradas da
casa, janelas, portas, em tudo.
— Certo. Até no seu quarto? — Ele me lançou um olhar malicioso e
brincalhão.

Theo colocou a mão sobre o ombro do nosso irmão caçula e o


apertou.

— Ela é uma delícia, mas não provoca, senão o Marco vai dar um tiro
na sua cara e eu não poderei fazer nada.

— Vai dizer que você também não queria ver?

— Preciso lembrá-los de que eu estou aqui? — Cruzei os braços com


uma expressão séria.

Eu sabia que eles estavam apenas brincando, ou ao menos esperava


que sim, mas não gostei nem um pouco de ouvi-los falando daquele jeito da
minha esposa. Laís era minha. Ao contrário de Donatella e de qualquer outra
mulher com a qual havia me envolvido, queria meus irmãos e todos os outros
homens bem longe dela.

— Tenham suas próprias esposas, talvez esteja na hora também.

— Você é o primogênito de um primogênito, irmão. É o seu dever


casar e ter filhos, não o nosso. Podemos foder quem quisermos e não nos
preocupar com essa baboseira. — Theo deu de ombros.

Por mais que o tempo e a convivência tivesse me ensinado que eu


poderia usufruir bem do casamento e ser feliz com ele, meu irmão estava
certo, eles não tinham o mesmo compromisso que eu.
— Preocupem-se com a segurança dessa casa e deixem as putas para
depois. — Passei por eles e segui para fora do meu escritório.

Procurei pela Laís e a encontrei na biblioteca, lendo um dos muitos


livros da minha mãe.

— Você está bem?

— Estou. — Abriu um largo sorriso para mim quando me viu parado


na porta e fechou o livro, fazendo um gesto para que eu fosse para mais perto.

Avancei até o sofá e, quando me sentei, ela apoiou a cabeça no meu


peito. Eu acariciei o cabelo dela e beijei-a no topo da cabeça.

— Enjoada?

— Estou com um pouco de dor de cabeça, mas ainda não senti


vontade de vomitar. Andriele, a governanta, disse que quando se vomita
pouco pode ser um menino.

— Não acredito nessas crenças populares.

— Nem eu e acho que ainda é muito cedo para saber. Você vai ficar
muito chateado se não for um menino?

— Precisamos de um menino, mas ele não precisa ser o primeiro, e


ficarei feliz com todos os filhos que tiver com você.

Laís sorriu e voltou a tombar a cabeça no meu peito outra vez.


— Você e os seus irmãos estavam falando sobre a Donatella?

— Sim.

— Vão dar um jeito nela?

— Ainda não encontramos uma alternativa.

— Isso é terrível.

— Mais terrível é ter certeza de que ela vai tentar de novo,


principalmente depois que souber que você está grávida.

— Tentar de novo? — Laís ficou pálida e se encolheu ainda mais


contra mim.

— Estaremos prontos, não tem com que se preocupar.

— Falar é fácil. Ainda me lembro muito bem de quando ela colocou


uma faca no meu pescoço na noite do nosso casamento. — Minha esposa
engoliu em seco e seus olhos aflitos me deixaram angustiado.

— Eu vou protegê-la, Laís. Tudo bem?

Ela balançou a cabeça em afirmativa.

Levantei seu rosto e trouxe a sua boca até a minha. O beijo começou
como uma simples troca de carinho até que eu inundei a minha língua entre
seus lábios, pedindo por mais. Toques delicados não me bastavam e a minha
esposa sabia bem disso. Laís colocou as mãos sobre os meus ombros e eu a
puxei para o meu colo. Ela esfregou-se em mim e meu pau acordou dentro da
calça. Afundei a mão no seu cabelo e outra na sua bunda, enterrando meus
dedos no jeans da calça, que era grosso demais para o meu gosto. Preferia
muito mais a minha esposa em vestidos apertados e saias pequenas, que eu
poderia simplesmente levantar e meter nela sem a necessidade de ter que tirar
a roupa toda, apesar de a Laís ter um corpo lindo que eu gostava de admirar.

Ouvi um pigarrear. Continuei beijando a minha esposa, mas seja lá


quem fosse, fez de novo e eu a afastei apenas para encarar o intrometido com
um olhar mortal. Theo estava parado na porta e coçou a cabeça sem graça
quando eu o olhei de forma feroz.

— Marco?

— O que quer?

— Precisamos conversar.

— Estávamos conversando há poucos minutos.

— É importante.

— O que pode ser mais importante do que isso? — Voltei a acariciar


a bunda da minha esposa sem me preocupar com a presença do meu irmão.

Envergonhada, Laís escondeu a cabeça no meu ombro, mas deu uma


rebolada sem querer que me deixou ainda mais excitado.

— Os bolivianos ligaram, vão mandar um novo carregamento de coca


que chegará ao porto dos Barbosa na semana que vem. Serão três toneladas
de cocaína pura. Querem conversar com você para acertar os detalhes do
pagamento.

— Vai lá! Continuamos depois. — Laís saiu do meu colo e


escorregou para beirada do sofá antes que eu tivesse tempo de dizer que iria
assim que terminasse o que estava fazendo com ela.

Eu a beijei enquanto ajeitava o pau ainda duro dentro da calça e dando


um tempo para que ele reduzisse antes de me virar e ir atrás do meu irmão.

— Vamos lá! — Passei por ele e segui para o corredor.

— Está explicado ela ter ficado grávida em tão pouco tempo. Vocês
dois são piores do que coelhos.

— Ela é linda e é minha — lembrei-o, orgulhoso disso.

— Parece que o casamento até tem as suas vantagens.

— Quando se casar, você vai perceber.

— Ainda não parece o suficiente para me convencer.

Dei de ombros ao entrarmos novamente no escritório. Para mim, o


meu irmão podia fazer o que quisesse da vida amorosa dele, desde que não
atrapalhasse a família ou os negócios.

Assim que entramos no escritório, ele me entregou um celular e eu


atendi.
— Alexandro Pérez, boa tarde — falei em espanhol.

— Marco Bellucci — respondeu uma voz conhecida do outro lado da


linha.

A conversa com o produtor de cocaína demorou mais do que eu


imaginava e me dediquei a ela durante toda a tarde.
Capítulo Quarenta

Estava diante do espelho, acariciando o meu ventre enquanto


observava a minha imagem. Fazia alguns dias desde que eu recebera a notícia
de que estava grávida, e desde então não conseguia parar de pensar na vida
que estava crescendo ali, ainda que minha barriga não tivesse nenhum sinal
de mudança. Em alguns meses, uma criança, fruto da minha união com o
Marco, estaria nos meus braços e a ansiedade me consumia. Ser mãe parecia
algo muito especial, pelo menos era o que eu percebia através do meu
convívio com a Rosimeire e também pela sutil aproximação com a minha.
Com o tempo, percebi que ela não teve culpa da nossa separação e nada pode
fazer para evitá-la. As regras e acordos da máfia estavam acima de qualquer
uma de nossas vontades.

Ouvi o meu celular tocar e para a minha surpresa era ela, a minha
mãe. Os últimos dias foram preocupantes e confusos, por isso fazia um tempo
que eu não conversava com ela. Acho que nem sabia da bomba.

— Mãe?

— Laís, como você está?

— Estou bem.

— Desculpa meu sumiço, estava com saudades de você, mas foram


dias complicados. Os Costas estão dando trabalho e tentaram invadir a nossa
casa. Seu pai perdeu muitos homens e está extremamente irritado. Não queria
preocupá-la com isso.

— Mas todos vocês estão bem?

— Sim, nós estamos, apesar de tudo. Os italianos que o seu marido


mandou para nos proteger desde o início do acordo fizeram grande diferença.

— Fico aliviada. Me alegra saber que você está bem. Os dias por aqui
também não foram nada fáceis. Eu sobrevivi a uma bomba.

— Bomba?! Meu pai amado, está falando sério?

— Sim, colocaram uma bomba no carro no qual a mãe do Marco e eu


voltaríamos para casa, mas por sorte não estávamos muito perto quando
explodiu, então fomos atingidas apenas pelo impacto. Eu desmaiei na hora,
mas os médicos fizeram vários exames para confirmar que eu estava bem.

— Ah, céus! Laís, eu fico em pânico só de pensar no que poderia ter


acontecido.

— Eu estou bem, é isso que importa.

Admito que também havia ficado em pânico, porém não adiantava


nada ficar remoendo o medo e me preocupar com algo que já havia passado.
Eu havia sobrevivido milagrosamente ao incidente, e deveria comemorar por
isso.

— Sim, amém. Onde você está agora?


— Em casa. Marco triplicou a segurança depois do atentado e acha
mais seguro que eu não saia, ainda mais depois que descobriu sobre a
gravidez.

— Você está grávida? — minha mãe exclamou do outro lado da linha


e eu abri um sorriso amarelo ao me recordar de que não havia contado a ela.

— Estou. Descobrimos com os exames que fiz depois do incidente


com a bomba.

— Imagino que ele esteja muito feliz, principalmente por ter esperado
tanto para se casar com você.

— Marco está contente, sim. — Eu sorri ao me lembrar da forma com


que ele me olhou logo depois que descobriu que eu estava grávida.

— Filhos são uma alegria imensa e um alento, você verá.

— Tenho certeza que sim.

— Espero poder visitá-la em breve, mas dado os últimos


acontecimentos, não sei quando será possível.

— Acredito que quando o bebê nascer tudo isso já terá se resolvido.


— Suspirei, ao menos era pelo que eu estava torcendo.

— Vai estar e eu poderei segurar o meu neto nos braços. Será uma
imensa alegria.

— Será.
— Madalena? — Ouvi alguém chamando-a do outro lado da linha, e
não pude reconhecer bem a voz para afirmar se era ou não o meu pai.

— Filha, preciso desligar agora. Ligo assim que puder.

— Tudo bem. Até mais.

— Fique bem, Laís.

— Você também, mãe.

Ela desligou a chamada e eu fiquei encarando o celular antes de


guardá-lo no bolso. Deixei o quarto e fui para a sala de estar onde havia uma
bela televisão. Apesar de não ser seguro deixar a casa, diferentemente da
minha vida no convento, eu tinha a liberdade de caminhar por todos os
cômodos e fazer o que achasse mais conveniente, além do acesso ilimitado a
internet. Quando queria fazer algo além de ler livros na enorme biblioteca da
minha sogra, eu podia assistir televisão ou ler o jornal, informando-me,
minimamente, sobre o mundo que me rodeava. Também via filmes e séries
na internet, ou me distraía fazendo um curso ou outro. Além de tudo isso,
também podia ir treinar tiro ou praticar defesa pessoal. No entanto, admito
que a melhor parte dos meus dias era quando Marco chegava e dedicava o
seu tempo para ficar comigo.

Quando fugi do casamento, não era capaz de imaginar que fosse


gostar tanto da presença dele. Ter ouvido os conselhos da Rosimeire foi
muito importante para que eu enxergasse de uma forma diferente o destino
que fora traçado para mim quando eu ainda era menina. A vida de esposa de
um chefe da máfia também poderia ser feita de bons momentos.

— Laís?

Virei-me e vi a minha sogra entrar na sala, onde eu estava me


distraindo com um notebook no colo olhando coisas de bebê.

— Oi? — Fechei a tampa do computador e me ajeitei no sofá quando


ela se sentou ao meu lado. — Estava cuidando do jardim?

— Sim. — Minha sogra sorriu ao colocar o cabelo para trás. Apesar


da idade que ela já deveria ter, estava muito bem arrumada e impecável,
assim como seu cabelo e as unhas. Rosimeire se cuidava tão bem que era
difícil dizer que ela já tinha três filhos na casa dos trinta.

— Além dos livros, as plantas também são uma ótima forma de passar
o meu tempo.

— Você faz um ótimo trabalho no jardim. Ele é belíssimo.

— Ah, não posso levar os créditos. — Riu, sem graça. — Sou mais
como um furão que cavouca alguns canteiros, mas tenho um ótimo jardineiro.

— De qualquer forma, você tenta.

— É mais como uma terapia. Com o tempo você também encontrará


jeitos de aproveitar o seu tempo de uma forma produtiva. Se bem que depois
do nascimento desse e de outros filhos, tempo livre é algo que você não terá
mais.
— Só quando eles ficarem adultos, imagino eu.

— O trabalho diminui, mas a preocupação, nunca.

— Eu imagino. — Puxei o computador de volta para o colo e abri a


tela para que ela pudesse ver. — Estava olhando algumas coisas e quero
perguntar ao Marco em qual dos quartos vazios o nosso bebê poderá ficar
depois de nascer. Essa casa é tão grande!

— Acredito que possamos arranjar um que fique o mais perto possível


do quarto de vocês, já que o bebê demandará muito cuidado, principalmente
durante o período de amamentação.

— Vou gostar de organizar o quartinho do bebê, mas acho que


precisamos saber qual o sexo primeiro. Marco disse que não se importa se
não vier um menino dessa vez, mas eu sinto que...

— Querida. — Rosimeire colocou sua mão sobre a minha. — Você é


jovem e ainda terão muito tempo para terem filhos.

— Sim.

— Não se cobre tanto.

— Obrigada por me apoiar.

— Sempre estarei aqui.

— Sou muito grata por isso. — Voltei a colocar o computador de lado


e estendi os braços para envolvê-la.
— Momento do abraço?

Eu me afastei da minha sogra e me virei para ver o meu cunhado


parado no início da escada. Theo nos observava de longe, mas se aproximou
quando a mãe estendeu o braço e fez um gesto para que ele chegasse mais
perto.

Depois do incidente com a bomba, e a suspeita de que Donatella


queria fazer algo comigo, Marco evitava me deixar sozinha. Apesar de todos
os homens que protegiam a casa, meu marido fazia questão de manter ao
menos um dos irmãos em casa quando ele não estava. Geralmente eles não
ficavam em cima de mim e eu até tinha a ilusão de que não estava sendo
vigiada o tempo todo, contudo entendia que era para o meu bem.

Eu sabia do que a Donatella era capaz e, depois da minha pequena


fuga, eu havia aprendido que não conseguia me virar sozinha. A vida dos
humanos não era tão simples como a dos passarinhos e envolvia uma série de
fatores que nem os fortes tinham total controle.

— Onde estão seus irmãos? — perguntou Rosimeire ao filho do meio.

— Eles estão cuidando da distribuição de uma mercadoria que acabou


de chegar da América do Sul.

— Mercadoria?

— Sim, mãe, mercadoria. É tudo o que a senhora precisa saber.

— Certo.
— Mateo viajou para o sul em nome do Marco e eu devo ir para o
norte, amanhã, para garantir que todos os nossos capi recebam a sua parte
para distribuir nas ruas.

— E o Marco, onde ele está? — Não sabia até que ponto deveria
perguntar. Gostava da imagem que o meu marido tinha para mim, mas a
curiosidade era grande. Além disso, já estava me acostumando com a forma
como tudo acontecia. Como esposa dele, também era parte da máfia e poderia
estar ao seu lado.

— Marco foi se reunir com alguns homens que representam empresas


prestadoras de serviços lícitos de fachada que estão em nosso nome.

— Como os hotéis? — continuei.

— Sim.

— Marco me falou que usam para tornar lícito o dinheiro que ganham
nas ruas.

— Está aprendendo, cunhada. — Ele piscou para mim e eu ri, sem


graça. — Mas o assunto que o Marco está resolvendo não é sobre lavagem de
dinheiro. Vai acontecer um grande evento religioso no ano que vem que
reunirá pessoas do mundo inteiro, e queremos garantir que as nossas
empresas recebam os contratos e o dinheiro destinado para isso.

— Então vocês também prestam serviços lícitos? — Estava mais


curiosa do que deveria.
— São rios de dinheiro em serviços superfaturados, mas fazemos
nossa parte para que tudo aconteça de forma a não levantar suspeitas.

— Se custa um determinado valor, vocês cobram muito mais e


embolsam esse dinheiro de forma legal.

— Exatamente. — Ele deu um sorriso de satisfação.

Antes de me casar com o Marco, a minha visão da máfia era muito


limitada, porém, aos poucos, eu ia aprendendo que ela estava envolvida em
várias áreas da sociedade. Fiquei me perguntando quantas seriam as empresas
que prestavam serviço para o meu marido e que ajudavam a fomentar o luxo
que ele me proporcionava.

— Temos aliados em todos os partidos políticos que conseguiram


eleger prefeitos nas últimas eleições, tanto na esquerda quanto na direita, em
todo o país. Além de controlarmos governadores e até o presidente. Temos o
país todo nas mãos.

— Nossa! — exclamei, surpresa.

— Theo! — Rosimeire recriminou o filho, que se vangloriava dos


feitos da família.

— Que foi, mãe? Só estou contando para a minha adorável cunhada o


poder que o marido dela tem.

— Laís não precisa se preocupar com isso.


— Tudo bem, Rosi. — Segurei a mão da minha sogra. — Quero
saber.

Theo piscou para mim e a mãe dele não disse mais nada.

Gostei da conversa com o meu cunhado. Em poucos minutos, ele me


deu um bom panorama das extensões dos negócios da família. Ele parecia se
orgulhar muito de ter todo o país nas mãos. Os Bellucci ditavam as regras não
apenas nas ruas, mas nas grandes corporações, na política e até mesmo na
escolha do próximo pontífice.

Passei o restante da tarde conversando com a minha sogra e meu


cunhado enquanto esperava que o meu marido retornasse para casa após as
suas reuniões.
Capítulo Quarenta e Um

— Vou providenciar para o senhor uma lista das pessoas que irão
encabeçar as empresas que concorrerão a licitação para realizar as obras e os
eventos na cidade durante o jubileu.

— Todos com nome limpo e boa imagem, eu espero. — Encarei o


homem sentado do outro lado da mesa.

— Sim. São engenheiros, arquitetos e investidores com nomes


impecavelmente limpos e a prova de qualquer fiscalização. Vamos garantir
que não levantaremos nenhuma suspeita na prefeitura por parte da oposição e
que o prefeito não tenha qualquer dificuldade em aprovar nossas empresas.

— Ótimo. Eu quero essa relação de nomes e também a dos projetos


que serão apresentados para que eu possa analisar. — Levantei-me da cadeira
e ofereci a mão para que o homem diante de mim, Carlos Caruso, pudesse
apertá-la, em um gesto de confiança.

— Mais uma vez faremos grandes negócios juntos, senhor Bellucci.


— Ele segurou a minha mão em meio a um largo sorriso.

— É tudo o que eu espero. Tenha uma boa noite, senhor Caruso. —


Ajeitei o colarinho da minha camisa e lhe dei as costas.

Caminhei até a porta, onde meia dúzia dos meus homens aguardava
por mim, e deixei a sala. Carlos era dono de uma agência gestora de recursos
humanos e a usava como fachada para gerir pessoas e empresas em nome da
máfia, sendo muito bem recompensado por isso. Ele era um dos nossos
passaportes para o mundo dos negócios lícitos, mas que não conseguia fazer
nada sem minha autorização, pois era crucial que eu tivesse o controle de
todas as grandes influências do país, como a polícia, a imprensa, o Vaticano e
a política.

Segui pelo corredor apertado até chegar aos fundos do prédio, onde
estava parado um dos meus carros e duas vãs com soldados. Não foi apenas a
segurança da mansão que eu aumentei quando a bomba quase matou a minha
esposa e a minha mãe, mas a minha pessoal também. Acreditava que
Donatella não iria querer me ferir, apenas a mulher que ela acreditava que
havia roubado o lugar dela, mas a conhecia o suficiente para saber o quanto
era instável e que poderia mudar de ideia e perder o controle a qualquer
momento.

Um dos meus homens abriu a porta e eu entrei no banco de trás do


veículo, juntamente com um soldado. Um dos seguranças dirigia, enquanto
outro observava tudo do banco do carona. Pelo retrovisor central, podia ver
as duas vãs no seguindo.

Relaxava no assento indo a caminho de casa quando o meu celular


tocou.

— Martino?

— Senhor, temos um enorme problema.


— Que problema? — Cerrei os dentes, irritado antes mesmo de saber
o que poderia ser.

— Um dos nossos laboratórios foi invadido.

— Invadido?

— Sim, roubaram o estoque de coca que estava sendo processado.

— Como assim roubaram, caralho?

— Eram dez homens muito bem armados. Abateram dois homens da


segurança e imobilizaram os outros. Não tiveram muito o que fazer.

— Que porra! — vociferei, socando o banco na minha frente.

— Theo acabou de chegar aqui, você também virá?

— Sim.

Não me agradava a ideia do meu irmão ter deixado a minha esposa e a


minha mãe sozinhas, mas era algo excepcional. Com Mateo a negócios na
Sicília, precisava do Theo ao meu lado. Nos onze anos que eu era o chefe da
máfia, nenhum dos nossos inimigos, ou mesmo a polícia, teve coragem de ir
tão longe, roubando o nosso estoque de drogas. Era uma atitude muito
insensata da parte de quem quer que tenha feito isso, e a retaliação seria a
altura.

— Vamos para a boate Netuno — avisei para o homem que dirigia o


carro.
— Sim, senhor. — Ele girou o volante e tomou um retorno.

Operávamos em todos os clubes e boates em Roma, que haviam sido


divididos entre os chefes de famílias locais que dominavam dadas regiões da
cidade. A boate Netuno, assim como algumas outras pelo país, não era apenas
um centro de venda de drogas, abrigava também um dos nossos laboratórios,
que preparava o pó puro que comprávamos dos bolivianos antes que fosse
distribuído para venda nas ruas.

Estava muito irritado e por pouco não esmaguei o celular entre os


meus dedos. Se havia algo que qualquer líder odiava era ser desafiado dentro
do seu território.

O carro parou diante da entrada da boate e eu fui o primeiro a descer.


Segui pela entrada, atravessei o grande salão, que já deveria estar sendo
ajustado para receber as pessoas que chegariam com a noite, mas que estava
reunindo os empregados, sem saber o que fariam. Cheguei até a cozinha e
entrei na dispensa. No fundo, havia um alçapão que ocultava uma escada. O
nosso laboratório ficava muito bem escondido para garantir que não fosse
encontrado em alguma busca da polícia.

A primeira pessoa que vi foi o meu irmão, Theo. Certamente, Martino


havia o avisado primeiro para ter chegado tão rápido.

Theo estava de braços cruzados e encarava o lugar, que parecia ter


sido arrasado por um furacão. Os fracos de vidro e tubos de ensaio haviam
sido jogados no chão, até mesmo as balanças estavam quebradas num canto.
O cofre na parede, onde deveria ficar guardada a droga, estava aberto e
revirado. Sobrou apenas um pouco de pó nas prateleiras.

— Quem foi? — Eu estava bufando feito um touro.

— Ainda não sabemos. — Foi Theo quem respondeu.

— Como deixaram invadir e roubar? — Virei-me para o Martino, que


era o capo da região. O comércio naquele clube era responsabilidade dele,
bem como a segurança da minha droga.

Peguei-o pelo pescoço e o prensei contra a parede úmida daquele


porão abafado. Ele tentou se soltar do meu agarre, mas não conseguiu.
Esperei que ele falasse, mas era impossível com a minha mão apertando o seu
pescoço com toda a força.

— E-eram... eram... — Quanto mais ele gaguejava, mais irritado eu


ficava.

— Assim ele não vai conseguir falar, irmão — comentou Theo ao


meu lado.

Soltei o pescoço do Martino e deixei que ele caísse de joelhos no


chão. Ele levou as mãos ao pescoço e tentou massagear a região, que eu havia
deixado vermelha.

— Como deixou que levassem à minha droga?

— Eram muitos, senhor.


— Muitos? — Revirei os olhos. — Então por que está aqui na minha
frente? Deveria ter protegido essa mercadoria com a sua vida. Tem ideia de
quanto dinheiro você me fez perder?

— Eu sinto muito.

— Sente? Isso é tudo o que tem para me dizer, caralho!? — Saquei a


arma que eu guardava na cintura e apontei para a cabeça dele. — Acha que eu
ligo para o quanto você sente muito?

— Marco, ele é um capo. — Theo segurou o cano da minha arma e a


apontou para cima, tirando a cabeça do homem da minha mira.

— Acha que estou me importando com isso?

— Vamos levá-lo para uma audiência na presença dos outros capi e aí


decidimos o que faremos com ele.

— Quero ver só não concordarem com sua execução quando


souberem que ele se deixou ser roubado — Bufei.

— É uma situação delicada... — começou o Martino, mas foi a vez do


meu irmão tirar a arma e apontar para ele.

— Fique calado até que a gente converse com você.

— Onde estão os químicos que deveriam estar aqui? — perguntei.

— Foram levados lá para fora e executados — respondeu Martino


com o olhar assustado. Era óbvio que ele estava preocupado com o destino
que teria se eu não recuperasse a minha droga.

— Quero saber quem fez isso. Ou eles pagam ou vou pensar que foi
você quem fez isso e está tentando me passar para trás.

— Eu... eu... — Martino mal conseguia falar de tão apavorado e eu


achei no mínimo deprimente para um homem na posição dele.

— Talvez teria sido melhor que a sua irmã tivesse assumido, e não
você. — Eu estava irritado.

— Vamos lá para fora. Esse lugar fede a mofo. — Theo puxou o meu
braço e me arrastou de volta ao exterior do clube. — Você acha que pode ter
sido ele? — perguntou, quando já estávamos do lado de fora, próximo aos
nossos homens.

— Quem mais seria insano ao ponto de nos invadir e atacar


diretamente? Uma guerra não é boa para ninguém e sabem que temos força
para esmagar quem quer que seja.

— Você tem razão, mas, mesmo assim, ainda estou achando tudo
muito estranho. — Meu irmão acariciou o rosto onde os pelos da barba
estavam começando a crescer.

— Temos que resolver isso e dar uma lição no culpado.

— Sim.

Eu estava focado em solucionar o problema do roubo. Achava que era


a maior dificuldade que enfrentaria naquela noite, porém o que eu não fazia
ideia era de que ela estava apenas começando.
Capítulo Quarenta e Dois

— Será que podemos decorar o quarto com o tema de savana? Acho


fofos os animaizinhos. — Apontei para o meu celular, para que a minha sogra
visse uma foto e entendesse sobre o que eu estava falando.

— Vai ficar uma graça. — Ela sorriu.

— Acha que o Marco vai se incomodar com uma pequena reforma?

— Tenho certeza que não. Meu filho quer vê-la feliz.

— Você decorou o quarto dele? — Escorei-me na parede enquanto a


observava mexendo na batedeira, fazendo o que parecia ser um bolo.

— Não tinha tantas ideias legais para quarto de bebê na minha época,
nem acesso à internet como temos hoje, mas os garotos tiveram muitos
brinquedos.

Eu estava empolgada com o bebê. Como a minha sogra dava corda,


imaginei que não houvesse nada de errado com isso.

— Olha que legal essa régua em forma de girafa para medir o


crescimento da criança.

— Que gracinha!

— Será que o Marco volta para casa hoje? — Olhei as horas no


relógio do celular e fiquei preocupada.

Theo tinha saído após atender um telefonema que o deixou bastante


nervoso, mas não disse nada a mim ou a sua mãe sobre o que era. Rosi
parecia tranquila preparando o seu bolo, já estava acostumada com os filhos e
o tempo que demandavam as atividades ilegais que eles tinham, porém eu
não conseguia evitar ficar nervosa quando Marco demorava para aparecer.

— Não sei. Eu não esperaria acordada. Pela forma como o Theo saiu,
tenho certeza de que estão enfrentando um problema.

— Você acha que ele pode... — Nem tive coragem ou força para
terminar a frase, pois meu coração apertou tanto que foi difícil de respirar.

— Ah, não! Eles estão bem. Theo teria me dito se o irmão houvesse
se machucado. Eu os conheço bem e eles me conhecem melhor ainda para
saber que não devem esconder algo assim de mim.

— Que bom. — Tentei respirar aliviada, mas não estava assim tão
tranquila quanto gostaria.

— Espero que eles cheguem a tempo... — A frase da minha sogra foi


interrompida por um estalo que me fez pular de susto.

— Isso foi um tiro? — Havia ouvido bem aquele barulho enquanto


praticava com a arma, porém ainda achava difícil acreditar que não fosse algo
da minha mente.

— Um dos homens deve ter atirado por algum motivo. — Rosi não
pareceu muito preocupada e eu tentei não ficar também.

— Está fazendo bolo de quê?

— Chocolate com recheio de morangos.

— Vai ficar delicioso! Quer a minha ajuda? — Guardei o celular no


bolso e me debrucei sobre a bancada de pedra.

— Pode pegar por favor os ingredientes para o recheio na despensa e


na geladeira?

— Sim! O que você precisa?

— Pega morango, chantilly, leite condensado, creme de leite...

Entrei no cômodo enquanto ela falava e vasculhei o lugar com os


olhos em busca do que a minha sogra havia pedido.

Estava completamente distraída apanhando os ingredientes, quando


fui surpreendida com um grito dela seguido do som de algo caindo, que
imaginei ser a bacia em que ela mexia o bolo.

— Rosi, está tudo bem? — Saí da despensa para ver o que poderia ter
acontecido com ela.

Imaginei que a minha sogra pudesse ter tomado um choque na


batedeira ou qualquer outra coisa, mas nada me preparou para o susto que eu
tomei quando vi que dois homens haviam entrado na cozinha e apontavam
suas armas para ela. Eles usavam silenciadores nas pistolas e isso me fez
estremecer, pois não sabia do estrago que poderiam ter feito até conseguirem
entrar.

— Quem são vocês? — Engoli em seco.

— Ah, finalmente encontrei as duas. — A voz feminina, alta e


enfática, atrás de mim fez com que eu me virasse para a porta da cozinha que
levava ao interior da casa.

— Donatella... — murmurei o nome dela, estarrecida. Os homens não


precisaram dizer nada, pois sabia que eles estavam ali a mando dela.

— Olá! Como essa casa é grande! Passei por vários cômodos até
encontrá-las aqui. — O sorriso que ela me dirigia era sereno, como se
fôssemos melhores amigas e houvéssemos acabado de nos encontrar para um
café.

— O que está fazendo aqui? — Rosimeire a questionou.

— Livrem-se da velha. Só quero a garota. Joguem ela em qualquer


canto da casa, mas não precisam matá-la.

— Rosi! — Gritei, tentando proteger a minha sogra com o sopro de


coragem que havia dentro de mim, mas nada pude fazer antes que um dos
homens a atingisse com uma coronhada, que fez com que ela caísse
desacordada.

Um dos caras a pegou pelos braços e a jogou dentro da despensa,


trancando a porta em seguida, como se ela fosse um brinquedo usado jogado
num canto.

— A mãe do Marco...

— Não seja sentimentalista. A megera vai ficar bem, por mais que a
minha vontade não fosse essa.

— O que veio fazer aqui?

— Vim atrás de você. A doce esposinha do meu homem.

— Ele não... — Mordi a língua e não terminei a frase. De nada


adiantaria dizer que o Marco era meu, isso só a deixaria mais irritada.

No momento, era ela quem tinha vantagem. Além de estar portando


sua própria arma, havia dois capangas seus apontando pistolas para mim.

— Eu pensei muito em como iria matá-la, mas achei que só um tiro


seria pouco.

— Você não vai querer que o Marco veja você aqui.

— Não vamos nos preocupar com ele agora. Eu o mandei para o outro
lado da cidade e, dado ao trânsito desse horário, ele não vai conseguir voltar
para casa tão cedo.

— O Theo também saiu por armação sua?

— Sou mais esperta do que imagina, anjinho. — Ela piscou para mim
com um sorriso atrevido. — Você é ingênua demais para esse mundo, Laís. O
Marco precisa de uma mulher forte ao lado dele, uma que tenha sangue frio
para lidar com todos os assuntos.

— Não acha que é ele quem tem que decidir isso? — Me arrependi de
tê-la provocado quando vi um lampejo de raiva atravessar os seus olhos.

Não queria morrer naquele momento. Na verdade, nunca quis morrer,


mesmo antes de conhecer o Marco. Tínhamos uma boa vida juntos e iríamos
ter um bebê, não queria que tudo aquilo fosse destruído por uma louca
instável.

— Marco me quer. Ele sempre me quis, mas ele está preso a um


acordo estúpido, que acabará quando você morrer. Só que você é muito mais
esperta do que eu imaginava. Já está grávida dele.

— Só aconteceu. — Engoli em seco. Eu não sabia o que responder a


ela, mas também não me parecia uma boa ideia ficar completamente calada.

— Aconteceu? — Ela gargalhou. — Não é algo que simplesmente


acontece, ao menos, não sem sexo. Você tem um rostinho tão ingênuo que
deve ser completamente entediante na cama.

— Ele precisa de um herdeiro. — Achei melhor dizer isso do que


contar para ela a forma como Marco me olhava com desejo, e que estava com
as mãos e o pau em mim sempre que tinha oportunidade.

— Mais um dos esforços dele por honra. Certamente esse é um dos


defeitos que eu mais odeio nele. Honra, sempre honra... Somos criminosos.
— Não quaisquer criminosos, somos a máfia.

— Parece que você aprendeu isso rapidinho.

Donatella deu alguns passos na minha direção e eu recuei outros


tantos até que senti o cano gelado do silenciador de um dos homens nas
minhas costas. Engoli em seco e um suor frio escorreu pela minha testa. Eu
não estava pronta para morrer nem esperava que a morte fosse chegar tão
rápido.

— Vem comigo, anjinho. — Donatella fez um gesto para que eu a


seguisse e não me restou escolha a não ser fazer o que ela queria.

Eu precisava ganhar tempo, ao menos até que o Marco chegasse.

— Para onde está me levando?

— Para o quarto onde abre as pernas para ele.

— Não fazemos só no quarto — ingenuamente eu a respondi e vi


outro lampejo de raiva em seus olhos cor de mel.

Eu me senti em uma corda bamba sobre um prédio de muitos andares.


A adrenalina era a mesma. Assim como o medo. Qualquer pisada em falso
que eu desse, iria custar a minha vida.

Subi os degraus que levavam ao segundo andar atrás da Donatella e


passei por outros homens dela que estavam espalhados pelo corredor. Ela
deveria ter contado com a ajuda de um pequeno exército para entrar ali e
ultrapassar todas as barreiras que o Marco havia criado para me proteger.

— Entra no quarto. — Ela segurou o meu braço e me empurrou para


dentro do cômodo.

Entrei cambaleando e por pouco não tropecei nos meus próprios pés.
Donatella veio atrás de mim e agarrou o meu cabelo.

— O que vai fazer comigo?

— Mostrar o que o seu marido gostava de fazer quando estávamos


juntos. — Ela fez um movimento de cabeça para um dos homens e eles
vieram para mais perto, até que um se aproximou e entregou para a Donatella
uma mala preta.

Ela soltou a arma, deixando-a aos pés da cama e segurou o meu braço.

— Me solta! — Tentei me libertar, mas os homens se movimentaram


dentro do quarto e apontaram suas armas para mim.

Era praticamente impossível dar um passo contra a vontade deles sem


tomar um tiro.

— Tira a roupa — ordenou Donatella com a voz firme.

— Quê? Eu não vou tirar.

— Prefere ter os miolos estourados?

— Não. — Minha voz estava aflita e o meu coração mais pesado do


que nunca.

Era aterrorizante pensar em me despir diante de olhos masculinos que


não fossem os do meu marido. Porém, eu precisava ganhar tempo. Tinha
esperança de que o Marco fosse chegar para me resgatar daquela louca.

— Parece que você prefere... — Ela aproximou a mão da arma outra


vez.

— Eu vou tirar.

— Isso. Bem obediente. Acho que o Marco deve adorar isso em você.

Tirei a minha blusa bem devagar e depois a calça jeans. Tentei fazer
de uma forma que não deixasse a Donatella irritada ao ponto de atirar em
mim, mas também que demorasse o máximo possível. A cada peça que eu
tirava, sentia os olhos pesados dos homens sobre mim e isso me deixava
muito desconfortável.

— Tudo! Eu quero que tire tudo. — Donatella voltou a elevar a voz


quando fiquei só de calcinha e sutiã.

Engoli em seco. Meus dedos estavam escorregadios e a humilhação


que se misturava a vergonha não facilitava em nada. Abri o sutiã e o puxei
para frente, mas usei os meus braços e o cabelo para esconder os meus seios.

— Não me faça perder a paciência, garota! — Ela pegou o meu braço


e me empurrou para trás.
Caí deitada na cama e Donatella tirou uma algema da mala,
prendendo um dos meus braços na cabeceira. Fez o mesmo com o meu outro
pulso, imobilizando-me.

Fiquei sem jeito quando os homens botaram seus olhos nos meus
seios expostos à mostra, mas aquela era a minha menor preocupação no
momento, pois eu estava atada a cama.

Donatella puxou a minha calcinha e nada pude fazer a não ser deixar
que me vissem nua e completamente exposta. Não quis pensar no que ela iria
fazer comigo, pois as imagens que passavam pela minha cabeça eram
aterrorizantes demais.

O que eu teria que suportar até que o Marco soubesse que eu estava
correndo riscos?
Capítulo Quarenta e Três

— Foi uma armadilha! — Eu vociferei com o meu irmão que estava


ao meu lado dentro do carro quando notamos que a invasão a boate Netuno,
próxima a Fontana Di Netuno, havia sido apenas uma distração, que
funcionou muito bem, pois conseguiu afastar nós dois de casa.

— Não imaginava que a Donatella conseguiria pensar e executar algo


assim. — Theo estava massageando as têmporas. Ele estava tão chocado com
o que acontecera quanto eu.

— A Laís... Se ela encostou um dedo na Laís...

— Calma, Marco.

— Que porra de trânsito é esse? — Olhei para a janela e vi que não


havíamos avançado nada nos últimos minutos, e isso estava me deixando
tudo, menos calmo.

Enquanto Theo e eu tentávamos resolver o assunto do roubo, recebi


uma ligação de um dos meus homens avisando que a mansão estava sendo
invadida. Jamais seria capaz de prever tamanha loucura da Donatella, mas ela
era insana.

Peguei o meu celular e liguei para a minha esposa. Meus homens não
atendiam mais, porém esperava que eles estivessem focados em proteger a
minha mãe e a minha mulher dentro daquela casa, pois essa era a missão
deles.

A cada novo toque o meu coração ficava mais apertado. Até que
finalmente ela atendeu.

— Laís?

— Oi, Marco. — A voz que ressoou do outro lado da linha não era a
que eu desejava.

— Sua desgraçada! Se você machucá-la, eu juro que dou a você a


morte mais dolorosa possível.

— Gosto quando você fica nervoso, sabe bem disso.

— Como está a Laís?

— No momento, esperando.

Senti o telefone vibrar e afastei o aparelho do ouvido para ver uma


mensagem que Donatella havia enviado através de um aplicativo. A imagem
que eu vi fez com que o meu estômago e o meu coração revirassem. Era uma
foto da Laís nua, atada a cama pelos braços. A expressão no rosto dela era de
puro pânico.

— Lembra quando você fazia isso comigo?

— Solta a minha esposa agora, Donatella.

— Você não está em posição de dar ordens, chefe — disse a última


palavra num tom carregado de deboche. — Apesar que eu amo ouvi-lo
mandar.

— O que você quer de mim, Donatella?

— Você bem sabe.

Minha boca se enchia de ameaças, mas eu sabia que elas não


funcionavam com Donatella. Aquela mulher psicótica gostava de ser
torturada, ameaçada e tomada. Porém, eu precisava agir com cautela, porque
tudo o que eu não queria era que ela machucasse ou fizesse algo pior com a
Laís.

— Estou te esperando — disse ela antes de desligar a chamada.

Eu urrei dentro do carro, de raiva, dor e com todos os sentimentos


ruins misturados em uma tormenta alucinante. Achava que estava fazendo o
meu melhor para proteger a minha esposa e o meu filho que estava por
nascer, mas eu tinha falhado miseravelmente.

— Se aquela mulher matar a Laís, não importa a opinião dos capi,


vou matá-la da forma mais dolorosa possível e vou espalhar partes dela da
Sicília até a Lombardia. Farei o mesmo com todos os outros que acharem que
eu estou errado.

— A Donatella foi longe demais. Ninguém achará que você está


errado. — Theo colocou a mão sobre o meu ombro, mas eu me movi
rapidamente, fazendo com que ele se afastasse.
Estava tão furioso que só conseguia pensar na imagem dos meus
dentes estraçalhando a carne da Donatella, como seu eu fosse um lobo
selvagem.

Finalmente o carro parou a uma certa distância da mansão. Meus


homens sabiam que o lugar havia sido tomado e que não era seguro entrar e
muito menos descer do veículo dentro dos muros da casa, ou viraríamos alvos
fáceis.

Peguei o celular e o coloquei no bolso antes de sacar a minha arma e


abrir a porta do automóvel. Eu a utilizei como escudo até identificar onde
estavam meus inimigos. Dois tiros vieram e acertaram o metal blindado. Usei
o vidro para tentar identificar onde eles estavam, e vi que tinha um homem
perto do portão e outro na esquina. Levantei acima da altura da janela apenas
tempo suficiente para mirar e atirar.

O homem que estava na esquina caiu e Theo, parado do outro lado do


carro, atirou no que estava próximo do portão.

Meus homens desceram das vãs e alguns seguiram na frente. Com o


meu irmão ao lado, avançamos perto do muro que cercava a propriedade e
mantivemos nossas armas em punho. Por mais nervoso e angustiado que eu
estivesse, não poderia entrar na casa de peito aberto, correndo o risco de ser
morto antes que tivesse a chance de salvar a minha esposa.

Theo fez uns gestos e alguns homens seguiram na nossa frente. Ouvi
muitos tiros enquanto eles entravam pelo portão. Theo e eu seguimos atrás.
Efetuamos disparos contra os homens que estavam escondidos, buscando
proteção na fachada do prédio, lugar que costumava ser ocupado pelos meus
soldados.

Alguns que entraram conosco foram abatidos enquanto


atravessávamos o jardim, abrindo caminho para o interior da casa.

Só conseguia torcer para que a Laís aguentasse firme.

Estou chegando...
Capítulo Quarenta e Quatro

Escutei os tiros lá fora e o meu coração acelerou. Era o Marco, só


podia ser.

Estava tão distraída com o meu vislumbre de esperança, que quase


não ouvi o assobiar do couro cortando o ar antes de atingir as minhas coxas.
A dor foi aguda e fez com que eu resmungasse baixinho.

— Gosta disso? — Riu Donatella, e a única coisa que eu conseguia


ver era uma mulher muito psicótica na minha frente.

— Você é louca! — arrependi-me de ter gritado no momento em que


as palavras deixaram a minha boca, mas já era tarde demais.

— A dor e o prazer estão mais ligadas do que você imagina, docinho.


— Escorregou as cordas do chicote nas minhas coxas e o contato provocou
cócegas, mas me contive o máximo para que ela não percebesse que tinha
qualquer efeito sobre mim.

— Era isso que o Marco fazia com você?

Donatella aproximou o seu rosto do meu e um sorriso iluminou os


seus olhos quando me encarou. Percebi pela sua atitude que eu havia
conseguido capturar a sua atenção e isso poderia me ajudar a ganhar tempo
até que o Marco chegasse.
— Marco fazia muitas coisas comigo, querida.

— O quê?

— Você é tão idiota. — Ela bufou ao jogar o cabelo ruivo para trás.
— Fico me perguntando como conseguiu engravidar dele se ainda tem essa
cara e esse jeito de virgem.

— Ele não é violento comigo — falei a verdade, mas fiquei sem saber
se era apropriado.

Pela forma como Donatella agia, era evidente que ela gostava da
violência. Assim como eu, aquela mulher havia nascido na máfia, porém,
enquanto eu estava sendo criada pelas freiras do convento até ser entregue ao
Marco, ela deveria ter visto e feito coisas que eu nem era capaz de imaginar.
A violência corrompia as pessoas, e era evidente que Donatella havia sido
quebrada e remoldada da pior forma possível.

— Eles também eram violentos com você?

— Eles quem? — Franziu o cenho, estranhando as minhas perguntas.

— Os outros. Você não teve só o Marco, teve?

— A dor nos faz sentir que estamos vivos.

— Por que você pensa assim, o que fizeram com você?

— Me tornaram mais forte. Se você não aprende, você quebra, e é


exatamente o que acontecerá com você. — Donatella me encarou séria.
Ficou evidente pelo seu olhar que ela não iria me dizer nada, mas não
precisava. Eu já havia entendido que ela lidava com a dor desde cedo e não
sabia como era uma vida sem ela.

Ouvimos tiros vindo do corredor e me remexi, tentando olhar para


porta. Vi o Marco e um peso tremendo pareceu deixar o meu peito. Ele estava
ali. Finalmente, havia chegado, me salvaria, e isso era tudo o que importava.

— Marco! — gritei por ele, antes de vê-lo atirar no homem que estava
perto da porta.

O sujeito que estava dentro do quarto com a Donatella apontou a arma


e disparou contra o meu marido, que tentava usar o corpo do que ele havia
abatido como proteção. Foram tantos tiros que nem consegui contar. Tinha
certeza de que o soldado havia descarregado a arma. Eu vi Marco caindo para
trás em meio aos disparos, com o homem que ele usava como escudo
tombando em cima dele.

— Marco! — voltei a gritar. — Não!

Estava incrédula, não era possível que ele havia morrido bem diante
dos meus olhos.

— Marco!

Havia um cadáver sobre ele e eu não conseguia ver direito. Não


queria acreditar que alguma das muitas balas havia o atingido e ele era apenas
mais um corpo sem vida.
— Marco!

Tudo aconteceu rápido demais! Num instante ele surgia, como


imaginei, para me salvar, abrindo passagem entre os homens da Donatella
para chegar até mim, mas no momento seguinte, ele estava caído no chão
após ser alvejado por muitos e muitos tiros. Morto?

Meu coração doeu mais do que era capaz de suportar.

— Não... — choraminguei baixinho.

Minhas lágrimas não haviam molhado o lençol até aquele momento.

— Ele... — Donatella olhou para o seu homem tão incapaz de


acreditar quanto eu.

— Parece que o grande chefe morreu como um bosta qualquer —


gabou-se o homem que havia atirado no Marco.

O sujeito caminhou até o meu marido e parou ao lado dos corpos. Ele
abaixou a cabeça e o chutou. Nesse momento, Marco levantou o braço e
atirou nele. Algo dentro de mim explodiu com o misto de surpresa e a
segunda onda de choque. Ele não havia morrido, apenas fingia, usando desse
subterfúgio para pegar o inimigo de guarda baixa.

Quando Marco empurrou o corpo para o lado e se levantou do chão,


nossos olhos se encontraram e aquela imensidão azul foi meu refúgio e fez
com que eu tivesse certeza de que tudo ficaria bem.
— Fica longe da minha esposa! — Ele estava de dentes cerrados ao
apontar sua arma para Donatella.

Estava com os meus olhos fixos nele e o coração batendo acelerado


por medo, adrenalina e instinto de sobrevivência que levei um tempo para
notar que Donatella havia apontado a sua arma para a minha cabeça. O cano
frio da arma estava tão próximo da minha têmpora que não havia como eu
sobreviver caso ela disparasse.

— Quem você acha que morre primeiro se você atirar? — Ela


gargalhou ao encarar o Marco. Não parecia nem um pouco impactada com
tudo o que havia acontecido nos aflitos minutos que se passaram. Era
inegável como ela estava preparada para lidar com situações como aquela.

— Donna, não atira na Laís.

— Ou o quê? — A ruiva gargalhou o desafiando.

— Sei que não está aqui por causa dela. O que quer de mim? —
Marco se ajoelhou e abaixou a arma dele, colocando-a no chão.

Donatella o encarou e o sorriso nos seus lábios se tornou ainda mais


largo. Ela sabia que enquanto me ameaçasse que tinha total controle da
situação.

— Por que acha que não estou aqui por ela?

— O problema nunca foi a Laís.


— Você está enganado, sempre foi ela. Se essa fedelha não existisse,
você estaria comigo.

— É o que você pensa? — Marco a encarava fixamente e por um


momento ignorou a minha presença. Donatella não era a única que havia sido
moldada para lidar com situações extremas. Marco estava tentando agir
friamente e assim convencê-la a fazer o que ele queria.

— Tenho certeza.

— Você sabe que a esposa do chefe não é uma posição para você. É
uma líder, e não uma bonequinha programada para sorrir, acenar e carregar
herdeiros.

Marco se aproximou dela e Donatella não recuou. Sua arma ainda


estava virada para a minha cabeça, mas seus olhos estavam fixos nele.

— Pegue o chicote. — Ela apontou para o instrumento ao lado do


meu corpo na cama.

— O quer que eu faça? — Ele o pegou, mas sem desviar o olhar, para
que Donatella também não olhasse em outra direção.

— Mostre para o seu anjinho o que fazia comigo. — O sorriso de


Donatella era tão sombrio que parecia capaz de matar apenas com ele.

— Então abaixe a arma.

— Acha que não sei que quando eu fizer isso que você vai tentar me
matar?

— Tem a minha palavra que não vou. — Marco chutou a arma dele
para debaixo da cama. — Sabe que nunca menti para você, Donna.

Ele esticou a mão e tocou o rosto dela, mas ao invés do carinho que
eu esperava que fizesse, Marco segurou sua mandíbula e a pressionou com
força. Ele levantou a cabeça dela com grosseria e Donatella soltou um
estranho gemido de prazer. Enquanto retorcia os olhos, diante da estranha
excitação pela brutalidade do Marco, ela abaixou a arma.

Por uma breve fração de segundo o meu marido olhou para mim e eu
tive um vislumbre do homem que eu amava por debaixo daquela face de
monstro que ele estava mostrando para a Donatella. Contudo, esse lampejo
logo desapareceu quando os olhos azuis dele voltaram a ficar terrivelmente
frios e ele agarrou o cabelo da Donatella, puxando-o para trás com uma força
violenta. Ele levantou o chicote com a outra mão, mas ao invés de vir com ele
para cima de mim, Marco o colocou entre as coxas da Donatella e foi
subindo-o até sua virilha. Um gemido ainda mais alto escapou da garganta
dela.

Enquanto meu marido mostrava a sua pior face, dominando a mulher


que estava prestes a me matar, eu me recordei de uma das coisas que o meu
cunhado Mateo havia me ensinado num dia em que ele entrou no galpão e me
viu treinando tiro ao alvo. Não achava que fosse precisar, porque, apesar de
ser esposa do chefe da máfia, nunca me passou pela cabeça que seria mantida
presa daquela forma. Ainda bem que dei ouvidos a frase dele: não importa a
situação, tenha sempre um grampo no cabelo, cunhadinha.

Eu me movi até que a minha cabeça se aproximasse de uma das


minhas mãos atadas na cama, consegui puxar o grampo que estava no meu
cabelo e o segurei.

Donatella estava completamente rendida ao Marco e não percebeu


quando eu soltei uma das mãos. Meu marido pressionou o chicote contra o
centro de gravidade dela e fez com que Donatella caísse sentada.

— Vamos fazer aqui na frente dela? — Riu como se estivesse se


divertindo com isso.

Eu me movi na cama e com um impulso com as minhas costas,


joguei-me para frente e usei o braço solto para dar uma chave nela.

— Não vai fazer porra nenhuma com o meu marido, desgraçada! —


gritei contra o seu ouvido.

Eu a derrubei na cama e a imobilizei com as pernas enquanto meu


braço pressionava o seu pescoço. Donatella se debateu pela falta de ar, tentou
se livrar de mim, mas não conseguiu. Usei toda minha força, somada com a
raiva e a revolta pela humilhação que ela havia me feito passar, para enforcá-
la.

Marco assistia e não fez nenhum movimento para me impedir.

Donatella parou de se mover e sua cabeça caiu para frente, mas eu


não parei de sufocá-la, pois queria ter certeza de que ela não voltaria ao
mundo dos vivos. Ela queria fazer com que a minha inocência morresse e
conseguiu. Depois daquele dia, eu nunca mais iria ver a morte da mesma
forma.

— Ela... ela... — Encarei o Marco, ainda sem conseguir perguntar.

— Está morta?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Está, sim.

Marco puxou o corpo de Donatella e o jogou no chão. Ele subiu sobre


o colchão e me puxou para o seu colo. Meu braço ainda preso estava dolorido
e havia se machucado com todo o meu contorcionismo, mas era a minha
menor preocupação no momento. Meu marido pegou o grampo na cama e
terminou de me soltar.

— Como aprendeu a abrir algemas?

— Mateo me ensinou.

— Ao menos uma coisa boa ele fez. — Sorriu ao passar as mãos pelo
meu rosto e jogar o meu cabelo para trás. Beijou-me no topo da cabeça e o
seu olhar voltou a ficar sereno. — Como você está?

— Vou ficar bem. — Tombei a cabeça e a apoiei em seu peito.

— Desculpa pelo que aconteceu.


— Você fez o que pode e ela está morta agora. É o que importa.

— Laís? — Ele segurou o meu queixo e me fez erguer os olhos para


encará-lo.

— Sim? — Levantei uma mão e toquei o seu rosto.

— Eu amo você.

Aquele dia definitivamente havia sido uma grande montanha-russa,


que me fez experimentar todos os sentimentos de uma única vez.

— Também amo você. — Foi a minha vez de puxar o rosto dele e


trazê-lo até o meu. Quando nossos lábios se tocaram houve uma ternura
incomum que me fez esquecer por um momento de tudo o que havia
acontecido.

— Marco!

Olhei sobre o ombro do meu marido e vi o irmão dele chegar na porta


do quarto, acompanhado de outros homens.

— A Laís...

— Está bem — respondeu o meu marido antes que Theo terminasse a


frase.

— E a Donatella?

— Eu a matei. — Surpreendi-me com a estranha satisfação na minha


voz.

— Parece que alguém perdeu o cabaço. — Riu meu cunhado.

— Deixe-nos a sós — ordenou Marco com uma voz firme.

O irmão assentiu e saiu do quarto, levando os demais com ele.

— Algum deles violou você? — Marco olhou para os homens mortos


no quarto.

— Não. Acho que a Donatella queria outra coisa.

— O bebê...

— Está bem. — Peguei a mão dele e a coloquei sobre o meu ventre.


— A sua mãe...

— Tiramos ela da despensa. Nada aconteceu com ela.

— Graças! — Suspirei aliviada.

Fiquei mais um tempo no colo do meu marido, envolta por ele, até
que me levantei, fui até o closet, peguei um roupão para cobrir o meu corpo e
roupas limpas.

— Eu preciso de um banho e não quero dormir aqui essa noite. —


Olhei para os corpos e todo sangue no chão.

— Vamos para um dos quartos de hóspedes.


— Obrigada. Vou para lá tomar um banho.

— Faça isso. Mandarei darem um jeito nesses corpos.

— Obrigada.

Eu saí pelo corredor e caminhei até o quarto de hóspedes. Vi homens


da Donatella abatidos pelo caminho e, ao invés de ficar completamente
aterrorizada, só conseguia pensar que precisava de um banho.

A verdade era que, cedo ou tarde, a máfia nos moldava e nos ensinava
a viver sob as suas regras.
Capítulo Quarenta e Cinco

Olhei para os homens reunidos no meu escritório. Alguns dias haviam


se passado desde que Donatella tinha invadido a minha casa, matado os meus
homens, apresentado a Laís um lado das coisas que eu não queria que ela
conhecesse, e que tinha sido inevitável que eu deixasse que minha esposa
sujasse suas mãos. Acreditava que poderia protegê-la de tudo, mas o melhor
que poderia fazer por ela era deixar que fosse forte e lidasse com aquela
merda toda, sem esconder nada.

— Para quem ainda não sabe, Donatella Rossi está morta. Ela invadiu
a minha casa e ameaçou a minha família. Todos aqui têm ciência que com a
família não se mexe.

— Lamento a situação ter chegado a esse ponto, Marco. — Flávio


Barbieri deu um passo à frente e me encarou com um ar mais firme.

— Não estou aqui para dizer que deveriam ter me ouvido antes. O que
aconteceu já aconteceu. O passado não pode ser desfeito. Só quero lembrar a
vocês que me apoiar é algo bom para todos nós.

— Tem razão, chefe. — Outro capo abaixou a cabeça.

— Isso não acontecerá novamente — garantiu Flávio. — Não temos


motivos para nos voltarmos contra você. Guerras são ruins para todos os
lados e lamento muito pelos homens que você perdeu.
— Quem será o chefe dos Rossi agora? — questionou Giorgio
Pelegrino, um chefe local que rivalizava território com o clã da Donatella.

— Dario Rossi. — Apontei para um homem que estava no fundo do


meu escritório, apenas ouvindo toda a discussão.

O primo mais velho de Donatella deu um passo à frente para que


fosse reconhecido pelos outros capi. Flávio e os outros homens não eram os
únicos que haviam dado apoio a pessoa errada.

Dario abaixou a cabeça quase em reverência diante de mim antes de


me encarar.

— Terá a minha total lealdade, Marco.

— É o que eu espero. — Virei-me para todos. — Algo assim não


voltará a acontecer porque eu sou o chefe, e antes que tentem me atingir
novamente, darei o posto de vocês a outros. Estamos entendidos?

— Sim. — Alguns disseram e outros apenas assentiram com a cabeça.

— Agora podem ir. — Apontei para a porta e deixei que saíssem.

Theo e Mateo foram os últimos a saírem da sala, só deixando o


cômodo quando eu os dispensei com um gesto.

Depois da invasão da Donatella, precisava parecer ainda mais firme e


invulnerável do que nunca para que nenhum outro ousasse ter a mesma
atitude. Por mais que ninguém tivesse coragem de admitir em voz alta, eu
tinha a certeza de que era a vontade de muitos assumir o meu lugar, mas não
iria deixar que isso acontecesse.

Ouvi uma batida na porta que chamou a minha atenção.

— Quem é? — questionei com a voz rígida.

— Sou eu. — A voz melodiosa da minha esposa ecoou do outro lado.

— Entre.

Laís puxou a porta e se esgueirou lentamente para dentro do meu


escritório.

— Já foram todos embora?

— Sim.

— Está muito ocupado?

— Para você, não. — Estendi a mão para que ela se aproximasse e


afastei a cadeira.

Laís trancou a porta antes de chegar mais perto de mim. Não


questionei a sua atitude, mas confesso que fiquei surpreso com ela. Passamos
alguns momentos juntos depois que tudo aconteceu, contudo estava tentando
dar espaço para ela. Não deveria estar sendo fácil. Em poucos meses, a
menina que eu havia deixado no convento tinha se casado comigo, conhecido
como as coisas funcionavam dentro da máfia, fora exposta, por pouco não foi
violada, e enfrentou duas tentativas de assassinato.
— Estou contente. — Segurei a cintura dela quando se aproximou.
Havia uma ligeira mudança nas suas medidas causada pela gravidez.

— Por quê?

— Pela forma como está lidando com tudo.

— Donatella morreu, isso significa que ela não vai mais me perseguir.
Isso é bom.

— Sim.

— Imagino que agora eu possa sair da mansão.

— Laís... — Franzi o cenho e afunilei o olhar. Não queria falar sobre


aquilo no momento. Donatella poderia estar morta, sim, mas eu ainda me
preocupava extremamente com a segurança da minha esposa.

— Não é sair sozinha. Terei os meus seguranças, mas eu pensei que


poderia cuidar de uma das organizações que você usa para lavar dinheiro.
Uma instituição de filantropia, talvez. Eu posso pegar uma porcentagem do
dinheiro para ajudar crianças carentes e manter a fachada.

— Tem certeza que quer fazer isso? — Encarei-a sério.

Laís abriu um sorriso.

— Não queria meter você nisso.

— Estou envolvida desde que nasci. — Ela se apoiou nos meus


ombros e os pressionou contra o encosto. — Não adianta fingirmos que não.

Laís empurrou a minha cadeira com as suas mãos nos meus ombros
até que parasse na parede. Esperei o que ela iria fazer, pois havia algo
incomum na forma como olhava para mim. Aqueles poucos dias foram o
suficiente para fazê-la amadurecer muito. Depois daquela noite, não a vi se
encolher mais ou recuar.

Minha esposa ajoelhou-se na minha frente, no espaço entre as minhas


pernas, e eu aguardei ansioso pelo que ela faria a seguir. Laís levou seus
dedos delicados até a braguilha da minha calça e abriu o meu cinto e o zíper.
Sua mão escorregou para dentro da minha cueca, provocando em mim uma
ereção quase instantânea. Ela extraiu o meu pênis e o envolveu.

A vi sorrir e umedecer os lábios antes tombar a cabeça. Seu hálito


quente tocou o meu pau, que pulsou. Certamente ela havia ganhado confiança
e coragem e gostei muito de como estava usando esses seus novos atributos.

Eu abri a boca para perguntar o que ela pretendia fazer, mas antes que
qualquer som escapasse, Laís levantou uma mão e pressionou o indicador
contra os meus lábios, me silenciando.

— Me deixa fazer.

— Faz. — Me acomodei melhor na cadeira, para que ela tivesse total


acesso ao meu pau.

Laís voltou a rodeá-lo com as mãos e primeiro me tocou com o hálito


antes de seus lábios pousarem sobre a minha glande. Meu sangue todo fugiu
para aquela região e fez com que o meu pênis ficasse ainda mais rígido.

Gemi quando seus lábios suaves, úmidos e muito quentes finalmente


me envolveram. Ela me fez escorregar todo em sua boca e engoliu o máximo
que suportou até que minha glande tocou a sua garganta. Estiquei uma das
mãos e a incentivei a continuar, acariciando seu cabelo ondulado e macio.

Com a língua ela me provocou e com os lábios me percorreu todo,


sorvendo meu pau habilmente. Diferente da primeira vez em que a coloquei
para fazer um boquete em mim, Laís não precisou de qualquer orientação
minha. Relaxei e me permiti desfrutar do momento, da sua boca e da
deliciosa visão dela ajoelhada entre as minhas pernas, me chupando sem
qualquer pudor.

Contive os meus impulsos de me mover contra a boca dela quando


meus instintos queriam que fosse mais rápido. Deixei que ela controlasse,
ditasse tudo, por mais que fosse terrivelmente angustiante ceder. Contudo, de
repente, ela parou e eu chiei.

— Continua! Eu quero gozar. — Era praticamente impossível conter


o meu ímpeto autoritário.

— Você vai gozar. — Sorriu ao ficar de pé.

Laís puxou a saia para cima e sentou-se no meu colo. Surpreendi-me


quando o seu sexo foi me envolvendo até que eu alcancei o seu útero.
Agarrei o cabelo dela, fazendo-a gemer, e aproximei a minha boca da
sua orelha.

— Onde está a sua calcinha? Não gosto de pensar em você andando


por aí sem ela.

— Tem certeza que não? — Moveu-se, arrancando de mim um


gemido que não consegui conter.

— Está tentando me deixar louco, esposa?

— Não, só fazer você gozar. — Ela colocou as mãos nos meus


ombros e começou a rebolar no meu colo de um jeito que dificilmente eu a
deixaria levantar.

Ela quicou com mais afinco antes de tombar e beijar o meu pescoço,
me provocando calafrios antes de subir com beijos provocativos até a minha
orelha.

— Além disso, você é o único que pode chegar perto o suficiente para
ver que eu estou sem calcinha.

— Bem lembrado.

Terminei de subir a sua saia até a altura da cintura e afundei os meus


dedos nas suas nádegas. Tomei de volta um pouco do controle e fiz com que
Laís rebolasse em mim com mais precisão. Com a boca, puxei o seu decote
para baixo e expus o sutiã. Fiz o mesmo com a peça até que seus seios
estivessem a minha disposição. Abocanhei um deles e ela quicou em mim
com mais destreza. Eu chupei, mordisquei e arranquei da minha esposa
gemidos enfáticos.

Logo o prazer veio no seu ápice, da forma mais intensa, e não me


contive, derramando-me nela. Quando percebeu que eu havia gozado, Laís
segurou a minha cabeça e uniu nossos lábios, me envolvendo em um beijo
saboroso e cheio de tesão enquanto continuava a se mover até alcançar o
próprio clímax. Me deliciei com a respiração ofegante dela e os sinais do seu
prazer até que minha mulher se recuperasse.

Laís voltou a segurar os meus ombros e encostou a sua cabeça na


minha, me fazendo encarar seus olhos castanhos.

— Eu estava conversando com a sua mãe sobre o quarto do bebê.


Posso reformá-lo e decorar com tema de animais?

— Só se tiver uma régua de girafa para medirmos a altura dele.

O sorriso dela iluminou o meu escritório inteiro e me deixou muito


feliz, pois apesar dos últimos acontecimentos, ela não havia perdido
completamente a sua essência. Ainda existia o lado doce e meigo da Laís pelo
qual eu havia me apaixonado, e eu sempre iria lutar para mantê-lo vivo, pois
enquanto houvesse luz nela, ainda existiria em mim.
Epílogo

Alguns meses depois...

Aproximei-me da minha esposa que estava debruçada sobre o guarda-


corpo da casa de campo observando a vastidão verde do vinhedo que nos
rodeava.

— Isso é para você. — Entreguei para ela uma taça enquanto


bebericava o líquido da minha.

— Marco, eu não posso beber! — Fez careta ao abaixar a mão sobre a


barriga, que estava cada vez maior à medida que nos aproximávamos do
momento do parto, que aconteceria em algumas semanas.

— É suco de uva.

— Ah! — Ela abriu um sorriso sem graça e eu ri. — Obrigada. —


Tomou alguns goles.

Deixei a minha taça no parapeito e me coloquei atrás da minha


esposa, envolvendo o seu corpo com os meus braços e acariciando a sua
barriga. Em pouco tempo, colocaríamos o próximo Bellucci no mundo, meu
herdeiro e futuro chefe da máfia. Contudo, Laís não estava pensando nisso, e
eu nem queria que ela pensasse. Enquanto fosse apenas um menino e o
destino não falasse mais alto, ele poderia ser apenas o nosso filho.
— Esse vinhedo é muito lindo. — Ela tombou a cabeça para trás e a
acomodou no meu ombro. — Muito obrigada por ter me trazido aqui.

— Você é muito linda. — Acariciei o seu rosto, trouxe-a para um


beijo e a girei para que ficasse de frente para mim, ainda que fosse difícil com
a barriga entre nós.

Estava prestes a tomar a minha esposa nos braços e levá-la para um


dos quartos da propriedade quando meu celular vibrou no bolso.

— Merda! — Chiei baixinho e Laís riu.

— Não atende.

— Eu preciso.

— Você está de férias.

— Alguém na minha posição não tem férias, amor. — Ainda que a


contragosto, eu a soltei e dei alguns passos para longe. Quando peguei o meu
celular no bolso, vi o nome do meu irmão na tela. — Espero que seja algo
muito importante para ter me interrompido — falei com a voz ríspida e
carregada de mau humor.

— Eu encontrei quem matou o nosso pai.


Agradecimentos

Minha gratidão ao início do ano de 2021 e pela oportunidade de


continuar escrevendo, produzindo e publicando.

Meu agradecimento a todos as minhas leitoras e leitores, que me


motivam a continuar sempre. Todas as leitoras do meu grupo do Whats
“Leitoras da Jessica”: Karina, Vi, Nil, Nay, Adriana, Tamires, Joana, Andy,
Fernanda, Cleidiane, Vitória, Nadine, Margarete, Andressa, Lais, Luize,
Cristiane, Giorgia, Cristina,Tatiane, Regina, Viviane, Sthefanie, Naiade,
Thamires, Antônia, Vânia, Thifane, Blanc, Cida e todas as outras. Agradeço
também aos leitores do Instagram e Facebook por todo o carinho e incentivo
constante. Em especial à Micheline, amiga, apoiadora e leitora pela qual
tenho um carinho todo especial.

Obrigada, Aline e Rosi, por todo seu apoio, assessoria e suporte, cuja
a ajuda e o trabalho duro é crucial para cada um dos meus trabalhos.

Ana Roen, minha gratidão imensa por todo seu trabalho em cada
revisão.

Agradeço meu marido, Gabriel, por estar sempre ao meu lado e me


dado apoio.

Gratidão meus mentores e protetores espirituais! Que meu caminho


até vocês sempre esteja aberto para que possam me orientar e proteger, para
que eu tome as melhores decisões e nunca desistir dos meus sonhos.
Sobre a autora

Jéssica Macedo é mineira de 25 anos, mora em Belo


Horizonte com o marido e três gatos, suas paixões. Jéssica
escreve desde os 9 anos, e publicou seu primeiro livro aos
14 anos. Começou na fantasia, mas hoje escreve diversos
gêneros, entre romance de época, contemporâneo, infanto
juvenil, policial, e ficção científica. Com mais de cinquenta
livros publicados, é escritora, editora, designer e cineasta.
Tem ideias que não param de surgir, e novos projetos não
faltam.
Acompanhe mais informações sobre outros livros da
autora nas redes sociais.
Facebook -
www.facebook.com/autorajessicamacedo/
Instagram -
www.instagram.com/autorajessicamacedo/
Página da autora na Amazon -
https://amzn.to/2MevtwY
Outras obras
Sedução por Vingança

link => https://amzn.to/38kNG82

Sinopse:

Philip Carter é o poderoso CEO da Carter Atlantics, uma empresa


multibilionária com atuação no mundo todo. Rico, poderoso, frio e solitário,
ele tem tudo aos seus pés, mas nem sempre foi assim... Órfão, precisou
conquistar tudo por seus próprios méritos e não deixar que nada nem
ninguém ficasse no seu caminho.
Vitória vive em um dos bairros mais pobres de Nova York, perdeu a mãe
muito jovem, a irmã mais nova foi tirada do seu convívio, além de ser
obrigada a aturar o pai alcoólatra, que a fez crescer acreditando que a culpa
de todas as tragédias de sua vida era do CEO da Carter Atlantics.
Com o objetivo de se vingar de Philip Carter, ela vai se tornar sua secretária e
usar todas as suas armas de sedução para descobrir o ponto fraco daquele
homem que ela acreditava ser o culpado de todas as mazelas da sua vida.
Philip não queria se envolver com a secretária onze anos mais nova, mas a
convivência, o desejo, as insinuações e toda a atração tornarão impossível
conter seus instintos. O que começa com um desejo por vingança pode
mostrar a dois corações feridos o que realmente é o amor.
Minha por Contrato

link => https://amzn.to/3kFRDXT

Sinopse:

Casar era algo que eu nunca tinha imaginado fazer. A vida de solteiro me
proporcionava muitos benefícios e eu usufruía muito bem de todos eles.
Nasci numa família influente, dona de uma companhia aérea, e sempre
tive tudo, mas a política me deu poder. Porém, sempre fui um homem muito
ambicioso.
Eu queria mais, almejava a presidência do país.
Acreditava ser a melhor escolha, não apenas pelo meu ego, mas pelos
meus feitos políticos. Entretanto, muitos membros do partido pareciam
discordar da minha candidatura.
Não era o homem perfeito aos seus olhos, mesmo com todo o dinheiro e
influência. Eles preferiam outro candidato, alguém que prezasse pelos valores
tradicionais, um homem comprometido com a família.
Eu precisava ser casado.
Mas o dinheiro poderia solucionar tudo, sem que eu tivesse que mudar
meu estilo de vida. Um casamento por contrato era o que eu precisava.
Penélope é doze anos mais jovem do que eu, ingênua, pobre e facilmente
moldável. Ao meu lado, ela seria a decoração perfeita. Nunca teve nada e iria
se comportar para manter o mundo que oferecia a ela.
Eu controlaria tudo, como sempre controlei. Mas não poderia prever que
ela seria capaz de se infiltrar nas barreiras do meu coração.
O CEO viúvo e a babá virgem

link => https://amzn.to/3kFRDXT

Sinopse:

Um viúvo envolto em sombras, uma jovem babá cheia de luz e um bebê que
precisava de amor e cuidado.

O CEO da Alliance Cars, Bernard Smith, já perdeu demais. Ele se


enclausurou na sua própria dor e afastou a todos. Viúvo, ele se dedicou a tudo
o que mais importava na vida: seu filho. Assombrado pelo passado, ele não
estava disposto a seguir em frente e a única pessoa que mantém por perto é a
governanta, que cuidou dele desde menino. Porém, após um AVC, seu único
apoio não pôde mais ajudá-lo a cuidar do filho.
A jovem estudante, Júlia Oliveira, estava determinada a fazer o intercâmbio
dos sonhos na Inglaterra. Para isso, ela encontrou o emprego como babá em
uma mansão, com um dono recluso e um bebê fofo.
Ela não tinha vivido grandes romances, ainda era virgem, mas Bernard,
apesar de quinze anos mais velho, é o homem mais bonito que já tinha visto e
chamava muito a sua atenção. Embora a atração entre os dois seja inegável,
um final feliz pode ser um grande desafio para ambos, pois Bernard não
acredita que merece uma segunda chance...
Nick (Dinâmica Perfeita)

link => https://amzn.to/3dbzDT0

Sinopse:

Nick Rodrigues sempre foi o garoto problema, a ovelha negra. Contrariando


tudo o que os seus pais queriam, ele se tornou o guitarrista da banda
Dinâmica Perfeita. Porém, o roqueiro badboy, ao lado dos dois melhores
amigos, encontrou o estrelato, fez fama pelo mundo e conquistou tudo o que
sempre quis, ou quase tudo...

A sintonia da banda está prestes a ser bagunçada, porque ele deseja


exatamente o que não deveria cobiçar: a irmã do melhor amigo, a caçula que
o vocalista defenderia a qualquer preço, inclusive com o fim da banda.

Gabriela sempre foi certinha demais e, ao contrário do irmão, é tudo aquilo


que os pais esperavam dela. Dedicada, amável, responsável e virgem, ela não
queria atrapalhar o maior sonho do irmão, mas será muito mais difícil não ser
atraída pelo caos em forma de roqueiro do que ela imaginava.
Bastiaan (Feitiço do Coração)

link => https://amzn.to/350AJOR

Sinopse:

Grosseiro, solitário, insensível e cruel Bastiaan Wass escolheu as trevas e


servia bem esse lado da magia. O bruxo do clã do sangue é dono de uma
boate em Amsterdam, que atrai pessoas do mundo todo pelos drinks que
serve, verdadeiras poções, sua vertente mágica favorita.
Bastiaan nunca se envolveu com nada nem com ninguém, diz coisas
estúpidas e cruéis, sem se importar com quem machuca. Ele jamais se aliaria
à rainha da luz cuja autoridade não reconhece, por isso terá seus poderes
retirados até que aprenda a ser bom, a amar. Contudo, ele já havia trancado
seu coração e destruído a chave. Blindara-se contra tais sentimentos e
prometera, junto com seus amigos Áthila e Thorent, jamais se apaixonar.
A magia era tudo o que o definia, e sem ela Bastiaan se vê perdido. Mas
estaria ele disposto a pagar o preço para tê-la de volta?
Agatha tinha uma vida pacata, com pais super protetores e um irmão mais
novo. Porém, uma viagem a Amsterdam mudará tudo. Perseguidores, que
desconhece, irão separá-la de sua família e ela encontrará abrigo em uma
boate cujo dono é temido por todos. Lá, irá descobrir que o mundo é muito
mais do que ela imaginava e sua vida mudará para sempre.
A Filha Virgem do Meu Melhor Amigo

link => https://amzn.to/3k1hYj6

Sinopse:

Gutemberg Toledo, Guto, sempre se destacou pelo talento com os números, e


transformou um mercadinho familiar em uma rede de supermercados
espalhada por todo o país. Astuto, determinado, e um empresário incrível, ele
conquistou tudo, menos o que mais ansiava: uma família. Ao se divorciar,
esse sonho parecia estar mais distante do que nunca.

Sem laços familiares fortes, tudo o que ele tem de mais importante é a
amizade de décadas com o sócio. O que ele não esperava era que a filha do
seu melhor amigo, dezoito anos mais jovem, nutrisse sentimentos por ele, um
amor proibido. ⠀

Guto vai lutar com todas as forças para não ceder à tentação. Dentre todas as
mulheres do mundo, Rosi deveria ser intocável; não era permitida para ele.
Porém, às vezes é difícil escapar de uma rasteira do desejo.
Eternamente Minha

link => https://amzn.to/3aGD7vv

Sinopse:

Vitor Doneli era um playboy e o herdeiro de um império, mas ele decidiu


desafiar o pai e traçar o próprio caminho, antes que o destino pesasse sobre
ele e fosse obrigado a se tornar o CEO da empresa da família. Cursando
Direito em uma faculdade pública, cercado de amigos e mulheres de vários
níveis sociais abaixo do dele, terá a sua realidade de cafajeste virada de
cabeça para baixo quando uma caloura atravessar o seu caminho.

Cíntia deixou sua casa, sua família e seu namorado e foi estudar em uma
cidade grande. Determinada a se tornar uma advogada, ela não queria um
relacionamento, mas o destino estava prestes a surpreendê-la. Cíntia tentou e
lutou com todas as forças para não se aproximar, não se apaixonar... Vitor era
o completo oposto de tudo o que desejava. Um jovem mimado e rico, que a
provocou, enlouqueceu e roubou seu coração.

Uma gravidez inesperada apenas intensificou o amor entre eles. Eram o
destino um do outro, ou acreditavam nisso. Porém, o coração deles será
partido, promessas serão quebradas, e todo o amor que viveram se tornará
uma triste lembrança do passado na qual se negarão a desistir... ⠀
Vendida para Logan (Clube Secreto)

link => https://amzn.to/3fxXI6J

Sinopse:

Logan Mackenzie é o herdeiro de um império secular que rege com


maestria. No entanto, por trás do excêntrico e recluso homem de negócios,
que vive em um isolado castelo no interior da Escócia, há muitos segredos e
desejos obscuros. Ele não se rende a uma única mulher, tem várias, e com
elas explora a sexualidade ao máximo.
Um convite inesperado o levará ao exclusivo Clube Secreto, um lugar
onde todos os pecados podem ser comprados. O que não imaginava era que
se depararia com um leilão de mulheres. Logan nunca foi uma alma caridosa,
mas até os mais egoístas vivem um momento de altruísmo. Ele decide salvar
uma delas, e por tê-la comprado tem direito a tudo, inclusive a libertá-la.
Camila já havia experimentado o medo nas suas piores formas. Lançada a
um terrível destino, não esperava acordar no jato particular de um milionário
a caminho do nada.
Ele já havia feito a sua cota de boa ação, só esperava que ela fosse
embora, mas o que se fazer quando Camila se recusa, pois não há para onde
ir? O lar que ela tinha havia se transformado em pesadelo e aquele que
imaginou que cuidaria dela, roubou sua inocência e a vendeu para o tráfico
humano.
Logan não queria protegê-la, não estava disposto a baixar seus muros por
mulher nenhuma. Porém, enquanto ele a afasta, Camila descobre o lado mais
obscuro daquele homem frio, mas também vai perceber que existe uma
chama que pode salvar ambos.

ATENÇÃO! Essa história contém cenas impróprias para menores de


dezoito anos. Contém gatilhos, palavras de baixo calão e conduta inadequada
de personagens.
Trevor: e o bebê proibido (Dark Wings Livro
1)

link => https://amzn.to/2YPhhAw

Sinopse:

Diana era o motivo de orgulho para os seus pais adotivos. Esforçada,


estudiosa, cursava medicina, com um futuro muito promissor, mas um
convite para visitar o Inferno vai mudar tudo.
O Inferno era apenas um bar pertencente a um moto clube, ao menos era a
imagem que passava a quem não o frequentava. Porém, ele era uma porta
para o submundo, um lugar de renegados, como Trevor. Um dos irmãos que
lidera o Dark Wings é a própria escuridão, nascido das trevas e para as trevas,
que acabará no caminho de Diana, mudando a vida da jovem para sempre.
Uma virgem inocente que foi seduzida pelas trevas...
Uma noite nos braços do mal na sua forma mais sedutora, vai gerar uma
criança incomum e temida, além trazer à tona um passado que Diana
desconhecia, e pessoas dispostas a tudo para ferir seu bebê.
Um milionário aos meus pés (Irmãos Clark
Livro 0)

link => https://amzn.to/2WcewsR

Sinopse:
Harrison Clark abriu uma concessionária de carros de luxo em Miami. Se
tornou milionário, figurando na lista dos homens mais ricos do Estados
Unidos. O CEO da Golden Motors possui mais do que carros de luxo ao seu
dispor, tem mulheres e sexo quando assim deseja. Porém, a única coisa que
realmente amava, era o irmão gêmeo arrancado dele em um terrível acidente.
Laura Vieira perdeu os pais quando ainda era muito jovem e foi morar com a
avó, que acabou sendo tirada dela também. Sozinha, ela se viu impulsionada
a seguir seus sonhos e partiu para a aventura mais insana e perigosa da sua
vida: ir morar nos Estados Unidos. No entanto, entrar ilegalmente é muito
mais perigoso do que ela imaginava e, para recomeçar, Laura viveu
momentos de verdadeiro terror nas mãos de coiotes.
Chegando em Miami, na companhia de uma amiga que fez durante a
travessia, Laura vai trabalhar em uma mansão como faxineira, e o destino
fará com que ela cruze com o milionário sedutor. Porém, Harrison vai
descobrir que ela não é tão fácil de conquistar quanto as demais mulheres
com quem se envolveu. Antes de poder tirar a virgindade dela, vai ter que
entregar o seu coração.
Quando a brasileira, ilegal nos Estados Unidos, começa a viver um conto de
fadas, tudo pode acabar num piscar de olhos, pois nem todos torciam a favor
da sua felicidade.
Uma virgem para o CEO (Irmãos Clark
Livro 1)

link => https://amzn.to/2vYccvj

Sinopse:

Dean Clark nasceu em meio ao luxo e o glamour de Miami. Transformou a


concessionária de carros importados que herdou do pai em um verdadeiro
império. Ele é um CEO milionário que tem o que quer, quando quer,
principalmente sexo. Sua vida é uma eterna festa, mas sua mãe está
determinada a torná-lo um homem melhor.

Angel Menezes é uma moça pacata e sonhadora que vive com a mãe em
um bairro de imigrantes. Trabalhando como auxiliar em um hospital, sonha
em conseguir pagar, um dia, a faculdade de medicina. As coisas na vida dela
nunca foram fáceis. Seu pai morreu quando ela ainda não tinha vindo ao
mundo, e a mãe, uma imigrante venezuelana, teve que criá-la sozinha. Porém,
sempre puderam contar com uma amiga brasileira da mãe, que teve um
destino diferente ao se casar com um milionário.

Laura mudou de vida, mas nunca deixou para trás a amiga e faz de tudo
para ajudar a ela e a filha. Acredita que Angel, uma moça simples, virgem, e
onze anos mais jovem, é a melhor escolha para o seu filho arrogante e
cafajeste, entretanto, tudo o que está prestes a fazer é colocar uma ovelhinha
ingênua na toca de um lobo.

Dean vai enxergar Angel como um desafio, ele quer mais uma mulher em
sua cama e provar que ela não é virgem. No jogo para seduzi-la, ganhará um
coração apaixonado que não está pronto para cuidar...

Será que o cafajeste dentro dele se redimirá ou ele só destruirá mais uma
mulher?
Jéssica Macedo possui vários outros títulos na Amazon, confira!
Clique aqui