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. O movimento operário e a Ditadura Civil-Militar: resistência, luta armada e negociação.

Revista Latino-Americana de História. Vol. 1, nº. 3 – Março de 2012

Yuri de Carvalho em seu artigo, critica os intelectuais que defendem que o período de 1964 a 1979
foi de passividade da classe operária diante das imposições do governo. Para ele, o que ocorreu uma grande
perseguição aos trabalhadores, tanto por parte da esquerda, que os responsabilizaram os operários pela
derrota de 64, como pode ser constatado na fala de Wladimir Palmeira, uma das principais lideranças do
movimento estudantil do País, àquele momento, “perdemos em 64 porque os trabalhadores não
reagiram”; quanto pelos militares que passaram a reprimir os trabalhadores, intervindo nos sindicatos,
criando lei antigreve, acabando com a estabilidade de emprego dos trabalhadores , através da criação
do FGTS, etc.
Para o autor, esses intelectuais afirmar os trabalhadores além de não terem resistido
efetivamente ao Golpe Civil-Milita, teriam se retirado de cena , e esperaram dez anos pelo
“relaxamento” político da Ditadura , e pela volta “gloriosa” do movimento operário organizado e
reivindicatório a partir do no de 1978.
O autor insiste em afirmar que para a memória da época, insucesso da resistência durante a
ditadura se deu graças a falta de ação dos operários, que não assumiram seu papel revolucionário,
tendo os intelectuais assumido essa missão.
A resistência teria sido levada a cabo pelos “intelectuais”. Estudantes
radicalizados teriam assumido a vanguarda desse processo, organizando a luta
armada, e fracassado na tentativa de levar a classe operária para sua causa
perdida. Ou seja, o insucesso da luta revolucionária contra a Ditadura recai
sobre àqueles que nada fizeram, os operários. (pag, 02)

O autor inicia com a citação de Reis Filho, que destaca que a partir do Golpe, dado em 1º de abril
de 1964, os trabalhadores foram, “sem dúvida, esmagados, marginalizados”. 1

Para Wladimir Palmeira, uma das principais lideranças do movimento estudantil do País,
àquele momento, “perdemos em 64 porque os trabalhadores não reagiram” 2
Grifo meu, a partir dessa fala, podemos ver que parte da esquerda responsabilizava a não
reação dos trabalhadores uma das causas do golpe, e também isso nos leva a crer um dos motivos de
tanta repressão entre os trabalhadores.

O autor destaca a afirmação de Santana, o movimento foi sufocado pelos militares que após o
golpe os deixou sem condições de reação:

Submergido após o duro impacto promovido pelo golpe militar de 1964, que lhe havia
deixado pouco ou quase nenhum espaço de manobra, senão aquele do silencioso trabalho
1
REIS FILHO, Daniel Aarão. A Revolução faltou ao encontro. São Paulo, Brasiliense, 1990, p
63.
2
VENTURA, Zuenir. 1968, o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 68.
no interior das empresas e de pontuais tentativas mais visíveis de contestação, o
sindicalismo de corte progressista emergia (no final da década de 70 6), cobrando a
ampliação dos espaços para a representação dos interesses da classe trabalhadora.7
(SANTANA, Marco Aurélio. Trabalhadores em movimento: o sindicalismo brasileiro nos
anos 1980-1990. In. FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs.).
O Brasil Republicano. Livro 4. O tempo da Ditadura. Regime militar e movimentos
sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003, p. 286.)

Assim, dessa forma, os operários não puderam fazer nada diante da escalada autoritária, a não ser as
pequenas lutas cotidianas. Essa situação piorou com o com o Ato Institucional Nº 5, conhecido por AI-
5, que fechou ainda mais a Ditadura e cerceou ainda mais os já escassos direitos jurídicos dos
cidadãos, encerrando as possibilidades de resistência.

Ao fim de 68 os passos do endurecimento do regime estavam lançados, e


consolidam-se com a decretação, em dezembro, do Ato institucional Nº 5. O “milagre
econômico” iam deslanchando, os grupos de esquerda, com raras exceções, se
engolfam cada vez mais nas ações armadas e o regime replica com mão de ferro. Para
o movimento operário sindical começa espera e ações subterrâneas. (...) Seriam
necessários mais de 10 anos para que o movimento operário voltasse à tona
novamente, abrindo uma de suas etapas mais luminosas. 8 SANTANA, Marco Aurélio.
Ditadura Militar e resistência operária: o movimento sindical brasileiro do golpe à
transição democrática. Santa Catarina. In. Política e Sociedade, v. 7, n 13, 2008, p. 294.

Além de colocarem a culpa do golpe na conta dos trabalhadores que não reagiram, a memória
oficial valorizou exacerbadamente a retomada do movimento sindical no final dos anos de 1979, no
movimento conhecido como “Novo Sindicalismo”, nome dado por seus defensores, em contraposição
a um suposto “velho sindicalismo” 9, o autor indica, neste tipo de interpretação, uma espécie de
“hibernação” do movimento sindical.(340)

Mais uma vez a memória, destaca os operários como incapazes

Ainda segundo a memória oficial, os trabalhadores também foram responsáveis pela derrota da luta
armada, pois não aderiram ao projeto.

Portanto, além do projeto de resistência armada ter sido derrotado, e seus


integrantes serem os vencidos no processo de luta que se deu, houve a
construção de uma segunda categoria de vencidos, dentro da já existente: os
operários. A esses, dada sua inabilidade e falta de capacidade de organização,
coube o silêncio e o ostracismo; seriam indiretamente responsáveis pelo
fracasso da resistência, pois não teriam aderido, enquanto conjunto da classe
operária, à resistência contra a Ditadura. (340)

Edgar, de Deca, é contrário a essa desse é destaca como um processo de mistificação da


chamada intelectualidade. Para ele, o ano de 1964 seria um marco no qual os onde os discursos
acadêmicos resultaram em “uma dada homogeneização teórica” que “colocou determinados setores da
sociedade na condição de vencidos, imaginando-se que trata-se de um dispositivo ideológico capaz de
homogeneizar, a partir da fixação de um fato, o campo dos vencidos, embora correspondesse a uma estratégia do
discurso acadêmico, não deixou de ter desdobramentos problemáticos.

Assim, desconsiderou-se que nas lutas políticas do período, a ordem dos vencidos
possuía registros diferenciados e que, inclusive, os discursos acadêmicos, atendendo a
demandas específicas do poder, silenciavam indiretamente, também, o eco das
experiências proletárias. Os setores intelectuais traumatizados pelos acontecimentos
de 64 produziram discursos diferenciados, cuja estratégia, embora atendesse às
resistências exigidas pela luta política, impediu, no decorrer de boa parte desses
quinze anos, a emergência de vozes há muito tempo emudecidas na história. 13 DE
DECCA, Edgard Salvadori. 1930: o silêncio dos vencidos: memória história e revolução. São
Paulo:
Brasiliense, 2004, p.32.

Ao mesmo tempo, essa afirmação de que a derrota ocorreu pela falta resistência do movimento
sindical, se tornou um motivo ainda maior para a repressão sobre os trabalhadores, pois os militares
sabiam da importância dos operários. E os temia.

De maneira geral, pouco, ou perto do quase nada, foi produzido especificamente sobre
envolvimento da classe operária nas múltiplas formas de resistência ao Golpe de abril de 1964, ou
ao seu estabelecimento e recrudescimento, salvo raras exceções.
O autor também critica o historiador Daniel Reis Filho, que na sua visão não percebeu a
atuação dos operários nas organizações de luta armada por vê-las como um modelo pré-concebido;
socialmente elitizados.
Para Yuri, fica evidente nos dados do Brasil: Nunca Mais, no quadro III, que houve uma
participação importante do operariado nas organizações de luta armada3 que apesar de menor,
quase nivela com os estudantes em número de casos citados, e aparece como segundo maior
grupo; o terceiro maior grupo seriam os graduados das Forças Armadas, com 765 casos citados,
14,4% do total.

Para ele existe uma contradição entre as organizações de luta armada, que pregavam a luta no
campo, mas a maior parte de seus militantes eram dos centros urbanos.

Se a maioria dos militantes era da cidade, as relações de luta, historicamente construídas e


que se davam ali, não seriam facilmente cortadas. Por isso a contradição que marcou a
maior parte das organizações guerrilheiras: pregar a luta no campo, mas não conseguir se
desvencilhar das ações armadas urbanas

O autor destaca que no movimento sindical, o Golpe foi de terrível impacto. A organização
sindical, pelas suas características históricas, ligadas ao trabalhismo, à concepção de negociação e
resistência permeadas por relações paternalistas e clientelistas, se estruturou de maneira vertical.
O autor também destaca que Marcelo Ridente aponta esse fator um dos motivos do enfraquecimento
do movimento sindical no período, segundo ele, a estrutura organizacional de “cúpula”, estruturada de
“cima para baixo” não se consolidou como uma base solida, apesar da tentativa nesse sentido.

25 REIS FILHO, Daniel A., op. cit., p. 157


3
O CGT é uma entidade que conta na sua prática preferencialmente com uma
liderança politizada de grande penetração junto à massa, mais do que com lideranças
intermediárias ou organizações de bases capazes de sustentar o movimento sindical
na ausência de seus principais líderes. È exatamente a falta desta base que contribui
para o esfacelamento dos sindicatos logo após o golpe de abril,
quando seus principais dirigentes são presos. 41 DELGADO, Lucilia de Almeida Neves
apud RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira . São Paulo: UNESP, 2010.

Importante: Quando for escrever, destacar que as prisões das principais lideranças sindicais,
deixou um vácuo no movimento operário da cidade, os trabalhadores tiveram que buscar uma
nova forma de resistência, e a partir de 1966 encontraram o apoio da Igreja de Volta Redonda, que
era liderada pelo Bispo D. Waldyr Calheiros, recém chegado a cidade, mas inspirados nas ideias
do Concílio do Vaticano II, passou a apoiar os movimentos reivindicatórios na cidade.

Com a implantação do AI-1 em 9 de abril de 1964, o governo militar cassou as principais


lideranças sindicais que apoiavam as reformas de Jango, tornando o movimento operário “acéfalo”
na sua organização sindical o que obrigou o movimento operário, que tinha disposição para
resistir, a procurar novas estratégias de luta.

Para Celso Frederico4, autor de um dos únicos livros existentes sobre movimento operário
e a luta armada, evidencia o impacto do Golpe no movimento operário. Para Frederico, a repressão
aos sindicatos foi imediata

Sessenta e três dirigentes sindicais tiveram seus direitos políticos cassado; houve
intervenção em quatro Confederações, quarenta e cinco Federações e trezentos e
oitenta e três sindicatos. Esses dados, entretanto, são insuficientes para nos dar uma
ideia precisa do alcance da repressão que se abateu sobre o conjunto dos
trabalhadores. Os militantes da época lembram que, além das intervenções, houve
implacável perseguição policial aos quadros intermediários do movimento sindical e
uma série de intimidações que criaram um clima de terror que manteve os ativistas
paralisados por um longo período.42 FREDERICO, Celso. (Org.). A esquerda e o
movimento operário - Vol I. A resistência à ditadura (1964- 1971). 1. ed. São Paulo: Novos
Rumos, 1987, p. 17.

Além disso, a Ditadura Civil-Militar reorganizava o movimento operário de acordo com


sua orientação ideológica. Até o ano de 1970 563 tiveram sua diretoria destituídas5
Um dos objetivos principais do grupo que assumiu o poder no Brasil era o controle dos
sindicatos, queriam transformar os em instrumentos de passivização, para isso buscavam
transformá-los em órgãos burocráticos de assistência social.

Diferentemente da burguesia nacional, que procurava mobilizar os trabalhadores sob sua


direção porque precisava de seu apoio, os golpistas queriam transformar os sindicatos em
instrumentos de passivização, com práticas assistencialistas, tornando-os
desmobilizadores, ocupados em resolver questões trabalhistas do dia-a-dia. Precisavam de
novos dirigentes que não se ocupassem de questões políticas, mas de administração
eficiente, reorganização, ampliação e aperfeiçoamento da infraestrutura de assistência, e
desenvolvessem novo quadro de sócios, interessados nesses benefícios. Mas que também
mantivessem a condição de interlocutores na evolução dos conflitos trabalhistas,

4
Celso Frederico, FREDERICO, Celso. (Org.). A esquerda e o movimento operário - Vol I. A resistência à ditadura
(1964-1971). 1. ed. São Paulo: Novos Rumos, 1987
5
GORENDER, Jacob, op. cit., p. 153
inevitáveis. MOMESSO, Luiz, op. cit., p.157. LUTAS E ORGANIZAÇÃO SINDICAL
EM 68, APESAR DA DITADURA

Na minha opinião isso se dava devido ao temor do movimento operário, pois conforme vimos,
grande parte dos intelectuais acusavam a derrocada da esquerda pela falta de apoio do movimento
operário, os militares sabendo da força que os trabalhadores tinham, buscaram de imediato destruir
esses grupos.

Devido a isso, os movimentos sociais que eram apenas considerados uma questão de
polícia, passaram a ser a partir de 1964, uma questão de “Segurança Nacional” Celso Frederico,
p.17.
Com o objetivo de enfraquecer os sindicatos, o governo estabeleceu uma série de medidas:

Após o primeiro surto repressivo, a ditadura adotou algumas medidas visando o


enfraquecer o sindicalismo brasileiro. Entre elas, destacava-se a modificação na
política salarial que transferiu para o governo o poder de fixar o índice do reajuste
anual dos salários. Com isso, os sindicatos perderam as condições legais para
pressionar o patronato e a Justiça do Trabalho teve seu poder normativo suprimido. A
política salarial da ditadura consolidou-se através dos decretos 54.018/64 e
54.228/64, das leis 4.725/65 e 4.903/65 e dos decretos-leis 15/66 e 17/66. Frederico.p.18

Além dessas medidas, em junho de 1964 foi criada a Lei Antigreve ( Lei 4.330), que
limitava de tal maneira as greves, que na prática, quem as organizassem e delas participassem eram
considerados criminosos dentro da Lei de Segurança Nacional (LSN), passíveis de todo tipo de
repressão. Além disso, a Criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), através da Lei
5.170/66, que acabou com a estabilidade no emprego e incentivaria à rotatividade da mão-de-obra,
dificultando o trabalho sindical de mais profundidade. (353)

Assim que medidas forma tomadas, os militares passaram a se preocupar com a influência
interna que exerciam sobre os operários, dessa forma colocaram interventores sindicatos, sempre
ligados a corrente dos renovadores, que vinham da Igreja Católica, dos Círculos de operários
cristãos e membros das chapas de oposição ao sindicalismo vermelho, de antes de 1964.
Com essas medidas, os militares criaram uma sólida base para o desenvolvimento
modernizante do capitalismo brasileiro, ampliando o abismo social entre ricos e pobres. A base da
política econômica implementada pelo Estado era o arrocho salarial dos trabalhadores, que serviu
de motivo para a reorganização operária em nível nacional. (353)

Segundo Celso Frederico (pag, 18) entre 1964 até 1966 foi marcado pela “compacta ação
repressora do governo e pela desarticulação e acefalia do movimento operário. Em alguns casos,
tentou-se reativar os sindicatos, por se a melhor estratégia conhecida pela classe operária até
então, entretanto, a repressão e intimidação colocou o movimento em cheque, apesar de algumas
greves e piquetes espalhados pelo Brasil.

Marcelo Ridenti analisa a profundidade do golpe sobre o movimento operário, que devido a
uma tradição de luta via institucionalidade, com pautas e estratégias vinculadas a propostas
governamentais. O movimento viu que a queda do governo Goulart foi fatal para a organização da
resistência:
Na sociedade brasileira, no princípio da década de 1960, líderes populistas nacionalistas,
como Goulart e Brizola, movimentos sindicais, as Ligas Camponesas, o próprio PCB e
outras entidades eram, de alguma forma, representantes das massas trabalhadoras. O
golpe foi dado quando tal representação ameaçou sair dos marcos da ordem capitalista,
com a tendência crescente das massas irem superando seus antigos representantes, para
constituírem propriamente uma classe. Os representantes do “povo” no pré-64 não se
revelaram capazes de dar um salto de qualidade de sua representação, conduzindo uma
resistência ao golpe, que poderia ter mudado a História. Jango e seus assessores civis e
militares, Brizola e nacionalistas, trabalhistas e comunistas, porque não pudessem ou
porque não quisessem, não tentaram o salto de representantes das “massas”, do “povo”,
para representantes da classe trabalhadora; isso teria exigido resistência imediata, que
não houve, para a surpresa dos golpistas. RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução
brasileira. São Paulo: UNESP, 2010 p. 240.

A partir da instauração do golpe, os movimentos sociais passaram a organizar novas formas de


resistência à Ditadura. Algumas organizações, que já propunham a luta armada antes do golpe, como
por exemplo a Política operária (POLOP) e especialmente o Partido Comunista do Brasil, o
PCdoB, passaram a vislumbrar essa opção.

A partr de 66, o sindicato voltou-se a organizar – em volta redonda, não foi diferente

Diferentemente dos grupos que optaram pela luta armada, o movimento operário, manteve fiel
a longa tradição vertical do sindicalismo, e buscou da continuidade ao sindicalismo de “cúpula”
partindo da lógica da equalização de lideranças sindicais influentes com o resto do movimento
operário. E a partir de 1966, o movimento passou a se reorganizar lentamente, buscaram reativar o
único instrumento que sabiam demonstrar resultados: o sindicato. Segundo o autor a luta contra o
arrocho salarial foi um fator de união que reuniu sob a mesma bandeira o movimento operário de
resistência.
Outro fator de suma importância na resistência contra a ditadura é a composição de seus
quadros, até mesmo entre os grupos de esquerda armada, grande parte dos militantes pertenciam ao
movimento operário. Segundo Ridenti, dos 498 trabalhadores processados pela Justiça Militar por
envolvimento com a esquerda em geral, 98 teriam ligações com a Ala Vermelha/PCdoB, uma
dissidência do PCdoB, com a Ação Popular, a AP, e o Partido Operário Revolucionário (Trotskista)
POR(T)grupos, apresentados por Ridenti como os únicos a colocarem em prática a “proletarização” de
seus quadros oriundos de outras sociais, classes ou seja, militantes da classe média que se tornavam
operários; o que não representa, de acordo com os números, muita relevância para o quadro geral de
operários inseridos na luta armada.
Diante dessas informações, notamos que apesar da divergência entre organizações guerrilheiras
e classe operária. Notamos a presença dessas organizações no meio operário, o que não pode ser visto
como como uma anomalia, ou algo externo ao movimento operário, como sugere vários autores.

fortalecer o movimento sindical

Segundo Celso Frederico (65), ainda em fins do ano de 1966, a principal estratégia da classe
operária ainda era o fortalecimento dos sindicatos. Para isso se buscou a estratégia da “atuação
paralelista”, que procurou através das “oposições sindicais, buscar uma alternativa para o trabalho
sindical.
Ou seja, o dentro das possibilidades permitidas, o movimento procurou disputar eleições para
direção dos sindicatos, como chapa de oposição. Em alguns, casos, como em Osasco, o as chapas de
oposição conseguiram eleger dirigente, que na maior parte atuaram em modo paralelo com as direções
subservientes ao governo ditatorial, criando os chamados comitês de fábricas.

Na verdade, não se deve confundir o movimento operário com a atuação de seus sindicatos. O que
transparece, neste caso, é a valorização da reorganização sindical, em oposição ao negativismo com
outras formas pelas quais operários buscaram seus objetivos.

As greves ocorridas em 1968 mostraram aos militares que os operários poderiam, buscar novas
estratégias de luta sem o consentimento das direções oficiais. Dessa forma poderiam enfrentar a
ditadura mais de frente na busca por melhores salários e condições, não necessariamente buscando
uma negociação de “cúpula”. E com a paralisação da produção, mandavam um recado aos militares, de
que o tão almejado “desenvolvimento”, modernizante e conservador, poderia ser paralisado e afetado,
de alguma forma, se não levassem em conta as demandas da classe operária.

Devido ao fato de serem jogados para a clandestinidade, parte dos operários grevista aderiram a
organizações de esquerda clandestina, principalmente a VPR

Em 1968 é estabelecido o Ato Institucional Nº 5, ou AI-5, que suspendia direitos, fechava o


Congresso Nacional, proibia eleições em sindicatos, aglomerações de pessoas, não sendo necessário,
que tais medidas passassem pelo Judiciário. Este salto adiante no fechamento do regime foi uma
resposta, sobretudo, aos movimentos operários e estudantis (posso colocar que uma das causas do
fechamento foram os movimentos operários e estudantis)

Depois do AI-5 toda forma de resistência popular eram inviáveis.

Depois do AI-5, quaisquer estratégias populares de resistência estariam inviáveis. Greves, passeatas,
paralisações e quaisquer aglomerações de pessoas seriam consideradas um ato de “traição” e cabíveis
de repressão imediata, passariam a ser um crime contra a Lei de Segurança Nacional. As instâncias
judiciais tinham suas funções reduzidas a praticamente nada, permanecendo apenas para manter uma
aparência propagada como “democrática”.

Com o ai – 5 grande parte da esquerda vai ser presa

A partir do AI-5, a maior parte da esquerda vai ser presa, torturada, exterminada ou exilada.
Entretanto, isto não foi o bastante para barrar o movimento operário. A repressão não conseguiu evitar
uma série de greves e paralisações, que não foram noticiadas e, pelo contrário, abafadas pela censura,
até o ano de 1971, quando finalmente não mais haveria fôlego para tais estratégias.

Lógica da resistência

Isto posto, fica perceptível que a atuação da classe operária foi muito mais complexa e
profunda do que propõe certa historiografia. O movimento operário organizado resistiu operando
dentro de uma lógica interna própria, não sendo possível desconsiderar as práticas culturais históricas
dessa classe, caracterizadas por negociação e resistência, ou seja, greves e acordos.
Esta tradição foi em parte rompida, por aqueles operários que buscavam dar um salto de
qualidade na sua luta – a luta para si, que Marx fala – introduzindo novos objetivos e novas estratégias
de resistência. Quando esta estratégia popular se esgotou, frente ao recrudescimento da Ditadura
Militar-Civil, não restou opção a estes, quando ainda participavam de greves e paralisações: se não
pegar em armas e se inserir nas organizações da esquerda revolucionária.
Os que não optaram pela luta armada, passaram a atuar de maneira diferente

Aos operários que não aderiram a esta estratégia, deve-se aprofundar ainda mais os estudos.
Superficialmente expus alguns dos motivos. A institucionalização do terror de Estado, com a
complexificação dos órgãos de repressão, anula aparentemente a perspectiva de resistência organizada,
que, aliada ao nascimento do “milagre econômico”, parte para a relação de negociação. Ou seja,
acreditava-se que a melhor maneira na conquista de benefícios para a classe seria através dos canais
institucionais; pensava-se que, com uma economia aparentemente pujante, parte da riqueza gerada
poderia ser partilhada.

Ledo engano. O projeto de modernizar o capitalismo era conservador, e a classe burguesa que
articulou o Golpe não pretendia dividir seus “direitos” sobre a riqueza. Neste contexto é que deve ser
entendido a retomada do movimento operário de resistência, no biênio 1978-79, quando não há mais
perspectiva da classe operária em participar das benesses do desenvolvimento do capitalismo. Não há
mais acordos que possam fazer retroceder esta análise.
Assim percebe-se que não há hibernação, ou sumiço, da atuação da classe operária. O desenrolar
histórico foi muito mais complexo que isso.

Dissertação de mestrado pag 65-

CARVALHO, Yuri Rosa de. “ Se dez vidas tivesse, dez vidas daria”: O Movimento Revolucionário
Tiradentes e a participação da classe trabalhadora na resistência (1964-1971). UFSM. Santa Maria, RS
- 2014