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Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro

EP4 – Métodos Determinı́sticos I


Neste EP vamos trabalhar o conteúdo estudado nas Aulas 4 e 5 do Caderno Didático.

O EP4 dá sequência ao estudo da Linguagem da Lógica. Além do conectivo condicional “se ..., então
...”, veremos neste EP, também, o conectivo bicondicional “se e somente se”. Vamos trabalhar com
tabela verdade, e estudaremos argumentos lógicos. Você encontra toda esta teoria em seu material
impresso, mas não deixe de ler os comentários neste EP e fazer os exercı́cios

Se... então...
Começaremos vendo o conectivo que causa mais dificuldades para os alunos e que pode ser fonte
também da maior parte de armadilhas em questões de lógica. Chama-se condicional e surge normal-
mente através das palavras “se ..., então ...”. Ele estava presente no exemplo dado no inı́cio do EP3
em que o pai de Julio dizia que se ele fosse aprovado no ENEM, então teria um carro novo. Por
isso é fundamental estudar bem este conectivo.

Considere a frase “Se Maria foi a Roma então ela conhece o Papa”. Matematicamente esta frase
significa pura e simplesmente que se Maria foi a Roma com certeza ela conhece o Papa. A frase, do
ponto de vista matemático, não nos diz que se ela não foi, não conhece o Papa. Na verdade a frase
não diz nada sobre quem ela conhece ou não conhece se ela não foi a Roma.

O condicional é representado pelo sı́mbolo ⇒. Assim, se chamarmos de r à proposição “Maria foi a


Roma” e de p à proposição “Maria conhece o Papa”, terı́amos a proposição composta, em questão,
representada por r ⇒ p, que pode ser lida como “se r então p” ou, ainda, “r implica p”. Só há
um modo desta ser uma proposição falsa: se Maria foi a Roma e não conhece o Papa. Em qualquer
outra situação, a proposição composta é verdadeira. Veja, se Maria foi a Roma e conhece o Papa, a
proposição é obviamente verdadeira. Se Maria não foi a Roma, não importa se ela conhece ou não
o Papa, a proposição não é falsa, já que nada diz a respeito desta situação.

Um terrı́vel exemplo de como a implicação condicional “se ..., então ...”gera confusões e injustiças
ocorre praticamente todo ano, nos finais do Campeonato Brasileiro de Futebol. Não é piada, é sério!

No começo dos campeonatos, alguns matemáticos especializados no assunto (muitos deles bastante
competentes, por sinal!) costumam divulgar seus estudos. Neles, costumam fazer afirmações como

O time que obtiver pelo menos 52 pontos não será rebaixado.

Esta afirmação pode ser lida como uma condicional da seguinte forma:

Se um time obtiver pelo menos 52 pontos, então ele não será rebaixado.

Acontece que, ao final do campeonato, um time possui 45 pontos e não foi rebaixado. Aı́ todos
caem em cima do matemático dizendo que ele errou? Pense um pouco... ele errou?

Não, ele não errou! A afirmação “Se um time obtiver pelo menos 52 pontos, então ele não será
rebaixado”diz simplesmente que todo e qualquer time que tiver pontuação igual ou superior a 52 não
será rebaixado. E isto realmente aconteceu. Se um time com 45 não caiu, é claro que todos aqueles
Métodos Determinı́sticos I EP4 2

que têm 52 também não caı́ram. Ou seja, o que o matemático disse estava certo.

Repare que nada foi dito sobre os times que tivessem menos do que 52 pontos. Aqueles que tivesses
menos de 52 poderiam ser ou não rebaixados, nada disse o matemático sobre eles.

O grande problema é que, em geral, quando as pessoas leem

Se um time obtiver pelo menos 52 pontos, então ele não será rebaixado.

elas costumam pensar que também está sendo afirmado que

Se um time não foi rebaixado, então ele obteve 52 pontos.

Esta última afirmação não é equivalente à anterior. Dentro do exemplo dado, ela está, inclusive
incorreta, pois houve um time que não foi rebaixado e não obteve 52 pontos. E é essa afirmação
que o matemático não fez que costuma ser utilizada para dizerem que ele está errado! Ou seja, ele
está pagando pelos erros lógicos dos outros!

No exercı́cio a seguir, vamos trabalhar com o conectivo condicional “se ..., então ...”. Em vários
dos itens deste exercı́cio, você observará que as proposições simples envolvidas na proposição com-
posta não possuem nenhuma relação uma com a outra. Isto não constitui nenhum problema. Uma
proposição simples pode não ter nada a ver com a outra. O que vai determinar se a proposição
composta é falsa ou verdadeira é a falsidade ou veracidade de cada uma das proposições simples
envolvidas.

Exercı́cio 1 Classifique em verdadeira ou falsa cada uma das proposições compostas a seguir. Jus-
tifique.

a) Se a Amazônia é uma floresta então há praias no Rio de Janeiro.

b) Se respiramos oxigênio, então temos guelras.

c) Se o Snoopy era um gato, então o Garfield era um cachorro.

d) Se Salvador é a capital do Brasil, então o Rio de Janeiro fica na região Sudeste.

e) Se existe chuva de canivete, então os canivetes evaporam quando deixados no Sol.

Exercı́cio 2 Em uma sala de aula, estudam:

• Ana, que não usa óculos e é loira.

• João, que não usa óculos e é ruivo.

• Maria, que não usa óculos e tem cabelos castanhos.

• Matheus Reis, que usa óculos e tem cabelos azuis.

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Métodos Determinı́sticos I EP4 3

• Matheus Vieira, que não usa óculos e também tem cabelos azuis.

• Pedro, que usa óculos e tem cabelos castanhos.

• Zulmira, que não usa óculos e é ruiva.

Sobre esta turma, são feitas as seguintes afirmações.

p: Se usa óculos, então é homem.

q: Se é homem, então usa óculos.

r: Se tem cabelos azuis, então se chama Matheus

s: Se se chama Matheus, então tem cabelos azuis

t: Se tem cabelos azuis, então é homem.

u: Se não usa óculos, então é mulher

v: Se aluno é mulher, então não usa óculos

w: Se é ruivo, então não usa óculos

Preencha as lacunas abaixo com V (verdadeiro) ou F (falso), justificando minuciosamente:

( ) res

( ) uev

( ) v ou t

( ) q ou w

( ) (∼t e q) ou u

Se, e somente se
Vamos tratar agora o conectivo bicondicional “se e somente se”. Por exemplo, lembrando-se do caso
de Julio, se o pai dele (ver EP3) houvesse dito “Julio, você terá um carro novo se e somente se você
for aprovado no ENEM”, aı́ sim, o pai dele estaria dizendo que se ele fosse aprovado no ENEM teria
um carro, e se fosse visto com um carro é porque foi aprovado no ENEM.

O conectivo bicondicional é expresso pelo sı́mbolo ⇔ e é usado para denotar equivalência entre duas
proposições. Dizer p ⇔ q, significa dizer que quando uma das duas proposições elementares for ver-
dadeira, a outra também será e quando uma das duas for falsa, a outra também será. A proposição
composta p ⇔ q (p se e somente se q) é falsa se uma das duas proposições elementares for verdadeira
e a outra falsa. Por exemplo, “o Brasil é maior que a Argentina se e somente se as baleias sabem
falar” é uma proposição falsa, pois a primeira proposição elementar é verdadeira e a segunda não.
Já a proposição “O Brasil é menor que a Argentina se e somente se as baleias sabem falar” é uma
proposição verdadeira pois ambas as proposições elementares são falsas (logo, são equivalentes, isto

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Métodos Determinı́sticos I EP4 4

é, têm o mesmo valor lógico).

Na próxima questão vamos trabalhar com o conectivo bicondicional “se e somente se”.

Exercı́cio 3 Determine se as proposições compostas abaixo são verdadeiras ou falsas. Justifique.

a) Bananas são vermelhas se e somente se existem maçãs verdes.

b) A bandeira brasileira é lilás se e somente se há peixes no mar.

c) Os peixes sabem respirar sob a água se e somente se há elefantes que voam.

d) As bananeiras dão maçãs se e somente se os golfinhos têm asas.

Tabelas-verdade
Agora, você já conhece todos os operadores lógicos que vamos estudar (e, ou, não, se ... então...,
se e somente se). Nossa próxima tarefa é montar tabelas-verdade. Trata-se de uma tabela em que
anotamos os valores lógicos das proposições elementares, a fim de saber se uma expressão composta
é verdadeira ou falsa.

Vejamos um exemplo: vamos avaliar a expressão p ⇔ q. Para criar a tabela, colocamos nas primeiras
colunas as proposições elementares e na coluna seguinte a expressão que queremos avaliar. Nas linhas
das proposições elementares escrevemos todas as combinações possı́veis de verdadeiro e falso que
estas proposições podem assumir:

p q p⇔q
V V
V F
F V
F F

Já sabemos que a expressão em questão é verdadeira sempre que tanto p quanto q tiverem o mesmo
valor lógico, isto é, quando as duas forem verdadeiras ou quando as duas forem falsas. Então podemos
preencher a tabela-verdade:

p q p⇔q
V V V
V F F
F V F
F F V

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Uma tabela verdade pode ter várias proposições compostas e estas podem ser bem mais complicadas
que a que usamos acima.

Na questão abaixo vamos trabalhar com tabelas-verdade.

Exercı́cio 4 Complete a tabela verdade a seguir.


p q p⇒q p∨q p∨ ∼ p q∧ ∼ q p∧q ∼p⇒q ∼ q ⇒∼ p
V V
V F
F V
F F

Exercı́cio 5 André é inocente ou Beto é inocente. Se Beto é inocente, então Caio é culpado. Caio
é inocente se e somente se Dênis é culpado. Ora, Dênis é culpado. Logo,
(A) Caio e Beto são inocentes.
(B) Caio e André são inocentes.
(C) André e Beto são inocentes.
(D) Caio e Dênis são culpados.
(E) André e Dênis são culpados.
Observação: Essa questão foi desenvolvida pela Escola de Administração Fazendária (ESAF) – (Fiscal Recife/2003/Esaf).

Exercı́cio 6 Considere a afirmação P: “A ou B”, onde A e B, por sua vez, são as seguintes
afirmações:
A: “Carlos é dentista.”
B:“Se Ênio é economista, então Juca é arquiteto.”
Ora, sabe-se que a afirmação P é falsa. Logo,
(A) Carlos não é dentista, Ênio não é economista, Juca não é arquiteto.
(B) Carlos não é dentista, Ênio é economista, Juca não é arquiteto.
(C) Carlos não é dentista, Ênio é economista, Juca é arquiteto.
(D) Carlos é dentista, Ênio não é economista, Juca não é arquiteto.
(E) Carlos é dentista, Ênio é economista, Juca não é arquiteto.
Observação: A questão a seguir foi desenvolvida pela Escola de Administração Fazendária (ESAF) para um concurso
de gestor fazendário em 2005.

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Métodos Determinı́sticos I EP4 6

Condições “necessárias”, “suficientes”e “necessárias e sufici-


entes”
Há muitas informações teóricas neste EP , mas há mais uma coisa que temos que saber. Quando
dizemos p ⇒ q, estamos dizendo que p implica q, isto é, basta que p ocorra para termos certeza de
que q também ocorrerá. Por isso, nesse caso, dizemos que p é condição suficiente para q. Mas p
é condição necessária para q? A princı́pio, não. Nada nos garante que é necessário que p aconteça
para q acontecer. Mas se p acontece, com certeza também acontece q. Isto é necessário, q tem que
acontecer quando p acontece pois p implica q, ou seja q é condição necessária para p.

Resumindo: sempre que temos p ⇒ q, temos: p é condição suficiente para q e q é condição


necessária para p. No caso de p ⇔ q temos que p é condição necessária e suficiente para q.

A próxima questão foi retirada de um concurso público. Utilize a estratégia de separar as proposições
elementares que já conhecemos desde o EP3.

Exercı́cio 7 (Esaf/2002) O Rei ir a caça é condição necessária para o duque sair do castelo e é
condição suficiente para a duquesa ir ao jardim. Por outro lado, o conde encontrar a princesa é
condição necessária e suficiente para o barão sorrir e é condição necessária para a duquesa ir ao
jardim. O barão não sorriu. Logo:
(A) a duquesa foi ao jardim ou o conde encontrou a princesa.
(B) se o duque não saiu do castelo, então o conde encontrou a princesa.
(C) o rei não foi à caça e o conde não encontrou a princesa.
(D) o rei foi a caça e a duquesa não foi ao jardim.
(E) o duque saiu do castelo e o rei não foi a caça.

Exercı́cio 8 Seja A = {1, 2, 3, 4} e B = {3, 4, 5, 6, 7}. Escreva por extenso as proposições abaixo e
decida se são falsas ou verdadeiras justificando sua resposta. A primeira está resolvida como exemplo.

a) x ∈ A ⇒ x < 5
Por extenso: se x pertence a A, então x é menor que 5.
É verdadeira: veja que quando a primeira proposição elementar é verdadeira, isto é, x ∈ A,
também temos a segunda verdadeira, pois todos os elementos de A são menores que 5. Observe
ainda que, quando usamos variáveis como x para que uma proposição como essa seja verdadeira,
ela deve ser verdadeira para todos os valores de x possı́veis. Basta que um valor de x falhe
para que a proposição seja considerada falsa. Assim, se a questão fosse x ∈ A ⇒ x ≤ 3, ela
seria falsa, pois um dos valores possı́veis para x é o 4 (veja que 4 ∈ A), mas 4 não é menor
ou igual a 3.

b) x ∈ A ⇒ x + 2 ∈ B.

c) x ∈ A ⇔ x + 2 ∈ B.

d) y ∈ B ⇒ (y − 2 ∈ A ou y é ı́mpar)

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Métodos Determinı́sticos I EP4 7

e) ∀x ∈ N, x é par ⇒ x + 1 é ı́mpar

f) ∀x ∈ R, x2 > 1 ⇔ x > 1

Disjunção exclusiva
Antes de entrarmos em argumentos lógicos, vamos estudar um conectivo que não aparece em seu
material impresso, mas é importante e está presente em inúmeras questões de lógica em provas e
concursos. É a “disjunção exclusiva”, denotada por ∨˙ e expressa por ou ... ou....

˙
Por exemplo: Ou Pedro é arquiteto ou Pedro é psicólogo (a∨p). Uma proposição composta com esse
conectivo é verdadeira quando apenas uma das duas proposições for verdadeira. Em nosso exemplo
acima, se Pedro for arquiteto e psicólogo, a proposição será falsa. Também será falsa se ele não for
nem arquiteto nem psicólogo. Se ele tiver uma e apenas uma destas duas profissões a proposição
será verdadeira.

Argumentos lógicos
Agora vamos abordar os argumentos lógicos. A princı́pio, um argumento é algo bem simples, um
conjunto de proposições chamadas de premissas seguidas por proposições denominadas conclusões.

Por exemplo, poderı́amos ter como premissas:

Se eu saio de casa, então pego ônibus


Se eu pego ônibus, então gasto dinheiro.
Hoje vou sair de casa.

seguidas pela conclusão:

Hoje vou gastar dinheiro.

Este é um argumento válido pois a conclusão é decorrência lógica das premissas, isto é, assumindo
que as premissas são verdadeiras, necessariamente a conclusão também é verdadeira.

Vamos ver um exemplo de argumento que não é válido:

Premissas:
Se eu saio de casa, então pego ônibus
Se eu pego ônibus, então gasto dinheiro.
Hoje vou gastar dinheiro.

seguidas pela conclusão:

Hoje vou sair de casa.

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Métodos Determinı́sticos I EP4 8

Como já vimos antes, o “se... então...” representa implicações em uma direção e não pode ser
invertido, isto é, a afirmação “se eu pego ônibus, então gasto dinheiro” não nos garante de forma
alguma que se eu gasto dinheiro, então pego ônibus. A conclusão acima não é uma decorrência das
premissas, por isso o argumento não é válido.

Veja que em momento algum foram utilizados os termos falso ou verdadeiro para qualificar os argu-
mentos. As proposições podem ser qualificadas em falsas ou verdadeiras. Os argumentos são
válidos ou inválidos, dependendo de se as leis da lógica foram ou não corretamente aplicadas.

As questões abaixo são sobre classificação de argumentos em válidos ou inválidos.

Exercı́cio 9 Classifique em válido ou inválido cada um dos argumentos abaixo. Justifique.


a) Premissas:
Se eu estudo, eu aprendo.
Se eu aprendo, eu passo de ano.
Eu estudo.
Conclusão:
Eu passo de ano.

b) Premissas:
Se eu tenho sede, bebo água.
Se eu bebo água, não me desidrato.
Conclusão:
Se eu tenho sede, não me desidrato.

c) Premissas:
Se eu estudo, não vou ao cinema.
Se não vou ao cinema, não janto fora.
Hoje janto fora.
Conclusão:
Hoje não estudo.

d) Premissas:
Se o Pedrinho não se comportasse, ficaria de castigo
Pedrinho ficou de castigo.
Conclusão:
Pedrinho não se comportou.

Análise de argumentos
Sabemos que premissas são proposições que, na análise de um argumento, devem ser consideradas
verdadeiras por hipótese, isto é, não importa que sejam absurdas, se são premissas, no argumento
elas devem ser tomadas como fatos para a obtenção da conclusão. Essa é uma das origens de dificul-
dades com argumentos. Para dar um exemplo, vamos considerar uma questão que foi desenvolvida

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Métodos Determinı́sticos I EP4 9

pela Fundação Carlos Chagas para um concurso e que está comentada também em nossa vı́deo aula
de argumentos:

Questão Exemplo (FCC): Observe a construção de um argumento:


Premissas:
Todos os cachorros têm asas.
Todos os animais de asas são aquáticos.
Existem gatos que são cachorros.
Conclusão:
Existem gatos que são animais aquáticos.
Sobre o argumento A, as premissas P e a conclusão C, é correto dizer que:
A) A não é válido, P é falso e C é verdadeiro.
B) A não é válido, P e C são falsos.
C) A é válido, P e C são falsos.
D) A é válido, P ou C são verdadeiros.
E) A é válido se P é falso e C é verdadeiro.

Como vemos, todas as proposições constantes na premissa são absurdas, a conclusão também é
absurda, mas nada disso impede que o argumento seja válido. De fato, tomando como verdadeiras
as premissas, partimos do fato de que existem gatos que são cachorros (premissa 3), usando a pre-
missa 1 vamos concluir que existem gatos que têm asas e, então, a premissa 2 nos permite chegar a
conclusão: existem gatos que são animais aquáticos. O argumento é perfeitamente válido, embora
as premissas P e a conclusão C sejam todas falsas. A análise do argumento não leva em consideração
o caráter verdadeiro ou falso das premissas e da conclusão, esta análise considera apenas a forma
como a lógica está sendo aplicada.

É importante observar que no contexto de análise de um argumento as premissas devem sempre


ser tomadas como verdades. Entretanto, uma premissa, analisada isoladamente como uma pro-
posição, i.e. fora do contexto de análise de um argumento, ela pode ser verdadeira ou falsa. Em
outras palavras, podemos pensar que existe uma afirmação que é uma unidade chamada de “pro-
posição”. Esta proposição pode ser avaliada como falsa ou verdadeira. Agora vamos colocá-la no
contexto de análise de um argumento. Ela passará a ser chamada de “premissa”e, como premissa,
neste contexto, ela é sempre assumida como verdadeira. Por exemplo, no caso acima, estamos no
contexto de análise de um argumento e a proposição “Todos os cachorros têm asas”tornasse uma
das premissa do problema. Desta forma, como premissa, ela é assumida como uma verdade. En-
tretanto, fora do contexto de análise de argumento, ela é simplesmente uma proposição, que, não
temos dúvida, de que se trata de uma proposição falsa, pois cachorros não têm asas.

Sempre que alguém desenvolve um argumento matemático e, através dele, conclui algo errado (por
exemplo, que 1=2), é porque cometeu pelo menos um dos seguintes erros:
- usou um argumento que não é válido, isto é, a conclusão não é consequência das premissas,
ou
- aplicou um argumento válido, i.e. a conclusão é consequência das premissas, mas alguma delas,
pelo menos, analisada de forma isolada, ou seja, apenas como uma proposição, fora do contexto de
análise de um argumento, é uma proposição falsa.

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Métodos Determinı́sticos I EP4 10

Exercı́cio 10 Determine se o argumento abaixo é válido ou inválido.

Premissas:
Desempregados não trabalham.
Se uma pessoa precisa de dinheiro, então ela trabalha.
Conclusão
Desempregados não precisam de dinheiro.

Exercı́cio 11 Determine se o argumento abaixo é válido ou inválido.

Premissas:
João sabe fı́sica quântica.
João é doutor em matemática.
João é formado em filosofia.
João ganhou o prêmio Nobel da literatura.
Conclusão:
João é inteligente.

A questão anterior mostra mais uma vez como a Lógica funciona de forma diferente de nossa “lógica
cotidiana”. Em nosso dia-a-dia, as conclusões a que chegamos são consequência não apenas das
premissas que estão expostas claramente, mas também de toda uma experiência de vida que temos.
Assim, ninguém seria louco de discordar da conclusão de que se João realmente fez tudo o que está
nas premissas, ele deve ser muito inteligente. Mas, na Lógica, não é permitido usar esse tipo de
senso comum para chegar às conclusões. Assim, não encontramos nas premissas acima nada que nos
permita deduzir logicamente que João é inteligente.

Será que poderı́amos acrescentar algo nas premissas da questão anterior que tornasse verdadeira a
conclusão? Veja a questão abaixo.

Exercı́cio 12 Determine se o argumento abaixo é válido ou inválido.


Premissas:
João sabe fı́sica quântica.
João é doutor em matemática.
João é formado em filosofia.
João ganhou o prêmio Nobel da literatura.
Qualquer pessoa que saiba fı́sica quântica e seja doutor em matemática e seja
formado em filosofia e tenha ganho o prêmio Nobel da literatura é inteligente.
Conclusão:
João é inteligente.

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Métodos Determinı́sticos I EP4 11

O que fizemos na questão anterior foi incluir nas premissas algo que admitimos implicitamente e que
nos levava a pensar que João devia ser inteligente. Na Lógica, tudo o que for utilizado para chegar
a uma conclusão deve estar claramente expresso nas premissas do argumento (de outra forma, o
argumento pode tornar-se inválido).

Exercı́cio 13 Decida se cada um dos argumentos abaixo é ou não válido e justifique sua resposta:
a) Premissas: Se o dólar cai os produtos brasileiros ficam mais caros no mercado internacional; Se
os produtos brasileiros ficam mais caros no mercado internacional, caem as nossas exportações;
Em 2012 o dólar não caiu.
Conclusão: Nossas exportações não caı́ram em 2012.

b) Premissas: Se as vendas da empresa ABC caı́rem, a empresa se endividará com empréstimos


ou demitirá empregados; A diretoria da ABC não permitirá que a empresa contraia dı́vidas com
empréstimos.
Conclusão: Se a empresa ABC não demitir, é porque suas vendas não caı́ram.

Exercı́cio 14 Sobre o clima na praia de Icaraı́, costuma-se dizer que está chovendo sempre que o
vento sudoeste está soprando.

Considerando as proposições
p: ”O vento sudoeste está soprando em Icaraı́”

q: ”Está chovendo em Icaraı́”

(a) Escreva a frase do enunciado utilizando p, q e o conectivo lógico adequado.

(b) Minha tia acredita que a regra do enunciado nunca falha. Desta forma, em um dia em que o
vento sudoeste não estava soprando, ela afirmou: “Como o vento não está soprando, não está
chovendo, logo não vou levar o meu guarda-chuva”. Há algum erro na argumentação de minha
querida tia? Justifique.

(c) Se o ditado “Em Icaraı́, está chovendo sempre que o vento sudoeste está soprando”for verdadeiro,
e, em um certo mês, o vento sudoeste tiver soprado em 10 dias, é correto dizer que:

( ) choveu em Icaraı́ em, no máximo, 10 dias.


( ) choveu em Icaraı́ em, no mı́nimo, 10 dias.
( ) choveu em Icaraı́ em exatamente 10 dias.
( ) nenhuma das alternativas anteriores.

Justifique.

(d) Supondo novamente que o ditado é verdadeiro, se, em um certo mês, em Icaraı́, tiver chovido
em 10 dias, é correto dizer que:

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( ) o sudoeste soprou em Icaraı́ em, no máximo, 10 dias.


( ) o sudoeste soprou em Icaraı́ em, no mı́nimo, 10 dias.
( ) o sudoeste soprou em exatamente 10 dias.
( ) nenhuma das alternativas anteriores.

Justifique.

Exercı́cio 15 Considere verdadeiras as premissas abaixo, sobre uma determinada questão de Ma-
temática:

(1) Se eu me dediquei a resolver a questão quando eu a vi anteriormente, então aprendi


a resolver a questão ou decorei a solução da questão.

(2) Por outro lado, se eu decorei a solução da questão, então certamente eu me dediquei a
resolver a questão quando eu a vi anteriormente

(3) Se eu aprendi a resolver a questão, então acertei integralmente a questão quando ela
caiu novamente em uma prova.

(4) Se eu decorei a solução da questão, então acertei pelo menos metade da questão
quando ela caiu novamente em uma prova.

(5) Se acertei integralmente a questão quando ela caiu novamente em uma prova, então,
obviamente, acertei pelo menos metade da questão quando ela caiu novamente em
uma prova.

Denote as proposições das sentenças anteriores da seguinte forma:

m: eu me dediquei a resolver a questão quando eu a vi anteriormente

a: aprendi a resolver a questão

d: decorei a solução da questão

i: acertei integralmente a questão quando ela caiu novamente em uma prova

p: acertei pelo menos metade da questão quando ela caiu novamente em uma prova

a) Escreva as cinco premissas dadas ((1) a (5)) utilizando as letras atribuı́das acima a cada sentença
(m, a, d, i e p) e os sı́mbolos da lógica (⇒, ⇔, ∧ ou “e”, ∨ ou “ou”).

b) Se não acertei pelo menos metade da questão quando ela caiu novamente em uma
prova, baseado nas premissas dadas, é verdadeiro ou falso que eu me dediquei a resolver a
questão quando eu a vi anteriormente?
Justifique a resposta com base nas premissas dadas. Você pode utilizar a notação definida para
cada questão, para encurtar sua solução.

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c) Se acertei integralmente a questão quando ela caiu novamente em uma prova, baseado
nas premissas dadas, pode-se afirmar que eu aprendi a resolver a
questão ?
Justifique a resposta com base nas premissas dadas. Você pode utilizar a notação definida para
cada questão, para encurtar sua solução

Exercı́cio 16 Um empresa aceita pagamentos em cheque, boletos bancários de diversos bancos e


cartão de crédito. Avaliando os pagamento feitos pelos clientes e recebidos pela empresa, o diretor
percebeu, hoje, que:

(i) Se um pagamento foi feito com cheque, então o pagamento foi recebido.

(ii) Se um pagamento foi feito com boleto e o boleto era do Banco iTatu, então o pagamento não
foi recebido.

(iii) Se um pagamento foi com cartão de crédito e o pagamento foi feito semana passada, então ele
não foi recebido.

a) Diga se é possı́vel concluir ou se não é possı́vel concluir cada uma das afirmações abaixo,
baseando-se apenas nas afirmações acima.

1. Todo pagamento feito com cheque foi recebido.


2. Se um pagamento foi recebido e foi feito com boleto, então este pagamento não é do Banco
iTatu.
3. Se um pagamento foi feito com boleto e o boleto não era do Banco iTatu, então ele foi
recebido.
4. Se um pagamento foi recebido, então ele foi feito com cheque.
5. Se um pagamento foi feito com cartão e este pagamento foi recebido, então ele não foi feito
semana passada.
6. Se um pagamento foi feito com cartão e este pagamento não foi recebido, então ele foi feito
semana passada.

b) Se foram recebidos 25 pagamentos, quantos pagamentos, no máximo, foram feitos com cheque?
Se foram feitos 10 pagamentos com boleto, mas apenas 5 foram recebidos, pode-se dizer que 5
boletos eram do Banco iTatu? Em caso negativo, o que se pode garantir?

Justifique como chegou à conclusão.

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