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O MITO E 0 HEROL: DO CAOS AO COSMOS E DO COSMOS AO CAOS com Eliade, que o que se costuma chamar de mifo, em geral, é uma historia sagrada e verdadeira (nunca ficticia ou fantasiosa) referente a acontecimentos que tiveram lugar no fempo primordial, no tempo fabuloso dos comegos (entendendo-se aqui esse fabuloso nao no sentido de faniasioso, mas no sentido de extraordindrio, de fora-da ordem comum do cotidiano (cf ELTADE, 1989:12-13).-Além disto, esse tempo primordial, inaugural, é um tempo que se poderia dizer primeiro, nio apenas em termos cronolégicos, mas também no sentido peirceano de primeiro,! ja que esse tempo enquanto tal € puro Presente, pura eclosio/instauragiio do presente, pura presenga, ndo marcado ainda por pré-conceitos ou pré-juizos de qualquer natureza, portanto ainda nao afetado, se quisermos continuar pensando em termos peirceanos, por vinculos reativo-indiciais ~e/ou— Fepresentacionais? com um passado e/ou possivel futuro, Assim entendido, esse tempo — primeiro & uma espécie de a-tempo, que corresponderia, para mim e creio que também para ~o homem arcaico, aquele instante fulgurante, extraordinério, fabuloso, quase inimaginavel, ‘sendo de todo inimaginavel para nos, em que ocorreria a revelagdo epifanica ou, mais propriamente, hierofanica, de ser sendo. Ressalte-se, porém, ainda com base nas idéias defendidas por Eliade, que os acontecimentos que 0 mito narra, ocorridos nesse a-fempo, dizem respeito 4 criagdo por seres sobrenaturais (ou setes naturais ou propriamente humanos movidos por energias, forcas ou poderes sobrenaturais) de uma realidade que nao existia e que passa a existir 'Segundo Litcia Santaella, 0 conceito peirceano de primeiro diz respeito aquilo que é presente e imediato, de modo a nio ser segundo para uma representagio. Ele (0 que é “primeiro”) é fresco e novo, porque, se velho, ja é um segundo em relacao a um estado anterior. Ele € iniciante, original, espontaneo e livre, porque senio seria um segundo em relagao a uma causa( SANTAELLA, 1990: 59). 2Para Peirce, nossas experiéncias no contato com o mundo, bem como os diferentes modos como as coisas aparecem a nossa consciéncia, inscrevem-se em trés diferentes, gradativas interrelacionadas categorias (ou elementos formais do pensamento), a da qualidade (primeiridade), a da reagio/relagao (secundidade) e a da representagdo (terceiridade), segundo Santaella: Primeiridade é a categoria que di A experiéncia sua qualidade distintiva, seu frescor, originalidade irrepetivel e liberdade. (...) Secundidade é aquilo que da & experiéncia seu carater factual, de luta e confronto. agio e reacdo ainda em nivel de binariedade pura, sem 0 governo da camada mediadora da intencionalidade, raz4o ou lei. (...) Finalmente, terceiridade, que aproxima um primeiro e um segundo numa sintese intelectual, corresponde a camada de inteligibilidade, ou pensamento em Signos, através do qual representamos ¢ interpretamos o mundo. Por exemplo: 0 azul, simples ¢ positivo azul, é um primeiro. O céu, como lugar e tempo, aqui e agora, onde se encarna o azul, é um segundo. A sintese intelectual, elaboracao cognitiva - 0 azul no céu, ou 0 azul do céu - é um terceiro, (IDEM, 1990: 44-45 e 67-68), Digitalizado com CamScanner i 1 ja um gragas a esse gesto criador, quer soja a realidade total, 0 Cosmos, quer seja fragmento: uma itha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, ae instituigdo(ELIADE, 1989: 12-13) (fragmentos estes que se configuram, obviamente, com outros tantos cosmos, embora menores ou em menor escala, em relagdo ao cosmos total que 0s fazem parte). 5 cmelpensr evans eo coxmos 8 hz do mito, portant, impli, a me ver, no refi apenas acerca das nogdes de caos e cosmos, mas também a respeito de duas outras nodes presentes nestas consideragdes iniciais. Tais nogdes so as de fempo primordial ou, como aqui se chamou, de a-fempo, ¢ de criagiio, Além disto, s6 se pode pensar 0 caos € 0 cosmos No mito no como conceitos, mas como realidades. Ou seja, caos_¢ cosmos (assim como tempo primordial e ato criador) no sio vistos e experienciados como conceitos pelo homem e pelas comunidades para quem 0 mito é vital, isto é para quem 0 mito é uma manifesta¢ao cultural estreita e verdadeiramente vinculada as origens reais, ¢ ndo ficticias, dessas mesmas comunidades. Caos e cosmos sao, efetivamente, estados reais do ser, nao sao nomes, seja qual for o nome que se Ihes dé: Tértaro, Grande Abismo, Alma do Mundo, Fogo Primal, o Desconhecido, 0 Vazio, Oceano primordial, Noite, Morte e terra para 0 Caos, Ovo Césmico, Luz, Dia, Sol, Vida, ete., para o Cosmos. Trata-se isto sim, como alias jo denunciam e revelam alguns dos nomes acima citados, de manifestagdes reais e polares do ser, mas, polaridades estas, ressalte-se, ndo opositivamente polarizadas, e sim integradas, isto porque, nos mitos cosmogénicos de toda a humanidade inexistem a pura ordem OU a pura desordem, a entropia absoluta ou a neguentropia absoluta. ~~ Diante de um cosmos gerundial, em permanente estado de vir a ser, em continua criago, em continua paiese, onde o ser s6 é sendo, os mitos da humanidade denotam que 0 homem arcaico, o homem criador de mitos, esta longe de qualquer possibilidade de conceber um_cosmo como, por exemplo, o mundo das idéias platénico_ou mesmo o Eden biblico: Paraisos estaticos, ndo gerundiais, perfeitos, imutaveis, etenos, produtos, estes sim, de gestos lOgicos polarizadores, onde o cosmos se contrapde radicalmente ao caos e vice-versa, sem que ambos se integrem inteiradoramente. Para o homem arcaico, todo caos contém potencialmente, em semente, 0 seu < cosmos, é itero gestador de possiveis cosmos, ou seja, todo ndo engetidra o seu sim e todo sim 0 seu néio, jé que todo cosmos nasce gravido, prenhe de seu caos, toda vida j nasce ferida de morte, toda neguentropia ja traz em seu bojo 0 ndo entropico que o condena ciclica € gerundialmente a diluigdo cadtica inseminada por forgas vitais que devolverio a Vida 20 sol morto. Como relatam alguns mitos do Antigo Egito, depois de sua viagem luminosa e iluminadora pelo Nilo celeste, do nascente para o poente, 0 sol mergulhava/morria/apagava-se, com sua barca (a barca de Ré), no ventre escuro e castico da deusa Nut (deusa do firmamento, do dia e da noite, eternamente deitada, em eterna copula, sobre 0 corpo enrodilhado em posigao fetal do deus Geb, a terra, ao mesmo tempo seu amante ¢ seu filho, 20 mesmo tempo inseminador, semente e fruto dessa etema Conjuncdo) refazia, as avessas, sua viagem diuma, agora noturna, do poente para o nascente, da boca para o ttero-vagina da deusa e renascia luminoso, para, mais uma vez, incendiar com sua luz radiante o corpo sensual de Nat, estimulando assim, como sempre, 0 desejo inseminador de Geb. ainda uma vez e para todo o sempre, Caos e Cosmos, Dia e Noite, Vida © morte, Luz e Trevas, Amante e Amada, Céu e Terra, Homem e Mulher, Masculino ¢ Feminino, Sim e Nao, Entropia e Neguentropia, Ordem e desordem, em estrita Digitalizado com CamScanner ciclica, circular, 0 eterno movimento de ser Conjun¢ao, despolarizante, dindmica, ger sendo, sem fim nem come¢o, 0 universo em expansio dos fisicos a caminho no de um novo cosmos ou de um caos outro, mas do Big-Bang primordial, que reabrira, sempre pela Primeira vez, as portas do Caos para o Cosmos e as portas do Cosmos para 0 Caos, restaurando, ainda pela primeira vez e sempre pela primeira vez, a eterna conjungao do Caos-Ventre com 0 Cosmos-Falo e do Caos-Falo com 0 Cosmos-Ventre, num eterno retorno onde Morte e Vida jamais se opdem, se sucedem ou se repetem, jé que, no a-tempo ciclico da etemidade, nascer e morrer sfio, sem passado nem futuro, instantes puramente presentes, etemamente inaugurais. Entre 0 Caos € 0 Cosmos, porém, entre a Morte e a Vida, entre o Céu ea Terra, entre 0 Oceano Primordial e 0 Ovo Césmico, nesse estranho e misterioso espago intervalar, que no separa nem limita, mas integra e unifica, 0 mito situa o gesto transgressor/criador do herdi. Semen/Semente, Falo ¢ Utero, Entropico e Neguentropico, Transgressor/Gestador, Caético e Cosmizante, 0 gesto sempre criador do herdi (criar é despertar inseminadoramente © Cosmos adormecido no Caos e/ou resgatar diluidoramente 0 Caos latente no Cosmos) do herdi é a causa primeira do que ¢ sempre primeiro.> A aventura unificadora/inteiradora da metifora mitica desemboca/culmina sempre na “unidade original”, onde 0 um é fruto da integragao nao diluidora do diferente, e onde o mesmo revela epifanicamente suas miltiplas faces. 0 Heréi, senhor do Caos € instaurador do Cosmos, ¢ 0 maestro/regente da grande sinfonia césmico-castica Alls, a historia/aventura de todo herdi ¢ marcada pelo suceder ciclico de cavs cosmos, em estados de indiferenciagao e estados onde triunfa a diferenca, onde o dia neguentropico gera as trevas entropicas e vice-versa, em eterna poiese, sob a batuta do gesto criador/transgressivolinseminador de um herdi que ousa mergulhar nas aguas revoltas do oceano primordial para colher, em suas profundezas abissais, 0 Ovo Césmico em gestagdo no itero do caos. . Seja qual for 0 nome que Ihe dermos: Adio, Edipo, Osiris, Zeus, Dionisio, Eva, Psiqué, Cristo, Eros, Perséfone, Isis, Demeter, Horus, homem, mulher, a verdadeira missio do herdi (se me € permitido falar do lugar metaférico, nunca ficticio, mas verdadeiro e sagrado, de onde emana toda e qualquer voz mitica) ¢ a de somar, ao longo de sua aventura criadora € caos/cosmizante, gestos transgressivos capazes de fertiizar/cosmizar 0 Caos, onde quer que ele se encontre ou se manifeste, nao com o objetivo de contrapor 0 Casmos a0 Caos, mas com 0 fito de arrancar a ordem do ventre prenhe da desordem, ciente, porém, de que toda vida ja nasce inseminada pela morte, assim como toda morte abriga em seu litero a semente de uma nova vida E este engendrar ciclico, tragico/triunfante, que alimenta todas as narrativas miticas, todas elas metiforas simbélico-icénicas do movimento sistolico-diastélico do Cosmos, da Natureza da Vida Humana. Para mim, 0 que permite ao homem primitivo, criador de mitos, conferir a metafora mitica 0 carter de verdade, nao é apenas a existéncia para ele evidente do universo (a verdade inconteste do universo, sagra com o selo e marca da verdade 0 gesto inaugural que 3Vide notas 1 e 2. Digitalizado com CamScanner Ihe deu origem) mas também a forga presentificadora dos mitos, das narrativas miticas: textos onde a palavra metaforica no pretende apenas nos remeter ao tempo fabuloso e primordial onde o gesto inaugural se faz, mas antes e sobretudo tem por finalidade encenar, aqui e agora, o momento magico em que 0 Cosmos brota do Caos. Faga-se a luz, e a luz se Jez prenhe de trevas. Caos e Cosmos, Cosmos e Caos, sempre presentes, gerundial, ciclica e inteiradoramente presentes. E entre os dois polos despolarizados, 0 gesto criador/transgressor/unificador, ambiguo e uno, vivificante e mortal do herdi: homem e deus. Como afirma Campbell, nos pardgrafos finais de seu livro O Herdi de Mil Faces E necessério que os homens entendam - e sejam capazes de ver - que, por meio dos varios simbolos, é revelada a mesma redenga ‘A verdade é uma sé’, dizem os Vedas, ‘mas os sdbios falam dela sob muitos nomes’, Uma tinica cangdo é entoada por todas as vozes do coral humano... O caminho para nos tornarmos humanos consiste em aprender a reconhecer os contornos de Deus nas prodigiosas modulagdes da face do homem”. (CAMPBELL, 1992: 374). A tarefa de todo mito é, para mim, a do desvelamento desses polos despolarizados e, através deles, dessa nossa face caos/cdsmica, humano-divina, que é, afinal, a nossa verdadeira face, nossa face original. Ao longo dos milénios e séculos, 0 Mito tem continua e persistentemente tentado iluminar, com a luminosidade epiffinica de suas metaforas, essa verdade que sempre esteve ai e que nem sempre tivemos olhos para ver. a da nossa heroicidade original, a da nossa dimensio caos/césmica, a da nossa comum humanidade e a da nossa comum divindade. Fernando Segolin* Digitalizado com CamScanner

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