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FACULDADE DE TEOLOGIA DA UNIVERSIDADE

METODISTA DE SÃO PAULO - UMESP

FERNANDO FERREIRA ROCHA

LEITURA, ANÁLISE E COMENTÁRIO DO SERMÃO 69 DE JOHN


WESLEY, COM TEMA: “A IMPERFEIÇÃO DO CONHECIMENTO
HUMANO”.

SÃO BERNARDO DO CAMPO


2017
FERNANDO FERREIRA ROCHA

LEITURA, ANÁLISE E COMENTÁRIO DO SERMÃO 69 DE JOHN


WESLEY, COM TEMA: “A IMPERFEIÇÃO DO CONHECIMENTO
HUMANO”.

Trabalho solicitado pela matéria Estudos Wesleyanos,


4º ano do curso de Teologia FATEO, Período Matutino,
sob orientação da Prof. Dr. José Carlos de Souza.

SÃO BERNARDO DO CAMPO


2017
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O sermão 69 de John Wesley tem como tema “A Imperfeição do


Conhecimento Humano”. A proposta inicial de Wesley é trabalhar com o texto do
apostolo Paulo de 1Corintios 13. 9 “porque, em parte, conhecemos e, em parte,
profetizamos”, desenvolvendo um diálogo com a dificuldade do ser humano em
conhecer profundamente todas as coisas, assim como com a dificuldade em
conhecer plenamente a soberania de Deus. A proposta de Wesley é que o cristão
deve descansar em Deus, se satisfazendo com o conhecimento e a vontade
soberana de Deus, exercendo assim a confiança por meio da fé.
Wesley inicia o sermão propondo que o ser humano é insaciável por
conhecimento, ele cita: “os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos
de ouvir”. Nesta etapa o Criador é apresentado como o único meio de se adquirir
conhecimento, assim como de saciar, pois Ele tem toda a sabedoria e toda a graça
que o homem necessita. Contudo o autor impõe um limite para o desejo de
conhecimento, que é a ideia da finitude humana, uma vez que, haverá um período
em que não seremos mais consumidos por tal desejo. Nesta etapa entendemos que
Wesley aponta para a vinda Cristo e a manifestação do seu reino.
Em sua pregação, Wesley sugere que o próprio Deus é aquele que encoberta
o conhecimento do ser humano, dispondo para todos somente aquilo que é básico e
necessário segundo Sua vontade. Ainda nessa perspectiva o sermão apresentará
que o conhecimento de Deus será somente em partes, porquanto se o homem
atingisse um conhecimento profundo sobre tal tema, ele se tonaria um “estúpido
sábio”.
Neste primeiro momento do sermão de Wesley, ele discutirá sobre o quanto o
ser humano desconhece sobre Deus. Para ele a compreensão de Deus é
comparada com a compreensão do infinito, dessa forma o home é incapaz de
compreender. Wesley cita Isaac Newton e sua tentativa de apresentar a onipresença
e a eternidade de Deus com o conceito do espaço infinito de “o sensório da
Divindade”, este esforço será frustrado, porque apresentar a imensidão de Deus é a
tentativa de acessar o inacessível. Outra questão que Wesley abordará é a
eternidade de Deus, levantando a pergunta sobre o que é eternidade? E quem é que
pode conhecer o infinito? O sermão de Wesley, apontará nesta etapa que o Criador
não apresentou detalhes sobre si de forma clara, no entanto, ele apresenta Suas
obras por meio de toda a criação, colocando no interior do ser humano indicadores
do exterior através daquilo que foi criado.
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Essa limitação do ser humano em conhecer todas as coisas com exatidão e


profundidade é confrontada por Wesley em sua época por meio de muitas perguntas
e dúvidas, através de situações incertas, como por exemplo: quem sabe a distância
precisa do sol à terra? Quem sabe precisamente sobre os rios e montanhas? Quem
conhece sobre a luz? Quem pode explicar o fenômeno da eletricidade? Através de
muitas outras perguntas complexas e simples, Wesley confrontará o conhecimento
humano afirmando sua insuficiência.
Na sequência do sermão Wesley entra no tema que propõe que o sermão
deve ser racional e que existe uma necessidade sem limites de conhecer, ou obter
conhecimento. Ele apresentará questões ligadas a terra que pisamos, como o
tempo, a distância, profundidade das águas, os vulcões, etc., pedindo que aquele
que é lógico demonstre todo seu conhecimento sobre tais temas, se isso de fato é
possível. Sua confrontação continua, para que o homem racional dê respostas.
Wesley não para por aí, ele ainda falará sobre os vegetais, os animais
microscópicos, os insetos, encerrando esse momento de questionamento
apresentando o maior dos maiores dilemas: O homem conhece a si mesmo por
completo? O conhecimento humano sobre ele é pleno? Estas são questões que tem
por objetivo evidenciar a fragilidade e a incapacidade humana, assim como atestar
sua necessidade de ser ajudado a conhecer a criação de Deus.
Em um segundo momento do sermão, Wesley apontará para quem de fato
pode ter conhecimento completo sobre a criação e as obras de Deus. Ele menciona
as grandezas de Deus, sua atuação, seu governo, pois mesmo que compreendamos
o tema governo e providencia de Deus, Wesley sugere que desconhecemos a ideia
geral de Deus e sua conduta, com respeito a forma com que ele rege as famílias,
nações e indivíduos, principalmente frente as devastações de muitas civilizações. A
questão agora levantada por Wesley faz referência aos procedimentos providenciais
de Deus e seus cuidados, dessa forma a realidade fere a lógica. Com isso
desenvolver qualquer tipo de conhecimento frente a tal realidade é frustrante, a
condição humana e suas dificuldades, assim como sua irracionalidade frente as
obras providencias de Deus, são colocadas por Wesley como algo que contradiz
qualquer tipo de conhecimento, contradiz a coerência do amor de Deus. Nessa
perspectiva ainda, o sermão abordará a presença dos cristãos em lugares
castigados pela injustiça, e questionará o porquê estes que deveriam ser
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instrumento de transformação, não conseguem ter êxito em meio a desordem e caos


estabelecido em muitas dessas cidades.
Wesley estendo ainda seu olhar para o tema que envolve a presença dos
cristãos, ele questiona o motivo no qual o cristianismo não se espalha com tanta
velocidade, uma vez que ele é apresentado como um antídoto para o mal. Para
Wesley a mensagem foi ao logo do tempo adulterada, por aqueles que deveriam
propor mudanças a sociedade através da vida cristã. Tal adulteração gerou mais
questionamentos ainda, envolvendo a desproporção social, porquanto nessas
regiões com presença de cristãos os pobres continuavam morrendo pobres e a
pergunta feita é: “por que Ele (Deus), levanta alguns para a riqueza, honra e poder e
outros continuam pobres? ”. Wesley continuará apresentando esse dualismo, porém
agora questionará a existência de bons e maus, fortes e saudáveis.
Em terceiro lugar Wesley falará sobre o processo de santificação sem o qual
ninguém pode ver a Deus. Este tema é apresentado diante das impossibilidades
humana, pois algumas pessoas nunca terão acesso a algumas verdades, mas serão
cobradas como se tivessem experimentado, para Wesley isso leva a dúvida sobre o
que de fato é justo. Os questionamentos aqui apresentados beiram ao ateísmo,
porém em sua oposição, Wesley retoma os temas colocando sobre uma mesma
sentença, a dúvida. A pregação retomará na etapa final os questionamentos sobre a
fé e a suficiência de Deus, onde certas razões sempre estarão ocultadas para os
homens, pois dificilmente ele compreenderá a mente do Espírito Santo de Deus.
Na etapa final da pregação, Wesley propõe de forma bem dinâmica e objetiva,
que aqueles que buscam o conhecimento e a sabedoria podem sim encontrar. Isso
de fato é possível somente através da ação do Espírito Santo. Dessa forma ele
apresentará três importantes lições para a vida: Primeiramente trata-se de uma ação
que requer “humildade”. Não se trata novamente da arrogância do homem, na
tentativa frustrada de conhecer os seus próprios caminhos a partir de sua sabedoria,
isso pressupõe a inspiração do Espírito Santo de Deus. Em segundo lugar refere-se
a uma lição de “fé, de confiança em Deus”. A própria ignorância ensina o ser
humano a confiar completamente em Sua sabedoria, a pregação de Wesley sugere
que o homem é incapaz de compreender as verdadeiras intenções dos corações,
dessa forma seus pré-julgamentos serão sempre equivocados, o que resulta em
injustiça para com as pessoas. Por isto, o conselho é que não se emita nenhum tipo
de julgamento antes do tempo, porque isso pode nos levar ao erro. Em terceiro
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lugar, diante da ignorância do ser humano e sua incapacidade sobre o que


efetivamente ele conhece sobre Deus e sobre a vida, podemos aprender uma última
lição; a “resignação”. Wesley sugere que diante das muitas incertezas resta ao
homem somente uma atitude, a submissão incondicional a Deus. O exemplo
proposto é o de Jesus Cristo, que em momentos finais de sua vida suas palavras
foram: “Pai, não seja como eu quero, mas como tu queres”. Para Wesley está é uma
prova de resignação, uma prova da verdadeira submissão.
Em última análise, percebo que o Sermão realizado por Wesley retrata
exatamente a dificuldade do ser humano em obter respostas diante os muitos
dilemas da vida, principalmente quando a tentativa de encontrar respostas é
frustrada pela incapacidade do ser humano em conhecer todos os caminhos da vida.
O jogo de perguntas, o grau de dificuldade para as respostas, as incertezas sobre o
que realmente pode-se conhecer de Deus, me levam a entender que a melhor
posição diante da dúvida é a fé. Não existe razão para não se curvar diante tamanha
complexidade, pois para tal atitude, realmente é necessário a humildade, assim
como a confiança acompanhada de resignação e fé.