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Modelos de Transformadores  Clever Pereira

UNIDADE VI
MODELOS DE TRANSFORMADORES

1. INTRODUÇÃO

OBJETIVO PRINCIPAL: Estabelecimento de modelos matemáticos


no domínio da freqüência para transformadores de potência
monofásicos, trifásicos, de dois ou três enrolamentos, de forma a
propiciar o cálculo das correntes, tensões e potências quando
estiverem operando em regime permanente senoidal na
freqüência de serviço (baixas freqüências).

2. TRANSFORMADOR IDEAL
HIPÓTESES BÁSICAS
► Fluxo varia senoidalmente:
• regime permanente senoidal.
i2 Φ
► Núcleo com µ infinita: +
v2 e2
+
N2
• não é necessária nenhuma Fmm - - i1
+
para magnetizar o núcleo; +
v1e1 N1
• todo fluxo confinado ao núcleo,
logo não existem indutâncias - -
de dispersão.
► Enrolamentos com ρ nula:
Fig. 1 – Transformador Ideal
• resistências dos enrolamentos
nulas.

2.1. Relação de tensão


Para as hipóteses básicas consideradas para o trafo ideal, as
tensões induzidas são iguais às tensões terminais. Assim
 v1 (t ) = e1 (t )
 (1)
 v 2 (t ) = e2 (t )

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Sabe-se ainda que


 dλ1 (t ) d Φ (t )
 e1 (t ) = = N 1
dt dt (2)

 e (t ) = dλ2 (t ) = N dΦ (t )
 2 dt
2
dt
Substituindo as equações (2) nas equações (1) resulta que
v1 (t ) e1 (t ) N1
= = = NV = N (3)
v2 (t ) e2 (t ) N 2
onde N é comumente denominada de relação de transformação do
trafo ideal. Em regime permanente senoidal (RPS) tem-se que

V1 E N
NV = = 1 = 1 =N (4)
V2 E2 N 2

A equação (4) mostra que, além da relação de módulo, as tensões


terminais estão em fase.

2.2. Relação de corrente

Lei de Ampère
r r
∫ H ⋅ d l = ienv (5)
r
onde H é a intensidade de campo magnético e ienv é a corrente
envolvida, também chamada de força magnetomotriz Fmm.
r r
Como H e l possuem o mesmo direção e sentido, então
r r
∫ H ⋅ d l = ∫ H . dl = N1 ⋅ i1 - N 2 ⋅ i2 = Fmm (6)

Uma vez que no trafo ideal ra R Φ


permeabilidade magnética µ é infinita,Ha
integral da intensidade de campo ao
redor de um percurso fechado é nula, F
mm
pois não é necessária nenhuma força
magnetomotriz Fmm para criar o fluxo Φ
no núcleo. O circuito magnético da Fig. 2 – Circuito magnético associado.
figura 2 ao lado mostra a situação em
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questão. Se a relutância R for nula, não existe necessidade da


força magnetomotriz Fmm para a existência do fluxo Φ no circuito
magnético definido pelo núcleo do trafo ideal.
Desta forma, considerando na equação (6) que Fmm = 0, resulta que,
em regime permanente senoidal,
N1 I1 − N 2 I 2 = 0 ⇒ N1 I1 = N 2 I 2 (7)

ou seja, a relação de corrente NI vai ser dada por

I1 N 2 1 1
NI = = = = (8)
I 2 N1 NV N

A equação (8) mostra também que, além da relação de módulo, as


correntes terminais estão em fase.

2.3. Relação de potência

Nos terminais 2, a potência complexa é dada por


V 
S 2 = V2 ⋅ I 2* =  1  ⋅ ( N ⋅ I1 ) = V1.I1* = S1

(9)
N
ou seja
S1 = S2 (10)

Desta forma, conclui-se que a relação de potência NS dos trafos


ideais é unitária, ou seja

S1
NS = =1 (11)
S2

Desenvolvendo um pouco mais a equação (11) vem que


*
S1 V1 ⋅ I1* V1  I1 
NS = = = ⋅  ⇒ NS = N V ⋅ N I = 1 (12)
S 2 V2 ⋅ I 2* V2  I 2 

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2.4. Representação de Circuito (Esquemática) de um Trafo Ideal


NO DOMÍMIO DO TEMPO EM REGIME PERMANENTE SENOIDAL

i1(t N:1 i2(t) I1 N:1 I2

v1(t) N1 N2 v2(t V1 N1 N2 V2

Fig. 3 – Representação de circuito de um transformador ideal.

2.5. Impedância vista, ou referida, a um dos lados do trafo

Se uma impedância Z2 é ligada no lado 2 do trafo, tem-se pela lei


de Ohm que
V2
V2 = Z 2 ⋅ I 2 ⇒ Z2 = (13)
I2

Desta forma, expressando Z2 em termos das grandezas do lado 1


V1 N
Z2 = (14)
N ⋅ I1
ou seja
V1 Z
= Z 2' = N 2 ⋅ Z 2 = NV2 ⋅ Z 2 = 22 (15)
I1 NI
'
Na equação (15), Z 2 é denominada impedância do secundário
(lado 2) vista pelo, ou referida ao, primário (lado 1). A figura 4 a
seguir mostra a impedância Z2 referida ao primário.
I1 N:1 I2 I1

  N 
2

 Z 2' =  1  ⋅ Z 2 = N 2 ⋅ Z 2
  N2 
V1 N1 N2 V2 Z2 ≡ V V2' Z 2' 
 ' V2
 V2 = N

Fig. 4 – Circuito equivalente com impedância Z2 referida ao lado 1.

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Exemplo 1

A figura abaixo apresenta um transformador ideal com uma


impedância Z2 ligada no secundário (lado 2). Este transformador
possui 200 espiras no primário (lado 1) e 500 espiras no secundário.
Quando ele é energizado no primário por uma fonte de tensão ideal de
1200 V, circula uma corrente de 5 A com fator de potência 0,866
indutivo. Determinar:
I1 N : 1 I2
(a) A potência complexa fornecida pela
fonte;
(b) A relação de transformação N deste
transformador; V1 V2
N1 N2 Z2
(c) As relações de transformação de
tensão NV e de corrente NI para este
transformador;
(d) O valor da impedância Z2 vista pela
fonte no primário; Fig. 5 – Transformador Ideal do Exemplo 2.
(e) O valor real da impedância Z2;
(f) A tensão, corrente e potência complexa desenvolvida na impedância Z2.

Solução
(a) Admitindo a tensão da fonte na referência, tem-se que
V1 = 1200∠0°V
e
θ1 = a cos(0,866) = 30°
e desta forma, como a corrente é indutiva, ela está atrasada em
relação à tensão, ou seja
I1 = 5∠ − 30° A

A potência complexa fornecida pela fonte vai ser então de


S1 = V1 ⋅ ( I1 )* = 1200∠0° ⋅ (5∠ − 30°) =
*

= 6000∠30° VA = (5196,15 + j 3000,00) VA

(b) A relação de transformação N vai ser dada por


N1 200
N= = = 0,4
N 2 500
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(c) As relações de transformação de tensão e de corrente vão ser


dadas por
NV = N = 0,4
e
1 1 1
NI = = = = 2,5
N V N 0,4

(d) A impedância vista pela fonte no primário vai ser a relação da


tensão pela corrente no primário e é o valor da impedância
ligada no secundário vista do primário, ou seja
V1 1200∠0°
Z 2' = = = 240∠30° Ω
I1 5∠ − 30°

(e) O valor real da impedância Z2 vai ser então de


2 2
N   500 
Z 2 =  2  ⋅ Z 2' =   ⋅ 240∠30° = (2,5) ⋅ 240∠30° = 1500∠30° Ω
2

 N1   200 
(f) A tensão, a corrente e a potência complexa desenvolvida na
impedância Z2 podem ser calculadas por
 V1 1200∠0°
 2 N = 0,4 = 3000∠0° V
V =


 I = N ⋅ I = 0,4 ⋅ 5∠ − 30° = 2∠ − 30° A
 2 1


 S 2 = V2 ⋅ ( I 2 )* = 3000∠0° ⋅ (2∠ − 30°) =
*


 = 6000∠30° VA = (5196,15 + j 3000,00 ) VA

Como a corrente é indutiva, ela está atrasada em relação à


tensão e, desta forma, a potência complexa vai ser
S 2 = V2 ⋅ ( I 2 )* = 3000∠0° ⋅ (2∠ − 30°) =
*

= 6000∠30° VA = (5196,15 + j 3000,00 ) VA

Obviamente que a potência complexa desenvolvida no


secundário é a mesma do primário, uma vez que a relação de
potências complexas NS de um trafo ideal é unitária.
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É importante o leitor notar que o primário nem sempre é o


enrolamento de maior tensão e que a atribuição deste nome a
um determinado enrolamento é completamente arbitrária.

3. CIRCUITO EQUIVALENTE DE UM TRAFO REAL


3.1. Considerações Iniciais
► Fluxo varia senoidalmente (RPS);
► Núcleo com µ finita
o Vai ser necessária uma corrente (força magnetomotriz) para
magnetizar o núcleo, denominada corrente de magnetização.
o Vão existir fluxos de dispersão, representados por indutâncias de
dispersão.

► Enrolamentos com ρ não nula


o Os enrolamentos vão possuir resistências.
► Núcleo composto de material magnético
o Vão existir fenômenos próprios destes materiais, tal como saturação,
histerese e perdas devido às correntes de Foucault ou parasitas
(também denominadas eddy currents).

R1 X1 R2 X2
I1 N:1 I2
Ie
Ia Im

V1 Xm N1 N2 V2
Ra

E1 E2

Fig. 6 – Circuito equivalente de um transformador real

R1 e R2 ⇒ resistências dos enrolamentos 1 e 2


X1 e X2 ⇒ reatâncias de dispersão dos enrolamentos 1 e 2

Ra ⇒ resistência que retrata as perdas no ferro α V


2
( )
Xm ⇒ reatância que retrata a corrente a vazio

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3.2. Circuito Equivalente de um Trafo Real com Impedâncias


Referidas ao Primário

R1 X1 R2' X 2' N:1


I1 I 2' I2
Ie
Ia Im

V1 Xm N1 N2 V2
Ra

V2' V2

Fig. 7 – Circuito equivalente de um transformador real com impedâncias referidas ao primário.

2
N 
R =  1  . R2
'
2 ⇒ resistência do secundário
 N2 
N 
2
referidas
X =  1  . X 2
'
2 ⇒ reatância de dispersão do secundário
 N2 
ao
N 
V2' =  1  .V2 ⇒ tensão do secundário primário
 N2 
N 
I 2' =  2  .I 2 ⇒ corrente do secundário
 N1 

3.3. Circuito Equivalente de um Trafo Real Desprezando-se o


Ramo de Excitação

A corrente de excitação Ie é muito pequena se comparada com I1


(da ordem de 2% a 5%) e deste modo pode-se, muitas vezes,
desprezar o ramo de excitação (magnetização e perdas no ferro).
Desta forma o circuito equivalente da figura 7 se reduz a
RT XT
I1 I 2' N : 1 I2

 RT = R1 + R2'
onde 
V1 N1 N2 V2  X T = X 1 + X 2'

Fig. 8 – Circuito equivalente de um trafo real desprezando-se o ramo de excitação.

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Exemplo 2
Um trafo monofásico de 100 kVA, 2400/240 V, 60 Hz, é utilizado como
um trafo abaixador instalado do lado de uma carga conectada a
um alimentador de tensão nominal de 2400 V, cuja impedância
série é de (1,0 + j 2,0) Ω. A impedância equivalente série do trafo é
de (1,0 + j 2,5) Ω referida ao lado de alta tensão. O trafo está
entregando potência nominal à carga, com um fator de potência de
0,8 atrasado e com tensão nominal secundária. Desprezando sua
corrente de excitação determinar:
(a) a tensão nos terminais de alta do trafo;
(b) a tensão nos extremo emissor do alimentador;
(c) a potência que realmente está sendo entregue ao extremo
emissor do alimentador;
(d) o rendimento global do sistema de transmissão composto do
alimentador e do transformador abaixador;
(e) a regulação de tensão do sistema de transmissão para esta
carga;
alimentador transformador carga
RL XL RT XT
IS I1 I 2' N : 1 I2

VS V2' N1 N2 V2 Z2
V1

Fig. 8 – Circuito elétrico composto pelo alimentador, transformador abaixador e carga do exemplo 3.

Solução
(a) A figura 8 acima apresenta o circuito composto pelo
alimentador, o trafo abaixador e pela carga. São fornecidos os
valores da tensão e potência na carga. Como o problema pede
para desprezar a corrente de excitação, está sendo utilizado o
circuito equivalente do trafo sem o ramo de excitação.
Colocando-se arbitrariamente a tensão na carga na referência
tem-se que

V2 = 240∠0°V

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A corrente I2 na carga pode ser calculada sabendo-se que


θ 2 = arc cos(0,8) = 36,87°
e que
S 2 100000
S 2 = V2 ⋅ I 2 ⇒ I2 = = = 416,667 A
V2 240
Como a corrente está atrasada da tensão, então
I 2 = 416,667∠ − 36,87° A
A potência complexa entregue à carga é de
S 2 = V2 ⋅ ( I 2 )* = 240∠0° ⋅ (416,667∠ − 36,87°) =
*

= 100000∠36,87° VA = (80000 + j 60000) VA


confirmando os valores fornecidos no enunciado do exemplo.
'
A tensão V2 vai ser então de
2400
V2' = N ⋅ V2 = ⋅ 240∠0° = 2400∠0° V
240
'
A corrente I 2 vai ser
I 2 416,667∠ − 36,87°
I 2' =
= = 41,667∠ − 36,87° A
N 10
Finalmente a tensão V1 nos terminais do trafo pode ser
calculada como
V1 = V2' + ZT ⋅ I 2' = 2400∠0° + (1 + j 2,5) ⋅ (41,667∠ − 36,87°) =
= 2496,516∠1,34° V = (2495,834 + j 58,334) V

A solução do circuito é apresentado na figura 9 a seguir


1Ω j2 Ω 1Ω j 2,5 Ω
41,667∠-36,87° A 10 : 1 416,667∠-36,87° A

2400∠0° V 240∠0° V Z2
2581,106∠2,22° V 2496,516∠1,34° V

Fig. 9 – Solução do circuito elétrico do exemplo 3.

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(b) A tensão no extremo emissor do alimentador vai ser dada por


VS = V1 + Z L ⋅ I1 = 2496,516∠1,34° + (1 + j 2) ⋅ (41,667∠ − 36,87°) =
= 2581,106∠2,22° V = (2579,168 + j100,000 ) V

(c) Como o alimentador está sendo representado por uma


impedância série e a corrente de excitação está sendo
'
desprezada, as correntes I 2 , I1 e IS são todas iguais entre si.
Desta forma, a potência entregue no extremo emissor do
alimentador de 2400 V vai ser de

SS = VS ⋅ (I S ) = 2581,106∠2,22° ⋅ (41,667∠ − 36,87°) =


* *

= 107546,951∠39,09° V = (83472,811 + j 67813,248) V

(d) A potência ativa entregue ao emissor é de 83472,811 W e a


potência ativa efetiva entregue à carga é de 80000,000 W.
Desta forma, a diferença entre elas é perdida no processo de
transmissão, tanto no alimentador quanto no transformador.
Assim sendo, o rendimento global do sistema vai ser de

η = 83472,811 − 80000 × 100% = 4,16%


83472,811
Valores abaixo de 5% são geralmente aceitáveis para
processos de transmissão. No entanto não é somente este
índice de desempenho que deve ser calculado para se avaliar
se o sistema projetado é aceitável ou não do ponto de vista
técnico-econômico.
(e) A regulação de tensão vai ser dada por
2581,106
V2 ( NL ) − V2 ( FL ) − 240
Re g (%) = × 100% = 10 × 100% = 7,55%
V2 ( nom ) 240

Na equação acima, NL e FL referem-se à "no load" (a vazio) e à


"full load" (plena carga)

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4. REPRESENTAÇÃO DE TRAFOS DE POTÊNCIA EM PU


Para se chegar ao modelo (circuito equivalente) do trafo de
potência em pu é necessário considerar novamente o circuito
equivalente de um trafo ideal, mostrado abaixo, juntamente com
suas características.

PROPRIEDADES
I1 N :1 I2 DE UM TRAFO IDEAL

V1 N1
NV = = =N
V1 N1 N2 V2 V2 N 2
I1 N 2 1 1
NI = = = =
I 2 N1 N V N
Fig. 10 – Trafo Ideal.
S1 V1 ⋅ I1
NS = = = NV N I = 1
S 2 V2 ⋅ I 2

As três relações acima expressam as propriedades de um trafo


ideal, sendo NV , NI e NS as relações de tensão, corrente e de
potência respectivamente.
O leitor pode notar que as três propriedades do trafo ideal estão
relacionadas de tal forma que

 NS = 1
 (16)
 NV ⋅ N I = 1

As relações de tensão, de corrente e de potência podem também


ser estabelecidas para as respectivas grandezas em pu. Assim, a
relação de tensão de um trafo ideal em pu, denominada NV(pu), pode
ser calculada fazendo

V1 V1
V1( pu ) V V NV
N V ( pu ) = = 1b = 2 = (17)
V2( pu ) V2 V1b V1b
V2 b V2 b V2 b

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A relação de corrente em pu de um trafo ideal NI(pu), pode também


ser calculada do mesmo modo, fazendo

I1 I1
I1( pu ) I I NI
N I ( pu ) = = 1b = 2 = (18)
I 2 ( pu ) I2 I1b I1b
I 2b I 2b I 2b

A relação de potências em pu também pode ser obtida através de

S1 S1
S1( pu ) S S2 NS 1
N S ( pu ) = = 1b = = = (19)
S 2( pu ) S2 S1b S1b S1b
S 2b S 2b S 2b S 2b

A determinação destas três propriedades permite que se


estabeleça um modelo inicial para o trafo ideal em pu, ou seja

I1(pu) I2(pu)
PROPRIEDADES DE UM TRAFO
IDEAL EM PU

V1(pu) N1(pu) N2(pu) V2(pu) V1( pu ) NV


N V ( pu ) = =
V2 ( pu ) V1b V2b
I 1( pu ) NI
N I ( pu ) = =
V1b , S1b  V2b , S 2b  I 2 ( pu ) I 1b I 2b
   
 ⇓   ⇓  S1( pu ) NS 1
    N S ( pu ) = = =
S 2 ( pu ) S1b S 2 b S1b S 2 b
 Z1b , I1b   Z 2b , I 2b 

Para auxiliar o leitor, as propriedades de um trafo ideal e as


propriedades de um trafo ideal em pu estão colocadas lado a lado
a seguir.

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PROPRIEDADES DE UM PROPRIEDADES DE UM
TRAFO IDEAL TRAFO IDEAL EM PU

V1 N1 V1( pu ) NV
NV = = N V ( pu ) = =
V2 N 2 V2 ( pu ) V1b V2b
I1 N 2 1 I 1( pu ) NI
NI = = = N I ( pu ) = =
I 2 N1 N V I 2 ( pu ) I 1b I 2b
S1 V1 ⋅ I1 S1( pu ) NS 1
NS = = = NV N I = 1 N S ( pu ) = = =
S 2 V2 ⋅ I 2 S 2 ( pu ) S1b S 2b S1b S 2b

Percebe-se pelo segundo bloco de equações que as propriedades


de um transformador ideal em pu dependem dos valores bases
escolhidos. Neste ponto o leitor pode observar que se dispõe de
um grau de liberdade de ordem 4, podendo-se, em princípio,
serem escolhidas aleatoriamente S1b , S2b , V1b e V2b.
No entanto, para que o transformador ideal em pu continue
possuindo as mesmas propriedades de um trafo ideal, ou em
outras palavras, para que ele continue sendo um transformador
ideal, mesmo em pu, é necessário que as relações de tensão, de
corrente e de potência continuem atendendo às duas relações
básicas dos trafos ideais expressas em (27), mas em pu, ou seja

 N S ( pu ) = 1
 (20)
 NV ( pu ) ⋅ N I ( pu ) = 1

As equações acima garantem que, mesmo em pu, não há perda de


potência no trafo ideal e qualquer que seja a escolha das bases, o
produto da relação de tensão pela relação de corrente deve ser
unitário. Para atender à primeira das equações (20) basta que

1 (21)
N S ( pu ) = =1 ⇒ S1b = S 2b
S1b S 2b

14
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O leitor pode notar que, atendendo à primeira das equações (20),


atende-se também à segunda, pois se S1b = S2b, então
S1 S (22)
S1( pu ) = = 2 = S 2( pu )
S1b S 2b

e consequentemente
*
V I 
V1( pu ) ⋅ I1*( pu ) = V2 ( pu ) ⋅ I 2*( pu ) ⇒ 1( pu ) ⋅  1( pu )  = 1 ⇒ NV ( pu ) ⋅ N I ( pu ) = 1 (23)
V2( pu )  I 2( pu ) 

Desta forma, a condição necessária e suficiente para que um trafo


ideal em pu tenha as propriedades de um trafo ideal é a expressa
apenas e tão somente pela equação (21) anterior.

Embora a escolha de potências


bases iguais nos dois lados do PROPRIEDADES DO TRAFO IDEAL
trafo ideal em pu garanta que EM PU ONDE S1b = S2b

ele tenha as mesmas


V1( pu ) NV
propriedades de um trafo ideal, NV ( pu ) = =
V2 ( pu ) V1b V2 b
esta escolha não agrega
nenhum ganho efetivo em se I1( pu ) NI
N I ( pu ) = =
utilizar a representação do trafo I 2 ( pu ) I1b I 2 b
em pu, visto que ele passa a ser S1( pu ) NS
N S ( pu ) = = =1
um trafo ideal em pu, com as S 2 ( pu ) S1b S 2 b
propriedades mostradas no
quadro ao lado.

O leitor pode notar neste quadro que não houve nenhuma


simplificação na representação do trafo ideal. A observação
cuidadosa das equações (17) a (19), ou mesmo do quadro anterior,
permite concluir que, uma vez escolhidas as potências base iguais
para os dois lados, ou seja, S1b = S2b , tem-se ainda dois graus de
liberdade, podendo-se escolher livremente V1b e V2b. No entanto, se
as bases de tensão forem escolhidas de tal forma que

V1b
= NV (24)
V2 b

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percebe-se que a relação de tensão em pu, ou seja a primeira das


propriedades, fica como

V1( pu ) NV NV
N V ( pu ) = = = =1 (25)
V2( pu ) V1b NV
V2b

Considerando-se ainda a segunda das equações (20), chega-se a

N I ( pu ) = 1 (26)

Deste modo, o trafo ideal em pu passa a ter relações de tensão


NV(pu) e de corrente NI(pu) unitárias, ou seja, ele nada executa no
circuito, a não ser separar galvanicamente os lados 1 e 2,
podendo, para efeito de cálculo das correntes e tensões, ser
retirado do circuito elétrico. Isto sim representa um ganho efetivo
pela grande simplificação na representação dos trafos em SEP.
Vê-se pois que, através de uma escolha adequada de bases nos
dois lados do trafo ideal, dada por

S1b = S 2b • potências bases idênticas


V1b
= NV • relação entre as bases de tensões igual à relação
V2b de tensão do transformador ideal

o trafo ideal em pu se transforma num trafo ideal de relação


unitária (1:1) e pode ser retirado do circuito, aí sim, simplificando
sua representação. Quando esta escolha é efetuada, diz-se que as
bases estão perfeitamente casadas.

Uma das conseqüências imediatas da escolha de bases


perfeitamente casadas reside no fato de que uma impedância
situada em um determinado lado do transformador tenha o mesmo
valor em pu, ou em por cento, no outro lado. Um outro fato notável
diz respeito aos valores informados pelos fabricantes de trafos
sobre a reatância de dispersão do trafo. Por utilizarem como bases
os valores nominais do trafo e, por conseguinte, fazerem uso de
16
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bases perfeitamente casadas, não necessitam informar dois


valores de reatância, um para cada lado, pois o trafo ideal se
transforma num trafo de relação unitária (1:1) e o valor informado
é válido para ambos os lados.

Exemplo 3
Resolver o exemplo 2 anterior em pu, tomando como grandezas
bases os valores nominais do trafo abaixador.

Solução
(a) O primeiro passo é dividir a rede elétrica em zonas ou
circuitos, definindo as suas grandezas bases. A figura 24
apresenta as duas zonas associadas à rede.

I II

RL XL RT XT
IS I1 I 2' N : 1 I2

VS V2' N1 N2 V2 Z2
V1

Fig. 11 – Circuito elétrico do exemplo 3 mostrando as duas zonas com diferentes valores de tensão base.

Os valores bases de cada uma das zonas são:


Tensão Base Potência Base
ZONA
(kV) (MVA)
I 2,4 0,1
II 0,24 0,1

Como as bases foram escolhidas de forma que elas estejam


perfeitamente casadas (o leitor pode conferir esta afirmativa), a
relação de transformação do trafo ideal representado em pu
vai ser unitária, e desta forma ele pode ser retirado do circuito,
que se transforma no circuito da figura 12 a seguir.

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RL(pu) XL(pu) RT(pu) XT(pu)


IS(pu) I1(pu) I 2' ( pu ) I2(pu)

VS(pu) V1(pu) V2'( pu ) V2(pu) Z2(pu)

Fig. 12 – Representação em pu do circuito elétrico do exemplo 3.

Colocando-se novamente a tensão na carga na referência


tem-se que
240∠0°
V2( pu ) = = 1,00∠0° pu
240
O ângulo da corrente na carga não muda utilizando-se notação
pu e vale, como antes
θ 2 = arc cos (0,8) = 36,87°
O módulo da corrente na carga pode ser calculado em pu por
0,1
S 2 ( pu ) 0,1
S 2( pu ) = V2 ( pu ) ⋅ I 2( pu ) ⇒ I 2( pu ) = = = 1 pu
V2( pu ) 0,24
0,24
Como a corrente está atrasada da tensão, então
I 2( pu ) = 1∠ − 36,87° pu
A potência complexa entregue à carga é de
S 2 ( pu ) = V2( pu ) ⋅ ( I 2 ( pu ) )* = 1∠0° ⋅ (1∠ − 36,87°) =
*

= 1∠36,87° pu = (0,8 + j 0,6) pu


confirmando os valores fornecidos no enunciado do exemplo.
'
A tensão V2 vai ser então de
V2'( pu ) = V2( pu ) = 1∠0° pu
'
A corrente I 2 vai ser
I 2' ( pu ) = I 2 ( pu ) = 1∠ − 36,87° A
A impedância do trafo ZT está localizada na zona II, cuja
impedância base vale

Zb =
(kVb )
2
=
(2,4)
2
= 57,6 Ω
MVAb 0,1
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Então, a impedância do trafo em pu vai ser dada por


ZT 1 + j 2,5
ZT ( pu ) = = = 0,0468∠68,20° pu
Z base 57,6
Finalmente a tensão V1(pu) nos terminais do trafo pode ser
calculada como
V1( pu ) = V2'( pu ) + ZT ( pu ) ⋅ I 2' ( pu ) = 1∠0° + 0,0468∠68,20° × 1∠ − 36,87° =
= 1,040∠1,34° pu
O leitor pode conferir com o valor encontrado no exemplo 3
anterior, multiplicando este valor em pu pelo valor base, ou
seja
V1 = V1( pu ) ⋅ V1b = 1,040∠1,34° ⋅ 2400 = 2496,515∠1,34° V

(b) A impedância do alimentador em pu vai ser dada por


Z 1 + j2
Z L ( pu ) = L = = 0,0388∠63,44° pu
Zb 57,6
A tensão no extremo emissor do alimentador vai ser dada por
VS( pu ) = V1( pu ) + Z L ( pu ) ⋅ I1( pu ) = 1,040∠1,34° + (0,0388∠63,44°) ⋅ (1∠ − 36,87°) =
= 1,0755∠2,22° V = (1,0747 + j 0,0417 ) pu
O leitor pode novamente conferir com o exemplo 3 o valor da
tensão em volts, multiplicando o valor em pu encontrado pelo
valor base, ou seja
VS = VS ( pu ) ⋅ Vb = 1,076∠2,22° ⋅ 2400 = 2581,105∠2,22° V
A solução do circuito é mostrada na figura 13 abaixo
0,0174 pu j 0,0347 pu 0,0174 pu j 0,0434 pu
1∠-36,87° pu 1∠-36,87° pu

1∠0° pu 1∠0° pu Z2
1,0755∠2,22° pu 1,040∠1,34° pu

Fig. 13 – Solução do circuito elétrico do exemplo 3 em pu.

Percebe-se claramente como o problema ficou mais simples


de se resolver. Fica a cargo do leitor resolver os itens (c), (d) e
(e) utilizando a notação em pu.
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Exemplo 4
Resolver o item (a) do exemplo 2, admitindo como bases nos
lados de alta e de baixa os seguintes valores respectivamente:
(a) (100 kVA; 2400 V) e (100 kVA; 480 V);
(b) (500 kVA; 2400 V) e (500 kVA; 480 V);
Solução
(a) A figura 27 abaixo mostra o circuito equivalente do trafo do
exemplo anterior em pu, enfatizando o fato de que, uma vez
que as bases não estão perfeitamente casadas, a relação de
tensão do trafo ideal não vai ser unitária.
RT(pu) XT(pu)
NV(pu) : 1

V1(pu) V2'( pu ) V2(pu)

Fig. 14 – Circuito equivalente do trafo do exemplo 4 em pu, mostrando a presença


do trafo ideal, mesmo com representação em pu.

A relação de tensão do trafo em pu NV(pu) vai ser dada por


V2'( pu ) V2' V1b V2' V2 NV 2400 240 10
NV ( pu ) = = = = = = =2
V2 ( pu ) V2 V2b V1b V2b V1b V2b 2400 480 5

A figura 15 mostra o circuito a ser analisado, destacando a


presença do trafo ideal, mesmo em pu.
RL(pu) XL(pu) XT(pu) NV(pu) : 1
RT(pu)
IS(pu) I1(pu) I 2' ( pu ) I2(pu)

VS(pu) V1(pu) V2'( pu ) V2(pu) Z2(pu)

Fig. 15 – Circuito elétrico do exemplo 5.

A resistência e a reatância do trafo estão no circuito de alta


tensão (lado 1 do trafo), onde as bases são (100 kVA; 2400 V).
Desta forma, a impedância base neste circuito vai ser
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Zb =
(kVb )
2
=
(2,4)
2
= 57,6 Ω
MVAb 0,1
e seus valores em pu serão
ZT 1 + j 2,5
ZT ( pu ) = = = 0,0468∠68,20° pu
Z base 57,6
O leitor pode reparar que o resultado é o mesmo do exemplo
anterior, uma vez que as bases de potência e tensão são as
mesmas, e assim, o valor em pu da impedância do alimentador
também vai ser o mesmo, ou seja
ZL 1 + j2
Z L ( pu ) = = = 0,0388∠63,44° pu
Zb 57,6
Como antes, o transformador está entregando potência
nominal à carga, com um fator de potência de 0,8 atrasado e
tensão nominal secundária. Desta forma
 V2 = 240 V

 P2 = 100 kVA
 cos Φ = 0,8 ind
 2

A carga Z2(pu) está num circuito onde os valores bases são


(100 kVA; 480 V). Desta forma
 V2 240 V
 V2( pu ) = = = 0,5 pu
 V 2b 480 V
 S 2 100 kVA
 S 2( pu ) = = = 1 pu
 S 2b 100 kVA

 Φ 2 = −ar cos(0,8) = −36,87°

O módulo da corrente I2(pu) vai ser dado por
S2( pu ) 1
I 2( pu ) = = = 2 pu
V2( pu ) 0,5

Assim
 V2( pu ) = 0,5∠0° pu

 I 2( pu ) = 2∠ − 36,87° pu

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No lado de alta vai ser


 V2'( pu ) = V2( pu ) ⋅ NV ( pu ) = 0,5∠0° ⋅ 2 = 1∠0° pu
 '
 I 2 ( pu ) = I 2( pu ) ⋅ N I ( pu ) = 2∠0° ⋅ 0,5 = 1∠0° pu
A tensão V1(pu) nos terminais do trafo pode ser calculada como

V1( pu ) = V2'( pu ) + ZT ( pu ) ⋅ I 2' ( pu ) = 1∠0° + 0,0468∠68,20° × 1∠ − 36,87° =


= 1,040∠1,34° pu
A tensão VS(pu) na fonte vai ser
VS( pu ) = V1( pu ) + Z L ( pu ) ⋅ I1( pu ) = 1,040∠1,34° + (0,0388∠63,44°) ⋅ (1∠ − 36,87°) =
= 1,0755∠2,22° V = (1,0747 + j 0,0417) pu

O leitor pode conferir que os resultados das tensões e das


correntes em pu no lado de alta são os mesmos do exemplo 3.
Isto se deve porque as bases do lado de alta também são as
mesmas do exemplo anterior.

0,0174 pu j 0,0347 pu 1∠-36,87° pu 0,0174 pu j 0,0434 pu


2:1 2∠-36,87° pu

1,0755∠2,22° pu 1,040∠1,34° pu 1∠0° pu 0,5∠0° pu Z2

Fig. 16 – Solução do circuito elétrico do exemplo 5.

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