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A QG Feminista é uma revista digital gra-

tuita feita com trabalho voluntário de mulheres


que escrevem e traduzem textos sobre diversos te-
mas importantes sobre a opressão feminina.
Este zine tem o intuito de mostrar alguns
de nossos textos para que você venha conosco
para a luta! Vamos juntas!

Acesse todos os nossos textos em:


qgfeminista.org

Número 13 - Junho de 2020


Créditos

Autoras desta edição:


Bruna Santiago
Fêmea Brava
Mariela Jara
Melina Bassoli

Tradutoras desta edição:


Fêmea Brava

Ilustradoras desta edição:


Capa: Maria Eduarda
Páginas 4 e 5:
Isadora Reimão
Página 11:
Hariná de Moura Marques | @ sementesselvagens
Páginas 14 e 15:
Júlia Leonel
Página 23:
Paula Cruz | @ thepaulacruz
Página 28:
Giulia Dora Tavares
Página 35:
Paloma | @apalomart
Página 36:
Verônica Maluf
Páginas 38 e 39:
Sophia Andreazza
Demais imagens:
Melina Bassoli

Convocação de ilustradoras:
Fêmea Brava

Curadoria:
Bruna Santiago
Fêmea Brava

Revisão:
Ludmila Rodrigues

Diagramação e Projeto Gráfico:


Melina Bassoli

Produção e Distribuição:
Mariana Amaral

Idealização:
Cila Santos
Índice

Criminologia,
Feminismo e
Direito Penal
7

Lutando contra
o Machismo na
América Latina
21

A Socialização para
os Papéis Sexuais
é Violência;
e a Violência é
uma Linguagem
a Ser Abolida
25

A Inquisição e
a Tipificação de
Condutas Femininas
29

Encarceramento
em Massa de
Mulheres no Brasil
31

Violência contra
Mulheres como
Gozo Midiático
37
Este zine reúne debates relativos à questão criminal apresenta-
dos pela criminologia crítica, pela chamada “criminologia feminista”
e pela própria teoria feminista, acerca de como eles se articulam com
a vida das mulheres. Há uma contradição entre punitivismo e feminis-
mo, e qualquer política criminal ou pública que se proponha a ser de
base feminista não pode legitimar os sistemas punitivo e penal, o que
permite a aproximação da teoria feminista dos abolicionismos penais.
É comum que consideremos as lutas pela abolição dos papéis
sexuais e pela abolição do sistema penal incompatíveis. Vemos femi-
nistas serem acusadas de punitivistas e, de fato, encontramos entre
nós o apelo em prol do recrudescimento de penas e pela criminali-
zação de mais e mais condutas. Mas temos que pensar que as leis são
majoritariamente feitas e aplicadas por homens e que mantêm o po-
der sexual masculino, o que também dificulta a análise antissexista
do sistema penal e um olhar mais cuidadoso com as demandas das
mulheres, enquanto casta social, por parte dos agentes de Direito.
Ambas as lutas — de libertação de mulheres e de combate ao
sistema punitivo — nascem em meio ao caldo cultural revolucionário
e de mudanças paradigmáticas, entre os anos 1960 e 1970. Ambas di-
zem respeito a movimentos civis de reconhecimento de direitos e de
propostas revolucionárias de transformação da sociedade como um
todo. Quando nos negamos a olhar para as lutas anticárcere como um
caminho para uma sociedade justa, é porque estamos imbuídas de um
olhar masculinista de mundo, em que leis são o principal caminho para
a liberdade. Também a manutenção de valores patriarcais impede os
agentes do Direito de se apropriarem das perspectivas feministas para
analisar a sociedade e a importância da abolição dos papéis sexuais para
a libertação de todas as pessoas, mas especialmente das mulheres.
Acreditamos na importância de articular essas perspectivas
revolucionárias e provocar feministas e agentes do Direito a rever suas
prioridades e seu compromisso com a transformação social. Mulheres
são as principais afetadas e prejudicadas pelo sistema prisional: refor-
çá-lo não irá nos libertar. É preciso ter consciência de classe e criativi-
dade para pensar em novas formas de mudar o mundo.
— Fêmea Brava
6
Criminologia, feminismo e
direito penal
Por: Bruna Santiago
O texto aqui apresentado é um resumo do texto que pode ser en-
contrado no endereço https://qgfeminista.org/criminologia-feminismo
-e-direito-penal/, no qual é possível ter acesso a todo um histórico da cri-
minologia e do direito penal, desde seu surgimento até as críticas atuais a
eles, com as referências completas usadas.

---

Criminologia é a ciência que estuda o fenômeno criminal — o


crime, a criminalidade, suas causas, suas vítimas e os fatores biopsicosso-
ciais nele envolvidos. Ela é interdisciplinar, congregando conhecimentos
de biologia, psicologia, psicopatologia, sociologia, ciência política, antro-
pologia, economia, filosofia, direito, entre outras áreas.
Desde seu surgimento, entre os séculos XVIII e XIX, a crimino-
logia já teve diferentes enfoques e ofereceu diferentes explicações para os
fenômenos estudados. Na tradição clássica ou positivista, encontramos
explicações individuais (teorias dos defeitos pessoais naturais ou apren-
didos) ou explicações socioestruturais (teorias culturais que utilizam o
conceito de anomia, de subsocialização ou fenomenológicas).
A criminologia crítica, moderna ou radical desenvolve-se num
contexto de reação ao positivismo biologizante e determinista das pri-
meiras teorias criminológicas e busca integrar a análise marxista das re-
lações entre capital e trabalho às análises individuais do fenômeno crimi-
nal. Agora, o objeto da criminologia seriam as condições dos processos de
criminalização.
O crime passa a ser encarado como uma construção social; e a
criminalidade, uma realidade social criada pelo próprio sistema de justi-
ça penal. Assim, não faria sentido estudar as raízes etiológicas do crime,

7
mas apenas os processos de cons- da, visto que, historicamente, ele
trução e de definição histórica da não cumpre com seus supostos
criminalidade, porque não existe propósitos de prevenção, repres-
um crime natural, eles foram de- são e punição da violência; de
finidos assim pelo legislador, e neutralização, retribuição, ree-
tampouco existe um sujeito que ducação e prevenção, e também
seja criminoso nato. porque ele é seletivo. A crimina-
A criminologia crítica ou lização de determinados com-
radical insere, assim, o fator das portamentos e condutas, em sua
relações econômicas, sociais e de própria origem, tem relação com
poder reproduzidas e perpetua- a necessidade de manutenção das
das pelo Direito. A criminologia desigualdades, da exploração e
crítica expõe que o Direito, de do status quo.
uma forma geral, e o Direito Pe- Assim, o paulatino en-
nal, especialmente, privilegiam os xugamento do sistema criminal,
interesses das classes dominantes culminando ou em sua completa
e se blindam utilizando o discur- abolição (abolicionismo) ou em
so da igualdade formal (jurídica) sua diminuição radical (minima-
por eles mesmos positivada. Ao lismo) é — ou deveria ser — con-
definir legalmente quais condutas sequência lógica da análise cri-
são criminosas e quais bens jurí- minológica crítico-radical, uma
dicos serão protegidos, ao apli- vez que não é possível utilizar o
car seletivamente a lei somente sistema penal sem legitimá-lo.
às classes exploradas e hipossu- No entanto, existe tam-
ficientes da sociedade (definin- bém um discurso neocrimina-
do quais indivíduos deverão ser lizador, de relegitimação do Di-
perseguidos e quais serão imu- reito Penal. Muito do discurso de
nizados da criminalização) e ao relegitimação do sistema penal
estigmatizar pela execução penal, gira em torno da necessidade de
o Estado atua como parte da su- se evidenciar a vítima — uma das
perestrutura, reproduzindo, ge- grandes contribuições da crimi-
rando e conservando as relações nologia feminista foi justamen-
sociais de desigualdade e agindo te lançar luz sobre o fato de que
guiado por interesses de classe. no sistema penal como um todo
A própria existência do (mas, principalmente, no proces-
Direito Penal deve ser questiona- so penal e nos mecanismos pu-

8
nitivos) a vítima desaparece. Um temente, revitimiza as mulheres
sistema penal que se dispusesse a que buscam apoio nele. Além de
responder eficientemente às vio- tudo isso, ele recria desigualdades
lências praticadas contra as mu- e preconceitos, como coloca Vera
lheres, portanto, deveria neces- Andrade, sendo um fator de divi-
sariamente colocar a vítima em são entre as mulheres¹.
destaque, não tirando sua agência
e seu protagonismo, fazendo-se Análise feminista da criminologia
verdadeiramente respeitar as suas ou “criminologia feminista”
demandas.
Mas essas reivindicações A criminologia, embora
por reforços punitivos são sim- aparente neutralidade em seu
plesmente reprodução do dis- discurso, é masculinista. A cri-
curso oficial da instituição penal minologia feminista, assim, só
— de que, sim, o sistema penal foi possível a partir do desenvol-
poderia proteger e amparar as ví- vimento da própria teoria femi-
timas. Sendo que já se constatou, nista. Ela não possui ferramentas
há muito, na prática, que não, não próprias de análise, sendo que
pode e não o faz, mesmo porque suas conclusões e contribuições
ele se estrutura de forma a prote- são, na verdade, aplicações da
ger as classes dominantes, sendo teoria feminista à própria cri-
um meio ineficaz para proteger minologia, num primeiro mo-
mulheres. O direito penal é sele- mento, e às questões criminais
tivo e as penas, em geral, recaem em si, num segundo momento.
somente sobre os setores mais Ou seja: ao se verem insatisfeitas
vulneráveis da população. com as conclusões trazidas pela
Esse é um subsistema de criminologia crítica, essas mu-
controle social, que legitima a lheres buscaram suas próprias e
violência institucionalizada por originais explicações para os fe-
parte do Estado e que, constan- nômenos criminais analisados,

9
lançando mão, para isso, da teo- de homens encarcerados e, ain-
ria feminista. da, como os alvos da injustiça de
É central à criminologia políticas criminais a elas direcio-
feminista o conceito de patriar- nadas.
cado, ou seja, a superestrutura A criminologia feminista
que mantém mulheres oprimidas entende o controle penal como
e exploradas por homens, por mais uma forma de controle mas-
meio, principalmente, do contro- culino exercido sobre as mulheres,
le de nossas capacidades repro- porque nele se reproduzem suas
dutivas e sexuais. É o patriarcado condições de opressão pela impo-
que divide a sociedade em “esfera sição de um padrão de normalida-
pública” e “esfera privada”, sendo de, como diria Olga Espinoza³.
que a “esfera privada” é a esfera A criminologia críti-
em que majoritariamente são ca falha em explicar a violência
perpetradas as diferentes violên- masculina contra as mulheres e
cias masculinas contra mulheres, a criminalidade feminina, por-
decorrentes da ideia de que mu- que parte do pressuposto de que
lheres são inferiores aos homens, a opressão feminina possui sua
de que são sua propriedade. E, é origem no capitalismo, ignoran-
claro, a esfera privada é aquela do a estrutura que chamamos de
que, historicamente, foge ao con- patriarcado, como nos explica
trole do Estado. Larrauri4. As criminólogas fe-
Carol Smart coloca que ministas, assim, acrescentaram a
“mulheres não são apenas atores esfera de análise do patriarcado
invisíveis na literatura crimino- à teoria criminológica, porque
lógica; elas também constituem não vivemos somente numa so-
uma ausência como vítimas. São ciedade capitalista, mas numa so-
as vítimas não reconhecidas não ciedade capitalista e patriarcal, o
só de atos e empreendimentos que se reflete nas nossas leis. Da
criminais (como estupro e pros- mesma forma que o direito penal
tituição), mas também da lei pe- pode beneficiar uma classe social
nal, das políticas criminais e das em detrimento de outra, também
teorias criminológicas”². A cri- pode beneficiar uma classe sexu-
minologia, de forma geral, igno- al (ou seja, os homens, todos) em
ra as mulheres como infratoras, detrimento de outra (ou seja, as
como vítimas, como familiares mulheres, todas).

10
A criminologia crítica, análise das teorias marxistas au-
por exemplo, buscou explicar xiliaram nisso, porque se trata de
por que condutas praticadas por uma opressão de clara razão eco-
indivíduos de classes mais bai- nômica: a classe dominante ins-
xas são maciçamente mais cri- trumentaliza o direito penal para
minalizadas do que condutas de manter sua dominação.
indivíduos de classe alta. Assim, Só que uma teoria de base
existem, por exemplo, diversos econômica não é suficiente para
tipos diferentes de crime contra explicar por que homens estu-
a propriedade, mas não existem pram, ou por que homens matam
crimes econômicos — os chama- mulheres, ou por que homens
dos “crimes de colarinho branco” exploram mulheres sexualmente,
— na mesma proporção. Isso nos ou por que um marido espanca e
mostra que o Direito Penal cri- violenta sua esposa, ou por que
minaliza não condutas, com base um pai abusa sexualmente de
numa suposta “moral” social, suas crianças, ou por que um ho-
mas pessoas, e pessoas de deter- mem estupra uma lésbica, ou por
minada classe. As ferramentas de que um homem estupra outro

11
homem. Todas as situações men- Angela Davis5 também
cionadas possuem em comum o denuncia como homens e mulhe-
fator da dominação sexual — si- res “delinquentes” são tratados de
tuação que somente foi trazida ao forma diferente por parte da mes-
campo da análise social por teóri- ma autoridade estatal. A autora
cas feministas. nos lembra que a criminalidade
A teoria feminista de- masculina sempre foi considera-
monstrou como os Estados ca- da mais “normal”, ao passo que a
pitalistas são inerentemente criminalidade feminina, de for-
patriarcais; isto é, seus fundamen- ma geral, sempre foi considerada
tos, suas práticas, suas leis e seus como um desvio da própria na-
agentes produzem e reproduzem tureza feminina, estigmatizando
os papéis sociais de sexo por duplamente a mulher em conflito
meio de controle social formal. O com a lei.
Estado garante a perpetuação da A mulher é tratada de
dominação masculina, baseada forma diferente dos homens se é
no controle da nossa sexualidade autora de delito; nos casos de le-
e da nossa capacidade reproduti- gítima defesa contra companhei-
va, não só por instituições civis, ro abusador, por exemplo, rara-
como o casamento, mas também mente ele é interpretado como
pelo Direito Penal. A criminali- tal, porque nesses casos não con-
zação do aborto, por exemplo, é figuram os requisitos da legítima
o exemplo máximo de controle defesa, como o de que é conside-
estatal da sexualidade feminina: rado “perigo iminente”; mulheres
à mulher é reservado o papel de costumam receber penas maiores
parideira da família e da nação; se que os homens pelo mesmo tipo
ela se negar a cumprir esse papel, de crime, se esse crime é enten-
será criminalmente punida. dido como violento e próprio
As criminólogas passa- de homens. Mulheres também
ram a esmiuçar todas as formas são tratadas de maneira diferen-
pelas quais a ideologia da supre- te quando são vítimas de delito,
macia masculina permeia os con- porque, muitas vezes, a culpa é
troles sociais informais e formais, jogada sobre elas, e sua moral é
inclusive por meio da produção e questionada. Além disso, den-
reprodução de estereótipos sexu- tro do sistema prisional, elas são
ais por parte de seus agentes. tratadas de forma diferente pela

12
própria estrutura penitenciária, homens aos corpos de mulheres.
que as medicaliza muito mais Mulheres foram (e são) historica-
que aos homens e não sabe abri- mente excluídas do processo de
gar gestantes, por exemplo, além constituição do Direito. A con-
de haver também o problema do sequência é um Direito pensado
abandono familar. por homens — e para homens —,
Trazendo essas críticas é a não inclusão de pautas e de re-
para a prática, o primeiro impul- ferenciais gino-orientados.
so natural foi pela criminalização “As leis sobre aborto, obs-
de diferentes violências masculi- cenidade e discriminação sexual
nas, como a violência doméstica demonstram como a relação en-
e o estupro, ao mesmo tempo em tre objetificação — compreen-
que se pugnava, por exemplo, pela dida como o processo primário
descriminalização do aborto, uma de subordinação feminina — e o
vez demonstrado que sua crimi- poder do estado é a relação entre
nalização em primeiro lugar é o pessoal e o político no nível go-
resultado direto de uma tentativa vernamental. Essas leis não são
patriarcal de controle de nossos políticas porque o estado é pre-
corpos. De forma geral, as críti- sumidamente a esfera da política
cas feministas geraram (e ainda — elas são integrantes da política
geram) diversas reformas nos có- sexual porque o estado, por meio
digos penais, inclusive no do Bra- da lei, institucionaliza o poder
sil — mas elas partem do pressu- masculino sobre mulheres por
posto de que é possível reformar o meio da institucionalização do
Direito Penal e instrumentalizá-lo ponto de vista masculino na lei”6
em prol das mulheres. [optou-se por usar “estado”, com
Mas o Direito é a manifes- letra minúscula, conforme o ori-
tação institucionalizada e norma- ginal].
tizada do pensamento e da mo- A retórica e a estratégia
ralidade da classe dominante de de buscar direitos positivados e
determinada sociedade. A cons- institucionalizados são antigas e
tituição do Estado e dos direitos remontam à “primeira onda” do
como entendemos hoje é calcada feminismo. No contexto histó-
na dominação masculina e tem rico de mulheres sufragistas que
suas origens no pacto sociosse- sequer eram oficialmente reco-
xual de livre acesso sexual dos nhecidas como cidadãs fazia total

13
sentido imaginar que a busca pela com que possam ser facilmente
igualdade formal — ou seja, pe- apropriados pelos poderosos (no
rante o Direito — poderia ajudar caso das relações entre homens e
a transformar sua situação mate- mulheres, pelos homens).
rial. Isso não se concretizou; e, no Assim, há a necessidade
entanto, continuamos a insistir de o feminismo elaborar e cons-
no embate pelo reconhecimento truir um novo marco civiliza-
de direitos. tório fora da lógica masculina,
Há diversos problemas como coloca Margarita Pisano8.
em se usar direitos como parte O patriarcado — a masculinidade
da estratégia feminista, como nos — pode até “legitimar” algumas
ensina Carol Smart7: (1) os direi- propostas e análises “feministas”,
tos hipersimplificam relações de mas não sem custos. Ela defen-
poder complexas e podem criar
uma impressão de que são apenas
querelas individuais que podem
ser resolvidas; (2) os direitos de
que dispõem as mulheres (e as
crianças e, em geral, as vítimas
de violência masculina), obvia-
mente, vão ser confrontados com
os próprios direitos dos homens,
direitos que só são retirados em
situações extremas e, ainda as-
sim, com muita relutância; (3) os
direitos são formulados para lidar
com uma injustiça social, mas, na
maioria das vezes, são focados
em indivíduos separadamente,
que, por sua vez, devem provar
que seus direitos foram violados
(em outras palavras, o reconheci-
mento formal de um direito gera
a presunção de que esse direito é
respeitado) e (4) a forma como
esses direitos são formulados faz

14
de que as instituições de poder aconteçam nem que não voltem
como conhecemos têm a marca a acontecer. Assim, políticas de
indelével da masculinidade: rela- criminalização, a partir de um
ções de dominação (e não de co- ponto de vista feminista, não se
laboração/cooperação); lógica de sustentam se forem justificadas
exclusão, de violência e de explo- com o argumento de que isso au-
ração; e que é necessário elaborar mentaria a proteção às mulheres
novas propostas não a partir da — pois não aumentam.
margem do sistema masculino, Por outro lado, a estra-
mas de fora dele. tégia de criar agravantes dentro
“Uma política feminista de determinados tipos penais
alternativa passa, necessariamen- com a finalidade expressa não
te, pelo enfraquecimento do polo de “proteger” as mulheres, mas
criminalizante e deve ser buscada de esmiuçar os delitos cometidos
através de várias formas, não só com aquela particularidade pode
no campo do Direito, mas, prin- ajudar a visibilizar tal comporta-
cipalmente, fora dele”9. mento, trazendo-o a público por
A elaboração de uma po- meio, por exemplo, de dados e
lítica criminal coerente com as análises estatísticas. Isso ajudaria
teorias feministas e suas análises no mapeamento das violências,
da criminologia deve, antes de de forma geral, cometidas contra
tudo, para receber o “título” de as mulheres.
“feminista”, estar alinhada e com- Independentemente de
prometida com a ideia de ser um seu objetivo, as proteções e garan-
instrumento de transformação tias que a política contiver devem
social — ou seja, um meio — em ser estendidas a todas as mulhe-
busca de uma nova sociedade. res por ela visadas (no caso de ser
É preciso ter consciência uma política voltada para grupos
plena de que o sistema penal não específicos, como mulheres em
protege as mulheres: o fato de situação de violência doméstica,
determinados comportamentos de prostituição, de exploração
serem tipificados como “crimes” etc.), sem que sejam discrimina-
não impede que esses compor- das de acordo com seu “grau” de
tamentos aconteçam; a penaliza- “desvio” dos comportamentos e
ção e a punição de tais compor- características considerados tipi-
tamentos não impedem que eles camente “femininos”.

15
A preferência por estraté- caz, a realidade material das pes-
gias, valores e instrumentos não soas envolvidas, como políticas
penais também deve se refletir de habitação, profissionalização,
no curso dos processos judiciais. cuidado de saúde integrado e la-
A principal consequência lógica zer e cultura.
desse princípio é a colocação da
vítima em lugar de destaque, de- Abolicionismo
volvendo-lhe a agência e o domí-
nio sobre a situação, dando-lhe O abolicionismo penal
voz para opinar sobre a melhor nega a legitimidade do sistema
forma de resolver o conflito. As penal, não só a forma como ele
políticas criminais não podem atua hoje na sociedade, mas tam-
ser encaradas como fins em si bém formar alternativas refor-
mesmas, mas sim como meios de mistas dele. Assim, “trata-se de
transformação social. desconstruir toda uma semântica
É central, assim, a uma própria da discursividade penal e,
política criminal de base femi- sem reticências, de abolir a insti-
nista a referência a sistemas e tuição da prisão, substituindo-a,
mecanismos não penais para a no próprio processo de transfor-
resolução ou o manejo da situa- mação cultural e institucional,
ção, recorrendo-se a instrumen- por outras formas de controle”10.
tos punitivos apenas em última O sistema penal é um
instância, uma vez que modelos sistema falido, construído sobre
punitivos representam uma for- a desigualdade — o racismo, o
ma patriarcal de manifestação sexismo e o classismo — e cujo
e manutenção de poder e não propósito tem sido, historica-
atingem a raiz do problema so- mente, a perpetuação dessa de-
cial. Alternativas feministas, por sigualdade, por meio de sua sele-
serem de base materialista — e, tividade. A partir de uma análise
portanto, analisarem a realidade materialista, temos que o Estado
como se apresenta concretamen- é uma instituição de poder pa-
te — passam, necessariamente, triarcal e que não é possível re-
pela educação (ou, ainda, pela re- formá-la sem, ao mesmo tempo,
educação) e pelo oferecimento de legitimá-la e nos enfraquecer en-
instrumentos que sejam realmen- quanto classe e enquanto movi-
te capazes de alterar, de forma efi- mento social e político.

16
A teoria feminista e as dança por elas proposta requer,
propostas de políticas criminais necessariamente, uma mudança
desenvolvidas com base na cri- de paradigma civilizatório. An-
minologia crítica têm diversas gela Davis une ambas as teorias
bases teóricas em comum, am- para propor um feminismo abo-
bas criticam fortemente a repro- licionista cujo principal desafio é
dução e a manutenção de poder “aprender a pensar e agir e lutar
por meio de diversas instituições contra aquilo que é ideologica-
sociais — inclusive o sistema pe- mente constituído como ‘nor-
nal. Também é notório que am- mal’”¹¹.
bas frequentemente apresentem Podemos concluir que
propostas de modelos alternati- uma política criminal alternativa,
vos de sociedade — ou seja: são de bases criminológico-críticas e
teorias que entendem que a mu- feministas deve:

1. Repudiar o cárcere. Creio ser este ponto inegociável, uma vez que
tanto o feminismo quanto a criminologia crítica partem de análises
materialistas; e a nossa realidade material é de que o cárcere é uma
instituição falida que serve somente à perpetuação da desigualda-
de social e do racismo.

2. Centralizar as vítimas. Tanto as críticas feministas quanto a cri-


minologia crítica demonstraram o quanto o direito penal, de forma
geral, é pautado num modelo de punição do autor sem considerar
qualquer forma de reparação ou de assistência à vítima ou mesmo
se a vítima deseja qualquer tipo de punição ou retribuição para
o autor. Nesse sentido, a criminologia crítica apresenta diferentes
modelos de justiça restaurativa, e a teoria feminista concretizada,
por exemplo, no Modelo Nórdico¹² garante políticas públicas assis-
tenciais às mulheres em situação de prostituição.

3. Minimizar ao máximo possível o punitivismo. Se, por um lado, a


criminalização de diferentes comportamentos ajuda a trazer certos
debates para a esfera pública (o que, de certa forma, beneficia mu-
lheres), por outro lado, tal estratégia não funciona para, de fato,
prevenir, combater ou conter o próprio fato que busca criminalizar.

17
Para além disso, a lógica punitivista e retributivista é, essencial-
mente, patriarcal e, portanto, incompatível com qualquer projeto
feminista a longo prazo.

4. Prever medidas não penais. A ausência de medidas penais tam-


bém é, por si só, uma política criminal — na qual o Estado se abstém
de acionar o sistema penal e recorre a outras políticas. O Modelo
Nórdico, por exemplo, prevê políticas de saúde, de habitação e de
profissionalização voltadas para as mulheres em situação de pros-
tituição, justamente para que se acione o Direito Penal somente, de
fato, como último recurso.

5. Prezar pela educação enquanto instrumento de mudança. A cri-


minologia crítica e a teoria feminista, por serem de base materia-
lista, abolicionistas, fortemente libertárias e voltadas para a eman-
cipação dos indivíduos e de grupos sociais, preveem, em alguma
medida, a transformação social por meio da educação, ou seja, por
meio da criação, da transmissão e da internalização de novos valo-
res, condizentes com o projeto de sociedade a que se visa alcançar.
Por isso mesmo o Modelo Nórdico, por exemplo, não se limita a mul-
tar o comprador de sexo, prevendo sua participação numa “escola
de prostituidores”, para que ele possa entender o alcance de suas
ações e como elas prejudicam não só aquela mulher, mas toda a
coletividade de mulheres.

6. Prever mudanças institucionais e sociais a longo prazo. Políti-


cas criminais que se resumem ao punitivismo não atuam na raiz
da questão criminal, porque seu foco é o fim da enorme cadeia de
eventos que conduz à criminalidade e à marginalidade. Para que
determinada questão considerada criminal seja resolvida, uma po-
lítica criminal eficiente deve propor medidas de redução de danos,
para o presente, e também de mudanças radicais que eliminem o
problema pela raiz, para o futuro. A criminologia crítica e a teoria
feminista têm a mesma visão de necessidade de uma transforma-
ção radical em nossa sociedade e, mesmo sabendo de seus limites,
reconhecem a possibilidade de usar o Direito para minimamente
encaminhar tais mudanças, que se concretizarão pela mudança da
própria mentalidade da sociedade.

18
O desafio que penalistas de Fontes:
1. ANDRADE, Vera Regina Pereira de.
base crítica enfrentam hoje — de se Criminologia e Feminismo: da mulher
oporem ferozmente ao cárcere, de como vítima à mulher como sujeito de
denunciar o racismo e o classismo construção da cidadania. In: Sequência
— estudos jurídicos e políticos, revista
do sistema penal, de buscar bre- do curso de pós-graduação em Direito
chas no sistema que possibilitem da UFSC, v. 18, n. 35, 1997.
a devolução de alguma humanida- 2. SMART, Carol. Women, crime and
criminology: a feminist critique. Lon-
de às pessoas que são por ele pe- don : Routledge & Kegan Paul Ltd, 1976.
gas — só é comparável ao desafio 3. ESPINOZA, Olga. A prisão feminina
igualmente enfrentado por femi- desde um olhar da criminologia femi-
nista. Revista Transdisciplinar de Ci-
nistas — de denunciar a constan- ências Penitenciárias, 1(1): 35–39, Jan-
te e invisibilizada guerra travada -Dez./2002.
contra as mulheres, de lutar para 4. LARRAURI, Elena. La herencia de
la criminologia crítica. Madrid : Siglo
que alcancemos o status de seres Veintiuno, 1991.
humanas e não coisas, de termos 5. DAVIS, Angela. Estarão as prisões ob-
soletas? Rio de Janeiro : Difel, 2018.
algum suporte do Estado para que 6. MACKINNON, Catharine. Feminism
consigamos (sobre)viver. Feliz- in Legal Education. Legal Education Re-
mente, os resultados da prática nos view, vol. 7, 1989.
7. SMART, Carol. Feminism and the
reacendem a esperança fomentada power of law. London : Routledge, 1989.
por décadas de construção teórica: 8. PISANO, Margarita. El triunfo de la
o Modelo Nórdico, exemplo aqui masculinidad. Fem-e-libros/creatividad
feminista, Chile, 2004.
trazido de política pública pensa- 9. CAMPOS, Carmen Hein de. Crimi-
da por feministas e com base em nologia feminista: alternativas para uma
teoria feminista, é extremamen- política no Brasil. Dissertação (Mestra-
do em Direito) — Universidade Federal
te bem-sucedido e consegue dar de Santa Catarina (UFSC). Florianópo-
conta tanto das mulheres, vítimas, lis : UFSC, 1998
quanto dos homens, autores — 10. ANDRADE, Vera Regina Pereira de.
Minimalismos, abolicionismos e eficien-
tudo isso pautado em princípios tismo: a crise do sistema penal entre a
feministas e emancipatórios. Cabe deslegitimação e a expansão. in: Revista
Sequência, n. 52, p. 163–182, jul. 2006.
a nós analisar mais a fundo essa e 11. DAVIS, Angela. Feminism and abo-
outras experiências semelhantes lition: theories and practices for the 21st
para, guiadas pela teoria, mas com century. Palestra na Universidade de
Chicago, maio/2013.
os olhos na prática, aperfeiçoar- 12. NORDIC MODEL NOW!. How the
mos e aplicarmos diretrizes e me- Swedish Sex Purchase Law moved the
didas constituintes de uma verda- shame of prostitution from the women
to the punters. Nordic Model Now! we-
deira política criminal alternativa. bsite, 2018.

19
violência As mulheres eram punidas
com frequência no domínio
doméstica e doméstico e instrumentos
de tortura eram por vezes
importados por autoridades
punitivismo para dentro do lar.

A punição
tem dimensões Antes do surgimento da prisão
de gênero. como a principal forma de
punição pública, era mais comum
que quem violasse a lei fosse
submetido a castigos corporais
e, muitas vezes, a penas capitais.

O que não se costuma reconhecer é a conexão


nãogo entre o castigo corporal
si imposto pelo Estado e
con irar!
re sp as agressões físicas
a mulheres
nos espaços
domésticos.
Essa forma de
disciplinamento corporal
continua sendo infligida a
mulheres de forma rotineira
no contexto de relacionamentos íntimos,
mas raramente é encarada como algo relacionado à punição estatal.

A persistência
da violência
doméstica
é uma evidência
dolorosa de modos
históricos de
punição.

Por: Melina Bassoli. Texto adaptado a partir de trechos de:


Davis, Angela. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: difel, 2018.

20
lutando contra o machismo
na américa latina
A fórmula para combater feminicídios
Por: Mariela Jara, para o jornal Inter Press Service
Traduzido e adaptado por: Fêmea Brava
O Peru registrou 11 feminicídios em janeiro de 2019, apesar dos pro-
gressos nas leis e estatutos e das manifestações em massa contra a violência
masculina. Essa situação também é observada em outros países latino-ame-
ricanos, aumentando a necessidade de aprofundar as causas do fenômeno.
Gladys Acosta, uma das 23 membras da Comissão de Peritos que
monitora o cumprimento da Convenção sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra as Mulheres (Cedaw), expressou preocu-
pação com a cobertura midiática da violência masculina e o papel que ela
desempenha no fomento desta violência.
“A notícia é transmitida como se fosse um show, sem explicar as
coisas. Imagens violentas são mostradas, e você pensaria que isso poderia
refrear o fenômeno ao expor uma atitude tão destrutiva, mas esse não é o
caso. Isso me faz pensar que muitas pessoas veem o agressor como um he-
rói patriarcal”, disse a advogada peruana.
Em certas mentalidades, ela argumentou, isso se traduz assim:
como ele é corajoso, eu gostaria de fazer isso, mas não consigo. “Há uma
deterioração muito forte dos valores e um desrespeito pela integridade das
mulheres, por seus corpos, por quem somos”, disse Acosta, que há anos é
ativista na defesa dos direitos das mulheres na região e que agora vive prin-
cipalmente em Nova York.
Na visão dela, a América Latina “sofre com um cenário amplo de
violência que alimenta a violência mais específica contra as mulheres”. Assim
como os desafios urgentes da sobrevivência diária, o crescente número de
armas de fogo alimenta a noção de que os problemas são resolvidos através
da ação e não do diálogo. Além disso, há o crime transnacional que foi bana-

21
lizado e também se tornou parte da cional e da Convenção Interame-
vida social. ricana de Belém do Pará para pre-
“Isso contribui para trans- venir, punir e erradicar a violência
formar as relações entre mulheres contra a mulher que, desde 1994,
e homens em meras lutas de po- tem abastecido a região com uma
der, em vez de relacionamentos única estrutura para combater o
baseados em afeto: se você não problema.
fizer o que eu quero, você sofrerá Desde 2017, Argentina,
consequências”, disse ela. Peru, México e outros países tam-
Em novembro de 2018, bém viram o surgimento de um
o Observatório da Igualdade de novo e crescente movimento para
Gênero da Comissão Econômica aumentar a consciência social da
para a América Latina e o Cari- violência masculina e feminicí-
be (Cepal) divulgou um relató- dios, o que foi expresso em mani-
rio sobre feminicídios na região, festações em massa sob o slogan
afirmando que pelo menos 2.795 #NiUnaMenos (Nenhuma mulher
mulheres foram assassinadas por a menos) ou #NiUnaMás (Nenhu-
causa de seu sexo em 23 países da ma mulher a mais).
região em 2017. Acosta, que era chefe re-
Desse total, 1.133 vítimas gional do Fundo de Desenvolvi-
confirmadas eram do Brasil, mas, mento das Nações Unidas para
em termos proporcionais, El Sal- Mulheres (Unifem) entre 2008
vador alcançou em 2017 uma taxa e 2011, quando a instituição se
incomparável de 10,4 feminicídios tornou a ONU Mulheres, destaca
por 100 mil mulheres. a importância das leis, tratados e
Essa violência letal não está convenções, mas reconhece que o
diminuindo, e, no primeiro mês de progresso nos níveis legislativo e
2019, coletivos de cidadãos e femi- judicial não é o suficiente.
nistas como #NiUnaMenos relata- Educação, trabalho e
ram a escalada de feminicídios na oportunidades na vida são neces-
Argentina, no Brasil, no México e sários para criar um contexto fa-
no Chile, entre outros países. vorável para mudar o padrão atual
Isso está acontecendo, de violência contra as mulheres.
apesar da existência de leis sobre Infelizmente, perigosas correntes
prevenção, atenção e punição da políticas retrógradas contra a edu-
violência masculina em nível na- cação em questões de sexualidade

22
ou de gênero nas escolas têm sur- mens”, observou ela, e cabe à mí-
gido nos países da região, alertou. dia assumir a responsabilidade de
A especialista da Cedaw superar seu foco de curto prazo
propôs “a reconstrução de laços, nas vendas e contribuir para uma
educação humanitária acessível reflexão mais ampla na sociedade.
a todas as pessoas, nas quais me- A advogada peruana Ro-
ninos e meninas têm noções de cío Silva, professora universitária e
respeito sobre relações entre os ativista dos direitos humanos, dis-
sexos”, o que inclui orientações se que as leis e os estatutos não mu-
sexuais diversas e diálogo para re- dam necessariamente a realidade e
solver problemas. “Quando cres- que “apesar dos avanços em direi-
cerem, essas crianças poderão ge- tos, não conseguiu conter a violên-
rar uma forma de vida social que cia contra as mulheres”. “Existe um
não se baseie em lutas pelo poder, componente cultural poderoso,
como fazem os homens agora com um senso comum patriarcal de
as mulheres”, disse ela. posse de homens do corpo das
Ela destacou a necessida- mulheres. E é importante trabalhar
de de a mídia redefinir suas polí- com eles, sem negligenciar a víti-
ticas de informação em relação à ma. Caso contrário, essa violência
violência masculina. “A magnitu- não vai parar”, disse ela.
de do problema que enfrentamos O Peru é um excelente
afeta tanto mulheres quanto ho- exemplo de uma situação que é

23
generalizada na região. Nesse país e não através de pancadas”, afir-
de 32 milhões de pessoas, 149 fe- mou Silva.
minicídios foram documentados Nancy Palomino, que tem
no ano passado, de acordo com o um mestrado em saúde pública,
Ministério de Mulheres e Popula- disse que “para muitos [homens],
ções Vulneráveis, o que inclui os a violência é o meio de impor seu
estupros e assassinatos de meni- poder às mulheres e à família. Nos
nas cometidos pelos seus proge- feminicídios vemos que correm o
nitores masculinos. risco de perder tudo, até mesmo a
“Todos os estupros são liberdade e, às vezes, a própria vida”.
sobre poder e não sobre sexuali- Palomino considera im-
dade extrema. É incrível que um portante e necessário trabalhar
tabu básico das sociedades huma- com homens e meninos na des-
nas, como o incesto, não funcione construção da masculinidade e
mais. Não há consciência do dano na prevenção da violência. “O
causado pelo estupro, e isso se currículo escolar deve ser repen-
deve à educação sexista e porno- sado, os professores devem ser
gráfica”, disse ela. sensibilizados e a perspectiva de
Ela acrescentou que outro gênero e a prevenção da violência
elemento brutal da masculinida- devem ser incorporadas às esco-
de no Peru é a hipersexualização. las”, acrescentou.
“Estamos em uma sociedade pa- Ela também mencionou o
triarcal doente, em que os limi- desafio de trabalhar no campo das
tes não são mais possíveis, com a emoções masculinas, a fim de tor-
masculinidade em uma crise de ná-los mais empáticos e capazes
tremenda violência”, avaliou Silva. de se somarem na construção de
Ela lamenta o fato de que uma cultura baseada em direitos
as políticas do Estado não incluam humanos, e livre de violências.
homens, e sugere educação, espe- “Isso é fundamental, tendo
cialmente de meninos. em vista o fato de que a educação
“É sobre ensinar um tipo dos meninos e sua socialização se
de camaradagem entre homens e concentram em controlar tudo o
mulheres para que eles possam que possa parecer frágil, afetuoso,
nos ver como iguais. Você tem carinhoso; e estimular precisamen-
que ensinar que os problemas te expressões de força, dominação
são resolvidos através de palavras e violência”, concluiu Palomino.

24
a socialização para os
papéis sexuais é violência;
e a violência é uma
linguagem a ser abolida
Por: Fêmea Brava

Quando eu estudava jornalismo policial e criminalização da po-


breza, costumava dizer que a violência é uma linguagem, porque é muito
evidente que alguns acontecimentos impactam mais a alguns que a outros:
enquanto parte da população fica impressionada com as fotos noticiadas
de pessoas encontradas mortas, outra parte diariamente pula cadáveres
deixados em seus portões de casa, para conseguir chegar na escola e no
trabalho. Enquanto parte das crianças jogam videogame para brincar de
matar uns aos outros, outra parte é submetida à violência policial em ruas
e vielas de periferias e favelas, e perde filhos, primos, irmãos, amigos, nessa
“brincadeira” institucional de bangue-bangue promovida pelo Estado —
ora carregados para prisões, ora assassinados.
Eu chamava de linguagem porque era o que era: pessoas afetadas
cotidianamente por violência entendem que esta é a forma de ser e estar no
mundo. A violência educa, a violência é a língua-mãe, a violência comuni-
ca. Ela faz sentir, e depois ela é naturalizada, absorvida e reproduzida no
nosso dia a dia, a ponto de não sabermos mais que somos afetadas por ela, a
ponto de esquecermos e naturalizarmos essa forma de nos comunicarmos.
A partir do momento em que comecei a estudar Feminismo e Te-
oria Feminista, compreendi que meu incômodo sobre a linguagem da vio-
lência era um incômodo com a forma como somos socializadas, nesta so-
ciedade que transforma crianças em Homens ou Mulheres, dependendo de
se você nasce menino ou menina. A socialização é a nossa educação para
o cumprimento dos papéis sexuais; a socialização é a própria violência. Foi
aí que entendi que esta é a tal da “linguagem violenta de mundo”, que eu
começava a compreender anos atrás, colocando a responsabilidade no dis-

25
curso, mas sem entender de onde em casos de descumprimento de
ele vinha, qual era sua origem. regras. Por isso, quando homens
É assim que as crianças encarcerados estabelecem uma
são criadas; é assim que as mu- norma social interna para conse-
lheres são submetidas a relacio- guir sobreviver e organizar o co-
namentos abusivos; é assim que tidiano nas prisões, eles escolhem
policiais matam gente e mandam o mesmo tipo de dinâmica que
pessoas para a prisão, sem remor- as próprias organizações que os
sos: por meio do discurso violen- punem: a militar. Ou seja, quem
to da socialização. Talvez em al- descumpre recebe uma sanção e
guns momentos a gente até ganhe precisa pagar o preço por ter de-
consciência de que vivemos numa safiado as autoridades. Agimos
dinâmica de violência, mas, mes- assim porque a violência é essa
mo que de vez em quando consi- linguagem presente na nossa so-
gamos perceber que estamos dan- cialização que acreditamos ser a
do círculos em meio a situações única forma possível de educar.
agressivas, é muito, muito difícil Da mesma forma que ho-
sair. É difícil escolher sair. Porque mens reproduzem e naturalizam a
não conhecemos os caminhos, linguagem da violência, nós, mu-
porque não nos são dadas opções lheres, também a reproduzimos e
ou variações de como viver: ou vivemos o tempo todo escolhen-
somos agressivos ou passivos; ou do quando e em quais situações
criativos ou inertes; ou bons ou seremos dóceis e servis, ou autori-
maus. A socialização se constrói tárias e impositivas. Aprendemos
em meio a esse discurso militari- que a linguagem militarista, mas-
zante sobre disciplina e sobre mé- culinista, da violência é a melhor
rito: e era aí que eu queria chegar. forma de educar crianças. Que
O discurso militarizante, elas e nós precisamos ser puni-
esse mesmo que é reproduzido em das em caso de descumprimento
prisões, por policiais e presos, em da ordem. O que não pensamos é
instituições como escolas, hospi- que ser consideradas “agressivas”
tais, igrejas e famílias é o próprio é diferente para nós, mulheres.
discurso da violência, masculinis- Enquanto os homens são
ta, da educação por meio da dis- “desviantes”, nós somos “loucas”, e
ciplina que, para ser conseguida, isto demonstra as diferenças com
precisa ser imposta via punição, que as instituições nos julgam e

26
visualizam nossa transgressão. capazes, loucas, que precisam ser
Transgressão porque nós, definiti- ressocializadas — para serem es-
vamente, não fomos criadas para posas ou empregadas domésticas
impor, mas para servir. Prisões são mais eficientes. Os nossos crimes
para homens; manicômios são para são morais, os deles, decorrência
mulheres. Somos loucas, histéri- do desvio natural do curso.
cas, precisamos nos tratar. Eles são Com tudo isso e toda uma
meliantes, bandidos, criminosos. teoria que destrincha a Sociali-
Mesmo o destino dado às mulheres zação, o que me incomoda mais,
criminosas é distinto. No início dos nas pesquisas sobre prisão e cár-
anos 1980, mulheres foram aceitas cere de uma forma geral, é a busca
e incorporadas nas prisões mascu- por explicações pouco materiais
linas como forma de pacificar estas para o que acontece dentro do
instituições: é isso que esperam de sistema prisional. Os debates fi-
nós, que tragamos civilidade e bons cam girando em torno de “desejo”,
modos aos homens que desviam “performance”, “escolha”, “fetiche”.
das normas, e isto deveria explicar Os pesquisadores usam Foucault,
muita coisa sobre o sistema prisio- Deleuze e um milhão de filóso-
nal masculino. fos da subjetividade. Entendemos
No caso do encarcera- todos que a prisão é a própria
mento das mulheres, nos são im- suspensão da subjetividade e da
postas atividades que corroboram individualidade, mas, na hora de
com a socialização: bordado, pin- fazer as análises, nos faltam ferra-
tura, maquiagem, cabelo e muita, mentas materiais para tal. A teoria
muita medicalização. Mesmo em feminista traz resposta para tudo
unidades socioeducativas, as ado- o que há de mais assombroso no
lescentes do sexo feminino são universo do encarceramento, e
mais medicalizadas que os meni- nada tem a ver com subjetividade.
nos. Enquanto mulheres que visi- Pouco importam os mo-
tam homens presos, somos presas tivos pessoais que levam cada
sexuais entregues nas mãos de ho- pessoa a cometer crime, todos
mens que viveriam na barbárie, se sabemos disso, porque a análi-
não fossem os corpos femininos se material de classe e raça nos
servindo-os na “visita íntima”; permite fazer essa afirmação. O
enquanto mulheres encarceradas, sistema penal não busca acabar
somos consideradas vítimas, in- com a criminalidade, mas bus-

27
ca criminalizar condutas, busca ca de reproduzir a socialização que
a criminalização, que pesa mais, receberam: militarista, masculi-
dependendo da classe e da cor de nista, violenta. Precisamos acabar
quem cometeu esses crimes. Este com a socialização para o cumpri-
é um fato sociológico corrobora- mento dos papéis sexuais. Pare-
do por muitos pesquisadores da mos de criar meninas para serem
criminologia crítica: é material e Mulheres (dóceis, boas esposas, ví-
é afirmativo. Mas, na hora de es- timas, mães, passivas); paremos de
tudar violência masculinista e por criar meninos para serem Homens
que homens cometem a maior (agressores, predadores sexuais,
parte das violências; por que as militares, infantis). A violência pa-
filas de prisões masculinas estão triarcal faz este mundo rodar, e a
cheias e das femininas, vazias; maior parte de nós está se dando
por que várias mulheres trocam muito, muito mal com tamanha
de parceiros dentro das prisões e violência.
nunca abandonam seus postos,
os pesquisadores querem falar de
subjetividade e desejo e fetiche.
A teoria feminista expli-
ca tudo isso: a linguagem que nos
educa, a meninos e meninas, ho-
mens e mulheres, é a socialização.
Ela, por si só, é a própria e primeira
violência sofrida por todas e todos
nós. Fugir da nossa própria socia-
lização é o nosso principal desafio,
porque nós educamos como fo-
mos educados. Nós reproduzimos
as merdas que nos ensinaram e
chamamos de tradição, para evitar
críticas. Homens matam homens
e mulheres porque educamos me-
ninos para serem predadores. Mu-
lheres educam meninas e meninos,
porque as educamos para educar e
cuidar, e sob elas recai toda a lógi-

28
a inquisição e a tipificação
de Condutas femininas
Por: Melina Bassoli

Antes da formação dos Estados nacionais e da formalização dos


processos de penalização dos indivíduos, já havia formas de controle so-
cial que puniam pessoas de acordo com algumas regras sociais. Os tribu-
nais do Santo Ofício da Inquisição eram uma delas e ajudavam a manter a
ordem social e o status quo.
No final do século XV, o papa Inocêncio VIII emite uma bula cha-
mada “Summis desiderantes affectibus” (“Desejar com ardor supremo”),
em que coloca a bruxaria como a grande inimiga da Igreja. Na sequência,
o livro “O Martelo das Feiticeiras” (“Malleus Maleficarum”, no original) é
publicado com ideias que associam fortemente a bruxaria ao sexo femini-
no. Esse livro se torna o principal manual usado pelos juízes desses tribu-
nais, chamados inquisidores, e é considerado por alguns teóricos, como
Zaffaroni, como o primeiro discurso criminológico.
Uma mitologia em torno da figura da bruxa é formada e percebe-
-se que as mulheres passam a ser especialmente perseguidas pela Igreja. A
caracterização da bruxa é patriarcal, porque a bruxa é qualquer mulher.
Segundo “O Martelo das Feiticeiras”, “as mulheres são por natureza ins-
trumentos de Satanás — são, por natureza, carnais, um defeito estrutural
enraizado na criação original”. Assim, identifica-se na própria natureza do
sexo feminino a tendência à bruxaria, porque as mulheres seriam mais
“facilmente seduzidas pelo pecado”, incluindo as “damas de boa conduta”.
A ideia da bruxaria procurava também, como todos os instrumen-
tos patriarcais, controlar a sexualidade da mulher, porque a bruxa tem uma
“lascívia obscena”, de modo que as mulheres adúlteras, as que faziam sexo
antes do casamento, as prostituídas etc. poderiam ser classificadas como
bruxas por causa de condutas sexuais. A construção cristã da figura da
bruxa persiste em diversas sociedades, que ainda identificam uma mulher
com supostos poderes mágicos como má ou contestadora da ordem social.
29
Porém, homens com supostos po- definirá a formação do Direito
deres mágicos têm poder nas co- Penal. As mulheres, por muito
munidades em que atuam, como tempo, foram desconsideradas
os próprios sacerdotes cristãos. pelo sistema penal formal dos Es-
A identificação da mulher tados, porque suas questões não
com algo condenável traz uma es- eram questões de Estado e elas
pécie de tipificação de condutas eram tidas como politicamente
femininas, fazendo da mulher um irrelevantes, mas isso não signifi-
ser desviante por natureza. Coisas ca que outras formas de controle
típicas da sexualidade feminina, não agiam sobre elas e que prati-
como o aborto, poderiam ser con- camente as criminalizavam, ainda
sideradas sinais de bruxaria. que juridicamente informais.
Também coisas relacio- Durante a Santa Inquisi-
nadas ao sexo feminino, sociais e ção, ser mulher era praticamente
não naturais, foram caracterizadas ser criminosa, porque o compor-
como condenáveis em “O Marte- tamento da mulher era considera-
lo das Feiticeiras”. Colher e mis- do naturalmente desviante e a sua
turar ervas para chás e remédios, sexualidade era um instrumento
por exemplo, considerado coisa satânico. As mulheres no patriar-
de mulher, passou a ser entendido cado são um grupo submisso e
como feitiços maléficos de bruxas. não escaparam de serem conside-
O inquisidor era um ho- radas desviantes durante a histó-
mem que acumulava as funções ria, seja como bruxas, loucas, his-
de investigador e juiz, o que au- téricas, adúlteras, prostitutas ou
mentava a possibilidade de arbí- qualquer outro epíteto misógino
trio. Basicamente, o tribunal era usado para marcar o ser mulher
formado apenas para confirmar como um crime.
suspeitas iniciais e condenar o
Fontes:
réu. Inclusive, negar a bruxaria KRAMER, Heinrich; SPRENGER, Ja-
podia ser considerado prova de mes. The Malleus Malleficarum. Nova
bruxaria, de modo que não havia York: Dover Publications, 2012.
LIMA, Lana L. G.. O Tribunal do Santo
saída para a pessoa acusada. Ofício da Inquisição: o suspeito é o cul-
A criminalização de con- pado. Curitiba, 1999.
dutas de um grupo submisso para MENDES, Soraia da Rosa. Criminologia
a manutenção de poder do grupo feminista. São Paulo: Saraiva, 2014.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. A Mulher e
dominante será uma prática que o Poder Punitivo. São Paulo, 1995.

30
encarceramento em massa
de mulheres no brasil
Por: Bruna Santiago

50% das mulheres privadas de liberdade no Brasil são jovens


entre 18 e 29 anos; 62% é negra; 77% não completou o ensino médio
(sendo que 45% não completou o ensino fundamental); 62% é solteira;
61,41% têm mais de um filho ou filha; os crimes relacionados ao tráfico
de drogas correspondem a 62% das incidências penais, e crimes contra
a propriedade (o que inclui roubo, furto e receptação) correspondem a
21%. Após a lei de drogas de 2006, o encarceramento de mulheres por
tráfico de drogas se expandiu. Além disso, 45% das mulheres privadas de
liberdade ainda aguardam julgamento.
Como perfil geral, as mulheres privadas de liberdade no Brasil são
jovens, negras, de baixa escolaridade (a partir do que se presume que se-
jam de baixa renda), estão presas provisoriamente e entraram para o siste-
ma de justiça criminal devido ao envolvimento com o tráfico de drogas.
É possível falar no fenômeno do encarceramento feminino em
massa quando analisamos as taxas de encarceramento ao longo dos anos:
entre 2000 e 2016, o encarceramento feminino aumentou 656% (enquan-
to o masculino, 293%). Em números absolutos, o Brasil possui a quarta
maior população feminina encarcerada; em relação à taxa de aprisiona-
mento (indicação proporcional à população), o Brasil é o terceiro país
no mundo que mais encarcera mulheres, depois dos Estados Unidos e da
Tailândia.
As opressões estruturais de raça e classe interferem diretamente
no aprisionamento dessas mulheres. Quando se leva em consideração
o fator da opressão sexual, ou seja, os mecanismos pelos quais o sexo
interfere na vida das mulheres, a criminalidade feminina se mostra dife-
rente de sua contrapartida masculina, evidenciando-se a inaplicabilida-
de dos paradigmas criminológicos oriundos de teorias que não adotam
análises feministas (ou seja, todas, com exceção da criminologia de base
31
feminista). Quanto aos processos
de criminalização, por sua vez,
identifica-se o mesmo padrão de
encarceramento massivo de pes-
soas negras e/ou pobres — tanto
homens quanto mulheres.
O sistema de justiça cri-
minal não é neutro: ele selecio-
na as pessoas, dividindo-as entre
puníveis e não puníveis. Há mais
pessoas pretas e pobres presas
não porque elas cometem mais
crimes, mas porque as próprias
noção e definição de crime são
elaboradas para encarcerar es-
sas pessoas, o que faz com que o
sistema as selecione para serem
punidas. Em linhas gerais, esses
postulados explicam satisfato-
riamente o porquê de, no Brasil,
a população carcerária em geral
ser desproporcionalmente preta e
pobre.
No entanto, se o sistema
de justiça criminal se guiasse por
padrões de perseguição funda-
mentados apenas em raça e em
classe, as taxas de aumento do
encarceramento de mulheres e
de homens não seriam tão dis-
crepantes. Daí a necessidade de
se levar em consideração o fator
sexual, além dos fatores de raça e
de classe, para analisar o fenôme-
no do encarceramento em massa
feminino.

32
Na América Latina, o au- As mulheres envolvidas
mento do encarceramento de mu- com o tráfico de drogas perten-
lheres está intimamente relacio- cem majoritariamente a esses
nado às mudanças na política de grupos. Diferentemente de ho-
drogas. O raciocínio que deve ser mens, que frequentemente têm
feito não é de que necessariamente envolvimento constante e regu-
mais mulheres estão se envolven- lar com esse crime, as mulheres
do com o tráfico de drogas, mas de costumam recorrer ao tráfico de
que mais mulheres estão sendo vi- drogas esporadicamente, como
sadas, perseguidas e punidas pelo uma forma de complementação
sistema de justiça criminal por da renda. Isso explica por que
conta do acirramento da guerra tantas mulheres são pegas em
às drogas. É a expansão do encar- flagrante servindo de “mulas”
ceramento que faz com que mais (transportadoras) de drogas:
mulheres estejam sendo presas. o serviço de “mula” pode ser
Desde a década de 1990, exercido apenas uma vez. Além
identifica-se no Brasil uma “fun- disso, a flexibilidade de horá-
cionalidade mítica da droga”: ela rios possibilitada pelo tráfico
é o bode expiatório de todos os de drogas vem de auxílio a essas
problemas sociais; todo tipo de mulheres, que frequentemente
política — inclusive uma necro- acumulam jornada dupla ou tri-
política — se justifica em nome pla de trabalho (são responsáveis
de seu combate. Não por acaso, pelos serviços domésticos e de
adotam-se políticas repressivas cuidado da prole, além de traba-
e opressivas em vez de políticas lharem fora de casa, geralmente
de saúde pública. Mas o inimigo em serviços informais e/ou pre-
identificado pela política de guer- carizados).
ra às drogas não é o grande pro- O fato de essas mulheres
dutor ou traficante, é o varejista, recorrerem ao tráfico (e a outras
o dono da boca, o aviãozinho. ocupações ilegais, violentas ou
Figuras de baixa hierarquia e que, marginalizadas) como forma de
justamente por serem retiradas incremento da renda evidencia
de seus “postos” o tempo todo, o fenômeno, já descrito desde os
ensejam o constante recrutamen- anos 1980 por teóricas feminis-
to de mais pessoas ao mercado de tas, de feminização da pobreza:
entorpecentes. os maiores índices de pobreza

33
se encontram entre mulheres mais baixas, o que, no Brasil,
ou em lares chefiados por mu- está inerentemente associado à
lheres (que vêm aumentando), configuração racial das classes
majoritariamente porque além sociais e à presença da heran-
de mulheres ganharem menos ça escravista nas estruturas so-
do que homens, elas acabam tra- ciais, e de seletivas repressão,
balhando menos horas fora de perseguição e punição dos in-
casa, porque costumam ser as divíduos de classes mais baixas,
responsáveis pelo cuidado e pela independentemente de a prática
organização da casa, das crian- das condutas tipificadas como
ças, dos idosos e de deficientes crime ser pulverizada por todas
físicos. Em famílias chefiadas ex- as classes sociais. O resultado é
clusivamente por mulheres, esse a dupla/tripla vitimização e/ou
processo se acentua; e dentre as seleção penal das mulheres: por
populações mais pobres, a falta sexo, por raça e por classe.
de creches impossibilita a mu- A mulher, quando se-
lher de ter um trabalho regular lecionada pelo sistema penal,
e fixo, já que ela não teria com também será julgada de forma
quem deixar sua criança. Mulhe- patriarcal, já que “criminosa”
res empobrecidas e negras — já foge aos estereótipos e papéis
que, no Brasil, as classes também sociais de sexo que determinam
têm cor — constituem um grupo que uma mulher deve ser natu-
de alto grau de vulnerabilidade, ralmente doce, passiva, maternal
uma vez que são responsáveis e “boa”. A prática de “desvios”
não apenas pelo próprio susten- por uma mulher significa que os
to, mas muitas vezes pelo sus- mecanismos de controle social
tento da família. A feminização patriarcais falharam, o que con-
da pobreza facilita a entrada das figura uma subversão por parte
mulheres nos mercados ilícitos e dessa mulher e uma fragilidade
informais. desses mesmos mecanismos de
Associe-se a isso o mais controle. A mulher pega por al-
conhecido fenômeno de cri- gum crime é duplamente “des-
minalização da pobreza, com viante” — aos olhos da lei e aos
estigmatização de condutas, olhos do patriarcado —, o que
comportamentos e culturas ti- aumenta o rigor punitivo sobre
picamente associados às classes ela.

34
Fontes: nitenciárias, 1(1): 35-39, Jan-Dez./2002.
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. INFOPEN Mulheres – 2ª edição. Orga-
Criminologia e Feminismo: da mulher nização Thandara Santos; colaboração
como vítima à mulher como sujeito de Marlene Inês da Rosa. Brasília: Minis-
construção da cidadania. In: Sequência tério da Justiça e Segurança Pública.
– estudos jurídicos e políticos, revista Departamento Penitenciário Nacional,
do curso de pós-graduação em Direito 2017.
da UFSC, v. 18, n. 35, 1997. TORRES, F. M.; SOUZA, Ladyane;
BORGES, Juliana. O que é: encarcera- PRANDO, C. C. M.. Encarceramento e
mento em massa? Coleção Feminismos controle sobre o corpo feminino: refle-
Plurais. Belo Horizonte: Ed. Letramen- xões sobre a violência estatal. In: Con-
to: Justificando, 2018. gresso de Criminologia(s): crítica (s),
CHERNICHARO, Luciana. Sobre Mu- minimalismo (s) e abolicionismo (s).,
lheres e Prisões: Seletividade de Gênero 2015, João Pessoa. Anais do I Congres-
e Crime de Tráfico de Drogas no Brasil. so de Criminologia(s): crítica(s), mini-
Rio de Janeiro: Universidade Federal malismo(s) e abolicionismo(s). Porto
do Rio de Janeiro, 2014. Originalmente Alegre: EDIPUCRS, 2015. v. 1.
apresentado como Dissertação de Mes- TRINDADE, Lígia Cintra de Lima. O
trado em Direito, Universidade Federal sistema prisional feminino sob a ótica
do Rio de Janeiro. de gênero. Revista do Conselho Nacio-
ESPINOZA, Olga. A mulher encarce- nal de Política Criminal e Penitenciária.
rada em face do poder punitivo. São n. 22, v. 1, 2009/2010. p. 597-623.
Paulo: IBCCRIM, 2004 (Monografias / _________. Política de drogas e encar-
IBCCRIM; 31). ceramento feminino. In: SHECAIRA et
_________. A prisão feminina desde al (org.). Drogas: desafios contempo-
um olhar da criminologia feminista. râneos. Belo Horizonte: Ed. D’Plácido,
Revista Transdisciplinar de Ciências Pe- 2018.

35
36
violência contra mulheres
como gozo midiático
Ou “Como as instituições masculinas não nos salvarão”
Por: Fêmea Brava
Uma adolescente desapareceu em 21 de outubro de 2018, depois
de sair de uma festa em um sítio em Mogi das Cruzes (SP). Segundo as
investigações, ela ia andando em direção ao município vizinho, quando
encontrou um motorista que lhe informou que estava no caminho errado
para casa e ofereceu carona até a rodoviária, onde ela poderia pegar um
ônibus. Quando chegou lá, ela falou com o segurança do local, que ofere-
ceu outra carona até sua casa, e ela aceitou. A menina desapareceu por oito
dias, e seu corpo foi encontrado em uma área de mata, em Guararema,
com sinais de estupro e asfixia.
O segurança confessou sua responsabilidade na morte da menina.
Sexta-feira, dia 30 de agosto de 2019, ele foi submetido a julgamento via
júri popular e condenado a 45 anos de prisão.
Eu gostaria de dizer que a prisão desse homem reflete a preocupa-
ção do nosso sistema de Justiça com a vida de mulheres, mas precisamos
perceber que: não. A prisão deste homem não livra a vida da jovem assas-
sinada, não traz alívio para a família, não deixa o mundo mais seguro, não
“serve de exemplo a outros homens” e, principalmente, não é uma resposta
da Justiça à violência contra mulheres. A Justiça nunca foi uma aliada à luta
das mulheres. A presença de um júri composto por membros da sociedade
civil para condenar um homem que estuprou e matou uma jovem não é
uma resposta da Justiça à violência contra mulheres, senão uma forma de a
Justiça lavar as próprias mãos em relação à proteção de meninas e mulhe-
res, jogando o justiçamento e a vingança no colo do povo emocionado com
as notícias de jornal. É um cala-boca sanguinário espetacularizado.
Me lembrei de umas meninas que encontrei às duas da manhã na
rodoviária de Rio Bonito (RJ), certa vez, sem dinheiro e tentando ir para
Tanguá, município vizinho, 13 quilômetros de distância de onde estáva-

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mos. Elas portavam uma expres- prou a adolescente, mas que eles
são de ansiedade e, por parecerem tiveram uma relação consensual;
muito novas, fui perguntar o que e que ele não a matou de propósi-
estavam fazendo ali àquela hora. to, tendo em vista que achava que
Disseram que tinham se perdido tinha a deixado viva; e que não
dos amigos, deixado a carteira tentou ocultação de cadáver. É a
com eles e, por isso, esperavam isso que o sistema de Justiça pa-
pra ver se conseguiam uma caro- triarcal nos submete: somos obri-
na de volta pra casa. Um homem gadas a ler e escutar disputas so-
que havia passado de carro alguns bre o estupro de uma menina (foi
minutos antes disse que só ia re- estupro ou não foi?) que não só
solver um problema, mas que já foi submetida à violência sexual,
voltava para dar a tal carona. Eu como foi asfixiada com um mata-
me arrepiei dos pés à cabeça. Per- leão e posteriormente enforcada
guntei se elas conheciam o tal cara com seu próprio cadarço, por ter
e me disseram que não. Ofereci ameaçado o homem, dizendo que
esperar o ônibus com elas e pagar seu pai era policial.
a passagem, mas que, por favor, Outras vezes,
não fossem de carona. “Vocês não somos obrigadas a
têm medo?”. “Temos, mas não sa- ler e escutar disputas
bemos como voltar de outro jeito”. sobre as roupas que
A cidade não é feita para usávamos enquanto
nós. A noite não é feita para nós. O éramos estupradas;
transporte público não é feito para outras, sobre nossa
nós. Se estamos nas ruas, estamos conduta na vida, an-
em um ambiente masculinizado. tes da violência física
Além disso, posso afirmar que não que sofremos (tem
nos preocupamos com a vida das mulher que pede
mulheres. O Legislativo não se para apanhar?); ou-
preocupa. O Executivo não se pre- tras, sobre a nossa
ocupa. O Judiciário não se preocu- sexualidade (mas ela
pa. A sociedade não se preocupa. era lésbica ou bisse-
Um dos argumentos de xual?) e por aí vai.
defesa do homem que confessou Homens não que-
o assassinato da jovem paulista foi rem descobrir o que
de que ele, na verdade, não estu- aconteceu conosco

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para oferecer solidariedade ou O Judiciário nos submete
para contar nossas histórias, mas às mais variadas violências, bem
para nos ridicularizar e abrir bre- como as notícias midiáticas que
chas para nossa humilhação, ain- expõem crimes como se fossem
da que póstuma. espetáculos a serem consumi-
Nada que o Judiciário dos por nós, abutres carnicei-
nos ofereça vai trazer a vida ros. Ninguém fala em misogi-
daquela jovem de volta. Nada nia, ninguém fala de violência
vai aliviar a angústia das ado- policial, ninguém fala de mudar
lescentes nas rodoviárias espe- a vida das mulheres como um
rando uma carona para casa. todo. Muito pelo contrário: o
Nada que homens nos ofereçam Patriarcado nos alimenta com
como proposta pode ser cami- pedaços de carne podre de nós
nho para a nossa emancipação mesmas, e caímos nesse discur-
— precisamos pensar por nós so porque não ousamos pensar
mesmas. por nós mesmas. Não ousamos
defender umas às outras. Não
ousamos nos identificar com ou-
tras mulheres. Nós, as principais
atingidas e atravessadas pela vio-
lência patriarcal.
Eles não estão nem aí
para as nossas vidas. Eles não
estão interessados em nos liber-
tar das amarras, mas de nos ver
girando a máquina, urrando por
mais e mais. Como proteger mu-
lheres? Como proteger mulheres?
Como proteger mulheres? — essa
deveria ser nossa principal pre-
ocupação, mas seguimos cele-
brando morte, prisão, tortura,
espetacularização da violência,
justiçamento, vingança e achan-
do que estamos caminhando para
um mundo melhor.

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para se
aprofundar
livro: Criminologia crítica e crítica do direito penal
(alessandro baratta)

livro: em busca das penas perdidas


(eugenio raúl zaffaroni)

livro: Criminología: aproximación desde un margen


(eugenio raúl zaffaroni)

livro: mujeres, derecho penal y Criminología


(elena larrauri, org.)

artigo: Criminología Crítica: abolicionismo y Garantismo


(elena larrauri)

dissertação de mestrado: Criminologia feminista,


alternativas para uma política no brasil
(Carmen hein de Campos)

livro: Criminologia e feminismo


(Carmen hein de Campos, org.)

livro: estarão as prisões obsoletas?


(angela davis)

livro: penas perdidas, o sistema penal em questão


(louk hulsman)

livro: a indústria do controle do crime


(nils Christie)

livro: história dos pensamentos criminológicos


(Gabriel anitua)

dissertação de mestrado: encarceradas,


a mulher em face do poder punitivo do estado
(june Cirino dos Santos)

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este zine é o resultado do
trabalho de várias mulheres.

Qualquer pessoa está


apta a vendê-lo para
custear sua produção.
este zine não possui fins comerciais.

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