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PERIGOSAS NACIONAIS

COLEÇÃO CEO

Sem Regras
Aretha V. Guedes

Sem Alternativa
C. Caraciolo

PERIGOSAS ACHERON
PERIGOSAS NACIONAIS

Sem Volta
Carol Moura

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Ficha técnica

Copyright 2018 Aretha V. Guedes, Carol Moura e


C. Caraciolo — Botando Banca! & Editora Livros
Prontos

Todos os direitos reservados.


Título: Coleção CEO
Autoras: Aretha V. Guedes, Carol Moura e C.
Caraciolo
Revisão: Clara Taveira e Raphael Pellegrini
(Capitu Já Leu)
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Capa: Willian Nascimento


Diagramação e-book: Daniella Moreno e Capitu Já
Leu

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Sumário
Botando Banca

SEM REGRAS

Sinopse

Prólogo

Capítulo 1 — Leandro

Capítulo 2 — Senhor Pendleton

Capítulo 3 — Proposta

Capítulo 4 — Dante

Capítulo 5 — Dimitri

Capítulo 6 — Croissette

Capítulo 7 — Festival

Capítulo 8 — Sem regras

Capítulo 9 — Outro dia

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Capítulo 10 — Entre amigos

Capítulo 11 — Despedida

Capítulo 12 — Paris

Capítulo 13 — Descoberta

Capítulo 14 — Realidade

Capítulo 15 — O plano

Capítulo 16 — Discursos

Capítulo 17 — Surpresas

Epílogo

Sobre a autora

SEM ALTERNATIVA

Dedicatória

Sinopse

Capítulo 1

Capítulo 2

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Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Epílogo

Agradecimentos

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Sobre a autora

SEM VOLTA

Sinopse

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Epílogo

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Agradecimentos

Sobre a autora

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Botando Banca

Romances rápidos, leves e divertidos, que

fazem o tempo passar sem você sentir. Essa é a


proposta do Botando Banca: trazer ao mercado
histórias que tenham as características dos antigos
romances de banca de jornal.

Desejamos que esse romance tenha


produzido em você as mesmas sensações que

sentimos quando lemos uma história leve de amor!

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SEM REGRAS

Aretha V. Guedes

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Sinopse

Rica, linda e poderosa.

Cinthia Grimaldi, a CEO de uma das


maiores agências de modelo, tem tudo em suas
mãos, inclusive os homens. Para ela, não passam de
um entretenimento descartável. Até surgir uma
proposta que abalará sua vida, fazendo-a perder o
controle.

Dimitri Duskin é um ator em ascensão.


Classificado como garoto problema pelas revistas
de fofoca, precisa mostrar o melhor comportamento
no Festival de Cinema de Cannes. Assim, ele
concorda em participar do esquema entre seu
empresário e a poderosa CEO. O que o bad boy

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favorito do país não imagina é que sua


acompanhante de excelente reputação pode ser tão
selvagem quanto ele.

Quando o prazer e os negócios estão em


jogo, não há regras. Vencer é o único objetivo.

Versão estendida do conto erótico No Rules


– Não Há Regras no Prazer.

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Prólogo

Teste do sofá.

Já ouviu falar? É uma expressão usada para


definir aquelas pessoas que trocam sexo por
benefícios. Se Teste do Sofá fosse um termo
presente no dicionário, haveria uma foto minha ao
lado da definição.

Aos vinte e nove anos, herdei a beleza de


minha mãe e a sagacidade para os negócios do meu
pai. De ambos, fiquei com a promiscuidade e o
dinheiro.

Naquele momento, meu corpo nu balançava


para cima e para baixo. Joguei meus longos cabelos

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negros para trás e deslizei a mão pelo pescoço, colo


e seios, apertando meus mamilos e arfando em
excitação. O homem loiro e de corpo escultural
embaixo de mim se inclinou e abocanhou o seio
esquerdo. Sua língua brincalhona me enlouquecia
de prazer.

Eu era capaz de imaginar o que se passava


na cabeça do rapaz, ele provavelmente não
acreditava na sorte que tinha. Afinal, uma ex-miss
quis transar com ele.

Eu quis transar com ele.

Meus seios fartos balançavam enquanto eu


gemia e cavalgava. Mas logo em seguida, Bernardo
me colocou de quatro no sofá de veludo vermelho
e, segurando meus cabelos com força, me penetrou

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por trás.

Uma. Duas. Três vezes.

Eu rebolava e pedia por mais. Bernardo


atendia. Meu desejo era uma ordem. Quando gozei,
mordendo a almofada que custava mais caro do que
um salário mínimo, o jovem rapaz logo me seguiu.
Enquanto Bernardo ainda tentava recuperar o
fôlego, me levantei e fui até a toalete, onde me
arrumei e vesti um terno de alta costura. Aproveitei
para retocar a maquiagem e ajeitar os cabelos,
trazendo de volta a aparência de antes do prazer.

No reflexo do espelho de moldura dourada,


eu me vi impecável depois de uma foda nota oito.
Ótimo. Não seria bom para os negócios se a CEO
da maior agência do país fosse flagrada em um

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teste do sofá com um candidato a modelo, por isso,


precisava estar impecável como antes.

Voltei para o escritório e encontrei o rapaz


ainda descartando a camisinha no cesto de lixo ao
lado da minha mesa. Minha vontade era de revirar
os olhos, afinal um modelo que demorava mais de
cinco minutos para colocar uma roupa não serviria
para a passarela.

Suspirando, sentei em minha imponente


cadeira preta e cruzei as pernas por baixo da antiga
mesa de mogno do meu pai. Voltei a folhear o
portfólio do candidato: bonito, alto, fotogênico, boa
educação e sabia inglês básico. Sexo razoável que
culminou em um sorriso presunçoso e uma demora
eterna para se vestir. Hum... Ele iria para a lista de

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espera.

— Seu portfólio foi impressionante. Você


será o primeiro da minha lista, assim que surgir
uma vaga — menti com um sorriso convincente no
rosto.

— Muito obrigado, senhorita Grimaldi —


ele se aproximou para me beijar, porém desistiu
quando percebeu minha expressão séria. Bernardo
estendeu o braço para um aperto de mãos e foi
enfático: — E não se preocupe, nossa pequena
aventura ficará só entre nós.

Levantei-me, ficando mais alta que ele


graças aos meus saltos, e avisei calmamente, sem
nenhum traço de humor:

— Claro que não, senhor Fontes. Porque se


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uma palavra sobre o nosso pequeno interlúdio sair


dessas quatro paredes, você nunca mais conseguirá
um emprego nesta cidade — inclinei-me,
espalmando as mãos na mesa. — E eu não estou me
referindo apenas à carreira de modelo.

Assustado, o homem saiu da sala, e eu


retornei à minha cadeira com um sorriso de vitória
no rosto. Aquilo foi mais divertido do que o
orgasmo.

Eu definitivamente adorava testes do sofá.

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Capítulo 1 — Leandro

Lambi os lábios de forma quase


inconsciente, salivando com a visão da mais pura
perfeição divina: a figura masculina. Eu acreditava
piamente que o homem foi posto no mundo para
satisfazer a mulher, qual outro propósito eles
teriam? Para minha sorte, eu não precisava me
contentar apenas com um quando poderia ter
vários.

Com o torso demarcado pelos músculos, da


mais pura cor de cacau e de aparência cremosa,
Leandro — um dos meus modelos mais
promissores — sorriu para a câmera, levando o

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chocolate de sabor perfeito aos lábios. Além de


modelo, Leandro também era um ótimo ator. Ou
isso, ou o gosto do doce era tão bom quanto a
aparência, já que o modelo fechou os olhos e fez
um som de “humm” enquanto mastigava com
prazer.

Aquela cena, somada à minha imaginação


fértil, me fez suspirar. Se estivesse ao meu alcance,
eu o morderia, saborearia e me esbaldaria. E eu não
estava falando apenas do chocolate envolto por
aquelas belíssimas mãos.

— Cinthia! — Lúcia, amiga de longa data,


estalou os dedos na minha frente. — Come logo um
pedaço, meu chocolate vai derreter só com esse seu
olhar matador.

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Peguei o doce da mão dela, verificando a


marca. Reconheci a embalagem vermelha e
dourada, com o desenho de uma pequena onda de
leite no entorno da marca e alguns arabescos, era
do nosso contratante. Eu não costumava aparecer
nos estúdios de gravação, porém quando
pegávamos um contrato grande, como o da maior
fabricante de produtos lácteos do país, gostava de
acompanhar o desempenho dos modelos de perto.

Antes de ser a CEO da empresa, fui muitas


coisas. Dentre elas, coach dos modelos: ensinava
como deveriam se portar em frente às câmeras,
como descobrir os melhores ângulos e como
caminhar na passarela sem perder graça e
elegância. E uma das regras principais que sempre

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ensinei era não consumir nenhum produto do


cliente contratante, a menos que fosse solicitado.

— Você roubou chocolate do set de


filmagem? — perguntei, incrédula.

Ela deu de ombros e apontou para o canto


esquerdo, onde umas cinco caixas estavam largadas
no chão:

— Eles não vão notar.

— Mas eu vou, e os modelos também —


ralhei com ela. — Você tem que dar o exemplo,
Luci. Sabe como são as regras, as minhas regras.

Lúcia revirou os olhos de modo teatral e


voltou a colocar a bomba de açúcar e cacau perto
da minha boca. Ela era uma das únicas, dentro da
ML Agência e Produções, que eu permitia não me
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obedecer imediatamente. Ela e a maior acionista da


empresa, Martina Lins, também conhecida como
mamãe. A minha, para ser exata.

Como não comi o doce oferecido, ela o


colocou na boca e mordeu, soltando um gemido
mais intenso que o de Leandro. Mas nem aquele
gesto me faria mergulhar naquela bomba de
sacarose com aroma e cor de cacau artificiais.
Desde nova, era adepta às novidades tanto da
moda, como de cosméticos e saúde, e minha
criação sempre foi regrada. Alimentação saudável e
exercícios regulares, além da dança, moldaram com
maestria meu corpo desde quando era modelo
mirim.

Mas meu empenho não se resumia apenas

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ao corpo: aulas de etiqueta, de línguas, de oratória,


política e literatura treinavam minha mente. Mamãe
desejava criar uma estrela, e por mais que meu pai
quisesse me proteger da futilidade do showbiz, eu
fui para o mundo. Era uma arma letal: linda e de
pensamento rápido. Não estou sendo esnobe, é
apenas a constatação de um fato. Sabia das minhas
qualidades e as explorava bem.

Toda essa preparação e poder teve seu lado


negativo, entretanto. Era a velha história da pobre
menina rica: cercada de bajuladores, porém quase
sem amigos verdadeiros. Adorada pelos homens,
mas sem paciência com a imaturidade dos que
tinham a minha idade. Por esses e por tantos outros
motivos, escolhi apenas um caminho: encontros

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casuais e intensos e poucas amigas em quem


pudesse confiar. E Luci era uma delas.

Lúcia era uma jovem encantadora e muito


despreparada quando nos conhecemos. Ficamos
amigas durante as gravações de uma propaganda de
perfume, tínhamos apenas quinze anos e éramos
verdadeiros polos opostos: enquanto eu estava à
vontade com as câmeras, Lúcia ainda escondia os
resquícios de timidez, o que aumentava o apelo de
sua beleza bucólica, com cabelos loiros e grandes
olhos azuis.

Nós nos complementávamos, uma com


trejeitos singelos, e a outra, uma verdadeira fera.
Claro que a inocência da menina loira não durou
muito no mundo da moda. Tampouco durou minha

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carreira de modelo. Logo me tornei o braço direito


da minha mãe, e Lúcia, meus pés e mãos, como
gerente geral da empresa. Uma não funcionava sem
a outra.

Luci interrompeu meu devaneio, tentando


me oferecer o último pedaço da barra açucarada.

— Não posso, estou em uma nova dieta —


rejeitei o doce.

Dando de ombros, Lúcia apenas terminou o


chocolate sem culpa alguma. Ela sabia de seus
privilégios em relação as minhas regras e que mais
tarde iria para a academia e faria o triplo de esteira
para compensar.

— Qual?

Ela lambeu os dedos, e eu voltei minha


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atenção para o modelo no set, que eu desejava


lamber muito mais do que qualquer outra coisa
naquele lugar.

— Low carb e TPM Sugar, só posso comer


um doce e somente nos dias de pré-menstruais —
respondi. — É a novidade entre as estrelas.

Lúcia jogou os cabelos para trás e riu, ela


sabia que não era uma má ideia, assim só
comeríamos chocolate uma vez por mês. Não que
ela precisasse fazer dietas mirabolantes, era
daquelas pessoas que podiam comer de tudo e não
engordavam. Enquanto eu transformava meu corpo
a base de atividade física e alimentação balanceada,
minha amiga mantinha o mesmo formato mignon
de quase dez anos atrás — quando a conheci —

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sem muito esforço.

— Como foi com Bernardo? — perguntou


sobre o modelo testado pela manhã.

Dei de ombros e fiz um som de muxoxo


com a boca antes de explicar:

— Muito mediano para os nossos padrões


— eu a encarei com malícia. — E não estou me
referindo apenas ao currículo.

Ela esboçou um sorriso, contudo fechou a


boca em uma linha fina.

— Me preocupo, sabe? Se você fosse


homem, as pessoas poderiam até julgar o teste do
sofá, mas no final achariam normal. Como você é
mulher…

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— Eu deveria ser pura e delicada? —


questionei. — Não me importo. De qualquer forma,
ninguém mais sabe. O que faço na minha
privacidade só interessa a mim — franzi o cenho
para ela. — Mas por que essa pergunta? Você
também faz o mesmo que eu.

Lúcia retorceu a embalagem do chocolate


nas mãos, encarando o chão.

— Sei lá, às vezes tenho um peso na


consciência.

Sorri, enxergando os resquícios da tímida


garota na mulher adulta que ela havia se tornado.
Aquilo sempre fez parte de Lúcia.

Leandro, o modelo negro de pele


perfeitamente uniforme, passou por nós apenas de
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calça jeans. Eu e Lúcia o encaramos da cabeça


raspada aos pés descalços, demorando no abdome
trincado e nos ombros largos. Um contrarregra
borrifou água no tórax nu do modelo, fazendo-nos
suspirar.

E nos deixar molhadas em partes muito


específicas do corpo.

— Daquele tipo de delícia precisa ser


evitada nessa dieta? — Lúcia questionou com ar de
riso, já sabendo a resposta.

Lembrei-me de quando entrevistei o rapaz


para ser agenciado pela ML Produções. Ele era tão
lindo, com peitoral másculo e olhos cor de mel e
penetrantes, que fiquei em dúvida se tinha em mãos
o book fotográfico de um modelo ou uma G

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Magazine. Senti seu sex appeal mesmo através da


foto.

Imediatamente, mostrei o book para Lúcia, e


ela concordou comigo: precisávamos ter aquele
cara na agência. Seu rosto e corpo eram perfeitos
para os quatro ramos da indústria: modelo de
passarela, de propaganda televisiva, de eventos e de
revista. Como nós abrangíamos todos esses
campos, tê-lo conosco seria ideal.

Leandro foi um marco: o primeiro modelo


homem escolhido pessoalmente por mim a ter um
grande reconhecimento nacional. A ML Agência e
Produções começou como uma pequena agência
fundada pela minha mãe com o dinheiro do meu
pai. Era composta somente de alguns funcionários,

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ela e as amigas, porém, desde que comecei a


trabalhar aqui, aos dezesseis anos, fui crescendo
dentro da empresa — não apenas por ser filha da
dona, mas pelo meu esforço pessoal — e
procurando modos de nos elevar a outros
patamares.

Nós nos tornamos referência, levando


modelos brasileiros em eventos por todo o país e
para o exterior. De agentes, passamos a produtoras,
com dois andares inteiros de nossa sede dedicados
a salas de publicidade e propaganda.

Criamos um catálogo com nossos melhores


modelos, os tornando exclusivos da agência.
Leandro, por exemplo, era um de nossos
escolhidos. Quando marquei a entrevista com o

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rapaz sete anos mais novo do que eu, não tive


intenção alguma de o seduzir. Afinal, eu o
contrataria com ou sem orgasmo prévio. Não
poderia arriscar ofender e perdê-lo para outra
agência.

Eu verdadeiramente não tinha essa intenção.

Porém, era uma tarde de verão, o sol —


apesar da película climatizadora — batia no
escritório através da parede de vidro temperado, me
possibilitando enxergar o mar infindo de prédios e
construções menores se estendendo além do
horizonte. Era um belo dia, e eu tinha um belo
modelo na minha frente.

Eu não sabia se o ar-condicionado havia


quebrado ou se o calor vinha de mim, mas lambi os

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lábios, que ficaram instantaneamente secos, e os


olhos de Leandro não desviaram do movimento
feito pela minha língua. Ele não deveria me
provocar, eu estava tentando arduamente ser uma
boa garota.

Só havia um problema: ser má era muito


mais divertido.

Ofereci uma bebida para celebrar o contrato,


e entre uma e outra dose de champanhe, me vi
pressionada contra a janela, com meu vestido
levantado até a cintura e o homem me penetrando
por trás com vigor. Os seios arrepiados contra o
vidro quente e a cidade pequenina lá embaixo.

Sorte minha que estávamos na cobertura do


prédio mais alto da rua e o vidro não era

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transparente, impedindo a visão de quem estivesse


do lado de fora. Não que estivesse pensando no
sistema de segurança da minha sala quando ele me
segurou pelos cabelos e puxou meu corpo para
perto para morder o meu pescoço. Também não
pensei na marca que precisaria ser coberta com
maquiagem por dois dias...

— Ei — Lúcia estalou de novo os dedos na


frente do meu rosto. — Não preciso perguntar, já
sei no que estava pensando.

Ela riu tanto, que o diretor de filmagem a


olhou de cara feia.

Luci poderia ter todo o peso na consciência


que quisesse, ela também aproveitava de doses
regulares de modelos gostosos. Sua vida sexual não

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era tão agitada quanto a minha, mas também estava


longe de ser uma santa.

Balancei a cabeça, recuperando o fôlego


perdido com a lembrança. Eu podia sentir o calor
do olhar de Leandro do outro lado do set. Era como
se ele soubesse qual instante eu estivera revivendo
segundos atrás.

— Daquele tipo ali, minha amiga, a gente se


esbalda. Eu vou para o escritório, diga ao Leandro
para ir me ver quando acabar por aqui. Precisamos
discutir sua participação na São Paulo Fashion
Week — ordenei, já saindo do set.

Por um momento, Lúcia franziu o cenho,


lembrando que faltavam meses para a seleção da
Fashion Week. Depois, sorriu e meneou a cabeça,

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sabendo como eu funcionava.

Eu era uma pessoa controladora, comandava


a empresa com punho de ferro. Ao mesmo tempo,
adorava perder o controle e me entregar dentro do
local de trabalho. Era como uma catarse, um modo
de liberar o estresse acumulado. Uma maneira de
perder e manter o controle. Como um ímã, dois
polos opostos em um único ser com um grande
poder de atração.

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Capítulo 2 — Senhor

Pendleton

“Cinthia Grimaldi, um nome a ser


lembrado. Filha de Martina Lins, dona do ML
Agência e Produções, e de Nathaniel Grimaldi,
magnata norte-americano, foi Miss Mirim aos três
anos. A senhorita Grimaldi começou a carreira de
modelo ainda na barriga da mãe e, desde então,
nunca parou, fazendo, inclusive, participações
especiais no cinema. Mostrando-se versátil,
começou a atuar fora das passarelas, montando
desfiles e sessões fotográficas para campanhas
publicitárias.
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Hoje, aos vinte e nove anos, está no


comando da ML e é responsável pelo agenciamento
de mais de mil modelos. Cinthia não é apenas um
rostinho bonito: além de inteligente e de comandar
seu negócio com punho de ferro, foi nomeada a
terceira mulher abaixo de trinta anos mais rica do
Brasil.”

— Júlia! — irritada, berrei para a secretária


pelo ramal do telefone. — Chame Lúcia aqui agora.

Eu não estava chateada com a reportagem


em si, mas com a foto utilizada para ilustrá-la.
Reconhecia o colar de pérolas na imagem, era
muito especial. Foi o último presente da minha
querida avó, ganhei dias antes de ela morrer de um

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infarto fulminante.

Só usava o colar uma vez por ano,


especificamente no dia do meu aniversário, e
depois voltava a guardar no cofre de joias em meu
quarto. A foto de rosto na reportagem me mostrava
com o colar e o penteado usado no último outubro,
em uma festa privada em meu loft, exclusiva para
amigos seletos.

— Ela saiu, senhorita Grimaldi — a jovem


mulher disse com incerteza, sem saber se estava em
apuros comigo ou não.

Porra! Odiava quando algo saía do controle


daquele modo. Poderia parecer bobagem para um
observador qualquer, era apenas uma foto minha
sorrindo. Nada polêmico ou revelador. Contudo,

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como CEO de uma agência e ocasional modelo, a


imagem era o meu material de trabalho, e eu não
queria fotos de um momento íntimo com meus
amigos e família nos jornais.

Uma das coisas que as figuras públicas mais


prezavam era a privacidade. E uma pessoa com a
vida como a minha, que adorava escapar pela
tangente das regras de bom costume e moças
direitas, precisava proteger a intimidade com unhas
e dentes.

Teria que descobrir quem sairia de meu


círculo íntimo de amizades ou qual das empresas
contratadas seria cortada da lista de confiáveis, já
que foram os únicos presentes naquele momento. O
vazamento não poderia ter acontecido quando

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revelei as fotos, afinal a ML tinha o próprio


laboratório de revelação de fotos, no andar do setor
gráfico, e eles jamais liberariam imagens minhas
sem a prévia autorização.

— Ok, avise quando ela chegar e consiga a


lista de convidados e funcionários presentes em
meu último aniversário, incluindo seguranças,
garçons e todo o pessoal do buffet.

— Sim, senhorita.

— Obrigada.

A eficiente secretária desligou para iniciar a


busca pelos dados solicitados. Júlia gostava do
emprego e era bem remunerada, portanto nunca fez
corpo mole. Muitas pessoas me achavam uma
megera, mas eu discordava, era apenas intolerante
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com preguiçosos e fofoqueiros. Esperava de meus


funcionários a mesma dedicação que eu tinha, e
Júlia cumpria perfeitamente minhas expectativas.

Por trás da minha mesa de mogno, um


móvel resistente para aguentar todo tipo de
negócio, havia uma extensão menor e mais
rebaixada, com um monitor. Na tela plana, podia
ver as câmeras de segurança do prédio inteiro.
Geralmente, deixava-a mostrando as imagens do
lado exterior ao meu escritório.

Nela, vi minha secretária pesquisar o


solicitado. Balancei a cabeça para os lados, ao vê-la
de ombros curvados, cabelos negros em um rabo de
cavalo e mordiscando a unha. Não adiantava
reclamar sobre a postura de Júlia, a garota

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continuava a se curvar em frente ao computador!


Em poucos anos, teria dores crônicas! Eu precisava
comprar um apoio para as suas costas ou substituir
a cadeira, então anotei um lembrete na agenda
eletrônica.

Ela era uma garota maravilhosa, filha da


antiga secretária, a quem eu tinha imenso carinho.
Prometi que cuidaria dela no começo e agora que
via como era dedicada e trabalhadora, o fazia não
somente por gostar de sua mãe, mas também dela.

Falando em mães...

Avistei através do monitor uma exuberante


mulher de meia-idade andando pelos corredores
como se fosse dona do lugar. O que era, de fato. Ao
lado dela, um senhor de terno e olhar astuto

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observava cada detalhe por onde passava, desde as


paredes brancas aos caros vasos decorativos com
flores e plantas do mais delicado perfume.

Imediatamente, os dedos de Júlia


trabalharam rápido. Com velocidade quase sobre-
humana, ela abriu o caixa de mensagens e digitou:
sua mãe está aqui e ela veio acompanhada do
senhor Pendleton.

Eu sabia o conteúdo da mensagem porque o


meu celular apitou um segundo depois. Agradeci
pelo aviso, apesar de ter sido desnecessário. Eu
tinha visto a aproximação e já estava respirando
fundo, me preparando mentalmente para o
encontro.

Minha mãe era uma dicotomia de

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sagacidade e ingenuidade. Por mais que Martina


entendesse do mundo da moda, não compreendia
bem o dos negócios. Mamãe achava que as pessoas
seriam boas com ela só porque era a famosa e
influente Martina Lins.

Eu discordava, achava que se aproveitavam


do seu bom coração.

O senhor Pendleton, por exemplo, era um


desses aproveitadores. Um empresário do ramo de
cinema e televisão, astuto e de poucos escrúpulos.
Ele usava dos mais diversos métodos para
conseguir clientes e levá-los ao topo, desde os
legais até os mais duvidosos.

Sendo bem honesta, na verdade, ele tinha o


meu respeito, desde que não aparecesse em meu

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escritório, ainda mais acompanhado de minha mãe.

— Mande-os entrar, por favor — autorizei a


contragosto pelo intercomunicador.

Levantei-me, alisando as dobras do vestido,


e coloquei o sorriso falso de miss no rosto. A
senhora Martina Lins entrou com toda pompa,
dando-me um grande abraço e um beijo afetuoso na
bochecha direita.

Mamãe era estonteante, não importava a


idade que tivesse. Alta, loira e de uma simetria
facial tão perfeita, que parecia ter sido esculpida à
mão.

Ela nunca amou muito o marido, foi mais


um casamento por conveniência. Ele era rico, e ela,
uma modelo em ascensão. Ambos viajavam muito,
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ela como modelo, ele como empreendedor. Mamãe


sabia que papai possuía amantes, mas também tinha
os seus, e todos estavam bem com isso.

De todas os bens que Martina conseguira


com o seu casamento, uma vez me dissera que eu
era o mais precioso e faria de tudo para me ver no
topo do mundo.

Até se associar com o Pendleton.

— Olá, mamãe! Como a senhora está? —


respondi o afeto com outro beijo.

— Bem, obrigada. Você lembra do senhor


Pendleton, não é? — estendeu o braço para ele.

Meu sorriso caloroso foi de uma atuação


digna do Oscar.

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— Claro, como poderia esquecer?

Satisfeita com a resposta, ela deu um


tapinha de leve nas minhas costas, como se eu
ainda tivesse doze anos.

— Ótimo, o acompanhei até aqui porque ele


possui uma proposta fantástica para você. Eu já
aprovei, Pendleton passará os detalhes. Espero os
dois para um lanche da tarde em minha sala daqui a
uma hora, combinado?

— Claro — nós dois respondemos em


uníssono.

Depois que ela foi embora, o sorriso


plastificado nos meus lábios morreu:

— Não sei quem você pretende roubar de


mim, mas eu não vou permitir.
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Ele colocou a mão em cima do coração de


forma afetada e sentou-se na cadeira com a classe
dos lordes ingleses, o que ele, realmente, era.
Inglês, quero dizer, não lorde. Quando mais jovem,
Pendleton era belo, apesar de nunca ter sido tão
bem-sucedido no ramo do cinema quanto os seus
clientes. Ele atuou como coadjuvante em um filme
memorável e chegou a ser indicado a alguns
prêmios importantes. Não venceu nenhum, mas
isso lhe abriu as portas para enriquecer nos
bastidores do entretenimento.

— Você pensa tão pouco de mim, Cinthia?


— ele questionou com uma sobrancelha levantada.
— Eu poderia estar apenas visitando uma velha
amiga.

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Seu sorriso inocente não convenceu. Nos


últimos três anos, Pendleton já havia roubado mais
de dez contratados da ML Agência e Produções
com a promessa de uma carreira de sucesso no
cinema. Aquele era o sonho da maioria dos artistas,
eu não tinha como competir.

Por enquanto.

— Nós não somos amigos, e eu tampouco


sou velha. Não abrirei mão de nenhum contratado
tão perto da São Paulo Fashion Week.

Imitei sua expressão de sobrancelha


levantada diante do olhar predatório do homem. Ele
passou a mão pelos cabelos loiro-avermelhados
salpicados de cinza e sorriu com conhecimento. Se
estivéssemos jogando pôquer, teria reconhecido o

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meu blefe.

— Primeiro, não tente me enganar, ainda


faltam meses para a Fashion Week — Pendleton
pontuou com os dedos. — Segundo, eu não quero
roubar um dos seus clientes... Eu quero roubar
você.

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Capítulo 3 — Proposta

Em todos os anos trabalhando na ML,


aquele era o maior absurdo que eu já tinha ouvido!

— O quê? — perguntei, sem entender qual


era a nova jogada do inescrupuloso homem. Eu era
fluente em diversos idiomas, mas, mesmo assim,
não consegui compreender o que Pendleton quis
dizer no bom e velho português — Isso é alguma
piada?

— Você já deveria saber que eu nunca


brinco, senhorita Grimaldi.

Ele abriu a pasta de couro em suas mãos,


tirou um conjunto de papéis e jogou-os em cima da

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mesa. Recortes de jornais de entretenimento e


revistas sensacionalistas. Todos com notícias
diversas sobre Dante Gutierrez, o queridinho das
novelas brasileiras, e Dimitri Duskin, o ator russo
que veio morar em São Paulo há alguns anos e fez
muito sucesso como policial em um filme nacional.

Alguns mostravam escândalos como abuso


de festas, álcool, mulheres, destruição de um quarto
de hotel e até suspeita de consumo de drogas.
Outros falavam sobre como ambos estavam com a
carreira em ascensão.

Eles fizeram um filme juntos e tiveram


reconhecimento internacional, estavam
concorrendo à Palma de Ouro no Festival de
Cinema de Cannes. O mais velho, com trinta e

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cinco anos, Dimitri, também concorria ao prêmio


de melhor ator. Ambos eram clientes de Pendleton.

— Parabéns — disse com sinceridade. — É


um feito e tanto. Agora você não estará mentindo
quando prometer que é capaz de conseguir
reconhecimento internacional a um dos seus
clientes em potencial.

Pendleton passou a mão na boca,


escondendo o sorriso que despontava diante da
minha petulância.

— Você tem uma língua afiada e é muito


mais audaciosa do que a sua mãe. Prevejo um
futuro promissor para ti no mundo cruel do
entretenimento, mas precisa pensar além das quatro
paredes deste escritório — ele me lançou um olhar

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lascivo e analisou a parte de mim que conseguia


enxergar do outro lado da mesa. — Eu adoraria
ensiná-la muito mais do que apenas negócios —
diante do meu engasgo, seu sorriso aumentou. —
Porém, não sou bem quisto. Se não posso tê-la
como parceira na cama, a terei como de negócios.

Eu o encarei em silêncio, minha mente presa


ainda à não tão sutil proposta em seu pequeno
discurso. Imaginei o peito peludo e suado — e
outras partes — de alguém que eu não suportava
tocando em mim. E imaginei se suas jovens
contratadas também faziam testes do sofá.

Um arrepio passou pelo meu corpo, e pela


primeira vez, senti um certo asco pelas minhas
ações. Eu, entretanto, fiz sexo com aqueles que

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igualmente me desejavam e deram abertura. Já com


Pendleton, não teria tanta certeza disso.

— O que exatamente você quer de mim? —


questionei, ansiosa para dar aquela inesperada
reunião como encerrada.

— Dante e Dimitri irão para Cannes —


Pendleton apontou para a foto dos belos atores. —
Eles se envolveram em alguns escândalos, e isso
não é bom. Devem ser conhecidos pela arte, não
pelo mau comportamento no início de suas
carreiras. O mundo inteiro estará assistindo ao
Festival, precisam estar na companhia de mulheres
respeitáveis e que impressionem o público.

Apoiei os cotovelos na mesa e esfreguei a


testa, cansada daquela conversa. Era uma proposta

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sem sentido! Boa companhia não apagava mau


comportamento público. Entretanto, era uma tática
que provavelmente funcionaria: usar um affair para
desviar a atenção da mídia.

— E você acha que uma dessas mulheres


seria eu?

O empresário sorriu e apontou para a revista


que eu lera momentos antes, aquela que
apresentava uma pequena biografia e exaltava as
minhas conquistas.

— Não acho, tenho certeza — ele, por fim,


disse.

— Por que eu daria meu prestígio ao seu


atorzinho? — fiz questão de não deixar o tom
irônico de fora.
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— Porque você deseja o que todo filho quer,


ser maior do que seus pais — ele se levantou e
caminhou até a parede de vidro por trás da minha
mesa. Pendleton observou as pessoas andando na
rua, parecendo formiguinhas. — Você nasceu no
topo, garota. Não teve o mesmo trabalho árduo do
resto dos mortais, porém existe algo mais difícil do
que chegar ao topo: manter-se nele.

Eu também me levantei, encarando-o


através do reflexo do vidro:

— Ser filha de quem sou facilitou minha


vida, fez com que eu tivesse as conexões certas
para chegar na posição que estou agora. No
entanto, não pense que foi fácil. Eu mal nasci e já
era modelo. No lugar de parquinhos, ia para sessões

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fotográficas. Conheci o mundo todo, sim, mas com


regras de peso, medidas, roupas, horas dormidas e
etiqueta. Meu corpo era da indústria da moda, eu
era uma marca, não uma pessoa. Essa empresa é da
minha mãe, mas a fundação dela foi feita com o
meu suor e minhas lágrimas também — pontuei
cada palavra com raiva.

Independentemente do glamour que


envolvesse a minha profissão, comecei a trabalhar
mesmo antes de entender o que trabalho
significava. Antes, eu me ressentia com minha mãe
e pela criação que tive, mas depois passei a
entender que, de outro modo, talvez eu tivesse me
tornado apenas mais uma socialite mimada que só
sabia gastar o dinheiro dos pais.

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Pendleton me observava com satisfação.


Provavelmente, acreditava que era preciso aquele
tipo de paixão para mover o mundo ou alguma
baboseira motivacional dessas.

— E é por isto que você vai concordar em


me ajudar. É o seu suor aqui, Cinthia. Esta empresa
é sua também. Eu adoro sua mãe, ela ama elevar o
nome da empresa em festas e eventos, mas nunca
teve paciência para burocracia. Não duvido nada
que se aposente logo, e aí? A ML será apenas sua.
Saia dessas quatro paredes, volte a conquistar as
pessoas, lembre ao mundo quem Cinthia Grimaldi
é.

Revirei os olhos, era um belo discurso, mas


não o suficiente para que caísse na dele e o

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ajudasse só pela bondade do meu coração. Tola,


nunca fui.

E tampouco possuía um coração caridoso.

— Eu quero exclusividade das campanhas


publicitárias e eventos de passarela dos dois pelos
próximos cinco anos. Se alguma empresa quiser
contratá-los para propagandas, deve ser
intermediado por mim, apenas com meu aval —
disse meus termos.

O experiente empresário riu da minha


audácia. Se o filme ganhasse a Palma de Ouro,
seria cotado para o Oscar, e os rapazes passariam a
ser mais solicitados do que já eram. Eu ficaria com
uma boa comissão de seus cachês.

— Você sabe que é impossível! Ficaria


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limitado caso só pudesse fazer propagandas através


de sua produtora! — ele falou, agora exasperado.

— Você espera que eu finja ser a


namoradinha de um dos seus garotos problema na
frente do mundo inteiro. Para iludir a mídia, fazê-lo
parecer um grande partido, e não apenas um
menino do subúrbio que deu sorte, mas se afundou
na bebida e nas prostitutas. Se vou atuar em seu
pequeno esquema, vai precisar me dar mais do que
“lembre ao mundo quem Cinthia Grimaldi é” — fiz
aspas com as mãos.

Eu não assumia um namoro havia... Tentei


me lembrar, mas não consegui. Apesar de aparecer
com um ou outro affair em eventos, nunca assumi
um relacionamento na vida. A manutenção de um

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relacionamento a longo prazo parecia uma grande


perda de tempo. No final, a paixão sempre acabava,
e todos se tornavam traidores.

Ele cruzou os braços, a camaradagem


desaparecendo de suas feições enrugadas.

— Não é assim que as coisas funcionam.

Foi a minha vez de sorrir. Eu adorava


negociar, ainda mais quando possuía todas as
vantagens:

— Sei quem sou e sei que eu conseguiria


facilmente um modo de fazer o meu rosto voltar
para todas as primeiras páginas. Lembre-se, é você
quem precisa de mim, não o contrário. Concorde,
ou arrume outra garota que seja ex-miss, agente de
modelos, filha de magnata, profissional bem-
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sucedida, CEO de uma das maiores produtoras do


país, nunca envolvida em um escândalo na mídia,
que não te cobre um valor absurdo para participar
desse pequeno esquema e que não venderá essa
informação para quem oferecer mais grana.

Pendleton voltou a sentar, pernas cruzadas e


olhar contemplativo para o céu azul repleto de
nuvens brancas do lado de fora da janela. Podia
sentir a raiva fluindo dele, suas mãos tensas no
encosto da cadeira. Quando enfim falou, foi sem
me encarar:

— Não sei o porquê, mas ainda me


impressiono com você. Poucas jovens teriam esse
nível de raciocínio rápido. Muitas aceitariam a
proposta sem pensar duas vezes, apenas para estar

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perto das grandes celebridades internacionais


presentes naquele evento.

Dispensei o comentário com a mão. Podia


estar longe das passarelas desde que me tornei CEO
da ML, mas eu fui uma celebridade internacional e
já estive muito perto de algumas. Inclusive, me
relacionei com alguns atores, cantores, modelos e
um produtor de cinema que se casara, um tempo
depois, com a ex-namorada, uma atriz famosa.
Todos de curta duração e bem longe das lentes de
qualquer fotógrafo.

— Muitas jovens garotas não precisam


comandar uma empresa milionária e nem o sustento
da família dos funcionários depende delas —
preenchi o silêncio constrangedor com a verdade.

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Eu vivia sob pressão, se houvesse algum problema


com a ML, não era a única a ser prejudicada.

Pendleton cerrou os punhos com mais força


e bateu no apoio de braço acolchoado da cadeira.
Eu quase ri de seu pequeno ataque de criança
mimada. Ele parecia indignado ao balançar a
cabeça para os lados.

— Você vai ganhar muito mais do que um


milhão se eu concordar em te dar a exclusividade
deles. Acha que sou idiota? As ações da ML
Produções vão triplicar!

Andei até o aparador de vidro do lado


direito da sala e coloquei uma dose de uísque em
um copo, o líquido âmbar deslizando contra o
vidro. Ofereci uma ao convidado, mas ele rejeitou.

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Tomei meu tempo, saboreando por um momento a


bebida antes de a engolir.

— Ainda bem que eu tenho quarenta


porcento das ações e sou a única herdeira dos
outros sessenta, não é?

A mandíbula pontuda de Pendleton estava


cerrada, a boca fechada em uma linha fina. Seria
um transtorno fazer as propagandas sempre com a
mesma produtora. Daquele dia em diante, eu
manteria um olho mais atento a ele: pela raiva
emanando do seu ser, Pendleton planejava formas
de reverter minha exigência.

No entanto, não havia uma. Ou ele aceitava,


ou dava o fora do meu escritório.

— Eu vou conversar com meus advogados e


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analisar se seu pedido é possível — disse a


contragosto.

— Ótimo — sentei-me na cadeira com toda


a minha graça de miss, peguei um cartão branco
com letras negras da gaveta oculta embaixo da
mesa e entreguei ao empresário. — Mande-os
entrar em contato com os meus para discutirem o
contrato. Tenha uma boa tarde, senhor Pendleton
— ele começou a se levantar quando eu falei: —
Por favor, avise à minha mãe que estou indisposta
para o chá.

Conversar com Pendleton por meia hora era


mais do que eu estava disposta a aguentar, e tomar
chá com o diabo não parecia uma boa forma de
passar o resto da tarde. Eu tinha trabalho a fazer.

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— É uma pena, eu adoraria comer com você


— pelo seu olhar sugestivo, ele pensara em tirar o
“com” da frase. — Até Cannes, senhorita Grimaldi.

— É o que veremos... — respondi com


autoridade.

Se era para fingir ser a namorada de um


atorzinho em ascensão mundial, que fosse para
levar a empresa ao próximo patamar.

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Capítulo 4 — Dante

Cannes, dois meses depois.

Desci do avião e respirei fundo, sentindo


prazer com o clima ameno do sul da França. A
Europa era a minha segunda casa, morei em
Veneza por um ano e em Londres por dois, com
direito a MBA em Cambrigde. Se eu tivesse tempo,
visitaria minha antiga universidade para rever os
professores e alguns colegas que passaram a
trabalhar lá.

Tirei os fones de ouvido e os guardei na


bolsa enquanto esperava minha bagagem. Tudo

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parecia tão limpo e asséptico, as pessoas, felizes,


sorriam uma com as outras. Como se houvesse uma
magia em pisar nestas terras estrangeiras e o
cansaço da viagem transoceânica desaparecesse
completamente.

Suspirei, chateada ao resgatar a mala


prateada que tinha quase o meu peso. Eu odiava me
sentir assim, como uma criança pirracenta. Porém,
nem mesmo a beleza de Cannes me faria esquecer
que estava ali a negócios, não por prazer, indo
contra a decisão de aposentar a carreira de modelo.

Ok, eu não estava como modelo, mas era


próximo o bastante. “Será bom para os negócios,
você está no comando da ML Agência e Produções,
precisa voltar a ser conhecida

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internacionalmente”, repeti baixinho o pequeno


mantra da minha mãe.

Na verdade, eu já era conhecida, mas


quando o assunto era fama, dinheiro e conexões,
aprendi com mamãe o lema de “quanto mais,
melhor”. Pendleton tinha certa razão ao dizer que
eu precisava sair das quatro paredes do meu
escritório. Não importa qual fosse o ramo do
entretenimento, o artista que não é visto é
esquecido.

A proposta aprovada pelos advogados era


boa demais. Seria um passo para a ML expandir
ainda mais o seu leque de atuação, principalmente
no cenário internacional. Eu sabia de todas as
vantagens. Ainda assim, odiava me sentir como

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uma boneca preparada para servir macho.

Arrastei a mala de rodinhas pelo corredor de


porcelanato cinza. Decidi permanecer com a mente
aberta, eram apenas alguns dias, não seria tão
difícil manter a farsa de namorada-troféu até o fim
do festival.

Um homem alto e forte, em um quepe e


terno cinza, segurava uma placa com o nome
Cinthia Grimaldi escrito. Eu me aproximei e falei
com cautela, meu francês um pouco enferrujado:

— Bonjour, je suis Cinthia.

— Bom dia, eu sou Marcos — amistoso, o


homem sorriu com ar apologético. — Me perdoe,
mas só falo português.

— Que pena, eu esperava treinar o meu


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francês — pisquei um olho para ele.

Marcos me encarou sem sorrir, parecia


haver algo mais em seu olhar. Um calafrio
percorreu minha coluna e, por um momento, cogitei
chamar um táxi. Porém, ele se inclinou, fazendo
uma pequena saudação e sorriu:

— Me perdoe, senhorita. Tenho certeza que


haverá diversas pessoas para a mademoiselle
treinar. Estão aguardando no hotel, podemos ir?

Balancei a cabeça, distraída. O momento


estranho passou, era apenas fruto da minha mente
cansada após a viagem. E agora que ele sorriu, o
achei muito interessante... Ombros largos
escondidos em um terno justo e cabelo cortado bem
rente. Seu rosto seria harmonioso se não fosse pelo

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nariz aquilino, deixando-o com uma beleza exótica,


única. Talvez eu pudesse treinar diversos tipos de
“beijos franceses” nele quando estivesse entediada.

Marcos pegou as malas que eu carregava e


se dirigiu até a saída comigo em seu encalço.

Cannes era uma cidade turística, e em maio,


dias antes do famoso Festival de Cinema, ficava
lotada. Pela janela do carro, observei o belo mar
Mediterrâneo de águas com uma profunda cor azul.
Apesar da quantidade de turistas caminhando na
rua e do sol brilhante no céu límpido, ninguém se
atrevia a entrar no mar.

Finalmente tiro férias e venho para uma


cidade costeira com o mar mais frio que o castelo
da princesa Elza. Maravilha!

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— Merda! — exclamei ao lembrar que


mamãe me convencera a entrar naquela furada.

O jovem motorista me observou pelo


espelho retrovisor.

— A senhorita deseja algo? — Marcos


perguntou.

Encostei a testa na janela fria. Lúcia tinha


razão quando disse que eu estava muito estressada
e precisava relaxar.

— Nada, obrigada.

Uma semana na Europa faria bem para mim.

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O hotel definitivamente compensou o mar


congelante. O Five Seas Hotel Cannes traduzia o
luxo e a elegância francesa. Senti-me como uma
verdadeira monarca ao entrar na Penthouse e ver
sua decoração sofisticada em branco e dourado.

A cama convidativa me chamava para um


descanso após as horas de viagem e a comida em
cima da mesa tinha um aroma inebriante, mas foi o
terraço privativo que roubou minha atenção: uma
visão panorâmica de toda a cidade e vista
privilegiada da famosa rua Croissette.

Ótimo! Não esperava menos. Uma coisa eu


não podia negar, um homem como Pendleton sabia
ser eficiente na hora de reservar acomodações.
Fechei os olhos, apreciando o vento frio tocar em

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minha pele.

— Fez boa viagem? — uma voz me chamou


e quebrou o encanto.

Virei-me para encontrar um homem belo e


de sorriso doce. Seus cabelos castanhos, quase
loiros, caíam lisos na altura da orelha e os olhos
azuis eram tão límpidos, que brilhavam como o céu
azul. Tão lindo pessoalmente quanto nas fotos, o
reconheci como Dante Gutierrez, o galã de novela.

Ele e Dimitri eram a sensação do momento,


não apenas pelo talento nas telonas, mas também
pela beleza e carisma. Eu o conferi dos pés à
cabeça, conseguia entender o porquê.

— Ótima, obrigada — voltei para dentro da


suíte, onde era mais quente. — É você quem eu vou
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acompanhar?

Pendleton afirmara que eu deveria fingir ser


a namorada de um dos seus contratados durante o
Festival de Cinema de Cannes, contudo não
especificou de quem.

Não perguntei, não me importava muito


quem seria o meu par. Dante e Dimitri, com suas
belezas óbvias e sex appeal, eram o sinônimo do
tanto faz. E vendo-o de perto, sabia que não iria me
opor a acompanhá-lo em outros lugares, alguns
mais íntimos.

Dante não escondeu o olhar lascivo ao


analisar meu corpo, sua apreciação era palpável. E,
ao contrário do de Pendleton, seu desejo me atraiu.
Não fez nenhum gracejo, entretanto, apenas

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apontou para a mesa repleta com a melhor comida


que o hotel tinha a oferecer e pediu para que me
sentasse.

— Não sou eu, infelizmente. Vou explicar


durante o café da manhã, tudo bem?

Intrigada, concordei e me sentei. Havia algo


suspeito ali e minha curiosidade foi atiçada. No
mundo do entretenimento, conhecer um bom
segredo geralmente era vantajoso.

Crucial.

Servi-me de um croissant que desmanchou


na boca, de tão macio. Sentia como se estivesse no
céu gourmet.

— O evento de hoje é de suma importância


para que nós tenhamos reconhecimento mundial.
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Somos grandes no Brasil, porém queremos


conquistar o mundo. A imagem faz parte do pacote,
e ser indicado para melhor ator neste prêmio deu
uma visibilidade imensa. Eu não estou falando mal
do meu colega de trabalho, mas preciso que você
entenda a real situação — Dante falou em um
fôlego só e colocou um pouco de café em uma
xícara de porcelana.

Tive vontade de dispensar todo o papo de


reconhecimento mundial, já estava cansada daquilo.
No entanto, com seu pequeno discurso, compreendi
duas coisas: Dante era tão ambicioso quanto
Pendleton, e Dimitri, o sexy ator e ex-modelo
russo, seria o meu acompanhante. Seu rosto de deus
grego e fama de bad boy pareciam ser chamarizes

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para problemas e fãs enlouquecidas.

Fiz um som baixo de muxoxo com a boca,


era uma pena que ele não fosse agenciado da ML
Produções.

— Eu devo domar o seu amigo? — tomei


um gole do suco de laranja fresco.

Dante ficou calado por um momento,


observando meus lábios antes de continuar:

— Dimitri precisa ter mais tato com a


imprensa, e não podemos lidar com escândalos em
Cannes. Temos que limpar a imagem dele, e você é
perfeita para o papel. Uma mulher famosa, linda,
culta e capaz de comandar com pulso firme — ele
piscou um olho, já sabendo da minha fama de
mandona. — Você nos ajudaria a mantê-lo na linha
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durante o evento? Nada de mulheres e nada de


excesso de bebida.

Devolvi a taça de cristal para a mesa e me


recostei na cadeira de vime com almofadas brancas
em estilo praiano, batendo minhas unhas contra o
apoio.

— Ou seja, eu serei a babá dele?

Nos últimos sessenta dias, não parava de me


questionar sobre como me convenceram a me
prestar àquele papel. Dinheiro, fama e poder. A
tríade do capitalismo.

Fui sincera com o rapaz:

— Eu ainda não acredito que me trouxeram


até Cannes para cuidar de marmanjo. E você? —
levantei uma sobrancelha e questionei com malícia.
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— Quem vai te manter na linha?

Dante sorriu, me fazendo notar que havia


algo predatório em suas feições cuidadosamente
controladas.

— Eu vi o contrato, sei por que você veio.


Sabe, antes de te conhecer, não entendia a cisma de
Pendleton contigo. Ele colocou na cabeça que era
perfeita para o papel de namorada do Dimitri.
Agora que te conheço, compreendi — ele se
levantou, circulando a mesa. Ao se colocar atrás de
mim, apoiou-se na cadeira e se inclinou, eu podia
sentir o hálito quente pelo café tocando a pele da
minha orelha. — Você exala poder e confiança, ao
mesmo tempo que tem um sorriso maroto,
misturado com carisma e sedução. É bela e

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intrigante. Irresistível. Deve estar tão acostumada a


ter os homens aos seus pés... — ele se afastou,
voltando ao lugar de origem como se nada tivesse
ocorrido. — Respondendo à sua pergunta, estarei
com Alessandra Nogueira, conhece? Ela é uma
amiga de longa data.

Uau.

Adoraria tê-lo sob meus pés naquele exato


momento, meu salto agulha contra seu peito
enquanto ele se inclinava para beijar o meu scarpin
e...

Espera!

Ele disse Alessandra Nogueira? Puta


merda! Então foi aqui que a Alê se meteu?

Em vez de aproveitar as férias merecidas e


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descansar, ela estava em eventos de gala! Bom,


pelo menos eu teria um rosto conhecido por perto.

Observei o homem bebericando seu café, de


volta ao seu personagem de bom moço. Duvidava
que Dante e Alê, duas pessoas completamente
sensuais, ficassem apenas na base da amizade. Não
disse nada, no entanto. Eu não perguntava sobre a
vida sexual dos outros e não admitia que ninguém
perguntasse sobre a minha.

— Conheço, ela é uma grande amiga —


reencontrei minha voz. — Mas você provavelmente
já sabe disso.

Dante parecia aliviado ao confirmar que não


haveria competição feminina entre nós duas e se
levantou:

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— Perfeito, ela está duas portas à direita, se


quiser vê-la. Preciso ir, Dimitri está na piscina e
não deve demorar a subir. Pode ficar à vontade
enquanto ele não chega.

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Capítulo 5 — Dimitri

“Pode ficar à vontade enquanto ele não


chega”, martelei esse pensamento em minha
cabeça. Dante saiu sem perceber o meu semblante
nada amigável. Não acreditava que dividiria o
quarto com Dimitri! Eles não tinham dinheiro para
pagar suítes separadas? Não seria problema, então,
eu pagaria do próprio bolso!

Para mim, dinheiro era a solução, nunca o


problema.

Peguei o telefone, pronta para solicitar outra


acomodação, quando me lembrei como aquilo
soaria estranho para os funcionários da recepção.

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Que namorada amorosa pediria um novo quarto


minutos depois de chegar de viagem? Recoloquei o
telefone no gancho com um baque.

Sem ter certeza do que fazer, joguei-me na


cama para realizar outra ligação. Daquela vez, para
mamãe. Queria avisar que chegara bem e tirar
algumas dúvidas. A ligação tocou várias vezes, e
ninguém respondeu. Quando estava prestes a
desligar, ouvi a voz conhecida, porém ofegante, do
outro lado da linha:

— Como foi a viagem?

— Boa — olhei para a cidade através da


porta aberta da varanda. — Cannes é linda, mesmo
a praia estando fria demais para aproveitar.

Enfatizei a última frase, ignorando a


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respiração levemente pesada de mamãe, o que fez


Dona Martina rir. Ela sabia que o Mediterrâneo
ficava gelado em maio e que eu adorava o mar,
porém aquilo não diminuía o encanto da cidade
pitoresca.

Comecei a bombardeá-la com perguntas


sobre a ML Produções, queria ter certeza que ela
estava seguindo o calendário deixado com todas as
atividades para o sábado. Havia um desfile e três
propagandas agendadas para a semana seguinte.
Eles não poderiam parar porque eu viajei. Por mais
que Lúcia e o restante da equipe fosse competente,
a empresa só funcionava bem com o meu olhar
atento. Porque além de ser uma pessoa resolutiva,
eu tinha o poder de decisão e a força para impor

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agilidade às tarefas.

Enquanto eu continuava a perguntar, mamãe


permanecia ofegante. Fechei os olhos e coloquei a
mão na cabeça, desconfiando do que precisamente
ela estava fazendo. Não aguentando mais a
situação, sussurrei baixinho:

— Me diga que a senhora não está


transando enquanto conversa comigo!

Podia imaginá-la revirando os olhos não


apenas por causa dos meus questionamentos, mas
também pelo que o segurança fazia entre suas
pernas. Fabrício era um moreno alto, tatuado e
forte, que parecia um tanque de músculos. Seu
currículo como guarda-costas garantiu seu
emprego, porém o que realmente impressionou a

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patroa foram as habilidades orais.

Eu sabia disso porque havia feito uma visita


surpresa para a minha mãe uns meses antes.

Quem teve a surpresa fui eu, obviamente.

— Claro que não! — ela foi enfática. —


Estou pedalando.

Eu não acreditava, mas não queria insistir.


Às vezes, a ignorância era uma benção.

— Já foi ao escritório hoje? Os papéis do


desfile no Rio precisam ser assinados — insisti,
sabendo que sem estar lá para manter a ordem, ela
poderia esquecer. — Lembre-se que Lúcia não
pode assinar e...

— Pare com isso! — o grito repentino me

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fez sentar na cama de uma vez. — Cinthia, pelo


amor de Deus, lembre-se que eu comecei a empresa
e sobrevivi aos anos como modelo, tenho certeza
que consigo me virar durante um dia — ela disse,
exasperada. — Relaxe, você está na França, com
atores famosos e acompanhando um homem lindo.
Considere isso um presente e seja feliz!

Assenti e me despedi, resolvendo seguir seu


conselho. Afastei mais a cortina branca da varanda,
permitindo que o vento frio de maio entrasse pela
janela. Respirei fundo, enchendo os pulmões de ar
antes de liberar a tensão em um expiro forte.

Não era do meu feitio largar tudo e


simplesmente curtir, mas a ML Agência e
Produções sobreviveria a um ou dois dias sem mim.

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Andei pela Penthouse, observando o


suntuoso lugar. Minha curiosidade estava aguçada,
abri cada uma das portas sem me preocupar se as
coisas naquele quarto pertenciam a um estranho ou
não. Se Dimitri não queria ninguém mexendo em
seus pertences, que reservasse duas suítes ao invés
de uma.

Uma das portas dava para um closet


impressionante. O lado direito estava repleto de
roupas masculinas, em sua maioria cores sóbrias e
escuras. Do lado esquerdo, as roupas deveriam ser
para mim. Vestidos, saias, calças e blusas de alta
costura. Tolos! Quem Pendleton pensava que eu
era? Como se precisasse de um estranho para
definir que roupas eu usaria!

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Abri a mala e escolhi um conjunto de calça


jeans, blusa Versace e botas de cano longo que me
manteriam linda e confortável. Depois da manhã
cansativa, tudo que precisava era de um bom
banho.

Na última porta, encontrei um banheiro


grande, todo trabalhado em mármore e detalhes
banhados a ouro. Aquilo me fez sorrir de alegria:
me senti em casa. Detestava ficar em lugares
apertados que envolvessem qualquer tipo de água.
Tinha claustrofobia desde criança, quando me
tranquei por engano em um provador de roupas
pequeno após um desfile em um navio de luxo, em
alto mar. Nunca esqueci a sensação de estar à
deriva no escuro e do medo que senti.

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Liguei a hidromassagem da banheira, que se


iluminou, alternando as cores azul, vermelho, roxo
e amarelo. Um banho de espuma com
cromoterapia! Cannes melhorava a cada segundo.
Submergi meu corpo na água morna e senti todas as
tensões se esvaírem. Agora que estava relaxando,
só precisava lembrar dos princípios básicos:

Primeiro: estava ali por um favor, eles


precisavam de mim;

Segundo: não era obrigada a nada;

Terceiro: não era...

Toda a linha de raciocínio sumiu e um


branco completo se apoderou de minha mente no
momento em que Dimitri entrou no banheiro. Ele
vestia apenas uma sunga, e gotas de água
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deslizavam por sua pele.

Só. Uma. Sunga.

Engoli em seco, tentando me concentrar.


“Foco!”, pensei. Estava focada, sim... na barriga
tanquinho do eminente ator. Dimitri não me viu, ele
encarava o espelho e secava seus cabelos pretos
com uma toalha. Sua bunda praticamente implorava
para ser apertada.

Babar por aquele homem não era uma


escolha, era uma obrigação.

Desde a última visita de Leandro ao meu


escritório, não fazia sexo com ninguém. Estava
ocupada, organizando os detalhes para a viagem.
Quase dois meses sem transar era o meu novo
recorde. Deveria ganhar um prêmio pela castidade.
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Entreabri a boca e lambi os lábios,


observando os músculos salientes das costas de
meu acompanhante de “férias”. Ele se virou para
jogar a toalha no cesto e se deparou com uma
mulher desconhecida na banheira: eu.

— Porra! — Dimitri gritou. — Que susto,


garota, como você passou pelos seguranças?

Eu me afundei mais nas bolhas, escondendo


meu corpo nu. A minha voz austera, entretanto,
contrastou com a atitude aparentemente tímida:

— “Garota”? Você acabou de me chamar de


garota? Eu não passei pelos seguranças, vim porque
Pendleton me implorou! Sou Cinthia!

Pela sua expressão, Dimitri reconheceu o


nome e um meio sorriso sarcástico despontou em
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sua boca. Ele sabia que não era uma fã qualquer,


era a sua “babá”.

E se o flash de raiva que passou pelo seu


semblante era alguma indicação, ele provavelmente
achava que não precisava da minha ajuda e
tampouco pretendia facilitar a minha vida.

Dimitri tirou a sunga molhada e jogou com


displicência no cesto da lavanderia. Meus olhos se
arregalaram com a falta de pudor dele, ainda que
fosse muito apreciada se estivéssemos no meu
escritório, onde eu teria controle da situação.

E eu realmente tentava não encarar, mas era


impossível. Como não olhar para aquela maravilha
em toda sua glória? Como eu deveria colocá-lo na
linha, se não mantinha a minha?

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— Você está pelado — finalmente encontrei


minha voz. — As pessoas geralmente costumam
ficar vestidas quando se apresentam a
desconhecidos.

— E daí? — ele deu de ombros e foi tomar


banho. — Você também está.

Fiquei revoltada. Sim, gostava de sexo,


porém não admitia que me tratassem como uma
piranha. Modelos carregavam aquele estigma
social. Era uma grande hipocrisia: se eu fosse um
empresário homem com grande apetite sexual,
muita gente acharia normal. Aplaudiria até.

— Eu não sou uma prostituta! Não pense


que me trazer até aqui te dá um passe automático
para transar comigo — disse com raiva.

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Ele olhou para mim através do vidro


transparente do boxe do chuveiro e esfregou o
corpo devagar, provocando-me:

— Ok, saiba que te chamarem até aqui não


te dá um passe automático para transar comigo.

Eu me senti ultrajada, não estava


acostumada a ser desafiada por homens.
Geralmente eles faziam de tudo para me agradar e
não eram presunçosos. Levantei-me e enrolei meu
corpo úmido com um roupão felpudo, saindo a
passos duros do banheiro, de nariz erguido e
xingando Dimitri mentalmente de todos os nomes
possíveis.

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Capítulo 6 — Croissette

Como não havia nenhum compromisso até


mais tarde, me vesti e andei pelas ruas de Cannes,
revisitando os cafés que gostava e arriscando
colocar o pé na água fria. Não entendia como
algumas pessoas conseguiam tomar banho daquele
jeito! Uma garotinha saiu do mar com os lábios
arroxeados e tremendo, correndo para o braço
reconfortante da mãe e da toalha que a aguardava.

Eu adorava o frio, mas preferia o calor do


Brasil.

Conversei com os moradores, tirando a


ferrugem do meu francês. Um simpático vendedor

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de flores de meia-idade e meio barrigudinho me


convenceu a comprar uma muda de íris, uma flor
branca com pétalas manchadas de lilás e amarela
em seu centro.

Era tão agradável conversar com ele,


parecia um vovô desses de filme. Além de treinar o
idioma do país, treinei também minhas habilidades
de botânica — que eram quase nulas — ao
aprender o jeito certo de cuidar da planta, qual tipo
de vaso e a quantidade de sol adequada para ela.
Ele estava tão feliz em imaginar sua flor visitando
terras estrangeiras, que não tive coragem de avisar
a verdade: a alfândega provavelmente barraria o
seu produto.

Mesmo assim, voltei ao hotel com a muda

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nas mãos, pensando em como havia algo sobre a


calmaria de Cannes que me deixava nostálgica.
Com uma vontade de sentar e relaxar, apreciar a
vista e as pessoas. O que era completamente sem
sentido, a vida calma nunca pertenceu a mim!

Como poderia sentir falta de algo que


jamais tive?

Ao retornar, mal saí do elevador, e Alê, a


modelo de longos cabelos ruivos e pernas quase
infindas, me arrastou até um dos quartos, uma
penthouse como a de Dimitri. Ela trancou a porta
com a chave antes de falar qualquer coisa.

— Como você chega, some e não me avisa


nada? — Alessandra ralhou.

Observei ao redor, vendo a mesma


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disposição do quarto ocupado por mim, mas com


vestidos e sapatos de Alessandra espalhados pelos
móveis. Pelo jeito, os anos não mudaram a sua
mania de nunca decidir qual roupa usar até que seja
o último minuto do evento.

Analisei um vestido dourado muito brilhoso


e o joguei na pilha de descarte, que sempre ficava
em cima de sua mala. Ela não deveria ir a uma
premiação vestida como a própria estatueta.

— E desde quando eu preciso de


autorização para andar na rua? — tentei manter a
expressão séria de CEO em reunião de negócios,
mas comecei a rir ao sentar na cama, onde o vestido
dourado estivera um segundo antes. Alê se
encontrava no mesmo patamar de Lúcia, uma das

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poucas pessoas que entraram no meu círculo de


amizades e nunca saíram. — Estava só
espairecendo, não fiz nada imperdível.

— Deixe-me adivinhar, Dimitri te irritou em


dois segundos? — balancei a cabeça concordando,
e Alessandra sorriu. — Não se preocupe, é a
especialidade dele. Vamos nos arrumar, devemos
arrasar hoje. As atrizes de Hollywood não serão
páreo para nós.

Ela caminhou em toda sua exuberância de


modelo até o celular, e uma música começou a soar
de uma caixinha de som perdida no meio de tantos
tecidos finos. A voz de Valesca Popozuda soou alto
e claro, enchendo o hotel refinado com o ritmo
brasileiro.

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Não consegui evitar: joguei a cabeça para


trás e ri de sua escolha musical. Era mais do que
apropriada para nós duas. Cada uma pegou uma
escova e fez de microfone:

“O meu brilho, você quer

Meu perfume, você quer

Mas você não leva jeito

Pra ter sucesso, amor, tem que fazer


direito”

Neste ritmo, entre brincadeiras e piadas,


começamos a nos arrumar. Enquanto Alê tomava
banho, corri até a minha cobertura e peguei a mala.

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Não havia sinal de Dimitri ou Dante. Coloquei a


pequena muda na cabeceira da cama, torcendo para
que nenhuma camareira desavisada a jogasse fora.

E que nenhum ator arrogante ousasse fazê-


lo.

Achei melhor deixar um bilhete, avisando


para não tocar na minha planta.

Retornei quando Alessandra já estava


enrolada na toalha, penteando os cabelos. Era a
minha vez de usar o chuveiro. A música, ainda no
modo “repetir”, tocava.

Sentia-me bem naquele clima descontraído


e mal me lembrava que não queria estar ali,
inicialmente. Alê — que já me vira nua nas
diversas viagens à trabalho e nas provas de roupa
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— entrou no banheiro de braços levantados,


segurando um pincel de blush na mão e me
instigando a cantar o refrão em voz alta. Sem
escova à disposição, foi a vez do sabonete virar
microfone:

“Eu já falei que eu sou top

Que eu sou poderosa

Veja o que eu vou te falar

Eu sou a diva que você quer copiar”

A música acabou e Alessandra correu para o


quarto, em seguida começou a tocar um rap da
Karol Conká, Tombei. Não pude deixar de notar

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como as escolhas eram tendenciosas. Eu tinha uma


veia narcisista e sabia disso, mas a Alê... Nossa!
Ela era Narciso renascido.

E eu a adorava do jeitinho dela, sem mudar


nada, porque Alessandra possuía um brilho próprio,
era realmente cativante. Enrolei-me na toalha,
vendo-a se maquiar em frente a um espelho de
corpo inteiro, escondido perto do closet.

“Se quiser conferir, vem cá, pra ver se


aguenta

Miro muito bem, enquanto você tenta

Enquanto mamacita fala, vagabundo senta

Mamacita fala, vagabundo senta”

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De calcinha e sutiã, preparei a pele sem


parar de me mover. Eu tinha feito diversos cursos
de maquiagem durante a carreira de modelo para
aprender a me arrumar sozinha, gostava de como o
resultado era sempre do jeito que eu queria. Mais
tarde, um hair stylist viria para ajeitar o penteado.
O som continuava a tocar:

“Faça o que eu falo

E se tiver tão complicado

É porque não tá preparado

Se retire, pode ir”

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Alessandra me puxou pela mão e nós duas


cantamos juntas: “Já que é pra tombar, tombei”. Eu
me senti com vinte anos de novo. Ficava tão presa
ao mundo dos negócios, que esquecia de aproveitar
a vida. Decidi relaxar um pouco, como mamãe
tinha sugerido. Eu gostava de minhas regras, mas
talvez pudesse adaptá-las.

“Já falei que é no meu tempo

As minhas regras vão te causar um efeito

É quando eu quero, se conforma, é desse


jeito

Se quer falar comigo então fala direito”

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Quando terminei de me arrumar, senti-me


poderosa em um Valentino preto, longo, com
decote profundo e que se aderia ao corpo como
uma segunda pele.

No rosto, o destaque da maquiagem era o


batom matte vermelho, marcando a boca
desenhada. O salto alto e o colar com uma gota de
diamante completavam o visual. O cabelo foi
arrumado em suaves e naturais ondas que caíam
pelo ombro.

Pietro — o cabelereiro mais divertido da


França — nos arrumou no quarto. Ele não entendia
uma palavra do que a música dizia, mas tentava
cantar imitando o português, fazendo uma língua
que só Deus era capaz de compreender.

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Despedimo-nos dele com dois beijinhos e ouvimos


uma promessa de visita ao Brasil.

— Ei, vamos para Paris amanhã? —


perguntei enquanto colocava meus itens mais
essenciais dentro da bolsa preta de alta costura. —
Estou em férias forçadas por uma semana, pensei
em ir até lá e depois a Londres, topa?

Ela borrifou seu perfume francês favorito,


Channel Nº5, e me olhou com o cenho franzido,
sabendo da minha leve tendência de ser viciada em
trabalho.

— Você? Férias forçadas?

O ceticismo em sua voz deixava claro sua


dúvida sobre eu fazer algo forçado. E era verdade.
Vim a Cannes por causa do contrato milionário e
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decidi tirar férias porque mamãe me convenceu que


eu precisava. A viagem para Paris, entretanto, tinha
propósitos maiores do que ver a torre Eiffel. Eu
queria encontrar uma das editoras da Vogue
francesa, Anne-Marie Blanchard.

— Sim — dei de ombros. — Eu deixei tudo


bem detalhado para a mamãe.

— E para a Lúcia? — questionou enquanto


eu largava minha mala de volta na cobertura, com a
echarpe que eu havia desistido de usar. Enquanto
caminhávamos para o elevador, segurei o riso. Era
meio óbvio que eu tinha instruído minha gerente
com milhares de recomendações. Alê virou-se para
mim, ajeitando a alça do meu vestido. — Não
posso, combinei com os rapazes de ir a um cruzeiro

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pela costa europeia. Quer ir?

Ela se desculpou com o olhar, sabendo que


eu não entraria em um barco por livre e espontânea
vontade. Balancei a cabeça negando, e o elevador
apitou, abrindo a porta.

O saguão estava lotado com pessoas indo e


vindo em roupas elegantes. Não foi apenas a
comitiva de Pendleton que se hospedara ali, o hotel
era uma concentração de celebridades. Estava
acostumada a ver homens lindos, porém perdi a fala
ao ver a dupla dinâmica — ou DD, como Alê
costumava chamar Dante e Dimitri — de smoking.
Junto com eles, Pendleton, de braços dados com
uma jovem loira, nos cumprimentou com um
sorriso amistoso demais para a cobra por baixo da

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pele de empresário:

— Espero que tenha feito uma boa viagem.

Retribui o sorriso, estendendo a mão em


cumprimento, ele a pegou e beijou o dorso.

— A viagem foi maravilhosa — disse. —


Não havia como ser diferente, se estava na primeira
classe.

— Para você, eu sempre ofereceria o


melhor.

Senti seu polegar fazer círculos na parte


central da palma da minha mão, ainda presa na
dele.

Puxei o braço de volta, a minha resistência


em ir a Cannes não era somente pelo trabalho ou

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por não querer servir de babá de marmanjo. Era ele:


Pendleton. Não conseguia me sentir à vontade em
sua presença. Apesar do frio que percorreu minha
coluna, mantive as aparências:

— Obrigada, não esperava menos do


senhor.

Fiquei de frente para a dupla de atores, a


beleza do saguão do hotel, com seu piso de
mármore, lustre do mais delicado cristal e
perfumadas flores típicas da França, era ofuscada
pela presença daqueles homens.

O sorriso luminoso de Dante era tão


tentador quanto o ar soturno de Dimitri, cujo cabelo
um pouco mais comprido estava bem preso. A
barba cheia parecia mais curta, ele provavelmente

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cuidara dela durante a tarde. Os olhos verdes


permaneciam os mesmos, claro, repletos de
promessas obscuras.

Ele colocou a mão na base da minha coluna.

— Não precisava fugir — sua voz rouca, tão


próxima da minha orelha, arrepiou a minha pele. —
Eu não mordo, a menos que você me peça, é claro.

Respirei fundo, perguntando-me por que


precisava resistir à tentação. Eu gostava de manter
o controle, sabia com quem poderia transar sem
consequência alguma. O ator bad boy era uma
incógnita, e este era o grande problema. Ele poderia
ser o perfeito caso de uma noite, mas também
poderia render uma matéria escandalosa em jornais
de fofoca.

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Entrei na suntuosa limusine ainda


ponderando minhas opções. Resistir à tentação era
muito mais chato do que ceder completamente.

Quanto antes aquela noite terminasse,


melhor.

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Capítulo 7 — Festival

O evento era imenso, maior do que se via


pela televisão. Fiquei impressionada com a
comoção e a quantidade de flashes disparados em
nossa direção quando pisamos fora da limusine.
Talvez os rapazes prodígio fossem realmente os
queridinhos da noite.

Dimitri, como eu bem sabia, não fora


apenas nomeado para melhor ator: o filme em que
ele atuara com Dante concorria também à Palma de
Ouro. O grande prêmio da noite.

Do início do tapete vermelho, vi as


suntuosas escadas e a dupla dinâmica sendo

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entrevistada para um importante canal de televisão


americano, exclusivo de notícias sobre o
entretenimento.

Como se tivéssemos ensaiado, eu e


Alessandra nos aproximamos no momento que a
repórter loira em um longo vermelho perguntou
pelas acompanhantes. A atenta mulher, que estava
longe de ser novata, nos reconheceu e perguntou
como eu havia conhecido Dimitri.

Eu já tinha pensado na desculpa perfeita:


nos conhecemos em uma festa e não nos soltamos
mais. Porém, Dante foi mais rápido na mentira:

— A Alessandra é uma amiga de longa data


e é agenciada pela Cinthia — ele respondeu em um
inglês perfeito, a língua natal da entrevistadora. —

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Nossos amigos terminaram se conhecendo...

— E apaixonando? — a mulher questionou.

— Eu sinto muitas coisas pelo Dimitri —


olhei para ele com um sorriso nos lábios que
guardava para propagandas de perfume em dia dos
namorados. — Ele é uma pessoa encantadora.

Ela se virou para Dimitri, aguardando sua


resposta.

— Também sinto coisas crescendo pela


senhorita Grimaldi — ele me puxou para perto pela
cintura e aspirou, ou melhor, praticamente farejou o
meu pescoço exposto, dando um beijo provocante
na pele.

O arrepio em mim não fazia parte da


atuação.
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A mulher sorriu, satisfeita, sabendo que


seria assunto das redes sociais no dia seguinte.
Provavelmente, ainda hoje.

Assim que finalmente entramos,


cumprimentei o diretor, o produtor e os outros
atores presentes, tanto os do filme de Dante e
Dimitri quanto outros. Se eu estava ali, dentre
pessoas influentes da indústria cinematográfica,
aproveitaria para fazer contatos.

Pendleton tinha razão, eu era ambiciosa e


queria ir além do que minha mãe jamais fora.

Fui até a área reservada para a comitiva do


filme, na tentativa de conversar um pouco mais
com o diretor. Stuart Allen era um homem por
volta dos quarenta anos, com o grisalho pontuando

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algumas partes de seu cabelo loiro. Sua carreira


tinha sido meteórica após uma comédia
independente que despontou inesperadamente para
o sucesso.

Mais de vinte anos depois, ele era conhecido


e respeitado. Uma pessoa perfeita para se manter
um contato profissional. Trocamos poucas palavras
sobre atores e agências antes dele ser chamado para
uma entrevista.

Em vez de me levantar e ficar próxima do


meu acompanhante, resolvi observar os dois
rapazes de Pendleton de longe. Falaram-me de
como Dimitri era instável e precisava de rédeas
curtas, mas ele estava mostrando um
comportamento exemplar no evento.

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Ao menos, até aquele momento.

Os dois conversavam animadamente em


uma roda de celebridades. Uma das minhas
qualidades era a habilidade de conhecer o tipo de
pessoa apenas a observando. Dimitri poderia ser
mais famoso e chamar atenção com aquele ar
misterioso, mas Dante era um verdadeiro showman.
Ele tinha um carisma envolvente, sempre
conduzindo a conversa.

Ou seja, era esperto e bom de lábia.

Ele era um belo planeta, e as outras pessoas,


meros satélites orbitando ao seu redor.

Eu cobiçava suas costas largas escondidas


no smoking. Sabia que as coxas eram bem
torneadas e tinha uma barriga tanquinho feita para
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ser lambida. Não era à toa que sempre havia uma


desculpa para filmá-lo sem camisa ou de sunga: a
bunda redonda foi feita para ter unhas cravadas
nela, enquanto ele metia com força e... Suspirei,
não era momento para pensamentos impróprios.

Mas o que eu podia fazer? Dante foi feito


para ser apreciado.

Dimitri, que estava em pé de frente para o


amigo e, consequentemente, na minha linha de
visão, sorriu e piscou um olho. Provavelmente
notando onde minha atenção estivera momentos
antes.

Sem pudor ou vergonha alguma, passei a


admirá-lo também. Dimitri era um pouco mais alto
e forte do que Dante. Seu físico era tão escultural

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quanto o de seu amigo, e ele sabia dançar bem, pois


interpretou um Go-Go boy em sua novela de
estreia. Uma vez, vi em uma revista de fofocas que
a audiência tinha picos enormes sempre que ele
aparecia interpretando o show do dançarino.

Antes de vir para cá, procurei informações e


entrevistas dele no YouTube e quando falava em
russo, mesmo que eu não entendesse uma única
palavra, era enlouquecedoramente sexy.

Sorri de volta, mantendo vivo o jogo que eu


tinha aceitado. Não seriam férias decentes se eu não
as aproveitasse direito, não é? Não conseguia
decidir qual dos dois me interessava mais.
Realmente, como falei antes, a dupla de atores era a
definição de “tanto faz”.

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Quanto a Dante, entretanto, havia um


grande empecilho…

Alê conversava com alguns dos atores no


círculo, mas logo cansou de ser acessório e sentou-
se na poltrona ao meu lado.

— Você já transou com Dante? — curiosa,


questionei.

— Óbvio! Você já olhou para ele? — ela


piscou para mim. — A gente tentou namorar, mas
não deu certo. Nossos horários eram incompatíveis,
ele com as gravações, e eu iniciando minha carreira
como modelo internacional. A minha agente é um
porre, pensa que sou escrava, sabe?

Sorri e corrigi a postura quando um homem


de terno subiu ao palco e solicitou que todos
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sentassem em seus lugares, pois o evento


começaria em breve. Antes que os rapazes
pudessem se aproximar e ouvir a conversa, me
inclinei só um pouco para sussurrar no ouvido de
Alessandra:

— Sua agente é muito legal, ela até te deu


um mês de férias.

— Quinze dias, você sabe disso — Alê


retrucou em tom de brincadeira. — E eu ainda usei
cinco para vir ajudar Dante.

— Não é culpa minha se você tem coração


mole e veio para eventos oficiais em vez de estar
relaxando — provoquei.

— Você também está aqui — a modelo


sussurrou, mas não respondi.
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Eu estava ali, porém não exatamente de


férias. Apesar de ter toda intenção de aproveitar.

— Então, ele está disponível? — apontei


com a cabeça para o Dante.

Ela levantou uma sobrancelha


questionadora:

— Achei que estava com o Dimitri.

— Estou analisando as opções — dei um


sorriso felino.

Alessandra jogou a cabeça para trás e


gargalhou:

— Fique à vontade, o produto já foi testado


e aprovado.

— O que foi tão engraçado? — Dante

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sentou ao lado dela.

Minha amiga, que nunca mensurou suas


palavras, olhou para ele de forma lasciva.

— Seu desempenho sexual — Alessandra


falou em alto e bom som, fazendo Dante arregalar
os olhos e Dimitri rir descontroladamente, a ponto
de Pendleton olhar feio para ele.

— Do que você está rindo? — virei-me para


Dimitri. — Ninguém estava falando mal do
desempenho dele.

O ator se aproximou e sussurrou:

— Se quiser testar o meu, a gente pode


chegar a um acordo mais tarde.

Não respondi, a expectativa era parte da

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conquista. As luzes esmaeceram e uma mulher em


um deslumbrante vestido de organza em seda pura
começou a falar, apresentando os grandes títulos da
noite.

Nós nos calamos, atentos ao desenrolar da


premiação. Era belo, formal e um tanto entediante.
O evento continuou... E continuou... E continuou...
Parecia não ter mais fim. Dimitri batia o pé,
impaciente, e a única coisa que salvava eram as
apresentações musicais entre os prêmios, além de
uma ou outra piada engraçada de alguns
apresentadores.

— Eu quero comer — o ator reclamou.

O olhei desconfiada, imaginando se ele


pensava que eu era sua babá no sentido literal da

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palavra. O fato era que eu tinha algo escondido em


minha bolsa de grife, uma barra de cereal, sempre
mantida à mão para emergências.

Decidi oferecer para Dimitri, seria um


símbolo da paz, algo para suavizar o primeiro
encontro desastroso. Não que eu considerasse o
corpo dele nu algo desastroso... Abri a bolsa e
ofereci a única fonte de alimento disponível nas
redondezas.

— Come isso e fica quieto.

Dimitri olhou desconfiado para a barra de


aparência duvidosa, mas aceitou. Pela sua
expressão maravilhada assim que mordeu, ele tinha
gostado.

— O que é isto? — sua pergunta saiu entre


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gemidos de prazer.

— Uma barra de cereal caseira, feita pelo


meu chef de cozinha — elas eram deliciosas e
ideais para minha dieta. Quando o vi abocanhar o
último pedaço, reclamei: — Seu guloso! Você
comeu tudo e não deixou nem um pedaço para
mim?

— Não seja por isto.

Dimitri colocou a mão por trás do meu


pescoço e me puxou para perto. Nossas bocas se
chocaram, e eu entreabri os lábios. A língua dele
invadiu minha boca, e senti o gosto da barra junto
com o sabor dele.

Um calor invadiu meu corpo, a barba


arranhava e arrepiava minha pele. Cada pedaço de
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mim estava ciente da presença dele. Se ele era


capaz de causar essa reação com um beijo, o que
poderia fazer entre quatro paredes?

— Vamos para o hotel — Dimitri


mordiscou minha mandíbula. — Ninguém sentirá
nossa falta.

Olhei ao redor, todos estavam concentrados


na apresentação e alheio às chamas que me
consumiam ali, sentada em uma poltrona vermelha
acolchoada entre centenas de celebridades.

— Eu deveria garantir seu bom


comportamento — sussurrei sem muita convicção.

— Esqueça as paranoias de Pendleton e de


Dante. Se você for comigo, eu prometo me
comportar muito mal... — ele lambeu meu pescoço.
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— Deixo até você me punir por mau


comportamento, ou eu posso punir você por não
cumprir o seu papel...

Suspirei alto.

Eu podia ser uma ex-modelo de sucesso e


CEO fodona, mas era apenas humana! Quem
poderia me culpar por ceder à tentação?

Foda-se Pendleton e suas maquinações, eu


tinha interesses urgentes que precisavam de atenção
imediata.

— Finja que está passando mal, e eu cuido


do resto.

Eu sabia como eventos daquele porte


funcionava, não era o meu primeiro. Menti para as
pessoas certas e saí acompanhando um enjoado
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Dimitri. Uma coisa era certa, o homem era um bom


ator. Quase me convencia de que estava doente.

E eu?

Ah, resolvi esquecer as regras, por uma


noite.

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Capítulo 8 — Sem regras

Dimitri fazia mais do que sexo, ele venerava


o corpo da mulher. Suas mãos tocavam cada
centímetro da minha pele, e ele beijou e chupou
tudo que encostava. Eu me contorcia nos lençóis de
cetim antes mesmo de ser penetrada. Sua boca
parecia feita para dar prazer, e eu retribuía
chupando-o com o mesmo vigor.

— Fique de quatro — ele ordenou.

Dimitri me virou de costas, e logo senti um


tapa na bunda. Ele agarrou meus cabelos e puxou a
cabeça para trás enquanto segurava minha garganta
com a outra mão. O leve aperto no pescoço roubou

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meu fôlego e me excitou ainda mais.

Quanto mais excitado, mais ele ia rápido e


dizia palavras que não compreendia e que eu nem
me dava ao trabalho de entender. Apenas apreciava
o tom sexy e urgente em seu sotaque sedutor.

Sua mão desceu do pescoço e passeou por


todo meu corpo até alcançar minha bunda, onde
desferiu outro tapa.

— Você é gostosa pra caralho — ele me


puxou para mais perto, desferindo outro golpe e
mais outro. A cada um, eu gemia de prazer.

Ele me penetrou forte, sem aviso. Sabia que


não teria problemas, pois estava completamente
molhada. A cada investida, ele ia mais fundo e mais
rápido, levando-me aos limites do prazer.
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O silêncio do quarto era preenchido pelo


barulho dos nossos corpos se chocando, pelos meus
gemidos enlouquecidos e, de repente, por um grito:

— Porra, Dimitri, você tem que estar de


brincadeira comigo. Eu ainda fiquei preocupado,
achando que tinha passado mal de verdade!
Caralho, como caí nessa?

Nós paramos no ato e viramos para


enfrentar um irado Dante. Ele jogou um troféu na
cama.

— Parabéns, idiota, você venceu como


melhor ator, e nem estava lá para receber o prêmio.
O filme também ganhou a Palma de Ouro, caso isso
seja do seu interesse.

Dimitri levantou-se e colocou o troféu em


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cima da mesa de cabeceira, ao lado da esquecida


muda de planta. Eu me escondi embaixo do lençol
e observei estupefata como ele andou com
tranquilidade até o minibar e pegou uma garrafa de
champanhe.

— Ótimo, junte-se a nós e vamos


comemorar! — ele estendeu a garrafa para o amigo.

— O quê? — pulei da cama, enrolada em


cetim. — Você está louco?

Dante olhou de esguelha para a garrafa, mas


logo sorriu e aceitou. Seus olhos, que antes eram
tão gentis, pareciam mais predatórios. A tensão
sexual no quarto era palpável, e eu lambi os lábios
quando Dante levou a garrafa à boca e bebeu um
gole direto do gargalo.

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Dimitri passou a mão pela echarpe preta de


renda que eu havia abandonado no quarto, se
aproximou sorrateiro e me beijou, envolvendo meu
corpo em seus braços, sua língua invadindo minha
boca. Dante não se moveu, era uma presença sólida
em minhas costas. A minha indignação foi
substituída por desejo, com apenas um segundo de
dúvida entre eles. Eu nunca tinha tentado algo
como aquilo que estava sendo sugerido.

Seria uma novidade e tanto.

— O que acontece em Cannes, fica em


Cannes — Dante disse, aproximando-se de mim.

— Isso vale para Vegas, não? — perguntei,


desconfiada.

Dimitri me abraçou por trás e puxou o


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lençol, deixando-me nua na frente dos dois.

— E quem se importa?

Diante dos olhos famintos daqueles homens


viris, com certeza eu não me importaria com nada.

Dimitri derramou champanhe no meu


ombro e lambeu. Dante me beijou, tomando meus
lábios com ardor. Eu me virei, ficando de frente
para Dante, com o corpo grudado ao dele. Assustei-
me com um tecido escuro sendo colocado contra os
meus olhos. Dimitri me vendou com a echarpe
preta que ele estivera observando antes e puxou
minha cabeça para trás.

Prensada entre os dois e com a visão


comprometida, apesar de ainda ser capaz de
enxergar um pouco através da renda, eu era incapaz
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de raciocinar. Em um momento, estava em pé, no


segundo seguinte, me encontrava deitada encarando
dois homens lindos, um loiro e outro moreno,
ambos parecendo feitos para o pecado.

Mais bebida foi derramada em meu corpo,


duas línguas, quatro mãos, vinte dedos. Todos em
mim. Sentindo. Apertando. Beijando. Acariciando.
Meus sentidos estavam sobrecarregados e o prazer
dominava meu corpo.

Naquele momento, eu era deles.

Dante colocou uma camisinha e cobriu meu


corpo com o seu, gemi quando ele me penetrou.
Dentro e fora. Dentro e fora. Dimitri se ajoelhou na
altura da minha cabeça e me segurou pelo lenço
quando eu voltei a chupá-lo.

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— Será que você aguenta mais? — Dante


desafiou, e Dimitri me olhou em dúvida.

Meu coração que estava acelerado,


retumbou no peito.

— Quanto é mais?

Minha pergunta era mais carregada de


curiosidade do que receio. Dimitri abriu uma
gaveta na mesinha de cabeceira, tirando um tubo
vermelho e outra camisinha de lá.

— De joelhos — foi tudo que ele falou.

Os dois inverteram a posição, e agora era o


Dante que eu saboreava. Senti algo viscoso entre
minhas nádegas, e eu sabia o que viria, não seria a
minha primeira vez ali. Um dedo começou a
brincar com minha bunda e logo em seguida outro.
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A dor era pequena e ainda capaz de administrar, até


que algo muito maior substituiu os dois dedos, e eu
prendi o fôlego.

— Respire e relaxe. — Dante falou em meu


ouvido e me beijou com ardor. Fiz o que ele pediu,
e logo Dimitri me penetrou por completo. Respirei
várias vezes, tentando me acostumar com a
sensação. — Isso, gostosa.

Dante continuou a beijar, e Dimitri esticou o


braço para esfregar o meu clitóris. Eles me
acariciaram em sincronia, o prazer voltou a
dominar meu corpo. Dimitri parecia se segurar a
cada vez que chegava perto de gozar, até que deve
ter ido perto demais e saiu de mim para não
terminar a diversão antes do tempo e trocar a

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camisinha por uma nova.

Dante deitou-se na cama e pediu que eu


montasse nele, o que fiz com muito prazer. Meus
seios balançavam enquanto eu cavalgava com
vontade, meus gemidos poderiam ser ouvidos por
toda Cannes, que não me importaria. Eu estava tão
perto...

Senti as mãos de Dimitri em minhas costas,


empurrando-me para baixo, deitada contra o peito
de Dante. Eu não era inocente a ponto de não saber
qual era a intenção dos dois. Sempre foi algo que
quis testar, saber se conseguiria, se seria capaz de
suportar, e estava doida para descobrir.

Tentei relaxar novamente, porém desta vez,


todo meu fôlego foi roubado. Estava preenchida

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como nunca estivera antes. Os dois começaram a se


mover de forma alternada e rítmica. Meu corpo
queimava em chamas, ardendo em labaredas de
pura luxúria. O prazer misturado com a pontada de
dor. Eu me sentia completa e na beira de um
precipício.

— Grite! — Dimitri puxou meus cabelos


para trás e me penetrou mais forte. Dante
abocanhou meu seio e segurou meus quadris, dando
mais impulso ao movimento. Nenhum de nós três
demorou muito antes do prazer dominar nossos
corpos e sobrepujar nossos sentidos.

Estava exausta, o suor pingava de meu


corpo e parecia que não recuperaria o fôlego tão
cedo. Os dois homens se encontravam em uma

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situação melhor. Talvez devesse mudar o meu


personal trainer, as aulas de pilates não estavam
me preparando apropriadamente para pequenas
orgias como aquela.

— Que tal um banho e pizza? — Dante


sugeriu e levantou-se para acionar a água quente da
banheira.

— Eu não consigo me mexer... — reclamei


e me perguntei como eles tinham força para
qualquer coisa que não fosse desmaiar e dormir.

— Não seja por isto! — Dimitri me pegou


no colo e levou-me até o banheiro. — Não há nada
que um bom banho não resolva.

Nós três terminamos a noite na banheira,


depois na cama e depois na banheira de novo.
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Algumas horas sem regras era o sinônimo


do prazer.

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Capítulo 9 — Outro dia

No dia seguinte, eu me espreguicei sabendo


que não havia entrado no Mediterrâneo, mas que
tomara um banho muito mais interessante...
Observei os dois rapazes adormecidos, concluindo
que, definitivamente, perder o controle de vez em
quando era bom.

Tomei outra chuveirada e vesti um biquíni


vermelho cujo padrão brasileiro de tamanho
provavelmente horrorizaria algumas moças
europeias. Um vestido de linho branco amarrado na
cintura e um chapéu grande com flores
completavam o visual.

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Encarei a cama, apesar de não querer ficar


como uma perseguidora, observando os dois
dormirem. Quem desviaria o olhar? Era uma bela
visão: os dois relaxados, cabelos espalhados no
travesseiro, peitos à mostra e o lençol mal cobrindo
seus quadris.

Entre eles, o espaço vazio onde eu estivera


alguns minutos antes.

Mordi os lábios, sentindo um latejar entre as


pernas com as memórias do prazer de outrora. Eu
deixaria ambos recuperarem as energias antes de
pensar em usá-los mais um pouco.

Bati na porta de Alessandra para ver se ela


estava acordada, mas ninguém me respondeu, tentei
ligar e nada. Ela deveria estar dormindo ou na cama

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de outro alguém. Sem muita alternativa, desci para


o restaurante na intenção de tomar meu café da
manhã em silêncio, lendo as notícias do jornal
deixado em cima de cada mesa.

Cumprimentei alguns rostos conhecidos


enquanto fazia o meu pedido ao garçom. Uma
refeição leve para compensar a noite pesada era o
pedido ideal. A brisa fresca da manhã de Cannes
entrava pelas janelas imensas. As pessoas pareciam
sonolentas, como se fosse uma manhã preguiçosa
para todos.

Sorri quando o homem de olhos gentis me


serviu uma xícara de café quente. A bebida era
como uma carga de energia em meu organismo,
revigorando-me. Abri o jornal, e como esperado,

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Dimitri estrelava a primeira página. Li a


reportagem em voz baixa, traduzindo o francês para
o português em minha mente:

“O grande destaque da noite foi o ator


russo, naturalizado brasileiro, Dimitri Duskin.
Além de estrelar o longa vencedor da Palma de
Ouro ao lado do amigo e também brasileiro, Dante
Gutierrez, derrotou nomes consagrados do cinema
e venceu o prêmio de melhor ator. Um grande feito
para um estreante que teve um início atribulado. A
emoção foi maior do que o jovem conseguiu
aguentar, e ele precisou se ausentar do Festival
antes da premiação, acompanhado da ilustre
Cinthia Grimaldi, a famosa ex-miss e CEO da ML

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Agência e Produções, uma das maiores agências


de modelos do Brasil e agente da Top Model
Alessandra Nogueira, também presente no evento
ao lado do jovem Gutierrez.

Coube a Dante receber a premiação em


nome do amigo, e seu discurso foi cativante,
arrancando lágrimas e suspiros da plateia. Nós
desejamos melhoras a Dimitri e prevemos que este
será o início de uma grande carreira para os
atores brasileiros.”

Verifiquei as redes sociais: o assunto do


momento era o Festival e como a conquista de um
pobre garoto russo “exilado” no Brasil foi
emocionante demais até para ele. A internet deveria
ser estudada, era impressionante como a opinião do

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primeiro a falar geralmente era replicada pelo


restante.

Ainda bem que a primeira notícia havia sido


positiva!

Meu celular vibrou com uma mensagem de


texto de Pendleton. Ele estava preocupado com
Dimitri, achando que passara mal por efeitos
tardios da reabilitação. O ator estava apenas há dois
meses sem ingerir bebidas alcoólicas.

Se o empresário soubesse...

Fechei os olhos, lembrando de Dimitri


bebendo champanhe em meu corpo. Voltei a
encarar o celular, a consciência pesando um
bocado. Eles deveriam ter me avisado da
reabilitação! Dante viu e não falou nada, achei que
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não havia problema. Talvez a luxúria tenha


superado a razão na noite passada.

Pendleton também me parabenizou pela


conduta e agradeceu a repercussão positiva na
manhã seguinte. Neste caso, minha consciência
estava limpa. Apesar da “pequena” transgressão,
havia cumprido a minha parte do acordo.

O Festival de Cinema de Cannes foi um


sucesso para a dupla de atores. Que, de fato, era
uma dupla muito dinâmica.

Estava sorrindo com as memórias da noite


anterior, quando uma voz grave falou em inglês,
perguntando se poderia sentar comigo. Demorei
alguns segundos para reconhecê-lo em camisa
florida havaiana em vez de smoking.

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Stuart Allen, o diretor.

Falei que sim, poderia sentar, e ele


perguntou se Dimitri estava melhor. Eu tentei
mostrar minha melhor expressão de lamentação e
conversei com ele em inglês.

— Ele está muito exausto depois de ter se


esforçado tanto para estar presente no evento.
Dimitri tem uma resistência muito grande, mas,
infelizmente, até homens como ele possuem seus
limites — coloquei a mão no peito, franzindo a
testa e fazendo um leve bico com os lábios. — O
coitadinho não consegue nem se levantar.

Ele se compadeceu e desejou melhoras, eu


queria rir da minha pequena manipulação de
palavras. Em teoria, não menti.

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Apesar de ter terminado meu desjejum,


continuei ali, nossa conversa enveredando para
assuntos mais interessantes, como os negócios e o
que um homem como Stuart Allen poderia fazer
por mim. Trocamos contato, e eu prometi que
minha secretária enviaria um e-mail em breve.

Caminhei para a área da piscina com o


celular em mãos, digitando rapidamente uma
mensagem para Júlia. Precisava de alguns favores
da minha secretária: comprar passagens para Paris e
confirmar minha visita à sede francesa da revista
Vogue, enviar um e-mail para Stuart e contratar os
serviços de José Rodrigues, um homem que eu
chamava apenas quando extremamente necessário.

Depois da noite passada, precisava ter o

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máximo de informações sobre os dois atores, caso


eles pensassem em me chantagear por causa do
nosso delicioso interlúdio. Eu não atacaria
primeiro, mas também não seria pega de surpresa.
Os serviços de Rodrigues seriam o meu cobertor de
segurança contra Dante e Dimitri.

Com aquilo tudo resolvido e sem nenhum


peso na consciência, deixei minhas maquinações de
lado para finalmente sentar e relaxar um pouco.

O sol agradável de Cannes acariciava minha


pele. A piscina de águas cristalina era aquecida,
porém eu não tinha disposição para nadar. Estiquei
os braços na confortável espreguiçadeira, olhos
fechados por trás de óculos escuros e fones de
ouvido no volume máximo.

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Eu precisei segurar a urgência de ligar para


a minha mãe e saber como estava a empresa. Era
manhã de domingo e até as CEOs mereciam
descanso. Suspirei, lembrando da mensagem
enviada meia hora antes. Secretárias também
deveriam descansar. Fiz uma nota mental,
precisaria lembrar de dar um abono salarial para a
Júlia pelo serviço extra.

Uma sombra pairou sobre mim e mãos


fortes pousaram em minha coxa. Quase pulei de
susto e arranquei os fones do ouvido, escutando
uma risada sedutora.

— Que nervosa! — Dimitri analisou meu


corpo com apreciação. — Posso te ajudar a relaxar,
se quiser.

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Lambi os lábios repentinamente secos, ele


usava apenas um short que se pendurava muito
baixo em seu quadril:

— Talvez mais tarde.

O canto da sua boca se levantou, mas


Dimitri nada disse. Ele se inclinou, pegando o
bronzeador largado em cima da minha bolsa de
praia.

— Vire-se, ainda estamos sendo observados


— ele apontou discretamente com a cabeça para
um homem em uma mesa próxima, inclinado em
nossa direção e com o celular em mãos. Ele não
estava lá quando cheguei.

Obedeci, e Dimitri espalhou o óleo nas


próprias mãos antes de esfregar em minhas costas.
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Era algo normal para um namorado fazer, porém


não tínhamos nenhum relacionamento além do sexo
compartilhado na noite anterior.

Suas mãos em meu corpo eram uma


provocação, e eu, ciente de cada ponto onde nossas
peles se conectavam e com a memória latente do
ocorrido anteriormente, começava a me amaldiçoar
por ter saído do quarto sem acordá-los.

— Bom dia — ele beijou meu ombro, ainda


atuando pelo bem da câmera apontada para nós —
Dormiu bem?

— Sim, estava muito cansada e apaguei,


tive um sono sem sonhos — para que sonhar, se
tinha eles dois ao meu lado? — E você?

— Dormi bem, mas teria acordado melhor


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se você estivesse lá — ele se inclinou, sussurrando


em meu ouvido. — Gostaria de continuar de onde
paramos na noite passada, antes de Dante nos
interromper.

— Que eu me lembre, ele não interrompeu


nada.

Virei-me de frente, tentando me concentrar


em seu rosto e não nas mãos que agora trabalhavam
em minha barriga exposta, os dedos longos fazendo
círculos preguiçosos.

— Interrompeu, sim — seus dedos se


enterraram na pele da minha cintura. — Eu
pretendia ter você toda para mim, apesar de não ser
uma pessoa egoísta e ter gostado de dividir.

Eu me sentei, nossos corpos muito


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próximos. Coloquei uma mecha errante do seu


cabelo atrás da orelha, a perfeita namorada
atenciosa.

— Vocês fazem isso com frequência?

Realmente, a curiosidade me corroía. Eu


havia perguntado a Alê se ela tinha transado com
Dante, mas nunca questionei em relação a Dimitri.
Aquela era uma experiência que eu recomendaria
às amigas.

— Não, você foi a primeira — o ceticismo


deveria estar evidente em meu semblante de
sobrancelha levantada, pois ele continuou. —
Dividimos pouca coisa além do empresário e dos
sets de filmagem. Dante não é o que eu
consideraria como amigo. Não mais.

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Pelo modo como Dimitri disse a última


frase, a recíproca era verdadeira. Aquilo me
surpreendeu mais do que eu fazer um ménage com
os dois. Os jornais sempre os apresentavam como
amigos e companheiros de longa data.

— Por que me dividir, então? — eu o


desafiei.

Dimitri sorriu, daqueles sorrisos que


levantam apenas o canto da boca. Ele pousou a mão
em meu pescoço e se inclinou, sua voz como uma
promessa sedutora em minha orelha:

— Porque eu vi em seu olhar o quanto


desejava os dois.

Se toda a lembrança da noite anterior já


aquecia meu corpo, aquela voz tão próxima de meu
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pescoço foi a gota necessária para fazer meu


oceano de controle transbordar. Eu o beijei,
simplesmente porque queria sentir o gosto dos seus
lábios nos meus. Estava fazendo planos de levá-lo
para o andar superior ou continuar nosso pequeno
show de casalzinho dentro da piscina, porém meu
celular tocou repetidamente.

Era Lúcia, com uma crise na ML:

— Desculpa te ligar nas férias, mas hoje é o


desfile da JayClar e temos um problema.

A quem eu queria enganar? Domingo não


era dia de uma CEO da moda descansar, aliás,
nenhum dia era. Depois me questionavam por que
eu não tirava férias com mais frequência: aquela
era a resposta.

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Como mais temia, mamãe negligenciou as


orientações deixadas por mim, bagunçando dois
contratos, um para campanha publicitária e outro
para um desfile de roupas masculinas.

Peguei minha bolsa e não disse nada para


Dimitri, ele deve ter entendido o contexto pelo meu
lado da conversa ao telefone. No elevador, debati
algumas soluções com Lúcia e, ao chegar no
quarto, dei graças a Deus por Dante não estar mais
adormecido na cama.

Não podia me dar ao luxo de ter distrações.

Com o notebook em mãos — não ia a lugar


nenhum sem ele —, trabalhei pelas horas seguintes
na varanda que tanto admirei no dia anterior e não
tive tempo de curtir. A rua Croissette com seu

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vendedor de flores foi esquecida devido a toda


burocracia em que me afundei.

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Capítulo 10 — Entre amigos

— Pensei que você estava sexy ontem —


Dimitri disse quando baixei a tela do notebook e
me levantei para guardar na mala. — Mas te ver no
comando e gritando ordens é muito mais quente.
Você se importa de verdade com a empresa, não é?

— É óbvio, a empresa é minha vida.

Cruzei os braços, observando-o. Dimitri


havia tomado banho, e a única coisa que cobria seu
corpo nu era a toalha branca do hotel enrolada em
seu quadril. Na luz da manhã, ele era tão tentador
quanto estivera na noite anterior. Ele encarou o
teto, seu corpo estranhamente tenso, apesar de

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tentar parecer relaxado.

— O que você esperava?

Sua voz parecia distante quando falou:

— Não sei, uma garota mimada brincando


de ser chefe.

Sua afirmação me chateava, porém não me


surpreendia. Eu geralmente era subestimada por
aqueles que não me conheciam.

Logo eles percebiam o engano.

Quando eu precisava falar sobre a empresa


ou manter relações sociais, sempre era uma mulher
muito eloquente. Porém, conversar banalidades
com um cara depois de transar estava além da
minha alçada.

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— O que você quer? — optei pela


sinceridade. — Estou muito irritada para fazer sexo
agora.

Dimitri se levantou, dando de ombros e


deixando que a toalha fosse ao chão. Eu pensava
que era à vontade com meu corpo, mas ele
alcançava outro patamar. Contudo, por mais lindo
que Dimitri fosse, homens sem roupa não abalavam
tanto minha tranquilidade exterior, apesar de me
aquecer por dentro.

— Tem certeza? Sexo sempre me ajuda


depois de um dia estressante — ele deu a volta na
cama, passando por mim antes de entrar no closet.
— Vamos sair para almoçar, então?

— Eu deveria bancar a babá, não o

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contrário — falei, lembrando-o do meu propósito


ali, porém já me dirigindo ao banheiro. Ainda
estava de biquíni.

Quando entrei no chuveiro, não tranquei a


porta. Queria ver até onde ia a ousadia do ator. E,
como esperado, minutos depois, Dimitri, em jeans e
jaqueta preta, entrou no cômodo e sentou na borda
da banheira, observando-me através do vidro
transparente do box.

Se ele queria olhar, eu daria um show.

Enchi minhas mãos com a espuma do caro


sabonete disponibilizado pelo hotel — o quarto
mais caro tinha os melhores produtos. Esfreguei os
seios, beliscando a ponta dos mamilos com a unha.
Pelo vidro salpicado com gotículas de água, vi sua

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boca se entreabrir em um “o” perfeito.

Levei uma mão à minha boca e suguei meu


indicador, lembrando da noite anterior, quando era
Dimitri o que eu tinha entre os lábios. A mão que
ainda estava nos seios viajou mais para baixo, pela
barriga e entre as pernas. Eu me apoiei na parede,
meu próprio dedo me penetrando, sendo seguido
por outro.

Para dentro e para fora.

Preguiçoso e rápido.

Eu brincava comigo, tendo um homem


divino como espectador.

Minha intenção inicial era provocá-lo,


mostrar que dois poderiam jogar aquele jogo de
sedução. Agora eu começava a repensar a minha
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decisão de não usar o sexo para relaxar. O chuveiro


ainda aberto jorrava água morna em minha pele,
acariciando-a. Fechei os olhos, entregando-me ao
prazer que eu me proporcionava.

Mãos quentes seguraram minhas coxas,


forçando-as a separar. Dimitri estava ajoelhado em
frente a mim, completamente vestido e sem se
importar com a água escorrendo pelas suas roupas.

Abri as pernas como ele silenciosamente


pedia, passando uma delas pelo seu ombro. Era
uma dança estranha a que fazíamos, e eu precisava
me equilibrar para não sucumbir ante o ataque de
sua habilidosa língua.

Foi a vez dele de acrescentar dedos à


brincadeira, porém os dele eram maiores, entravam

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e saiam sem parar, não dando espaço aos meus.


Não era uma provocação, era uma ordem para me
fazer gozar. E eu o fiz, puxando seus cabelos e
gritando seu nome.

— Vire-se para a parede e se apoie com as


mãos — ele comandou e eu obedeci.

Logo Dimitri estava me penetrando por trás,


puxando minha cabeça de encontro ao seu peito
pelo meu pescoço, beijando-me com os resquícios
do meu sabor em seus lábios.

Dimitri era o tipo de cara com quem eu não


me importava de repetir a dose.

Foi preciso quase uma hora para que


conseguíssemos sair do quarto. Dante e Alê nos
aguardavam no saguão. Ele com sorriso
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conhecedor, ela com a expressão parecida com a


minha: de quem tinha acabado de transar e estava
bem satisfeita.

— Cinthia, é sempre um prazer revê-la —


Dante segurou a minha mão e beijou, seus lábios
demorando um segundo a mais do que o necessário.

— Você me conheceu ontem — disse em


tom condescendente. — Não teve a oportunidade
de me rever tantas vezes assim.

Ele piscou um olho e ficou perto a ponto de


seu hálito quente encostar na curvatura do meu
pescoço:

— Foi, no entanto, bastante prazeroso nas


duas vezes.

Meu sorriso em resposta foi pouco


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amistoso. Se fosse agenciado por mim, seria


rejeitado da agência só pela piadinha. Um cara que
não consegue manter a boca fechada não é um bom
amante ou contratado.

Diminuí o espaço entre nós, envolvendo os


braços ao redor de seus ombros, como um abraço
cordial entre amigos que se encontravam no saguão
principal do hotel.

— Se eu fosse você, teria muito cuidado


com as brincadeiras e com a língua — sussurrei em
seu ouvido com um tom ameaçador. — Não
esqueça que eu detenho os direitos de negociação
para todas as suas propagandas e eventos.

Ele mordiscou o lábio inferior e me deu um


olhar sujo, sua voz era baixa, o suficiente apenas

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para que eu e as duas pessoas ao redor ouvissem:

— O tesão que eu tinha por você acabou de


triplicar, mas não se preocupe, minha boca é um
túmulo, senhorita Grimaldi.

Revirei os olhos. O carisma de Dante o


levava a ser eloquente demais, quase canastrão.
Talvez devesse aprender com Dimitri a mais
observar do que falar.

— Vamos comer? — Alessandra enlaçou


seu braço com o meu, quebrando a tensão e a
resposta que eu pretendia dar. — Estou com fome e
não quero passar o dia trancada no hotel.

Os rapazes haviam alugado um carro e


fomos ao restaurante à beira-mar L’Alba, um lugar
pitoresco, com uma sacada em madeira que se
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estendia em direção à areia. Mais além, o mar


mediterrâneo cortado por um píer repleto de turistas
era emoldurado por extensas serras.

Pedimos uma seleção de frutos do mar e


salada de entrada. Antes que qualquer um pudesse
começar uma conversa enquanto aguardávamos a
refeição, Alessandra me chamou à toalete. Eu
imediatamente a segui, sabendo que a curiosidade
deveria estar enlouquecendo-a. Ela verificou as
cabines do luxuoso banheiro decorado em tons
claros, como o resto do restaurante. Não tinha mais
ninguém ali.

— Você transou com o Dante? — ela sentou


no balcão de mármore da pia, suas longas pernas
quase tocavam o chão, mas Alessandra ainda

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conseguia balançá-las como uma criança feliz em


manhã de natal. — Achei que o Dimitri não estava
doente de verdade e vocês tinham mentido para
escapar...

Sentei-me no pequeno sofá bege,


preparando-me para o pulo que ela daria quando
soubesse de tudo.

— Sim e sim — respondi, evasiva.

Alê franziu a testa, sem compreender.

— Sim e sim o quê? — seus olhos se


arregalaram. — Você transou com um e depois
com o outro? Sua cachorra! E aí, o Dimitri é bem-
dotado também?

— Não exatamente... — permaneci


esquivando de respostas diretas. Afinal, não era
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todo dia que eu podia me gabar de ter feito um


ménage com dois homens gostosos.

Pensando bem... Eu poderia, se quisesse.

O sorriso nos lábios de Alê murcharam,


sendo substituído por uma expressão de decepção.

— Poxa, Dimitri é pinto de seringa? — ela


parecia verdadeiramente chateada, como se eu
tivesse acabado de esmagar suas fantasias eróticas.

Eu, por outro lado, não conseguia parar de


gargalhar, imaginando uma seringa de um
milímetro entre as pernas de Dimitri. Mesmo a de
dez seria pequena perto dele.

— Eu quis dizer que não fiquei com um e


depois o outro — enfatizei a palavra, esperando que
ela entendesse.
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Seu cenho voltou a franzir enquanto


Alessandra parecia processar a informação. Podia
ver a compreensão em sua feição chocada, com a
boca escancarada. Como esperado, ela pulou do
balcão para sentar ao meu lado.

— Conte-me cada detalhe.

Falei sobre a saída do evento, transar com


Dimitri — que estava longe de ser seringa, para o
alívio de Alessandra —, a chegada inesperada de
Dante e o que aconteceu depois. Uma mulher
entrou no banheiro, mas como falávamos em
português, não interrompi minha história, ela não
entenderia nada mesmo.

— Foi uma decisão sóbria, não estava


bêbada — pensei bem, lembrando das sensações da

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noite passada. — Porém me encontrava inebriada


de desejo.

Alessandra me olhava como se eu fosse


algum ser místico ou a inventora da roda em
tempos primordiais.

— Qual foi a sensação? — ela questionou.

Apoiei minha cabeça no encosto.

— Por um segundo, é assustador, como se


você não pudesse dar conta deles. Depois, qualquer
raciocínio lógico lhe escapa da mente. Eles te
preenchem por completo, estando em todo lugar ao
mesmo tempo — suspirei. — É como se cada
terminação nervosa sua fosse ativada.

— Meu Deus! Eu quero fazer também! —


Alessandra bateu palmas com animação, como se
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estivéssemos falando sobre um passeio no parque, e


não sobre transar com dois homens de uma vez só.
— E eu achando que minha noite tinha sido
espetacular com o Leo Grant!

Ela me contou sobre o experiente ator com


mais de quarenta anos que encantava as mulheres
do mundo todo. Lindo e cobiçado, era um selvagem
na cama, segundo Alê. Ela o conheceu no after
party, a festa depois do evento. Eu senti um pouco
por ter perdido a festa, mas ainda preferia a minha
comemoração.

— Vamos almoçar antes que eles mandem


nos procurar no banheiro, provavelmente estamos
trancadas aqui há meia hora — puxei-a para fora,
caminhando entre risadas e fofocas com minha

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amiga.

De volta à mesa, os rapazes não estavam


preocupados com nossa demora, na verdade,
pareciam bem orgulhosos de si. Provavelmente
chegaram à correta conclusão de que eu estava
contando para ela sobre nossa aventura.

A comida tinha um sabor divino, como


sempre. Conversávamos sobre o Brasil, nossas
carreiras e Pendleton. Nada como um almoço com
seus clientes para descobrir um pouco mais do
ambicioso empresário. Alguns sorrisos doces meus
e de Alê, e os rapazes já estavam contando tudo que
sabiam.

Eu, obviamente, fazia uma nota mental a


cada detalhe importante.

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Dante lambeu a colher da sobremesa


olhando para mim, sua língua passando pelo metal,
lembrando-me de onde ela estivera antes. E de
como me deu prazer.

— Eu tive uma ideia... — ele falou. — Nós


quatro somos uma boa equipe, deveríamos voltar
para o hotel todos juntos.

Ninguém era idiota a ponto de não entender


qual era a sua sugestão. Que Dimitri aceitaria, eu
não tinha dúvidas. Já a Alê... Ela me encarava com
uma sobrancelha levantada. Estávamos prontas
para ultrapassar esta linha em nossa amizade de
anos?

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Capítulo 11 — Despedida

Se tínhamos ou não condições de atravessar


aquela barreira, infelizmente eu não tinha como
descobrir. Ao longo das minhas horas em reunião
com Lúcia mais cedo, recebi pelo celular minha
passagem para Paris.

— Por mais tentadora que a sua proposta


seja, tenho um avião para pegar — beberiquei meu
vinho. — Mas vocês fiquem à vontade para se
divertirem sem mim.

Alessandra deu de ombros, e eu não tinha


certeza se aquilo significava que ela estava
aliviada, animada ou se realmente não se

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importava, desde que os dois homens estivessem


presentes.

— Eu topo! Você não tem como adiar?

— Pois é, Cinthia — Dante passou o dedo


pelos lábios. — Não terá o mesmo sentido sem
você.

Dimitri permaneceu quieto, remexendo em


sua comida com o garfo. Ele levantou a cabeça e
nossos olhares se cruzaram, havia uma estranha
intensidade ali.

O tipo de intensidade que eu não costumava


incentivar.

— Como disse, não posso.

Falei de forma categórica, mostrando que

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mudar minha viagem era algo fora de cogitação.


Pagamos a conta do restaurante sob os protestos de
Dante, que não parava de reclamar sobre como eu
estava sendo intransigente. Ao partirmos para o
hotel, Dante e Alê estavam dispostos a não perder
nenhum segundo e foram no banco detrás do carro,
entre beijos e carícias. Eu os olhava pelo espelho
retrovisor sem culpa: se não quisessem plateia,
teriam esperado pela privacidade do quarto.

Minha boca salivou ao ver a dele descer


pelo colo dela, afastando a delicada blusa bordô um
pouco para o lado e abocanhando o seio direito.
Porra, amaldiçoei minha maldita viagem para Paris!

Pelo jeito, Dante não era tão discreto quanto


Pendleton imaginava, os dois rapazes precisavam

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de uma babá para não darem escândalo em público.


Sorte deles que meu trabalho de acompanhante já
tinha acabado e, com os vidros fumês muito
escuros, sabia que a privacidade da minha modelo
estava resguardada.

Alessandra ajeitou a blusa antes de sair do


veículo, as carícias entre eles diminuíram, mas não
pararam. No elevador, Dante a agarrou em um
beijo quente, seu corpo colado ao dela contra o
espelho.

Olhei para a câmera de segurança, era


improvável que um hotel de luxo desse permitisse
que seus funcionários vazassem imagens dos
hóspedes. Dei de ombros, se, por acaso, caísse na
internet depois, isso só aumentaria a busca por

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Alessandra.

Dimitri, que estava atrás de mim,


aproximou-se. Suas mãos foram diretamente para
minha cintura, e ele me puxou, grudando minhas
costas contra o seu peito. Esqueci de câmeras,
seguranças e internet ao sentir sua ereção dura
contra a minha bunda. Ele beijou meu pescoço, a
barba incipiente fazendo cócegas contra a minha
pele.

— Tem certeza que precisa ir? — seus


dentes encontraram minha carne, mordendo-me no
ombro. — Não pode adiar a passagem? Eu iria te
satisfazer o dia inteiro e nem ia cansar.

Ah, como eu queria! Mas eu tinha


compromissos em Paris. O elevador apitou no

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nosso andar e saímos sem falar nada. Minha boca


não conseguia verbalizar a negativa guiada pela
responsabilidade: eu não podia ficar.

Beijei Dimitri, num toque rápido e casto de


lábios fechados, e parti para meu quarto sem falar
adeus. De outro modo, a luxúria queimando em
mim transformaria a razão em cinzas.

No quarto, a pequena muda de íris


começava a perecer. Da minha bolsa, retirei um dos
papéis do bloco de notas da ML que sempre levava

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comigo e rabisquei em francês as instruções dadas


pelo florista. Talvez alguma camareira a
encontrasse e cuidasse dela apropriadamente.

Coloquei a mala em cima da cama, sendo


assaltada pelas memórias da noite anterior e
imaginando Alessandra no meu lugar. Estariam
beijando minha amiga agora? As mãos deles
passeando pelo corpo dela, excitando-a?

Soltei um suspiro alto. Talvez eu devesse


tentar passar mais algum tempo em abstinência,
minha mente estava muito dominada pelo sexo!

Dobrei as poucas roupas espalhadas pelo


quarto, faltavam três horas para a decolagem, e o
aeroporto ficava a menos de dez quilômetros de
distância. Eu chegaria cedo, evitando imprevistos.

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A echarpe preta estava jogado no chão,


descartada. Peguei-a, sentindo a textura da renda
nos dedos.

— Eu estava pensando... Não me despedi de


você.

A voz masculina me assustou, e eu dei um


gritinho junto de um pulo de medo. A venda
improvisada caiu em cima da cama, e eu encarei o
invasor. Meu coração acelerou, mas não de pavor.

— Você quer me matar de susto? — joguei


o vestido de qualquer jeito na mala e me apoiei na
parede.

— Me desculpe, entrei com minha chave,


não tive intenção de assustar — Dimitri caminhou a
passos decisivos até mim, suas mãos enormes
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foram para a minha cabeça, cobrindo quase


totalmente cada lateral do meu rosto. — Eu não
podia deixar você ir embora assim.

Seus lábios tomaram os meus com


voracidade e, como na noite anterior, em um
momento estava em pé, no outro, me encontrava
novamente de costas no colchão, com aquele
homem lindo entre minhas pernas, adorando o meu
corpo com o seu.

Dimitri pousou a mão em cima do lenço e o


segurou firme, e eu logo estendi os pulsos unidos.
Ele os amarrou e me virou na cama. Com sua
ereção esfregando contra minha bunda, Dimitri
desferiu um tapa e puxou minha cabeça para trás
pelos cabelos.

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— Você tem um voo para pegar — ele


separou minhas coxas com os joelhos. — Então não
se segure, eu não vou me segurar.

Eu deixaria a abstinência para outro dia.

Provavelmente nunca.

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Capítulo 12 — Paris

O rio Sena brilhava sob as luzes da lua e da


cidade, havia chovido mais cedo e o frio penetrava
pelo meu casaco. Esfreguei uma mão na outra para
aquecer os dedos congelados, apesar das luvas de
lã.

Notre-Dame e suas imponentes gárgulas se


agigantavam diante de mim à medida que
caminhava em sua direção. Eu gostava de andar
pelas ruas da Île de la Cité, uma das duas pequenas
ilhas no coração de Paris, me sentia em um filme
romântico antigo. Por isso sempre ficava no hotel
D’Aubusson, onde eu poderia ir a pé para admirar a

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catedral.

Nos jardins de Notre-Dame, pisei na estrela


gravada no chão, o Marco Zero, onde tudo
começou. Olhei para cima, desejando estar no
campanário entre as gárgulas de pedra.

— Nunca imaginei que você fosse do tipo


religiosa — Dimitri me abraçou por trás,
aquecendo-me um pouco com o calor do seu corpo.
— Pensei que seria mais do tipo Torre Eiffel.

Eu virei a cabeça de lado e beijei seus lábios


antes de voltarmos a caminhar entre os jardins.

— Você quer dizer o falo gigante de ferro?


— dei de ombros. — Eu gosto, sou muito a favor
de falos gigantes — olhei para ele de forma
sugestiva, e Dimitri sorriu. — Mas prefiro o clima
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medieval daqui. A gente pode ver o local onde o


último grão-mestre dos templários foi queimado em
praça pública ou então a igreja onde mantiveram
Maria Antonieta presa antes de ser decapitada e
tantas outras coisas legais.

Dimitri franziu o cenho e me olhou como se


eu tivesse criado duas cabeças.

— Você conseguiu extinguir todo o


romantismo de Paris!

Dei uma cotovelada em sua barriga, mas ele


provavelmente nem deve ter sentido, considerando
o sobretudo enorme que usava por cima de duas
blusas de lã.

Aqueles que eu havia mencionado eram


grandes líderes, e outras pessoas tiraram não apenas
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o seu poder, mas também suas vidas. Não importa


quão alto estejamos, ninguém é inalcançável. Esta
era a razão para me isolar e não deixar outros se
aproximarem. Eu sempre me sentia sozinha em
meio a uma multidão.

Olhei para a catedral mais uma vez,


pensando em como responder a Dimitri.

— Me faz lembrar que qualquer um pode


cair — apontei para as antigas gárgulas no alto das
torres de Notre-Dame. — Porém, se você tiver uma
visão mais ampla, enxergar mais longe e for feroz,
ninguém te derrubará.

Aquela era a minha segunda estratégia: o


ataque era a melhor defesa.

Ele seguiu a direção apontada pelo meu


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dedo e digeriu a analogia enquanto observava as


estátuas.

— Então você quer ser como elas? —


Dimitri voltou o olhar para mim. — Fria, de pedra
e inalcançável?

Em outro momento, eu teria concordado


sem pestanejar. Queria ser distante e estar acima de
todos, onde ninguém pudesse tocar em mim ou em
minha empresa. No entanto, com seus verdes olhos
perfurando a minha alma, eu começava a me ver
presa naquela esmeralda sem fim, sem saber como
escapar do desejo daquela presença.

Nem ao menos tinha certeza se pretendia


escapar dele.

Diante do meu silêncio, Dimitri me beijou.


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Seus lábios provocantes nos meus, a exigente


língua pedindo passagem. E sob o vigilante olhar
das centenárias gárgulas, eu me derreti em seus
braços.

Era estranho como os planos poderiam


mudar. Eu tinha acabado de rejeitar sexo a quatro
em Cannes e pensava que viajaria sozinha para
Paris. De repente, me vi na cama com Dimitri
decidindo que uma viagem para a capital francesa
parecia mais interessante do que um cruzeiro pela
costa europeia.

Não sabia ao certo como Dimitri havia me


convencido a trocar minha reserva no hotel de uma
pessoa para duas. Provavelmente, tinha algo a ver
com ele dizendo que não estava saciado de mim.

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Dimitri perdeu sua passagem para o cruzeiro


e nós partimos em um avião para Paris. Mais cedo,
depois da curtíssima viagem, fomos direto ao hotel
e não saímos do quarto. Nosso tempo foi gasto
entre lençóis de algodão egípcio, até a fome nos
obrigar a dar uma volta pela cidade.

— A gente podia ter pedido comida no


quarto, sabe? — ele mordeu minha orelha.

Inclinei a cabeça, dando acesso livre ao meu


pescoço, onde ele salpicou beijos antes de lembrar
que estávamos em público. Dimitri segurou minha
mão, conduzindo-me de volta às margens do rio
Sena. Um navio iluminado estava ancorado e casais
subiam nele, animados com o passeio.

— Não... precisamos andar um pouco, ou

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ficaremos enjoado um do outro muito rápido —


pisquei um olho para ele. — E aí você terá perdido
seu cruzeiro por nada.

— A gente pode jantar ali, assim você me


compensa pelo passeio perdido — ele apontou para
a embarcação que eu observava segundos antes.

Estaquei de forma tão abrupta, que Dimitri,


ao continuar andando, foi puxado para trás por
nossas mãos conectadas. Inicialmente, ele riu da
minha reação, mas quando me olhou de perto,
aproximou-se, preocupado.

— Ei, o que eu falei de errado? — ele tocou


em minha pele. — Você está mais fria e pálida,
vamos sentar.

Eu odiava me sentir fraca, principalmente


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em público, mas era assim que eu ficava quando


estava tão perto de um barco e me imaginava
subindo nele. O medo era algo irracional e
debilitante. Incontrolável.

Respirei fundo umas três vezes para acalmar


meu coração acelerado, engolindo o pavor antes
que ele tivesse condições de realmente se
manifestar. Dimitri me indicou um dos bancos nos
jardins da catedral, e sentamos um ao lado do outro
em silêncio. Encarei os meus pés, buscando as
palavras certas.

— Desculpa, tive um trauma com barcos na


infância e às vezes ele volta para me assombrar —
ele abriu a boca para falar, mas eu o interrompi. —
Antes que você me encha de perguntas, já fiz

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terapia e me ajudou bastante, consigo entrar em


piscina e até adoro entrar no mar. São os barcos que
me deixam assim.

Ele se recostou no banco de madeira e olhou


na direção do rio, onde o navio ainda devia estar
ancorado. Sua atenção se voltou para mim.

— Ia te convidar para tomar um vinho, não


pretendia “encher de perguntas”.

— Seria o primeiro — falei mais para mim


do que para ele.

Entretanto, Dimitri ouviu.

Imitei sua posição, recostando-me no banco


e aproveitei para apoiar minha cabeça no encosto.
O céu de Paris brilhava com milhares de estrelas
para mim. Fechei os olhos, sentindo a leve brisa
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contra o suor frio que se apoderara de mim.

Um delicado beijo em cada uma das minhas


pálpebras fechadas me fez encarar o homem ao
meu lado, meio que pairando sobre mim.

— Eu gostei.

Levantei uma sobrancelha, sem entender


direito:

— Você gostou de me ver ter um pequeno


ataque?

— Sim — ele ergueu levemente os ombros


e explicou: — Te deixou mais humana, como todos
nós, reles mortais.

Com aquilo, sentei-me ereta e segurei a


gargalhada que queria escapar da boca.

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— Ah, sim! Falou o reles mortal que é um


ator vindo da Rússia, com quase dois metros de
altura, lindo, gostoso, desejado, vencedor de duas
estatuetas no festival de Cannes!

— Sabe, você é até legal quando não é uma


megera metida — ele disse, puxando-me para
perto, seu nariz contra a curvatura do meu pescoço
e a barba de dois dias arranhando minha pele.

Coloquei a mão em seu rosto, sentindo o


queixo quadrado sob minha palma, e Dimitri
inclinou levemente a cabeça, em direção ao meu
toque. Deslizei meu polegar pela maciez de seus
lábios. Os olhos verdes, agora escuros por causa da
pouca iluminação, me encaravam com intensidade.

— Você até que é legal quando não é um

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bad boy arrogante.

Ficamos ali, conversando bobagens às


margens do rio Sena. A presença reconfortante de
Dimitri até me fez esquecer do navio zarpando com
seus passageiros para um dos mais românticos
passeios de Paris.

Um que eu nunca iria ver, mas não me


importava nenhum pouco.

Jantar em terra firme com Dimitri era uma


opção muito melhor.

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Não fui a Londres.

Os dias seguintes passaram voando,


divididos entre passeios por Paris e horas na cama.
Visitamos a sede parisiense da Vogue e além de
uma conversa animada com a Anne-Marie,
terminamos concedendo uma entrevista à famosa
revista. Pelo menos, compensaria Pendleton por
Dimitri não ter ficado o evento inteiro em Cannes.

Era o quinto dia em Paris e sétimo em que


eu estava fora do Brasil, minhas férias chegavam ao
fim. Não haveria mais passeios às margens do
Sena, visitas ao campanário de Notre-Dame ou
jantares no segundo andar da torre Eiffel.

Também não haveria mais Dimitri...


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Ele iria para a Rússia, visitar a família.


Apoiei a cabeça no travesseiro e o observei
dormindo. Ele parecia tão pacífico e relaxado, com
os cabelos caindo pelo rosto.

Nos últimos dias, conheci um Dimitri


diferente daquele apresentado na televisão. Era
intenso, lindo e charmoso, mas havia várias
camadas por trás: cuidado, gentileza, senso de
humor. Sentia como se Dimitri atuasse o tempo
todo, como se o ator grosseiro e problemático não
passasse de mais um dos seus papéis. Segundo ele,
o bad boy rude vendia mais do que o bom moço.

Descobrir essas coisas era curioso para


mim. Eu tinha amigos e conhecidos, colegas de
trabalho, homens e mulheres, contudo era raro eu

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manter um laço e até uma conversa normal com


uma pessoa depois de transar com ela.

Quando eram os rapazes do “teste do sofá”,


nossa interação se restringia a sexo e negócios.
Nenhum jamais havia sentado comigo para tomar
um café, desperdiçando uma tarde de sexo
selvagem a três com uma top model em terras
francesas ou desistido de um cruzeiro para viajar ao
meu lado.

Verifiquei a hora no celular, constatando


que a soneca após o primeiro sexo da tarde
precisava acabar. Sentei na cama, tirar férias tinha
me deixado mole: eu nem tinha partido, e já havia
um sentimento de nostalgia por Paris em meu peito.

Era só uma cidade.

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Eram só cinco dias.

Era apenas um homem.

Antes que eu pudesse levantar, um braço


forte me segurou pela cintura e me puxou de
encontro ao colchão. Dimitri montou em cima de
mim, seu semblante sonolento desaparecera, sendo
substituído por uma expressão indecifrável. Ele
acariciou meu rosto e encostou minha testa na sua.

— Sentirei sua falta — disse entre beijos


salpicados em minha face, terminando com um na
boca que me impedia de responder.

Eu sentiria falta dele também.

Suas mãos se prenderam nas alças de minha


camisola, descendo-a até expor meus seios. A boca
atrevida deixou um rastro de beijos pelo meu
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pescoço, indo em direção ao mamilo intumescido.


Dimitri me adorou com lábios, mãos e dentes antes
de me penetrar com força, fazendo-me esquecer de
qualquer coisa que não fosse aquele homem e o que
ele me fazia sentir.

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Capítulo 13 — Descoberta

Não compreendia como nos sete dias em


que estive ausente, minha mãe conseguiu atrasar
quase dois meses de trabalho. Ela autorizou
serviços e propagandas demais na mesma semana
do Fashion Week, desorganizou o esquema de
rodízio de modelos que eu havia preparado e fez
alguns contratos abaixo do nosso padrão. Minha
sorte era Lúcia, sempre ao meu lado e me ajudando
— contanto que eu não parasse de contar e recontar
sobre o ocorrido em Cannes e em Paris.

Nas últimas cinco semanas, trabalhei sem


descanso. Minha boca se abriu em um enorme

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bocejo, tirar férias me deixou mesmo mole, nunca


senti tanta sonolência na vida!

— Senhorita Grimaldi — Júlia me chamou


pelo intercomunicador. — O senhor Rodrigues está
aqui.

Imediatamente, observei o homem pelo


monitor da câmera de segurança e autorizei sua
entrada. Por volta de cinquenta anos, mas com
rosto de setenta, ele entrou em meu escritório em
seus jeans surrados, tênis Converse mais velhos do
que a maioria dos meus modelos contratados e uma
camiseta comum, de loja de departamento.

José parecia um tiozinho querendo ser


jovem. Ele passou a mão pelos cabelos escorridos e
meio oleosos e empurrou os óculos quadrados —

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muito grandes para o seu rosto — contra a ponte do


nariz.

Não havia nada de extraordinário em José


Rodrigues. Um homem comum, meio franzino e
que poderia se perder facilmente em meio à
multidão. Este era o seu objetivo: não ser notado.

Rodrigues, sempre astuto, mantinha a


aparente fragilidade apenas como um disfarce, uma
casca para esconder seu verdadeiro cerne, seu
interior, de olhos curiosos. Um dos melhores
detetives particulares que a cidade tinha a oferecer.

Sabia disso porque mais de vinte anos antes,


meus pais o contrataram para vigiar um ao outro.
Os dois estavam traindo e nenhum queria ser traído.
Seria engraçado, se não fosse tão hipócrita.

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Resultou em um natal bem peculiar na


mansão Grimaldi. Eu era jovem e depois de
presenciar meus pais se acusando, com provas em
mãos de como o casamento deles era pura fachada
para as capas de revista, percebi que o prazer do
sexo sempre seria mais importante do que o amor.

Desde aquele dia, pautei a vida nos três


elementos importantes para a minha família: sexo,
dinheiro e poder. Anos depois, eu havia me tornado
uma Grimaldi exemplar e costumava usar os
serviços do senhor Rodrigues com frequência.

Afinal, conhecimento era poder.

— Conseguiu as informações solicitadas?


— questionei, apesar de saber a resposta. Se ele
tinha vindo até mim, era porque já o serviço estava

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finalizado.

Acostumada com sua agilidade, me


surpreendi ao segurar a pasta com cada detalhe
pedido, quase um mês depois de ter sido solicitado.

— Foi difícil. As redes sociais geralmente


fazem metade do meu trabalho, porém, neste caso,
me atrapalharam. Encontrar a verdade oculta atrás
de tantas mentiras foi um desafio maravilhoso,
quase me sinto mal por cobrar — ele falou em tom
de piada, e o canto de sua boca se levantou em um
sorrisinho.

Seus olhos astutos, entretanto, mostravam


que não tinha humor algum ali. Eu conhecia o caso
de um empresário que tentou enrolá-lo e teve todos
os seus podres vazados na internet. O caloteiro

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perdeu a empresa, a esposa e a reputação.

Sem pestanejar ou verificar o conteúdo do


envelope, abri a gaveta e de lá tirei um maço grosso
de notas de cem embrulhadas no que parecia ser um
pacote de padaria. Tinha certeza que padaria
nenhuma entregava aquele tipo de pão...

— Obrigada pelo serviço — agradeci,


dispensando-o.

Esperei Rodrigues sair e o observei se


afastar pelo monitor de segurança. Eu me sentia
culpada por usar subterfúgios para invadir a
privacidade de Dimitri, ainda que aquela sensação
tenha sido inédita. Eu não era do tipo que tinha uma
consciência para sentir pesar. Se um dia tive um
“Grilo Falante” em meu ombro, ajudando-me a

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discernir o certo do errado, ele desaparecera ainda


na infância.

Soltei o envelope e pressionei as têmporas


com as pontas dos dedos, fazendo pequenos
círculos. Uma dor de cabeça começava a se formar,
somando-se ao sono quase incontrolável.

Antes de partir, Dimitri e eu trocamos o


número de nossos telefones. E, desde então,
tínhamos conversado por mensagem quase todos os
dias, quando eu chegava em casa cansada demais
para pensar em festas ou outras formas de
socializar.

Apesar de todos os momentos que passamos


juntos, fiquei impressionada em como ele era bem
mais eloquente na palavra escrita do que na falada.

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Provavelmente porque pessoalmente, sua boca


estava ocupada demais saboreando meu corpo para
se preocupar em formular frases.

Fechei mais as pernas, sentindo a excitação


crescer. No final das contas, eu estava fazendo a
abstinência prometida em Cannes forçadamente em
prol da empresa.

Foi quando notei que ainda segurava o


envelope entre os dedos, provavelmente com mais
força do que deveria.

Era tarde demais para voltar atrás, havia


acabado de pagar uma soma alta por aquelas
informações e deveria verificar seu conteúdo. Abri
o grande relatório com o coração acelerado e, ao
contrário do esperado, havia quatro pastas dentro.

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Espalhei-as em cima da mesa.

Incrédula, encarei os nomes.

— Júlia — chamei no intercomunicador. —


Não passe nenhuma chamada nem libere visitas, eu
não quero ser interrompida pelas próximas horas,
ok?

Podia sentir a hesitação dela através da


linha:

— E se for urgente?

— Resolva, eu confio em você — disse e


desliguei em seguida.

Comecei pela pasta de Pendleton, os


maiores podres deveriam estar ali. Eu não sabia se
ficava surpresa ou não com o que lia: o empresário

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não estava tão bem como queria aparentar. Dois


processos de assédio finalizados rapidamente e em
sigilo, antes que pudessem alcançar a mídia.
Quebra de contratos e dívidas com agiotas, ele
tinha uma queda por jogos de azar.

Marcos, o motorista bonitinho e educado de


nariz extravagante, era na verdade membro de uma
gangue. Ele estava ali supostamente para garantir
que Pendleton não fugisse para terras estrangeiras
sem pagar a dívida. O empresário informara aos
chefes do rapaz que havia feito um grande
investimento em Cannes, porém Rodrigues não
conseguiu descobrir qual.

Aquilo não fazia o menor sentido!

Talvez ele quisesse leiloar as estatuetas de

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ouro?

Passei para a pasta de Dante e fiquei ainda


mais chocada. O bom moço carismático e garoto de
ouro, de bom, não tinha nada. Sexo, droga, bebidas
e destruição de quartos de hotel coloriam o
currículo do rapaz. Pendleton provavelmente
gastara uma grana para manter aquilo em sigilo, os
casos mostrados nas revistas não cobriam um
quinto da verdade.

Mas se ele fez isso pelo Dante, por que não


fez por Dimitri?

O papel dizia que Dante fizera reabilitação


no início do ano, mas Pendleton falou que tinha
sido Dimitri! Talvez Rodrigues tenha trocado os
nomes... Abri a pasta do russo, lendo que ele

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participou da destruição do quarto de hotel e teve


um leve problema com álcool, mas não precisou de
reabilitação.

Quando Dimitri me ofereceu vinho na


primeira noite em Paris, eu perguntei sobre a
reabilitação. Ele disse que estava bem, uma taça
não tinha problema. Mesmo assim, insisti em
bebermos suco. Naquela noite, Dimitri não mentiu,
pelo visto: ele não tinha problemas com álcool.

Peguei meu celular e, no terceiro toque,


Rodrigues atendeu.

— Tem certeza que as pastas de Dimitri e


Dante estão corretas? — questionei sem dar um
cumprimento sequer.

— Está duvidando do meu trabalho,


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senhorita Grimaldi? — seu tom era duro, descrente.


— Sim, tenho certeza. Não saberia dizer o motivo,
mas Dimitri encobriu o amigo. Era o nome dele na
papelada da clínica de reabilitação, porém eu
hackeei o sistema e vi uma filmagem da câmera de
segurança. Dante esteve lá, o ator russo nunca
pisou na clínica.

Desculpei-me pelo questionamento. “Bad


boy vende mais”, uma vez Dimitri dissera. Movida
pela curiosidade e desconfiança, continuei a ler a
pasta de ambos. Uma cópia do contrato deles com
Pendleton estava lá e era uma merda, o empresário
detinha a vida profissional dos dois e sugava tudo o
que podia deles.

Já tinha visto contratos como aqueles,

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geralmente feito por agentes sem escrúpulos e


assinados por artistas novos, deslumbrados por
terem sido notados e tão desesperados em
conseguir uma oportunidade, que aceitavam
qualquer coisa. Eu podia ter todos os defeitos do
mundo, porém não era uma exploradora de sonhos
alheios, meus contratos eram vantajosos para
ambos os lados.

Pendleton detinha todos os direitos dos


atores, e eles eram dois dos poucos clientes que
ainda não tinham o processado ou conseguido se
livrar de suas garras. Devia tanto dinheiro, que
mesmo Dimitri e Dante fazendo sucesso, não era o
suficiente para pagar a dívida. O que impedia
Pendleton de desmoronar provavelmente era sua

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bem estruturada rede de contatos e parcerias.

E onde eu entrava nisso tudo, por que se dar


ao trabalho de me levar lá com um contrato
milionário? Ele ganhava muito mais chamando
uma pessoa qualquer e comandando as
propagandas por conta própria!

Senti um embrulho no estômago e fechei os


olhos ao pegar a quarta pasta. A resposta estava ali,
podia sentir isso. Tinha medo do seu conteúdo, pois
sabia que uma vez quebrada a minha confiança, ela
nunca mais ficaria inteira novamente, e eu teria que
fazer aquela pessoa sofrer as consequências.

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Capítulo 14 — Realidade

Um dos maiores medos de todo CEO era


descobrir que havia ratos em sua empresa.

Após alguns dias processando aquele golpe,


decidi que era hora de montar uma armadilha. A
temporada de caça aos ratos estava aberta!

Se eu quisesse retomar o controle, precisaria


fingir ignorância e continuar a agir normalmente.
Mesmo que uma tormenta estivesse se formando
dentro de mim, usava uma máscara que mostrava
estar tudo bem.

Lúcia e eu conversávamos tranquilamente


no meu escritório enquanto fazíamos a escolha dos

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modelos do Fashion Week. Ela pedia que eu falasse


de novo sobre os meus últimos momentos com o
galã russo.

— Você já sabe de tudo, até demais —


enfatizei o final com um sorriso, pois, na
empolgação, tinha contado sobre Alê e Dante se
agarrando no carro, mesmo não sendo muito fã de
fofocas.

O intercomunicador emitiu um bip, e antes


de atender ao chamado da secretária, olhei o
monitor. Uma ruiva de pernas longas e um vestido
curto acinturado de alta-costura se encontrava
parada em frente à Júlia, em pé e aguardando sua
vez de entrar.

Falando no diabo...

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— Mande Alessandra entrar, Júlia — avisei


pelo aparelho. — E obrigada.

Alessandra entrou no escritório em toda sua


exuberância, como se estivesse andando em uma
passarela. Ela levantou uma sobrancelha para a
quantidade de fotos espalhadas em cima da mesa.

Lúcia apontou para a cadeira ao lado dela.

— Sinta-se à vontade para ajudar.

— Você foi selecionada para três desfiles e


uma propaganda — mostrei a foto do portfólio
dela, com um post-it em cima. — Por enquanto.

Ela sentou no lugar indicado, analisando os


desfiles para os quais a agência fora contratada.

— Então — Lúcia lançou um olhar

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sugestivo para a amiga. — As férias foram boas,


hein?

Alessandra olhou dela para mim e


entreabriu a boca, com as mãos na cintura.

— Sua cachorrona! Já contou tudo? — ela


me acusou corretamente.

— Tudo não — eu me defendi. Com o


aporte de trabalho e as últimas descobertas, eu não
havia conseguido falar com ela ainda. — Não sei
como foi com vocês depois que eu parti de Cannes
— completei com um sorriso nos lábios e um
amargor na boca.

— Quer dizer depois que você interrompeu


o nosso pequeno ménage? — ela me olhou de
esguelha.
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— Ué, como assim? — ouvi Lúcia


perguntar e voltei a me concentrar nas garotas.

Virei-me para Alessandra:

— Eu não interrompi nada.

— Dimitri pulou fora do ménage logo no


início! — Alessandra olhou exasperada para a
gente. — Nós três entramos no quarto, Dante não
parava de me beijar. Eu mandei os dois sentarem
no sofá enquanto eu fazia um pequeno show de
strip. Eles pareciam apreciar, e quando sentei no
colo de Dimitri e o beijei, ele retribuiu por um
segundo. Porém, de repente, se levantou e me
colocou em pé, dizendo que eu e Dante deveríamos
nos divertir sem ele.

Isso aconteceu porque ele foi para o quarto


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se despedir de mim. Pela primeira vez, transamos


sem nada de inusitado: apenas um homem e uma
mulher, até ambos gozarem de prazer. Apenas com
o detalhe da echarpe de renda amarrando meus
pulsos. Todos sabiam o que tinha acontecido
depois, Dimitri me acompanhou até Paris,
abandonando Dante, Alessandra e o cruzeiro que
eles fariam juntos.

Sorri para esconder a carranca que queria se


formar. Eu pensei que Dimitri era um cara legal e
fingia ser bad boy para as câmeras, mas era o
oposto. Caí como idiota em sua atuação de bom
moço.

— E vocês se divertiram no cruzeiro? —


Lúcia perguntou com os olhos brilhando de

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curiosidade.

— Claro, e eu terminei fazendo o ménage


com um carinha lindo do navio — ela se abanou de
forma dramática e nos olhou com um ar sugestivo.
— Dante está no Brasil, a gente poderia marcar
alguma coisa com ele...

— A gente quem? — Lúcia arregalou os


olhos. — Nós três e ele?

Alessandra balançou a cabeça, confirmando.

Hum, aquilo poderia ser exatamente o que


eu precisava. Bati as unhas contra a mesa, um plano
se formando em minha mente.

— Dimitri estará lá também? — perguntei.

Imediatamente, me senti uma idiota pelo

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estúpido acelerar do coração.

Precisava me lembrar: o Dimitri que


conheci, fiz sexo e andei ao lado pelas ruas de Paris
não era verdadeiro. Ele esteve me manipulando o
tempo todo, e eu, alguém que acreditava não ser
tola, caí na dele.

— Você vai dividi-lo? — Alessandra


questionou, e as duas estavam ansiosas pela minha
resposta. Em relação a homens, nunca fui do tipo
possessiva. Afinal, jamais me importei muito com
nenhum.

Devolvi sua pergunta:

— E você, vai dividir o Dante?

— Claro — ela deu de ombros. — Como te


falei, ele não passa de um amigo muito íntimo.
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Se minha intuição estivesse certa, veríamos


isso em breve.

— Por mim, pode marcar — disse com voz


decidida.

Lúcia, boquiaberta, não conseguia esconder


o espanto. Compreendia seu choque: desde que
Pendleton entrara naquela sala com uma proposta
suspeita, eu havia entrado em um universo paralelo
também. Sua cabeça loira se virou para cada canto
do escritório.

— Isso é alguma pegadinha? Só eu estou


achando surreal a tranquilidade de vocês? — ela se
levantou, ultrajada. — Sei que pode ser natural para
as duas, mas eu não me sinto à vontade com isso!
— Lúcia colocou a mão na cintura e bateu o pé, ou

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melhor, o stiletto no chão. — Então eu posso só


assistir? Sempre quis tentar o lance voyeur. Se eu
cansar de observar, entro na brincadeira.

Era a vez de Alessandra e eu ficarmos


boquiabertas, observando Lúcia sentar com toda
sua classe, como se não tivesse dito nada e nos
presentear com um doce sorriso inocente.

Gargalhei e não era parte da minha atuação,


por um momento acreditei que a gerente estava
realmente indignada.

— Pode marcar para a próxima semana, no


sábado — disse para a top model. — Será um
grande dia.

Alessandra levantou-se e se despediu,


partindo do escritório quase saltitante. Esperei que
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ela saísse do prédio, mudando a câmera de


segurança ativa no monitor para acompanhar cada
passo seu. Quando a vi pisar na calçada, voltei
minha atenção para Lúcia, que continuava
selecionando portfólios.

Depois de me tornar CEO da ML, eu me


mantive fria e distante de outras pessoas,
principalmente desconhecidos. Minha intenção era
me proteger de possíveis aproveitadores, mas não
foi o suficiente.

— Preciso do contrato de propaganda do


Dante e do Dimitri — falei para Lúcia. — E peça
para Júlia chamar o Rodrigues de volta, tenho mais
um serviço para ele.

Estava prestes a ultrapassar um limite que

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nunca cheguei perto de atingir antes, porém, para


eliminar a ameaça que Pendleton representava, eu
precisaria jogar tão sujo quanto ele.

Pretendia fazer isso sem descer do meu


belíssimo salto alto.

Com o controle remoto em mãos, fui


mudando a imagem do monitor, passando por cada
câmera de segurança espalhada pelo prédio: os sets
de filmagem, o setor gráfico, os camarins, o
laboratório de revelação, a sala de reuniões, o palco
com passarela para testes e pequenos desfiles, o
saguão, o porteiro, a cozinha e tantos outros setores
da empresa.

Todos os funcionários ali presentes foram


escolhidos pessoalmente por mim, após terem sido

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aprovados pelo RH. Eu sabia um pouco da vida


deles, como a do faxineiro que varria o chão para
pagar o tratamento da filha e recebia um bônus para
a compra de remédios ou a recepcionista que lutava
contra a bulimia.

Cada um tinha sua história, e o emprego


deles estava em minhas mãos, dependia
exclusivamente de mim. Porque a ML Agência e
Produções não era apenas uma empresa, era a
minha vida e família. Eu faria de tudo para protegê-
los.

O celular tocou, e o número de Dimitri


piscou na tela. Pensei em rejeitar a ligação ou
talvez só xingá-lo de todos os nomes possíveis, mas
o jogo não tinha acabado ainda e eu continuaria

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fingindo até a cartada final.

— Você concordou em um encontro com


Dante? — ele perguntou à guisa de cumprimento.

Encostei-me na poltrona e a girei,


observando a imensidão da cidade e seus prédios de
concreto através da parede de vidro.

— Por quê? — questionei com a voz


tranquila e controlada. — Quer participar também?

Eu o ouvi bufar do outro lado da linha. Dias


antes, talvez eu ficasse feliz em vê-lo demonstrar
um resquício de ciúmes, como se me dividir com
outro homem não parecesse tão simples como
antes.

Cheguei a imaginar que eu pudesse


representar algo a mais além de sexo para ele.
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— Não vá, por favor — ele suplicou, e eu o


odiei.

Lágrimas se formavam no canto dos meus


olhos. Odiei Dimitri e sua maravilhosa atuação, o
odiei por ter me manipulado, por ter atravessado a
muralha de aço e concreto em volta do meu coração
e por ter me feito sentir e sonhar com coisas que
nunca pensei antes.

E eu me odiei também por ter baixado a


guarda perto dele.

Podia ver meu reflexo no vidro, com o rosto


avermelhado e as lágrimas que começavam a
deslizar pela face. Eu nunca chorava normalmente.
Contudo, minhas emoções pareciam sempre à flor
da pele desde a viagem para Paris.

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Sentia-me mal por não permanecer sempre


firme e fria diante daquela situação, como sempre
fiquei diante de tantos outros obstáculos. Pensando
bem, eu nunca tinha sido traída daquela forma, e
não me referia apenas a Dimitri.

Eu ainda precisava respondê-lo. O tom saiu


firme, apesar da tormenta em mim:

— Eu vou.

— Porra! — ele desligou o telefone.

Com o cenho franzido, encarei o aparelho.


Aquela tinha sido uma ligação estranha! Levantei-
me e encostei a testa no vidro, vendo as pessoas na
calçada como formiguinhas. O chão, lá embaixo,
pareceu subir e descer, e minha visão turvou com
uma vertigem que se apoderava de mim.
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Virei-me, ficando com as costas contra o


vidro, e escorreguei até o piso, onde apoiei minha
testa nos joelhos dobrados. E ali, sentada no chão,
no topo de um prédio do centro da cidade, eu, uma
CEO de sucesso, se permitiu chorar por uma traição
vinda de dentro do pequeno grupo de pessoas que
participavam da minha vida. Aquilo me partia por
dentro.

Derramar lágrimas, entretanto, não


resolveria meu problema. Eu tinha uma semana
para fazer o plano infalível e ser mais esperta do
que meus inimigos.

E o tempo estava passando.

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Capítulo 15 — O plano

Eu não costumava ser uma pessoa ansiosa,


porém aquela semana tinha sido um teste de
paciência. Entre reuniões, advogados, contratos e
acordos, eu me sentia exausta. Minhas forças foram
drenadas, e o cansaço fazia meus ossos pesarem.
Nem me alimentar direito eu conseguia e, por causa
disso, tonturas continuavam a anuviar minha
mente.

Dimitri me ligou mais uma vez, tentando me


persuadir a não participar do encontro com Dante.
Porém, ele não me deu um bom motivo para tal e,
mesmo que desse, eu tinha meus planos.

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No sábado, eu e Lúcia fomos a um spa.


Queria estar perfumada, relaxada e perfeita para a
minha noite de glória. Por volta das dez horas da
noite, paramos o carro em frente à casa de Dante.
Ela ficava em um condomínio de porte médio
dentro de um bairro luxuoso.

De dois andares e branca com janelões


fumê, a casa se agigantava contra o céu noturno e
os terrenos vizinhos, sem nenhuma casa construída
ainda no entorno. Dei uma última olhada para
Lúcia, que observava a casa sem ficar muito
impressionada, assim como eu. Ela abraçou sua
enorme bolsa retangular de couro branco e me
encarou de volta:

— Tem certeza que quer fazer isto?

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Não tinha, mas era preciso.

— Sim.

Respirei fundo antes de sair, checando mais


uma vez o banco detrás do carro.

Dante, em jeans e uma camisa de botão


azul, dobrada na manga, me recebeu na porta com
um sorriso fácil no rosto. De todas as coisas que
passei naquela semana, abraçá-lo e dar um beijo em
sua bochecha foi uma das mais difíceis de fazer.

Alessandra, em um provocante vestido preto


com um decote profundo que chegava até o meio
de sua barriga, estava sentada com uma taça de
vinho na mão. Os cabelos avermelhados caindo
pelo ombro combinavam perfeitamente com a pele
alva e os lábios de rubi.
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Ela dobrou as pernas, e notei o delicado


tecido aberto em uma fenda na altura de suas coxas,
que deixava pouco para a imaginação. Afinal, eu
conseguia ver que Alê tinha se depilado
recentemente, e não estava me referindo às pernas.

Praticamente nua, Alessandra pousou a mão


no joelho do homem sentado ao seu lado. Ele era
uma variável que eu não tinha contado em meus
planos. Todo vestido em preto e com uma barba
mais espessa do que a última vez que o vira no
aeroporto de Paris, mais de um mês antes, Dimitri
me encarou com olhos sombrios.

Havia algo nele que me atraía como uma


mariposa à luz, e assim como o infortuno inseto, eu
me queimaria se ousasse encostar em Dimitri.

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Cumprimentei a todos com voz sedutora e cara de


quem quer dar, como as que usava nas minhas
antigas propagandas de lingerie.

Lúcia estava nervosa e não conseguia


esconder o sentimento, que escorria por suas
feições e trejeitos. Entretanto, os presentes na casa
provavelmente pensavam que era ansiedade pelo
sexo louco prestes a acontecer. Seria normal o seu
nervosismo.

Um vinho foi posto em minha mão, mas não


me atrevi a beber. Precisava me manter sóbria e
não queria me arriscar com a bebida, ela poderia ter
sido adulterada.

— Não sabia que você estava no Brasil —


eu me aproximei de Dimitri, que permanecia

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sentado em seu modo taciturno. Inclinei-me em sua


direção, apoiando minhas mãos no encosto do sofá,
uma de cada lado de seus ombros. — Senti sua
falta.

Eu o beijei por dois motivos: eu já tinha


assumido meu lado tola e realmente sentia falta
dele e porque era a última vez que poderia fazê-lo.
Não havia motivos melhores. Seus lábios traidores
continuavam deliciosos. Ele demorou um segundo
para retribuir o beijo, mas logo suas mãos foram
para a minha cintura e eu sentei em seu colo em
seguida.

Rápido demais, mas eu não conseguia parar!


As bocas tinham vida própria e mostravam uma
urgência em se unir em um duelo de línguas. Um

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barulho de rolha estourando soou ao meu lado,


Lúcia agradeceu a bebida oferecida por Dante.
Alessandra disse algo, e eles riram.

Dimitri interrompeu o beijo para seguir


mordiscando minha mandíbula e orelha, onde
sussurrou muito baixo, só para eu ouvir:

— Fuja.

Não desviei do esmeralda profundo de seus


olhos, ele me implorava em silêncio para seguir seu
conselho. Passei o polegar pelo seu lábio inferior, e
Dimitri beijou a ponta do meu dedo. Encostei
minha testa à sua, sabendo que o deixaria de fora
do meu esquema de vingança.

Para ser sincera, eu não o tinha colocado


nela.
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E estava cansada de tanta farsa e ardis,


pretendia dar um fim de vez naquilo.

— Onde está a câmera? — fui direto ao


ponto. Diante do silêncio de Dimitri, levantei-me
para enfrentar Dante. — Sei que tem pelo menos
uma câmera escondida aqui, onde ela está?

Alessandra e Dante pareciam estupefatos,


bocas entreabertas e olhos arregalados. Minha
amiga foi a primeira a se recuperar:

— Câmera? Ninguém aqui é doido de


compartilhar algo seu sem autorização!

— E quem falou em compartilhar? — Lúcia


interviu, deixando a timidez de lado, agora as cartas
seriam postas na mesa e não precisaria fingir mais
nada. Aquela era uma das grandes qualidades de
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Lúcia, agia sempre como uma leoa, pronta para


defender aqueles que amava. — Aliás, já que
entramos neste assunto, quanto você ganhou para
vender a foto do aniversário da sua amiga para o
jornal?

Eu tinha colocado Rodrigues para descobrir


isso também, Alessandra me traía há muito tempo,
e eu, inocente, nunca desconfiei.

— Já que entramos no assunto, não consegui


descobrir o que você ganha me vendendo assim
para o Pendleton — falei com uma tranquilidade
letal.

Ao revelar a verdade, o clima na sala mudou


completamente. O rosto sorridente de Dante se
fechou, revelando uma carranca nada carismática,

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Alessandra colocou a mão no peito e titubeou, em


uma vã tentativa de se justificar.

— Pendleton me convenceu que não era


justo eu ser a top model e ainda ficar à sua sombra,
ele disse que eu podia me tornar uma artista de
Hollywood e...

Levantei a mão, interrompendo-a, não


precisava ouvir mais nada. Antes que eu pudesse
falar, entretanto, Dimitri, ainda sentado na mesma
pose, foi o primeiro dos rapazes a encontrar a voz:

— Como você soube?

Ele parecia bem tranquilo para alguém que


estava prestes a ser acusado de tentativa de
chantagem.

— Eu tive um café da manhã interessante


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com o Stuart Allen — afastei alguns passos para


longe do sofá, assim poderia ficar de frente para
todos. — O diretor tem uma língua solta ao
acordar, dentre muitas coisas, comentou como
vocês dois ficavam tensos quando Pendleton estava
por perto. Achei suspeito e mandei investigar.

Alessandra, desistindo de tentar se justificar,


me olhou com frieza:

— Diga a verdade, você os investigaria de


qualquer forma.

— Sim — dei de ombros. — Meu erro foi


não ter feito isso antes de viajar para a França.
Agora me corrijam se eu estiver errada: Pendleton
deve dinheiro e convenceu vocês dois a
participarem de um pequeno esquema, em troca, ele

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conseguiria alavancar as suas carreiras ainda mais.

A campainha tocou, me assustando um


pouco com o sino alto. Olhei para Lúcia, ela
balançou a cabeça para os lados discretamente,
negando. Não era o momento de nenhuma entrada
triunfal.

Ainda.

Dante abriu a porta, e Marcos — o


segurança/capanga de bandido — entrou arrastando
um suado Pendleton pelo colarinho de seu terno
chique, apertado demais para o corpo ligeiramente
roliço. Levantei a sobrancelha diante da cena.

— Meu patrão está cansado desse esquema


sem fim de vocês — ele empurrou o empresário
para o meio da sala, fazendo-o se estatelar no chão.
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— Vim resolver de uma vez e encontrei esse rato


fugindo pela janela.

Ele colocou uma mão na cintura, afastando


um pouco o terno para revelar de propósito um
brilhante revólver bem ao alcance de seus dedos.

— O que seu patrão quer? — eu fui a única


com coragem para falar algo.

Os dedos dele roçaram na arma.

— Saber por que não foi pago ainda.

— A culpa foi minha — Dimitri se


levantou, ficando na minha frente e quase me
impedindo de ver o homem armado. — Em uma
festa idiota, Alessandra bebeu demais e contou
sobre a fortuna da família de Cinthia. Pendleton

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teve a ideia de chantageá-la, e Alê deu todas as


informações que ele precisava para fazer isso. O
plano era bem simples: atraí-la para a nossa
armadilha e filmar você transando com a gente.
Pendleton te chantagearia: ou você dava dinheiro,
ou o vídeo de sexo vazaria na internet. Nós
supostamente estaríamos em um cruzeiro logo pela
manhã, uma viagem que você nunca faria,
deixando-a sozinha em Cannes.

Tudo foi fingimento desde o começo, a


arrogância de Dimitri, a facilidade com que
Pendleton aceitou a ausência dele no Festival de
cinema, a revolta de Dante ao nos encontrar na
cama e a forma como Alê disse que eram apenas
amigos, ficando tranquila depois de eu ter transado

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com alguém que ela claramente tinha interesse.

— Você não explicou como foi culpa sua —


Marcos perguntou.

Dimitri olhou por cima do ombro para mim


e voltou a encarar o capanga.

— Eu destruí a filmagem. Acordei quando


você estava no chuveiro e permaneci de olhos
fechados. À luz do dia, eu não conseguia te encarar.
Depois que você saiu, me levantei e vi uma muda
de flores na cabeceira da cama com as instruções
rabiscadas em um papel timbrado da sua empresa.
E te vi como pessoa, não a “megera fria e
calculista que merecia isso e muito mais” como
Alessandra havia dito.

Olhei para minha ex-amiga, e ela deu de


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ombros. Estiquei o dedo do meio em um gesto


bastante imaturo, mas eu não queria interromper o
discurso de Dimitri a xingando.

— Peguei o cartão de memória extra e o


troquei pelo que estava dentro da câmera
escondida, com a gravação. Fingi que houve um
problema na filmagem, Dante tentou te convencer a
fazer de novo, mas você não quis. Então eu fui para
Paris, prometendo filmar lá.

A viagem para Paris, os momentos que


passamos lá... Tudo maculado. Estragado,
manchado, jogado na lama…

Talvez existisse algum equilíbrio cósmico e


uma pessoa bem-sucedida nos negócios não
poderia ter sorte no amor também.

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— Já ouvi o bastante! — eu o interrompi e


olhei para Marcos por cima do ombro de Dimitri.
— O que o seu patrão acha de tudo isso?

Marcos me encarou com um sorriso que


parecia ser reconfortante, porém era sinistro. Ele
deveria ser ator, foi tão convincente como o gentil
motorista no aeroporto. Sua expressão
amedrontadora aumentou quando ele respondeu:

— Me diga você, chefe.

O último trabalho de Rodrigues foi entrar


em contato com o agiota. Juntos, fizemos um
acordo. Alessandra tinha razão ao falar sobre a
minha fortuna, mas ela esqueceu que eu seria capaz
de tudo para proteger minha empresa.

O dinheiro era capaz de mover o mundo, até


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“alugar” um capanga para aquela noite. Eu o


trouxera escondido no banco traseiro do meu carro.

Pendleton se levantou, olhando de mim para


Marcos com assombro. Expressão espelhada na
feição de quase todos. Lúcia abriu a bolsa enorme
em seu colo, retirando a pasta com a papelada.

— Teve um detalhe que Alessandra


esqueceu de avisar: não se deve brincar comigo —
aceitei os documentos de Lúcia. — Pendleton,
estou sob proteção e você não vai me chantagear.
Aliás — virei-me para todos — qualquer um de
vocês, se pensarem em fazer qualquer mal a mim
ou a alguém ligado a mim e à minha empresa, vai
lidar com Marcos.

Alessandra se escondeu atrás de Dante,

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segurando em seu braço com medo. O ator se


afastou do seu toque. Pendleton cruzou os braços:

— E o que vocês pretendem fazer comigo?


Me matar?

Eu ri. Queria estar sentada em um banco


alto na penumbra de um bar, com um Martini na
mão e um vestido vermelho, parecendo uma
mafiosa, não em pé em uma sala bem iluminada,
com dois sofás e uma tela plana de sessenta
polegadas ligada em um ridículo vídeo de lareira
crepitante.

— Sou uma mulher de negócios, Pendleton,


e quero expandir. Preciso dos seus clientes,
contatos e parcerias. Como estou me sentindo
caridosa, apesar de tudo que tentou fazer a mim, eu

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pago sua dívida — estendi para ele o contrato


detalhado que os meus advogados prepararam com
muito cuidado e atenção. — Se você se aposentar e
nunca mais se aproximar de mim ou da minha
família, principalmente da minha mãe.

Ele não tocou no papel, olhando-me com a


sobrancelha levantada e com resquícios de soberba.

— Ou? — foi tudo que disse.

Marcos se adiantou, colocando a mão na


coronha da arma.

— Ou... — eu respondi. — Marcos te levará


para um passeio muito interessante, porém nada
agradável, e você terá que lidar com o patrão
verdadeiro dele. Sem minha ajuda.

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Pendleton pegou os papéis com ódio e se


sentou no outro sofá. Eu não sentia nenhum pingo
de pena dele. Além de armar para mim, estava aqui
hoje, provavelmente para assistir escondido o
desenrolar da quente noite de sexo e garantir que a
filmagem fosse feita.

— E quanto a nós? — Dante perguntou com


raiva contida. — Planejou algo especial também?

Eu o presenteei com o meu melhor sorriso


lupino.

— Na verdade, sim. Eu pensei em várias


alternativas para os três, uma forma de puni-los,
talvez até negociar seus contratos para uma agência
pequena e estagnada. Porém, eu estaria punindo a
mim ao abrir mão de três artistas no auge de suas

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carreiras — Lúcia me admirava com certo ar de


orgulho. Eu me sentia assim também. — Vocês vão
trabalhar dobrado para recuperar o meu dinheiro
investido hoje. Dimitri e Dante, seus péssimos
contratos serão mantidos daquele jeito. Alessandra,
o seu foi revisto, estava muito vantajoso,
desproporcional aos outros.

Segui um dos ditados favoritos do meu pai:


“mantenha os amigos perto e os inimigos mais
perto ainda. De preferência, em coleiras bem
apertadas”. Esse último era um acréscimo que ele
gostava de fazer.

Dimitri permaneceu calado, Dante e Alê


gritaram um não de indignação, exigindo serem
liberados. Podiam fazer a birra que quisessem, eu

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tinha a assinatura deles no papel, testemunhas sobre


os seus esquemas, além das provas conseguidas por
Rodrigues.

A vantagem era minha.

— Assim como Pendleton, vocês têm uma


escolha, mas podem ter certeza que a alternativa
será muito pior — deixei a ameaça pairando no ar.

Dante se aproximou de mim, gritando:

— Isso não ficará assim!

Marcos se adiantou, mas ele estava longe.


Dimitri foi mais rápido, puxando Dante pela
camisa.

— Não se aproxime dela, seu idiota! — ele


empurrou o colega.

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Dante o encarou, seus olhos estreitos em


raiva.

— Agora é o defensor dela, não é? — ele


bateu palmas com escárnio. — Parabéns, muito
esperto. Sempre te achei um paspalho, mas vejo
que te subestimei. Ficou do lado vencedor, se
fingindo de herói e provavelmente conseguirá fodê-
la até cansar.

O soco certeiro em seu nariz era tanto


devido quanto esperado. Dante caiu no chão, aos
pés de Dimitri, com sangue escorrendo de suas
narinas. Alessandra correu para ajudá-lo.

— Vocês são uns monstros! — ela


esbravejou.

— Monstros? — Lúcia interviu e apontou


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para mim. — Conheço essa mulher há mais de uma


década, eu não tinha um centavo no bolso e
comecei a trabalhar como modelo para ajudar em
casa. O que ela fez? Me ensinou todos os truques
que sabia, como andar e posar direito. Por causa
dela, minha família saiu da lama e eu pude fazer até
uma faculdade!

Alessandra a encarou com certo desprezo, a


top model havia nascido em berço de ouro, ainda
que de pais somente ricos, não milionários como os
meus. Ao contrário de Lúcia, ela tivera condições
de fazer diversos cursos antes de entrar na carreira
de modelo. Tornamo-nos amiga porque Alê era a
alma da festa, impulsiva e divertida, não tinha
como não ficar alegre ao lado dela.

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Até ela crescer e virar aquela outra pessoa


que eu não reconhecia.

— E aí — Alessandra falou com desprezo.


— Você largou sua carreira para segui-la como um
cachorrinho.

Lúcia balançou a cabeça para os lados,


ainda descrente com a face verdadeira da garota
que fora nossa companheira por tantos anos.

— A beleza não dura para sempre,


Alessandra — ela disse, e a outra retrucou:

— Para isso existe plástica e casar com


homem rico.

— Chega! — Pendleton se levantou e


empurrou o contrato em minhas mãos. — Eu sou
amigo de sua mãe desde que você era uma menina,
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não fica com peso na consciência por me jogar na


sarjeta?

Peso na consciência por ele? Não ficava. Ele


usou a influência da minha mãe todos esses anos
em favor próprio, além de tentar me chantagear,
apesar da amizade com a família. Além disso,
Pendleton tinha dois ou três imóveis, poderia
vender e montar outro negócio.

Aliás, esta teria sido a minha primeira


opção, vender meus bens para quitar a dívida em
vez de fazer armadilhas e chantagens.

Retirei uma nota de cem reais deixada no


bolso traseiro da calça jeans de propósito:

— Aqui, para você não achar que eu sou


ruim. É o troco que sobrou depois de pagar sua
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dívida.

Ele olhou para a nota com asco. Ódio


fervilhava em seu rosto, deixando-o mais enrugado
do que era. De braços esticados para baixo e
punhos cerrados rente ao corpo, ele queria explodir,
porém a presença sólida de Marcos ainda com a
mão na coronha da arma, ao meu lado, o impediu
de dizer algum impropério.

— Verei todos vocês no inferno — ele falou


e saiu a passos duros, batendo a porta.

Entreguei os documentos para Lúcia, que


verificou a assinatura e também assinou como
testemunha. Dante, já em pé, estancava o
sangramento do seu nariz com a camisa.
Alessandra ficava rondando ele como uma

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cadelinha pedindo atenção, enquanto Dimitri


permanecia entre nós dois, com a expressão séria e
os braços cruzados.

— Saiam da minha casa, agora — Dante


ordenou sem necessidade, eu já tinha cumprido o
meu propósito ali. Quando começamos a sair e
Alessandra permaneceu ao seu lado, ele se afastou
dela e apontou para a porta, aos berros: — Você
também, porra!

Antes de passar pela porta, olhei para trás a


tempo de ver a mágoa nos olhos chorosos de
Alessandra e senti pena. Ela não foi movida apenas
pela ambição. Entretanto, saí sem falar nada. Um
amor não-correspondido não era uma desculpa
plausível para trair uma amizade de anos.

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Na calçada, destravei o carro para Lúcia e


Marcos entrarem. Antes que eu pudesse fazer o
mesmo, Dimitri se colocou no meu caminho.

— Não fale nada — eu o alertei. — Não


preciso de suas explicações ou motivos.

Ainda não me sentia preparada para


confrontar Dimitri, principalmente depois de ter
certeza de que ele foi a razão para não terem
conseguido me chantagear.

Porém, deveria ter me alertado, passamos


cinco dias em Paris e ele nunca disse nada. Se não
fosse pelo Rodrigues, eu continuaria na ignorância
e terminaria caindo em alguma armadilha.

Ele selou os lábios, se segurando para não


falar o que tanto queria dizer.
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— Outro dia, então — Dimitri disse, saindo


do meu caminho.

E da minha vida.

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Capítulo 16 — Discursos

A vida é uma caixinha de surpresas, e por


mais que eu tente manter o perfeito controle, o
destino vem e bagunça tudo. Assumir a empresa de
Pendleton não foi fácil, não era à toa que ela tinha
precisado recorrer a agiotas para quitar as dívidas,
apesar de ter um ótimo lucro com seus agenciados.

Além de viciado em jogos, ele era


extremamente desorganizado, tive que contratar
alguns contadores extras para colocar as finanças
em ordem de forma rápida. Meus advogados
também precisaram de reforço para rever cada
contrato.

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Teria sido mais fácil revender a empresa


dele do que incorporar à minha, porém eu precisava
fazer isso, vê-la prosperar e alcançar patamares
apenas sonhados por Pendleton. Era uma questão
de honra.

Dimitri me procurou algumas vezes, porém


os advogados ou Lúcia lidaram com ele. Como
agradecimento por ter me protegido em Cannes,
seu contrato foi revisto também, e ele recebeu um
mais justo, como os outros agenciados.

Alessandra e Dante tiveram a ameaça


mantida e ficariam com os acordos bostas até que
eu recuperasse o valor investido.

Durante os quatro meses e meio seguintes


ao fatídico evento, passei todo o tempo trancada no

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escritório, e até minha mãe passou a me ajudar,


contudo, durante a maior parte do tempo, apenas
reclamava do trabalho, mais do que realmente
trabalhava. Ela ficou muito surpresa com a
aposentadoria de Pendleton e grata por eu ter
superado minha “birra” com ele e o ajudado,
comprando sua empresa.

Mamãe acreditava em tudo que diziam...

— Come alguma coisa — Lúcia colocou


uma salada de frutas em cima da mesa. — Você
precisa se alimentar direito.

Comi sem pestanejar, já tivemos essa


discussão diversas vezes, eu dizia que estava em
um regime alimentar controlado por nutricionista, e
ela ainda tentava me empurrar mais comida.

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Parei na metade da enorme tigela:

— Se eu comer mais, vou estourar.

— Vai estourar de qualquer forma — ela


começou a rir. — E aí, está preparada? Eles estarão
lá.

Era a inauguração oficial da expansão da


nova ML Agência e Produção, um evento de gala
em um clube fechado, exclusivo para contratados e
pessoas influentes do ramo.

Naquela noite, seriam reveladas mais do que


as novidades na empresa.

— Eu fiz besteira, não deveria ter esperado


tanto tempo para falar com ele — apoiei a testa
entre as mãos, cansada. — Finjo que não penso em
Dimitri, nas coisas que fez e disse, mas é uma farsa.
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Ele está em minha mente todos os dias.

Lúcia deu a volta na mesa e ficou ao meu


lado, me dando um abraço reconfortante. Fiquei em
pé e me joguei em seus braços, coloquei minha
cabeça em seu ombro e chorei. Não era muito
comum que eu vertesse lágrimas, porém minhas
emoções estiveram bagunçadas nos últimos meses.

Eu era uma confusão de sentimentos.

Minha atenção se voltou para o enorme vaso


com uma flor de íris exatamente igual à muda que
eu tinha abandonado no quarto de hotel em Cannes:
branca com pétalas manchadas de lilás e amarelo
no centro. Dimitri tinha me enviado no dia anterior
com um bilhete:

“O que você cultiva com carinho cresce e


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floresce, mesmo em solo estranho.”

Não sabia o que ele pretendia cultivar


comigo, mas um solo irrigado com mentiras
poderia encharcar e apodrecer qualquer
relacionamento.

— Pode fingir o quanto quiser, mas a mim


você não engana — Lúcia, percebendo para onde
meu olhar se dirigia, segurou meu rosto e secou as
lágrimas em minha face com a ponta dos dedos. —
Aquela semana na França te mudou, Cinthia. E é
óbvio que significou mais do que você deixa
transparecer.

— O que eu faço? — perguntei.

Ela sorriu e beijou minhas bochechas, onde


ainda estava úmido:
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— Se vai falar com ele, tem que estar


arrasando.

Isso eu já pretendia fazer de qualquer forma


e tinha escolhido o vestido ideal, contudo sabia que
não era suficiente para esconder todos os meus
segredos:

— Ele vai descobrir.

— Está na hora de você deixar de se


esconder.

Respirei fundo e sorri. Eu podia fazer isso,


já tinha enfrentado coisa pior.

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O espelho refletia uma mulher de


maquiagem fatal e aparência determinada. Em um
vestido preto e longo, soltinho e de corte reto, eu
me sentia bem diferente do que costumava usar.

— Você está linda, não se preocupe —


Lúcia me entregou o xale de seda, que coloquei
preso aos meus braços, na parte interna dos
cotovelos.

O tecido passava pelas costas, na altura da


cintura, e cada ponta caída na frente cobria boa
parte do meu corpo. Tentei não pensar na echarpe
preta de renda que mantinha escondida no fundo da
gaveta.

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Suspirei, concordando com ela. Eu estava


linda e sabia disso, apenas precisava equilibrar a
bagunça hormonal que eu me tornara. Afinal,
passei meses dividida entre trabalhar, vigiar o trio
vigarista — mais conhecido como Pendleton, Dante
e Alessandra — e debater se devia ou não procurar
Dimitri em vez de acompanhar sua carreira e vida
pessoal à distância.

Era vergonhoso, mas eu havia me tornado


uma perseguidora. Pelo menos, não tinha
ultrapassado o limite de colocar um rastreador no
celular dele e dos outros. Até pensei em fazer isso,
principalmente com Pendleton, para saber com
antecedência caso ele se aproximasse de mim.
Desisti, entretanto, não me tornaria cárcere da

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paranoia, apenas viveria minha vida com


seguranças ao lado, como sempre fiz desde
pequena.

— Senhoritas? — a cerimonialista abriu a


porta, espiando dentro do camarim onde nos
encontrávamos. — Está na hora, e pela lista de
convidados, os mais importantes já chegaram.

— Pode dizer à mamãe para começar,


obrigada — agradeci e segurei a mão de Lúcia.

Estava na hora.

Aguardamos atrás da cortina vermelha que


isolava o salão de festas dos bastidores. Mamãe,
com sua delicada voz, anunciava no microfone que,
a partir daquela data, estaria se afastando de vez da
ML Agências e Produções, deixando o destino da
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empresa apenas em minhas mãos.

Já era assim há muito tempo e bastou uma


semana trabalhando no meu lugar para minha mãe
perceber que não tinha nascido para ser uma
burocrata. Segundo ela, eu só conseguia porque
tinha herdado a “veia empresarial” do meu querido
pai.

Papai voltou ao Brasil apenas para me


prestigiar naquela festa e, provavelmente, transar
com minha mãe pelos velhos tempos antes voltar
para os Estados Unidos. Ainda bem que eu tinha
meu próprio apartamento, eles costumavam ser
bem barulhentos. Era quase como estar dentro do
quarto com eles, e eu já tinha esgotado minha cota
de sexo com mais de duas pessoas presentes.

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— É com muito orgulho e prazer — mamãe


falou ao microfone — que eu convido a minha
amada filha, Cinthia Lins Grimaldi, ao palco.

As cortinas vermelhas se abriram, e sob as


luzes dos holofotes e de aplausos dos convidados,
caminhei com determinação até o estande de
granito preto, que mais parecia uma versão
moderna de um púlpito de igreja, onde minha mãe
estava.

Ela me deu um beijo no rosto e desceu as


escadas, juntando-se ao público. Posicionei-me
atrás do púlpito e, com o microfone em mãos,
observei alguns rostos conhecidos antes de iniciar
meu discurso:

— Boa noite, antes de mais nada, eu

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gostaria de agradecer à minha mãe e ao meu pai por


sempre me apoiarem e acreditarem em mim. Quem
eu sou e o que me tornei é um reflexo da criação de
vocês — sorri para os dois, minha infância não foi
tradicional, porém eu não a trocaria por nada. — A
moda e as passarelas fizeram parte da minha vida
desde que nasci, talvez até antes. É o que sou e
sempre fui! Pareceu-me natural assumir a empresa
quando minha mãe, a grande Martina Lins, cansou
da burocracia de um escritório. Hoje, tantos anos
depois, lamento dizer que ela não faz mais parte da
nossa equipe.

Fiz uma pausa dramática, colocando a mão


no peito. Mamãe passou vinte porcento das ações
dela para mim, tornando-me sócia majoritária, além

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de CEO. Eu poderia decidir tudo sozinha, o que era


perfeito. A partir daquele momento, mamãe jamais
poderia me influenciar a aceitar outra proposta
tenebrosa como a de Pendleton. Continuei com a
voz firme:

— E para honrar a minha mãe, que tanto me


proveu durante toda a minha vida, anuncio a
expansão da ML Agência e Produções. Nós
incorporarmos os clientes do famoso empresário
Louis Pendleton, que infelizmente não pode
comparecer, está muito ocupado curtindo a
aposentadoria na cidade onde nasceu, em Londres
— falei em tom de brincadeira, enfatizando as
palavras certas para as pessoas sorrirem. Alguns até
sussurram que queriam estar “ocupados” assim.

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Ah, se eles soubessem da verdade!


Pendleton fugiu do Brasil porque devia a mais de
um agiota, eu quitei apenas a dívida maior e com o
mais perigoso deles. Porém, ele tinha outras
pendências que eu só descobri depois, quando
Rodrigues continuou a monitorá-lo para ter certeza
que não causaria mais problemas para mim.

— Estamos agenciando modelos e atores a


nível nacional e internacional — continuei meu
discurso enquanto garçons serviam champanhe em
delicadas taças de cristal aos convidados. — Dou as
boas-vindas aos novos contratados, e tenham
certeza que a agência procurará o melhor para a
carreira de vocês. Saibam que nossa expansão
continuará, pois o Brasil está se tornando pequeno

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para nós. E para isto, preciso de pessoas


competentes e de confiança ao meu lado. Lúcia
Avelar, por favor, venha ao palco.

Olhei para trás, sabia que Lúcia estava


escondida pela cortina, esperando por mim, caso eu
sentisse alguma coisa ou precisasse dela. Esta parte
era surpresa para minha amiga, apenas a
organizadora do evento sabia.

Quando a cortina foi aberta novamente,


como esperado, Lúcia estava lá, estática.
Deslumbrante em seu vestido prata, apesar dos
olhos esbugalhados em choque. Logo ela se
recuperou e andou até mim com a graça de ex-
modelo. Seus lábios podiam sorrir, mas seu olhar
era questionador, eu quase podia ouvir seus

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pensamentos: “o que você está aprontando e por


que não me disse nada?”

Segurei sua mão e voltei a falar:

— Todos aqui a conhecem como ex-top


model e minha gerente, ou melhor, o meu braço
direito, aquela que resolve os problemas. Muito
mais do que amiga, você é uma das funcionárias
mais competentes e dedicadas que tenho. Todos os
dias, você dá o seu sangue e suor pela empresa, por
[1]
isto, será promovida a COO da ML Agência e
Produção — o salão de festas irrompeu em
aplausos. A cerimonialista nos entregou duas taças
de champanhe, e eu levantei a minha: — Um
brinde ao futuro!

Todos levantaram a suas respectivas taças e


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beberam um gole. Lúcia apertava minha mão e


tremia um pouco. Ela agradeceu ao microfone e nós
saímos do palco. Mal a cortina de veludo vermelho
se fechou atrás de nós, Lúcia estava me abraçando
entre lágrimas.

— Você... Louca... Não disse — ela


balbuciava frases entre soluços, e eu só conseguia
compreender palavras soltas. — Morrer... Susto...
Consigo?

Sequei suas lágrimas com a ponta dos


polegares, tentando acalmá-la e fazê-la beber um
pouco da água oferecida por uma garçonete:

— Você sempre soube que eu sou louca.


Não disse porque era surpresa, ninguém vai morrer
de susto e tenho certeza que é completamente capaz

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de assumir o cargo — respondi seus comentários,


ou o que eu entendi deles, e a abracei mais uma
vez. — Eu acredito em você, Lúcia.

Um sorriso sincero brotou em seus lábios, e


seu rosto se iluminou.

— Obrigada, Cinthia — ela disse, com a


voz ainda chorosa. — Mas você está enganada, não
é pela empresa que dou o meu sangue e suor, é por
você. O mundo deveria saber que você não é a
mulher gananciosa e intransigente com um coração
de pedra que finge ser. Pelo menos, não é assim o
tempo todo.

Ela deu de ombros, e eu gargalhei, sabendo


que em alguma parte do seu discurso, havia um
elogio sincero.

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— Não me importo em ser ambiciosa, fria,


intransigente, calculista e maquiavélica. Podem me
chamar do que quiserem, não dá para ser CEO de
uma empresa de alcance internacional, em uma
área na qual o produto é a pessoa, são os nossos
modelos, sendo boazinha. E você, como a segunda
no comando, precisará ser assim também — tratei
de alertá-la.

Estar à frente de uma empresa era


maravilhoso, mas tinha seus pontos negativos.
Perder a pureza da alma era um deles.

— Sei disso — ela entortou a boca, mas


terminou sorrindo. — Eu vou retocar a maquiagem
e você vá lá fora e procure alguém que merece um
pouco da bondade escondida em tanta arrogância.

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Coloquei as duas mãos na cintura, afastando


sem querer o xale da minha frente, e falei, rindo:

— Ora, já está assim? Um segundo atrás eu


era maravilhosa!

— Você pode até ser maravilhosa, mas eu


não disse isso — ela me olhou dos pés à cabeça e
revirou os olhos. — Deixe de enrolar e vá falar com
os convidados! Eu vou retocar a maquiagem.

Entrei no salão decorado em dourado e


marfim. Pessoas elegantes nos mais variados
estilos, dos mais joviais e despojados ao esporte-
fino, conversavam ao redor de mesas redondas
cobertas por toalhas de linho branco. Um enorme
lustre de cristal pendia do teto, logo acima da pista
de dança.

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O palco estava ocupado por uma banda


tocando músicas ao vivo. Com um sorriso no rosto,
cumprimentei os convidados. Sempre educada e
gentil, estendia a mão e conversava olho no olho
com cada um. A fotógrafa oficial do evento, uma
loira de gentis olhos castanhos, sempre nos
interrompia, solicitando nossa atenção para tirar
fotos de cada convidado comigo.

— Filhinha — papai me abraçou, falando


em seu português enrolado, com forte sotaque
americano. — Estou tão orgulhoso do meu bebê!

Revirei os olhos, apenas meu pai me tratava


daquela forma. Eu o abracei de volta, ainda
preocupada com sua magreza exagerada. Os anos
estavam alcançando papai, e os grisalhos em seus

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cabelos que outrora o deixavam charmoso, agora


cobriam sua cabeça totalmente.

— Obrigada, papai — agradeci antes de


posarmos para uma foto.

Ele olhou para os lados e levantou uma


sobrancelha.

— O responsável por esta confusão já


chegou?

Ao contrário da mamãe, ele não acreditou


na bondade do meu coração ao incorporar uma
empresa com tantos problemas. Terminei contando
a verdade sobre a chantagem, eu ainda duvidava
que papai não infernizaria a vida de Pendleton de
algum modo.

— Não o vi — respondi, pois eu sabia de


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quem ele estava falando. A “confusão” que ele se


referia era a minha bagunça emocional.

— Quero ter uma conversa séria com ele —


abri a boca para protestar, e ele levantou a mão, me
interrompendo. — Você sempre foi tão
autossuficiente, são raras as oportunidades que eu
tenho de fazer o papel de pai. Deixe-me ter o meu
momento!

Beijei o seu rosto. Desde que meus pais se


separaram e ele foi embora, eu sentia falta de
nossas conversas no fim de tarde e de seus
ensinamentos.

— Ok, papai — olhei para a mamãe, ela


conversava com duas estilistas famosas. — Vai
falar com ela?

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— Pretendo mais do que isso, estou velho,


mas não estou morto — seu sorriso imenso era
contagiante, e eu me peguei rindo do olhar
conquistador que fez. Deixei-o com suas
maquinações de Don Juan e voltei a circular pelo
salão.

Quase uma hora se passou, e eu enfim


aceitei a primeira bebida da noite: uma taça de água
oferecida pelo garçom. Minha boca estava seca de
ansiedade, não tinha encontrado ainda aquele que
tanto queria ver. Não tive tanta sorte com os que eu
não queria: Dante dançava com uma modelo alta e
siliconada, enquanto Alessandra o observava com
fúria contida. Ambos estavam ali por obrigação.

Lúcia, recomposta em uma maquiagem

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impecável e tranquila depois da promoção


inesperada, entrou no salão, recebendo os parabéns
dos colegas. Eu me distraí, observando-a por um
segundo, quando uma mão quente se posicionou na
base da minha coluna. Pela reação imediata de meu
corpo, eu sabia quem era sem nem ao menos me
virar.

— Parabéns — a voz grave disse baixo no


meu ouvido.

Virei de frente para ele. Por causa do


personagem que ele faria em seu próximo filme,
Dimitri estava ligeiramente diferente da última vez
que o vi: os cabelos um pouco mais compridos e
em um tom mais claro, quase como um mel. Uma
barba rente ao rosto e bem cuidada cobria a covinha

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que às vezes aparecia quando ele sorria.

Os olhos verdes, sempre presentes em meus


mais doces sonhos, continuavam cristalinos.
Vestido todo de preto, desde o terno até a gravata e
a camisa, parecia também um pouco mais forte.

— Obrigada — eu disse, incapaz de desviar


o olhar. — A gente precisa conversar.

Ele sorriu, as feições repletas de um prazer


genuíno:

— Estava ansioso para ouvir essas palavras


de sua boca.

— Senhorita Grimaldi — a fotógrafa me


chamou. — Uma pose para a foto, por favor.

Voltamo-nos para a mulher, nossos corpos

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quase se tocando. Eu precisava conversar com ele


em um lugar privativo naquele momento, ou
perderia a coragem depois.

— Aguarde dez minutos e me siga — eu


disse, indo em direção à Lúcia e pedindo que ela
segurasse a festa por meia hora.

No camarim, relaxei um pouco os braços e


ombros tensos antes de segurar o xale no lugar
correto de novo. Exatos dez minutos depois, uma
batida soou na porta. Dimitri entrou, eu apontei
para a maçaneta e ele virou a chave, trancando-nos
no pequeno ambiente fechado.

Permanecemos em silêncio, um encarando o


outro e sentindo a tensão preencher o espaço entre
nós. Havia em mim uma necessidade avassaladora

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de encurtar a distância e me jogar em seus braços.


Aquela ânsia de tê-lo me era estranha, como se ele
tivesse me enfeitiçado em Paris.

— Apenas me escute, por favor — Dimitri


se aproximou, mas parou a alguns passos de mim.
— Eu e Dante começamos nossa carreira juntos,
em uma escola de teatro, mas ele tinha um talento
nato, quase refinado. Sempre muito carismático,
Dante conquistava as pessoas dentro e fora do
palco. O meu talento, por outro lado, era mais
bruto. Por algum motivo, nos tornamos amigos e
Dante me ajudou muito. O ator que sou hoje, devo
a ele.

— Já tinha lido algo sobre o teatro nas


revistas, mas não sabia que era assim — disse,

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curiosa com sua história.

— O contrato com Pendleton nos trouxe o


sucesso — ele balançou a cabeça e encarou o chão
antes de me olhar novamente. — Com a fama,
vieram as festas, e com estas, as mulheres, o álcool
e as drogas. Não foi bonito, quanto mais famosos,
mais acesso a drogas nós tínhamos. Um dia, Dante
visitou os pais completamente chapado, a mãe dele
ficou tão transtornada, que teve um pré-infarto.

Não consegui segurar o suspiro de assombro


que saiu por meus lábios. Dimitri continuou:

— Foi um choque de realidade para nós


dois, imaginei isso acontecendo com minha mãe e
resolvemos parar com a bebida e as drogas. Foi
difícil, mas eu consegui. Achei que Dante também

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tinha conseguido, porém me enganei. Estávamos


viajando para um evento, quando ele bateu na porta
do meu quarto de hotel, transtornado. No alto das
drogas, Dante havia destruído alguns móveis de seu
quarto e pediu para que eu assumisse a culpa do
vandalismo.

Cansada de ficar em pé, encostei-me na


bancada de maquiagem:

— E você assumiu.

Não foi uma pergunta, era uma afirmação.


Eu tinha visto a reportagem na seção de
entretenimento do jornal.

— Eu devia a ele — Dimitri deu de ombros.


— Segundo Pendleton, ser bad boy combinava com
meu estilo caladão. Também não queria me culpar
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caso a mãe dele tivesse outro infarto, ela é uma boa


pessoa.

Como ele poderia se culpar pelo erro de


outros?

— Por isso você fingiu se internar na clínica


de reabilitação no lugar dele... — conjecturei em
voz alta.

Dimitri sorriu.

— Descobriu isso também, hein? Não estou


surpreso — ele deu um passo à frente, mas parou,
desistindo de se aproximar. — Eu errei muito com
você. Quando estávamos em Paris, queria te contar,
porém tinha medo que você me odiasse. Nossos
dias foram tão perfeitos, acreditei que não voltaria a
fazer sexo com Dante e me convenci que estava
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mais segura na ignorância. Achei que Pendleton


procuraria outra pessoa para chantagear, e eu fiquei
na Rússia, esperando um momento seguro para
voltar. Sem aquele Marcos nos rondando.

— Você voltou, no entanto.

Lembrei-me de quando ele me ligou,


insistindo muito para que eu não fosse à casa de
Dante.

— Por você, eu voltei — seus olhos verdes


queimavam como brasa. — Todos estavam com
raiva de mim, mas os convenci que queria uma
segunda chance e ajudar a te filmar. O meu erro,
Cinthia, foi achar que você precisava da minha
proteção. Dizem que a ignorância é uma benção,
entretanto isso só vale para indefesos e covardes.

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Pessoas como você pegam o conhecimento e usam


a seu favor. Você chegou lá, linda e poderosa, a
perfeita loba em pele de cordeiro. Naquela noite,
soube que eu era um idiota e que tinha te perdido.

Sua boca se cerrou em uma linha fina, ele


havia terminado de falar. Sim, eu usava o
conhecimento e gostava de manipulá-lo a meu
favor. Já tinha perdoado Dimitri, se não fosse por
ele, Pendleton teria vencido. Depois de ouvir como
tudo aconteceu, nem a mágoa restava em mim.

Com o silêncio imperando dentro do


camarim, pude ouvir o som que vinha do salão e a
música que a banda estava tocando. Era perfeita
demais para ser coincidência, deveria ter o dedo de
Lúcia no meio, provavelmente as anteriores

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seguiram o mesmo tema e eu não prestara atenção:

“Não vejo mais você faz tanto tempo

Que vontade que eu sinto

De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços

É verdade, eu não minto”

Dimitri se atentou à letra de Você não me


ensinou a te esquecer, do Fernando Mendes, ao
mesmo tempo que eu. Ele finalmente se aproximou,
sua grande mão indo para o meu rosto. O olhar fixo
ao meu, um desejo contido formando uma bolha
prestes a estourar ao nosso redor. Se eu era o ímã,
ele era o ferro, incapaz de se afastar.

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“Você bem que podia perdoar

E só mais uma vez me aceitar

Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la”

— Não se iluda, Dimitri — uma lágrima


deslizou pelo meu rosto, e ele franziu o cenho ao
interrompê-la com o polegar. Mantive a voz firme,
no entanto: — Posso até ser uma loba voraz, mas
estou longe de ser perfeita. Ninguém acumula a
quantidade de dinheiro que tenho, e não estou me
referindo ao herdado, sem cometer alguns erros no
caminho. Eu tenho mantido um segredo de você, de
quase todo mundo, na verdade.

“Agora, que faço eu da vida sem você?

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Você não me ensinou a te esquecer

Você só me ensinou a te querer

E te querendo eu vou tentando te encontrar”

Dimitri se inclinou, seu nariz no meu


pescoço, a barba arranhando minha pele e beijos
salpicados atrás da minha orelha. Eu me deixei
levar, a música embalando o movimento de suas
mãos pelos meus ombros e braços. Um teste...
Aquilo era um teste para ver quão receptiva a ele eu
estava.

E a resposta era: muito.

Envolvi os braços ao redor do seu pescoço e


o trouxe para mais perto, juntando sua boca com a
minha em um beijo cheio de saudades e desespero.

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Um encontro cataclísmico de línguas e necessidade.

Agarrei seus cabelos, mantendo-o ali, firme,


preso, real. As mãos de Dimitri desceram pelas
minhas costas e quando alcançou a base da minha
coluna, ele me puxou, colando meu corpo ao seu.

Foi aí que Dimitri percebeu o meu segredo e


tudo parou.

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Capítulo 17 — Surpresas

No mundo da moda, aprendi diversos


truques e um deles é que você pode manipular a
percepção das pessoas. Ao desviar o foco delas, o
óbvio passa a não ser notado: uma roupa preta de
corte reto e decote de princesa, ideal para alongar a
silhueta, um belo xale pendurado em meus braços
como acessório e cobrindo a parte anterior do
corpo, a maquiagem certa, um tom mais escuro das
luzes, iluminando o ambiente principalmente com
candelabros e castiçais, e até um móvel de granito
no palco, capaz de esconder mais da metade do
meu corpo.

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Cada detalhe pensado com cuidado.

No camarim, entretanto, sob a luz de LED e


sem o xale, com o seu corpo encostado ao meu,
Dimitri sabia. Ele se afastou, e seus olhos se
arregalaram ao observar o meu abdômen dilatado.

— De quem é? — foi seu primeiro


questionamento.

Tentei não me ofender, era uma pergunta


justa. Além de estarmos separados há muitos
meses, minha barriga era pequena. Com meu físico
magro e alto, a dieta da nutricionista e os exercícios
para gestantes, eu parecia ter três, não seis meses.

Apesar disso, cruzei os braços.

— Seu.

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— Impossível! — ele passou a mão pelos


cabelos. — A última vez que transamos foi há seis
meses! Se você está grávida de seis meses, tem que
comer urgentemente, nosso bebê está passando
fome!

Meu coração pulou uma batida com o


“nosso bebê” e a preocupação em meio ao seu
atordoamento. De todos os cenários catastróficos
que imaginei para este momento, aquele não estava
tão ruim.

— O bebê está no peso ideal para sua idade


gestacional, não se preocupe — coloquei a mão
sobre a barriga. — Eu que não engordei nada além
do necessário.

— Como? — ele perguntou e sentou em

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uma cadeira, praticamente desabando nela.

Arrastei outra e me sentei também.

— O que você quer saber? Como escondi


por tanto tempo? Estive tão atolada no trabalho,
que não tive vida social, demorei um pouco para
descobrir a gravidez. Nunca fui de enjoar, apenas
sentia vertigem e achava que era do estresse, que,
em minha mente, também era o culpado pela falta
de menstruação — ergui os ombros por um
momento. — Já tinha acontecido antes, desregular
a menstruação quando estava trabalhando demais.
Depois, eu chamei os advogados e eles redigiram
um acordo de confidencialidade, a equipe médica e
meus funcionários assinaram, ninguém podia dizer
nada.

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Ele escondeu o rosto nas enormes mãos, os


cabelos, bagunçados por nosso breve amasso
durante o beijo, caíram para frente. Eu mal podia
ouvir sua voz quando falou:

— Não, quero saber como aconteceu.

Relaxei na cadeira, lembrando-me do tempo


que passei pensando no assunto até descobrir
quando poderia ter ocorrido. Qual teria sido o
deslize...

— Há um fato curioso sobre métodos


anticoncepcionais: eles não são cem porcento
eficazes. Está lá na caixinha, mas a gente nunca
acredita que vamos cair no desvio padrão, não é?
— ele ajeitou a postura e passou a me observar com
atenção, eu continuei. — Apesar da pílula ter

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falhado, ainda havia a camisinha. Nós usamos


quase todas as vezes...

— Menos uma — Dimitri complementou,


boquiaberto. — O sexo no chuveiro em Cannes,
depois da piscina. Eu não me preocupei depois que
você comentou sobre a pílula quando a gente estava
em Paris...

Dei de ombros, eu também não tinha me


preocupado. Logo no início, assim que recebi o
resultado, pensei em diversas alternativas para
resolver o meu “problema”. Eu sabia que não
conseguiria, entretanto. Passaria o resto da vida
pensando na criança. Depois de vê-la no monitor da
ultrassonografia e de ouvir seu coração batendo,
tive certeza que jamais lhe causaria algum mal.

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— Não há com o que você se preocupar, eu


sou mais do que capaz de educar uma criança. Pode
sair por esta porta e nunca mais pensar em nós de
novo, sua carreira e o contrato com a agência não
serão prejudicados — consegui falar, apesar das
adagas fatiando meu coração. Não queria ninguém
comigo por obrigação. — Talvez meu pai te
procure para ter uma conversa, mas ele só está
louco para bancar o paizão.

A palavra paizão deve ter ligado algum


botão em Dimitri, pois ele se levantou
imediatamente, como se tivesse levado um choque.
Prendi a respiração. Ele iria embora, e o meu conto
de fadas acabaria ali.

Dimitri, ao contrário da minha expectativa,

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ajoelhou-se aos meus pés, suas mãos espalmadas na


minha barriga, cobrindo-a quase por completo.

— Eu vou ser pai? — ele questionou com


voz embargada.

— Sim — sequei as lágrimas que voltaram a


cair. Droga de bagunça emocional! — De uma
menininha, mas ainda não escolhi o nome.

— Pode ser Íris, como a flor de Cannes? —


ele perguntou, e eu fiquei em dúvida, Cannes era o
nosso primeiro encontro e uma mancha na relação,
ao mesmo tempo. Dimitri continuou a falar. — Foi
através de sua preocupação com aquela indefesa
muda de planta que eu percebi que poderia
facilmente me apaixonar por você.

Tendo dito aquilo, eu não podia negar. De


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fato, queria esse nome nela.

Inclusive, a sonoridade do nome me


agradava: Íris Grimaldi Duskin, nossa filha.

Fiquei de pé e virei de costas. Ainda


ajoelhado, Dimitri obedeceu meu comando
silencioso e abriu o zíper do meu vestido, fazendo-
o deslizar pelo corpo e cair no chão, ao redor dos
meus pés.

Voltei-me para ele apenas de lingerie, meias


sete-oitavos e salto alto. Dimitri beijou com carinho
minha barriga desnuda. Ele me olhou como se me
venerasse:

— Eu já te disse que te amo?

Balancei a cabeça para os lados, negando.

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— Tudo bem, eu também nunca falei isso


para você — dei de ombros.

— Deixa eu te demonstrar — ele afastou a


minha calcinha com a ponta dos dedos e parou. —
Hum... Tem algum risco de machucar o bebê?

Gargalhei da sua expressão, um misto de


medo e desespero.

— Não — respondi. — A menos que você


pretenda fazer algo muito bizarro.

O canto de sua boca se levantou e os


provocadores dedos de Dimitri encontraram minha
carne macia.

— Deixaremos o bizarro para depois, então


— ele piscou um olho e me atacou com sua língua
e mãos.
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Segurei-me em seus cabelos, seis meses


lidando com hormônios da gravidez e sem sexo me
deixaram um pouco.... necessitada. Não demorou
muito para que eu mordesse os lábios, tentando não
gritar.

Ele me chupava sem piedade, um dedo,


dois, três, entrando e saindo de mim. Minhas pernas
fraquejavam de prazer, e eu o empurrei para o chão,
tirando suas roupas com a urgência de um faminto
desesperado por alívio.

Cavalguei, sentindo-o mais profundo, seus


dedos beliscando meus mamilos sensíveis. Eu
rebolava, subindo e descendo, sugando-o por
completo para dentro de mim. Puxei-o pelos
cabelos, trazendo Dimitri para um beijo voraz.

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Precisava que acabasse logo, mais de meia


hora havia passado, porém não queria. Fiquei de
quatro, com o os braços apoiados na cadeira.
Dimitri me penetrou por trás, tapa na bunda e
mordidas no ombro aqueceram nosso momento.
Rápido, intenso e sem interrupções.

Gemidos involuntários escapavam de mim,


e Dimitri tapou minha boca.

— Segure firme — ele alertou.

Eu fiz, ele entrava e saía de mim tão rápido,


que minha cabeça batia repetidamente contra o
assento macio da cadeira. Eu berrei quando o
orgasmo explosivo me atingiu, agradecendo pela
banda ter trocado o repertório para um rock
agitado.

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Ofegantes, pelados e exaustos, estávamos


no chão, ele apoiado na cadeira e eu em seu colo.
Dimitri fazia círculos na minha barriga,
distraidamente.

— Eu te amo — ele beijou meus lábios. —


Posso ter percebido quando vi a flor, mas acho que
foi à primeira vista, desde o momento em que te vi,
toda linda e indignada na banheira.

Lembrei-me da raiva que tive dele naquele


dia. Indignação era pouco para simbolizar o que
senti.

— Acho que comecei a realmente gostar de


você no dia que voltou por mim lá em Cannes e me
apaixonei quando me ajudou na minha pequena
crise em Paris — aconcheguei-me em seus braços.

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— Eu te amo.

Ficamos em um silêncio agradável, curtindo


a pele um do outro.

Toque.

Carinho.

O amor.

E a batida insistente na porta.

— Espero que vocês estejam vestidos e


apresentáveis — Lúcia disse através da porta. —
Vocês têm noção do tempo? Estou enrolando o
pessoal há mais de uma hora!

Opa, eu e Dimitri tínhamos a terrível mania


de escapar dos eventos oficiais para transar. Nós
nos arrumamos apressadamente, rindo da aparência

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desastrosa do meu cabelo. Eu o prendi em uma


trança embutida e resgatei o xale do chão. Não era
hora de anunciar ao mundo as novidades.

— Ei — ele falou, colocando o colar no


meu pescoço. — Acho que a gente deveria casar,
antes que seu pai me mate para limpar sua honra.

Duvidava muito.

— Ih, ele tá meio atrasado para isso, minha


“honra” foi perdida faz tempo.

Ele me abraçou por trás, encarando-me pelo


reflexo do espelho.

— Tem um espaço para mim? — Dimitri


beijou meu ombro. — Em sua vida de CEO,
modelo, empreendedora e futura mãe?

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No reflexo, observei o casal que


formávamos. Seríamos poderosos e inalcançáveis,
um aumentando o lobby do outro.

Formidáveis.

Minha atenção, entretanto, não estava no


que poderíamos fazer um pelo outro.

Estava em sua mão em minha barriga.

Nos meus ombros relaxados contra o seu


peito duro.

Em seus olhos, repletos de carinho.

Na nossa filha, ainda por nascer.

Ou no meu coração, que desejava estar ao


lado dele.

— Vou verificar minha agenda — pisquei

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um olho para ele, que sorriu.

De mãos dadas, eu e Dimitri saímos do


camarim para enfrentar o mundo...

Juntos.

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Epílogo

Três anos depois

Não me cansava do meu novo escritório.


Era moderno e arrojado, decorado em tons claros.
Fiz questão de ter um janelão aqui também, feito
por uma parede inteira de vidro temperado com
proteção ultravioleta.

A vista dava para um mar de arranha-céus e


poucas construções menores. Entretanto, ao
contrário da minha antiga sala, esta havia algo
além. O parque Griffith com o seu observatório e
depois dele, o Hollywood Hills, com o famoso

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letreiro.

O downtown de Los Angeles tinha o seu


charme.

Antes da nossa filha nascer, eu e Dimitri nos


casamos escondido da mídia, apenas com um grupo
seleto de convidados. Para anunciar a nossa união,
fizemos um book fotográfico da gravidez e
vendemos algumas dessas fotos junto com as do
casamento para a maior e mais importante revista
de entretenimento, além de uma entrevista
exclusiva. Em pouco tempo, nosso nome — com as
informações que queríamos passar — não saía das
revistas e canais de fofoca.

Por muitos anos, o trabalho foi minha vida,


e eu me dediquei completamente a isto. Sempre

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acreditei que um dia bem-sucedido no escritório era


a melhor coisa que poderia acontecer, além de
orgasmos casuais.

Como estava enganada!

Mesmo depois da melhor reunião ou da


assinatura de um contrato perfeito e lucrativo,
voltar para casa, para os braços de Dimitri e para
perto de nossa filha, era o ápice dos meus dias.

E depois de três anos trabalhando na


expansão da ML Agência e Produções, com a ajuda
crucial do meu pai, que adiantou a papelada e
compra do imóvel aqui nos Estados Unidos
enquanto eu resolvia a burocracia no Brasil,
abrimos uma segunda unidade em Los Angeles, na
Califórnia. Onde eu morava agora, como CEO de

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uma agência multinacional.

Estávamos no coração de Hollywood,


angariando mais agenciados a cada dia. Fossem
eles desconhecidos com grande potencial ou
famosos em busca de contratos melhores. Eu
preferia lucrar menos com cada um e ter um
número grande de clientes satisfeitos do que ser
como Pendleton, que sugava seus poucos
agenciados.

Alguns dos nossos modelos, inclusive,


decidiram se tornar atores. Leandro, o que tinha
imenso sex appeal e sempre arrasava nas
propagandas televisionadas, foi minha primeira
aposta. Hoje, era protagonista da novela principal
de uma das maiores emissoras brasileiras. Fiquei

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muito satisfeita, ele foi um dos que mais usei em


meus “testes do sofá” e o havia recompensado de
alguma forma.

Dimitri sabia do meu antigo costume de


transar com alguns modelos e não se importava, ele
fizera algo parecido com as atrizes figurantes.
Nenhum de nós era santo antes de descobrirmos a
verdade: ele era tudo que eu precisava, e vice-
versa.

Pendleton nunca mais entrou no ramo do


entretenimento, meu pai costumava manter o olho
nele. Da última vez que foi checado, ele era
relações públicas de uma empresa de telefonia na
Inglaterra. Já os contratos de Dante e Alessandra
foram negociados com outra agência, fizemos uma

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permuta e eu me livrei de suas negatividades.


Continuavam a fazer sucesso, porém não
alcançaram nem um terço do que desejavam.

Dante jamais chegaria aos pés de Dimitri.

Eu sentia muitas saudades do Brasil. O país


tinha seus problemas, mas era o meu país. O lugar
onde nasci, cresci e tive minha filha. A saudade
maior, entretanto, era de Lúcia. Devido aos anos de
amizade, minha confiança nela e, principalmente,
seu trabalho como minha vice, lhe rendera uma
segunda promoção, tornando-se a CEO da nossa
sede brasileira.

De mamãe, não tinha como sentir falta. Ela


passava mais tempo em seu apartamento em Santa
Monica do que em sua casa, no Brasil. Não que eu

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me importasse, todos a amavam, e ela acabou


sendo uma avó melhor do que fora como mãe. Íris a
idolatrava, e as duas adoravam passear por Los
Angeles como estrelas.

E Íris Grimaldi Duskin era uma pequena


diva.

Sendo filha de um ator e uma modelo


conhecidos pela beleza, ela parecia uma linda
boneca que ganhou vida. De rosto delicado, cabelos
compridos, bochechas rosadas e expressivos olhos
azuis, a garotinha encantava a todos.

Vinda de uma família de artistas, desde


muito nova amou os holofotes. Sua primeira
aparição foi como filha de Dimitri em um filme de
drama. Era uma cena rápida, mostrando o casal —

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depois de muitos infortúnios — feliz e casado, com


uma filhinha no colo.

Apesar de rápida, a cena tornou-se eterna. O


amor e a conexão de Dimitri com a pequena Íris era
perceptível mesmo pela tela, era algo enraizado em
suas almas e nem a melhor atuação poderia se
comparar.

Foi o primeiro Oscar dele.

Depois disso, Íris participou de mais alguns


comerciais. Eu não aprovava muito, queria que ela
fosse apenas criança e que brincasse. Contudo,
além da veia artística, minha menininha também
herdou a lábia de empresária para negociação. Ela
me convenceu que gostava e queria mais.

Não a privei daquilo que a fazia feliz, porém


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sempre dosava as quantidades. Assim, ela poderia


brincar como qualquer criança e seguir o legado da
família. No final das contas, eu, que costumava
criticar minha criação, fazia algo parecido com
minha filha.

Tínhamos, entretanto, um grande


diferencial: o amor. Ao contrário dos meus pais,
que sempre discutiam e costumavam trair um ao
outro, eu e Dimitri nos amávamos mais a cada dia.
Ele tinha razão quando falou que foi paixão à
primeira vista: nossas almas se reconheceram.
Porém, era com o cotidiano, com as pequenas
tarefas diárias que demonstrávamos o quanto fomos
feitos um para o outro.

A doce e esperta Íris veio para acrescentar

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mais ao que já era bom, tornando-o perfeito. Eu não


fazia ideia de como podia haver um amor tão
grande quanto o que sentia pela minha filha. Por
mais que diversas vezes ela testasse minha
paciência e limites, não seria capaz de imaginar um
futuro sem Íris.

Verifiquei o monitor de segurança, sempre


posicionado atrás da minha mesa. Estava quase na
hora. Levantei-me para ficar agachada em frente à
porta: 3, 2, 1...

— Mamãe! — Íris irrompeu no escritório,


pulando em meus braços abertos.

Eu a abracei apertado, sentindo o aroma


suave de seus cabelos, e beijei sua testa. Ela me
encheu de beijos por todo o rosto. Íris falava

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rápido, contando sobre o seu dia, enquanto eu


tentava acompanhar o seu português misturado com
inglês. Fiquei em pé, com ela em meu colo.

— Olá, meu amor — os lábios de Dimitri


encontraram os meus, em um beijo terno.

Íris, envergonhada, escondeu o rosto na


curvatura do meu pescoço. Dimitri sorriu para a
pequena e me beijou mais uma vez.

O sol começou a se pôr, os raios laranja e


púrpura que entravam pela parede de vidro
combinavam com o tom ruivo alaranjado na cabeça
do meu marido. O bom de ser casada com um ator
era que a cada papel, eu tinha um homem de
aparência ligeiramente diferente. Porém, o seu
cerne era sempre o mesmo, o da pessoa que eu

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amava.

Sempre que Dimitri tinha tempo livre entre


as gravações, ele trazia Íris aqui neste horário. E,
juntos, no último andar do edifício que
representava nosso império, assistíamos o sol se
pôr em Los Angeles.

Enquanto os dois estivessem ao meu lado,


eu sabia que o céu era o limite, e que o nosso amor
era infindo.

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Sobre a autora

Aretha V. Guedes é bióloga, casada, mãe de


um garoto de nove anos e estudante de odontologia.
Sempre amou livros, séries, filmes, músicas e
jogos. Recebeu no Wattpad o prêmio internacional
Wattys 2016 e 2017, além de ser destaque em
Romance na plataforma, conquistando mais de 61
mil seguidores. Na plataforma Luvbook, foi uma
das vencedoras do 1º Concurso Luvbook/Ler
Editorial, com o conto New Adult A Soma dos
meus erros. É colaboradora dos blogs Capitu Já Leu
e Arca Literária. A série Jack Rock conquistou
milhões de leituras online, sendo best-seller de sua

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categoria.
Romance e erótico não são suas únicas
linhas de escrita, também escreve contos e livros de
fantasia e drama. O romance sobrenatural Reich –
entre vampiros e deuses ficou no primeiro lugar do
ranking de Fantasia por mais de três meses do
Wattpad e também foi o mais vendido de Fantasia
da Amazon.

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SEM ALTERNATIVA

C. Caraciolo

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Dedicatória

Carol, Aretha e Raphael

Suki.

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Sinopse

Melanie está em apuros.

Prejudicada por um familiar sem caráter, a


jovem CEO vê sua empresa afundar enquanto os
processos e as dívidas se multiplicam em suas
mãos.

Charles está satisfeito.

Após o excelente andamento de um


processo que move contra a Turano Soluções em
Transportes, a empresa de Melanie, o empresário
sente que a justiça será feita contra Fernando, o
homem que tentou dar um imenso golpe na Família
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Miguez, sua companhia de doces gourmet.

Em uma última tentativa de não perder sua


casa e enterrar seu nome na lama, Melanie oferece
a Charles um acordo inusitado, e ele prontamente

aceita, visando lucro imediato. Porém terá sido esse


o único motivo do CEO da Família Miguez?

Duas empresas em guerra, duas famílias em


conflito e apenas uma certeza: atração imediata e
sentimentos conflituosos podem tanto unir quanto

separar lados opostos de uma batalha.

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Capítulo 1

— Pronto, querida, cá está sua bebida! —

Mara exclamou assim que sentou ao lado de sua


amiga em um banco de madeira. — Ah, vai, não
me olha com essa carinha. Uma boa cerveja gelada
cai bem nessa noite quente, e eu não quero nem vou
beber sozinha.

Melanie olhou para Mara, deslumbrante em

seu modelito hipster, composto de um vestido


estrategicamente surrado, com a maior cara de
brechó chique, botas de combate e os cabelos
cortados no que Mara chamava de “bob médio”, e

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ergueu uma sobrancelha.

— Quente? Você está de botas, Mara, não é


bem um modelito que grite “verão carioca”... Mas
ok, eu bem que preciso de uma bebida de qualquer

maneira… — Melanie mensurou, erguendo


rapidamente os ombros, como se estivesse se
rendendo ao pedido da amiga.

Mara lhe dirigiu um imenso sorriso


animado antes de abrir as duas garrafas de cerveja,

e as duas ficaram em silêncio por uns instantes,


saboreando suas bebidas e olhando o movimento na
praça. Algumas crianças corriam ao redor do
chafariz da pracinha, e vez ou outra, uma tropeçava
e caía dentro da construção de pedra, mas se
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levantava rapidamente, já que não havia água

dentro e a fonte era relativamente pequena.

— E aí, amore, qual é o problema? Por que


você me chamou hoje? Sua carinha diz que você

não está muito…

— Animada? Feliz? Exuberante? — ela


completou e suspirou. — Pois é, Mara, meu pai
aprontou de novo.

— De novo? — perguntou a amiga, levando

a mão ao peito em um gesto teatral.

— De novo. Nenhuma novidade, eu sei, só


que dessa vez não vai adiantar assumir o controle
da nossa empresa temporariamente e arrumar a

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casa. Não é suficiente para reparar as besteiras.


Papai está sendo processado por roubo, por ter
desviado quatro caminhões de entregas para tentar
receber o valor do seguro, além de ganhar por fora

o valor da mercadoria. A boa e velha fraude.

O queixo de Mara caiu, fazendo seu rosto


expressar toda a surpresa de um modo quase
cômico. De todas as falcatruas que o pai de Mel já
havia feito, nada se comparava com roubo.

Normalmente, tudo se resumia a péssimos


negócios, quantias emprestadas a “amigos” e
pequenos desvios de caixa. Por isso a expressão tão
espalhafatosa de surpresa, que em outros momentos
teria feito Melanie achar graça. Naquele momento,
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ela estava arrasada demais para isso.

Ela bebeu um gole da cerveja, ouvindo a


amiga questionar:

— E aí? O que isso significa pra você e sua

empresa?

A jovem empresária apenas deu de ombros


antes de finalizar o resto da bebida, suspirar e
afirmar:

— Falência. A seguradora já ganhou o

processo, isso não há dúvidas, e vai levar uma


quantidade de dinheiro que você nem imagina. Só
isso já seria suficiente para enterrar a firma, mas
ainda tem a publicidade negativa em cima de meu

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pai e…

Mel hesitou por um momento, se sentindo


mal só de precisar pensar naquilo tudo.

— E…? — incentivou a jovem cabeleireira.

— E papai está sendo processado como


pessoa física também. O dono da empresa que
fazíamos as entregas era amigo dele. Eram colegas
de mergulho, de Krav Magá, sei lá, algo assim.
Esse senhor ficou profundamente irritado com o

que papai fez, já que ainda foi acusado de ter


participado, o que, convenhamos, é ridículo.

— Óbvio, só seu pai para achar normal


sabotar a própria empresa.

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Mel inclinou a garrafa vazia de cerveja na

direção da amiga, como se dissesse “exatamente!”.

— Para completar, meu pai enfiou um soco


na cara dele, em uma armação de tentar se passar

por vítima que não convenceu ninguém. Só Deus


sabe o motivo disso tudo, mas não satisfeito em
cometer um crime, Seu Fernando vai lá e decide
cometer outro. Está sendo processado por agressão,
injúria, difamação, eu nem lembro mais o quê. A

indenização é astronômica, por sinal. É o fim total


da empresa da família.

Mara, impressionada demais para conseguir


falar qualquer coisa, deixou que a amiga
prosseguisse no relato de derrota do maior
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patrimônio de Melanie. Desde antes de as duas se

conhecerem, ainda adolescentes, o sustento da


família de Mel vinha todo da empresa
transportadora de produtos alimentícios, fundada

por seus pais antes de ela nascer.

O que começou como um emprego de


motoboy levou o pai de Mara, Fernando, a erguer
um sólido e confiável negócio, que atendia diversas
docerias, padarias e fábricas de doces, bolos e

aperitivos por todo Rio de Janeiro.

Porém a ambição cegou Fernando, que


começou a tomar decisões não muito corretas para
lucrar mais. Tais decisões, que costumavam sempre
transitar entre congelar salários e se negar a pagar
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FGTS para funcionários, começaram a deixar o

saldo no fim do mês sempre vermelho, até porque o


dinheiro “economizado” nunca ficava na conta da
empresa, mas sim em seu próprio bolso. Isso sem

contar as indenizações trabalhistas, afinal, era


direito dos funcionários receber seus valores
devidos.

Melanie, que se formou em administração


de empresas para poder ajudar no negócio da

família, ao perceber o que o pai estava fazendo,


interferiu e tomou a presidência da empresa, dando
um jeito de reverter ao menos uma parte das
burrices de Fernando. Tudo acabou dando tão certo,
que ela conseguiu recuperar o prestígio perdido em
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pouco tempo.

Porém não esperava que Fernando


continuasse agindo por baixo dos panos, tentando
acordos com criminosos para conseguir lucros

indevidos. O que começara com direitos


trabalhistas logo migrou para coisas mais sérias
ainda. A última tentativa foi contratar homens para
simular um assalto em uma entrega de quatro
caminhões de doces gourmets que rumavam para os

estúdios de uma grande emissora da cidade, uma


das maiores do país.

Fernando, apesar do mau caráter, não tinha


muito talento para se envolver com criminosos
profissionais, o que resultou em um fracasso na
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operação, que não somente conseguiu arruinar seus

planos de pegar o dinheiro do seguro, como fez


desaparecer quatro dos melhores caminhões que a
empresa possuía. Suas carcaças destroçadas foram

encontradas algumas semanas após o evento.

Por sorte, ninguém se machucou. Ao menos


isso.

— Agora meu querido e amado pai decidiu


se esconder de tudo e todos, deixando para sua

filha, no caso eu, uma herança em vida um tanto...


indigesta. Não que eu ligue muito para o nome
dele, o problema é que ele jogou o nome da família
na lama, e isso obviamente inclui o meu! — disse
Melanie, em um fôlego só.
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Desabafar, por mais necessário que fosse,

não era fácil. As intimações, as idas e vindas a


advogados e as reuniões ameaçadoras com as partes
prejudicadas vinham minando todas as forças da

agora ex-CEO da Turano Soluções em Transportes.

Toda a sua vida se organizara ao redor do


negócio de família. Desde sua formação e trabalho,
até mesmo a sua casa, que também era a sede da
empresa. A área externa de sua confortável casa

acolhia uma segunda construção, criada para ser o


escritório centralizador de todas as operações da
empresa, de recursos humanos a redes sociais.

Juridicamente, ali era também o único


endereço da empresa, já que a garagem dos
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veículos de transporte era em outro local, alugada

pela empresa.

— Deus, como ele pôde fazer isso tudo,


Mel? — exclamou, possessa com tamanha

injustiça. — Tudo bem que você sempre se deu


melhor com sua mãe, que Deus a tenha. Mas, sei lá,
te deixar nessa roubada não parece uma coisa certa
para um pai fazer com uma filha!

A jovem apenas suspirou. Não era novidade

para ela que o homem que a criara não pensava em


ninguém além dele mesmo. Mara, vendo a
expressão desolada da amiga, pediu um minutinho
e foi correndo comprar mais duas cervejas. Aquela
noite requisitava uma concentração maior de álcool
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no sangue.

— Nem quero saber o que se passa na


cabeça dele — Mel respondeu assim que sua amiga
retornou. — No momento, quero aproveitar minha

amiga sem ser a pior companhia do mundo e tentar


não me jogar na frente de um ônibus. Acha que
consigo?

Mara a abraçou pelo ombro e beijou sua


têmpora, tentando animá-la.

— Podemos tentar! Qualquer coisa, eu me


jogo com você. Podemos escolher um carro chique
em vez de um ônibus? Bom, pensando bem, os
ônibus não deixam de ser Mercedes, não é? Eu

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posso mandar uma mensagem para nossos amigos e

pedir que eles joguem uma bandeira de unicórnio


em nossos caixões, que tal? Vai ser super
tendência! Um enterro Tumblr!

Mel acabou sorrindo verdadeiramente pela


primeira vez em muito tempo. Mara sabia que ela
gostava de unicórnios, pois sua mãe era apaixonada
pela figura mitológica, então, por mais dark que
tenha sido a piada, conseguiu fazer a amiga rir.

Desde que recebera a bateria de notícias


desagradáveis de seu contador, risadas eram
raridade na vida da jovem. Seu pai havia ligado
rapidamente e informado que pretendia vender a
casa da família para poder pagar as dívidas dos
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processos. Melanie sabia que também era um modo

de apagar tudo que pudesse ser usado para


lembrarem dele.

— Ah, Mara, ainda tem mais… — começou

assim que lembrou desse detalhe.

Mara soltou Melanie do abraço e balançou a


cabeça por lados, fazendo seu longo e muito
colorido cabelo balançar.

— Não, não tem! Tem? Não é possível que

tenha algo pior do que isso! Só falta ele ter


apostado sua vida em cavalos com a máfia! É isso?
Você agora será a submissa de um mafioso? Porque
não tem nada pior na vida...

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Melanie deu um sorriso sem humor.

— Ok, estou em melhor situação que a


submissa, mas, amiga... Nossa casa está no nome
dele. O processo que ele recebeu por parte do dono

da empresa...

— O mesmo que levou o soco do seu pai?


— Mara interrompeu, e a amiga assentiu com a
cabeça.

— Charles Miguez, daquela marca chique

de doces artesanais, sabe? Família Miguez?

Mara ergueu o lábio superior numa careta


facilmente traduzida como “É, ferrou” e deixou que
a amiga prosseguisse no relato da desgraceira. A

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empresa em questão fornecia doces para


praticamente todos os estabelecimentos comerciais
da cidade, incluindo o salão de beleza de Mara, que
servia os biscoitos junto de cafés para clientes

aguardando serem atendidas. Qualquer pessoa com


um negócio próspero ou grande no Rio sabia que os
biscoitos deles eram os melhores.

— Ele está pedindo no processo um valor


que meu pai só conseguiria… bom… vendendo

nossa casa. E ele já avisou que vai fazer isso. Ou


seja, em menos de um mês eu descubro que vou
perder minha empresa, meu emprego e minha casa.
Tem como melhorar?

Melanie virou a cerveja de uma vez e olhou


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para a amiga, que parecia aérea, como se estivesse

em outro mundo, até que de repente exclamou:

— Ei! Eu tive uma ideia! Eu conheço uma


pessoa que conhece uma pessoa que conhece uma

pessoa…

— Ok, já entendi… — Melanie disse e


sorriu pela segunda vez em muito tempo. Era o
Efeito Mara, a cabeleireira sempre conseguia fazer
todo mundo sorrir.

— Então, essa pessoa conhece alguém que


trabalha lá dentro! Pelo que eu soube, na Família
Miguez os funcionários são muito felizes! E se
você fizesse um acordo com o Charles Miguez e

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fosse trabalhar para eles?

A cabelereira estava tão animada, que Mel


nem conseguiu protestar. Sua ideia parecia vinda de
romances de banca de jornal, daqueles de

impressão em folhas baratas. Se existissem livros


de negócios de banca de jornal, com certeza essa
ideia estrelaria o primeiro volume de uma coleção.

Notando a falta de animação da amiga,


Mara insistiu:

— Ah, vai! Seria ótimo! Aposto que você se


destacaria lá dentro e poderia matar dois coelhos
com uma cajadada só! Quem sabe não conheça
alguém, digamos... interessante?

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Melanie literalmente se engasgou com a

cerveja que foi tentar beber enquanto acompanhava


o raciocínio da amiga.

— Hein? Amiga, você bebeu? Ah, sim,

claro que bebeu, dã — ela disse quando Mara


apontou para a cerveja em suas mãos e sorriu. —
Beba menos, então, já está totalmente bebum!

Mara colocou a mão livre no joelho da


amiga e o balançou para os lados, como uma

criança mimada chamando a atenção da mãe.

— Ah, amiga, pare de ser tão quadrada!


Olha, você pode tentar um acordo pacífico com ele!
Você trabalha para ele por um tempo, por um

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salário menor, claro, e vai pagando a dívida de seu

pai assim! Não revire os olhos para mim, mocinha!


Eu te dei uma ideia para sair do buraco, já pode
deixar a saída de se jogar na frente do ônibus para

segundo plano. Pode se concentrar somente na


bandeira de unicórnio.

— Reviro sim, ora! Que ideia ridícula! De


que livro erótico você tirou isso? O que eu vou
fazer, dormir com o patrão? É esse o tipo de

trabalho que você está propondo?

Dessa vez, foi Mara quem engasgou, só que


com sua própria saliva e de tanto rir da sugestão
que ouviu.

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Alguns tapas nas costas depois, ela

conseguiu respirar e parar de rir e explicou:

— Não, sua anta, é trabalhar mesmo! Quero


dizer, com essas coisas administrativas suas, não

com seu corpinho! Oferece para ele aquilo que todo


empresário gosta: abrir mão dos direitos
trabalhistas. Diz que você trabalhará sem carteira
assinada, por contrato ou como empresa contratada,
no período de, sei lá, um ano.

Mel virou a cabeça de lado enquanto


pensava na sugestão da amiga.

— Diga que seus serviços custam o dobro


do que realmente custam, cobre dele um terço desse

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valor, o que não vai te ferrar muito, afinal, não vai

ter mais aquele saco de ossos imprestável para


assinar o futebol e o BBB no paperview, então as
suas contas vão…

— Maraline!! — Melanie retrucou,


horrorizada.

— Ah, desculpa… Não posso xingar seu


pai?

— Não, claro que pode! Me ofende você

achar que era ele quem assinava o futebol! Ele


assinava o BBB, o Brasileirão era todinho meu,
poxa...

Mara piscou algumas vezes e caiu na

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gargalhada ao ouvir o muxoxo que a amiga deu.


Até Mel, que não estava lá no seu melhor humor,
acabou rindo também.

E, assim, Mara continuou tentando

convencer a amiga de que aquela saída era a melhor


de todas. Depois de mais duas cervejas, Melanie
acabou topando, afinal, e as duas começaram a
bolar um plano e estratégias para não deixar que o
atual CEO da Fábrica Miguez pudesse recusar seu

pedido.

A ideia era doida? Era. Provavelmente ia


dar errado? Sim. Havia grandes chances de todos
rirem de sua cara? Definitivamente. Mas era a
única opção de Melanie.
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Com o coração repleto de esperança

renovada, a jovem administradora decidiu tentar a


sorte.

O máximo que receberia, de qualquer

modo, era um não, certo?

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Capítulo 2

Na manhã seguinte, Melanie estava pronta

para bater na porta da Família Miguez. A noite


havia sido movimentada, já que assim que se
despediu de Mara, com seu plano pronto, Mel se
dedicou a preparar uma quantidade de dados que
fosse satisfatória para convencer o CEO que a sua
contratação era o melhor caminho para as duas

famílias e, consequentemente, as duas empresas.

Os papéis se multiplicaram na mesma


proporção que as xícaras de café, chá verde e latas
de Red Bull, de modo que às dez da manhã,

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Melanie tinha um grande fichário repleto de

argumentos em prol de sua contratação.

Junto a isso, duas olheiras imensas


devidamente cobertas com a melhor maquiagem

que ela possuía. Por mais que estivesse falida, Mel


ainda era uma ex-CEO que sabia como se portar e
se arrumar para um encontro de negócios.

Chegar na empresa não foi tarefa muito


complicada. Localizada em um bairro nobre e de

fácil acesso, em menos de uma hora de ônibus a


administradora caminhava em frente à porta de
entrada.

Sua ideia era simples: se apresentar de

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modo confiante, porém sem que parecesse

arrogante, requisitar junto à secretaria uma reunião


com Miguez e apresentar o plano que poria fim
aquela confusão criada por seu pai.

Os dados trabalhados durante a noite eram


provas mais que suficientes para convencer
qualquer administrador em início de carreira — o
que Miguez não era, já que trabalhava como CEO
da marca havia bons anos — de que Mel era

competente.

E ela realmente era. Não se tornou CEO de


uma empresa lucrativa apenas por fazer parte da
família. Sem ela, a Turano Soluções em
Transportes não teria sobrevivido a nenhuma
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falcatrua do pai. Além de extremamente astuta, ela

era inteligente e observadora, além de muito


criativa. Conseguia vender gelo para esquimó e
convenceria um republicano a votar em Bernie

Sanders em meia hora de conversa.

— Bom dia. Me chamo Melanie e gostaria


de me encontrar com Charles Miguez. Tenho um
assunto importante para tratar com ele. Sei que não
marquei hora para essa reunião, mas acredito que

nosso encontro seja muito proveitoso para a


empresa — disse Melanie num sopro de confiança
que começou a se esvair quando notou as
sobrancelhas se arqueando no rosto da secretária.

— Sinto muito, senhora.... — hesitou


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enquanto escolhia as palavras certas para responder

à jovem audaciosa à sua frente.

— Melanie.

— Sim, senhora Melanie. Entendo o que

você me disse, mas infelizmente acredito que seja


impossível anunciar você ao senhor Charles. Nossa
empresa tem uma política séria quanto os encontros
com o CEO. Desta forma, acredito que o melhor
que você possa fazer é nos encaminhar um e-mail...

— Desculpe, não perguntei seu nome —


tentando ganhar tempo para pensar numa saída,
Melanie mudou o caminho da conversa para algo
que pudesse lhe ajudar.

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— Sandra, senhora.

— Ok, Sandra, deixe-me explicar melhor.


Eu sou Melanie Turano, diretora executiva da
Turano Soluções em Transporte, empresa que está

num imbróglio judicial com a Família Miguez. Vim


até aqui para poder conversar com o senhor Miguez
acerca dessa situação e oferecer algumas saídas
para esse problema.

Se em um primeiro momento Sandra

parecia atenciosa, na hora em que Melanie


mencionou a palavra “judicial” e o nome “Turano
Soluções em Transporte”, sua expressão se alterou
completamente. Se suas orelhas tivessem pálpebras,
era nítido que Sandra as teria fechado para não
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escutar mais a jovem.

— Senhora Melanie, agradeço sua


explicação, principalmente por ter detalhado o
intuito do seu encontro. Acredito que o melhor que

você pode fazer é entrar em contato com o jurídico


da empresa por meio desse telefone.

Sandra entregou um cartão simples com o


nome de um advogado e um telefone para contato.
Colocando um ponto final na conversa, perguntou:

— Tem mais alguma coisa que eu possa lhe


ajudar?

Mel se sentiu derrotada por dentro, mas não


demonstrou. Agradeceu o tempo dedicado e se foi

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do prédio.

Com o coração repleto de desânimo, ela


começou a pensar em alguma estratégia ou
alternativa, quando o destino sorriu para a jovem:

ao passar pela porta do prédio comercial, um


homem alto e de perfil atlético, vestido de maneira
relativamente casual, passou por ela.

Imediatamente, lembrou da imagem que viu


do presidente da empresa e constatou que aquele

homem era uma versão mais jovem — e atraente —


de Charles Miguez, ex-amigo de seu pai. Portanto
deveria ser o filho, Charles Júnior, o CEO da
empresa. Isso! Aquela era a chance dela de
conseguir sua reunião!
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Logicamente, aquilo era uma loucura. A

empresa deveria ter diversos funcionários e até


mesmo clientes com hora marcada para encontros
de negócios, e a chance de ele topar era minúscula,

mas Melanie não tinha muito a perder. Se seu plano


A foi por água abaixo, então agora era o momento
de tentar um plano B!

— Senhor Charles, por favor, gostaria de


falar com o senhor! — ela disse num rompante para

o homem, que parou de caminhar e voltou sua


atenção para ela de modo cauteloso.

— Pois não?

Por um instante, Mel esqueceu o que havia

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dito. Assim que Charles voltou sua atenção para

ela, a jovem sentiu como se suas pernas tivessem


perdido a força. Que ele era atraente, era óbvio, ela
notara de longe. Mas assim, de perto, “atraente”

não era uma palavra que faria jus à beleza do CEO.

Charles era alto, muito mais alto que ela,


tinha ombros largos, maxilar esculpido, uma barba
por fazer que o deixava incrivelmente sexy e um
cabelo daqueles que homens perdem horas tentando

copiar — mas que ele nem devia ter penteado. O


significado de virilidade e beleza natural adquiriu
uma nova roupagem para Mel.

Seus olhos eram severos, em tom de


caramelo, penetrantes, e vasculharam a jovem de
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cima a baixo, avaliando, com aprovação disfarçada,

a postura elegante, a roupa social bem-feita, a


maquiagem leve e tudo que mostrava em estética o
profissionalismo de Melanie.

Limpando a garganta por um momento,


para tentar recuperar a voz perdida, Mel começou a
falar, ignorando o coração saltando no peito e a
luxúria se espalhando em suas veias:

— É um assunto importante do seu

interesse. É a respeito da Turano Soluções em


Transporte — explicou em uma respiração só, sem
dar chance de Charles a interromper.

Engolindo em seco, mas sem perder a

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postura, Mel viu Charles estreitar os belos olhos

enquanto a ouvia. Em seguida, ele a analisou


novamente, até que finalmente disse algo:

— Como você se chama?

— Me chamo Melanie. Venho em nome da


empresa para...

— Melanie. Eu sei quem você é — ele a


interrompeu de repente. — Filha do Fernando, que
não somente tentou prejudicar minha empresa,

como também acusou meu pai, amigo dele, de ser


cúmplice. Você é muito parecida com ele.

Mel engoliu em seco e tentou dizer algo,


mas o homem apenas disse:

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— E, claro, agrediu covardemente meu pai

idoso. Me perdoe a indelicadeza, senhorita


Melanie, mas não tenho interesse algum em me
reunir com você ou quaisquer outros funcionários

de sua empresa.

Mais uma vez, a jovem tentou dizer algo,


mas foi impedida por uma mão grande e máscula
posta frente ao seu rosto.

— O processo tem avançado rapidamente, e

acredito que em pouco tempo terei meu prejuízo


ressarcido — continuou Charles. — No mais,
gostaria que você não viesse mais até minha
empresa, pois acredito que isso possa complicar
ainda mais as coisas para vocês.
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Melanie engoliu em seco mais uma vez,

sentindo sua confiança um pouco abalada, mas


tentou convencê-lo de novo:

— Se você me ouvir, perceberá que a

proposta que eu tenho para te fazer é melhor para


sua empresa do que qualquer coisa que você possa
ganhar na justiça. Nossa empresa é pequena, não
temos muito o que fazer para ressarcir o prejuízo
que meu pai causou, o senhor deve saber disso. Há

outras dívidas sendo quitadas agora, não há muito o


que fazer.

Nesse momento, o olhar de Charles parecia


um laser, escaneando Melanie com precisão. Quem
aquela mulher pensava que era? Invadia seu espaço
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pessoal e ainda se dizia capaz de saber o que era

melhor para a empresa?

A ousadia de Melanie irritava Charles, mas,


ao mesmo tempo, o surpreendia. Havia uma

confiança na sua fala que fazia o CEO da Miguez


ficar em dúvida se deveria ou não dar ouvidos à
invasora.

— Acho difícil que você tenha encontrado


uma alternativa melhor do que a atual. Acredite em

mim, tenho muito mais motivos para confiar em


meu advogado do que nas palavras daquela que
gerencia a empresa que me roubou.

Melanie já esperava por esse discurso, por

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isso trabalhou a noite inteira em um material que

provasse seu valor.

— Se você não quer me escutar, então leia


esse arquivo. Eu expliquei tudo ali. São números e

tabelas que envolvem a dívida que temos com


vocês, bem como o que temos disponível para
quitar. Em suma, meu trabalho. Passe para seu
contador e advogado que eles confirmarão o que
estou tentando dizer.

Tudo foi dito em um tom decidido, de


forma a não debochar da capacidade de Charles
entender o material que ela produzira, mas sim
mostrar que ela não estava ali para brincadeira.

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As palavras de Melanie pareciam ter

mexido com Charles. Aquela mulher o enfrentara e


ainda fizera pouco caso de suas habilidades como
administrador da empresa. Entretanto, era verdade

que a transportadora do pai de Melanie não era


grande o suficiente para limpar todas as dívidas e
que provavelmente demoraria muito para conseguir
cobrir o prejuízo e arcar com o processo movido.

Além do mais, Charles sabia que Fernando

havia arruinado a empresa aos poucos, segundo seu


advogado e seu pai haviam revelado, o que provava
que talvez o processo não seria tão simples quanto
todos na Família Miguez gostariam.

Por um acaso, sobravam poucas alternativas


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para ambos, Charles e Melanie, e aquele fichário

parecia ser a corda de salvação de ambos, se a


audaciosa senhorita Melanie estivesse certa.

— Ok, vou analisar sua proposta, mas não

prometo nada — disse Charles pegando em mãos o


grosso fichário organizado por Melanie. — Entrarei
em contato caso tenha uma resposta. Agora, se
você me der licença, tenho outros problemas para
resolver.

E sem esperar uma resposta, Charles se


voltou para os elevadores sem olhar para trás.
Aquele encontro o havia irritado, já que toda a
situação que envolvia a empresa de transportes se
tornara bastante delicada. Encontrar com alguém da
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outra parte, logo no início da manhã, não era algo

que ele esperava ou desejava.

Além disso, uma pequena parte de si


mesmo se incomodou por, ainda que fosse

completamente não profissional, sentir uma atração


imediata pela jovem abusada, porém extremamente
sensual em sua postura de executiva de sucesso,
mesmo que não fosse uma postura real. Afinal de
contas, ela fracassara em manter sua empresa, ainda

que não fosse culpa sua.

Balançando a cabeça para tirar seus


pensamentos daqueles lábios rosados e decididos,
Charles iniciou seu dia na empresa se esforçando
ao máximo para não interromper o trabalho a
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qualquer momento e ir ler a tal proposta.

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Capítulo 3

O restaurante escolhido para o encontro era

sóbrio, porém aconchegante. Uma mistura de pub


inglês, com seus longos balcões de madeira escura
e grandes televisões que passavam esportes
ininterruptamente, com uma área externa aberta,
virada para uma bela vista de paisagem natural.

Música ambiente confortável e poucas

mesas faziam daquele restaurante o ponto de


encontro preferido de Charles com seu advogado,
André. O motivo da reunião, é claro, era o material
entregue por Melanie a ele duas semanas antes.

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Nesse meio tempo, o CEO da empresa

analisou cada detalhe da proposta, se


surpreendendo com a riqueza de detalhes e
organização que Melanie havia preparado.

No entanto, se Charles parecia propenso a


avançar na discussão da proposta, André era
contrário a ideia mesmo antes de ouvir os
pormenores. Amigo de longa data de Charles, o
advogado via no processo um caminho rápido e

simples de ganhar duas vezes na mesma situação:


venceria o processo para seu amigo e um caso
empresarial importante, o que poderia dar mais
destaque para sua carreira.

— Acredito que a proposta dela é


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interessante — Charles insistiu. — E, André, você

precisa concordar comigo que esse fichário é um


primor de qualidade. A postura dela é um tanto
audaciosa demais, ainda que eu tenha notado o

medo por baixo daquela pose toda, mas o trabalho


que fez foi muito bom.

André bebeu seu vinho e bufou antes de


falar:

— Charles, ela pode ter feito o melhor

trabalho do mundo, mas isso é roubada. Entenda,


você está processando a empresa que essa pessoa
administra, logo, qualquer contato com ela pode
atrapalhar o andamento do processo. Fique longe
dela, longe da empresa dela, longe de tudo isso,
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porque essa causa está vencida. Em breve, o juiz

baterá o martelo a nosso favor e receberemos tudo


que é devido.

A expressão de Charles mostrava sua

discordância em relação ao ponto de vista do


advogado. Influenciado pelos documentos de
Melanie, Charles tinha informações que André
provavelmente não imaginava, ou fingia não saber.
Eram amigos e companheiros de trabalho, mas

também tinham seus egos e desejos pessoais.

Charles sabia que André lutava para


conseguir uma vaga em um escritório de advocacia
grande. Queria a vida dos casos milionários de
corporações internacionais. Para isso, precisava
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começar de baixo, esmagando todos os seus

adversários e vencendo seus casos.

— Entendo o seu ponto de vista jurídico,


mas você precisa entender que tenho dados que

talvez você desconheça.

André parou imediatamente de fazer a


expressão entediada que o acompanhava desde o
início do assunto e começou a prestar atenção com
interesse.

— A empresa de transportes decretou


falência, isso você sabe. A única coisa que
poderíamos receber deles seriam valores baixos
referentes a penhora de imóveis. No caso, imóvel,

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porque o Fernando só tem uma casa. Eles se

desfizeram de tudo, pagaram as dívidas obrigatórias


e fecharam as portas. Acabou o dinheiro. Não
temos o que receber.

Enquanto Charles falava, André beliscava


alguns aperitivos, voltando a se sentir um pouco
entediado, pois já sabia de tudo aquilo. A televisão
passava a reprise de um dos jogos do final de
semana da liga americana de futebol, de modo que

a programação parecia muito mais interessante do


que o assunto em questão.

Quando Charles passou a se perguntar se


seu amigo prestava atenção no que ele dizia, André
de repente o questionou da forma como somente
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advogados sabem fazer:

— E se isso não passar de um golpe? Você


sabe que pode ser até mesmo processado por ela se
cometer qualquer deslize, não sabe? E você vai

deslizar, simplesmente porque se isso for um golpe,


esse é o objetivo.

Charles aguardou pacientemente os


argumentos de seu amigo e funcionário.

— Ou seja, o objetivo é uma briga de

processos que emperra a justiça e te faz perder


muito dinheiro. Dinheiro que você poderia investir
para fazer mais dinheiro. Você só perde, meu
amigo. Acredite em mim, não quero apenas vencer

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esse caso. Eu quero é vencer majestosamente esse

caso, entendeu? — disse de maneira exagerada,


fazendo o amigo dar uma risada.

A fala de André era convincente. Melanie

poderia ser traiçoeira e simplesmente estaria, a


mando do pai — que desde sempre suscitou
desconfiança em Charles —, tentando convencer o
CEO a fazer alguma besteira para reverter o
processo. Charles sabia que a situação era muito

favorável para si e que não precisaria se preocupar


demais com tal problema simplesmente porque a
causa estava vencida.

Porém, mesmo de forma rápida, o encontro


com Melanie tinha sido verdadeiro. A
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administradora, apesar de nervosa e em alguns

momentos defensiva, não aparentava estar tentando


tirar vantagem, pelo contrário. Os dados
apresentados mostravam que ela se oferecera para

trabalhar quase de graça em troca da amortização


da dívida feita por seu pai.

Suas contas eram facilmente entendidas e


ressaltavam que em apenas um ano, o valor seria
restituído de modo muito mais rápido, já que a

Fernando Solução em Transportes não tinha mais


um centavo furado. Além disso, a Família Miguez
ainda contaria com a experiência e trabalho de uma
profissional que, até aquele ponto, se mostrava
extremamente competente, apesar da pouca idade.
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Desde que o dia em que virou as costas para

Melanie, Charles não parava de pensar nela. Ele


realmente havia se impressionado com a disposição
da administradora. Convenhamos: ir até a empresa

responsável por um grande processo contra a


empresa que você administra e buscar um acordo
no qual você se oferece como empregada com um
salário modesto não parecia algo premeditado para
alguém que desejava dar um golpe.

Não havia sobrado nada da antiga empresa


de Melanie, logo, sua proposta parecia verdadeira.
Um modo de limpar o nome de sua família e de
ainda ter um emprego.

— André, sei o que você me recomenda,


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mas eu já tomei uma decisão. Preciso da sua ajuda

com esses dados. Vou aceitar a proposta dessa


moça.

O advogado bufou e revirou os olhos mais

uma vez.

— Tem algo aí que você não me contou. E


eu sinto que já até sei o que é. Rabo de saia.

— Não, André, não é isso. O fato é que a


Melanie tem um argumento que para mim não há

como negar. Além de sua empresa não ter um


tostão furado, essa mulher preparou um belo plano
de lucros que, se de fato funcionar, será muito
melhor do que qualquer processo que possamos

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ganhar. Ela é jovem e, como já disse, audaciosa. E

Deus é testemunha que nós não conseguimos


contratar um administrador decente nos últimos
quatro anos.

André ergueu as mãos para o ar e exclamou:

— Ok, eu me rendo! Já vi que essa mulher


mexeu com você de um jeito que seu bolso não
consegue te tocar. Vou começar tudo, então.
Analisar a papelada, bolar um contrato para a

empresa que ela ainda vai criar, fazer toda a


burocracia de prestação de serviço, blá, blá, blá...

— Perfeito, obrigado — Charles


interrompeu o drama do amigo.

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André fez um gesto com as mãos,

dispensando o agradecimento. Bem ou mal, era seu


trabalho, ainda que ele não concordasse com seu
empregador.

— Agora, já que você tirou da minha mão


uma vitória fácil, será que poderíamos pelo menos
nos aproximar daquelas duas maravilhas ali? —
perguntou e apontou para duas mulheres altas,
loiras e magras, obviamente turistas. — Elas não

parecem daqui, creio que precisem da ajuda de dois


moradores da cidade — André levantou sua taça de
vinho para as mulheres, com um sorriso largo e
convidativo no rosto.

Charles pegou sua carteira do bolso traseiro


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da calça, pescou algumas notas e deixou na mesa

enquanto se levantava.

— André, hoje é seu dia de sorte, porque


essas duas são só suas. Isso é, se elas te quiserem.

Eu preciso voltar pra Miguez, colocar um monte de


coisas em dia e pensar em como vou tirar proveito
do trabalho da filha do Fernando.

E sem dar tempo para o amigo responder, se


foi, antes que qualquer aproximação feminina

pudesse segurá-lo mais tempo longe da empresa e


de seus planos.

Sua cabeça estava a mil por hora. Aquela


mulher não só conseguiu o contato que desejava,

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como também o convencera com seu plano de

negócios. O dossiê entregue por ela mostrava que


Melanie pesquisara a fundo tudo que dizia respeito
à sua empresa, e Charles, mesmo sem admitir,

desejava ver até onde iria, se ela seria mesmo capaz


de botar em prática aquelas ideias atrevidas na
empresa que batera o prego no caixão da Turano
Soluções em Transporte.

Os pensamentos se sobrepunham uns aos

outros sem que fosse possível ordená-los: a voz


decidida, os gestos fortes, porém contidos, o olhar
de quem guarda a informação do blefe como trunfo.
Melanie o havia impressionado de tal modo, que
todo seu trabalho naquela tarde estava focado em
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analisar aquele primeiro encontro.

Sem se dar conta, tudo aquilo já não


pertencia mais apenas ao campo jurídico e
administrativo: Charles tinha algum tipo de

curiosidade em ter aquela mulher por perto, além


da óbvia atração, que ele mantinha muito bem
escondida dentro de si. Afinal, era um profissional
com caráter. Jamais tiraria proveito de nenhum tipo
de situação apenas para aquecer sua cama à noite.

Enquanto o CEO pensava em como


retornaria o contato com Melanie, avisando-a sobre
o acordo que firmariam, a jovem administradora
estava ocupada vendendo tudo que ainda restava na
empresa. De peças de reposição dos caminhões a
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mobiliário de escritório, tudo saía a toque de caixa

de sua casa.

As lembranças dos erros de seu pai eram


combustíveis potentes para que tudo fosse

despachado o quanto antes. Sobrariam apenas seus


pertences pessoais e as poucas lembranças de sua
mãe, como as almofadas com lindas estampas de
unicórnio, todas cheirando a erva doce, o chá
preferido da fundadora da TST.

Abraçando uma delas, Mel sentiu uma


pontada de saudades no peito. Tudo seria tão mais
fácil se sua mãe estivesse viva ainda... As duas
dariam as mãos e, juntas, reverteriam todo o mal
feito por Fernando. Se bobear, ainda chutariam seu
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traseiro em conjunto! Melissa não era mulher de

abaixar a cabeça para homem nenhum. Uma pena


que tenha falecido antes de Fernando mostrar as
caras.

Seu pai havia telefonado de novo, dias


depois da ida de Mel até a Família Miguez.
Fernando só quis enfatizar o que sua filha já sabia:
que ela precisava se virar sozinha enquanto ele
tirava um tempo para “esfriar a cabeça depois de

tantas injustiças”. Ainda teve a audácia de pedir a


Mel que lhe despachasse uma quantidade imensa de
pertences pessoais para a casa de seus parentes,
onde estava aproveitando umas férias, enquanto
Melanie era deixada no meio da fogueira.
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Mel, é óbvio, disse que enviaria tudo e

cumpriu sua promessa: selecionou todos os


pertences do pai — ao menos, os que não
conseguiu vender — e enviou pelos correios.

Para uma instituição de caridade em outra


cidade.

Melanie podia até ter sido enganada, mas


burra, ela não era.

Duas semanas se foram desde o encontro


de Melanie com Charles, e a insegurança tomava
conta dos nervos da administradora. Todas as suas
esperanças de manter a casa que guardava as
lembranças de sua mãe estavam no plano que Mara
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havia bolado e Mel havia executado com maestria.

Porém, o silêncio de Charles parecia indicar


que algo não ia bem. Todos os detalhes estavam no
plano entregue, logo, não havia muito o que

discutir, era pegar ou largar, sem muita margem


para mudanças. Provavelmente a noite em claro
havia sido em vão.

Já se passavam das oito da noite quando


seu celular piscou, avisando de um e-mail recebido:

Esteja conosco às 9:00 em ponto.

Preciso que você assine alguns documentos


e comece logo a trabalhar.

Leve toda a documentação necessária, em

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especial a de seu MEI.

Quero lhe apresentar aos funcionários


amanhã mesmo.

Mel não pôde conter um grito de alegria


assim que terminou de ler. Naquela noite, se
houvesse uma garrafa de champanhe, com certeza
ela a beberia inteira com muito gosto!

Os últimos meses tinham sido de mais

derrotas do que vitórias, e parecia, pelo menos de


uma forma inexplicável, que as coisas agora
poderiam melhorar. Sua esperança transbordava
pelo peito enquanto um pensamento tomava conta

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de sua mente:

O que será que havia passado pela cabeça


de Charles naquelas duas semanas?

Melanie tinha somente a certeza que havia

conseguido mexer com aquele homem. Ele a havia


a escutado e mostrava ter apreciado seu trabalho,
aparentemente. Agora era só colocar a mão na
massa e reconquistar sua casa.

De cabeça erguida.

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Capítulo 4

Charles olhou no relógio, impaciente, pela

quarta vez em dez minutos. Melanie estava atrasada


vinte minutos, o que fez com que ele cogitasse
desistir do acordo. Estava prestes a ligar para
André, quando sua secretária anunciou a chegada
da jovem.

Com um suspiro de impaciência, ele

ordenou a Sandra que a deixasse entrar, mas não se


levantou da cadeira para receber a jovem. Estava
claramente decepcionado com a falta de
responsabilidade de Melanie. Se ela não conseguia

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nem ao menos chegar na hora, que dirá…?

Seus pensamentos foram interrompidos


quando Mel entrou em sua sala mancando.

— Senhorita? O que houve com seu…? —

tentou perguntar, genuinamente preocupado, mas


Melanie apenas balançou levemente a cabeça,
como que dispensando sua preocupação.

— Uma leve torção causada por um taxista


desastrado. Peço desculpas pelo atraso e garanto

que isso não vai se repetir.

Charles apertou os olhos, ainda sentado em


sua cadeira, e aceitou a mão que Melanie estendia a
ele, não sem antes notar que a pele delicada da

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região estava um pouco ralada.

— A senhorita foi atropelada, é isso? —


perguntou, se questionando se ela seria uma dessas
moças que parecem ter dois pés esquerdos.

Seria péssimo se esse fosse o caso, já que


seu trabalho envolveria idas à fábrica, local cheio
de objetos perigosos — e valiosos — para a
empresa. Seria uma imensa dor de cabeça se ela
prendesse um braço no moedor de nozes, por

exemplo.

— Sim, mas está tudo bem. O problema foi


que o taxista se sentiu culpado, me ofereceu uma
carona e me levou para o hospital, em vez de me

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trazer para cá. Precisei dar a volta na emergência e

fugir, antes que ele tentasse me internar no CTI por


causa de um pé torcido. Bom, apesar do atraso, e
peço desculpas novamente por ele, cá estou.

Podemos iniciar a reunião?

Charles cruzou as mãos em seu colo e


avaliou Melanie por um momento. Sua postura não
era arrogante, mas mostrava uma confiança
inabalável. Ele se perguntou se aquele modo de agir

era real, ou se era fruto de um teatro muito bem


ensaiado, já que ela mostrara uma certa
vulnerabilidade no primeiro encontro dos dois.

Ainda analisando o rosto da jovem, ele deu


início ao encontro e mostrou sua contra-proposta.
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Melanie conteve um suspiro de alívio ao ver que

ele não havia modificado muita coisa de sua


proposta inicial, apenas aumentara um pouco a
carga horária, nada de mais.

O salário foi aceito, metade do que ela


recebia antes, mas contabilizado como se fosse um
terço do esperado — exatamente do jeito que Mara
havia sugerido. Não seria exatamente algo
discrepante, já que seu salário não era nem de longe

o esperado para uma CEO na Turano Soluções em


Transportes. Até nisso seu pai tentava lucrar. Ela
não reclamara na época porque conhecia as
condições da empresa como a palma de sua mão, e
não podia descobrir um santo para cobrir outro.
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Os horários foram combinados, e suas

tarefas, definidas. A jovem não poderia estar mais


aliviada, ainda que a distância entre sua antiga
função — CEO de uma empresa, ainda que

pequena, mas próspera — e seu novo trabalho —


auxiliar executiva somente — fosse gigantesca.
Nada importava para Melanie, que fazia um grande
esforço para não gritar de felicidade.

Os dois passaram a hora seguinte

acompanhados de André, que chegou depois de


alguns minutos e não fez questão de esconder seu
desagrado com aquele acordo, e assinaram todos os
documentos necessários.

O acordo estava selado. Melanie agora era


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uma funcionária contratada da empresa que seu pai

havia tentado roubar. A ironia da situação era


grande, mas Mel era uma profissional competente,
que mostraria a todos ali que faria valer sua

contratação.

— Ok, Melanie, vou levá-la à fábrica.


Sandra, ligue para Antônia e avise que estou
chegando com a nova funcionária, sim? — Charles
pediu pelo telefone para a secretária.

Tanto Mel quanto André olharam para o


CEO com a surpresa estampada no rosto. O dono
da empresa ia levar a funcionária terceirizada até o
local de trabalho dos confeiteiros? Por quê?

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— Ahn, senhor Charles, não se preocupe,

eu posso ir so…

— Eu sei que você pode ir sozinha, mas é a


minha fábrica, e eu quero ter certeza de que você

saberá conduzir suas tarefas. Não posso deixar que


você vá assim, como se fosse a nova sócia daqui. É
bom que você tenha em mente isso, senhorita: você
é funcionária daqui, portanto, vai seguir as minhas
ordens. Algum problema com isso?

Mel acertou a postura, tentando distribuir o


peso do corpo nos dois pés e não mostrar a dor que
estava sentindo no local da torção. Pensar nisso a
distraiu por um momento, o que a impediu de dar a
resposta atravessada que desejou ao ouvir o tom
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grosseiro de seu novo chefe.

— Não, senhor — respondeu


simplesmente.

— Bom. André, obrigado pela visita. Vou

entregar os documentos para Sandra levar ao RH


e…

— Sim, coisa que eu deveria ter feito desde


o início — André não conseguiu segurar a
alfinetada. Estava intrigado com a postura de seu

amigo para com aquela mulher. Era como se ele


quisesse cuidar de tudo relacionado a ela sozinho.

Era como se ele estivesse…

— Agradeço.

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O tom de voz de Charles foi cortante, como

se não quisesse discutir na frente da funcionária.

Deixando André sozinho em sua sala, ele


caminhou em direção ao elevador, deixando os dois

para trás. Melanie estranhou aquele comportamento


e logo concluiu que seriam doze longos meses ao
lado de um chefe aparentemente grosseiro e
excêntrico, que gostava de fazer tudo do seu jeito
esquisito.

Mas o que poderia fazer? Deveria agradecer


aos céus pela oportunidade de não perder tudo que
era seu.

— Senhor André — ela cumprimentou o

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advogado com um aceno de cabeça e caminhou

para fora da sala, tentando ao máximo não mancar,


mas falhando, tendo em vista que seu tornozelo
estava muito inchado.

André, que respondera ao cumprimento do


mesmo modo, com um aceno de cabeça, ficou
olhando a jovem caminhando atrás de seu chefe.
Notou seu hematoma na perna, um grande e
assustador roxo se formando na batata da perna,

com alguns tons de uma cor escura, quase preta,


seu caminhar hesitante, como se estivesse com dor,
e se perguntou se o motivo para seu amigo de longa
data fazer questão de levar a nova funcionária até a
fábrica era por causa daqueles machucados, que
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pareciam recentes.

Estaria Charles querendo bancar o herói


com ela? Não era de seu feitio.

Caminhando até a mesa de seu chefe,

André pegou a papelada e levou até Sandra,


pedindo para a secretária encaminhar todos os
documentos para o setor responsável. Enquanto
esperava o elevador, se deu conta de duas coisas.

A primeira era que Charles não havia

esperado por sua companhia. Afinal de contas, só


havia um elevador disponível ali, e André desceria
para o mesmo estacionamento do CEO da Miguez.
Era natural que ele compartilhasse a viagem até

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seus carros com o amigo e a funcionária.

A outra coisa que notou é que o chefe havia


dito que levaria os documentos para o RH, mas se
esqueceu deles. Charles nunca se esquecia de nada

relacionado à empresa, o que significava somente


uma coisa: ele estava mais do que desconfiado de
Melanie.

Estava envolvido por ela muito


precocemente.

Só restava a André torcer para que sua


intuição sobre a jovem estivesse errada, e ela não
fosse uma vagabunda interesseira, coisa que ele
tinha certeza.

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Não era como se ele fosse um exímio

conhecedor de mulheres, de qualquer maneira.

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Capítulo 5

Melanie permaneceu em silêncio durante

toda a viagem. Estava estranhando aquela situação:


ela, recém-contratada, no carro do CEO da
empresa, seguindo rumo à fábrica logo em seu
primeiro dia. Não fazia sentido, já que ela precisava
primeiro conhecer o funcionamento interno da
companhia, não como eles faziam seus biscoitos e

seus tipos diferentes de financier.

Para completar, seu tornozelo doía


intensamente. Talvez o taxista tivesse razão em se
sentir tão culpado, e ela realmente precisasse deixar

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um médico analisar a torção... Porém, apesar de

tudo, a jovem não questionou a decisão do chefe. Já


tinha notado quão grosseiro Charles poderia ser, e
não queria tornar a situação desconfortável além do

que já era.

Gostaria muito de poder comemorar sua


vitória, sim, gostaria. Não era ingrata nem
sonhadora. Sabia muito bem que em breve ela
poderia se livrar das dívidas do calhorda do pai, o

que faria com que pudesse manter sua casa, limpar


o nome da família e, ainda por cima, não passar por
dificuldades financeiras sem emprego e sem lar.

Sim, ela sabia que seu pai poderia tentar


vender a casa de qualquer modo. Porém Mel
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desconfiava que existia uma lei ao seu lado que

impediria o pai de cometer tamanha estupidez. Só


precisava de um advogado em quem confiar, já que
o que prestava serviços à sua família desapareceu

quando soube o que Fernando havia feito.

Melanie não o culpava. Também


desapareceria das vistas de seu pai, se tivesse
chance.

— A fábrica funciona de segunda à sexta-

feira, de vez em quando, em épocas especiais, aos


sábados — Charles disse, de repente, tirando Mel
de suas reflexões. — Uma de suas funções será
conferir determinados lotes de entregas de
ingredientes, além de…
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Nesse momento, a jovem parou de escutar.

Como assim, conferir entregas? Não era essa a sua


função! O que esse homem esperava que ela fizesse
mais, além do previsto no contrato? Biscoitos de

natal?

— Além dos balancetes e tudo aquilo que


você já deve estar careca de saber, não? —
perguntou retoricamente, com um sorriso um pouco
debochado, que Mel observou de canto de olho.

— Sim, senhor — respondeu, somente, e o


silêncio invadiu o carro.

Charles tamborilou os dedos no volante


enquanto aguardava o sinal de trânsito abrir. O dia

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estava nublado, e as ruas ainda estavam molhadas

por uma fina chuva que havia caído mais cedo. Ele
se perguntou se fora aquele o motivo do acidente de
Mel e notou que ela de vez em quando movia o

corpo como se fosse pegar em sua perna ferida,


mas logo acertava a postura no banco.

— O que houve, de verdade? — ele


perguntou quando não pôde mais se conter.

Melanie olhou em dúvida, mas assentiu em

compreensão quando ele apontou para seu


tornozelo.

— Estava chuviscando, então creio que o


motorista estava impaciente por isso. Não sei,

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talvez ele quisesse fugir dos respingos… Na pressa,

ele parou em cima da faixa de pedestres quando


tentou passar o sinal amarelo, me forçando a dar a
volta por trás do carro para seguir caminho. Só que

ele não me viu, deu ré quando uma senhora


reclamou de sua obstrução na faixa e acabou me
derrubando no chão.

Charles balançou levemente a cabeça,


contendo a breve nota de irritação que tomou conta

de si.

— Entendo. Anotou a placa dele?

— Não, senhor. Não havia necessidade. Ele


prestou socorro, até muito. Praticamente me

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sequestrou para me levar ao hospital.

Charles não disse mais nada. Não


concordava com ela, até porque o taxista não fez
mais que a obrigação legal, levando em conta que

estava errado. Mas não podia interferir na vida


pessoal de sua funcionária, por mais que desejasse.

Os dois chegaram na fábrica menos de


vinte minutos depois de terem saído do escritório
da Família Miguez. Quando o carro entrou na

garagem da bela casa, Charles pediu a Mel que


esperasse um momento, e em seguida desligou o
carro, saiu e deu a volta, indo abrir a porta do lado
do passageiro.

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Mel não gostou nem um pouco do ato de

cavalheirismo, pois não via necessidade daquilo.

— Obrigada, senhor — murmurou assim


mesmo e apertou sua bolsa contra o corpo, como se

estivesse um pouco nervosa com aquele arroubo de


gentileza dele.

Charles não respondeu o que gostaria: que


não estava sendo educado, só queria uma garantia
de que a situação não era pior do que ela dizia ser e

que ele não precisaria dar uma licença médica para


a administradora em seu primeiro dia de trabalho.

Ao ver Mel mancando um pouco, mas não


o suficiente, ele conteve um bufar de alívio. Sua

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intuição dizia que ela era o tipo de pessoa

orgulhosa que não admitiria a gravidade da


situação, mas, caso fosse algo preocupante, ela não
conseguiria omitir por muito tempo.

Apesar de seus esforços para pensar em


Melanie como uma funcionária, ele acabou
reparando em suas pernas longas e delineadas. Era
uma jovem atraente, que se vestia com apreço, ele
relembrou ao notar a saia escura de corte elegante

que terminava na altura dos joelhos e a blusa de


algum tecido que ele imaginou ser seda, mas não
tinha muita certeza, já que não entendia muito de
moda.

De qualquer maneira, ele apreciou o que


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viu. O “conjunto da obra”, como diria seu amigo

André.

Melanie era o seu tipo.

A ex-CEO parou de caminhar quando

notou que seu chefe não estava mais ao seu lado.


Como era a primeira vez que entrava ali, não sabia
bem para onde ir e não queria soar arrogante, como
se não precisasse de ajuda para encontrar o
caminho.

Olhou por cima do ombro e percebeu que


Charles estava parado no mesmo lugar, com a porta
do carro ainda aberta. Ergueu inconscientemente as
sobrancelhas, em dúvida, o que fez com que ele

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explicasse rapidamente:

— Estou me certificando de que você está


bem para trabalhar.

Mel hesitou antes de responder, mas

quando o fez, foi com certeza na voz:

— Sim, estou perfeitamente bem, senhor.


Podemos…? — pediu e apontou para a porta da
garagem que provavelmente dava no interior da
casa.

Ele assentiu e caminhou até ela, abrindo


caminho para que Mel entrasse na frente.

— Bom, bem-vinda à fábrica da Família


Miguez — disse com a voz tranquila enquanto

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guiava Melanie pela casa ampla. — Escolhemos


uma casa comum para sediar a fábrica pois já era
uma propriedade da família. Fizemos as devidas
modificações na estrutura, claro, e começamos aqui

mesmo. Alguns anos depois, transferimos o


escritório para o local que você já conhece.

Melanie assentiu com a cabeça e se deixou


ser guiada pelos cômodos da grande casa enquanto
ouvia as explicações sobre a história da fábrica, os

produtos oferecidos e os tipos de doce disponíveis


na empresa. Todos, por sinal, pareciam muito
apetitosos.

Apesar de ter prestado serviços para a


empresa, Mel nunca tivera oportunidade — ou
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tempo — para provar nada da Miguez, e mal podia

esperar para o fazer depois que sentiu o cheiro de


biscoitos caseiros assando no forno industrial.

O melhor momento do dia foi conhecer os

funcionários. Não houve um que não tenha sido


extremamente solícito e simpático com Mel, que se
sentiu muito bem-vinda, apesar de ser ex-
funcionária da empresa de Fernando. Em breve
explicação, Charles explicou a situação, e não

houve uma expressão de reprovação para a jovem.


Todos pareceram simpatizar com ela.

Todos, menos seu chefe, que continuava


sendo seco e até mesmo rude com suas constantes e
incômodas perguntas:
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“Está prestando atenção, senhorita?”

“Entendeu, ou preciso repetir, senhorita?”

“A senhorita não vai anotar nada? Confia


tanto assim em sua memória? Então me diga qual é

a diferença entre uma massa sucrée, uma massa


frolla e uma massa brisée? Qual dessas usamos nas
linhas de doces artesanais, senhorita?”

Focando na dor em seu tornozelo, Mel


conseguiu se controlar e não responder o que

gostaria a cada pergunta desagradavelmente


sarcástica ou em tom de desprezo, como se ela
fosse uma idiota.

A verdade é que Melanie estava tendo uma

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certa dificuldade para lidar com Charles. Não por


ele ser rude, desagradável, seu chefe ou inimigo de
seu pai — na verdade, esse último item
praticamente o tornava seu amigo, já que Fernando

havia se tornado, por escolha própria, uma pessoa


indesejada para a própria filha.

Ela sabia lidar com pessoas de postura


arrogante daquele jeito, nada costumava abalar seu
lado profissional, ainda que sentisse vontade de dar

respostas mais... justas. Afinal de contas, ela havia


pesquisado tudo aquilo, sabia de cor e salteado que
a Família Miguez era uma fábrica de confeitaria
seca, ainda que estivesse tentando expandir seu
marcado para outros tipos de doces.
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O grande problema ali era que Charles

desconcertava Mel. Era um homem extremamente


imponente, atraente, que tinha certeza do que
falava, quando falava e como falava. Para

completar, seu maxilar esculpido, olhos vibrantes e


pele bronzeada tiravam Melanie de seu eixo, o que
a deixava desconfortável, pois aquela situação ia
contra seus princípios profissionais.

Era seu chefe, pelo amor de Deus.

O alívio de Mel foi quando uma das


confeiteiras, que estava em seu horário de almoço
quando Mel foi apresentada à equipe, apareceu na
cozinha e viu a jovem, correndo para se apresentar.
O forte abraço que a senhora baixinha e enrugada
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lhe deu foi suficiente para ela esquecer seus

hormônios outrora adormecidos.

— Querida, seja muito bem-vinda! Meu


nome é Pérola, sou a confeiteira-chefe daqui e…!

— Senhora Pérola, poderia controlar suas


emoções, por favor? — Charles pediu com
grosseria, o que fez a senhora robusta parar de
sorrir e responder com as mãos na cintura:

— Ora, ponha-se no seu lugar, seu gigante

abusado! Charles não te deu educação não, Júnior?


Quem você pensa que eu sou, uma daquelas jovens
fáceis que te cercam como abutres na carniça?

Melanie quase engasgou ao ouvir a

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reprimenda, mas respirou aliviada quando ouviu as


risadas e pode vislumbrar um sorriso no rosto de
Charles, que foi até a senhora, se inclinou e a
abraçou. Aquela cena não passava apenas uma

brincadeira entre os dois.

— Elas não são tão fáceis assim, madrinha,


algumas são até de origem religiosa... Eu acho...
Bom, elas adoram ajoelhar — ele respondeu em
voz sussurrada, em tom de brincadeira, levando a

senhora a dar uma boa gargalhada e Mel a corar


levemente com o teor da piada. — Como estão os
financiers hoje?

— Maravilhosos! Nossa querida estagiária


tem mãos de fada, lembra? — perguntou e apontou
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para uma jovem de pouca idade, possivelmente

vinte anos, que estava em um canto cuidando da


iguaria. — Já apresentou essa mocinha para ela?
Aliás, quem é essa mocinha?

Charles revirou levemente os olhos e


mencionou:

— Você se apresentou sem nem saber quem


é? É Melanie, a nova administradora daqui. Vai
trabalhar em caráter experimental por doze meses

e…

— Experimental? E agora existe contrato de


experiência de doze meses? O que aconteceu com
os três meses? Ah! — exclamou quando se deu

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conta de algo e pressionou a mão rechonchuda

contra a bochecha. — Então ela não é sua


namorada? Peguei o bonde andando…?

— E sentou à janela? Sim, madrinha, foi

exatamente o que você fez — Charles disse com


seriedade, mas Mel, ligeiramente encantada com o
relacionamento tranquilo dos dois, notou um certo
carinho em sua voz.

Aparentemente, por baixo de todo aquele

disfarce rude, havia um homem que respeitava a


família, e isso a agradou muito. Bom, agradou até o
momento em que ele percebeu seu olhar de
adoração, franziu o rosto e ordenou:

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— Já apresentei você a todos. Você não tem

trabalho a fazer agora? Ou quer que eu faça o seu


trabalho primeiro, para te ensinar?

Todo o encanto de Mel evaporou, e ela fez

um esforço tremendo para não responder à altura.

— Ande, pare de ser molega! — ele


exclamou grosseiramente, o que fez com que todos
na cozinha ficassem em silêncio, incluindo Pérola,
que franziu as sobrancelhas, mostrando seu

desagrado.

Melanie contou até cinco mentalmente, deu


um sorriso profissional e respondeu simplesmente:

— Como queira, senhor.

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E saiu da cozinha, indo para a

sala/recepção da fábrica, onde havia deixado seu


material de trabalho. Conseguiu ouvir a voz de
Pérola dizendo:

— Eu juro por Deus que vou bater em seu


traseiro com uma colher de pau se continuar sendo
tão rude com essa pobre moça! Por que ela estava
mancando, Júnior?!

A defesa da senhora a acalmou um pouco,

mas, ainda assim, Melanie prometeu para si mesma


que seria a melhor profissional possível ali, porém
jamais deixaria que aquele homem pisasse nela.

Caso ele o fizesse, ela jurou que tornaria sua

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vida um inferno naqueles doze meses.

Melanie era uma profissional de categoria,


mas não tinha sangue de barata.

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Capítulo 6

Logo o tempo foi passando, e Melanie se

viu totalmente à vontade na Família Miguez após


alguns meses. Cuidava pessoalmente de cada
detalhe administrativo, era prestativa e tinha
soluções práticas e lucrativas para diversos
problemas, o que a tornava uma pessoa querida
para a maioria dos funcionários da fábrica.

No início, sua vida não foi tão fácil. Seu


chefe insistia em brigar por qualquer bobagem, e
ela aguentou calada ao menos no início. Entretanto,
a paciência não era eterna: em uma manobra

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arriscada, já que isso poderia acarretar em seu

desligamento e, portanto, no término do acordo dos


dois, ela decidiu dar um basta ao mal-estar diário
que era estar na presença de Charles. Sua saída foi

passar a frequentar mais a fábrica da Família,


alegando diversos motivos contábeis, até que se
instalou de vez lá. Como a casa era bastante ampla,
ela só precisou escolher um dos antigos quartos que
serviam de escritórios e montou sua estação de
trabalho no local.

A casa possuía dois andares, mas o segundo


quase não era utilizado. Sendo assim, ela escolheu
um pequeno quarto próximo à cozinha onde todos
trabalhavam, para que pudesse ficar perto deles e
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sentir os cheiros deliciosos de doces assando.


Aquele aroma era sempre uma inspiração a mais
em seu dia.

Foi a melhor decisão tomada desde que

começou a trabalhar para a Família Miguez. Lá,


Mel era rodeada de funcionários gentis, educados e
prestativos, o contrário do que acontecia no
escritório, e logo se enturmou na família. Criou
laços de intimidade com diversas moças e senhoras,

bem como alguns dos poucos funcionários homens


da fábrica, frequentou encontros depois do
trabalho, como happy hours, festas de aniversário,
enfim.

Melanie passou a fazer parte da família de


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um jeito que não havia conseguido nem em sua

própria empresa.

Pérola era uma que fazia questão de deixar


isso bem claro. Inclusive, a senhora até brincava

que, por pior que Fernando fosse, o soco que ele


dera em Charles Sênior era algo aguardado por
todos, já que o presidente não era tão educado
quanto o filho.

Ao ouvir isso, Mel, que estava em seu

horário de almoço, comendo um sanduíche na copa


conectada à cozinha, olhou para Pérola enquanto a
senhora incorporava ingredientes em uma massa de
biscoitos gourmet, e fez uma expressão de dúvida.

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— Educado? Charles é educado? Estamos

falando de qual Charles? Há um terceiro Charles


além do chefão e desse poço de grosseria que você
chama de afilhado? — perguntou com uma voz

falsamente inocente, e todos na cozinha caíram na


risada, incluindo Pérola, que parou o movimento
com a espátula em mãos.

— Ah, querida, mas o problema de Júnior é


só com você. E não adianta bronquear com ele, já

tentei, mas há algo nele que vai além de


implicância por você ser filha de quem você é…
Algo que faz ele perder totalmente o controle... O
que será?

— Amor! — a estagiária dos financiers,


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como normalmente Amanda era chamada,

exclamou, para surpresa de todos, já que se tratava


de uma jovem calada e tímida.

Assim que o susto dos presentes na cozinha

passou, risadas preencheram o ambiente, deixando


a moça corada.

— É verdade, tem cara disso mesmo! —


reforçou Ryan, um dos confeiteiros, um rapaz alto,
magrelo e sempre risonho. — Ou é só desejo de

vingança somado a atração. Minha mãe vivia lendo


romances com esse tipo de relacionamento. “O
mocinho bruto que quer justiça pelos atos contra a
sua família”. Charles tem a maior cara de mocinho
desinteressado!
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— Com certeza, tem mesmo! E acho que

ele está caidinho por ela, mas não consegue superar


isso, já que ela é filha do inimigo. E, para
completar, ainda é funcionária dele! Imagina o

tamanho do processo que ele levaria? — dessa vez,


foi Juliana quem disse, a moça responsável pela
limpeza da cozinha, também jovem como Amanda,
porém muito mais extrovertida.

Mel acompanhava o debate de olhos

arregalados, com o sanduíche ainda em mãos e a


boca aberta de espanto.

— Eu ainda acho que ele está se


apaixonando… — Amanda disse e quase derrubou
a farinha que carregava quando Ryan rebateu:
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— Sim, porque você é romântica demais,

Amandinha. Para mim, o negócio é mais em cima:


é tesão puro e inquestioná…

— Opa, vamos segurar o palavreado, que

há idosas no ambiente — Pérola mandou, e várias


risadinhas puderam ser ouvidas no ambiente. —
Independentemente do que seja, é algo que o deixa
diferente. É meu afilhado, afinal de contas, eu o vi
crescer, mas nunca o vi desse modo, tão… na

defensiva… — comentou, sonhadora, olhando para


cima, como se a resposta estivesse nas luminárias
da cozinha.

— Claro que ele está na defensiva! Ele


quer a moça para si, mas não pode, pois ela é filha
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do mal! Oh, me perdoe, Mel — pediu Tamires,

outra confeiteira, ao se dar conta da gafe, mas


Melanie nem prestou atenção direito na ofensa.

A única coisa que passava pela cabeça da

administradora era: ele está interessado em mim?

— Ora, Tami, não seja grosseira! Por mais


que o pai dela seja um cornudo babaca — Ryan
começou e precisou desviar de uma espátula
arremessada por Pérola —, não podemos xingar, é

família dela!

Nesse momento, Mel aterrissou e parou de


pensar em Charles, defendendo a mulher que
ofendera Fernando:

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— Ah, não, não é família! Família não faz

o que aquele safado fez. Podem xingar à vontade,


todos aqui têm a minha permissão. Inclusive, posso
contar vários podres dele, para todo mundo odiar

em conjunto!

Ainda que estivesse brincando, o tom de


sua voz no final fez com que todos parassem suas
atividades e olhassem para a administradora com
compaixão. Pérola foi a primeira a dizer algo:

— Sua família somos nós, minha pretinha!


— disse a senhora, chamando Mel pelo apelido que
dera por causa da cor de seus olhos e cabelos,
muito escuros, em contraste com a pele muito
branca. — Que esse senhor vá para o raio que o
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parta, você tem a nós! Não é, turma?

Um grito coletivo de “é!” foi ouvido por


toda a fábrica, inclusive por Charles que acabara de
chegar e estava saindo do carro, na garagem da

casa.

— Além do mais, não pense que nós


esquecemos que dia é hoje, pretinha! — exclamou
a senhora, limpando as mãos no avental e deixando
a massa de biscoito de lado, ainda que não fosse o

recomendado.

Melanie arregalou os olhos e desejou que


não fosse o que ela pensava. Mas obviamente era: a
equipe da fábrica de doces descobrira seu

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aniversário.

— Inclusive, como era de se esperar, nós


fizemos um bolo ma-ra-vi-lho-so para você! —
exclamou Tamires, que também largou seus

afazeres e caminhou até uma das geladeiras,


fazendo com que todo mundo comemorasse junto
em uma algazarra animada que foi rapidamente
interrompida por uma voz alta:

— Mas o que está acontecendo aqui? Que

palhaçada é essa? — gritou Charles, calando a


todos e fazendo Mel derrubar seu sanduíche em
cima da mesa.

Mal tendo tempo de ficar feliz pelo carinho

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de seus colegas de trabalho, a administradora já

teve que se preparar para mais uma bronca. Era


óbvio que Charles aparecera de surpresa para
arrumar motivos para brigar com ela. Era algo

comum: ele passava dias sem ir à fábrica, mas


quando ia, era somente para reclamar.

— Eu passo duas semanas fora, quando


venho, minha fábrica está de pernas pro ar? Onde
está o profissionalismo que eu conheço tão bem? O

que é isso? — perguntou, entrando, irado, na


cozinha e vendo a massa de biscoitos abandonada
por Pérola. — Meu dinheiro dá em árvores para ter
material jogado fora? E essa louça?

Juliana arregalou os olhos ao ouvir a


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bronca, mas nada disse, estava muito surpresa com

a grosseria do chefe com todos, em especial em


uma sexta-feira: era o dia oficial de comemorar
aniversários na empresa, e Charles sabia muito bem

disso.

— Tá criando um ecossistema essa louça


já, enquanto a Senhora Juliana acha ótimo ficar
sentada no banquinho da ilha, como se fosse dona
do lugar!

— Ora, Júnior, espere um pouco…! —


Pérola começou a tentar defender os colegas, mas
nem com a madrinha Charles foi educado:

— Espere um pouco uma ova! Quem é o

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dono dessa fábrica, é você? Então fique em

silêncio, respeite a autoridade ao menos uma vez na


vida, Pérola! — praticamente urrou, fazendo Pérola
ficar em silêncio enquanto planejava colocar

laxante na comida do afilhado na primeira


oportunidade que surgisse.

Em seguida, ele caminhou até a mesa na


copa, onde estava o sanduíche praticamente
intocado de Mel, e apontou para ele:

— O que é essa nojeira em minha mesa?


Nunca ouviu falar em talheres ou pratos? Jogo
americano? Se não tinha o menor conhecimento de
higiene, nem mesmo o básico, por que quis vir
trabalhar em uma empresa alimentícia, senhorita
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Melanie?

Mel se levantou, o coração aos pulos, e


abriu a boca para responder a ofensa, mas Charles
não permitiu:

— É óbvio que esse descontrole em minha


cozinha só podia ser culpa sua! Desde que chegou,
é impressionante como só traz o caos para essa
empresa! Eu devia ter escutado meu advogado e
percebido que você não passa de uma interesseira

que só queria entrar aqui para finalizar o que seu


pai começou! Tal pai, tal…

Todos seguraram a respiração quando um


sonoro tapa foi presenciado. Com lágrimas nos

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olhos, mas com a expressão dura de quem havia

sido profundamente magoada, Melanie continuou


com a mão erguida após agredir seu chefe, como se
tivesse se arrependido, mas não quisesse

demonstrar.

— Meça suas palavras. Sou sua


funcionária, não seu saco de pancadas. Em nenhum
momento, nesses meses todos em que estou aqui,
faltei ao respeito com você ou com nenhum de seus

funcionários, nem fiz nada que pudesse quebrar a


frágil confiança que você depositou em mim.

Charles, que virara brevemente o rosto para


o lado ao ser esbofeteado, agora olhava para ela
com a incredulidade estampada em toda a sua
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expressão corporal.

— Não somente isso, eu resolvi diversos


problemas administrativos que você nunca
conseguiu sanar, nem sozinho, nem com os

administradores terceirizados que vieram antes de


mim! Não há nenhuma razão para esse descontrole
comigo! Se é seu desejo me demitir, que demita de
uma vez, mas apenas...! Pare de me torturar, por
favor....

O que era para ser um grito de liberdade


acabou se tornando um pedido quando sua voz
falhou no final da frase e uma lágrima escorreu por
seu rosto. Ao notá-la, Melanie pegou o resto de seu
almoço e saiu da cozinha sem olhar para ninguém
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em especial, murmurando pedidos de desculpas a

todos e indo se fechar em seu pequeno escritório.

Charles continuou parado no mesmo lugar,


a vergonha por sua explosão de injustiça

começando a consumi-lo. Não sabia o que


acontecera para agir assim, não era o seu normal
tratar qualquer pessoa com tamanha violência, que
dirá uma funcionária sua.

Ela estava coberta de razão: em nenhum

momento dera motivos para que ele a tratasse


daquela maneira, e ele sabia disso, por isso o
remorso o atingia com mais força do que o tapa que
recebera — merecidamente, por sinal.

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Charles ouviu um barulho seco ao seu lado

e se virou para ver do que se tratava.

Com surpresa, viu Pérola de braços


cruzados, ao lado de uma das ilhas da cozinha,

olhando para ele com cara de poucos amigos.

— Madrinha, eu… — ele tentou dizer algo,


mas ela acenou com a cabeça para o objeto que
provocara o barulho, e Charles seguiu o seu olhar.

Na sua frente havia um naked cake muito

bonito, com ganache de chocolate visível entre uma


camada e outra e um pequeno unicórnio colorido,
de biscuit, espetado ao lado de uma velinha de
aniversário. No lugar de um número, havia um

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ponto de interrogação, já que a equipe não sabia

qual era o ano de nascimento de Melanie.

— O que é…? Para quem é esse bolo? —


Charles perguntou somente e olhou ao redor, mas

seus funcionários não responderam e deixaram que


Pérola se entendesse com o afilhado.

— Nunca, nesses trinta e cinco anos que eu


conheço você, fiquei tão decepcionada quanto hoje.
Sei que não deveria puxar sua orelha na frente de

todos, mas como seu descontrole desmedido


aconteceu em minha cozinha, estou mandando
minha ética profissional para o lixo.

Charles respirou fundo e, apesar de ser o

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CEO da empresa, ficou calado aguardando a

merecida bronca.

— Você não somente foi injusto com


todos, como entrou em minha cozinha… Sim,

minha cozinha. Não é porque você é o CEO, que


essa cozinha seja menos minha. Ponha-se no seu
lugar atrás daquela mesa chique no escritório, pois
sem mim, essa fábrica não existe.

Os funcionários estavam desconfortáveis

com aquela situação, e a tensão era tão palpável,


que Pérola reduziu a bronca para poder dissipá-la
de uma vez.

— Você entrou em minha cozinha, berrou

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um bocado de injustiças e estragou o que seria uma

breve comemoração de aniversário de uma jovem


que, ao contrário de você, não têm família para
comemorar.

Charles abriu os olhos o suficiente para que


Pérola pudesse ver sua surpresa e arrependimento.

— Hoje é sexta-feira, dia de comemorar os


aniversários, você sabe muito bem disso. Por
coincidência, é o aniversário de Melanie. Enquanto

você não pedir desculpas a ela, você está proibido


de entrar em minha cozinha. Tome, leve o bolo até
o escritório dela. Anda, xispa daqui!

E expulsou seu chefe-afilhado do ambiente.

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Assim que saiu de lá, carregando um bolo pesado e

apetitoso em mãos e uma dose extra de culpa nas


costas, Charles obedeceu, como um homem que
respeitava sua família acima de tudo, às ordens de

sua madrinha, e foi rumo ao escritório.

No caminho, ouviu discretas


comemorações e elogios à Pérola vindas da cozinha
e se sentiu pior ainda por seu comportamento.

Mel realmente tinha o poder de tirar sua

cabeça do eixo. Isso ficou claro para todos naquela


tarde na fábrica de doces gourmet.

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Capítulo 7

Melanie ouviu batidas na porta do

escritório, mas não respondeu. Estava tentando se


concentrar em relatórios e qualquer coisa que a
fizesse não pensar na demissão que estava por vir.

Onde ela estava com a cabeça quando


esbofeteou aquele homem? Sim, ele merecera, sim,
ele fora um completo babaca, mas essa não era

Melanie. A Melanie real era profissional,


controlada e educada, não uma histérica que saía
distribuindo tapas a três por dois, como se fosse
uma criança birrenta.

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A verdade é que ficou profundamente

ofendida por ter sido comparada com seu pai. Ela


não era como o pai, jamais seria. Era uma mulher
honrada, de bom caráter e que seguia os ideais

ensinados por sua mãe, uma mulher digna, apesar


de ter casado com quem casou. Como Melissa
saberia que Fernando seria um criminoso? As
pessoas não possuem etiquetas que revelam seus
defeitos, não é verdade? Até porque a mãe falecera
antes de Fernando iniciar seus atos criminosos.

Mais do que ofendida, Melanie ficou


magoada por aqueles impropérios terem vindo de
Charles. Por mais que tolerasse suas grosserias
calada, havia um fogo dentro da jovem, ocasionado
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pela atração intensa que sentia por seu chefe, que


nublava sua vista e a fazia sentir vontade de
empurrar Charles contra a parede a cada vez que
ele reclamava de algo e o beijar com paixão,

extravasando todo o desejo que sentia.

Some a esse desejo toda a grosseria habitual


do CEO. Não era uma boa combinação. Frustração
sexual e mágoa são sentimentos péssimos de serem
combinados, ainda mais no ambiente profissional.

Como vivia para o trabalho, havia muito


tempo que Mel não era tocada por um homem. Para
piorar a situação, a cada dia que passava, a jovem
sentia mais e mais o fogo consumi-la por dentro a
cada vez que via seu chefe, a cada vez que eles se
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esbarravam acidentalmente ou que ele entrava em

seu escritório para conferir certos dados que


poderiam ser informados por e-mail ou telefone.

A estranha questão que Charles fazia de ir

vê-la semanalmente, quando não havia a menor


necessidade, afinal, a visita à fábrica era mais por
costume do que por obrigação, confundia Melanie.
Parecia um prazer estranho em perturbá-la!

Além disso, segundo a senhora madrinha do

CEO da Miguez, Charles nunca se envolveu


diretamente com os administradores a ponto de
frequentar seus escritórios. Sim, é verdade que
todos eles trabalhavam no mesmo prédio em que o
CEO tinha sua sala, mas o contato dele com esses
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funcionários sempre foi restrito, de acordo com a

confeiteira-chefe.

Se aquilo tudo fosse verdade, por qual razão


Charles vivia entrando no escritório de Melanie,

senão por aquilo que a equipe da cozinha afirmava?


Qual seria a razão para aquelas visitas além da
possível atração?

Por um breve momento, Melanie se


permitiu acreditar naquilo e até vislumbrou um

futuro em que, passando toda a confusão com seu


pai, ela poderia se perder nos braços do chefe por
ao menos uma noite.

Mas, após aquela demonstração violenta de

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desagrado e sua reação frente a ela, Melanie apagou

de seus sonhos tal possibilidade. Ainda assim,


quando ele viesse demiti-la, ela sairia de queixo
erguido, sabendo que, ao menos, conseguira quitar

uma parte da dívida do pai, de modo a preservar


sua casa até conseguir um emprego que a
permitisse resolver o seu problema, bem como um
advogado que pudesse protegê-la de perder sua
moradia.

— Melanie? Posso entrar? — perguntou


Charles, e Mel prendeu a respiração por um
momento, mas logo respondeu:

— Sim, pode.

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Seu tom de voz era seco, e ela torceu para

que permanecesse desse modo enquanto a última


humilhação fosse aplicada por aquele homem que
amava ser detestável.

Charles entrou e fechou a porta atrás de si.


Para a surpresa da jovem, em suas mãos havia um
bolo, que ele deixou em cima de sua mesa antes de
tirar o terno e o colocar de lado. Em seguida, ainda
calado, Charles puxou a cadeira extra do diminuto

escritório, se perguntando por que ela preferia


aquele cubículo ao escritório espaçoso de seu
prédio.

Imediatamente, entretanto, ele soube a


resposta ao notar seus olhos desconfiados o
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mirando. Era tão óbvia, que ele se espantou por não

ter percebido antes.

— O motivo de você vir trabalhar aqui


foi… por minha causa? — ele perguntou com

seriedade, porém cautelosamente.

Melanie olhou para a face de Charles e


quase suspirou de alívio ao ver que não havia
marcas de sua mão ali. Só o que havia era uma
expressão que mesclava culpa com uma certa

insatisfação.

— A pergunta é séria, ou é mais um motivo


para você se descontrolar e descontar sua raiva em
mim?

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Charles balançou levemente a cabeça e

respirou fundo, como se controlasse. Um longo


minuto se passou com os dois se encarando,
praticamente sem piscar, até que o CEO resolveu

fazer de uma vez o que precisava fazer:

— Melanie, gostaria de pedir desculpas por


minha atitude. Você tinha razão, não havia motivos
para o que eu fiz, e peço que me perdoe pelas
palavras que disse. Garanto que não acredito em

nenhuma delas.

— Então por que disse? Sabendo que eu


tomei a iniciativa de resolver financeiramente o
impasse entre nossas empresas não somente porque
preciso, mas principalmente porque discordo das
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atitudes de Fernando, por que achou que seria de

bom tom me humilhar na frente de todos com


palavras mentirosas?

Charles balançou a cabeça para os lados,

como se negasse as palavras que ecoavam nas


paredes do escritório, e prometeu:

— Você tem a minha palavra de que isso


não se repetirá. Não é de meu feitio tratar ninguém
desse modo, e não há desculpas para o que eu fiz. A

única coisa que posso dizer para me justificar...

Ele hesitou antes de falar, fechou e abriu a


boca uma ou duas vezes antes de finalmente dizer:

— Acho que eu senti uma certa inveja de

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todos.

Mel franziu o cenho, entortou levemente a


cabeça para o lado, confusa, e perguntou a que ele
se referia.

— De ver todos tão bem-entrosados,


quando o máximo que eu consigo é dar broncas
desnecessárias em vez de conversar
civilizadamente com você.

A sinceridade crua de Charles impressionou

a ambos, que ficaram em silêncio por um momento,


até que Melanie, um pouco emocionada com a
declaração, disse:

— Ok, desculpas aceitas. Peço perdão pelo

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tapa. Foi um descontrole de minha parte que


também não faz parte de quem eu sou. Para ser
sincera, foi a primeira vez que bati em alguém… —
ela confessou com um pequeno sorriso culpado,

apesar da tensão que sentia nos ombros.

Charles sentiu os lábios se curvarem em um


sorriso e acabou se surpreendendo novamente ao
ver que o climão na sala começava a se dissipar
mais rápido do que ele imaginava.

— Esse bolo é meu? — perguntou Mel,


apontando para o naked cake, e riu quando ouviu a
resposta:

— Não, é o bolo de aniversário do gato do

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vizinho — brincou Charles, com um tom não

agressivo na voz.

— Não me diga que hoje é aniversário do


Faísca!? — ela respondeu e abriu a boca em

choque, fingindo.

— Ah, aquele gato gordo e preto se chama


Faísca? Não sabia… — Charles comentou,
impressionado, e riu em seguida. — Vamos
assoprar essa vela de ponto de interrogação de uma

vez. Já que eu estraguei o seu aniversário, então ao


menos vamos comer um bolo gostoso.

A jovem sorriu abertamente, abriu uma das


gavetas de sua mesa e tirou sua nécessaire,

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pescando um isqueiro de dentro e fazendo o que

Charles sugerira.

Mal a vela em formato incomum começou a


tremular sua chama, Melanie a assoprou de uma

vez, voltou a pegar sua bolsinha, retirou um


pequeno jogo de talheres enrolados em um tecido
florido e cortou desajeitadamente dois pequenos
pedaços do bolo, oferecendo para seu chefe a parte
que lhe cabia equilibrada em cima da faca.

— Meu Deus, você conseguiu cortar a


menor fatia que eu já vi na vida sem quebrar o
bolo. Aposto que ela está transparente! Vou botar
você para cortar os bolos de rolo!

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Dessa vez, Melanie gargalhou, o que fez

com que o bolo equilibrado caísse nos joelhos dos


dois, que quase se encostavam durante aquela
estranha reconciliação entre um chefe e uma

funcionária.

Na cozinha, Pérola e a maior parte dos


funcionários da Miguez pressionavam o rosto na
parede que fazia divisa com a cozinha e o escritório
de Mel, na tentativa de ouvir o que os dois diziam.

— Ela está rindo! Ai, minha Santa Sara


Kali, ele conseguiu o perdão dela — a senhora
robusta exclamou, levando a mão ao peito.

— Eu não disse que ele ia conseguir? Eu

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sabia! — disse Tamires, dando pulinhos.

Todos começaram a comentar a conversa,


vibrar e fazer apostas, menos Amanda, que estava
ocupada fazendo os financiers que eram sua marca

registrada enquanto um sorriso brincava em seus


lábios e ela repetia para si mesma:

— Eu não disse que era amor? Eu disse...

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Capítulo 8

Após os pedidos de desculpas de ambos e as

fatias finas de bolo devidamente devoradas, Charles


resolveu, em um impulso, convidar Mel para jantar.

— É tradição da empresa comemorar os


aniversários de seus funcionários — explicou
quando viu a expressão desconfiada de Melanie,
que apontou para o bolo partido, como quem

dissesse “sim, eu sei, e nós já comemoramos”.

Charles respirou fundo e admitiu:

— Ok, é o meu jeito de compensar o fiasco


de agora. Apenas um jantar simples, em algum
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lugar à sua escolha.

Mel pensou em brincar e escolher um


restaurante caríssimo, mas achou melhor não
abusar da sorte, então apenas sugeriu:

— Ok, vamos pedir uma pizza aqui, depois


do expediente. Ou podemos ir até uma pizzaria,
talvez seja mais... adequado.

Charles ponderou por um momento, mas


deu de ombros:

— A escolha é sua. Uma pizza, então. Eu


passo aqui após o final do dia. Pode ficar depois
dele?

Ela sorriu e assentiu, selando o acordo de

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paz de ambos, e em seguida os dois foram cada um


para os seus afazeres.

Porém, por mais que tentassem, nenhum


dos dois conseguia não pensar em como se

acertaram rapidamente e em como as batidas do


coração de cada um estavam estranhamente
descompassadas, como se uma simples pizza na
copa fosse um grande evento.

Pareciam dois adolescentes, estranhamente

animados, o que ia totalmente contra os eventos


daquele dia, em que um agredira o outro, seja
fisicamente ou com palavras.

Horas depois, quando todos já haviam ido

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embora — e comido suas fatias do bolo de

aniversário de Mel, que passou o resto do dia


agradecendo por tudo, a ponto de Pérola ralhar com
ela —, a ex-CEO se viu sozinha na fábrica pela

primeira vez.

Apesar de ser chamada desse modo, a


fábrica nada mais era que uma residência comum,
adaptada para os devidos fins, com direito a casas
vizinhas, tudo em uma rua segura. Por isso, a

jovem não sentiu medo de ficar ali sem companhia.

Entretanto, seu coração estava disparado


por imaginar que ficaria sozinha com seu chefe
pela primeira vez desde que o conhecera.
Estranhamente, seu receio não era sobre a figura
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dele. Não havia desconfiança sobre suas intenções,

nem temor de que Charles fizesse mal a ela, de


modo algum.

Por mais irritadiço que fosse, ele jamais

demonstrara comportamento violento, além do


tradicional rude e daquela explosão no mesmo dia.

O medo de Melanie era sobre si mesma. A


atração que sentia por Charles não diminuíra nem
quando ele gritara com ela, apenas se transformara

em frustração sexual. Seria preciso uma grande


força de vontade e profissionalismo de sua parte
para não se adiantar e beijar aqueles lábios cheios e
sensuais de seu chefe.

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O barulho do carro de Charles a fez parar de

pensar bobagens e ir até um dos banheiros para


verificar se seus trajes estavam de acordo com o
esperado. Assim como todos os funcionários, Mel

mantinha uma muda de roupas em seu armário no


vestuário da fábrica, para o caso de algum acidente
na cozinha sujar uma de suas roupas.

É claro, a muda de roupas em questão era


um vestido simples, de malha preta, mangas

compridas e saia rodada que terminava pouco


acima dos joelhos. Não havia necessidade de se
manter uma roupa de gala ali. Até porque o
encontro seria apenas uma pizza.

Aliás, nem seria um encontro. Era apenas


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uma pizza.

Apenas isso.

Mel tentou se convencer de que era


exatamente o que ela gostaria, mas seu coração

nutria a vontade de que fosse, sim, um encontro.

Assim que entrou na casa, Charles se pegou


pensando no alívio que sentia por sua funcionária
ter ido para aquele dia de trabalho vestindo calças

sociais, e não saias. Suas longas pernas eram uma


perdição para ele, que fazia um esforço tremendo
para não as notar quando estavam de fora.

Normalmente, era quando ele ficava mais

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arredio, pois estava tendo muito trabalho para se


portar de modo correto na frente de Melanie. Ele
não poderia perder o controle por uma centena de
razões éticas e profissionais, mas principalmente

por saber que, mesmo se suas desconfianças sobre a


atração entre os dois estivessem corretas, não seria
o certo a se fazer naquele dia.

Um dia, quem sabe, depois que o impasse


entre as duas empresas se resolvesse, talvez ele

poderia convidar a jovem para um jantar direito, em


um encontro normal. Enquanto ela trabalhasse para
ele, porém, jamais poderia encostar em um dedo
dela.

Principalmente depois do que acontecera


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naquela tarde, quando ele fora tão desagradável e

mal-educado.

— Você é muito pontual! — exclamou


Melanie, e ele levou um susto ao vê-la parada ao

lado do sofá da sala, com um sorriso no rosto e um


vestido no corpo.

Um maldito vestido.

Charles quase gaguejou e, assim que


trancou a porta, apontou para ela e perguntou:

— Você trocou de roupa?

Ela olhou para a peça que cobria seu corpo,


a alisou sem perceber e respondeu:

— Sim, eu tomei um banho! Estava toda

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suada, sabe? Um certo chefe meu me irritou ao

longo do dia, isso me estressou, e eu fiquei toda


grudenta.

Charles deu uma longa risada e caminhou

até ela, parando a uma distância segura, curtindo a


naturalidade com que Mel estava brincando com
ele.

— Eu tenho duas certezas: esse seu chefe


deve ser um idiota.

— Correto — ela disse audaciosamente e


tapou a boca com as mãos, contendo uma risada. —
Perdão! Foi sem querer, escapou!

Ele voltou a rir e acenou com a cabeça,

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como se dispensasse as desculpas.

— É justo que você ache isso depois do que


fiz hoje. Não se preocupe.

— E qual é a segunda certeza? —

perguntou, um sorriso tranquilo enfeitando o rosto.

Charles se perdeu naquele sorriso, que


tantas vezes viu direcionado a outras pessoas, mas
nunca a ele, e respondeu, ainda em tom de
brincadeira:

— Não há nada mais sexy do que uma


mulher dizendo que está grudenta de suor.

Mel colocou as mãos na cintura, dobrou um


pouco a perna, fazendo uma pose bem canastrona, e

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respondeu:

— Nossa, você ia enlouquecer se me visse,


então. Dava para produzir velas com todo aquele
grude no meu corpo.

Ele fechou os olhos, fingindo saborear a


imagem mentalmente, e perguntou:

— Uau. Velas de que cor?

— Da cor mais luxuriosa possível: cinza-


poluição. Da cor do Faísca. Miau!

Ainda rindo do clima descontraído, os dois


fizeram os pedidos pelo telefone para uma pizzaria
— escolhida, claro, por Mel — e sentaram no sofá
na sala, mantendo novamente a distância segura

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para ambos.

Enquanto aguardavam a pizza chegar,


começaram a conversar sobre amenidades,
trabalho, clima, até que o assunto que Melanie

menos gostaria de debater no dia de seu aniversário


surgiu: seu pai.

— Ele sempre foi assim, Charles,


principalmente depois que mamãe morreu —
explicou após ser questionada sobre sua relação

com Fernando. — Sempre querendo dar um


jeitinho em tudo, para lucrar mais em cima dos
outros, para sair de bonitão da jogada…

— A ponto de fraudar a própria empresa?

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Ela assentiu e explicou:

— O clássico empresário vitimista: fingia


estar mal das pernas para não pagar os direitos dos
funcionários. Coube a mim tentar salvar a empresa

da família quando atingi a idade para isso.

— Sinto muito — ele disse com


sinceridade, e ela apenas sorriu à guisa de
agradecimento. — Você sabia do esquema de
fraude?

Ela franziu as sobrancelhas por um


momento, como se estivesse ofendida com a
sugestão, então Charles reformulou a pergunta:

— Quero saber se você sabia e tentou

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impedir, ou se foi surpresa para você e só soube


quando tudo explodiu. Não estou insinuando que
você foi cúmplice.

— Ah, sim. Não, esse foi bem… mal

planejado, digamos assim. Só soube quando ele me


ligou avisando que tudo deu errado. Até então, eu
achava que realmente se tratava de um assalto que
nada tinha a ver com ele.

— Compreendo. E onde está seu pai agora,

que mal lhe pergunte?

A dúvida de Charles, por mais que fosse


honesta, também era um teste. Se ela hesitasse ou
demonstrasse que gostaria de proteger o pai, lhe

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daria motivos para que desconfiasse de sua

honestidade.

Para seu alívio, ela apenas suspirou e disse:

— Na casa de parentes que não sabem do

que ele fez. Na fronteira com a Argentina, não sei


exatamente a localização, pois não tenho contato
com essas pessoas, mas sei que é por ali.

— Sei… E a bomba ficou no seu colo para


resolver? Por que não deixou que tudo explodisse

de uma vez, já que decretou falência de qualquer


modo?

— Porque o processo do seu pai me faria


perder minha casa — ela admitiu com tristeza. — É

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meu único bem e a única lembrança de minha mãe.


Como você e o senhor Charles aceitaram a minha
proposta e interromperam os processos contra
Fernando, eu ganhei tempo para decidir o que fazer

para me proteger das loucuras dele. Se vocês


desejarem tirar tudo dele, por mim, tanto faz, meu
maior problema é perder meu lar.

Charles franziu o cenho enquanto ouvia


tudo aquilo e, sem perceber, tocou o queixo, como

se estivesse refletindo sobre algo. Era um hábito


dele, ela já havia notado.

— Charles? O que houve? — perguntou


quando notou que ele estava aéreo.

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— Ah. Me perdoe. Foi só algo que me

passou pela cabeça sobre isso tudo.

Melanie não entendeu o que ele quis dizer


com aquilo, portanto imaginou que ele estivesse

apenas desgostoso com seu relato e decidiu mudar


de assunto:

— Mas não vamos falar sobre o meu


adorável parentesco com aquele calhorda do
Fernando. Vamos falar sobre… — ela olhou ao

redor, procurando um assunto. — Faísca! —


exclamou quando o gato do vizinho entrou pela
janela.

— É, realmente, esse é um excelente

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assunto, o gato gordo que acha nossa fábrica uma

extensão de seu quintal.

Mel, que se levantara para ir acariciar o


bichano, parou no meio do caminho ao notar suas

palavras.

“Nossa fábrica”.

Charles, ao notar que a súbita parada da


jovem, se levantou também e caminhou até ela.

— Melanie? Tudo bem? — perguntou e

olhou pela janela, acompanhando seu olhar,


temendo que alguém estivesse tentando invadir a
casa. — O que você viu?

Melanie desviou o olhar e o fitou nos

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olhos, piscando rapidamente, como se tentasse se


recompor.

— Não, nada, eu… só viajei por um


momento. E essa pizza, que não chega, hein?

Apesar de suas tentativas de fingir que


nada havia acontecido, as palavras de Charles e as
consequências delas em Melanie fizeram aquilo
que os dois estavam tentando evitar ao longo de
todo aquele encontro acontecem:

Os dois se viram próximos um do outro.

Próximos até demais.

Próximos o suficiente para que toda a


química que pairava entre os dois desse sinal de

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vida e ambos ficassem conscientes dela: a


respiração de Mel ficou levemente ofegante, os
lábios de ambos se entreabriram, o desejo ferveu
com muita intensidade.

Nenhum dos dois sabe bem quem fez o


primeiro movimento. Talvez, o movimento tenha
sido sincronizado. A questão é que em um segundo
eles se olhavam, no outro, a distância entre os
corpos foi consumida, os lábios se chocaram, as

línguas se encostaram e mãos agarram nucas com


paixão, tudo ocorrendo ao mesmo tempo.

Enquanto os dois se entregavam ao desejo


outrora reprimido, nem escutaram quando um
motoboy chegou com a pizza solicitada e buzinou
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tanto que o vizinho, dono de Faísca, acabou indo

ver o que era, pagou a pizza e, como vingança por


ter sido acordado, levou a pizza de Charles e
Melanie e comeu sozinho, em companhia de seus

gatos, incluindo Faísca, que escapuliu pela janela


assim que Charles deitou o corpo de Melanie no
sofá.

Faísca era um gato abusado, mas não a


ponto de ficar encarando as noites de sexo alheias.

Assim que se deu conta do que acabara de


fazer com seu próprio chefe, foi como se um balde
de água gelada caísse sobre a cabeça de Melanie.
Deitada, ainda nua, por cima de Charles, sentindo

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as batidas intensas de seu coração sob pele suada, a

jovem administradora levantou a cabeça e viu o


rosto atraente do homem agora totalmente relaxado.

Levantando-se abruptamente, Mel tratou de

pegar a primeira roupa que encontrou no chão para


cobrir a súbita vergonha que sentiu. Charles abriu
os olhos e não entendeu a cena que se passava à sua
frente: sua mais nova amante tentando se vestir,
como se estivesse desesperada para ir embora.

— Melanie? O que houve? — perguntou,


esticando o braço para pegar suas roupas e as
vestindo enquanto via a mulher ajeitando o sutiã
com pressa.

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— Isso… isso foi um erro, Charles.

Você… — ela estava ofegante, tanto pelo esforço


de vestir as roupas, quanto pela atividade física
intensa de momentos antes. — Você é meu

chefe…! Ai, meu Deus…!

Charles terminou de vestir a calça e foi até


ela, a impedindo de continuar com aquela loucura,
segurando gentilmente seu braço e puxando seu
queixo para que ela o olhasse.

— Nem esfriamos ainda, e você já se


arrependeu? — brincou, e ela imediatamente
respondeu:

— Mas é claro! Isso não poderia ter

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acontecido!

— Por que, eu sou tão ruim de cama assim?


Ah, já sei, é porque foi no sofá, não é? Garanto que
minhas habilidades são incríveis em uma cama de

verdade. Sabe como é, apoio para os joelhos, mais


aderência, essas coisas.

Mesmo a contragosto, ela riu da piada, mas


logo ficou séria e tentou rebater. Charles logo a
silenciou com um beijo calmo, diferente daquele

urgente de outrora, que resultara naquele ato


impensado de momentos antes.

Melanie, indo contra as suas expectativas,


não recusou o beijo, pelo contrário. Se entregou

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como se fosse o primeiro que trocavam, abraçando

Charles com força, como se quisesse fundir os


corpos em um só.

Quando finalmente interromperam o beijo,

Mel continuou de olhos fechados e ouviu a frase


que mais queria escutar naquela noite:

— Vamos tentar não pensar em mais nada


essa noite. É seu aniversário.

E voltou a beijá-la ardentemente.

Mel não fez nenhuma objeção à sugestão,


pelo contrário.

Naquela noite, só comemoraria de todas as


formas possíveis.

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Capítulo 9

O novo relacionamento dos dois foi

devidamente escondido dos outros funcionários, a


pedido de Melanie, que tinha vergonha de
julgamentos. Afinal, por mais que todos fossem
incríveis com ela, nada mudava o fato de que
Charles era chefe de todos, era o CEO, filho do
presidente da empresa.

Mara, a amiga espevitada da


administradora, entretanto, soube em primeira mão
e vibrou pelo telefone.

— Amiiiiiga, finalmente você transou! Ai,

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minha Nossa Senhora das Causas Perdidas, muito


obrigada por mais uma bênção!

— Mara! Ok, eu vou desligar, sua louca!


— Mel ameaçou, ainda que risse, e Mara berrou do

outro lado da linha:

— Nããão! Eu me controlo, prometo! Por


favor, me conta os detalhes! Como foi?

Melanie suspirou, tentando não parecer


uma adolescente apaixonada, e confessou:

— Perfeito. O melhor aniversário de toda a


minha vida.

— Ai, bem no meu coração… — a amiga


reclamou, fazendo voz triste. — Eu fiz aquela festa

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com tanto amor e carinho no ano passado… Mas


ela só pensa na festa da salsicha!

— Agora vou desligar!

— Nããão! Ok, parei, espera!! Me conte,

vai!

Rindo e com as bochechas pegando fogo


pelo comentário da amiga, Mel começou a contar
sobre como foi a primeira noite. Contou das
conversas, de quando ele se referiu à fábrica como

sendo dela também, do primeiro beijo, de como seu


vestido logo encontrou o chão e os dois fizeram
amor vibrante no sofá, levando Mel a ver estrelas
há muito desconhecidas em companhia de um

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homem.

Mara gargalhou quando a amiga contou


que eles perderam a pizza, então comeram todo o
estoque de biscoitos gourmet que estavam prestes a

vencer enquanto a nova pizza não chegava, e riu


mais ainda quando Mel confessou que, no retorno
da cozinha, após o assalto ao estoque, a
administradora levou o chefe para seu escritório e
fez amor com ele lá, confessando à amiga que era

seu desejo antigo.

— Isso é óbvio! Quando você me contou


desse encontro, eu procurei no Google esse homem,
e benzadeus! Que homem delicioso! Parece aqueles
modelos capas de romances de livro de CEO!
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— Bom, ele é um CEO, né? Assim como

eu também era, não se esqueça disso.

Mara ficou em silêncio por um momento, e


Mel riu dessa hesitação, imaginando que sua amiga

estava refletindo sobre o cargo de presidência de


Charles.

— Não tinha pensado nisso, sabia? Meu


Deus, Mel, você está dormindo com um CEO
sendo uma ex-CEO! Isso é incrível! Me diz, ele

tem um imenso e bem grosso…?

— Ok, agora vou desligar! Beijo, Mara!

— Beijo, amore mio! Amo você! — a


amiga exclamou, rindo que nem criança do

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constrangimento de Mel.

— Eu também, Maravilhosa. Beijo!

Minutos depois de ter encerrado a ligação,


Mel ainda ria sozinha de tudo, sentindo que, pela

primeira vez em muito tempo, um pouco de


felicidade se fazia presente em sua vida sempre tão
confusa pelos erros de seu pai.

Seu chefe, outrora uma pessoa


desagradável, mudou da água para o vinho, o que

tornou seu trabalho muito melhor. Além disso, é


claro, Mel podia extravasar todo o desejo que sentia
por Charles, assim como nutrir um sentimento mais
agradável do que o desprezo que sentia antes.

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Charles, em seu apartamento luxuoso,

pensava o mesmo, só que de outro modo:


finalmente pôde parar de agir como um homem
insuportável perto dela apenas por não conseguir

conter o desejo que sentia por aquela mulher.

Ainda que não admitisse nem para seu


melhor amigo e advogado, o CEO da Miguez não
tirou Mel da cabeça desde o dia em que a
conhecera. Agora que podia confessar isso para si

mesmo, essa atração toda que o consumia, ele se


sentia mais leve, além de estar plenamente
satisfeito com o fato de que a mulher alvo de seus
interesses ser alguém tão maravilhosamente
fascinante. Linda, sensual, profissional, um pouco
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tímida, apesar da segurança, divertida, honesta…

Essa última característica enchia Charles de


alívio. Temera, e havia certa lógica nisso, que ela
realmente fosse filha de seu pai, no sentido

metafórico da coisa, ou seja, que quisesse seguir os


passos de Fernando no mundo do crime. Mas sua
intuição não falhava, por isso ele dera a chance
para ela, a despeito do que seu advogado — e
mesmo seu pai — falara.

Olhando para os encontros rápidos e


escondidos que teve com Mel ao longo daquelas
semanas, mesmo que somente para roubar um beijo
em seu escritório, Charles concluiu que valera a
pena as horas que passara para convencer seu pai
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de que, sim, era arriscado confiar em Mel, mas que

ele assumiria os riscos.

Seu pai, que de bobo não tinha nada, notou


que havia algo de diferente no filho, então

concordou com aquela ideia um pouco estapafúrdia


de acordo, não sem antes passar um longo sermão
no seu primogênito, é claro.

Por mais sério que fosse, Charles-pai


amava Charles-filho do jeito que um pai deve amar

seu filho. Não do jeito torto e abusivo que


Fernando tinha de amar Melanie. Por isso, o senhor
torceu para que tudo desse certo, pois queria
somente o bem do filho.

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Até aquele momento, tudo estava dando

certo, pensou Charles, e se continuasse assim,


quem sabe ele não conseguiria aprofundar a relação
dos dois e trazer tudo a público?

Ele apostava todo o seu patrimônio que


Pérola vibraria com a notícia.

Tomado por uma súbita animação, comum


aos novos amantes quando pensam nas pessoas
queridas, Charles pegou seu telefone e ligou para

Mel a fim de convidá-la para um jantar em seu


apartamento.

A jovem hesitou por um momento, mas


logo esse instante passou; pensou um grande “que

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se dane” e aceitou o convite.

Os dois passaram a segunda noite juntos, e


a opinião de que a segunda foi ainda melhor que a
primeira foi unânime. Dessa vez, Mel dormiu com

ele, já que fizeram amor até a exaustão, e, ao


contrário da fábrica, ali havia uma grande e
convidativa cama.

Mel e Charles tomaram o café da manhã


juntos em clima de namoro, rindo, trocando

carícias, roubando beijos, dando beijos e quase não


ligando para a comida. Tudo estava se encaixando
rapidamente, e quem visse de fora, nem imaginava
que aqueles dois brigavam como cão e gato não
fazia nem um mês.
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A vida tem dessas coisas, felizmente.

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Capítulo 10

Mais ou menos dois meses após o início do

relacionamento secreto entre chefe e funcionária —


que de secreto não tinha nada, já que todos na
fábrica desconfiavam, ainda que nada falassem na
presença dos dois —, Amanda não conseguiu
resistir e soltou a pergunta que cem por cento dos
funcionários da Família Miguez gostaria de fazer:

— Vocês estão juntos, não estão?

A cozinha, que trabalhava a todo vapor,


imediatamente ficou em silêncio, e cada pessoa ali
dentro olhou para Mel, que comia seu almoço na

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copa, como de costume. Demorou um longo minuto


para ela perceber que a pergunta fora dirigida à sua
pessoa.

— Oi? — balbuciou, arrancando risadas de

todos, que vibraram com a timidez repentina da


colega.

Cada um dos confeiteiros largou seus


afazeres e correu até a mesa, parando ao redor dela
e encarando a ex-CEO, que sentiu as bochechas

pegando fogo. Até os funcionários de outras áreas


apareceram na cozinha.

— Ah, vai, pretinha, estamos derretendo de


curiosidade há semanas! Seu humor melhorou, o

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humor de Júnior melhorou, ele vem até aqui com

mais frequência do que antes e toda hora vocês se


enfiam naquele escritório minúsculo para “discutir
contabilidades” — Pérola fez aspas com os dedos, e

seus colegas assentiram em expectativa.

Mel arregalou os olhos, aterrorizada, e


desejou que um buraco se abrisse no chão e a
engolisse.

Tentando não dar bandeira, ela limpou os

lábios com um guardanapo, para tentar ganhar


tempo, e começou a tentar se explicar:

— Bem, nós... Há mudanças em


determinadas áreas administrativas que... Eu sugeri

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novos planos de ação para... Enfim... Coisas....

Outras coisas novas... e unicórnios...

Todos entortaram a cabeça para o lado, de


forma quase cômica, e Tamires foi a primeira a

perguntar:

— Você anda bebendo em horário de


trabalho, querida? Sabe que é contra as regras, não
sabe?

Mel acabou rindo, apesar do

constrangimento, e respirou fundo, relaxando a


tensão. Eram seus amigos, afinal de contas, não
precisava se preocupar tanto.

— Não, eu falo sério, é verdade. Há

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diversas novas ações sendo implementadas, vocês


sabem disso, eu fiz laboratório com vocês, e Pérola
quem está entrevistando os novos funcionários, né?
Além disso, Amanda toda hora vai comigo para

feiras de gastronomia e cultura, né, Mandy?

Ela assentiu com a cabeça e abriu um


sorriso tímido.

— Nunca achei que eu seria tão popular


entre o pessoal popular... — ela comentou, dando

uma risadinha. — É sério, gente! Mel já me levou


para vender os biscoitos em feirinhas hipsters tantas
vezes, que eu já conheço todo mundo de nome ou
de vistas! Fui reconhecida até no supermercado
como a menina dos biscoitos.
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Melanie assentiu com a cabeça, sorrindo.

Sua ideia de introduzir a Família Miguez a um


novo público de consumidores fora um sucesso.
Originalmente, os doces eram vendidos a

estabelecimentos, como por exemplo cafeterias,


salões de beleza, restaurantes, etc. Depois da nova
ação de Mel, o público-alvo da Miguez deixou de
ser somente empresas e se tornou pessoas.

Um excelente exemplo de local de venda

dos biscoitos e financiers foram as duas feiras mais


famosas entre o público jovem no Rio de Janeiro: a
Babilônia Feira Hype e a Feira Independente de
Qualquer Coisa, ambas extremamente rentáveis e
multiculturais. Mesmo que Amanda fosse uma
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jovem tímida, era uma vendedora muito dedicada e


trouxe diversos novos clientes para a empresa em
seus “bicos” nas feiras, com sua barraquinha de
doces artesanais.

Além disso, Melanie apresentou um novo


projeto, baseado no sucesso que foi a linha de
financiers de Amanda, de implementação de outros
tipos de massa que não somente as da confeitaria
seca: além dos tradicionais biscoitos, a Miguez em

breve começaria a expandir os negócios para


abarcar também o mercado de éclairs, canelés,
doces de massa choux, também conhecida como
“massa carolina”, para confecção de doces
pequenos ou bombas, e, futuramente, muffins,
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cupcakes e macarons.

Apenas a apresentação da ideia para Charles


já foi suficiente para que os olhos do CEO
brilhassem. Fazia parte dos planos da empresa essa

expansão, porém o presidente e seu filho, bem


como Eliane, acionista da Família Miguez — mãe
de Charles Júnior e esposa de Charles Sênior nas
horas vagas —, não haviam encontrado um modo
de iniciar tais planos.

Melanie não somente fizera uma pesquisa


completa com os confeiteiros da Miguez, como
fora atrás de fontes de pesquisa e rodara a cidade
verificando o que estava em alta no mercado de
doces artesanais. Desse modo, fez um de seus
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famosos dossiês e, com ajuda de sua amiga Mara,

cabelereira extremamente antenada nas


modernidades, principalmente hipsters, bolou a
campanha de marketing de trazer o visual em alta

no momento: tons pastéis ou futuristas e modernos,


como hologramas, designs tropicais, muita cor,
muito glitter comestível e, claro, temáticas
envolvendo seus queridos unicórnios, que estavam
em alta entre o público jovem.

Após explicar os detalhes que a equipe


ainda não conhecia, Pérola colocou as mãos na
cintura e reclamou:

— Ah, por isso chegou aquele carregamento


de cortadores de biscoito com formatos bizarros!
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Unicórnios? Eram unicórnios? Júnior é um pilantra,

nem me avisou de nada! Mas o que eu sou, não é


mesmo, além da confeiteira-chefe? — perguntou e
pegou um rolo de macarrão no armário, balançando

no ar como se planejasse tacá-lo na cabeça de


Charles.

— Ah, é que ele ainda vai testar antes de


começar algo, eu fiquei de ajudar. Além disso, ele
ia te comunicar hoje mesmo, combinamos ontem à

noite...

Mel imediatamente tapou a boca com as


duas mãos, vermelha como uma dedo-de-moça, e
largou seu sanduíche em cima da mesa ao ouvir
gritos de comemoração. Ela podia jurar por Deus
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que fora sem querer, mas não adiantaria, ninguém

ligava sobre como a informação havia chegado até


eles. O que importava era que a ex-CEO e atual
administradora finalmente assumira seu

relacionamento com seu chefe.

— O que está acontecendo aqui? — Charles


perguntou, entrando de surpresa na copa,
exatamente como acontecera no aniversário de Mel,
meses antes.

A cena, inclusive, era muito parecida: uma


comemoração, Mel deixando o sanduíche cair na
mesa e ele surgindo sem aviso. A diferença é que,
daquela vez, havia um sorriso no rosto do dono da
empresa, que não passou despercebido por
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ninguém.

Logo todos fizeram silêncio, ainda que


sorrissem, e voltaram aos seus afazeres. Salvo
Pérola, que deu a benção ao afilhado e, logo em

seguida, ergueu o pau de macarrão em sua direção.

— Seu safado, que papo é esse de


unicórnios? Eu sou a última a saber de uma linha
de doces agora, é?

Charles ergueu uma sobrancelha e olhou

para Mel, que ainda estava de olhos arregalados,


constrangida demais para conseguir falar alguma
coisa.

— Ah, é uma nova linha de biscoitos

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sugerida pela Mel, madrinha. Eu ia comunicar a


você hoje, para começarmos os testes. É tudo bem
inicial ainda, como todas as linhas, esqueceu?

Pérola cruzou os braços, fazendo seu

imenso busto ficar ressaltado no vestido, antes de


dizer:

— Olha só, senhor CEO, não me venha


trazer coisas doidas para cá, que essa é uma
empresa de família! Daqui a pouco você me

aparece com biscoitos em formatos esquisitos!

— Ah, devo cancelar os biscoitos em


formatos de seios, então? Poxa, eu escolhi
pessoalmente as formas, que decepção... — ele

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brincou enquanto caminhava tranquilamente pela

cozinha, pegava um prato e talheres e entregava


para Mel. — Continua comendo na mesa sem
prato, não é? Não sei por que ainda me espanto...

Seu tom de voz era tão tranquilo e pacífico,


quase amoroso, que os funcionários todos se
entreolharam, positivamente surpresos.

Charles parecia um homem apaixonado,


achando graça das manias da namorada.

E, a julgar pelo rubor que coloria a face de


Melanie, era mais ou menos isso que ele realmente
era.

— Ah... Obrigada, desculpa, eu... Não tenho

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hábito de comer sanduíches com garfo e faca...

Charles puxou os talheres de volta e os


guardou na gaveta de onde os tirou, dizendo:

— É verdade, esqueci desse detalhe. Mas

não tem problema, só use os pratos, que dar


formiga aqui não é exatamente algo bom, você sabe
— disse com a voz calma. — Escuta, quando
terminar o almoço, pode dar um pulinho na sua
sala? Preciso conversar com você sobre...

— Contabilidade... — Amanda completou,


distraída enquanto moldava um financier, e
imediatamente se recriminou pela língua solta
quando todos a olharam. — Ah, desculpe! Eu vou...

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farinha... estoque... — e apontou para a porta do

outro cômodo, praticamente correndo, morta de


vergonha.

Enquanto Mel tentava não rir daquela cena,

recolheu seu almoço e colocou no prato, seguindo


Charles até o escritório e ouvindo as risadas
baixinhas.

— Eles já sabem, né? — ele perguntou


quando Melanie fechou a porta atrás de si e deixou

seu sanduíche em cima da mesa. Quando assentiu


com a cabeça, ainda corada, ele encostou na parede
e a puxou pelo braço, beijando sua boca com
calma.

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Quando se separaram por um momento, ela

pediu:

— Desculpa, eu deixei escapar que fizemos


um acordo ontem de noite, aí eles deduziram...

Ele franziu o nariz, como se não se


importasse com aquilo.

— Eu conheço todos eles, são ardilosos.


Uma hora iam arrumar um jeito de arrancar uma...
confissão. Mas há uma vantagem nisso: não

precisamos mais esconder, precisamos?

Melanie piscou algumas vezes, as mãos


apoiadas no peito másculo de Charles, e engoliu em
seco. Não sabia bem o que aquela conversa era, e

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estava confusa demais para conseguir falar algo.

O que havia começado como uma relação


profissional conturbada logo evoluiu para um
relacionamento puramente sexual, que, por sua vez,

aos poucos ia virando algo... maior. Ela podia


negar, não querer admitir, mas a cada encontro
furtivo, a cada noite de paixão no apartamento de
Charles, a cada palavra carinhosa, Melanie ia se
envolvendo mais, e mais, e mais...

Até perceber que estava totalmente


apaixonada por seu chefe, filho do homem que seu
pai tentou roubar. A família Miguez não tinha
motivo algum para gostar de sua família, ela
compreendia, por isso aquele relacionamento quase
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shakespeariano a confundia.

— Ahn... O que... isso significa...?

Charles percebeu imediatamente seu


desconforto: Mel saiu de mulher apaixonada em

seus braços para uma jovem quase tímida e nervosa


com suas palavras. Ora, o que ela pensava? Que
aquilo tudo era somente diversão para ele? O CEO
deu uma risada, pensando em como aquele estranho
relacionamento entre os dois mais parecia um

primeiro namoro de adolescentes, em vez de algo


entre dois adultos profissionais. Ele mesmo tinha
seus momentos de descobertas ao lado dela.

— Significa o que significa, ué. Que não

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precisamos mais esconder... Ou precisamos?

Ela piscou algumas vezes e mirou seus


lábios, se distraindo por um momento. Passou o
indicador no queixo forte, sentindo a pele macia até

encostar em sua boca.

— Não estávamos... escondendo,


escondendo de verdade...

Charles deu uma risada baixa e a trouxe


mais de encontro a seu corpo.

— Sim, eu sei, apenas não jogávamos na


cara de todo mundo.

— E é isso que vamos fazer agora? — ela


comentou, abrindo um sorriso divertido. — Que tal

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uma linha de biscoitos com nossos nomes


entrelaçados?

A risada de Charles foi ouvida


perfeitamente da cozinha.

— Iam vender muito... Minha mãe seria a


primeira a comprar, definitivamente.

Mel tapou os olhos com a mão que estava


usando para acariciar o rosto dele. Sua risada era
uma doce canção para Charles.

— Meu Deus, em que momentos saímos de


chefe e empregada que se odeiam para esse casal de
adolescentes planejando biscoitos confeitados,
senhor Miguez?

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Novamente, os funcionários ouviram as

risadas de onde estavam e acabaram


acompanhando, mesmo que à distância, o namoro,
agora não mais às escondidas, de sua colega de

trabalho e seu chefe.

— Contabilidade... — Amanda comentou,


um amplo sorriso no rosto, e todos riram alto,
sentindo o clima romântico e leve se espalhar pelos
cômodos da fábrica da Família Miguez.

Tudo parecia nos seus devidos lugares,


agora.

Que viessem biscoitos de unicórnio, a


confeiteira-chefe nem ligaria se fossem biscoitos

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em formato de mula.

Pérola estava plenamente satisfeita.

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Capítulo 11

— Entra, Charles, só não... repara na

bagunça... — Mel pediu, parada na porta, e se


afastou para que ele entrasse em sua casa.

Logo da entrada do terreno, ele já havia


notado que algo estava errado ali. Localizada em
um bairro pacato da zona norte do Rio de Janeiro, a
residência de Mel, outrora lar de sua finada

empresa, era uma charmosa casa de esquina em


uma rua arborizada no Méier. Com um grande
terreno, ideal para vans de entrega estacionarem na
época da TST, a casa era dividida em duas

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construções: uma de dois andares, onde Mel

morava, e um puxadinho, onde ficava o antigo


escritório e sede da Turano Soluções em
Transporte.

O que mais impressionou Charles não foi o


tamanho do lar de Mel — ele já esperava algo
naquelas proporções, portanto era natural que a
família vivesse com conforto. O que o chocou foi o
vazio do terreno: sem carros, a pequena piscina no

canto esvaziada, nenhum enfeite ou mesmo flores


pela grama — ainda que ela estivesse bem cuidada
— que se espalhava por toda a área externa.

Quando entrou na casa, seu susto foi maior:


o interior da residência era tão vazio quanto o
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exterior. Não havia sequer pinturas grandes na

parede da antessala.

Mel trancou a porta, um pouco


envergonhada por Charles ver sua casa vazia, mas

tratou de fingir que não havia nada de errado.

— Vem, vou te mostrar a casa. Não há


muuuito o que mostrar, há mais cômodos do que
novidades, mas faz parte do protocolo te apresentar
tudo, né? Vamos começar pela cozinha — ela

tentou parecer animada, mas Charles, que ainda


estava com o cenho franzido, notou seu tom de voz.

Entrando na cozinha, ela fez um gesto


amplo, apontando para os pouquíssimos móveis —

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uma mesinha de quatro lugares com duas cadeiras e

um conjunto de armários no canto — e para o


fogão industrial.

Não compreendendo o motivo de ela ter um

fogão daquele tamanho, ele apontou para o


eletrodoméstico e olhou Mel, que entendeu sua
dúvida e explicou:

— Foi a única coisa que não consegui


vender. Minha mãe comprou porque os

funcionários vivam comendo aqui, então de vez em


quando havia almoços coletivos na empresa. Todo
o restante foi vendido, troquei por coisas menores
— apontou para a geladeira no canto da iluminada
cozinha.
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Charles começou a desfazer o nó da gravata

e a deixou em cima da mesa, junto de seu terno,


carteira e celular, enquanto ponderava.

— O que você quer dizer com “todo o

restante”? Você vendeu mais alguma coisa?

Ela ergueu os ombros, como se aquilo não


fosse algo que a machucasse profundamente, um
grande demonstrativo da traição de seu pai, de sua
solidão e do fracasso de sua carreira de CEO, e

respondeu:

— A gente tem que fazer o que tem que


fazer, né? Vem, vamos ver a sala, depois eu te
mostro o quarto. Acho que é o melhor lugar para te

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mostrar — ela respondeu com um sorriso travesso

no rosto, levando Charles a rir, ainda que a


contragosto. Não estava confortável em saber que
sua namorada precisara abrir mão de tanta coisa por

causa do calhorda do ex-amigo de seu pai...

Namorada.

Soou bem aos ouvidos dele, então o chefe


de Melanie fez uma nota mental de elaborar um
pedido que fizesse jus ao que sentia pela

funcionária.

Assim que chegaram na sala, ela fez o


mesmo gesto amplo e disse:

— Poderíamos fazer algo aqui, porém...

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— Você não tem sofá — ele concluiu, o

bom humor se esvaindo rapidamente ao ver a sala


com as duas cadeiras que faltavam na mesa da
cozinha, uma estante com alguns livros e uma

televisão de tubo no chão, ao lado de uma


luminária.

Olhando melhor, notou que havia um futton


no chão, então imaginou que ela usasse a sala como
um espaço de leitura. Voltando a atenção para a

estante, olhou os títulos por um momento e


continuou intrigado. Eram poucos livros, antigos,
pareciam refugos de sebo, daqueles que livrarias de
usados recusam na hora de comprar.

— Por que você...? — tentou perguntar,


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mas Mel, ainda tentando soar animada, o puxou

pelo braço.

— Não faz pergunta difícil! Vem, agora os


quartos! — e o levou escada acima até o segundo

andar da casa.

Igualmente vazio, a ponto de a voz de Mel


produzir eco nas paredes.

— Olha, ali ficava o quarto dos meus pais,


ali era o meu quando criança e esse aqui —

apontou para uma porta de madeira maciça, muito


bem entalhada — é o meu agora. Escolhi esse
porque é o mais... Hm... Habitável da casa.

Sem mais explicações, ela abriu a porta e

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deu passagem para Charles entrar. Assim que o fez,


ele compreendeu o que ela queria dizer com
“habitável”: era o cômodo com maior quantidade
de espaço ocupado, e ainda assim, não parecia

totalmente utilizado. Um armário embutido que


ocupava uma parede inteira, uma cama de casal,
uma pequena televisão de LCD que dividia espaço
com um DVD Player em uma escrivaninha, dois
criados-mudos, um repleto de livros e outro com
um tablet, carregadores de celular e um Moleskine,

tudo muito bem organizado.

Ao contrário do restante da casa, o quarto


era todo decorado: pinturas nas paredes, um lustre
moderno, alguns bibelôs, cortinas elegantes, tudo
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muito harmonioso. Havia uma recorrência de


unicórnios ali que fez Charles rir: uma aquarela
acima da cama, algumas almofadas, dois ou três
bichinhos de pelúcia, bibelôs de acrílico pintados

em tons holográficos e um móbile curiosamente


infantil com vários unicórnios pequeninos e muito
coloridos.

— Ah, esse móbile foi meu quando criança.


Guardei porque me lembra de mamãe — ela

explicou com um sorriso no rosto, sem aparentar


estar triste. — O restante é tudo presente de Mara,
uma amiga minha muito querida. Tudo que ela vê
de unicórnio, compra, inclusive quando vai viajar.
Não sei se deu para notar, mas eu gosto de
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unicórnios.

Charles riu da piada, terminou de olhar tudo


e voltou sua atenção para Mel, que tinha os braços
para trás, em uma postura profissional que ia contra

o local onde estavam. Quase riu de sua pose de


executiva, mas achou melhor não brincar. Não
naquele momento.

— Isso é um videogame? — ele perguntou,


vendo um objeto semelhante a um videocassete

coberto com uma toalhinha repleta de desenhos de


unicórnio.

— Ah, sim! Eu cobri para não pegar poeira,


não estou com tempo para jogar.

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Charles assentiu com a cabeça e olhou as

caixas de plástico contendo jogos da

desenvolvedora Colt Company[2], responsável pelo


que Charles considerava os melhores games de toda

a geração atual. Achou curioso que Mel gostasse


dos mesmos jogos que ele, até que lembrou de uma
série de games muito famosa que envolvia...
unicórnios.

Incrivelmente, o quarto de Mel era

moderno, iluminado e realmente parecia habitado


por alguém doce, porém forte, tal e qual a figura
mitológica.

— Por que a casa inteira parece vazia,

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enquanto seu quarto é a única parte que parece

ser... ocupada?

Ela ergueu os ombros rapidamente, como se


aquilo não fosse nada.

— Como eu disse, a gente tem que fazer o


que a gente tem que fazer, Charles.

— Sei... E o que “a gente tem que fazer”


significa vender tudo que havia aqui dentro para
pagar as burradas do seu pai?

Ela estalou dois dedos na frente do rosto.

— Bingo, senhor CEO.

Charles sabia que era aquilo, mas ficou


estupefato ao ouvir a confirmação. Não era possível

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que Fernando tenha feito tanta besteira àquele

ponto!

— A maior parte das coisas dessa casa eram


de meu pai. Compradas por ele, quero dizer. Eu

vendi tudo que dava para vender, doei o que


encalhou e fiquei somente com o que me
interessava ou o que pertencia à minha mãe.

Mesmo com essa explicação, não fazia


sentido para ele.

— Mas mesmo sofás e móveis básicos?

Novamente ela ergueu os ombros.

— Eu não sei quando vou precisar sair


daqui. Achei mais fácil vender tudo, quitar o que

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precisava ser quitado e guardar o restante para


quando for embora.

Agora fez sentido, ele pensou e se


aproximou de Melanie, botando as mãos em seus

braços, esfregando a pele fria e a abraçando por um


momento.

— Você não tinha algo guardado, um fundo


de reserva? Precisou tanto assim se livrar de tudo?

Ela acenou com a cabeça e hesitou antes de

responder:

— Ainda tenho, mas não quero tocar nele.


Não sei o que me aguarda daqui a alguns meses, se
vou trocar de emprego, se vou sair daqui... Fiz o

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que precisava fazer: me livrar de tudo do meu pai,


assim como ele fez com tudo que ele e minha mãe
suaram tanto para construir.

Charles abraçou Mel com mais força,

sentindo o ódio consumi-lo. Era nítido o quanto


viver naquela casa imensa e vazia era dolorido para
Melanie, e aquilo o incomodava demais,
principalmente por saber que nada era culpa dela.

Logo Melanie tratou de animar Charles,

garantindo que estava tudo bem e que tudo ia se


ajeitar algum dia. Mas ele não acreditou e fez outra
nota mental: conversar com seu advogado e ver se
suas teorias sobre uma possível alternativa para ela
realmente estavam corretas.
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O pedido de namoro ficaria para depois.

Não havia mais clima para algo tão especial assim.


Porém, ele jurou que não demoraria muito a
resolver as coisas entre eles.

E Charles, ao contrário de Fernando, era um


homem de palavra.

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Capítulo 12

Mel chegou na fábrica da Família Miguez

quase uma hora antes do esperado. Estava exultante


para contar a novidade para seus colegas, por isso
acabou se antecipando e abriu a casa, facilitando o
trabalho dos funcionários que ainda chegariam.

Quarenta minutos depois, os primeiros


funcionários começaram a chegar, estranhando a

fábrica já estar aberta. Quando Tamires e Amara


entraram na grande cozinha industrial, notando
Melanie sentada na cadeira da copa, feliz como
uma criança, logo concluíram o que não deviam:

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— Ele te pediu em casamento? Ahhh!! Que

lindooo! — Tamires gritou e abraçou Amanda, que


sorria, encantada.

Melanie parou de sorrir imediatamente e se

levantou, erguendo as mãos para as duas, como se


tentasse silenciar a gritaria.

— Não! De onde vocês tiraram...?

— Quem vai casar? — Ryan perguntou ao


entrar na cozinha, de mochila nas costas, ainda

meio sonolento naquela segunda-feira chuvosa.

— A Mel e o Patrão! Ele pediu a Mel em


casamento! — Tamires exclamou, dando pulinhos
sem sair do lugar.

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Melanie parecia uma maçã-do-amor, de tão

vermelha.

— Não, ele não...!

— QUEM VAI CASAR? AI, MEU DEUS!

— Pérola exclamou e levou as costas da mão


direita à testa, em um gesto dramático. — RYAN,
ME SEGURA, QUE EU VOU DESMAIAR, MEU
AFILHADO VAI CASAR COM A PRETINHA!

Mel tentou explicar a todos que não era

nada daquilo, mas à medida que novos funcionários


chegavam, a algazarra aumentava, até que a
bagunça que se instalara ficou tão grande, que
ninguém nem notou quando ela escapuliu da

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cozinha e foi para a área externa.

Respirando fundo, sentindo o coração


martelando no peito, ela ligou para Charles, que
atendeu quase imediatamente:

— E aí, contou para eles? — perguntou,


soando animado.

— Éan... Não... Eu tentei, mas eles


entenderam... outra coisa... Você vai passar aqui em
algum momento?

Charles estranhou o tom tímido que ouviu,


mas logo concluiu que provavelmente seus
funcionários imaginaram coisas sobre eles dois,
alguma coisa sobre namoro ou, se bobear,

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casamento, como era costumeiro. Não ficaria


surpreso se Pérola tivesse encabeçado o mal-
entendido: era o sonho da madrinha ver o afilhado
casado.

— Sim, daqui a meia hora eu saio daqui e a


gente conta juntos, pode ser?

— Pode, obrigada! — respirou fundo,


aliviada. — Eu comandei a empresa de meu pai por
anos, mas aqui eu me sinto uma estagiária. Como

você consegue lidar com funcionários tão...


animados? Os meus eram tão sérios e taciturnos!

Charles riu do outro lado da linha e


explicou:

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— É uma grande família, por isso. É ótimo

na maioria do tempo, mas de vez em quando há um


certo... limite sendo ultrapassado.

— Nem me diga... Preciso comprar uma

maquiagem mais forte, estou ficando corada como


uma adolescente aqui... Enfim, venha logo, estou
louca para contar tudo!

Charles prometeu que sairia em breve e


logo encerrou a ligação. Mel guardou o celular no

bolso da calça social e girou nos calcanhares para


voltar à sua sala, quando ouviu um barulho e olhou
por cima do ombro, vendo uma mulher
desconhecida trancando o portão atrás de si.

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Seu queixo quase caiu. A mulher parecia

uma modelo de passarela: extremamente alta,


magra, com longos cabelos dourados que caíam em
cascata por suas costas. Sua roupa era de grife, seus

sapatos com certeza custavam uma parte


significativa do salário atual de Mel e sua pele
gritava “EU ACORDEI ASSIM”, com direito a
letras miúdas que diziam “graças ao meu
dermatologista milionário”.

A única coisa que Mel conseguiu pensar foi


na música da colombiana Shakira, Don’t Bother,
principalmente quando a cantora menciona que se
sente uma pulga perto da nova namorada de seu
amado. Era exatamente assim que Melanie se
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sentia: um bichinho sem graça perto daquela


mulher.

Mas, para fazer justiça, provavelmente a


Gisele Bündchen se sentiria um picolé de chuchu

perto de Nana.

A estonteante mulher, que estava distraída


olhando seu iPhone dourado enquanto caminhava
rumo ao interior da fábrica, quase esbarrou em Mel,
que saiu da frente bem na hora, e ergueu os olhos,

mirando a ex-CEO.

— Oh! Me perdoe, moça, eu não te vi! —


exclamou, dando um sorriso simpático e entrando
em seguida, sem esperar resposta de Melanie, que

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apenas piscou por um momento, se perguntando

quem era aquela pessoa, mas entrando em seguida,


logo atrás da beldade.

Ao contrário do que esperava, Mel

acompanhou com o olhar Nana ir não para a


cozinha ou mesmo para o escritório, mas sim para o
lavabo mais próximo da sala, ficar um minuto lá e
sair se abanando.

Notando que a ex-CEO a olhava com ar de

dúvida, Nana bufou e comentou:

— Sabe quando você come algo que não


para no estômago? Vou te falar, se fosse possível,
eu diria que estou grávida... Enfim, avise ao Lili

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que passei aqui, faz esse favor? Volto em meia

horinha, preciso de um remédio para enjoo.

E, alisando a barriga extremamente reta, ela


se foi da fábrica, deixando Melanie totalmente

confusa e, por que não dizer, um pouco enciumada.

Lili?

Ela se referia a Charles?

Quem era aquela mulher estranha e o que


ela era do CEO da Família Miguez?

Uma hora depois, Charles apareceu na


fábrica, bem mais atrasado do que deveria, pois
precisou resolver alguns problemas no escritório.

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Entrou na casa correndo, ofegante, e parou na

cozinha, botando as mãos nos joelhos enquanto


recuperava o fôlego.

Assim que o notaram, todos gritaram

comemorações. A ausência de Mel nem foi


percebida, de tão animados que todos estavam com
o suposto casamento. O CEO teve trabalho para
explicar que, não, não era um pedido de casamento,
mas sim o anúncio de que Melanie fora efetivada

na empresa, deixando de ser contratada para virar


administradora oficial da Família Miguez.

Como não teve opção, acabou contando a


novidade sem a presença de Mel, que estava
enfiada em sua saletinha, tentando não agir como
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uma mulher ciumenta e bolar conclusões absurdas

em sua mente.

Porém, era difícil não pensar besteiras! Lili?


Que intimidade aquela beldade, obviamente

milionária e elegante, tinha com Charles! Era


natural que ela pensasse várias coisas, ainda mais
depois que ele conhecera sua casa, que não era bem
motivo de vergonha, mas seria suficiente para
espantar muitas pessoas.

Era isso então? Ele não gostara de sua


situação, daí voltara para amantes mais...
qualificadas que uma ex-CEO cuja empresa falira
debaixo de seu nariz?

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— Mel? — Charles bateu na porta do

escritório antes de abrir e entrar. — Por que está


aqui, e não na cozinha? Ah, eu me atrasei e você
veio adiantar o trabalho, certo? Desculpa, eu tive...

— Não, tudo bem, não se preocupe — ela


disse, tentando soar calma e profissional. — Está
tudo certo. Estou cuidando de uma papelada aqui,
preciso enviar os pedidos dos fornecedores novos.
Ah, uma moça alta e loira passou aqui tem meia

hora, quarenta minutos. Pediu para te avisar que ia


voltar em breve, só foi comprar remédio para
enjoo.

Charles arregalou os olhos, parecendo


assustado. Para Mel, aquela expressão dizia que
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fora pego no flagra, e aquilo arrasou a

administradora.

— Loira e alta? Tem certeza? Enjoo? O que


Nana veio fazer aqui? — ele se perguntou,

parecendo subitamente ansioso, e saiu da sala sem


dizer mais nada, rumando para o seu escritório
particular, no segundo andar da casa.

Melanie, que já estava insegura, ficou ainda


mais com a pulga atrás da orelha. Ou se sentindo

uma pulga, na verdade, tal e qual a música...

Decidiu se afundar no trabalho para tirar a


cabeça dos ciúmes que borbulhavam em seu peito.
Mais tarde ela poderia perguntar, como adulta,

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quem era aquela modelo de passarela e o que ela

era para Charles.

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Capítulo 13

Vinte minutos depois que decidira apenas

trabalhar, a cabeça de Mel já estava doendo, de


tanto que ela tentava se concentrar. Não era
habitual de sua parte agir daquele jeito, e ela logo
sentiu uma pontada no peito, sabendo muito bem o
que aquilo significava.

Decidiu tirar a questão a limpo de uma vez,

antes que aquilo tudo se convertesse em uma


imensa enxaqueca. Arrumou sua mesa, deixando
tudo organizado, se levantou e caminhou pela
fábrica, subindo as escadas rumo ao segundo andar.

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Ao contrário do térreo, aquele andar ainda

se assemelhava a uma residência, não um local


comercial: seus quartos mantinham a estrutura
básica de antes da reforma, e Mel se perguntou,

distraída, se aquela fora uma casa tão boa de morar


quanto a sua era no passado.

Logo se pegou pensando no pai e não


conseguiu refrear a comparação ao pensar na tal da
Nana: se Charles a traísse do jeito que estava

parecendo, seriam duas grandes apunhaladas em


muito pouco tempo. Seu pai e seu... amante.

Mas, não, não devia ser o que ela


imaginava, ela não queria crer na possibilidade.

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Porém... Eles não eram namorados. Ele

estava livre para se envolver com quem quisesse, e


ela sabia perfeitamente disso, mesmo que doesse.

Chegando na porta do escritório de Charles,

lugar que ela — ou os outros funcionários — nunca


visitavam, ela ergueu a mão para bater na porta,
quando ouviu vozes. Mel se esforçou muito para
não ouvir atrás da porta, mas foi mais forte que ela,
principalmente quando a risada de Nana se fez

presente, a assustando.

— Não seja escandalosa, Natércia —


Charles repreendeu, mas Mel notou diversão em
sua voz.

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— Ora, Lili, não seja um chato de galochas!

Eu não consigo acreditar que você cogitou a


possibilidade de eu estar grávida! Você não sabe
que para um bebê ser fecundado é necessário que

uma abelhinha encontre uma florzinha?

Mel franziu as sobrancelhas, tentando


entender o que ela queria dizer com aquilo.

— A abelha poderia ser uma fertilização in


vitro, concorda?

Novamente, a risada de Nana correu pelos


corredores do segundo andar. Melanie estava
confusa com o desenrolar da conversa.

— E você acha que eu faria uma coisa

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dessas sem te avisar? Por quem me tomas, ó,


cunhado safado?

Cunhado!

Mel quis gritar de felicidade ao ouvir

aquilo, mas se conteve. Nana era cunhada de


Charles, provavelmente casada com um irmão dele!

Estranho, pensou Melanie de repente.


Charles não havia contado a ela que tinha um irmão
homem... Apenas que tinha uma irmã mais velha,

que ela ainda não havia conhecido, uma moça


chamada Lisandra...

— Lili, a minha Lili me mataria se fosse a


primeira a engravidar. Você sabe que é o sonho de

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sua irmã carregar nosso futuro filho na barriga, e eu


jamais vou tirar isso dela!

“Ah! Ela é casada com a irmã dele!”, Mel


concluiu e abriu um sorriso ao ouvir o apelido que

Nana chamava a esposa.

— Pare de me chamar de Lili, ou chame


somente minha irmã assim, sua nojenta. É esquisito
chamar duas pessoas de gêneros diferentes pelo
mesmo apelido.

Nana realmente gostava de rir, ela pensou.


Nem parecia que estava botando os bofes para fora
uma hora antes.

— Mas chega de falar dos meus enjoos

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obviamente causados por intoxicação de doces


Miguez. Vamos falar de você e de sua nova
namorada. É a moça de cabelos e olhos muito
pretos que eu esbarrei mais cedo?

Mel quase colou a orelha na porta, ainda


que se recriminasse por fazer aquilo.

Charles não respondera, então ela concluiu


que provavelmente ele acenara com a cabeça.

— Nossa, Charles, ela é linda! Você já

pegou ela aqui?

— Aqui onde? — ele perguntou.

— Aqui, na fábrica, ué. Já?

— Eu não vou responder isso, você é minha

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cunhada!

— Nem ligo, fale logo, que eu quero contar


pra Lili! Ela está ansiosa para saber. Pegou ela
aqui?

Um breve silêncio se fez presente, e logo


outra risada correu pelas paredes, fazendo Mel dar
um pequeno salto de susto.

— Você não presta, Lili! Sabia que você ia


conseguir isso, essa sua vingancinha sórdida! E se

vingou exatamente do jeito que disse, transando no


meu antigo escritório! Blergh, que nojo, nunca mais
eu como um biscoito da Miguez, eu...

Mel imediatamente parou de ouvir tudo

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depois que a palavra “vingança” penetrou em seus


ouvidos.

Era isso?

Todo o relacionamento deles ao longo de

várias semanas era isso?

Uma vingança?

Sua cabeça rodou por um momento, e ela


precisou se apoiar na parede.

Claro que era, fazia todo o sentido. O fato

de ela nunca ter sido apresentada à família dele, o


fato de ele sempre ficar misterioso quando ela
falava sobre a casa, a reação dele ao conhecer a
antiga sede da Turano Soluções em Transportes...

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Era tudo parte de um plano de vingança

contra seu pai por meio dela!

Ferir o pai por meio da filha!

Uma risada incrédula saiu de sua garganta,

e ela imediatamente tapou a boca e correu escada


abaixo, temendo ter feito barulho suficiente para os
dois ouvirem.

Enquanto rumava ao seu escritório com os


olhos nebulosos de lágrimas, Mel só conseguia

pensar em como os dois foram tolos: ele, por achar


que o pai se importaria com a filha, ela, por ter se
apaixonado por seu chefe e inimigo direto de sua
família.

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Sim, porque a ideia de que “inimigo do meu

inimigo é meu amigo” só funciona em livros e


filmes. Na vida real, se você tem relação com o
inimigo, é fuzilada sem nem ter chance de defesa.

Ainda mais se os laços forem sanguíneos.

Mel arrumou sua bolsa, pegou suas coisas e


deixou um bilhete, avisando que estava se sentindo
mal, mas que faria seu trabalho de casa. Sem olhar
para trás, saiu da fábrica, notando que, mais uma

vez, ela se via sem alternativa.

Não podia largar o emprego, pois acabara


de ser efetivada, e seria péssimo para sua reputação
que descobrissem que sua demissão foi por ter

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dormido com o chefe. Não podia continuar

normalmente no emprego, pois precisava encarar


quase diariamente o homem que amava e que a
traíra. Não podia ir embora e recomeçar do zero,

pois precisava cumprir com o acordo feito com a


empresa, ou seu pai voltaria do limbo, depois de
meses em silêncio, e ela perderia de vez a casa.

Não havia alternativa para Mel, a não ser


torcer para que Charles não prosseguisse em sua

tentativa de vingança e que o tempo curasse o


coração novamente partido.

Enquanto ia para sua casa vazia, ela pensou


em como teria sido melhor que ele a tivesse traído.
Uma escapada teria doído menos que aquela
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apunhalada tão baixa e vil. Tudo fora armado e

arquitetado.

Se vingar de Fernando esquentando sua


cama... Depois, ao ver que ela era competente, já

que os planos de novas linhas de doces gourmet


visando público jovem havia sido um sucesso, a
contratar para ser sua empregada e provavelmente
esfregar em sua cara quem mandava ali... Era
demais para Melanie.

Juntando os cacos de seu coração, ela não


viu saída a não ser aceitar sua condição de traída e
torcer para que a dor passasse em algum dia.

Procurar outro emprego também seria uma

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excelente ideia, e ela jurou que, quando

conseguisse parar de chorar, o faria de algum


modo.

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Capítulo 14

Charles Miguez, o presidente da Família

Miguez, nunca vira seu filho daquele jeito, tão


aéreo, e sabia exatamente o motivo: a filha de seu
desafeto, o maldito Fernando.

— Maldita a hora em que aquele


desgraçado entrou em minha vida... — murmurou
para si mesmo na mesa de jantar de seu duplex no

Leblon.

Sua esposa desviou o olhar do filho e o


fixou no marido, perguntando silenciosamente o
que ele havia dito.

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— Aquele escroto do Fernando... Fez merda

comigo, fez merda com minha empresa e agora fez


merda com minha família — disse e apontou para
Charles, que estava distraído cortando um bife no

prato.

Ao ouvir o nome do pai de sua ex-quase-


namorada, o jovem CEO ergueu a cabeça e olhou
para os pais. Sabia que estava sendo uma péssima
companhia naquele jantar, mas não conseguia

evitar. Sua mente ia e voltava de Mel a cada


segundo em que não estava concentrado no
trabalho.

Tudo em que conseguia pensar era em seu


sorriso, seus cabelos perfumados e macios, seu
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corpo quente colado ao seu, sua risada tímida, seu

tom de voz profissional... E imediatamente o


desânimo o socava com tudo ao lembrar que ela
estava tratando-o com frieza havia quase um mês, e

ele nada conseguia fazer para quebrar aquela


muralha de gelo erguida por Mel.

— Desculpa, do que vocês estão falando?

Sua mãe deixou os ombros caírem, em um


gesto de chateação, e disse:

— Seu pai estava falando de Fernando e de


como ele tem o poder de interferir em nossas vidas,
meu amor.

Charles limpou a boca com um guardanapo

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e deixou os talheres de lado, ouvindo atentamente o


que os pais diziam.

— Como assim?

— Ora! — o pai bufou, passando a mão nos

cabelos brancos e penteados para trás. — Primeiro


ele tenta nos roubar. Depois, ele me acusa de ser
conivente com suas tramoias. Não satisfeito, ele me
agride e me faz perder um dente. E eu realmente
gostava de ter todos os meus dentes, não esse falso

horroroso aqui — apontou dramaticamente para sua


boca. Charles teria rido, se não estivesse tão
desanimado. — Por último, ele ainda manda aquela
piranhazinha te seduzir para conseguir mais...

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— Ei...! — o CEO tentou defender Mel,

mas, para surpresa dos homens presentes no jantar


em família, foi a matriarca da família Miguez quem
se pronunciou em voz alta:

— Não diga isso de quem você não


conhece, Charles! — exclamou, silenciando os dois
homens, Charles-pai e Charles-filho. — Melanie é
uma jovem encantadora, que nada tem a ver com o
pai. Foi tão vítima daquele safado quanto qualquer

um de nós. Mais, até, levando em conta que ele


conseguiu arruinar todo o patrimônio.

Perplexo, Charles Júnior abriu a boca e


perguntou:

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— Como a senhora...?

Ela estalou os lábios e repetiu o gesto do


marido, passando a mão nos cabelos, como que
para se certificar que estivessem bem presos em seu

coque elegante costumeiro.

— As pessoas falam muito, principalmente


as mulheres da alta sociedade, meus queridos. Por
sorte, eu ando apenas com as pessoas de boa índole,
e todas foram unânimes ao dizer que essa jovem é

uma pessoa honesta e competente. Não pode ser


culpada pelos erros do pai. Seria o mesmo que
Charles chutar um cachorro e Júnior levar a fama
de malvado.

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O pai fez cara de ultrajado e levou a mão ao

peito de forma cômica.

— Eu jamais chutaria um cachorro, sua


desalmada.

Revirando os olhos, Eliane bebeu um gole


do vinho e prosseguiu:

— Você é muito literal, querido. Mas


entendeu bem o que eu quis dizer, não entendeu?
Não falei besteiras sobre o que não sabe.

— Ah, e suas amigas fofoqueiras agora são


detetives particulares para saberem tudo sobre o
caráter de alguém? Você deveria saber, minha
querida, que as pessoas fingem muito bem!

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Sem perder a pose elegante, Eliane encarou

o marido e, dando um pequeno sorriso disse:

— Minhas amigas fofoqueiras não são


detetives, mas Alberto, o homem que contratei para

checar o histórico de Melanie, sim. Peço licença


por um momento, sim?

Pai e filho ficaram de queixo caído


enquanto Eliane caminhava tranquilamente até um
aparador próximo à porta da cozinha de seu

luxuoso duplex, pegando na gaveta uma delicada


pasta e levando até os dois homens estupefatos.

— Aí diz tudo que precisei saber sobre essa


mocinha. Ela realmente é uma jovem honrada, que

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tentou de tudo para salvar a empresa fundada pelos

pais, mas que não teve muita opção a não ser


decretar a falência, mesmo que boa parte da dívida
não a afetasse diretamente. Inclusive, o motivo de

ela ter ficado praticamente sem nada foi porque fez


questão de pagar o FGTS de cada um dos
funcionários, mesmo que não houvesse necessidade
levando em conta a falência.

Sem entregar a pasta para Charles ou para o

filho, Eliane deu uma olhada rápida em alguns


papéis e prosseguiu:

— Aparentemente, a ideia de se oferecer


para trabalhar conosco veio de Mara Lima, uma
cabeleireira amiga de infância de Melanie.
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— Como esse detetive poderia saber disso?

— Charles perguntou, confuso.

A mãe olhou para ele como se estivesse


conversando com um bebezinho.

— Ora, meu querido, fazendo perguntas


para as pessoas certas. Inclusive, ele descobriu,
com essa jovem cabeleireira, que tem uma leve
tendência a ter língua solta perto de homens
bonitos, o motivo pela qual Melanie rompeu com

você, meu filho.

Charles arregalou os olhos ao ouvir aquela


afirmação. Não somente por querer muito saber o
que havia acontecido, já que estava no escuro por

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todo aquele tempo, mas também por ficar surpreso

de saber que sua mãe tinha conhecimento de algo.

Mas aí lembrou imediatamente: Pérola. Sua


madrinha era melhor amiga de sua mãe, é óbvio

que ela contara. Porém, como a mãe ficou em


silêncio, ele supôs que não conhecia nada sobre seu
relacionamento com a funcionária.

A mãe fechou a pasta e a colocou de lado na


mesa, dando um tapinha na mão do marido quando

ele tentou pegá-la.

— O que o detetive particular não me


informou, meu filho, mas eu logo compreendi,
foram seus motivos para aceitar aquele acordo da

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jovem. Sim, ele se mostrou um excelente e

lucrativo acordo, já que os métodos de


administração dela são impecáveis e suas ideias são
brilhantes. Ela oferece um frescor moderno, com

essa história de levar a Família Miguez até locais


independentes e... como se chama isso? Hips...?

— Hipster, mãe — ele explicou, ansioso.

— Isso! Aqueles jovens de barba longa,


camisa de lenhador e vestidos de brechó! Então, a

conexão que ela fez de nossa empresa com essa


geração nova foi um espetáculo. Os doces macios
foram um sucesso, triplicamos o faturamento,
contratamos mais pessoas, enfim, você sabe mais
do que eu tudo o que ela fez. Mesmo coisas
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pequenas, como os biscoitos de unicórnio, algo tão

simples, porém inovador, casaram perfeitamente


com uma tendência de design que eu mesma
desconhecia. Quem diria que cavalos com chifres

na testa fariam tanto sucesso de repente, não?

Charles assentiu com a cabeça. Era verdade,


a moda anterior entre o público jovem eram
desenhos animados específicos, não personagens
mitológicos genéricos.

— Sim, ela é brilhante, daria uma excelente


CEO. Mas não tinha como você saber
perfeitamente que isso não seria uma furada, havia?
Você viu algo nela, não viu, Charles? Algo além de
intuição profissional e análise do dossiê que ela
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mandou, certo?

Ele hesitou por um momento, mas assentiu


com a cabeça.

— Fico feliz que você admita, meu filho,

que não foi somente o lado profissional que te fez


contratá-la. Você está apaixonado por essa moça?

O pai desviou o olhar e mirou o filho,


impressionado. Ele não fazia ideia do que acontecia
entre Mel e Charles, achava que se tratava somente

de sexo casual.

— Sim, mãe. Totalmente.

A mãe deu um sorriso satisfeito e explicou:

— Alberto conseguiu obter outra

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informação: Mel está chateada por causa de algum

tipo de vingança que ela ouviu você falar com


minha nora. Pesquisando mais a fundo, ele
descobriu que você... Hm... — a mãe limpou a

garganta, um pouco sem graça, e continuou. — Fez


algum tipo de promessa de que faria... amor com
alguém na fábrica, do mesmo jeito que... Oh, meu
Deus, eu realmente não criei vocês dois para
agirem assim... Enfim, ela descobriu que você
flagrou minha filha e minha nora em uma situação

constrangedora na fábrica e jurou que faria o


mesmo um dia.

Charles cobriu o rosto com as mãos,


gemendo baixinho.
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— Não foi bem assim, aquilo foi uma

brincadeira só... Sim, eu peguei as duas um dia, na


época em que o escritório era na casa da fábrica, e
brinquei, dias depois, que um dia faria o mesmo,

para ficarmos quites. Na época, Lisandra trabalhava


conosco ainda, eu jurei que faria aquilo na sala
dela, já que ela... Bom... fez na minha.

Em uma competição de quem estava mais


desconfortável com aquele assunto, definitivamente

o presidente da Família Miguez ganhava em


disparada: até suas orelhas estavam vermelhas ao
ouvir aquele monte de informação desnecessária
sobre a vida sexual de seus dois filhos.

— Aham... — ele limpou a garganta,


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tentando chamar a atenção de todos. — E o que

isso tem a ver com a filha do Fernando?

— Simples, querido. Ela sem querer ouviu


uma conversa de nossos filhos em que eles faziam

piadas sobre essa... vingança. Obviamente ela


compreendeu errado e concluiu que o
relacionamento de Charles com ela era um jeito
doentio de nosso filho se vingar de Fernando.

Charles levantou da mesa tão abruptamente,

que derrubou uma cadeira, assustando seus pais.

— Droga, não acredito que é isso! Eu sou


um idiota, é lógico que era isso! Nós ouvimos um
barulho fora da sala naquele dia, mas achamos que

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fosse impressão nossa, ou acústica... Desculpa, pai,

mãe, eu preciso ir. Preciso consertar as coisas.

Novamente, pensou, mas não disse.

Sem esperar resposta, ele saiu correndo da

casa dos pais, pegou o carro e dirigiu


enlouquecidamente, bolando mil planos na cabeça.

Olhando o arroubo de pressa do filho,


Charles mirou a esposa, ainda meio surpreso com
tudo.

— Você é impossível, não? Não satisfeita


em juntar nossa filha com a esposa, agora quer
juntar nosso filho com a funcionária? Acha isso
produtivo de algum modo?

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Apesar das palavras incrédulas, havia uma

nota de orgulho na voz do patriarca da Família


Miguez.

Sem perder sua pose, Eliane bebeu mais um

gole de seu vinho e decretou:

— Ora, claro. A jovem é um primor de


inteligência. Inclusive, desejo que Charles ocupe
seu lugar e que dê o cargo de CEO a ela. Os dois no
comando da empresa será uma lufada de frescor

para a Família Miguez.

Charles Sênior arregalou os olhos, mas


ponderou por um momento. Enquanto isso, sua
esposa prosseguiu:

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— Estamos velhos, querido. Está na hora de

deixarmos a próxima geração cuidar dos negócios.


Vamos viajar por toda a Europa, provar outros
doces, fazer outras coisas além de só pensar em

biscoitos.

Ele franziu os olhos antes de comentar:

— Você é ardilosa, mulher... Confesse que,


além dessa sua ideia, que é brilhante, não vou
mentir, você também tem outros planos aí...

Planos... maternais.

Eliane sorriu diante da constatação do


marido.

— Não é culpa minha se nossos filhos são

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lerdos no quesito romance. Está passando da hora


de eu conhecer meus netos, e como nossa nora
ainda não decidiu engravidar, então eu aposto
minhas fichas em Charles. Além do mais, já viu

que olhos lindos a Melanie tem?

E sem deixar de sorrir, entregou o dossiê


para o marido, que abriu e viu uma foto de Melanie
abraçada a Charles Júnior na rua da fábrica. O
sorriso de ambos era tão iluminado e verdadeiro,

que Charles deu o braço a torcer: era realmente


amor que havia entre os dois.

Porém, sem admitir seu erro de julgamento,


ele somente murmurou, rabugento:

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— Espero que nosso neto puxe os olhos

dela, então. Seria péssimo se herdasse meus olhos


miúdos ou os seus de gata felina.

Sem dizer mais nada, Eliane sorriu e bebeu

o restante de seu vinho, totalmente satisfeita.

Tudo daria certo, afinal. Valera a pena


contratar Alberto.

Ela fez um pequeno lembrete mental de


agradecer à Cinthia Grimaldi, CEO da ML

Agências e Produções. A indicação que a filha de


sua amiga de anos, Martina, fizera do detetive fora
excelente.

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Capítulo 15

— Comodato, meu amigo — André

comentou, olhando para uma turista ruiva de olhos


claros que almoçava sozinha no pub preferido dos
dois amigos.

— Perdão? — Charles perguntou assim que


sentou ao seu lado na mesa, munido de duas
garrafas de cerveja.

— Comodato. O que você me perguntou


sobre a casa de sua namoradinha. Não há como
retirar um filho de uma casa que pertença aos seus
pais, principalmente se ele não possuir imóveis. É

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contra a lei você deixar um filho sem lar assim.

— E isso vale no caso de Melanie?

— Sim, senhor. Olha, aquela ruiva tem


olhos verdes! Sabe como é uma combinação rara,

cabelos vermelhos com olhos dessa cor? — André


olhou com ares de predador para a ruiva, que nem
prestou atenção nele, apenas no jogo que passava
na televisão.

— André, foca aqui, por favor — Charles

estalou os dedos na frente do rosto do advogado,


que olhou para ele a contragosto. — Isso significa
que ela está segura em relação àquela casa?

— Yep. Mais alguma coisa que você

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queira?

Charles mal sentou, já se levantou,


exclamando antes de sair correndo:

— Que você pegue o caso dela!

— O quê? Jamais! — André reclamou,


possesso. Não simpatizava com ninguém da família
de Fernando, e ainda estava chateado por ter
perdido o processo do pai de Charles, já que fazia
parte do acordo da Família Miguez com Melanie.

Charles olhou por cima do ombro, surpreso,


deu meia volta e se aproximou do amigo, dizendo
de modo cortante:

— Ou você pega, ou está demitido. A

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escolha é sua, meu amigo. Até mais!

E saiu alegremente pela porta do pub,


deixando André atônito, pensando em como seu
amigo havia mudado. Tudo mudou, na verdade. A

empresa estava faturando mais, Charles estava mais


feliz e mais decidido, os funcionários estavam
contentes...

Tudo isso foi só aquela garota?

André ainda resmungava, insatisfeito,

quando a tal da ruiva de olhos verdes se aproximou,


flertando com ele, que não reparou e apenas disse:

— Não quero nada, obrigado! — disse num


tom seco sem levantar os olhos do copo.

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A jovem arregalou os olhos e se retirou,

vermelha de vergonha. Foi aí que André notou a


burrada que fizera. Ele achara que se tratara de uma
garçonete, não da menina que tanto cobiçava. Mas

mesmo se fosse uma empregada do pub, isso não


daria a ele o direito de ser desnecessariamente rude,
certo?

Ele realmente não entendia nada de


mulheres, isso era um fato consumado.

Charles chegou na casa no Méier uma hora


depois. Tocou a campainha incessantemente e,
assim que Mel surgiu na porta, gritou:

— Abra o portão!
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Assustada, Melanie obedeceu e deixou que

Charles estacionasse o carro na ampla garagem de


seu terreno, vindo atrás após trancar tudo.

— Charles? O que está...? O que veio

fazer...? — começou a perguntar, mas estava


atônita demais para fazer sentido.

Seu coração estava frenético, suas mãos um


pouco trêmulas, e os olhos escuros estavam muito
arregalados. Ela, novamente, se sentia uma

jovenzinha boba e inexperiente, nervosa porque


sua... como os adolescentes chamavam? Crush?
Sua crush estava ali, em sua casa.

Ela passara semanas de inferno tentando se

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manter longe dele, tentando ignorá-lo, solicitando

que ele mantivesse o contato apenas profissional na


fábrica e bloqueando-o em todos os modos de
comunicação possíveis fora do ambiente de

trabalho.

Sentia saudades dele, de sua risada, de seu


lado profissional, de seus beijos, suas carícias, seu
corpo. Sentia saudades de tudo que o envolvia, até
de seu lado rabugento. Sem sombra de dúvidas,

Mel o amava, mas a dor em seu coração era maior


do que qualquer tipo de possibilidade de perdão ou
conversa.

— Mel, eu... — ele exclamou, um pouco


ofegante, como se não tivesse vindo de carro, mas
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sim de bicicleta. — Eu falei com meu advogado, é

sobre seu pai...

— O que tem eu? — uma voz masculina


perguntou, causando um sobressalto tanto em

Charles quanto em Mel.

Os olhos do CEO se arregalaram ao ver


aquele homem detestável ali, mas em nenhum
momento ele olhou para Mel com ares de acusação,
coisa que ela esperava. Ficou um pouco mais feliz

ao vê-lo chocado, não com raiva dela, mas aí


lembrou que ele era um cretino sórdido e sacudiu
brevemente a cabeça, tentando afastar a pontinha
de esperança que brotou dentro de si.

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— O que faz aqui, Fernando? — perguntou

Charles, tentando não deixar sua raiva fluir.

— Eu pergunto o mesmo. A casa é minha


— respondeu com arrogância, e Charles agradeceu

aos céus por Melanie ter puxado a mãe: o rosto


daquele homem lhe causava um desagrado sem
comparação, e ele odiaria ver traços da mulher que
amava naquele traste.

— Pai, sossega teu facho? — Melanie

reclamou, cruzando os braços e olhando com


desprezo para Fernando, que ficou chocado com a
atitude da filha. — Sua é uma ova, a casa é minha
também, já que você e mamãe compraram juntos e
eu sou herdeira dela.
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— É, gatinha, mas é teu nome que está na

escritura? Eu acho que não. Então me respeita, que


eu te jogo pra fora daqui assim, ó — disse e estalou
os dedos, fazendo Charles sentir desejo de estalar

uma parte daquele homem também.

Seu pescoço, no caso.

— Eu quero ver você tentar, Fernando, seu


pedaço de merda sem credibilidade alguma —
Melanie disse com ferocidade, e novamente

Fernando se espantou. Sua filha era muito


controlada, muito elegante, quase submissa. Aquela
nova Melanie estava o assustando naqueles vinte
minutos desde que chegara em sua própria casa e
encontrara tudo vazio.
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Sem nem pestanejar, ele ergueu a mão para

bater na filha, mas Charles foi mais rápido, entrou


na frente e o enfrentou, torcendo seu braço atrás do
pulso.

— Maria da Penha, já ouviu falar, seu


calhorda? Encoste um dedo nela e eu garantirei a
você uma passagem só de ida para a cadeia.

— Há, no nosso país? Ledo engano achar


que vai... — Charles nem deixou que ele

respondesse, apenas o empurrou com tudo no chão.


Fernando quase voou longe, se estatelando na
grama aparada.

Dando uma olhada para Mel, ele ficou

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aliviado ao ver que ela nem ao menos se mexera.

Continuava olhando para o pai com desprezo,


parecendo assustada pela tentativa de agressão.

— Pai, vai embora.

Tentando se levantar, ele começou a gritar


coisas desconexas:

— A casa é minha, sua bastardinha! Minha!

— Vai embora agora, ou eu juro por Deus


que cancelo o acordo com Charles e deixo ele levar

tudo o que sobrou! Eu não vou mais tolerar suas


burradas, nem vou consertar suas cagadas! Ou vai
embora, ou eu juro que forneço todo o material
suficiente para te colocar na cadeia por fraude e

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todos os outros crimes que você cometeu!

Fernando piscou, atônito ao ver aquela


postura nova, se levantou, as mãos tremendo de
ódio, e ameaçou:

— E em que lugar você vai morar, fedelha?

— Isso não é da sua conta, é? — Charles


disse, se mantendo ao lado de Melanie, que
discretamente estendeu a mão para o lado,
buscando conforto na mão do ex-amante. — Ao

contrário de você, ela pode trabalhar e conquistar


um novo lar, sem precisar pisar em ninguém.
Aliás...

Charles se virou de frente para Melanie,

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ainda segurando em sua mão, e disse:

— Eu estou cancelando nosso acordo, Mel,


e demitindo você. Calma, espera. Você será
readmitida com um salário justo para sua função, e

nosso acordo de retirar a queixa sobre seu pai está


findado.

— Mas... — ela tentou argumentar,


apertando a mão quente de Charles de forma
nervosa.

— Não se preocupe. Ele não poderá vender


sua casa. Fernando, já ouviu falar em comodato?

O jovem casal olhou na direção do velho,


que arregalou os olhos, assombrado, mas tentou

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disfarçar:

— Isso não existe em nosso país, eu posso


tirar ela daqui a qualquer minuto e...

— Não, não pode. Não sem advogado, sem

dinheiro e, claro, sem ter onde morar, não é


mesmo? — Charles disse com ironia. — Afinal, se
você vender essa casa para pagar os custos do
processo de meu pai, em que lugar vai morar
depois que ficar totalmente zerado?

Fernando hesitou, e sua pálpebra começou a


se mover de modo involuntário. Ele estava
totalmente sem alternativa e sabia disso.

— O que você quer, Miguez?

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Soltando brevemente a mão de Mel, ele

virou o corpo na direção do homem detestável e


disse com a voz calculadamente gelada:

— Você vai passar a escritura da casa para a

sua filha e vai sumir da vida dela. Se fizer este


pequeno favor, eu e meu pai não te processaremos
mais e vida que segue.

— Eu não...!

— Não é uma proposta. Meu advogado vai

entrar em contato com você em breve. Faça isso, ou


eu conseguirei uma ordem de restrição, e você não
poderá se aproximar de Melanie mais. Some isso ao
comodato, e você fica sem casa e com um processo

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caro nas costas.

E sem esperar resposta do ex-presidente da


Turano Soluções em Transporte, Charles se virou,
novamente pegando na mão de Melanie, que nem

hesitou e o acompanhou para dentro da casa,


trancando a porta atrás de si, deixando um possesso
— e falido — homem em seu quintal.

Assim que se certificaram que ele fora


embora, os dois subiram até o quarto de Melanie,

que sentou na cama e respirou fundo várias vezes,


deixando o nervosismo fluir por um momento.

Charles se aproximou e ajoelhou em frente


a ela, dando apoio silencioso. Quando se sentiu

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mais calma, ela notou a posição do CEO, no chão, e

pediu que ele se levantasse dali. Como ele não


obedeceu, ela ajoelhou junto, o encarando nos
olhos.

— Obrigada.

Ele a puxou pela nuca, abraçando o corpo


trêmulo da jovem contra o seu, e pediu:

— Me perdoe, Mel. Sobre o que você ouviu


naquele dia. Não foi... Não é o que parece.

Melanie o abraçou pela cintura, aspirando


profundamente, sentindo seu perfume familiar. Sua
cabeça estava uma confusão, mas ela sentia
verdade em naquelas palavras antes mesmo que ele

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explicasse. Principalmente porque, depois do que


acontecera momentos antes, ela realmente
acreditava que tudo não se passou de um grande
mal-entendido.

Charles a afastou um pouco, apenas para


olhar em seus olhos, e explicou:

— O que você ouviu no mês passado,


naquele dia, foi uma brincadeira interna. Um dia,
quando minha irmã ainda trabalhava conosco na

fábrica, ela resolveu que minha mesa no escritório


seria um excelente lugar para ela e a então
namorada, a Natércia, que você conheceu aquele
dia, fazerem... Bom, você imagina, certo? Eu
flagrei as duas e depois que consegui apagar a
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imagem da cabeça, jurei vingança, mas de

brincadeira. O quarto onde nós dois, você e eu,


fizemos amor aquele dia, no segundo andar da
fábrica, foi escritório dela no passado. Por isso eu

me vinguei, compreende? Foi só uma...

Mel levou os dedos aos lábios de Charles, o


calando.

— É errado ou precipitado se eu disser que


amo você agora?

Sentindo um sorriso abrindo no rosto, ele


respondeu:

— Se você não se incomodar se eu disser o


mesmo de volta, eu digo que não é errado nem

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precipitado.

E nada mais foi dito após aquilo. Charles


capturou os lábios de Mel, que se entregou
totalmente ao beijo de reconciliação, sentindo o

coração explodir de felicidade, alívio e, claro e


principalmente, amor.

Amor é o que mais sobrava na Família


Miguez. Melanie já sabia disso, mas naquela tarde
em que seus problemas familiares e profissionais

foram resolvidos, ela teve mais provas do óbvio.

Afinal de contas, em breve ela também seria


da família.

Oficialmente.

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Ela tinha certeza disso.

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Epílogo

— Bom dia, Família! — Melanie exclamou,

entrando na fábrica com um imenso sorriso no


rosto. Parte dele era feito de felicidade, a outra, de
expectativa.

Todos os funcionários da fábrica gritaram


em resposta da cozinha, e ela caminhou até o local
que tanto adorava frequentar.

Um grito coletivo de boas-vindas foi ouvido


até da casa do vizinho dono do gato Faísca. Mel
tapou as orelhas com as mãos, rindo, e quase
revirou os olhos quando um coro imenso de

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parabéns começou a ser cantado.

Sem opção a não ser deixar que a


comemoração de seu aniversário, a segunda desde
que começara a trabalhar na Família Miguez,

porém a primeira como CEO oficial da empresa,


Mel apenas se deixou levar pela alegria de todos
naquela data tão importante.

Amanda, Ryan, Pérola, Juliana e todos os


outros funcionários, dos antigos aos novos,

contratados para cuidar das diversas linhas de


doces, bolos e biscoitos da marca, trouxeram um
bolo imenso da geladeira, deixando em cima da
mesa onde, poucos minutos antes, Pérola misturava
ingredientes, devidamente deixados de lado.
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— Ora, novamente desperdiçando material,

madrinha? — Charles ralhou de brincadeira assim


que o coro de parabéns cessou e todos foram
abraçar a aniversariante. — Eu vou ao banheiro por

um minuto, e quando volto, já estamos gastando


recursos?

Pérola, que havia deixado uma marca


imensa de batom rosa na bochecha de Melanie, fez
um gesto com a mão, dispensando o comentário do

afilhado, e retrucou:

— Não seja sovina como seu pai, Júnior, ou


colocaremos laxante nos seus bolos! Anda, pare de
ser cricri e venha comemorar o aniversário de sua
amada!
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Mel olhou para ele, rindo abertamente da

cena, e o envolveu pelo pescoço quando Charles


cobriu o espaço entre os dois, pegou em sua cintura
e se inclinou para um beijo de boas-vindas.

Naquele dia em especial, Charles já estava


na fábrica antes mesmo de abrir, tal e qual o dia em
que Mel fora efetivada e queria contar a novidade.
A diferença é que havia aí não somente um anúncio
a fazer, mas também um pedido.

Um pedido muito especial e esperado por


todos.

— Mel, corta seu bolo! — Pérola pediu, já


enxugando as lágrimas.

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Charles, vendo a madrinha dando bandeira,

levou a mão até a testa, fechando os olhos por um


momento enquanto ouvia as risadas de todos os
presentes, inclusive de Melanie, que, é claro, já

havia entendido tudo.

Sem hesitar, ela parou em frente à mesa,


passou a mão em seu terninho, alisando o tecido,
ligeiramente nervosa, e fez uma pergunta silenciosa
com o olhar para Pérola, que apenas disse:

— Corte uma fatia do lado esquerdo,


querida.

Emocionada e um pouquinho surpresa pela


sintonia incrível presente no ambiente, ela assoprou

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rapidamente a velinha cuja chama tremulava

delicadamente, pegou uma espátula e com calma


cortou uma fatia do lindo bolo com recheio de
creme e cobertura de chocolate. Assim que a

espátula bateu em algo que ofereceu resistência, ela


abriu um sorriso imenso, e todos gritaram.

Sentindo os olhos enchendo de lágrimas,


que Charles imaginou serem de emoção por um
motivo específico, ela tirou uma fatia e colocou em

um prato, revelando, no centro do bolo, em um


espaço devidamente cavado por Pérola, que
caprichou na confecção daquela iguaria, uma
caixinha de veludo muito bem embrulhada em
papel-manteiga. Retirando o objeto, ela
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desembrulhou e abriu a caixa, vendo, é claro, um


anel de noivado com um diamante solitário no
meio.

Quando olhou para o lado, Charles pegou a

caixinha de sua mão, se ajoelhou e pediu:

— Mel, você é a luz da minha vida, a


pessoa que eu mais amo e que mais colore meus
dias. Sem você, nem os biscoitos da Pérola seriam
doces.

— Ei — a madrinha começou a reclamar,


mas alguém pigarreou, então imediatamente Pérola
se calou e voltou a enxugar as lágrimas de
felicidade.

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Aguardando as risadas cessarem, Charles

prosseguiu:

— Eu fui um ogro com você quando nos


conhecemos, tratei você como nunca havia tratado

um funcionário, e o que você fez? Sozinha,


aguentou tudo, me colocou em meu lugar quando
eu merecia e, principalmente, cresceu minha
empresa, mesmo a Família Miguez sendo a
responsável por diversos processo em cima da

Turano.

— Processos totalmente justificáveis — ela


corrigiu, mas deu um sorriso travesso e pediu que
ele continuasse.

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— Além de provar sua inocência e tentar

resolver os problemas causados por aquele calhorda


do Fernando, você ainda correu atrás de melhorias
para a Miguez, conquistou meus amigos e

funcionários, entrou para a família de repente e


ainda fez com que eu me apaixonasse por você,
sem nem me dar conta de quando exatamente isso
aconteceu.

Mel enxugou uma lágrima solitária e riu.

— Melanie, você é uma mulher vibrante,


iluminada, incrível, e eu amo tudo em você. Menos
aqueles unicórnios de acrílico que brilham no
escuro e ficam nos encarando quando estamos
sozinhos em seu quarto.
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Algumas pessoas assoviaram, fazendo com

que o casal desse uma risada, mesmo sem desviar


os olhares um do outro.

— Seja minha esposa, Mel, e me faça o

homem mais feliz do mundo. Eu prometo que


dedicarei todos os dias da minha vida fazendo a
mesma coisa.

Todos estavam em silêncio, aguardando,


pois já sabiam muito bem o que aconteceria em

seguida, mas queriam ver a reação de Charles.

— Sim, é óbvio que sim! — Mel exclamou,


a voz repleta de emoção, e seu agora noivo se
levantou e a abraçou, beijando seus lábios com todo

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o amor do planeta.

Todos gritaram em comemoração numa


algazarra imensa, até que Amanda, impaciente,
assoviou com os dedos, silenciando a cozinha e

todos os mais de vinte funcionários do local.

— Tá lindo, gente, mas acho que o patrão


tem que cortar o bolo de aniversário da Melanie!

Charles franziu as sobrancelhas, ainda com


Mel nos braços, e procurou saber do que se tratava,

olhando ao redor, mas ninguém disse nada. Nem


mesmo sua noiva. Soltando a CEO da família
Miguez por um momento, ele se aproximou da
mesa, confuso, e olhou para a madrinha.

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— Corte uma fatia do lado direito, querido.

Pegando a espátula, ele fez o que Pérola


mandara e cortou, revelando, para a sua surpresa,
que a metade da direita era totalmente diferente da

esquerda: enquanto o lado que Mel havia cortado


tinha a massa clara com recheio de creme, como ele
havia solicitado, o outro lado era um bolo xadrez,
com quadrados rosa e azuis, cortado ao meio e
unido com o recheio de creme da outra metade.

Ainda sem entender, ele apontou para o


bolo e disse, olhando para Melanie, que apenas
sorria, as duas mãos unidas na frente do rosto,
como se mal pudesse conter a notícia:

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— Esse bolo do filho do Frankenstein tem

alguma razão? Por que essa parte do bolo está rosa


e azul?

Um alfinete poderia ser escutado se caísse

no piso de cerâmica o da fábrica.

Sem apressar nada, Mel abriu mais ainda o


sorriso, levou as mãos ao ventre e disse:

— Porque eu ainda não sei se é menino ou


menina, então Pérola resolveu o dilema fazendo o

bolo de ambas as cores.

Novamente, todos foram à loucura: palmas,


gritos, assovios, abraços. Porém Charles não
enxergava mais nada, somente a mulher de sua vida

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ali, radiante, com os olhos úmidos de alegria, o


sorriso aberto enquanto caminhava em sua direção,
pegava seu rosto entre as mãos e o beijava.

Nada mais importava, nada mais o

incomodava. Em menos de cinco minutos ele não


somente noivara da mulher mais incrível, forte,
guerreira, maravilhosa e linda de sua vida, como
descobrira que ela estava grávida de um filho seu.

Não havia nada naquele momento que

pudesse distrai-lo. Ele nem percebeu quando sua


irmã e sua cunhada chegaram para festa, ou quando
os pais apareceram. Charles só tinha olhos para
Melanie, sua noiva, sua amada, sua futura esposa,
mãe de seu filho e de qualquer outro bebê que eles
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pudessem ter no futuro.

Sua mente, entretanto, viajava para um


lugar em especial: a casa de Mel, que se
transformaria no lar da nova família, com tudo que

uma casa familiar tem direito: um jardim bem-


cuidado, um balanço na árvore, cachorros,
brinquedos espalhados por todo o lugar, a
churrasqueira acesa em datas comemorativas,
reunindo toda a família ali, e, acima de tudo, um

quarto em especial... Repleto de unicórnios e luzes


e cores... com um bercinho adornado por um lindo
móbile, que Mel guardava desde sempre,
lembrança de sua querida e finada mãe.

Sim, aquela criança seria a mais amada do


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mundo, com a família mais louca, forte, colorida e

doce do mundo. Exatamente como aqueles


unicórnios que enfeitavam a casa no Méier, agora
repleta de amor e vida.

Que todos seriam felizes, Charles não tinha


dúvida.

Era um homem de sorte, em todos os


aspectos.

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Agradecimentos

Agradeço a todas as pessoas de sempre:

Arethão, por ser linda.

Carolaine, por também ser linda.

Minhas lindezas Lene, Dani, Renata e


Aninha, pela força de sempre.

Meu marido, Raphael, por ter revisado esse

livro e por ser o Raphael.

Muito obrigada.

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Sobre a autora

Caraciolo não é um pseudônimo. É somente

um dos nomes de Clara, que decidiu escrever


romances como os que enchiam sua adolescência
de risadas e suspiros: os romances de banca de
jornal. Um desafio e tanto para quem tem dedo
solto e acaba escrevendo demais da conta, quando
pode!

Você pode encontrar outras obras dela na


Amazon ou na página e no site Capitu Já Leu.

E pode rir de sua tentativa de falar de si


mesma na terceira pessoa.

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Ela está rindo muito, por sinal...

:D

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SEM VOLTA

Carol Moura

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Sinopse
Quando as coisas ficaram difíceis para
Linda Hatman, a única coisa que sua mente

perturbada pensou em fazer foi fugir para Vegas e


realizar os 10 itens de uma lista rebelde. Dona de
uma rede de hotéis avaliada em alguns milhões de
dólares, Linda foi preparada desde cedo para tocar
os negócios da família e jamais meter os pés pelas
mão. Porém, quando ela pede para um sedutor

barman em um hotel cassino lhe ajudar com os


itens de sua lista de merda, como ela costuma
chamar, a sorte é lançada. No lixo, na opinião da
mulher.

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Na manhã seguinte da sua noite de

aventura, com uma ressaca infernal, ela não


somente descobre que alguns itens da lista foram
realizados, como também os dois últimos foram

completos e muito bem consumados. Linda casou e


transou com um estranho. Agora ela só precisa
cancelar o casamento, certo?
Errado.
É dia dos namorados e esse é o único dia
em que nenhum cartório tem autorização para tal

procedimento. Uma lei implantada pelo governador


romântico do Estado de Nevada.
Linda então precisa passar mais um dia com
o seu parceiro de crime para conseguir cancelar a

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burrada que fizeram e cada um seguir o seu

caminho. Certo?
Talvez sim! Talvez não!

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Para todos os leitores do Botando Banca.


Vocês são maravilhosos!

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Prólogo
A lista

Seu olhar mortificado só me deixava mais


revoltada.
Ele não tinha o direito de estar se sentindo
mal. Era ele quem estava fazendo aquilo comigo.
Em seus olhos, eu podia ver que ele não se sentia
bem com a situação, mas pouco me importava. A

culpa era dele, afinal de contas.


Como se atrevia a me olhar com tanta...
compaixão?
Olhei para os papéis espalhados pela mesa e

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me senti ainda mais indignada, revoltada para ser


mais precisa. Não havia espaço para qualquer outro
sentimento dentro de mim naquele momento. E eu
seguraria a indignação e revolta o quanto pudesse,

pois, no momento em que eu deixasse a mágoa


tomar conta de mim, tudo desabaria. Tudo.
O que eu fiz para merecer aquilo? Por que
ele não se importou mais cedo?
Quando questionei, ele desdenhou de
minhas preocupações. Disse que não era nada. E

então tirou todo meu chão.


Desgraçado!
— Linda, querida, por favor, sente-se,
vamos conversar com calma sobre os... Linda!

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Linda! Espere!

Sequer fiquei para ouvir o que ele tinha para


me dizer. Dei as costas e o deixei gritando
enquanto eu saía do local que me sufocava.

Desci os andares do prédio pelas escadas —


esperar o elevador não era uma opção — e quando
cheguei ao térreo, abri a porta corta-incêndio com
força e me joguei para o hall do grande complexo
de salas. Puxei uma grande quantidade de ar
quando finalmente cheguei do lado de fora do

prédio.
Jenny estava me aguardando ao lado do
carro e prontamente andou até a porta e a abriu para
mim.

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— Senhorita Hatman — cumprimentou

assim que entrei no carro.


Ela era minha motorista havia dois anos,
nos falávamos pouco, mas ela era observadora e

sabia fazer as perguntas certas nos momentos


precisos. Então, no instante em que ela contornou o
carro e entrou no lugar do motorista para começar a
dirigir, simplesmente se manteve concentrada na
direção enquanto me perguntava suavemente se
estava tudo bem comigo.

— Tudo bem, Jenny. Me leve para casa, por


favor — solicitei enquanto pegava meu telefone na
bolsa.
Quando não ouvi a sua afirmativa, levantei

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os olhos para ver o motivo do silêncio. Ela me

olhava através do espelho retrovisor com o cenho


franzido, como se estivesse tentando entender o
motivo pelo qual eu estava querendo ir para casa no

meio da tarde de uma terça-feira, quando tudo o


que fazia, mesmo aos finais de semana, era
trabalhar.
— Algum problema? — indaguei,
levantando a sobrancelha para ela, que
imediatamente desviou o olhar e prestou atenção na

estrada.
— Não, senhorita.
— Bom, me leve para casa, por favor.
Voltei minha atenção para o telefone que,

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como eu esperava, tinha muitas chamadas não

atendidas e outros muitos e-mails para serem


respondidos.
— Como quiser.

Procurei me concentrar no trabalho por um


momento, mas pela primeira vez em muito tempo,
não consegui pensar na rede de hotéis que eu
presidia desde a morte do meu pai, Nicholas
Hatman.
Fui criada para tomar conta do império que

havia sido criado com a Hatman Hotéis desde


muito cedo. Aos dezesseis, já me esforçava por um

G.P.A.[3] impecável. Aos dezoito, já estava na


faculdade cursando Negócios. Aos vinte e três, já

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me candidatava a uma especialização em hotelaria

e hospitalidade e aos vinte e oito assumi a


presidência da rede hoteleira após a morte do meu
pai.

Aos trinta, estava sentada dentro do meu


carro, indo para casa com a cabeça cheia de merda
(sem trocadilhos), me sentindo a pessoa mais traída
e sem chão do mundo e esperando por um encontro
com a adega de vinhos herdada do meu pai.
Fodam-se os e-mails e as ligações. Eu tinha

uma merda de vice-presidente para lidar com os


problemas da empresa, além dois conselheiros bem
pagos. Fodam-se as preocupações. Foda-se agir da
forma correta. Fiz isso durante a vida toda para

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passar pelo que estou passando agora?

FO-DA-SE!

**

Quando pedi para Jenny me levar para casa,


me referi à cobertura em um dos hotéis da família,
em Beverly Hills. Aquele era um dos mais luxuosos
hotéis da rede. O último andar fora todo convertido
para ser meu apartamento e escritório quando

assumi as empresas de Len Hatman, meu pai. Len e


minha mãe, Judy Hatman, eram separados há
alguns anos, e eu morava com ela e meu padrasto,
Oswald Carly, um médico renomado. Quando

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papai faleceu e eu assumi os negócios da família de

vez, pensei que seria melhor me mudar e seguir


com minha independência.
Ao passar pela recepção do hotel, Howard,

o concierge, me abordou com seu iPad a postos.


— Boa tarde, senhorita Hatman. Chegou
cedo... — observou, me fazendo revirar os olhos.
— Olá, Howie — cumprimentei sem parar
de andar e seguindo para os elevadores.
— Temos muitas ligações e recados para a

senhorita hoje... — iniciou enquanto deslizava a


caneta pelo aparelho em suas mãos, procurando
pelos recados.
— Passe para Stacy, Howard, hoje não

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atenderei ninguém.

Howie soltou um suspiro assustado e parou


de andar. Pela visão periférica, pude vê-lo
congelado em seu lugar. Ignorando sua reação,

pressionei o botão para que o elevador se abrisse.


— Mas sua mãe... — o concierge deu um
passo em minha direção para tentar falar
novamente.
— Eu não estou para ninguém, Howard —
fui taxativa e entrei no elevador, logo digitando o

código de acesso a minha suíte.


— Sim, senhora... — sua voz era trêmula,
como se estivesse ferido pelas minhas palavras.
Howie era quase tão workaholic quanto eu. Quase.

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Enquanto o elevador subia, peguei meu

telefone pela última vez. Enviei uma mensagem


para Stacy, minha secretária, avisando que não
atenderia ninguém até uma segunda ordem e que

ela passasse tudo para Louis Castillos, vice-


presidente da Hatman Hotéis. Sem aguardar
qualquer resposta, desliguei o telefone e o joguei
novamente dentro da bolsa.
Quando as portas do elevador se abriram, eu
já havia retirado os sapatos. Assim que pisei no

tapete fofo da suíte, respirei fundo e atirei o par


longe, junto com a bolsa. Caminhei diretamente até
a adega, estrategicamente instalada entre o quarto e
a sala para dividir o grande ambiente e me dar

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alguma privacidade. Era imensa e repleta dos

melhores vinhos que o dinheiro poderia comprar.


Vinhos que foram guardados pelo meu pai e que
mantive reservados para serem consumidos apenas

em ocasiões especiais.
— Bem, acho que essa é uma baita ocasião
especial, não é, papai? — falei alto e ri em seguida.
Estava falando sozinha, talvez minha cabeça já
estivesse apresentando problemas. Talvez eu só
quisesse alguém para conversar.

Talvez eu quisesse meu pai para conversar.


Pegando um Bordeaux de mil novecentos e
muito tempo, andei até a cristaleira e saquei um
taça e o saca-rolhas. Tive alguma dificuldade e

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estraçalhei a rolha um pouco ao abrir a garrafa.

Sorri sem realmente estar com vontade e servi uma


pequena quantidade daquele antigo vinho.
— Para você, papai — resmunguei

novamente e bati delicadamente o gargalo na taça


para brindar, levando a garrafa até meus lábios e
deixando a taça para o meu pai imaginário.

**

Na segunda garrafa, eu estava entediada.


Geralmente, quando estava assim, eu trabalhava.
Bem, normalmente eu trabalhava para compensar
qualquer coisa. Então, se eu estava brava,

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trabalhava, se estava feliz, trabalhava ainda mais...

O que eu estava sentindo naquele


momento?
Medo?

Tristeza?
Por que eu não estava trabalhando?
Olhei para a televisão e pensei na
quantidade de tempo em que eu não assistia nada.
Será que ainda passava Punky — A Levada da
Breca ou Blossom? Caramba, será que ainda

passava Goosebumps?
Pegando o controle remoto,
estrategicamente colocado ao lado da televisão pela
equipe de governança, me senti patética ao

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perceber que não havia ligado aquela televisão (ou

qualquer uma) em anos. Sequer sabia o que era


diversão havia muito tempo.
Ligando a enorme televisão, subi no sofá e

me ajeitei, sentando em cima dos pés. Eu precisava


tirar a saia e a blusa, que combinavam
perfeitamente com o blazer atirado em algum canto
do quarto. As roupas estavam me apertando e
dificultando minha tentativa de ficar confortável,
mas já estava tonta demais para mudar de roupa.

Que horas são? O sol ainda está


brilhando...
Era cedo. Muito cedo, considerando o fato
de que eu sempre chegava do trabalho tarde.

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Passava do horário normal de expediente com

frequência, chegava quando a noite já havia caído.


Comecei a zapear pelos inúmeros canais
disponíveis e parei em algum filme de terror. Era

algo relacionado a exorcismo, e eu não estava


bêbada o suficiente para ter coragem de encarar
algum demônio vomitando ou torcendo partes de
seu corpo.
Foi então que parei em um filme que estava
começando.

— Um Amor Para Recordar — resmunguei


sozinha. — Deve ser bonitinho.
Foi a coisa mais cruel que assisti na vida.
As lágrimas grossas e gordas caíam ao

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mesmo passo em que outra garrafa de vinho era

consumida.
Deus! Que merda de filme foi aquele?
Eles se apaixonam, ela mostra uma lista

fofa para ele e simplesmente se casam antes da


garota morrer de câncer?
Que tipo de ser humano escreve um roteiro
destes?
Enquanto fungava e analisava os créditos do
filme subindo, pensei em Jamie Elizabeth Sullivan

e Landon Carter, dois jovens apaixonados que só


queriam viver o seu amor juntos, mas não puderam.
Mesmo a lista de Jamie não foi realizada
por completo. Ainda assim, aos dezessete anos, eles

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viveram muito mais do que eu, com mais que o

dobro de sua idade.


Debilmente, porque aquilo era apenas um
filme baseado em um livro e aquelas pessoas eram

apenas personagens, pensei que, mesmo jovens,


Landon e Jamie tinham encontrado o amor,
dançaram juntos, estiveram em dois lugares ao
mesmo tempo, e ele até fez uma tatuagem nela.
Aos trinta, eu não conseguia me lembrar se
algum dia tive um diário, alguém que me fizesse

suspirar ou uma lista de coisas que eu gostaria de


fazer.
Que fim levaria a minha vida?
Em que momento eu aproveitaria tudo o que

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fora deixado pelo meu pai?

Dando mais um grande gole na garrafa de


vinho, fui atrás de papel e caneta.
— Eu também tenho direito a isso —

resmunguei, limpando as lágrimas e a coriza do


nariz. — Vou fazer minha própria lista!
Encontrei o bloco e caneta do hotel e voltei
para o meu lugar.
Coisas como escalar o Everest, tomar banho
nas piscinas quentes e naturais em meio ao gelo na

Islândia e dar uma volta na Red Light Street em


Amsterdã enquanto comia um brownie de maconha
passaram pela minha cabeça.
Entretanto estava ansiosa para ter os itens

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completos em minha lista. Se eu colocasse coisas

muito complexas, talvez demorasse mais tempo


para poder completa-las.
Talvez eu nunca conseguisse realizá-las.

— Talvez eu devesse fazer algo mais


simples... — murmurei, batendo com a caneta no
bloco. — O que fazer...? O que fazer...?
Foi então que um novo filme começou. E o
seu nome me chamou atenção.
Jogo de Amor em Las Vegas.

LAS VEGAS!
VEGAS!
Eu nunca tinha ido para Las Vegas, a não
ser para inspecionar dois hotéis da rede que

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ficavam lá. Nunca para diversão. Não encontrava

tempo para aproveitar como a cidade e eu


merecíamos, mas sempre tive vontade. Uma
vontade ofuscada pelo foco no trabalho e na

tentativa de honrar o império que meu pai havia


construído.
Tentando não pensar em meu pai
novamente, respirei fundo e voltei ao meu plano.
VEGAS!
— Uma lista de coisas para fazer em Las

Vegas! — exclamei como se fosse uma grande


novidade.
Provavelmente milhares de pessoas já
haviam feito uma lista sobre isso. Especialmente

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pessoas moribundas. Como Jamie Sullivan. Outros

livros deprimentes deviam estar cheios de listas


para fazer. Mas, em minha mente bêbada, aquela
lista era inédita.

Até porque minha lista seria um pouquinho


diferente.
Então escrevi na primeira página do bloco:

LISTA DE MERDAS PARA FAZER EM

LAS VEGAS!

1. Ir para Las Vegas;


2. Gastar uma pequena fortuna em um

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cassino;

3. Experimentar drinques exóticos enquanto


reclama da vida para o Barman;
4. Ver um show de go-go boy;

5. Dançar em frente ao Bellagio;


6. Andar em uma limousine com a cabeça
para fora do teto solar enquanto canto a música
tema de Titanic;
7. Fazer uma tatuagem;
8. Assistir a um show cover da Tina Turner;

9. Casar com um estranho na capela do


Elvis;
10. Transar com o marido estranho.

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— Bem, bem... — suspirei, olhando para a


lista. — Para fazer tudo isso, preciso ir para
Vegas...

Andei até a bolsa e peguei meu telefone.


Liguei o aparelho e ignorei enquanto ele apitava
loucamente. Precisada do número da minha
assistente.
— Stacy?
— Sim, senhorita Hatman? — a voz de

minha assistente parecia aliviada quando me


atendeu. — Tenho alguns recados urgentes...
— Sem recados, Stacy! Mande preparar o
jatinho. Estou indo para Las Vegas.

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Capítulo 1

Um novo drinque

Puta que pariu!


Quem ligou o interruptor da “dor eterna”
na minha cabeça?
Minha cabeça!
Saltei da cama, levando as mãos à cabeça.

Meus cabelos estavam completamente


embaraçados, e a ressaca era do inferno, mas, fora
aquilo, eu aparentemente estava bem.
Ou quase bem.

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Olhei para a cama de onde eu havia saltado

e percebi que não estava sozinha. Deitado de


bruços, com os cabelos negros completamente
bagunçados, o homem estranho permaneceu imóvel

mesmo quando comecei a dizer palavrões.


— Mas que merda! — minha voz era quase
esganiçada. — O que diabos eu fiz?
Analisei em volta, analisando a bagunça que
fizemos na noite anterior. Em cada peça de roupa
jogada pelo chão um flash sobre a noite anterior

vinha em minha mente.


Eu colocando um pequeno checked ao lado
do item número um da minha lista de merda, já
dentro do jatinho...

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Fazendo check-in no hotel...

Indo ao bar e pedindo o drinque mais


exótico do cardápio...
De repente, a lembrança do estranho

dormindo na cama em minha frente veio com tudo.

***

— Dia difícil? — o barman maravilhoso


perguntou.

Sua voz profunda e rouca me causou


arrepios na pele. Isso ou eu estava com uma
vontade fodida de fazer xixi, já que havia bebido
três garrafas de vinho. Estava bem melhor depois

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da viagem até Vegas, mas estava bebendo meu

primeiro drinque que não era vinho e sabia muito


bem que a mistura seria letal.
Mas quem estava se importando?

— Vocês aprendem a perguntar isso no


cursinho de garçom? — questionei sem tirar os
olhos dele.
Sorriso largo, irritantemente parelho e
branco, rosto simétrico e cabelos longos o
suficiente para que eu pudesse puxá-los enquanto

enfiava a língua em sua boca.


Tudo bem, eu não estava tão sóbria assim.
— Acho que é nosso protocolo para puxar
assunto com belas mulheres.

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Sorri ao ouvir o elogio. Eu estava

acostumada a ser elogiada, mas sempre por pessoas


que sabiam quem eu era. Ou seja: a sinceridade
delas era diretamente ligada ao que elas queriam de

mim. Não contava.


Mas o barman? Fui esperta o suficiente para
não fazer check-in em um Hatman e proibi Stacy de
dizer onde eu estava. Ele não sabia quem eu era, e
eu me senti bem ao ouvir o seu flerte.
Segurando o canudinho preto, aproximei

meus lábios e suguei o liquido delicioso daquela


taça bem decorada.
— Isso é realmente gostoso — elogiei. —
Qual é o nome?

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— Ainda não batizei. Fiz especialmente

para você, me pediu o drinque mais exótico, achei


que deveria inventar um — informou, se apoiado
no balcão e dando uma piscadinha sexy para mim.

— Um drinque especialmente para mim? —


eu me apoiei no balcão também e devolvi o flerte.
— Estou lisonjeada.
— Quem sabe se você me disser o seu
nome, eu possa batizar o drinque com ele. — seus
olhos penetraram nos meus, eram escuros, mas

estavam iluminados pelas luzes do bar.


— Linda — respondi antes de voltar a beber
do meu drinque, mas sem tirar os olhos do belo
barman.

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— Linda... — repetiu meu nome como se

fosse uma canção. — Combina com você. Em


algumas línguas, isso quer dizer “bonita”. E você
realmente é muito bonita.

Minha beleza se encaixava nos padrões


impostos pela sociedade: cabelos castanhos claros,
olhos azuis, pele branca e bem tratada. Além disso,
sou alta, cerca de 1,70, tenho um corpo esbelto,
curvas delineadas, seios e bunda fartos... Então,
sim, eu sabia que era bonita para algumas pessoas,

nem tanto para outras. Afinal, eu também sabia que


havia mulheres mais belas e menos belas do que eu.
Que havia homens que não se interessavam por
mim.

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Porém a forma como aquele cara me fez o

elogio fez com que algo mexesse dentro de mim.


Eu tinha encontros, cheguei a namorar, mas
com pessoas do meu meio. Pessoas que queriam o

mesmo que eu e não se importavam em serem


trocados por uma reunião; pessoas que sabiam qual
era o meu nome, quanto valiam as minhas ações,
mas não tinham a mínima noção de quem eu era de
verdade.
Eu não sabia quem eu era de verdade!

E depois do que havia acontecido não


muitas horas antes, me conhecer e ser conhecida
além do meu nome passou a ter mais importância
para mim.

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E certas necessidades instantaneamente

começaram a aparecer também.


— E qual é o seu nome? — perguntei ao
barman, querendo saber quem ele era.

— Ryan, mas meus amigos me chamam de


Knox.
Esticando a sua mão por cima do balcão, ele
a ofereceu para que eu pegasse e pudéssemos nos
apresentar oficialmente.
— Knox? Parece perigoso — e realmente

era. Assim que meus dedos encostaram na sua


grande (e um pouco úmida pelo manuseio das
bebidas) mão, meu corpo todo reagiu em excitação.
— É parte do meu sobrenome, Knoxville —

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explicou.

Um homem na outra ponta do balcão


chamou por ele. Desviando o olhar, Ryan levantou
a mão para o homem e me olhou, para falar

novamente.
— Aproveite o seu drinque, Linda.
Eu aproveitei, enquanto via aquele homem
se mover de um lado a outro no bar. Ele era alto, eu
arriscaria um metro e noventa, talvez dois metros, e
um pouco corpulento. Eu até poderia dizer que

eram músculos bem trabalhados, a camisa preta


apertada no corpo me permitia analisar tudo com
bastante esmero.
Ryan roubava olhares enquanto continuava

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a atender outros clientes. Quando meus drinques

estavam acabando, ele prontamente fazia outro, me


entregava e voltava aos seus afazeres.
Eu deveria passar para o próximo item da

lista, mas estava tão bom onde eu estava... E a vista


era realmente privilegiada. Tirando a lista da minha
bolsa, eu a reli e sorri. Peguei a caneta e fiz um
pequeno check ao lado do item três: “beber um
drinque exótico”.
Rindo, coloquei mais dois checks ao lado.

Um para cada drinque exótico com o meu nome


que eu havia bebido.
— Recebeu bilhete de algum admirador? —
Ryan brincou, tirando minha atenção do pedaço de

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papel. Meu olhar se desviou para ele, e eu sorri.

Não sei exatamente o que eu estava


pensando, mas entreguei o papel para ele. Knox
começou a rir enquanto seus olhos tremulavam ao

ler os itens da lista.


— Ei, o número três está incompleto. Você
não reclamou da vida para mim — meu estômago
embrulhou um pouco naquele momento, mas o
sorriso em meu rosto não vacilou. — Talvez eu
possa te ajudar em outros itens...

Sua sobrancelha levantou sugestivamente


para mim.
— Eu imagino que sim, Casanova, mas,
pelo menos nos últimos itens, eu pretendo seguir a

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ordem correta — pisquei, brincando. Ele fez um

beicinho decepcionado. — Não chore, e me consiga


outro drinque.
— Mais um? Você estará bem para voltar

ao seu quarto de hotel? — questionou, imóvel, sem


fazer qualquer menção de que ia começar a
preparar meu Linda.
— Talvez você possa me levar. Ou você
pode me levar para a diversão, o que me diz, Knox?
O que acha? Será que você pode fazer da minha

estada em Las Vegas algo inesquecível?


Seus olhos se espremeram minimamente, e
um sorriso predador se fez em seus lábios. Lembro
que quando seu turno acabou, ele deu a volta no bar

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e sentou ao meu lado.

Depois, lembrava de mais alguns (muitos)


drinques, e todo o resto era um borrão.

***

Eu estava completamente nua, então peguei


o lençol solto pela cama e me enrolei nele. Foi
naquele maldito momento que eu vi. O negócio
brilhou em meu anelar esquerdo, me fazendo

querer vomitar. Analisei de perto o anel, era uma


argola fina com um pequeno dado colado em cima.
Era vagabundo, mas delicado.
Os flashes novamente invadiram minha

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mente.

Knox e eu cambaleando pela Strip;


Jogando no cassino;
Nós dois nos agarrando em um canto escuro

do cassino;
Riscando o item número dois da lista;
Knox colocando a aliança em meu dedo e
eu colocando uma no dedo dele também;
— Eu prometo que descobrirei como te
amar, respeitar e apoiar... Agora podemos

transar?
Elvis nos declarando marido e mulher.
— Eu casei com um estranho —
resmunguei para a aliança fajuta em volta do meu

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dedo assim que o foco voltou ao presente.

Olhei em volta, à procura do documento.


Desesperada, passei meus olhos minunciosamente
pelo quarto antes de ir até a cadeira ao lado do

móvel da televisão. Lá estava ele.


Linda Knoxville.
Meu Deus! Deixei mudarem meu nome?
— Casei com um estranho! — sussurrei
mais alto, repetindo como se precisasse me
convencer daquilo.

— E tivemos uma bela lua de mel, esposa


— a voz rouca resmungou, meio abafada. Olhei
para ele, sentindo o corpo todo se arrepiar ao
perceber que meu marido estava acordado. Metade

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do seu rosto estava amassado no travesseiro.

— Você...
Tentei encontrar algo para dizer a ele, mas o
que diria? Ele não havia se aproveitado de mim:

quando saímos do bar, estava bêbado também.


Quando nos casamos, estávamos rindo como duas
hienas epiléticas, estávamos achando realmente
engraçado aquela merda toda. E quando chegamos
ao quarto...
Bem, nós dois estávamos muito ativos

também. Eu me lembro! Deus não me beneficiou


com amnésia alcoólica.
Nós, em meu quarto, nos despindo, nos
beijando, agarrando... Jesus!

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Suas investidas duras e rápidas, minhas

mãos arranhando suas costas, nossas bocas


esfomeadas. Sua boca chupando meus seios, suas
mãos amassando a minha bunda quase a ponto de

dor... O seu pau entrando e saindo de dentro de


mim incontáveis vezes, até que estávamos gritando
em puro prazer.
— Eu...? — incentivou para que eu
continuasse falando.
— Ryan, o que foi que fizemos? —

choraminguei, apertando um pouco mais o lençol


em meu corpo e caminhando até minha mala para
pegar alguma roupa. Eu sequer lembrava o que
havia nela! Na tarde passada, estava tão

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transtornada e bêbada, que sequer sabia o que tinha

escolhido para usar na minha aventura louca por


Las Vegas.
— Nos divertimos, Linda. Fique tranquila.

Nos protegemos — disse casualmente.


Eu me virei em sua direção, e ele se
levantou da cama e caminhou até mim. Nu.
Meu Deus! Que corpo maravilhoso, pensei
assim que meus olhos se focaram nele por inteiro.
Ryan era forte, tinha o corpo malhado e rígido. Era

liso e quase totalmente livre de pelos. Lembrei do


quanto sua bunda era deliciosa de apertar também,
e por um momento pensei em jogá-lo contra a cama
novamente e... Ugh! Eu precisava manter o foco!

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Estiquei a mão para que ele se mantivesse

longe. Ele parou e levantou a sobrancelha, me


mostrando sua dúvida.
— Estávamos bêbados ontem à noite, e

embora tenha sido muito divertido...


— Foi muito gostoso também, baby —
interrompeu, seu rosto estava relaxado, com um
sorriso sacana estampado, como se estivesse
adorando aquela situação.
— Foi, foi gostoso, Ryan, mas precisamos

resolver isso. Cancelar o casamento. — eu estava


ficando aflita com a situação. Onde eu estava com a
cabeça?
Meu estômago se contorceu no momento

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em que percebi quão imprudente eu fora. Beber

tudo aquilo, largar tudo em Los Angeles, transar


com um cara desconhecido...
Deus! E se ele descobrir quem eu sou e o

que eu tenho e não quiser o divórcio para ficar


com parte dos meus bens?
Linda, você é uma retardada!
Pensei nisso tudo enquanto desviava dele e
praticamente corria em direção ao banheiro. Assim
que entrei, bati a porta e me escorei nela.

— Claro que vamos cancelar. Não se


preocupe — ele respondeu em um tom mais alto
para que eu escutasse do banheiro. — Eu só vou
para casa trocar minhas roupas e tomar um banho,

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podemos nos encontrar no cartório em...

Imediatamente abri a porta do banheiro e


enfiei a cabeça para fora.
— De jeito nenhum! Não vou perder você

de vista...
Ele cruzou os braços, ainda nu (por que ele
ainda não se vestiu?), e me olhou com humor.
— Coloque uma roupa, pelo amor de Deus!
— pedi, mas, no fundo, eu queria ficar olhando
para ele por mais uns vinte minutos... ou cinco

horas. Porra! Foco, Linda. Foco! — E não vou


arriscar nos desencontrarmos. Você fica e daqui
vamos ao cartório.
— Estou fedendo, minhas roupas também,

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estou de ressaca e com fome. Nada acontecerá

antes de eu estar limpo e alimentado, querida — ele


foi categórico em suas palavras.
E puta que pariu.

A voz dele conseguiu deixar o meu corpo


aceso como a porra da árvore de natal do
Rockfeller Center em Nova Iorque.
— Tudo bem — tentei me controlar e
manter meus olhos nos seus. — Banho e comida.
Entendi. Concordo — listei, parecendo um robô,

mas eu tinha que me concentrar naquele momento.


— Posso tomar banho com você, então?
Pisquei algumas vezes antes de entender sua
proposta.

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— Não!

E novamente bati a porta. Através dela,


pude ouvir a risada de Ryan Knoxville.
E, incrivelmente, seu riso me fez sorrir.

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Capítulo 2
Esquecendo por um momento

Nós passamos em seu apartamento, em um


bairro mais afastado em Vegas, e eu optei por
aguardá-lo no carro enquanto ele tomava um banho
rápido e trocava de roupa. Enquanto o motorista do
carro alugado tentava encontrar uma rádio decente
para ouvirmos, eu, sentada no banco traseiro,

peguei meu telefone e o liguei rapidamente. Fiz um


enorme esforço para não abrir meu e-mail, escutar
as mensagens de voz ou mesmo ler as mensagens
no aplicativo de conversa que faziam meu telefone

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quase entrar em colapso, de tanto que vibrava.


Selecionei o número de minha assistente e
liguei para ela.
— Senhorita Hatman, graças a Deus, estão

todos morrendo de preocupação com você.


— Estou bem, volto ainda hoje e me
resolverei com todos. Apenas avise isso.
— Mas...
— Stacy, só faça o que eu pedi.
— Mas seus pais...

— Minha mãe e meu padrasto não


morrerão — meu tom de voz estava além de
alterado: pingava sarcasmo. — Diga a eles que não
sou criança. Estou apenas descansando. Estarei em

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casa em breve.

Encerrei a ligação sem dar qualquer chance


para Stacy e ignorei todos os alertas na tela.
Pressionei o botão lateral por tempo suficiente para

desligar o aparelho e aguardei por Knox.


Quando ele apareceu em frente ao prédio,
me permiti olhar para ele através dos meus óculos.
Memórias vívidas do que fizemos na noite anterior
causaram arrepios em meu corpo e me fizeram
fechar as pernas, na tentativa de acalmar o pulsar

da minha excitação.
Vestido com jeans simples e surrado e uma
camiseta branca apertada, seu estilo foi coroado
com um Ray-Ban clássico e quadrado. A barba

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estava cerrada, e seu maxilar duro e forte parecia

muito beijável.
— Linda? — eu o ouvi chamar de onde
estava. Levantei meus olhos e peguei seu sorriso

aberto e muito perfeito para o meu gosto. — Pronta


para o café da manhã? E você pode dispensar o
chofer, tenho carro, posso levar você para onde
precisar.
— Prefiro o carro — respondi sem dar
abertura para discussão.

— Esnobe — ele murmurou com humor.


— Gostaria de ir logo para o cartório, Ryan
— resmunguei da janela, ignorando sua declaração.
— O que está fazendo aí ainda? Entre no carro.

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— Estava deixando você terminar de me

apreciar — sua voz era carregada de humor.


Revirei os olhos e tentei relaxar enquanto ele
contornava o carro para entrar.

No momento em que entrou, seu aroma


fresco encheu o veículo, me fazendo contorcer mais
um pouco. Na outra noite, ele cheirava como um
cinzeiro, eu também, é claro. Estávamos perto de
fumantes. Mas de banho tomado, cheiroso como
estava e com as roupas perfeitamente modeladas

em seu corpo... Deus! Eu só queria voltar para o


hotel.
— Café? — insistiu novamente.
— Tudo bem, café! — relaxei e deitei a

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cabeça no encosto do banco do carro.

**

Minha ideia era apreciar o café da manhã de


um dos hotéis. O Bellagio talvez. Mas Ryan
indicou um caminho mais distante e, quando
percebi, estávamos em frente a um trailer adaptado
com a pintura desbotada e a aparência
completamente velha. Era uma área de trailers em

um bairro afastado da parte badalada da cidade.


— O que estamos fazendo neste lugar? —
perguntei, abaixando os óculos e tentando ler a
placa em frente ao trailer. Ela dizia Ovos & Bacon.

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— Viemos tomar café — Knox respondeu

como se fosse completamente óbvio.


Em seguida, saiu do carro e deu a volta
rapidamente. Abriu a porta, estendeu a mão para

que eu saísse e sorriu, pegando em minha mão e


olhando para o anel de casamento, que eu ainda não
havia retirado. Retirei a mão da sua, fechei meus
dedos e olhei para meus pés, um pouco sem graça
por ter sido pega. Knox foi gentil o suficiente para
não falar sobre o assunto.

— E por que aqui? — perguntei, tentando


desviar a atenção do anel que permanecia em meu
dedo.
— Porque esse é o lugar que faz o melhor

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café da manhã do mundo.

Novamente pegando em minha mão e me


deixando tensa, Ryan Knoxville me arrastou em
direção ao trailer desbotado. Nós paramos em uma

das mesas disponíveis do lado de fora, e ele


chamou nosso motorista para se aproximar. O
homem caminhou vagarosamente em nossa direção
enquanto eu continuava analisando o local.
— Você quer tomar café da manhã
conosco? — ouvi Knox perguntar ao motorista e

imediatamente me senti mal por sequer considerar


o homem.
— Não, senhor, estou bem, obrigado.
Estarei aguardando no carro.

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— Claro — Knox sorriu e esticou a mão

para apertar a do homem.


Aquilo foi muito legal da parte dele. Não
tinha ideia de que era uma pessoa que se

preocupava com as outras daquele jeito. Mas eu


não sabia nada sobre ele, não é?
Casei com um completo estranho.
— Você sempre toma café da manhã aqui?
— perguntei quando ele puxou a cadeira para que
eu pudesse sentar.

— Infelizmente, fica longe demais para vir


todos os dias, mas eu tento vir constantemente.
Vale a pena.
Se valia a pena, eu não sabia. Não havia

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comido lá ainda, mas o lugar, embora velho,

parecia limpo e organizado e tinha algo diferente,


ao menos para mim. Eu cresci em uma família que
nunca precisou fazer refeições em lugares que não

fossem muito caros, então aquele lugar era um


ponto fora da minha rotina.
Logo que estávamos acomodados, uma
senhora de pele bem negra apareceu com um
sorriso imenso estampado no rosto.
— Meu Ryan! — ela juntou as mãos como

se estivesse rezando. — O dia sempre fica perfeito


quando você aparece, meu menino! — a mulher se
aproximou, e ele se levantou para abraçá-la.
— Yvone, como vai? — o sorriso de Ryan

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estava completamente diferente de todos os que eu

já havia presenciado antes. Quando seus lábios se


abriam para sorrir, seu rosto todo se transformou.
Principalmente seus olhos. Eles brilhavam, se

apertavam nos cantos e emitiam uma sensação tão


boa...
— Estou ótima, e você? — olhando para
mim, Yvone franziu o cenho e voltou sua atenção
para ele. — Quem é a moça? — perguntou sem
rodeios.

— Esta é Linda, minha amiga — apresentou


resumidamente. — Linda, esta é Yvone, ela
praticamente me adotou quando vim para Vegas.
— Olá, senhora! — cumprimentei ao me

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levantar e estendi minha mão para ela.

— Olá! — Yvone sorriu, mas eu sabia que


me analisava.
— A senhora tem um lugar muito legal aqui

— tentei elogiar. Yvone estufou o peito, parecendo


orgulhosa quando respondeu:
— Isso porque você ainda não
experimentou meu café da manhã. Quando
experimentar, verá que é o melhor lugar do mundo
— discursou com satisfação.

— Foi por isso que a trouxe — Knox


revelou voltando a sentar à mesa. — Vou ajudar
Linda a escolher o que ela vai querer, mas eu quero
o de sempre. O melhor.

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Yvone assentiu, piscou para ele e sorriu

amistosamente para mim antes de nos deixar.


— Vou te ajudar a escolher algo — Ryan
alcançou o cardápio para mim.

— Se você está pedindo o melhor, talvez eu


deva pedir também.
— Claro, só queria te mostrar as opções —
novamente seu rosto inteiro mudou ao sorrir,
preenchendo o ambiente com a sua facilidade de
comunicação. Ryan Knoxville era uma pessoa que

poderia fazer um ambiente todo mudar com a sua


presença. E sempre para melhor.
Nós nos olhamos por alguns segundos,
analisando um ao outro, talvez tentando saber o que

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passava em nossas mentes. Mas quando meus olhos

desviaram para os seus lábios e mais flashes da


nossa noite vieram à mente, resolvi quebrar o
silêncio.

— Qual é a história com Yvone? —


perguntei olhando para dentro do trailer. A mulher
se movimentava de um lado a outro no pequeno
espaço.
— Quando cheguei em Vegas, morei em
uma república com o filho de Yvone, Noel. Ele me

trouxe para cá e me viciou na comida dela.


— Onde está Noel? — perguntei,
interessada.
— Ele mora na Carolina do Sul agora.

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Casou e se mudou para lá. Sheila, sua esposa, tem

um bom emprego na região.


— E de onde você é?
— Califórnia — sua sobrancelha levantou

quando meus olhos se arregalaram. Ele era da


Califórnia? — O que foi?
— De onde?
— Sacramento — respondeu e se levantou
rapidamente, caminhando até a janela do trailer. —
Yvone, ela vai querer o mesmo que eu.

— Tudo bem, querido! — a mulher


respondeu sem olhar em direção a Knox, estava
ocupada demais para aquilo, pelo que parecia.
Quando Knox estava novamente sentado à

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minha frente, retomei o interrogatório.

— O que veio fazer aqui em Vegas? — eu


me ajeitei na cadeira e cruzei as mãos em cima da
mesa.

— Vim trabalhar. Me pareceu interessante


tentar a vida aqui. Então eu simplesmente deixei
tudo para trás — sua explicação foi sucinta, mas eu
sabia que havia mais história ali. Continuei o
encarando, tentando encontrar uma forma de saber
mais sobre sua vida. Mas se eu lhe fizesse tantas

perguntas, ele as faria para mim também. E se tinha


algo que eu não queria, era que Knox soubesse
quem eu era.
Eu não o conhecia, já estava me arriscando

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o suficiente sendo quem eu era e andando sozinha

por Las Vegas. Claro que eu não era nenhuma


celebridade, mas minha família e a rede Hatman de
hotéis era muito conhecida.

Quando Yvone deixou os pratos em cima da


nossa mesa, meus olhos quase saltaram para fora do
rosto. Era muita comida.
Waffles com manteiga e calda, ovos, bacon,
torradas, geleias e muffins.
— Quanta comida para duas pessoas —

observei enquanto Yvone terminava de deixar


nosso pedido na mesa. Eu conhecia grandes cafés
da manhã, mas geralmente a quantidade condizia
com o número de pessoas que estavam à mesa.

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Yvone soltou um grunhido em minha

direção, fazendo com que Knox risse. A mulher se


foi, e eu continuei olhando para a quantidade
absurda de comida.

— Yvone nunca faz pouca comida, nunca


— ele explicou enquanto começava a servir um
prato para mim. — Você a ofende se fala que tem
comida demais.
— Isso é desperdício — resmunguei,
analisando ele me servir uma porção de cada item

na mesa.
— Nunca é. Ela faz de propósito para eu
levar as sobras. É um costume. Com Noel longe,
sempre que pode, ela transfere seus cuidados para

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mim. Está tudo bem, vamos embalar o restante, e

eu darei a alguém que precise. Sempre faço isso —


piscou para mim. — Agora coma.
Na primeira mordida no waffle, soltei um

gemido. Nada de extraordinário, especialmente


quando se é dona de uma rede de hotéis onde se
tem acesso livre aos pratos mais sofisticados da
culinária. Mas aquilo tinha gosto de algo que eu
não sabia decifrar.
— Gostoso, não? — Knox perguntou

orgulhoso, sabia a resposta.


— Sim, mas tem algo a mais. Há algo aqui
que não consigo identificar no gosto, só sei que é...
— lambi meus lábios e olhei para o prato

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novamente. — Algo que nunca provei.

— Para mim, tem gosto de lar — ele disse


antes de voltar a comer seus ovos. Fiquei
analisando a comida enquanto ouvia sua resposta

ecoar em minha cabeça.


Lar.
Eu nunca soube o que era ter um lar.
Eu tive pais, família, mas um lar mesmo?
Nunca. Meu pai estava sempre trabalhando, minha
mãe, ocupada, e eu estudando para herdar o

império. A palavra que Knox usou para justificar o


excelente sabor da comida parecia muito certeira,
mesmo que eu nunca tivesse provado. E eu não me
refiro à comida.

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**

Enquanto terminávamos nosso café da

manhã — que, mesmo sendo algo tão banal, me fez


gemer como uma estrela pornô de tão gostoso que
estava — percebi que Ryan também mantinha no
dedo o anel de casamento. Percebendo meu olhar
fixo em sua mão, ele retirou o anel e o olhou
seriamente por alguns segundos.

— Vamos trocar? — perguntou, ainda


analisando a bijuteria entre seu dedo indicador e
polegar.
— Trocar as alianças?

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— Sim, como uma lembrança. Você fica

com a minha, e eu, com a sua — explicou.


Olhei para a minha mão e analisei minha
própria aliança. Embora barata, era delicada.

Suspirei e sorri, a retirando do dedo e entregando a


ele. Em seguida, peguei a dele e a coloquei no
polegar por ser muito grande para os outros dedos.
Knox testou o anel em seus dedos, mas não coube
em nenhum. Então pegou seu molho de chaves e
pendurou minha aliança ali.

— Assim lembraremos um do outro.


Mesmo sem a aliança, eu me lembraria de
Ryan Knoxville para sempre. Eu o tinha desafiado
a tornar minha estada em Vegas inesquecível, e ele

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levou muito a sério o pedido.

A loucura que compartilhamos jamais cairia


no esquecimento. Por um momento, me peguei
revivendo nossa conversa na noite anterior. Em

como fora rápido esquecer tudo o que estava


acontecendo quando Knox começou a conversar
comigo.
E, aproveitando o café da manhã de Yvone,
na companhia daquele homem — aquele belo
homem que conseguia deixar tudo mais relaxado e

que sorria com os olhos e falava de forma tão


irreverente —, foi muito fácil esquecer quem eu era
e todas as minhas responsabilidades.

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Capítulo 3
O Governador de Nevada merece morrer

— Desculpe, por um momento pensei ter


ouvido que o cartório está fechado — consegui
finalmente dizer depois de tanto rir.
— Foi exatamente isso que eu disse,
senhora — imediatamente comecei a gargalhar

novamente.
— Linda, se acalme — Knox tentou dizer,
mas eu não conseguia parar. O cartório estava
fechado. Era essa a resposta que o segurança me
deu quando tentei abrir a porta do local.

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O CARTÓRIO ESTAVA FECHADO!

Após trocarmos nossos anéis, Knox e eu


terminamos o café da manhã, nos despedimos de
Yvone e seguimos para acabar com a nossa

situação de uma vez por todas. Enquanto o


motorista nos levava para o nosso destino, ficamos
em silêncio. Tentei procurar algum assunto para
ouvir a voz dele por mais tempo, mas nada veio à
mente.
Quando finalmente chegamos no cartório,

recebemos a notícia infeliz.


— Ele está dizendo que o cartório não abre
hoje! — continuei gargalhando. — Tudo bem, tudo
bem... Chega, moço, agora me diga por onde eu

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entro.

— É verdade, senhora, os cartórios de Las


Vegas não abrem no dia dos namorados.
Quando vi Knox levar as mãos à cabeça,

com a face retorcida em frustração, comecei a


perceber que talvez aquilo não fosse uma
brincadeira. Meu riso foi cessando enquanto o
nervosismo e a irritação tomavam conta.
— Que palhaçada é essa? — olhei para
Knox e para o guarda.

— Eu não lembrava disso — meu marido


disse, parecendo mortificado.
— Então é verdade?
— Sim, senhora — o segurança afirmou. —

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Por decreto do governador do Estado de Nevada, o

dia dos namorados é um feriado absoluto em


Vegas. Desta forma, nenhum cartório realiza
cancelamento de matrimonio.

Era possível que eu estivesse tendo uma


crise de ansiedade. Eu nunca tive uma, mas sabia
quais eram os sintomas graças ao ataque fingido de
uma colega de faculdade. Chloe Zimmer, ela não
entregaria um trabalho a tempo para o professor e
fingiu uma crise para fragilizá-lo, mas durou

apenas 13.7 segundos, e o professor acabou


desmascarando-a. Ele a forçou a fazer um artigo
sobre o tema e apresentar para toda turma, apenas
para puni-la por brincar com um assunto tão sério.

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— Linda, calma! — ouvi a voz de Knox me

dizendo novamente e senti sua mão acariciando


minhas costas enquanto eu vagarosamente sentava
na calçada em frente ao cartório.

— Quem faz um decreto desses?


— Desculpe, eu me esqueci que hoje era dia
dos namorados, sequer passou pela minha cabeça.
— O que faremos agora? Eu não posso ficar
casada com você, Knox.
Se ele descobrisse quem eu era, poderia me

prejudicar. Nosso casamento era legítimo. Como se


não bastassem todos os meus problemas atuais, eu
teria que lidar com divisão de bens, pensão e tudo
mais. Eu não conhecia Knox e não poderia confiar

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em seu sorriso simpático ou em seu bom papo, a

fortuna da minha família estava no meio disso tudo.


Deus! Como eu fui idiota...
— Amanhã resolveremos isso. Será a

primeira coisa que faremos. Pularemos até o café


da manhã — respondeu com certo desespero na
voz. Era nítido que ele queria me acalmar.
— Como fui tão estúpida? Me casei com
um estranho! Deus! Cacei um barman e me casei
com ele — joguei o rosto em minhas mãos e

choraminguei.
— Ei, agora está me ofendendo — seu tom
era de brincadeira. Mesmo assim, me fez perceber
o que havia dito.

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— Desculpa, Knox. Mas não podemos

negar que fomos muito imprudentes. Muito mesmo.


O longo e forte braço dele caiu sobre o meu
ombro quando ele me abraçou de lado. Ficamos em

silêncio por algum tempo, enquanto eu pensava em


falar com Stacy. Precisava avisar que ficaria mais
um dia pelo menos.
— Tenho uma ideia — Knox saltou para
longe de mim, parando bem na minha frente. —
Onde está aquela sua lista?

— O que tem ela?


— Temos mais um dia juntos, pensei em
riscar os itens restantes da sua lista de merda.
— É uma lista de merda mesmo, não

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poderia ter escolhido nome melhor — me levantei e

caminhei até ele.


— Relaxa, Linda, vamos resolver isso
amanhã. Mas já que estaremos juntos por mais um

dia... — ele levantou uma sobrancelha e me olhou


com um ar de desconfiança fingida. — Ou você
quer ficar longe de mim hoje e nos encontramos
amanhã?
— Não tem a mínima chance de eu tirar os
olhos de você, Ryan Knoxville — disse com

firmeza, mas um sorriso bobo queria escorregar


pelos lábios.
— Então? Já que temos mais um dia
casados, por que não o passamos nos divertindo?

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— Knox abriu os braços de forma relaxada, apenas

dando ênfase ao seu convite. — Vou te ajudar a


concluir os itens de sua lista e garanto, baby, você
vai adorar.

Por um segundo, a primeira resposta que


passou pela mente foi não. Mas então lembrei o
motivo de estar naquele lugar e novamente aquela
sensação de impotência se alojou em meu peito.
Eu só tinha o “hoje”.
Por que não o aproveitar?

**

Ryan me fez dispensar o motorista,

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alegando que se eu me divertiria com ele, seria à

sua maneira. Quando chegamos em seu


apartamento, ele me convidou para subir. Lá, pegou
apenas uma mochila e guardou roupas e produtos

de higiene. Era óbvio que ele passaria a noite no


meu quarto, comigo. Eu não tiraria os olhos dele
até que o cancelamento estivesse feito, mas vê-lo
arrumar suas coisas para ficar comigo dava uma
conotação completamente diferente dentro da
minha mente. Mesmo que eu tentasse sossegá-la.

— Quer algo para beber? — perguntou


enquanto eu andava pelo apartamento que mais se
parecia com um estúdio. Sua cama era enorme e
ficava bem no meio do local. A cozinha ficava no

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canto direito, ao lado de uma grande janela, e era

muito pequena, separada apenas por uma mureta. O


local era feito de tijolo aparente vermelho, num
estilo bastante Londrino.

Os lençóis na cama estavam desarrumados,


e o chão, levemente bagunçado. Também pude
notar alguns calçados e roupas jogadas pelos
cantos. Eu nunca havia visto nada assim. Foi
estranho e ao mesmo tempo me trouxe uma
sensação de humanidade. Deus, eu vivi em uma

redoma de vidro por tanto tempo!


Que coisa mais triste.
— Não, estou bem, obrigada — respondi,
tentando me recompor. Pegando meu telefone na

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bolsa, o liguei e aguardei as notificações pirarem no

aparelho. Quando levantei a cabeça, percebi Knox


me observando por alguns segundos antes de se
aproximar, suas mãos foram para os meus ombros e

levemente me forçaram para que eu sentasse.


— Você parece nervosa — olhei para ele
horrorizada com a sua brilhante dedução, era nítido
que eu estava nervosa. — Tudo bem, desculpe. Eu
sei que você está preocupada com o cancelamento
do casamento...

— Eu não sei onde eu estava com a cabeça,


Knox — interrompi sua frase. No entanto, eu sabia.
O problema era justamente este, minha cabeça. Eu
fiquei completamente pirada com o que aconteceu e

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me enfiei no fundo de uma garrafa (ou talvez

tenham sido três), alguns drinques a mais e levei


Knox comigo. — E ainda carreguei você nesta
enrascada.

— Você não me carregou para nada — suas


mãos pegaram o meu rosto e seguraram firmemente
enquanto ele falava. Seus olhos estavam vidrados,
profundamente fixos nos meus enquanto
complementava. — Eu sabia exatamente no que
estava me metendo.

— Você casou comigo para transar —


afirmei rindo sem humor.
— Casei com você porque sabia que
poderíamos cancelar em seguida. Resolvi realizar

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os itens da sua lista porque, bem, tudo bem, eu

queria transar com você. Deus! Linda, quero foder


você agora mesmo — suspirei com a sua
declaração e deixei meus olhos mirarem seus

lábios. Lembrava de como era beijá-los, mas,


honestamente, as lembranças já não pareciam tão
boas quanto a realidade. — Você é a mulher mais
bela e sexy que já conheci.
— Não me beije, Knox. Por favor —
implorei baixinho.

— Por que não? — seu tom desceu como se


estivesse contando um segredo para mim.
Porque deixaria tudo mais difícil, pensei
enquanto me levantava e ia para longe dele.

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— Porque isso só atrapalharia nossos

planos, Ryan Knoxville. E você me prometeu


diversão e minha lista completa. Se ficarmos aqui,
perderemos o dia.

Ele não engoliu a minha justificativa. Na


verdade, parecia até um tanto chateado comigo.
Bem, eu entendia, ele tinha acabado de me fazer
um elogio e dar a entender que me foderia de todas
as formas que eu quisesse, mas eu o tinha
descartado. Ryan parecia perceptivo e inteligente,

então contei com o fato de que ele entenderia que


eu apenas não queria complicar as coisas ainda
mais entre a gente. Rezei para que ele não me
forçasse a falar sobre quem eu era ou sobre o que

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estava acontecendo comigo.

**

LISTA DE MERDAS PARA FAZER EM


LAS VEGAS!
1. Ir para Las Vegas;
2. Gastar uma pequena fortuna em um
cassino;
3. Experimentar drinques exóticos enquanto

reclama da vida para o Barman;


4. Ver um show de go-go boy;
5. Dançar em frente ao Bellagio;
6. Andar em uma limousine com a cabeça

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para fora do teto solar enquanto canto a música

tema de Titanic;
7. Fazer uma tatuagem;
8. Assistir a um show cover da Tina Turner;

9. Casar com um estranho na capela do


Elvis;
10. Transar com o marido estranho.

— Você tem os itens 1, 2, 3, 9 e 10, esse


com louvor, concluídos — Knox disse olhando

para a lista, mas seu tom de voz era mais sacana


quando citou os dois últimos números, já que eu
tinha me casado e feito sexo com ele naquela noite.
Tínhamos saído da casa dele e voltado ao

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meu quarto de hotel, para que eu pudesse tomar um

banho antes de irmos para a nossa primeira


aventura. O clima estava maravilhoso, nem quente,
nem frio.

— E você se sente muito orgulhoso sobre


isso, imagino — revirei os olhos, mas ele
provavelmente não viu, uma vez que eu estava de
costas enquanto revirava minha bagagem atrás da
roupa ideal para fazer turismo. — Que tipo de
roupa devo usar? — perguntei, puxando um vestido

soltinho e mostrando para ele o modelo.


Knox olhou por um tempo a peça de roupa e
depois voltou sua atenção para mim novamente.
— Deixe esse para a noite. Jeans e blusa

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está bom — mas seus olhos continuavam em mim,

queimando, me olhando com um desejo latente.


Quase palpável. Sua fisionomia, mesmo a sua
postura, me diziam que ele estava excitado. E para

ser honesta, eu o queria também, sentia atração por


ele, mas um sentimento de medo me invadira
quando acordei e o vira na minha cama. Nada
daquilo poderia ser levado a diante. Era injusto e
perigoso.
Injusto para Knox.

Perigoso para mim.


— Tudo bem... — murmurei, virando de
costas para ele novamente. — Eu vou tomar um
banho e você pode ficar à vontade. Tem... hum...

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Tem bebida no minibar, tem chocolate também e...

— Leve o tempo que precisar, bonita — ele


disse. A ênfase nas palavras não me passou
despercebida. Ele usou a palavra para dizer que eu

era linda. Bela.


Entrando no banheiro, puxei uma longa
respiração e sentei na privada. Apoiei a cabeça nas
mãos e os cotovelos nos joelhos, tentando me
recompor, pensar direito no que estava fazendo.
Volte para casa, Linda. Volte agora. Encare

seus problemas. Vá encarar a sua situação de


frente, como seu pai sempre a ensinou.
O problema era que meu pai só havia me
ensinado a enfrentar os problemas administrativos

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de frente. Meus pais não me prepararam para os

problemas da vida. Dinheiro foi tudo o que aprendi


a administrar.
Levantei e fui até a porta, pronta para pedir

a Knox que fosse embora, que meus advogados


entrariam em contato com ele. Voltar para casa e
resolver tudo como uma menina grande.
Então eu parei. Mantive minha mão na
maçaneta e fiquei a encarando. Analisei seu
formato, o tom da minha pele, minhas unhas bem

tratadas e vermelhas... Cuidar da minha aparência


era a única coisa que me fazia parar de trabalhar. Ir
ao spa, cuidar do meu corpo, cabelos, unhas...
Eu nunca cuidei da minha alma.

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Há quanto tempo eu não parava de trabalhar

para viajar, me divertir, ficar à toa, sem fazer nada?


Responda rápido, Linda:
Qual é o seu programa de televisão

favorito?
A cor das cortinas da sua suíte?
Quantos amigos você tem na sua lista de
contatos?
Tirei a mão da maçaneta como se tivesse
sido queimada e pisquei algumas vezes, percebendo

que havia lágrimas sorrateiras tentando escapar dos


meus olhos.
Não. Eu não voltaria ainda. Não sem antes
me divertir. Foi loucura casar com Knox, mas ao

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estar bêbada, percebi que não estava vivendo,

apenas sobrevivendo. Eu estava perdendo a minha


juventude, morrendo sem ao menos desfrutar das
oportunidades que tinha.

Quando eu finalmente cancelasse aquele


casamento, voltaria para Los Angeles e então
provavelmente... NADA! Um grande nada estaria
me esperando.

**

Incrivelmente demorei mais de uma hora no


banheiro. Era como se a água escorrendo pelo meu
corpo me trouxesse uma sensação nova. A beleza

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das bolhas de sabão, que eu fiz questão de produzir

muitas, parecia uma novidade aos meus olhos. A


transparência levemente colorida da furta-cor me
fez sorrir. Eu me esfreguei, sentindo o leve arranhar

da esponja na pele enquanto respirava e sentia o


cheiro dos sais de banho caros disponibilizados
pelo hotel.
Deixei os cabelos molhados, para que
secasse naturalmente, não dei a mínima para
maquiagem e me vesti com o jeans e a blusa que

Knox havia sugerido. Quando me olhei no espelho,


me senti linda.
E livre.
Ao sair do banheiro, me deparei com Knox

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dormindo na ponta da cama, as pernas estavam

dobradas e os pés ainda estavam no chão. Ele


provavelmente estava sentado e apenas se jogou
para trás. Devia estar cansado.

Caminhei até minha mala e puxei meu


relógio para saber as horas. Era quase hora do
almoço, se eu estivesse seguindo as regras da antiga
Linda, estaria pedindo que Stacy providenciasse
minha comida enquanto eu analisava mais um
relatório ou me preparava para entrar em uma

reunião. Mas eu não estava sendo a Linda de


sempre, então voltei para a cama e me sentei ao
lado dele.
Analisei seu semblante pacífico enquanto

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dormia e tentei não sorrir ou achá-lo tão perfeito,

mas era praticamente impossível. Mesmo


inconsciente, Knox ainda preenchia o ambiente.
Era um contágio diferente. Difícil de explicar, mas

dentro de mim, eu conseguia sentir.


Delicadamente toquei seu braço e o sacudi.
— Ei, Knox, você está cansado? — seu
sorriso se abriu antes dos olhos. Deus! Ele sempre
estava feliz?
— Você demorou — respondeu com a voz

baixa e um pouco rouca. Sentou-se na cama e me


olhou rapidamente, mas antes que começasse,
parou para me analisar e sorriu. — Você está muito
bonita.

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Obrigada, eu me sinto bonita, pensei, mas

não respondi.
— Podemos ir? Estou pronta — informei,
me levantando.

— Sim! Nossa diversão vai começar!

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Capítulo 4
O melhor cassino

Como não havíamos almoçado ainda e


Knox alegou que eu não tinha ideia do que era
diversão e jogatina, ele resolveu me levar em um
cassino diferente.
— E o que tem de diferente neste cassino?
— perguntei enquanto íamos em direção às ruas

paralelas de Vegas.
— É italiano, tem um restaurante lá e... —
ele me fitou com animação, mas procurou fazer um
suspense.

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— E o que, Knox? — incentivei, ficando

animada.
— Não é um hotel cassino — murchei e
franzi o cenho sem entender.

— E o que tem isso?


— É da máfia — sussurrou, se
aproximando, e eu me aproximei também e olhei
para os lados, sem saber o porquê.
— Sério?
— Não! — Knox riu e deu um passo para

trás, me fazendo rir. — É apenas um cassino com


um excelente restaurante na cobertura. Pegando na
minha mão, ele voltou a andar e me puxou com ele.
Seguimos até o restaurante a pé e

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permanecemos durante todo o tempo de mãos

dadas, o que me deixava desconfortável e muito


confortável ao mesmo tempo. Ao chegarmos em
frente ao belo casarão, analisei a bela estrutura por

um tempo e percebi que fora construído para


parecer antigo e europeu, como os prédios italianos.
A placa elegante e luminosa dizia Italia Casinò &
Cucina. Era um local era imponente e pela primeira
vez fiquei preocupada com a forma simples com a
qual estávamos vestidos.

— Não estamos vestidos para entrar em um


lugar desses, Knox — avisei, mas fui ignorada.
Subindo a grande escadaria da frente, Knox
me puxou com ele até que estivéssemos na entrada

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do local. Nós entramos, e Knox não parou de andar

até atravessarmos todo o local e subirmos uma


nova leva de degraus, para enfim chegarmos no
enorme e sofisticado restaurante. Os garçons

trabalhavam com fluidez em volta das mesas, e os


clientes estavam sentados fazendo seus pedidos ou
apreciando suas refeições. Aparentemente ninguém
tinha notado a nossa presença.
— Knox, ei! Como vai? — um dos garçons
nos abordou.

— Gerry, meu amigo! — exclamou meu


marido de mentirinha. — Como está?
— Tem tempo que não te vemos, cara —
Gerry disse ao apertar a mão de Knox.

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— Ocupado no bar do hotel — ele

justificou. — Esta é Linda, minha esposa —


congelei quando ele me apresentou daquela forma.
— Caramba, cara! Parabéns! — desta vez o

rapaz abraçou Knox, o fazendo soltar minha mão.


— Obrigado! — continuou a farsa. — Ela é
a mulher mais bela que já vi na vida, não poderia
deixar escapar.
Aquilo me fez corar e sorrir. Olhei para
meus pés e enfiei as mão nos bolsos do jeans

tentando disfarçar.
— Vocês vão almoçar aqui? — Gerry
perguntou.
— Só se Antonio estiver na cozinha —

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Knox desafiou, abrindo os braços.

— Claro que está! Vá em frente. Foi um


prazer conhecê-la, Senhora Knoxville. — o garçom
fez uma reverência de brincadeira.

— Obrigada. Foi um prazer, Gerry —


minha voz era quase esganiçada. Mas sendo sincera
e totalmente maluca, eu tinha gostado quando o
garçom me chamara de Senhora Knoxville.
Precisarei de internação assim que chegar
em L.A.

Ryan me guiou por entre as mesas, mas não


paramos em nenhuma. Quando vi, fomos em
direção a uma enorme porta de metal. Trabalhando
com hotéis, eu conhecia muito bem aquela porta,

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estávamos indo em direção à cozinha.

Knox empurrou a porta enorme e gritou


“Buongiorno!” para que todos o ouvissem. Mesmo
no ruído da cozinha, cheia de panelas chiando e

batendo, comandos do chefe de cozinha, máquinas


trabalhando e homens falando alto, ele conseguiu
se fazer escutar. Todos no ambiente fizeram uma
pausa para olhar em nossa direção.
— Knoxville! — um homem corpulento e
muito vermelho, com sua dólmã branca e

levemente suja de algo vermelho, exclamou e


caminhou até nós. — Il mio testimone in cucina! —
o homem, que mais parecia Gerard Depardieu,
abraçou Knox.

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Ele trabalhou na cozinha desse restaurante?

Meu italiano não era minha melhor língua, mas


pude entender o que ele dissera: o melhor homem
na cozinha.

— Ho appena lavato i piatti — eu apenas


lavava os pratos, Knox respondeu humildemente.
— Antonio, esta é minha esposa, Linda. Linda,
baby, este é Antonio, o melhor chefe Napolitano de
Las Vegas.
Novamente ele me apresentou como sua

esposa. O que ele queria com aquilo? Brincar?


— Bella! Pio bella! — o homem pegou
minha mão e a beijou. Muito bonita. Ele disse, todo
namorador para mim.

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— Grazie mille! — agradeci sorrindo para a

simpatia do homem.
— Oh! Parla Italiano! Ancora meglio!

Ancora meglio[4] — festejou o homem.

Olhei para Knox e percebi que ele me


analisava com algo no olhar. Não pude identificar o
que era, mas parecia... hum... sexy. Mantive os
olhos nos dele, desafiando-o. Eu não queria desviar
meu olhar primeiro.

— Italiano, mas não Napolitano — os olhos


de Antonio brilharam, eu sabia que Napolitanos
amavam muito o seu lugar. Nápoles é uma região
do Sul da Itália um pouco ignorada e também
separatista em relação ao restante do país. Tudo que

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conhecia era fruto de uma das poucas viagens que

fiz. Era bela, porém parecia que os italianos


falavam outra língua.
— Gosto dela, Knoxville, eu gosto dela —

Antonio sorriu agradavelmente para mim.


— Sim, sim, tire os olhos. É minha! —
Knox brincou batendo no ombro do chef. —
Antonio, queremos saber se podemos almoçar
naquela mesa — Knox pediu. — E se eu posso
preparar para ela aquele espaguete.

— Hum... romântico! — Antonio brincou.


— Claro, sigam! Sigam!
O homem nos direcionou até a tal mesa
misteriosa. Nós atravessamos a cozinha, e para

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mostrar um pouco de consideração à equipe, levei

as mãos em meus cabelos e os segurei tentando


mostrar ao menos a minha intenção de evitar que
algum fio caísse na cozinha.

Andando pelas cozinhas dos hotéis, eu tinha


total noção dos aparatos que deveria usar para
poder visitá-las. Quando finalmente chegamos em
frente à outra porta, Knox a abriu e me levou para
dentro. O local era simplesmente lindo. A vista da
varanda dava para toda Las Vegas.

— A noite é muito mais bonito, mas temos


outros planos para a noite — respirei fundo e senti
o vento mais gelado que batia em mim enquanto
novamente analisava toda a vista. Mais uma vez

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fiquei admirada com tudo aquilo. Quanto tempo

fazia que eu não parava para olhar o visual da


minha cidade? L.A era linda. Eu tinha parado em
algum momento para olhar pela janela do hotel em

Paris quando fui visitar alguns investidores? Não,


eu nem tinha aberto as cortinas.
— Aqui é lindo, Knox! — suspirei e o fitei
em seguida. — Obrigada.
— Não me agradeça ainda — puxou a
cadeira e fez sinal para que eu me sentasse. —

Aproveite esse tempo para contemplar e pensar se


quiser. Eu volto logo.
Antes de partir, ele me deu um beijo no
rosto, fazendo com que nós dois nos olhássemos

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tentando entender o que estava acontecendo.

Enquanto Knox estava na cozinha, olhei a


bela vista enquanto alisava meu rosto, exatamente
no local onde ele havia beijado.

**

Não demorou muito para ele retornar com


os nossos pratos em uma grande bandeja. Ele serviu
tudo na mesa e se sentou à minha frente. Logo um

dos rapazes da cozinha estava nos servindo vinho


tinto e nos desejando um bom apetite. Olhei para o
prato de espaguete na minha frente e admirei a
apresentação do prato. O macarrão estava

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cuidadosamente enrolado, com uma quantidade

generosa de molho por cima e um ramo de


manjericão enfeitando.
— Então você cozinha! — afirmei, pegando

o garfo e a colher para comer.


— Às vezes... — ele disse, dando de
ombros e pegando seus próprios talheres. — No
entanto, eu sei fazer o espaguete mais assassino do
mundo, e foi Antonio quem me ensinou. Achei que
seria legal fazermos coisas diferentes hoje. Como

eu disse, gostaria que você se lembrasse de mim


quando partir. E eu aceitei o desafio de fazer esse
momento inesquecível, caso não se recorde.
Um nó se fez em minha garganta. De

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repente, uma vontade de chorar me invadiu. Por

quê? Por que eu estava agindo daquela forma? Por


que aqueles sentimentos conflituosos brincavam
dentro de mim?

O que aconteceu obviamente tinha mexido


comigo ao ponto de me fazer beber demais e tomar
as decisões que havia tomado e, claro, me feito
conhecer Ryan. Mas estar com ele daquela forma,
daquele jeito, contando os segundos para me livrar
da situação que havíamos nos metido e ao mesmo

tempo sofrendo por estar com as horas contadas


pelo prazo de validade, era confuso.
— Obrigada, Knox. É gentil da sua parte —
agradeci delicadamente e me forcei a comer. A bola

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angustiante ainda estava alojada na garganta.

Tomei um longo gole do vinho e saboreei a bebida


tentando me concentrar em mandar todos aqueles
sentimentos embora.

Aos poucos, o sabor da refeição foi me


fazendo relaxar, e a conversa com Knox foi
limpando a nuvem desconfortável que se fez por
um momento. Ele falou de como foi parar na
cozinha de Antonio e que lavava pratos enquanto
cantava. Rapidamente conquistou a confiança do

chef e com isso, em pouco tempo, estava


preparando pequenos pratos. Mais uma vez fiquei
encantada com o espírito livre de Knox. De como
sua vida não tinha rumo, o que o deixava livre para

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ser aquilo que desejasse e fazer o que bem

entendesse.
Quarenta e oito horas antes eu teria achado
aquilo um absurdo.

Enquanto falávamos e ríamos, eu não fiz


quaisquer perguntas com medo que ele fizesse
questionamentos a mim também, porém uma
pergunta ficava dançando na ponta da minha
língua. Finalmente, quando não consegui segurar,
perguntei:

— Knox, por que você me apresentou como


sua esposa? — ele comia a sua massa e parou de
mastigar por um momento quando ouviu minha
pergunta. Largou os talheres com as pontas

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apoiadas no prato e pegou a taça de vinho. Assim

que ele engoliu a comida, levou a taça aos lábios e


bebeu um gole. Quando finalmente largou a taça,
olhou para mim, diretamente em meus olhos, e

respondeu:
— Você é a minha esposa... Por enquanto
— revirei os olhos para ele. — Eu só queria saber
qual é a sensação de apresentar uma mulher tão
bela como minha.
Argh! Por que esse homem tinha que ser

tão charmoso? Por que sua voz, postura, a porra


do seu olhar tinha que preencher o ambiente
daquela forma?
Percebendo que fiquei envergonhada com

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aquelas palavras, ele tratou de mudar o assunto.

— Pronta para a sobremesa? — disparou, se


levantando. Assenti, animada, mas minha
empolgação mudou minutos depois, quando ele

trouxe Tiramisù.
Eu sorri em agradecimento, mas de alguma
forma ele percebeu que eu não estava empolgada
com a sobremesa.
— Você não gosta de Tiramisù — ele
afirmou.

— Não é o meu favorito, mas eu como... —


antes que eu pudesse terminar a sentença, ele
recolheu a sobremesa e voltou para a cozinha.
Quando retornou, colocou uma taça na minha

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frente, me fazendo sorrir.

— Gelado de limão com espumante demi-


sec — anunciou. Bati palmas para a taça e peguei a
colher louca para provar. Eu conhecia a sobremesa,

era italiana também, mas muito mais servida na


América do Sul, mais precisamente na Argentina.
— Pela sua cara, você aprova — Ryan sentou na
minha frente e começou a provar o seu Tiramisù.
— Eu amo sobremesas cítricas!
Nós apreciamos nossos doces, e quando

finalmente terminamos, Knox levantou e estendeu a


mão para mim.
— Pronta para o cassino? — dei a mão para
ele e levantei.

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— Knox, eu realmente não estou vestida

para o cassino — justifiquei enquanto ele me


levava ao longo da sacada onde estávamos.
— Você está perfeitamente bem vestida

para o cassino que vamos — paramos em frente a


uma porta e um burburinho animado saía dela. Uma
placa na porta dizia: Apenas funcionários.
Quando a porta foi aberta, avistei um grupo
de pelo menos oito pessoas em torno de mesas,
alguns jogando poker, outros jogando na roleta. E

todos com os rostos desenhados com riscos


vermelhos.
— Knox! — alguns gritaram em boas-
vindas.

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Ryan olhou para mim e disse:

— Pronta para se divertir?

**

No cassino da cozinha não rolava dinheiro.


Apenas um batom vermelho de marca vagabunda
como recompensa. Aquele que ganhava a partida
tinha autorização para desenhar o que quisesse no
rosto dos perdedores. Achei barulhento, o local era

abafado e tinha até um cheiro desagradável de


gordura misturado com suor. Entretanto eu posso
afirmar: nunca me diverti tanto em toda a minha
vida.

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Escolhemos a mesa de dados para jogar.

Era antiga, alguns números já estavam


apagados na mesa — imagino que tenha sido
trocada por uma nova no cassino, e os funcionários

recolheram a antiga.
— Sua vez, baby! — Knox disse
empolgado, me entregando os dados. Eu
praticamente saltitava. Peguei os dados e os
chacoalhei na mão, mas antes de jogá-los na mesa,
estendi minha mão fechada para ele, bem na frente

do seu rosto.
— Assopra para dar sorte! — pedi.
Knox pegou a minha mão com delicadeza e
olhou para mim antes de puxar meu punho fechado

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para seus lábios e beijar. Senti meu rosto esquentar

com aquela atitude. Quando ele soltou a minha


mão, sacodi os dados uma última vez e soltei. O
resultado foi exatamente o número que eu havia

apostado. Vibrei e joguei minhas mãos para cima


em comemoração. Senti as mãos de Knox em
minha cintura, me fazendo parar de pular. Ele se
postou bem atrás de mim e, ainda com suas mãos
em torno do meu corpo, disse próximo ao meu
ouvido:

— Acho que te dou sorte, bonita —


brincou, com a voz rouca, fazendo meu corpo todo
reagir a ele.
Mal sabia que ele me trazia muito mais.

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Capítulo 5
Marcada na pele

— Próxima parada... Tatuagem! — Ryan


informou quando saímos do cassino. Eu ainda
passava um lenço demaquilante, que consegui
emprestado de uma das funcionárias que estava no
cassino da cozinha em seu horário de descanso.
— Eu não sei, Knox! Eu nunca fiz uma —

estava com medo de sentir dor, porém também


excitada. A vontade de fazer uma tatuagem era
grande.
— Mais um motivo para fazer. Alguma

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ideia do que quer? — andamos lado a lado de volta


para a Strip.
— Não, talvez algo para lembrar esse
momento? — disse como se pedisse aprovação para

a minha ideia.
— Legal, vou posar para o tatuador. Você
prefere nu? — brincou, e eu o empurrei com o
ombro e comecei a andar mais rápido. — Não, não!
— ele disse e pegou na minha mão. — Você não
vai fugir — Knox me parou, fazendo olhar para ele.

— A menos que realmente não queira — emendou


com preocupação.
— Eu quero! Só estou com medo de sentir
dor.

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Dor.

Eu não queria senti-la. Nenhuma delas, nem


a da cabeça, nem a do coração e muito menos a da
alma.

— Vamos escolher um local que não


machuque tanto — disse, tentando me encorajar.
Durante todo o caminho mantivemos nossas mãos
dadas. Foi confortável, normal.
Foi bem-vindo.

**

Escolhi dadinhos.
Queria algo que simbolizasse a minha

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aventura em Vegas, mas também algo que me

lembrasse Knox. Enquanto folheava cada uma das


páginas cobertas de desenhos, tentava encontrar o
símbolo perfeito para colocar em meu corpo. Foi

então que o brilho do anel dele, que estava em meu


polegar, chamou minha atenção. Quando eu disse
ao tatuador o que queria, fiquei aliviada por Knox
não comentar nada a respeito da minha escolha.
Ao me sentar na cadeira, apontei para o
tatuador o local no qual ele deveria fazer a

tatuagem. Seria pequena e delicada e ficaria no meu


ombro.
O tatuador começou, e só o barulho da
máquina já me fez apavorada. Knox pegou a minha

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mão e fez um grande trabalho tentando não rir de

mim. Quando finalmente o tatuador começou o


desenho na minha pele, me senti relaxar, doía, mas
era suportável. As sobrancelhas de Knox

levantaram em expectativa quando me perguntou:


— Não está doendo?
— Um pouco. Está queimando, mas você
tinha razão, escolher o local certo faz toda a
diferença — disse, aliviada e mais animada com o
desenho. Ryan tinha apontado o local exato em

minha clavícula para que não sentisse tanta dor, já


que aquele local era um dos mais sensíveis. Apertei
a mão de Knox delicadamente para dar ênfase às
palavras seguintes: — Obrigada. Está realmente

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sendo muito divertido, Knox.

O homem pareceu ter o rosto todo


transformado em euforia. Como se ele realmente
estivesse preocupado com a minha diversão, com a

minha felicidade. De fato ele estava dizendo o


tempo inteiro que se importava em me dar
momentos inesquecíveis, mas na vida todos nós
falamos muito e prometemos ainda mais. E quase
sempre são promessas vazias.
Prometemos dieta na segunda-feira;

Prometemos o “na alegria e na tristeza” para


o padre;
Dizemos que será a última vez que vamos
dirigir acima do limite de velocidade;

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Juramos que é a última vez que

machucamos alguém...
Mas quando realmente fazemos isso? As
pessoas sempre falham em alguma promessa, seja

para si ou para outra pessoa. Então acho que nos


acostumamos a não levar muito a sério as palavras.
Muito menos as promessas.
Knox parecia diferente. Não que eu tivesse
muito contato com pessoas fora do ambiente de
trabalho, mas pelo o que eu conhecia do mundo, os

seres humanos estavam esquecendo a força da


palavra. Parecia que promessas e acordos não
valiam de nada se não fossem gravados ou
colocados em um pedaço de papel, que exigia a sua

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assinatura e cláusulas que te prejudiquem caso não

cumpra a sua parte no acordo.


Com Ryan Knoxville as palavras valiam.
Pelo menos era o que ele estava me mostrando. E

por Deus, tudo em mim gritava para acreditar nele,


para querer confiar nele. Eu me sentia protegida e
livre ao lado daquele homem. Eu me sentia
completamente imprudente de estar com ele
daquela forma, e ainda assim nunca me senti tão
bem.

— Ficou linda! — anunciei, animada,


depois de olhar por um longo tempo no espelho.
— Quero ver! — Knox se aproximou e
olhou para o pequeno desenho em meu ombro

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através do reflexo do espelho. Enquanto ele

admirava minha tatuagem, eu admirava seu olhar


para mim. Com um sorriso satisfeito, ele dedicou
sua atenção para mim e disse para o tatuador:

— Quero uma igual a dela. Embaixo do


braço e um pouco maior — exigiu.
— Só se for agora, amigo — o homem
pegou um novo par de luvas pretas e sentou em sua
cadeira pronto para começar.
— Knox...? — maneei a cabeça e pisquei,

tentando entender o que ele estava fazendo.


— Pare com isso, você está parecendo a
garota de Crepúsculo agora — debochou, indo em
direção à cadeira.

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— Garota de Crepúsculo? — do que ele

estava falando?
— É, a que se apaixonada pelo vampiro. Ela
está sempre se piscando toda e balançando a

cabeça, parece um tique nervoso.


— Não tenho ideia do que está falando —
caminhei até onde o tatuador estava e sentei no
local que era ocupado por Knox anteriormente.
— É um filme. Crepúsculo, filme de livro
— explicou. Filme de livro, foi exatamente isso que

me fez voar para Las Vegas. Um filme baseado em


um livro.
— Odeio esse filme — o tatuador
resmungou, fazendo Knox bufar. — Vampiros que

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brilham. Péssimo.

— Pode crer! — meu marido concordou. —


O que fez nos últimos anos, Linda? Não conhecer
Crepúsculo é como viver em outro mundo.

Trabalhando, escondida do mundo real.


Fingindo viver.
— Ei! — Knox chamou, me puxando para
fora dos meus pensamentos. — Lembro de ter
segurado a sua mão, devolva o favor e segure a
minha também — sua palma estava virada para

cima aguardando o toque da minha. Ergui minha


mão e bati na dele antes de apertá-la com força, e
nos mantermos conectados até que ele tivesse os
seus próprios dados.

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LISTA DE MERDAS PARA FAZER EM


LAS VEGAS!
1. Ir para Las Vegas;

2. Gastar uma pequena fortuna em um


cassino;
3. Experimentar drinques exóticos enquanto
reclama da vida para o Barman;
4. Ver um show de go-go boy;
5. Dançar em frente ao Bellagio;

6. Andar em uma limousine com a cabeça


para fora do teto solar enquanto canto a música
tema de Titanic;
7. Fazer uma tatuagem;

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8. Assistir a um show cover da Tina Turner;

9. Casar com um estranho na capela do


Elvis;
10. Transar com o marido estranho.

**

Ao sairmos da loja de tatuagem, me sentia


destemida e pronta para a próxima aventura. Knox
provavelmente percebeu, pois ele parecia ainda

mais alegre. Seu objetivo estava sendo alcançado a


cada minuto. Nós andamos pela Strip, e embora
estivesse uma temperatura agradável, o sol não
estava tímido e nos presenteava com a sua presença

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assim como o azul incrivelmente belo do céu.

Quando foi que percebi o céu?


— Nossa próxima aventura só começa
daqui a uma hora, o que acha de fazermos algo?

Você pode escolher.


Eu travei. Tinha que escolher algo para
divertir e passar o tempo, mas o quê?
— Não tenho ideia — respondi, frustrada.
— Não sei, Ryan.
O rosto de Knox iluminou.

— Você me chamou de Ryan — franzi o


cenho sem entender.
— Já chamei você de Ryan antes, Ryan.
— Foi diferente — disse, simplesmente

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dando de ombros e dispensando o comentário.

Diferente como? Queria saber, mas ele


parecia ter encerrado o assunto. Então também
deixei para lá. Tentando pensar no que eu gostaria

de fazer para passar o tempo, olhei em volta de


onde estávamos e então dei de cara com uma Ross
Dress for Less ao lado do Hard Rock Café. A Ross
era uma loja de departamentos enorme, então
pensei que já que estava fazendo turismo e me
divertindo, poderia muito bem fazer algumas

compras.
— Acho que quero fazer compras —
anunciei, já andando em direção à loja.
— Compras? — o tom de voz mudou de

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relaxado para tenso, quase esganiçado. Olhei para

trás e vi que ele me seguia. — Linda, veja bem...


eu... — ele parou antes que entrássemos na loja.
— O que foi? — olhei para a loja mais uma

vez e voltei minha atenção para ele.


— Eu sei que prometi uma grande farra
hoje, mas eu hum... Sou um barman — justificou
com o rosto mortificado. Parecia tão envergonhado.
Então percebi, em nossas aventuras até o momento,
ele não havia pago. O café da manhã com Yvone, o

almoço no Antonio... Tudo bem, eles eram amigos.


Merda! A tatuagem. Tudo bem, o tatuador
parecia conhecer Ryan, mas não o vi pagando.
— Como pagou pela tatuagem? —

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questionei, voltando a me aproximar dele.

— Não se preocupe com isso, Luke é meu


conhecido — explicou como se não fosse grande
coisa.

— Isso eu percebi — coloquei as mãos na


cintura e perguntei novamente: — Como pagou
pelas tatuagens?
— Troquei por bebidas no bar em que
trabalho. Na próxima semana, ele irá se divertir por
minha conta — cruzando os braços, olhou para o

outro lado da rua, estava envergonhado.


Eu nunca me preocupava com dinheiro.
Nunca ao ponto de sequer abrir a carteira. Onde eu
fosse em L.A sabiam quem eu era. As faturas

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apenas chegavam. Quando eu viajava, geralmente

era a negócios. Quando queria algo, pegava e o


assessor que estivesse comigo se preocupava com o
pagamento. Meu cartão de crédito foi usado por

mim poucas vezes.


— Desculpe, Knox. Eu devia ter me
preocupado mais com isso — eu me sentia horrível.
O cara estava perdendo um dia de trabalho e
precisava se preocupar com o dinheiro gasto.
— Não, não, Linda... Eu... — Deus, ele

estava tão envergonhado...


Puxei a minha bolsa para frente e dei uma
batidinha nela com a mão.
— Não se preocupe, baby... — usei seu

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artifício contra ele. — Eu também posso fazer

minhas mágicas. A farra econômica é por minha


conta.
— Eu não posso aceitar, Linda. Não —

Ryan meneou a cabeça em negação, dando ênfase


às suas palavras.
— Acabo de colocar em minha lista de
desejos, Knoxville — comuniquei. — Bem abaixo
do café da manhã com a Yvone, do almoço do
Antonio e do melhor jogo de dados da minha vida

— pisquei antes de enganchar meu braço no dele.


— Décimo primeiro item na LISTA DE MERDAS
PARA FAZER EM LAS VEGAS: gastar dinheiro
com Knox na Ross Dress for Less.

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Ele foi arrastado para dentro da loja e ficou

emburrado por algum tempo, mas acredito que era


apenas orgulho. Quanto a mim, lógico que já havia
entrado em lojas de departamento. Macy’s, JC

Penney, Marchalls... Eu havia conhecido na


faculdade. Mas uma frequentadora? Não. Essa foi
mais uma coisa que vi com outros olhos.
Peguei um dos cestos com rodinhas que eles
ofereciam e comecei a andar pela loja enquanto
analisava os artigos. O que eu compraria? Eu tinha

tudo... E ainda sentia que não tinha nada. Ou, ao


menos, nada que me agradasse. Knox andou atrás
de mim como se fosse um segurança em silêncio,
até que parei em frente a um vestido preto. Ele era

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justo, ficaria colado no corpo, e suas mangas eram

abaixo dos ombros. Nada de especial, mas


realmente tinha gostado daquele vestido simples.
— Tem um vestido para usar hoje à noite?

— Eu tenho aquele que mostrei mais cedo.


Não coloquei nada muito elaborado na mala.
Faremos algo especial? — tirei os olhos do vestido
e coloquei minha atenção naquele belo homem.
Levantando a sobrancelha como se a pergunta fosse
óbvia demais para ser respondida, Ryan se manteve

calado. — Acha que devo levar?


— Acho que você deve fazer o que quiser
— informou de forma irreverente.
Não diga isso, Knox. Se eu fizer o que eu

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quiser, nunca mais sairei daqui. Ficarei com você.

Meu pensamento me assustou. Minha


vontade de deixar tudo o que me aguardava em Los
Angeles aumentava a cada segundo.

Peguei o vestido, e continuamos passeando


pela loja, quando uma pergunta surgiu na cabeça.
— Knox? — chamei e me aproximei de
onde ele estava, perto de uma ilha de mostruário de
relógios. Ele tinha um dos relógios em sua mão, era
praticamente todo negro, mesmo os ponteiros eram

pretos, e pequenos pontinhos sinalizavam os


números. — É bonito — apontei para a peça.
— Sim, é — ele devolveu o relógio e se
virou para mim. — Você queria me dizer algo?

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— Uma pergunta, na verdade — iniciei. —

Quando assinamos o livro de registro de


casamento... Viu qual era o meu nome?
— Devo ter visto, Linda, mas não pergunte

se me lembro. Porque eu não... — sua face se


transformou, passou de uma expressão relaxada
para intrigada. — Por quê?
— É Hatman — respondi com a certeza de
que ele reconheceria.
— Sim? — instigou. — O que tem?

— Então, Senhor Knoxville, gostou do


relógio? — a vendedora simpática interrompeu a
nossa conversa, e Knox deu atenção para ela.
— Sim, é lindo. Mas não levarei. Obrigado

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— seu telefone acabou tocando, e ele sorriu antes

de atender. — Me dê uma boa notícia, Elton —


pediu, se afastando de mim e da vendedora. Olhei
para o relógio que ele estava verificando.

— Separe-o para presente — solicitei sem


perguntar o valor.
— Sim, senhora — a vendedora
prontamente pegou a peça e começou a trabalhar
para fazer a sua venda.

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Capítulo 6
Irônico

— Eu não vou entrar sozinha aí! — disse


pela terceira vez.
— Bem, eu não estou pessoalmente
animado para ver o elenco menos bonito de Magic
Mike.
— Magic Mike?

— Deus, o que você faz da vida? —


perguntou assim que me mostrei confusa sobre o tal
Magic Mike. Passada a nossa quase conversa,
decidi que seria melhor não dizer quem eu era uma

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vez que ele não percebeu a dimensão daquele


sobrenome.
— Não vou entrar num clube de mulheres
sozinha, Knox — voltei ao assunto rapidamente.

— Eu não posso entrar em um clube de


mulheres com você, Linda. Não sei você lembra
sobre ontem à noite, mas eu sou um menino.
— Então vamos cancelar.
— Não! Você vai, e eu vou organizar os
itens que faltam da lista.

— Knox... — choraminguei.
— Sem Knox, vá se divertir e peça uma
dança na cadeira — ele piscou, enfiou alguns
dólares em meu bolso, tirou as sacolas de compras

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das minhas mãos e me deixou onde eu estava.

Entrei no ambiente escuro e sofisticado me


sentindo completamente patética. Não estava
vestida para um clube de mulheres, nem estava

preparada psicologicamente também. O mais


próximo que estivesse de saber como funcionava
um lugar desses foi quando acompanhei o
noticiário sobre Orange Kiss, um clube de elite para
mulheres em San Diego que estava envolvido em
um esquema mafioso de lavagem de dinheiro.

Tirando isso? Nada.


Não havia nenhum show, e comecei a
pensar que talvez, naquele horário, não tivesse
mesmo shows. Fui até o bar e levantei a mão,

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pedindo para o barman se aproximar.

— Um gin tônica, mais gin do que tônica —


solicitei, e o homem imediatamente começou a
preparar. De repente, franzi o cenho e olhei em

volta novamente. — Mas que... — o bar estava


vazio, exceto, o garçom e eu. — Não tem show
hoje?
— Os shows iniciam após as nove horas,
senhora Knoxville — levantei a sobrancelha para o
garçom.

— Knox está metido nisso — afirmei. Claro


que estava, o garçom tinha feito questão de me
chamar pelo nome de casada. — Mais um de seus
favores.

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— Pode apostar que sim. Ele pediu para a

senhora ir até o palco e aguardar. Meu nome é


Elton.
Elton? O cara do telefone?

— Prazer, Elton, sou Linda, mas isso você


já sabia.
— Pode apostar que sim — ele entregou o
gin e apontou para que eu fosse para o palco.
Assim que me sentei, uma música, que era
impossível não reconhecer, mesmo para mim, uma

alienada no quesito viver a vida, começou a tocar.


Era MMMBop, do Hanson.
— Puta que pariu! — exclamei assim que vi
Knox com uma peruca loira e longa fingindo tocar

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teclado quando as cortinas se abriram.

QUE. MERDA. ERA. AQUELA?


Ele fez todos os tipos de danças ridículas já
inventadas pelo homem enquanto eu tentava não

fazer xixi de tanto rir. Arrancando a peruca da


cabeça e jogando em mim, Ryan virou de costas e
rebolou, me fazendo quase relinchar como um
cavalo louco. As lágrimas praticamente me
cegavam.
Quando ele se aproximou de mim, esticou a

mão para que eu pegasse. Ainda rindo, fiz o que ele


pediu e subi no palco. Ele me fez dançar na forma
mais ridícula possível junto com ele. E o pior,
pulamos amarelinha imaginária. Deus! Eu nunca ri

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tanto na vida!

Tirei as notas de dólar do meu bolso e


comecei a enfiar no cós da sua calça, enquanto ele
fazia uns movimentos exagerados.

— Veja, esse é o passo de dança lombriga


epilética — gargalhei, ouvindo o que ele dizia. Em
seguida, pegou minhas mãos e esfregou em seu
peito e barriga enquanto continuava com o
movimento.
A música acabou, mas minha risada

continuava ecoando pelo clube.

**

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LAS VEGAS!
1. Ir para Las Vegas;
2. Gastar uma pequena fortuna em um

cassino;
3. Experimentar drinques exóticos enquanto
reclama da vida para o Barman;
4. Ver um show do go-go boy;
5. Dançar em frente ao Bellagio;
6. Andar em uma limousine com a cabeça

para fora do teto solar enquanto canto a música


tema de Titanic;
7. Fazer uma tatuagem;
8. Assistir a um show cover da Tina Turner;

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9. Casar com um estranho na capela do

Elvis;
10. Transar com o marido estranho.

Sentados na cabine, de frente para o palco,


compartilhando o meu gin, Knox e eu
continuávamos sorrindo feito duas crianças.
— Você é a pessoa mais maluca que já
conheci.
— Obrigado — agradeceu com uma

pequena reverência. — Acredite, maluco é bom.


— Não, sou eu quem deve agradecer, Knox
— sussurrei. Peguei sua mão e mantive minha
atenção na minha mão sobre a dele. — Você queria

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que fosse inesquecível. Já é, Knox, já é — dito

aquilo, me levantei e fui em direção ao bar. Pedi


mais um gin para mim e solicitei que Elton levasse
o que Knox quisesse beber.

Perguntei onde ficava o banheiro e, assim


que me apontaram a direção correta, caminhei
diretamente para ele. Entrei e fechei a porta, me
encostando nela e fechando os olhos. Eu já não
tinha mais certeza de que sairia ilesa daquele dia.
Começava a pensar que ter ido para Vegas fora

uma imprudência, mas topar passar o dia com Ryan


foi a maior das loucuras. Senti uma leve pontada na
cabeça e fui até a pia molhar o rosto.
Devia ter trazido os analgésicos que

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Oswald receitou.

Talvez eu deva dispensar o gin.


Pensei sobre o assunto. Meu rosto corado,
os olhos brilhantes e um pequeno vislumbre em

minha tatuagem foram suficientes para me fazer


pensar que eu estava linda. Normal.
Eu parecia uma garota normal. Uma jovem
mulher vivendo a vida, aproveitando um feriado
com o namorado.
Interessante.

Knox e eu mal nos conhecíamos, e já


éramos casados. Por um momento, me permiti
pensar em como seria namorar com ele. Sempre
seria divertido? Ele se esforçaria para me

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surpreender da mesma forma?

Eu teria ciúmes dele, ou ele teria de mim?


Sozinha, naquele banheiro, me permiti
sonhar e querer aquilo, mesmo que não fosse

possível. Éramos de mundos completamente


diferentes, e quando ele soubesse a verdade,
provavelmente nunca mais olharia para mim. Era
melhor que terminasse daquela forma, assim ele
teria uma bela lembrança minha para sempre, assim
como eu teria dele.

**

Saímos do clube, nos despedimos de Elton e

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seguimos pela Strip. Procurei admirar a estrutura

do local como uma turista, deixando de lado a


empresária do setor hoteleiro. Foi interessante me
focar nas cores, na beleza e arquitetura dos prédios

que replicavam as principais maravilhas do mundo,


e não ficar analisando como eram seus amenities —
o que os leigos conheciam por xampuzinhos ao lado
da pia do banheiro —, ou qual era o ticket médio de
um hotel daqueles. Eu apenas apreciei.
— Como é a sua família, Linda? — Ryan

perguntou enquanto passeávamos, e meu corpo


todo ficou tenso. Provavelmente ele percebeu, me
analisou enquanto eu tentava procurar as palavras.
— Meus pais eram divorciados e meu pai

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morreu. Mamãe é casada com um médico, e não

tenho irmãos — dei de ombros.


Fui superficial, eu sabia, mas ele pareceu
entender que eu não queria falar mais, então passou

a falar de si:
— Meus pais ainda estão vivos. Moram em
Sacramento, não tenho irmão, embora Noel, já
conversamos sobre ele, o filho de Yvone... —
explicou, relembrando a conversa durante o café da
manhã. — Ele foi como um irmão. Os rapazes do

Antonio, Elton e Philip, você não o conheceu, mas


irá em breve, são como família para mim.
— Sente falta dos seus pais? — murmurei a
pergunta. Ele provavelmente devolveria o

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questionamento para mim, mas minha curiosidade

tinha falado mais alto. Queria saber mais dos


sentimentos daquele homem peculiar.
— Eu sinto, falo com eles toda a semana —

respondeu com uma pitada de nostalgia.


— Imagino... — murmurei. Consegui sentir
aquelas palavras e acabei por sentir falta dos meus
pais também. Inclusive das coisas que nunca
tivemos a oportunidade de fazer e compartilhar
como uma família. Bem, ao menos nos moldes que

eu considerava serem de uma família. — Estou


ficando com fome... — comentei e procurei mudar
o tom da conversa.
— Quero levar você para jantar em um

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lugar especial, não queria que comesse agora.

— Outra refeição especial? — indaguei,


curiosa. — Você está me mimando, marido.
— Você merece — informou, dando uma

piscada, mas novamente um clima se instalou entre


nós. Seu belo rosto sorriu por inteiro, inclusive os
olhos, com as pequenas rugas que eu tanto gostava.
— Espere aqui — ele me devolveu as sacolas,
atravessou a rua correndo e entrou em uma pequena
loja de doces do outro lado.

Quando retornou, me entregou uma garrafa


d’água e um pacote de biscoitos. Quando os abri,
olhei para o formato de unicórnios graciosos e dei
de ombros antes de morder o primeiro. Fechei meus

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olhos e gemi. Eram deliciosos.

— Bom, não é? — ele incentivou.


— Muito. Tão... — ofereci o pacote para ele
poder pegar um também.

— Sublime — completou. — É de uma


empresa brasileira — informou.
— Sério? Legal! Não conheço o Brasil —
contei em meio às minhas mastigadas.
— Eu também não, mas conheço muitos
brasileiros. São pessoas legais.

Eu me perguntei se para Ryan todo mundo


era legal e amigo. Ele parecia ser leal e simpático
em um nível que nunca havia conhecido em minha
vida, mesmo que eu não tenha conhecido muita

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gente para servir de comparação.

— Olha, os músicos estão começando a


montar a estrutura — meu marido apontou. Uma
moça já estava com tudo montado em frente ao

Circus Circus, um grande Cassino na Strip. Ela


afinava o violão e cantarolava enquanto dedilhava o
instrumento. A caixa do seu violão estava aberta,
aguardando por trocados, e uma placa estava colada
na base levantada do case de transporte. A placa
dizia:

Canto qualquer coisa.


P.S.: Menos Elvis
P.P.S.: Peça Alanis Morissette
— Alguém não gosta de Elvis e ama Alanis

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— ri enquanto lia. Knox tirou uma nota de dólar do

bolso e jogou no case da cantora.


— Toque Ironic, por favor — solicitou para
a garota, que sorriu e imediatamente começou a

tocar a música de Alanis.


Procurei não me deixar abalar pela letra da
música, que falava sobre basicamente tudo o que a
vida nos traz nos momentos errados, ou quando não
temos as armas certas para lutar. Sobre chover no
dia do seu casamento, ganhar na loteria aos noventa

e oito anos.
A forma como tudo dá errado quando você
pensa que está dando certo, ou quando está tudo
dando errado, e a vida trata de te dar uma ajuda

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para consertar sem que você espere.

Era impossível não perceber a ironia da


música. O nó na garganta se formou novamente.
Maior do que quando estávamos almoçando atrás

da cozinha do Antonio.
Knox apareceu no momento errado.
Por que eu não podia conhecê-lo em outro
momento da vida? Talvez na faculdade, quando eu
ainda tinha como voltar atrás e não enterrar a minha
cabeça no trabalho.

Knox olhou para mim com empolgação, e


eu procurei colocar minha melhor máscara e sorri
para que ele soubesse que eu estava apreciando o
show. Ele cantava baixinho junto com a cantora

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que se esforçava para fazer sua voz parecer a da

cantora original. Precisei chamar a razão para não


dar meu coração a ele.
O que estava acontecendo comigo, porra?

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Capítulo 7
O poder do Titanic

— Vamos jogar um jogo — Ryan sugeriu


enquanto sentávamos em um banco próximo ao
local em que a cantora que amava Alanis
Morissette estava.
— Que jogo? — perguntei em meio a um
gemido. Estávamos andando o dia inteiro

praticamente, meus pés, mesmo acostumados com


salto doze centímetros, estavam latejando de dor,
isso sem falar na dor de cabeça que começava a
querer aparecer. Pequenas fisgadas que eu odiava.

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Geralmente era o anúncio de uma dor descomunal


logo em seguida Eu precisava de um remédio.
— Diga para mim três coisas que você
odeia — ele ordenou.

Odeio sentir dor! Especialmente quando eu


não quero senti-la.
Com a tatuagem, por exemplo, foi uma dor
que eu procurei, tinha a obrigação de sentir e
aguentar. Contudo, há dores que eu nunca quis
sentir. Dores que me assustavam.

Mas escondi aquele fato para não


interrompermos nossa aventura.
— Hum... — tentei pensar em algo. Tinha
coisas que eu odiava, especialmente o que eu havia

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descoberto no dia anterior, mas isso eu não diria a

ele. — Odeio acordar cedo. É algo que acontece


sem que eu queira, mesmo no final de semana eu
acordo cedo. Eu quero me forçar a voltar a dormir,

mas não consigo. Meu cérebro começa a trabalhar


assim que meus olhos se abrem e já era.
— Isso explica o porquê de você saltar da
cama cedo hoje... — seu tom de voz era carregado
de malícia.
— Pulei da cama porque seu ronco me

assustou — provoquei.
— Eu não ronco! — disse, solenemente. —
Tudo bem, mais duas coisas que você odeia.
— Eu odeio perder — continuei. — Nada,

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nunca. Sou péssima perdedora.

Isso estava mudando. Eu perderia em breve,


muito. Especialmente o que eu havia construído
com aquele homem que já nem era mais estranho

para mim.
— E o que mais? — instigou.
— Eu não gosto de beber água — dei de
ombros, tentando deixar minhas respostas
superficiais. — E você?
— Eu não gosto de fazer drinques com

frutas. As frutas sempre fazem meus dedos


arderem, especialmente quando me corto —
iniciou.
— Mas você gosta de ser um barman —

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interrompi, recebendo um olhar de reprovação.

— Isso é para as três coisas que mais


gostamos, espere a vez, mulher — ralhou, me
fazendo levantar as mãos em rendição. — Eu não

gosto de cigarros, aliás, odeio e... Não tenho


problemas em perder — seus olhos eram como
duas adagas perfurando os meus. Como se ele
quisesse que eu absorvesse cada sílaba das suas
próximas palavras. — Mas eu realmente odeio
desistir, Linda. Eu odeio.

O que eu deveria responder?


O que ele queria que eu respondesse?
Aquilo era para mim? Sobre desistir?
Tudo bem, talvez eu estivesse desistindo,

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mas ele não tinha ideia do que estava acontecendo.

Ele mal sabia quem eu era. Por que se importava


tanto? Optei por ignorar aquela indireta e partir
para a próxima questão.

— Tudo bem, coisas que você gosta —


joguei rapidamente.
— Você primeiro — Knox empurrou a
questão para mim.
— Eu fui primeiro antes, agora você —
devolvi.

— Tudo bem... — ele se rendeu, se ajeitou


no banco e logo voltou a falar. — Gosto de tomar
café da manhã na Yvone, me faz lembrar dos meus
pais — iniciou. — Gosto de ser um barman e gosto

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de você.

— Não faça isso, Knox... — quase implorei.


Minha voz traiu meus sentimentos ao tremer
quando solicitei a ele que parasse.

— Sua vez — respondeu como se eu não


tivesse falado a minha última sentença.
— Eu gosto...
Do que eu gostava?
Parecia que tudo o que eu costumava gostar
havia mudado em pouco mais de vinte e quatro

horas. Era ridículo eu dizer que gostava de cálculo,


ou de macchiato no café da manhã ou de pintar
minhas unhas de vermelho.
— Eu não sei do que eu gosto... — declarei

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magoada, e pela primeira vez vi tristeza nos olhos

sempre sorridentes de Knox.

**

Quando a noite começou a cair, Ryan


voltou a falar ao telefone. Depois da brincadeira ter
ficado tensa, resolvemos voltar a andar. Enquanto
continuávamos passeando pela Strip, o dia
lentamente ia dando espaço à noite. O dia dos

namorados estava chegando ao fim, e a minha lista


também. Três itens ainda precisavam ser riscados.
E Knox estava pronto para riscar o próximo
item. Mesmo com a movimentação e a poluição

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sonora que começava a se instalar na rua mais

movimentada de Las Vegas, foi impossível não ver


o grande carro laranja se aproximando ao som da
música tema de Titanic, My Heart Will Go On, de

Celine Dion.
— Knox! — exclamei, horrorizada. — Isso
não é uma limousine, é um parque de diversões
ambulante — eu estava chocada, o carro parecia
não ter fim, era quase do comprimento de um
ônibus.

— Vamos, baby, vamos riscar o item


número seis da lista — ele pegou a minha mão e
me arrastou para aquela imensa abóbora.
A música estava a todo volume dentro do

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carro.

— Você sabe... — ele iniciou enquanto nos


acomodávamos. — Foi proibido esse passeio que
você quer dar, com o corpo para fora do teto solar.

— Foi?
— Sim, é perigoso e muito barulhento —
ele revirou os olhos quando disse aquelas palavras.
— Então o governador entrou com esse decreto.
— O governador adora fazer decretos
inconvenientes, não? — acusei, frustrada e

praticamente gritando por cima da música.


Knox pareceu não gostar do que eu disse,
mas não respondeu. No lugar, ele continuou a falar:
— Mas o Xander ali — apontou para o

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motorista que dava a partida no carro imenso — vai

para a rua lateral, para que você possa realizar o


item número seis. Foi o máximo que consegui.
Ele estava se desculpando? Oh, Knox!

O homem tinha sido maravilhoso comigo o


dia inteiro.
— Está perfeito, é perfeito! — assegurei.
— E nós temos apenas quinze minutos. É
apenas um favor então... — deu de ombros um
pouco envergonhado.

— É o suficiente.
Assim que fomos liberados para subir no
teto solar, me senti envergonhada. Por que diabos
eu escolhi cantar a música tema de Titanic no teto

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solar de uma limousine? Peguei um cachecol de

plumas verde limão que estava disponível dentro da


limousine e enrosquei em meu pescoço, decidida a
não me deixar abalar pela minha própria loucura e

aproveitar aquela gafe homérica. Mas não sem


Knox.
— Você vem comigo! — ordenei, o
puxando para cima.
Ele se posicionou atrás de mim, e juntos
começamos a cantar a música com Celine Dion.

Knox pegou minhas mãos e fez com que eu


abrisse os braços.
— Você está voando — brincou, fazendo
referência a cena icônica de Rose e Jack na proa do

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navio.

— Eu estou voando — repeti, sabendo que


ele não entenderia a profundidade do que
estávamos dizendo naquele momento, ele

realmente estava me fazendo voar.


Movi meus dedos, os abrindo um pouco, e
os entrelacei entre os de Knox. Sua mão era enorme
em volta da minha e me fazia sentir segura. Meu
coração parecia querer pular para fora do peito
enquanto o vento batia em meu rosto e cabelos e

minhas costas ficavam cada vez mais coladas no


peito dele. A música foi esquecida, e Celine Dion
gritando foi ignorada por mim e por Ryan. Eu
sabia, sentia em seu corpo que, assim como eu, ele

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já não se importava, com a música, onde

estávamos, ou quem nos via. Apenas queríamos um


ao outro. Virando o meu rosto em sua direção, olhei
em seus olhos, de perto.

— Ryan — chamei seu nome, tentando


obter sua atenção — eu menti — disse um pouco
mais alto. Meus olhos fugiram para os seus lábios,
e ele percebeu, já que sua boca se contraiu em um
pequeno sorriso. Seu cenho parecia franzido
quando voltei meu foco aos seus olhos, como se

estivesse confuso com o que eu havia dito.


Sem qualquer cuidado com o que poderia
vir depois, sem pensar nas consequências e,
principalmente, sem levar os problemas que me

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aguardavam ao chegar em casa, simplesmente

soltei:
— Eu menti quando disse que não sabia do
que gostava — nós permanecemos com nossos

braços abertos, e eu descansei a cabeça em seu


peito e continuei olhando para ele. — Eu gosto do
café da manhã na Yvone, gosto dos Hanson, gosto
de tatuagens e Alanis Morissette... E,
definitivamente, gosto do dia dos namorados.
Pronto! Tudo o que precisava ser falado foi

gritado contra o vento e por cima da música.


Foi como se meu peito estivesse cheio de
algo pesado e eu tivesse jogado tudo para fora.
Ficou tão leve, que doeu. Meu coração estava tão

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disparado, que meu peito doía. Ryan me fitou

fixamente antes de finalmente agir. Seus braços


fecharam, ainda grudados aos meus, e me
abraçaram com firmeza.

— Posso te beijar? Por favor? — eu quase


não pude ouvir o que ele disse com a música brega
tocando tão alto. Assenti, maravilhada que ele
ainda estivesse preocupado com o que eu queria e
que se desse ao trabalho de me perguntar até onde
poderia ir comigo.

Seus lábios caíram sobre os meus de forma


firme e apaixonada. Seus lábios eram macios, como
na noite anterior, e também exigentes, exatamente
como no momento em que estávamos rolando na

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cama. Sua língua logo pediu passagem, e suas mãos

apertaram as minhas, que ainda estavam


descansadas em torno da minha barriga.
Seu corpo se colou ainda mais ao meu, era

todo firme, duro e quente. Deus, eu podia sentir o


calor daquele corpo através das roupas. Lembrei de
como eu adorei sentir a sua pele na minha na noite
anterior, em como o corpo de Knox se esfregando,
invadindo o meu, me deixou em êxtase,
completamente entregue a ele.

O vento batia com força e fazia meus


cabelos chicotearem nossos rostos, mas nenhum de
nós se importou, estávamos mais preocupados em
fundir nossos corpos ali mesmo.

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Como podia? Como em um dia aquele

homem conseguiu estar sob a minha pele em


apenas um dia?
Deus! Como eu sairia daquilo?

De onde eu tiraria forças para sair daquilo?


Onde encontraria forças para virar as costas para
aquele belo homem de sorriso fácil, brilho nos
olhos e pura gentileza em seus atos?
Suas mãos subiram e emolduraram o meu
rosto, o empurrando ainda mais contra o seu. Sua

língua se aprofundou, degustando a minha e


aprofundando mais o beijo. Quando nos separamos,
estávamos sem ar, não escutávamos nossas
respirações sobre a música, mas nossos peitos

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subiam e desciam quase teatralmente. Nossos

lábios, entreabertos e nossos olhares estavam


famintos um para o outro.
Knox saiu do aperto da abertura do teto

solar e desceu para dentro da limousine. Em


seguida, suas mãos foram para a minha cintura e
me puxaram para baixo também, me colocando em
seu colo e voltando a me beijar. Nossas bocas eram
tão boas juntas, que eu questionava todos os outros
beijos que eu havia dado em minha vida. As mãos

de Knox passearam pela lateral do meu corpo até


que chegaram em minhas coxas, e ali apertaram a
carne por cima do jeans. Mordi seu lábio inferior
com delicadeza e o chupei uma última vez antes de

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voltar a beijá-lo profundamente. Minhas mãos se

divertiam com os seus cabelos rebeldes, e meu


corpo todo se divertia com as sensações que sua
boca na minha provocava.

Mas então a limousine parou.


Nosso tempo esgotou.
E a magia se desfez.

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Capítulo 8
A magia acabou

Assim que entramos na minha suíte de


hotel, Knox foi diretamente para a sua mochila. De
lá tirou uma muda de roupa da mochila e apontou
em direção ao banheiro, pedindo permissão para
tomar um banho. Eu assenti rapidamente, pronta
para tentar melhorar o clima entre nós depois do

que aconteceu na limousine. Quando a porta


fechou, eu fui até minha bolsinha e peguei um
analgésico para a dor que começava a crescer em
minha cabeça.

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Assim que o motorista parou o carro e

desligou a música, nos separamos e tudo havia


acabado. Descemos da limousine rapidamente, e
Knox agradeceu e se despediu do seu amigo.

Quando voltou para perto de mim, parecia


cauteloso. Eu me fiz de desentendida e puxei um
assunto qualquer para tentar quebrar o gelo.
Ele parecia magoado, mas novamente
respeitou a minha vontade. Nós voltamos para o
hotel cassino em que eu estava hospedada e fomos

direto para a minha suíte. Faltavam ainda dois itens


para terminar a lista, e eu simplesmente não sabia
como terminar a noite sem ser nos braços de Ryan
Knoxville.

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Qualquer outra pessoa pensaria: está na

chuva? Então, se molha!


O problema era que pegar aquela chuva me
deixaria muito molhada e provavelmente

esturricada com um raio caindo bem no meio do


meu rabo egoísta.
Como aguentaria me machucar ainda mais?

**

Ryan saiu do banheiro já vestido e falando


no telefone. Vestia uma camisa branca simples, um
jeans escuro, e o cabelo ainda estava molhado.
Deus, como ele era lindo. Seu cheiro másculo e

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limpo flutuou até mim fazendo coisas

completamente estúpidas com o meu corpo.


— Porra, que droga! — exclamou,
chateado. — Não, tudo bem, cara. Sei que fez o seu

melhor. Fique tranquilo — resmungou antes de


finalizar a ligação. Assim que ele abaixou o
telefone, se virou para mim.
— Algo errado? — logo questionei,
enquanto colocava uma mecha do cabelo atrás da
orelha e aguardava por sua resposta antes de ir para

o banheiro.
— O show cover da Tina Turner... Eu
estava tentando um show de verdade... — colocou a
mão atrás da cabeça e coçou a nuca como se

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estivesse envergonhado. — Mas meu amigo, um

que trabalha na produção da casa de show, não


conseguiu... Só pagando mesmo, e bem... — ele
parecia mortificado. — Eu sou duro, Linda. Um

duro.
— Você fala como se fosse um problema,
Knox. Está tudo bem — e realmente estava, o cara
tinha se esforçado o dia inteiro para realmente fazer
o meu dia ficar melhor.
— Linda, eu não sou um idiota —

respondeu, frustrado, abrindo os braços. — Olha


esse quarto, você certamente é uma garota com
dinheiro — meu corpo todo reagiu às suas palavras.
— Não precisa ser muito esperto para perceber

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isso. Como se leva uma garota rica para se divertir?

— Knox...
— Eu não dou a mínima se você é herdeira
de um poço de petróleo, eu apenas queria que você

se divertisse, mas aí não há shows cover da Tina


Turner, só existe um concerto com a verdadeira
Tina, e eu pensei: não custa nada...
— Knox...
— Mas é claro que algo teria que dar errado
e...

— Knox! — chamei mais alto para que ele


parasse. Sua voz morreu, e ele olhou para mim
esperando que eu finalmente falasse, mas eu apenas
levantei um dedo pedindo que ele esperasse um

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segundo e peguei o telefone na cabeceira da cama.

Disquei 9, como instruído, e logo a recepção


atendeu. — Aqui é Linda Hatman, por favor,
consiga dois convites para o concerto da Tina

Turner na casa de shows... — olhei para Knox


esperando que ele dissesse o nome para mim.
Piscando rapidamente, ele se embaralhou por uns
segundos, mas finalmente murmurou:
— Divas.
— Divas — respondi para o recepcionista.

— Sim, senhorita. Posso incluir na sua


conta?
— Absolutamente — respondi e desliguei
em seguida. Olhei para Knox e sorri dando de

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ombros.

— Você é tipo a Paris Hilton? — ele


perguntou, ainda um tanto impressionado.
Não, eu trabalho. Sou mais uma Ivanka

Trump, querido.
Pensei, mas nada disse. Deveria estar
assustada, já que ele revelara ter percebido que eu
tinha dinheiro. E eu poderia estar muito errada
sobre o meu julgamento, mas não acreditava que
Knox faria alguma coisa contra mim. Muito menos

se negar a cancelar o casamento.


Peguei o vestido que havia comprado
naquela tarde e comecei a juntar minhas coisas para
o banheiro, mas Knox me parou.

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— Eu vou descer e pegar uma bebida... —

ele parecia completamente perdido enquanto olhava


em volta. — Respirar um pouco de ar fresco...
Lá estava, ele ficou intimidado. Era sempre

assim! Merda!
— Knox! — chamei assim que ele abriu a
porta. Ele olhou para trás e sorriu como se soubesse
pelo meu tom que eu estava preocupada.
— Estarei lá embaixo, baby — uma
piscadinha rápida, e a porta foi fechada.

Jesus amado! Me ajuda. Estou seriamente


em apuros.
Eu me deixei cair de cara na cama e dei um
grito abafado contra os lençóis.

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Fui para o banheiro e me despi para um

longo e quente banho. Tentei não imaginar como


seria o dia seguinte, o dia em que cancelaríamos o
casamento. Para ser honesta, me machucava pensar

em como tudo aconteceria.


Sequei meus cabelos com o potente secador
do hotel e tentei modelá-lo com os itens que tinha
em minha bolsa. Eu não fiz um trabalho muito bom
quando fiz minha mala estando bêbada, então os
cabelos não ficaram satisfatórios, me fazendo

prendê-los na nuca e mais soltos na frente. Por


sorte, a bolsa de maquiagem nunca se separava de
mim, então ao menos na maquiagem eu poderia
caprichar. Optei por um batom vermelho e olhos

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bem marcados. Meus olhos... brilhavam como

nunca antes.
Eu estava completamente fodida.
O vestido de ombros caídos mostrava a

tatuagem e me fez sorrir, o local estava levemente


vermelho, mas os pequenos dados eram realmente
delicados e bonitos. Eu me lembraria de Ryan para
sempre.
Mas então, mesmo sem uma tatuagem, acho
que nunca esqueceria dele. Nunca!

**

Ao sair do elevador, carregava apenas

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minha carteira e a caixa com o relógio que havia

comprado para Knox. Fui até a recepção para pegar


meus convites para o show da Tina Turner e sorri
ao tê-los em mãos. Conhecia as músicas e gostava

da cantora, mas quando fiz a lista não estava


pensando muito em qualquer um dos itens, eu
apenas coloquei nela o que eu, bêbada, achava que
seria divertido. Mas Knox fez de cada número algo
especial. Por isso não tinha dúvidas de que o show
seria igualmente inesquecível.

Quando me aproximei do bar, logo o


identifiquei. Ele estava de costas para a entrada,
mas eu conseguia saber que o belo e imponente
homem sentado, com a cabeça apoiada nas mãos,

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era ele. Toquei seu ombro e fiquei ao seu lado.

— Estou pronta — Knox prontamente


levantou a cabeça e deu atenção para mim. Seu
rosto era impagável quando me viu.

— Nossa, Linda! Você está maravilhosa —


revelou com admiração.
Seus olhos me analisavam com um misto de
vários sentimentos. Ia de ternura à luxúria em
segundos, como se ele simplesmente quisesse me
colocar em seu ombro e me levar dali, mas também

quisesse me abraçar e adorar. A sensação de ser


analisada daquela forma era sem igual. De repente,
eu mal podia respirar, meu corpo todo ficou quente
e arrepiado, e eu só queria que ele voltasse a me

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beijar como fizera antes. Que me colocasse em seus

braços e fizesse o que quisesse comigo.


Lentamente levantei a caixa do relógio e
coloquei na frente dele.

— Feliz dia dos namorados, Knox — eu


não sei motivo de dizer aquilo. Ok, eu sabia. Eu
disse porque quis, mas não entendia por que estava
fazendo aquilo conosco. Comigo. Desde aquela
tarde, cada minuto que eu passava com aquele
homem era mais um prego que eu martelava em

meu peito.
Knox olhou para a caixa preta, com a marca
do relógio brilhando na parte de cima.
— Você não devia ter feito isso, Linda —

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ele engoliu em seco sem tirar os olhos do presente.

— Eu queria. Você gostou dele e fez tantas


coisas maravilhosas comigo hoje, Knox. Eu nunca
podia agradecer o suficiente. Por favor, aceite —

abri a caixa e tirei a bela peça negra de dentro. —


Me deixa colocar em você — pedi, esticando as
mãos em direção ao seu pulso direito. Sem dizer
uma palavra, ele aproximou seu braço, dando o
aval que eu precisava para colocar o relógio em seu
pulso.

— Eu não lhe dei nada... — começou a


dizer assim que terminei de colocar o objeto nele,
mas o interrompi.
— Você provavelmente nunca vai saber,

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Ryan Knoxville, mas você me deu em vinte e

quatro horas muito mais do que eu tive em uma


vida inteira.
Sua mão foi colocada em meu rosto, e

daquela vez eu simplesmente não desviei o olhar,


queria que ele tivesse certeza de que eu falava a
verdade para ele. Ao menos aquela verdade. Ele
aproximou o rosto do meu e beijou minha bochecha
por mais tempo do que geralmente um beijo na
bochecha costumava levar. Eu suspirei, levemente

desapontada por seus lábios tocarem o meu rosto, e


não os meus lábios. Mas talvez ele finalmente
tivesse entendido. Nosso prazo estava esgotando, e
continuar nos afogando não seria bom para

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qualquer um de nós.

— Vamos? Tina Turner nos aguarda —


convidei, dando um passo para trás e estendendo
minha mão para que ele a pegasse.

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Capítulo 9
Sempre em minha mente

— Deus, que vergonha! Eu não conhecia


quase nenhuma música do repertório da mulher —
reclamei de mim enquanto andávamos em direção à
última tarefa restante da minha lista maluca.
Dançar em frente ao Bellagio. Antes disso, disse a
Knox que o levaria para jantar em um dos

restaurantes mais famosos de Las Vegas, mas ele


apenas declinou, dizendo que queria muito terminar
a última tarefa.
— Mas você pareceu gostar muito do show,

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mesmo não conhecendo a música.


— Como não gostar, Knox? A mulher tem
quantos anos? Setenta? Deus! Ela tem mais
vitalidade do que eu. E quando ela cantou a música

do filme do Mel Gibson... — estalei os dedos


tentando puxar da memória o nome do filme.
— Mad Max! — Knox ajudou. — A música
se chama We Don’t Need Another Hero.
— Obrigada! Sim, essa música, foi uma
loucura. E quando ela cantou Simply The Best? —

perguntei animadamente, o fazendo rir da minha


atitude. Eu sorria, me sentindo leve e animada.
Um arrepio de frio passou pelo meu corpo e
me abracei, tentando conter o frio. Devia ter levado

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um casaco, estávamos no deserto, porra! Era frio à

noite.
— Eu não tenho um casaco, mas tenho
meus braços, então vem aqui — Knox me puxou

para junto dele, e relaxei dentro do seu abraço. Nós


continuamos a caminhar vagarosamente pela rua, e
quando percebemos, estávamos em frente ao
lindíssimo Bellagio. O show das águas tinha
começado, e a minha ideia não era a mais
inovadora: inúmeros casais faziam o mesmo que

nós pretendíamos.
Dançavam em frente ao show aquático e
colorido. Homens em seus ternos embalavam suas
esposas ainda em seus vestidos de noiva. Eles

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sorriam apaixonadamente um para o outro, e por

vezes até trocavam beijos delicados e amorosos.


Olhei para Knox sem saber o que veria. Ele tinha
um grande sorriso nos lábios enquanto analisava os

casais fazendo seus rituais.


— Você sabe o nome da música que está
tocando? — ele me perguntou, sem tirar a sua
atenção dos dançarinos apaixonados.
Claro que eu sabia. Mesmo eu, uma
alienada social, conhecia aquela música.

— Always On My Mind, Elvis Presley —


disse, vidrada no rosto dele.
— É a música mais ouvida do Elvis, no
mundo inteiro. Chega a ser piegas, de tão ouvida.

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Mas, sabe...? — ele finalmente me olhou. — Acho

que não poderíamos dançar uma música mais bela.


Realmente, Linda, você sempre estará em minha
mente. Foi tudo diferente desde ontem.

Ele me puxou e fomos até onde estavam os


outros casais. Knox nos embalou de um lado ao
outro vagarosamente enquanto nos olhávamos no
fundo dos olhos um do outro.
— Eu não posso dizer que tenho
experiência com muitos homens... — iniciei sem

desviar minha atenção dele. — Mas eu posso dizer


que você também sempre ficará em minha mente,
Knox. E talvez... — minha voz embargou com
emoção. — Talvez você tenha estragado qualquer

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chance de eu querer outra pessoa novamente como

eu quero você.
Foi o que bastou para ele me beijar. Um
beijo lento, lânguido, apaixonado e que me

preenchia de todas as formas. Eu podia sentir o


calor do seu corpo no meu, suas mãos firmes em
minha pele.
— Knox? — chamei, entre nosso beijo, sem
parar a nossa dança.
— Hum? — ele não parecia muito

interessado em minhas palavras, assim não deixou


de movimentar seus lábios nos meus.
— Vamos para o hotel — pedi, me
separando dele.

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— Você... — percebi que ele parecia

decepcionado com as minhas palavras, havia


entendido errado, com certeza, mas eu não o
culparia.

— Eu quero uma última noite com você —


esclareci, com firmeza. Ryan não pareceu
espantado com a minha declaração, mas certamente
parecia em dúvida também.
— Por que, Linda? — sussurrou enquanto
me analisava.

— Eu... eu só quero — respondi,


começando a sentir uma angústia. Talvez ele
tivesse desistido de mim depois que eu ignorara
suas investidas durante o dia. Talvez depois de eu

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finalmente ceder, a brincadeira tivesse perdido a

graça... — Vo...você não... ugh, me quer?


— Acredite em mim, baby, eu quero você,
quero de uma forma que talvez você nunca vá

saber. Eu só não quero que se arrependa como


nesta manhã, quando você acordou.
Ele parecia tão triste, eu realmente tinha
sido uma biscate mais cedo...
Deus! Tudo havia acontecido pela manhã e
parecia que estava há dias com Knox. Era como se

nos conhecêssemos há muito mais tempo.


— Eu fui uma cadela, Knox — minhas
mãos foram para o seu belo rosto e acariciaram sua
pele com delicadeza. — Me desculpe. Mas eu estou

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sóbria agora, sei exatamente o que estou fazendo, e

eu quero mais um momento com você, Ryan —


minhas palavras eram calmas, sussurradas e firmes.
— Quero ter um pedaço seu e deixar um meu com

você.
Fechando seus olhos com força, bem
apertados, Knox respirou fundo. Acho que estava
colocando os pensamentos no lugar. Aguardei, sem
tirar meu foco dele, e quando seus olhos se abriram,
havia um brilho determinado ali. Pegando minha

mão com firmeza, ele me puxou e saiu andando, se


afastando do Bellagio e de todos aqueles casais
apaixonados.

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**

Nada foi dito ou feito durante todo o trajeto


até o hotel. Knox continuava calado, e eu estava

com medo de apenas ser deixada lá e ele sumir até


o dia seguinte, quando tudo estaria acabado. No
momento em que entramos no quarto de hotel e fui
colocar o cartão-chave para ativar as luzes, Knox
deteve a minha mão e pegou o cartão dela, o
colocando na mesa e não permitindo que as luzes se

acendessem. Sem uma palavra, me virei para ele e


esperei.
Suas mãos estavam um pouco errantes, uma
novidade, vindo daquele homem que tinha se

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mostrado tão seguro comigo. Ele acariciou meus

ombros e delicadamente passou o polegar em


minha tatuagem. O contato ardeu um pouco, mas
não tive qualquer reação negativa, meu corpo todo

estava preparado para o prazer que ele estava


prestes a me dar.
Seus dedos subiram pelo meu pescoço,
causando arrepios, e foram até onde meus cabelos
estavam presos, os soltando em seguida. Quando
suas mãos voltaram, começaram a tirar o meu

vestido, que deslizou pelo corpo até estar


amontoado ao meus pés. Ryan voltou a me
acariciar, mas adicionou sua boca a equação.
Começou pelo meu pescoço, beijando

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delicadamente, esfregando seus lábios, indo e

voltando na curva, enquanto suas mãos acariciavam


meus braços e começavam a adentrar a área dos
meus seios. Quando suas palmas finalmente

cobriram meus peitos minha cabeça pendeu para


trás, e um leve gemido fugiu dos meus lábios.
— Knox... — murmurei, mas ele não
respondeu. Seus lábios finalmente estavam
ocupando o lugar uma das mãos, tomando meu
mamilo em sua boca, a enchendo com o meu seio.

Ela o chupava com firmeza e delicadeza ao mesmo


tempo, sem me machucar. A carícia erótica me fez
buscar seus cabelos e apertá-los entre meus dedos
enquanto começava a sentir meus joelhos falharem.

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Soltando meu peito, ele se ergueu e

finalmente me deu sua boca, beijando-me com


força e paixão. Sua língua invadiu a minha boca
rapidamente, exigindo ser aceita pela minha boca.

Minhas mãos começaram a desabotoar sua camisa


enquanto nosso beijo devorava pedaços das nossas
almas. Quando a camisa de Knox estava fora de seu
corpo, minhas mãos foram avidamente para seu
jeans. Seus pés trabalharam, tirando os sapatos, e
aproveitei a deixa para fazer o mesmo com os

meus. Eu não era uma mulher baixa, mas assim que


desci dos saltos, sorri entre nossos beijos, eu tinha
ficado muito menor do que ele.
Abri o botão do seu jeans e brinquei com o

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cós de sua roupa intima, tirando dele um grunhido

quase selvagem com a minha brincadeira. Sem


vergonha, espalmei minha mão em sua ereção e
apertei com cuidado, enchendo a minha mão com o

seu pau duro e quente, que esperava por mim. Não


sabia que era possível ter água na boca durante o
sexo, mas tive, minha boca salivou para ter o seu
membro dentro dela. E foi o que fiz.
Parei de beijá-lo nos lábios e tracei um
longo caminho de beijos, lambidas e mordidas até o

seu membro. Quando me ajoelhei no chão e abaixei


sua boxer, Knox se afastou e me puxou para ele.
— Não, deixe-me...
— Não é momento para isso. Deixe que eu

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adore você e seu corpo, Linda.

— Mas e você?
— Eu sou feliz fazendo você feliz, baby —
ele me ergueu em seus braços e puxou uma perna

para circular em sua cintura. A outra, eu circulei


por conta própria. Logo estava em seus braços.
Suas mãos vieram para a minha bunda e
apertaram minhas nádegas com um pouco de força.
Em seguida, ele andou até a cama e me colocou
deitada, para logo voltar a explorar o meu corpo

com delicadeza. O erotismo estava em seus lábios,


dedos e ponta da língua, que fazia meu corpo se
contorcer e arrepiar. Nossas mãos ficaram
frenéticas um no outro, ao passo que nossas

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respirações aumentavam e preenchiam a grande

suíte de hotel.
Se eu pudesse escolher uma música para
embalar nossa transa, escolheria a mesma canção

que dançamos em frente ao Bellagio, Always On


My Mind, do Elvis Presley. Quem sabe seguiria de
Ironic, da Alanis Morissette...
Em vinte e quatro horas, Knox e eu
tínhamos até trilha sonora. Deus! Como seria a
minha vida sem ele depois do cancelamento?

Não me permiti pensar sobre aquilo, apenas


voltei minha mente para aproveitar o que ele estava
me proporcionando naquele momento.
Ele voltou a chupar meus seios e desceu

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beijando minha barriga enquanto sua mão começou

a brincar com o meu sexo molhado e


completamente necessitado dele. Sua mão colocou
minha calcinha para o lado, e sem qualquer

cerimônia, dois de seus dedos me invadiram,


arrancando um gemido alto de mim. Seus lábios
desceram mais e beijaram uma de minhas coxas,
como se fossem meus lábios. A medida que sua
língua brincava com a carne trêmula da minha
perna, seus dedos entravam e saiam de dentro de

mim.
Quando Knox parou, se ajoelhou na cama e
tirou minha calcinha. Eu não podia ver seu rosto,
mal conseguia vê-lo na penumbra do quarto, mas

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podia imaginar seus olhos queimando, ardendo no

meu corpo, me fazendo sentir linda. Ele saiu da


cama, eu sabia que estava em busca de um
preservativo. Ouvi o barulho da embalagem da

camisinha sendo rompido e não muito tempo


depois Ryan estava em cima de mim, despejando
beijos aleatórios em meus seios, pescoço e lábios.
Senti ele esfregar seu membro para cima e
para baixo em minha entrada e gemi abrindo mais
as pernas. Queria tudo dele, queria que ele me

invadisse por completo, que nossos corpos se


fundissem de maneira que eu pudesse sentir aquilo
novamente cada vez que ele invadisse meus
pensamentos quando estivesse longe. Queria que

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Knox me marcasse, para sempre, como uma

tatuagem.
Quando ele entrou em mim, meus lábios se
contraíram em um sorriso satisfeito, e minha

cabeça tombou para trás. Foi quase como se eu não


conseguisse conter a satisfação de finalmente tê-lo
comigo. Por inteiro, completo.
— Porra!
Ouvi ele dizer, sua voz era apertada e rouca
de prazer enquanto seus quadris se movimentavam

para frente e para trás. Enrosquei minhas pernas ao


seu redor e movimentei meus quadris para que o
atrito necessário nos ajudasse a chegar no clímax
juntos. E quando ele veio, Knox e eu gritamos

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nossos nomes e gememos tão alto quanto

podíamos. Extravasamos toda a tensão que havia


sido construída desde o início do dia.
Não queria que ele parasse de se

movimentar pelo único motivo de não querer que


aquilo tivesse fim. Ryan me beijou
apaixonadamente mais uma vez antes de sair de
cima de mim e pular para fora da cama.
Escutei ele se movendo até a porta e depois
ouvi o barulho conhecido, os eletrônicos do quarto

apitando e uma pequena luz se acendendo no abajur


ao lado da porta. Knox havia posto o cartão chave
na porta e habilitado a luz. Ele estava de costas para
mim, seu belo corpo e bunda à mostra me fizeram

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querer chamá-lo de volta para a cama, mas não

precisei. Ele foi rapidamente até o banheiro e em


seguida voltou, sem o preservativo. Deitando-se ao
meu lado, ele me puxou para os seus braços e me

fez suspirar. Acariciei seu peito enquanto ele


alisava meu braço e beijava o topo da minha
cabeça.
Ficamos um longo tempo daquela forma,
apenas aproveitando a companhia um do outro, mas
logo o feitiço foi quebrado.

— Eu estava pensando... — começou com


cuidado. — Talvez pudéssemos trocar nossos
números de telefone e manter contato...
Imediatamente me senti tensa e me separei

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dele como se seu corpo estivesse pegando fogo.

— Não, Knox — disse categoricamente.


Peguei tudo o que podia do lençol e me enrolei nele
ficando em pé imediatamente.

— Ei, espere! Eu não pedi você em


casamento... — ele riu da ironia daquelas palavras.
— Apenas pensei, já que somos tão bons juntos,
poderíamos sei lá...
— Não, Knox! — exclamei novamente e
andei até o banheiro, me fechando dentro dele.

Que merda!
Por que de todos os caras que querem
sempre foder e ir embora, Ryan Knoxville tinha
que ser aquele que gostaria de ficar?

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Knox não parecia satisfeito com a minha

resposta também, as batidas na porta soaram quase


ao mesmo tempo em que a fechei.
— Linda! Vamos conversar! Por favor! —

ele pediu.
— Não quero falar.
— Qual é o problema? Eu apenas gostaria
de manter contato... — de repente ele ficou em
silêncio. — Como sou estúpido! Você é casada! —
exclamou, alto, do outro lado. — Por isso todo o

desespero. Jesus! Como sou burro.


Fiquei enfurecida com o que ele disse, então
abri a porta do banheiro em um rompante e fui para
cima dele. O encarei com fúria e mágoa.

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— Acha mesmo que eu seria capaz disso?

— não podia acreditar que ele tivesse dito aquilo.


— Bem, se não é isso é o quê? Porque,
honestamente, Linda, você parecia muito inclinada

a continuar o que estávamos tendo há poucos


minutos. Durante todo o dia eu vi você lutar contra
o que estava rolando entre a gente, mas depois que
nos beijamos na limousine, eu pensei que
poderíamos ter uma chance... Eu certamente
gostaria que tivéssemos, mas então você age como

se tudo tivesse sido um erro. Só posso pensar que


você já tem alguém e bem... Que você o traiu.
— Eu não tenho ninguém — aquelas
palavras não poderiam ser mais verdadeiras e

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dolorosas. Eu não tinha ninguém. Não tinha. Estava

sozinha.
— Bem, então o que é?
— Não, Knox! Deixa isso para lá! — pedi,

fugindo do seu olhar. Tentei contorná-lo e ir até


minhas roupas para me vestir, mas ele segurou
meus braços.
— Se tudo o que aconteceu conosco não foi
suficiente para fazer você me dar uma resposta
plausível, então tenha ao menos um pouco de

compaixão e diga mesmo assim. Tenha alguma


consideração comigo, por favor, porque é loucura,
mas eu estou...
— Não diga! — implorei, baixinho,

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cansada.

— O que há de errado, Linda? Por que não


podemos explorar o que temos? Sei que você mora
em Los Angeles e que tem a sua vida lá, mas se

realmente quisermos, podemos trabalhar nisso —


sua voz trazia um tom dolorido, como se ele
estivesse implorando por uma chance.
— Não... — continuei dizendo, tentando
evitar que as lágrimas caíssem. Quando eu voltasse,
tudo estaria acabado. Eu precisaria enfrentar tudo, e

Knox não poderia estar perto.


— Por que não, porra? Por que você está
negando o que está acontecendo entre a gente? Não
é possível que você não enxergue! — ele gritou.

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Arregalei os olhos, assustada com ferocidade de

suas palavras. No momento seguinte, perdi o foco


do seu rosto, graças às lágrimas gordas que se
acumulavam e que eu tentava evitar a todo custo

que rolassem. Quando voltou a falar, a voz dele era


mais contida: — Você disse que não tem ninguém e
não é como se você fosse morrer amanhã, então...
— no momento em que ele disse a palavra morrer,
o soluço dolorido saltou para fora da minha boca e
minhas pernas cederam. — Ei, Linda!

Knox chamou, me pegando em seus braços,


e caminhou para cama. Em seguida, sentou e me
manteve em seu colo enquanto eu chorava sem
parar.

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— Fale comigo! Linda, por favor! Fale

comigo! — eu podia ouvir o desespero em sua voz


enquanto ele tentava saber o que estava
acontecendo comigo.

Eu apenas me segurei a ele e chorei. Chorei


por tudo o que estava acontecendo. Pelos anos de
vida que perdi me dedicando aos negócios da
família; por não ter o apoio emocional e
psicológico da minha mãe, por sequer ter o
interesse dela em me fazer prestar mais atenção à

minha saúde. Eu não tive ninguém para dizer: pare!


Vá ao médico! Procure saber o que são estas dores
de cabeça.
Senti os lábios de Knox em minha cabeça e

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desejei que ele pudesse me curar com seus beijos.

Desejei que pudéssemos ter nos encontrado em


outras circunstâncias. Desejei não ser eu.

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Capítulo 10
Sem Volta

Pareceu uma eternidade até que eu pudesse


me controlar e falar. Knox ainda me mantinha em
seus braços, protegida. Alguns longos suspiros
depois, consegui começar a falar.

— Meu pai morreu, vítima de um


aneurisma. Ele se rompeu, e quando meu pai
chegou ao hospital, já era tarde demais — iniciei.
— Nós sempre fomos uma família focada em tudo,

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menos em ser uma família. Então, assim que ele


morreu, conselheiros, acionistas e advogados
estavam em cima de mim — aguardei Knox
perguntar quem eu era, ou quanto dinheiro eu tinha,

mas ele continuou mudo. — Eu logo assumi os


negócios da família, já trabalhava em nossa
empresa, e o passo seguinte era muito simples e
certeiro. Se meu pai faltasse, eu assumiria — engoli
em seco.
“Eu apenas fiz o que estava nas cartas para

mim. Abaixei a cabeça e trabalhei. Mas então eu


comecei a ter algumas vertigens e dores de cabeça.
Nas primeiras vezes, eu ignorei, mas então as dores
começaram a ficar mais fortes quando tinha alguma

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crise. Assim, resolvi chamar meu padrasto.”

“Ele é neurocirurgião, e pensei que poderia


me ajudar. Ele disse que provavelmente era
estresse, mas que marcaria alguns exames para

mim. Depois me deu algumas pílulas, mas acho que


caiu no esquecimento para ele. Fiquei tranquila, se
caíra no esquecimento, provavelmente não era
importante. Ele era o médico, de qualquer forma, e
marido da minha mãe, pensei que podia confiar
nele. Só que eu tive uma vertigem muito forte e

acabei caindo, apaguei...”


Respirei fundo e olhei para Knox. Eu estava
deitada em seu ombro, então apenas estiquei meu
pescoço para ver a sua reação, mas ele não me

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passava nada. Seus olhos estavam fora de foco.

Talvez percebendo o que eu diria a seguir.


— Os médicos solicitaram uma bateria de
exames, mas eu não quis ficar para o resultado.

Assim que me senti melhor, exigi alta do hospital e


voltei para casa. Mas no dia seguinte... Ontem pela
manhã, Oswald me chamou em seu consultório
para dizer que eu tinha um aneurisma sacular. Não
lembro do tamanho, mas lembro dele dizer que é
grave — Ryan endureceu neste momento. Eu

estava me sentindo um pouco mais corajosa, então


me desvencilhei dele e fiquei em pé. — É
necessário operar, ele pode estourar a qualquer
momento, segundo ele, está comprimindo a

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irrigação de sangue em certas regiões.

— Vo... você deveria estar aqui? Viajar


assim? — ele finalmente falou, sua voz mostrava
que estava alarmado. Neguei com a cabeça. —

Deus! Linda!
— Não faz diferença, Knox, eu poderia
morrer em casa, dormindo — expliquei.
— E poderia morrer dentro de um avião
também... Mas resolveu morrer em Las Vegas? —
seu tom de voz correu rapidamente de tenso para

furioso. — O que diabos você estava pensando? —


gritou, bravo.
— Em viver! — gritei de volta. — Eu
nunca saltei de paraquedas, nunca dirigi

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embriagada, nunca usei drogas, fumei ou bebi em

excesso, e olha para mim: uma bomba-relógio na


merda da minha cabeça, Ryan!
— E você decidiu ficar revoltada e vir para

Las Vegas?
— Sim!
— Você é louca! — acusou, se levantando.
Apertei o lençol firmemente contra o corpo. —
Devia ter ficado, ido se tratar. Precisa operar isso.
— Eu posso morrer na mesa de operação,

Knox — murmurei, tentando engolir a próxima


leva de soluços. — Se eu for, talvez não volte.
Ryan ficou quieto por um momento, branco,
o sangue parecia todo ter fugido do seu belo rosto.

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— Eu bebi demais na manhã anterior,

cheguei em minha suíte e comecei a beber.


— Suíte? Você estava em um hotel?
— Moro em um hotel, Knox. Sou dona da

rede Hatman de hotéis — os olhos dele ficaram


enormes com a revelação. — Sim, bem, acho que
não entendo nada sobre ter um lar, afinal de contas.
E não entendia nada sobre viver, me aventurar.
Knox, eu tenho trinta anos e não sabia o que era
diversão. É surreal. Mas a verdade é que fui

treinada desde que tive idade suficiente para


assumir os negócios da família. Fui convencida que
teria tempo no futuro para aproveitar o que eu
estava deixando para trás. Bem, desculpe se eu

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pirei um pouco e fiz a primeira coisa que passou

pela a minha cabeça — novamente as lágrimas


começaram a escapar. Funguei e limpei o nariz com
o pedaço de lençol que tinha firmemente segurado

em meu punho.
Naquele dia, Ryan tinha me olhado com
simpatia, animação, curiosidade, desejo e mesmo
paixão. Mas naquele momento ele estava me
olhando com piedade. E eu odiei aquilo.
— Não faça isso, Ryan. Não me olhe desse

jeito — pedi, me afastando.


— Estou preocupado com você —
justificou, como se fosse óbvio.
— Por quê?

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— Que pergunta estúpida é essa, Linda? —

disse com irritação na voz.


— Não é idiota, Ryan! Nos conhecemos há
vinte e quatro horas. Nós brincamos e fodemos por

aí.
— Foi isso para você? Brincadeira e foda?
Fazer imprudência para ver se você morria sem ser
esquecida? — suas palavras não poderiam ser mais
verdadeiras e dolorosas.
— Talvez! — retruquei, brava, ferida. Ver a

decepção nos olhos dele me doía mais do que a


iminência da maldita morte.
— E você encontrou o primeiro babaca
disponível para a sua despedida mórbida? Muito

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obrigado! — ele abriu os braços e começou a olhar

em volta. Quando focou em sua calça, andou até a


peça e a pegou, voltando a procurar pelas outras
peças. Ele encontrou sua boxer e começou a se

vestir.
— O que está fazendo? — perguntei,
nervosa.
— Eu preciso respirar, não posso ficar aqui
agora.
— Mas o cancela...

— Não se preocupe, vou assinar o


cancelamento — e com isso ele terminou de se
vestir e saiu pela porta, a batendo atrás de si.
Não sei por quanto tempo olhei para a porta

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enquanto as lágrimas grossas desciam

copiosamente pelo rosto. Não lembro de quanto


tempo demorei para me mover. Quando o fiz, fui
para o banheiro e tomei um longo e quente banho.

Senti uma fisgada na cabeça e tentei identificar se


era realmente dor ou minha mente estava me
pregando uma peça. Assim que estava de banho
tomado, lembrei do momento em que recebi a
bomba do médico, também conhecido como meu
padrasto.

Infelizmente, as notícias não são boas,


Linda...
Precisamos dizer à sua mãe...

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Recomendo uma cirurgia imediatamente...

Há riscos que precisamos levar em


consideração...
Deveria ter solicitado um exame logo, mas

você é tão jovem e não estava nas estatísticas de


pré-disposição, sem problemas de hipertensão
como seu pai... Deveria ter dado mais atenção a
você quando veio a mim...

Suas palavras vieram em ondas, e eu não

conseguira filtrar nem metade delas. Era como se


eu estivesse ficando surda, tudo estava abafado.
Quando finalmente consegui respirar e voltar a
mim, estava completamente transtornada.

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Naquele momento, olhei para os papéis

espalhados pela mesa e me senti ainda mais


indignada, revoltada. Não havia espaço para
qualquer outro sentimento dentro de mim naquele

momento. E eu seguraria a indignação e revolta o


quanto eu pudesse, pois, no momento em que eu
deixasse a mágoa tomar conta, tudo desabaria.
Tudo.
O que eu fiz para merecer aquilo? Por que
ele não se importou mais cedo?

Quando o questionei, ele desdenhou de


minhas preocupações. Disse que não era nada. E
então tirou todo o chão de mim.
Desgraçado! Ele simplesmente me

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negligenciou!

— Linda, querida, por favor, sente-se,


vamos conversar com calma sobre os... Linda!
Linda! Espere! — sequer fiquei para ouvir o que

ele tinha para me dizer. Dando as costas, o deixei


gritando quando saí do local que me sufocava.
Desci os andares do prédio pelas escadas,
esperar o elevador não era uma opção. Quando
cheguei ao térreo, abri a porta corta fogo com força
e me joguei para o hall do grande complexo de

salas. Puxei uma grande quantidade de ar quando


finalmente cheguei do lado de fora.

Então, para me torturar um pouco mais,

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lembrei do dia perfeito que tive com Ryan. Deitei

na cama e me mantive acordada, olhando para a


porta na esperança de que ele entrasse. E como em
todo o dia que passamos juntos, ele não me

decepcionou.
Depois de um tempo imensurável, Ryan
bateu na porta. Apressadamente, fui até a porta e
abri, seus olhos estavam vidrados nos meus. No
momento em que nos olhamos, ele deu um passo
para frente, depois outro, até ficar cara a cara

comigo. Sua testa descansou na minha, e tudo o que


podia ouvir eram nossas respirações. Ryan beijou a
ponta do meu nariz e fechou a porta atrás de si
antes de andar, me empurrando em direção à cama.

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Quando ele finalmente estava em cima de mim,

seus lábios tomaram os meus vagarosamente.


Nós fizemos amor por um longo período, e
quando terminamos, ele me deixou chorar contra o

seu peito até dormir.

**

Pela manhã, eu acordei primeiro que Knox,


tomei um novo banho, vesti roupas confortáveis e

fiz as malas sem que ele despertasse. Pedi serviço


de quarto para que tomássemos café da manhã
antes de fazer o check-out e me sentei na varanda,
em posse do meu telefone e da certidão de

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casamento. Pulei novamente todas as minhas

mensagens e escrevi para minha mãe e meu


padrasto, avisando que estava voltando para casa à
tarde. Também liguei para Stacy, precisava que ela

fizesse algo para mim.


— Senhorita Hatman! Graças a Deus! —
seu tom era histérico e aliviado ao mesmo tempo.
— Preciso falar com a senhora...
— Eu não tenho tempo agora, Stacy...
— Você vai me escutar agora, Linda! — ela

gritou ao telefone. — Você vai ouvir o que tenho a


dizer e depois eu mesma peço demissão, mas eu
não vou deixar de falar!
Fiquei imóvel e calada na linha por um

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momento enquanto ouvia a respiração furiosa da

minha assistente do outro lado.


— Tudo bem, Stacy, estou ouvido — disse,
por fim.

— Oh! Graças a Deus! — exclamou,


aliviada. — Seu padrasto, o doutor Carly, proibiu
você de voltar para casa de avião, Linda,
aparentemente você poderia ter morrido quando
foi para Las Vegas. É muito perigoso para os
pacientes com o seu caso.

— Oh? — foi o que consegui dizer. Knox


estava certo, eu estava louca! Quanta imprudência.
Mas eu nada sabia sobre a minha situação e não
esperei por explicações.

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— Sim! Oh! — Stacy parecia cansada, ela

devia estar apagando inúmeros incêndios com a


minha ausência. — É verdade, senhorita Hatman?
Que a senhorita está...

— Sim, é verdade — sussurrei de volta para


ela. Meu peito se apertou ao admitir para ela, mas
também me senti confortada por sua preocupação.
Stacy era tratada como uma colega de trabalho, não
amiga. Eu conversava com ela, ríamos de algumas
coisas, mas nunca procurei explorar qualquer

relação além de profissional com ela. Eu me senti


mal, seria mais uma coisa a qual poderia perder.
— Sinto muito, senhorita.
— Está tudo bem, eu preciso de um favor

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— solicitei, mudando o rumo da conversa. —

Descubra o número de seguro social de Ryan James


Knoxville e de sua conta bancária e deposite... —
quanto eu depositaria para ele? Nenhum dinheiro

no mundo pagaria o que ele fez para mim. —


Apenas me entregue as informações quando eu
chegar... E já que estou voltando para L.A de carro,
por favor, contrate um transporte e peça para me
buscar em uma hora no endereço que vou passar
por mensagem, sim?

— Sim, senhorita.
— E, Stacy?
— Pois não?
— Você não precisa se demitir, obrigada.

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Desliguei o telefone e fiquei olhando para a

nossa certidão de casamento.


Linda Knoxville.
Era um bonito nome.

— Oi — ouvi baixinho da porta da varanda.


Olhei para cima e tentei sorrir. Ele era tão lindo...
Os olhos inchados de sono e os cabelos bagunçados
o deixavam mais sexy ainda.
— Bom dia, o café da manhã está chegando

a qualquer momento — informei e sinalizei para


que ele sentasse ao meu lado. Ficamos em silêncio
enquanto comíamos. Queria que ele dissesse algo,
mas parecia longe, muito longe dali.

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Estava chateado comigo?

Ansioso para que tudo terminasse, agora


que sabia da minha condição?
Eu não sabia. Mas à medida que Ryan se

distanciava, mais aumentava a minha vontade de


terminar com tudo aquilo. Ainda que fosse me
matar por dentro, era melhor do que vê-lo tão
distante.
Pedi um motorista particular e tive a ajuda
de Knox para carregar minha bagagem.

— Não é necessário — tentei dissuadi-lo,


mas ele apenas sorriu sem graça e dispensou a
minha preocupação, colocando sua pequena
mochila nas costas e carregando a minha mala para

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fora do hotel.

Durante o trajeto até o cartório, olhei a Strip


e tentei me despedir de cada local que eu havia
passado. Especialmente do Bellagio. Foi naquele

momento que eu percebi o que nunca poderia dizer


para Ryan.
Que eu estava apaixonada por ele.
Era loucura se apaixonar tão rapidamente...
Talvez fosse a iminência da morte...
Ou talvez fosse amor mesmo, à primeira

vista, ao primeiro contato, amor ao primeiro beijo,


paixão ao primeiro sorriso. Fascinação ao primeiro
olá...
Mas a vida precisava continuar, e Knox não

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estava em meu futuro.

O que estava em meu futuro?


Eu ia morrer sozinha?
Ia sobreviver com sequelas?

Para quem eu deixaria o império que tinha


herdado?
As perguntas rodavam em minha cabeça,
me deixando cada vez mais triste.
Quando chegamos ao cartório, pedi ao
motorista que aguardasse e subi os degraus lado a

lado com Knox. Então parei e puxei sua mão para


que ele parasse também.
— Ryan, eu apenas queria agradecer por
tudo — senti uma lágrima escapar e rapidamente a

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limpei. — Você provavelmente nunca entenderá,

mas o que disse antes é verdade: você me deu


muito. E eu espero que você seja feliz — meu
queixo tremeu quando disse as últimas palavras. —

Você merece.
Ryan se aproximou e beijou meus lábios
com delicadeza. Sem dizer uma palavra, soltou
minha mão, voltou a subir os degraus e entrou no
cartório. Meu peito doeu. Aquele tinha sido nosso
último beijo?

Se fosse, aquilo me atormentaria enquanto


eu vivesse. Não era suficiente, não foi o suficiente
o que tivemos até aquele momento. Mas era tudo o
que eu tinha.

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E estava acabado.

**

— Knoxville! — ouvimos nossos nomes


serem chamados e nos levantamos lentamente na
sala de espera. Knox bateu com as palmas das mãos
nas pernas e nada disse. Eu respirei fundo e me
ergui, tirando forças sabe-se lá de onde para seguir
em frente.

Nós passamos pelo corredor extenso até que


chegarmos em frente a uma mesa. Um homem
engravatado estava olhando por cima dos seus
óculos para o documento em sua mesa. Após

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alguns segundos, empurrou os papéis para nós e

disse de forma entediada:


— Favor conferir os dados e assinar.
Era isso?

Simplesmente seria daquela forma que


acabaria?
Fechei os olhos e tentei me lembrar do
momento em que Knox e eu nos casamos.
Estávamos bêbados, obviamente. Mas foi
divertido.

Muito.
— Eu prometo que eu descobrirei como te
amar, respeitar e apoiar... Agora podemos
transar?

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Sorri com a lembrança, mas meu sorriso

caiu no momento em que Ryan pegou a caneta e


assinou na parte assinalada do documento. Ele se
virou para mim e entregou a caneta, piscando

rapidamente. Tentando afugentar as lágrimas que


queriam aparecer, peguei a caneta e me abaixei
para assinar o meu nome.
Peça-me para parar.
Minha mente gritou e finalmente uma
lágrima escapuliu.

Então, esperando mais um momento, eu


finalmente tomei coragem e assinei o maldito
papel.
— Ótimo! — Knox exclamou, pegando

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meu braço e me virando de frente para ele com

rapidez e firmeza. Olhei um pouco assustada para o


seu ato, mas não tive muito tempo para raciocinar.
— Agora posso levá-la para um encontro, pedir

para namorar comigo e fazermos as coisas na


ordem certa — declarou antes de me beijar
ferozmente em frente a todos na sala.
Sua língua foi implacável, exigindo
passagem, dançando dentro da minha boca e
arrancando gemidos de dentro de mim. Minhas

mãos envolveram o seu pescoço e meu corpo se


colou ao seu com tamanha necessidade, que não
queria mais soltá-lo.
Um pigarro foi solto e finalmente nos

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separamos. Knox me olhava com determinação.

— Os senhores já podem sair... — o homem


começou a falar com o mesmo tom entediado, e
Ryan levantou a mão para que ele se calasse. Sua

atenção nunca saiu de mim.


— Eu não vou desistir de você, Linda
Hatman.
— Knox, isso é loucura. Moramos longe...
— comecei a argumentar.
— Eu vou para Los Angeles, não me

importo — resolveu rapidamente.


— Somos de mundos diferentes... — eu não
queria dizer o verdadeiro motivo, mas ele parecia
saber exatamente o que estava passando em minha

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mente.

— Linda, não tenha medo — pediu,


segurando meu rosto.
— Eu posso morrer, Ryan — as palavras

saíram com dor, e logo as lágrimas jorravam para


fora dos meus olhos. — Eu posso ficar na mesa de
operação.
— Eu serei o motivo para você voltar,
Linda. E você vai voltar para mim. Você é minha, e
eu sou seu.

Aquele homem...
Deus! Como eu poderia olhar em seus olhos
e mandá-lo embora? Era impossível não ter
sentimentos por ele, impossível não querer ele

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comigo para sempre. Meu corpo estava

completamente tomado pela emoção, de excitação


ao ouvir as palavras de Ryan para mim. Ele me
queria. Independentemente da minha doença,

independentemente do meu dinheiro.


— Ryan... Eu estou apaixonada por você —
as palavras saíram junto com um sorriso nervoso.
— Eu sei, baby. Eu sinto o mesmo. É como
se eu estivesse me vendo em você.
— Com licença? — o homem entediado

resmungou novamente, fazendo com que eu e Knox


olhássemos para ele. — Devo rasgar o
cancelamento? — perguntou com uma carranca e a
sobrancelha esquerda erguida.

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— Não! — Knox disse.

— Sim! — respondi ao mesmo tempo. Nós


nos olhamos rapidamente.
— Quero fazer a coisa certa com você,

baby. — justificou a sua negativa.


— Você já fez, Ryan, quando você disse: eu
prometo que eu descobrirei como te amar,
respeitar e apoiar... Agora podemos transar? Bem,
menos a última parte — brinquei.
— Com a última parte.

— Obrigada! — agradeci novamente. —


Por me dar aquele drinque.
— Obrigado por aparecer na minha vida —
deu um beijo delicado em meus lábios.

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— Obrigada por estar na minha.

— E eu agradeço se me derem uma


resposta: posso rasgar a anulação? — o homem
ranzinza perguntou novamente.

— SIM!
Respondemos juntos.
Juntos.
Nós estávamos juntos.

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Epílogo
Três anos depois

LISTA DE MERDAS DAS MELHORES


COISAS PARA FAZER EM LAS VEGAS!
1. Ir para Las Vegas; Eu fui!
2. Gastar uma pequena fortuna em um
cassino; Gastei em batom também.
3. Experimentar drinques exóticos enquanto

reclama da vida para o Barman; Ganhei um drinque


com o meu nome.
4. Ver um show de go-go boy; Novo
conceito de go-go boy inventado com sucesso!

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5. Dançar em frente ao Bellagio; Deus! Foi

lá que descobri que o amor te pega rápido, basta


conhecer a pessoa certa.
6. Andar em uma limousine com a cabeça

para fora do teto solar enquanto canto a música


tema de Titanic; Nunca diga na minha cara que
Titanic é brega! Eu mato você!
7. Fazer uma tatuagem; Estou na terceira e
contando...
8. Assistir a um show cover da Tina Turner;

Dei de presente de natal o DVD remasterizado de


Mad Max para Knox.
9. Casar com um estranho na capela do
Elvis; Três anos, três casamentos... E contando.

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10. Transar com o marido estranho. Todos

os dias! Sempre que possível...

Era nosso aniversário de três anos de

casamento/namoro/dia que nos conhecemos. Nós


estaríamos de partida para Vegas na semana
seguinte, para comemorar, mas eu sabia que Ryan
estava preparando alguma surpresa para mim, ele
sempre fazia isso.
Entrei em nossa casa e tudo estava

silencioso e escuro. Assim que cruzei o batente da


porta, pulei para fora dos meus saltos e larguei
minha bolsa em cima do aparador do hall de
entrada. Mantive apenas as flores que havia

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comprado e a caixinha com o presente. Era nosso

aniversário.
— Ryan? — chamei, tentando descobrir
onde ele estava. Nenhuma resposta.

Por um momento, pensei que ele tinha


esquecido do nosso dia, mas era impossível. Ele
tinha uma bela vantagem. Nosso aniversário era um
dia antes do dia dos namorados, e a cidade toda
estava preparada para aquele dia. E se eu fosse
honesta? Ele nunca se esqueceria. Ryan Knoxville

era o homem mais perfeito que havia conhecido. E,


por sinal, era meu.
Naquele mesmo dia em que desistimos da
anulação do nosso casamento, voltamos para o

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apartamento de Ryan. Ele fez uma boa mala para a

viagem, organizou tudo o que pode e fechou as


portas. Eu tentei dizer que poderíamos ir devagar,
que ele poderia ficar, mas o homem estava decidido

em voltar comigo e me fazer entrar no primeiro


hospital para arrancar o aneurisma da minha
cabeça.
Palavras dele, não minhas.
Eu estava morrendo de medo. Quando me
dei conta do que realmente estava acontecendo, a

raiva e a revolta deram lugar ao puro medo. Mas


Ryan nunca me abandonou. Nós voltamos para Los
Angeles de carro, minha mãe e padrasto já
aguardavam por mim, assim como Stacy. Todos

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ficaram assustados quando apresentei Knox como

meu marido, mas a preocupação sobre a minha


saúde acabou ofuscando a notícia do casamento.
Na semana seguinte, Ryan e eu estávamos

nos despedindo.

— Adeus! — disse, tentando me despedir


corretamente dele. Deitada na maca e preparada
para a cirurgia, os médicos apenas aguardavam eu
me despedir para poder ir para o centro cirúrgico

e ser sedada.
— Adeus? De jeito nenhum, estarei te
esperando bem aqui quando você voltar. — ele
respondeu firmemente.

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— Knox, é sério — iniciei a conversa. Ele

tinha que entender que eu poderia não voltar. —


Eu deixei tudo preparado para você. Está tudo com
Stacy.

— Eu já disse que não quero o seu dinheiro,


não me casei e nem me mantive casado com você
por isso...
— Eu sei, Ryan. Eu sei! Mas isso não faz de
você menos merecedor. Eu quero que fique bem...
— seus olhos pareciam desesperados quando fui

interrompida.
— Eu vou ficar bem, com você. Entendeu,
Linda? — pela primeira vez eu vi o meu amor
desesperado. Tudo nele gritava terror. Estava

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aterrorizado com aquela situação, mas só estava

demonstrando naquele momento. Oh, Knox! — Eu


não tive tempo o suficiente, não tive o bastante de
você, baby. Eu... eu te amo. Eu te amo e não quero

ficar sem você, então não me diga adeus.


— Tudo bem — assenti junto com a
resposta, sentindo meu coração apertar.
— E quando você voltar, vamos nos casar
novamente. E no próximo ano também, e em todos
os anos...

Ele sorriu, e seus olhos brilharam,


verdadeiras piscinas de lágrimas se formaram
dentro deles. Piscando rapidamente, ele se
aproximou e me beijou. Um beijo perfeito, doce e

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cheio de coragem. Um beijo que me dizia para

voltar e pegar tudo mais que ele tinha a me


oferecer.
E assim eu fiz.

Eu voltei.
Voltei para ele.
Foram oito horas de cirurgia, mas eu voltei.
Perdi 40% dos movimentos do braço esquerdo,
mas, ao acordar, ele estava lá. Bem, todos estavam

lá. Minha mãe, meu padrasto, Stacy, alguns


conselheiros da empresa... Mas, principalmente,
Ryan. Meu marido estava lá, com um sorriso
cansado, aliviado e radiante ao mesmo tempo.

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Estava aguardando para me dar tudo o que ele

tinha, todas as novas aventuras que teríamos em


nosso futuro.
Eu estava tão feliz em estar viva, que não

me importei em perder parte dos movimentos, eu


simplesmente foquei em meu futuro. Com o tempo,
fiz fisioterapia e recuperei um pouco mais dos
movimentos, minha mão não abria e fechava com
rapidez e nem abria completamente, meus dedos
não esticavam completamente. Mas para ser

honesta, se eu não tivesse nenhum movimento,


estaria feliz também. Com Ryan, tudo na vida
sempre tinha um sentido diferente.
Quando estava fora de perigo, minha mãe

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foi implacável sobre o meu casamento. Engraçado

perceber Judy Carly, uma mulher que basicamente


só se importava com ela mesma, tirar um tempo
para se preocupar com a filha. Mas depois que eu

disse que não era da conta dela com quem eu


casava e deixei claro que o dinheiro da Hatman
Hotéis era meu, ela sossegou. Então começou a ser
implacável para que eu tivesse um casamento de
verdade.
Mal sabia ela que tive o melhor casamento

de todos, porém, por outro lado, seria bom estar


sóbria em uma cerimônia. Então, após seis meses,
nos casamos novamente, em uma cerimônia
discreta em um dos nossos hotéis em Beverly Hills.

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Foi um belo casamento, mas em seguida

tivemos nossa primeira discussão. Ryan se negava


a assumir um cargo alto na Hatman Hotéis. Ele
alegava que não era honrado. E depois de semanas

discutindo sobre o assunto, coloquei a situação de


maneira invertida para ele.
— E se fosse o contrário? E se você fosse o
dono de tudo? Ia me querer como uma garçonete
em um dos hotéis? — perguntei, alterada, já estava
cansada daquilo tudo.

— Eu... não sei... Eu só não sei se tenho


vocação para ficar atrás de uma mesa, Linda —
respondeu, um tanto frustrado.
Então chegamos a um acordo, nem tão alto,

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e nem tão baixo. Knox estudaria e seria gerente de

alimentos e bebidas de um de nossos complexos.


Ele ficou satisfeito, eu nem tanto, mas o amava,
queria ele confortável e feliz.

Tudo continuava escuro e sem nenhum sinal


dele. Nunca havíamos comemorado em casa, então
eu não sabia muito bem o que esperar.
Ninguém na cozinha;
Ninguém na sala;

Ninguém no escritório;
Ninguém nos quartos extras, que em breve
desejávamos preencher. Faltava o nosso quarto,
então caminhei até lá e entrei. Lá estava: a

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claridade era mínima e vinha do banheiro. Eram

velas, as chamas brincavam fazendo sombras na


parede, e o aroma era inconfundível. Andei até o
banheiro da nossa suíte, curiosa para saber o que

meu marido havia aprontado.


Não era a primeira vez que ele preparava
um banho de banheira para mim, e definitivamente
não era a primeira vez que ele preparava um banho
de banheira com ele nu, envolvido na equação.
Ainda assim, estava excitada e ansiosa para vê-lo.

Ansiosa para dar-lhe o meu presente também.


Segurei a caixa e as flores firmemente e
empurrei um pouco mais a porta, entrando no
banheiro. É claro que ele estava lá, dentro da nossa

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grande hidromassagem, coberto de espuma e

pétalas bregas de rosa, mas ainda assim, tão


romântico... Ironic, de Alanis Morissette, estava
tocando, e as velas iluminavam o belo conjunto de

ser humano que era o meu marido. Seus braços


estavam abertos e apoiados na banheira. De onde
estava, eu podia ver sua tatuagem, aquela que
combinava com a minha e que nos lembraria,
mesmo sem necessidade, da melhor loucura que
fizemos um dia.

— As flores são para mim? — perguntou


com o semblante que eu mais amava:
completamente feliz, de um modo que seus olhos
conseguiam sorrir mais do que a boca.

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— Sim, e o presente também — informei,

deixando ambos em cima do pequeno deque que


tínhamos na hidromassagem. — Não toque, quero
dar a você — apontei, fazendo ele levantar as mãos

em sinal de rendição. Comecei a me despir para me


juntar a ele, quando ouvi:
— Devagar! — pediu, assim que comecei a
desabotoar a blusa.
— Você quer um strip? — levantei a
sobrancelha para ele em questionamento, o homem

era sempre ansioso demais para colocar as mãos em


mim. Nossas brincadeiras dificilmente iam até o
final, não demorava muito, ele pulava em mim.
— Estou ansioso demais para assistir um

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strip-tease agora, baby. Só tira devagar e depois

vem para mim — eu sabia! Ele era sempre assim.


Fiz o que ele me pediu. Tirei minhas roupas
vagarosamente e prendi meus cabelos no alto da

cabeça antes de entrar na banheira. A essa altura, a


música que tocava já era outra, Always On My
Mind. Sentei de frente para ele, encaixando minhas
pernas em volta da sua cintura e sentindo a dureza
do seu membro em meu centro.
Beijei seus lábios delicadamente e depois

espalhei beijos por todo o seu rosto e ombros, até


que estávamos encaixados e nos movimentando
juntos. Será que um dia cairíamos na rotina?
Perderíamos a chama? Esperava que não, queria

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amar e desejar meu marido até o fim dos meus dias

e tinha certeza absoluta que ele desejava o mesmo.


Vagarosamente, Ryan se esforçava para entrar mais
fundo em mim enquanto meus lábios soltavam

gemidos de prazer, de puro êxtase.


— Eu te amo! — disse fervorosamente
enquanto a velocidade de suas investidas ganhava
velocidade. Rebolei e acompanhei seu ritmo, até
que juntos estávamos obtendo o nosso ápice e
gemendo alto de satisfação.

**

— Feliz aniversário — sussurrou,

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acariciando meus braços. Deitei em seu peito e me

permiti relaxar na água quente e borbulhante.


— Feliz aniversário. Esse foi calmo —
descansando a cabeça em seu ombro, olhei para

cima. — Gostei assim, pensei que você ia aprontar


algo para relembrarmos Vegas antes de ir para lá.
— Você esperava me encontrar com uma
peruca loira dançando MMMBop?
Gargalhei, me lembrando do quão ridículo
ele estava.

— Ainda não consigo entender como você


foi capaz de uma besteira daquelas.
— Eu já estava caído por você, baby, faria
qualquer coisa para que você não encostasse em

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nenhum homem...

— Mentira! — bati em seu ombro. — Não


havia go-go boys naquele horário, e você sabia...
— Tudo bem, tudo bem! — admitiu. — Eu

só queria que você se lembrasse de todos os


momentos, mesmo dos ridículos. Você era a pessoa
mais linda que eu tinha colocado os olhos. Mas
também a mais triste.
Seu rosto suavizou com a lembrança, e eu
estiquei o pescoço e o beijei.

— Eu nunca me esqueceria, amor. Nunca.


Você trouxe motivos para sorrir e viver a vida.
Serei eternamente grata.
— Temos história. Três anos, Linda. Três

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anos que encontrei a mulher da minha vida.

— Nossa história é a melhor. E quando


tivermos nossos netos, poderemos contar para eles
como foi que nos conhecemos, nos apaixonamos e

nos casamos em vinte e quatro horas.


— Soa louco quando falamos assim, mas
aquelas vinte e quatro horas pareceram durar
semanas, meses — brincou. — E sobre contar para
nossos, bem, temos que ter bebês primeiro.
Ryan queria filhos após um ano de

casamento. Eu queria esperar mais. Ainda tinha


medo de que pudesse ter algum problema na
contenção do meu aneurisma, mesmo os médicos
descartando veemente a possibilidade. Mas eu não

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poderia evitar, passar por aquela agonia, por aquele

medo. Tudo tinha ficado em mim por muito tempo.


Foi necessário terapia naquele ano para que eu
pudesse seguir em frente.

Diminui o ritmo de trabalho também, eu


queria viver mais a vida e queria aproveitar nosso
amor antes de adicionar filhos. Quando finalmente
decidimos comumente que teríamos um filho,
estávamos mais do que empolgados em praticar,
para que nossos herdeiros viessem ao mundo.

Combinamos três. Queríamos uma família grande e


estávamos prontos e consciente para aquilo.
Então...
— Sim, temos que ter filhos antes de termos

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netos, concordo — eu me virei, ficando de joelhos,

e beijei seus lábios antes de pegar a caixinha de


presente. — Sobre isso...
Ele pegou a caixa com facilidade, mas não

desviou seu olhar do meu.


— Feliz aniversário, baby — sorri
largamente e senti meu coração disparar enquanto
ele abria a caixa.
Aconchegado em um papel dobrado estava
o primeiro teste de gravidez que havia feito naquela

manhã. O papel dobrado era o exame de sangue


que fiz de urgência no minuto em que o exame de
farmácia tinha me dado o resultado positivo.
— Linda! — Knox exclamou, sorrindo,

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suas mãos tremiam de emoção quando ele largou a

caixa no deque e me puxou para ele. — Eu te amo,


estou tão feliz.
Nós nos beijamos por um longo momento, e

quando nos soltamos, repetimos o diálogo que


tínhamos desde que assumimos o nosso amor em
Las Vegas.
— O que acontece em Vegas nem sempre
fica em Vegas — sussurrei, vendo as lágrimas de
emoção nos seus belos olhos sempre sorridentes.

— Ainda bem! Ainda bem! — respondeu,


extasiado.
— Viva Las Vegas! — exclamei, baixinho,
mas feliz. Muito feliz.

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— Viva Las Vegas! — Ryan, o amor da

minha vida, espelhou a minha comemoração.


Pensei que estava em um caminho sem
volta quando descobri o aneurisma, entrei em

pânico ao saber que morreria sozinha e sem


grandes feitos. Ir para Vegas me fez perceber um
novo caminho, e aquele também era sem volta, é
claro. Ter me apaixonado pelo homem que batizou
um drinque com o meu nome foi completamente
involuntário, mas eu nunca voltaria atrás. Dei meu

coração para Ryan sem perceber.


E então, percebendo que eu era dele, eu
daria meu coração todos os dias.
Sem arrependimentos.

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FIM

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Agradecimentos
Agradeço aos meus parceiros do Botando
Banca! Esse projeto me enche tanto de alegria

quanto ter vocês na minha vida, Aretha, Clara e


Raphael.
Um obrigada especialíssimo à LP (Livros
Prontos e Lion) por acreditarem neste projeto,
apoiar e engrandecê-lo ainda mais!
E um super agradecimento a Wilka

Andrade: obrigada, Kika, pelo carinho e atenção de


sempre pelas minhas obras. Você sempre estará em
meu coração.

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Sobre a autora
Carol Moura é gaúcha, mas mora em
Brasília com seu marido e filho.

Turismóloga de formação, apaixonada por


literatura, séries e filmes, escrevia em suas horas
livres como hobby, até que em 2015 resolveu se
aventurar publicando seu primeiro original em
plataforma digital.
Em 2017 optou por se dedicar integralmente

à escrita, deixando a estabilidade do seu emprego


para se arriscar fazendo o que realmente ama:
escrever romances.
Tornou-se destaque no Wattpad com o livro

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Orange Kiss, posteriormente a obra foi sucesso na


Amazon juntamente com outros livros da autora,
como a trilogia Adeus, Groupie, Para Roxanne,
Com Amor, entre outros títulos.

Com O Destino do CEO, a autora alcançou


o topo de vendas, com mais de 3 milhões de
leituras em apenas quarenta dias, liderando o
ranking de e-books mais vendidos na plataforma
digital.

Sem Volta é seu segundo livro no selo


Botando Banca, uma parceria idealizada entre ela e
as autoras Aretha V. Guedes (Sem Regras) e C.
Caraciolo (Sem Alternativa), que visa reacender o

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gosto pela leitura de romances de banca de jornal.

[1]
Chief Operating Officer, braço direito do Chief Executive
Officer, o CEO.
[2]
Nota da autora: a Colt Company pertence a Dashier Colt,
protagonista do livro O Destino do CEO, de Carol Moura,
minha amiga e colega de Botando Banca! =]
[3]
Grade point average: média das notas do aluno para
ingressar em universidades nos Estados Unidos.
[4]
Fala italiano, ainda. Melhor ainda!

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