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22/02/2021 Pensando a Sociedade Brasileira antes da Sociologia Científica

Pensando a Sociedade
Brasileira antes da
Sociologia Cientí ca

AUTORIA
Ma. Solange Santos de Araujo
Me. Josimar Priori
Esp. Fúlvio Branco Godinho de Castro
Ma. Daiany Cris Silva

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22/02/2021 Pensando a Sociedade Brasileira antes da Sociologia Científica

Interessados em realizar um estudo histórico sobre a realidade do Brasil, literatos


criaram obras que retratam a sociedade brasileira de maneira signi cativa, e,
embora não houvesse, como grande objetivo, o desenvolvimento de uma ciência
sociológica propriamente dita nesse momento, suas leituras são importantes para o
pensamento social do nosso país. Os autores considerados como referências desse
processo de criação literária são: Joaquim Nabuco, um dos fundadores da Academia
Brasileira de Letras e autor de “O abolicionismo” (1883); o autor Euclides da Cunha,
criador da obra pré-modernista “Os sertões” (1902); o político e escritor Rui Barbosa,
responsável por colaborar na redação de documentos importantes para a sociedade
brasileira, como a Constituição de 1891.

No entanto, destacamos aqui, como principal representante desse movimento de


pensamento social brasileiro, apenas o engenheiro militar Euclides da Cunha (1866-
1909), que produziu a obra que retrata a sociedade de maneira mais relevante. Na
função de jornalista, Euclides da Cunha foi enviado para o interior da Bahia para
relatar a Guerra de Canudos, e, por meio dessa experiência, surgiu a sua maior
contribuição à Sociologia brasileira da época, o livro “Os sertões”.

Em “Os sertões”, o escritor narra os acontecimentos da sangrenta Guerra de


Canudos, liderada por Antônio Conselheiro (1830-1897), que ocorreu no interior da
Bahia, durante os anos de 1896 e 1897. Com base em seus conhecimentos de ciência
e física naturais, Euclides da Cunha faz relatos sobre a terra e a paisagem de
Canudos e, principalmente, descreve a população resistente do sertão nordestino. A
obra refere-se a esse povo da seguinte forma: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.
Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral” (CUNHA,
2010, p. 94).

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SAIBA MAIS
Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro, líder do movimento messiânico, que era um


movimento social com aspirações religiosas, articulado por milhares de
sertanejos no arraial de Canudos, no nordeste da Bahia, foi acusado de
difundir ideais subversivos e, junto de seus seguidores, sofreu repressão
do governo, o que culminou no grande embate da Guerra de Canudos.
Para conhecer um pouco mais sobre esse personagem tão importante
para a história brasileira, acesse o link.

Fonte: Elaborado pelas autoras.

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Em sua escrita, Euclides da Cunha fazia revelações a respeito da organização da


República, que se consolidava naquele período no Brasil e que, segundo o autor,
mostrava-se incapaz de suprir as necessidades básicas de seu povo, feito que
Antônio Conselheiro buscava atingir em sua comunidade de Canudos, assim como
Cunha descreve:

[...] abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas e


produtos do trabalho comum. Compreendia que aquela massa, na
aparência inútil, era o cerne vigoroso do arraial. Formavam-na os
eleitos, felizes por terem aos ombros os frangalhos imundos,
es apados sambenitos de uma penitência que lhes fora a própria
vida; bem-aventurados porque o passo trôpego, rememorado pelas
muletas e pelas anquiloses, lhes era a celeridade máxima, no avançar
para a felicidade eterna (CUNHA, 2010, p. 132).

O governo federal republicano buscou destruir a comunidade de Canudos por


acreditar que aquele seria um movimento de rebelião ao estado. Após dois fracassos
em tombar Canudos, na terceira tentativa, reuniu exércitos de vários estados do
Brasil, promoveu um grande massacre em prol da República e destruiu a
comunidade de Canudos.

Embora seja considerada uma obra literária, “Os sertões” de Euclides da Cunha, ao
fazer grandes revelações sobre a sociedade brasileira, colocou-se como uma obra
referencial, um marco do início da consolidação de um pensamento social brasileiro.

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A obra de Euclides da Cunha e as suas contribuições para a Sociologia brasileira


evidenciam que a literatura é um elemento importante para a análise da formação
cultural e da conjuntura política do Brasil. Muitos outros movimentos intelectuais de
literatos brasileiros cumpriram um papel parecido ao de Euclides da Cunha,
segundo Florestan Fernandes, “[...] a contribuição de Mário de Andrade ao folclore
brasileiro até hoje não foi convenientemente estudada” (FERNANDES, 1958, p. 309). A
obra “Macunaíma”, publicada em 1928, por exemplo, conta a história de um herói
sem nenhum caráter, como diria a sinopse do livro, e reúne elementos folclóricos e
questões emergentes da sociedade brasileira da época.

Obras literárias como “Macunaíma” e “Os sertões” cooperam para o entendimento


dos movimentos populares da sociedade brasileira e demonstram as características
políticas e estruturais de poder, os condicionantes de formação cultural e os
elementos de desigualdade social.

Seguida do movimento de literatos que buscavam pensar a sociedade brasileira, a


segunda fase de implantação da Sociologia no Brasil se caracterizou por aderir a
uma das principais perspectivas metodológicas da Sociologia, a pesquisa de campo.
Segundo Ianni (2000), os intelectuais desse período estavam preocupados com a
questão nacional e se empenharam em descrever detalhadamente o processo de
formação da sociedade brasileira, a constituição de estado e a construção cultural.
Para os intelectuais desse período: “[...] o Brasil é um país marcado pela ‘vocação’
agrária, cuja economia, política, sociedade e cultura enraízam-se na agropecuária e
mineração” (IANNI, 2000, p. 70).

Dentre os vários autores que compõem esse período, podemos destacar Gilberto
Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Elegemos esses dois pensadores, porque estes
desenvolveram dois conceitos importantes para a formação da Sociologia brasileira:
o primeiro formula o conceito de democracia racial, e o segundo, o conceito da
cordialidade, como uma característica da população brasileira.

Gilberto Freyre (1900-1987) foi um dos principais autores pós-1930, precursor do


pensamento social brasileiro com seu livro “Casa-grande & senzala”, escrito em 1933.
Nessa obra, Freyre busca demonstrar as características da colonização portuguesa, a
formação da sociedade agrária, o uso da mão de obra escravizada e a miscigenação,
como a mistura de três raças (portugueses, indígenas e negros) colaborou para
compor a sociedade brasileira, ou seja, as relações entre casa-grande, senhores de
engenho/colonizadores e senzala (pessoas escravizadas).

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Figura 3.2 - Ilustração do livro “Casa-grande & senzala” de Gilberto Freyre

Fonte: GiFontenelle / Wikimedia Commons.

O conceito de democracia racial é desenvolvido por Freyre (1975) em “Casa-grande &


senzala”. Segundo o autor, havia, no Brasil, uma convivência harmônica entre essas
três raças, motivada pela miscigenação, que, sob sua perspectiva, ocorreu de
maneira pací ca. Claramente, caro(a) estudante, na atualidade, com o
desenvolvimento dos estudos das relações étnico-raciais, sabemos que o processo
de miscigenação não foi tão pací co e harmonioso, mas devemos considerar o
contexto em que Freyre escreveu e as suas perspectivas teóricas, pois o conceito de
democracia racial seria um contraponto à teoria evolucionista que hierarquizava, de
forma inferiorizada, a população negra.

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CONECTE-SE
Democracia racial

O conceito de democracia racial é muito debatido e contestado por


movimentos sociais afetos a questões raciais no Brasil. A principal crítica
a posicionamentos teóricos como o de Gilberto Freyre em “Casa-grande
& senzala” é que, embora a população negra e a população indígena
tenham contribuído signi cativamente na construção econômica do
país e na formação cultural brasileira, não houve uma integração efetiva
dessas populações na sociedade brasileira, o que invalida o argumento
de que todas as expressões étnico-raciais convivem democraticamente
no país, pois elas possuem acessos diferentes a direitos básicos, como
educação, trabalho, entre outros, em razão de preconceitos enraizados
na nossa estrutura social. Para se inteirar sobre essa discussão, acesse a
matéria do Portal Geledés sobre a temática.

Fonte: Elaborado pelas autoras.

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Freyre (1975) concebeu sua obra na década de 1930, período de transição entre a
sociedade escravocrata para a capitalista, momento em que o Brasil iniciava o seu
processo de industrialização. Além disso, deve-se considerar que Freyre foi lho de
uma família escravocrata, ele pertencia à casa-grande, e é sob essa perspectiva que
ele escreve a contribuição do negro na cultura brasileira:

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Foi o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua


melhor alegria. O português, já em si melancólico, deu no Brasil para
sorumbático, tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, descon ado,
quase um doente em sua tristeza. Seu contato só fez acentuar a
melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou toda essa
“apagada e vil tristeza” em que foi abafando a vida nas casas-
grandes. Ele deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os
bumbas-meu-boi, os cavalos marinhos, os carnavais, as festas de Reis.
[...] Nos engenhos, tanto nas plantações como dentro da casa, nos
tanques de bater roupas, nas cozinhas, lavando roupa, enxugando
prato, fazendo doce, pilando café, carregando sacos de açúcar, pianos,
sofás de jacarandá de ioiôs brancos – os negros trabalhavam
cantando: seus cantos de trabalho, tanto quanto os de xangô, os de
festa, os de ninar menino pequeno, encheram de alegria africana a
vida brasileira (FREYRE, 1975, p. 462-463).

Percebe-se a visão um tanto romantizada das relações entre a casa-grande e a


senzala concebida por Freyre, no entanto, essa perspectiva contribuiu para que sua
obra constituísse um posicionamento combativo à ideia de que a miscigenação
seria a causa da formação de uma população pouco desenvolvida. Nesse sentido, o
autor contrapunha os ideais teóricos evolucionistas à produção dos antropólogos
brasileiros Oliveira Vianna (1883-1951), autor de “Populações meridionais do Brasil” de
1922, e Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), responsável pela obra “Os africanos no
Brasil”, escrita entre 1890 e 1905. Ambos os autores foram entusiastas de teorias
eugenistas, que visavam à puri cação das raças no branqueamento da população,
por acreditar na inferioridade dos povos africanos.

Portanto, na obra de Freyre (1975), valorizam-se as características dos povos negro,


indígena e miscigenado. O autor atribui à mistura de raças uma característica
positiva para cultura brasileira. Sobre isso, ele diz: “[...] todo brasileiro, mesmo o alvo,
de cabelo louro, traz na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha
mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro.”
(FREYRE, 1975, p. 283). O fato de todo e qualquer brasileiro possuir um traço
miscigenado, para o autor, faria com que houvesse uma maior identi cação entre
pessoas de diferentes características de cor, não precedida de preconceito racial.
Freyre (1975) considera, ainda, que, em razão dos lhos dos senhores de engenho
terem sido amamentados e cuidados por mulheres escravizadas, constituiria-se,
assim, uma lembrança carinhosa sobre o povo da África.

Sob essa perspectiva, Gilberto Freyre buscou elaborar uma nova percepção sobre a
construção da sociedade brasileira. O intuito do autor foi demonstrar a construção
harmoniosa e pací ca na união entre os portugueses, os negros e os índios,
fortalecendo a ideia de que a miscigenação atribuiu riqueza para formação da
cultura brasileira.

No que se refere ao outro autor referencial desse período, o historiador brasileiro


Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), sua colaboração também foi signi cativa
para a consolidação do pensamento sociológico brasileiro. Sob a in uência da teoria

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de Max Weber, o autor publica, em 1936, o livro “Raízes do Brasil”.

Nessa obra, aspectos centrais da história da cultura brasileira são abordados. No


capítulo principal, o capítulo 5, intitulado “O homem cordial”, em que o autor
conceitua a cordialidade brasileira, retrata-se o papel que o brasileiro exerce na
esfera, por meio da cordialidade, pautando suas ações na afetividade. O conceito de
homem cordial é uma mobilização da construção metodológica de um tipo ideal,
desenvolvida por Weber.

REFLITA
O Tipo Ideal para Max Weber

“Qual é, em face disso, a signi cação desses conceitos de tipo ideal para
uma ciência empírica, tal como nós pretendemos praticá-la? Queremos
sublinhar desde logo a necessidade de que os quadros de pensamento
que aqui tratamos, ‘ideais’ em sentido puramente lógico, sejam
rigorosamente separados da noção do dever ser, do ‘exemplar’. Trata-se
da construção de relações que parecem su cientemente motivadas
para a nossa imaginação e, consequentemente, ‘objetivamente
possíveis’, e que parecem adequadas ao nosso saber nomológico
[nominação lógica de argumentos]”. Nesse sentido, para Weber, o tipo
ideal seria um instrumento metodológico que faz alusão à realidade
estudada.

Fonte: Adaptado de Weber (1992, p. 107).

De acordo com a teoria de Sérgio Buarque de Holanda (1995), o brasileiro, à mesma


medida que possui uma generosidade genuína, possui perversão, fazendo com que
ele seja passional e tome decisões à luz da emoção. Diante disso, Holanda a rma
que:

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A exaltação dos valores cordiais e das formas concretas e sensíveis da


religião, que no catolicismo tridentino parecem representar uma
exigência do esforço de reconquista espiritual e da propaganda da fé
perante a ofensiva da reforma, encontraram entre nós um terreno de
eleição e acomodaram-se bem a outros aspectos típicos de nosso
comportamento social. Em particular nossa aversão ao ritualismo é
explicável, até certo ponto, nesta “terra remissa e algo melancólica”,
de que falavam os primeiros observadores europeus (HOLANDA, 1995,
p. 182).

A presença de valores religiosos, como a generosidade e a ajuda ao próximo, pode


explicar essa cordialidade do brasileiro. No entanto, segundo Holanda (1995), a
cordialidade endossa os equívocos que a sociedade brasileira instituiu entre as
esferas pública e privada, o que deu origem ao que conhecemos popularmente
como “jeitinho brasileiro”, ato de buscar vantagens individuais em âmbito público
por meio do tratamento pessoalizado. As negociações e os atalhos determinados
pelas relações interpessoais que in uenciam as decisões públicas são entendidos,
em termos sociológicos, como patrimonialismo.

Compreender as in uências do patrimonialismo nas relações sociais da população


brasileira expressa mais uma marca do pensamento weberiano na obra de Holanda
(1995), dado que esse conceito é uma criação de Weber para explicar os mecanismos
de poder e de dominação econômica, baseados na concepção de patrimônio, em
que o público e o privado se confundem ou, até mesmo, tornam-se indistintos. O
patrimonialismo se expressa em relações de trabalho nas quais os trabalhadores são
expostos a situações de senhorio e nepotismo nas indicações políticas, ao
clientelismo, ao “voto de cabresto” durante períodos eleitorais, entre outras
problemáticas ainda muito presentes na sociedade brasileira da atualidade.

“Raízes do Brasil” é uma obra em que Sérgio Buarque de Holanda (1995) denuncia as
problemáticas da formação cultural do brasileiro, por meio de uma sistematização
metodológica clássica das ciências sociais. A análise de Gilberto Freyre possui,
também, uma boa orientação metodológica, principalmente, no que se refere a
correntes de pensamento como o culturalismo antropológico.

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