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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS INSTITUTO DE


CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS DEPARTAMENTO DE
SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
SERVIÇO SOCIAL - ÁREA DE CONCENTRAÇÃO EM
SUSTENTABILIDADE NA AMAZÔNIA

DISCIPLINA: Sustentabilidade e Serviço Social na Amazônia


PROFESSORAS: Dra. Ma. do P. Socorro Rodrigues Chaves; Dra. Débora
Rodrigues
DISCENTE: Tereza Cristina Cardoso Costa

1. FICHAMENTO

FILHO, Gilberto Montibeller. Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento


Sustentável. Testo de Economia, Florianópolis: 1993, V4, n. 1, p. 131-142.

O texto trata das diferenças e partes comuns entre o conceito de


Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento Sustentável. Na relevância do assunto
o autor conversa com as ideias de outros autores em destaque como Ignacy
Sachs, Godard, Maimon. Entre conceitos e noções há um levantamento
histórico que abordam o desenvolvimento do tema.
“Como um novo paradigma: assim é apresentado esse conceito. Ele é
construído em decorrência da insatisfação de alguns cientistas e
pesquisadores, sobretudo das áreas de conhecimento sociais e humanos, com
limites de abordagem sociais, inclusive da intelectualidade, da progressiva
deterioração das condições objetivas de existência da maior parte da
população e da crescente pressão da degradação ambiental. A Conferência
Mundial de Estocolmo sobre o Meio Ambiente (de 1972) é um marco
importante da conscientização que começava a se manifestar”. (p.131)
“Para os países do Terceiro Mundo o conteúdo desse reducionismo
economicista do desenvolvimento é especialmente grave do ponto de vista do
resultado social. Pois o mimetismo tecnológico e dos padrões de consumo,
copiando os processos produtivos e as técnicas assim como o modo de vida
vigente no Primeiro Mundo, dirigem o crescimento econômico, isto é, o grosso
da produção, para as classes médias e altas, desconsiderando as condições
de vida dos "não-possuidores", ou sejam, trabalhadores, integrantes ou alijados
do mercado”. (p.132)
“O Ecodesenvolvimento pressupõe, então, uma solidariedade sincrônica com a
geração atual, na medida em que desloca a lógica da produção para a ótica
das necessidades fundamentais da maioria da população; e uma solidariedade
diacrônica, expressa na economia de recursos naturais e na perspectiva
ecológica para garantir às gerações futuras as possibilidades de
desenvolvimento” (p.133).
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“A partir dessa configuração geral, Sachs (1993) desenvolve o que chama de


as cinco dimensões de sustentabilidade do Ecodesenvolvimento:
sustentabilidade social; económica; ecológica; espacial; e sustentabilidade
cultural”. (p.133)
“O relatório Brundtland, de 1987, da Comissão. Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, retoma o conceito de Desenvolvimento Sustentável, dando-
lhe a seguinte definição:
"desenvolvimento que responde às necessidades do presente sem
comprometer as possibilidades das gerações futuras de satisfazer suas
próprias necessidades" (Raynaut e Zanoni, 1993) ”. (p.135)
“Para Maimon (1992), a diferença básica entre Ecodesenvolvimento e
Desenvolvimento Sustentável reside em: o primeiro volta-se ao atendimento
das necessidades básicas da população, através de tecnologias apropriadas a
cada ambiente, partindo do mais simples ao mais complexo; o segundo,
Desenvolvimento Sustentável, apresenta a ênfase em uma política ambiental, a
responsabilidade com gerações futuras e a responsabilidade comum com os
problemas globais”. (p.137)
“As disparidades entre os dois conceitos em tela situam-se, como visto,
principalmente no campo político e no que diz respeito às técnicas de
produção. No campo político, o posicionamento quanto à qualidade do meio
ambiente e às diferenças sociais como elementos fundamentais a serem
considerados. No das técnicas de produção, o progresso técnico e o seu papel
em relação à pressão sobre os recursos naturais”. (p. 137)
“Na verdade, diz (1991, p. 33), o ideal será quando se falará somente em
desenvolvimento, sem o adjetivo "sustentável" ou o prefixo "eco". O importante,
no caso, é o surgimento de um novo paradigma, conforme o consideram todos
os autores que tratam do Ecodesenvolvimento”. (p.138)
“Um paradigma é um "modelo" ou "padrão" compartilhado pelos membros de
uma comunidade; inversamente, uma comunidade consiste nas pessoas que
partilham um paradigma. No caso de uma comunidade científica, ele é o
referencial para as investigações, para as pesquisas. Sem um referencial
paradigmático não se estará fazendo ciência nas pesquisas (Kuhn, 1992) ”.
(p.138)
“Finalmente, é necessário dizer em relação ao Ecodesenvolvimento ou
Desenvolvimento Sustentável, que cabe pesquisar se efetivamente deve ser
este considerado um novo paradigma, como afirmam os autores mencionados.
Pode tratar-se de um conjunto de princípios gerais, já contemplados em uma
base teórico-metodológica como o marxismo frequentemente deturpado por
certas interpretações como a economicistas, referida na introdução a este
ensaio. Pesquisas neste sentindo terão o mérito de contribuir para o avanço
científico”. (p.139)
Considerando Filho (1993), há uma diversidade de apropriações de
conceito na literatura acadêmica, ou seja, autores que fazem a correlação entre
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diferenças e pontos comuns entre Desenvolvimento Sustentável e


Ecodesenvolvimento.
Entendemos, que a partir da insatisfação com os limites de abordagem
que os conceitos mais variados surgiram para a temática, desde uma visão
compartimentada, como a de proposição holística e o antropocentrismo, cabe
destacar que essas visões fragmentadas possuem em sua gênese o
economicismo presente em suas análises e nas políticas de desenvolvimento.
Apontado pelo autor, essa atuação subordinada aos interesses
econômicos que, consideram valores de troca, esquecendo os valores de uso
com vista ao progresso técnico tendem a disseminar a ideologia da
fetichização, causando o reducionismo que desconsidera as condições de vida
do pobre.
Nesse contexto, o autor toma as ideias de Ignacy Sachs e discorre sobre
as cinco dimensões de sustentabilidade do Ecodesenvolvimento:
sustentabilidade social; econômica; ecológica; espacial; e sustentabilidade
cultural.
Pensamos, que estas dimensões têm papéis como o de reduzir as
diferenças sociais, repensar a eficiência econômica considerando critérios
macrossociais, a prática do equilíbrio entre o uso dos potenciais inerentes e
variáveis do ecossistema, a relação equilibrada cidade-campo, além do
Ecodesenvolvimento como uma pluralidade de soluções particulares.
Enfim, no texto o autor traça o paradigma diante do tema
Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento Sustentável, possibilitando nessa
relação a constituição de um objeto de pesquisas, capaz de substanciar novos
conhecimentos.

2. FICHAMENTO

CHAVES, Maria do P. S. Rodrigues; RODRIGUES, Débora C. Bandeira.


Desenvolvimento Sustentável: limites e perspectivas no debate
contemporâneo. Revista Internacional de Desenvolvimento Local. Vol. 8, N.
13, set.2006.

O texto trata das diversas concepções de desenvolvimento sustentável, além


de expandir as perspectivas e os limites de abordagem desta temática.
Segundo as autoras é necessário à discussão na medida em que, a “questões
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ambientais” avançam de forma planetária e que as determinações políticas e


econômicas fundamentam o modelo de desenvolvimento vigente.
“Segundo Godard (2002), foi após a década de 70 que começa a se
estabelecer a consciência de que as raízes dos problemas ambientais estariam
nas formas de desenvolvimento tecnológico e econômico, sendo impossível o
tratamento das questões, sem uma reflexão e consequente ação sobre este
modelo de desenvolvimento proposto. Assim, as chamadas políticas de meio
ambiente não podem ser tratadas “à margem dos processos de ação coletiva e
de organização econômica” (p.201). Pode-se afirmar que estas são a base das
referências feitas usualmente às noções de ecodesenvolvimento
(SACHS,1980) ou de desenvolvimento sustentável (GODARD, 1994)”. (p.99-
100)
“Neste sentido, o significado das questões em jogo devem ser buscados, por
um lado nas concepções teóricas e por outro nas funções exercidas nos
processos políticos e institucionais. Neste contexto, pode-se afirmar que nas
sociedades contemporâneas o desenvolvimento assume valor central, sendo
este valor alimentado por vários componentes ideológicos: necessidade de
progresso técnico identificado ao progresso humano, ambição de domínio
sobre a natureza (GODARD, 2002)”.(p.100)
“O aprofundamento e visibilidade nos debates em torno de uma proposta de
desenvolvimento sustentável, segundo Godard (1997), não tem sua origem no
relatório de Brundtland, mesmo reconhecendo sua contribuição, o referido
autor aponta três principais correntes teóricas nos meios científicos e dos
especialistas vinculados na análise do desenvolvimento econômico e de suas
consequências sobre o meio ambiente”. (p.100)
PRIMEIRA CORRENTE TÉORICA
“No começo dos anos 70, sob a direção do Programa das Nações Unidas para
o Meio Ambiente, encontra-se uma primeira corrente de pensamento
(FARVAR, 1977;GLAESER, 1984; SACHS e SIMONIS, 1990) que se dedica
em promover o que ficou conhecido como “estratégias de ecodesenvolvimento”
(SACHS, 1974, 1980 e 1993)”. (p.100)
“Encontra limitações no aspecto econômico e político, tendo em vista sua
proposta, que apresentava como necessidade para se discutir o
ecodesenvolvimento, a necessidade de mudanças políticas nacionais e uma
reestruturação das relações econômicas Norte-Sul”. (p.101)
“Esta proposta considerada radical, não agradou a muitos, o que levou, após
um entusiasmo inicial, a proposta de ecodesenvolvimento a ficar relegada às
esferas marginais”. (p.101)
SEGUNDA CORRENTE TEÓRICA
“Os teóricos ligados a esta corrente de pensamento iniciam com formulações
críticas, tais como: questionam a autogestão do sistema econômico,
impossibilidades da extrapolação das soluções locais para globais,
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impossibilidades de reciclagem completa das matérias-primas, devido aos


fenômenos da entropia, não possibilidade de troca entre capital natural e
capital produtivo reprodutivo. Os resultados destas abordagem conduz ao que
se pode chamar de “ bioeconomia” ou “ economia ecológica” (ecological
economics), onde segundo autor, a inspiração interdisciplinar permanece muito
variada”. (p.101)
TERCEIRA CORRENTE TEÓRICA
“A terceira forma de abordagem apresentada pelo autor, se coloca no
prolongamento da teoria neoclássica do equilíbrio e do crescimento
econômico”. (p.101)
“Neste processo vários modelos foram construídos a fim de analisar as
implicações lógicas de uma exigência de equidade entre as gerações nas
trajetórias de crescimento máximo, os respectivos níveis de consumo
acessíveis a cada geração, bem como as condições de transferência de custos
de uma geração a outra”. (p.101)
“As diferentes noções de sustentabilidade ou mesmo de desenvolvimento,
dificultam a realização de uma interpretação prática dos objetivos políticos
formulados em torno da proposta de “desenvolvimento sustentável”. Segundo
Godard (1997), os conhecimentos produzidos em torno desta temática
apresentam limitações, são incompletos e controvertidos”. (p.101-102)
“Desta forma pode-se dizer que a sustentabilidade deverá ter diferentes
estruturas a partir das diferentes escalas de organização na qual se encontre
inserida. Uma principal dificuldade para concretização desta proposta é que do
ponto de vista dos fenômenos ecológicos, são analisados primeiramente em
nível local (ecossistemas) ou regional (biomassa e regiões biogeográficas), e
depois, de forma mais abrangente e conjuntural a nível planetário”.(p.102)
“Neste caso, a operacionalização de uma proposta de desenvolvimento
sustentável, deve tomar como referência à construção de mediação de critérios
estratégicos que possam dar conta do atual estado de incertezas que envolvem
esta questão. Tais critérios deverão orientar a gestão dos elementos passiveis
de conhecimento no momento atual”. (p.102)
“Para Leff (2002), a superação do padrão de conhecimento fragmentado
dominante, vai depender da nossa capacidade de perceber e discutir a
problemática em toda sua complexidade e totalidade, não centrando as
análises na separação, mas buscando a construção de enfoques mais
integrados e democráticos de percepção das questões ambientais. Neste
sentido, a proposta de desenvolvimento sustentável, pode proporcionar certo
equilíbrio entre as diferentes disciplinas científicas advindas de diferentes
tradições de pensamento, estabelecendo uma interlocução fecunda entre
estas”. (p.103)
“Esta perspectiva de análise revela o quanto à relação sociedade e natureza
são resultado de uma construção histórico-social, a partir do estabelecimento
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das relações dos homens entre si, num determinado tipo de sociedade. Este
modelo precisa ser repensado, uma vez que as políticas de meio ambiente não
podem ser mais marginalizadas ou relegadas a um plano secundário as
decisões econômicas e sociais”. (p.104)
“Neste contexto, a retórica do desenvolvimento sustentável tem sido utilizada
por diferentes grupos como recurso de denúncia política ou exercício de
cidadania. Este aspecto revela que, o tratamento desta temática tem
possibilitado abertura de novos espaços de expressão, ao mesmo tempo em
que se constitui como novo espaço de legitimidade internacional”. (p.104)
As autoras, diante do exposto abordam a temática desenvolvimento
sustentável e suas perspectivas e limites através de uma trajetória que a
envolveu nas últimas três décadas.
As “questões ambientais” e sua estrita relação com o desenvolvimento
tecnológico e econômico traz para a discussão formas alternativas ou
transformações necessárias de enfrentamento dessa problemática –
desenvolvimento alternativo.
Os referidos autores citados pelas autoras do texto, substanciam esse
debate dando veracidade que o assunto existe e precisa ser tratado em sua
forma ampla e que suas interposições possam adentrar em todos os espaços,
seja ele não somente econômico, mas no socioambiental.
Assim, os estudos partindo dessas perspectivas, tendem a levantar
questionamentos de inserções e/ou mudanças na forma de pensar e agir com
vistas a sustentar condições de vida tanto na atualidade, quanto para gerações
futuras.

3. FICHAMENTO

SACHS, Ignacy. Em busca de novas estratégias de desenvolvimento.


Estudos Avançados, 1995.

“Com a revolução dos transportes e – em grau ainda mais significativo – a da


comunicação, o mundo encolheu. Desses avanços tecnológicos é que se
originam os fenômenos da mundialização já mencionados, os quais se
manifestam de maneira desigual em campos tão variados quanto finanças,
economia, tecnologia e cultura”. (p.30)
“O nosso domínio da ciência e da tecnologia continua bastante imperfeito.
Prometeu estorvou a si mesmo, segundo uma metáfora de Jean Jacques
Salomon (1984). O poder destruidor das tecnologias, cujo uso permanece
subordinado à busca de projetos financeiros e econômicos de curto prazo,
manifestou-se, por outro lado, pela degradação do meio-ambiente, cuja gestão
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prudente tornou-se um imperativo mundial, como o mostrou a conferência


internacional Rio 92 sobre a Terra”. (p.31)

“A degradação das relações sociais; a deterioração dos serviços de saúde, de


educação e de previdência social; o aparecimento de desemprego estrutural
importante e difícil de ser eliminado; a vulnerabilidade dos países em transição
a um tratamento de choque representado pela abertura demasiadamente
brusca
de suas economias; a permissividade com relação às práticas do capitalismo
selvagem constituem vários fatores que oneram negativamente o balanço da
grande transformação, pelo menos até o presente momento”. (p.34)

“Os três pontos da Conferência de Copenhague são estreitamente interligados.


No entanto, parece-nos que a ordem lógica prioriza a implantação de políticas
pró-ativas visando a cortar o mal pela raiz, por meio da inserção produtiva, do
emprego ou do auto-emprego. As políticas assistenciais voltadas para os
pobres
são necessárias, sem dúvida, diante do tamanho e da urgência do problema da
pobreza. Mas, por si sós, elas não trazem soluções duráveis. Os excluídos
assistidos continuarão, enquanto não tiverem encontrado um lugar na
economia”. (p.35)

“Quanto à mundialização, observaremos, em primeiro lugar, que sua


progressão
em diversos campos se dá de modo desigual. A unificação microbiana
produziu- se antes do nascimento do mercado mundial, como mostram os
historiadores”. (p.40)

Na realidade, como mostra de maneira profunda Badie (1994; Badie & Smouts,
1992), estamos caminhando para uma nova desordem mundial motivada por
uma ruptura tríplice marcada pela mundialização, pela crise do Estado-nação e
pelo fim da bipolaridade. A natureza das oposições atuais já não é de ordem
ideológica, mas cultural. O mundo atual caracteriza-se pelo fracasso de três
conceitos-fetiches referentes às relações internacionais modernas: a soberania,
a territorialidade e a segurança. Na medida que o nacionalismo se enfraquece
em proveito dos microcomunitarismos e das solidariedades macrossociais
(entre outras de tipo religioso), a ordem internacional entra em crise. (p.41-42)
“O desenvolvimento aparece assim como um conceito pluridimensional (24),
evidenciado pelo uso abusivo de uma série de adjetivos que o acompanham:
econômico, social, político, cultural, durável, viável e, finalmente, humano (25),
e não citei todos. Está mais do que na hora de deixar de lado tais qualificativos
para nos concentrarmos na definição do conteúdo da palavra desenvolvimento,
partindo da hierarquização proposta: o social no comando, o ecológico
enquanto
restrição assumida e o econômico recolocado em seu papel instrumental”.
(p.44)

“Como já dissemos, só a inserção produtiva é que pode, de imediato, cortar


pela raiz o mal da exclusão. As políticas assistenciais, por necessárias que
sejam, em face da miséria dos desempregados e excluídos, não bastam:
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mesmo assistido, um excluído continua excluído. Embora não haja como


renunciar às políticas de redistribuição de renda, é a repartição inscrita no
modo de produção que deve, em primeiro lugar, merecer a nossa atenção”.
(p.47)

“Paralelamente, para garantir uma participação real no dia a dia das


populações nos processos de decisão e gestão, há necessidade de serem
analisados de maneira aprofundada os contextos institucionais e as relações
entre os atores envolvidos - a sociedade civil organizada (associações que
lutam pela cidadania e movimentos sociais), a economia social, as autoridades
públicas em todos os níveis e o mundo das empresas”. (p.48)

“Mas com condição de ser bem gerenciada, a nova fase da revolução verde
permite encarar a modernização da agricultura em benefício do pequeno
agricultor. Convém acrescentar que a melhor utilização das áreas agrícolas
disponíveis interessa também aos países industrializados, à medida em que
desejam evitar que essas áreas se transformem de arquipélago urbano em
deserto rural”. (p.51)

“Um complemento a tal estratégia consiste em explorar a biodiversidade e a


diversidade cultural para encontrar novos recursos e gerenciá-los de forma
socialmente útil e ecologicamente prudente, de modo que seja aumentada, em
base duradoura, a capacidade dos ecossistemas, pressupondo que se recorra
simultaneamente aos conhecimentos acumulados pelas populações, assim
como às conquistas da ciência moderna (38). (p.53)

O aporte teórico descrito pelo autor Sachs (1995), traz para reflexão o
quanto o desenvolvimento precisa deixar de mão sua tendência unilateral ao
economicismo e voltar suas bases para as diversidades que encontramos no
meio social e ambiental. Os contraste e desigualdades causados pela ambição
países imperialistas impostos aos países de Terceiro Mundo, precisam ser
superados, em uma relação positiva e igualitária entre sociedade, cultura,
ecologia e em todos os aspectos da vida socioambiental.
Enfim, o autor aborda a possibilidade de reversão da crise atual do
capitalismo e como uma das estratégias indica a divisão da produtividade e o
aumento crescente de emprego.

4. FICHAMENTO

MELLO, Alex Fiúza de. Dilemas e desafios do desenvolvimento da


Amazônia: O caso brasileiro. Revista Crítica de Ciências Sociais, 107,
setembro, 2015: p.91-108.

“A Amazônia, região habitada por 25 milhões de brasileiros, 60% de todo o


território nacional, convive com uma enorme contradição: constitui-se, ao
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mesmo tempo, como centro das atenções do mundo e simultaneamente como


periferia dos interesses do Brasil. Região riquíssima em recursos naturais –
uma das mais cobiçadas do planeta –, ainda carece de soluções concretas de
desenvolvimento humano a altura de sua importância social e estratégica”.
(p.91)

“No rastro do saque, perduram: exclusão social, pobreza, destruição ambiental,


urbanização caótica, atraso tecnológico, economia de enclave, insuficiente
infraestrutura logística, fragmentação entre os setores produtivos, nível
educacional sofrível, baixa capacidade científica instalada, estruturas estatais
ineficientes, desigualdade social. Em poucas palavras: progresso sem
desenvolvimento”. (p.92)

“Neste imenso território, de inigualável diversidade biológica e cultural, onde


convivem populações urbanas e rurais de diversas origens, povos indígenas,
quilombolas e comunidades ribeirinhas, concentra-se uma das mais
importantes províncias minerais do planeta (gás, petróleo, nióbio, ferro, ouro,
cassiterita, níquel, manganês, bauxita, etc.), a maior bacia hidrográfica da Terra
(20% de todo o estoque de agua doce) e a maior reserva mundial de
biodiversidade (flora, fauna e microrganismos) (Bezerra, 2007)”. (p.93)

“Apesar de toda essa riqueza natural disponível – incomparável por sua


exuberância e diversidade –, a Amazônia brasileira ainda não figura como
objeto prioritário de um plano nacional de desenvolvimento, suficientemente
amplo e inclusivo, moldado por uma visão estratégica de futuro. No caso
brasileiro, as áreas amazônicas seguem sendo tratadas, colonialmente, como
mera periferia do pais pelos sucessivos governos da União; ignoradas em suas
amplas potencialidades e singularidades; reduzidas a condição de almoxarifado
para usufruto exógeno; excluídas das vantagens ou compensações de uma
justa política fiscal e tributária; alvo de intervenções do poder central e do
grande capital não raramente desastrosas do ponto de vista social e
ambiental”. (p.94)

“A tese da intocabilidade da floresta amazônica, além de tecnicamente


insustentável, é a mais nova – e astuta – ideologia “pós-moderna”, que nutre
de mitos o imaginário da comunidade internacional, sobretudo daqueles que
mais se beneficiam de seus efeitos, os países ricos, justo por possuírem em
abundância aquilo que se negam a transferir: ciência, tecnologia e capital”.
(p.95)

“Confirmado esse panorama, a Amazônia, periferia de um Brasil (ainda e em


boa medida) periférico, uma vez mantidas as baixíssimas taxas históricas de
investimento em educação e pesquisa, a tradicionalmente reduzida
transferência de tecnologia e a ausência de políticas eficazes de incentivo a
inovação – a incorporação do conhecimento no processo produtivo – por certo
guardara, no século XXI – não obstante o imenso potencial de seus recursos
naturais –, o seu tradicional lugar na divisão internacional do trabalho, de
simples supridora de matérias-primas e de almoxarifado das multinacionais,
sem a agregação local dos valores gerados por um modelo econômico
meramente extrativo e dominado por interesses exógenos. A vigorar esse
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paradigma, reproduzir-se-a, em escala ainda mais alarmante, o trágico


binômio destruição ambiental/pobreza, que tem marcado, até aqui, a história
dos povos amazônicos, com todas as inerentes e conhecidas implicações
ecológicas, econômicas e sociais”. (p.97)

“Do ponto de vista econômico e, mesmo, geopolítico, não há alternativas


sustentáveis de desenvolvimento e de defesa para uma região com tais
características e importância sem uma transformação radical de seu modelo
tradicional de produção e de ocupação, até hoje pautado no simples
extrativismo, na derrubada e queima da floresta (para exploração irracional da
madeira ou pastagem de gado) e na utilização irresponsável de seus recursos
hídricos (poluídos por mercúrio e outros resíduos industriais). Uma mudança de
paradigma, contudo, pautado e inspirado numa “economia verde”,
descarbonizada (da floresta em pé) – como aspira a corrente ambientalista
internacional –, supõe, essencial e prioritariamente, de uma parte, investimento
maciço em conhecimento, isto e, em ciência e tecnologia, em todos os
domínios necessários; de outra, um regime tributário e regulatório que promova
uma maior valorização da floresta em pé relativamente à sua derrubada”. (p.99)

“A condição amazônica representa a maior prova da inexistência de um Projeto


(inclusivo) de Nação – se e que existe hoje, no Brasil, um “Projeto de Nação” –
e da não efetividade de um Pacto Federativo responsável, justo e solidário. Em
síntese, a condenação regional, na raiz (sem o menosprezo de outros fatores),
da-se na proporção direta de sua crescente desigualdade cognitiva
relativamente ao restante do pais”. (p.100)

Em seu texto o autor Mello (2015), detalhe o valor do conhecimento


(educação/pesquisa), como solução para o fosso cognitivo que impede que a
Amazônia tenha seu valor. O recorte do subjetivismo internacional com a
realidade do pensamento endógeno (Brasil) segundo o autor compromete o
Pacto Nacional e Internacional de avanços e progressos técnico-científico que,
se efetivados garantirão a população que aqui habitam e ao mundo um
desenvolvimento social, ambiental e cultural equilibrado.
De fato, a Amazônia precisa ser pensada a partir do seu potencial local,
respeitando suas diversidades e peculiaridades. O investimento na educação,
com foco na pesquisa poderá tirar a Amazônia da categoria de mera
fornecedora de produtos primários.
Enfim, para o desenvolvimento da “economia verde”, as populações e
seus conhecimentos devem ser tidos como capazes de desenvolver ciência -
desde que o Estado favoreça políticas de incentivos para essa área – com vista
para o progresso da região respeitando tanto as bases sociais e ambientais.
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5. FICHAMENTO

BECKER, Bertha. Dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável no


Brasil. Rio de Janeiro : Garamond, 2007 (p.63-77)

“Hoje a Amazônia tem 20 milhões de habitantes, uma estrutura produtiva


específica, atores decisivos – antigos e, principalmente, novos -, e,
naturalmente, tem demandas próprias. Então, de fato não pode mais ser vista
como mera fronteira de expansão demográfica e econômica nacional. Já é uma
região por si mesma. E todos os atores da região – digo isto baseada na minha
pesquisa, pois sempre faço pesquisa de campo, converso com uma gama
enorme de atores -, todos querem o desenvolvimento sustentável. Mas, como
sempre digo, para cada um deles o desenvolvimento sustentável tem um
significado diferente, de maneira que precisamos acertar os ponteiros”. (p.67)
“O desafio é realmente muitíssimo maior, porque a tendência de produção e de
crescimento nem sempre considera, e às vezes até prejudica, a questão social
e a questão ambiental. Em face dessas mudanças de demandas e de
tendências, é preciso mudar também as ações e os modelos, muitos dos quais
são também obsoletos”. (p.68)
“Este é um desafio ideológico no caso da Amazônia. Outro, ainda mais
complexo, é superar também a dicotomia entre inclusão social e
competitividade. Estamos num mundo competitivo e a nação brasileira não
pode ficar à margem da competitividade. Ou nós mudamos todo o sentido do
mundo e da globalização, ou então temos que ser competitivos também. Aí
entra o que o Polanyi dizia, “os limites à força do mercado”. Mas como fazer
essa limitação? (p.69)
“A prioridade para a produção familiar na Amazônia, a meu ver, é alimento,
segurança alimentar, e certamente a produção de alimentos poderia ser
explorada convenientemente nessas fazendas de assentados. Outra prioridade
é o biocombustível, sendo necessário, evidentemente, escolher as áreas a
serem utilizadas para isso. De todo modo, é importante começar um debate
sobre esse modelo de fazendas que estou chamando de solidárias”. (p.71)
“Quero abordar também um terceiro desafio fundamental, que é a
regionalização. A professora Neli falou na diversidade do território: a Amazônia
sem dúvida é extremamente heterogênea e precisamos reconhecer a
diversidade, não só a biodiversidade, mas a sócio-diversidade, as
diferenciações internas, e a partir disso ajustar os princípios de políticas gerais
às condições variadas nas sub-regiões. Isto é fundamental, significa respeito à
diferença”. (p.75)
“Eu considero, e tenho repetido várias vezes, que só atribuindo valor
econômico à floresta será possível conservá-la em pé. Porque só assim ela
poderá competir com as commodities, com a madeira, com a pecuária e com a
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soja. Enquanto a floresta não tiver valor econômico, não pode competir. E a
população que mora lá, e na Amazônia de modo geral, sofre”. (p.76-77)
O trabalho da autora surpreende pelas provocações que, a mesma traz
para reflexão quanto a posição da Amazônia e as forma de produção
necessária para alavancar sua posição no cenário econômico, sempre
respaldando o uso correto dos recursos naturais, com a inserção da
biotecnologia e outras formar de produção que respeite o meio social, cultural e
ambiental.
A produção local, os conhecimentos e saberes das populações que
habitam o espaço da Amazônia devem ser valorizados. Segundo a autora, a
Amazônia precisa ter valor econômico, que planos e estratégia precisam ser
traçados para tornar esse espaço e suas produções também competitivos.
O mito da floresta intocada deve ser superado, pois os planos anteriores
ou que fundamentavam esse trato com a Amazônia nunca deram certo. A
Amazônia e suas especifidades, que vão desde o território, cultura e
conhecimentos precisam ser correlacionados com um valor econômico, que
beneficie o povo que habita esse espaço.
Enfim, essas mudanças precisam acontecer, mas devem ser seguir
outros modelos e não o positivista que se ocupa com regras, estatísticas e que
suas ações são pactuadas em escritórios, mas devem ir a lócus e compreender
a melhor forma de respeitar a Amazônia, o povo que habita e todo o seu
ecossistema para fins de desenvolvimento.

6. FICHAMENTO

CAVALCANTI, Clóvis. Meio ambiente, desenvolvimento sustentável e


políticas públicas. Curso Agenda 21.

“Com país em desenvolvimento (“mercado emergente”, no jargão atual), é


evidente que o Brasil deve prestar mais atenção a princípios de adequada
gestão de seus recursos naturais. Mais do que isso, o país tem de conceber
formas de promover bem-estar humano sem aceitar que seu capital natural
seja usado ou degradado como se valesse quase nada. De fato, o Brasil
enfrenta o desafio de lutar contra a pobreza fazendo simultaneamente uma
correta consideração dos custos ambientais envolvidos como parte das
políticas de desenvolvimento. Até agora, entretanto, e a despeito de uma
retórica (em época mais recente) de sustentabilidade da parte do governo, o
que tem prevalecido são iniciativas que não levam propriamente a natureza em
consideração”. (p.3)
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“Mas que espécie de políticas e como deveriam ser elas formadas? É claro que
não existe uma receita acabada com que se possa prover uma resposta a tal
questão. O que se pode adiantar tentativamente é que o problema ambiental
verdadeiro consiste precisamente em elevar a produtividade do capital da
natureza, usando seus estoques saudavelmente, sem se sobrecarregarem as
funções de suprimento, de fonte (de recursos) e de absorção ou de fossa (de
dejetos) do ecossistema. Esta pode parecer uma orientação geral e um tanto
vaga. Mas é também, um ponto de partida para a consideração da limitação
ecológica imposta pela natureza ao processo econômico. Restrições e
barreiras são, com efeito, aquilo que se encontra quando se tenta entender
como o desenvolvimento pode ser promovido dentro da moldura da ecosfera,
principalmente se consideram as leis inexoráveis de conservação de matéria e
energia e de entropia. É aqui que o grande desafio do desenvolvimento
sustentável deve ser enfrentado por políticas inteligentes – políticas que
possam
levar a uma melhoria real das condições de vida das pessoas pobres, sem
perturbar funções ecossistêmicas essenciais. Em resumo, a política de
desenvolvimento, na montagem de uma sociedade sustentável, não pode
desprezar as relações entre o homem e a natureza que ditam o que é possível
em face do que é desejável”. (p.4)

“Um princípio importante de formulação de política para a sustentabilidade é se


dispor de um sistema consistente de informação para medir-se o desempenho
econômico de um país ou região. Numa sociedade sustentável, o progresso
deve ser apreendido pela qualidade de vida (saúde, longevidade, maturidade
psicológica, educação, um meio ambiente limpo, espírito de comunidade, lazer
gozado de modo inteligente, e assim por diante), e não pelo puro consumo
material (Viola, 1996) ”. (p.6)

“Política de governo para a sustentabilidade significa uma orientação das ações


políticas motivada pelo reconhecimento da limitação ecológica fundamental dos
recursos (matéria e energia, em última análise), sem os quais nenhuma
atividade humana pode se realizar. Isto implica a necessidade quer de
utilização cuidadosa da base biofísica, ambiental da economia, quer uma
reorientação da maneira como os recursos da natureza são empregados e os
correspondentes benefícios, compartilhados. O problema estratégico, aqui
consiste em encontrar um fluxo metabólico (ou um throughput v) sustentável,
que possa elevar o bem-estar societal sem causar danos às funções e serviços
ambientais. Em outras palavras, o nível do produto social deve ser garantido,
do mesmo modo que a qualidade do meio ambiente natural e a qualidade de
vida. Desenvolvimento sustentável, com efeito, significa qualificar (ou restringir)
crescimento econômico, reconciliando progresso material com a preservação
da base natural da sociedade (Binswanger, cap. 2, adiante) ”. (p.6)

“Uma política comprometida com a sustentabilidade tem que desencorajar


aquilo que cause ameaças à saúde de longo prazo do ecossistema e à base
biofísica da economia, tal como ineficiência, lixo poluição, throughput, uso
excessivo ou garimpo de recursos renováveis, dissipação de recursos
esgotáveis, etc. Opostamente, ela tem que impulsionar aquilo que é desejado,
14

como sucede com renda real, emprego, bem estar, um ambiente limpo, uma
paisagem bela, segurança pessoal, um uso balanceado dos recursos naturais
(incluindo ar e água) e assim por diante. Isto pode ser alcançado mediante o
sistema tributário, fazendo-se com que a carga de impostos seja deslocada das
coisas mais desejáveis para as menos desejáveis (Binswanger, cap. 2; Daly,
cap. 11; Goodland, cap. 17 deste livro); pode ainda ser conseguido
introduzindo-se dispositivos no mecanismo de mercado (como o princípio do
full-cost vi) que protejam o meio ambiente e efetivem seu uso de maneira mais
prudente”. (p.7)

“Um aspecto das políticas de governo voltadas para objetivos de


sustentabilidade que merece atenção especial é o tratamento a ser dado a
hábitos de consumo e estilos de vida. De um lado, níveis excessivos de
consumo de bens e serviços (pelos ricos, é claro) devem ser contidos. De
outro, a persuasão para que se consuma mais e mais de cada coisa, nutrida
pelos meios de comunicação (a televisão, sobretudo) deve ser revista e posta
dentro dos parâmetros de prudência ecológica indispensáveis para a
sustentabilidade. Isto requer a tarefa muito difícil de se influenciar o lado da
demanda (caso do rodízio de automóveis na Região Metropolitana de São
Paulo, introduzida em agosto de 1966, com bons resultados em termos do
desafogamento do fluxo de veículos) para que o consumo caia – o que, de
qualquer modo, é uma providência que tem que ser contemplada numa
perspectiva de longo prazo (afinal de contas, a sustentabilidade implica
mudanças de estilo de vida para se assegurar a manutenção do capital
natural). Para atingir-se um mundo sustentável, o lado da demanda não pode
ser intocável”. (p.7)

“No Brasil, a referência à moldura ecológica da sustentabilidade tem sido até


hoje mais retórica que efetiva; o governo é ainda dominado em seu núcleo
central por uma visão clássica do desenvolvimento, a qual confere suprema
importância, por exemplo, aos ministérios da fazenda, planejamento, transporte
e energia, seguindo recomendações tradicionais dos conselheiros
econômicos”. (p.8)

“O programa do álcool combustível no Brasil deveria ser contemplado dessa


perspectiva e não somente por meio de uma fria comparação do álcool de cana
com petróleo – embora o primeiro depende em grande medida do segundo
para sua produção (Cevá Filho et al; 1995). O Brasil é pioneiro no campo dos
biocombustíveis e tem ganhado experiência em substituir gasolina por álcool.
Mas necessita-se de mais pesquisa para que avance a tecnologia do uso da
biomassa como carburante. Se for tolo insistir-se em não usar petróleo, pelo
menos é preciso pensar em alternativas para sua necessária substituição em
algum momento. E o compromisso com a sustentabilidade aponta
inevitavelmente na direção de fontes renováveis, como a radiação solar e seu
produto, a biomassa. No caso da cana de açúcar, é conveniente considerar os
impactos ecológicos associados à sua produção e transformação em álcool,
mas este é um desafio com que só se pode lidar propriamente por meio de
pesquisa e desenvolvimento. É absurdo, a qualquer título, avaliar os custos e
benefícios econômicos do álcool combustível simplesmente a base dos preços
15

atuais, insustentáveis, do petróleo (que, de qualquer forma, tem aumentado


palpavelmente nos últimos tempos no mercado mundial do produto) ”. (p.9)

“Uma palavra final sobre políticas para a sustentabilidade tem a ver com
reforma institucional. De fato, as instituições sociais existentes, que favorecem
o efêmero contra o duradouro, as tendências homogenizadoras da globalização
em lugar da diversidade (tanto biológica quanto cultural, que são básicas para
a evolução),
uma atitude de laisser-faire concernente ao meio ambiente em oposição à
fixação de limites biofísicos, e assim por diante, devem ser ajustados aos
requisitos da sustentabilidade. Novas instituições são exigidas para a
conservação dos ativos naturais, para encorajar a regeneração dos recursos
renováveis, para proteger a biodiversidade, para gerar tecnologias mais
ambientalmente benignas, para promover estilos de vida menos intensivos no
uso de energia e materiais, para manter constante o capital da natureza em
benefício das gerações futuras (Norgaard, cap.5, deste livro), para proteger o
saber dos povos indígenas e tradicionais, incluindo seus direitos de
propriedade intelectual (Posey, cap.20). Novas formas de regulação
democrática e uma nova versão de economia mista, diferente da neoliberal,
são possibilidades que devem ser contempladas”. (p.10)

O autor destaca a princípios e políticas sustentabilidades para a


manutenção, tanto da vida econômica, social e ambiental. Destaca que, a
economia está intimamente ligada ao processo ambiental.
Os recursos naturais devem ser tratados para o desenvolvimento da
vida atual como para gerações futuras. Para tanto, o autor destaca um novo
formato tanto para a economia, como para as instituições que regem o
processo de relação economia e natureza.
Dentre os alertas está na mudança quanto a relação as reformas do
governo com relações as estruturas, que não conseguem reverter seus
investimentos a outros possíveis modos de desenvolvimento, ouvindo
conselhos da pasta da economia acaba por incentivar somente, os ministérios
da fazenda, planejamento, transporte e energia.
Nesse aspecto, a mudança requer quebra de paradigmas, trocar o
discurso pela prática e principalmente investir em ciência e tecnologia que
tratem os recursos naturais de forma valorativa e que suas ações possam
comportar tanto as necessidades atuais como de gerações futuras.

7. FICHAMENTO
16

Sachs, Ignacy. Desenvolvimento sustentável. Brasília: Instituto Brasileiro do


Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, 1996. p. 1 -25 (Série
meio ambiente em debate, 7)

“O mundo atravessa um momento inédito. Estamos com uma crise social que
se
traduz essencialmente pelo desemprego e subemprego numa escala nunca
vista. De acordo com as estimativas da Organização Internacional do Trabalho,
são 120 milhões de desempregados e 700 milhões de subempregados no
mundo, ou seja, 30% da força de trabalho”. (p.9)

“Eu não estou falando contra políticas sociais de corte assistencial e


compensatório, dada a gravidade da situação. Estou apenas dizendo que
essas políticas compensatórias e assistenciais não vão à raiz do problema,
elas não resolvem o problema da exclusão e do desemprego. Elas amenizam
esse problema e portanto, seria extremamente perigoso considerar que vamos
continuar um modelo excludente de crescimento e acalmar as nossas
consciências através de políticas assistenciais, por importantes que sejam
dentro da situação atual”. (p.11)

“O preço desse modelo que comercialmente está tão bem sucedido são os
refugiados do campo, que me recuso a considerar como urbanizados. Acho
que o termo urbanização deveria ser reservado àqueles que estão integrados
na vida urbana, porque têm acesso a uma moradia decente e um emprego
decente. Porque podem exercer a sua cidadania e vêem que os seus filhos
estão realmente desfrutando da igualdade de oportunidades. Se a gente define
dessa maneira o urbano ou a urbanização, na realidade temos três categorias
de cidadãos, três situações nesse País: os que ainda estão no campo - e são
ao redor de 1/3 da população brasileira - os que são urbanizados e aqueles
outros que ainda se encontram no purgatório, na ante-sala da cidade, nos
bairros periféricos e nas favelas”.(p.11-12)

“A minha visão pessoal é que o Brasil tem as melhores condições no mundo


para ser o país pioneiro de uma nova civilização industrial do trópico, a partir da
biomassa”. (p.13)

“E nessa área que começamos a trabalhar, nos defrontamos - acabamos de ter


uma reunião numa reserva florestal do norte do Madagáscar - com um
problema que vocês conhecem muito bem: as populações ribeirinhas da
reserva entram nela, ateiam fogo e produzem arroz. Por que? Pela simples
razão de que é a única maneira de não morrerem de fome, numa região que
está totalmente isolada do mundo. Como ela se adequa a todos os contextos, é
um dos problemas mais difíceis das ciências sociais: encontrar um nível,
encontrar uma escala na qual possamos trabalhar”. (p.15)

“Então, usar matéria renovável não é necessariamente um mal ambiental. Acho


que isso pode servir como um eixo importante, que nós podemos levar em
consideração, na busca de resgatar um pouco a possibilidade de diálogo entre
setores de decisões políticas públicas ambientais e não-ambientais”. (p.16)
17

“Desde que nós passamos para o neoliberalismo as nossas taxas de


crescimento baixaram e as de desemprego explodiram. Do ponto de vista
social, o neoliberalismo, como era de se esperar, aprofundou, tornou agudas as
diferenças sociais. Como é que, nessas condições, ele tem a posição
ideológica dominante no mundo de hoje? Porque com a queda do sistema do
socialismo real, gerou-se um vácuo e o neoliberalismo entrou nesse vácuo e
ocorreu que temos de gerar hoje outras respostas e encontrar novas formas de
regulação democrática de economias mistas - e quando digo economias mistas
significam por isso que tem o público e o privado - o privado porém público
(para usar o título de um livro de Cesar Rubens Fernandes) - ou seja, todas as
entidades privadas sem fins lucrativos, todo o desenvolvimento das
associações e das organizações da sociedade civil, as cooperativas”. (p.21)

O texto em questão é resultado de um debate entre o autor Ignacy


Sachs e membros de instituições que tem relação com o meio ambiente seja,
no contexto de estratégia ou preservação desse espaço.
O ponto principal descrito pelo o autor é a crise ambiental ao qual o
mundo está passando. E todas as determinações ocasionadas pelos anos de
exploração dos recursos naturais sem estratégia ou preocupação com o futuro
da humanidade.
Debater sobre as finalidades e funções que cada instituição interessada
em transformar a realidade, foi também ponto do debate. A corrida pela
superação do desenvolvimento pautado unicamente no economicismo é a
melhor estratégia nesse momento, mas segundo o autor não se trata de
eliminar a questão econômica, mas associar ou conciliar o desenvolvimento
econômico, social e ambiental.
Enfim, para fundamentar o desenvolvimento na fala do autor o Brasil
precisa investir em uma nova “civilização dos trópicos”, nesse caso a
biomassa. Que renderá ao Brasil além lucros, uma estratégia de conservação
de recursos naturais e até mesmo o respeito pelo meio ambiente e o resguardo
de parte dele para as futuras gerações.

8. FICHAMENTO

ESTERCIL, Neide; SCHWEICKARDT, Kátia Helena Serafina Cruz. Territórios


amazônicos de reforma agrária e de conservação da natureza Bol. Mus.
Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 5, n. 1, p. 59-77, jan.- abr. 2010.
18

“Territórios, como referências espaciais de relações de identidade e


solidariedade, nacionais e locais, pareciam estar perdendo relevância como
elementos da prática social e como objetos de pesquisa. Entretanto, vários
autores têm registrado o ressurgimento da inscrição espacial das coletividades,
de modo que noções de território têm suscitado discussões políticas, e
motivado pesquisas e indagações teóricas”. (p.61)

“Para realizar esse projeto de integração da Amazônia à economia nacional era


preciso homogeneizar as formas de domínio sobre a terra e os recursos
naturais, ignorando ou superando as formas construídas localmente, e à revelia
do próprio Estado, ao longo de décadas ou séculos”. (p.61)

“Nos anos 1990, vieram somar-se aos projetos de assentamento de pequenos


produtores familiares e ao reconhecimento de terras indígenas, o
reconhecimento de terras remanescentes de quilombos (Almeida, 2008) e a
criação das unidades de conservação (UCs) (Brito, 2000), que multiplicariam os
territórios instituídos pelo Estado. Difundiram-se as preocupações ambientais e,
ao contrário do que se passara nas décadas anteriores, na nova conjuntura de
ampliação dos espaços democráticos e de crescimento dos movimentos
sociais, ganhou força a orientação para manter as populações humanas
residentes nas áreas ambientalmente protegidas. Não sendo essas áreas
subdivididas em lotes, preservaram-se, assim, as antigas fronteiras territoriais”.
(p.63)

“No Amazonas, as primeiras tentativas de institucionalização da questão


ambiental se deram no final da década de 1980, e se fizeram por meio das
Coordenadorias de Ecologia e de Recursos Naturais do Centro de
Desenvolvimento, Pesquisa e Tecnologia do Estado do Amazonas
(CODEAMA). Em 1989, foi criado o Instituto de Desenvolvimento dos Recursos
Naturais e Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (IMA), que, todavia,
ainda não se dispôs a priorizar as questões ambientais, voltando suas ações,
sobretudo, para as questões fundiárias do estado”. (p.64)

“A Amazônia começava a se transformar num “imenso laboratório de políticas e


projetos que, de uma forma ou de outra, tentam compatibilizar a presença dos
habitantes com algum tipo de medida visando à conservação dos ecossistemas
em que eles vivem” (Esterci, 2002, p. 51). A implementação desses projetos e
políticas levou à demarcação de uns espaços, à redefinição e reclassificação
de outros, assim como à reclassificação dos próprios segmentos sociais
afetados.(p.64) Quando o debate acerca das questões ambientais tornou-se
proeminente, os programas relacionados à questão agrária e à territorialização
passaram a ser objeto de outro tipo de questionamento, desta vez por parte
das organizações ambientalistas e dos Ministérios Públicos Federais que,
sobretudo no estado do Amazonas, passaram a exigir o licenciamento
ambiental dos Projetos de Assentamento, conforme determinava a legislação
vigente à época”.(p.65)

“O reconhecimento de várias categorias sociais como beneficiárias das ações


de reforma agrária provocou um deslocamento na política pública de caráter
nacional, conferindo-lhe uma feição mais amazônica. Esse deslocamento não
19

se deu por iniciativa dos gestores públicos somente, mas sim em função da
emergência dos seringueiros, extrativistas e ribeirinhos da Amazônia enquanto
coletividades cujas identidades políticas se objetivaram em movimentos sociais
com características e reivindicações muito próprias. Esses sujeitos sociais
emergentes se distinguiam das demais organizações de trabalhadores rurais
no Brasil, uma vez que sua forma de organização social e econômica no
espaço era incompatível com o modo de territorialização que lhes impunham os
planejadores oficiais”. (p.66)

“A primeira grande demonstração de aproximação dos órgãos fundiários,


gestores de território, com relação às populações tradicionais, na Amazônia, se
deu por meio do reconhecimento, por parte do INCRA, dos moradores da
Reserva Extrativista Médio Juruá, no município de Carauari, Amazonas, como
beneficiários da política nacional de reforma agrária”. (p.67-68)

“Vale dizer que, até o momento, os moradores dessas áreas não tiveram suas
vidas afetadas pelas classificações legais dos seus territórios, e mais:
continuam sendo outras as referências a partir das quais lidam com o espaço.
Elas estão relacionadas às atividades sociais que realizam: são áreas de
pesca, de caça, de extração de seringa, de criação de animais, de plantio de
roça, de produção de farinha; ou são fronteiras e marcas de direitos, definidos
a partir de relações de parentesco e compadrio; ou, a partir de lealdades
políticas, ou identidades religiosas”. (p.72)

“Ao mesmo tempo em que defendeu a criação massiva de unidades de


conservação como principal estratégia de gestão do território, o governo do
estado do Amazonas tornou pública a sua opção por um modelo específico – o
das Reservas de Desenvolvimento Sustentável, revelando uma posição no
campo das disputas classificatórias de cunho político-social e ambiental”. (p.73)

“A reconceituação da Amazônia na geopolítica mundial e nacional, de fronteira


econômica pautada pela exploração intensiva dos recursos naturais para
fronteira de preservação da biodiversidade (Becker, 2004), tem levado o
Estado, por meio do governo federal e estadual, a redefinir espaços, ora em
aliança com os atores locais (moradores das áreas extrativistas, associações,
Igreja Católica, movimentos sociais), ora com atores diversos e difusos
(pesquisadores, cientistas, ambientalistas, empresários ‘verdes’). Esses
espaços, antes ‘espaços de vida’, recortados por critérios primordiais e sociais,
têm se convertido, entre outras modalidades, em Reservas Extrativistas e
Reservas de Desenvolvimento Sustentável, como as que ora observamos no
médio rio Juruá. Os critérios ecológicos, aliados aos interesses das populações
locais, tornam-se agora os definidores dos limites e das possibilidades das
relações nestas áreas”. (p.74)

“Alguns pesquisadores brasileiros, como Souza Lima (1995), já enveredaram


por esta aventura, de tentar elucidar o modo como o Estado foi se constituindo
ao fortalecer, por meio de seus agentes, a assimetria entre estes e o ‘povo’,
aqueles
a quem deve beneficiar. Tal fenômeno, denominado pelo autor de “poder
tutelar”, estaria na raiz da formação das políticas indigenistas no Brasil, desde
20

o período colonial até a demarcação das terras indígenas nos governos


militares”. (p.75)

“Podemos perceber, assim, quão complexos e imprevisíveis são tais processos


classificatórios, que, como sugere Rancière (2005), promovem uma geografia
simbólica dentro de uma política imaginária, recortando os espaços de vida e
produzindo territórios que podem conter tanto os elementos da mudança
quanto os da reprodução de tudo aquilo que se quer transformar”. (p.75”)

O artigo traz reflexões sobre a questão de territorialidade na Amazônia,


frete identidades sócias, assentamentos e reservas de desenvolvimento
sustentável. As políticas públicas que passaram a receber um perfil amazônica,
hoje fazem campo de pesquisa sobre esse espaço, recursos ambientais,
principalmente no que tange a biodiversidade.
A diversidade de políticas e projetos para Amazônia ganham visibilidade
no cenário brasileiro, principalmente com a posição do INCRA e legalização de
territórios. Houve mudanças, que até aquele momento não teriam refletido
intensamente na vida dos moradores locais com relação as legalizações de
territórios.
O texto deixa claro as diversas formas de associação que envolvem
tanto atores locais com atores externos, que de alguma forma estão
interligados aos territórios em questão, seja por questões de “raízes” o até
mesmo de ordem financeira.
As características herdadas frente, as reformas agrárias conforme as
autoras têm características genuínas que remetem as formas coloniais até as
demarcações de terras indígenas no período militar.
Enfim as autoras posicionam o papel do Estado ora participativo dessas
políticas, mas que mais abrangem a interesses econômicos que beneficiam a
população loca e que, não superam a tutela do Estado.

9. FICHAMENTO

TEIXEIRA, Joaquina Barata. Meio Ambiente, Amazônia e Serviço Social..


Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro/ Revista em pauta, n 21, p. 141-152, 2008.

“O capitalismo completou, nas últimas décadas, o seu processo antes


embrionário de mundialização. Ao fazê-lo, avançou para a última fronteira – a
21

maior reserva de recursos naturais e culturais do planeta –, a Amazônia”.


(p.141)

“Quem procura o Serviço Social, hoje, na Amazônia? Se quisermos nos referir


aos ditos “vulneráveis”, diríamos que quem chega é o despossuído com os
seus carenciamentos. Eles e elas estampam no rosto e no corpo os sinais, às
vezes de forma indelével, dos danos sofridos: seres humanos alquebrados,
precocemente enrugados, queimados do sol de rua ou da lavoura (e não do sol
de piscina ou de praia); às vezes mutilados, como as crianças escalpeladas,
pessoas completamente desamparadas, excluídas de tudo: do alimento, da
habitação, dos cuidados com a saúde, do Benefício de Prestação Continuada
(BPC), do Bolsa Família. Pessoas maltrapilhas (a roupa é tão barata e ainda
tão inacessível para quem nada tem), enfim, necessitando do que existe em
abundância nas prateleiras dos supermercados, dos shoppings, das feiras”.
(p.143)

“Muitas e muitas vezes, não percebemos o formato das atuais demandas, a


distinção entre demandas clássicas e novas, porque não qualificamos nossa
percepção, para processá-las teoricamente. É absolutamente importante que
saibamos que a demanda não se esgota na empiria, mas se revela num
processo teórico-investigativo que nos possibilita percebê-las”. (p.144)

“Os povos da floresta (seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, extratores,


pescadores, caboclos, índios), no espaço regional “em si”, não são e nem
seriam pobres, nem miseráveis, nem “excluídos”, se pudessem continuar com
a livre apropriação dos produtos do mar, do rio ou da floresta, e se não
tivessem sido separados da terra ou expulsos dos melhores sítios da coleta ou
dos cardumes. Isto é visível em Vila do Conde, em Barcarena, onde o enclave
transnacional do alumínio denominado ALBRÁS (perto de Belém) privatizou
terras comunais dos povos tradicionais. Já fora constatado no Amapá, onde a
ICOMI, depois de oitenta anos de extração do manganês e dissolução de
formações não capitalistas, deixou apenas um buraco e algumas
modernidades. Os trabalhadores amazônidas seriam no máximo típicos, mas
não pobres. O movimento do capital, sim, tornou-os mais do que pobres,
tornou-os miseráveis”. (p.145)

“A industrialização, encravada na Amazônia, não consegue mudar o caráter de


atividade produtiva não-soberana para o país e não altera a condição da
região como fonte de saque. Não produz os chamados efeitos “para a frente” e
“para trás” da economia, inviabilizando valor agregado e geração de riqueza
interna.
Houve um momento em que os Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs)
”. (p.147)
“Esse processo não é puramente econômico. Além de gerar pobreza, miséria e
“exclusão”, dissolve também um saber milenar, conhecimentos, informações,
culturas, visões de mundo e valores raros, sem substituí-las. Gera, portanto, o
embrutecimento, a deseducação, a desinformação, a perda da memória
ancestral, a perda do orgulho étnico, a violência”. (p.147)
22

“Como em todo o Brasil, até a década de 30, a “questão social” na Amazônia


foi tratada como “caso de polícia” ou enfrentada de forma pontual e muito
residual. Em Belém e Manaus, era enfrentada com prisões, polícia,
espancamentos e violência, segundo registros históricos colhidos por Oliveira
(1988). Até 1932, a assistência pública era vinculada ao Gabinete Médico legal
e este à Polícia Civil”. (p.148)

“Até a Constituição de 1988, as políticas sociais seguiam atuando na “ponta”


por meio de secretarias setoriais (saúde, educação, trabalho). A assistência
social, ainda no interior do velho paradigma do favor, fazia-se por intermédio de
órgãos centralizados, como a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e
previdência, com raras inserções no fulcro das determinações desses efeitos.
(p.149)

“O que vemos, portanto, na Amazônia, é que as políticas sociais continuam


revelando e conformando um “padrão”, onde as práticas de uma única cultura _
a cultura sul-sudeste _ impõe-se como referência no planejamento dos
ministérios, engessando a autonomia de estados e municípios. É assim para a
educação, é assim para a saúde, é assim para a previdência, é assim para a
assistência social”. (p.149)

“As políticas sociais, na ótica dos direitos, devem articular suas estratégias de
enfrentamento da pobreza e da dita “exclusão”, na região, com medidas que
contemplem demandas de caráter estrutural, além de conjunturais e
emergenciais. Como exemplo, a reforma agrária. Não haverá um trabalho de
impacto de combate à pobreza, se a região continuar sendo palco da
apropriação de gigantescos latifúndios, a maioria dos quais é mera reserva de
valor e espaço de extração de madeira e abate de árvores. Não daremos
solução para a questão da terra, se as autoridades nacionais e regionais
regredirem para a primeira metade do século XIX, recebendo os Sem-Terra
com a força policial e não com a interlocução e negociação”. (p.150)

“Por outro lado, as conquistas jurídico-políticas que contribuíram para que


aflorassem os novos paradigmas da Assistência Social impõem ao assistente
social outro desafio: o de ser um profissional preparado para a liderança
política, para a liderança técnica, para a elaboração de projetos e para a gestão
democrática e participativa (não só a execução terminal) de políticas públicas”.
(p.150)

Neste trabalho a autora discuti a relação entre serviço social, meio


ambiente e Amazônia, de forma categórica a mesma pontua que as questões
ambientais, transformaram as “questões sociais” do meio amazônidas.
Entre as questões exposta qual a demanda que chega para o serviço
social na Amazônia? E alerta que esse profissional precisa fazer uma leitura e
ter a sensibilidade de percepção para compreender e empreender a mudança
vigente.
23

O Desenvolvimento Comunidades (DC) da década de 1970, tem que


abrir espaço para uma nova forma de intervenção. Desmitificando o tratamento
da “questão social” como caso de polícia.
A autora considera as diferentes formas de pobreza que com o tempo
teve o padrão modificado na vida do povo amazônida. A investida do capital na
Amazônia, alargou as desigualdades sociais desta população, além de impor
um modelo de vida, ou cultura que não respeitam as especificidades locais e
que, muito se tenta investir em um modelo de cultura sul-sudeste.
Dessa forma cabe ao serviço social inserido nesse espaço fazer uma
leitura contextualizada do período de exclusão ou controle das políticas sociais
direcionadas para a população da Amazônia a, além de participar de
lideranças, gestão, elaboração e estratégia de projetos que possam intervir de
forma efetiva nessa realidade.

10. FICHAMENTO

FOLADORI, Guilherme. Na busca de uma racionalidade ambiental.


Ambiente & Sociedade - Ano III - No 6/7 – p. 169 – 173, 1o Semestre de
2000/2o Semestre de 2000.

“Durante as décadas de setenta e oitenta, Leff era amplamente conhecido nos


países hispano-falantes por sua posição teórica marxista. Na discussão sobre a
questão ambiental, reconhecer-se marxista, naqueles anos, não era fácil. A
maioria dos autores considerava o marxismo como produtivista,
antropocêntrico e desinteressado pelo valor que a natureza per se podia ter”.
(p.169)

“A questão ambiental revelava-se uma praga da civilização moderna e não


exclusiva do sistema capitalista. Os marxistas se vêem entre dois fogos. Por
um lado, já havia diferentes propostas teóricas não- marxistas para entender e
tentar solucionar a crise ambiental (ecologia profunda, economia ecológica,
economia
Ecologia, capital e cultura: racionalidade ambiental, democracia participativa e
desenvolvimento sustentável - ambiental etc.). Por outro, o suposto respaldo
numa realidade diferente (socialista) havia se desmoronado”. (p.170)

“Embora não seja fácil caracterizar uma corrente formada por diversos autores
com posições nem sempre iguais, podemos dizer que o eco-marxismo
caracteriza-se por: a) uma interpretação do materialismo histórico como pouco
eficaz para entender os problemas ambientais, por não incluir contradições não
classistas, como as de raça, gênero e, em particular, ecológicas; b) o
reconhecimento da existência de limites físicos naturais ao desenvolvimento
24

humano; e, c) a leitura da teoria do valor de Marx como baseada


exclusivamente
no valor de troca, despreocupada pelo valor intrínseco da natureza virgem e
dos resíduos da produção. A tarefa que o eco-marxismo se propunha era,
precisamente, aprofundar o materialismo histórico com um viés ecológico”.
(p.170)

“Não obstante, poderíamos dizer que o livro tem um fio condutor e uma
preocupação central: a busca de uma “racionalidade ambiental”. O que é isso?
Leff parte do pressuposto de que as sociedades “modernas”, tanto capitalista
quanto socialista, seriam produtivistas e antiecológicas. Tratar-se-iam de
sociedades nas quais a natureza não é considerada dentro da racionalidade
econômica e, portanto, seriam insustentáveis. A busca de uma racionalidade
ambiental tem como objetivo detectar aqueles elementos que possam se
constituir em base de uma estratégia produtiva alternativa, onde a natureza se
integre à lógica produtiva”. (p.170-171)

“A racionalidade ambiental caracterizar-se-ia pela reunião de três aspectos.


Primeiro, e desde uma perspectiva técnica, a procura de uma eco-tecnologia,
baseada nos ritmos e ciclos ecológicos. O exemplo que melhor ilustra isso
seria, segundo o autor, a agroecologia (Altieri, 1999). Segundo, e desde uma
perspectiva humanista, uma produção destinada à satisfação das
necessidades básicas, a qual seria contrária a lógica do mercado. Por último, e
é este o aspecto mais importante a ressaltar na posição de Leff, uma
racionalidade social diferente da mercantil-produtivista”. (p.171)

“Leff acha que essa nova racionalidade ambiental vai além da alternativa dos
economistas ambientais (neoclássicos) para quem os problemas ambientais se
resolvem outorgando preços à natureza. É crítico, inclusive, do ecologismo, no
sentido de guiar a economia segundo os princípios da ecologia. Ele fala da
socialização da Natureza e de um manejo comunitário dos recursos baseados,
isso tudo, em princípios de diversidade ecológica e cultural”. (p.171-172)

“Leff busca no espaço do município e da comunidade a participação


democrática e direta para a gestão dos recursos ambientais. Resta ainda saber
como esse germe vai se reapropriar, pela via da democracia direta, dos 70%
da produção mundial em mãos de 300 corporações multinacionais”. (p.173)

O autor constitui uma resenha da obra de Enrique Leff, que justamente


fala de uma “racionalidade ambiental”. Neste contexto traz a posição de
autores não -marxista e eco- marxista frente essa temática.
Segundo o autor Leff, contrariava a posição marxista, pois segundo ele
essa teoria aproximava-se da questão, mas não solucionava o problema.
Quanto aos não marxista que, tratavam a relação meio ambiente com relação
estrita ao economicismo e o progresso técnico resultaram a crise.
25

Dessa forma, somente a racionalidade ambiental que partindo da eco-


tecnologia (agroecologia), da perspectiva humanística (contrária a lógica do
mercado) e a racionalidade social, seria uma nova estratégia para enfrentar as
sociedades produtivistas e antiecológicas.

11. FICHAMENTO

CHAVES, Maria P. Socorro; SIMONETTI, Suzy Rodrigues; LIMA, Marly dos


Santos. Povos ribeirinhos da Amazônia: atividades e habilidades.
Interações, Campo Grande, v. 9, n. 2, p. 129-139, jul ./dez. 2008.

“O saber-fazer dos povos amazônicos que ocupam um ambiente de várzea e


terra firme faz parte de um importante processo na relação do homem com a
natureza nesta região. Entre os povos amazônicos, as populações que habitam
as margens dos rios e seus inúmeros afluentes destacam-se: os ribeirinhos”.
(p.129)

“A gestão dos recursos naturais locais tem possibilitado a obtenção das


condições necessárias para a sua própria subsistência e a do seu grupo
doméstico, revelando um modo de vida muito próprio para estas populações”.
(p.129)

“Considera-se que nesta dinâmica o caráter político das relações dos homens
entre si, no contexto em que o ator social está inserido nessa busca pela
sobrevivência, pode levar a práticas de conservação ou depredação do meio
ambiente em geral”. (p.130)

“Santos (1994, p. 27) afirma que cultura é uma palavra de origem latina e em
seu sentido original está relacionada às atividades agrícolas, já que sua origem
está no verbo latino colere, cujo significado é cultivar. Nesse sentido, pode-se
entender que o mundo cultural, na realidade, é uma apropriação e
transformação dos elementos da natureza, visto que a cultura é um produto
eminentemente social”. (p.130)

“Numa dinâmica complexa e interdependente, as relações sociais são


mediadas pela cultura que compõe a relação entre o homem e a natureza, em
constante fluxo de transformação ao longo da história das sociedades
humanas. Mudanças culturais não são frutos de transformações
naturais podem ser consideradas adaptativas, uma vez que o indivíduo também
transforma o ato em seu próprio meio”. (p.130)
 
“Atualmente, a natureza, vista em termos de recursos naturais, passou a ser
pensada e tratada apenas como um recurso econômico, como uma
mercadoria, ao mesmo tempo em que se integra ao conjunto dos meios de
produção, condição que possibilita a consolidação da acumulação capitalista”.
(p.130)
26

“Karl Marx (1818-1883) afirmou que é preciso buscar uma unidade entre
natureza be sociedade, uma vez que aquela não poderia ser concebida como
algo externo a esta, uma vez que é relacionamento é um produto histórico. Ele
também identificou e distinguiu homem e natureza, ou seja, naturalizou e
humanizou ambos ao mesmo tempo, e essa natureza humanizada foi
construída por meio da atividade prática e consciente no trabalho”. (p.131)
“Exemplificando essa afirmação, pode-se observar que o significado da floresta
amazônica para um residente ribeirinho e para um indivíduo de outra
localidade, um imigrante, por exemplo, é muito bem diferenciado”. (CHAVES,
2001). (p.133)

“Para o primeiro, a selva representa seu habitat, de onde pode obter sua
sobrevivência, cujo uso é ordenado, em primeiro lugar, pelos princípios
socioculturais que possui; enquanto o segundo vê a selva como um obstáculo a
ser superado para a implantação da agricultura, pecuária, ou seja, uma
potencial fonte de recursos econômicos e financeiros. Embora para ambos a
floresta tenha o caráter de propiciar sua reprodução física, a forma de manejo
oscila entre a conservação e a destruição”. (p.133)

“Leff (2001), ao abordar essa questão, considera que o processo de


globalização econômica e tecnológica, obra do capitalismo atual, se sobrepõe à
valorização da natureza e da vida, invadindo, transformando e dominando as
relações, a exploração de recursos naturais, que na condição de fontes de vida,
significado e potencial produtivo, foram deslocados pelo referido processo que
desencadeou uma degradação acelerada ambiental e destruição das formas de
organização da vida e da cultura em geral”. (p.133)

“A Amazônia abriga um sistema de saberes tradicionais e modernos que


formam complexos processos de relação entre cultura e natureza que são
responsáveis por diferentes estratégias de uso dos recursos locais pelas
populações amazônicas a partir da práxis dos atores sociais, seus valores,
suas crenças, técnicas e práticas”. (p.135)

“É de extrema importância enfatizar que a relação das populações ribeirinhas


com a natureza é mediada pela cultura, pelas experiências acumuladas por
essas sociedades ao longo do tempo, pelas gerações e pelos valores sociais e
políticos (Morán, 1990). Dessa forma, e principalmente, tomando a cultura
como referência, que pode ser entendida como o conjunto de representações e
práticas dos agentes sociais, visto que a cultura é uma dimensão fundamental
dentro do processo social e da vida em sociedade. Por isso, vale destacar a
diferença entre o que se entende por meio e por natureza”. (p.135)

O presente artigo, articula a relação entre povos ribeirinhos tradicionais,


natureza, além de retratar as lutas pela sobrevivência desses povos. Segunda
as autoras no plano sociocultural, o contexto amazônico repassa seus saberes
milenares entre as gerações.
27

Em destaque, o texto trata dos ribeirinhos e a forma aplicada com


relação à gestão dos recursos naturais. Quanto a cultura o conceitua como
produto social, resultante da inteiração homem e natureza.
Cabe destacar, que o texto apresenta que, a visão lógica do capitalismo
referente à produção tem agravado os problemas ambientais. Há uma falsa
ideia que os avanços tecnológicos e científicos podem superar as limitações
ecológicas.
Enfim, o texto expressa o papel da natureza como parte indissociável da
sociedade e que a cultura e a capacidade produtiva definem o tipo de
exploração dos recursos naturais, dessa forma a tradição do povo ribeirinho
conseguiu conservar a natureza – seu espaço, habitat – até os dias atuais,
pouco degradando, pois, seu modo de vida visa a subsistência e o consumismo
ainda é algo moderado nas suas relações.

12. FICHAMENTO

CASTRO, Edna. Territórios, biodversidade e saberes de populações


tradicionais. Paper do NAES, n 092. Belém, Maio, 1998.

“Nas últimas décadas desenvolveram-se bem mais as pesquisas sobre os


chamados “povos tradicionais”1, numa perspectiva interdisciplinar, construindo
assim interfaces entre as ciências sociais e as ciências da natureza. Mais
recentemente, a partir dos anos 80, têm sido valorizados os saberes sobre a
natureza de grupos indígenas e comunidades tradicionais, mas com uma
orientação bem nítida, proveniente do debate sobre preservação de
ecossistemas e biodiversidade. Reconhecem-se esses saberes e as formas de
manejo a eles pertinentes como fundamentais na preservação da
biodiversidade. Tornou-se extremamente importante, para intervir na crise
ecológica, conhecer práticas e representações de diferentes grupos, pois eles
conseguiram, ao longo do tempo, elaborar um profundo conhecimento sobre os
ecossistemas, conhecimento que lhes garantiu até hoje a reprodução de seu
sistema social e cultural”. (p.4)

“O território é o espaço sobre o qual um certo grupo garante aos seus membros
direitos estáveis de acesso, de uso e de controle sobre os recursos e sua
disponibilidade no tempo. Como diz Godelier, o território reivindicado por dada
sociedade constitui o conjunto de recursos que ela deseja e se sente capaz de
explorar sob condições tecnológicas dadas (1984). Mas todas as atividades
produtivas contêm e combinam formas materiais e simbólicas com as quais os
grupos humanos agem sobre o território. O trabalho que recria continuamente
essas relações reúne aspectos visíveis e invisíveis, daí porque está longe de
28

ser uma realidade simplesmente econômica2. Nas sociedades ditas


“tradicionais” e no seio de certos grupos agro-extrativos, o trabalho encerra
dimensões múltiplas, reunindo elementos técnicos com o mágico, o ritual, e
enfim, o simbólico”. (p.5)

“Entre os diversos “povos tradicionais”, como no caso dos grupos indígenas, de


agro-extrativistas com concepção comunal de uso da terra, a organização das
atividades de trabalho não está separada de rituais sacros, de festividades ou
outras manifestações da vida e da sociabilidade grupal, responsáveis por maior
ou menor integração das relações familiares e de parentesco. Manifestações
sociais que, em última análise, referem-se a lugares, ao território, colocando
em destaque o regime dos rios, a reprodução das espécies e o ritmo da
natureza”. (p.5)

“Mas, no campo de saberes tradicionais, ainda que não seja possível a


diferentes grupos explicar uma série de fenômenos observados, as ações
práticas respondem por um entendimento formulado na experiência das
relações com a natureza, informando o processo de acumulação de
conhecimento através das gerações. São maneiras diversas de perceber, ao
nível local, de representar e de agir sobre o território, concepções que
subjazem às relações sociais. No caso de comunidades marcadas por
identidades étnicas, representadas como o “outro”, esses elementos
ideológicos e políticos resultam incompreensíveis para o conhecimento técnico-
econômico, pelos fortes traços de preconceito e estranhamento”. (p.6)

“No entanto, a razão dominante em nossa sociedade de classe tem negado


historicamente esse saber prático acumulado sobre a complexidade dos
ecossistemas e as formas de realizar o trabalho sobre eles. Trata-se de dois
sistemas onde o técnico-econômico funciona sob normas diferentes e que dá
resultados e efeitos também diferentes sobre o meio ambiente. Respaldando-
se em representações que reforçaram, no passado, os preconceitos, nossa
sociedade moderna vê aquelas práticas tradicionais de trabalho como
improdutivas”. (p.7)

“O saber técnico-científico procura desqualificar e desvalorizar todos os outros


saberes e práticas. Por isso, a validação a nível nacional e internacional, ainda
que parcial, dos conhecimentos e inovações dos povos indígenas, de
camponeses e de todas as populações tradicionais demonstra que eles têm um
valor não redutível ao valor econômico. A existência dos recursos biológicos
está diretamente vinculada a um sistema ancestral de coexistência sustentável
entre os homens e o ambiente, razão pela qual esses recursos dependem da
sobrevivência desse sistema. A destruição do habitat natural da comunidade
será secundada pelo seu desaparecimento como sistema cultural e vice-versa,
pois um sem o outro é insustentável”. (p.8)

“É necessário acompanhar as regulamentações sobre o acesso a recursos


genéticos por parte de grupos econômicos de países industrializados e a
proteção do conhecimento acumulado sobre os ecossistemas pelas
populações tradicionais. Estes grupos, ao conceber a terra como bem comum,
29

obedecem a regras definidas nos cânones do direito consuetudinário,


historicamente fundador de sua territorialidade”. (p.10)

“O saber técnico-científico procura desqualificar e desvalorizar todos os outros


saberes e práticas. Por isso, a validação a nível nacional e internacional, ainda
que parcial, dos conhecimentos e inovações dos povos indígenas, de
camponeses e de todas as populações tradicionais demonstra que eles têm um
valor não redutível ao valor econômico. A existência dos recursos biológicos
está diretamente vinculada a um sistema ancestral de coexistência sustentável
entre os homens e o ambiente, razão pela qual esses recursos dependem da
sobrevivência desse sistema. A destruição do habitat natural da comunidade
será secundada pelo seu desaparecimento como sistema cultural e vice-versa,
pois um sem o outro é insustentável”. (p.8)

“No plano internacional, os países industrializados têm procurado frear o


processo de reconhecimento de direitos a populações tradicionais sobre a
biodiversidade, estas que sabidamente mais contribuem para a conservação
dos recursos biológicos”. (p.9)

“O embate político a propósito de questões relativas ao avanço da sociedade e


à incorporação da questão ambiental enquanto crise ecológica reatualiza
formas de luta, ao nível local. Ao mesmo tempo constitui um campo com
riqueza e capacidade inventiva, operando as diferenciações internas entre
grupos tradicionais, suas afirmações através de identidades trazidas pela etnia,
pelas relações de trabalho, et. Essas singularidades reencontram-se no campo
do geral, do universal onde se inscreve a alteridade. E isso tem permitido, de
certa forma, que grupos surjam na cena política e se inscrevam num campo
universal de revisão dos direitos, recompondo no singular a essência dos
valores que fundam as relações humanas”. (p.14)

O artigo tece reflexões acerca dos movimentos sociais, concepção de


territórios, além dos confrontos pela apropriação de terra e/ou territórios. Há
uma análise dos problemas ambientais que, abrangem níveis globais.

O texto também qualifica as crenças religiosas e a mitologia


representativa das populações tradicionais a considerando como saber
ecológico transposto. Nessa perspectiva Castro (1998) define como os
Ameríndios se apropriam dos recursos do meio ambiente e se adaptam
conforme as suas necessidades próprias.

Os saberes são relatados como acumulações de conhecimentos


passados por gerações, estes saberes envolvem toda as atividades realizadas
por esta população tradicional que, vai desde de os hábitos de pesca, plantio e
30

relação homem e natureza. Destaque para a relação do ribeirinho com a água


e sua adaptação ao ecossistema.

Em conformidade com o texto, o extrativismo ainda são elemento


essencial na produção. Para tanto, considera a posse da terra e o uso comum
da terra também como forma de produção. A sociedade moderna vê as
práticas tradicionais do trabalho como improdutivas, ou seja, negam
historicamente o saber prático acumulado desses povos.

Enfim, o movimento pelos direitos de população, direitos territoriais e a


defesa da natureza, diversidade biológica, proteção à cultura e saberes
herdados tem sido evidenciado nos últimos anos. O interesse em reconhecer a
identidade das populações tradicionais, tendo em vista que no território há
reproduz sua existência e matem a sua identidade.

Assim o ponto-chave do texto está na afirmação dos direitos dos povos


tradicionais aos seus saberes sobre a biodiversidade, sendo a valorização – da
biodiversidade - o grande desafio ao avanço tecnológico.

13. FICHAMENTO

DIEGUES, Carlos. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 3ed. São Paulo:


Editora HUCITEC, 2001.
“A CRIAÇÃO do primeiro parque nacional no mundo, o de Yellowstone, em
meados do século XIX, foi o resultado de idéias preservacionistas que se
tornavam importantes nos Estados Unidos desde o início daquele século. No
entanto, de acordo com Keith Thomas (1983), essas idéias surgiram muito
antes na Europa. Segundo esse autor, na Inglaterra, até o século XVIII, havia
um conjunto de concepções que valorizavam o mundo natural domesti-cado, e
os campos de cultivo eram os únicos que tinham valor. O homem era
considerado o rei da criação e os animais, destituídos de direitos e de sentidos
e, portanto, insensíveis à dor. Quando nesse século começaram a chegar na
Europa notícias que os povos orientais veneravam a natureza e não
maltratavam os animais, a reação geral foi de desaprovação”. (p.23)

“O movimento de criação de "áreas naturais" nos E.U.A. foi influenciado por


teóricos como Thoreau e Marsh. O primeiro estudou administração florestal e
criticou a destruição das florestas para fins comerciais. Em meados do século
XIX, havia o avanço dos colonos para o oeste, com grande destruição florestal,
e a ação das companhias mineradoras e madeireiras contra as áreas naturais.
Esses processos já levantavam os protestos dos amantes da natureza,
fascinados pelas montanhas Rochosas e vales de grande beleza. Marsh, em
31

1864, havia publicado um livro chamado Man and Nature, amplamente


divulgado e discutido nos Estados Unidos, em que demonstrava que a onda de
destruição do mundo natural ameaçava a própria existência do homem sobre a
terra”. (p.26)

“A idéia de parque como área selvagem e desabitada, típica dos primeiros


conservacionistas norte-americanos, pode ter suas origens nos mitos do
"paraíso terrestre", próprios do Cristianismo. A concepção cristã de paraíso,
existente no final da Idade Média e no período anterior ao descobrimento da
América, era de uma região natural, de grande beleza e rigorosamente
desabitada, de onde o homem tinha sido expulso após o pecado original. No
imaginário ocidental, ela poderia estar numa ilha ou em terras desabitadas
além das Colunas de Hércules. A descoberta do paraíso terrestre estava entre
os objetivos das viagens do descobrimento (Giucci, 1992). Esse mito do
paraíso perdido e de sua reconstrução parece estar na base da ideologia dos
primeiros
conservacionistas americanos”. (p.27)
“A noção de "wilderness", que serviu de base à criação dos parques norte-
americanos, foi criticada desde o início, particularmente pelos índios
remanescentes já em grande parte removidos de seus territórios ancestrais na
conquista do oeste”. (p.28)

“Em termos teóricos nos Estados Unidos, no século XIX, havia duas visões de
conservação do "mundo natural" que foram sintetizadas nas propostas de
Gifford" Pinchot e John Muir. Essas idéias tiveram grande importância no
conservacionismo dentro e fora dos Estados Unidos”. (p.28)

“Gifford Pinchot, engenheiro florestal treinado na Alemanha, criou o movimento


de conservação dos recursos, apregoando o seu uso racional. Na verdade,
Pinchot agia dentro de um contexto de transformação da natureza em
mercadoria. Na sua concepção, a natureza é freqüentemente lenta e os
processos de manejo podem torná-la eficiente; acreditava que a conservação
deveria basear-se em três princípios: o uso dos recursos naturais pela geração
presente; a prevenção de desperdício; e o uso dos recursos naturais para
benefício da maioria dos cidadãos”. (p.29)

“Se a essência da "conservação dos recursos" é o uso adequado e criterioso


dos recursos naturais, a essência da corrente oposta, a preservacionista, pode
ser descrita como a reverência à natureza no sentido da apreciação estética e
espiritual da vida selvagem (wilderness). Ela pretende proteger a natureza
contra o desenvolvimento moderno, industrial e urbano. Na história ambiental
norte-americana, o conflito entre Gifford Pinchot e John Muir é usualmente
analisado como um exemplo arquétipo das diferenças entre a conservação dos
recursos e a preservação pura da natureza”. (p.30)

“Apesar dos conflitos entre os conservacionistas dos recursos naturais, os


"desenvolvimentistas" e os preservacionistas puros, a área dos parques
nacionais e outras unidades de proteção aumentou consideravelmente nos
Estados Unidos, passando de cerca de 14 milhões de acres em 1933 para
cerca de 20 milhões em 1946 e o número de "monumentos naturais" passou de
32

33 para 86. Os equipamentos turísticos nos parques, que tinham sido


incentivados desde o começo para atrair apoio das populações urbanas
(estradas asfaltadas e carros foram autorizados desde 1918) e haviam crescido
muito durante o New Deal, sofreram reduções importantes no pós-guerra, por
causa de uma mudança de orientação no National Park Service (criado em
1918). Este Serviço de Parques, no entanto, cuja criação foi uma vitória da
escola estética, passou a criar unidades de conservação seguindo critérios
ecológicos, e não mais estéticos (Koppes, 1988) ”. (p.33)

O trabalho de Diegues (2001), tende a avaliar a importância fundamental


da presença das populações tradicionais nas áreas de conservação, apesar
desse enfoque está apenas no último capítulo desta obra. O autor inicia sua
abordagem orientado o leitor o porquê do título e sua relação com os escritos,
ou seja, faz um recorte histórico e evidencia os neomitos (natureza intocada) a
partir do preservacionismo e a questão do conservadorismo que comunga da
relação homem e natureza.

Totalmente contrário aos modelos de parques estadunidense que


idealizam espaços preservados que, atenuam somente a estética
desrespeitando os que por algum motivo já habitavam esse ambiente. Em
contrapartida, o autor chama para a discussão o conceito de conservadorismo
que, também visa a proteção dos espaços naturais, mas respeitando a
conservação, além de potencializar as diversidades biológicas.

Os pensamentos distintos causam conflitos, principalmente de interesse.


No Brasil, segundo o autor este modelo de preservacionismo mesmo que
escala distante dos demais lugares do mundo, também encorpou esse modelo,
que de forma desrespeitosa não levara em conta a população que habitam
esses espaços que no caso precisaria ser preservado.

Enfim, o debate é necessário para emitir aos órgãos públicos, agentes


internos e agentes externos envolvidos nessa temática que, cada região deve
ser tratada respeitando suas especificidades, principalmente quando percebe-
se que os modelos norte-americanos de tratar as questões ambientais não
devem ser aplicados em outros países, no caso o Brasil tem em suas
dimensões territoriais uma mescla de diversidade (econômica, cultural e
social), no que tange essas áreas protegidas.

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