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UM

ALEC

MEU ENCONTRO ESTAVA sete minutos atrasado e eu já estava no meu


segundo drinque, me perguntando como diabos alguém conseguiu me
convencer disso.

Pelo menos eu estava em meu restaurante italiano favorito. Pequeno e


intimista, com música clássica e atendimento personalizado. Não o tipo de
lugar onde uma pessoa é obrigada a usar um terno, mas onde você
certamente se sentiria inadequado se não usasse. Consequentemente, eu
não tinha trocado o terno azul escuro de três peças que usei no escritório
hoje. Agora, entretanto, eu estava lamentando minha decisão de encontrar
meu par aqui em vez de insistir que estava muito ocupado para qualquer
coisa, exceto uma refeição rápida em meu escritório.

Mesmo que o restaurante estivesse cheio de mulheres atraentes em


vestidos de noite, minha atenção continuava alternando entre meu telefone
e o relógio de ouro que herdei quando recebi meu diploma em administração
na Universidade de Glasgow. Eu o mantive em perfeitas condições, tanto
que era tão preciso quanto o satélite do qual meu telefone recebia as
informações. Informações que me disseram que meu encontro estava oito
minutos atrasado.

Um sócio comercial local, Lee Armisen, insistiu que eu fosse jantar com
uma de suas primas, que merecia coisa melhor do que os garotos bêbados da
fraternidade que costumam dar em cima dela. Aos trinta e três anos, eu
estava alguns anos distante de qualquer coisa que se parecesse com um
“garoto de fraternidade”. Lee e eu nos conhecíamos há mais de uma década,
ambos entrando em nossas respectivas empresas familiares logo após a
faculdade.

—Confie em mim, amigo, — disse-me ele há alguns dias. —Eu sei o que
é ser criado por um pai solteiro e workaholic. Você e Evanne precisam de uma
forte presença feminina, e Song pode ser isso para vocês. Apenas um encontro
e você verá. Eu prometo.

Não me incomodei em explicar a ele que a mãe de Evanne já era uma


presença feminina forte, ou que eu não estava procurando um
relacionamento com ninguém, sendo ele forte ou não. Mas nós dois tínhamos
negócios juntos, e ele era provavelmente a coisa mais próxima que eu tinha
de um amigo, fora meus irmãos. Um único encontro não parecia um
problema para manter a paz entre nós.

Pelo menos, não tinha na época.

Embora eu não estivesse ansioso por esta noite, eu tinha minha mente
envolvida nisso como um evento de negócios necessário, não diferente de
levar um associado para beber quando eu prefiro passar meu tempo
realmente trabalhando. Apenas ficar sentado aqui esperando, no entanto,
era a maior perda de tempo, e se havia uma coisa que eu odiava acima de
tudo, era perda de tempo.

Eram oito e quinze quando uma jovem de aparência exótica se


aproximou da minha mesa. Cabelo comprido e escuro, olhos amendoados,
pele morena e um corpo esguio coberto por um vestido branco de seda que
mostrava uma quantidade mais do que generosa de pernas. Eu a reconheci
pelas fotos de Lee, então me levantei assim que a vi. Mesmo que ela
estivesse atrasada, eu seria educado. Além disso, ela pode ter uma boa
desculpa para o atraso. Suposições não favorecem ninguém.

—Uau, você é alto! — ela exclamou quando me movi para puxar sua
cadeira. Ela devia ter quase um metro e setenta – incluindo os saltos –
enquanto eu me elevava sobre ela com um metro e noventa e meio de altura.

Eu ri educadamente. —Você deve ser Song Armisen.

—A primeira e única. — Ela riu, mostrando uma fileira de dentes


impossivelmente brancos.

Eu estendi minha mão para ela apertar ao mesmo tempo em que ela
abriu os braços para um abraço. Senti olhos em mim quando não aceitei o
abraço, mas me recusei a ficar com vergonha. Nem todo mundo se sentia
confortável abraçando completos estranhos. Não achei apropriado forçar
ninguém a um contato físico que os deixasse desconfortáveis.

Song desajeitadamente colocou sua mão pequena e flácida na minha,


virada para baixo como se eu devesse beijá-la. Eu poderia, eu suponho, mas
uma parte de mim endureceu com a ideia de suas expectativas de toque
casual... e não era o tipo de endurecimento que vinha com a atração.

Ela se sentou e eu empurrei sua cadeira, o sorriso no meu rosto


parecendo mais plástico do que há alguns minutos.

—Que cavalheiro! — Ela guinchou. Ela tinha uma voz estridente que
quase parecia demais para ser real.

Eu distraidamente me perguntei se alguém tinha dito a ela para


brincar, parecer fofa ou feminina. Eu dividi meus anos quase igualmente
entre a América e a Escócia, mas descobri muitas de minhas preferências e
opiniões formadas por minha terra natal. Infelizmente para a Srta.
Armisen, nenhuma dessas preferências refletiu positivamente nela.

Sentei-me e peguei meu scotch. Um gole rápido me fortaleceu o


suficiente para perguntar: —Como estava o trânsito?

—Tudo bem, — disse ela com outro sorriso deslumbrante. —Eu peguei
um Lyft.1 — Houve um momento de silêncio em que esperei que ela
explicasse por que estava atrasada, mas, em vez disso, ela disse: —Adorei
seu terno. Gucci?

—Canali. E obrigado.

Ela riu por algum motivo, embora eu não pudesse imaginar o que ela
achou engraçado. Quando o garçom chegou um momento depois, ela
imediatamente pediu uma garrafa de seu melhor vinho tinto.

1 Uma empresa de rede de transporte internacional semelhante à Uber, que oferece serviços de
compartilhamento de viagens no aplicativo a uma taxa menor do que um táxi tradicional.
Ela piscou para mim. —Só o melhor para nós.

Eu não gostava de vinho tinto, mas gostava menos ainda de sua


presunção e de como ela usava a palavra nós.

O garçom olhou para mim, sua opinião sobre meu par escondido atrás
de uma máscara educada. Eu mesmo já tinha usando o suficiente para saber
a sua desaprovação escondida. Eu não estava disposto a chamar a sua
atenção por isso. Não quando minha opinião sobre Song não havia
melhorado com seu flerte cafona e tudo o que ela pretendia realizar com seu
pedido de vinho.

—Outro Highland Park,2 senhor? — Seu tom era suave e perfeitamente


profissional.

—Um duplo. Obrigado.

Ele me deu um aceno simpático e foi embora.

—Ooh, vamos nos divertir hoje à noite. — Song deu uma risadinha, e
isso fez meus dentes ficarem tensos. —Eu gosto de um homem que não tem
medo de se soltar.

—Eu sou escocês, então posso segurar meu scotch, — eu disse, e então
acrescentei, —mas eu nunca bebo quando estou com minha filha. — Eu não
iria presumir que Lee havia contado a sua prima sobre minha filha, mas ela
precisava saber que Evanne sempre viria em primeiro lugar.

Ela se mexeu na cadeira, inquieta com a menção da minha filha, mas


não disse nada. Em vez disso, ela colocou a bolsa bem no meio da mesa,
claramente querendo que eu notasse. Ele tinha um logotipo de triângulo de
cabeça para baixo, mas não consegui ler o que dizia. Não que isso
importasse, porque eu sabia o que ela queria que eu dissesse.

—Bela bolsa.

2
É um, single malt, uísque escocês da região da Escócia de Ilhas.
—Oh, essa coisa velha? — ela riu e então começou a contar uma história
sobre onde ela conseguiu, o quanto ela economizou para conseguir, com
quem ela estava, com quem ela estava fazendo ciúmes, que sapatos ela tinha
que combinavam com isso...

Meu telefone estava sobre a mesa também, sua bolsa bloqueando sua
linha de visão. Eu olhei para ela e acenei com a cabeça enquanto
secretamente pressionava meu polegar no telefone para desbloqueá-
lo. Depois de dar a Song um sorriso educado, olhei para baixo. Eu estabeleci
um sistema de notificação com código de cores para as pessoas com quem
mais mantinha contato. Um retângulo verde me disse que alguém no
McCrae International Research Institute estava passando-me algumas
informações, provavelmente sobre uma conferência que se
aproximava. Nada que precisasse de minha atenção imediata.

Droga.

—Então, sim, — Song terminou. —Uma história bem maluca.

—Aye3. — Eu disse distraidamente. Devo ter ficado mais esgotado do


que pensava, já que estava caindo em meus padrões de fala nativos.

Felizmente, nossas bebidas chegaram naquele momento. Engoli o resto


do meu uísque atual e peguei o novo, observando enquanto o sommelier
servia vinho tinto para cada um de nós. Song enfiou a taça embaixo do nariz
e esfregou o vinho por muito tempo antes de beber. Resisti ao impulso de
revirar os olhos quando ela informou ao sommelier que o vinho estava
perfeito. Eu não tinha dúvidas disso, mas odiava quando as pessoas agiam
como se soubessem mais sobre as coisas do que realmente sabiam. Se ela
simplesmente admitisse que não sabia o que fazer com o vinho, eu a teria
respeitado mais do que vê-la fingir.

—E vocês dois estão prontos para fazer o pedido? — perguntou o


garçom, parecendo ser o sommelier.

3 Sim, em Gaélico Escocês.


Song riu novamente, o som irritando meus nervos. —Eu nem olhei o
menu! Eu terei o que ele está tendo. Ele é obviamente um homem de bom
gosto.

Pedi o ravióli di capriolo, um dos meus pratos favoritos no Il Terrazzo


Carmine. Song não sabia o que era, então o garçom explicou que era
macarrão. Especificamente, macarrão com molho de carne de veado,
espinafre e vitela com cogumelos.

Os olhos de Song se arregalaram. —Carne de veado? Tipo um Bambi?

O canto da boca do garçom se contraiu quando ele assentiu. —Sim


senhorita. Capriolo é carne de veado.

Song balançou a cabeça. —Não, isso não vai funcionar. Troque por
outra coisa. Lagosta ou camarão.

Antes que o garçom tivesse que decidir como dizer a um cliente que esse
tipo de substituição não era possível, eu intervim.

—Você prefere frutos do mar, então? — Eu perguntei. Quando ela


acenou com a cabeça, olhei para o garçom. —Raviolini di pesce. — Ele
acenou com a cabeça, uma expressão de alívio em seu rosto.

—O que é isso? — Song perguntou enquanto o garçom se afastava.

—Tem caranguejo, camarão e espinafre em vez de veado e vitela.

—Oh. — Depois de um tempo, ela continuou: —Como você conseguiu


sua cicatriz?

Toquei meu telefone novamente. Uma mensagem roxa desta vez, que
parecia ter algo a ver com os próximos cursos de treinamento de finanças
europeus, mas como estava codificada em roxo, não exigiu minha
resposta. Sem emergências ainda. Sem desculpas para sair.

Droga.

—Bem? — Song perguntou, tomando um grande gole de vinho e


passando-o em suas bochechas como enxaguatório bucal.
Suspirei e apontei para a cicatriz fina e branca na minha sobrancelha
direita. —Isto? Uma briga com o bundão do irmão. Coisa infantil. Nada que
valha uma história.

—Bem, não se preocupe, — disse ela e me deu uma piscadela longa e


exagerada. —Essa garota cava cicatrizes.

Estava ficando mais difícil sorrir educadamente.

Ela apoiou o rosto na mão. —Eu amo seu sotaque. O escocês é o sotaque
mais sexy de longe. Eu sempre tive ciúme que Lee fizesse tantas viagens
para Edimburgo.

Ela pronunciou Eedinburg com um G forte. Consegui não fazer uma


careta, mas também não consegui esboçar um sorriso, então levantei a taça
de vinho tinto que não queria beber. — Slàinte.4

—Felicidades! — ela guinchou, erguendo o copo e inclinando-se sobre a


mesa.

Eu ignorei a maneira como ela pressionou os seios juntos na tentativa


de chamar minha atenção para seu decote. Ela bateu nossos copos e lambeu
os lábios sugestivamente antes de tomar um gole profundo. Eu
experimentei. Era meio frutado, e resisti à vontade de cuspi-lo. Não é do
meu gosto. Eu lavei com minha marca preferida de álcool. Prefiro minha
boca com gosto de fogueira do que uma tigela de uvas adoçadas.

Eu culpei minha sólida formação escocesa.

—Então, sua casa está vazia esta noite? — Song perguntou em seguida,
arqueando uma sobrancelha pintada.

—Sim. — Eu disse, checando meu telefone novamente. Sem novas


mensagens.

Merda.

4 Feliciades ou saúde em Gaélico Escocês.


—O que você fica olhando ali?

Ela moveu sua bolsa e viu meu telefone.

—Estou apenas verificando se minha filha não está me enviando


mensagens de texto. — Respondi rapidamente. Não era totalmente falso,
mas eu teria aceitado qualquer pessoa me chamando no momento.

Seus olhos se estreitaram. —Você tem certeza de que não está no


Tinder ou algo assim?

—Isso é algo que as pessoas fazem nos encontros? — Eu perguntei,


franzindo a testa. —Parece grosseiro.

Ela suspirou, sua expressão mais genuína naquele momento do que


durante toda a noite. —Às vezes. Caras são uma merda.

—Eu prometo que não é isso que estou fazendo. — Eu poderia querer ir
embora, mas não estava procurando outra mulher durante um encontro.

Eu não era um bastardo por completo.

Lentamente, seu rosto se transformou de volta na mulher elegante que


tinha sido. —Você é muito cavalheiro para isso. Você não sabe como é bom
ter um encontro com alguém que tem sua vida. E bonito também! Você é
como uma baleia branca ou algo assim.

Talvez eu fosse mais esnobe do que gostaria de admitir, mas ela me


surpreendeu com a referência a Melville. Apesar disso, quando nossa comida
chegasse, eu esperava que comer nossa refeição tivesse precedência sobre a
conversa.

Não tive essa sorte. Aparentemente, ela não tinha escrúpulos em falar
com a boca cheia.

—Como você encontra tempo para ficar tão em forma? — ela perguntou,
colocando outro pedaço de macarrão em sua boca. —Não tenho filhos
nem trabalho e quase não consigo ir à academia na maioria dos dias.
Esperei até terminar de engolir antes de responder: —Tenho uma
programação rígida e a sigo com precisão.

—Isso definitivamente te deixou legal e rígido, — ela respondeu, me


dando outro sorriso. Desta vez, ela tinha algo verde em seus dentes.

Foi então que senti seu pé deslizando pelo meu tornozelo. Afastei
minha perna para permitir a ela mais espaço, fingindo simplesmente mudar
na minha cadeira. Mas seu pé me encontrou novamente um momento
depois. O tempo todo ela sorria e conversava, completamente alheia ao quão
pouco atraente isso a tornava.

Eu verifiquei meu telefone novamente. Outra mensagem verde - sem


emergências. Agora, pensei em todas as coisas que poderia ter feito em vez
disso. Na minha visão periférica, eu a peguei franzindo os lábios, claramente
irritada com minha falta de entusiasmo. Seu pé subiu mais alto na minha
perna, alcançando minha panturrilha.

—Como é sua comida? — Eu perguntei como se não tivesse notado seus


cuidados.

—Quase tão delicioso quanto você parece.

Tomei outro gole e me perguntei como poderia escapar sem destruir


meu relacionamento com Lee, pessoal e profissional.

—Lee disse que você foi para a universidade estudar arquitetura?


— Mudei de assunto. —Você tem um arquiteto ou projeto estrutural
favorito?

—Eu desisti, na verdade, — ela disse, encolhendo os ombros. —Então,


não realmente. De qualquer maneira, foi mais um capricho. Erguer edifícios
é tão... frio e chato. Eu prefiro homens eretos.

Ela plantou o pé na borda do assento entre minhas pernas. Recostei-


me o mais que pude, sem derrubar minha cadeira. Eu estava tentando não
ser rude, mas isso era demais. Ela era demais, e isso era uma perda de
tempo. Eu não estava atraído por ela e fingir o contrário só pioraria as
coisas.
—Espero que você tenha deixado espaço para a sobremesa... — Seus
dedos roçaram a parte interna da minha coxa, não deixando dúvidas sobre
para onde seu pé iria em seguida.

O suficiente. Eu agarrei seu tornozelo e gentilmente o retirei da minha


cadeira. —Infelizmente, estarei trabalhando amanhã cedo e precisarei de
uma boa noite de descanso. Já está ficando tarde...

—É pouco depois das nove, — ela retrucou. —E amanhã é sábado. Essa


é realmente a melhor desculpa que você tem?

Não me preocupei em explicar as coisas para ela. Ela não era uma
mulher que eu persegui e convidei aqui devido à atração mútua. Não éramos
um bom par, e se ela não viu isso, isso confirmou o que minha intuição estava
me dizendo.

—Vou pegar a conta. — Disse.

— Obviamente. Você acha que eu posso pagar esta porra de lugar?


— Ela cruzou os braços e fez uma careta.

Peguei algumas notas da carteira - mais do que o suficiente para pagar


a conta e uma gorjeta generosa - e as deixei na mesa ao lado da bolsa de que
ela tanto se orgulhava. Se ela quisesse sobremesa, ela poderia pagar por ela
mesma. Eu estava encerrando esse show bizarro aqui.

—Foi um prazer conhecê-lo, Song, — menti, pegando meu telefone e


saindo da cadeira.

—Onde você está indo?!

Eu a ignorei e todos os outros olhando para mim. Ao passar por nosso


garçom, dei uma gorjeta generosa por ter que lidar com a bagunça que
estava deixando para trás e continuei caminhando para a saída.
DOIS

ERA uma sensação estranha ter crianças olhando para mim como se eu
fosse uma espécie de farol. Uma representação de esperança para o
futuro. Para seu futuro. Tipo, se eu pudesse fazer isso, eles até poderiam.

Como se eu fosse o oposto de um conto preventivo.

Não é surpreendente, realmente. Eu deveria ter esperado quando pedi


para vir aqui como voluntária. Fazia seis anos desde que eu entrei na maior
idade, e este foi o lugar onde eu fiz isso. O ponto de largada para crianças
que não seriam adotadas ou, pelo menos, colocadas sob cuidados de alguém
a longo prazo. Normalmente adolescentes. Frequentemente criadores de
problemas.

Sorri para cada um dos outros voluntários ao passar por eles. Alguns
foram voluntários quando eu era uma dessas crianças. Pais de família,
motoristas, cozinheiros, garçons... pessoas que vinham ajudar quando havia
crianças demais e adultos insuficientes.

—É sempre maravilhoso ver você de volta aqui, Lumen. — Brie


Richards tinha uma aparência permanentemente exausta, seus longos
cabelos grisalhos amarrados para trás para evitar ter que fazer qualquer
coisa com eles.

Anos cuidando de crianças adotivas não devem ter sido fáceis, mas eu
nunca a ouvi reclamar, não quando eu estava sob seus cuidados, e não
quando voltei para ajudá-la.

—É bom ver você também. — Eu disse, seguindo-a para a sala de


atividades.
No momento, Brie tinha dez residentes – permanentes, – e eu os contei
ao redor da sala. Como qualquer grupo de crianças, suas personalidades
eram tão diferentes quanto suas histórias.

Notei uma nova garota que não tinha visto antes. Ela parecia ter
quatorze anos e tinha longos cachos negros que faziam sua pele bronzeada
parecer ainda mais escura. Suas roupas largas e totalmente pretas a faziam
parecer ainda mais magra do que já era - um sinal de que ela provavelmente
era nova no sistema ou tinha entrado e saído de uma situação de
negligência. As crianças novas costumavam ficar quietas, mas seu prato de
papel não tinha nem um pouco de gordura, o que significava que ela não
tinha comido nada. Isso era motivo de preocupação. As crianças novas tão
magras quanto ela, geralmente tinham problemas em acumular comida, não
ignorá-la. Eu esperava que isso não significasse que ela tinha um distúrbio
alimentar. Aqueles eram uma merda de conquistar.

—Oi, Lumen! — Diana Whitmore acenou com o braço esguio tão rápido
que era um borrão. Ela tinha treze anos, cabelos castanhos crespos e um
sorriso perpétuo.

—Olá, Sylvia. — Eu pisquei para ela. Quando a encontrei lendo The


Bell Jar, comecei a chamá-la de Sylvia, e isso nunca deixava de fazê-la
sorrir. —Vocês salvaram um pouco de pizza para mim, certo?

Alguns deles olharam para as caixas de pizza vazias timidamente, mas


perceberam que eu não estava brava com isso. Não divulguei meu passado,
mas a maioria deles sabia que eu também estive no sistema. Eu sabia o que
era sentir tanta fome que pensar em comida me deixava com náuseas.

—Todas as vezes, — eu suspirei, mas continuei a sorrir. A garota com


os cachos negros nem olhou para cima.

—Vou deixar vocês com isso, — disse Brie, dando um tapinha no meu
ombro. —Divirta-se!

Apenas Diana respondeu com uma grande afirmativa, mas Brie não
pressionou. O silêncio em resposta a uma declaração geral foi mais uma
vitória do que a maioria das pessoas percebeu.
—Tudo bem, pessoal, — eu disse, batendo palmas, —vamos fazer algo
digno de Pinterest e do YouTube. — Eu dei a eles uma carranca simulada. —
Essas ainda são as plataformas de mídia social legais, certo?

Alguns deles riram das minhas tentativas idiotas de falar a língua


deles, mas consegui exatamente o que eu queria.

A maioria deles já tinha ideias para projetos e começou a trabalhar


imediatamente.

Exceto a garota de cabelos negros. Ela apenas se sentou e olhou para


um pedaço de papel em branco, sem fazer nenhum movimento para
encontrar uma caneta ou pincel próximo. De certa forma, ela me lembrava
de mim mesma quando vim pela primeira vez à casa de Brie como uma
garota perdida e indesejada de dezessete anos. Dez anos no sistema me
transformou em uma adolescente solitária e desconfiada.

Sentei-me ao lado dela sem pedir permissão. Eu não a pressionaria,


mas ela precisava saber que as pessoas aqui fariam um esforço. —Oi, acho
que ainda não nos conhecemos.

—Maneira de afirmar o óbvio, — ela murmurou, cruzando os braços


sobre o peito.

Eu conhecia aquele gesto muito bem, mas não a reconheci. —Tem um


nome?

Seus olhos nunca levantaram. —Sim.

Eu conhecia aquele movimento também, e ela ficaria desapontada se


pensasse que isso me afetaria. —Eu também. Acho que temos algo em
comum. O meu é o Lumen.

Ela franziu os lábios. —Nome esquisito.

—Não é tão estranho quanto o seu, Soleil — Kaitlyn interrompeu de


onde estava rasgando as caixas de pizza para seus projetos de arte de
estêncil de graffiti. —Esse é o nome dela, se você pode acreditar, — Kaitlyn
continuou.
—É um nome lindo. — Eu disse com firmeza, dando a Kaitlyn um olhar
que esperava transmitir minha desaprovação por sua provocação.

Soleil suspirou, virando a cabeça. Sua voz estava tão baixa que quase
perdi suas próximas palavras. —Minha mãe provavelmente estava bêbada
quando surgiu com isso.

Foi difícil não estender a mão para apertar a mão dela, então eu disse
gentilmente: —Tenho certeza de que não é o caso.

—Considerando que ela é uma maldita alcoólatra, — Soleil retrucou, —


sim, provavelmente devia.

Ótimo. Eu realmente coloquei meu pé na minha boca com aquele


movimento de aproximação. Melhor mudar de assunto e deixar o trabalho
pesado para os terapeutas.

Razão pela qual não me incomodei em mencionar que havia uma boa
chance de meu pai alcoólatra ter se entregado a alguns a mais antes de
ajudar minha mãe a escolher meu nome.

Eu fui com um ângulo diferente. —Na verdade, nossos nomes têm mais
em comum do que apenas serem únicos.

Soleil franziu a testa, mas pela primeira vez ela olhou para mim. Ela
tinha lindos olhos castanhos com pequenas listras douradas neles como
estrelas cadentes. Tive a sensação de que, se ela sorrisse, poderia iluminar
uma sala.

— Soleil significa “sol” em francês, — expliquei. —Um “Lumen” é uma


unidade de fluxo luminoso. Ou seja, uma luz visível. — Como ela não
respondeu, continuei: —E como o sol emite muita luz visível, os nomes estão
conectados.

Ela realmente parecia interessada, mesmo que estivesse carrancuda.

—Qual é o seu negócio, Soleil? — Eu perguntei. —Escrever, desenhar,


pintar?

Ela ergueu um ombro carrancudo. —Eu desenho.


—Impressionante. Tem um lápis bem aqui...

—Com facas, — ela terminou, sorrindo para mim. —Suponho que você
não tenha nenhum desses por aqui?

Eu não era psicóloga, mas não era uma estudante universitária


ingênua e protegida que ficaria facilmente chocada com o que quer que ela
jogasse em mim. Não era minha função dar palestras ou algo parecido. Eu
fui uma voluntária. Se eu achasse que ela era um perigo para si mesma ou
para os outros, falaria com Brie, mas meu instinto dizia que não era o caso
aqui. Ela estava testando limites.

—Posso encontrar algumas facas de manteiga, se você acha que vão


cortá-las. — Eu mantive minha voz seca, certificando-me que ela entendeu
que eu a entendia, e eu escolhi cada palavra intencionalmente.

Para minha surpresa, ela não gemeu ou revirou os olhos. Ela nem
mesmo me xingou. Em vez disso, algo faiscou em seus olhos castanhos. —
Que senso de humor cortante, — ela falou lentamente, levantando uma
sobrancelha no que era claramente um desafio.

—Eu dou uma chance de vez em quando, — eu atirei de volta.

—Você é uma verdadeira cut up5.

—Não finja que não sou um prazer absoluto. — Eu não pude evitar o
sorriso quando vi os cantos de sua boca se contorcendo enquanto ela
reprimia um sorriso.

—Vocês são perdedores do caralho, — Darius bufou.

Eu queria repreendê-lo por sua linguagem, mas ele tinha dezesseis


anos e dizer a um adolescente para parar de praguejar só o faria fazer
mais. O mesmo vale para os insultos. A melhor coisa a fazer era ignorá-lo,
para que ele não recebesse a atenção que queria.

5 Uma pessoa que perturba ou está agindo de maneira ruim.


—Darius precisa parar com isso. — Eu dei uma cotovelada em Soleil,
querendo voltar às nossas brincadeiras, mas algo mudou. Seu sorriso se foi,
substituindo-o pela carranca que eu vi pela primeira vez.

—Eu terminei, — ela murmurou. —Apenas me dê a porra de um


lápis. Vou desenhar alguns zumbis e essas coisas.

Droga. Eu estava tão perto de fazer com que ela se abrisse.

—Zumbis, hein? Isso é bem legal. — Entreguei a ela um lápis. Ela


pegou, mas não respondeu.

Como sempre, o interesse diminuiu depois de um tempo e as crianças


seguiram em direções diferentes. Finalmente, Soleil e eu éramos as únicas
restantes na mesa.

—Ei, — ela disse enquanto empurrava a cadeira para trás.

—Ei. — Eu estava empilhando as caixas de pizza vazias.

—Foi uma fatia conhecer você. — Disse ela antes de fugir rapidamente.

—Você também, — eu disse suavemente, observando-a ir. Eu já tinha


decidido que Soleil seria meu projeto pessoal. Eu iria mostrar a ela que ela
poderia ter uma vida boa. Esse começo não precisava definir quem ela era.

Quando joguei o resto do papelão na lixeira, meu telefone tocou. Eu


tinha esquecido de colocá-lo para vibrar, e a música que explodiu da minha
bolsa enviou sangue correndo para o meu rosto. Eu me esforcei para atender
antes que outra letra atrevida pudesse ser ouvida.

—Mai.

—Que bom, você respondeu! — Minha colega de quarto e melhor amiga


disse. Eu podia ouvir uma multidão ao fundo e esperava que ela não
estivesse bêbada ligando para mim. Ela não costumava beber durante o dia,
mas de vez em quando ficava um pouco maluca. Eu a amava, mas algumas
das coisas que ela fez me fizeram estremecer.
—Eu sempre respondo você, — eu disse. —Lembre-me de mudar o
toque que você baixou no meu telefone. É embaraçoso o suficiente quando
me esqueço de deixar meu telefone no modo silencioso, mas ouvi-lo
tocando aquela música...

—Não há nada de errado com uma Madonna clássica, — disse Mai.

—Há quando Like a Virgin começa no refrão, — eu rebati.

—Concordo em discordar, — ela disse levemente. —Ei, você pode pegar


um turno? Minha pessoa favorita em todo o mundo...

Ugh, trabalhar em uma sexta-feira... já era ruim o suficiente que eu


tivesse que trabalhar amanhã, mas pelo menos eu estaria fazendo trabalho
administrativo em vez de massagem terapêutica. Eu era grata pelo meu
trabalho e sabia que havia muitos lugares piores onde eu poderia estar
trabalhando, mas estava ansiosa para reduzir minhas horas.

—Eu estava planejando me preparar para o meu novo emprego, — eu


disse, mas já sabia que ia desistir. Foi difícil dizer “não” para Mai. Foi assim
que terminei com este trabalho em primeiro lugar.

—Eu sei que ontem deveria ser seu último turno de MT6, — Mai
continuou, —mas eu agendei duas vezes. Eu e o Hob estamos no cinema,
tipo, estamos no teatro, e a mamãe precisa de alguém para cuidar dos
visitantes. Eu teria perguntado a Ru, mas mamãe disse que ele não tem
permissão para fazer nenhum turno sozinho desde o incidente com a Sra.
Mah.

Fiz uma nota mental para bater em Ru na próxima vez que o visse. O
mais próximo dos irmãos de Mai em idade, ele se comportava mais como se
fosse o bebê da família.

6 Massoterapeuta.
—Você sabe que não vi o Hob a semana toda. — Mai estava implorando
agora. —Eu não perguntaria se não precisasse absolutamente de um tempo
com ele.

—Não se preocupe, Mai, — eu disse, fingindo entusiasmo. —Eu sou sua


salva-vidas.

Por mais chato que fosse trabalhar em uma sexta-feira à noite, não era
como se eu tivesse um encontro quente ou um clube para ir.

—Você é a melhor! — Mai aplaudiu. —O turno começou há dez


minutos. Obrigado, Lulu!

Ela fez um barulho de beijo e desligou antes que eu pudesse mudar de


ideia. Suspirei e mudei mentalmente meus planos para a noite. Cuidar uns
dos outros era o que uma família fazia, e os Jins eram a coisa mais próxima
que eu tive de uma família em muito tempo. Eu nunca faria nada para
arriscar em perdê-los.
TRÊS
ALEC

SE HAVIA uma coisa positiva sobre esta noite, era que ela estava
linda. Uma noite surpreendentemente seca em meados de agosto, com quase
nenhuma cobertura de nuvens. Sempre gostei de caminhar pela área de
Fremont, particularmente Canal Park, então, após minha fuga dramática
do restaurante, fiz sinal para um táxi para cobrir os seis quilômetros e meio
mais rápido do que poderia com meus pés, dei uma gorjeta generosa e parti
para aproveitar o resto da minha noite.

Seattle era diferente da Escócia, onde nasci, embora o clima fosse mais
parecido do que no norte da Califórnia, onde passei minha adolescência. A
chuva frequente me lembrava Edimburgo, embora fosse muito mais estável
aqui. As nuvens deixavam o local menos quente do que a Califórnia, o que
eu apreciei, principalmente quando estava de terno completo.

Respirei lenta e profundamente e fechei os olhos por um momento,


sentindo o cheiro do sal do mar. Senti falta do mar na Califórnia. Não havia
nada como o cheiro que tinha depois da chuva. Eu abri meus olhos e tive a
rara visão de estrelas em um céu claro. Como eu poderia me estressar em
uma época e um lugar tão bonitos?

Facilmente, parecia.

Entre o trabalho e aquele encontro horrível, me senti como uma


chaleira prestes a ferver. Embora eu nunca tivesse certeza de quão bom pai
eu realmente era, eu queria ser o melhor que pudesse para Evanne. Parte
disso significava sustentar financeiramente minha ex-namorada, que tinha
a custódia primária de nossa filha. Eu não tinha nada contra isso, exceto
que não queria ser o tipo de pai que assinava cheques e não tinha nada a
ver com o filho. Eu amei Evanne e amei cada minuto que passei com ela,
mesmo que desejasse que pudesse ter mais tempo com ela.

Suspirei e verifiquei meu telefone. Ainda sem mensagens de


emergência e nada de Evanne. Eu não esperava nada. Ela tinha oito anos, e
uma festa do pijama aos oito era muito mais importante do que uma festa
do pijama quando era “bebê”. Ela me informou sobre isso em sua voz mais
séria de oito anos de idade, e eu fiquei pensando quando ela teria crescido.

Quando virei a esquina de uma rua, um letreiro em neon brilhante me


fez ficar em alerta. Eu apertei os olhos para ler o nome dele. — Real Life
Bodies. — Por que isso soou familiar?

—Você tem que experimentar este lugar, irmão mais velho. Foi um
alívio. Melhor massagem que já tive. Ela se concentrou em cada nó e me
alisou. Melhor parte? Há um menu de “serviços extras” se você for homem o
suficiente para pedir. Deixei um cliente feliz, com certeza.

Eu ainda podia imaginar a expressão presunçosa do meu irmão mais


novo enquanto ele contava a história. Brody sabia que eu não era de ir para
locais assim, mas ele sempre estava atrás de mim para fazer-me soltar, para
tornar-me mais como ele. Pela primeira vez na minha vida, eu considerei
isso.

Enquanto eu caminhava ao lado da sala de massagem, olhei para


dentro, curioso. Tudo parecia quente e macio, desde os ladrilhos vermelhos
do piso, aos móveis de madeira envernizada, as persianas de madeira e os
vasos de plantas. Muito mais elegante do que eu pensava. Brody disse que
era bastante exclusivo, embora a placa sugerisse que não era. Talvez não
fosse um lugar desprezível que eu havia assumido, afinal.

Algumas gotas foram meu único aviso antes que o céu antes aberto a
chuva cairia em um lençol sólido. Sem pensar, entrei na sala de massagens
para escapar da chuva. Amaldiçoei-me por não trazer um guarda-chuva,
mas assim que olhei em volta, não tive pressa de sair.

O lugar era melhor iluminado do que eu imaginava, e o cheiro de


lavanda encheu minhas narinas, imediatamente tirando um pouco da
tensão que sempre carreguei. Mas não foi essa a razão pela qual de repente
eu quis ficar.

—Boa noite. — Uma jovem loira esguia falou por trás de um balcão
simples, mas elegante. Ela devia ter vinte e poucos anos, com ondas loiras
mel que caíam sobre seus ombros e olhos de um azul vibrante que quase não
parecia real.

Ela me perguntou se poderia pegar meu casaco e eu assenti em


silêncio. Ela sorriu com seus suaves lábios rosados e saiu de trás de sua
mesa. Registrei agora como ela estava vestida: uma túnica preta de mangas
curtas sobre leggings pretas. Ela não parecia pertencer a um lugar como
este, não importa o quanto a bela decoração mascarasse a verdade do que
esse lugar realmente era. Talvez fosse tudo uma atuação, mas ela parecia
quase... inocente. Uma espécie de encanto de garota ao lado.

O desejo torceu minhas entranhas dolorosamente.

Quando ela se aproximou para pegar meu casaco, um cheiro agradável


de baunilha soprou em minha direção. Suas mãos permaneceram em meus
ombros enquanto deslizavam para ajudar a tirar o casaco. Foi pouco mais
que um segundo de contato, mas foi o suficiente para eu saber que ficaria
por um tempo e sem importar-me para as malditas consequências.
QUATRO

QUANDO OUVI o toque dos sininhos na porta, suspirei. Eu tinha menos


de uma hora para fechar. Por que as pessoas sempre insistem em entrar logo
no final? Nunca falhou.

Eu estava me ocupando examinando as transações do dia em


preparação para o fechamento, mas ainda coloquei meu melhor sorriso de
atendimento ao cliente antes de me virar para cumprimentar o idiota que
decidiu aparecer para um encontro de última hora, tarde da noite
massagem.

No momento em que o vi, cada palavra que eu pretendia dizer voou


para fora da minha cabeça.

Ele era alto. Muito alto. Bem mais de um metro e oitenta e


lindo. Provavelmente em seus trinta e poucos anos, ele tinha cabelos loiros
dourados e uma mandíbula esculpida que estava surpreendentemente
barbeada a esta hora da noite. Ele era magro e bronzeado, com uma cicatriz
na sobrancelha direita que só aumentava seu apelo masculino. Sem
mencionar que o terno que ele usava parecia incrivelmente
caro. Muito, muito longe dos homens de negócios corpulentos e peludos com
quem costumo lidar. Eles podem ter sido homens o suficiente, mas
esse... droga.

Ficar aberto um pouco mais pode não ser uma coisa ruim, supondo que
ele estivesse aqui para uma massagem e não uma fuga da chuva que eu
acabei de notar que caia. Considerando que se tratava de Seattle, os Jins
criaram um método para lidar com pessoas assim. Primeiro, eu deveria
perguntar se poderia pegar o casaco deles. Se concordassem com um
pequeno aceno, ficavam mais propensos a concordar em gastar seu dinheiro
em uma massagem. Além disso, por algum motivo, tirar o casaco fazia as
pessoas sentirem que já estavam se acomodando.
—Boa noite, — eu disse brilhantemente quando encontrei minha língua
novamente. —Posso ajudar a tirar seu casaco?

Seus olhos se arregalaram, dando-me a oportunidade de ver o quão


brilhantes eram aquelas íris azuis. Talvez fosse confusão, como se ele não
tivesse percebido onde estava, ou eu o peguei de surpresa. Seja qual for o
caso, mantive meu melhor sorriso e me aproximei dele com minha mão
ligeiramente estendida.

Quando cheguei perto o suficiente para andar ao lado dele e estender a


mão, ele disse: —Sim, obrigado.

Isso era um sotaque? Inglês? Irlandês? Não era muito pesado, mas era
perceptível. Sim, não era inglês, pensei. Escocês, talvez? Parecia algo que
eu poderia ter ouvido em um filme ou algo assim.

Já que ele me deu consentimento, me movi atrás dele para ajudar. Ele
conseguiu entrar antes que o material fino estivesse ensopado, mas minha
palma ainda estava úmida quando deslizei minhas mãos ao longo de seus
ombros antes de enganchar meus dedos sob o tecido macio.

Embora sempre tenha sido amigável durante minhas sessões, não era
como Mai, que gostava de flertes inocentes, quer estivesse trabalhando no
balcão ou fazendo massagens. Ela nunca os deixava se aventurar em nada
impróprio, mas gostava de patinar na linha.

Eu não era assim. Sempre fui profissional. Educada, gentil, atenciosa,


mas nunca sedutora. Nunca tocar mais do que uma sessão exigida. Nem
antes nem depois.

Eu nunca quis tocar... até agora.

Minhas bochechas queimaram com o pensamento, e quando tirei seu


casaco, me virei para esconder meu rosto corado. Levei alguns segundos a
mais pendurando seu casaco e, depois de respirar fundo para me recompor,
voltei a sorrir e o encarei novamente, mais bem preparada.

—É bom escapar da chuva de vez em quando, não é? — Eu perguntei,


me odiando por voltar a falar sobre o tempo.
—Certamente, — disse o homem, sorrindo gentilmente. —Embora só
tenha começado a chover agora.

Sim, definitivamente um sotaque. Eu tinha quase certeza de que não


era inglês. Mais profundo e gutural do que o irlandês, com Rs totalmente
abaixados e muitas paradas glóticas no lugar de Es. Escocês. Era bobo
sentir-se tão fortemente atraída por um sotaque, e ainda...

—Bem, você está livre para ficar aqui até que pare, — eu disse, talvez
rápido demais. Merda. —Hum, isto é, até fecharmos.

—E quando é isso?

De repente, desejei ficar aberto até mais tarde. Eu não poderia


mentir. Mesmo que eu não fosse uma mentirosa horrível, ele poderia
facilmente ver os horários de fechamento na porta, e eu seria pego.

—Até dez às sextas-feiras. — Exceto... que diabos. —Mas oferecemos


massagens suecas de meia hora.

—Você não parece sueca, — disse ele.

Eu congelei, sem saber o que eu deveria dizer. E então percebi que ele
estava brincando. Ele estava sorrindo o tempo todo, mas levei alguns
segundos para enxergar isto. Então nossos olhos se encontraram e um
arrepio percorreu minha espinha. Eu nunca tinha me perdido nos olhos de
alguém antes, mas os dele eram tão profundos e claros, como um lago na
montanha.

O calor inundou meu rosto quando percebi que estava olhando. —Hum,
não, apesar do cabelo loiro e olhos azuis, eu não sou nem remotamente
sueca. Bem, pelo que eu sei.

Ele sorriu. —Eu sou Alec, a propósito.

—Lumen, — eu disse. —Lumen Browne.

—Prazer em conhecê-la, Lumen. — Ele estendeu a mão e eu apertei


com alegria. Ele tinha mãos bonitas, não muito ásperas, mas
fortes. Droga. Quase desejei que nossas posições fossem invertidas e
pudesse pedir-lhe uma massagem.

Merda. Eu precisava parar de pensar dessa forma. O que deu em


mim? Eu não era uma pessoa extrovertida e barulhenta, mas ninguém
nunca me tirou do sistema. Nenhum homem, especialmente.

—Agora, moça, finja que não sei o que uma massagem sueca, — disse
ele.

Bom, eu poderia mudar para um roteiro ensaiado agora. —Na verdade,


é um dos tipos de massagem ocidentais mais comuns, com base na anatomia
e fisiologia do que no trabalho energético ou nas linhas zen nas massagens
asiáticas. Se você não faz uma massagem há algum tempo, é um ótimo lugar
para começar.

Quando ele sorriu desta vez, foi uma curva mais lenta de seus lábios,
chamando minha atenção para eles de uma forma que fez meu estômago
apertar. —Sabe, isso parece perfeito. Foi uma noite um pouco tensa.

—Claro, — eu disse, ainda no modo de atendimento ao cliente. Eu


coloquei a placa apropriada na mesa para que ninguém soubesse que o lugar
não estava vazio, então fiz um gesto para Alec. —Por favor siga-me.

Enquanto o levava para uma das salas de terapia, tentei recuperar o


fôlego. Minha chefe, Lihua, tinha saído às nove, deixando-me sozinha, já que
raramente recebíamos visitas tão tarde. Isso significava que eu era a única
pessoa aqui a realmente fazer a massagem. Eu estava nervosa o suficiente
só de falar com ele.

Como eu aguentaria tocar a pele nua, sabendo que a única coisa entre
minhas mãos e seu corpo inteiramente nu era uma toalha? Apenas o
pensamento fez minhas pernas vacilarem. Pelo menos ele estaria voltado
para baixo e não veria o quão vermelho meu rosto certamente ficaria.

Chegamos à sala de terapia, que Lihua havia preparado antes de


partir. Uma cama spa, vários rolos de toalhas, lâmpadas e velas brilhantes
e uma bancada com uma pia e todos os óleos necessários. Era muito lindo,
mas eu mal notei o ambiente sereno.

—Antes de começarmos, preciso que você preencha um pouco de


papelada. — Entreguei a ele uma prancheta contendo o questionário e os
formulários de consentimento que cada cliente deveria preencher e
assinar. —Quando terminar, por favor, tire a roupa e deite-se de bruços na
mesa. Você pode colocar uma toalha com vapor sobre qualquer área que
deseje ser coberta. Eu estarei de volta em um momento. E não se preocupe,
vou bater primeiro.

Todas as falas ensaiadas. Tentei não pensar no que faria se ele


esquecesse a toalha ou se chegasse cedo demais. Ou se ele simplesmente
decidir que não era grande coisa dar-me um vislumbre de sua bunda.

Merda.

Fechei os olhos por um momento enquanto ajustava uma toalha que


não precisava de ajuste. Seria demais esperar que algo sob aquele terno
pudesse ser tão pouco atraente que tornasse todo o processo mais fácil? Eu
não era superficial o suficiente para muitas coisas, mas talvez ele fosse um
nazista secreto. Sim, uma suástica7 gigante em sua bunda poderia manter
meus hormônios sob controle.

Eu caminhei em direção à porta.

—Isso significa que você é a massagista?

Parei na porta e olhei para ele por cima do ombro. Ele não tinha um
sorriso assustador ou algo assim. Ele estava genuinamente curioso.

—Eu sou uma massagista totalmente licenciada, — eu disse


suavemente, dando a ele o título apropriado.

7 A suástica, cruz suástica ou cruz gamada (ascii: 卐 ou 卍) é um símbolo místico encontrado em muitas
culturas e religiões em tempos diferentes. Na Alemanha ela foi utilizada pelos nazistas.
—Desculpe, moça. Massoterapeuta, —ele se corrigiu. Não que eu
tivesse ficado ofendida com o termo massagista.

—Tudo bem com isso? — Eu perguntei.

—Oh, sim. Sim, claro. Eu só estava pensando. — Ele franziu a testa,


mas tive a sensação de que era mais dirigido a ele do que a mim. Ele deixou
escapar uma resposta que provavelmente queria soar muito mais suave.

Antes que meu rosto em chamas pudesse me trair, eu lancei a ele um


sorriso final que provavelmente mais parecia uma careta e fui embora. Uma
vez segura, eu fecho a porta atrás de mim e solto um suspiro. Era apenas
uma massagem de meia hora, disse a mim mesma. Não diferente de
qualquer outro que eu fiz uma centena de vezes antes. E seria o meu último
também. Era nisso que eu precisava me concentrar.

Meia hora. Então eu poderia ir para casa.

Voltei para a área da recepção e tranquei a porta da frente para evitar


que outros clientes entrassem. Mudei o sinal de aberto para fechado,
satisfeito por ter seguido toda a lista de verificação de Lihua, depois voltei
para a área do terapeuta para lavar minhas mãos e prender meu cabelo.

Eu poderia fazer isso. Era meu trabalho. Eu batia na porta, entrava e


via apenas outro cliente deitado na mesa. Eu já tinha visto músculos antes,
e um rosto bonito não significava nada.

Certo.

É hora de começar.

Respirei fundo e bati na porta.

—Entre.

Droga. Apenas sua voz foi o suficiente para fazer meu estômago
embrulhar. Felizmente, ele era o tipo de cliente que gostava do silêncio.

Abri a porta e entrei na sala, aliviada por encontrar Alec deitado


conforme as instruções, de bruços em um berço facial em forma de U e com
uma toalha sobre a bunda. Ombros largos, pele bonita. Ok, eu poderia lidar
com isso.

Foram os pequenos pontos na parte inferior das costas que chamaram


minha atenção. Eu não sei porque. Muitas pessoas os tinham. Eles eram
informalmente chamados de – covinhas de Vênus – na comunidade
médica. Mai tinha me falado isso, rindo o tempo todo. Revirei meus olhos
porque eles eram tão impessoais quanto os joelhos de alguém. Exceto que
havia algo atraente nas covinhas de Alec. Tive o desejo mais estranho de
mergulhar meus polegares neles.

Droga.

Agora que comecei a pensar assim, era impossível parar.

Sua parte superior das costas era tonificada, enquanto sua cintura era
aparada. Seus braços e pernas eram perfeitos, com a quantidade certa de
definição muscular. Ele ficava lindo em seu terno, mas as roupas escondiam
toda aquela musculatura bonita e esculpida. Mesmo seus glúteos pareciam
atraentes, apesar da toalha que os cobria.

Maldição dupla.

Em seguida, havia a tatuagem na parte superior das costas. Uma cruz


grande e elaboradamente desenhada que se estende até cada uma das
omoplatas e desce pela coluna. Dentro da cruz estavam as letras SAM em
escrita gótica. Eu me perguntei quem era Sam, mas eu sabia que era melhor
não perguntar. A cruz sugeria que não era um assunto para ser abordado
levianamente, e se alguém sabia que não queria falar sobre o passado, era
eu.

Eu precisava começar a trabalhar.

Liguei o sistema de som, deixando os sons agradáveis da natureza me


acalmarem. Bem, tão calmo quanto eu conseguiria. Em seguida, acendi
algumas velas e lavei as mãos novamente antes de trazer uma bandeja com
óleo de massagem para a mesa.
—Confortável? — Eu perguntei e verifiquei sua papelada, certificando-
me de que tudo estava em ordem. Até mesmo sua maldita assinatura era
sexy.

—Sim, — ele murmurou, já parecendo mais relaxado do que antes.

—Maravilhoso. — Mesmo que ele tenha respondido “não” no


questionário, eu verifiquei duas vezes e perguntei se ele tinha alguma lesão
ou outra condição que eu devesse saber, e ele disse que não. Excelente. Eu
poderia fazer isso. —Vou começar lubrificando sua pele com um pouco de
óleo de massagem quente, depois vou fazer algumas massagens padrão para
aquecer o tecido muscular e aliviar alguns nós e tensão.

—Tudo bem, moça.

Com isso, comecei a trabalhar, deslizando meus polegares sobre suas


covinhas de Vênus. Eu poderia ter girado meus polegares sobre eles por
horas, mas resisti e continuei, movendo-me através dos músculos que
pareciam ter sido esculpidos em pedra. Parte disso era tensão, mas outra
parte era simplesmente o quão bem ele cuidava de seu corpo. Ele era
realmente um exemplo magnífico da forma masculina.

Droga. Eu parecia uma daquelas mulheres cabeça-oca que frequentava


bares e piscava para cada cara gostoso que aparecia.

Ele deixou escapar um longo gemido quando apliquei pressão em suas


costas. Tive o pensamento irracional de que até mesmo seu gemido tinha
sotaque. Quase me fez rir, exceto que rir não parecia a reação certa a esse
lindo barulho. Outras partes de mim se contraíram.

—Você tem uma tensão séria nos ombros, — eu disse para preencher o
silêncio.

Era um tipo de comentário padrão entre massoterapeutas, algo para


fazer nossos clientes falarem se eles não fossem muito abertos sobre quais
eram seus problemas específicos. Alguns deles trabalharam em empregos
altamente estressantes, nos quais voltariam à mesma situação
repetidamente. Às vezes, eles tinham um incidente específico que os
estressou. Muitos deles tinham coisas em seus relacionamentos que os
causavam tensão. Saber disso me ajudou a saber a melhor forma de ajudá-
los.

—Tem sido uma noite tensa. — Alec suspirou.

—Sinto muito por ouvir isso. — Fiquei surpresa com o quão sincera
essas palavras foram.

Ele disse algo que foi abafado o suficiente para que eu não entendesse
nada mais do que ele teve um encontro ruim. Seu sotaque havia engrossado
e eu me vi inclinado, precisando me concentrar mais para entendê-
lo. Querendo entendê-lo.

—Há quanto tempo você está em Seattle? — Eu perguntei,


massageando suas costas enquanto falava.

—Quase dez anos agora. — Disse ele. —Foi o sotaque que me delatou?

—Só um pouco. — Eu disse, sorrindo.

Ele deu uma risadinha. —Eu nasci em Edimburgo. Mas me mudei para
o norte da Califórnia quando tinha quase dez anos. San Jose por alguns
meses e depois para San Ramon.

—Isso deve ter sido uma grande mudança.

Ele não disse nada por um momento, e eu me perguntei se eu tinha


ultrapassado. Antes que eu pudesse me desculpar por ter sido muito
atrevido, ele suspirou novamente. —Sim, foi.

Merda. Eu esperava não ter tocado em um ponto dolorido. Quase como


um pedido de desculpas, dei-lhe um rolo longo e profundo com as solas das
minhas mãos em todas as suas costas - uma técnica de massagem sueca
conhecida como effleurage.

— Droga, isso é bom, moça. — Ele gemeu. —Você é muito boa com as
mãos.
Os clientes me diziam isso o tempo todo, mas dessa vez me fez corar. —
É para isso que vocês me pagam.

Eu parecia uma idiota.

—Há anos que não faço massagem. Nunca sinto que tenho
tempo. Talvez eu deva colocá-las em minha agenda com mais frequência.

—Como sua massagista esta noite, eu concordo. — Eu brinquei,


gostando de como era fácil falar com ele.

Ele soltou outra risada, está quase deixando meus joelhos fracos. —
Sim, certo! É bom ouvir uma opinião profissional imparcial.

—Você está brincando, — eu rebati, —mas é menos tendencioso do que


você pensa, já que este é meu último turno como MT. Nenhuma iniciativa
de interesse próprio para vê-lo voltando.

Desci para suas pernas poderosas e comecei a trabalhar em sua


panturrilha direita. O cabelo lá era áspero contra minhas palmas, mas não
de forma desagradável. Na verdade, cada passagem feriu minhas entranhas
com mais força.

—Eu sou seu cliente final?

—Sim.

—Bem, não sou o sortudo?

Ele não era nada como eu esperava. Normalmente, os clientes queriam


silêncio completo ou descarregavam todo o seu drama pessoal em mim
depois que eu preparava a bomba. Ambos estavam inteiramente à altura do
que o cliente precisava, mas eu não podia negar o quão bom era manter uma
conversa simples pela primeira vez.

—Você vai mudar para um estabelecimento diferente? Em caso


afirmativo, você terá que me dizer o nome dele.

Ele estava flertando comigo? Mais do que de forma amigável? Isso era
possível?
Ele não seria o primeiro cliente a fazer isso, mas ele não parecia ser o
tipo de homem que precisaria recorrer ao flerte com alguém como eu quando
poderia entrar em qualquer lugar e conseguir uma mulher em um piscar de
olhos e um estalar de dedos. Eu me peguei me perguntando o que mais um
estalar de dedos poderia fazer. Eu tinha certeza de que a resposta era o que
ele queria, e a menos que eu estivesse preparada para mentir para mim
mesma, eu era uma daquelas pessoas que daria qualquer coisa a ele.

Droga.

—Hum, se você pudesse apenas se virar, vou começar na frente de suas


pernas. — Minha voz soou estranhamente aguda e tensa. Nem um pouco
como meu tom educado e profissional de sempre. Lutei para fazer as coisas
voltarem ao normal. —Vou segurar a toalha e virar a cabeça enquanto você
rola.

—Oh, sim. Ok, — Alec respondeu. —Pronto quando estiveres.

Fiz o que disse, fechando os olhos para uma medida extra de decoro. Eu
nunca quis tão desesperadamente dar uma espiada antes. Então,
novamente, eu nunca tive um cliente que parecia um deus grego também.

Eu ouvi Alec se movendo e me concentrei em respirar lenta e


uniformemente.

—Tudo bem, moça.

Eu coloquei a toalha de volta no lugar e me preparei mentalmente para


lidar com quaisquer ajustes necessários. Uma olhada em um quadril. Um
pouco demais daqueles sulcos v profundos que eu sabia que ele escondia...

Foda-me.

O calor inundou meu rosto... e outros lugares. Não era como se as


ereções fossem incomuns para os homens quando recebiam massagens, mas
novamente, eu geralmente era muito melhor em ignorar tal coisa. Exceto
que a tenda que sua toalha fez era impossível de ignorar. Não porque eu
estivesse desconfortável com isso - claro que não, era uma reação biológica
natural - mas sim porque meu próprio corpo estava reagindo de uma
maneira que não era nada comum.

Forcei um sorriso profissional e evitei olhar em seus olhos ou em sua...


toalha. Era menos estranho olhar para suas pernas musculosas, mas isso
não fez nada para esfriar minha libido.

O que diabos havia de errado comigo hoje?

—Vou massagear a parte frontal das suas pernas e depois passar para
os braços, pescoço e ombros, — eu disse, de alguma forma mantendo meu
tom leve e uniforme.

—Claro, — Alec disse, sua voz não revelando o que ele estava pensando.

Continuei com a massagem, concentrando-me em suas coxas e tentando


não pensar no que havia sob a toalha ao meu lado. A súbita calmaria em
nossa conversa, no entanto, tornou muito mais perceptível que algo havia
mudado entre nós e era meu trabalho colocar as coisas de volta nos trilhos.

Eu peguei o primeiro tópico não sexual que veio à mente. —Em


resposta à sua pergunta, não, eu não irei a nenhum outro lugar. A
massagem terapêutica era uma espécie de “me ajudar na faculdade”. Os pais
da minha colega de quarto são os donos do lugar e me deram um emprego
de limpeza e cumprimentando clientes logo depois que comecei a
estudar. Como não dava para cobrir minhas despesas, mesmo com ajuda
financeira, me formei para ser, massoterapeuta, e comecei a fazer esses
turnos aqui e ali assim que terminei o treinamento.

Senti seus olhos em mim, mas não arrisquei olhar. Ele era perigoso
demais para seu próprio bem. Ou meu.

—Você gostou de ser uma MT? — ele perguntou. —Os empregos


durante a universidade geralmente são um incentivo para concluir a escola
mais rapidamente.

Mudei para sua outra perna.


—Isso é verdade. Eu provavelmente teria acabado virando
hambúrgueres se não fosse por isso. Mas não, eu realmente gostei do meu
trabalho. É um treino surpreendentemente bom, e a música, as velas e os
óleos me deixam quase tão relaxado quanto meus clientes.

—Então não vou me sentir mal por fazer você trabalhar todo o caminho
para fechar em seu último dia.

—Você não deveria. — Eu consegui sorrir quando comecei a trabalhar


em seus braços. Droga, seus bíceps eram firmes. Seus antebraços
também. Ele nem estava flexionando...

—Tecnicamente, — eu me forcei a continuar, —é meu último dia


amanhã, mas eu não vou fazer nenhuma massagem. Apenas saudações e
coisas administrativas. Ontem deveria ser meu último turno de MT, mas
minha colega de quarto me ligou esta noite como um favor de
emergência. Ela se esqueceu completamente do turno e foi ao cinema com o
namorado.

—Você é uma santa, não é?

Eu encolhi os ombros enquanto trabalhava meu caminho para seus


ombros. —Eu penso nisso mais como uma missão de misericórdia, já que sua
mãe provavelmente a teria matado se ela não tivesse me chamado para fazer
a cobertura.

Ele riu, mas de repente o som ficou muito mais sério do que antes. —
Você é uma boa amiga, moça. Você não pode nem dizer que está apenas
fazendo seu trabalho, porque isso tecnicamente não deveria ser mais seu
trabalho.

Ser chamada de “moça” não deveria ter me dado arrepios, mas era isso.

—Você é um doce, — eu disse, sabendo muito bem que minhas


bochechas ainda estavam vermelhas. —Mas como eu disse, eu gosto de ser
uma MT. Estou mais do que feliz em trabalhar até o final do meu turno, em
vez de ficar sentada assistindo o tempo passar. Gosto de saber que estou
dando alívio às pessoas.
Um movimento à minha esquerda chamou minha atenção, e eu olhei
antes que pudesse me conter. Eu respirei fundo quando percebi que tinha
visto a toalha se mover, a protuberância sob ela crescendo enquanto sua
ereção aumentava.

Voltei meu olhar para minhas mãos e foquei em seus ombros. Exceto
que seus ombros eram largos e fortes como o resto dele. Não muito grosso,
mas com lindas proporções...

Droga.

—Hum, me sinto ridículo perguntando, mas meu encontro foi


realmente muito ruim, e eu poderia me animar.

Continuei trabalhando em seus ombros enquanto tentava descobrir o


que ele queria dizer. Ele queria um café tão tarde da noite?

—Um estimulante? — Eu perguntei, arriscando uma olhada rápida em


seu rosto.

Ele sorriu timidamente. —Talvez algo do... menu secreto.

Eu não tinha ideia do que ele estava falando e tentei pensar na melhor
maneira de explicar isso educadamente, sem fazê-lo se sentir uma tola. —
Tudo o que temos está em um de nossos guias de serviço. — Apontei para o
folheto de três dobras no balcão do outro lado da sala. —Você quer ver?

Ele mudou um pouco, e eu não tive que ver seu rosto para saber que
seu sorriso estava sumindo. —Acho que estou sendo muito sutil. Disseram-
me que seu estabelecimento oferece... finais felizes.

Eu congelei, essas duas palavras soando repetidamente na minha


cabeça. Todo lugar que oferecia massagens sabia o que era um final feliz,
seja porque o oferecia ou porque queria que os clientes soubessem em termos
inequívocos que não dirigiam esse tipo de estabelecimento.

Nós éramos os últimos.

—Você tem que ir.


—Eu o quê? — ele perguntou, assustado.

—Esta sessão acabou. — Eu fiz minha voz o mais dura possível. —


Saia. Agora!

Ele se levantou da mesa, segurando a toalha na frente dele. Sua


expressão estava confusa. —Está tudo bem, moça. Se você não quiser...

Peguei suas calças e joguei para ele. —Vista-se.

Ele rosnou, mas fez o que pedi enquanto me virei para dar-lhe
privacidade. Eu não iria deixá-lo sozinho em nenhum de nossos
quartos. Não queria nem pensar no que ele poderia fazer agora que rejeitei
sua proposta.

—Se você apenas me deixar...

—Estamos fechando agora. — Eu me virei e tentei ignorar o fato de que


sua camisa ainda estava desabotoada. Apontei para a porta, recusando-me
a me mover até que ele começou a voltar para a saída.

—Lumen…

Eu destranquei a porta da frente e abri. —Saia. — Depois de um tempo,


acrescentei —Por favor.

Ele me deu um olhar longo e duro, como se estivesse tentando descobrir


o que deu errado, e isso só me irritou. Posso não ter o dinheiro que ele
claramente tinha, mas isso não lhe dava o direito de entrar aqui e me pedir
para masturbá-lo como se eu fosse uma espécie de prostituta.

—Fora. — Pisquei para conter as lágrimas quentes. —Ou eu chamarei


a polícia.

Ele saiu, e eu não me preocupei em verificar se ainda estava chovendo


antes de fechar a porta. Eu abaixei as persianas e girei a fechadura, me
fechando para sempre.

Não foi até que terminei de fazer os livros da noite que percebi que
tinha esquecido de fazê-lo pagar a conta.
CINCO

—POR FAVOR, ME EXPLIQUE como você, um graduado universitário


inteligente, se esqueceu de pedir a um cliente para pagar sua conta antes de
sair?

Lihua não tinha mais que um metro e meio de altura, mas quando
plantou as mãos nos quadris esguios e me lançou aquele olhar de
desapontamento e desaprovação completa, ela bem poderia ser um gigante.

Estávamos ambos no balcão da frente, esperando o próximo cliente


agendado. Os sábados podem ficar agitados, então dois outros MTs já
estavam na sala dos fundos, vestindo seus uniformes. Lihua havia mudado
alguns minutos atrás, querendo a chance de olhar os livros da noite anterior
antes de abrirmos.

—Meu último cliente ontem à noite pediu um... final, — eu disse. Ela
sabia o que isso significava, é claro, mas sua expressão não continha
simpatia.

—Você conhece o procedimento, — disse Lihua. —Diga a ele que não


somos esse tipo de estabelecimento. Então você encerra a sessão e aceita o
pagamento normalmente.

—Eu sei, Lihua, eu só... foi diferente desta vez. Eu me senti... realmente
desconfortável.

Desconfortável não era a melhor palavra para descrever por que eu


precisava que ele fosse embora, mas eu esperava que isso passasse o
ponto. Meu rosto queimou com o constrangimento conjunto de tropeçar em
minhas palavras e esperar desesperadamente que Lihua não
pressionasse. Eu odiava mentir para ela, mas contar a ela sobre minha
reação a um cliente me diminuiria aos olhos dela, e isso me mataria. Eu amo
Mai e toda a família Jin demais para deixar isso acontecer.
Lihua apertou os lábios. Ela não parecia velha o suficiente para ter seis
filhos, sendo Mai a mais nova, mas eu sabia que ela tinha idade o suficiente
para que não fosse educado perguntar sua idade. Independentemente disso,
ela poderia colocar qualquer um de nós no chão e ainda ter energia para nos
perguntar por que estávamos relaxando.

—Bem, — disse ela, —se não fosse por Mai, você não estaria
trabalhando ontem. E hoje é o seu último turno. — Ela deu um tapinha no
meu braço. —Não se incomode, querida.

—Você pode tirar o custo da massagem do meu cheque final...

Lihua me dispensou. —Absurdo. Uma massagem de meia hora não era


uma perda tão grande. Além disso, você perdeu sua gorjeta. É suficiente.

Ela deu um tapinha no meu braço novamente antes de se afastar como


se o assunto estivesse resolvido. Eu ainda me sentia culpada. Não fui
apenas eu quem foi afetado pelo meu erro. Os Jins se saíram bem o
suficiente, mas não estavam vermelhos o suficiente para interromper uma
massagem inteira. Então, sempre havia a possibilidade de Alec deixar uma
crítica negativa online apenas para ser mesquinho. Eu esperava que ele não
fosse assim, mas também não teria pensado que ele era o tipo de cara que
pedia favores sexuais, então talvez eu não fosse a melhor juiza.

Não era assim que eu queria deixar um emprego que tinha sido tão bom
para mim, e tentei compensar isso sendo profissional e amigável com todos
com quem falei. Fiz questão de me exibir também, contando aos clientes
sobre as promoções e garantindo que os MTs soubessem quais clientes eles
tinham agendado e quando. Até comprei para todo mundo seu café favorito
durante meu intervalo.

E o tempo todo, não conseguia parar de pensar em Alec.

Seus olhos, seu sorriso, seu sotaque, seu corpo... Eu pensei que havia
algo único sobre a maneira como interagíamos, sobre a conexão que
tínhamos. Achei que ele fosse um cavalheiro, mas suponho que meu erro foi
presumir que alguém tão bem vestido tinha que ser um cavalheiro. Eu
normalmente não me considerava uma pessoa ingênua, mas
definitivamente deixei meus próprios preconceitos afetarem como eu o via.

Em qualquer caso, eu nunca o veria novamente. Não fazia sentido me


preocupar. Eu tinha apenas um curto tempo restante do meu último turno
e então era tudo sobre me preparar para o trabalho para o qual eu tinha ido
para a escola. A carreira que foi o motivo de eu trabalhar aqui em primeiro
lugar.

Apenas alguns segundos depois de me convencer de que não pensaria


em Alec nunca mais, a campainha acima da porta soou e ele entrou.

Minhas mãos se fecharam em punhos, mas eu não sabia se era para


evitar que meus dedos tremessem ou porque eu queria dar um soco
nele. Talvez um pouco de ambos.

Assim que me viu, ele me mostrou as palmas das mãos. —Devo-lhe


algum dinheiro, — disse ele, —e um pedido de desculpas.

Quando eu não ameacei chamar a polícia ou gritar para um dos outros


vir na frente, Alec cuidadosamente caminhou em minha direção, com um
sorriso desarmante no rosto.

—Eu estava errado com o nome deste lugar, — disse ele. —O lugar que
me falaram chamava-se Relief Bodywork. Eu não percebi que vocês
eram Real Life Bodies até depois que vocês, por direito, me expulsaram.

Esse não era o pedido de desculpas que eu havia prometido, mas


também não era nada. Ainda…

— Essa é a sua desculpa? — Eu perguntei, cruzando os braços e dando


a ele a minha melhor expressão de não mais merda-de-você

—É um motivo, não uma desculpa, — disse ele. Ele enfiou a mão no


bolso de trás e tirou uma carteira. —Eu não queria te deixar desconfortável,
moça. Nem sair sem pagar.

Foi bom da parte dele não me culpar por expulsá-lo antes de receber
seu dinheiro, embora essa parte fosse minha culpa. Mas isso não significava
que ele não fosse ainda um desprezível por vir a uma casa de massagens
para fazer sexo, em primeiro lugar. Ok, não sexo em si, mas algo de conteúdo
sexual.

—Eu não quero que você tenha problemas com seu chefe. — Ele abriu
a carteira e tirou algumas notas. —O que devo pela massagem sueca? Preço
total, é claro.

Uma parte de mim queria retrucar que, é claro, ele devia o preço
total. Estávamos há apenas alguns minutos do fim em primeiro lugar, e foi
sua pergunta inadequada que fez com que as coisas terminassem mais cedo.

Outra parte queria dizer a ele para se perder - e algumas outras frases
bem escolhidas - mas eu não faria os Jins sofrerem por meu erro. Eu poderia
me humilhar o suficiente para sorrir e dar a ele a quantia correta.

Ele sacou dinheiro suficiente para cobrir o custo da massagem e jogou


uma nota de cem dólares em cima.

—Eu não acho que você me ouviu, — eu disse, cerrando os dentes.

—Sim, eu fiz. O resto é seu.

—Você não precisa se desculpar com dinheiro, — eu disse


rigidamente. —Um pouco como uma recompensa, na minha opinião.

Ele balançou sua cabeça. —O dinheiro não é o pedido de desculpas. É a


sua gorjeta. Ganhou de forma justa antes de me tornar um idiota.

Peguei o dinheiro e me preparei para jogá-la de volta na cara dele. —


Eu...

—Mas eu espero que você possa me deixar pedir desculpas comprando


o jantar qualquer hora dessas.

O que é que foi isso? Eu congelei, segurando sua nota de cem dólares no
ar. Ele não podia ser tão descarado, não é? Ele devia estar brincando.

Exceto que o olhar em seu rosto me disse que não era.


Foda-se. O dinheiro era meu. Ganhei-o; ele até disse isso. Mas seu —
pedido de desculpas— não funcionou.

—Não estou à venda, — eu disse com firmeza.

Ele me olhou calmamente, seus olhos anteriormente brilhantes


cautelosos. —Então, um pedido de desculpas verbal terá que servir. — Ele
pigarreou. —Sinto muito, moça... quero dizer, Lumen.

Então, sem mudar sua expressão, ele se virou e saiu da loja, movendo-
se devagar o suficiente para que eu me perguntasse se ele estava esperando
que eu mudasse de ideia, mas ele não parou. Os sinos da porta tilintaram e
então, quando a porta se fechou, foi como se ele nunca tivesse
voltado. Exceto pela centena na minha mão e o livro agora equilibrado da
noite passada.

Coloquei a nota no bolso, sem saber como me sentiria. Felizmente,


Lihua naquele momento fez seu caminho para a área de saudação, com as
mãos cobertas de óleo erguidas.

—Eu ouvi a campainha, — disse ela. Seus olhos se estreitaram


enquanto ela procurava pelo novo cliente.

—Ele acabou de sair, — eu disse. —Era o cara de ontem. Ele pagou sua
conta.

Lihua olhou para o dinheiro que ainda estava no balcão e sorriu. —Bom
Bom! Então não há mais nada em que pensar. — Seu sorriso se transformou
em uma carranca. —Ele deixou você desconfortável de novo?

Dei de ombros, colocando o dinheiro na caixa registradora e marcando


a transação correta. —Ele me deu uma grande gorjeta e depois me convidou
para sair. Mas eu recusei, e ele saiu imediatamente.

Lihua riu com seu jeito meio enferrujado. —Bom para você,
Lumen. Espero que os homens que a convidarem para sair em seu próximo
trabalho tratem você como você merece.
—Praticamente qualquer homem que me convidar para meu próximo
trabalho será pai, — eu apontei com um sorriso gentil.

—Isso é verdade, — ela meditou. —Não namore um homem casado. Ou


um homem com um casamento fracassado. Ou um homem com filhos e sem
esposa...

—Obrigado pelo conselho, Lihua, — eu disse, ainda sorrindo. Às vezes,


eu me perguntava se era assim que as coisas teriam sido com minha própria
mãe... se ela tivesse me escolhido ao invés de uma vida sem
responsabilidade.

Lihua deu um tapinha no meu braço e eu senti a umidade do óleo ainda


em suas palmas. —Basta lembrar que você saiu da faculdade agora e tem
um novo emprego.

Eu não precisava que ela me dissesse o que queria dizer com


isso. Minha velha desculpa para não namorar era que eu não queria ser
distraída dos estudos. Então, quando me formei, mudou para mim esperar
até encontrar um emprego na área desejada. Agora, eu estava sem
desculpas.

—Assim que eu conseguir um namorado, você será a primeira pessoa


para quem eu irei contar. — Prometi, embora ambas soubéssem que
contaria a Mai primeiro. Lihua riu de novo e voltou ao cliente que deveria
massagear.

Não achei que ligaria para ela tão cedo.

Meu turno terminou na hora certa, uma hora depois, e então todos me
surpreenderam com um bolo. Não pude conter minhas lágrimas, mas pelo
menos essas eram boas. Os Jins têm sido tão bons comigo desde que conheci
Mai. Eu estava ansioso pelo meu novo emprego, mas sentiria falta de estar
perto dessa pseudo-família.

Cheguei em casa mais tarde do que o esperado, apesar de rejeitar a


insistência de Lihua de que eu saísse com todos para beber depois que
terminássemos o bolo. Eu não bebia muito, nem mesmo na hora de
comemorar e, além disso, estava atrasado nos preparativos do trabalho por
ter assumido o turno de Mai ontem à noite. E o fato de que, quando cheguei
em casa, não estava em forma de me concentrar.

Meu apartamento era em Ballard, apenas cerca de dez minutos ou mais


do trabalho, e eu estive pensando em Alec durante toda a viagem de ônibus
para casa. Eu não podia acreditar que ele teve a coragem de me convidar
para sair depois do que aconteceu. Ele achava que poderia ter finais felizes
sempre que quisesse?

Corei com o pensamento, embora fosse mais pelo fato de que eu me


perguntei como seria a sensação de envolver minha mão em torno dessa
parte específica do corpo dele ao invés de estar envergonhada. Não que eu
tivesse que me preocupar com isso novamente, já que ele não saberia onde
me encontrar, mesmo que estivesse determinado a procurar.

Seattle era uma cidade muito grande para procurar uma única pessoa.

Subi as escadas para o meu apartamento e destranquei a porta. Em


breve, eu seria capaz de mergulhar no meu verdadeiro trabalho e teria algo
melhor em que me concentrar do que datas e finais felizes que nunca
aconteceriam.

Antes de dar dois passos para dentro do apartamento, ouvi ruídos


estranhos vindos da sala de estar. Eu imediatamente peguei o taco de
beisebol de Mai que sempre mantive ao lado da porta da frente. Nunca
precisei usá-lo, mas Mai e eu tínhamos imaginação ativa. Ballard era um
bairro seguro, mas isso não significava cem por cento livre do crime.

Eu fiz meu caminho pelo curto corredor de entrada e então olhei ao


redor da esquina para a sala de estar, pronta para qualquer coisa.

Qualquer coisa, exceto minha colega de quarto e seu namorado fazendo


sexo.

Eles estavam no sofá em frente à TV, à vista de qualquer um que por


acaso entrasse, ambos totalmente nus com Mai pulando no colo de Hob com
entusiasmo suficiente para explicar por que nenhum deles notou a hora ou
a porta da frente se abrindo.

Eu fechei minha mandíbula e tentei me lembrar de como fazer meus


pés funcionarem. Eu precisava entrar no meu quarto e fingir que não tinha
visto nada. Eu não sabia de nada. Eu certamente não sabia que Hob tinha
seu mamilo perfurado e claramente gostava que Mai o torcesse quando eles
transavam.

Eu teria feito uma fuga clara se não fosse tão tarde.

Os olhos verde-gato de Hob se abriram quando a madeira dura atingiu


o canto da parede, e ele soltou um pequeno grito de surpresa quando me
viu. Soltei uma torrente de palavrões que foram surpreendentemente sujos
e criativos.

—Por que você está parando? — Mai gemeu.

—Lumen. — A voz de Hob estava embargada.

Mai parou de se mover. —Você acabou de dizer o nome da minha colega


de quarto quando estávamos... oh, porra! Lumen!

—Eu sinto muito! — Eu disse, abraçando o taco de beisebol e fechando


meus olhos com força. Deus, minha pele ficaria permanentemente vermelha
nesse ritmo.

—A culpa é nossa, — disse Mai. Eu podia ouvi-la vestir algumas


roupas. —Mamãe disse que ia levar você para beber e, como você não voltou
depois do turno, começamos a assistir a um filme e... merda, sinto
muito. Nós nos empolgamos.

—Desculpe, Lumen, — Hob acrescentou.

—Está tudo bem. — Eu disse, tentando não pensar sobre quantas vezes
eles fizeram isso no nosso sofá e quantas vezes eu sentei ou dormi nele. Eles
tinham uma cama perfeitamente boa.

E por que não haviam deixado pelo menos algumas roupas! Eu não
queria sentar no sofá depois que a bunda nua de Hob estive lá.
—Oh querido. — Eu podia ouvi-la tentando conter uma risada.

—Acho que vou para o meu quarto, — eu disse.

—Não, não, está tudo bem, estamos bem! Por que você não me conta
sobre seu último dia? Eu deveria ter estado lá para a partida, mas estava
esperando que mamãe me mandasse uma mensagem quando vocês
estivessem no bar. Estávamos planejando nos juntar a vocês lá.

Eu a senti tocar meu braço, mas mantive meus olhos fechados. Eu não
queria um acidente.

—Estamos ambos vestidos. Venha, conte-nos sobre o seu dia.

Relutantemente, abri meus olhos e me virei, temendo que minha amiga


achasse engraçado ainda estar nua, mas Mai estava coberta com uma
conhecida blusa cinza e sua calça de moletom azul favorita. Hob estava de
jeans e uma camiseta e parecia quase tão mortificado quanto eu. O pobre
rapaz fez uma careta e evitou meus olhos, seu cabelo preto como o corvo
ainda ostentando aquele visual de “acabei de foder.”

—Foi... — Eu disse, —foi bom. Eles me deram um pouco de bolo.

—Eu sei, Jie postou no Instagram. Tão bonitinho!

Jie era o penúltimo irmão de Mai e outro MT.

—Espero que você tenha trazido um pedaço para casa, para nós. — Hob
disse, rindo sem jeito.

Eu ri um pouco e balancei minha cabeça, deixando o constrangimento


se dissipar. —Decidi não sair porque não tive a chance de fazer muito
trabalho de preparação na noite passada.

—Isso é totalmente minha culpa. — Disse Mai, com um sorriso tímido


no rosto. —Desculpe de novo. Eu devo muito a você.

—Está tudo bem. — Eu disse. —Mas eu realmente preciso


começar. Podemos pegar bebidas no próximo fim de semana, ok?

—É um encontro. — Disse Mai.


Um encontro.

Eu pensei em Alec novamente e me perguntei o quão ferrada eu estava.


SEIS
ALEC

—O QUE HÁ DE ERRADO, PAPAI? — A pergunta veio do nada quando


coloquei Evanne na cama. Ela sempre fazia as melhores perguntas na hora
de dormir.

Aos oito anos, ela era sábia além da idade, e eu esperava que não fosse
por nada que sua mãe e eu tínhamos feito, ou não tínhamos feito. Keli tinha
a custódia primária e eu tive visitação suficiente para que tivesse um
relacionamento saudável com minha filha, mas sempre senti uma culpa por
perder algo em relação a ela.

Eu pisquei para ela. —O que você quer dizer, mo chride?8

Seus olhos azuis brilharam com o termo familiar de carinho, mas então
logo foi substituído quando ela respondeu à minha pergunta. —Você parece
estranho.

—Talvez eu seja a normal, e você é a esquisita. — Sugeri, deixando meu


sotaque regressar à minha infância simplesmente porque a fez explodir nas
risadas mais doces que eu já ouvi. Eu tinha sido uma criança séria e
demorou muito para me livrar disso e dar a Evanne um pai com quem ela
se sentisse confortável para conversar. Por ela, eu faria qualquer coisa.

—Eu não sou estranha. — Ela disse indignada, depois de recuperar a


compostura. Se ela estivesse de pé, estaria com as mãos nos quadris, dando-
me o melhor olhar que poderia reunir.

Eu dei a ela um olhar duro, batendo o dedo no meu queixo. —Acho que
preciso testar essa teoria.

Transformei minhas mãos em garras e me inclinei sobre ela, ganhando


um guincho e um grito agudo. Eu fiz cócegas nela até que ela gritou e riu,

8 Meu coração.
colocando seus cotovelos para dentro para prender minhas mãos. Antes que
ela pudesse ficar superaquecida, parei e a deixei recuperar o fôlego.

—Bem, você parece normal o suficiente. — Eu disse, beijando-a na


testa. —Só pessoas estranhas não têm cócegas.

—Você nunca ri quando eu faço cócegas em seus pés. — Ela apontou.

As solas dos meus pés não eram tão sensíveis, era verdade. —Suponho
que isso significa que eu sou o estranho então. Acha que pode guardar meu
segredo, mo chride?

Ela assentiu enfaticamente, sua longa trança de cachos castanhos


escuros batendo em suas costas. Meu cabelo claro juntamente com a mistura
do cabelo ébano de Keli gerou em Evanne algo que não era exatamente
preto, mas estava longe de ser o meu loiro dourado. Seus traços eram o tipo
de combinação que fazia as pessoas verem os pais em seu rosto, e eu não
pude evitar ficar feliz por ela não crescer como a imagem de Keli ou de mim.

—Mas, papai, você não está triste, está?

Merda. Sempre fiquei surpreso em como ela conseguia ver através de


mim. —Não é triste, mo chride. — Expliquei. —Apenas envergonhado.

—Porque você teve um encontro ruim na noite passada?

Eu mal reprimi meu sorriso. —O que eu falei sobre usar essa palavra?

—É engraçado quando eu digo isso, mas deixa a mamãe com raiva de


você. — Recitou obedientemente.

—Bom trabalho não dizer isso quando sua mãe está por perto. — Eu
disse, dando-lhe um high-five.9 —E não, não é sobre o meu encontro. Eu
perguntei a alguém uma coisa boba e quando fui me desculpar, perguntei a
ela outra coisa boba. Então, seu pai está comendo uma grande e humilde
torta de vergonha no jantar, só isso.

9 Toque de mão dado com ela aberta, fazendo um cinco.


—Mas comemos pizza no jantar. — Disse Evanne, inclinando a cabeça.

Eu não pude conter uma risada neste momento. Droga, eu a amava.

Eu só queria ser um pai melhor. Fiz o que pude, mas desde o momento
em que descobri que Keli estava grávida, soube que não fui feito para criar
filhos. Eu morreria por ela e mataria qualquer um que tentasse machucá-
la, mas havia um motivo para eu não ter contestado a custódia quando Keli
me deu um acordo já dividido para garantir que Evanne fosse criada por ela.

Eu ofereci mais em forma de pensão alimentícia do que Keli havia


pedido, especialmente porque ela não tinha tentado pedir pensão
alimentícia, embora nunca tivéssemos nos casado. Dinheiro era algo que eu
poderia dar. Eu tinha muito e estava sempre fazendo mais.

—Eu sei. — Disse, beijando sua testa novamente, respirando seu doce
perfume. —Seu pai está apenas com sono.

—Isso significa que você não pode ler uma história para mim?
— Evanne perguntou, seus olhos se arregalando enquanto seu lábio inferior
tremia.

Merda. Quebre meu coração, por que não? Ela era meu coração. Foi por
isso que a chamei de mo chride. Meu coração.

—Eu sempre posso ler uma história para você. — Eu disse, lutando
para impedir minha voz de falhar. No momento em que segurei Evanne pela
primeira vez em meus braços, jurei que não importava o quanto eu
trabalhasse, minha filha nunca sentiria que não era a coisa mais
importante em minha vida.

—Podemos ler uma curta. — disse ela, estendendo a mão para acariciar
minha bochecha. —Ok?

Eu beijei sua testa novamente. Eu não a mereço. —Gatinhos de caratê


ou dinossauros cantando?

—Gatinhos do caratê. — Disse ela com um sorriso sonolento.


Peguei o livro de sua estante e me acomodei em meu espaço habitual
ao lado dela em sua cama. Não importa o que esteja acontecendo ao meu
redor, os momentos que passei com Evanne foram os melhores da minha
vida. Ler para ela na hora de dormir era definitivamente uma das minhas
coisas favoritas a fazer, mesmo que eu sempre achasse que nunca fazia tão
bem quanto Keli. Tão confiante como sempre estive na maioria das outras
áreas da minha vida, quando se tratava de ser um pai prático, muitas vezes
eu sentia que mal conseguia manter a cabeça acima da água.

Como esperado, Evanne adormeceu antes do final do livro – eu não era


o único que estava cansado – mas terminei mesmo assim. Depois de devolver
o livro à estante, demorei-me na porta para vê-la dormir. Mesmo depois de
todo esse tempo, eu ainda mal conseguia acreditar que realmente ajudei a
fazer essa criatura linda, inteligente e incrível.

Meu peito apertou quando uma onda de amor passou por mim. Eu não
era uma pessoa demonstrativa, mas amava profundamente minha
família. Ou pelo menos o que pensei que fosse profundamente. No momento
em que vi a ultrassonografia, me apaixonei, e o que senti por ela só cresceu
exponencialmente desde então. Nunca amei ninguém do jeito que amava
minha filha.

Eu verifiquei duas vezes o sistema de monitor que eu tinha instalado


nesta sala quando era um berçário e me perguntei quanto tempo levaria
antes que ela me pedisse para mantê-lo desligado ou removê-lo. Mesmo que
meu quarto ficasse do outro lado do corredor, a casa tinha mais de seiscentos
e quatro em metros quadrados, e eu queria um sistema que me deixasse
ficar de olho – por assim dizer – nela, não importa onde eu estivesse.

Eu aluguei um apartamento quando cheguei em Seattle quando tinha


24 anos, mas assim que Keli me contou sobre o bebê, comecei imediatamente
a procurar uma casa. Mesmo tendo dúvidas sobre o que aconteceria com Keli
e eu, nunca duvidei de que faria parte da vida de minha filha e estava
determinado a dar a ela o melhor.

Algumas pessoas provavelmente pensaram que eu tinha exagerado,


comprando algo que era muito maior do que nós dois precisaríamos, mas
justifiquei transformando os quartos extras, quartos onde minha enorme
família poderia ficar quando viesse nos visitar. A alegria no rosto de Evanne
toda vez que ela entrava, a maneira como ela falava sobre sua casa comigo,
tudo isso me fez ter certeza de que fiz a escolha certa.

Afastei os pensamentos do passado enquanto fazia meu caminho para


a cozinha e puxava uma cerveja da geladeira. O problema de não querer
pensar no passado era que minha mente precisava ir a algum lugar, e não
demorou muito para ir direto a Lumen.

Eu não podia acreditar que a tinha convidado para sair, mas fiquei
ainda mais chocado por ela ter recusado. Para ter certeza, eu fiz papel de
babaca quando pedi um “final feliz”, mas voltei para consertar as coisas,
apesar do fato de ter ficado mortificado com meu erro. Agora, eu me
perguntei se eu deveria ter voltado assim que descobri o mal-entendido, em
vez de esperar até hoje.

Liguei para Brody assim que Lumen me expulsou, exigindo saber o


nome do salão de massagens que ele recomendou. Quando ele me disse que
era Relief Bodywork, meu instinto ainda me disse para verificar antes de
presumir que estava certa. No caminho para casa, pesquisei online... e
descobri que ficava do outro lado da cidade. Um pouco mais de pesquisa
online me disse que o que eu tinha ido era Real Life Bodywork.

Nunca me senti mais idiota do que ontem à noite quando percebi o erro
que cometi. Isso ainda estava em minha mente quando acordei esta manhã
e quando levei Evanne para tomar sorvete esta tarde, eu sabia que precisava
tentar consertar as coisas.

Normalmente, eu teria conduzido Evanne sozinho, mas porque decidi


por um capricho que um dos meus motoristas nos levasse por Seattle, eu
deixei Evanne no carro pelos poucos minutos que eu precisava para entrar
e fazer de mim um babaca ainda maior.

Suspirei e coloquei minha cerveja na mesa, desejando poder entrar na


garrafa de Highland Park que tinha em meu armário de bebidas
trancado. Algumas pessoas podem não ter visto nenhum problema em beber
um pouco agora que Evanne estava dormindo, mas a única coisa que eu
bebia quando ela estava aqui era uma cerveja à noite. Infelizmente, não
diminuiu tanto quanto eu gostaria.

O que significava que fiquei com aquele desejo torturante que tive
desde o primeiro momento em que encontrei os olhos azuis e claros de
Lumen. Um desejo por algo que eu queria classificar como luxúria, atração
física, mas algo que minha mente me dizia que era diferente.

Eu precisava limpar minha cabeça e, uma vez que nem álcool e nem
sexo eram as opções, eu poderia me exercitar... ou tomar um longo banho
quente. Eu tinha corrido esta manhã para tentar banir os pensamentos de
Lumen e aquelas mãos incríveis dela. Não funcionou.

Era o banho, então.

Mesmo com o sistema de monitoramento ligado, enfiei a cabeça no


quarto de Evanne para me certificar de que ela estava dormindo e não
precisava de nada. Ela ainda estava aninhada em seu travesseiro e não
tinha se movido um centímetro nos trinta, ou mais, minutos desde que eu
saí do quarto. Seu padrão de respiração foi o suficiente para eu saber que
ela estava dormindo profundamente.

Satisfeito, eu fiz meu caminho para o banheiro principal e me despi. Eu


não era um daqueles homens que se importavam muito com todas as
armadilhas, especialmente na minha casa, mas eu amava esse banheiro
mesmo quando o vi online. Eu tinha um box amplo com paredes de mármore
e vários chuveiros. Quase tão bom quanto uma massagem.

Quase.

Nada poderia realmente chegar perto da maneira como as mãos de


Lumen me fizeram sentir, mas pelo menos poderia ajudar um pouco.

Fechei os olhos e deixei o calor tomar conta de mim, passando pelo meu
couro cabeludo, pelo rosto e peito. Eu tomei minha cota de banhos frios ao
longo dos anos, incluindo a noite passada, mas esta noite, eu não queria
afastar a sensação de peso na boca do meu estômago.
Eu não namorava por uma longa lista de motivos – o mais importante
deles estava dormindo do outro lado do corredor – mas eu não estava
exatamente sem companhia feminina. Quando precisei de libertação, foi
fácil de encontrar. A maneira como Song se jogou sobre mim era prova disso,
mesmo que a rejeição de Lumen fosse um pouco fora de realidade.

Na maioria das vezes, porém, encontrar uma mulher não valia a


pena. Não quando minha imaginação e minha mão poderiam dar certo. E
considerando a linda mulher que conheci ontem, inventar uma fantasia não
deveria ser um problema.

Cabelo espesso e rico de cor de mel... droga. Não. Mulher linda


errada. Eu precisava pensar sobre aquela que estava ansiosa para vir para
a cama comigo.

Ondas escuras, pele morena. Suas mãos correndo sobre mim enquanto
eu ensaboava o sabonete com cheiro de madeira de cedro que minha
irmãzinha Maggie tinha me dado no meu aniversário.

Mãos mais fortes. Essa pressão perfeita. Eu não conseguia acreditar


como aquela massagem tinha sido boa. Como seria bom ter aqueles dedos
fortes envolvendo meu pau...

Não. Eu tinha que esquecê-la. Não adianta fantasiar sobre alguém que
não estava interessada em mim dessa forma.

Song estava interessada.

Song. Nua. No chuveiro comigo. Oferecendo-se para cumprir todas as


promessas que seus olhares sensuais e pés errantes haviam
prometido. Fechei meus olhos e a imaginei na minha frente. Ajoelhada,
olhando para mim. Passando as mãos pelas minhas coxas, avançando em
direção aos meus testículos pesados. O que ela diria? Pensando bem, eu não
queria que ela dissesse nada... eu só precisava que ela me tocasse. Dedos
longos e finos com unhas postiças espalhafatosas...

Não.

Dedos fortes. Unhas limpas e simples... As mãos de Lumen.


Lumen no chuveiro comigo.

Água escurecendo seu cabelo ao mesmo tempo em que o grudava em


seu corpo. Pele lisa e molhada. Olhos azuis profundos travando nos meus
enquanto ela segurava meus testículos.

Porra!

Eu estava ficando mais duro a cada segundo. Mão movendo-se sobre o


meu pau enquanto ele inchou.

Mas não foi apenas o toque dela que me excitou.

A voz dela. Doce e alegre. Sem fofura forçada. Perfeita, como o cabelo
dela. O que foi que ela disse?

Ela sorriu e perguntou: —Confortável?

Dedos deslizaram pelo meu pau, a mão torcendo na cabeça para passar
o polegar na ponta, retirando uma gota de pré-sêmen.

Sim…

Gotas de água caíram em sua pele, em seus lábios. Lambi-os, provoquei


a costura de sua boca com minha língua, esperei que ela abrisse. Explorar
sua boca enquanto ela agarrava meu pau mais rápido, apertando ainda mais
suas mãos em volta dele.

Eu gemi, o som ecoando nas paredes de pedra. Que tipo de som ela faria
quando eu revirasse seu mamilo entre meus dedos? Ela iria querer que eu
fosse gentil, sacudisse minha língua sobre o pequeno botão enrugado? Ou
áspero, puxando e torcendo? Ela me imploraria para usar meus dentes nela?

Minhas bolas se contraíram com a ideia de tê-la se contorcendo embaixo


de mim, a pele clara marcada pela minha boca e dentes.

Cobri sua mão com a minha, acariciando cada vez mais rápido até que
explodi, meu esperma pintando sua pele, mesmo quando ela se inclinou para
lamber...
Eu balancei minha cabeça, me livrando de onde minha mente queria
me levar a seguir. Se isso fosse real, eu sabia exatamente qual teria sido
meu próximo passo. Levando-a para a minha cama, espalhando suas pernas
e caindo sobre ela até que ela gritasse. Afundando dentro dela, nos levando
ao limite até que nos perdêssemos um no outro...

E eu nunca a veria novamente.


SETE

—A DIVINHA QUE DIA É HOJE ! — Mai gritou ao entrar no apartamento.

Eu estava sentada no sofá da sala – na extremidade oposta de onde eu


peguei Mai e Hob fazendo sexo – trabalhando em meus planos de aula
quando sua voz cantante foi carregada para a sala. A escola só começaria na
terça-feira após o Dia do Trabalho, mas em dois dias, eu entraria
oficialmente em um prédio escolar como professora. Não uma professora
estagiária. Não uma assistente de sala de aula. Mas sim, uma professora de
verdade.

Eu tentava ignorar o quão nervosa estava com isso.

—Uh, sexta-feira? — Eu disse.

Mai sorriu ao entrar na sala, ainda vestida com sua túnica preta e
calças de ioga da Real Life Bodywork.

—Exatamente! — ela disse. —Você prometeu que sairíamos e


beberíamos neste fim de semana.

Eu tinha? Pensei no fim de semana passado. Certo. Eu cheguei em casa


do trabalho, já cambaleanda por Alec me convidando para sair, e peguei ela
e Hob no sofá. Eu queria me esconder no meu quarto em vez de sair para
comemorar meu afastamento da RLB, mas Mai me fez prometer que eu
sairia com ela esta semana.

Ela era uma pessoa difícil de recusar.

—Eu não acho que prometi exatamente. — Eu adulei.

—Você disse que era um encontro.

Eu levantei uma sobrancelha. — Você disse que era um encontro!

—Ok. Por que você não vai comigo, Lumen?


Oh merda.

Eu olhei para o caderno aberto no meu colo. Na verdade, eu tinha me


adiantado, elaborando os detalhes dos planos de aula mais adiante do ano
necessário. Gostava de estar preparada, mas isso foi até demais para
mim. Eu não precisava ser um psiquiatra para saber que estava
compensando demais.

Eu olhei para minha amiga.

Merda.

Ela estava me dando aqueles olhos de cachorrinho. Os mesmos que ela


usava quando precisava que eu fizesse um turno para ela. Eu cresci imune
principalmente ao longo dos anos, mas minha resistência estava baixa. Eu
culpei a quantidade louca de trabalho de preparação que estava fazendo.

—Eu não quero ir longe. — Eu disse com um suspiro.

—O MacLean”s fica a três quarteirões de distância! — Mai respondeu,


seus olhos brilhando em triunfo.

—Eu já estive lá?

—Não, mas eu e o Hob sim. Lugar irlandês super elegante. Ou


escocês? Scotch é escocês, certo? Quer dizer, deve ser, porque senão seria
apenas estúpido.

Escocês. Droga.

Compreensivelmente, meus pensamentos foram imediatamente para


Alec e seu sotaque. Eu consegui principalmente tirá-lo da minha mente
enquanto trabalhava nos meus planos de aula, mas sua voz ainda parecia
flutuar no fundo do meu cérebro, aparecendo nos momentos mais
inconvenientes. Às vezes, eu sentia como se o ouvisse chamar meu nome, e
então o imaginava entrando na sala, o cabelo molhado da chuva, o corpo
magnífico envolto naquele terno caro, olhos azuis brilhantes fixos em mim...

Isso não levaria a nada bom.


—É escocês. — Eu disse, minha voz mais baixa do que o normal.

—Certo, bem, você não precisa beber scotch, mas tem uma pista de
dança e coquetéis deliciosos. O que mais você precisa?

Ela sabia o quanto eu adorava dançar, mesmo que não bebesse


muito. Ela era uma mestre na manipulação e fiz uma nota mental para
discutir com ela como ela nunca deveria usar seus poderes para o mal.

—Tudo bem. — Eu disse. —Vamos fazer isso.

Mai fez uma demonstração exagerada de empolgação com os punhos


que me fez rir. Talvez fosse uma boa ideia, afinal.

Eu não era o tipo de pessoa que usualmente exagerava na minha


aparência, mas me vestir para esta noite parecia divertido, e eu poderia usar
um pouco disso. Eu sacudi meu cabelo do meu rabo de cavalo normal e usei
algum produto para manter o frizz baixo, então peguei minhas leggings de
couro falso preto – o par de calças mais ousado que eu tinha. Quando tirei
uma blusa branca sem mangas do armário, Mai não perdeu tempo em
arrancá-la das minhas mãos.

—De jeito nenhum você vai usar isso! Eu aprovo as leggings, mas essa
camisa não vai funcionar. — Ela o jogou na minha cama e desapareceu no
meu armário, onde a ouvi murmurar enquanto folheava meu guarda-
roupa. —Não. Não definitivamente NÃO. De jeito nenhum. O que... eu não
quero saber.

Eu nunca tive muito dinheiro para gastar em roupas, o que significava


que preferia estilos simples e cores neutras, o tipo de coisa que eu poderia
conseguir pelo menos alguns anos antes de ter que ir às compras
novamente. Embora isso contribuísse para um orçamento inteligente e
roupas de trabalho sempre prontas, não tendia a ser uma diversão noturna
na cidade.

—Vou pegar algo no meu armário para você. — Mai anunciou ao sair
do meu.
—Mai, eu sei que não sou exatamente grande, mas ainda tenho sete
centímetros acima de você. — Apontei. Não acrescentei que meu busto de
tamanho médio era alguns tamanhos maior que o dela. Isso ficou óbvio
assim que tentei colocar uma de suas camisas.

—Aqui. — Ela disse um momento depois, enquanto colocava algo em


minhas mãos. —Isso tem uma daquelas frentes de espartilho com cadarços,
então deve caber.

Eu tinha minhas dúvidas, mas sabia que era melhor não discutir com
Mai. Eu o puxei pela cabeça, apreciando o deslizamento da seda pela minha
pele. Para minha surpresa, a camisa rendada tipo espartilho se ajustou no
lugar sem nenhum problema. Os cadarços já não cediam muito, mas
consegui fazer um laço apresentável sem dificuldade.

Quando terminei, Mai estava vestida com sua calça jeans rasgada
favorita, uma camiseta regata escarlate e sapatos de salto combinando. Com
seu batom igualmente ousado e uma gargantilha de prata, ela estava
preparada para atrair a atenção, embora eu soubesse que ela nunca
pensaria em trair o namorado. Isso foi apenas Mai.

—Você está perfeita! — Ela declarou enquanto me virava em direção


ao espelho.

O azul profundo e cerúleo fazia meus olhos praticamente brilharem, e


a combinação da camisa e das leggings mostrava minha figura melhor do
que eu poderia ter imaginado.

—Acho que me limpei bem. — Brinquei. Pressionei minhas mãos na


minha barriga, fingindo alisar o material quando na verdade eu estava
tentando acalmar o frio na barriga. Raramente tive problemas em lidar com
interações profissionais, mas as sociais geralmente me deixavam sem saber
o que fazer. Não pela primeira vez, me perguntei quanto disso era minha
personalidade e quanto era a maneira como fui criada.

—Sim — Ela me assegurou. —Agora, vamos encontrar alguns sapatos.


****

O MACLEAN”S ERA MENOR DO que eu esperava e, felizmente, não


era muito barulhento ou louco. Eu não gostava de ir a clubes, nem mesmo
para dançar, o que significava que o prédio estreito de tijolos era uma
surpresa bem-vinda. O interior tinha móveis e tinturas clássicas revestindo
as paredes, com uma seção reservada para uma dúzia de mesas para quatro
pessoas. A pista de dança era igualmente pequena, com espaço para apenas
um punhado de casais dançando ao som da música americana. Enquanto eu
digitalizava as belas impressões de várias paisagens escocesas, eu me
perguntei se eles tocavam música celta tradicional ou popular quando não
era um fim de semana, ou se eles apenas misturavam o tempo todo.

Viramos e, para minha surpresa, vi Hob esperando por nós no bar. Mai
não mencionou que ele viria. Não era como se eu não gostasse de sua
companhia. Ele era um cara ótimo. Acontece que eu esperava uma noite
casual com minha colega de quarto. Uma noite de garotas. Com Hob aqui,
Mai tinha alguém com quem dançar, e eu não. Em vez de nós duas bebermos
e dançarmos juntas, eu acabei de me tornar a terceira roda.

Hob sorriu quando nos aproximamos. —Uau, Lumen, você finalmente


conseguiu chegar a um bar!

A julgar por sua aparência, ele veio direto do hospital onde era
residente pediátrico do terceiro ano. Calça jeans e tênis com uma camisa de
botão ligeiramente amassada não eram exatamente da categoria de Mai no
momento, mas os dois se saíram bem como sempre.

—Aqui estou. — Eu disse, fingindo entusiasmo.

Pelo menos eu estava perto o suficiente de casa para andar quando Mai
e Hob se preocuparam o suficiente um com o outro para esquecer que eu
estava aqui. Não foi nada intencional da parte deles. Eu era exatamente
esse tipo de pessoa que desaparecia em segundo plano. Eu não me
importei. Pelo menos eu não teria que sair até as primeiras horas da manhã.

—A primeira rodada é por minha conta. — Hob insistiu.


Ele acenou para um homem magro e grisalho com um couro cabeludo
ralo mascarado por um corte curto. Um bíceps tinha uma imagem do que
parecia ser um híbrido leão-dragão azul com uma cruz branca sobre
ele. Embaixo estavam as palavras “sangro em azul e branco”. O outro braço
tinha uma manga cheia do que parecia ser um tartan azul e verde com
cardos de vez em quando. O detalhe e a qualidade do trabalho me fizeram
pensar se este homem tinha procurado o artista que fez a tatuagem nas
costas de Alec.

—Outro bloodhound companheiro? — ele perguntou, seu sotaque forte,


sua voz áspera com o que eu imaginei ser uma vida inteira de cigarros e
uísque. Não foi até que ele deu um passo para trás para pegar algo que
percebi que ele estava usando um kilt para combinar com o plaid em seu
braço.

—Por favor! — Hob balançou seu copo quase vazio com um líquido
laranja, me fazendo pensar se aquele era seu primeiro ou segundo copo da
noite. Ele não era um peso leve, mas ele não conseguia lidar com o álcool
tanto quanto pensava que poderia. —E um Cosmo de framboesa para a
minha moça, e um blackberry G&T para a moça da minha moça.

—Pare de dizer moça, seu idiota — Mai sibilou para ele, batendo em
seu braço.

—Vou querer um Tom Collins em vez de G&T, — esclareci para o


barman. Eu gostava de G&Ts, mas não gostava quando as pessoas pediam
para mim, nem mesmo alguém tão bem-intencionado como Hob.

O barman acenou com a cabeça e começou a misturar as bebidas com o


tipo de movimentos praticados que mostravam há quanto tempo ele estava
neste trabalho. Não demorou muito para que estivéssemos no meio de
nossas bebidas e nos soltando, esperando a música certa tocar antes de
irmos para a pista de dança. Minha bebida era efervescente, doce e deliciosa,
e antes que eu percebesse, eu estava balançando ao som da nova música que
tinha acabado de tocar.

—Ugh, este é aquele com a gaita, — ela gemeu. —Não, não, não...
—Você é tão exigente. — Reclamei, minha língua já solta pelo meu
delicioso álcool.

Assumo, foi uma ideia maravilhosa. Eu não sabia por que não fazia isso
com mais frequência.

—Conte-me sobre isso, — Hob riu. Ele estava em seu terceiro


bloodhound e havia chegado ao ponto de bebedeira quando começou a bater
com a mão para enfatizar um ponto. Ele não tinha acreditado que fazia isso
até que um dia ele acabou com uma palma machucada. Sempre que ele
ficava bêbado, tudo acontecia de novo.

—Estou namorando você, não estou? — Mai atirou de volta. —


Considere isso como um elogio.

Eu ri, ciente de que estava sentada confortavelmente no reino


embriagado. Mesmo tendo algo para comer, eu sabia que só poderia beber
mais um com segurança. Depois disso, ficaria completamente bêbada, e isso
não era uma opção. Afrouxar minhas inibições era uma coisa. Perder o
controle era algo totalmente diferente. Eu não fiz isso. Nunca.

—Mais um? — Hob perguntou. Mai e eu acenamos com a cabeça, e ele


voltou para o bar para uma nova rodada.

Enquanto ele estava fora, outra música começou, e Mai saltou na


cadeira. —É isso! — ela exclamou. —Vamos!

Ela agarrou meu braço e me puxou para a pista de dança, já saltando


no ritmo da batida. Nós nos esprememos entre alguns casais antes de
encontrar um bom lugar para reivindicar, e então começamos a trabalhar
nisso. Eu rolei meus quadris e levantei meus braços, movendo meus pés no
ritmo da batida. Mai riu e me seguiu, dançando perto de mim o suficiente
para que não houvesse dúvida de que estávamos lá juntas, mas não tão perto
a ponto de dar a impressão de que estávamos juntas. Nenhuma de nós
realmente se importava se as pessoas pensavam que éramos lésbicas, mas
esse tipo de mal-entendido pode acabar sendo muito mais sério do que as
pessoas imaginam.
Eu empurrei tudo isso da minha mente. Não estávamos aqui para ser
introspectivos ou algo assim. Era hora de relaxar e desestressar antes de
iniciar oficialmente a carreira que escolhi. Sem pensar em coisas sérias ou
no futuro, no passado ou em qualquer coisa que não fosse meus amigos, uma
boa bebida e música para dançar.

Quando olhei em direção ao bar para ver onde Hob tinha chegado, outro
homem chamou minha atenção.

Uma camisa branca com finas listras azuis, enrolada nos pulsos,
enfiada em calças escuras. Um cinto de couro marrom claro e sapatos
combinando. Ele também usava um relógio de ouro, que foi o que chamou
minha atenção em primeiro lugar. Eu reconheci aquele relógio tanto quanto
reconheci o cabelo cuidadosamente penteado e o corpo forte e atlético.

Exceto que não poderia ser ele. Isso seria uma coincidência
impossível. O tipo de coisa maluca que ninguém jamais acreditou que
aconteceria na vida real.

Então ele levantou a cabeça e, mesmo com a luz fraca, pude ver aqueles
olhos azuis brilhantes.

Bem, maldita merda.

Virei tão rápido que quase derrubei Mai. Eu agarrei o braço dela,
apertando-o em meu pânico para sair de sua linha de visão.

—Ei, ei! — ela disse. —O que está errado?

Eu afrouxei um pouco meu aperto. —Nada.

—Você não está dançando.

Nada como ver o cara gostoso que ficou duro no meio de uma massagem
e depois pediu um... Balancei a cabeça. Não. Não vou lá. Eu vim aqui para
dançar. Era isso que eu queria fazer.

—E você está corando, — Mai apontou, me estudando de perto. —Você


não pode estar tão bêbada ainda.
Mai podia me ler como um livro e levou dez segundos para descobrir
que algo que eu tinha visto me assustou. Se ela estivesse completamente
sóbria, teria demorado menos de cinco.

Ela olhou além de mim para onde eu estava olhando e soltou um assobio
baixo. —Oh, uau.

Eu fingi ignorância. —O que?

—Ele é alto.

—Quem?

—O cara no bar que você estava cobiçando.

Não foi um choque que ela viu através de mim. Eu era uma péssima
mentirosa quando não tinha álcool no meu sistema.

Mesmo assim, tentei negar. —Eu não estava cobiçando.

—Besteira. — Disse ela com um sorriso. —E ele está te cobiçando.

Minha curiosidade levou a melhor e olhei por cima do ombro. Alec


estava alternando entre falar com o barman e olhar diretamente para mim.
Eu não parecia em nada com quando nos conhecemos antes e eu não era o
tipo de mulher que os caras conferiam, especialmente em um bar ou clube
onde havia mulheres como Mai por perto.

Mas realmente parecia que ele estava olhando para mim. Minhas
bochechas queimaram com o pensamento, e eu me odiava pelo quanto eu
queria.

De repente, Hob bloqueou minha visão, sorrindo e estendendo um Tom


Collins para mim enquanto entregava o Cosmo de Mai para ela. Ele
provavelmente já havia tomado seu bloodhound, e eu esperava que fosse o
último. Ele era um bêbado engraçado, mas eu não tinha nenhuma vontade
de ajudá-lo a tropeçar para um táxi no final da noite.

—Fora do caminho! — Mai sibilou.

—O que? — ele perguntou enquanto Mai o empurrava.


—Lumen está tendo uma conexão amorosa.

—Oh, por favor, — eu disse. Tomei um gole da minha bebida e olhei


para o bar novamente. Alec ainda estava lá, ainda atirando olhares com o
tipo de segurança calma que significava que ele realmente não se importava
se alguém o visse ou não.

Hob seguiu o olhar de Mai. —Droga, ele parece que Ryan Gosling e
Chris Hemsworth tiveram um filho secreto. Você o conhece?

—Eu assistia aquele filme. — Mai murmurou.

—Eu também. — disse Hob. Ele piscou para mim. —Mas aquele cara
não é uma criança. Ele é todo homem.

Suspirei, resignando-me em compartilhar a história. —Ele entrou na


sala quando eu estava trabalhando na sexta-feira passada. Perto do final da
massagem, ele pediu um final feliz.

—Ele conseguiu um? — Hob perguntou, olhos verde-gato brilhando.

— Não!

—Eu disse que não fazemos isso. — Disse Mai. Ela tinha um olhar
malicioso no rosto enquanto batia na bunda dele. —Não para clientes, de
qualquer maneira.

Eu realmente não queria entrar naquela toca de coelho imunda, então


terminei a história. —Eu o chutei para fora, é claro, mas ele voltou no dia
seguinte para me convidar para sair. — Hob abriu a boca, mas antes que ele
pudesse perguntar, eu disse: —Eu recusei.

—Acha que ele está perseguindo você? — Hob escolheu um caminho


totalmente diferente. —Posso ameaçar bater nele.

Embora parecesse uma piada, não duvidei por um momento que Hob
quis dizer isso. Mai sempre foi protetora comigo, e assim que os dois
começaram a namorar, ele imediatamente começou o modo defensor
também.
—Ele não está me perseguindo, — eu disse. —Ele é escocês. Este é um
bar escocês. É uma coincidência muito louca.

Ou então eu continuei dizendo a mim mesmo

—Ele é escocês? — Mai perguntou, os olhos se arregalando. —Tipo,


com sotaque? Droga. Não é à toa que você está corando.

Tomei um gole da minha bebida e voltei a dançar. Eu não queria falar


sobre isso. Porque corar não significava nada mais do que constrangimento
com a memória dele tendo uma ereção enquanto eu trabalhava. Exceto que
não compartilhei essa parte da história. Isso era algo só para mim. Uma
memória secreta que posso trazer à tona de vez em quando.

—Você gosta dele! — Mai exclamou, seu rosto todo se iluminando


quando ela agarrou meu braço. —Você realmente gosta de um cara, tipo “Eu
quero arrancar suas roupas e levá-la até o pôr do sol”.

Isso foi estranhamente específico. —Hum...

Ela ergueu as mãos. —Você não é assexuada afinal, é?

Eu pisquei com sua pergunta. —Você pensou que eu era assexuada?

—Bem, parecia que você não se importava em transar, — Hob


interrompeu. —E nunca ouvimos você falar sobre sexo, namoro ou amigos
com benefícios.

Aparentemente, Mai não foi a única que pensou nisso.

—Não que isso importasse para nós, — ela disse rapidamente. —Você
poderia ser assexual, celibatário, poliamoroso, pansexual... nós amamos
você, não importa o que aconteça.

—Eu não sou assexual. — Eu disse antes que ela pudesse entrar em
mais preferências e orientações sexuais. Eu não queria ter essa conversa
aqui. Ou nunca. —Namoro e sexo simplesmente não são as primeiras coisas
em minha mente.
—Vá até lá e fale com ele. — Mai me deu aquele olhar teimoso que dizia
que ela não ia deixar isso passar.

—Ele é uma pessoa horrível. — eu disse. —Ele queria uma punheta,


lembra?

—Mas ele voltou para se desculpar, — disse Mai. —Basta ter uma
conversa. Talvez ele não seja tão assustador quanto você pensa.

—Se ele for, eu vou resgatá-la. — Disse Hob.

Os dois riram quando Hob enganchou o braço em volta da cintura de


Mai e a puxou com força contra seu corpo. Eles começaram a balançar com
a música, seus olhos se encontrando enquanto o resto do mundo se afastava.

Parecia que eu estava sozinho pelo resto da noite. Eu poderia continuar


dançando sozinha, fingindo que esse tinha sido meu objetivo o tempo todo,
ou poderia me desculpar, pedir uma carona e ter um bom e longo mergulho
na banheira de volta para casa.

Eu quase decidi ir quando um movimento no bar chamou minha


atenção. Era Alec, e ele estava vindo para cá.

Droga.
OITO
ALEC

NÃO ERA assim que eu tinha visto meu fim de semana quando acordei
ontem de manhã. Então Keli ligou ontem à noite para perguntar se ela
poderia ficar com Evanne no fim de semana para que as duas pudessem
fazer algumas compras de volta às aulas e atividades do dia das meninas.

Achei que isso significasse um spa, manicure, pedicure, esse tipo de


coisa. Quando ouvi Evanne tagarelando animadamente ao fundo,
concordei. Keli sempre foi boa em trabalhar com minha agenda quando eu
precisava dela. Eu levaria Evanne para o fim de semana de três dias no Dia
do Trabalho, e faríamos nossas próprias coisas especiais então. Ela estava
me implorando para escalar, então talvez nós fizéssemos isso.

A desvantagem de Keli ter levado Evanne no último minuto era que eu


não tinha planejado não ter nada para fazer no fim de semana e precisava
me manter ocupado para não pensar em Lumen. Eu estava voltando para
casa quando recebi uma mensagem de Duncan MacLean, um velho amigo
meu de Edimburgo, convidando-me para uma degustação de seu novo scotch.

Duncan e eu não éramos o tipo de amigos que sentiam a necessidade de


se socializar. Poderíamos passar meses, até um ano, sem conversar, mas
nunca foi estranho quando nos vimos novamente. E isso nunca nos impediu
de largar tudo quando o outro precisava de alguma coisa. Quando precisei
falar com alguém depois que Keli me contou que estava grávida, ele me
ouviu. Quando ele precisou de um patrocinador aqui na América para
conseguir um trabalho VISA, ele me ligou.

Eu investi em seu bar e destilaria, e ele nomeou seu primeiro uísque


depois de mim. Na vez em que estive a 160 quilômetros da cidade e acertei
um cervo, ele veio, sem fazer perguntas. Fazia um pouco mais de um ano
desde a última vez que conversamos, e eu já estava pensando que uma
conversa com Duncan poderia limpar minha mente de Lumen, então aceitei
sua ligação como um pouco da providência divina e fui até lá.
Assim que entrei, Duncan me viu e abriu um sorriso. Ele tinha uma
lacuna entre os dentes da frente e um crescimento curto de cabelo
avermelhado em seu rosto que se destacava em comparação com o cabelo
castanho ralo em sua cabeça. Ele passou a maior parte da adolescência e dos
20 anos como pescador mercante na Escócia e em Newfoundland, finalmente
vindo aqui para abrir um pub e uma destilaria. Se nossas vidas não tivessem
nos levado em direções tão diferentes, poderíamos ser inseparáveis, mas
como era, nossa amizade ia além da classe socioeconômica, geografia e tudo
o mais que dizia que nós dois nunca deveríamos ter sido amigos.

—Haw, Alec, seu idiota. — Ele chamou.

—Duncan, seu pequeno bastardo. — Eu atirei de volta quando cheguei


ao bar. Como sempre acontecia quando eu estava perto de alguém de minha
casa, meu sotaque e minha fala voltaram como se eu nunca tivesse saído.

Às vezes, eu gostaria de nunca ter feito isso.

Ele riu, mostrando muitos pés de galinha no canto dos olhos. Ele era
apenas alguns anos mais velho do que eu, mas seu tempo no mar o tinha
envelhecido duramente. Mesmo assim, ele tinha um rosto amigável e nunca
se queixou de como sua vida tinha sido difícil, especialmente em comparação
com a minha. —Aqui para um trago de uísque?

—Vou dar uma mordidinha. — Eu disse, deslizando para uma


banqueta livre. O lugar estava lotado esta noite e eu adorei vê-lo.

—Eu tenho a coisa certa. Deixe-me ajudar este rapaz primeiro. — Ele
acenou com a cabeça para o homem ao meu lado, um cara de vinte e poucos
anos com pele morena clara e uma estética hipster definitiva. O cara parecia
estar a caminho de ficar bêbado, mas ainda não havia chegado ao ponto
limite. Duncan era bom em saber quando isso acontecia. Ele levou essa
responsabilidade a sério. Sua avó havia se ferido por um motorista bêbado
uma década atrás, e a primeira coisa que ele fez quando conseguiu sua
licença para bebidas alcoólicas aqui foi colocar uma placa gigante dizendo
que ele tinha o direito de recusar bebidas e confiscar chaves. E ele não brinca
em serviço.
Enquanto Duncan preparava as bebidas do hipster, deixei meu olhar
vagar pelo bar. Sempre achei a pista de dança uma ideia boba, já que ele
odiava o tipo de música que as pessoas dançavam, mas parecia estar
atraindo uma boa multidão. Uma mulher com cabelo loiro mel como o de
Lumen estava se divertindo lá fora. O flash de falso reconhecimento me
incomodou, mas assim que a mulher se virou, meu coração deu um salto.

É Lumen.

Ela estava dançando com uma pequena garota asiática, ambas rindo
enquanto se moviam em sincronia. Foi engraçado como muito do nosso
reconhecimento veio do contexto. Eu quase a ignorei completamente porque
rejeitei o que tinha visto como uma semelhança. E então eu quase perdi o
quão diferente ela parecia porque, na minha cabeça, ela tinha o cabelo
puxado para trás e usava um uniforme simples.

Ela com certeza não parecia assim agora.

Ela usava uma blusa azul que acentuava sua cintura e seios altos,
calças justas que pareciam de couro e botas de salto alto que acentuavam
suas pernas. Ela estava movendo os quadris hipnoticamente, o cabelo
balançando livremente sobre os ombros. E quando seu sorriso se alargou,
percebi que ela tinha covinhas.

Droga.

Não admira que eu não tenha sido capaz de tirá-la da minha mente.

—Felicidades! — O cara moderno ao meu lado deu um sorriso para nós


dois enquanto Duncan entregava-lhe suas bebidas.

—Sim, saúde. — Disse Duncan com pouco entusiasmo. Ele nunca


gostou de preparar coquetéis. O hipster se afastou.

—Você deveria ter feito um bar só de uísque. — Brinquei.

Duncan me deu um sorriso. —E conseguir um monte de idiotas como


você? Olhe para esses bundões e me diga que você não toleraria fazer
bebidas misturadas e ouvir música jobby se isso significasse que você
possuía um bar cheio de moças, muitos delas vão encher minha cama.

Eu instintivamente olhei para Lumen, apenas para encontrá-la


olhando para mim. Seus olhos se arregalaram e então ela se virou,
agarrando o braço da amiga. O desejo apertou meu estômago.

—Vê algo que você gosta? — Duncan continuou, pegando uma garrafa
de baixo do balcão e um copo vazio. —Acho que meu ponto é válido.

—Alguém, — eu esclareci. —Não alguma coisa.

Duncan seguiu minha linha de visão e balançou a cabeça. —A


chinesa? Ela e o cara que acabei de servir vêm o tempo todo. Acho que ela
está comprometida, cara.

—Ela não.

Ele jogou o líquido âmbar no copo e olhou para a pista de dança


novamente, desta vez balançando a cabeça em apreciação. —Loira? Você
sabe quem ela é? — Eu não respondi, mas o olhar no meu rosto deve ter dado
algo a ele. —Vai tentar?

—Já tentei. — Admiti com tristeza.

—Sim, “tentei”, quer dizer que foi recusado, não é? Finalmente conheci
uma moça que nunca caiu no seu colo, pelo que vejo.

Ele estava meio brincando, mas não estava errado. Nunca tive
dificuldade em encontrar mulheres para ficar no meu braço ou na minha
cama. Acho que foi provavelmente por isso que me cansei do jogo. Eu não
queria alguém que jogasse duro, mas também não queria alguém que se
jogasse em mim. Eu quase não disse nada a Song, e ela estava pronta para
tirar o vestido no meio do restaurante.

Eu queria uma mulher que, como Duncan teria dito, conhecesse sua
própria mente e soubesse o que ela queria, e não comprometesse nada disso
por mais alguns zeros em sua conta bancária.

Meu instinto me disse que Lumen era esse tipo de mulher.


Eu queria conhecê-la melhor. Simplesmente convidá-la para sair e
esperar que ela fique impressionada não seria o suficiente para ela. Eu
precisava de uma abordagem diferente. Se ela ainda não estivesse
interessada, eu teria que superar isso, mas pelo menos eu teria feito o
esforço.

—Prove isso antes de fazer qualquer coisa idiota. É todo o motivo pelo
qual trouxe você aqui.

Eu tomei um gole e saboreei. Estava tão enfumaçado quanto uma


fogueira, queimando da melhor maneira. Sabor suave e não
enjoativo. Perfeito.

—Sim, tudo bem.

Ele acenou com a cabeça, a expressão em seu rosto cuidadosamente


satisfeita. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele estava
emocionado. Não seria bom mostrar isso.

Eu bebi o resto da minha bebida e coloquei o copo de volta no balcão. —


Me deseje sorte.

—Aw, você não precisa disso, — Duncan zombou. — Você é um idiota e


sabe disso. Vá buscá-la.

Apreciei seu elogio, mas tive a sensação de que a sorte teria que entrar
em jogo para que isso funcionasse. Fui para a pista de dança, meus olhos
ainda em Lumen. Ela estava conversando com a garota asiática e o cara
hipster, os quais pareciam estar rindo dela enquanto se abraçavam e
balançavam com a música, deixando Lumen sem um parceiro de dança. A
garota asiática gesticulou em minha direção e, quando Lumen olhou, dei a
ela um sorriso amigável. Ela não parecia zangada ou com medo, o que
considerei um sinal positivo.

Conforme me aproximei, no entanto, sua expressão se transformou em


uma combinação de diversão e irritação. Ela não foi embora. Na verdade, ela
nem me deu as costas. Em vez disso, ela continuou dançando sozinha,
esperando que eu pudesse ouvir antes de falar.
—Você não deveria estar fora, implorando por finais felizes? — ela
perguntou, um brilho travesso em seus olhos.

—Muito engraçado. — Respondi. Eu não estava exatamente dançando,


mas estava arrastando meus pés no ritmo o suficiente para não parecer
completamente fora do lugar. —Boa escolha de bar para a noite. Vejo que
você gosta de todas as coisas da Escócia.

Ela revirou os olhos. —Não acho que Ed Sheeran seja escocês.

—Quem?

Ela ergueu o queixo, me fazendo perceber que ela se referia ao cantor


da música que estava tocando. Ela sorriu enquanto dançava, balançando os
quadris e tomando pequenos goles do que parecia ser um Tom Collins. À
minha direita, o hipster e a garota asiática estavam colados quase que
pornograficamente, o que achei que significava que eles eram um casal. E
como Lumen estava dançando sozinha, todos os sinais apontavam para ela
ser solteira.

—Sua perda. Somos muito fortes, tenho certeza que você se lembra. —
Eu disse, ganhando uma risada. Talvez fosse a luz que saía das paredes de
tijolo vermelho, mas eu tinha certeza de que ela estava ficando vermelha. —
Dance comigo, e vou torná-lo mais escocês para você.

—E como você vai fazer isso? — Ela perguntou, arqueando uma


sobrancelha dourada.

Isso não foi um não.

—Magia escocesa. — Eu disse, começando a me mover mais com a


música. Eu não era fã desse tipo de dança, mas o uísque de Duncan me deu
uma surra, e eu não comia desde o almoço. Uma bebida foi o suficiente para
suavizar as arestas.

Lumen suspirou como se estivesse desapontada, mas a luz em seus


olhos me disse que ela estava brincando... ou flertando.

Gostei da ideia de flertar com Lumen.


—Eu esperava Riverdance. — Ela disse.

Eu fingi ofensa. —Isso é irlandês!

—Irlandês, escocês, qual é a diferença, rapaz? — ela perguntou com o


que eu só poderia supor ser um sotaque irlandês ou escocês.

Eu comecei a rir, o som me surpreendendo tanto quanto claramente a


ela. Há quanto tempo eu não ria com uma mulher? Sinceramente, não
conseguia me lembrar. Risadas educadas, talvez. O mais próximo teria de
ser rir com Keli sobre algo que Evanne tinha dito ou feito, mas aquele humor
veio de nossa filha, nada despertou entre nós. E faíscas certamente estavam
voando entre Lumen e eu agora.

—Continue assim e revogarei minha oferta de dança. — Avisei.

—Isso seria uma pena. — Ela quase ronronou as palavras, e meu pau
estremeceu, mais do que um pouco interessado em que outros tipos de sons
ela poderia fazer.

Eu estendi minha mão e deixei o clima se acalmar um pouco. —


Seria. Eu realmente adoraria dançar com você, Lumen.

Seus olhos encontraram os meus e os seguraram, o momento entre nós


se prolongando enquanto ela procurava por algo que eu não conseguia
nomear. Eu não tinha certeza do que ela queria encontrar, mas deixei que
ela visse o que eu tinha a oferecer. Um desejo sincero de dançar com ela e
uma atração que eu tinha certeza eram mútuas.

Então ela piscou e o feitiço foi quebrado. Ela piscou e engoliu o resto de
sua bebida com o que parecia determinação. O copo foi para a bandeja de
um garçom que passava e ela começou a se mover. Em vez de pegar minha
mão, ela passou por mim, seu ombro roçando no meu e enviando uma fita de
eletricidade pelo meu braço. Eu a observei ir embora, cativado por esta
mulher que não parecia ser nada como a massagista ruborizada que eu
acidentalmente propus. Ela não foi muito longe, porém, parando a menos de
meio metro de distância antes de se virar para dançar de volta para mim.
Movimentos fáceis e sensuais que eram ainda mais eróticos por serem
sutis. Ao contrário da maioria das outras mulheres aqui, ela não estava
gritando seu apelo sexual. Ela parecia sexy, sem dúvida, mas ela era menos
a gata uivante no cio e mais sedutora

Ela parou na minha frente, uma expressão perplexa no rosto, e percebi


que minha admiração havia me transformado em uma estátua no meio de
um mar em movimento.

—Perdido em meus pensamentos por um momento, moça. — Eu disse,


inclinando minha cabeça mais perto dela para garantir que ela pudesse me
ouvir.

Quando ela sorriu, eu sabia que tudo estava perdoado. Eu coloquei a


mão em suas costas e deixei meu corpo entrar em sincronia com o dela, mal
segurando meu sorriso. O cheiro de seu perfume de baunilha encheu cada
respiração que eu tomei, e a sensação de seu cabelo ondulado balançando
em minha pele me deu arrepios, apesar do calor quase opressor.

Eu nunca tive o toque de uma mulher me afetando tanto, e o fato de


que ela nem mesmo estava tentando tornava tudo ainda mais atraente.

Seus braços subiram, os pulsos descansando levemente em meus


ombros, e eu aproveitei a oportunidade para colocar minhas duas mãos em
sua cintura, mantendo-as logo acima de seus quadris. Por mais que eu
gostasse dessa Lumen menos inibida, não iria presumir muito. Algo em meu
intestino me disse que se eu quisesse conhecê-la melhor, precisava fazê-la
se sentir segura. Apalpar uma pista de dança definitivamente não era o
movimento a se fazer.

Falar, entretanto, era algo que eu podia fazer. Eu coloquei minha boca
perto de sua orelha. —Você é tão hábil com os pés quanto com as mãos, não
é?

O rubor em suas bochechas aumentou, e ela abaixou o rosto para deixar


seu cabelo cair em uma cortina em seu rosto. Ela não disse nada em resposta
ao meu elogio, mas ela balançou um pouco mais perto, a frente de seu corpo
roçando contra o meu e enviando um choque de excitação direto para o meu
pau já interessado. Quando eu respondi ao atrito puxando-a para mais perto
e esfregando sutilmente nela, sua cabeça disparou, os olhos arregalados e as
íris escureceram para uma cor muito parecida com o mar visto de Calton
Hill.

Uma onda de desejo passou por mim, mas antes que pudesse me
dominar, as mãos de Lumen deslizaram até meu peito, trazendo com elas
um rastro de fogo. Por um momento, temi que ela me afastasse, mas suas
mãos permaneceram no lugar. Seus dedos flexionaram, aplicando uma leve
pressão enquanto se moviam levemente, mas quando uma expressão séria
apareceu em seu rosto, eu entendi que ela estava simplesmente explorando
um pouco.

Ela era forte o suficiente para que eu não tivesse dúvidas de que ela
poderia demonstrar seu desagrado se decidisse que eu tinha tomado muitas
liberdades. Eu tinha que confiar que ela me deixaria saber se eu a
interpretasse errado.

Descansei minha bochecha no topo de sua cabeça, grato pelos sapatos


de salto que cortavam a diferença em nossas alturas o suficiente para que o
gesto não fosse estranho. Sem acesso a pele nua, fiquei me perguntando o
quão macia era, mas quando deixei minhas mãos caírem um pouco mais
abaixo, admiti para mim mesmo que isso também não era ruim. Eu não
estava exatamente espalmando sua bunda, mas meus dedos tinham se
enrolado o suficiente em torno de seus quadris para estar fora da zona
completamente platônica. Nossos corpos ainda se mantinham um
centímetro ou mais entre nós, mas eu não acho que alguém nos confundiria
com um par de amigos.

—Isso é dança escocesa? — ela soprou a pergunta contra meu pescoço.

—É melhor do que Riverdance, não é? — Eu tinha minha boca contra


sua orelha, meus lábios roçando o metal frio de seu brinco de abelha. —Mas
posso pensar em outro tipo de dança que gostaria de fazer com você.

Ela cerrou os punhos na minha camisa enquanto um estremecimento a


percorreu.
—Fique, agora. — Eu apertei seus quadris e deixei meus lábios roçarem
em sua orelha.

Desta vez, ela tinha tentado me afastar, seus lábios se separaram em


um suspiro enquanto suas bochechas assumiu uma tonalidade
vermelha. Mas ela não largou minha camisa e não me disse para me
foder. Foi surpresa que eu vi escrito em seu rosto, não nojo ou
aborrecimento, então eu me arrisquei e puxei-a de volta para mim. Ela veio,
seus olhos nunca deixando os meus. A qualquer momento, se ela quisesse
que eu a soltasse, tudo o que ela precisava fazer era dizer a palavra, mas,
por enquanto, planejava seguir em frente até que ela me pedisse para parar.

Agora, o que eu mais queria era sua boca. Eu queria prová-la, aprender
como ela gostava de ser beijada, ouvir todos os sons que eu tinha certeza que
ela faria.

Tirei uma mão de seu quadril e coloquei na lateral de seu pescoço,


deixando meu polegar roçar para frente e para trás em sua mandíbula. Sua
pele era tão macia quanto eu imaginava que fosse. Demorei, deixando que
ela se acostumasse ao meu toque. No fundo da minha mente, eu sabia que
estávamos em público e que ela tinha amigos por perto, mas nada mais
parecia importante.

Suas pálpebras tremeram, e foi então que segurei seu queixo entre o
polegar e o indicador, segurando com força o suficiente para não deixar
dúvidas sobre minhas intenções. Eu fui devagar, saboreando a antecipação,
ao mesmo tempo dando a ela a chance de me parar se ela não quisesse. Em
vez disso, sua respiração ficou presa em um pequeno suspiro trêmulo e sua
língua saiu para molhar o lábio inferior.

Porra.

Eu ignorei a forma como meu pau latejava em seus limites de algodão


e me concentrei no momento em que nossas bocas se tocaram. Um toque
simples e quase casto de lábios nos lábios que enviou o desejo correndo por
minhas veias. Era tudo que eu podia fazer para controlar minha necessidade
repentina e quase irresistível de possuí-la completamente. Para explorar
cada centímetro de sua boca e seu corpo. O desejo puro me deixou tonto, e
meus dedos cravaram em seus quadris enquanto eu lutava para me
firmar. Se era assim que um único beijo, eu não conseguia imaginar como o
mundo explodiria quando fizéssemos sexo.

Separei meus lábios, pronta para aprofundar o beijo, mas os dela


permaneceram fechados. Isso também estava bom. Eu não a
pressionaria. Ainda assim, não pude resistir a traçar seu lábio inferior com
a ponta da minha língua, apenas para ter uma ideia de qual era o gosto
dela. Minha mão voltou para sua garganta, em seguida, deslizou para a
parte de trás de seu pescoço, inclinando a cabeça para trás para que eu
pudesse beijar seu queixo. Nada muito escandaloso.

Exceto que ela se afastou, as bochechas estavam vermelhas. —Nós...


não deveríamos.

Não tive a impressão de que ela não estava se divertindo, então


perguntei: —Você não quer?

—Muitas pessoas. — Ela murmurou.

Isso fazia sentido. Ela pode ter gostado do jeito que eu olhei para ela,
mas ela não era o tipo de pessoa que gostava de atenção geral. Eu poderia
cuidar disso embora. —Meu carro está lá atrás.

Ela me deu um olhar de desaprovação. —Você tem bebido.

Afastei alguns fios de cabelo de seu rosto. —Quem disse que precisamos
dirigir para qualquer lugar?

O significado das minhas palavras clicou um segundo depois. —Oh.

—Podemos ficar se você preferir. — Abaixei minha mão para pegar a


dela. —Podemos dançar mais um pouco. O que você quiser.

Ela balançou a cabeça. —Eu quero... quero dizer... — Ela olhou para a
garota asiática com quem dançava antes, e a garota dançou alguns passos
mais perto para que Lumen não precisasse gritar. —Eu… estou me
afastando um pouco. Com Alec. Hum…
A garota piscou e balançou os dedos para Lumen, depois olhou para
mim, estreitando os olhos. Ela apontou um dedo para mim, então o passou
pelo pescoço, sua ameaça perfeitamente clara, sem uma única palavra sendo
dita.

Eu dei a ela um aceno de cabeça para que ela soubesse que eu sabia que
ela causaria muita dor se eu machucasse sua amiga. Eu apertei a mão de
Lumen enquanto voltava minha atenção para ela. —Devemos?

Ela acenou com a cabeça, suas bochechas brilhando o suficiente para


serem vistas mesmo na luz fraca do bar. Eu coloquei minha mão na parte
inferior de suas costas e a conduzi para fora do pub. Meu coração estava
batendo forte, e não por causa da dança.

Desde que investi no bar quando Duncan o abriu pela primeira vez,
meu carro estava estacionado em uma das quatro vagas de estacionamento
para funcionários atrás do edifício. Graças a um beco estreito que vai do bar
à entrada da garagem e a um muro alto de tijolos ao redor do
estacionamento, teríamos muita privacidade.

—Que tipo de carro é esse? — Lumen perguntou quando nos


aproximamos do meu carro.

—É um Maybach 62 Landaulet. — Eu disse enquanto abria a porta dos


fundos mais próxima. Com um design único, o Landaulet tinha uma janela
divisória que separava os bancos dianteiros e traseiros, semelhante a uma
limusine. A divisória estava abaixada agora porque eu dirigi o carro hoje, e
ela foi capaz de ver que a área dianteira tinha acabamento em couro preto e
a traseira era branca com detalhes em granito preto salpicado de ouro.

Eu sorri ao ver o olhar surpreso no rosto de Lumen. Eu não tinha


comprado o carro porque queria me exibir, mas tinha que admitir que estava
gostando de vê-la reagir a ele. —Sente-se.

Ela deslizou para dentro, passando as mãos sobre tudo. —Nunca tinha
visto um carro como este antes.
Eu subi no assento ao lado dela. —Bem, apenas oito foram feitos, então
faz sentido.

Isso a fez rir, o que me fez pensar que ela não sabia que eu estava
falando sério. Mas isso estava bom para mim. Eu gostava de olhar para suas
covinhas. E seus olhos. E sua boca. E... foda-se. Eu só gostava de olhar para
ela, ponto final.

Inclinei-me em sua direção e esperei para ver o que ela poderia


fazer. Quando ela estendeu a mão para mim, meu pulso acelerou
novamente, e então sua boca tocou a minha, e eu não me importei com nada
além dela. Eu resisti ao desejo de assumir, deixando-a assumir a
liderança. Seus lábios se separaram um pouco e eu segui seu exemplo,
combinando meus movimentos com os dela, agradáveis e lentos.

Adorei a emoção de aprender o estilo de beijo de uma nova parceira,


mas nunca tinha experimentado nada assim antes. Todas as outras
mulheres com quem estive agiram como se tivessem algo a
provar. Contorcendo-se em mim, enfiando as mãos nas minhas calças, esse
tipo de coisa. Normalmente, eu não me importava com isso. Quanto mais
rápido descêssemos, mais rápido eu poderia sair e desaparecer.

Eu não queria isso aqui. Eu queria passar meu tempo com ela. E eu não
queria analisar demais o porquê.

Quando ela colocou os braços em volta do meu pescoço, passei meus


dedos por seus cabelos. Era tão macio e sedoso quanto eu imaginava, e me
perguntei como ficaria espalhado no meu travesseiro. Qual seria a sensação
de roçar minhas coxas enquanto seus lábios macios exploravam...

Por fim, senti sua língua contra a minha. Só uma dica no início, depois
um pouco mais. Ela tinha gosto de limão. Eu segurei sua bochecha enquanto
acariciava sua língua com a minha, lenta e gentilmente para não assustá-
la. Eu não sabia nada sobre seu passado, mas podia sentir o quão cautelosa
ela era e, por mais que eu a quisesse, queria que ela se sentisse segura
comigo. Eu acariciei sua bochecha com meu polegar, sentindo a
covinha. Enquanto nos beijávamos, ela sorriu, e eu senti um ponto raso sob
meu polegar. Perfeita.

Eu não pude deixar de puxar seu corpo um pouco mais perto do meu,
no entanto. Eu queria mais. Eu queria tudo dela, e com uma intensidade
que nunca senti antes. Uma de suas mãos agarrou meu antebraço e sua
respiração se acelerou, a reação o suficiente para tentar meu tênue
controle. Ela era inebriante, cada beijo melhor do que uísque.

Coloquei a mão em seu joelho e a senti ficar tensa, mas ela não se
afastou. Encorajado, eu corri minha mão até o meio da coxa. Suas pernas
eram irresistíveis, e eu gostaria que ela estivesse de saia. Seu lábio inferior
tremeu e eu o capturei entre meus dentes, puxando por um momento antes
de acalmá-lo com um beijo. Ela gemeu e eu estremeci. Droga, eu poderia
fazer isso com ela a noite toda se ela continuasse fazendo aquele som.

Mudei minha boca para seu pescoço enquanto deslizava minha mão
mais alto em sua perna. Suas calças podem ter parecido com couro, mas
pareciam mais leggings, um material mais fino que me deixava sentir o calor
dela.

—Alec... — ela sussurrou. Ela amassou minha camisa em suas mãos,


puxando-a como se ela quisesse.

Eu cantarolei em resposta e minha mão subiu um pouco mais. Quando


meu polegar roçou perto da dobra de sua coxa, ela se encolheu com força o
suficiente para me fazer me afastar instintivamente, minha cabeça girando.

Ela parecia mortificada, o rosto corado. —Eu... eu... sinto muito.

—O que é isso? — Eu perguntei, completamente confuso, mas ela


estava procurando a maçaneta da porta. —Lumen, fale comigo.

Ela abriu a porta e balançou as pernas para fora. —Eu sinto muito!
— ela disse novamente antes de bater a porta atrás dela.

Saí do outro lado e me levantei, olhando por cima do meu carro, mas
ela já estava desaparecendo no beco.
—Lumen! — Eu chamei seu nome mesmo sabendo que não adiantaria.

Ela se foi, e o único pensamento que continuava circulando em minha


cabeça era “como eu poderia encontrá-la novamente?”
NOVE

EU PENSEI que meu novo trabalho iria monopolizar o suficiente meu


tempo para que eu não fosse capaz de gastá-lo pensando em Alec. Eu estava
errada.

Fazia quase uma semana inteira desde o meu... encontro com ele, mas
do jeito que meu cérebro ficava obcecado por isso, era como se tivesse
acontecido na noite passada. Então, de certa forma, aconteceu porque todas
as noites, no momento em que fechei os olhos, eu o via novamente. Eu
conseguia senti. Experimentei cada fragmento de sobrecarga sensorial como
se estivesse acontecendo pela primeira vez. Não importa o quão exausta eu
estivesse, sempre sonhei com isso e acordei ofegante, meu corpo à beira de
algo explosivo.

Eu não sou uma idiota. Eu sabia o que era um clímax. Eu simplesmente


nunca experimentei um. Privacidade nunca foi fácil de encontrar em um
orfanato. Quartos compartilhados. Banheiros compartilhados, geralmente
com fornecimento limitado de água quente. Nunca considerei importante o
suficiente buscar ativamente o tempo e o espaço para tentar me esforçar
para chegar a um. Eu nunca pensei que estava perdendo algo até que fugi
de Alec.

Eu não tinha contado a Mai. Ela perguntou o que tinha acontecido, é


claro, e eu disse a ela uma verdade parcial. Eu disse a ela que Alec e eu
tínhamos ficado um pouco, mas eu não queria que as coisas fossem muito
rápido, então pedi a ele para me levar para casa. Ela ficou impressionada
que ele não tentou me pressionar em algo mais, especialmente porque
parecia que as coisas estavam esquentando entre nós. Quando ela
perguntou por que ele não ligou, eu disse a ela que não tinha dado meu
número a ele. Pelo menos essa era a verdade.
Depois que minha conversa estranha com ela acabou, tentei me
concentrar no meu trabalho. As aulas não começaram até a próxima terça-
feira, mas a maioria das pessoas não percebeu quanto trabalho preparatório
foi necessário para preparar uma sala de aula e um currículo para um novo
ano letivo. Eu passei a semana passada conhecendo os outros professores e
professoras, me acostumando com o layout da escola e dando os toques finais
em meus planos de aula. Graças a alguns problemas com o encanamento,
não consegui entrar na minha sala de aula até hoje, mas assim que cheguei
esta manhã, disseram que estava pronta para mim.

Na faculdade, fiz várias aulas de línguas estrangeiras antes de


trabalhar em uma escola de baixa renda. Eu estava decidido a ensinar
crianças que cresceram como eu. Em vez disso, recebi uma oferta de
emprego em uma escola primária de bastante prestígio. Eu fui para a
entrevista preparada para fazer uma lista de todas as razões pelas quais
esta escola não era o que eu queria. Em seguida, o conselho escolar elogiou
um artigo que eu fiz no meu último ano de faculdade sobre o assunto das
responsabilidades dos privilegiados para com os menos afortunados e como
essa forma de pensar precisava começar na escola primária. Eles me
ofereceram a chance de colocar minhas teorias em prática com minha
própria aula, e eu não fui capaz de resistir.

Assim que entrei em minha sala, fiquei grata pela secretária ter me
dado instruções em vez de caminhar comigo, porque minha expressão
quando vi minha sala de aula pela primeira vez era nada menos do que um
tapa na boca. Pisos de madeira e paredes apaineladas. Janelas voltadas
para o sul que permitiriam a entrada de muita luz natural. Estantes cheias
de livros lindamente encadernados, clássicos e também títulos populares
mais recentes. Cadeiras e mesas robustas feitas de madeira real em vez do
painel de partículas comum, bem como o que há de mais moderno em móveis
sensorial e inquietante. Minha mesa parecia algo saído de um escritório, em
vez de um pedaço de metal velho e gasto. A cadeira era ergonomicamente e
esteticamente agradável.

Foi mais do que eu poderia ter imaginado, e levei alguns minutos para
processar o suficiente para começar a desempacotar minhas
coisas. Cartazes foram colocados nas paredes com as faixas de comando
fornecidas pela escola. Depois veio o quadro de avisos, uma mensagem de
boas-vindas aos alunos que foi divertida e informativa. Eu tinha escolhido
cuidadosamente tudo que as crianças veriam, sabendo que o que elas vissem
quando entrassem na sala de aula pela primeira vez configuraria seu ano
inteiro, para o bem ou para o mal.

Assim que terminei minha mesa, mudei para o Smart Board10. Nós
tínhamos usado um em algumas de minhas aulas de educação e a escola
onde eu dei meu ensino de alunos tinha um, mas este era meu, e eu queria
estar bem familiarizado com ele quando o usasse na aula.

Conforme eu praticava a escrita, a música em meu telefone mudou e


uma nova música começou a tocar. Instantaneamente, eu estava de volta ao
MacLean, balançando com a batida, as mãos de Alec em meus quadris. E
então suas mãos estavam em outro lugar. E sua boca...

Eu não estava bêbada e, pelo que dizem, deveria tê-lo rejeitado


novamente depois do que ele fez no trabalho, mas não o rejeitei. Eu não o
impedi de me beijar. Eu fui com ele até o carro, sabendo que as coisas iriam
além de uma dança e um beijo razoavelmente casto. E eu deixei as coisas
irem mais longe quando estávamos no banco de trás.

Droga! Eu balancei minha cabeça. Este era o último lugar do mundo


em que era apropriado pensar nessas coisas. Pelo menos agora, minha sala
de aula estava vazia. Mas na terça-feira, assim que as aulas oficialmente
começassem, eu teria uma classe de alunos impressionáveis da terceira série
observando cada movimento que eu fizesse.

Eu precisava parar de pensar nele, no que tínhamos feito. Foi uma


decisão precipitada causada pelo estresse e álcool suficiente para deixar
minha cabeça confusa.

Exceto... que houve uma conexão entre nós. Eu tinha caras tocando
minha mão, meu ombro. Eu dancei com alguns. Eu não era freira ou coisa

10 Um quadro interativo.
parecida. Mas nenhum desses homens jamais me fez querer mais. E eu
definitivamente queria mais dele.

Mais de uma maneira que eu nunca tive ninguém antes.

Parte disso era físico, e enquanto isso fazia meu corpo inteiro esquentar
com a combinação de excitação e vergonha, sexo não era a razão de eu estar
com medo. Claro, eu estava nervosa com isso, sobre me deixar ser
fisicamente vulnerável, mas foi o além do físico que fez minhas entranhas
se retorcerem.

Passei minha vida em multidões e nunca fui vista. Lares adotivos onde
as crianças dormiam no chão e sofás para que os “pais” pudessem receber o
máximo de cheques possível. Escolas onde a proporção de alunos por
professor era impossível e os bons alunos se perdiam na confusão. Um lar
para grupos com outras crianças que eram muito velhas e ninguém queria.

Ninguém me quis para nada de bom até que eu conheci Mai. Até meus
pais se cansaram de mim quando eu tinha sete anos, depois de anos me
ignorando e me negligenciando, eles me entregaram ao estado. Sempre fui
um fardo. Um cheque de pagamento. Algo para mexer.

E então Mai me abraçou e me levou para casa, para sua família. Os


Jins gostavam de mim e me incluíam em todas as suas férias e eventos
familiares, mas eu sempre estava ciente de que era uma estranha. De não
pertencer. Não por causa de alguma coisa que eles fizeram, mas por causa
de algo que estava faltando.

Se alguém me pedisse para dizer o que era esse algo, eu não poderia ter
feito isso. Eu não sabia o que era, apenas que existia... e sempre me lembrou
que eu estava sozinho. Que ninguém iria me querer.

Exceto que eu tinha visto nos olhos de Alec. Ele me queria. Sim,
fisicamente, mas mais do que isso. Se ele só quisesse sexo, ele não teria
dançado comigo em primeiro lugar. Ele nunca me empurrou, nem uma
vez. Ele parou assim que percebeu que eu não estava mais nisso. Eu não
tinha exatamente ficado por perto para ver como ele enlouqueceu, mas
quando ele gritou atrás de mim, ele não parecia com raiva.
Teria me dado esperança se realmente tivesse ouvido falar dele desde
então.

Então eu me lembrei de que ele não tinha meu número e que eu


precisava me concentrar no meu trabalho. Na realidade e não na fantasia
que sempre prometi a mim mesma que não iria me permitir.

Suspirei. Não era assim que eu queria ser hoje.

De repente, minha nuca formigou e minha espinha se enrijeceu. Não


ouvi nada nem vi ninguém, mas senti que estava sendo observada e aprendi
a sempre levar a sério esse tipo de sentimento. Olhei para a porta da sala
de aula e vi o vice-diretor da Escola Kurt Wright encostado na porta,
sorrindo maliciosamente.

Ele era apenas alguns centímetros mais alto que eu, e magro, com um
corte curto de cabelo cor de trigo e um terno cinza-ardósia mal ajustado. Eu
não o conheci oficialmente, mas ele foi apontado para mim por outro
professor hoje cedo. A maneira como Siobhan rapidamente nos dispensou
por um corredor diferente antes que pudesse nos ver me disse que o vice-
diretor Cornelius Harvey era tão desagradável quanto seu nome o fazia
soar. Ela não me disse nada específico, mas eu tinha minhas teorias.

—Você deveria usar a escova verticalmente. — Ele disse quando olhei


para ele.

—Não entendi?

—Sempre que você tiver que usar o quadro-negro, certifique-se de


escovar verticalmente, assim. — Disse ele. Ele fez gestos amplos para cima
e para baixo com o braço, simulando um espaço muito maior do que o
pequeno quadro-negro pendurado na parede oposta. —Não
horizontalmente, assim, — ele continuou, fazendo longos gestos de varrer
de um lado para o outro, estranhamente acenando com a bunda para frente
e para trás enquanto o fazia. —Os meninos vão achar que é uma distração.
Garotos da terceira série olhando minha bunda? Eu realmente não
sabia como responder a isso, então limpei minha garganta e disse: —
Obrigado pela dica.

—O prazer é meu. — Disse ele de uma forma que parecia que realmente
era.

Mas não de um jeito bom. Pelo menos não para mim

Ainda sorrindo, ele entrou na sala de aula. Se ele esperava que eu fosse
praticar o apagamento do quadro-negro, ele estaria esperando muito
tempo. Se ele comentasse sobre isso, eu o lembraria de que só usaria o
quadro-negro nos raros casos em que meu quadro inteligente não
funcionasse. Talvez eu contasse a ele que planejava fazer com que meus
alunos apagassem tudo.

—Eu já vi você por aí, — Harvey continuou. —Mas ainda não tive
tempo de dizer oi. Ser o vice-presidente me mantém mais ocupado do que
você pensa. Mas eu acho que é o que é preciso para aquele doce pagamento,
hein?

Ele riu e me lembrei das hienas de O Rei Leão - não de uma forma
positiva. Fiz uma careta de sorriso quando cruzei os braços, não pensando
até que fosse tarde demais que provavelmente não deveria ter feito
isso. Quando seu olhar caiu para meus seios, sufoquei uma maldição. Pensei
em chamá-lo, mas no final decidi que antagonizar alguém de autoridade
antes mesmo de ter a chance de dar um ensinamento real provavelmente
não era sábio. Especialmente porque ele provavelmente negaria, e todo o
encontro acabaria sendo uma situação de “ele disse, ela disse”. Melhor ser
cauteloso.

—Cornelius Harvey, — disse ele, estendendo a mão. —A maioria das


pessoas me chama de “veep”. Mas você pode me chamar de Harv.

Consegui não fazer uma careta ao apertar sua mão suada. —Lumen
Browne. Você pode me chamar de Sra. Browne.
Ele riu, como se eu estivesse brincando. Não o corrigi, concentrando-me
mais em tentar soltar minha mão.

—Prazer em conhecê-la, Lumen. É sempre bom ver recém-formados se


juntarem à equipe. Faz-me ansioso por cada novo setembro.

—Estou feliz por fazer parte da Escola Kurt Wright, — eu disse sem
jeito enquanto esfregava disfarçadamente a palma da mão no quadril. —Um
dos meus professores recomendou especificamente o KWS para qualquer um
de nós que estivesse interessado em uma experiência educacional
diversificada.

—Quem é seu professor? Eu conheço todos os professores ligados à


escola.

De alguma forma, eu duvidei disso. —Jewel Abbey.

Ele franziu a testa. —Oh.

Eu me perguntei o quanto dessa reação foi porque eu citei alguém que


ele não conhecia, ou porque o professor em questão era uma mulher.

—Onde você estudou na faculdade?

Embora pudesse ter sido uma pergunta perfeitamente inocente, não


achei que fosse incorreto presumir que muito pouco com ele era inocente. —
Seattle Pacific.

Ele sorriu. —Isso explica tudo.

O que diabos isso queria dizer? —É uma boa universidade. — Minha


voz estava tensa, mas pelo menos não acusatória.

Ele me mostrou as palmas das mãos, dando-me o tipo de olhar “ai, que
droga” que eu tinha visto nos rostos de muitos políticos desprezíveis. —Não,
não, claro que é. Não é apenas um assunto sobre o qual tendemos a ouvir
falar muito no setor público.

Não disse que o KWS não era uma escola pública. Eu sabia o que ele
queria dizer. Seattle Pacific era uma universidade cristã. Eu não o tinha
escolhido por seus valores religiosos, no entanto. Uma das mulheres que
tinha se oferecido em um dos programas depois da escola que eu tinha
frequentado no colégio era uma ex-aluna, e ela me deu uma recomendação
brilhante... e alguma ajuda para se inscrever para algumas bolsas de estudo.

—É que sempre tendemos a cuidar dos nossos, certo? E por aqui, isso
significa que Washington U tem prioridade. Claro, há exceções para os
excepcionais.

Eu não abri um sorriso quando o último pouquinho da minha paciência


chegou ao ponto de quebrar.

Ele riu para quebrar a tensão. —Olha, Lumen, só estou tentando ser...

—É a Sra. Browne.

Ele pareceu surpreso que eu o interrompi. —O que?

Falei mais devagar, tornando cada palavra claramente deliberada. —


Prefiro ser chamada de Sra. Browne no trabalho.

Harvey me encarou por um minuto como se esperasse que eu risse. Eu


não fiz. Ele fez isso. Novamente.

—Tão formal! Já está bêbado daquele poder de professor recém-criado,


hein? Ei, o que você disser, Stra. Browne. — Seu olhar varreu meu corpo até
pousar na minha mão esquerda. —Ou é a senhora?

—Senhorita, — eu disse bruscamente. Se ele queria ser um idiota sobre


isso, tudo bem. Eu estava cansada de jogar bem. —Embora eu prefira a Sra.

Pode ter sido mais seguro para mim mentir sobre ser casada, mas não
deveria ter que fingir pertencer a um homem para que meu desinteresse
fosse válido. Só porque eu era uma pessoa geralmente quieta e educada não
significava que deixava as pessoas pisarem em mim.

—Eu gosto mais da Sra. Também, — disse ele com um leve sorriso de
escárnio. —Muito profissional. E como eu te chamo se acabarmos saindo
para almoçar?
Eu queria perguntar a ele se ele estava sendo deliberadamente obtuso
ou se sua falta de habilidade para ler as pessoas se aplicava apenas às
mulheres, mas algo me disse que não iria cair bem. Eu só podia esperar que
minha tolerância durasse mais que sua idiotice.

—O mesmo. As reuniões da escola fora do prédio não são diferentes, —


eu disse, cruzando os dedos para que ele entendesse a dica.

Não tive essa sorte.

—Meu Deus, garota! Nunca saímos para almoçar. Seria visto como
“perda de tempo”.

Quase consegui ouvir as aspas no ar. Embora eu soubesse que os


professores costumavam ser aproveitados por pessoas que pensavam na
educação como um campo fácil, preenchido por pessoas que trabalhavam das
oito às três e tinham todo tipo de folga durante o ano, esta escola não estava
exatamente doendo por dinheiro. Como uma nova professora que ainda não
tinha concluído o mestrado, eu estava no último degrau da escala salarial e
fiquei chocada com o salário do meu contrato. A escola não havia mudado de
nome quando se tratava de quem eram seus patrocinadores ou pais, mas eu
estava começando a ficar curioso.

—Não, eu estava pensando só em você e eu, um bom sushi, talvez um


pouco de vinho. Eu conheço o melhor restaurante de sushi da cidade. Por
minha conta, não se preocupe.

Eu não era uma pessoa superficial, mas ele devia ser quase vinte anos
mais velho do que eu e ainda não tinha me mostrado nada que tivesse a
oferecer que me fizesse sequer pensar em sair com ele. —Beber antes da
aula seria completamente irresponsável e inapropriado.

As palavras saíram da minha boca não mais de dois segundos antes de


eu perceber meu erro. Eu abri minha boca para garantir que ele soubesse
que almoçar com ele estava totalmente fora de questão, não importa quando
ou onde ou o que mais ele tentasse-

—Neste sábado, então.


Porra.

Eu balancei minha cabeça. —Estou ocupado no sábado.

—Domingo, então. Ou segunda-feira. Fim de semana prolongado, baby!


— Ele riu e rapidamente limpou a garganta. —Quero dizer... Ssssenhorita
Browne. — Ele puxou o som como uma cobra, de alguma forma pensando
que era encantador.

Não foi.

—Não, — eu disse categoricamente. Se ele não pudesse aceitar um não


direto como resposta, isso poderia acabar se tornando um grande problema.

—Ei, pense nisso! — ele insistiu, mostrando-me as palmas das mãos


novamente e recuando em direção à porta. —Por que você não sonha
nisso? Eu sei que vou.

Eu nem queria pensar sobre o que isso poderia significar. —Sr. Harvey,
—eu disse, — eu não irei.

—Vejo você amanhã, Lumen! — ele gritou por cima de mim, acenando
enquanto recuava pela porta. —Mantenha o bom trabalho! Vamos
conversar sobre o almoço! Paz!

E ele se foi.

—–Confortável com isso, — eu terminei quando a porta se fechou. Pelo


menos isso significava que eu estava sozinho na sala de aula quando soltei
uma série de palavrões tão desagradáveis que raramente saíam da minha
boca.

Este foi o não de como eu queria meu primeiro emprego como


professora de acabar.
DEZ
ALEC

NORMALMENTE, eu tinha Evanne um a dois fins de semana por mês,


dependendo de como estava indo o trabalho, mas fins de semana de três dias
como o Memorial Day ou o Dia do Trabalho, esses eram meus e tão
inadequados quanto eu às vezes me sentia quando se tratava de cuidar de
uma criança de oito anos. Adorei ter aquele dia extra.

Algumas semanas atrás, Keli me pediu para tirar um dia extra neste
fim de semana, deixando Evanne na noite de quinta-feira em vez de noite
de sexta-feira. No início, pensei em dar uma desculpa, mas senti uma onda
de culpa depois de alguns segundos. Keli sempre foi tão boa com o nosso
acordo que eu me senti um completo bastardo dizendo a ela que não poderia
tirar um único dia a mais da empresa que minha família possuía.

Eu verifiquei com minha assistente, Tuesday Boswell, e ela me


garantiu que o MIRI - McCrae International Research Institute - poderia
sobreviver sem mim por quatro dias. Eu quase gritei com ela por ser tão
presunçosa, mas ela era uma excelente assistente, e eu poderia ser um
bastardo difícil de se trabalhar às vezes. Felizmente, ela sabia de tudo isso
quando meu pai a contratou para ser minha assistente.

Não foi o tempo extra com Evanne que me deixou nervoso agora. Tudo
isso graças a Keli.

Ela passou as últimas duas semanas me enviando mensagens de texto


com lembretes regulares para não preencher minha agenda neste fim de
semana. Como se eu não vivesse e morresse pelos lembretes do meu
calendário em todos os meus aparelhos eletrônicos. Posso ter sido um
workaholic, mas uma das coisas que me tornou um bom workaholic foi o
esforço que coloquei para ser organizado. Não faltei a reuniões. Eu não fiz
dupla reserva. Transcrevi todos os compromissos, pedi à minha assistente
que conferisse meu calendário com o calendário que ela mantinha e, em
seguida, fiz meu programa de transcrição ler minha programação
diária. Cada compromisso tinha um alarme definido dez minutos antes e,
novamente, cinco minutos antes.

Keli e eu não tínhamos tido um relacionamento exatamente sério, mas


ela passou tempo suficiente comigo para saber como eu cumpria
estritamente um cronograma. Na verdade, tivemos mais de uma discussão
sobre minha inflexibilidade, especialmente depois que Evanne nasceu e eu
fiquei chateada porque Keli era mais relaxada em seguir um cronograma do
que eu.

Pelo menos agora, Evanne tinha idade suficiente para entender as


diferenças entre as regras quando estava com a mãe e quando estava
comigo.

A campainha tocou e fechei meu laptop com um gemido. Normalmente,


eu teria continuado trabalhando até tarde da noite, mas não me importei
com o intervalo. Evanne vai para a cama bem cedo, o que significava que eu
seria capaz de voltar a dormir mais algumas horas esta noite.

Olhei para a câmera de segurança no canto do meu escritório para


confirmar que eram de fato Keli e Evanne na porta da frente, então apertei
o botão para destrancar. O sistema de segurança que eu tinha instalado era
semelhante ao que usamos no MIRI, permitindo-me destrancar a porta de
vários pontos da casa. Ele bloqueou automaticamente após alguns minutos,
mas eu poderia fazer alterações nele se quisesse. Achei que, à medida que
Evanne ficasse mais velha e quisesse mais liberdade, eu investigaria isso,
mas, por enquanto, manteria minha filha segura de qualquer maneira que
pudesse.

Saí em direção à entrada e, quando cheguei, Keli já estava lá,


carregando duas sacolas grandes e um rolo de papel em uma das
mãos. Antes que eu pudesse lembrá-la de que Evanne tinha suas próprias
coisas aqui, Evanne saiu de trás da mãe e abriu os braços. —Papai!

—Olá! — Eu me inclinei para pegá-la. Nunca fui muito abraçador, mas


fiz pesquisas suficientes para saber que o contato físico positivo era
importante para as crianças, e alguns estudos chegaram a afirmar que o
relacionamento de uma criança com o pai do sexo oposto - se houver algum
envolvido na vida da criança - era ainda mais importante.

Eu nunca deixaria minhas próprias idiossincrasias prejudicarem


minha garotinha. Era o mínimo que eu podia fazer por ela.

Keli e eu nos separamos pouco depois do nascimento de Evanne. Não


tinha sido uma gravidez planejada ou o relacionamento mais ideal, mas eu
queria pelo menos tentar fazer as coisas funcionarem. Pelo bem do
bebê. Keli também achava que era isso que ela queria, mas não demorou
muito para que percebêssemos que queríamos coisas diferentes. Eu poderia
ter ficado satisfeito com a forma como as coisas haviam acontecido entre nós
- ou pelo menos me convencido disso - mas Keli queria mais, e eu não fui
capaz de dar a ela. Fui honesto com ela sobre isso e decidimos terminar
antes que Evanne se acostumasse a nos ver juntos.

Organizar as coisas uma vez que a decisão foi tomada foi mais fácil do
que eu esperava. Paguei uma quantia generosa para pensão alimentícia e
Keli voltou a seguir a carreira de artista. Eu me certifiquei de que ela tivesse
dinheiro suficiente para trabalhar o quanto quisesse, fosse pintando ou
fazendo outra coisa.

—Pegue o seu narval11, bebê, — disse Keli gentilmente.

Evanne se contorceu em meus braços e eu a soltei. Ela imediatamente


correu de volta para sua mãe, estendendo as mãos para seu narval de
pelúcia, Norbert. Ela o agarrou com força, dançando, cantarolando para si
mesma.

—Você parece bem, — eu disse, sem jeito, enfiando as mãos nos


bolsos. —Você mudou seu cabelo?

11É uma baleia dentada de tamanho médio e o animal com os maiores caninos. Vive durante todo o
ano no Ártico. É uma das duas espécies vivas de baleias da família Monodontidae, junto com a baleia
beluga.
Keli jogou seus longos cachos de ébano por cima do ombro e ergueu uma
sobrancelha perfeitamente esculpida. —Você me viu há duas semanas, e eu
estou exatamente igual.

—Certo.

Um momento de silêncio desconfortável pairou no ar antes que Keli o


quebrasse. —Aqui está tudo o que ela precisa. — Ela gesticulou para as
sacolas que colocara no chão. E duas coisas que não notei da primeira vez.

Uma lancheira e uma mochila.

Eu fiz uma careta, mas não falei diretamente. Mesmo que nossa filha
não parecesse estar prestando atenção, nunca gostei de parecer hostil com
Keli. —Ela tem roupas aqui.

—Você vai precisar disso, — Keli continuou, como se eu não tivesse dito
nada. Ela me entregou uma folha de papel verde e eu olhei para ela. Eu
tinha certeza de que dizia Horário escolar, mas não fazia sentido. Havia um
grande gráfico de blocos abaixo dele com mais algumas palavras que não
consegui me concentrar agora porque não tinha ideia do que estava
acontecendo.

—A escola não começa até terça-feira, — eu disse uniformemente. —


Você vai buscá-la segunda-feira, certo?

Keli mordeu o lábio e estendeu outro maço de papéis, cheio de letras


minúsculas. No topo da primeira página, no entanto, havia uma palavra
impressa grande o suficiente para que eu pudesse entendê-la.

Custódia.

—Você sabe que conheci alguém, — disse ela, passando de um pé para


o outro.

—Aquele italiano? — Eu perguntei, sem saber para onde isso estava


indo. Ela o mencionou de improviso antes, mas eu não tinha percebido que
era sério. —Aquele com meu nome?
— Alessandro não é igual a Alec, — ela respondeu com um sorriso. Era
uma piada idiota que eu tinha feito antes, mas ela entendeu de onde
vinha. —E sim. Ele. Estamos apaixonados, Alec.

Meu estômago embrulhou. Eu sabia que esse dia chegaria mais cedo ou
mais tarde, mas não era Keli que estava causando a sensação de mal
estar. Eu me importava com ela, a cobiçava, gostava de estar com ela, mas
nunca a amei.

—Ele vai ser o novo pai de Evanne. — Minha mandíbula cerrou. Eu


nem tinha conhecido o cara. Isso estava acontecendo muito rápido. Se este
documento dissesse que eu não seria mais capaz de ver minha filha...

Os olhos verdes de Keli se arregalaram. —Oh. Não, não e não. Quer


dizer, não...

Ok, eu estava realmente perdido agora.

—Alessandro não vai ser o padrasto de Evanne, — disse ela,


estendendo a mão para colocar a ponta dos dedos no lençol que eu estava
segurando. —Isto é para você.

Obriguei-me a me concentrar e estudei o documento em minhas mãos,


demorando até entender o que estava lendo. Foi um documento de
transferência de custódia. Não de mim para Keli e
Alessandro. Dela para mim.

Eu olhei para a mochila e a lancheira com uma compreensão


repentina. Meus olhos dispararam para Evanne, que sorriu para mim com
aquele sorriso largo e lindo dela.

—Vou para a Itália, — disse Keli.

Eu pisquei. —Repita?

—Estar com Alessandro.

—Keli...

—Estou dando a você a custódia total.


Eu engasguei com minhas palavras. —Quão mais..?

—Não sei, por isso pedi ao meu advogado que redigisse isso em vez de
apenas mudar a custódia primária. Eu não queria que houvesse problemas
legais.

Eu devia estar ouvindo coisas. Talvez eu estivesse sonhando. Talvez eu


tenha batido minha cabeça. Evanne estava cutucando minha perna com o
chifre de pelúcia de Norbert e rindo. Ok, talvez eu estivesse morto. Isso
explicaria tudo.

—Não seria justo levá-la a um lugar onde ela não conheça o idioma, —
continuou Keli. — E... Alessandro não quer... — Ela franziu os lábios, como
se precisasse considerar cuidadosamente o que ia dizer a seguir. —Não
consigo construir um relacionamento em um novo país com uma criança.

—Você não acha que isso significa...

—Não, — disse ela bruscamente, levantando a mão. —Você não tem


ideia de como é difícil namorar quando você é uma mãe solteira. Tive a sorte
de encontrar Alessandro.

Eu cerrei meus dentes. —Não era como se você não tivesse uma palavra
a dizer sobre o acordo de custódia para começar. —Você não pode
simplesmente...

—Assim que Alessandro e eu nos instalarmos, ligarei e discutiremos o


que acontecerá a seguir, — interrompeu Keli, ajoelhando-se para abraçar
Evanne como se ela não tivesse acabado de lançar uma bomba no meio da
minha vida. —Tchau, menina. Você vai ser bom para o papai como
conversamos, certo?

—Uh huh, — concordou Evanne. Essa pequena linha entre as


sobrancelhas indicava que ela sentia que algo estava errado.

Isso tendia a acontecer quando as pessoas eram surpreendidas.

Keli não olhou para mim enquanto falava com nossa filha. —E você vai
tirar boas notas e se divertir na escola, certo?
—Você e o papai estão brigando? — Evanne perguntou, seus olhos azuis
brilhantes brilhando com a ameaça de lágrimas.

—Não, baby, — disse Keli imediatamente.

—Não, amorzinho, não, — eu disse com a mesma rapidez, dando um


tapinha no topo de sua cabeça.

—Ligarei em breve, ok? — Keli disse com um sorriso brilhante e


alegre. —Sem lágrimas, agora. Lembre-se do nosso acordo.

Evanne acenou com a cabeça, fungando.

—Essa é minha garota. — Keli beijou Evanne na testa e se levantou


novamente. —Eu tenho que ir, Alec, — ela disse em um tom calmo e
apressado. —Lembre-se, a escola começa terça-feira às oito horas. Todas as
informações estão na programação. Você vai se sair bem.

—Keli. — Dei um passo em sua direção, mas ela já estava abrindo a


porta.

Ela acenou para Evanne, balbuciando: —Tchau!

—Keli, — repeti, com mais insistência.

—Ligo para você em breve! — ela disse, virando-se e indo embora.

Eu abri minha boca, mas era tarde demais. Keli havia sumido.

—Podemos comer pizza no jantar todos os dias? — Evanne me


perguntou, sorrindo timidamente. Ela parecia ainda estar à beira de chorar,
sem saber se tudo estava bem ou não. Pizza sempre foi uma boa distração.

—Hum, — eu disse, lutando por algo para dizer, mesmo enquanto


tentava envolver minha mente em torno do que tinha acontecido. —Escute,
docinho. Você, ah... você vai ficar aqui por mais tempo do que o fim de
semana... então...

Evanne não pareceu surpresa com o fato. Pelo menos eu não teria que
lidar com um choque.
—...Eu não acho que posso pedir pizza todos os dias, — eu continuei. —
Você vai ter que se acostumar com a comida do papai.

Ela torceu o nariz. —Tudo o que você quer cozinhar são bifes. Os bifes
são feitos de vacas, você sabe.

—Essa não é a única coisa que eu... — Suspirei. —Ok, que tal um
acordo? Pizza hoje à noite, e vamos preparar algumas refeições que ambos
gostamos para o futuro. Presunto e abacaxi com queijo extra, certo?

—Certo! — ela disse triunfantemente. Acho que Keli nunca explicou a


ela de onde veio o presunto. Ou talvez os porcos simplesmente não fossem
tão fofos quanto as vacas.

Quem sabia como funcionava a mente de uma criança de oito anos.

E quem sabe quanto tempo eu teria que descobrir agora.


ONZE

JÁ ERA TEMPO.

Enquanto vários pais e alunos entravam na sala de aula, tentei não


mostrar como estava completamente petrificada. Não era apenas o
nervosismo normal que eu teria sentido na minha primeira visitação pública
em qualquer outra escola. Esse não era o mesmo tipo de pessoa com quem
eu cresci. Kurt Wright era uma das melhores, mais exclusivas – e mais caras
– escolas particulares de Seattle, o que significava que as pessoas eram as
melhores, mais exclusivas – e mais ricas – da cidade.

Os pais geralmente mais velhos usavam ternos, com o ocasional


magnata da startup vestindo suéter mais jovem entre eles. As mães
elegantes usavam terninhos e blazers ou vestidos da moda, mas
conservadores. Todos tinham mais joias nos dedos, no pescoço ou nas
orelhas do que eu jamais tinha visto. Parecia haver mais mães do que pais,
e algumas pessoas que realmente não pareciam fazer parte da alta
classe. Meu palpite, eram babás ou tutores, embora alguns homens e
mulheres de cabelos prateados possam ter sido avós.

Depois, havia as crianças. Todas arrumadas, limpas, frescas e


totalmente diferente das crianças com quem passei minha vida. Mesmo as
crianças mais ricas nas escolas que eu frequentava enquanto crescia não
eram nada comparadas com as que andavam por aqui como se fossem donas
do mundo.

Deve ter sido bom nascer com esse tipo de confiança.

Inferno, eu gostaria de ter esse tipo de confiança quando adulta.

Eu tinha muitos pensamentos na minha cabeça.

O mais alto deles era que os pais saberiam que eu não pertencia aquele
lugar, que eu não era qualificada para ensinar seus filhos amados. Que me
vissem como muito jovem, ou muito pobre, ou da escola errada, do lado
errado dos trilhos.

Simplesmente errada em todos os aspectos que possivelmente


importavam.

Mesmo com todos esses pensamentos desfilando em minha mente,


continuei sorrindo e cumprimentando todos que se aproximavam, o tempo
todo tentando me lembrar de respirar. As crianças eram educadas, embora
eu tivesse a sensação de que algumas delas só eram assim porque os pais
estavam aqui.

Acho que descobriria quem seriam as crianças problemáticas assim que


as coisas começassem. Alguns dos pais foram educados, mas a maioria foi
brusca, tratando-me da mesma forma que presumi que tratassem todos os
seus funcionários. Porque isso é o que eu estava em suas mentes. Uma
empregada.

Uma jovem mãe entrou e deu uma olhada em minha sala de aula com
um olhar instantâneo de desaprovação. Ela estava segurando o filho pelos
ombros – um garoto loiro com cabelo raspado nas laterais e bem repartido
em cima. Ele parecia desconfortável em vez de rebelde, o que era bom, já
que eu tinha certeza de que eles não estavam apenas curiosos ou olhando
para onde seu filho estaria em um ano ou dois. Eu só tinha dois alunos que
ainda não conhecia e tinha a sensação de que esse menino era um deles.

—Como muitas crianças estão nesta classe! Quantas são? — ela me


perguntou, sua voz afiada.

—Dezoito no total, — eu disse e ofereci minha mão. —Eu sou Lumen


Browne. É tão bom conhecer...

— Dezoito? — a mulher zombou, ignorando a saudação. —Como é que


Skylar deve receber a atenção adequada com tantas outras crianças aqui?

A maneira como ela disse a palavra me fez querer perguntar o que ela
pensava que seu precioso Skylar era se não uma criança. Eu sabia como me
comportar. Eu tinha muita prática em manter meus pensamentos para mim
mesmo e fingir que as coisas estavam bem quando não estavam. Essas
pessoas podem ter sabido como fazer uma cara legal para a sociedade
educada, mas isso não era nada comparado às lições que eu aprendi
enquanto crescia.

O que significava colocar um sorriso e fingir que não queria dizer algo
completamente impróprio para crianças.

—Oi, Skylar, sou a Sra. Browne, — eu disse, inclinando-me um pouco


para combinar com a altura de Skylar. —É um prazer conhecê-lo.

—Você também. — Disse Skylar timidamente.

— É um prazer conhecê-la também, — sua mãe pronunciou cada


palavra cuidadosamente. Para ele, não para mim.

Skylar repetiu palavra por palavra. Ele tinha o olhar tenso e frustrado
de alguém que estava acostumado a repetir as coisas quando sua mãe o
corrigia. O que parecia que ela fazia muito.

—Sinta-se à vontade para encontrar um assento em qualquer lugar, —


eu disse, sem falar sobre o comportamento dela. Não há necessidade de
irritar um pai antes mesmo de o ano começar. —Começaremos em um
minuto.

—Vou ficar em pé. — Disse-me a mulher, empurrando o filho pelos


ombros como um carrinho de bebê.

Verifiquei minha folha de presença novamente, embora já soubesse o


nome do aluno que ainda não estava aqui. Evanne McCrae, registrada pela
mãe, Keli Miller. Ou elas estavam atrasadas ou não se importavam com a
visitação pública. De qualquer forma, era hora de começar.

Fechei a porta da sala de aula, levei um segundo para me equilibrar e


depois me virei para os pais e alunos com quem trabalharia este ano. Depois
de cumprimentá-los educadamente e lembrá-los do meu nome, passei direto
aos currículos, às políticas e procedimentos da escola, às expectativas da
sala de aula e aos padrões gerais. Então, abri para perguntas.
Provavelmente é uma má ideia.

Fui bombardeada com perguntas, mas de alguma forma me lembrei de


continuar respirando e fiquei composta o tempo todo. Assim que terminei,
informei a todos que havia refrescos sendo servidos, mas eles também eram
bem-vindos para ficar aqui para conversar comigo e entre si.

Pareceu uma eternidade quando cheguei a uma pausa no fluxo de pais


com todo tipo de perguntas curiosas, mas uma olhada no relógio me disse
que eu ainda tinha noventa minutos antes de começar a pensar em ir
embora.

Eu tinha acabado de tomar um gole da minha garrafa de água quando


uma mulher mais velha, talvez em seus cinquenta e poucos anos, correu
para a sala de aula, segurando a mão de uma menina saltitante com longos
cachos castanhos escuros e olhos azuis brilhantes.

—Olá! — disse a mulher, respirando pesadamente. Ela era baixa e


esguia, com cabelos castanho-avermelhados com mechas prateadas. Seu
cabelo e roupas eram simples, mas daquele jeito caro e de bom gosto que me
dizia que ela provavelmente tinha mais dinheiro do que quase todo mundo
aqui. —Eu sinto muito pelo atraso. O pai de Evanne teve uma reunião de
negócios e eu esqueci completamente desta noite até meia hora atrás.

—Está tudo bem. — Eu disse com um sorriso. —Olá, Evanne! Sou a


Sra. Browne. É tão bom conhecer você.

—Realmente? — ela perguntou, parecendo genuinamente surpresa.

Eu ri baixinho, não querendo que ela pensasse que eu estava rindo


dela. —Claro! Estou ansiosa para ser sua professora.

Ela sorriu e ergueu a mão. Eu dei a ela um high-five. Eu já gostava dela


e, se não tomasse cuidado, começaria a escolher as favoritas.

—E você deve ser da Evanne...? — Eu deixei a pergunta morrer em vez


de fazer uma suposição potencialmente insultuosa.
—Avó. — Ela disse. Seus olhos castanhos escuros eram calorosos. —
Sou Theresa McCrae.

—Lumen Browne. — Eu disse, apertando sua mão.

—Maravilhoso em conhecê-la, Lumen.

Eu acreditei nela. Ela parecia o tipo de mulher que não fingiria, não
importa o quão impopular sua opinião ou sentimentos pudessem ser.

—Me desculpe novamente por deixá-la esperando.

—Tentei correr o mais rápido que pude! — Evanne interrompeu.

—Tive dificuldade em acompanhar. — Admitiu Theresa.

Eu ri também. As duas eram um par perfeito. —Você deve ser uma


corredora muito rápida, Evanne.

—Estou treinada para ser uma velocista de maratona, — disse ela


séria. —Ou uma bombeira. Eu ainda não decidi.

Metas impressionantes. —Você pode ser os dois.

Ela considerou minha declaração com uma gravidade além de sua


idade. —Talvez. Mas só correrei no recreio. Eu sei que não devo correr em
sala de aula a menos que seja uma emergência.

—Menina sábia.

Theresa deu um tapinha na cabeça de Evanne, orgulho e amor


brilhando em seus olhos.

—Receio estar um pouco despreparada para isso. — Admitiu


Theresa. Ela segurava um pedaço de papel verde enrolado que reconheci
como uma das programações escolares enviadas para os pais.

—Não se preocupe com isso. Isso é só para você e sua neta sentirem por
dentro e terem uma ideia de como será o próximo ano letivo.

—Você se importa se eu fizer algumas perguntas sobre a programação?

Eu sorri. —Claro que não.


Alguém à minha direita limpou a garganta. Olhei para o marido e a
esposa que estavam parados a alguns metros de distância. A julgar pelas
expressões em seus rostos, eles estavam começando a ficar impacientes.

Theresa seguiu meu olhar. —Lamento novamente por não ter estado
aqui antes para obter todas essas informações já.

—Desculpe! — Evanne acrescentou.

Eu sorri e disse a elas para não se preocuparem. Eu não iria empurrá-


las de lado só porque alguém achava que eles mereciam mais a minha
atenção. Theresa e eu conversamos brevemente sobre os resultados do
aprendizado para o ano, e ela fez algumas anotações em seu smartphone,
me surpreendendo com a facilidade com que ela navegou na tecnologia.

—Posso fazer sprints na academia? — Evanne perguntou de repente,


se intrometendo de volta na conversa.

—Claro. — Eu disse. —Afinal, o ginásio não é uma sala de aula.

—Eu quero ser a garota mais rápida do mundo. Como uma chita. — Ela
enrolou os dedos em garras.

—Isso é muito rápido. — Eu concordei, rindo de sua imitação.

—Papai disse que se eu trabalhar duro, posso fazer qualquer coisa.

—Ele trabalha duro. — Disse Theresa.

Algo na maneira como ela disse isso me fez pensar se esta não era a
primeira vez que ela tinha que trazer sua neta para as coisas porque seu
filho estava trabalhando.

A menos que isso se tornasse um problema com Evanne, no entanto,


não era da minha conta.

—Dá muito trabalho ser o corredor mais rápido, — eu disse, mantendo


minha atenção em Evanne. —E para ser a melhor aluna que puder.

Eu acreditava em estimular os alunos a atingirem seu potencial, mas


também sabia que isso nem sempre significava as mesmas coisas. Alguns
alunos nunca estariam no topo de suas classes acadêmicas. Não tinha
nenhuma relação com a inteligência real, e uma das coisas que eu queria
transmitir a todos os meus alunos era que faria tudo o que pudesse para
ajudá-los a ter sucesso.

—Vou trabalhar duro, — disse Evanne com um aceno definitivo.

—Isso é o que a vovó gosta de ouvir. — Theresa piscou para mim.

—Eu também, — eu disse. —Acho que vamos nos dar muito bem,
Evanne.

—Eu também, Sra. Browne, — disse Evanne, radiante.

Que fofa.

—Por mais que eu goste de conversar com você, tenho algumas outras
pessoas esperando para falar comigo, — eu disse. —Você tinha alguma
outra pergunta para mim?

Evanne ergueu a mão.

—Sim, Evanne?

—Vai haver algum dia de pizza?

—Evanne! — Theresa riu. —Nem tudo gira em torno de pizza, você


sabe.

Com as rígidas restrições alimentares que muitos pais provavelmente


tinham para seus filhos, eu me perguntei quantas crianças procurariam a
escola para dar uma folga.

—Ainda não vi um menu, mas vou verificar. — Eu pisquei para ela. —


Eu também gosto de pizza.

Evanne deu uma risadinha, e essa foi uma nota boa e positiva para
encerrar essa interação.

—Foi ótimo conhecer vocês duas, — disse eu, apertando a mão de


Theresa novamente e dando a Evanne outro high-five. —Sinta-se à vontade
para se misturar e conhecer os outros pais e alunos. Aproveite o resto do seu
fim de semana prolongado e começaremos na terça de manhã.

Enquanto eles se afastavam, eu os observei partir, me sentindo melhor


com este trabalho do que há dias. Talvez se eu me concentrasse nas crianças
e ficasse longe de Cornelius Harvey, esta seria uma oportunidade tão grande
quanto eu esperava inicialmente.

—Espero que isso não seja um hábito, Sra. Browne. Você sabe quanto
eu ganho por hora?

Então, novamente, talvez não.


DOZE
ALEC

AO CONTRÁRIO DO QUE dizem os contos de fadas clássicos, as madrastas


eram uma dádiva de Deus.

Minha mãe não tinha ido por um ano quando meu pai voltou para casa
de uma viagem de negócios à América para dizer que conheceu
alguém. Cinco meses depois, Theresa Gracen Carideo se tornou minha
madrasta e trouxe com seus quatro filhos: Austin, Rome, Paris e Aspen. Eu
tinha passado de um de cinco para um de nove, e me ressenti disso.

Theresa era viúva, então ela não só entendeu a perda, mas ela ajudou
seus próprios filhos depois que seu marido morreu. As coisas não tinham
melhorado magicamente entre nós, mas ela foi tão paciente comigo e meus
irmãos quanto com seus próprios filhos biológicos, e eventualmente
desenvolvemos um relacionamento maravilhoso.

Maravilhoso o suficiente para que depois de colocar Evanne para


dormir na noite de quinta-feira, eu tivesse ligado para Theresa. Ela estava
na minha casa na manhã seguinte. Com Evanne sendo a única neta do meu
lado da família, qualquer chance de ter um tempo extra com ela era recebida
com entusiasmo, mas eu sabia que Theresa teria vindo, não importa quantos
netos ela tivesse.

No momento em que ela entrou, uma onda de alívio passou por


mim. Passei minha vida tentando fazer tudo sozinho, e Theresa sempre
esteve lá para me dizer que eu não precisava. Ela nunca pressionou as
coisas, mas no momento em que Keli foi embora, eu soube exatamente para
quem precisava ligar. E Theresa não me decepcionou.

Da12 teria vindo também, mas ele voltou para Edimburgo por alguns
dias. Embora ele tecnicamente tivesse entregado o MIRI quando eu fiz 21

12 Papai.
anos, ele ainda gostava de visitar vários locais, especialmente em
casa. Theresa se ofereceu para ligar para ele, mas eu pedi que ela não
ligasse. Ele apenas voltaria imediatamente e tentaria consertar as coisas,
mas isso não era algo que pudesse ser consertado. Ou algo que eu realmente
queria consertar da maneira que a maioria das pessoas pensaria.

Da era o tipo de homem que eu teria por perto se eu precisasse lutar


por Evanne. Ele não era mau ou algo do tipo, mas eu sabia que o deixaria
louco se sentir que não havia nada que ele pudesse fazer. O que eu precisava
era o que Theresa havia fornecido. Ajudar com Evanne enquanto eu descobri
pelo menos o suficiente para funcionar no novo papel que recebi.

Eu estava perdendo minha cabeça, claro, mas amava minha filha. Eu


tinha acabado de ser pego de surpresa. Ter Theresa por perto durante o
longo fim de semana enquanto eu ajustava e fazia as ligações necessárias
para garantir que os papéis da custódia estivessem em ordem foi uma
bênção. A última coisa que eu precisava era que Evanne se machucasse e
não pudesse cuidar dela adequadamente porque Keli esqueceu algo na
papelada.

Liguei para minha assistente esta manhã às cinco horas para dizer a
ela que chegaria tarde porque tive que deixar minha filha na escola. Ela
ficou em silêncio por um momento – ajustando-se à surpresa, eu imaginei –
mas então ela me lembrou sobre minha reunião às seis e meia do Skype com
o chefe dos Serviços de Segurança Dherma, uma empresa de segurança que
eu estava trabalhando para adquirir para os últimos sete meses.

Se eu cancelasse ou tentasse reagendar depois de perseguir Hiram


Claudel por meses, nunca teria uma segunda chance, e MIRI ficaria sem
uma tonelada de dinheiro. Mesmo sendo uma empresa enorme e
multibilionária, empregávamos centenas de milhares de pessoas em todo o
mundo, o que significava que, se eu não fizesse meu trabalho, as pessoas
sofreriam.

Então engoli meu orgulho e fui encontrar Theresa. Uma madrugadora,


ela já estava na cozinha, e no momento que ela me viu, algo cintilou em seu
rosto. Eu tinha explicado o problema e assegurado a ela que já tinha
verificado duas vezes para ter certeza de que tinha a tarde livre
especificamente para que pudesse pegar Evanne depois de seu primeiro dia
de aula.

Theresa não ficou feliz, mas concordou em ajudar. Novamente.

Essa, porém, seria a última vez, porque Theresa voltaria para casa esta
tarde. Minha meia-irmã, Paris, estava voltando para os Estados Unidos
depois de passar meses fora em sua última escavação. Não podia pedir a
Theresa que faltasse um pouco com a filha simplesmente porque estava
lutando para lidar com minha estranha mudança de circunstâncias.

Motivo pelo qual fiquei surpreso quando Theresa voltou caminhando


para dentro de casa, menos de duas horas depois de sair para levar Evanne
para a escola.

—O avião de Paris não vai chegar hoje à noite? — Eu perguntei quando


Theresa entrou em meu escritório.

Ela se sentou à minha frente e ignorou minha pergunta, perguntando


uma das suas. —Como foi sua reunião?

Suspirei e esfreguei minha mão ao longo do meu queixo. —Não tão bem
quanto eu gostaria. Hiram quer que eu vá a San Diego por uma semana para
ver como ele dirige as coisas antes mesmo de considerar minha oferta.

—Quando você vai?

Eu dei a ela um olhar surpreso. —Eu não irei. Eu tenho Evanne


agora. Eu não posso simplesmente sair por uma semana.

Ela sorriu, seus olhos brilhando de orgulho. Já fazia um tempo desde


que eu vi essa expressão. —Eu tenho fé que você descobrirá algo. Você
sempre foi bom nisso.

Eu esfreguei minhas têmporas. —Obrigado por levá-la à escola esta


manhã.

—Está tudo bem em precisar de ajuda, você sabe. — Sua voz era suave,
do jeito que sempre ficava quando ela falava comigo.
Depois de tantos meses ressentindo-se dela por ocupar o lugar de minha
mãe, foi a maneira como Theresa falou comigo que finalmente
funcionou. Ela falou comigo como uma adulta, uma igual. Ela não tentou me
mimar ou confortar, embora eu soubesse que ela faria se eu pedisse. Eu não
tinha, entretanto. Eu fui autossuficiente. Foram os outros que precisaram
dessa parte de ter uma mãe.

Antes que as coisas pudessem ficar muito sentimentais, voltei a um


tópico seguro. —Eu já cuidei de limpar minha agenda e trazer alguns outros
para o ritmo. Você pode voltar para casa antes que Paris chegue.

—Ela está uma semana atrasada, — disse Theresa com um sorriso


indulgente. —O que significa que posso ficar um pouco mais, se você quiser.

Eu deveria ter dito a ela que estava tudo bem, que ela poderia voltar
para sua vida. Ela pode não precisar trabalhar, mas ela não estava
ociosa. Ela serviu em vários conselhos de caridade, mas também era prática
de uma forma que poucas outras mulheres como ela eram. Ela era outra
coisa, minha madrasta.

Todas essas eram razões pelas quais eu deveria ter assegurado a ela
que eu ficaria bem.

Mas não consegui.

Se eu fosse o único que se machucaria se eu fodesse, eu teria feito isso,


mas não podia arriscar que Evanne se machucasse, fosse física ou
emocionalmente.

—Por favor, faça, — eu disse calmamente. —Vou tentar fazer isso


sozinho, mas vou gostar de ter o backup por mais alguns dias.

Theresa se levantou. —Você pode fazer isso, Alec. — Ela estendeu o


braço por cima da minha mesa e apertou minha mão.

—Obrigado, mãe. — Não usei o título com frequência, pois minha


memória de minha própria mãe ainda era forte, mesmo depois de todos esses
anos, mas ela entendeu por que eu não o fiz. Seus filhos mais velhos eram
iguais com meu pai. Mas havia ocasiões em que nossos pais precisavam
saber que, independentemente de como os chamássemos, sabíamos o quão
importante eles eram em nossa vida.

—Não, eu que agradeço. — Ela deu a volta na minha mesa e beijou o


topo da minha cabeça como se eu fosse uma criança. —Aproveito cada
minuto que passo com minha neta. Ela é preciosa.

Isso ela era. Eu sabia disso antes, mas tinha a sensação de que quanto
mais tempo passasse com ela, mais apreciaria. Isso não me impediu de ficar
chateado quando falei com Keli pelo telefone no sábado à noite, no
entanto. O fato de ela ter ignorado minha ligação na sexta-feira não ajudou
muito.

Eu tinha, pelo menos, obtido mais alguns detalhes sobre o que causou
a mudança repentina. Alessandro dissera a Keli desde o primeiro momento
que não queria filhos, mas quando ela ainda pensava nas coisas como
casuais entre eles, não havia problema. Quando ele disse a ela que seu
tempo nos Estados Unidos acabou, e ele voltaria para a Itália, ela entrou em
pânico. Esse pânico levou Alessandro a convidá-la para se mudar com
ele. Mas só ela.

Aparentemente, tudo isso lembrou Keli de que, antes de Evanne, Keli


também não queria filhos. Ela amava nossa filha e nunca tratou Evanne
com ressentimento, mas, pela primeira vez, Keli me disse que sentia como
se sua vida tivesse ficado em espera nos últimos oito anos. A chance que
Alessandro lhe ofereceu não era apenas de ter um relacionamento mais sério
com ele, mas de experimentar um pouco daquela existência sem filhos que
ela sempre quis.

A culpa que sentia era evidente, pois prometeu que voltaria para visitas
regulares e insistiu que não estava de forma alguma abandonando a
filha. Mas quando eu perguntei a ela por que ela simplesmente não veio até
mim para que pudéssemos chegar a um novo acordo amigável, ela não foi
capaz de me dar uma resposta direta. Suspeitei que ela havia pensado que
eu recusaria categoricamente uma mudança na custódia ou, pelo menos, a
amarraria no tribunal até que Alessandro não a quisesse mais.
Meu instinto me disse que tinha mais a ver com isso do que eu queria
admitir. Ela tinha mais medo de perder um homem do que da felicidade de
sua filha. Eu entendi que os planos de Keli haviam sido prejudicados quando
ela descobriu que estava grávida, mas o caminho que ela fez para tentar
recuperá-los não era o certo.

Eu ia fazer melhor. Não me comparando a Keli, mas me comparando a,


bem, eu mesmo. Eu não era perfeito e sabia que isso não iria mudar, mas
faria o possível para ser um homem melhor para minha filha.

Começando por pegá-la na escola.

Eu poderia ter mandado um motorista nos levar, mas eu queria que


isso fosse o mais normal possível para ela, então eu dirigi um dos meus
carros menos ostentosos. Um que normalmente pegávamos pela cidade
quando ela estava comigo.

Quando me aproximei da área designada para embarque e


desembarque, vi Evanne sair pela porta dupla. Seu rosto se iluminou
quando viu o carro, e ela saltou em direção a ele. Quando ela chegou perto o
suficiente para ver que era eu quem estava dirigindo, ela disparou e chegou
à porta em tempo recorde.

Minha pequena corredora.

Eu destranquei as portas, e ela abriu a porta do lado do passageiro e


entrou. —Papai! É você!

—Como foi...

Ela não me deixou fazer a pergunta sair. —Eu me diverti muito! A Sra.
Browne é tããão legal e pediu a todos nós para contarmos histórias sobre nós
mesmos, e eu fiz um amigo chamado Skylar, e corri sete voltas ao redor do
playground no recreio, e Skylar cronometrou, e eu quebrei meu recorde três
vezes! Óh, e…

Enquanto ela tagarelava, eu ri e segui o melhor que pude enquanto saía


da área de entrega e desci em direção aos portões da escola.
—… E então Skylar disse que a Srta. Brown era “raposa” e eu achei
isso muito engraçado porque ela não parecia uma raposa! Ela é bonita e nos
quer... Oh, a Sra. Browne é minha professora e...

—Você me disse isso antes, lembra? — Eu disse. A Sra. Browne deve


ter causado uma impressão real nela, porque sua professora era tudo de que
Evanne falava quando ela e Theresa voltaram da visitação pública.

—Eu sei, — disse Evanne, —só estava lembrando você. De qualquer


forma...

—Oh, obrigada. Você sabe que papai é tão esquecido.

Era isso que eu estava perdendo, não pegá-la na escola todos os dias?

—Não se preocupe, papai. Tenho boa memória. De qualquer forma, a


Sra. Browne quer que escrevamos uma história sobre o que fizemos durante
o verão. Você pode me ajudar a escrever?

—Oh. — Essa tensão familiar estava de volta em meus


ombros. Trabalhei para manter minha voz uniforme. —Claro, querida. Eu
sou todo seu.

Ela estava nas nuvens, e agora eu estava me perguntando como faria


para garantir que Evanne mantivesse todos os trabalhos escolares. Muito
planejamento e programação foram necessários para a lição de casa, mesmo
na terceira série. Felizmente, eu era bom em planejar, mas só de pensar
nisso me dava dor de cabeça.

Quando chegamos em casa, o jantar já estava cozinhando. Eu não tinha


pedido a Theresa para fazer nada para nós, mas parecia que não precisava.

—Avó! — Evanne gritou enquanto voava para a cozinha

—Bem, olá, button! — Theresa se ajoelhou para dar um abraço em


Evanne. —Estou apenas preparando uma caçarola legal para nós
três. Como foi o seu primeiro dia da terceira série?

Evanne começou a mesma lengalenga sobre seu dia do mesmo jeito que
ela havia feito comigo. Quando ela chegou à parte sobre o dever de casa, uma
parte de mim esperava que Theresa se oferecesse para ajudar, mas em vez
disso, ela disse: —Parece divertido! Por que você não vai cuidar disso
enquanto eu termino de preparar o jantar, hmm? Então está fora do
caminho.

—Ok! — Evanne disse. —Papai prometeu ajudar!

Theresa olhou para mim com uma sobrancelha arqueada e esperou por
uma resposta.

—Claro, querida. — Eu disse, tentando não suspirar enquanto a seguia


para a sala.

Apesar de tudo, eu tive que sorrir quando ela se acomodou com uma
expressão grave no rosto. Era bom saber que ela levava seus estudos a sério.

—Escute, — eu disse enquanto ela puxava seu caderno e estojo de


lápis. Baixei a voz para que Theresa não ouvisse, ignorando o lampejo de
vergonha que tomou conta de mim. —Eu posso... Eu posso te ajudar a
inventar uma história, mas você terá que escrevê-la sozinho. A Sra. Browne
saberá se é a letra de um adulto.

Evanne cantarolou, balançando a cabeça. —Mas às vezes eu, hum...


preciso de ajuda com a ortografia. Algumas palavras são difíceis. Você pode
ler enquanto eu escrevo?

Eu cocei meu queixo. —Eu não sei, querida...

Ela olhou para mim com aqueles olhos grandes e tristes que ela quase
nunca usava para escapar impune de um assassinato.

—Eu vou assistir, — eu concordei. —Talvez a vovó queira, hum, ouvir


sua história depois do jantar.

—OK. — Ela sorriu para mim. —Pronto?

Por uma única palavra, essa foi uma pergunta incrivelmente


carregada.
TREZE

Q UANDO AS aulas terminaram na quinta à tarde, eu estava exausta e


animada, uma combinação que eu tinha certeza que experimentaria
repetidamente enquanto fazia este trabalho.

Depois de anos equilibrando cursos universitários e trabalhando em um


emprego que tolerava pelo bem de Mai e por minha própria sanidade
financeira, eu tinha uma carreira. Uma pensão. Benefícios. Seguro
médico. Tanta segurança no emprego como alguém poderia nesta economia.

Restavam apenas algumas pessoas nas dependências da escola quando


saí do prédio, mas isso não foi surpresa. Fiquei até tarde ajustando meus
planos de aula, agora que tinha uma melhor compreensão dos meus alunos
e estava ansioso para ver minhas ideias implementadas.

Por mais emocionante que fosse, também era mais do que um pouco
assustador, saber que tudo isso estava sobre meus ombros. Eu gostava de
dar aulas, mas me irritei com uma professora que era tão antiquada que ela
rejeitou qualquer ideia nova que eu sugeri. Depois de terminar, já estava
planejando todas as maneiras de fazer as coisas de maneira diferente.

Adorei poder experimentar algumas das novas técnicas que aprendi


com meus professores favoritos, bem como criar minhas próprias técnicas
exclusivas, mas não tinha realmente entendido como seria assustador não
ter essa rede de segurança de outro professor. Não que meus colegas não me
apoiassem, mas não era o mesmo que saber que pelo menos a
responsabilidade parcial pelo bem-estar dos alunos pertencia a alguém mais
velho e sábio. Alguém que assumiria mais a culpa se algo desse errado, para
ser honesta.

Enquanto eu caminhava em direção ao ponto de ônibus, eu já estava


repassando meu orçamento na minha cabeça, verificando novamente
quando eu seria capaz de comprar um carro. Não tive problemas com o
transporte público, mas isso era Seattle, o que significava fazer
malabarismos com um guarda-chuva com todas as minhas coisas ou me
molhar. Eu precisava ser capaz de transportar não apenas a mim mesma,
mas também meus suprimentos, o que significava que a compra de carros
estava em meu futuro próximo.

Quase semiconsciente do mundo ao meu redor, com o canto do olho, vi


uma figura correndo do outro lado da estrada, vindo em minha direção. Por
reflexo, eu olhei, observando a altura impressionante e constituição atlética
antes de chegar ao cabelo dourado e um rosto familiar.

Merda.

Como diabos isso continua acontecendo comigo?

Alec ficou surpreso apenas alguns segundos depois que eu o reconheci,


não me dando a chance de fingir que ainda estava alheia à sua
presença. Sem saber o protocolo adequado para saudações após quase
namoro, levantei minha mão para acenar. Ele fez a mesma coisa e correu
pela estrada.

Uau, ele estava... suado. E não foi o desligamento que eu pensei que
seria. Embora o ar enevoado pudesse explicar o quão úmido ele estava, não
havia dúvida de como ele estava se esforçando. Ele usava roupas típicas de
corrida e estava respirando pesadamente, o que por algum motivo eu não
queria pensar muito a respeito, me fez respirar pesadamente. Ele parecia
tão bom na noite em que eu fugi dele?

A memória do que eu fiz enviou calor ao meu rosto, e eu adivinhei a


sabedoria de não ter dado uma desculpa imediata sobre por que eu precisava
estar em outro lugar.

—Então, você foi ao ponto de ônibus na sexta-feira passada também?


— A nota de provocação em sua voz me deixou um pouco menos
autoconsciente.

—Sim. — Eu ri sem jeito, apenas um pouco menos constrangida. —


Hum... desculpe por isso.
Ele deu de ombros, puxando o pé para trás para esticar a perna. —Não
se preocupe. Você não me deve uma explicação. Mas é bom ver
você. Obrigado por... parar.

Como ele conseguiu fazer algo tão inocente como acenar soar sujo?

Ou talvez fosse só eu.

Eu não conseguia parar de olhar para ele e depois desviar o olhar antes
que ele percebesse o que eu estava fazendo. Não foi minha culpa. Ninguém
deveria ser tão lindo. Exceto na minha segunda ou terceira olhada, percebi
que ele não estava tão arrumado como no bar na semana passada. Era difícil
dizer se era simplesmente porque ele corria muito, mas de alguma forma
tive a impressão de que ele estava um pouco mais abatido do que o normal,
como se não estivesse dormindo muito.

Uma pontada de algo que não era luxúria passou por mim.

—Boa noite para uma corrida, — eu disse, me sentindo uma idiota


enquanto dizia isso. Considerando o quão... familiar éramos um com o outro
há menos de uma semana, parecia bobo que eu não conseguia descobrir uma
maneira de falar com ele.

Ou, talvez, fosse exatamente por isso que era tão difícil. Não tínhamos
exatamente falado muito antes.

—É, — Alec concordou. —Eu estava apenas respirando um pouco,


avaliando a distância entre minha casa e... — Ele olhou para trás, então
coçou a nuca, um meio sorriso estranho no rosto. —Bem, vendo se eu
diminuí o ritmo ao longo dos anos, suponho.

Quase ri. Ele não parecia ter desacelerado desde a puberdade, e eu


duvidava que ele diminuísse tão cedo.

Não que eu pudesse dizer isso a ele.

—Eu estaria correndo se não estivesse de salto e saia, — eu disse.

Por que eu continuo deixando comentários vazios? Eu era uma mulher


inteligente. Eu tinha um diploma universitário.
E um olhar para aqueles olhos azuis brilhantes e eu fui reduzido à
idiotice.

—Suponho que os saltos tornariam a corrida um pequeno desafio, —


Alec concordou com um sorriso. —Você os faz parecer bons, no entanto.

—Você não quer dizer que eles me fazem parecer bem?

O humor em seus olhos esquentou. —Eu disse exatamente o que eu quis


dizer. Aceite o elogio, moça.

Droga, aquele sotaque... —Obrigado. Você também. Hum. Quer dizer,


você também está bem.

—Apesar de todo o suor?

Eu ri enquanto assentia. O que havia neste homem que fez minhas


entranhas virarem geleia?

Ele riu comigo, o som me levando de volta para aquela noite no


MacLean quando estávamos flertando e dançando, mas quando seus olhos
encontraram os meus, eles estavam sérios.

—Devemos continuar nos encontrando por um motivo.

Eu não disse a ele que estava pensando exatamente a mesma coisa.

—Você gostaria de sair no sábado à noite? — ele perguntou.

Meu coração saltou em minha garganta e eu abri minha boca, mas não
saiu nada.

Ele esperou, sua expressão ilegível. Talvez fosse apenas porque ele
parecia cansado, mas eu senti que ele realmente esperava que eu dissesse
sim. Eu queria dizer sim. Muito. Mas…

—Um encontro, — eu gaguejei. —Uh, é só-

—Não... — Alec começou, então balançou a cabeça. —Quero dizer, um


encontro, claro, mas nada sério. Você sabe? Jantar e bebidas. Diversão.
Essa palavra de três letras implicava outra palavra de três letras. Uma
que estava em minha mente desde o momento em que peguei sua jaqueta
na primeira noite, mesmo que eu não quisesse admitir então. Quando ele
me pediu um final feliz, eu reagi fortemente porque uma parte de mim foi
tentada. Então, quando estávamos em seu carro, fiquei tentada novamente,
mas o medo venceu. Agora, eu tive tempo para me arrepender do que não
tinha feito e não estava mais com medo.

Não mais fingir que não o queria. Eu tinha recebido outra chance e não
iria desperdiçá-la.

—Tudo bem, — eu disse.

Ele piscou, como se não tivesse realmente pensado que eu


concordaria. —Sim?

—Sim, — eu repeti, vagamente ciente de que minha resposta havia


causado uma risada. Eu mal conseguia ouvir nada com o sangue latejando
em meus ouvidos. —Onde e quando? Quer dizer, você disse sábado, mas...

—Às sete? Na Taverna Goldfinch? Eu vou te buscar.

—Parece bom, — eu disse. Procurei em minha bolsa uma caneta e um


post-it. Eu tinha mais blocos de notas adesivas do que sabia o que fazer
agora. Eles eram um professor básico. Anotei meu número e entreguei-lhe a
nota.

—Vejo você no sábado, então, — disse ele enquanto colocava o número


no bolso.

—Mal posso esperar, — eu disse. As palavras não pareciam adequadas


o suficiente para descrever as sensações apertando no meu estômago, mas
eu não tentaria nada mais porque eu tinha certeza de que apenas me
envergonharia.

Ele sorriu ao se despedir e depois se virou para continuar a correr. Eu


me permiti a indulgência de assistir por um minuto antes de ir para o ponto
de ônibus novamente. Meu ônibus já tinha saído e observar sua bunda por
um minuto me daria pelo menos algo para fantasiar enquanto esperava por
um Uber.

****

SE MAI NÃO PARASSE DE PULAR na minha cama, eu usaria


minha voz de professora e a colocaria em um intervalo de canto.

—Estou tão animada por você! — ela gritou, batendo palmas. —Alec
está gostando muito de você. Ele vai fazer você ver estrelas.

Eu ri. —Você pode dizer isso com base no pouco tempo que o viu no bar?

Ela balançou as sobrancelhas para mim. —Eu vi o jeito que ele estava
te fodendo com os olhos e então observei vocês dois dançando. Acredite em
mim, quando duas pessoas se movem tão bem juntas na pista de dança, elas
são dinamite no quarto.

Mai sabia que eu não tinha experiência sexual, mas não exatamente o
que isso significava, porque não falei sobre isso. Mesmo tão próximas quanto
nós duas éramos, eu não queria discutir algo tão pessoal. Agora, enquanto
olhava para meu reflexo no espelho, me perguntei se talvez eu devesse falar
com ela antes de Alec chegar. Entre o vestidinho preto e a lingerie de seda
preta por baixo, parecia que eu sabia o que estava fazendo.

Mas eu não fiz.

Ainda assim, eu não estava pronto para falar com ela sobre isso. Eu
poderia estar pronta para fazer sexo, mas era diferente com Alec. Ele não
era meu melhor amigo. Eu não precisava ficar envergonhada porque ele não
era alguém com quem eu planejava ver muito depois desta noite.

E eu não pensaria se isso era ou não uma coisa boa. Esta noite foi
divertida. Nada sério.

—Você sabe que estou esperando um relatório completo, certo? — Ela


pulou da cama e se aproximou de mim. —Quero dizer completo. Eu quero
todos os detalhes sujos. Medidas. Nível de habilidade. Especialidades.
—Por favor, pare, — implorei, rindo. —Ele estará aqui a qualquer
minuto.

—Contanto que ele não apareça em um minuto. — Ela sorriu para mim,
dançando de volta quando eu a golpeei.

A campainha do apartamento tocou antes que eu pudesse decidir a


melhor forma de retaliar. Em vez de persegui-la, fui até o interfone.

—Olá?

—Olá, moça. — O sotaque de Alec veio alto e claro.

—Com certeza é! — Eu disse. —Eu já desço.

—O que você está fazendo? — Mai sibilou. —Diga a ele para subir! Eu
quero conhece-lo.

Eu tirei sua mão do botão do interfone e agarrei minha bolsa. —Como


estou?

—Impressionante, — disse Mai imediatamente. —Eu foderia com você.

Eu revirei meus olhos. —Oh, obrigada.

—A qualquer momento! — Ela sorriu. —Isso significa que vou conhecer


o escocês gostoso?

—Não. — Coloquei meus sapatos e respirei fundo.

—É isso aí, senhora, — Mai disse. —Sr. Highlander não saberá o que o
atingiu.

—Você é uma nerd, — eu disse, rindo.

Eu ainda estava sorrindo quando cheguei ao saguão. Alec estava do


lado de fora do prédio e eu aproveitei os poucos segundos que tive para
admirá-lo enquanto caminhava em direção à porta de vidro. Ele usava um
terno risca de giz escuro perfeitamente cortado, uma gravata pontilhada,
sapatos pretos polidos e um lenço de bolso. Acho que nunca tinha visto um
lenço de bolso antes.
—Bem na hora, — eu disse enquanto abria a porta.

—Você está incrível. Uau. — Seus olhos azuis eram mais fogo do que
gelo, e eles me fizeram derreter enquanto me examinavam da cabeça aos
pés.

—Você está ótimo também, — eu disse fracamente. Isso foi um


eufemismo.

—Obrigado. — Ele sorriu como se soubesse exatamente como estava me


afetando e estendeu o braço, um desafio escrito em seus olhos.

Eu levantei meu queixo e peguei seu braço. Não consegui passar pelo
sistema de adoção por não ser capaz de enfrentar um desafio. Só porque
escolhi minhas batalhas com sabedoria não significava que não fosse capaz
de lutar.

Minha decisão de mostrar a Alec que eu poderia ser tão legal e


sofisticada quanto ele durou menos de meia dúzia de passos. No momento
em que vi o carro, as memórias me inundaram e minha pele corou
imediatamente, meu coração parou de bater.

—Ainda é um carro muito bonito, — brinquei, orgulhosa de mim mesma


por não chiar.

—Acho que sim. — Seu olhar deslizou pelo meu corpo e cada célula
zumbiu com uma nova eletricidade. —Você dirige?

—Eu posso, mas não tenho carro. Fiz um orçamento com o objetivo de
conseguir um após a formatura e só preciso de mais algumas semanas para
me dar algum espaço de barganha. Usar o transporte público era uma boa
maneira de reduzir as dívidas quando eu estava na escola. — Percebi que
estava balbuciando e me encolhendo. Se eu continuasse assim, ele
provavelmente me colocaria em um táxi assim que eu terminasse de comer
e pegaria uma linda mulher que sabia exatamente como lidar com um
encontro como este.

—A maioria das pessoas veria um carro como uma necessidade, — Alec


disse enquanto abria a porta do passageiro.
Aparentemente, estaríamos no banco da frente esta noite. Isso foi
bom. Eu não tinha certeza se já aguentaria estar de volta lá com ele.

—Eu não sou a maioria das pessoas, — eu disse.

—Este é um ponto. — Ele fechou a porta e deu a volta no carro. Assim


que se acomodou e puxou o carro para a rua, ele retomou a conversa. —Você
tem um tipo de carro em mente?

Dei de ombros. —Praticamente só procurando um que funcione. Se isso


me levar aonde preciso ir com segurança, não me importo que tipo de sinos
e apitos ele tenha ou não tenha.

—Poucos jovens se importam mais com a praticidade do que com a


aparência. — Ele olhou de soslaio para mim. —Mas, como você já disse, você
não é a maioria das pessoas.

Ele não foi a primeira pessoa a me dizer que eu não era como todo
mundo, mas foi um dos poucos que pensei que isso era um elogio. Eu não
queria perguntar e provar que estava errada, então me concentrei em outra
parte do que ele disse.

—Você diz “jovens” como se não fosse um. Você não pode ter mais de
trinta anos.

Ele deu um daqueles sorrisos que fizeram meus joelhos fraquejarem. —


Trinta e três no verão passado. Se for aqui que você me diz que não tem
idade para beber, posso nos levar a um desses restaurantes com
playgrounds.

Eu ri, sentindo a tensão no carro diminuir a um nível tolerável. —Você


não precisa se preocupar com a bebida de menores. Tenho vinte e quatro
anos.

—Ainda sinto que estou roubando o berço, mas se você não se importa,
eu também não.

Assegurei a ele que estava bem com a diferença de idade, e a conversa


mudou novamente, desta vez para o número ridículo de recursos avançados
que esse carro tinha. Não oferecemos nenhuma informação pessoal
adicional e não me importou. Este foi um encontro com apenas um propósito
- diversão - e enquanto nenhum de nós mencionou especificamente sexo, a
suposição de onde a noite terminaria estava lá desde o primeiro momento.

Caso em questão: a Goldfinch Tavern para a qual íamos ficava no Four


Seasons Hotel. A maneira prática como Alec estava abordando isso apenas
solidificou minha decisão. Eu estava atraída por ele - mais do que jamais
estive por qualquer pessoa - e ele não estava brincando comigo.

Nós dois iríamos para esta noite com nossas intenções colocadas sobre
a mesa. O fato de termos uma boa conversa durante uma boa refeição era
um bônus. A única coisa mais importante do que tudo isso era que eu me
sentia segura com ele. Ele já tinha me mostrado que pararia se eu pedisse,
e com essa preocupação fora da minha mente, eu poderia me concentrar no
resto.

Ele tinha feito uma reserva para uma mesa para duas pessoas em um
canto tranquilo do restaurante, um lugar onde poderíamos conversar, mas
ainda público o suficiente para que eu não ficasse impressionado. Eu não
sabia se ele tinha feito isso para meu conforto ou para o dele, mas de
qualquer forma, nos permitiu permanecer em nosso próprio mundinho sem
nenhum dos perigos de estarmos isolados.

Assim que nos sentamos, a garçonete anotou nossos pedidos de bebida


e saiu com a promessa de voltar depois de examinarmos o
cardápio. Enquanto líamos as seleções, Alec e eu conversamos sobre
pequenas coisas. Nossas bebidas favoritas (uísque para o Alec, gim e tônica
para mim), os filmes que gostamos (dramas), nossos superpoderes ideais
(teletransporte para Alec, poder falar com animais para mim) e dezenas de
outras coisas que permitiam compartilhar sem silêncios constrangedores.

Quando nossas bebidas chegaram, eu me senti muito mais relaxada do


que esperava. Como meu apetite não havia desaparecido, pedi o risoto de
cogumelos selvagens e Alec pediu algo chamado tomahawk bife.

— Sláinte, — Alec disse, segurando seu copo.


Não me incomodei em tentar a palavra escocesa enquanto batia meu
copo contra o dele. —Felicidades.

—Você já esteve aqui antes? — Alec perguntou depois que nós dois
tomamos alguns goles de nossas bebidas.

Eu balancei minha cabeça. —Não tenho muito tempo livre e esperar


por uma refeição em um restaurante não está no topo da minha lista de
maneiras de gastar meu tempo.

—Você faz o pedido, então? — ele perguntou. —Ou você tem um talento
secreto para as artes culinárias?

Ele tinha jeito com as palavras.

—Eu não sei sobre um jeito para cozinhar, mas eu faço a maioria das
minhas próprias refeições. Isso pode soar nerd, mas quando eu estava
escrevendo sobre o orçamento da faculdade, fiz muitas pesquisas e uma das
maiores maneiras de economizar dinheiro era com comida. Mai - essa é a
amiga com quem eu estava no MacLean - e apostei naquele primeiro
semestre quem gastaria mais com comida. Eu venci. E antes que você
pergunte, a aposta não era por dinheiro. Não precisei assistir a um único
programa com uma Kardashian durante todo o semestre seguinte.

—Você continua a impressionar com sua responsabilidade fiscal. — Ele


não conseguiu conter o sorriso. —Bem como suas opções de visualização.

—O que posso dizer? — Tomei outro gole da minha bebida. —Prefiro


que meu entretenimento seja livre de Kardashian.

Nosso aperitivo chegou e paramos a conversa para comer um pouco. Eu


estava tensa demais para comer muito no almoço e, se não colocasse algo no
estômago, minha bebida iria direto para a minha cabeça. Uma vez que fiquei
convencida de que não receberia nada além de um zumbido, voltei para um
tópico anterior.

—Quando se trata de orçamento, descobri que é mais fácil para mim se


eu tiver uma meta específica. Como um carro. Não poderei comprar algo
novo, a menos que queira pagar uma dívida nova e fantástica, mas ficarei
mais do que feliz com um carro usado decente.

—Os carros novos se desvalorizam drasticamente assim que são


comprados e usados, — disse ele, limpando o canto da boca com o
guardanapo de linho. —Comprar usados é inteligente, em termos de
investimento. Desde que o carro esteja em boas condições de funcionamento,
é claro.

—Parece que você sabe do que está falando.

Ele encolheu os ombros. —Graduação em Administração pela


University of Glasgow.

Era uma boa informação pessoal e fiquei tentado a pedir mais. Como
ele acabou em Seattle, especialmente depois que ele foi para a faculdade na
Escócia. Ele veio por uma mulher? E que tipo de mulher deixaria um homem
como ele ir? A menos que ele tenha sido o único a se afastar. Mas, se fosse
esse o caso, por que ele não foi para casa depois que o relacionamento
terminou? Ou foi seu negócio que o trouxe aqui? Que tipo de negócio atraiu
um homem como Alec? E a família dele? Eles também estavam aqui?

Eu me dei uma sacudida mental. Não estávamos aqui para saber o tipo
de coisa que importaria no futuro. Conversa fiada. Se divertindo. Nada
mais.

Fiquei impressionado com o desejo repentino de fazê-lo rir. —Seu carro


da lavanderia Maple foi usado?

Ele quase engasgou com seu uísque e eu não pude resistir a uma risada
à sua custa. Depois que ele conseguiu fazer o líquido descer e limpar a
garganta, ele se juntou a mim.

—Sim, moça. Comprei meu Maybach Landaulet de um rapper


chamado Jumpin’ Jimmy ou algo assim.

Eu não sabia se ele estava brincando ou não, mas continuei assim


mesmo. —Bem, certifique-se de agradecer ao Sr. Jumpin’ Jimmy. É um
carro adorável.
—Sim, é. — Sua voz era áspera e fez coisas estranhas em minhas
entranhas.

E isso aparentemente me deixou mais ousado. —Diverti-me


familiarizando-me com ele.

As chamas azuis dançantes nos olhos de Alec brilharam com mais


intensidade. —Eu me diverti conhecendo você, Lumen.

Adorei o jeito que ele disse meu nome e me perguntei se era apenas o
sotaque ou algo mais. —Estou feliz que você pense assim.

Nossas refeições chegaram naquele momento, e voltamos nossa atenção


para eles, comendo em relativo silêncio enquanto ocasionalmente sorríamos
um para o outro como se estivéssemos contando a mesma piada interna. O
risoto e o G&T estavam deliciosos, mas meu estômago embrulhou-se ao
pensar no que viria a seguir. Eu não tinha ideia de como abordar isso, e um
telefonema para Mai pedindo conselhos definitivamente estragaria o clima.

—Você tem algum outro plano para esta noite? — ele me perguntou
com uma suavidade casual.

Eu respondi honestamente, embora vagamente. —Tudo depende de


como estou atrasada.

O canto de sua boca se curvou, e me peguei lembrando de como foi a


sensação contra a minha. E me perguntando como seria tê-lo em partes mais
íntimas do meu corpo.

—Até que horas você espera ficar fora?

Eu gostei que ele estava me apresentando uma abertura para encerrar


o encontro aqui e agora, mas eu não queria ser o único a soletrar.

—Depende, — eu disse, circulando a ponta do dedo sobre o copo, —se


houver um motivo para você escolher este restaurante além de seu bife.

—Espero não ter sido presunçoso, — disse ele.


Meu coração deu um salto. —De modo nenhum. Mas se você fosse...
você presumiu corretamente.

Ele pousou o copo agora vazio. —Então, vou providenciar um quarto


para nós.
QUATORZE
ALEC

QUANDO EU VI Lumen andando pela estrada outro dia, senti como se


fosse o destino. Eu nunca acreditei muito nesse tipo de coisa, mas de que
outra forma eu poderia explicar vê-la duas vezes completamente aleatórias
depois de nosso primeiro e segundo encontros estranhos?

A lógica disse que em uma cidade do tamanho de Seattle, sem ela nem
eu termos acabado de nos mudar, as chances de termos tantos encontros
casuais seriam fenomenais. Quase fiquei tentado a pedir que alguém fizesse
os números.

Isso ou comprar um bilhete de loteria.

O que me deixou ainda mais convencido de que algum poder superior


estava nos unindo foi que, antes de eu sair de casa para correr naquele dia
- uma atividade que eu só fazia raramente, em primeiro lugar - Theresa
sugeriu que, já que ela voltando a San Ramon no domingo, deveria
aproveitar sua presença para sair pelo menos uma vez. Eu disse a ela que
não era necessário, mas então eu vi Lumen e decidi fazer uma última
tentativa de convidá-la para sair. Eu mal fui capaz de acreditar quando ela
aceitou.

Então, quando a peguei, pensei com certeza que tinha morrido e ido
para o céu. Esse vestido preto de seda agarrou-se a cada curva e minhas
mãos coçaram para seguir meu olhar. Saber como ela se sentiria só piorava
as coisas.

Seus saltos eram de uma altura razoável, mas ainda assim


conseguiram chamar minha atenção para suas pernas. O decote era
modesto, mas Lumen não era o tipo de mulher que precisava exibir o que
tinha.

Eu apreciei ela não fazer muitas perguntas, embora eu tenha visto o


interesse em seus olhos algumas vezes. Eu deixei claro desde o início que
não estava procurando um relacionamento. Eu não tinha pensado antes de
Keli deixar Evanne comigo, e agora que eu era mãe solteira de uma criança
de oito anos, teria ainda menos tempo e energia para me concentrar em
outra pessoa que não fosse Evanne. Ainda assim, eu não queria presumir
que meu convite para jantar com o esclarecimento de que eu só estava
interessado em me divertir significava que íamos fazer sexo.

Eu queria. Inferno, eu a queria desde o primeiro momento em que a


vi. Na verdade, quanto mais tempo eu passava com ela, mais eu a
queria. Mas eu nunca presumiria. Eu não me importei em precisar
perguntar, no entanto. Pode ter sido antiquado da minha parte, mas preferi
ser o único a assumir a liderança.

Quando voltei de falar com alguém sobre o aluguel do melhor quarto


disponível, a garçonete voltou para perguntar sobre a sobremesa.

—Interessada? — Perguntei a Lumen quando me sentei.

Suas bochechas coraram. —Prefiro não esperar.

—Só a conta, — falei com a garçonete, mas mantive os olhos em Lumen.

A garçonete colocou a carteira ao meu lado, mas antes que eu pudesse


pegar minha carteira, Lumen ergueu a bolsa. Estendi a mão e coloquei
minha mão na dela.

—Permita-me pagar. — disse eu. Ela parecia que ia discutir, então eu


apelei para o lado prático dela ao invés do romântico. —Nós conversamos
um pouco sobre orçamentos esta noite. Acredite que estou em uma posição
melhor para pagar a refeição do que você, moça.

—Bem, você é mais velho...

Eu levantei uma sobrancelha, apreciando o brilho em seus olhos.

—Obrigado, Alec. Vou nomear meu carro com o seu nome.

Eu ri. Alec, o carro. Essa moça era tão arrogante quanto bonita.
Enquanto esperava a garçonete voltar com meu cartão, fui atingido pelo
desejo repentino e surpreendente de ter conhecido Lumen em um momento
e um lugar diferentes. Em diferentes circunstâncias. Um mundo onde eu
pudesse oferecer a ela mais do meu tempo e atenção. Onde nós dois
poderíamos ter mais de uma noite.

Mas esse era um pensamento positivo, e se havia algo que eu sabia


melhor do que qualquer outra coisa, era que o pensamento positivo era
inútil.

Não tínhamos nada disso, mas tínhamos tempo. É hora de descobrir o


que podemos fazer com o que temos.

Enquanto nos dirigíamos para os elevadores, peguei sua mão,


entrelaçando meus dedos entre os dela. O gesto parecia natural, o tipo de
coisa que simplesmente fora a coisa certa a fazer, e agora estávamos de mãos
dadas. Não conseguia nem me lembrar da última vez que segurei a mão de
uma mulher.

Estávamos sozinhos no elevador, mas não soltei. Em vez disso, usei


minha mão livre para tocar seu queixo e virei sua cabeça, inclinando-a para
cima até que pudesse ver todo o seu belo rosto. Seus olhos encontraram os
meus, grandes e azuis como um céu claro. Seus lábios se separaram
levemente, como se em antecipação, e meu coração bateu forte contra minha
caixa torácica. Eu não queria ninguém assim antes.

Eu não queria pensar sobre o que isso significava, então fiz a única coisa
que pude pensar e cobri sua boca com a minha. Droga, ela tinha um gosto
bom. Eu quase esqueci. Por um momento, eu senti sua surpresa e pensei que
ela iria me afastar, mas levou apenas alguns segundos para se virar para
mim e se inclinar para o beijo.

Nossas mãos se separaram, mas estava tudo bem porque estávamos


tocando em outros lugares. Ela agarrou as lapelas do meu paletó, puxando-
me para mais perto, como se ela não se cansasse de mim. Eu sabia como era,
porque não conseguia o suficiente dela. A sensação de seus lábios e o deslizar
de sua língua na minha. Seu corpo esguio em meus braços. A pele nua de
suas costas enquanto eu deslizava meus dedos ao longo de sua coluna.

Um gemido escapou dela, e eu a pressionei contra a parede do elevador,


deixando-a sentir o quanto estar aqui com ela assim me excitou. Minhas
mãos deslizaram por suas costelas até seus quadris, e eu afundei meus dedos
em sua bunda. Ela fez um som que interpretei como algo bom, e pensei em
como seria levar minhas mãos para baixo, sentir sua pele macia contra
minhas palmas enquanto empurrava seu vestido e... o elevador apitou e
Lumen se afastou.

Por mais que eu não quisesse, eu a deixei ir. Mal tivemos tempo de
alisar nossas roupas - e eu virar o suficiente para esconder minha condição
atual - antes que as portas se abrissem. Um casal de idosos estava do outro
lado e eu sorri para eles. Lumen pigarreou e, no momento em que o velho
roçou o dedo na boca, soube que os dois tinham visto a mesma coisa. Quando
Lumen e eu saímos do elevador, passei as costas da mão na boca e olhei para
ela. Uma faixa de batom apareceu na minha pele.

—Desculpe. — disse Lumen, com as bochechas em chamas.

Envolvi meu braço em volta de sua cintura e puxei-a contra o meu lado,
baixando minha boca em seu ouvido. —Problema nenhum.

Ela estremeceu, mas eu vi suas pupilas dilatarem e seus dentes


arranharem seu lábio inferior. Ela estava tão excitada quanto eu. Seria
difícil levar meu tempo. Não porque eu não queria provar cada centímetro
de seu lindo corpo, mas porque eu queria estar enterrado bem fundo dentro
dela o mais rápido possível.

Mas nós estávamos apenas nos divertindo esta noite, não


namorando. Talvez nos encontrássemos de novo, mas não podia contar com
outra noite com ela. O que significava que eu não iria apressar as coisas.

Ainda assim, fiquei grato quando chegamos ao nosso quarto porque as


coisas que eu queria fazer com ela não eram apropriadas para lugares
públicos. Ela entrou primeiro, mas eu a agarrei pela cintura novamente e a
puxei de volta contra mim mesmo enquanto fechava a porta atrás de mim.
Ela se virou em meus braços e sua boca se chocou com a minha. Meus
sapatos e jaqueta caíram no chão enquanto Lumen e eu cambaleava em
direção à cama. Eu vagamente entendi que seus sapatos tinham sumido
também quando nossa altura diferente aumentou, mas eu simplesmente
apertei meu aperto e arruinei minha postura para ter acesso a sua
mandíbula. Ela gemeu, inclinando a cabeça para trás e eu dei beijos em seu
pescoço elegante.

Ela era doce e macia como mel, assim como eu me lembrava. Seus
lábios, seu pescoço, a carne macia de suas costas enquanto meus dedos
exploravam - cada centímetro dela era deleitável. Enviei uma oração
silenciosa de gratidão a quem me deu outra chance de tê-la.

A parte de trás de suas pernas bateu na beira da cama e seus olhos se


abriram de surpresa. O clima entre nós mudou e eu pude ver uma pitada de
ansiedade em seus olhos. Eu não a empurrei, endireitando-me quando
comecei a desfazer os botões da minha camisa. Eu só fiz três antes que ela
cobrisse minhas mãos com as dela.

Algo dentro de mim se torceu enquanto eu tentava me preparar para a


rejeição. Talvez desta vez ela não fugisse sem uma explicação real, mas eu
não poderia fazer isso de novo, não quando tudo que isso deveria ser era
divertido.

—Eu quero isso. Eu quero você.

Não registrei totalmente suas palavras até que seus dedos moveram os
meus de lado e retomou o trabalho de desabotoar minha camisa. Ela parecia
segura de si mesma, mas suas mãos tremiam e eu fui atingido com o desejo
de acalmá-la.

Eu não era uma pessoa insensível. Tive familiares de quem cuidei,


confortei, em vários momentos de angústia. Eu simplesmente nunca tive
uma mulher com quem eu não compartilhasse sangue agitar tal resposta.

O calor e a fome em seu rosto enquanto ela tirava minha camisa dos
meus ombros moviam tudo o que não queria / precisava / tenho para o
fundo da minha mente. Mesmo que ela tivesse me visto quase nua antes, ela
olhou para mim com admiração, seus dedos traçando sobre meu peito e
depois para baixo em meu abdômen. Prendi a respiração quando ela
alcançou a trilha fina de cabelo que começava logo abaixo do meu umbigo.

—Estou pensando que você está um pouco extasiada — O escocês em


minhas palavras era grosso e áspero.

Ela olhou para mim sob os cílios longos e grossos. —Você quer me
ajudar com isso?

Como alguém pode ser tão sensual e ainda parecer tão inocente?

—Sim, — eu disse, minha voz baixa.

Eu mantive meus olhos em seu rosto enquanto deslizava minhas mãos


por suas costas e apenas sob as alças de seu vestido, casualmente avançando
até as pontas de seus ombros, mantendo-as à beira de cair. Eu esperei lá,
intuitivamente entendendo que se eu corresse, ela poderia fugir novamente.

Quando ela balançou a cabeça, coloquei as alças de seu vestido sobre os


ombros, deixando-o cair para frente para revelar seu sutiã de seda
preta. Foda-se tudo. Seus seios eram perfeitos, e fui atingido com o desejo
de marcar aquela pele cremosa.

Desviando meus olhos de seu peito, concentrei-me em seu rosto


novamente. Eu precisava ler o que ela escreveu lá, não apenas para obter
permissão, mas para ver do que ela gostava. Alcancei atrás dela a alça de
seu sutiã, e suas unhas cravaram suavemente em minhas costas.

—Alec, — ela respirou.

Sem tirar os olhos de seu rosto, pressionei minha boca contra o topo de
uma onda, depois a outra. Meus dedos permaneceram nos ganchos de seu
sutiã, esperando para ouvir a palavra.

—Sim, — ela sussurrou, a cabeça caindo para trás de forma que seu
cabelo roçou contra a mão que eu tinha espalhado no meio de suas costas
para mantê-la no lugar.
Levei todo o meu controle para não enterrar minha mão em seu cabelo
e puxar sua cabeça para trás, puxando até doer da melhor maneira. Algo me
disse que ela gostaria da pressa que vinha com um pouco de dor, mas não
agora. Eu podia sentir a tensão zumbindo sob sua pele e sabia que ela não
estava com humor para brincar.

Eu tirei seu sutiã e ela soltou um gemido. Minha mão livre correu até
sua caixa torácica e segurou seu seio.

—Oh…

—Você é uma moça bonita, com certeza. — Eu murmurei as palavras


contra sua clavícula.

Eu escovei meu polegar em seu mamilo, e ele apertou em uma pequena


protuberância dura. As unhas de Lumen cravaram em meu braço, me dando
aquele toque de dor que eu estava procurando dar a ela. Ela tremia
enquanto eu beijava meu caminho para baixo, curvando-me
desconfortavelmente até que eu pudesse correr a ponta da minha língua em
seu seio.

—Sim, oh merda, sim.

—Mais, bhan mo nighean?

—O que isso significa?

—Minha garota de cabelos claros, — eu disse, rindo. —Você traz o


escocês em mim.

Ela deu uma risada doce e me puxou com ela para o colchão. Eu me
segurei por uma das mãos e me apoiei no cotovelo para me colocar mais perto
dela. Abaixei minha cabeça, sacudindo minha língua para frente e para trás
em seu mamilo até que ela começou a se contorcer. Quando envolvi meus
lábios em torno da carne cor de pêssego, ela praguejou novamente,
arqueando as costas como se tentasse se aproximar.
Ela enterrou os dedos no meu cabelo, e eu deslizei minha mão por seu
corpo para a única coisa que ela ainda usava, um par das calcinhas de seda
mais sexy que eu já vi. Ela engasgou quando eu coloquei um dedo na cintura.

—Devo ir mais longe? — Eu perguntei, sorrindo contra sua pele.

—Sim.

Eu ri quando coloquei minha mão sob o material macio, e havia um


calor no som que estava ausente no passado. Eu deixei meus dedos
explorarem sua carne privada, passar pelos cachos macios e descer para a
pele mais suave e doce.

—Alec, — ela choramingou.

—Deixe-me cuidar de você, moça.

Ela acenou com a cabeça, e eu deixei meus dedos deslizarem entre seus
lábios, até onde ela estava mais úmida. Eu mergulhei um dedo dentro,
provoquei sua entrada, então levei a umidade até o lugar mais sensível.

—Você é fodidamente deslumbrante, — me peguei dizendo enquanto


circulava seu clitóris suavemente.

Sua voz estava sem fôlego. —Não fique atordoado por muito
tempo. Prefiro não terminar isso sozinha.

Eu balancei minha cabeça, mantendo a leve pressão naquele feixe de


nervos inchado. —Eu não sei com que tipo de homem você já esteve antes,
mas isso não vai acontecer na minha frente.

Ela estremeceu enquanto eu movia todo o meu corpo para baixo,


removendo minha mão enquanto prendia meus dedos no elástico em seus
quadris. Meus olhos encontraram os dela enquanto eu puxava sua calcinha
e a jogava por cima do ombro. Eu descansei em meus calcanhares por alguns
momentos, admirando a visão de seu corpo esguio, o rubor em suas
bochechas e peito, mamilos pontiagudos... Porra.

Abri suas pernas, dando-lhe tempo para protestar se não era isso que
ela queria, mas se a ansiedade em seu rosto fosse qualquer indicação, ela
estava mais do que disposta a que eu desse o próximo passo. Como se ela
soubesse que eu precisava de permissão, ela deu.

—Sim, por favor, sim.

Eu finalmente olhei para baixo, observando aquela bucetinha linda, já


brilhando e esperando por mim. Minha boca encheu de água quando me
acomodei entre suas pernas, e então suas mãos estavam na minha cabeça,
amassando meu cabelo, e ela estava puxando meu rosto não tão sutilmente
em direção a sua boceta.

—Por favor, — ela repetiu.

Quando eu abri minha boca e deslizei minha língua da parte inferior de


sua fenda até o topo, nós dois gememos. Eu queria comê-la como uma
sobremesa cremosa. Eu nunca provei nada como ela. Eu nunca me importei
em cair em uma mulher, mas isso era, de alguma forma, diferente. Eu lancei
minha língua ao longo de sua fenda novamente em uma curva para a
esquerda, depois novamente em uma curva para a direita, espalhando seus
lábios antes de circundar seu clitóris com minha língua.

—Sua boca é incrível! Porra!

Eu não levantei minha cabeça para responder, mas ela não pareceu se
importar, seus dedos apertando meu cabelo, quadris levantando para
pressionar sua boceta mais firmemente contra minha boca. Agarrei suas
coxas, não para mantê-la aberta, mas para mantê-la no lugar enquanto
usava minha língua e lábios para empurrá-la em direção ao orgasmo.

Minhas calças estavam desconfortavelmente apertadas enquanto meu


pau inchava, o cheiro e o gosto dela me deixando selvagem. Os sons que ela
fez fizeram com que o sangue corresse direto para o meu pau, e eu tive que
empurrar contra a cama, desesperada por qualquer tipo de atrito para
aliviar pelo menos um pouco da pressão crescente.

De repente, seu rosto se contorceu em uma expressão de surpresa e algo


semelhante ao pânico, e por um breve e intenso momento nenhum som saiu
dela - nenhuma respiração, nada - e eu sabia que o inevitável havia chegado.
Chupei seu clitóris com força, um longo puxão até que, com um grande
estremecimento, ela caiu para trás contra a colcha e soltou um gemido longo
e gutural. Eu me afastei, dando-lhe uma trégua do ataque oral. Eu não
cortei completamente todo contato físico. Eu acariciei suas coxas, coloquei
beijos suaves até que seu tremor diminuísse.

Seus dedos soltaram meu cabelo, suas mãos ainda tremendo, e eu me


levantei, sem tirar os olhos dela. Eu poderia ter tirado uma foto dela
agora. Ela estava esparramada na cama, boceta brilhando, mamilos duros,
cabelo despenteado, lábios entreabertos, olhos arregalados, apenas
respirando e se aquecendo no brilho posterior.

Meu pau deu uma pulsação impaciente, me lembrando que, se ela ainda
estivesse disposta, não teríamos acabado ainda.

Peguei minha carteira no bolso e tirei um preservativo. Seus olhos


imediatamente se voltaram para ele, e ela piscou pela primeira vez no que
pareceram minutos.

—Precisa de uma pausa, ou...? — Eu perguntei com um sorriso,


alcançando meu cinto.

—Sim, — disse ela imediatamente. Então ela se apoiou nos cotovelos e


emendou: —Quero dizer, não. Quero dizer…

Tirei meu cinto e esperei que ela terminasse, esperando que ela pudesse
pegá-lo antes que minha ereção rasgasse meu par favorito de calças sociais.

—Eu... — Suas pupilas estavam dilatadas, seus lábios inchados e ela


parecia inegavelmente fodível. —Quero dizer... você... se você pudesse...
pegar leve...

—Vai ser um pouco difícil “pegar leve” quando estou tão duro, — eu ri,
puxando meu zíper.

—Por favor, — disse ela. —Eu estou... eu estou...

Enganchei minha calça e cueca com meus polegares, parando quando o


ligeiro toque de ansiedade em sua voz chamou minha atenção.
Fiquei feliz por ter esperado quando ela deixou escapar: —Eu sou
virgem.
QUINZE

ALEC PAROU DE REPENTE. —VOCÊ É O QUÊ?

Merda. Eu deveria ter lidado melhor com isso. Então, novamente,


considerando que ele simplesmente saiu voando da minha boca sem um
pensamento, praticamente qualquer maneira de lidar com isso teria sido
melhor.

Eu podia vê-lo pensando, tentando decidir se ele deveria começar a


colocar suas roupas de volta, e se ele seria capaz de fazer isso sem me
insultar de alguma forma. Ele também estava claramente tentando
esconder o pânico em seus olhos porque não queria ser um daqueles “caras”.

—Está tudo bem, — eu disse calmamente, querendo colocá-lo à


vontade. Não era estranho que nossos papéis tivessem se invertido com
apenas uma única pergunta? Me tranquilizando -o.

—Você está…? Quer dizer... eu... foda-se.

Sentei-me, resistindo ao desejo de me cobrir. Se eu desse a ele a menor


dica de que não estava bem com o que tínhamos feito até agora, ele iria
surtar completamente, eu não tinha dúvidas. E isso significava que eu
perderia a oportunidade de fazer isso do meu jeito, com o homem de minha
escolha.

—Ouça-me, por favor. — Eu mantive meu tom calmo. —Eu não sou...
quer dizer, não é uma coisa religiosa ou qualquer coisa estranha, ou mesmo
uma grande coisa, eu só não fiz sexo com ninguém. Mas eu quero fazer sexo
com você. Esta noite. Agora.

Eu não sabia como poderia deixar isso mais claro.


—Porra, Lumen, eu... — Ele ainda não parecia saber o que dizer, mas
pelo menos recuperou a cor do rosto, o que eu tinha certeza de que
significava que ele não teria um ataque cardíaco.

—Não estou sendo coagida a nada, — eu disse com um sorriso, na


esperança de aliviar a tensão negativa que havia superado a positiva. —Sou
uma mulher culta e inteligente, Alec. Eu sabia onde esta noite iria levar. Eu
quero estar aqui. Contigo. — Um pensamento me ocorreu. Outra coisa com
a qual ele poderia estar preocupado. —Não estou pedindo nada mais de você
do que concordei quando você me convidou para sair. Diversão. Isto é
divertido.

Havia outra coisa que eu poderia tentar. Algo para convencê-lo de que
eu não iria fugir como antes.

Coloquei minhas mãos em meus seios, deixando meus dedos deslizarem


sobre meus mamilos, sentindo o quão duro eles ficaram das mãos e boca de
Alec.

—O que você está fazendo, moça?

Droga, eu amei esse sotaque. Ele podia ler um livro de receitas e isso
me excitaria.

—Por favor, Alec, — eu respirei enquanto deslizava uma mão pelo meu
estômago para o espaço entre as minhas pernas. Eu estava encharcada, a
pele sensível ao toque mais leve. —Não me faça ter que cuidar disso sozinha.

Seus olhos caíram para onde meus dedos estavam acariciando


levemente, e um momento depois, eu ouvi a embalagem do preservativo
enrugar. Eu abri meus olhos, mal percebendo que os tinha fechado. Ele
jogou a camisinha na cama ao meu lado, seu olhar nunca me deixando,
embora vagasse pelo meu corpo como se ele não pudesse decidir onde ele
queria olhar mais.

Quando ele começou a baixar as calças e a cueca juntos, entendi como


ele se sentia. Eu queria continuar observando seu rosto, vendo todas as
nuances mudarem enquanto ele me observava me tocar, mas eu também
queria - precisava - ver o que estava escondido sob a toalha naquele dia em
que nos conhecemos.

Meus olhos caíram, seguindo a trilha de cachos finos, os sulcos


profundos em V em seus quadris. Ele não se apressou, me dando tempo para
mudar de ideia, eu suponho. Usei para aproveitar cada centímetro de pele
revelado. Tecnicamente, eu sabia o que acabaria por ver. Eu não tinha
estudado nada de médico, mas tinha feito biologia o suficiente para saber
como era o pênis de um homem, mesmo excitado.

Ainda assim, a visão daquele eixo grosso emergindo de sua cueca de


algodão preta foi o suficiente para me fazer recuperar o fôlego. Grosso e
longo... oh, tão longo. Muito mais tempo do que eu esperava, mesmo depois
de lembrar o quão impressionante parecia sob a toalha.

Uau.

Eu esperava que não doesse muito.

—Tem certeza de que é isso que você quer? — ele perguntou enquanto
tirava a última de suas roupas.

Eu nem hesitei. —Sim.

Ele sorriu, mas ainda havia algo... hesitante em sua expressão. —Eu
vou devagar. Não tenha medo de me dizer se quiser que eu pare.

Foi muito doce que ele estivesse tão preocupado, e isso apenas
confirmou para mim que eu não havia cometido um erro ao dizer a verdade
a ele.

—Eu vou. Agora, por favor, não me faça esperar mais. — Eu pisquei
para ele. —Estou ficando com um pouco de frio.

Ele sorriu, sua expressão suavizando. Ele se inclinou sobre mim e


pegou a camisinha. Eu assisti com fascinação enquanto ele rolava o látex
liso sobre sua ereção com alguns golpes. Não parecia em nada quando minha
professora de educação sexual no colégio colocou um preservativo em uma
banana.
Aquilo definitivamente não era uma banana.

Ele rastejou sobre mim, mas não me tocou, seus olhos procurando
quando encontraram os meus. Procurando apagar todas as dúvidas sobre o
que eu queria, lambi meus lábios e levantei minha cabeça para beijá-lo
quando ele chegasse perto o suficiente.

Foi um beijo suave e lento, cheio de promessas. Quando ele pegou um


travesseiro, seu pau roçou meu quadril, macio e duro ao mesmo tempo. Eu
o deixei conduzir enquanto ele me levantava um pouco pelo quadril e
deslizava o travesseiro embaixo de mim. Eu sabia o que queria e,
teoricamente, sabia o que aconteceria a seguir, mas ele era o mais experiente
e fiquei feliz em deixá-lo assumir o controle.

Ele roçou seus lábios nos meus, menos que um gosto, mas enviou
eletricidade através de mim, no entanto. —Uma última vez, moça, eu
preciso saber. É isso que você quer?

Eu coloquei minha mão em sua bochecha, correndo meu polegar em sua


bochecha. Uma parte de mim sabia que este homem lindo e sexy estava
realmente perguntando se ele era o que eu queria, mas nenhum de nós foi
lá. Em vez disso, respondi apenas o que ele realmente perguntou.

—Tenho certeza.

As costas de seus dedos correram ao longo do meu torso quando ele


alcançou entre nós, e um momento depois, eu senti a ponta fria e suave dele
cutucar meu clitóris. Eu engasguei, minhas mãos indo automaticamente
para seus braços musculosos.

—Relaxa, Lumen. — Sua voz era baixa, calma. — Vou tornar isso bom
para você, bhan mo nighean. Confie em mim.

Deveria ter sido bobo, um homem que eu mal conhecia me pedindo para
confiar nele, mas eu confiei.

Com meu corpo, pelo menos. Ele não me machucaria, não faria nada
que eu não quisesse que ele fizesse. E isso é tudo que eu estava
pedindo. Todos nós concordamos.
E era tudo que eu queria.

—Eu confio.

Ele acenou com a cabeça, e um momento depois, seu pau estava mais
baixo, facilitando em mim. Soltei um suspiro trêmulo quando minhas
paredes internas se expandiram para acomodá-lo. Eu mal registrei a dor
leve e aguda que eu esperava, em vez disso fechei os olhos enquanto novas
e avassaladoras sensações me enchiam, mesmo enquanto ele fazia. O
alongamento causou uma dor lenta, surda, dolorosa, mas de alguma forma,
o prazer passou por ele, superou.

Eu gemi e cavei meus dedos em suas costas. Ele estava me dividindo ao


meio e eu abri meus olhos para vê-lo me observando em busca de sinais de
dor. Como se ter certeza de que eu estava bem fosse mais importante do que
qualquer coisa que ele estivesse sentindo.

—Continue, — eu implorei. —Mais. Mais profundo. Por favor.

Ele obedeceu, deslizando mais para dentro, empurrando todo o fôlego


para fora de mim. Meus olhos rolaram para trás enquanto meu abdômen
chiava com sentimentos complicados que eu sabia que gostava, mesmo com
a pulsação distante de dor ainda por baixo. Já tinha ouvido pessoas dizerem
que certo tipo de dor pode tornar as coisas mais intensas em vez de destruir
o clima, e nunca tinha entendido isso até agora.

Eu gemi quando Alec parou de se mover, completamente revestido


dentro de mim, me enchendo mais completamente do que eu imaginava ser
possível. Ele ficou lá por vários segundos enquanto o mundo ao nosso redor
congelava. O momento pairou lá, brilhando enquanto eu prendia a
respiração, e então ele se afastou, me dando uma liberação de tensão que
me permitiu respirar novamente. A sensação daquele eixo grosso movendo-
se para trás era quase tão prazerosa quanto avançar, a fricção me fazendo
tremer em cada célula individual.

Puxei sua cabeça para um beijo, precisando de outra conexão. Ele


puxou meu cabelo para trás e colocou a palma da mão na minha bochecha
antes de cobrir minha boca com a dele. Eu provei algo distinto, mas de
alguma forma familiar em seus lábios, e percebi que estava me
provando. Não me chocou ou me enojou, mas sim puxou algo bem
fundo. Algo que me fez pensar se essa intimidade poderia ter sido mais do
que nós dois estávamos conseguindo.

Antes que eu pudesse seguir aquela trilha perigosa, ele se afastou do


nosso beijo e se levantou novamente, seu peso passando para os joelhos. Ele
alcançou meu rosto com as duas mãos desta vez, deslizando-as do meu
queixo até o pescoço e sobre os meus seios, enviando um arrepio de prazer
por mim. Finalmente, ele parou em meus quadris, os dedos se curvando para
me abraçar com força. Seus olhos se encontraram com os meus enquanto ele
se balançava para frente novamente, me enchendo mais rápido, mais forte
do que antes.

Eu gemi o caminho todo, meus dedos dos pés se curvando enquanto o


formigamento na parte inferior do meu abdômen pulsava para fora. Ele foi
incrivelmente mais fundo antes de recuar novamente. No terceiro golpe,
mais insistente, eu engasguei e envolvi minhas pernas em volta de sua
cintura. A queimação do alongamento de novas maneiras se dissipou em
praticamente nada e me deixou com o desejo de tê-lo por inteiro, de todas as
maneiras que pudesse.

Eu rolei meus quadris para encontrar suas estocadas, meu corpo se


movendo de maneiras que eu não sabia que poderia. Cada vez que ele
afundava em mim, o êxtase pulsava mais intensamente, como se
construindo para o tipo de clímax que me deixaria saciada e sem ossos.

E não era apenas puro prazer. Esta posição, com seu tamanho, enviou
a ponta dele um pouco mais fundo, me dando um choque de algo que poderia
ter sido dor se ele tivesse empurrado com mais força ou se mantido lá por
mais tempo. Do jeito que estava, ele sabia exatamente o quanto eu poderia
aguentar, o quanto me faria suspirar, mas não chorar.

Deveria ser impossível para alguém que me conhecia há pouco tempo


ser capaz de me fazer sentir essas coisas, mas ele sentia. A compreensão
provavelmente me deixaria constrangida quando terminássemos, mas,
neste momento, tudo o que senti foi gratidão por ele saber como levar meu
corpo a alturas maravilhosas e abençoadas.

Enquanto minha mente ficava sobrecarregada com uma miríade de


sensações conflitantes, eu não sabia onde colocar minhas mãos. Eu agarrei
a colcha, mas não consegui encontrar um bom apoio, e esta posição manteve
os braços de Alec muito longe do alcance. Quando eu finalmente fiz um som
frustrado, batendo minhas palmas contra a cama, ele agarrou meus pulsos
e os prendeu no colchão acima de mim.

Seu peso corporal mudou para a frente e eu gritei. Essa nova posição
permitiu que seu pau roçasse meu clitóris com cada carícia, enviando um
choque de prazer correndo ao longo dos meus nervos, torcendo seu caminho
pelo meu corpo até que eu o senti em meus dedos das mãos e dos pés.

E então tive a sensação de suas mãos em meus pulsos. Algo sobre abrir
mão do controle aumentou ainda mais as coisas, e eu me contorci sob ele,
desafiando-o a me abraçar com mais força. Sem precisar que eu diga, ele fez
o que eu queria, seu aperto restringindo ainda mais os meus movimentos
enquanto ele entrava em mim, toda a pretensão de gentileza se foi. Seu
corpo dançando com o meu, os pelos do peito irritando meus mamilos
sensíveis, os dentes raspando minha garganta antes que meus lábios
machucassem os meus.

Tudo agora era um prazer eufórico, além da dor, além da estranheza,


além de qualquer tipo de autoconsciência que pudesse ter me feito pensar
demais sobre essa experiência.

—Você vai me fazer gozar, moça, — ele rosnou em meu ouvido. —Tão
apertada, quente e úmida, baby.

Suas palavras rolaram sobre mim, me puxando para uma onda de


prazer que eu não tinha certeza se poderia ser chamada de orgástica, e só
cresceu quando ele gemeu meu nome e empurrou fundo, segurando-se sobre
mim e em mim, o corpo enrijecendo.
Seus quadris se sacudiram, levando-o um pouco mais para enviar uma
faísca de dor através do meu prazer. Eu engasguei, agarrando-me a ele
enquanto meu corpo tremia.

Não foi até que ele saiu de mim que percebi que ele soltou meus
pulsos. Cada centímetro de mim parecia que tinha sido desmontado e
recomposto, como se o toque mais leve fosse demais para lidar. E no fundo
havia uma nova dor, uma promessa de que amanhã, eu me lembraria desse
encontro toda vez que me mudasse.

Eu não me arrependi disso.

Eu não sabia se realmente gozaria de novo no final, mas foi


incrível. Não era como se eu tivesse algo mais para comparar, embora eu
suspeitasse que compararia tudo o que veio depois a este momento, segundo
clímax ou não.

Alec estendeu a mão para a mesa de cabeceira e pegou uma caixa de


lenços. Quando ele me entregou, parecia que ele queria me perguntar algo,
mas não conseguia descobrir como.

Eu sabia o que ele queria.

—Estou bem, — assegurei-lhe com um sorriso. —Foi fantástico.

Ele sorriu de volta. —Realmente foi. — Ele segurou meu olhar por um
momento antes de desviar o olhar. —Hum, eu só vou... — Ele saiu da cama,
e pegando suas roupas enquanto ia, foi até o banheiro.

Limpei-me com os lenços de papel o suficiente para não me sentir


completamente nojenta, embora provavelmente quisesse tomar um banho
antes de ir para casa. Mesmo que Mai soubesse o que eu tinha feito de
qualquer maneira - eu não estava ansioso por seu interrogatório - eu me
sentiria menos constrangida por sair daqui depois de um banho do que com
o cheiro de Alec em mim.

Eu não tinha ouvido o chuveiro ligado, mas quando Alec saiu do


banheiro, seu cabelo estava molhado e ele estava vestido novamente. Ele
olhou em minha direção, mas seus olhos não encontraram os meus.
—Eu preciso ir, — ele disse calmamente. —Eu poderia te dar uma
carona de volta se você...

—Não, está tudo bem, — eu disse, alcançando a ponta da colcha para


me puxar. —Eu posso pegar um táxi. Eu quero tomar um banho antes...

—Sim, claro, — ele respondeu rapidamente. —Você está…?

—Sim, estou bem. Ótima, realmente. Preciso fazer alguma coisa na


finalização da compra?

—Não. — Ele balançou sua cabeça. —Vou cuidar para que você não seja
perturbada. A chave está na cômoda. Deixe lá quando você for. — Alguns
segundos de silêncio tenso caíram entre nós antes de ele acrescentar: —Eu
me diverti muito, Lumen.

—Eu também, Alec.

Quase acrescentei que o veria por aí, o tipo de declaração genérica que
as pessoas fazem umas às outras o tempo todo, mas quando ele saiu da sala,
eu sabia que seria uma coisa inútil de se dizer. Isso tinha sido divertido, mas
estava feito agora, e não nos veríamos novamente.
DEZESSEIS

QUANDO CONCORDEI em sair com Alec, sabendo que dormiria com ele,
esqueci completamente que me inscrevi para fazer compras na escola Soleil
na tarde seguinte, mas fiquei grata por isso.

Fiquei no hotel a noite toda, principalmente porque me sentiria ainda


mais estranha ao sair no meio da noite. Bem, isso e o fato de que eu
realmente não estava ansiosa para tirar o terceiro grau de Mai. Quando o
alarme do meu telefone me acordou com um lembrete de onde eu deveria
estar ao meio-dia, fiquei aliviada por não precisar encontrar maneiras de
preencher minhas horas para evitar pensar no fato de que eu não sou mais
virgem.

Não que eu estivesse pensando dessa forma, não realmente. Sexo


simplesmente não tinha ocupado muito meus pensamentos, mas nas raras
vezes em que surgia, a coisa da virgindade sempre pairava nas
bordas. Agora, eu estava cheio de novas dores que me lembravam
constantemente do que tinha acontecido na noite anterior, o que significava
uma consciência do que eu não era mais.

Depois que peguei Soleil na casa do grupo, no entanto, fui capaz de tirar
os pensamentos dele da minha cabeça e me concentrar em Soleil.

No momento, nós dois estávamos em um Office Depot, abrindo caminho


pelos corredores movimentados e aproveitando as grandes vendas, agora
que a escola estava oficialmente de volta às aulas. Soleil estava calado, como
sempre, embora eu ainda não tivesse decidido se ela estava sendo contrária
ou simplesmente não gostava de falar.

—Você quer uma variedade de cores ou apenas preto? — Eu perguntei


enquanto caminhávamos para o corredor da caneta. Eu carreguei uma cesta
que estava vazia, exceto por um pedaço de papel com sua lista de compras.
Soleil encolheu os ombros, aparentemente desinteressado em nada
disso, embora eu sentisse que era principalmente uma postura. Uma parede
erguida para impedir que alguém visse que ela realmente se importava em
conseguir material escolar. Para não admitir o quanto estava envergonhada
por estar morando em um lar coletivo e não ter ninguém para levá-la às
compras, exceto um voluntário aleatório.

Eu estive lá, mais vezes do que gostaria de pensar. Pelo menos isso
significava que eu sabia o que não fazer, ou seja, nada. Se eu abordasse o
problema diretamente, ela apenas levantaria mais defesas. Nenhum filho
adotivo queria ser lembrado de onde se classificavam no esquema das coisas.

Acrescentei alguns lápis à cesta também e tentei conversar um


pouco. —Este é o seu último ano do ensino médio, certo? Você está animada
para ir para o ensino médio?

Ela encolheu os ombros novamente. —Só quero acabar com a escola,


ponto final.

—Eu odiava o ensino médio também, — eu admiti.

Soleil olhou para mim com um brilho curioso nos olhos. Os adultos não
deveriam dizer coisas ruins sobre a escola. Especialmente adultos em meu
campo de carreira particular.

—Você não é professora? — ela perguntou.

Verifiquei a lista de compras para ver que tipo de cadernos seus


professores queriam. —Eu sou uma professora primária.

—Isso deve ser uma merda.

Eu ri. —Às vezes, mas é melhor do que ensinar no ensino médio.

Foi a vez de Soleil rir. —Todos os meus professores parecem que


gostariam de estar aposentados. — Ela pegou um caderno para si mesma e
o jogou na minha cesta.

Um passo na direção certa.


Sempre tive a intenção de ir para o ensino fundamental simplesmente
porque detestava tanto minhas próprias experiências no ensino
fundamental e médio, e nunca senti que poderia me relacionar tão bem com
as crianças mais velhas quanto com as mais novas. Pelo menos não em uma
sala de aula. Um a um ou em pequenos grupos, como na casa do grupo, eu
estava bem.

—Pelo menos você estará no colégio logo, — eu disse.

O sorriso de Soleil desapareceu. —É melhor?

Eu esperava que a pergunta fosse retórica, mas queria dar a ela uma
resposta honesta.

Pensei em meu tempo no colégio. Tive bons professores e fui um bom


aluno, então tive uma experiência melhor do que alguns outros. Sempre
gostei da escola porque era uma chance de fingir que era uma criança
normal com pais normais. Os professores, em sua maior parte, me trataram
dessa maneira, e isso ajudou quando os outros alunos não o fizeram.

—Pode ser melhor, — eu disse. —Você não pode relaxar e não pode ser
o adolescente mal-humorada, mas pode ter professores que irão orientá-la,
acreditar em você. Se você permitir, eles o ajudarão a encontrar seus pontos
fortes, encontrar seu caminho.

Talvez eu estivesse falando muito francamente com ela, mas me


lembrei de como queria ser tratada na idade dela. A maneira como meus
melhores professores me trataram.

—Todos na casa dizem que você morava lá, — disse Soleil com
indiferença, como se isso não fosse algo em que ela estivesse
particularmente interessada. —É verdade?

Peguei um fichário e coloquei na cesta sem olhar para ela. —É


verdade. Eu estava dentro e fora de casa a maior parte da minha
vida. Estive lá durante o último ano em que estive no sistema.

Com o tato usual de um garoto de quatorze anos, Soleil perguntou —


Por que diabos você voltou? Você nem mesmo está sendo pago.
Eu me virei para olhar para ela, esperando até que ela erguesse os olhos
para encontrar os meus. Ela precisava ver que eu era sincero.

—Eu estive onde você está. Já ouvi pessoas me olharem com desprezo
por causa de quem eram meus pais, de onde eu morava, do fato de não ter
família. Eu senti que tinha que fazer mais, ser melhor e, mesmo assim,
sempre senti que todos esperavam que eu falhasse.

Eu pude ver o reconhecimento em seus olhos e continuei.

—Eu volto para casa para mostrar a vocês que tudo o que os outros
dizem é besteira. Você pode fazer o que quiser. — Seus olhos se arregalaram
quando eu xinguei, não porque ela não tivesse ouvido isso antes, mas porque
eu geralmente observava minha linguagem perto das crianças. —E eu estou
aqui para que vocês saibam que existem adultos com quem vocês podem
contar, aqueles que não vão escolher drogas ou sexo ou álcool ou o que seja
em vez de vocês. Se você precisar de mim, eu estarei lá.

Eu segurei seu olhar por mais um momento, e então me virei, dando a


ela a chance de processar tudo. Eu não ganharia a confiança dela com um
discurso apaixonado no meio de uma loja de materiais de escritório. Eu
colocaria isso para fora, e agora tudo que eu poderia fazer era ser a pessoa
que prometi a ela que era... e espere.

Soleil largou uma calculadora na cesta e olhou para mim antes de se


virar novamente. —Ouvi dizer que você leciona em uma escola particular
para crianças ricas.

—Sim, algo assim, — eu disse.

—Crianças ricas têm tudo o que podem desejar e todos vão acabar sendo
idiotas. — O veneno em sua voz me entristeceu, mas não me
surpreendeu. —Você provavelmente está ganhando muito para ensinar lá
também. Parece-me que você voltou para casa porque se sente culpado.

Eu queria ficar na defensiva, dizer a ela que ela não sabia do que estava
falando. Ela não viveu minha vida e não sabia o que eu pensava. Mas não
deixei escapar as respostas automáticas que surgiram em minha mente.
Eu era um adulto e Soleil era uma criança. Uma criança assustada e
zangada que procurava qualquer coisa que pudesse encontrar para afastar
as pessoas.

Mas eu estive onde ela estava. Afastando qualquer um que mostrasse


compaixão por mim porque eu pensei que eles simplesmente me deixariam
como meus pais fizeram. Soleil estava com medo, atacando. Eu disse que era
alguém com quem ela podia contar, e ela estava me testando agora, para ver
se uma acusação seria suficiente para testar minha determinação.

Eu soltei um suspiro enquanto pegava uma régua, examinando-a por


um momento antes de colocá-la de volta. Eu mantive minha voz calma
enquanto respondia às suas reivindicações.

—Você está certa, muitos garotos ricos acabam se tornando adultos


horríveis. De modo geral, existem dois tipos de pessoas que influenciam a
maneira como as pessoas são. Os pais... e os professores. Não tenho filhos e,
quando os tiver, com certeza não serão ricos, o que significa que, se quiser
mudar o comportamento da próxima geração de adultos ricos, só tenho uma
outra opção.

Claro, eu estava simplificando muito as coisas, mas Soleil não queria


nenhum raciocínio psicológico complexo. O fato é a melhor abordagem.

—Se eu puder mostrar a essas crianças como ter empatia pelas pessoas
menos afortunadas, as pessoas que tiveram problemas na vida, então talvez,
quando forem adultos, eles se lembrem dessas lições. — Peguei a lista da
cesta e olhei para baixo para ver o que mais ela precisava. —E
provavelmente não ganho tanto quanto você pensa que ganho. Acredite em
mim, toda a história de professores serem pagos em excesso é uma mentira.

Isso fez seus lábios se contorcerem. Não exatamente um sorriso, mas


próximo. Mesmo que ela não acreditasse em nada do que eu disse, ela não
estava me excluindo completamente.

Progresso.
DEZESSETE
ALEC

THERESA VOLTOU PARA CASA no domingo à tarde como planejado e eu


não reclamei. Eu amava minha filha e queria o melhor para ela. Só não
sabia se poderia ser isso. Então, eu fazia o que eu fazia sempre que ficava
preocupado... Eu programei o inferno fora de tudo.

Separei blocos de tempo para levar Evanne para a escola e buscá-la,


então me certifiquei de ter terça-feira na lista de pick-up, caso eu fosse pego
em uma reunião e não pudesse ir sozinho. Mas não planejei que isso
acontecesse com frequência, porque também estava mudando como e onde
trabalhava. Durante o horário escolar, eu trabalhava no escritório, e depois
do horário escolar, trabalhava em casa.

Elaborei um plano de alimentação, fiz um orçamento para terça-feira


para ir ao mercado semanalmente e fiz alertas de calendário para eventos
relacionados a Evanne, como festas de aniversário ou feriados ou viagens
escolares. Se alguma surpresa acontecesse, minha assistente sabia que ela
tinha que estar de plantão para ajudar. Eu estava um pouco preocupada que
adicionar todas essas tarefas pessoais iria incomodá-la, mas terça-feira
tinha levado tudo com calma.

No momento em que coloquei Evanne para dormir naquela noite,


pensei que tinha planejado todas as contingências. Eu até tive uma ótima
noite para pensar se as coisas ficassem difíceis. Eu poderia fazer isso.

Segunda-feira foi o teste. Fiz omeletes para o café da manhã, já que


eram o que Evanne e eu geralmente comíamos. Meu motorista, Barnaby,
nos levou até a escola, onde beijei Evanne e a observei caminhar até a porta
- eu não gostaria de envergonhá-la em sua nova escola - e então Barnaby me
levou ao meu escritório.

O dia de trabalho parecia ridiculamente curto quando percebi que tinha


de buscar Evanne às três, então não tive escolha a não ser pedir a terça-feira
para buscar Evanne e levá-la ao escritório, a fim de me dar uma preciosa
meia hora extra para fazer o trabalho. Quando Evanne entrou em meu
escritório, eu estava pronto para levar as coisas para casa.

Ficar trinta minutos de folga não era nada ruim. Afinal, esse era o
objetivo de um teste para ver como as coisas funcionavam e fazer as
alterações necessárias. Talvez a resposta fosse almoços mais curtos, para
começar. Talvez sem almoços. Eu poderia comer na minha mesa e trabalhar
ao mesmo tempo. Provavelmente me faria parecer ainda mais uma
workaholic anti-social, mas se me desse o tempo de que eu precisava para
tornar as coisas perfeitas com Evanne, eu aceitaria.

Do lado positivo das coisas, eu cozinhei com sucesso um jantar saudável


de frango, arroz e brócolis, e Evanne não reclamou nenhuma vez sobre comê-
lo, apesar de não ser pizza de forma alguma. Depois do jantar, coloquei o
trabalho em dia enquanto ela fazia suas tarefas e jogava Nintendo Switch,
e assistíamos a um filme da Disney juntas antes de sua hora de
dormir. Depois, trabalhei um pouco mais, determinado a ver como seria
difícil dedicar o mesmo número de horas que fazia antes de me tornar pai
em tempo integral.

Na terça de manhã, descobri que a resposta era “irritantemente


difícil”. Na faculdade, costumava funcionar com duas a três horas de sono
por noite, durante semanas. Nos meus vinte anos, não tive nenhum
problema em puxar uma noite. Agora, eu estava lento o suficiente para que
Barnaby trouxesse o café da manhã. Comemos no carro, Evanne saboreando
seus donuts enquanto eu me concentrava mais na enorme xícara de café do
que nos doces que havia na caixa entre nós.

Com Barnaby dirigindo enquanto comíamos, recuperamos todo o tempo


perdido, levando-a para a escola com bastante antecedência. Como sempre
fazia quando não era eu quem estava dirigindo, trabalhei enquanto Barnaby
manobrava no trânsito, e isso me colocou no caminho certo quando
chegamos a MIRI. Graças a trabalhar durante o almoço e não ter nenhuma
surpresa na minha agenda, terminei em tempo suficiente para dirigir para
buscar Evanne. O jeito que terça-feira sorriu para mim quando pedi a ela
para encaminhar minhas ligações me fez sentir como se tivesse feito algo
extraordinário, embora conhecesse milhões de pais fazendo malabarismos
com o trabalho e os filhos o tempo todo.

Mesmo assim, eu estava de bom humor quando Evanne entrou no


carro. Tão bom, na verdade, que quase perdi a pergunta que veio no meio de
seu diálogo ininterrupto sobre tudo que ela fez na escola naquele dia.

—O que foi isso, mo chride?

—Papai, você está me ouvindo? — Para uma criança de oito anos, ela
certamente sabia como soar severa.

—Estou tentando, mas você fala muito rápido, — respondi


honestamente.

Ela riu e balançou a cabeça como se eu estivesse sendo boba. Talvez


para ela eu fosse. Talvez todos os pais fossem tolos com as meninas.

—Eu disse que preciso de sua ajuda no meu dever de casa esta noite.

Meu estômago embrulhou. —Qual assunto?

—Estudos Sociais. Eu tenho que fazer, hum, uma linha. — Ela franziu
o cenho. —Não é isso. Oh! Uma linha do tempo!

—Uma linha do tempo? Sobre o que? — Eu conscientemente relaxei


meu aperto no volante e senti o sangue fluir de volta para meus dedos.

—Da expedição de Lewis e Clark.

O Lewis e...? Merda. Eu tinha mais ou menos a idade de Evanne


quando deixamos a Escócia, e obviamente fiz todas as aulas de história
obrigatórias para me formar, mas pela minha vida, não conseguia me
lembrar de nada sobre Lewis e quem quer que seja.

—Em que parte você precisava de ajuda? — Eu perguntei, esperando


parecer casualmente interessado, como um bom pai faria quando se tratasse
de ajudar seu filho nos deveres de casa.

—Minha ortografia. E, hum, se as datas estiverem certas.


Soltei um fluxo mental de maldições e forcei o sorriso a permanecer no
meu rosto.

—Eu mesma tenho que escrever porque a Sra. Browne diz que é
importante, mas podemos pedir aos nossos pais que verifiquem para ter
certeza de que está certo.

Pessoalmente, eu tinha minhas dúvidas sobre quantos dos outros pais


em Kurt Wright eram práticos com seus filhos, mas eu não pretendia criar
minha paternidade para atender aos padrões das famílias na escola de
Evanne, não importa o quão prestigiosa ela fosse. foi. Ajuda ocasional,
especialmente enquanto eu resolvo as coisas com minha programação, seria
aceitável. Ignorar uma tarefa de casa de outra pessoa porque eu não queria
fazer isso não era aceitável.

—Depois do seu lanche, que tal sentarmos juntos e trabalharmos?


— Eu sugeri. —Assim, se você tiver alguma dúvida, estarei lá para
respondê-la.

E eu estaria com meu laptop ali também.

Parecia um bom plano na minha cabeça, mas quando realmente


decidimos fazê-lo, percebi que havia algo que não havia levado em
consideração. Embora fosse normal dizer que não me lembrava exatamente
de quanto tempo levou para um grupo de exploradores do início do século
XIX atravessar o oeste dos Estados Unidos e depois usar meu computador
ou telefone para procurar as informações, isso não trabalhar o tempo
todo. Minha filha estava crescendo em um mundo onde era fácil pedir às
máquinas para fazer o trabalho braçal, mas isso não significava que ela
poderia confiar que sempre teria essa informação na ponta dos dedos.

Depois, havia outras coisas que os pais não deveriam ter que olhar para
cima.

Coisas como ortografia. Palavras que estavam em seu livro, mas eu não
queria nem tentar encontrar.
E quantas vezes eu poderia justificar dizendo a ela que ela precisava
pesquisar as coisas sozinha? Quando isso passou da construção do caráter e
da ética de trabalho para deixá-la de fora porque eu não queria fazer isso? E
como foi hipócrita da minha parte dizer que ela precisava aprender a fazer
as coisas sozinha quando a intenção por trás de mim não era para que ela
aprendesse que tudo não era entregue a ela, mas sim para evitar sou eu
mesmo?

Todas essas perguntas giravam em minha cabeça enquanto eu lutava


para determinar o melhor curso de ação. Quando não a estava ajudando, não
conseguia me concentrar no meu próprio trabalho porque ficava me
perguntando se ela estava bem, se ela pararia de me pedir ajuda quando
visse o quanto eu odiava, se ela pensasse que eu a odiava...

No momento em que a coloquei na cama, eu estava mais exausto do que


ela, mas seu dever de casa estava feito.

Eu não poderia continuar fazendo assim. Eu pensei que poderia lidar


com tudo do jeito que Keli fez, mas agora eu sabia que não era o caso. Eu
poderia ter ligado para Theresa e pedido que ela voltasse e ajudasse
enquanto encontrava um tutor, mas não conseguia suportar a ideia de
deixar meus pais decepcionados comigo.

Isso só significava que eu precisava fazer o que sempre fiz e descobrir. O


primeiro passo seria marcar uma reunião com a professora da Evanne para
saber detalhes sobre o que se esperava dos alunos e talvez até pedir os
próximos trabalhos para que eu mesma tivesse tempo de fazer a pesquisa.

Isso prejudicaria meu trabalho, mas não consegui ver uma opção
melhor.

Eu era o pai de Evanne e faria as coisas certas, não importa o que isso
significasse para mim.
DEZOITO

COMO AS AULAS DE GINÁSTICA DOS MEUS ALUNOS aconteciam nas tardes


de quarta-feira, eu sabia que teria tempo para desfrutar de ter a sala só para
mim enquanto fazia meus planos de aula, mas assim como eu tinha tudo
configurado do jeito que eu queria, pelo menos A pessoa favorita da escola
entrou com seu sorriso arrogante e malicioso de sempre. Eu consegui evitar
ficar sozinha com ele desde nosso primeiro encontro, mas agora estava
encurralada.

Ele usava o mesmo terno cinza-ardósia que sempre parecia usar, mas
com uma camisa de cor ligeiramente diferente que nunca estava
completamente sem rugas. Suas gravatas sempre foram um pouco tortas,
seu rosto nunca completamente barbeado. Eu odiava a ideia de ser
superficial o suficiente para que essas coisas pudessem me fazer pensar mal
dele.

Então ele abriu a boca e me lembrei que afinal não era superficial... e
que seu comportamento inadequado não era uma coisa isolada.

—Feliz dia de corcunda, Sssenhorita Browne, — disse ele.

—Boa tarde, Sr. Harvey. Como posso ajudá-lo? — Eu perguntei.

—Direto aos negócios, como sempre, — ele riu, batendo os nós dos dedos
contra a minha mesa enquanto se aproximava.

Eu me lembrei que não era uma boa ideia empurrar minha cadeira para
longe dele. Como sair para o corredor.

—Vim lhe contar sobre um e-mail que recebemos dos pais de um dos
seus filhos.

Meu estômago afundou. Eu já não estava recebendo reclamações,


certo? Claro, algumas das mães e pais que conheci na visitação pública
pareciam um pouco exigentes, mas tive a impressão de que não eram
pacientes o suficiente para passar pelos canais. O fato de terem entrado em
contato com o vice-diretor não era um bom presságio.

Harvey riu, erguendo as mãos com as palmas para fora. —Ei, não mate
o mensageiro. Criminosa, você deveria ver seu rosto! Não se preocupe; você
não está com problemas. Quer dizer, eu não acho que você seja.

Eu cerrei meus dentes e esperava que ele simplesmente continuasse


com isso.

Felizmente, ele fez. —O pai de Evanne quer marcar uma reunião com
você na sexta-feira depois da escola para discutir algumas coisas.

Demorou um segundo, mas então o que ele disse foi totalmente


absorvido. —O pai de Evanne?

Harvey ergueu uma sobrancelha. —Isso é um problema?

Eu balancei minha cabeça, confuso. —Não. É só que... achei que os


registros de Evanne mostrassem que a mãe dela tinha a custódia primária.

—Oh, isso mesmo, — disse Harvey, estalando os dedos. —Eu pedi para
Alice verificar para mim antes de vir aqui. A custódia primária foi
transferida da mãe de Evanne para o pai. Aparentemente, foi uma coisa de
última hora, e como é o início do ano, as coisas ficaram paralisadas. De
qualquer forma. Sexta-feira às quatro horas aqui trabalha para você?

Eu fiz uma careta. Eu não tinha ideia de que tudo isso estava
acontecendo com Evanne, e deveria. Esse tipo de coisa pode foder
seriamente a cabeça de uma criança. Ela certamente parecia tão alegre
como sempre, mas talvez ela apenas fosse boa em esconder como realmente
se sentia. Eu conheci um monte de crianças que podiam fingir estar bem e
então... não estar.

Harvey pigarreou.

Certo. Respondendo sua pergunta.


—Sim, tudo bem, — eu disse, abrindo meu planejador e rabiscando-o.
—Encontrarei o Sr. McCrae aqui sexta-feira à tarde às quatro.

Na verdade, estava me sentindo melhor agora que sabia que era o pai
de Evanne quem queria uma reunião. Já que ele agora tinha a custódia
primária e não foi capaz de comparecer à visitação pública, ele
provavelmente só queria me conhecer. Presumi que fosse isso que um pai
envolvido faria.

—Isso é ótimo, Lumen, simplesmente fantástico, — Harvey


continuou. —E certifique-se de fazê-lo feliz, certo?

Algo em seu tom me fez erguer os olhos. —O que isso significa?

Ele deu uma risadinha. —Vamos. Você é uma garota


esperta. Sr. McCrae? — Eu olhei fixamente. —O cara é uma das elites,
Lumen.

—Sra. Browne, —eu corrigi.

Ele me ignorou. —O clã McCrae é uma das principais famílias de


Seattle. Você tinha que saber disso.

—Eu não sei. — Eu disse firmemente.

Ele sorriu e piscou para mim. —Bem, agora você sabe. Você não tem
que dar a ele um BJ13 ou qualquer coisa, mas...

Minhas sobrancelhas se ergueram. — Com licença?

—Apenas certifique-se de que ele saiba que você está tratando sua filha
com o máximo cuidado, certo?

—Sr. Harvey...

13 Blowjob, isso quer dizer boquete.


Ele continuou como se eu não tivesse dito uma palavra. —Tenho
certeza de que não preciso dizer a você o quão importante McCrae é para a
prosperidade de Kurt Wright. Ele é o nosso segundo maior investidor.

Ele pigarreou. —Doador, quero dizer. Bem atrás do pai que


praticamente dirige o NRA. Esses são caras que queremos tratar bem.

—"Trate bem”. — Eu repeti, incapaz de acreditar no que estava


ouvindo. Eu tinha que estar entendendo mal. —O que faz aquilo...

—Você vai se sair bem, garota. McCrae vai dar uma olhada em você e
vai ser uma massa de vidraceiro em suas mãos. — Ele sorriu.

Isso era inútil. Harvey era um libertino misógino que nunca entenderia
por que essa conversa não deveria ter acontecido. —Eu cuidarei disso.

—Eu sei que você vai. Tenho certeza que você é ótimo em cuidar das
pessoas.

Eu cerrei meus dentes, mas não disse mais nada. Voltei para o meu
planejador e esperava que ele entendesse a dica. Ele riu e acenou com os
dedos antes de sair da sala, claramente satisfeito consigo mesmo.

Quando fiquei sozinha de novo, soltei um suspiro e fechei os


olhos. Minha cabeça latejava e belisquei a ponta do meu nariz. Esta não era
uma dor de cabeça que eu gostaria de ter, especialmente não tão no início do
ano escolar.

Sexta às quatro. Isso me deu dois dias para reunir tudo o que achei que
o Sr. McCrae pudesse querer.

Eu poderia fazer isso.

Fui direto para casa depois do trabalho, pronto para fazer alguma
descompressão, mas quando entrei em meu apartamento, imediatamente
notei que a cozinha estava uma bagunça. E não como uma tigela de café da
manhã deixada na pia meio bagunçada.

—Lulu, é você? — veio uma voz da sala de estar.


—Sou eu, — eu disse, franzindo a testa para o desastre nos balcões da
cozinha. Agora que estava realmente olhando, pude ver algum padrão na
bagunça. Parecia que vários projetos - por falta de uma palavra melhor -
haviam sido iniciados e interrompidos.

Merda.

Eu coloquei minhas malas no chão e entrei na sala de estar. Mai estava


vestida com seu roupão rosa e chinelos de gato Pusheen, uma máscara
hidratante verde pegajosa no rosto. Seu cabelo estava amarrado para trás,
e ela estava recostada na poltrona assistindo TV, uma grande tigela de
pipoca quase consumida em seu colo.

Definitivamente uma merda.

—O que aconteceu? — Eu perguntei imediatamente.

—Estou assistindo a um programa do Archie, — disse ela. Ela olhou


para mim e vi que seus olhos estavam vermelhos.

Fui até a poltrona reclinável e me agachei ao lado dela. —Você está


bem, querida?

—Tive uma briga idiota com Hob. — Ela murmurou, piscando


rapidamente.

—Oh, querida... — Eu disse, colocando minhas mãos em uma das


dela. —Vou pedir os chineses.

Ela riu, o soluço que estava em sua garganta escapando com ele. —Isso
seria bom.

Depois que pedi a comida reconfortante necessária e peguei uma


garrafa de vinho, espelhei a combinação de maiô-pantufas e máscara facial
e estávamos prontos para nossa maratona Netflix. Esta não foi a primeira
vez que passamos por essa rotina. Sempre que Mai brigava com Hob,
normalmente era por causa de algo inconsequente, que os dois resolveriam
em um ou dois dias. Ela só precisava tirar as coisas da cabeça um pouco. Em
pouco tempo, estávamos rindo da tolice do show ao mesmo tempo que
ficamos completamente apaixonados pelo mistério, nossos dias estressantes
deixados de lado, senão esquecidos.

Exceto que havia uma família no programa que estávamos assistindo,


uma família poderosa, que me fez pensar no que Harvey havia dito sobre o
pai de Evanne. Eu nunca prestei muita atenção às chamadas páginas da
sociedade, mas Mai tinha uma obsessão por blogs de fofoca e estilos de vida
de celebridades. Talvez ela soubesse sobre os McCraes.

—Você já ouviu falar da família McCrae? — Eu perguntei a ela


enquanto os créditos do episódio atual iam.

—Claro. Eles chefiam o Instituto de Pesquisa Internacional McCrae, —


disse Mai. —Duh.

Bom saber que ela estava se sentindo melhor. —Isso soa familiar...

—MIRI, — Mai esclareceu. —Eles organizam grandes conferências de


negócios e tecnologia em todo o mundo. A empresa vale milhões. A família
McCrae também.

Certo, eu tinha ouvido falar deles. Entre outras coisas, eles


patrocinaram as maiores conferências de professores em Seattle e em todo
o mundo.

—Existem locais em todo o mundo, mas acho que o chefe mora por
aqui. Não que alguém soubesse disso. Ele praticamente mantém para si
mesmo. — Mai encolheu os ombros. —Por que o interesse repentino?

—Você conhece Evanne? O garoto fofo da minha classe que vai ser um
velocista de maratona?

Mai assentiu, esvaziando o resto de seu vinho.

—O sobrenome dela é McCrae.

Os olhos de Mai se arregalaram. —Uau. Essa escola é realmente


de primeira linha.
—Devo encontrar o pai dela na sexta-feira, — eu disse, bebendo meu
vinho. —Aquele vice-presidente sujo me disse para “fazê-lo feliz”.

Ela torceu o nariz. —Aí credo.

—Sim.

—Bem, quando você se casar com o Sr. McCrae, talvez o vice-presidente


finalmente o deixe em paz. — Mai piscou. —Ou melhor ainda, você pode
comprar a escola e despedir o traseiro do desprezível.

Eu bufei. —Vamos começar o próximo episódio.

—Achei que você nunca iria perguntar.

Mai retomou a reprodução automática do Netflix e voltamos para a


noite das nossas meninas. Não mais pensando nos homens por enquanto.
DEZENOVE
ALEC

EU FIQUEI PENSANDO se DEVERIA ou não contratar uma babá regular


para Evanne, mas ainda não tinha decidido quando seria a hora do meu
encontro com a infame Sra. Browne, então decidi mantê-la comigo para a
reunião. Não é como se estivéssemos discutindo algo que Evanne não
pudesse ouvir.

Depois que fui buscá-la na escola, fomos comer algo rápido em uma
lanchonete da esquina, e Evanne me contou sobre seu dia. Ela ficou em
êxtase por eu conhecer a Sra. Browne, convencida de que este seria, em suas
palavras, —O melhor dia de todos.

Tive de admitir que estava um pouco nervoso. Embora em geral eu


fosse bom com reuniões cara a cara, as escolas sempre me deixaram um
pouco... desequilibrado.

Não que Evanne tivesse o mesmo problema. A maneira como ela


continuava falando sobre seu dia era uma evidência disso. Ela também não
parecia comigo quando se tratava de falar, disso eu tinha certeza. Eu sempre
fui o quieto, levando meu tempo para dizer qualquer coisa.

—Não fale com a boca cheia e leve o seu tempo mastigando. Não quero
você sufocando.

Ela sorriu, dando-me aquelas covinhas que derreteram meu coração.

Talvez eu pudesse fazer isso sem contratar ajuda. Certo, conseguir uma
babá em meio período tiraria muita pressão de mim, mas eu só queria o
melhor para ela. Quer dizer, eu não era tão tenso a ponto de pensar que
poderia fazer um trabalho melhor do que um cuidador treinado. Eu só
queria um relacionamento forte com minha filha. Eu queria ser um bom pai.

Depois que terminamos nossos sanduíches, eu verifiquei meu


relógio. Quase na hora da reunião. Eu poderia fazer isso. Inferno, eu
terminei a faculdade. Visitar um professor da terceira série deve ser moleza.
—Lamento arrastar você de volta para a escola logo depois de levá-la
embora, mo chride, — eu disse a Evanne.

—Está bem. Eu gosto da escola, — ela me assegurou. —E eu gosto da


Sra. Browne.

—É assim mesmo? Você nunca me disse isso. — Pressionei meus lábios


para não rir da expressão indignada no rosto da minha filha.

—Sim eu fiz! — Ela colocou as mãos nos quadris, olhando a cara de sua
tia Maggie.

Bem, como Maggie quando criança. Meu sorriso vacilou, mas forcei meu
irmão mais velho a se preocupar. Eu tinha que lidar com a preocupação do
pai agora.

E eu queria sorrir um pouco mais. —Não soa um sino.

Ela rosnou adoravelmente, e eu ri, nós duas limpando nossa mesa


enquanto Evanne repassava todas as coisas positivas que ela já disse sobre
a Sra. Browne. Quando voltamos para a escola, Evanne me mostrou o
caminho para sua sala de aula. Quando chegamos, bati na porta, embora
estivesse aberta.

—Entre.

Evanne entrou primeiro, claramente sem qualquer apreensão que eu


estava sentindo. Eu respirei fundo. Isso não era sobre mim. Era para
Evanne. Era sobre o que era melhor para ela. Isso era tudo o que importava.

—Olá, Evanne! É maravilhoso ver você de novo. — A voz da professora


estava baixa o suficiente para que eu soubesse automaticamente que ela não
estava dizendo as palavras para eu ouvir. Ela realmente gostou da minha
filha.

Limpei minha garganta e entrei na sala de aula. A luz que entrava


pelas janelas me cegou por um momento, mas continuei andando, não
querendo parecer ansiosa com aquele encontro.
Eu ainda estava piscando na tentativa de limpar minha visão quando
estendi minha mão. —Boa tarde. Sou Alec McCrae.

—Oh…

Esse som único e ofegante torceu algo em mim, como se estivesse me


preparando. No momento em que minha visão clareou, eu entendi.

As roupas eram simples e exatamente o que se esperaria de uma


professora da terceira série, mesmo sendo tão jovem e atraente. Cabelo de
mel puxado para trás em um rabo de cavalo confortável. Sapatilhas em vez
de saltos. Nenhuma maquiagem que eu pudesse ver.

Mas foi ela.

Ela estava aqui.

Lumen.

Sra. Browne.

Lumen Browne.

—Prazer em conhecê-lo, — eu me atrapalhei, deixando cair minha mão.

—Você também, Sr. McCrae, — disse ela, estremecendo ao dizer meu


nome.

E então nós dois percebemos que não estávamos sozinhos e olhamos


para Evanne. Ela estava piscando os olhos entre nós dois, seu sorriso
desaparecendo um pouco. Ela era muito inteligente para seu próprio bem.

—Bem — disse Lumen, batendo palmas e apertando-as. —Por que


vocês dois não se sentam e podemos conversar?

—Sim, obrigado. Hum... —Eu não sabia como chamá-la. Lumen me fez
pensar em como ela se sentia debaixo de mim. A Sra. Browne me fez pensar
em todas as coisas maravilhosas que minha filha de oito anos disse.

Tentar fundir essas duas pessoas em uma mulher na minha frente me


fez sentir vagamente suja.
Então percebi que havia apenas uma cadeira. Parecia que Lumen
esperava apenas por mim, não por nós duas, e isso, por algum motivo, me
ajudou a reorientar.

—Vá em frente, mo chride, — disse a Evanne.

—Oh, — disse Lumen, —há uma cadeira sobressalente ali...

—Ok, — eu disse, caminhando até a mesa mais próxima e puxando a


cadeira. Quando voltei para me sentar ao lado de Evanne, notei que as
bochechas de Lumen estavam vermelhas. Os meus provavelmente
também. Eu só esperava que minha filha com olhos de águia não notasse.

—Antes de começarmos, — disse Lumen, —gostaria apenas de dizer


que Evanne tem sido uma excelente aluna até agora. — Ela deu a Evanne
um olhar severo. —Mesmo que ela goste de correr nos corredores.

Evanne riu e eu exalei. Lumen não iria deixar o que aconteceu entre
nós afetar o que ela sentia pela minha filha. A última coisa que eu queria
era que alguém tratasse Evanne mal por causa de sua opinião sobre mim.

—Ela não gosta muito de caminhar, — eu disse, me mexendo na


cadeira.

—Estou tentando muito desacelerar, — Evanne nos disse com


sinceridade.

Lumen sorriu. —Mesmo que você precise andar um pouco mais


devagar, você é um dos meus melhores alunos.

A sinceridade na voz de Lumen não deixou margem para dúvidas. Ela


quis dizer cada palavra que disse, e Evanne ficou emocionada. Senti uma
onda de orgulho, embora duvidasse que tivesse muito a ver com o sucesso
acadêmico de minha filha. O temperamento dela não era muito parecido com
o meu, mas pelo que me lembrei de minha mãe e das histórias que Da
contava, essa parte da personalidade de Evanne viera de mamãe.

—Então, Sr. McCrae, — Lumen começou.


—Você pode me chamar de... — comecei, mas então percebi que ela já
sabia que poderia me chamar de Alec, o que significava que ela tinha um
motivo para sua escolha. Merda. Era tarde demais para não terminar meu
pensamento sem Evanne fazer perguntas. —.. Alec.

Lumen sorriu levemente. —Alec, então. O que você gostaria de discutir


esta tarde?

Quase havia esquecido o motivo pelo qual agendei a reunião. —Eu só


queria conversar com você para ter uma ideia dos planos de aula para o ano
letivo, já que, infelizmente, não pude estar presente para a visitação
pública. Minha mãe me deu o básico, mas como este é o primeiro ano de
Evanne aqui, quero me manter em dia com as coisas.

Foi só depois que as palavras saíram da minha boca que percebi que a
frase americana comum poderia ser entendida de maneira sexual. Eu
enrolei e desenrolei meus dedos, esperando que Lumen não achasse que eu
estava vindo para ela. Eu nunca teria feito sexo com ela se soubesse que ela
era a professora de Evanne.

—Claro. — Lumen estava mantendo sua compostura muito bem,


considerando todas as coisas. —Acho que ainda tenho alguns documentos
da visitação pública que a Sra. McCrae não teve a chance de pegar.

Amaldiçoei mentalmente as circunstâncias que me mantiveram longe


naquela noite. Devo ter parecido um pai ausente, completamente
desorganizado e sem noção. Lumen, por outro lado, tinha tudo em sua mesa
limpo e organizado para a máxima eficiência. Ela mal teve que cavar para
encontrar os documentos da casa aberta. Eu sabia como era difícil manter
esse tipo de ordem e uma nova admiração por suas habilidades criou raízes.

—Aqui estamos, — disse ela, deslizando o pequeno pacote para mim. —


Fique à vontade para dar uma olhada e me dizer o que mais você pode estar
interessado em saber.

Meu peito se apertou de uma forma muito familiar enquanto eu olhava


para os papéis na minha frente. —Vou dar uma olhada nisso um pouco mais
tarde esta noite e depois volto para você.
Ela assentiu. —Minhas informações de contato também estão lá, então
você não precisa passar pelo escritório se não quiser.

Não perdi a ironia de que agora tinha as informações que queria, mas
não tinha pedido antes porque era para ser apenas um encontro
divertido. Nada mais.

—A propósito, Evanne... — Lumen continuou como se fosse apenas


mais uma reunião de pais e professores, me fazendo pensar se isso era tão
surreal para ela quanto para mim. —Você se saiu muito bem na linha do
tempo de Lewis e Clark. Eu apenas marquei.

—Realmente?

—Ah sim. Estou muito impressionada. Você deve ter trabalhado muito.

Evanne me olhou de soslaio. —Bem, meu pai ajudou um pouco.

—Tudo bem. — disse Lumen, os olhos azuis cintilando enquanto ela


olhava para mim. —É bom pedir ajuda quando você precisar. Eu sei que
você não trapaceou porque está com sua caligrafia, e havia algumas grafias
bastante criativas para a palavra “expedição”.

Limpei a garganta e entrei na conversa antes que a discussão sobre o


dever de casa anterior pudesse ir mais longe. —As coisas estão indo
bem? Notas, comportamento, tudo? Além da tendência de correr quando
deveria andar, é claro. — Pisquei para Evanne para que ela soubesse que,
embora eu estivesse falando sério sobre seu comportamento na escola, não
iria gritar com ela sobre algo tão pequeno como correr.

—Muito bem. — Lumen manteve os olhos em Evanne. —Espero que


continue com o bom trabalho!

Evanne parecia que ia explodir de felicidade e um pouco da pressão no


meu peito diminuiu. Foi um alívio saber que a mudança repentina na
custódia não tinha bagunçado Evanne. Meu maior medo quando Keli me
disse que estava grávida era que eu fizesse algo para machucar minha filha.
—Sim, é bom ouvir isso. Mesmo assim, deve haver lugares em que
possamos melhorar, — eu disse.

Lumen assentiu, seu olhar tocando levemente meu rosto antes de


fugir. —Como observei, a ortografia às vezes precisa de outra
verificação. Normalmente incentivo os pais a soletrar a palavra em voz alta,
depois peço que seus filhos a repitam e depois escrevam. Todo mundo tem
estilos de aprendizagem diferentes.

Eu me perguntei o quão melhor eu teria sido na escola se eu tivesse


uma professora como Lumen. Então, novamente, se eu tivesse uma
professora como ela depois de descobrir o quanto eu gostava de meninas,
provavelmente não teria feito nenhum trabalho. Ela definitivamente teria
sido uma distração.

—Discutimos a corrida nos corredores, mas há outras áreas em que


também discutimos paciência. São sempre lições que podem ser reforçadas
em casa. — Aqui Lumen lançou um olhar gentil, mas penetrante para
Evanne, que olhou para suas mãos. —Por exemplo, Evanne sempre quer
estar na frente de todas as filas e a primeira a sair para o recreio. Você se
lembra do que dissemos sobre isso?

—"É normal ser competitivo, mas você tem que deixar outras pessoas
estarem na sua frente às vezes”, — Evanne recitou afetadamente. —"E
guarde o sprint para a pista de corrida.”

Lumen riu e Evanne sorriu. Esses dois estavam realmente se dando


bem. Foi ótimo de se ver.

—Vamos trabalhar nessas coisas, — disse enquanto estendia a mão


para colocar a mão na cabeça de Evanne. —Não vamos, mo chride?

—Vou tentar o meu melhor, — prometeu Evanne.

Este foi um problema que eu tive que assumir. Quase todos os meus
irmãos eram competitivos e eu era o pior de todos nós. Eu sabia que era por
isso que eu era tão workaholic agora. Eu tinha que ser o melhor, realizar o
máximo. Não necessariamente para mostrar aos outros o quanto eu havia
conquistado, mas para provar a mim mesmo o que eu poderia fazer.

—Você tem cópias eletrônicas desses arquivos? — Eu perguntei. —


Acho benéfico ter cópias eletrônicas e impressas, então tenho backups.

—Claro, — disse Lumen. —Posso pegar seu endereço de e-mail nos


arquivos da escola e enviar para você imediatamente.

Enfiei a mão no bolso do casaco e tirei um dos meus cartões de visita. —


Aqui está o meu cartão. Tem meu e-mail nele. Se for mais fácil.

Minha frase foi cortada abruptamente quando percebi que estava


prestes a chamá-la de moça. Não queria dar a ideia errada a ninguém,
inclusive a mim. Estaríamos nos vendo bastante durante o ano letivo, e eu
queria que pudéssemos conversar sem que nenhum de nós se sentisse
estranho sobre isso.

Fale sobre Evanne, é claro. Isso e uma conversa educada. Não


precisamos conversar sobre mais nada. Já havíamos dito tudo o que
precisávamos dizer.

E enquanto eu sorria para Lumen, e ela sorria de volta, eu disse a mim


mesmo que era melhor assim. Para todos.
VINTE

O PRIMEIRO HOMEM COM quem dormi foi o pai da minha aluna favorita.

Isso soou como o início de um filme pornô realmente ruim. Ou talvez


uma música country realmente boa.

Definitivamente não era o que eu queria para uma primeira vez


divertida e sem cordas.

Foda-se minha vida.

Eu estava tão confuso com o que tinha acontecido que esqueci vários
dos meus livros na sala de aula na minha pressa para falar com Mai e obter
alguma clareza. Foi só depois de conversarmos - e tomarmos um sorvete
sério - que fui guardar minhas coisas e percebi que os livros de que precisava
estavam na minha mesa. Eventualmente, eu tinha certeza de que
conheceria o currículo o suficiente para que os planos fossem praticamente
escritos por si mesmos. Eu era muito novo nisso agora, no entanto.

Durante a viagem de ônibus para a escola no dia seguinte, tive tempo


de sobra para pensar sobre tudo o que tinha acontecido entre Alec e eu, bem
como para considerar as coisas que Mai havia dito. A opinião dela tinha se
resumido em “adulto quente e consentindo, foda-se”, mas isso realmente não
tinha sido uma surpresa. Mesmo depois que eu expliquei a ela as
complicações que vieram com Alec sendo o pai de um dos meus alunos, ela
estava no movimento de Alec.

Saber que meu melhor amigo não tinha problemas com essa situação
não ajudou em nada para acalmar os nervos que estavam se fechando desde
ontem.

Eu esperava ter coisas às quais precisava me acostumar, uma curva de


aprendizado à qual eu me ajustaria. Todo mundo tinha um novo emprego, e
não era diferente no ensino. Minha infância me deu uma certa vantagem
quando se tratava de me adaptar a novas situações, mas essa situação não
era nada para o qual eu saberia me preparar.

Eu esperava pais que pensariam que eu era muito jovem, que se


preocupariam com o fato de que este era meu primeiro ano. Haveria alguns
idiotas como Cornelius Harvey que flertariam comigo, mesmo com suas
esposas bem ao seu lado. Esposas que me desprezariam por ser jovem e
bonita. Famílias que me tratariam como uma ajudante se não perguntassem
de onde eu vim, e que me olhariam como algo ainda menos se soubessem do
meu passado.

Achei que teria que usar uma máscara educada, não morder a isca
quando as pessoas eram desagradáveis. Esse foi o tipo de profissionalismo
com o qual pensei que estaria lidando. Não com uma atração por um pai, e
certamente não uma atração por um pai com quem eu já dormi. Já que nos
separamos em boas circunstâncias, não deveria ser difícil de fazer. Ele não
estava me perseguindo e eu não o estava perseguindo. Contanto que nós dois
continuássemos com a mesma mente, estaríamos bem.

E isso não seria um problema porque eu tinha meu foco no lugar


certo. Meu trabalho. Não sexo. E certamente não sobre sexo com Alec.

Merda.

Desci uma parada mais cedo porque andar parecia uma ideia melhor
do que sentar e pensar. Estava garoando, mas não fazia frio, e um número
surpreendente de pessoas estava aproveitando o clima agradável. Com o
outono começando oficialmente em algumas semanas, os nativos de Seattle
sempre souberam pegar o que pudessem.

Eu tinha visto Alec aqui antes, eu percebi. Quando eu estava


caminhando da escola para o ponto de ônibus, ele estava correndo. Mesmo
quando o pensamento veio a mim, eu me encontrei procurando por ele na
área. Foi estúpido. Além de estúpido. Mas eu não consegui evitar, nem
mesmo se as chances fossem astronômicas de que por acaso nos veríamos
novamente.
Então, novamente, a maneira como nós dois continuávamos nos
encontrando parecia desafiar as probabilidades.

—Sra. Browne!

Achei que devia estar ouvindo coisas, mas olhei mesmo assim. Na
calçada, vi uma garotinha de cabelo escuro e encaracolado, vestida com
jeans e tênis cintilantes, acenando animadamente para mim. Ao lado dela
estava a silhueta inconfundível de seu pai. Enquanto eles corriam mais
perto, eu pude ver a expressão estranha no rosto de Alec, e fui atingida pelo
desejo irresistível de colocá-lo à vontade.

O que significava dirigir-se à filha e não ao elefante na... calçada.

—Boa tarde, Evanne, — eu disse quando ela me alcançou. Eu dei a Alec


um sorriso profissional e inclinei minha cabeça. —E você, Sr.
McCrae. Espero que você esteja tendo um bom sábado.

—Papai, pause o cronômetro! — Evanne ordenou. Alec riu e clicou em


algo em seu relógio. —Estamos vendo o quão rápido podemos correr de casa
para a escola, — explicou ela. —Para que eu possa correr em vez de ficar
sentado no carro.

—Você vai começar a aparecer para a aula todo suado, então? — Eu a


provoquei.

Pela maneira como ela franziu o rosto, parecia que ela não havia
considerado isso. —Bem, — disse ela, ainda perdida em pensamentos, —
posso ir a pé para a escola e correr para casa.

—Você está passando o pequeno mastigador suado para mim? — Alec


brincou, seu tom leve.

—Acho que sim, — eu disse, surpresa com o comentário tanto quanto


com o sorriso.

—Você está bem, — disse Alec. Suas bochechas coraram um momento


depois, e ele deve ter percebido como soou porque rapidamente acrescentou:
—Você vai trabalhar neste fim de semana?
— Só estou pegando algumas coisas — falei, virando-me para Evanne
para evitar o brilho dos olhos azuis de seu pai. —É bom ver que você está
correndo para fora em vez de para dentro, para variar.

—Eu corro para todo lado!

—Tenho certeza de que é um choque. — Apesar do humor em sua voz,


ele se manteve tenso agora, seu sorriso mais praticado do que genuíno.

Eu espelhei sua expressão, me lembrando que era assim que tinha que
ser. —É verdade.

Nós cantarolamos risadas juntos, e eu não queria nada mais do que o


chão para me devorar.

Merda. Não pude negar o quanto gostei disso, parada aqui,


conversando com ele e com Evanne. Como ele era gostoso.

Foi completamente inapropriado. Eu não estava menos atraída por ele


agora que sabia que ele era o pai do meu aluno. Nem mesmo com ele um
pouco suado e com roupas casuais. Nem mesmo depois de estar determinada
a esquecê-lo. Tínhamos nossa noite. Nós nos divertimos. Não havia
necessidade de mais nada.

—Eu gosto muito da aula de educação física, — disse Evanne de


repente. —Dodgeball é o meu favorito porque sou tão rápido que ninguém
consegue me acertar, mas sempre erro quando tento pegar a bola, então, em
vez disso, apenas corro até que haja apenas um outro jogador no outro time
e então quando eles jogam a bola eles erram para que eu possa pegá-la sem
ter que pegá-la e então eu jogo e às vezes eu acerto e ganho!

—Isso parece emocionante, — eu disse quando ela finalmente respirou


fundo.

Eu amei o quão entusiasmada ela estava e esperava que ela


continuasse assim com o passar do ano.

—Ainda sinto falta do atletismo da segunda série da minha antiga


escola, mas o Sr. Buchannan diz que se continuar treinando para ter certeza
de que sou o mais rápido, estarei pronto na primavera. Às vezes temos esses
esportes lentos, como o badminton, e não há como correr, e eu só queria que
o atletismo já estivesse de volta...

—Tudo bem aí, mo chride — disse Alec, colocando a mão no ombro de


Evanne. —Não vamos ocupar mais o tempo da Sra. Browne, certo?

—Não é nenhum problema, — eu disse honestamente. —Eu sempre


gosto das histórias de Evanne, mas não vou impedir vocês dois de
estabelecerem um novo recorde.

—Vamos continuar andando? — Alec perguntou a sua filha.

Ela mordeu o lábio, hesitando por algum motivo. Então ela disse: —
Sra. Browne?

—Sim, Evanne?

—Você pode vir jantar na minha casa hoje?

Merda.

Os olhos de Alec se arregalaram e seu sorriso se achatou. — Mo chride,


eu não acho...

—Por favor? Seria muito divertido.

Merda!

—Oh, Evanne, — eu gaguejei. —Isso parece... maravilhoso, mas não


quero ser nenhum problema.

—Não é problema, certo, papai?

Ela olhou para ele, aqueles grandes olhos azuis dela olhando para
ele. Ele esfregou a mão na bochecha. —Não, quero dizer...

—Vê, Sra. Browne? — Evanne voltou aqueles olhos para mim.

—Evanne, — Alec se atrapalhou. —É um aviso um pouco rápido.

—Por favor, papai? Por favor, Sra. Browne? Vou me comportar da


melhor maneira. Eu prometo.
Droga. Como eu deveria argumentar contra isso? Eu era bom em
dizer não a um grupo de crianças suplicantes, mas essa criança...

Eu estava sem palavras quando olhei para Alec. Quando vi uma


expressão semelhante em seu rosto, ri.

—Ela é uma negociadora dura, — eu disse.

—Sim, moça. Conte-me sobre isso.

O nome do animal de estimação enviou um arrepio na minha espinha,


embora eu soubesse que não era algo pessoal para mim. Uma parte de mim
queria perguntar a ele se ele estava colocando-a nisso, mas eu sabia que era
uma má ideia. Se ele dissesse que sim, eu saberia que precisava passar o
resto do ano evitando-o. Se ele dissesse não, eu nem queria pensar no quanto
isso doeria.

—Ficaria tudo bem, certo, pai? Você pode fazer frango com damasco!

—Talvez a Sra. Browne não goste de frango, — Alec ofereceu.

Ela franziu o cenho. —Por que ela não gostaria de frango?

—Talvez ela seja vegetariana. — Ele olhou para mim, humor dançando
em seus olhos.

—O que isso significa?

Tive a sensação de que esse era o tipo de conversa que os dois


costumavam ter.

—Isso significa que ela não come animais.

—Frango é um animal? — Sua carranca se transformou em surpresa


de olhos arregalados quando ela conectou os pontos. —Frango é feito
de galinhas?

—Oh, cara, — eu ri. —Você fez isso agora.

—Mas não tem penas!


Alec fez uma careta. —Neste verão, ela descobriu que bife era feito de
vaca e se recusou a comê-lo. Minha lista de receitas ficará cada vez menor
se eu tiver que retirar o frango da lista.

Fiquei impressionado que ele conseguiu esconder a verdade da carne


por tanto tempo. —Acho que você vai ter um vegetariano na família.

Evanne pensou a respeito e disse: —Não, gosto demais de


frango. Você come frango, Sra. Browne?

—Sim, — admiti antes de perceber a lata de minhocas que acabara de


abrir.

—Isso significa que você pode vir jantar?

Eu olhei para Alec, que encolheu os ombros impotente. —Se você não
estiver fazendo nada, — disse ele. —Quero dizer... ficaríamos, uh, felizes em
ter você...

Sua resposta me surpreendeu. Depois da maneira como ele saiu


correndo do hotel naquela noite, eu presumi que seu pedido de um encontro
“divertido” era a maneira como ele normalmente fazia as coisas. Então eu
descobri quem ele realmente era e entendi por que ele não queria namorar
ninguém. Ser rico e ter um pai solteiro... devia ser difícil. Respeitei o fato de
ele ter sido honesto comigo sobre o que queria e, agora que sabíamos como
passaríamos o próximo ano, fazia todo o sentido recusar e ir embora.

E, ainda assim, eu não conseguia fazer isso.

—Bem, — eu disse, —se estiver tudo bem com o seu pai...

Evanne ergueu os punhos no ar. —Sim!

Alec não conseguiu esconder seu sorriso, e me perguntei se ele ainda


queria. Olhando para Evanne, duvidei. Algo me disse que ele faria qualquer
coisa para fazer Evanne sorrir do jeito que ela estava agora.

—Sim, se você quiser vir, está tudo bem para mim, — ele disse. —Eu
moro a cerca de seis quarteirões daqui. Estaria bem às sete horas?
—Sete, — eu disse. —Você pode enviar o endereço para o meu e-
mail? Você ainda o tem?

—Sim, — disse ele, estendendo a mão para pegar a mão de Evanne


novamente. —Vou mandar para você assim que o Evanne e eu chegarmos
em casa.

—Perfeito. — Eu concordei. —E então te vejo às sete.

Alec acenou com a cabeça, mantendo sua despedida com um aceno


rápido enquanto Evanne o puxava pela calçada novamente.

Enquanto os observava irem, me perguntei se estava tomando uma


decisão estúpida ao concordar em vê-lo... vê-los. Parecia muito pessoal para
o que deveria ser um relacionamento profissional. Deveria haver
distância. Especialmente depois do que aconteceu há uma semana. E agora,
não era apenas sexo e diversão e eu e ele. Era ela também, e eu não sabia se
isso tornava as coisas melhores ou piores.

As coisas pareciam estar ficando cada vez mais confusas, e eu não tinha
certeza se elas iriam melhorar tão cedo. Ou como meu mundo ficaria quando
isso fosse feito.
VINTE E UM
ALEC

ÀS SETE ESTAVA UM POUCO atrasado para jantarmos, mas eu queria um


pouco mais de tempo para envolver minha cabeça em torno do que aconteceu
esta tarde. Ou seja, o fato de que a mulher que eu não consegui tirar da
minha mente logo estaria sentada na minha sala de jantar.

E que foi minha filha quem a convidou aqui.

O entusiasmo com que Evanne estava ansiosa pela vinda de Sra.


Browne para o jantar deveria ter me preocupado, mas eu estava
simplesmente grata por Evanne estar se adaptando bem. Keli sempre me
disse que Evanne estava indo bem na escola, uma vez que meu envolvimento
nessa parte específica de sua educação tinha sido ir para suas atividades
extracurriculares e pagar as mensalidades.

Eu nem pisquei quando Keli me disse que queria tirar Evanne da escola
que ela frequentava antes. Talvez se eu tivesse prestado atenção, eu me
perguntaria por que Keli escolheu uma nova escola tão perto da minha casa.

Quando a campainha tocou às sete, permiti que Evanne atendesse o


interfone.

—É a Sra. Browne.

Se Lumen estava tão nervosa quanto eu, ela estava escondendo bem.

Ou talvez ela não estivesse nem um pouco nervosa.

Não gostava da ideia de que minha presença não a afetava como a dela
me afetava, mas disse a mim mesma que seria melhor se essa atração fosse
unilateral. Manter distância, então, seria respeitá-la. Minha mentalidade
de não aceitar nenhuma resposta não se traduziu em assediar mulheres que
não estavam interessadas em mim.

—Papai, posso deixá-la entrar? Por favor!!

Eu não pude deixar de sorrir. —Sim. E obrigado por perguntar.


Evanne era inteligente quando se tratava de estranhos no mundo, mas
quando estava aqui, raramente pensava duas vezes antes de ser
cautelosa. De certa forma, eu estava feliz porque não queria que ela visse o
mundo dessa forma, mas também sabia que ela precisava aprender que um
lar era seguro porque nós o mantivemos assim.

Deixei esses pensamentos de lado para outra hora. A pilha de coisas


que eu estava adiando fazer ou dizer estava crescendo, e eu tinha um mau
pressentimento que elas voltariam para me morder na bunda.

Enquanto Evanne corria para a porta, verifiquei duas vezes para ter
certeza de que tudo estava no caminho certo para ficar pronto em apenas
alguns minutos. No jantar, silêncios estranhos poderiam ser facilmente
preenchidos por uma refeição, e eu puxei todas as paradas neste.

Era o favorito do meu pai e, de todos os meus irmãos e irmãs, eu


acreditava que era o único que se lembrava de quando nossa mãe o
fazia. Depois que papai se casou novamente, ele fez questão de preparar este
jantar para nós pelo menos a cada dois meses. Coxas de frango com osso
cozidas em uma panela de geleia de damasco, mistura de sopa de cebola e
molho russo, servidas com um pouco de arroz, ervilhas e cenouras cozidas
no vapor e uma salada grega com vinagrete de limão. Coloquei um pouco de
pão francês e tirei um chardonnay para o caso de ela estar interessada em
tomar uma bebida amigável com o jantar.

—Uau, quando vocês comem frango no jantar, você realmente come


frango no jantar.

Eu olhei para cima enquanto Evanne levava Lumen para a cozinha,


pendurada na mão de sua professora e adoração ao herói em seus
olhos. Lumen sorriu, e nos poucos segundos que nossos olhos se
encontraram, eu me perguntei se talvez houvesse algo um pouco mais do
que profissional nesta noite. Ou talvez eu estivesse imaginando coisas.

—Belo avental, Sr. McCrae, — disse ela. Seu tom era educado, mas o
brilho em seus olhos dizia que ela estava brincando.
Mesmo que eu estivesse vestindo uma camisa cinza claro simples e
jeans elegantes, eu não queria correr o risco de manchar minhas roupas,
então eu coloquei o único avental que tinha. Um rosa pastel com um
unicórnio na frente e uma caligrafia sofisticada dizendo: A comida da minha
mãe é melhor do que um unicórnio. Evanne tinha me dado no Natal, dois
anos atrás. Keli comprou um que combinava porque, de acordo com nossa
filha, nós duas éramos melhores do que unicórnios.

—Obrigado, Sra. Browne, — respondi, imitando seu


profissionalismo. —Foi um presente de uma certa menina.

Evanne riu e puxou a mão de Lumen até que sua professora se


abaixou. No sussurro alto de uma criança, ela disse: —Papai disse que só
usa unicórnios para mim.

—Entendo, — disse Lumen, seus olhos se arregalando. —Então você


deve ser uma garota muito especial, de fato.

Não havia um indício de falta de sinceridade nas palavras de Lumen, e


percebi que precisava ser extremamente cuidadoso esta noite ou quebraria
mais minhas regras de “apenas diversão”. —Estou quase terminando a
cozinha.

—Por favor, leve o seu tempo. Posso ajudar em alguma coisa?

—Não, não. Relaxe. Posso pegar algo para você beber?

—Água seria fantástico.

—Com gás ou sem gás?

Ela me olhou como se nunca tivesse ouvido essa pergunta antes em sua
vida. —Espumante? — ela disse.

Eu balancei a cabeça e fui até a geladeira, pendurando meu avental no


gancho de costume. Depois que servi um copo para ela, ela me agradeceu e
fez um exame rápido e sub-reptício antes de tomar um gole.

Usei o tempo para ver o que ela estava vestindo. Quando nos
conhecemos hoje cedo, ela estava vestida com o tipo de traje casual que se
usa em público quando faz coisas mundanas. Agora, ela usava roupas mais
parecidas com as minhas, um casual elegante que poderia significar
qualquer coisa. Calça jeans azul escura que exibia suas longas pernas. Uma
blusa rosa escuro simples que ficava ótima com sua coloração e chamava
atenção para suas curvas, mas não de uma forma chamativa.

Algo em meu estômago revirou com a ideia de outro homem olhando


para as curvas de Lumen, com ou sem roupas.

Sem roupa.

Porra.

Ela iria fazer sexo com outro homem. Outros homens. Ela se lembraria
de mim porque eu fui o primeiro, mas haveria outros. Quem sabe
quantos? Eu provavelmente poderia descobrir o número de parceiros
sexuais que tive, já que não era o tipo que acordava ao lado de um estranho
e me perguntava o que tinha feito na noite anterior.

Merda. Ela poderia fazer isso. Vá a um bar e encontre algum


Neandertal que trepasse e esquecesse e não entendesse a sorte...

—Vou te dar uma tour! — Evanne gritou, interrompendo meus


pensamentos.

Lumen me lançou um olhar nervoso. —Obrigado, mas prefiro não me


intrometer.

—Vá em frente, — eu disse, grato pela chance de me recompor depois


do caminho inesperado que meus pensamentos me seguiram. —Vou me dar
um minuto para deixar tudo pronto. — Eu mal registrei a possibilidade de
Evanne mostrar meu quarto a Lumen.

Enquanto colocava a comida na mesa, ouvi Evanne tagarelar sobre a


casa. Ela falou com orgulho sobre suas pontuações de videogame e como eu
trabalhava duro em meu escritório e quantos livros e brinquedos ela tinha e
como a banheira era grande, e assim por diante. Lumen mal teve a chance
de responder, mas eu a ouvi rir muito e isso não ajudou em nada a minha
decisão de parar de pensar em Lumen de uma forma que nunca poderia
acontecer.

Focar na comida me ajudou a ficar sob controle, então, quando terminei,


consegui parecer indiferente quando os encontrei na frente do meu quarto,
Evanne falando animadamente sobre o quanto ela costumava pular na
minha cama até que sua mãe me disse não podia deixá-la fazer mais isso.

—Papai diz que às vezes as regras da mamãe têm que ser seguidas
quando estou aqui, mas outras não. Tipo, como ele me deixa tomar o café da
manhã para o jantar às vezes, embora a mamãe diga que panquecas de
chocolate não são um jantar de verdade. — Evanne baixou a voz para um
sussurro enquanto dava alguns passos para dentro do meu quarto. —Mas
às vezes, ele ainda me deixa pular na cama, desde que eu não conte para a
mamãe.

Lumen parecia dividida entre o constrangimento por mim e a


diversão. Quando ela me ouviu chegando, ela corou, seus olhos disparando
do meu rosto para os meus pés.

—Está tudo bem, — eu disse com um sorriso. —Eu sei como Evanne
gosta de compartilhar coisas demais.

—Papai, da próxima vez que a Sra. Browne vier, podemos tomar café
da manhã para o jantar? — Evanne saiu correndo do meu quarto assim que
ouviu minha voz.

Olhei para Lumen, me perguntando o que ela pensava sobre a


suposição de Evanne de que haveria um segundo jantar, mas ela não estava
olhando para mim.

—Vamos aproveitar esta noite, certo? — Eu alisei minha mão sobre o


cabelo de Evanne.

—A comida tem um cheiro maravilhoso, — disse Lumen enquanto


caminhávamos para a sala de jantar.

—Espero que tenha um gosto maravilhoso, — respondi.


—Tenho certeza que sim, — disse Lumen. —Tudo é lindo.

Esfreguei minha nuca, levemente envergonhado. Eu não tinha a


porcelana da minha mãe, que foi passada de geração em geração - estava na
casa da família em San Ramon com meu pai - mas eu usei a louça bonita e
combinando que meus pais compraram para mim como um presente de
inauguração em vez de qualquer coisa aleatória estava limpa.

Evanne puxou a cadeira de Lumen para ela, algo que eu


ocasionalmente fiz para ela. Ela sempre ria disso, mas eu não tinha
percebido o quanto ela estava prestando atenção.

—Obrigada, Evanne, — disse Lumen, sufocando uma risada.

—De nada, Sra. Browne, — respondeu Evanne, a imagem da


polidez. Seus olhos, no entanto, ainda mantinham aquela familiar faísca de
travessura.

—Bom trabalho me fazendo parecer um pai modelo, — eu provoquei em


um sussurro de palco. —Lembre-me de lhe dar um aumento.

—Tudo bem — concordou Evanne prontamente ao se sentar em seu


lugar de costume. Um assento que acabou de ser colocado estrategicamente
entre o meu e o de Lumen.

Assim que as senhoras - minhas damas, minha mente insistia -


estavam acomodadas, ofereci a Lumen um pouco de chardonnay. Ela aceitou
e então Evanne começou a falar, tirando a pressão de Lumen e de mim para
manter uma conversa. Pensei em perguntar a Lumen há quanto tempo ela
era professora para que ela realmente tivesse espaço para falar, mas assim
que pensei na pergunta, percebi que sabia há quanto tempo ela estava
ensinando. Ela havia deixado seu trabalho de massoterapia há apenas
algumas semanas. Seria um insulto para nós dois fingir que não tínhamos
uma história.

—Mastigue com calma, mo chride — falei, quando houve uma pausa na


conversa de Evanne. Ela correu pelas últimas duas mordidas para que
pudesse continuar falando e fazer isso sem a boca cheia.
Ela assentiu e eu a observei até que ela comeu em um ritmo melhor.

—Você tem uma casa adorável, — disse Lumen durante o silêncio. —


Muito espaçoso.

Agradeci e tomei um gole do meu vinho.

—O que você, hum... faz no trabalho?

A hesitação em sua voz sugeria que ela ainda não tinha certeza se
poderia discutir detalhes pessoais comigo, mas se fôssemos ter um
relacionamento casual entre pais e professores, seria estranho não sabermos
nada um sobre o outro. Perguntar sobre o trabalho seria uma pergunta
normal para um professor fazer aos pais de um aluno. Foi apenas o que
aconteceu entre nós que tornou tudo estranho. Além disso, saber mais sobre
mim pode ajudar seu estilo de ensino para Evanne.

—Dirijo uma empresa que organiza conferências em todo o mundo, —


disse eu. —Meu pai tinha um bom dinheiro, mas não se contentava em
sentar e gastar como seus pais. Eles não eram pessoas más, mas ele queria
fazer mais, mesmo quando era jovem. Ele não tinha nem vinte anos quando
adquiriu uma pequena editora e a transformou no McCrae International
Research Institute, uma das principais empresas em nosso campo.

—Então você reúne as pessoas, — disse ela.

—Sim, sou um verdadeiro casamenteiro.

Ela sorriu. —Eu sabia o nome da empresa, mas não o que você fazia. É
um bom trabalho.

—Mas não tão importante quanto ser um educador, — eu disse,


inclinando meu copo em sua direção.

—Tenho certeza de que algumas das conferências que você organiza são
muito educacionais.

Eu ri. —Acho que ensinar às crianças os fundamentos do conhecimento


humano é mais importante do que ensinar adultos inteligentes a se
destacarem em suas carreiras. Mas obrigado.
—Você é muito modesto, Alec.

—Obrigada, Lumen, — respondi, minha voz mais rouca do que


gostaria. Algo sobre ela usar meu nome de batismo fez arrepios rolarem ao
longo da minha nuca.

—Lumen é um nome bonito, Sra. Browne, — Evanne interrompeu.

Antes de me conter, murmurei meu acordo. Lumen corou e eu tomei um


gole do meu vinho para esconder meu constrangimento. Droga, o que eu
estava fazendo?

—Obrigado, Evanne. O seu também é muito bonito.

Minha filha torceu o nariz. —Eu gosto, mas os professores às vezes


pensam que meu nome é Evan quando fazem o atendimento pela primeira
vez.

—Os professores costumavam me chamar de Lummin, — disse Lumen.

—Meus professores americanos costumavam me chamar de Alex. — Eu


entrei na conversa.

—Os nomes são difíceis, — Lumen riu. —Dê um tempo aos


professores. Nós tentamos nosso melhor.

—Acho que você tenta da melhor maneira, — disse Evanne. —E se


esforçar é importante.

—Sim, é, — eu concordei.

Todo mundo estava sorrindo, e era difícil lembrar que não seria como
as coisas sempre foram. Foi difícil empurrar para baixo a atração que
continuava crescendo em mim. Foi mais difícil quando voltei para a nossa
noite juntos, o gosto dela, a sensação de seu toque. Eu me perguntei se ela
repassou aquela noite em sua mente também.

Isso não era um encontro, eu me lembrei mais de uma vez. Evanne foi
quem convidou Lumen para jantar, não eu. Eu poderia inocentemente
desfrutar da companhia da professora da minha filha - contanto que eu não
a apreciasse demasiado.

Continuamos com uma conversa fiada até terminarmos o


jantar. Lumen me agradeceu gentilmente pela refeição e se ofereceu para
ajudar na limpeza, mas eu recusei, levando embora os pratos. —Vá em
frente e termine seu vinho. Vou lavar tudo mais tarde esta noite. Com isso
quero dizer que minha máquina de lavar louça cuidará de tudo. Não poupou
despesas com aquele pequeno ajudante.

Ela concordou, embora parecesse um pouco desconfortável em ficar à


mesa enquanto eu trazia a sobremesa. Nada extravagante, mas sundaes de
sorvete bastante simples. A noite do sundae era uma tradição para Evanne
e eu desde que Evanne tinha seis anos, e parecia certo compartilhá-la com
Lumen. Apesar do nome, sempre os recebíamos aos sábados, pois Keli
sempre pegava Evanne nas tardes de domingo antes do jantar. Eu não tinha
visto nenhum motivo para interromper a noite de tratamento especial só
porque Evanne estava aqui o tempo todo.

—Fui muito mimada esta noite — declarou Lumen quando terminou.

—Você deveria vir de novo! O tempo todo, —Evanne disse enquanto


trabalhava em seu sorvete. Ela passou os primeiros minutos girando ao
redor até que ficasse uma mistura marrom claro uniforme de calda de
chocolate e sorvete de baunilha, com avelãs e migalhas de Oreo espalhadas
ao redor.

Lumen colocou duas colheradas saudáveis de calda de chocolate quente


no sorvete de baunilha em sua tigela. — Obrigada, Evanne, mas realmente
não acho que seu pai precise cozinhar para três o tempo todo, minha
querida. Mas, quanto a esta noite, está ficando muito tarde...

—Quase na hora de dormir, na verdade, — eu disse a Evanne. Ela


parecia desamparada, mas eu continuei. —Termine sua sobremesa e depois
vá para a cama.

Tínhamos estabelecido uma rotina de hora de dormir quando ela estava


me visitando e tinha acabado de fazer a transição para uma coisa normal,
então ela sabia o que isso significava. Já que ela havia tomado banho quando
voltamos da nossa corrida, poderíamos pular isso esta noite.

—Sra. Browne, você poderia ler uma história para mim antes de
dormir? — Evanne perguntou.

—Uma história? — Lumen riu. —Que tipo de história?

—Algo de um dos meus livros. Por favor? Só por um minuto?

Lumen olhou para mim desamparadamente. —o Por favor— de Evanne


foi um feitiço poderoso. —Bem, se seu pai diz que está tudo bem...

—Você realmente não precisa, moça, — eu disse, a palavra escapando


antes que eu pudesse impedir. Se eu não estivesse sintonizado com ela tão
bem, não teria notado a forte inspiração de ar que precedeu a fala de Lumen.

—Eu não me importo, mas se for...

—Não, não, quero dizer, você é mais que bem-vinda...

—Bem... ok, então.

Nossas tentativas desesperadas de sermos educados nos levaram a


uma decisão embaraçosa que de alguma forma acabou em favor de
Evanne. Ela ergueu os punhos no ar.

—Tigela na pia. — Eu apontei para ela. —Escove os dentes, coloque o


pijama.

Com um grito triunfante, Evanne correu para seu quarto a toda


velocidade.

—Suponho que não posso mais fingir que a corrida pelo corredor não foi
minha culpa, — eu disse com um sorriso tímido. —Tem certeza de que não
se importa de ler para ela?

Lumen balançou a cabeça, me dando um sorriso tímido. —Está tudo


bem, realmente. Ela é um amor e eu sempre gosto de ler na aula.
Devemos ter percebido ao mesmo tempo que estávamos sozinhos,
porque o silêncio se estendeu entre nós enquanto terminávamos nossas
taças de vinho. Evanne tinha sido nosso amortecedor. Sem ela, evitamos
contato visual o máximo que pudemos, sorrindo e exalando risadas
silenciosas pelo nariz sempre que nossos olhos se encontravam, apenas para
desviar o olhar novamente.

Eu podia ver a luta em seus olhos e sabia que seus pensamentos


estavam na mesma linha que os meus. O que um pai regular diria a um
professor regular durante um jantar casual? Sobre o que eu conversaria com
ela se fôssemos ambos homens? Ou se eu tivesse uma esposa? Se ela tivesse
um marido? Um namorado? Se nosso primeiro encontro tivesse sido na
escola e não tivéssemos essa história estranha e sensual entre nós?

Nada parecia apropriado. Era muito pessoal ou pouco pessoal. A tensão


era palpável.

Muito mais tarde, Evanne voltou para a sala de jantar, vestida com seu
pijama de elefante favorito. —Estou pronta, Sra. Browne! — ela anunciou.

—Escovou os dentes? — Eu perguntei.

—Sim!

—Ela é toda sua então. — Eu fiquei de pé. —Vou limpar aqui


embaixo. Grite se precisar de mim.

Lumen seguiu Evanne enquanto eu pegava as taças de vinho e as


tigelas de sorvete vazias. Enquanto subiam as escadas, ouvi Evanne dizer:
—Quero que você leia um novo livro para mim. Papai sempre lê para mim
as mesmas três.

Eu estremeci de culpa. Sempre fiz questão de encontrar seus livros


favoritos para que ela tivesse cópias aqui, então os memorizei para que
pudéssemos apreciá-los continuamente. Quando ela era mais jovem, ela
amava a repetição. Eu não tinha percebido que isso havia mudado.

Tentando ignorar a negatividade, lavei todos os pratos e os coloquei na


lava-louças, em seguida, limpei a bancada da cozinha com rápida
precisão. Eu odiava deixar uma bagunça se pudesse ser evitada. Quando
terminei, descobri que não sabia bem o que fazer a seguir. Se eu fosse para
a sala de estar, não queria que Lumen se sentisse obrigada a segui-la. Mas
se eu me sentar à mesa da sala de jantar, ela pode se sentir como se eu a
tivesse emboscado em algum tipo de reunião de pais e professores.

Foi assim que acabei encostado no balcão, telefone na mão enquanto


verificava meu e-mail e mensagens telefônicas, tendo tempo para responder
a alguns. Antes que eu percebesse, Lumen estava de volta, as mãos cruzadas
na frente dela enquanto ela entrava na cozinha.

—Apagado como uma luz, — disse ela. —Eu gostaria de poder dormir
tão rápido. Talvez Fantastic Mr. Fox não seja tão empolgante quanto eu
pensava.

Eu ri. —Obrigado por colocá-la situada.

Ela sorriu, aquela curva tímida de seus lábios que continha um


pouquinho de travessura que eu ainda não tinha visto completamente.

—É o mínimo que posso fazer depois daquela refeição maravilhosa. E


vinho. E sorvete.

Eu sorri de volta. —Gosto de tratar bem os meus convidados.

—Parece que sim.

Cada segundo parecia se espalhar o máximo que podia, como uma corda
de arco pronta para quebrar. O ar ficou mais espesso, tornando mais difícil
respirar. Minha pulsação disparou, e me perguntei se ela estava tão afetada
quanto eu. Meu olhar caiu para a boca dela e me lembrei de como foi beijá-
la.

Ela era a mais forte, a única capaz de finalmente falar: —É melhor eu


ir.

Mesmo que eu tenha acenado com a cabeça, como se concordasse,


continuei olhando para a boca dela. Eu não estava pronto para ela partir. Eu
sabia que a noite tinha que acabar, que tínhamos que voltar às nossas
respectivas vidas, mas ainda não estava pronto. Não pensei que teríamos
uma segunda chance, e agora que Evanne foi para a cama, essa chance
estava aqui.

De repente, ela suspirou. —Droga.

Seus olhos brilharam quando ela deu dois passos... em minha direção.

Meus braços a alcançaram automaticamente e trazer minha boca para


a dela parecia a coisa mais natural do mundo. Teríamos um preço a pagar,
disso eu tinha certeza, mas, naquele momento, tudo que eu conhecia era ela.
VINTE E DOIS

E STA FOI UMA MÁ IDEIA . Uma péssima ideia.

Mas me senti tão bem...

Droga.

Eu derreti no beijo de Alec, pela primeira vez cedendo ao que eu


realmente queria e para o inferno com as consequências.

E haveria consequências. Disso eu não tive dúvidas.

Agora, eu não poderia me importar com isso. Tudo o que eu podia ver,
sentir, saborear e cheirar era ele. Mas não eram apenas aqueles olhos
lindos, tão brilhantes que quase pareciam irreais, ou aquela construção
esguia e sexy. E certamente não era o fato de que agora eu sabia quanto
dinheiro ele tinha. Em vez disso, eram os pequenos sorrisos que ele fazia
sempre que sua filha falava, o cuidado que ele colocava em uma refeição sem
expectativas. Era seu humor, sua risada e a maneira como seu sotaque
ficava mais pesado sempre que era pego de surpresa.

Em seguida, houve a geração de calor entre nós a cada toque. Uma


química que ia além do físico ou emocional. Eu sentia isso toda vez que
olhava para ele e quando ele me tocava, parecia que ia pular da minha
pele. Ou que eu iria queimar de dentro para fora. Porque não havia
nenhuma maneira possível de manter tudo correndo pelo meu corpo e
mente.

Eu precisava dessa válvula de escape ou iria explodir.

Quando Alec quebrou nosso beijo, ele descansou sua testa na minha,
seus braços ainda em volta de mim, me dizendo sem palavras que ele não se
arrependia deste momento. De qualquer maneira, ainda não. A tensão
zumbindo em mim não estava pensando muito à frente também. Na
verdade, a única coisa que eu estava pensando era se Alec era solteiro ou
não.

Ele não usava anel. A mãe de Evanne estava listada como Keli Miller
e o endereço era diferente. Minha visita ao apartamento de Alec mais cedo
não mostrou nenhum sinal de uma esposa ou namorada. Sem produtos de
higiene ou outros produtos femininos. Se ele era casado ou estava saindo
com alguém, estava escondendo bem.

Agora, era apenas uma questão de dormir com o pai de um aluno.

Não havia regras específicas contra isso, e eu li o manual com bastante


atenção. Mas existia uma regra tácita, do tipo que todo mundo seguia
mesmo que não estivesse escrita. Se eu violasse essa regra e os outros
professores ou professores da Escola Kurt Wright descobrissem, isso poderia
ter algumas consequências de longo alcance.

Então, novamente, não era da conta deles. Se eu não dissesse nada e


Alec não dissesse nada, ninguém teria que saber. Esta era apenas uma
atração física. Eu não queria um relacionamento - ainda não. Alec deixou
claro que ele não namorava. Só porque dormimos juntos esta noite não
significava que voltaríamos em nosso acordo “sem compromisso”.

Talvez eu estivesse inventando desculpas. Era difícil não fazer quando


um homem como Alec estava olhando profundamente em seus olhos para
pedir sua permissão para que ele fizesse coisas incríveis com você e você
sabia que ele poderia fazer cada coisa pecaminosa.

Com desculpas ou não, eu queria isso.

Eu balancei a cabeça, e Alec deu um passo para trás, pegando minha


mão. Não era como antes no hotel, onde estávamos mais ou menos em pé de
igualdade. Esta era sua casa, o lugar onde ele e sua filha haviam feito um
lar. Eu era um convidado, e não alguém que estaria cavando um lugar para
si aqui. Eu o trataria com o mesmo respeito que ele estava me mostrando.

Depois que eu o segui para seu quarto, ele fechou a porta atrás de mim
e abriu a fechadura. Por uma fração de segundo, minha mente se iluminou
com todas as histórias de mulheres que foram a algum lugar com um homem
e se viram trancadas.

—Uma vez, quando Evanne tinha cerca de cinco anos, pensei que ela
estava dormindo... pelo menos até quando ela me surpreendeu no
chuveiro. Ela geralmente é boa em bater, mas sempre que quero ter certeza
de que ela não pisará acidentalmente em mim, eu tranco a porta. — Ele me
deu um sorriso fácil. —Tenho intercomunicadores em cada quarto que ela
pode usar para me encontrar e cada um tem um botão de emergência para
o 911. — Ele apontou para uma pequena caixa perto da porta. —Facilmente
acessível.

Bom saber.

Eu puxei a barra da minha blusa, desejando que meus nervos não


exigissem que ele me tranquilizasse. Eu estive com ele antes, antes de
qualquer um de nós saber o quão conectados éramos. Se ele não tivesse me
machucado então, ele não faria isso agora que nossas vidas estavam
entrelaçadas.

Recusei-me a admitir a possibilidade de que não fosse um dano físico


que me preocupasse. Eu pensei que ele era um bom homem antes. Agora, eu
sabia o quão maravilhoso ele realmente era.

—Você pode mudar de ideia, moça. — Ele estava de repente bem na


minha frente, pegando minhas mãos nas dele. —Eu não vou pensar menos
de você por isso.

Eu também ouvi o que ele não estava dizendo. Que ele não pensaria
menos de mim por desejá-lo também. O que quer que tenha acontecido entre
nós dois esta noite ficaria bem aqui.

A expectativa era quase insuportável. Da última vez, foi tudo


nervosismo e sensações estranhas. Desta vez, eu sabia um pouco do que
gostava e definitivamente sabia o que queria.

Ele.
—Eu quero você, — eu sussurrei, olhando para ele por trás dos meus
cílios.

O desejo que vi em seu rosto me deixou ousada, e estendi a mão para


trás para puxar o zíper curto que mantinha minha camisa ajustada a
mim. Assim que cedeu, suas mãos estavam na bainha, a pergunta em seus
olhos.

Eu balancei a cabeça, e ele puxou-o para cima, jogando-o sobre uma


poltrona enorme e estofada que ficava no canto da sala.

—Sua vez, — eu disse, pegando sua camisa.

—Tão linda, — Alec murmurou enquanto corria a ponta de um dedo ao


longo da borda do meu sutiã.

Arrepios explodiram em minha pele, o que achei estranho porque


absolutamente nenhuma parte do meu corpo estava nem remotamente
fria. Ele abaixou a cabeça e deu um beijo na minha clavícula, enviando um
arrepio pela minha espinha. Outra contradição.

Tudo isso era uma contradição, percebi.

O calor e o frio com suas respostas opostas.

Quão ansiosa eu estava para que ele se despisse, mas adorando a


maneira como ele construía a tensão, simplesmente demorando. Sabendo
que tinha visto esses músculos esculpidos, tinha tocado, mas ainda
recuperando o fôlego como se fosse a primeira vez.

Então ele estava nu, uma mão em volta de seu pênis já duro,
lentamente agarrando-o enquanto esperava. Havia uma linha tênue entre a
pose presunçosa e me deixar olhar para mim, e ele sabia exatamente onde
essa linha estava.

Quando ele colocou as mãos no botão da minha calça jeans, um


pensamento de repente me ocorreu. —A Evanne conseguirá nos ouvir?

—Não, moça. — Ele beijou o canto da minha boca. —Não, a menos que
você grite, claro.
Sua mão deslizou por baixo da minha calcinha, o ajuste da minha calça
jeans não dando a ele muito na forma de dar, o que significa que o único
dedo que ele conseguiu mexer na fenda quente entre minhas pernas
esfregou meu clitóris com força o suficiente para me fazer gozar bem ali.

Eu engasguei, agarrando seu braço enquanto minhas pernas


fraquejavam. Meu estado orgástico não fez nada para dissuadi-lo de
continuar a me apontar para um segundo clímax poucos minutos após o
primeiro.

A próxima coisa que eu sabia, eu estava de costas, olhando para o teto


e implorando para Alec se apressar e tirar minhas calças. Ele jogou minha
calça jeans e calcinha no chão com o resto de nossas roupas, e enquanto
subia na cama, ele se virou para a mesa de cabeceira e puxou um pacote de
preservativos da gaveta de cima.

Abrir uma embalagem de alumínio e enrolar um preservativo não


deveria ser tão fascinante, nem mesmo quando o que estava sendo envolto
em látex era tão magnífico quanto aquele pedaço de carne em
particular. Fiquei impressionado com o desejo quase avassalador de levá-lo
em minha boca. A única coisa que me impedia de sentar e pegar o que eu
queria era o latejar incessante entre minhas pernas.

Ele se inclinou sobre mim e pegou um mamilo entre os lábios,


provocando-o com a língua e enviando ondas de prazer por mim. Eles
envolveram o calor que sobrou do que tinha vindo antes e me encheram de
calor.

—Sim, sim, Alec, — eu suspirei.

—Droga, adoro a maneira como você diz meu nome. — Seus lábios se
moveram contra minha pele em uma carícia suave. —Eu não acho que posso
ser paciente por muito mais tempo.

Eu abri meus olhos. —Então não faça isso.


Ele brincou com a ponta de seu pau contra meu clitóris, movendo-o para
frente e para trás antes de deslizar para baixo contra a minha entrada. Lá,
ele fez uma pausa.

—Da última vez, eu... eu machuquei você? — Ele colocou a mão na


minha bochecha, e se eu não tivesse ficado impressionada com a
preocupação em seu rosto, eu teria ficado impressionada por como ele estava
se segurando com um braço.

—Não, na verdade não. — Eu sorri para ele. —Agora, por favor, eu-

O resto das palavras voou para fora da minha cabeça enquanto ele me
preenchia com um impulso suave. Ele gemeu, um som lindo, que eu poderia
ouvir a noite toda. Enquanto ele se movia mais profundamente em mim, eu
engasguei, arqueando minhas costas. Eu não tinha certeza de como, mas
tinha esquecido como era estar tão cheio. Não doeu como antes, mas o
desconforto certamente testou os limites.

E então ele rolou seus quadris e esfregou contra algo dentro de mim
que enviou um raio através de todas as minhas células. —Oh, merda, — eu
gemi, faíscas brancas saindo por trás das minhas pálpebras. Como ele
estava fazendo isso? Com apenas algumas estocadas constantes, eu poderia
jurar que estava chegando ao clímax. Novamente. A intensidade do que
estava crescendo dentro de mim não era nada que eu pudesse ter imaginado.

—Porra, moça, olhe para mim. Abra seus olhos.

Fiz o que ele disse e o encontrei olhando para mim. O pôr do sol através
da janela derramou sobre nós, e eu o observei de volta. As pequenas
ondulações de movimento muscular enquanto ele se segurava sobre mim,
controlando aquele grande corpo poderoso, me excitaram ainda mais. Toda
aquela força... ele poderia ter me machucado, mesmo sem querer, mas ele se
controlou.

Eu não queria que ele mantivesse nada na reserva. Não agora que
estávamos nos movendo tão bem juntos. Isso era incrível, mas eu sabia que
ele queria mais, e eu queria que ele tivesse.
—Mais rápido, — eu implorei. —Mais profundo. Não se segure.

Ele não precisava ouvir duas vezes. Ele agarrou meus quadris e
mergulhou fundo o suficiente para doer, mas valeu a pena. Eu gemi, apenas
para Alec colocar a mão na minha boca, o lembrete queimando em seus
olhos. Sua filha não poderia saber disso, por tantos motivos.

Ele começou a levantar a mão, mas eu não podia confiar em mim


mesma para não gemer. Eu agarrei seu pulso e balancei minha cabeça,
segurando sua mão no lugar para manter todos os sons que eu não conseguia
abafar. O que eu não esperava era a forma como meu corpo reagiu à
moderação, e meu orgasmo me pegou desprevenida, rasgando-me com uma
força que era quase dolorosa.

—É isso, moça. Venha até mim. — A voz de Alec era um estrondo baixo
que rolou pela minha pele.

Eu podia sentir a tensão em seu corpo enquanto ele me cavalgava


através do meu clímax, suas estocadas se tornando mais e mais erráticas
até que ele soltou uma torrente de maldições e bateu em mim com força
suficiente para me fazer gritar. Ele enterrou seu rosto contra mim quando
gozou, seu hálito quente na minha pele, e ele caiu, a mão caindo da minha
boca.

Eu passei meus braços em torno dele enquanto seu peso caiu sobre
mim. Ele precisaria se livrar da camisinha logo, mas poderíamos descansar
aqui assim por alguns minutos de qualquer maneira. Fechei meus olhos e
apreciei o silêncio feliz em minha cabeça.

****

MEUS OLHOS SE ABRIRAM . Por um momento, não sabia onde estava ou


quanto tempo fazia desde que adormeci, mas então vi a forma de alguém sob
o cobertor ao meu lado e me lembrei. Alec estava de bruços, com a cabeça
voltada para o lado, então não pude ver se ele estava acordado.
O que me fez pensar se eu deveria sair ou esperar até que ele
acordasse. Ou se eu deveria acordá-lo. Ou talvez ele estivesse acordado e
simplesmente não quisesse me encarar... merda.

—Alec? — Eu sussurrei.

Nada.

E agora? Pensei em nossa noite no hotel e na pressa que ele teve de


voltar para casa. Talvez fosse porque ele tinha Evanne para voltar para
casa, mesmo que a avó da criança estivesse lá para babá. Ou talvez ele
simplesmente não gostasse de dormir em hotéis. Com uma cama tão
confortável, eu não o culparia. Mas seja qual for o motivo, ele não parecia
interessado em passar a noite comigo então. Ele provavelmente não estaria
agora também.

Antes que eu pudesse tomar uma decisão, ouvi um zumbido familiar


vindo do chão onde Alec havia deixado meu jeans. Meu telefone.

Eu me desvencilhei de Alec o mais cuidadosamente que pude, de


alguma forma conseguindo não acordá-lo. No momento em que alcancei
minhas calças, meu telefone tinha parado de zumbir, mas eu ainda cavei
para ver quem tinha ligado.

Soleil. Eu tinha dado a ela meu número depois de nossa viagem de


compras para o caso de ela precisar de mais alguma coisa, e considerando o
quão tarde era, eu assumi que era urgente. Eu liguei para ela de volta.

—Então, você não está me ignorando, — ela disse como uma saudação.

—O que foi, Soleil?

—Por que você está sussurrando?

Saí do quarto e desci o corredor, longe do quarto de Evanne também.

—É tarde, — eu disse para evitar uma resposta real. —Você está bem?

—Estou bem, eu só...


Eu podia ouvir a relutância em sua voz e dei-lhe um empurrão suave. —
Sim?

—Fui a uma festa e esqueci minha bolsa e não conheço ninguém aqui
e, bem...

—Você precisa de uma carona.

Ela suspirou. —Esqueça. Esta foi uma ideia estúpida.

—Vou buscar você, — eu disse.

—Sim?

—Sim. Me dê o endereço. Estarei aí assim que puder.

Eu não tinha carro, mas podia pagar por um Lyft. Especialmente


porque eu estaria pagando por um de qualquer maneira. Ao menos assim,
eu tinha uma desculpa para sair da casa dos McCrae, e nem Soleil nem eu
passaríamos toda a viagem sozinhos.

Vencer ou vencer.
VINTE E TRÊS
ALEC

QUANDO ACORDEI DE manhã, Lumen tinha ido embora, mas não foi a
primeira coisa que registrei. Não, o primeiro pensamento que surgiu na
minha cabeça foi uma pergunta. Ou seja, por que eu estava nua?

Nunca dormi nua, nem mesmo antes de Evanne nascer, mas desde
então, comecei a usar shorts ou calças compridas em vez de apenas
calcinha. Na noite passada, no entanto, eu pulei completamente a etapa de
colocar meu pijama.

E então me lembrei do porquê.

Eu dormi com a professora de Evanne. Novamente.

Antes, eu tinha a desculpa de que não sabia quem ela era. Desta vez,
eu tinha feito isso com pleno conhecimento e minha filha em casa. Eu não
tinha planejado isso, que era a única razão pela qual não me sentia um
completo canalha.

Eu rolei de costas e suspirei. Não demorou muito para que Evanne


acordasse, se é que ela já não estava, e eu precisava tomar um banho. Eu
cheirava a Lumen e sexo. Não é o tipo de maneira que gostaria de
cumprimentar minha filha.

Quando saí da cama, meu olhar foi atraído para o local onde Lumen
havia adormecido. Por um lado, fiquei aborrecido por ela não ter se
despedido, mas por outro, fiquei aliviado por não ter que ter uma discussão
embaraçosa do “dia seguinte”. O fato de que ela saiu sem me acordar sugeriu
que ela entendeu que nossa conversa anterior sobre apenas se divertir ainda
se aplicava.

Aquilo foi uma coisa boa. A última coisa que eu precisava agora era
mais drama.

Liguei o chuveiro, deixando-o aquecer enquanto escovava os dentes,


então deixei a água quente trabalhar um pouco do aperto em meus
ombros. Eu precisava criar uma nova rotina de exercícios logo, pelo menos
pelo fato de que o sexo seria escasso até que as coisas com Evanne se
estabilizassem.

Não pela primeira vez, amaldiçoei mentalmente Keli, enquanto ao


mesmo tempo me perguntava se eu poderia ter feito algo diferente. Se ela
quisesse um acordo de custódia diferente, ela poderia ter falado comigo em
vez de deixar Evanne sem qualquer aviso. Sempre pensei que nos dávamos
bem, especialmente quando se tratava de pais.

Eu empurrei esses pensamentos de lado e terminei de enxaguar. Por


mais que gostaria de ficar aqui, eu sabia que tinha um filho de oito anos que
acordaria em breve.

Com certeza, no momento em que abri a porta do meu quarto, Evanne


correu para dentro do quarto, em seguida, fez um deslizamento digno de
Tom Cruise em suas meias pelo assoalho.

—Acorda dorminhoca! — ela gritou. Tanto para dormir em um


domingo.

Eu pisquei para ela. —Eu já venci você.

—Eu estou com fome.

—Eu também. O que você está cozinhando?

Ela plantou os punhos nos quadris. —Papai…

Eu dei a ela minha cara mais séria. —Eu acho que você precisa começar
a puxar seu peso. Waffles, um pouco de café moído na hora para mim e suco
de laranja para nós dois. Apresse-se agora.

Evanne não pareceu impressionada. —Papai…

—Ou você pode escovar os dentes e se vestir, e eu farei o trabalho duro,


— eu ofereci.

Ela sorriu e se afastou. Brincadeiras semelhantes faziam parte da


nossa rotina de fim de semana desde que ela tinha idade suficiente para
participar. Não vi essa mudança só porque ela estava aqui mais do que
aqueles dois fins de semana por mês.

Antes de ir para a cozinha, no entanto, tirei a cama para lavar a roupa


mais tarde. Quando cheguei à cozinha, vi as panelas e frigideiras que deixei
de molho na pia e gemi. Eu joguei todos os utensílios, pratos e copos na lava-
louças, mas não as coisas grandes. Pelo menos eu estaria fazendo o tipo de
trabalho hoje em que Evanne poderia participar. Eu descobri que ela
preferia me ajudar com as tarefas a fazer suas próprias coisas enquanto eu
estava no meu laptop.

Seguindo a receita que encontrei on-line e usando os ingredientes que


a terça comprou para nós no início da semana passada, fiz waffles de mirtilo
e torci para que ficassem bem.

Depois que seus dentes foram escovados, Evanne deu umas voltas pela
casa enquanto eu terminava na cozinha. Eu não tinha ideia de como ela
conseguia encontrar tanta energia tão cedo pela manhã. Nem sua mãe nem
eu éramos pessoas da manhã. Depois que fiz meu café e bebi uma xícara,
porém, estava em melhor forma para acompanhá-la.

—O que você quer fazer depois que terminarmos de lavar a louça? — Eu


perguntei enquanto colocava um prato de waffles na frente dela.

—Eu quero andar em um caminhão de bombeiros, — ela disse,


colocando creme chantilly em seus waffles. Depois de cada colherada, ela
olhava para mim, esperando que eu assentisse. Quando balancei a cabeça,
ela largou a colher e atacou a comida como se não comesse há dias.

—Um caminhão de bombeiros? Um pouquinho jovem para começar sua


carreira de bombeiro, não é? Além disso, pensei que você queria ser um
velocista de maratona.

—Eu posso fazer as duas coisas, — disse ela com naturalidade. —


Em. Browne disse isso. Existem sinergias aí.

Sinergias? Eu ri. Ela deve ter ouvido minhas ligações comerciais


ultimamente. —Sim. A corrida ajuda você a entrar em um prédio em
chamas sem perder o fôlego e respirar fumaça. Ser bombeiro ensina a correr
muito rápido para sair de um prédio em chamas. Sinergias.

—Foi muito divertido ter a Sra. Browne aqui ontem, — ela anunciou
quando terminou de engolir sua mordida. Ela aparentemente aceitou
minhas instruções sobre falar com a boca cheia no coração. —Ela é minha
favorita, mesmo que ela não me deixe correr quando eu quero.

Enquanto ela mastigava outra garfada de waffle, pensei em como eu


me diverti na noite passada também, antes mesmo de irmos para o meu
quarto. Era um prazer conversar e rir com Lumen, e algo sobre a maneira
como ela interagia com Evanne me aqueceu de uma forma diferente da
luxúria.

—Sim, ela é especial, tudo bem, — eu concordei.

Evanne sorriu para mim. —Você realmente acha isso?

Dei uma mordida no waffle e comi enquanto tentava decidir se essa era
uma conversa que eu realmente queria ter. —Eu minto para você?

—Só quando você está tentando ser engraçado. E isso não é realmente
uma mentira, é?

Ela me pegou lá. —Isso sempre funciona?

Evanne estendeu a mão espalmada e balançou-a para a frente e para


trás. Onde ela aprendeu essas coisas, eu não tinha ideia.

—Bem, não estou tentando ser engraçado agora. Sra. Browne é...

Tentei pensar em um bom adjetivo que não soasse muito...


interessado. Ela provavelmente iria compartilhar o que eu disse. O que eu
quero que Lumen ouça? Que eu pensei que ela era
gentil? Lindo? Engraçado? Brilhante?

Tê-la ontem à noite foi bom. Parecia certo. Mas como eu poderia dizer
isso?
Antes que eu pudesse terminar minha frase, meu telefone tocou com o
toque que eu atribuí a Keli. Por um momento, tive a estranha sensação de
que ela estava ligando para me dizer que não estava dando certo com
Alessandro e que ela queria voltar para Seattle e colocar as coisas do jeito
que estavam antes. Eu não queria que isso acontecesse, não quando isso
significasse voltar a comer jantares na minha mesa enquanto eu trabalhava
ou comê-los aqui sozinha.

—Olá, Keli.

—Oi, Alec, — ela disse em uma voz suave e hesitante. —Como estão as
coisas?

Por um longo momento, fiquei tentado a fazê-la se sentir mal por deixar
o país e sua filha, mas isso seria apenas eu sendo mesquinho. Era hora de
ser adulto. Além disso, eu não estava mais com raiva. Muito pelo
contrário. Fiquei grato, porque se Keli não tivesse partido, eu nunca saberia
o que estava perdendo.

—Nada mal, na verdade. Evanne e eu estamos tomando café da manhã.

—Pizza fria? — Keli perguntou, meio provocando.

Eu tinha dado pizza fria a Evanne uma vez no café da manhã, e isso se
tornou uma piada corrente.

—Waffles, — eu esclareci. —Waffles de mirtilo. Que eu mesmo fiz.

—Oh, isso parece bom. — Keli parecia distraída, mas não fiquei
ofendida. Ela não teve que conversar comigo. —Na verdade, acabei de ligar
para falar com Evanne, mas se você estiver tomando café da manhã, posso
ligar mais tarde...

—Essa é a mamãe? — Evanne perguntou, esperança iluminando seu


rosto adorável.

—Ela acabou de terminar, — eu disse ao telefone. —Um segundo. — Eu


olhei para Evanne. Sem dúvida, seus dedos estavam cobertos de calda. —
Lave as mãos.
Keli e eu esperamos em silêncio enquanto Evanne lavava e secava as
mãos. Ela estava toda sorrisos quando pegou o telefone de mim. —Mamãe!

Escutei a conversa de Evanne enquanto voltava para o meu café da


manhã.

—Está indo bem, — disse Evanne ao telefone. —Estou tirando boas


notas e gosto muito do meu professor. — Houve uma pausa e pude ouvir o
zumbido, se não as palavras de Keli falando. —É a Sra. Browne. — Mais
conversas de Keli. —Mhmm! Ela é a melhor. Ela veio jantar ontem. Nós nos
divertimos tanto. Ela até leu uma história para dormir para mim.

Puta que pariu.


VINTE E QUATRO

LIGUEI meu telefone assim que as aulas terminaram na segunda-feira,


na esperança de ver uma chamada perdida ou uma mensagem de texto em
espera, mas não havia nada. Nem de Soleil, nem de Alec. O primeiro não foi
realmente uma surpresa, mas eu realmente queria o segundo. Afundei na
cadeira da escrivaninha e fechei os olhos.

Talvez tenha sido errado da minha parte sair sem dizer nada. Evanne,
felizmente, não parecia fazer ideia de que eu passei a noite no sábado. Eu
estava grato por ela não ter contado a ninguém que eu tinha ido jantar em
sua casa. Ter rumores sobre eu passar um tempo com uma estudante e seu
pai muito rico e solteiro pode ser estranho. E isso nunca iria acontecer
novamente.

Quanto a Alec, não havia razão para eu ter expectativas além do que
havia acontecido. Tínhamos nos divertido. Ninguém mais precisava saber
sobre isso. E foi bobagem da minha parte ter passado o dia todo me
perguntando se ele planejava entrar em contato comigo novamente. O que
foi feito, foi feito.

E definitivamente não precisava me sentir culpada por ir


embora. Soleil precisava que eu a pegasse e eu precisava construir confiança
com ela. Ela não disse muito quando entrou no carro, provavelmente porque
não estávamos sozinhos, mas ela me agradeceu quando saiu do Lyft. Isso foi
honestamente mais do que eu esperava.

—Toc toc, — Harvey disse enquanto entrava na minha sala de aula sem
bater. —Espero que você não cochile quando deveria estar ensinando.

Eu abri meus olhos. —O que posso fazer por você, Sr. Harvey?
Ele se encostou na minha mesa, vestindo seu terno cinza usual e seu
sorriso de comedor de merda, sua proximidade muito próxima para meu
conforto.

—Bastante, — ele disse, me dando o tipo de olhar que me fez querer


tomar um banho. —Mas você não quer ouvir sobre isso. Ou... talvez você
queira.

—Outro pai quer falar comigo? — Eu perguntei.

—Nenhuma ideia. — Ele colocou um palito na boca e começou a


mastigar. —Como foi com McCrae? Você deu a ele a velha rotina loira
bombástica?

— Que rotina?

Ele acenou. —Talvez você simplesmente não consiga evitar. Você se


veste um pouco deselegante para a sua idade, mas ainda arrasa. Nos faz
usar a imaginação.

Eu me irritei, insultado por sua descrição da maneira como eu me


vestia e repelido por sua admiração. Eu nem tinha palavras para o quanto
eu não queria saber o que estava em sua imaginação. A pior parte era que,
se eu o questionasse, sabia que ele iria torcer para fazer parecer que eu
estava sendo muito sensível. Afinal, ele só me deu um —elogio.

—A reunião foi ótima, — eu disse, resistindo à vontade de colocar


minha jaqueta novamente. Minha sala de aula não estava quente, mas eu
não estava preparado para me superaquecer só porque esse idiota era um
pervertido. —Sr. McCrae só queria algumas informações, já que perdeu a
visitação pública.

Harvey cantarolou, olhando maliciosamente para meu corpo enquanto


eu falava. Não achei que ele estivesse ouvindo. —Vamos comer sushi esta
noite. Eu vou dirigir. Não há necessidade de mudar.

—Eu sinto muito? — Eu poderia pensar em algumas outras palavras


que gostaria de dizer em vez disso.
—Não sinta. Fica por minha conta. — Ele lambeu os lábios
assustadoramente. —Nós dois somos solteiros. Faz sentido. Seria uma pena
perder mais tempo bancando o tímido.

Ele estava se inclinando muito perto de mim. Empurrei minha cadeira


para trás com o pé, colocando um pouco mais de distância entre nós. —Eu
não gosto de sushi.

—Claro que você faz. — Ele fez um daqueles gestos de desprezo. —Você
simplesmente não comeu um bom sushi. Eu conheço o melhor lugar da
cidade. É exatamente como eles fazem na China.

—Japão, — eu corrigi.

Ele deu um passo em minha direção, eliminando o espaço que eu tinha


criado entre nós. —Você prefere japonês? Isso funciona para mim. Vamos,
meu carro está aí na frente. Primo estacionamento, primo carro.

Levantei-me, endireitando-me até ficarmos quase da mesma altura. —


Sr. Harvey, não estou confortável–

—Podemos ficar confortáveis na minha casa. — Ele deu mais um passo


para frente e eu dei dois para trás. Sua expressão se apertou, mas seu
sorriso permaneceu. —Lumen, estamos jogando esse jogo há semanas. Você
pode parar de se jogar duro e podemos voltar aqui pela manhã. Salve o meio
ambiente e tudo isso. Todos ganham.

Qualquer esperança que eu tivesse de que ele recuasse se eu


continuasse evitando desapareceu.

Eu estava ficando sem opções de como lidar com isso com muito tato e,
honestamente, não tinha certeza se queria mais.

Eu poderia ameaçar machucá-lo se ele não recuasse, mas quem


acreditaria em mim? Talvez as outras professoras. Mas eles me
defenderiam, me apoiariam compartilhando suas próprias experiências? Ou
eles apenas protegem suas próprias carreiras e reputações?
Esta era uma escola particular com pais ricos que se dedicavam a todo
tipo de tortas. E eu sabia como pessoas assim pensavam. Se eu desse um
tapa no vice-diretor de uma escola de elite, ele poderia facilmente me
despedir ou me acusar de agressão. Havia pouca chance de alguém acreditar
em um professor iniciante. Principalmente se todos soubessem como eu
cresci. Filhos adotivos não eram exatamente conhecidos por serem
acreditados.

—Se você realmente se preocupa com o meio ambiente, podemos


compartilhar um banho também. Você não pode me dizer que não pensou
sobre isso. — Ele piscou para mim. —Não com todos os sinais que você tem
jogado no meu caminho. É porque você quer mais do que sushi? Ok, que tal
bebermos vinho com o jantar. Isto é melhor? Sushi, vinho e depois volto para
a minha casa.

Mudei minha cadeira entre nós dois o mais casualmente que pude e
falei com firmeza, mas educadamente: —Não vou a lugar nenhum com você
e você precisa parar de perguntar.

Ele plantou as mãos no topo da cadeira de rodinhas, seu sorriso


achatando. —Eu sou seu chefe, Lumen. Eu te digo o que fazer, você não me
diz. — Ele sorriu novamente. —Ei, isso não é uma ameaça. Eu não sou esse
tipo de cara. Eu não sou um idiota. Eu sou um cara legal, você sabe
disso. Afinal, convenci o diretor McKenna a lhe dar uma chance, sabe. Um
jantar não é pedir muito como um agradecimento. O que quer que aconteça
depois disso, depende inteiramente de nós.

Ele tirou a cadeira do caminho e o pânico inundou meu sistema. Merda.

—É o mínimo que você pode fazer depois de me dar corda todos os


dias. Eu sento no meu escritório e penso sobre como eu quero -

Eu realmente não queria ouvir o final dessa frase. —Eu... eu tenho que
ir. — Peguei meu telefone e disparei ao redor da mesa e para fora da sala.

Pensei em ir ao escritório do diretor, mas sabia que se ficasse tão


exausto quanto me sentia, em vez de apoiar minhas acusações, elas só me
fariam parecer menos crível. Apenas outra mulher histérica.
Eu precisava sair dali.

Alguns alunos ainda estavam perambulando pelo corredor, esperando


que seus pais os pegassem, quase todos brincando em seus telefones
celulares. Os professores conversavam enquanto ficavam de olho nas
crianças, e muitos deles sorriam educadamente para mim quando eu
passava. Todo mundo estava agindo normalmente. Tudo estava normal,
pelo que eles sabiam. Inferno, tanto quanto eu sabia, era assim que era
aqui. Sempre seria assim, e ninguém se importava.

Lágrimas queimaram meus olhos. Eu estava quase na porta da


frente. Quase livre. Quase longe dele.

Quando alcancei uma das portas duplas, uma abriu para dentro e uma
figura entrou. Minhas mãos bateram em um peito firme e eu vacilei, minha
mente acelerada se perguntando como o Sr. Harvey tinha ficado na minha
frente e o que ele faria comigo e se alguém faria -

—Lumen?

—Sra. Browne?

Foi Evanne. Ela estava carrancuda para mim, parada na porta ao lado
de seu pai. O pai em cujo peito minhas mãos descansavam atualmente. Eu
imediatamente os afastei.

—Eu esqueci minha lancheira, — disse Evanne lentamente, confusão


em seu rosto.

Olhei por cima do ombro para ver Harvey saindo da minha sala de
aula. Ele me deu um sorriso frio, então se virou e caminhou na outra direção.

—A sala de aula está destrancada, — eu disse, sem encontrar os olhos


de Alec. Eu não poderia voltar para minha sala de aula agora, nem mesmo
por Evanne. Eu precisava de tempo para processar, e precisava fazer isso
em algum lugar onde pudesse estar seguro.

Eu só não tinha mais certeza de onde era.


VINTE E CINCO
ALEC

—O QUE HÁ DE ERRADO, MOÇA? — Eu perguntei, lutando contra o desejo


de tomá-la em meus braços, para protegê-la do que quer que a tenha
chateado. Eu não podia, por uma série de razões, e odiava cada uma
delas. —Aconteceu alguma coisa?

—Não, — disse ela, observando Evanne pular pelo corredor até a sala
de aula. —Estou bem.

Eu não teria acreditado nela mesmo se ela não tivesse evitado


ativamente olhar para mim. Ainda assim, eu não tinha o direito de
pressioná-la a me dizer nada. Ela não me devia uma explicação e eu não era
seu namorado, pai, irmão, marido. Inferno, eu nem tinha certeza se poderia
nos considerar amigos.

Evanne saltou para fora da sala, balançando sua lancheira. —Entendi!


— ela anunciou alegremente.

Agora, eu estava dividido. Eu não queria deixar Lumen nesse estado,


mas não tinha o direito de cutucá-la sobre o que estava errado. O que pude
fazer, entretanto, foi oferecer-lhe uma carona.

—Já que estamos aqui, — disse eu, enfiando as mãos nos bolsos para
não tocá-la, —poderíamos te dar uma carona de volta para casa.

—Yay! — Não foi nenhuma surpresa que Evanne fosse a favor do


desvio.

Lumen sorriu carinhosamente para Evanne, mas ainda não me deixou


ver seu rosto. —É muita gentileza sua, mas não há necessidade de sair do
seu caminho.

Olhei para fora e vi que a chuva que ameaçava o dia todo começou a
cair. Logo estaria garoando na melhor das hipóteses, derramando na pior, e
Lumen não tinha um guarda-chuva que eu pudesse ver.
—Não é problema nenhum, — eu disse. —Evita que você ande na
chuva.

—Papai tem um carro muito confortável, — disse Evanne. —Você


gostaria.

As bochechas de Lumen ficaram vermelhas e eu limpei minha


garganta, chamando a atenção de Evanne antes que ela pudesse perceber o
constrangimento de sua professora.

—É melhor irmos andando antes de ficarmos encharcados, — eu


disse. —Eu prometo a você, Sra. Browne, não é nenhum problema. Na
verdade, você estaria me salvando da ira de minha filha se eu o deixasse ir
e você ficasse doente. Eu nunca ouviria o fim disso.

Lá estava ele, a sugestão de um sorriso.

Evanne começou a correr para o carro, como se pudesse fugir da


chuva. —Vamos, Sra. Browne!

Coloquei meu guarda-chuva, embora estivessem a apenas alguns


metros do carro. —Por favor, moça. Deixe-me fazer isso por você.

As palavras saíram muito mais gentis do que eu pretendia, e sua cabeça


se ergueu de surpresa. Seus olhos brilharam como se ela estivesse
segurando as lágrimas e outra onda de proteção tomou conta de mim,
seguida rapidamente por raiva de quem a deixou tão chateada.

—Obrigada, — ela disse baixinho enquanto caminhava ao meu lado.

—Meu carro está logo aqui, — eu disse, embora ela obviamente


soubesse qual carro pertencia a mim.

Ela assentiu, mas olhou por cima do ombro como se esperasse que
alguém estivesse nos seguindo. Olhei para trás, mas não vi ninguém
prestando atenção em nós. Ainda assim, inclinei meu corpo para que
pudesse puxá-la na minha frente se eu precisasse. Depois que descobrisse o
que estava acontecendo com Lumen, precisaria ter uma conversa com o
diretor de Evanne e descobrir que tipo de segurança a escola tinha se alguém
pudesse assustar um professor.

Evanne já estava no banco de trás, sorrindo de orelha a orelha. —Você


pode se sentar no banco da frente, Sra. Browne. — Lumen olhou para mim
e depois olhou para o banco de trás, sua expressão incerta. —Ou você pode
se sentar ao meu lado.

A esperança no rosto da minha filha me fez pensar se eu cometi um


erro. Ela se apegar a um professor era uma coisa. Desfocar as linhas entre
a escola e a casa era outra coisa, e se eu não tomasse cuidado, Evanne
poderia muito bem se fixar em Lumen em resposta ao fato de sua mãe ter
ido embora.

—Obrigada. — disse Lumen ao se sentar ao lado de Evanne.

—Você pode vir jantar de novo?

Isso não demorou muito.

Lumen riu, o som sincero o suficiente para me fazer pensar que sentar-
se com um de seus alunos favoritos era a melhor coisa para ela agora. —Não
vou fazer seu pai cozinhar para três de novo.

—Eu posso cozinhar!

—Sim, certo? — Eu perguntei, puxando o carro para fora do portão da


escola. —Brinde para o jantar? Macarrão com queijo?

Evanne fez uma careta. —Eu posso seguir uma receita, papai. Não
pode ser tão difícil. Além disso, se eu cozinhar, você pode trabalhar.

—Por que eu não cozinho? — Lumen se ofereceu de repente. —Isso lhe


daria a chance de trabalhar e me daria a chance de retribuir sua gentileza.

—Ela pode, pai? — Evanne implorou, com as mãos entrelaçadas sob o


queixo enquanto ela me implorava através do reflexo do espelho
retrovisor. —Seria tão divertido.
Gostei da ideia de Lumen na minha casa novamente, mas me preocupei
que pudesse parecer muito. Ainda assim, ele iria me dar a oportunidade de
obter algum trabalho feito sem a necessidade de manter uma orelha para
fora para Evanne. Além disso, Lumen ainda parecia abalada com o que quer
que acontecesse na escola. Talvez ela só quisesse uma distração e negar isso
seria uma coisa cruel de se fazer.

—Sim, tudo bem, se é isso que ela quer.

Assim que chegamos em casa, Lumen e Evanne fizeram um inventário


do conteúdo da geladeira e dos armários. Como a terça-feira trouxe os
mantimentos semanais esta manhã, estávamos totalmente abastecidos,
embora eu não estivesse inteiramente certo do que tínhamos. Eu não queria
me sentir como um recluso enquanto tivesse um convidado, então peguei
meu laptop do meu escritório para trabalhar na sala de jantar. Pelo menos,
essa foi a mentira que disse a mim mesma sobre por que não estava em meu
escritório.

Não tinha nada a ver com o fato de eu não conseguir tirar os olhos da
professora de minha filha.

Eles escolheram costeletas de lombo de porco, purê de batata e aspargos


assados, brócolis e couve-flor. Esforço impressionante. Eu os deixei fazer
suas coisas enquanto eu trabalhava e ouvia. Ou principalmente ouvia e
tentava trabalhar, mantendo meus olhos para mim mesmo.

Evanne falou mais, como sempre, lendo coisas diferentes da receita e


depois retornando à sua história sem perder o ritmo. Lumen sorriu e
preparou a refeição, acrescentando pequenos comentários aqui e ali. Ela
parecia estar de melhor humor, embora ainda um pouco distraída.

Enquanto trabalhavam, o apartamento se enchia com o cheiro de


vegetais assados e carne de porco, e Evanne divagava sobre como ela gostava
de comer porcos e galinhas, mas ainda não gostava de comer vacas porque
eram muito fofas. Ela também achava os porcos fofos, até que um deles a
esbarrou em uma poça de lama em uma fazenda. Sua história fez Lumen
rir, e foi muito bom ouvir isso.
—A sopa está pronta! — Evanne anunciou depois que Lumen disse a
ela baixinho que o jantar estava pronto.

—Tem um cheiro delicioso, — eu disse, dobrando meu laptop e


guardando-o como se eu realmente tivesse feito alguma coisa. —Obrigado,
moça.

Lumen corou. —É o mínimo que posso fazer por tudo o que você fez por
mim.

A comida estava celestial, e os primeiros minutos foram passados em


silêncio enquanto nós três comíamos. O fato de Evanne nem mesmo tentar
colocar as palavras entre as mordidas era uma prova da qualidade da
refeição.

—Você pode ler um pouco da teia de Charlotte esta noite? — Evanne


perguntou quando metade de seu prato estava vazio. —A mamãe deu para
mim como um presente de volta às aulas.

—Eu pensei que você não gostasse de porcos, — respondeu Lumen.

—Mas eu gosto de aranhas, — rebateu Evanne

—Não tenho certeza se você será um grande fã dessa história, então,


querida — disse Lumen, sufocando uma risada.

—Por favor?

—Você fez isso agora, moça, — eu disse. —A arma secreta dela.

Evanne esticou o lábio inferior e lançou olhares de cachorrinho para


Lumen. Ela não tentava usar essa expressão seriamente desde os quatro ou
cinco anos. Então, cerca de um ano atrás, ela aprendeu que podia fazer a
maioria dos adultos rir com isso. Agora, ela usava para tentar conseguir o
que queria sendo charmosa.

Ela herdou isso de seu tio Brody.

—Não caia nessa, — eu disse, sorrindo. —Você não é obrigado a ler


nada.
—Você é realmente capaz de dizer não para essa cara?

—Raramente. Estou desenvolvendo imunidade.

—Eu acho que não sou tão difícil. Posso ficar um pouco mais tarde, se
estiver tudo bem para você?

Não sabia como a levaria para casa se Evanne estivesse na cama, mas
me preocuparia com isso mais tarde. —Sem problemas. Eu tenho mais
algumas coisas que posso fazer.

Evanne aplaudiu.

Insisti que Lumen deixasse os pratos para mim depois do jantar, mas
ela insistiu que ela e Evanne cuidassem deles. —Você conseguiu jantar e
pratos da última vez. Estaremos quites agora.

Talvez ela não quisesse pensar que me devia alguma


coisa. Justo. Havia uma hora e um lugar para o cavalheirismo, e não era
esse. Meu instinto me disse que o que quer que tenha acontecido com ela
hoje a deixou com uma necessidade de sentir que tinha controle, tinha
escolhas.

Eu fiquei à mesa enquanto eles limpavam ao meu redor, e então Lumen


ajudou Evanne com seu dever de casa. Eu era capaz de me concentrar um
pouco melhor no trabalho, mas de vez em quando, eu me pegava apenas
ouvindo eles falarem. Isso me relaxou. Faça-me sorrir. Disse a mim mesmo
que estava tentando pegar dicas sobre a melhor maneira de ajudar Evanne
no futuro, mas a verdade é que eu simplesmente gostava de ouvir os dois
juntos.

A hora da história veio um pouco mais rápido do que eu esperava, mas


não foi surpreendente. Evanne estava ansiosa para ler para ela, ainda mais
do que normalmente estava quando eu estava lendo. Fiz uma nota mental
para pedir a Lumen algumas sugestões para novos livros. Eu estava grato
porque mais e mais livros estavam disponíveis em formato de áudio.

Quando ouvi os passos de Lumen na escada, fechei meu laptop e me


dirigi para a sala. Sentei-me no final do sofá e usei meu controle remoto para
ligar o enorme sistema de som que ocupava metade de uma das minhas
paredes. Passei por alguns álbuns diferentes até encontrar o meu
favorito. Eu tinha gostos musicais variados, mas jazz clássico era o que eu
sempre procurava quando precisava de algo para aquietar minha cabeça.

—Estou começando a achar que é minha voz que a está fazendo dormir.

Eu ri e me sentei na ponta do sofá. —Eu não acredito que seja isso. Uma
vez que ela esteja acomodada, não importa o que você leia. Ela sai em
minutos.

—Isso é um alívio. Não vou me preocupar muito em entediar meus


alunos, então.

Ela ficou na minha frente e esperei que ela se sentasse ou dissesse


algo. Quando uma faixa mudou para a próxima, eu me senti seguro
assumindo que ela não iria iniciar nada, mesmo algo tão simples como
sentar-se.

—Sente-se, — eu disse para encher o ar.

Ela hesitou, mas acabou se sentando na poltrona à minha frente.

—Você parecia bastante abalado antes, — arrisquei.

—Não foi nada.

Eu a considerei uniformemente. —Isso está certo?

—Eu sinto que eu deveria estar no sofá se você for brincar de terapeuta.
— Ela sorriu. —Podemos trocar de lugar se você quiser.

Ela estava se desviando. —Você sabe que pode me dizer qualquer coisa.

—Eu serei o terapeuta então. — Ela limpou a garganta e transformou


o rosto em uma expressão séria. —O que você pode me dizer sobre o seu
muzzer?

Seu sotaque alemão era horrível. Eu bufei. —Vamos lá, pare de brincar.
—Eu sei que você está evitando a investigação. — Ela fingiu escrever
algo em um caderno.

—Não sou eu quem evita as perguntas, — eu disse com um sorriso. —


Tudo bem, moça. Mas você deve saber que seu alemão soa um pouco francês.

Ela fingiu estar ofendida. — Mein gott.

Eu ri. Eu não pude evitar. Mesmo que eu ainda quisesse saber o que a
tinha chateado mais cedo, e eu pretendia ter certeza de que isso nunca
aconteceria novamente, eu deixei para lá por enquanto. Eu não queria que
nada perturbasse o que estava acontecendo entre nós.

Ela começou a rir. —Sua risada é hilária. Você deveria colocar no


YouTube.

Ainda rindo, eu disse, —YouTube?

Ela sorriu e saiu da poltrona reclinável, vindo se sentar ao meu lado. —


Vá para o YouTube.

—Se você insiste, fräulein.

—Você acha que meu sotaque alemão é horrível? — Ela riu quando eu
abri o site no meu telefone. —O seu parece que você criou um dialeto
totalmente novo.

Logo, estávamos na espiral do YouTube, assistindo a vídeos idiotas e


rindo alto o suficiente que temi acordar Evanne. Eu não ria tanto há anos,
talvez nunca. Estava bem.

E ela se sentiu bem ao meu lado.


VINTE E SEIS

NUM MINUTO eu estava mostrando a Alec um vídeo em que gatos


tocavam uma campainha para ganhar uma guloseima, nós dois tremendo
com o esforço de impedir que nosso riso acordasse Evanne, e no minuto
seguinte, sua boca estava na minha, e eu não. nem sei qual de nós se mudou
primeiro.

Fazia menos de 48 horas desde que estivemos juntos pela última vez,
mas parecia mais tempo. No momento em que nossos lábios se tocaram,
esqueci porque isso não era uma boa ideia. Esqueci que vim aqui para evitar
ir para casa e pensar no trabalho. Esqueci que se alguém descobrisse isso
poderia destruir minha carreira.

Quando concordei em vir, disse a mim mesma que não era um encontro
e aprendi da última vez. Alec não havia indicado que queria dormir comigo
novamente, e eu presumi que se ele não quisesse que eu fosse, ele teria dito
não a Evanne. Afinal, ele era o pai.

Ele enterrou as mãos no meu cabelo, soltando os grampos que usei para
mantê-lo preso durante o dia. O rosnado baixo que vibrou através dele me
trouxe de volta a mim mesma, e as mãos que estavam agarradas a sua
camisa agora o empurraram de volta.

Ele parou imediatamente, me deixando ir como eu sabia que ele


faria. Ele estava respirando tão pesadamente quanto eu, embora nosso beijo
não tivesse durado muito. Cada centímetro de mim vibrou com energia e vi
meu próprio desejo refletido em seus olhos. Mesmo assim, senti a
necessidade de me desculpar.

—Eu sinto muito. — Eu empurrei meu cabelo para trás, ruborizando


de vergonha quando percebi o quão desastroso meu cabelo estava agora. —
Você foi tão gentil comigo hoje, mesmo depois que eu saí sem dizer uma
palavra. Isso foi rude da minha parte. Eu deveria ter ligado ou enviado uma
mensagem de texto, ou pelo menos, deixado um bilhete...

Ele segurou meu queixo e correu o polegar ao longo do meu lábio


inferior, efetivamente parando todas as palavras e todos os pensamentos
que não eram sobre ele me tocando.

—Você não me deve uma explicação, — disse ele, levantando os olhos


da minha boca para encontrar o meu olhar. —Você não me deve nada,
Lumen. Não para ser gentil, não para o jantar.

O que ele estava dizendo era tão diferente do que Harvey havia dito
hoje cedo que enviou uma onda de afeto por mim.

—Quero beijar você de novo, — ele continuou, —e quero ver para onde
as coisas vão a partir daí, mas não quero que você sinta nenhuma pressão
minha. Sempre.

Concentrei-me sobre a primeira parte do que ele disse, não querendo


ler muito para sempre. —Obrigado. — Esperei um pouco e disse: —Quero
que você me beije, mas ainda preciso me desculpar...

Ele cortou minha frase com um beijo faminto e todo o resto


desapareceu. Ele me queria e queria que fosse minha decisão. Era tudo que
eu precisava saber para escolher.

Sem interromper o beijo, coloquei uma perna sobre seu colo e depois me
ajoelhei, a mudança de posição o fazendo inclinar a cabeça para continuar
acariciando a minha língua. Ele gemeu, suas mãos movendo-se para meus
quadris, depois para os joelhos, onde minha saia estava começando a se
enrolar. Quando seus dedos deslizaram sob a bainha, eu estremeci, então
balancei para mais perto dele. Suas mãos deslizaram mais alto, queimando
seu caminho até minhas pernas enquanto ele empurrava minha saia mais e
mais alto até que ele segurou minha bunda.

Eu engasguei quando ele moveu seu beijo para minha mandíbula e


deixei minha cabeça cair para trás, confiando que ele não me deixaria
cair. Ele pressionou seus lábios no meu pescoço, sua boca quente, rodeada
pela mais leve barba por fazer.

Enterrei minhas mãos em seus cabelos e gemi. Alec colocou a mão na


minha boca, um lembrete gentil de que Evanne estava dormindo no andar
de cima. Agora que minha saia não estava apertando minhas pernas, eu
deslizei para baixo em seu corpo e me sentei em seu colo, mudando
intencionalmente contra a rigidez que senti empurrando contra seu zíper.

Ele moveu sua mão para minha bochecha e cobriu minha boca
novamente, desta vez com a dele. Nossos lábios se separaram e nossas
línguas se encontraram. Eu podia ouvir Alec respirando pelo nariz, ouvir a
necessidade, o desejo animal. Minhas mãos caíram em seus ombros, em
seguida, deslizaram por seu peito.

Enquanto eu lutava com os botões de sua camisa, ele puxou o meu pela
minha cabeça. Eu fiz um som irritado com a perda de seu beijo, mas não
demorou muito. Em seguida, ele estava explorando meu torso com mãos
fortes, correndo-as dos quadris às omoplatas às costelas e, em seguida, ao
longo do tecido do meu sutiã. Em seguida, sob meu sutiã para apertar meus
seios. Quando eu gemi de novo, seus dedos flutuaram para meus lábios.

—Eu sei, — eu murmurei. Mas foi difícil não gemer quando seus dedos
estavam brincando com meus mamilos e seus dentes raspando contra minha
clavícula.

Também era difícil se concentrar na tarefa em questão. Botões


malditos. Antes que eu conseguisse descer até a metade, ele tirou meu sutiã
e sua boca onde suas mãos estavam. Meu cérebro ficou branco com um raio
de prazer que disparou direto para o meu núcleo, me deixando quente,
molhada e dolorida.

Mais uma vez, Alec me silenciou com um beijo. Eu nem tinha percebido
que estava fazendo sons até que pude ouvir meus próprios pequenos gemidos
derretendo na boca de Alec.

Finalmente, eu abri a camisa de Alec e me inclinei para trás, deslizando


minhas mãos sobre os músculos compactados de seu abdômen, então
descendo para suas calças. Assim que eu os abri, ele se levantou, me levando
com ele. Soltei um grito de surpresa, envolvendo minhas pernas em volta de
sua cintura.

—Shh, — ele disse, seus ombros tremendo com diversão. —Nós vamos
ver meu escritório.

Eu me afastei o suficiente para ver seu rosto. —E por que, Sr. McCrae,
você está me levando para ver seu escritório?

—Porque uma vez que a porta é fechada, é à prova de som. Além disso,
o sofá é muito confortável.

—E se Evanne precisar de você? — Eu perguntei enquanto ele nos


levava para o quarto espaçoso.

—O intercomunicador funciona em todas as divisões.

Isso foi bom o suficiente para mim.

Ele me pôs de pé e nos observamos terminar de se despir, admirando-


nos abertamente de uma forma que eu não teria pensado ser possível em tão
pouco tempo. Enquanto eu observava, ele contornou a mesa e abriu uma
gaveta de baixo. Ele piscou para mim enquanto segurava um pacote de
preservativos e eu ri, amando o brilho engraçado em seus olhos.

—Você tem preservativos em seu escritório?

—Eu acredito em estar preparado.

Ele estendeu o pacote de preservativos para mim como uma


pergunta. Após um momento de hesitação, peguei o pacote dele, rasgando-o
e puxando a borracha pegajosa. Coloquei na cabeça de seu pênis e tentei
rolar para baixo, mas por algum motivo, não estava indo. Quando percebi
que estava ao contrário, corei.

—Eu adoro quando você cora, — Alec murmurou.

—Eu faço muito isso. — Eu olhei para ele antes de voltar minha
atenção para a tarefa em mãos.
—Sorte minha.

— Por sua causa.

Alec riu, puxando os grampos do meu cabelo até que caíssem sobre
meus ombros. Quando ele terminou, eu também estava. Corri minha mão
para baixo em seu comprimento e depois voltei para cima, apreciando a
forma como ele se contraiu contra a minha palma. Eu podia sentir o calor
dele através do látex, sentir o quão duro ele estava. Saber que eu era a razão
pela qual ele era assim foi uma onda de excitação como nada mais.

Ele pegou minha mão e me levou até o sofá. Ele se sentou primeiro, em
seguida, colocou as mãos em meus quadris e me puxou em direção a ele até
que eu estava montada em suas pernas. Seu pau roçou contra o interior das
minhas coxas e me abaixei para segurá-lo firme.

Trabalhando juntos, eu relaxei sobre ele, levando-o centímetro a


centímetro. Eu podia sentir seu pulso batendo bem fundo dentro de mim
enquanto ele me enchia. Enterrei meu rosto contra o lado de seu pescoço,
sentindo o gosto do sal de sua pele em meus lábios e língua. A pressão era
familiar e bem-vinda, mas eu ainda precisava de um minuto para meu corpo
se lembrar disso também.

—É isso aí, moça, — Alec disse suavemente, seus braços me


envolvendo. —Quando você estiver pronto.

Eu balancei a cabeça, balançando para frente e para trás. Então eu


puxei meus quadris para cima um pouco antes de afundar novamente, desta
vez apertando ao redor dele até que ele praguejou, seus dedos pressionando
minhas costas. Passei minhas unhas em seus ombros largos e ele espalhou
seus dedos largos sobre minhas costas, apertando meu corpo ainda mais
perto de seu peito.

Enquanto eu me movia para cima e para baixo sobre seu pênis, raspei
meus dentes em sua garganta, querendo marcar a pele bronzeada,
desejando poder pedir a ele para marcar a minha. Por mais que eu estivesse,
ainda tinha bom senso o suficiente para saber que seria uma má ideia.
Eu só esperava que esse pedaço de inteligência durasse através do calor
que se torcia dentro de mim, porque isso era... explosivo. Quando meus
lábios se separaram e minha respiração parou, Alec envolveu um braço em
volta da minha cintura e me levantou mais, então me deixou afundar todo o
caminho até sua base.

Porra, era quase, quase muito profundo, mas ele começou a esfregar
contra meu ponto G a cada impulso, e a leve dor da pressão profunda não
conseguiu me impedir de tremer da cabeça aos pés e morder meu lábio para
não gritar, paredes insonorizadas ou não.

O prazer estava crescendo para a liberação. Ele se inclinou para trás e


abaixou a cabeça para lhe dar acesso aos meus mamilos. Ele passou a língua
em torno de um e depois do outro, adicionando mais sensações às que já
ameaçavam me dominar. Então seus dentes trincaram, e o que eu senti
batendo em mim foi grande demais para eu gritar.

—Alec, — choraminguei, —estou indo...

Ele riu baixo em sua garganta. —Eu sei. Continue. Estou bem atrás de
você, mhurninn14.

Eu tombei em uma borda que eu não sabia que era possível, e então ele
estremeceu embaixo de mim, e eu sabia que ele estava vindo também. Nós
montamos a onda juntos, nossos corpos se contraindo e tremendo até que eu
não pude dizer qual era o meu clímax e qual era o dele. Ele se estendeu até
o infinito...

Por fim, relaxamos e eu lentamente caí para frente contra o peito de


Alec.

—Aquilo foi…

—Arriscado, — eu terminei.

14 Minha querida.
Ele bufou uma risada silenciosa. —Sim, um pouco. Mas também
incrível.

Agora, a parte estranha...

Eu só esperava que ele deixasse minhas pernas pararem de tremer


antes de me pedir para sair.

—Passar a noite.

Eu olhei para ele com os olhos arregalados. Merda. Ele estava falando
sério.

—Eu... não posso, — eu disse, passando um dedo pelo seu belo queixo.

—Por que não?

Eu pisquei. —Porque... — Levei um minuto para lembrar por que não


conseguia. —Não posso trabalhar com as mesmas roupas dois dias seguidos.

—Eu tenho roupas que você pode pegar emprestado, — Alec disse. —
Eles estão na sala ao lado da de Evanne.

Eu nivelei meus olhos para ele. —Roupas femininas?

—Não é desse jeito. — Ele sorriu. —Eu tenho muitos irmãos. Incluindo
irmãs.

—Uau. Irmãs.

—Posso mostrar uma foto, se quiser.

—É assim mesmo? — Eu esperava que ele pudesse ouvir a provocação


em minha voz.

—Eu posso provar se você realmente quiser, — disse ele, prendendo


mechas de cabelo atrás de minhas orelhas. —Tenho certeza de que tenho
uma foto de todos nós por aqui em algum lugar. Ou você pode acreditar na
minha palavra de que ninguém da minha família se importaria se você se
ajudasse.
Eu levantei uma sobrancelha brincalhona. —Você tem certeza disso,
não é?

—Sim. Quer dizer, isso não aconteceu antes, mas...

—Boa resposta, — eu disse ironicamente.

Ele deu uma risadinha. —Estou falando a verdade, Lumen.

Ele parecia genuíno, mas essa era apenas uma das coisas que eu sabia
que tínhamos que pensar. As coisas não eram tão simples.

—Que tipo de mensagem isso enviaria para Evanne? E os outros


professores podem descobrir. É um trabalho totalmente novo e -

—Espero que isso transmita à minha filha a mensagem de que não há


nada de vergonhoso no que fizemos. — Ele correu o polegar sobre meu lábio
inferior. —Mas posso ter certeza de que ninguém descobrirá que estivemos
juntos. Não vou deixar nada de ruim acontecer.

A exaustão caiu sobre mim. —Você tem certeza?

—Lumen, eu não teria oferecido se não fosse sincero.

—Tudo bem então. — Corri meus dedos por seu cabelo. —Eu vou ficar.
VINTE E SETE

ACORDEI ao lado de Alec às seis em ponto, graças ao meu despertador


embutido. Ontem à noite, concordamos que eu seria deixado na escola antes
que Evanne acordasse, então fiz uma nota mental para acordar cedo, mas
Alec ainda estava dormindo. Enquanto pensava nisso, percebi que não o
tinha visto definir um alarme quando mudamos de seu escritório para seu
quarto. Deitei em sua cama enorme olhando para ele e tentando decidir o
que fazer. Ele parecia muito em paz para perturbar.

O quanto eu realmente queria acordá-lo apenas para que ele pudesse


ligar para o motorista para me levar ao trabalho mais cedo? Eu poderia
pedir minha própria carona, mas se eu não o acordasse, quão estranho seria
se eu usasse seu chuveiro, encontrasse roupas no quarto de hóspedes e
depois fosse embora?

Meu estômago roncou, interrompendo minha linha de pensamento. Eu


tinha uma hora e meia antes de precisar ir para a escola para ensinar. Se o
motorista de Alec me levasse lá tão cedo, eu ficaria com uma máquina de
café da manhã ou mesmo nenhuma. Ou eu poderia pegar uma carona na
escola...

Eu balancei minha cabeça. Era muito complicado. E para quê? Para


impedir que Evanne me visse aqui de manhã? Foi realmente um grande
negócio? Se Alec não se importasse, eu deveria? Ele era o pai, não eu.

Entrar agora também significava que eu ficaria sozinho na escola até


que todos os outros chegassem. Não era a solidão que me incomodava, mas
sim saber que Cornelius Harvey era geralmente a primeira pessoa a
trabalhar. Se ele percebesse que eu também estava lá - o que ele faria, a
menos que eu desligasse as luzes do meu quarto e me escondesse - ele
poderia facilmente continuar a conversa de ontem, e ninguém estaria lá
para me ajudar se as coisas saíssem do controle.
Talvez eu simplesmente não estivesse com pressa de voltar depois do
que aconteceu ontem, ou talvez eu estivesse com muita fome para
pensar. De qualquer forma, eu não queria acordar Alec. Em vez disso, decidi
que faria o café da manhã para ele e Evanne. Todas as outras razões à parte,
achei que seria melhor para Evanne me encontrar na cozinha do que na
cama de seu pai.

Eu cuidadosamente deslizei para fora da cama enorme de Alec,


observando seu rosto para ter certeza de que não o estava acordando. Ele se
contraiu e murmurou, mas não abriu os olhos. Boa. Ele não disse nada, mas
a intuição me disse que ele estava mais cansado do que parecia.

Eu não tinha saído da cama ontem à noite, o que significava que não
tinha colocado nenhuma roupa. Um banho e roupas limpas tinham que vir
antes de qualquer coisa, não importa o quanto eu estivesse com fome.

Eu não estava prestes a andar nua pelo corredor até o quarto de


hóspedes que Alec tinha mencionado antes, então peguei uma camiseta que
estava pendurada em uma cadeira próxima e a vesti. Não era algo que eu
me sentiria confortável usando na frente de ninguém, mas cobria todo o
essencial. Mesmo assim, espiei o corredor para ver se Evanne já tinha saído.

Parecia que eu estava limpo, então fui na ponta dos pés até o quarto de
hóspedes e entrei. Procurei o interruptor de luz, piscando quando o liguei, e
a luz inundou a sala. Era claramente um quarto de hóspedes, mas quando
abri o armário, encontrei-o cheio de roupas femininas de vários estilos e
tamanhos. Demorei um pouco vasculhando antes de encontrar algo que eu
gostasse que se encaixasse em mim, mas assim que o fiz, fui para o banheiro
anexo e tomei um banho rápido. Depois disso, era hora de começar o café da
manhã.

A cozinha de Alec tinha todos os recursos para uma boa refeição


grande. Torradas integrais, ovos, bacon, abacate, batatas fritas, café e suco
de laranja. Eu esperava que ele não se importasse se eu usasse sua
comida. Ou que eu tinha ficado para me sentir em casa, em vez de acordá-lo
para chamar seu motorista para me tirar de lá.
Tentei tirar esses pensamentos negativos da minha mente enquanto
cozinhava. Foi ele quem me pediu para ficar, e fui eu quem deu
desculpas. Ele certamente não iria querer que eu fosse embora horas antes
do início da aula, não é?

O bacon e o café cheiravam bem o suficiente para me relaxar, e forcei


as perguntas —devo ou não devo— do meu cérebro.

Pelo menos até que Evanne entrou correndo na cozinha.

—Sra. Browne! Você teve uma festa do pijama!

Merda. Não esperava que Evanne descesse primeiro e sozinha.

—Bom dia, Evanne. Como você gosta de seus ovos? — Eu perguntei,


protelando. Eu me perguntei se deveria dizer que decidi passar por aqui esta
manhã e que não passei a noite, mas não tinha certeza se ela
acreditaria. Além disso, eu não era um bom mentiroso. Principalmente para
crianças.

—Moles, — disse Evanne. Ela ainda estava radiante.

—Você, hum, escovou os dentes? — Eu perguntei. Eu sabia como lidar


com crianças, mas meu relacionamento com Alec tornava esse garoto
diferente. Bem, não um relacionamento, porque não estávamos em um
desses.

—Ainda não, — disse Evanne, —mas eu só queria sentir o cheiro do


bacon. — Ela deu uma baforada grande e exagerada. —Mmm!

—É melhor você escovar os dentes rapidamente, — eu disse, —ou seu


suco vai ficar com um gosto estranho quando o café da manhã estiver pronto.

Ela me saudou e saiu correndo, me deixando rindo. Que fofinho.

Eu estava começando com os ovos de Evanne quando Alec entrou na


cozinha. Ele colocou um par de calças de flanela e uma t-shirt, os quais
parecia amarrotado suficiente para ele ter dormido em. Que, naturalmente,
virou meus pensamentos para o que ele tinha sido vestindo quando eu o
tinha deixado em cama. Ou melhor, sua falta de roupa.
—Oh, — ele disse, uma expressão confusa em seu rosto. —Uh. Olá.

—Bom dia, — eu disse, sorrindo. —Espero que esteja tudo bem eu ter
feito o café da manhã?

Ele olhou para o fogão como se estivesse atordoado. Então ele acenou
com a cabeça. —Sim. Quero dizer, sim, está tudo bem.

Droga. Ele estava sendo estranho. Eu não deveria ter ficado. Eu


deveria ter chamado para uma carona e ido embora antes que ele acordasse
como eu tinha feito antes

Exceto... ele me pediu para passar a noite. Ele deve ter me querido
aqui. Talvez não esteja fazendo seu café da manhã, mas ele não deveria
estar agindo como se me encontrasse, houve um grande choque.

A menos que fosse apenas o sexo falando. Eu tinha ouvido falar de


declarações de amor, propostas de casamento, esse tipo de coisa, escapulindo
durante a conversa de travesseiro, mas ele não parecia o tipo de pessoa que
renunciava ao controle o suficiente para não estar absolutamente certo de
cada palavra que saía de a boca dele.

Ele coçou a nuca. —Escute, Lumen...

Antes que ele pudesse terminar seu pensamento, Evanne correu para
a sala, com os cabelos escovados, os dentes escovados e vestida com jeans e
uma camiseta roxa.

—Feito em tempo recorde! — ela anunciou. Seu cabelo estava um pouco


estático e eu tinha certeza que sua camisa estava para trás, mas sua
velocidade ainda era impressionante.

Alec deu a Evanne um high-five, seu sorriso genuíno. —Sua camisa


precisa ser consertada, mo chride. Mas bom esforço. — Evanne gemeu e
puxou os braços por dentro da camisa para virá-la. Ele olhou de volta para
mim, sua voz mais suave quando disse: —Vou pedir meus ovos mexidos, por
favor.
—É isso aí, — respondi, esperando que isso significasse que as coisas
voltaram a ficar fáceis entre nós.

Ele evitou meus olhos, deu uma desculpa sobre a necessidade de se


vestir e então desapareceu.

Ou não.

O café da manhã teria sido tranquilo se não fosse por


Evanne. Ocasionalmente, Alec a interrompia por um motivo ou outro, pelo
menos metade para lembrá-la de não perder tempo. Ele olhou para mim
depois desses lembretes, como se estivesse silenciosamente me garantindo
que me levaria para a escola antes que os outros professores
chegassem. Fiquei grato por sua preocupação, mas estava mais preocupado
com o que ele estava pensando no momento. Ele não era fácil de ler.

Eu me ofereci para ajudar com a louça assim que terminássemos, mas


Alec disse que cuidaria disso mais tarde. Melhor para nós
começarmos. Logo, estávamos na estrada, de volta ao carro luxuoso de
Alec. Como na mesa do café, Evanne falou mais. Alec só me disse uma coisa
durante toda a viagem, e foi perto do fim.

—Vamos conversar depois que você terminar o trabalho hoje.

Ele disse em voz baixa o suficiente para que Evanne não parasse de
conversar e ficasse olhando a estrada o tempo todo, mas estava claro que ele
estava falando comigo. Eu sorri para ele e assenti educadamente, quer ele
me visse ou não. Por dentro, meu estômago estava se revirando. Tive a
sensação de que sabia sobre o que ele queria falar. Apesar de nossas noites
juntos e nossos jantares, Alec não queria um relacionamento.

Então, novamente, eu também não.

Eu tinha um plano para minha vida. Eu sabia que essa era a única
maneira de sair do sistema. Elabore um plano e execute-o. Carreira
primeiro, depois pense em namoro. E mesmo assim, namorar o pai de um
aluno não estava nas cartas. Eu precisava voltar aos trilhos. Eu prometi a
mim mesma que meu relacionamento com Alec seria profissional de agora
em diante.

Chegamos à escola cedo o suficiente para que o estacionamento


estivesse quase vazio. Ninguém estava fora, o que significava que ninguém
me veria saindo deste carro facilmente identificável.

—Oh, querida, — Alec disse antes que eu pudesse agradecê-lo pela


carona. Por um segundo, pensei que ele estava falando comigo, mas ele se
virou e olhou para Evanne. —Nós esquecemos sua pasta, não é?

Evanne piscou em confusão, se com o carinho ou sua declaração, eu não


sabia. —Estava na minha mochila. — Ela abriu a bolsa, mas o fichário não
estava lá.

—Precisamos voltar e pegá-lo, — disse Alec. —Podemos liberar a Sra.


Browne agora, no entanto.

Eu não tinha pensado em dar a Evanne uma desculpa para não se


juntar a mim na minha sala de aula mais cedo. Os professores que tinham
filhos os trouxeram mais cedo. Não havia razão para ela pensar que não
seria o mesmo para ela. Eu estava feliz que Alec tivesse pensado em algo,
mesmo que ele tivesse que tirar a pasta dela de sua mochila para fazer isso.

—Vejo você na aula, Evanne, — eu disse, acenando. —Obrigado pela


carona, Sr. McCrae.

Ele abriu a boca imediatamente, como se fosse me pedir para chamá-lo


de Alec, mas ele hesitou antes de falar. —De nada, Sra. Browne.

Saí do carro, sentindo-me um pouco enjoado. Eu não sei porque.

A sensação só piorava quanto mais perto eu chegava da escola. Ouvi


Alec se virando e indo embora atrás de mim, mas não olhei para trás. Eu
tinha minhas roupas velhas em uma bolsa de lona que peguei emprestada
dele e todo o resto na minha mochila escolar normal. As roupas que eu
encontrei serviam bem o suficiente para serem tomadas como minhas, então
do lado de fora, eu não parecia diferente do normal. Contanto que eu
pudesse manter uma boa cara de pôquer, eu ficaria bem.
Isso não me ajudou a sacudir a sensação ruim no estômago.

O que teve muito a ver com a razão de eu ter ido para casa com Alec em
primeiro lugar.

Harvey.

Quase me esqueci dele durante a viagem até aqui. Mas agora, eu não
podia fazer nada além de pensar nele. Uma parte de mim queria ir embora,
mas a parte mais forte sabia que eu tinha que enfrentá-lo. Eu ainda tinha o
trabalho do plano de aula para fazer que não fiz ontem, e muito do meu
trabalho ainda estava na minha mesa, mas era mais do que isso. Se eu
corresse agora, ele venceria. Ele pensaria que poderia intimidar qualquer
um para lhe dar o que ele quisesse.

De jeito nenhum. Meus joelhos tremiam, mas eu estava lá.

Quando entrei, um dos zeladores acenou para mim em seu caminho


para o armário do zelador, mas além dela, o corredor estava vazio. Meu
coração batia forte contra minha caixa torácica enquanto me dirigia para a
sala de aula, meio convencido de que já encontraria Harvey lá.

Eu esperava que não. Afinal, antes de ontem, ele não tinha sido tão
agressivo ou agressivo. Talvez ontem tenha sido único, e depois da minha
retirada apressada, ele recebeu a mensagem e me deixou em paz.

Meu estômago continuou a revirar, apesar da minha tentativa de


pensamento positivo.

Quando finalmente cheguei à minha sala de aula, ainda estava escuro


lá dentro e a porta estava fechada, o que achei que significava que estava
vazia. Harvey teria que ser um tipo diferente de maluco para estar lá
esperando por mim.

Entrei e fechei a porta. Eu tinha algumas coisas básicas da sala de aula


para fazer no fundo da sala, e isso me levaria pelo menos até que mais
alguns professores estivessem aqui. Se Harvey viesse me procurar, esperava
que isso fosse o suficiente para desencorajá-lo. Pelo menos por hoje.
Agora, se apenas o outro homem em minha vida pudesse ser
compreendido tão facilmente.

Mesmo que eu tivesse decidido sobre meu relacionamento com Alec e


me distanciar dele era, sem dúvida, a coisa certa a fazer, eu aproveitei o
tempo com ele nos últimos dias. Mesmo esta manhã, com ele estando quieto,
ainda tinha sido bom apenas fazer uma refeição com ele e sua filha. Cada
vez que ele sorria para Evanne, eu gostava mais dele.

Mais do que eu sabia que deveria.

Eu só esperava poder parar antes de me encontrar com Alec mais tarde.


VINTE E OITO
ALEC

QUANDO voltei para casa, deixei Evanne na escola e cheguei ao prédio


do meu escritório, minha cabeça não havia melhorado nem um pouco. Eu
realmente não tinha pensado quando pedi a Lumen para passar a noite. O
resto do meu dia seria passado agonizando sobre o que exatamente eu diria
a ela mais tarde hoje, quando tivéssemos nossa conversa. Porque
precisávamos ter. Nós não poderíamos continuar fazendo o que quer
que isso era que estávamos fazendo.

—Bom dia, Sr. McCrae, — disse terça-feira quando saí do elevador. Ela
estendeu uma grande caneca de cerâmica preta com O Melhor Grande
Irmão nela.

—Como você sempre sabe quando estar no elevador? — Eu


perguntei. Tomei um gole do meu café. Preto com um toque de
canela. Exatamente como eu gostei.

—Eu posso ver seu carro parando pela janela do escritório, — ela
confessou. —Se você começar a dirigir um Honda, será capaz de me pegar
de surpresa.

Terça-feira me passou pelas atualizações e lembretes da manhã


enquanto íamos para o meu escritório. Eu balancei a cabeça para todos nos
corredores, sorrindo educadamente, mas não tão educadamente que eles me
parassem para conversar. Já que eu não era exatamente conhecido por ser
social, não era incomum para mim.

Os escritórios do MIRI passaram por reformas no ano passado,


deixando-os elegantes e modernos a fim de inspirar confiança para o novo
lote de gigantes da indústria com foco em tecnologia que buscavam iniciar
suas próprias convenções e feiras de negócios. A maior parte do escritório
era um piso plano aberto com sólidas estações de trabalho de nogueira, um
telhado de aparência industrial com longas luzes de LED penduradas, um
piso de concreto polido e paredes com ripas de nogueira. Eu mesma
supervisionei a remodelação.

Meu escritório era praticamente o mesmo, mas eu estava sempre


entrando e saindo dele, preferindo discutir as coisas com as pessoas cara a
cara em vez de lidar com e-mails entre escritórios e coisas do gênero. Hoje,
entretanto, eu não estava me sentindo muito social, então, quando cheguei
ao meu escritório, agradeci terça-feira e pedi para não ser incomodado a
menos que fosse urgente. Ela assentiu imediatamente e saiu, fechando a
porta atrás dela.

Bebi meu café em silêncio enquanto olhava para o horizonte de Seattle


pela janela. Foi bom acordar com alguém me preparando o café da manhã,
mesmo que eu tivesse ficado confusa com a presença de Lumen na minha
cozinha. Com as roupas da minha irmã. Evanne ficou em êxtase por ter a
Sra. Browne para conversar sobre seus ovos. Por aquele tempo, quase
parecia que éramos uma família, nós três.

Eu balancei minha cabeça. Eu precisava parar de pensar assim


imediatamente. Lumen e eu não éramos pais, pelo menos não da mesma
criança. Nós três não éramos uma família. Como eu poderia estar pensando
isso? Eu mal conhecia Lumen, e o pouco que eu conhecia não era nada
importante. Por que eu pensaria que isso nos levaria a ser uma família?

Eu não tinha conseguido fazer um com Keli, e Evanne era sua filha
biológica. O fato de eu não querer ter um relacionamento com Keli não
ajudou muito, é claro, mas eu era idiota em pensar que as coisas com Lumen
seriam diferentes apenas porque nós passamos alguns bons momentos
juntos.

Não, eu precisava ir embora. Eu tinha minha filha para focar e uma


grande conferência de tecnologia para organizar. Não tive tempo ou recursos
para tentar fazer algo acontecer com Lumen. Não era justo da minha parte
deixá-la cozinhar para nós e ler histórias de ninar para o meu filho e... depois
passar a noite na minha cama.
Quando dormimos juntos pela primeira vez, concordamos que o que
estávamos fazendo era apenas divertido, mas depois desses últimos dias, eu
não sabia se isso ainda se aplicava. Eu precisava terminar as coisas antes
que elas saíssem do controle.

Ela era professora da minha filha. Nada mais. Alguém que eu


ocasionalmente via em eventos escolares e reuniões de pais e professores. Eu
só falaria com ela sobre o progresso de Evanne como estudante. Nada mais,
nada pessoal. Era assim que tinha que ser.

O pensamento deixou um desgosto na minha boca e uma dor na minha


cabeça, nenhum dos quais conseguiu me distrair de pensar sobre como seria
difícil ficar longe de Lumen. Eu sabia que era a coisa certa a fazer por todos
nós, mas não como eu faria. Não quando tudo que eu conseguia pensar era
em como me diverti mais genuinamente com Lumen no curto tempo que a
conhecia do que com Keli durante todo o tempo que estivemos juntos.

Quando se tratava de obter conselhos sobre esse tipo de coisa, havia


apenas uma pessoa com quem eu poderia conversar.

Da atendeu no segundo toque.

—Alec, bom dia, rapaz. — Seu sotaque escocês familiar preencheu meu
escritório, essa frase me dando uma medida de calma. —Como você está
encontrando a paternidade em tempo integral?

—Desafiador, — eu disse.

—E você tem apenas um, — ele me lembrou com uma risada.

Sim, isso era verdade. Eu posso ter sido uma mãe solteira no momento,
mas meu pai foi pai de cinco anos depois que minha mãe morreu. Eu era a
mais velha com oito anos, e minha única irmã - na época - Maggie, tinha
menos de um ano. Quando conheceu Theresa Carideo, uma viúva com
quatro filhos, tivemos dez filhos quando se casaram. A isso, eles
acrescentaram três deles próprios, meus meio-irmãos Sean e Xander e
minha meia-irmã, London.
Pouco mais de dois anos depois que Theresa se tornou minha madrasta,
seu irmão e sua cunhada morreram, tornando órfãos seus três filhos. Esses
foram adicionados à nossa família já grande para nos tornarmos dezoito no
total, dois pais e dezesseis filhos.

Não conseguia imaginar ter mais um ou dois filhos, muito menos


tantos. E a maioria de nós tinha sido um pouco mais travessa do que meu
próprio filho.

—Sim, rapaz, parece que não importa quantos, crianças são sempre um
desafio, mesmo uma moça bonita como a sua.

—Ela é algo especial, certo. Estou me acostumando a tê-la por perto,


mesmo que tenha passado menos tempo no escritório. — Eu tracei um
arranhão que percorreu um canto da minha mesa. Evanne tinha feito isso
quando tinha quatro anos. Eu a trouxe para o escritório durante um dos
meus fins de semana, e ela tentou “desenhar” com uma tesoura antes que
eu conseguisse pegá-la.

Quase tive um ataque cardíaco quando a vi e nunca tive coragem de


contar a ninguém além do meu pai. Eu mantive o arranhão para me lembrar
de quão perto estive de machucar minha filha simplesmente porque me
importava mais com o trabalho do que em ter certeza de que meu escritório
era seguro para ela.

—O tempo longe faz bem para a alma, Alec. Você não vai se arrepender
de colocar Evanne antes do trabalho. MIRI não precisa de você lá o tempo
todo.

Embora eu nunca tenha duvidado do quanto meu pai me amava, ele


sempre passava muito tempo trabalhando. Mesmo depois de se aposentar
oficialmente do MIRI, ele foi incapaz de ficar completamente afastado. Eu
herdei minhas tendências workaholic dele, mas eu estava nisso há muito
mais tempo e por conta própria. Era um hábito muito mais difícil de quebrar
na minha idade do que seria se eu fosse mais jovem.

Eu engoli em seco. Nunca fui bom nesse tipo de conversa. —Estou


tendo outros... problemas, pai.
—Derrame, rapaz.

Eu contei a ele sobre Lumen e quase tudo que aconteceu entre nós,
incluindo o fato de que Lumen era a professora de Evanne. Isso levou às
minhas preocupações sobre como ela estava afetando meu trabalho e como
eu estava preocupada que isso só piorasse.

—Eu não estou entendendo porque isso é um problema, — ele


interrompeu. —Se você gosta da moça, leve-a para um encontro adequado.

Eu fechei meus olhos. Era como se ele nem estivesse prestando


atenção. —Ela é a professora de Evanne, Da. E com a conferência de
tecnologia chegando -

—Não seja idiota! Conferência de tecnologia! Tenho visto os livros do


MIRI, incluindo todas as informações dos funcionários. Há pelo menos três
pessoas que eu contratei pessoalmente que podem lidar com essa
conferência. — Sua voz se suavizou. —Tire uma folga. Não precisa ser nada
louco. Finais de semana. À noite.

—Sempre tiro os fins de semana de folga quando Evanne está comigo,


— rebati. Eu não podia admitir exatamente as noites, já que muitas vezes
as passava no meu laptop, mas considerando que meu tempo no escritório
agora durava apenas das oito e meia às duas e meia, eu sentia que não
estava gastando tempo suficiente aqui para conseguir tudo feito.

—Tire uma semana de folga, então. Leve Lumen e Evanne para


Edimburgo.

—Da, esta conferência-

—Vai acontecer mesmo se você não for o único no controle. Você tem
bons funcionários, rapaz. Você pode confiar neles. Não vá pensando que você
vai se arrepender por um momento que passou com seu pequenino. E se essa
Lumen já está cozinhando suas refeições e lendo histórias de ninar da
Evanne, isso é mais do que apenas uma professora. Case-se com aquela
moça e seja rápido.
Eu ri, o calor inundando meu rosto. —Eu acho que você está se
adiantando, pai. Eu conheço Lumen há menos de um mês. Isso é mais curto
do que você conhecia Ma ou Theresa.

Eu não deveria nem mesmo precisar explicar isso. O casamento nem


estava em jogo. Achei que papai entenderia melhor do que ninguém minhas
obrigações para com o MIRI. O que fiz impactou toda a empresa, e essa
empresa foi a força vital de nossa família e de inúmeras outras famílias que
contam com um salário mensal. Eu não podia roubar um professor porque
queria alguém para fazer o jantar e colocar meu filho na cama. Nem mesmo
se eu me sentisse como me sentia...

Merda.

Não. Eu não sentia nada além de luxúria e apreciação. Talvez


alguns gostem lá, mas nada mais do que isso.

—Foi uma piada, Alec, — ele disse, uma nota séria em sua voz. —Mas
talvez não fosse para você. Você é um homem adulto e não posso lhe dizer o
que fazer, nem mesmo com a companhia. Coloquei isso em suas mãos há
anos. Mas posso te dar um conselho. O que quer que você decida, é melhor
ser rápido. A vida é muito curta para desperdiçá-la com arrependimentos.

Ele estava certo em todos os pontos. Não pela primeira vez, fiquei grato
por meu pai.

—Escute, rapaz, eu sei que você vai tomar a melhor decisão para
você. Mas se você me perguntar, você deveria passar mais tempo com aquela
loira do que com o trabalho.

Eu pisquei. —Eu nunca disse que ela era loira.

Ele riu. —Eu posso ouvir em sua voz.

Eu ri. —Obrigado, Da.

—Saúde, filho.

Ele desligou e eu estava de volta à estaca zero. Bem, não


exatamente. Agora, eu estava ainda mais em conflito sobre o que fazer.
Ou eu tinha que romper com Lumen ou correr o risco e tentar um
relacionamento real. Se ela quisesse um.

Eu estava começando a me perguntar como essa nossa conversa estava


indo.
VINTE E NOVE

MEUS NÍVEIS DE ESTRESSE estavam às alturas o dia todo, e eu só


esperava que não tivesse afetado meu ensino.

Eu estive olhando para o relógio o dia todo, contando os segundos de


uma lição para a próxima. Desta vez, era seu período de ginástica se
aproximando. No momento, a sala estava silenciosa, pois todos os meus
alunos estavam de cabeça baixa para um teste. Infelizmente, isso
significava que não havia nada para abafar o caos em minha cabeça. Eu
estava tentando não pensar no que aconteceria depois da escola quando Alec
chegasse.

Conforme os minutos passavam, um por um, as crianças trouxeram


seus testes para mim e eu agradeci a cada um pelo nome com um
sorriso. Logo todos os testes estavam concluídos e o sino soou para a aula de
ginástica. Acompanhei as crianças até o ginásio e depois voltei para a minha
sala de aula, meus nervos à flor da pele com a perspectiva de ficar quarenta
minutos sozinha.

Quase imediatamente, comecei a pensar no comportamento de Evanne


até agora. Ela sorriu muito, ainda mais do que o normal, mas eu não a tinha
visto sussurrando para nenhum dos outros alunos, então esperava que
nenhuma fofoca se espalhasse sobre seu pai e eu.

Então, novamente, eu não poderia saber com quem ela falava durante
o recreio ou aulas especiais como ginástica e arte. A história provavelmente
sairia mais cedo ou mais tarde. Isso significava que eu precisava esclarecer
as coisas antes que a história saísse do controle.

Droga.
Eu descansei minha cabeça em uma das mãos e comecei a corrigir os
testes que acabei de receber. Eu precisava me concentrar no trabalho. Eu
me sentiria melhor se apenas-

—Toc Toc.

Porra.

Olhei para o sorriso de comedor de merda e o terno cinza de Harvey e


tentei não fazer cara feia. Meu estômago embrulhou, então congelou.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa sobre ontem, Harvey disse:
—Você recebeu uma mensagem do pai de Evan novamente.

—Evanne, — eu corrigi sem pensar, então fiz uma careta. —Uma


mensagem?

—Um telefonema, na verdade, — disse Harvey, alcançando minha


mesa. —Ele queria que colocássemos você no telefone, mas dissemos que
você estava em aula, então ele teria que esperar, de acordo com a política da
escola. Não posso tornar as coisas muito fáceis para ele, estou certo? — Ele
piscou.

Eu sorri levemente.

—De qualquer maneira, — Harvey continuou, —ele acabou deixando


uma mensagem. Basta ligar para ele, se puder. Aqui, eu anotei seus dígitos.

Ele estendeu um post-it. Eu o tirei de seus dedos, com cuidado para não
tocar em sua mão. Não mencionei que já tinha o número de telefone de Alec.

—Obrigado pela mensagem, Sr. Harvey, — eu disse o mais


profissionalmente que pude.

Era muito esperar que ele se virasse e fosse embora imediatamente,


aceitando o fato de que eu não estava interessada nele.

—Parece que você realmente está indo além por causa desse cara.

Meu coração deu uma batida acelerada. —O que você quer dizer?
—Vi você falando com ele depois da escola ontem. O e-mail, a reunião e
agora o telefonema...

Esperei que ele fizesse uma acusação. Ele estava demorando para
chegar a um. Eu queria pensar em uma boa explicação que não me fizesse
ser despedido, mas estava tendo problemas para encontrar algo. Ficar em
silêncio parecia a melhor ideia.

—McCrae é nosso pai mais rico, — Harvey me lembrou. —E isso está


dizendo algo. McKenna está muito satisfeito por você estar fazendo um caso
especial para o cara.

O diretor McKenna sabia disso?

O sorriso malicioso de Harvey se transformou em algo feio. —Tenho


certeza que é tudo profissional, certo? Afinal, não é contra nenhuma política
ter o número particular de um dos pais em seu telefone particular. Basta
lembrar para quem você trabalha. Tenha uma boa tarde, Lumen.

Ele se virou e saiu da sala, aparentemente confiante de que me


colocaria no meu lugar. Eu soltei meu fôlego mesmo quando o aborrecimento
apareceu. Quem ele pensava que era com toda aquela merda de “lembre-se
para quem você trabalha”? Ele parecia estar assistindo a muitos filmes de
máfia, dando-me algum tipo de aviso enigmático ou algo parecido.

Eu esperava que fosse só porque ele ainda estava tentando entrar em


minhas calças, mas tive que considerar o fato de que ele suspeitava que eu
estava fazendo mais do que conferências sobre Evanne.

Embora não houvesse nada específico nas regras sobre não namorar
pais de alunos, eu sabia que em um lugar como este, não demoraria muito
para eles encontrarem algum motivo para me despedir de qualquer
maneira.

Eu nunca deveria ter concordado em jantar com Alec. Não é a primeira


vez e definitivamente não é a segunda. E então ficar para o café da manhã...

Eu deixei cair meu rosto em minhas mãos. Eu fui tão estúpida.


Eu olhei para o post-it com o número de Alec nele. Ele queria que eu
ligasse para ele. O relógio dizia que a aula de ginástica estava quase
acabando, então eu não tive tempo para uma conversa inteira por
telefone. Mas adiar também não foi uma boa ideia. Decidi enviar-lhe uma
mensagem em vez disso.

Olá, aqui é a Sra. Browne. Você queria falar comigo?

Era estranho ser tão formal com ele agora, mas eu não queria arriscar
ter nada no meu telefone que não fosse cem por cento profissional. Enviei a
mensagem e coloquei meu telefone no gancho, tentando firmar minha
respiração enquanto voltava a marcar os papéis, mas meu telefone tocou
segundos depois. Foi Alec.

Oi. Evanne faz caratê depois da escola às cinco horas. Posso pegar você
depois de deixá-la? Podemos conversar então.

Estarei na minha sala de aula até as cinco, enviei de volta. Foi a


maneira mais profissional que consegui pensar para responder ao seu texto.

OK, até então

Voz para texto, pensei enquanto lia. Esse programa em particular


sempre me deixou louco, ao ver que ele usava letras maiúsculas para certas
coisas como OK em vez de Ok.

Ter pelo menos tempo depois da escola me daria mais espaço para
corrigir esses testes, já que eu mal tinha feito dois deles desde que começara
a educação física, mas isso também significava que ficaria sozinha por mais
de uma hora com Harvey andando pelos corredores. Ugh.

O sinal tocou, me lembrando que eu precisava pegá-los na academia, o


que significava que eu precisava colocar um sorriso e voltar ao modo de
professor. O que quer que acontecesse depois da escola, eu me preocuparia
com isso quando chegasse a hora. Recusei-me a permitir que meus
problemas pessoais afetassem meus alunos. Eles eram mais importantes do
que o que estava acontecendo em minha vida pessoal.
TRINTA
ALEC

APESAR DO FATO DE que falar com Da não me deu a direção clara que
eu queria, ele me lembrou que a única pessoa que esperava que eu fizesse
horas loucas era eu. Ninguém pensaria menos de mim se eu tirasse uma
folga. Ninguém além de mim, é claro, porque não importava quantas vezes
as pessoas me mandassem cortar, continuei me esforçando como se tivesse
algo a provar.

O estranho é que nunca esperei que meus funcionários sacrificassem


seus relacionamentos, românticos ou não, pela empresa. Na minha cabeça,
eu sempre disse a mim mesma que trabalhava essas horas malucas então
eles não precisavam, mas isso tinha sido uma meia-verdade na melhor das
hipóteses. Atirar-me ao trabalho era a maneira mais fácil de manter os
relacionamentos à distância. Esse raciocínio só cresceu depois que as coisas
entre Keli e eu pioraram.

Lumen não era Keli. Na verdade, Lumen não era como ninguém que eu
já conheci. Eu só precisava descobrir o que queria fazer com essa
informação. Mesmo depois de ligar e deixar uma mensagem, eu não sabia
qual seria minha decisão. Eu fiquei um pouco irritado quando ela me enviou
uma mensagem em resposta, mais pelo fato de que ela tinha sido tão formal
do que qualquer outra coisa, mas desde que eu passei pela escola para
contatá-la, eu não pude realmente a culpo por querer ter certeza de que a
linha entre nós fosse desenhada para qualquer um que pudesse ver seu
telefone. Essa foi provavelmente a razão pela qual ela não me ligou em
primeiro lugar.

Quando precisei sair para buscar Evanne, estava bastante confiante de


que o dia continuaria sendo um bom dia. A terça-feira repassou algumas
anotações de última hora comigo ao sair, e repassei as respostas para
qualquer coisa que minha equipe precisasse de confirmação. Depois do
lembrete de Da sobre os funcionários de qualidade no MIRI, eu confiei que
eles conseguiriam lidar com qualquer outra coisa que surgisse, o suficiente
para que eu dissesse a eles para não me enviarem mensagens, a menos que
o prédio estivesse pegando fogo.

Fingi não notar que terça-feira estava me olhando enquanto saía do


prédio com um sorriso. Não demorei muito para chegar à escola e, quando
entrei na fila, observei os carros à minha frente e atrás de mim, percebendo
pela primeira vez que meu carro não se destacava realmente da
multidão. Era único por causa do que era, mas não por causa de quanto
custava. Eu realmente não sabia o que pensar sobre Keli querer mandar
Evanne aqui, mas era bom saber que ela não se destacaria simplesmente
por ser quem era seu pai.

Não demorou muito para que fosse a minha vez, e Evanne estava
pulando para mim. Ela sentou no banco do passageiro em vez do banco de
trás desta vez. Ela ficou tão animada quando passou a regra de quatro pés
e oito polegadas de altura e foi capaz de andar sem uma cadeirinha, mas só
recentemente eu a deixei sentar na frente comigo. E então, foi com o assento
o mais afastado possível dos airbags.

As medidas necessárias para manter uma criança segura eram


aterrorizantes.

—Oi Papai.

—Olá, mo chride. Como foi a escola?

—Diversão! Jogamos hóquei no chão durante a aula de ginástica e


marquei três vezes.

Saí da zona de coleta e saí pelos portões da escola. —Isso é ótimo! E o


que você aprendeu na aula?

—Aprendi que a América não tinha búfalos.

—Realmente?

Evanne acenou com a cabeça. —Mmhmm! Positivo. A Sra. Browne


disse isso. Os búfalos estão apenas na África e na Ásia. A América
tem bisões, mas algumas pessoas os chamam de búfalos e fazem uma música
sobre eles, então agora todos pensam que bisões são búfalos.

—É assim mesmo? Eu não sabia disso. Acho que você deveria me contar
algo novo todos os dias.

—Ou a Sra. Browne poderia te dizer quando ela jantou conosco.

Eu não iria falar sobre isso antes de falar com Lumen. Talvez isso tenha
me tornado um pouco covarde, mas mudei de assunto. —Animado para o
caratê?

Seu rosto se iluminou. —Tão animado! Meu sensei sempre nos faz dar
voltas como treinamento.

Eu lancei a ela um olhar. —Você acompanha os outros?

Ela estreitou os olhos para mim. —Papai…

—O que? — Eu arregalei meus olhos e tentei parecer inocente. —Você


é rápido?

—Eu sou o garoto mais rápido da minha classe!

Eu não sabia que uma criança de oito anos poderia parecer


escandalizada.

— É você?

Ela revirou os olhos. —Sim! Você está sendo bobo.

Eu balancei minha cabeça. —Eu não.

—Uh huh.

—Nuh-uh.

Logo, ela estava rindo. —Você está engraçado hoje, papai.

Eu mostrei minha língua, fazendo uma cara engraçada, esperando por


outra bela risada. —Não sou sempre engraçado?

—Não. Você geralmente fica quieto.


Sempre fui um garoto quieto, o sério. Responsável, trabalhador, todas
as coisas que me fizeram um bom empresário. Evanne era o oposto, então
não foi surpresa que ela pensasse que eu estava quieto. Algo sobre ela
pensar isso sobre mim, no entanto, me incomodou. Eu não queria que sérios
e quietos se transformassem em ela pensando que eu não estava aberto para
ela.

—Bem, — considerei minhas palavras com cuidado, —gosto de passar


muito tempo na minha cabeça. Mas prometo trabalhar mais para conversar
com você. Combinado?

Ela assentiu, sem saber o quanto do que eu disse levei a sério. Eu não
ia colocar isso nela, entretanto, então perguntei a ela mais sobre seu dia e
ainda estávamos conversando sobre isso quando chegamos em casa.

Eu preparei o jantar e ela vestiu o uniforme do caratê, depois desceu


para fazer o dever de casa enquanto esperávamos nossa comida
cozinhar. Até hoje, eu estava preocupada em não ser capaz de acompanhar
as atividades extracurriculares de Evanne, mas depois da minha conversa
com Da, percebi que ainda não havia aceitado totalmente meu novo
papel. Uma função que exigia que eu desse uma outra olhada nas minhas
prioridades.

Eu nunca me considerei um maníaco por controle, mas estava claro que


eu não tinha dado ao meu povo a chance de provar que merecia. Eu não
estava fugindo de minhas responsabilidades. Eu estava apenas
reordenando-os. Meus funcionários me dariam liberdade para fazer isso.

Depois de deixar Evanne no caratê, fui em direção à Escola Kurt


Wright, finalmente me permitindo pensar no que aconteceria a seguir, qual
seria a resposta de Lumen ao que eu tinha a dizer.

Ela estava sentada em sua mesa quando cheguei à sala de aula, e a


primeira coisa que notei foi que ela ainda estava usando as roupas da minha
irmã. Então percebi como isso era estúpido, porque é claro que ela não teria
ido para casa, mudado e depois voltado aqui apenas para me encontrar.

Eu bati na porta dela.


—Entre, — ela disse. Sua expressão estava tensa, embora ela
sorrisse. —Você gostaria de se sentar?

—Por que não vamos a um café em vez disso? — Eu perguntei. —


Mantenha conversas relacionadas à escola aqui. Como isso soa?

—Isso faz sentido, — disse ela. Seus olhos dispararam por cima do meu
ombro. —Eu vou... só um momento para pegar minhas coisas. Eu posso te
encontrar lá fora.

Fiquei feliz em esperar, mas talvez ela não quisesse ser vista comigo
nos corredores. Algo nela parecia errado, mas ela não estava me pedindo
para ir embora, ou insistindo para ficarmos, então eu coloquei minha
curiosidade de lado e concordei em esperar no meu carro.

Um minuto ou mais depois, ela se juntou a mim. Ela me deu outro


daqueles sorrisos tensos e me agradeceu por abrir a porta do carro, mas não
disse mais nada enquanto nos dirigíamos para um pequeno café não muito
longe da escola. Assim que nos acomodamos em uma mesa no canto próximo
à janela, pedimos nossos cafés.

Eu abri minha boca para dizer a ela tudo que eu estive pensando desde
a última vez que a vi, mas então percebi que suas mãos estavam
pressionando a mesa com força suficiente para fazer seus dedos
embranquecerem.

—Você está bem, moça?

Ela balançou a cabeça e não encontrou meus olhos. —Era você quem
queria conversar.

Eu não tinha imaginado isso antes. Algo estava errado. Como ela
passou de me preparar o café da manhã para... isso?

—Tudo bem, — disse eu, —tenho pensado muito sobre como temos
estado nos últimos dias...
O garçom se aproximou e colocou nossas bebidas na nossa frente. Ela
imediatamente o pegou em suas mãos, parecendo grata por ter algo para se
segurar fisicamente.

Continuei enquanto o garçom se afastava: —Nunca esperei que isso


durasse tanto. Com toda a franqueza, nunca pensei que veria você
novamente depois de nossa noite no hotel.

—Nem eu, — disse ela em voz baixa. Ela olhou para o vapor subindo de
sua xícara.

—Eu amei cada segundo disso.

Finalmente, ela ergueu o olhar para encontrar o meu.

Eu sorri, mas foi hesitante. —Espero não estar sozinho nesse


sentimento.

Seus olhos se arregalaram, a luz esperançosa neles torcendo algo em


mim.

—Você não está, — ela sussurrou.

O alívio me inundou. Estendi a mão e levantei suas mãos longe da


caneca e as segurei. —Eu sei que nós dois concordamos que as coisas
fossem divertidas, e talvez ainda seja o que você quer, mas estou feliz por
ter você em minha vida. Mais do que apenas como professora de Evanne,
quero dizer. — Eu apertei seus dedos. —Eu quero fazer isso funcionar.

—O que... o que isso significa? — Perguntou Lumen. —Fazer o que


funcionar?

—Nós, — eu disse. A palavra não me sufocou e o medo não me fez


desmaiar, então continuei. —Como em um relacionamento real. Não noites
espontâneas que juramos que não acontecerão novamente. Eu quero fazer
isso direito, moça. Vá um pouco mais devagar. Conhecer um ao outro. Veja
se o que temos pode existir fora do quarto.

Eu disse minha parte e agora parei para deixá-la processar e responder.


—Seria difícil, — ela disse finalmente.

Tive a sensação de que sabia o que ela estava pensando. —Seu trabalho
ficaria bem?

—Eu... eu não sei. Não é contra nenhuma regra específica. É apenas…

—Sim. Mas nos conhecemos antes de qualquer um de nós saber que


você era o professor de Evanne. Este não é um fetiche estranho por
professor.

Ela soltou uma risada surpresa. Esfreguei seus dedos com os dedos,
sorrindo por ser capaz de fazê-la rir.

—Não precisamos que isso seja nada além de uma decisão de deixar
isso passar, — eu disse mais seriamente. —Basta dizer a palavra e–

—Eu quero, — disse ela, com as bochechas corando. —Eu... eu quero


tentar.

—Vamos começar agora.

Ela inclinou a cabeça. —Começar o que agora?

Eu soltei suas mãos e peguei meu café ainda intocado. —Fale-me sobre
você. Algo que eu deveria saber sobre você. — Tomei um gole de café
enquanto ela se recompunha.

—Uau. Hum, essa é uma grande questão. — Ela deu uma risadinha. —
Deixe-me ver. Uh, meu aniversário é dia trinta de maio?

Guardei esse conhecimento para referência futura. —O quê mais?

—Bem, eu… eu fui para a Seattle Pacific University. Hum, foi logo após
o colégio como uma admissão antecipada. Bolsa integral. — Ela ergueu a
caneca. —Vá comigo.

—Saúde, moça. — Eu bati minha caneca contra a dela. —E a sua


infância?
Seu sorriso se achatou, e eu imediatamente desejei poder retirar essa
pergunta.

—Digamos que eu não tive exatamente uma... vida perfeita quando


criança.

Eu fiz uma careta. —Você não precisa-

—Não, está tudo bem. Você também pode saber. — Ela respirou fundo
e endireitou os ombros. —Meus pais... bem, meu pai... ele bebeu. E minha
mãe estava clinicamente deprimida.

Merda. —Lumen, eu-

—Está tudo bem, Alec. — Ela tinha uma expressão quase resignada no
rosto. —Realmente. Não os via nem falo com eles desde criança. Não me
lembro muito. Tive que aprender a cuidar de mim mesma. Mas não o
suficiente, aparentemente. Em janeiro depois de fazer sete anos, fui para a
escola sem casaco. Era o primeiro dia após as férias de Natal, minha mãe
estava passando por um momento muito difícil, e meu pai ainda estava
lidando com ressacas de férias, e eles não perceberam. Mas meus
professores notaram. Eles ligaram para os serviços infantis e, antes que eu
percebesse, meus pais haviam assinado todos os direitos e saído da minha
vida.

Foda-se.

Ela tomou um gole de sua caneca. Toquei sua mão novamente para
mostrar apoio, mas não disse nada. Tive a sensação de que ela não tinha
acabado.

—Depois disso, — ela continuou, —eu estava entrando e saindo de lares


adotivos e lares de grupo na próxima década. É um sistema tão
falho. Apesar de todas as entrevistas e verificações de antecedentes, minhas
famílias adotivas nunca foram muito melhores do que minha família real. E
eles nunca me mantiveram por muito tempo. Era como se eles estivessem
me alugando. — Ela balançou a cabeça, olhando para sua bebida. —Eles
nunca me machucaram nem nada, mas... foi difícil.
Eu não esperava isso quando fiz a pergunta. Eu automaticamente
pensei que minha própria infância teria a história mais triste.

—Eu envelheci aos dezoito anos, mas meu último lar coletivo não foi
tão ruim. Eu ainda sou voluntário lá, na verdade.

—Sim? Mesmo agora, enquanto você está ensinando?

—Mesmo agora, — ela disse. —Sempre.

—Você é uma garota incrível. Nenhuma dúvida sobre isso.

Ela encolheu os ombros, claramente envergonhada.

—Quero dizer. Apoio várias instituições de caridade, mas


principalmente apenas com dinheiro. Você realmente usa seu tempo e
cuidado. Isso está acima e além.

—O dinheiro é provavelmente mais importante para eles, — ela riu, —


mas obrigada, Alec. Você sabe muito sobre isso. Eu trabalhei meu caminho
até a formatura na casa de massagens de propriedade da minha colega de
quarto, me formei no ano passado e consegui meu primeiro emprego de
professora na Kurt Wright.

Quem diria que uma pergunta simples geraria essa história?

—Agora, me fale sobre você, — disse ela. —Sr. Grande tiro.

Eu ri. —Sr. Grande tiro?

—Eu tenho autoridade para dizer, e com isso quero dizer minha colega
de quarto Mai, que você é de uma das famílias mais ricas de Seattle ou algo
assim.

Minhas bochechas queimaram e eu contornei a verdade. —Minha


família não é de Seattle, mas nossa empresa tem sua sede americana
aqui. Quando meu pai se aposentou, eu assumi.

Lumen me mostrou suas covinhas. —Considere meu interesse


despertado. Qual é a sua história de origem?
Recostei-me na cadeira. —Eu não tenho muito de um. Eu não luto
contra o crime, para começar.

—Vamos. Eu te disse o meu. Agora é sua vez.

—Acho que já disse que nasci em Edimburgo, mas fui criado na


Califórnia. San Ramon para ser específico.

—Por que você se mudou?

Tomei um gole do meu café para me dar um momento. —Minha, uh,


minha mãe morreu de embolia pulmonar quando eu tinha oito anos e-

—Ah Merda. — Ela parecia horrorizada. —Eu sinto muito. Eu não


deveria ter pressionado você.

—Não, moça, está tudo bem. Tenho saudades dela, claro, mas já faz
muito tempo. A dor é... diferente agora.

Lumen franziu a testa. —Espere, eu conheci sua... a mulher com


Evanne na visitação pública...?

—Meu pai se casou novamente cerca de um ano depois. Uma mulher


chamada Theresa Carideo que ele conheceu em San Jose. Ela era viúva e
morava em San Jose com seus quatro filhos. Austin, Roma, Paris e Aspen.

—E eles não queriam se mudar para a Escócia?

Eu balancei minha cabeça. —Meu pai estava em San Jose procurando


possíveis localizações para uma filial americana do MIRI. Quando ele
encontrou uma propriedade em San Ramon, ele decidiu que seria melhor
empacotar meus irmãos e eu, trazer-nos aqui.

—Quantos?

—Cinco.

— Cinco irmãos?

Eu ri da surpresa em seu rosto. —Quatro irmãos, uma irmã. Todos


mais jovens. Brody e gêmeos, Carson e Cody junto com Eoin e Maggie.
Ela olhou para suas roupas. —Esses são de Maggie?

—Sim.

—Então, com os filhos de Theresa, vocês são dez. Essa é uma grande
família.

—E nós não terminamos, — eu disse. —Theresa e Da tiveram três


filhos próprios. Sean e Xander, outro casal de gêmeos e nossa irmã mais
nova, London.

Seus olhos ficavam cada vez maiores. —Puta merda. Treze da sorte.

—Três anos depois que Theresa e papai se casaram, seu irmão e sua
cunhada morreram em um acidente de carro e seus três filhos vieram morar
conosco também. Blaze, Fury e Rose.

Lumen recostou-se na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. —Você


está brincando comigo.

—Eu te dou minha palavra, bhan mo nighean.

—O que você disse que isso significava de novo? — ela perguntou, as


bochechas ficando naquele adorável tom de rosa. —Você me chamou assim
durante... antes.

—Minha garota de cabelos louros.

Seus lindos olhos praticamente brilhavam. —Oh.

Nós dois tomamos grandes goles de nossos respectivos drinques e então


continuei: —De qualquer forma, voltei para a Escócia depois do colegial para
obter meu diploma em Administração na Universidade de Glasgow. Assumi
a sede da MIRI em Edimburgo por um tempo e trouxe muitos novos
negócios. Após cerca de dois anos, tínhamos negócios suficientes na América
para abrir um novo escritório aqui em Seattle. Meu pai queria se aposentar,
então mudamos a sede de San Ramon para Seattle e deixamos San Ramon
se tornar nosso escritório secundário.

—E a Evanne?
Eu concordei. —Pouco depois de me mudar para Seattle, comecei a
namorar uma mulher chamada Keli. Ela tinha dezenove anos e estava na
faculdade. Estávamos juntos há apenas alguns meses quando ela
engravidou. Não fomos tão cuidadosos quanto deveríamos. Tentamos
resistir, mas quando Evanne nasceu, percebemos que não ia funcionar entre
nós. Até pouco antes do início das aulas, Keli tinha a custódia primária e eu
tinha Evanne em todos os fins de semana e feriados que combinávamos
entre nós duas.

Lumen não disse nada, mas seu aceno lento e a falta de resposta
indicaram que ela queria fazer a pergunta óbvia, mas não achava que fosse
problema dela. Eu vim até aqui e ela compartilhou muito comigo. Não doeu
contar mais a ela.

—Keli se mudou para a Itália com o namorado, — eu disse. —Ela não


achou que seria justo levar Evanne para um novo país com um novo idioma,
então ela trouxe Evanne aqui para o que deveria ser um fim de semana
normal e me deu a papelada da mudança de custódia. Tem sido um curso
intensivo de paternidade em tempo integral.

—Você está fazendo um ótimo trabalho, — disse Lumen, sorrindo.

Eu tinha certeza de que ela estava apenas sendo educada, mas algo em
suas palavras me atingiu. Eu estava tão preocupada em cuidar
adequadamente da minha filha que não tinha percebido que precisava de
alguém para me dizer que eu estava bem. Ela colocou a mão na
minha. Quando olhei para a mão dela, pude ver meu relógio. Estava quase
na hora de pegar Evanne no caratê. Eu mal podia acreditar como o tempo
tinha passado rápido.

—O que você vai fazer na sexta? — Eu perguntei.

—Não agendei nenhum voluntariado nem nada. A menos que esteja


esquecendo algo, estou livre.

—Você vai jantar e assistir a um filme comigo e com Evanne?


—Vocês são uma espécie de pacote, hein? — A maneira como ela disse
isso me disse que ela não pensava nisso como uma coisa ruim.

—Temo que sim, — eu disse com um sorriso.

—Estou feliz, — disse ela com sinceridade. —E sim, eu ficaria feliz.

Dei um suspiro de alívio. Antes de pegar Lumen, eu não sabia se ela


iria querer me ver novamente depois de hoje. Agora que ela concordou em
ver onde as coisas estavam conosco, era hora de descobrir se o risco que
estávamos correndo valia a pena.
TRINTA E UM

SURREAL FOI PROVAVELMENTE a melhor palavra para descrever como


me senti caminhando até a porta de Alec. O fato de eu estar carregando as
roupas recém-lavadas de sua irmã não ajudou muito a dissipar a
sensação. Depois de jantar - e tomar café da manhã - com Alec e Evanne
antes, isso não deveria ter sido estranho. Ou talvez fosse estranho porque,
mesmo depois do tempo que passei com eles e as noites que fiz sexo com Alec,
esta noite era nosso primeiro encontro oficial.

—Estou fazendo uma pizza caseira, — disse Alec enquanto eu seguia


Evanne para a sala de estar. Ele pegou a sacola de roupas e a colocou de
lado.

Então ele se inclinou e me beijou, um beijo casto, mas público.

—Vá, pai! — Evanne aplaudiu, fazendo nós dois corarmos quando nos
separamos.

Apesar de sua brevidade, o beijo enviou borboletas girando em meu


estômago. O sorriso de Alec quando ele se afastou apenas os fez bater com
mais força.

Isso estava realmente acontecendo.

Depois do tempo que passei me lembrando de que Alec e eu tínhamos


concordado em nada além de uma noite “divertida”, aqui estávamos. Jantar
e um filme em sua casa com sua filha sabendo que eu não estava aqui como
professora dela, mas como namorada de seu pai. Quase não pude acreditar.

Alec franziu a testa. —Eu esqueci de perguntar se pizza estava tudo


bem com você. O pequenino comeria em todas as refeições se eu deixasse.

—Pizza! — Evanne aplaudiu.


Eu sorri, tão entretido com a revelação de Alec quanto com o
entusiasmo de Evanne. —Pizza é maravilhosa, especialmente quando é
caseira.

A expressão de alívio no rosto de Alec enviou uma explosão de calor por


mim. Por mais controlado e confiante que ele parecesse, a vulnerabilidade
que eu vislumbrei quando ele compartilhou sobre sua família no outro dia
ainda estava lá, logo abaixo da superfície. Tive a sensação de que não era
algo que a maioria das pessoas veria.

Evanne sentou-se no chão em frente a uma mesa baixa, uma pilha de


cadernos e papéis ao lado dela. Ela tirou as roupas da escola e vestiu jeans
e uma camiseta da Disney’s Brave. Presumi que Alec tinha mudado depois
do trabalho também, já que agora ele usava um bom jeans e uma camisa de
mangas compridas azul escuro, ambos os quais o faziam parecer ainda mais
delicioso do que o normal. Uma calça cinza-cinza confortável e meu suéter
preto ajustado favorito pareciam a melhor escolha de roupa, e eu vi agora
que meus instintos estavam corretos.

—Trabalhando duro? — Eu perguntei, sem saber se eu deveria ficar


aqui com ela ou ir para outro lugar.

—Sempre, — ela disse. —Estou quase terminando, e então podemos


assistir Brave. É o meu favorito!

—Boa escolha, — eu disse.

Ela retribuiu meu sorriso e voltou ao trabalho. Alec tocou meu braço,
sorrindo enquanto fazia sinal para que eu o seguisse até a cozinha. No
momento em que saímos da linha de visão de Evanne, ele me puxou para
perto e me beijou novamente, este completo e persistente. Quente o
suficiente para queimar, o beijo me deixou sem fôlego e com os joelhos fracos.

—É bom ver você também, — eu sussurrei enquanto me inclinei para


ele, em parte porque eu não confiava em minhas pernas para me segurar,
mas também porque eu não queria deixá-lo ir.

—Eu não pude resistir, mhurninn. — Ele roçou os lábios nos meus.
—O que isso significa?

Ele enrubesceu. — Minha querida.

—É doce de qualquer maneira, — eu disse, meus dedos do pé enrolando


com as palavras, —mas eu prefiro a maneira como você diz.

Ele abaixou a cabeça para me beijar novamente quando Evanne nos


interrompeu ligando da sala de estar: —A pizza está quase pronta?

Nós dois rimos quando nos afastamos, os rostos corados. Seria muito
fácil nos perdermos um no outro.

—Em breve, — Alec gritou de volta. —Quanto trabalho você ainda tem?

—Meia página de matemática, — respondeu Evanne.

—Devemos estar prontos na mesma hora que você terminar, mo chride.


— Ele olhou para mim e respondeu minha pergunta não feita. —Meu
coração.

Essa foi a coisa mais doce que eu já ouvi sobre um pai ligando para o
filho, mas eu tinha a sensação de que iria envergonhar Alec se eu dissesse
isso, então mantive minha observação para mim mesma.

Quando terminamos de pegar o que precisávamos para a refeição, Alec


me disse que tinha conversado com Evanne sobre nós, e que ela entendeu
que não deveria falar sobre nosso relacionamento até que disséssemos que
estava tudo bem. O peso que tirou dos meus ombros me permitiu relaxar
enquanto Alec e eu estabelecíamos nosso encontro.

Depois de tirar as coisas de Evanne da mesa, trouxemos a comida e nos


sentamos no sofá em frente à TV com Evanne entre nós. Pizza com uma
criança da terceira série enquanto assistíamos a um filme infantil estava
longe de ser o tipo de jantar romântico que uma mulher poderia querer, mas
gostei do fato de que ele não estava tentando me dar uma versão de conto
de fadas de sua vida.

Era mais como se eu tivesse entrado em sua vida real, como se tivesse
me tornado parte de sua vida. Uma parte de sua família. Eu sabia que ele
disse que queria levar as coisas devagar, mas não pude deixar de sentir que
não estávamos realmente começando do início.

A sensação surreal que tive quando cheguei não foi embora, mas
continuou. Alec e eu sorrimos furtivamente um para o outro ao longo do
filme, rindo quando um de nós não conseguia cortar um fio de queijo entre
nossas bocas e nossa pizza. Evanne ficou nos calando porque o filme estava
“chegando à parte boa” que, de acordo com ela, era cerca de noventa e cinco
por cento do filme.

Eu não a culpo. Foi um filme incrível.

Ela já estava cochilando quando os créditos começaram. Alec a


carregou até seu quarto e eu a segui. Como eu tinha feito antes, li para ela
uma história de ninar, retomada de nossa última leitura de Charlotte’s Web,
enquanto Alec descia as escadas e cuidava da louça. Assim que Evanne
adormeceu, voltei para a sala de estar onde Alec esperava com uma garrafa
de vinho pronta e um novo filme alinhado na TV. Algo não animado desta
vez.

—Você quer ficar um pouco mais? — ele perguntou, entregando-me um


copo.

—Eu poderia ser persuadida. — Eu sorri enquanto pegava o copo.

Por mais que eu tenha gostado de passar o tempo com os dois, foi bom
sentar no sofá sem um filho de oito anos nos separando. Eu me inclinei
contra Alec e tomei um gole do meu vinho, apreciando a sensação de seus
dedos brincando com meu cabelo. Nenhum de nós prestou muita atenção ao
filme, para ser honesto. Nós dois estávamos muito ocupados rindo e dando
beijos casuais e toques gentis. Carícias suaves que não iam para os lugares
que eu mais queria em suas mãos.

Eu não sabia o quão lento ele queria levar as coisas, exatamente, mas
eu esperava que não fosse muito lento. Agora que eu tinha uma amostra do
que poderia ter com ele, tive a sensação de que poderia explodir se fôssemos
em um ritmo muito lento.
Gradualmente, a garrafa de vinho foi drenada enquanto
continuávamos enchendo nossos copos. Quanto mais bebíamos, mais nossos
beijos duravam. Quanto mais nossos toques se moviam de território
seguro. Quanto mais aquecido o ar entre nós. Quanto mais gemidos nossa
risada se tornava.

Logo, paramos de fingir que estávamos assistindo ao filme. Nossos


lábios se moveram em perfeita sincronia, se separaram e nossas línguas se
torceram juntas. Sua mão escorregou entre minhas coxas, as pontas dos
dedos traçando a costura da minha calça. Uma das minhas mãos caiu em
sua perna, deslizando até a protuberância atrás de seu zíper.

Ele praguejou quando dei um aperto suave, mas ele não se distraiu da
tarefa que se deu. Ele puxou a gola da minha camisa para o lado e se inclinou
para beijar meu queixo até minha clavícula. Um arrepio percorreu minha
espinha antes de seus dentes arranharem minha pele.

Eu gemi e fui recompensada por uma beliscada afiada. O som se


transformou em risada quando ele lambeu a mordida.

—Shh. — Alec continuou beijando meu pescoço até alcançar minha


boca novamente. —Vamos para a cama.

Minhas pernas estavam bambas, apesar da remoção da mão de Alec,


mas de alguma forma, nós dois tropeçamos em nosso caminho para o seu
quarto, nos beijando e apalpando o caminho todo, mal suprimindo nossas
risadas. Assim que passamos pela porta, nossas mãos ficaram gananciosas,
agarrando e puxando as roupas um do outro. Não demorou muito para nós
dois chegarmos a nossas roupas íntimas. Enquanto chutei minhas calças de
lado, inclinei-me contra a porta de seu quarto e o deixei dar uma olhada na
nova lingerie que comprei ontem. Eu nunca tive nada parecido antes, mas o
fogo azul nos olhos de Alec me disse que eu fiz a escolha certa com seda
escarlate.

—Como a porra de uma deusa, — ele respirou, movendo-se para se


banquetear no meu pescoço.
Eu estava feliz que era fim de semana e não teria que me preocupar em
esconder quaisquer hematomas que ele pudesse deixar. Corri minhas mãos
pelo seu torso. Se eu fosse uma deusa, ele era um deus. Com ou sem aquela
cueca preta justa.

Em algum ponto, nós dois perdemos nossas últimas roupas e caímos na


cama, apanhados em uma névoa de excitação. Cada toque enviou chamas
lambendo minha pele, cada beijo me excitando mais do que eu pensava ser
possível. Então ele deslizou pelo meu corpo, beijando uma trilha até meu
estômago e mais abaixo. Não foi até que ele abriu minhas coxas que percebi
o que ele iria fazer. Por mais que eu quisesse, eu queria algo mais.

—Espera.

Ele sentou-se sobre os calcanhares, os dedos acariciando minhas pernas


enquanto esperava que eu continuasse.

—Eu quero provar você também.

Seus olhos escureceram e uma mão apertou meu joelho. —Você quer
estar no topo?

—Eu acho que sim. Eu nunca…

Suas narinas dilataram-se. —Eu vou cuidar de você, moça.

Alguns momentos depois, estávamos em uma nova posição, com Alec


nas costas e eu por cima. Meus joelhos estavam de cada lado de sua cabeça,
suas mãos em meus quadris e eu me encontrei na posição perfeita para
finalmente ter um gostinho dele.

Eu gemi quando sua língua deslizou sobre meus lábios, mas eu não iria
me distrair. Eu me equilibrei com uma mão e agarrei seu pau com a outra. O
eixo grosso estava quente e duro, contraindo minha mão enquanto eu
lentamente o acariciava da base às pontas. Quando minha mão alcançou o
fundo novamente, inclinei-me e coloquei a cabeça de seu pênis em minha
boca. Os dedos de Alec cravaram em minha carne e ele gemeu, a vibração
enviando novas sensações por minha carne sensível.
Eu circulei a ponta com minha língua, então coloquei mais dele em
minha boca. Minha cabeça se moveu para cima e para baixo, avançando,
tirando o máximo possível antes de recuar. Enquanto sua língua esfregava
contra meu clitóris e mergulhava em meu núcleo, eu experimentei,
avaliando o que ele gostava por seus sons e linguagem corporal. Seus
quadris sacudiram, empurrando-o um pouco mais fundo, mesmo enquanto
ele chupava meu clitóris, e então eu estava gozando, meus gritos abafados
por seu pau.

Uma dor aguda percorreu meu couro cabeludo quando ele agarrou meu
cabelo e me puxou para cima. Fiquei de joelhos, curvando-me para trás,
mesmo enquanto sua boca me mantinha no clímax. Eu me contorci, incapaz
de me impedir de me contorcer, montando em seu rosto até que eu implorei
para ele parar.

Minha visão escureceu, e então eu estava de costas, os músculos


tremendo. Alec pairou sobre mim, beijando levemente o canto da minha boca
antes de levantar sua cabeça para que seu olhar pudesse encontrar o meu.

—Tudo bem, moça? — Sua voz era áspera, seus olhos escuros.

Eu balancei a cabeça, não muito confiando em mim para falar.

—Mais?

Eu balancei a cabeça novamente, a boca abrindo em um grito silencioso


enquanto ele se enterrava dentro de mim com um impulso suave.

Porra!

Eu estava muito cheio, muito rápido, mas não teria feito de outra
maneira. Ele pressionou seu rosto contra meu pescoço, murmurando
palavras que eu não reconheci, em um tom que eu reconheci. Passei meus
braços em volta do seu pescoço, balançando meus quadris contra os dele. Ele
respondeu, os dentes roçando minha garganta enquanto ele se movia dentro
de mim.

Encontramos nossa dança rapidamente, chegando junto com uma


urgência que só nos fazia mover mais rápido, aproximar nossos corpos com
mais força. Nos perdemos um no outro. Separam-se tão completamente que
não sabíamos onde um de nós terminava e o outro começava.

Quando finalmente voltei a mim mesma, estava nos braços de Alec,


minhas costas contra seu peito, seus lábios no meu ombro.

—Não foi exatamente lento, foi? — Eu disse, correndo meus dedos sobre
seu antebraço.

—Não, não foi, — ele concordou. —Você se arrepende?

Eu nem preciso pensar sobre isso. —Não, eu não.

Senti a tensão deixar seu corpo e então ele beijou o espaço atrás da
minha orelha.

—Você se oporia a eu te dar um presente?

Eu me virei até poder vê-lo. —Um presente?

O que um homem como ele deu de presente?

—Uma chave. — Ele afastou alguns fios de cabelo do meu rosto. —Uma
chave da casa, para que você possa entrar e sair quando quiser.

Definitivamente, não estava se movendo devagar.

Mas não duvidei por um segundo que era o que eu queria.

—Eu adorei seu presente.

A história de Alec e Lumen continua em Breaking Rules (The Scottish


Billionaire Book 2)