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Assassinos de Anúbis
Everton Gullar
ASIN: B07YYW6T92
ISBN: 978-65-00-04319-8
Assassinos de Anúbis é uma obra
literário intelectual escrita por Everton
Gullar.
Todos direitos reservados ao autor.
Capa e Arte: Quadros Carvalho
Revisão: Soledad Abrachia

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Perco muito tempo durante os dias me
perguntando se estou fazendo a coisa certa, se no
final de tudo não me arrependerei.

Parte I
Tomate-cereja

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As pessoas sentadas ali, nas cadeiras da fila de espera parecem
patéticas, estão na fila da morte e, mesmo assim, tentam fazer de
suas restantes centelhas de vida algo grandioso, de muito
sucesso.
Somos todos, vítimas de células mutantes que
resolveram comer nossos órgãos a serviço de seu dom.
Morreremos dentro de 2 ou 6 meses e não precisamos mais lutar,
nem encher o tanque do carro com gasolina aditivada, nem votar
ou comer arroz parboilizado. É o fim, a morte coletiva, tudo é
questão de tempo.
E mesmo estando cientes, querem fingir que tudo
prosseguirá bem, que verão seus netos crescendo, formando-se e
fingindo desconhecê-los em algum momento, na rua. Precisam
abrir suas carteiras e mostrar as fotos de parentes, uns para os
outros. Por isso fico em silêncio, sentado sozinho na última
fileira de cadeiras. Prefiro abstenção do que fazer novos amigos
e curtir minha sentença de morte sozinho e calado.
Estar sentado é como esperar ir para a forca, cadeira
elétrica ou eutanásia. Todos próximos da morte e isso, para eles,
está errado e farão qualquer coisa para evitar, mas eu não lutarei
contra meu destino. Meu tempo fora estipulado e os pequenos
bichinhos putrificam meu corpo lentamente, só resta esperar.
Não temo a morte e remoer meus impuros pensamentos
de nada adiantará. Um princípio de desespero cresce no meu
coração e confecciona calafrios no meu estômago, sinto que sou
impotente e arrependido de ter levado uma vida tão patética,
como essas pessoas que esperam sua sentença de morte como
irmãos.

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Na fila da morte, cada um a encara do seu jeito e, na
maioria das vezes, não são, nada discretos. A senhora gorda que
ri com/de todas as pessoas, procurando ser simpática, mas seu
riso alto e estridente embargado com muito desespero a entrega.
Outra senhora de cabelos vermelhos pede ajuda pela décima vez
no guichê de informações, atrapalhando o bom andamento dos
atendimentos. O senhor de bigode fala 45 minutos ininterruptos
no celular e todos na sala, munidos do dom da escuta, sabem
tudo de sua vida e de como sofre trabalhando muito e sentindo
solidão. O senhor de botas de couro e cabelos brancos, de olhar
taciturno e desesperado, permaneceu calado até o momento que
alguém o pediu “será que chove hoje?” e assim pode tecer toda a
sua teoria meteorológica de homem vivido.
E os minutos passam na minha cadeira de morte, como
qualquer outra repartição sou tratado como um animal, sem
compromissos, plenamente disposto a ficar 2 horas sentado
numa cadeira, esperando que eles decidam me chamar. O que
demora a acontecer.

A moça, assistente do diabo, ou coisa semelhante, me


leva por um corredor cheio de portas até pararmos na frente da
porta do senhor das sentenças.
Paramos, ela diz “pode entrar”. Entro sem bater,
encarando a porta de meu destino, e à minha espera está o diabo,
sentado, todo de branco, na sua cadeira reclinável. Apenas um
velho simpático que calça bons sapatos de couro.
Sorri de leve como minha mãe sorria quanto precisava
dar notícias ruins e chocantes.
“Bom dia” falo, “bom dia” responde, sento sem pedir
permissão, jogo em cima da sua mesa o punhado de papéis que
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trouxe comigo que, ao cair, faz barulho. Pesado por causa das
lâminas de Raio-X.
“Senhor Sáfir! É bom revê-lo. Exames prontos, vamos
ver os resultados”. Diz com a voz mais embutida que já escutei
na vida. É um homem detestável.
Rasga o lacre e trata aquilo com esmero, lê o pequeno
texto anexo, coloca as lâminas contra a luz da janela, lê
novamente o texto, a mão esquerda embaixo do queixo, os
óculos sujos de bafo. Olha mais uma vez e não diz nada. Meu
coração começa a acelerar, penso em esganá-lo e a tapas tirar de
dentro de sua garganta as palavras. Dê logo minha sentença, seu
velho maluco – quero saber toda a verdade.
Aquele homem sentado ali, semimorto, formado em
medicina e especializado em oncologia, chamado de doutor sem
nunca ter feito doutorado, com remuneração não inferior a vinte
mil reais mensais, provoca náusea. Aquele estilo axiomático
com o colarinho engomado, dentes perfeitos, é meloso demais.
Um bom homem que recebe seus honorários e o mais perto que
chegou de ajudar o próximo foi um dia doar suas roupas bregas
de uma década passada para a caridade.
“Bom, senhor Sáfir”, prossegue, “como conversamos nas
suas consultas passadas, a situação não é tão boa assim, mas
autorizando a intervenção cirúrgica, em poucas semanas
podemos solucionar seu probleminha”.
Probleminha? Neoplasia pulmonar não é um
probleminha e sim um ponto final. É o começo do fim, a curva
do desastre, o precipício enfrentado de bicicleta, é nadar num
lago congelado.
“Quais são minhas chances?” Pergunto.

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“Precisamos fazer um exame mais detalhado para saber
qual tipo de procedimento melhor se aplica ao seu caso.
Pneumotomia, Lobectomia ou Segmentectomia. Somente depois
posso dizer suas chances. Você desenvolveu a doença em estágio
IIA, e não é o mais grave. Iniciando o tratamento o mais rápido
possível, tem muita chance de cura.”
“Quanto de chance doutor?”
“Trinta por cento.”
“E sem tratamento?”
A sua cara patética transformou-se em amedrontamento,
o surpreendi. Aquelas pessoas do lado de fora querendo
consumir sua pedra filosofal, comprar sua cura, e eu sem querer
reparar os danos, sem advogado, sem julgamento, apenas um
criminoso querendo e merecendo a morte. Sim, agora quer abrir
meu corpo como fosse dissecar os órgãos de um animal abatido,
bem depois dele receitar intermináveis quimioterapias que
faziam a vida parecer um lixo, vilipendiado, desgraçado, um
burgo masoquista.
“Não tenho certeza”, ele responde.
“Não sabe?! Você não sabe, seu patrício talhado a bons
modos! Você sabe e sempre soube. Só que prefere ficar aí
brincando de Deus com as pessoas em vez de falar a verdade.
Brincando de ventríloquo comigo, me tratando como seu
prisioneiro cigano de Auschwitz. Quanto tempo?” Grito.
“Não tenho certeza, senhor Sáfir. Por favor fique calmo,
do contrário chamarei a segurança. Talvez 3 meses sem
tratamento, talvez menos”.
“Muito bem. Seu babaca. Patético!” Levanto. Ele

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encolhe de medo na sua cadeira reclinável “ficou bem melhor
assim. Obrigado por me sentenciar e para comemorar meus 3
últimos meses de vida, vou descer e caminhar até o próximo bar
para comprar uma carteira de cigarros.” Saio batendo a porta,
feliz porque morrerei.

Às vezes a única coisa a ser feita é correr até os pulmões


não conseguirem mais vencer o corpo. Quando tem apenas uma
bala no rifle a solução é esperar, e esperar ainda mais, e quando
você não conseguir caçar alguma coisa, precisa esperar até que a
melhor ideia seja usar a última bala em você, fazendo-a
atravessar suas têmporas. Foi o que decidi fazer. Não gastarei
minha última bala numa coisa incerta. Não quero dormir esses 3
meses, nem viver como um arbusto seco rolando com o vento
pelo deserto.
O que eu sou? Que merda é essa coisa que sou? Esses
cabelos brancos anunciando minhas quase três décadas de vida.
Meu coração partido em mil pedaços.
Esses pulmões fumantes durante metade da minha
existência me deixaram assim, demente, com fúria. Como
expulsar algo do seu corpo que é intruso como um anjo?
No caminho, uma garrafa cai na rua e rola sem destino,
seu combustível é o vento, ninguém a junta e isso simboliza o
que o próprio homem criou. A indecente ética. Decido não fazer
mais perguntas, deixo o restante a cargo de Neruda. Mentiroso,
descubro que decido fazer a última pergunta. Saciar minha
dúvida. O que fazer com meus últimos 3 meses?
Paro no primeiro bar, compro um maço de cigarros, custa
sete reais com setenta e cinco centavos, o preço é de morrer, não
é surpresa que seja um cavalheiro da morte tão potente. Acendo-
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o e o trago com prazer, a nicotina invade o que sobrou dos meus
pulmões me alagando de prazer. Eles têm fome e a fumaça é seu
pasto. Acabo um cigarro, acendo outro. Tenho vontade louca de
tossir, meus pulmões parecem explodir, seguro o catarro, “não
provoque alarde” digo aos meus pulmões.
Olho meu reflexo no espelho que fica logo acima das
garrafas de bebidas atrás do barman, meu rosto está pálido,
olheiras roxas, meu cabelo cresceu, mas não o suficiente para
não me fazer parecer um milico doente. Deixa estar, em três
meses farei um corte digno de um homem esperando a morte.
Quero meu cabelo novamente.
Sinto meu celular vibrando no bolso, tiro-o de lá, o visor
anuncia Juliana.
Juliana foi minha esposa num passado recente, fomos
casados por 5 anos. Bem verdade é que fui muito feliz naquela
época, me sentia vivo, seu corpo era meu refúgio, seu prazer
meu alívio. Foi um belo tempo. Nos primeiros anos vivemos
intensamente a paixão e as necessidades eram combustível para
nosso amor. Depois disso algo se perdeu como num bolo sem
fermento. As dificuldades já não eram enfrentadas com
esperança e brigamos com a realidade por muito tempo, até ela
achar mais produtivo para sua carreira manter um
relacionamento extraconjugal com seu chefe, também casado, e
engravidar dele. E num dia cinza ela partiu sem olhar para trás.
Certamente a secretária do doutor ligou para ela
contando minha saída triunfal, sem dar satisfação. Juliana não
tem nada a ver com minha vida presente, contudo, depois que
perdi meus pais, passou a ficar preocupada comigo. Quando tive
minha primeira crise respiratória, antes de ficar inconsciente, foi
para ela que liguei, e depois disto me acompanhou por todo o
tratamento. Tem uma espécie de dívida moral comigo, para ela a
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doença sempre foi sua culpa. Decido não atender e rejeito a
chamada.
Definitivamente não quero mais essa mulher de corpo
maravilhoso perto de mim, com sua bunda perfeita, seios firmes,
rosto jovem, com seus 26 anos. Destruiu minha vida, todos meus
sonhos, minhas inspirações, meus argumentos, minhas falhas. A
última coisa que desejo é fazer sexo com Juliana, o que é
provável que aconteça, sabendo do meu estado ela pode fazer
por pena, não por prazer. Isso torna nossa relação ainda mais
deprimente.
O ar úmido entrando pela porta deixa minha respiração
ainda mais difícil, a solução, como sempre, é beber um pouco.
Desobstruir a entrada de ar com algo quente.
Na rua os carros parecem andar mais rápido, mas não
está chovendo, bem que seria interessante, mas não está. Peço ao
barman um Cuba Libre, beberei em homenagem a Guevara.
Fico imaginando o que seria mais aprazível de fazer em 90 dias.
Ir à praia, talvez ir a serra, ficar na cidade, talvez morar nas ruas
e diminuir pela metade minha previsão de vida. Preciso pensar
em algo útil para o resto da minha existência inútil.

Saio do bar cambaleando, meu corpo debilitado não


resiste mais a duas Cubas e três ou quatro cigarros, pareço um
menino inexperiente, com medo de levar bronca dos pais ao
chegar embriagado em casa. Então reparo onde estou, muito
longe da minha rua, com dificuldade para respirar e vinte reais
no bolso.
Caminho algumas esquinas até achar um táxi, entro nele,
dou o endereço e repouso tranquilo no banco de trás, as luzes
girando nos meus olhos fazem bem, pareço estar dentro de um
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caleidoscópio. É o fim Sáfir. Pelo menos é mais digno saber a
hora da própria morte.
Acordo com o motorista me chamando com a cara
fechada, sua vontade deve ser colocar minha bunda para fora do
seu carro a chutes. O taxímetro marca R$19,85. Atiro as vinte
pratas no seu colo e não digo nada. Caminho para a entrada do
quintal. Abro a porta, olho para minha casa, ao anoitecer parece
misteriosa, como se aqui morasse alguém que um dia já foi
importante, digno de estar protegido entre suas paredes. Ela foi a
herança deixada pelos meus pais e depois que vendi o carro é
tudo que tenho. Ocupo apenas um dos quatro quartos, um
banheiro, não vou à garagem, nem à lavanderia, ligo a tevê às
vezes e cozinho uma vez ao dia. De resto, procuro beber menos
que gostaria e fumar mais do que meus pulmões ainda resistem.
A casa faz sentir solidão.
Não conheço meus vizinhos, na verdade já os vi, mas
não conversamos. Os da direita formam uma linda família,
símbolo da ordem e do casamento bem-sucedido. A casa é bela,
a piscina é grande, o carro é do ano. O homem sempre bem-
talhado, com seus ternos cinzas, sua barba bem raspada; a
mulher usa vestidos de seda até os joelhos, maquiagem suave e
no verão deixa seus braços a mostra. Os dois meninos, um pré-
adolescente e outro que parece ter oito anos, sempre com gel nos
cabelos, penteados para o lado esquerdo, usam roupas coloridas
e nunca andam de pés descalços. O que o homem não sabe é,
desde que parei de trabalhar, reparo na sua esposa, e quando ele
está gerenciando seu banco, brincando de Banco Imobiliário,
seus filhos na escola estudando com os filhos dos distintos
homens da cidade, um carro esportivo estaciona nas terças e
quintas na frente de sua casa. Um rapaz de regata, tatuado nos
braços entra e só sai de lá duas horas depois, com a feição leve,
com o sorriso tranquilo.
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Os vizinhos da esquerda vivem de uma forma mais
singela, o homem sai todos os dias para o trabalho, retorna
cansado, com o rosto exausto, não sei sua profissão, poderia
arriscar dizer que é motorista, a sua esposa sai junto com a filha,
um pouco mais tarde, a moça aparenta estar perto dos 15 anos,
sempre de mochila nas costas e fone na orelha, acredito que
esteja concluindo o segundo grau. A sua mãe a acompanha,
todos os dias, dentro do seu uniforme azul-escuro de secretária,
até a esquina, onde fica a parada de ônibus. A garota sobe na
condução amarela e ela segue a pé, até sumir na reta. Antes de
me separar de Juliana, não os via, pois frequentava a casa de
meus pais em apenas quatro ocasiões: nos seus aniversários, no
Natal e no Réveillon. Depois eles morreram e passei a vir
mensalmente, até meu divórcio, e decidir morar aqui. Agora já
faz muitos meses que os observo. Eles não reparam em mim
porque sempre estou escondido atrás das cortinas ou espiando
pelas frestas.

Acordo às 8 da manhã com o despertador infernalmente


despertando. Hora dos remédios, Sáfir. Levanto com
dificuldade, a febre me faz colocar o cobertor nas costas frias
como a de um morto. Tomo de café da manhã as oito pílulas
matinais e volto ao meu quarto. Quando caio novamente no
colchão o telefone toca, na sala. Fecho os olhos e decido que
esse som perturbador não perturbará.
Se ontem tinha 90 dias, hoje tenho 89 e tudo escorre
pelas mãos. Levanto 2 horas depois. Vou ao antigo quarto dos
meus pais, abro a porta dos armários e fico olhando para as
roupas, os imaginando dentro delas. É tanta saudade que não
cabe em mim. Os vestidos de mamãe, sei as ocasiões na qual
foram usados, cada um deles, os belos sapatos de papai, gastos e

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opacos de tanto usar, mas ainda belos. Sinto segurança estando
no quarto deles. É o lugar que sempre me escondi dos pesadelos.
Não me permito sentir dor, nem prometo que os verei em breve,
meu ateísmo não deixa pensar em céu nem em inferno e não
virarei cristão como um covarde só porque estou morrendo.
89. O número martela minha cabeça. O que fazer em 89
dias?
O sol quer entrar pela casa, o calor da manhã o anuncia.
Vou à cozinha me alimentar, abro a janela acima da pia e o sol
machuca meus olhos, prateando minha pele pálida. Reparo o
jardim, é um perdedor como eu. O mato o invadira, as flores dos
vasos, secas e mortas, as ferramentas de trabalho enferrujadas da
chuva. É um decadente, apenas uma sombra do que foi um dia.
Uma criança sem futuro. Se mamãe visse como está seu jardim,
ficaria desapontada, o jardim foi seu passatempo durante a
maior parte de sua vida.
Tento tomar café com leite, comer pão com margarina, a
porção é demais. Quando mastigo não consigo respirar, logo,
não posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo, meus pulmões
enchem de água. Vou até a sala, ajeito algumas almofadas, deito
puxando o cobertor em cima do peito para esquentá-lo e me
livrar da febre. Ligo a tevê pela primeira vez na semana, mas
adormeço antes do final do intervalo.
Acordo na metade da tarde. A tevê ligada faz fofoca de
algumas celebridades. Meu estômago contorcendo como um
artista de circo que foi parar no farol. Comer não adiantaria,
pouca comida desce até ele. Fumar? Fumar! Nem meus pulmões
têm mais vontade de fumar, creio que mais um cigarro me faria
suar frio durante alguns dias e isso não pode acontecer, pois
tenho planos para o resto dos meus dias. Planos importantes que
vão tomar tempo e esforço do meu corpo debilitado. Preciso
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arrumar um jeito de comer, não fumar e não beber. Com todas
forças que restam decido levantar. Paro em frente ao espelho e
deparo comigo mesmo, fazendo a barba e meus olhos estão
brilhando, parecem olhos de menino que mal cabem na minha
cara pálida de doença. Parecem saudáveis, querendo viver,
surpreendentemente procuram respostas. Meus olhos parecem
querer viver. Isso é assustador.
Já que meu corpo misteriosamente adquiriu a força que
não deveria ter, decido caminhar pela rua, dar uma volta no
quarteirão para fortalecer os ossos.
A rua triste como sempre, está no meio da tarde de um
dia de semana dentro de um bairro residencial. Apenas poucos
velhos aposentados decidem contrariar a lógica e caminham
pelas calçadas, ou limpam os gramados na frente de suas casas.
Fico me perguntando o que pensam de mim, apontando com o
dedo, aquele fantasma descarnado de sorriso amarelo passando
na rua.
Tento permanecer embaixo das copas das árvores.
Procurar as sombras é divertido e quando dou por mim, já estou
chegando na avenida de acesso ao meu bairro, andei distraído
por alguns quarteirões, sem perceber ganhei os quilômetros. Não
terei forças para voltar por isso decido continuar. Caminhar até
desmaiar ou morrer. Sempre em frente. Está na hora de parar a
dor.
Os carros rasgam a avenida, correndo muito acima do
permitido. Motoristas babacas, voando baixo para salvar suas
vidas, buscar seus filhos na escola, beijar suas mulheres, ir ao
banheiro ou simplesmente sentar num bar. Avenida cheia de
muros, sem comércio, apenas pó. Continuo caminhando sem
olhar para trás. Eu, essa centelha de vida. Fazendo a loucura de
caminhar por uma avenida sem pedestres.
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O sol começa a incomodar, as árvores acabaram, o suor
molhando minha testa. Minhas pernas começando a amolecer,
meus pulmões novamente parecem cheios de água, respirando
fundo, talvez uma ou duas vezes por minuto. Decido continuar
em frente. É momento de continuar no sentido do nariz, nem que
isso leve a morte, devo essa caminhada a mim mesmo, pela
minha vida inteira. Fazer uma coisa decente desta vez, na ordem
fatorial do destino. Ver até onde chego, testar meus limites pela
primeira vez na vida.
E é o que faço, continuo caminhando até aparecer na
minha frente, como miragem, uma floricultura, um pedaço de
verde no meio do cenário cinza da cidade. Quando chego na
frente, preciso sentar em algum lugar. Olho para as flores e os
corredores de plantas que vão ao longe, não avisto ninguém,
meus pulmões não me deixam falar, então decido descansar no
primeiro banco que encontro.
Sigo olhando para os xaxins, pendurados sobre minha
cabeça, com os pés de samambaia muito verdes caindo como
cachoeira.
Fico vegetando com os vegetais, com os olhos vidrados
no nada, respirando, fazendo a água nos meus pulmões cederem
um pequeno espaço para o ar entrar, deixando a vida tomar
fôlego. Não consigo mover um músculo, apenas respirar,
calmamente puxando o ar. O vento esfriando minha cabeça
molhada de suor, o que piora a respiração e aumenta a febre.
Não consigo mexer meus olhos sem sentir dor de cabeça.
Como vulto, uma senhora de cabelos brancos sorri ao
longe, não respondo, apenas olho. “Você deseja algo?” Pede,
fazendo lembrar minha vó. Respiro fundo. O ar entra cantado,
descendo pela traqueia, como uma crise aguda de asma.

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“Estava caminhando, o sol me fez mal e decidi entrar
para descansar”, digo. Seu vulto desaparece e vejo ela voltando
com um copo de água na mão. Não tenho noção de espaço e
tempo. A floricultura parece uma floresta e penso que já estou
dias aqui dentro.
“Beba rapaz, isso vai fazer bem.”
“Obrigado, mas não tenho sede.”
“Ok! Então descanse, podarei as roseiras ali atrás,
precisando é só chamar.”
E ela segue pelo interminável corredor, com sua bunda
gigantesca de velha acima do peso. Reparo que o copo ficou
repousado ao meu lado. O pego com coragem e decido beber em
pequenos goles. O que faço com maestria. Acho alguns
comprimidos no bolso da minha bermuda, arrebento a
embalagem com apenas uma mão e os engulo com dificuldade.
Fico aqui, vegetando por alguns minutos até que as cápsulas me
deem a sobrevida que necessito para levantar meu corpo.
Levanto e sigo pelo corredor de plantas atrás da senhora
e a encontro com um alicate de plantas na mão, com luvas
verdes, a pele da testa suada.
“Preciso arrumar o jardim da minha mãe”, digo,
“gostaria de sua ajuda.”
Ela sorri facilmente, larga as ferramentas e diz “me
siga”.
A sigo para o final do corredor, onde posso ver o balcão,
algumas mudas de plantas dividem o espaço com papéis,
computador, máquinas de cartões de crédito. Sento exausto no
primeiro banco que encontro, imaginando que a floricultura

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deve ter poucos clientes, irrisórias vendas durante a semana.
Está entregue as moscas. Minha respiração é mais regular por
causa dos remédios, e já não preciso fazer tanto esforço para
falar.
“Então o que a senhora sugere?”
“Quanto tempo o jardim está sem cultura?”
“2 anos, talvez 3.”
“A capoeira está com muitas ervas daninhas?”
“Deste tamanho”, respondo demonstrando com a mão na
altura do banco onde sentei.
“Gosta de flores?”
“Não muito. Prefiro frutas.”
“Tenho algumas mudas de frutas aqui comigo. Se
cultivadas no clima e solo apropriados, darão frutos
rapidamente”, explica a velha sorridente, mostrando seus dentes
marrons.
“Rapidamente quer dizer quanto tempo?”
“1 ano, talvez 2.”
Não viverei até a próxima estação, não terei tempo de
cultivar um pé de frutas por 2 anos.
“Você tem algo para ser cultivado em 80 dias?”
A velha faz silêncio, reflete até abrir a boca, rindo e
falando ao mesmo tempo.
“Tenho sim, já ouviu falar em Tomates-cereja?”

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Um dia depois, estou com a enxada na mão, com o
número 88 rebatendo na consciência. Somente eu com a terra
cheia de nutrientes que a velha da floricultura me vendeu e as
mudas de Tomate-cereja. Junto minhas forças e desço ao jardim
logo depois de engolir minhas oito cápsulas. Revitalizar o
espaço que um dia foi de minha mãe parece fácil, até perceber
que minha mente não pensa na mesma escala que meu corpo. A
enxada nas minhas mãos parece pesar muito mais do que a
realidade.
Levantar e bater a enxada é um exercício difícil para
meus debilitados pulmões, minha respiração beira a
normalidade. Tento olhar para o sol e caio na terra sujando
minha roupa. Estou muito fraco, mas levanto e volto ao trabalho.
Preciso concluir a tarefa.
Primeiro, capino toda a erva daninha que está na altura
da minha cintura. Raízes profundas agarradas nas entranhas da
terra como o câncer no meu corpo. Deixo a terra livre, viva,
marrom, esperando a semente. No meio daqueles tijolos da
sobra da última reforma, os empilho para o lado, formando um
banco com eles. Trabalho meia hora e descanso outra meia hora.
Sentado em cima de meu banco dos restos de construção.
Encho de água o velho regador e descubro um furo no
seu corpo, quando molho a terra, molho também meus pés,
encharcando meus tênis e meias.
Pego os sacos de terra cheia de nutrientes e jogo sobre a
terra recém-nua. A espalho com a enxada, calmamente. Durante
o trabalho não consigo pensar em mais nada além da terra sendo
mexida. Apenas quero ver o todo pronto e por completo mudar a
cara do jardim. Será minha herança para o mundo.
Claro que não trouxe todo o material sozinho da

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floricultura para minha casa, a velha tem um empregado que é
responsável pelas entregas. Ele trouxe tudo que comprei e ainda
me deu carona na camionete, o que, possivelmente, salvou
minha vida.
Não contei quantos pés de muda comprei, o garoto,
empregado da velha, carregou todos os pezinhos de quinze
centímetros na carroceria da camionete. Ele fez o trabalho
rapidamente, levando muitas coisas ao mesmo tempo. Não
conversamos no caminho, reparei nos seus braços rosados,
queimados do sol, seu cheiro terrível de suor. Nem sequer
lembro de ter dito obrigado.
Contei as mudas quando cheguei, são dez. Pego a enxada
e abro dez buracos, as repouso na terra exatamente como a velha
sugeriu. “Tire a lona da muda, a enterre, mas não totalmente,
deixe dois centímetros da terra da muda para fora do buraco.
Plante num lugar que tome, pelo menos, 4 horas de sol
diariamente para potencializar a qualidade e quantidade dos
frutos.”
No início da tarde os pés estão plantados, lutando por
suas vidas no seu novo habitat. Trilhos verdes de vida. Estou
muito orgulhoso. Está humilde plantação deve ser a coisa mais
importante que fiz na vida. Decido tomar banho e deitar, me
sinto morrendo, com medo de fechar os olhos e não abri-los
novamente.

“Acorda, Sáfir!”
São as palavras que me tiram do limbo. Serro os olhos e
reconheço Juliana. Por alguns segundos imagino estar no
inferno. Ela é meu inferno, o diabo sabe das coisas e me deu a
pior e a melhor lembrança.
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“Acorda, Sáfir!”, repete, chacoalhando meu ombro.
“Olha para você, está tremendo de febre! Suas cobertas estão
molhadas de suor!”
Ela mantém a voz firme como uma mãe ralhando com o
filho, caso não a conhecesse diria que está furiosa, mas só está
atuando como sempre. E o pior, ainda estou vivo!
“O que você quer, Juliana?”
“O que eu quero? O que você quer? Você está morrendo
e simplesmente deixa o hospital sem dar explicação. Não atende
o celular, nem ao telefone residencial!”
“Relaxa, Juh. Sou independente, não temos mais nada,
faço o que quero da minha vida. Só decidi não lutar contra o
destino. Poupar minhas energias e morrer em paz.”
Ela deita ao meu lado e começa a chorar como uma
criança. A única coisa que não quero é ter Juliana chorando
perto de mim. Vê-la assim sempre me enche de remorso.
“Sáfir, precisamos levá-lo ao hospital. Por favor, nos
deixe ajudá-lo.”
Nos deixe ajudá-lo – ela disse – certamente, Edno,
aquele velho asqueroso, seu marido/chefe, nos espera no carro,
escutando alguma rádio popular, entediado, torcendo para meu
fim chegar rápido. Imaginando como Juliana foi capaz de
conviver comigo por tanto tempo, o perdedor, doente e com os
dias contados.
A febre dá trégua, só não tira de mim a vontade de
adormecer novamente. Meus pulmões enchem de ar com
facilidade, uma dose de paz. Um momento inquietante de paz.
Um tempo do lado de meu demônio particular. Mais do que

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nunca quero morrer.
Tento dizer a ela que preciso morrer, desejo perder essa
luta, é algo maior para um resultado maior. Mas não necessito
comentar, Juliana sabe disso, só não quer acreditar. Posso
explicar o quanto de coragem estou gastando no projeto, morrer
será a coisa mais importante, meu corpo esquálido quer morrer,
minha alma quer morrer.
“É sua decisão final?”
“É!”
“Quanto tempo ele disse?”
“Talvez 3 meses.”
Ela levanta e caminha lentamente até a porta, viro contra
ela, puxo a coberta e fecho os olhos. Posso sentir seus olhos me
mirando antes de bater a porta com força.
Fecho os olhos e acordo por dentro. Como sempre.
Dormir sempre jogou os problemas para longe.

“Acorda, Sáfir. Hora dos remédios!”


Abro os olhos e reconheço novamente Juliana. Continuo
vivo ou agora é realmente o inferno?
“O que você está fazendo aqui? Que horas são?”
“10 da manhã.”
“O despertador não despertou.”
“Eu o desliguei. Você precisava repousar.”
Sento na cama, pego as cápsulas de suas mãos e as tomo,
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bebo água sem dificuldade. Minha garganta desobstruída, meus
pulmões menos pesados.
“E o seu trabalho?”
“Fui despedida.”
“Não brinque. Seu chefe é seu marido.”
“Mesmo assim fui demitida. É um fato, não estou
mentindo.” Ela está muito séria.
“Por que?”
“Isso não interessa. Ficarei aqui com você por tempo
indeterminado.”
“Não pode ser. Você está louca! Além do mais, meu
tempo é determinado.”
“Se quer morrer, tudo bem, mas ficarei aqui com você
até tudo isso acabar.”
Sua voz realmente comove, a mesma voz que prometeu
amor eterno diante do altar.
“Enquanto estiver aqui”, prossegue, “vou te dar os
remédios na hora certa. Lavar suas roupas, trocar os lençóis
molhados. 90 dias passarão rapidamente. Não é mesmo?”
“87, na verdade. 87.”
Levanto com dificuldade, Juliana me ajuda, todo meu
corpo fede a doença. Vou ao banheiro, tomo banho e me barbeio.
Sem camisa posso contar minhas costelas. Subnutrido,
esfomeado, deprimente. A água quente limpa meus poros, lava
minha alma. No espelho os mesmos olhos de vida, indecentes,
querendo viver. Morte, morte, morte, o resto do meu rosto grita.

25
Com Juliana pela casa ficará mais difícil morrer. Preciso
conversar seriamente com ela.
Visto pijama, calço chinelo de dedo. Desço até a cozinha,
a mesa está posta. Pão, queijo, presunto, bolo de nozes. Juliana
enche uma xícara.
“Comprei leite em pó. Beba assim bem quentinho. Vai
fazer bem para seus pulmões.”
“Onde está Linda?”
“Com o pai dela. Edno disse que saindo pela porta,
Linda ficaria com ele. Pagaria todos os advogados do mundo
para ter a filha junto dele.”
“E o que você vai fazer?”
“Liguei para o advogado da família. Fui aconselhada a
deixar Linda com ele até tentarmos outra saída.” Ela não permite
demostrar sofrimento, segue mexendo na comida como se nossa
conversa não tivesse existido. Tenho vontade de ajudá-la, mas
não posso.

Os dias passam, nada que mude o meu sentimento de


animal empoleirado, estando na chuva sem guarda-chuva. Com
Juliana ao meu redor fica mais difícil morrer, e isso não é bom.
Como num show de mágica o alívio é apenas momentâneo.
Espero que seus cuidados não façam os dias contados
aumentarem.
Sentado no sofá, por vezes, tenho a sensação de que
posso parar de respirar, simples, apenas parar de funcionar de
um modo indolor. Tento fazer meus pulmões pararem, o coração
acalma, sem desespero, mas no fim meus pulmões puxam ar
26
obstruindo a sensação de água, enchendo de oxigênio.
Fabricando a vida.
Juliana fica comigo a maior parte do tempo, o que
esvazia minha cabeça e tira a capacidade de pensar. E preciso
meditar. Considerar e acreditar na morte, que as células
mutantes são minha punição por meu grau elevado de
mediocridade. Entretanto, quando a vejo, sorrindo de alguma
bobagem da tevê, me parece vida, me sinto forte. A forma mais
linda de existência. Continuo aqui com os dias contados. Os
vizinhos vizinhando. Os velhos nas filas. A cidade, as
repartições, as igrejas, os postos de saúde. Tudo indecentemente
organizado.

Aproveito que Juliana sai e sento na varanda dos fundos,


acendo um cigarro e olho para os tomates infernalmente verdes.
Eles estão vivos, os contrarregras, cada vez maiores, pomposos
como estátuas de mármore. Logo morrerei, mas eles não. Darão
frutos de sabor adocicado para o bem-estar das pessoas. Não
causarão mal nenhum, pois não dependem de agrotóxicos para
dar seus frutos, não causarão células mutantes nos humanos.
Trago novamente o cigarro. Para fumar não tenho
dificuldades, pelo contrário, meus pulmões relaxam, abrem
caminho aceitando a fumaça como irmã. O filtro nos meus
lábios, o cinza entrando na minha boca, o gosto de morte.

“Hei, Sáfir! Venha ver uma coisa aqui!”


Escuto Juliana entrando pela calçada lateral da casa e
seguindo para o quintal. Tenho a sensação de que não
conseguirei mover meu corpo. Estou fraco, talvez com menos de
27
cinquenta quilos. Decido levantar, sair da sala e seguir sua voz.
Caminho com dificuldade, apoiando, ora na cadeira, ora na
mesa, nas paredes.
Ela sorri inocentemente entre os pés de Tomate-cereja.
Apontando para um pequeno fruto, de cor intermediária entre o
verde e o vermelho.
“O primeiro fruto!”
“É o primeiro fruto!” Respondo exausto.
Aquele fruto, o primeiro da minha vida, a primeira coisa
que estou vendo crescer, que foi plantado com minhas mãos,
sem atravessadores, um projeto de vida.
62 dias. É isso mesmo. O fruto demorou 62 dias para ser
parido das entranhas da planta, sugou sua seiva até ter aquele
aspecto de Tomate-cereja. 62 – 90 = -28. Restam 28 dias da
minha sentença. Não sinto meus pulmões tão cheios de água, os
remédios trazem alívio, mas sinto a morte crescendo.
“Podemos colher e preparar a salada daqui a 5 ou 10
dias”, comenta Juliana.
“Ainda estarei aqui.”
E quando ela tenta abrir a boca preparando mais um de
seus sermões pagãos, a interrompo.
“Preciso falar com um advogado, ainda hoje.”
Voltamos para dentro de casa e Juliana liga para o
advogado da sua família, o mesmo do divórcio, o mesmo da
guarda de Linda. Duas horas depois estamos todos em reunião.
Eu deitado, com febre, embaixo de alguns cobertores e ele ao pé
da cama, digitando no seu notebook meu testamento.

28
Morrer não é tão ruim assim, é apenas uma grande
escuridão de um sono insuportável com frio de arrepiar.
Também não é tão reconfortante escutar a voz de Juliana ao
fundo e seus soluços, não é o que imaginei ouvir pela última
vez. Não quero ter medo nem culpa e ela agindo assim faz com
que me sinta medroso e culpado. Não foram 3 meses como o
médico havia dito, cheguei apenas ao dia 85. Com o meu corpo
semelhante a um Judeu prisioneiro de guerra com não mais de
quarenta quilos. Morrerei como um moribundo, fenecerei.
Mas mesmo morto, continuo escutando Juliana, seu
chororô infernal.
Primeiro ficou ao meu lado, talvez acariciando meu rosto
ou simplesmente me vendo partindo para algum lugar. Depois
parei de sentir sua presença, fiquei sozinho no abismo, no meio
do nada, e isso relaxou meu corpo, não houve mais dor. A morte
é o nada. Sem limbo, sem céu nem inferno. Perdido, vagando
por algo parecido com espaço sideral.
Ao longe escuto sua voz, falando ao telefone, com calma
diz o endereço da minha casa. “Que merda está acontecendo?”,
tento mexer meus lábios em vão. Continuo aqui curtindo a
escuridão sem dor. Não sei se posso respirar, meus pulmões
enchendo de água, como dois copos americanos, sinto que
enchem pela última vez, aos poucos me afogando. Não tenho
medo até lembrar dos pés de Tomate-cereja. Eles estão verdes,
dando frutos perfeitos, vermelhos, no meio do nada posso sentir
seu sabor, delicioso no café da manhã, no almoço, no sanduíche,
no vinagrete, na salada, na pizza. Então começo a sentir medo.
Meus pulmões cheios e os Tomates-cereja dando frutos. Como
vai ficar tudo sem mim?

29
Não é momento de ser um covarde, preciso seguir o
plano, ter colhões, aguardar até a consciência acabar. É hora de
morrer Sáfir. Juliana cuidará de tudo e ainda viverá o resto de
seus dias plenamente, deixe tudo como está.
A voz de Juliana contínua ao telefone, maldição, ela
realmente se entende com esse aparelho. Trabalhei num
escritório certa vez, e lá precisava atender as ligações, aquilo era
o fim da sabedoria humana, as pessoas ligavam umas para as
outras para tirar dúvidas óbvias, só para sentirem mais
segurança. Fui demitido nos primeiros meses.
Logo depois dela desligar o telefone, outras pessoas
estão dentro da sala onde estou tentando morrer deitado no sofá.
Começam a conversar com Juliana. A desgraçada faz sua
reunião envolta do meu corpo. “Me deixem morrer em paz!”
Tento gritar, mas estou no meio da escuridão, no meu estado
meio-morto. De repente tudo apaga.

A luz volta depois de um tempo. Um tempo morno, não


o tempo Cronos, outro tempo, e a luz é intensa como todo o
quarto onde estou. Branco, tudo é branco como as paredes, a
porta, a basculante, o avental das enfermeiras. O branco sempre
me deixou nervoso. É uma cor pretensiosa que carrega em uma
sombra que não existe o reflexo de todas as outras cores.
Meu peito não está mais cheio de água, agora é
preenchido por uma dor extrema. Posso respirar normalmente,
entretanto, não sem a maldita dor.
Algumas agulhas enfiadas no meu corpo, curativos
enormes no meu peito. Não quero saber o que aconteceu, só
penso em voltar para a escuridão de onde fui tirado. Fico em paz
sem os seres humanos. Temo por ter virado um robô orgânico ou
30
coisa assim, ideia que não posso levar adiante, a dor infernal é
humana que só dói na carne, não posso ser uma máquina por
suposto.
Pessoas entram e saem, hora trocam o sachê de soro,
hora medem e anotam algumas coisas em planilhas. Um
trabalho de merda. Aqui as pessoas morrem, entram no primeiro
estágio de podridão e saem prontos para o caixão. O hospital
devia ser chamado: “Primeiro Estágio do Lixão Humano.”
Alguns conversam sobre banalidades, outros aproveitam
minha suposta inconsciência, chaveiam a porta (por dentro) e
ficam vagabundeando pelo quarto, mexendo no celular ou vendo
algumas revistas pornográficas.
Estou vivo dentro de algum estágio induzido, pronto para
alguma coisa. Sei disso.
Fico na cama, não consigo mover os membros, nem
falar, não abro os olhos. As vezes trocam minhas roupas, limpam
minha sujeira, refazem meus curativos em cima dos pulmões.
Estou pronto para ficar como um boneco, pergunto quando serei
colocado num vaso novo? Sou apenas uma planta de aquário.
Não consigo distinguir dia de noite, a dor aos poucos vai
embora, a respiração normaliza. Tudo está tranquilo até escutar a
voz de Juliana conversando com alguém sobre meu estado de
saúde. Consigo ouvir quando ele conta que extraiu um de meus
pulmões e parte do outro e assim me libertou do câncer. Além de
estar vivo, não irei mais morrer? O que farei da minha vida? Eu
quero morrer pelo câncer, é meu direito. Ela apenas deveria ter
me deixado lá no sofá até parar completamente de respirar. Terei
de voltar a trabalhar, pagar IPTU, passagens, prestações.
Acordar às 7 da manhã, vender minhas horas para algum porco
capitalista. Isso dá medo, a rotina causa pavor, não a morte. “O

31
perigo são novas afecções incisivas” diz o homem, deve ser
médico “a recuperação pode ser em casa, mas todos os cuidados
ainda serão poucos”, concluiu. Desisto de escutar esse papo
furado. Um pulmão não é nada mal. Talvez prejudique minha
aerodinâmica, mas será um bom pulmão. Já que sigo vivente.

Retorno para a casa. Juliana me auxilia a caminhar do


táxi até o sofá e isso é tudo que consigo fazer no dia. Cada passo
é esforço de maratona.
Tomo sopa, bebo suco de cenoura, chá suave de erva-
doce. Dieta horrível, nem perto de bife com fritas, minha
refeição preferida. Antes da cirurgia não conseguia lembrar da
última refeição que tive. Agora não consigo comer. Como vê
não foi possível evoluir.
“E os Tomates-cereja?” Pergunto a ela.
“Ainda estão no quintal.”
“E os frutos?”
“Não estão florindo neste momento. É período de
entressafra.” Diz como uma respeitável bióloga.
“Como sabe?”
“Li na internet.”
E os pés continuam lá, muito verdes, tingindo todo o
ambiente. Pássaros começam a frequentar meu quintal e isso
trouxe os gatos que pisam entre os pés de tomate, o que me
deixa irritado.

32
Em alguns dias recuperei alguns quilos, ainda sou a
mesma centelha de vida devoradora de cápsulas, mas minha cor
retornou, pele novamente morena, mameluco, como nos velhos
tempos, até meu cabelo reapareceu, só que dessa vez mais calvo,
mais branco do que preto.
Um sábado por mês fico sozinho. Juliana chama um táxi
e parte para sua antiga casa, pegará sua filha Linda e a levará
para tomar sorvete, irão ao cinema, comerão pipoca. Comprarão
balões em formato de animais e retornarão para suas vidas
normais. E neste sábado saí no seu encalço, esperei ela entrar no
táxi e segui para o supermercado do bairro, comprei dois pacotes
de cigarros, quatro garrafas de uísque, duas de vinho e uma de
vodca. Exausto, retornei a tempo, antes de Juliana. Ainda não sei
qual milagre aconteceu conseguir carregar as compras. Escondi
os itens os espalhando em pontos estratégicos da casa.
Fico bebericando escondido. A campainha toca. Digo
algumas obscenidades antes de abrir a porta. Abro e não enxergo
ninguém ao horizonte, dou um passo atrás e começo a fechá-la
quando ouço duas vozes estridentes, completamente
desagradáveis, falando comigo.
“Olá, senhor!”
Olho para baixo, são dois meninos de um metro de
altura. Reconheço o loiro, com o cabelo penteado com gel e a
cabeça exageradamente grande, bochechas de buldogue, olhos
azuis de demente. É o filho mais novo dos vizinhos da esquerda.
Passo a entender a ninfomania da vizinha, aquela imensa cabeça
saindo de seu ventre deve ter deixado traumas.
“Olá, garotos.”
Ficam olhando apavorados, esperam que os encoraje a
falar, mas não o faço, fico parado os encarando. Eles olham e os
33
respondo com o olhar neutro. O seu amigo parece mais esperto,
com a cabeça bem menor, com a circunferência normal para um
menino da sua idade. Então, os dois começam a cochichar numa
conferência improvisada. O cabeçudo e seu amigo parecem
atacantes de futebol americano discutindo a melhor jogada.
“Senhor” diz o cabeçudo, “queremos tirar algumas fotos
do seu jardim.”
“É para um trabalho da escola”, completa seu amigo.
“Por que meu jardim?”
“Precisamos falar e demonstrar sobre nossos jardins ou
jardins belos e originais do bairro. E o do senhor parece bem
original com todos aqueles pequenos tomates”, diz o cabeçudo.
Não quero duas pestes no meu quintal, já bastam os
pássaros e os gatos. Não é certo, podem machucar os pés de
tomate.
“Desculpe garotos, não posso deixar vocês invadirem
meu terreno” digo fechando a porta quase nos seus narizes.
Escondo as garrafas, volto a sentar no sofá, em seguida
Juliana entra pela porta e tudo retorna ao normal.
Um cigarro todo dia antes do banho, abro o chuveiro e
fumo no lado de fora do box. Plano infalível, Juliana nunca
sente o cheiro. Também levanto de madrugada, pé ante pé, retiro
uma garrafa de algum esconderijo e bebo no gargalo demorados
goles. Sento na sala, no escuro fico respirando profundamente.
Os garotos não bateram mais na porta, devem ter tirado
as fotos mesmo assim. Meus vizinhos seguem suas vidas como
macacos amestrados. Engordei mais alguns quilos, a dor no
peito desapareceu totalmente. Isso significa tentar voltar à vida
34
antiga. Medito sobre isso por alguns dias e sou convencido,
depois que a previdência social ligou alertando sobre o fim do
meu auxílio-doença. Preciso encarar o mundo outra vez. Queria
estar morto!

Quando retorno ao meu antigo emprego, o honrado cargo


de vendedor interno na gráfica que faz calendários, agendas e
folders personalizados, sou realocado. Designado para uma
função menos estressante. Agora sou responsável por picotar os
pedidos errados e os jogar dentro do lixo. Depois de enfrentar
um câncer tenho que encarar 8 horas sentado, jogando os papéis
inteiros de um lado e os esperando com um saco de lixo aberto
no outro, completamente picotados em fios. Realmente, a vida é
um teste difícil.
A melhor parte é ficar sozinho o tempo todo, sem
colegas ou superiores. Apenas a picotadeira e eu. Com cuidado,
posso tomar um drinque do meu cantil escondido no banheiro. Ó
céus, trabalhar é pior do que qualquer enfermidade.
As pessoas do trabalho, na sua maioria, continuam as
mesmas e as novas já parecem as velhas. Todos bons
trabalhadores a serviço do patrão nosso de cada dia, alguns
amam tanto a gráfica que facilmente matariam por ordem do
patrão, o idolatram, é um deus para seus funcionários.
Essa relação de patrão e empregado é nojenta. Essas
pessoas são tão infelizes que tudo o que têm é o emprego, sem
ele perdem os sentidos e nada mais importa. Sua religião é a
gráfica, cabeças ocas sem capacidade para amar. Não sabem
fazer mais nada porque a escola só os ensinou a repetir. Isso
precisa parar de alguma forma.
Tive a ideia de cortar todos os fios condutores de energia
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das máquinas. Espero todos partirem. Faço o serviço e aguardo
até o dia seguinte. Ver o que aquelas pessoas farão depois de
descobrir que não poderão fazer a única coisa que têm, nem que
seja por algumas horas. Será um espetáculo e tanto. Algo
parecido como pisar num formigueiro e ficar olhando as
formigas desesperadas correndo para todos os lados, sem radar.
Pela manhã, quando volto ao trabalho, todos agem
normalmente. Até os primeiros operadores de máquinas se
posicionarem nas suas marcas. O João Barriga tenta ligar o
Plotter e nada acontece, a Maria Canela Fina tenta ligar as
impressoras de etiquetas e não obtém resposta, o Tata Pescoço
de Ganso tenta ligar a poderosa Offset Rotativa e nada. Tudo
está morto e o desespero toma conta dos seus rostos. “O que
faremos agora?”, alguma das almas desesperadas pergunta no
meio do tumulto. “Teremos que ver com o senhor Jair!”, grita
um dos operadores. E uma comitiva de alguns funcionários
segue para o escritório do senhor Jair, o proprietário da gráfica.
“Pobre do seu Jair!”, comenta a senhora da faxina.
“Pois é, coitadinho!”, conclui a moça do café.
Coitadinho? O homem fatura trinta milhões ao ano, paga
cerca de mil e quinhentos reais por mês para cada um de seus
trinta e cinco funcionários, gasta outros oito ou dez milhões em
insumos, manutenção, água e luz. Jogando baixo Jair fatura mais
de um milhão por mês para sentar e esperar a coisa toda
acontecer, pois não precisa serigrafar, porque paga alguém para
isso, nem fazer as entregas ou telefonar oferecendo seus
produtos, porque paga pessoas para fazer isso. Porque em algum
momento de sua vida, descobriu que podia pagar alguém para
enriquecê-lo e essas pessoas pagas não reclamariam, pelo
contrário, iriam idolatrá-lo, pois sua ignorância é demasiada, e
Jair sabe disso.
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Por que os idiotas da gráfica não param para pensar que
a coisa toda está errada? Mil e quinhentos reais. É isso seu valor
para ficar 8 horas trabalhando em pé. Será que a vida não nos
deve uma oportunidade melhor?
Trabalhar é preciso, não posso mudar todo o sistema,
mas posso ver os direitos que não estão me dando. Não
demoram para descobrir os fios cortados e rapidamente
consertam e começam a investigar a situação.

Sou demitido em dois dias, por justa causa. Fico em casa


por algumas semanas, sem tomar os remédios, cuidando dos pés
de Tomates-cereja, fumando e bebendo.
Juliana trabalha de secretária de algum dentista no
Centro da cidade. Penso nela, mas nunca esqueci sua traição e é
por isso que jamais a toquei. A deixo morar de graça na minha
casa e em troca ela faz a comida, cuida dos meus remédios.
Temos esse contrato e um envolvimento pode colocar nossa boa
convivência no lixo.
Mas uma tarde estou sozinho, quieto como um cágado,
espreitando a tarde, menosprezando o tempo. Olhando para as
coisas verdes e perfeitas que logo darão frutos no meu quintal.
Fumo, tomo alguns tragos e deixo a tarde avançar. No balanço
geral é bom estar vivo, como foi bom estar à beira do abismo,
dormindo na escuridão. Morrer é indolor, eu sei, já estive quase
lá.
Sinto que estou num estágio intermediário, pensando em
suicídio, sem nenhum motivo para viver, sem nada para fazer,
mas, no fundo, um frio no estômago enchendo minhas entranhas
de medo. Do outro lado da balança estão meus olhos vivos, que
vibram de emoção quando faço a barba. Ficam observando meus
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movimentos, esperando com esperança algo grande acontecer.
Meus olhos pedem uma grande novidade, cobram uma
epopeia. Eles gritam “você é um cara grande, você venceu a
morte, você bateu na cara da porra da morte, agora precisa
mostrar aos outros o quanto é forte!”. E é o que penso olhando
para meu quintal, até Juliana voltar para a casa e preparar o
jantar.
Uma epopeia, uma epopeia, uma epopeia é o que vem à
minha cabeça quando deito e não consigo dormir. Então levanto,
cato alguma garrafa em algum dos meus esconderijos. Tomo
bons goles e ligo a tevê. Rodo por alguns canais e nada mais,
adormeço sem cobertor, com meus pés congelando.

Eu tenho um plano.
“Vou para o Centro”, falo para Juliana no café da manhã,
“preciso de duzentas pratas emprestadas. Vou comprar um
aparelho”, completo.
“Tudo bem! Fico feliz por você levantar do sofá e buscar
novos horizontes. Posso saber qual aparelho?”
“Saberá no momento certo.”
Satisfeita, não faz mais perguntas.
Acompanho Juliana até o trabalho. Antes da chegada,
passamos no caixa eletrônico bancário, ela saca e passa o
dinheiro. Viemos de ônibus para o Centro da cidade, a deixo na
porta do trabalho e sigo até a parada, espero a primeira condução
para a região periférica da Capital.
Minha aparência de viciado ajuda com a captação das

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informações e logo estou batendo na porta de um cara conhecido
como Jóe Canivete. Um sujeito de rosto firme como um turco,
de barba fechada, algumas tatuagens verdes espalhadas pelos
braços.
Entrego a ele as duzentas pratas e recebe em troca um
revólver calibre trinta e oito carregado. Passa informações e
ensina a manuseá-lo, depois mostra como trancá-lo para não
atirar no meu próprio pé.
O revólver tem aspecto muito antigo, com ferrugens, o
chacoalhando posso sentir sua frouxidão, alguns parafusos
soltos. É a única arma de fogo que os duzentos reais
conseguiram comprar.
Retorno para casa, bebo o máximo de álcool que posso,
escondo o revólver, fumo alguns cigarros e resolvo deitar. Não
vejo Juliana retornar, prefiro não conversar mais com ela, meus
olhos vivos podem me trair em algum momento.
Estou novamente com a morte muito próxima, não mais
dentro do meu corpo, mas ao alcance das mãos. Sou uma
espécie de deus de merda, com a arma carregada com suas seis
balas.

Pela manhã levanto pouco disposto, tomo café da manhã


com Juliana e dou um abraço forte nela, antes de partir para o
trabalho. Nunca mais nos veremos. Ela fica surpresa, mas
retribui o abraço com ternura e aconchego, como foi da primeira
vez. Ela acaricia meu rosto e vai.
Fico por bom tempo olhando para meu quintal, os
Tomates-cereja infernalmente verdes com pontos vermelhos. Os
tomatinhos sempre me fazem sentir vivo e agora temos de nos
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separar. Caminho no meio deles, sento na terra e os cheiro,
encho meu único pulmão com o verde cheiro da vida. Estão
dando frutos novamente, enchendo o mundo de vida. Eles fazem
lembrar de mamãe. Da pureza envolvida em cada uma das suas
ações. Sinto saudades!
No fundo do quintal, ao lado da cerca, vejo a
adolescente, vizinha do lado direito, chorando, encolhida num
canto, sentada no chão, dentro de seu casaco muito maior que o
ideal para seu tamanho. Se não fosse o fim da minha vida, a teria
deixado, remoendo algum sentimento inoportuno, mas este dia é
diferente. Há um resquício de ternura no meu coração que a
humanidade e sua sociedade canibal não conseguiram arrancar.
“O que houve garota?” Pergunto, chegando perto da
grade.
Ela olha por alguns segundos e retorna ao chororô
escondida atrás dos braços.
“Garota, quase morri, faz pouco tempo e morrerei em
breve. Pode se abrir comigo. Sou durão.”
Ela olha novamente com os olhos vermelhos de choro,
com a maquiagem manchada, parecendo chorar óleo queimado.
“Vamos menina”, insisto, “sei que posso ajudá-la. Diga o
que estás passando?”
Desisto de ajudá-la, viro as costas e sigo na direção da
varanda, antes de alcançar a pequena escada, escuto “estou
grávida”, dou outro passo e ela repete “estou grávida”, então
paro onde estou.
“Seus pais já sabem?” Digo voltando ao seu encontrou.
“Não, descobri agora. Não fui à aula, comprei um teste
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na farmácia e voltei para casa. Deu positivo.”
“Quem é o pai?”
“O Kaduzinho, aquele idiota. Pedi para ele colocar a
camisinha, mas sempre com aquele papo que não ia dar em
nada!”
“Você está realmente encrencada garota!”
“Isso eu sei. Era essa a ajuda que poderia dar? Obrigada,
já pode voltar para a caverna de onde saiu!”
“Olha garota, não posso ajudá-la. Não sou médico, nem
seu pai, mas posso dizer uma coisa: sempre quis ser pai, mas
minha esposa achou melhor não termos. Decidiu ter um filho
com um cara escroto, mas que tem mais dinheiro. Paciência,
entretanto, acredito que a sociedade é um tiro nas bolas, fode
com todos, ou você vive para ganhar com ganância ou vive para
passar fome, não existe meio termo. Acredito que existe outra
saída, que é o amanhã, e você carrega o amanhã no seu ventre.
Você pode mudar toda essa loucura ensinando essa vida ai
dentro a ser diferente, como eu não sei, pois não sou pai, mas
acredito na mudança.” Dou-lhe as costas e entro na casa sabendo
que, de alguma forma, já ajudei.

Saio de casa sem relógio, mas o sol acima de minha


cabeça anuncia ser meio-dia. Pego ônibus para o Centro, desço e
caminho até o escritório do advogado de Juliana e de seu ex-
marido. Entro sem me anunciar, ignorando a secretária. Abro a
porta e aguardo o advogado olhar para mim.
“Bom dia, Sáfir”, diz assustado.
“Bom dia, senhor.”
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“Que surpresa, senhor Opal! O que o traz aqui?”
“Preciso falar sobre meu testamento, feito quando achei
que o câncer me mataria. Acredito que o senhor ainda lembre.”
“Claro, tenho ele no meu arquivo.”
“Que ótimo. Quero que o senhor o abra na próxima
semana aqui na sua sala. Chame Juliana e o revele.”
“Não estou entendendo. Você sobreviveu a cirurgia, está
quase recuperado, mais vivo do que nunca.”
“Eu sei, mas semana que vem não estarei mais aqui.”
“Não estou compreendendo.”
O encaro e ele arregala os olhos. Entendendo o recado
subliminar.
“Você vai cometer suicídio?”
“Mais ou menos isso. Passe um recado para Juliana.”
“Claro, qual é?”
“Diga que a casa realmente ficará para Linda, mas com
duas condições extras no testamento. A primeira é que ela use a
posse da casa para ganhar a guarda da Linda daquele capitalista,
o Edno. A segunda é que sempre cultive Tomates-cereja no meu
quintal.”
“Está bem, Sáfir! Usarei exatamente suas palavras.” Diz
complacente, sentido.
“Adeus, senhor!” Digo quando levanto da cadeira e sigo
para a porta. Ele tenta mexer os lábios, o encaro, desencorajando
a realizar um sermão.

42
“Adeus, Sáfir!” Diz convencido.

Pego outro ônibus na direção do meu antigo emprego,


rumo à gráfica. Passo por alguns policiais, centenas de carros,
motoboys, homens pintando prédios, homens construindo casas,
escolas com crianças assistindo aula, alguns caminhões,
mendigos, velhas senhoras, mães empurrando carrinhos, garotos
acelerando suas motos com fúria, gordas(os), magras(os), feios e
feias. Tudo na perfeita desordem organizada, todos vivendo uma
suposta felicidade, gastando dinheiro, vendendo e comprando o
que não tem preço, engolindo a obsolescência programática,
cagando toneladas de sal, trabalhando duro para pagar suas
prestações. É isso, e em cada esquina enxergo cada vez mais do
mesmo e pergunto: realmente é somente isso? E algo no fundo
da minha consciência responde que é só isso. Existiram algumas
pessoas que também tiveram as mesmas visões. Alguns usaram
a pintura, outros a música, alguns os poemas, outros a literatura
em prosa. Suas receitas deram certo, só que o resultado foi
desesperador, poucos foram atingidos por suas alquimias. É
somente isso, um mundo sendo depenado como um frango para
ceia, sendo desentranhado como um doador de órgãos. Os que
percebem a realidade ficam no ostracismo, dentro de algum
arquivo tentando ajudar. Perto demais de um pedestal e longe
demais dos outros.
Desço do ônibus e meu estômago contorce de fome.
A gráfica está a pleno vapor, os funcionários trabalham
como anões de Natal.
Espero aqui do outro lado da rua, sentado na parada a
cerca de trezentos metros. Folhas em branco entram, tintas,
peças, pedidos saem e a Amazônia continua sendo derrubada

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ilegalmente, implorando por ajuda.
As horas passaram, meus antigos colegas batem o ponto
e partem para suas casas, alguns de bicicleta e a maioria
andando. Espero mais um pouco. Percebo que o movimento
diminuiu, sigo na direção da entrada principal da gráfica. O
carro de Jair, uma picape luxuosa com nome estrangeiro
continua aqui.
Experimento o portão e ele está aberto, entro e
experimento a porta de metal da garagem, ela está aberta. As
máquinas ainda são as mesmas, como gigantes adormecidas.
Caminho entre elas até o escritório de Jair. Bato levemente na
porta.
“Quem é?” Ele pergunta de dentro.
Não respondo, bato novamente na porta.
“Quem é?”
Não respondo, bato novamente na porta.
“Quem é, porra? Que brincadeira de merda é essa!?”
Levanta e abre a porta, espero ele sair completamente
para fora e apareço. Ele tenta entrar, mas sou mais rápido, saco a
arma e encosto na sua bochecha esquerda.
“Sou eu, seu babaca!”
Seu rosto abre em desespero, olhos arregalados,
músculos tensionados. O velho parece uma estátua. Com sua
camisa social, óculos de armação antiga, botas de montanha, seu
cabelo pintado de preto.
“O que você quer?” Pergunta com medo, contando as
letras.
44
“Primeiro não faça cocô nas calças, e que sirva um
drinque, sempre quis tomar essas bebidas caras que tem no seu
bar. E depois abra o cofre.”
Ele segue as ordens. Não defecou nas calças, serve um
uísque decepcionante e abre o cofre.
“Quanto dinheiro você tem ai?”
“Não sei, Sáfir!”
“Então conte para mim.”
Ele conta aquelas notas coloridas de dez, cinquenta e
cem reais.
“Duzentos e quarenta e seis mil com cento e sessenta
reais.”
“É pouco, preciso de mais.”
“É só o que tenho. Na verdade, esse dinheiro não era
para estar no cofre. Esquecemos de ir ao banco.”
“Coloque tudo num saco de lixo”, aguardo ele terminar o
ordenado, “agora você vem comigo. Vamos dar uma volta.” Não
quer sair da gráfica, preciso engatilhar a enferrujada arma e o
ameaçar com mais veemência.
Pego o saco com o dinheiro. Entramos na sua picape de
nome estrangeiro. Ordeno a dar a partida. O obrigo a deixar as
portas da gráfica abertas.
“Para onde?”
“Apenas dirija.”
Ele dirige sem destino. Saímos da cidade e continuamos
por algumas ruas do interior.
45
“Estacione aqui mesmo e desça do veículo”, ordeno.
Estamos no subúrbio, dentro de uma pequena mata auxiliar.
Saímos da rua de terra até a picape ficar escondida pelas árvores.
O deixo sair primeiro. Não o perco de vista, mirando na
direção de sua cabeça. Tiro a chave da ignição. Ordeno a ele que
vire de costas, forço a arma na altura das suas costelas.
Caminhamos nos embrenhando na mata.
“Sáfir, o que você está fazendo?” Diz desesperado,
“matar um homem não é correto.”
“Cale a boca, matando você, não matarei um homem.
Alguém que escraviza seu semelhante não pode ser chamado de
homem.”
“Não escravizo ninguém. Pelo contrário, sustento muitas
famílias com a gráfica.”
Dou dois socos nas suas costelas, com toda minha força.
Faço seu corpo contorcer de dor. Aponto a arma para sua cabeça.
“De joelhos!”, espero ele ajoelhar, “pagar mil e
quinhentos reais para os funcionários não é sustentar famílias,
isso é garantir uma subsistência. Causa mais violência, é melhor
não pagar nada. Os filhos desses trabalhadores querem comprar
o tênis da moda, ter celular, bom material escolar, mas não
podem ter, porque seu pai ou mãe ganham uma merda de salário.
Pagam aluguel, pagam todas as contas para continuar vivendo
mal. Porque você apenas paga pouco. Diga aos filhos de seus
funcionários que os sustenta. Diga isso e será degolado.”
“É a realidade do capitalismo.”
Bato com força na sua cabeça, um soco potente,
swingado. Jair cai no chão. A raiva me dá uma força

46
sobrenatural, não pareço ter sessenta quilos.
“Seu grandíssimo filho da puta. A realidade do nosso
país? Vocês, os empresários, são os donos do nosso país, tudo
está nas suas mãos. É necessário apenas fazer sua parte deixando
de ganhar um pouco, apenas um pouco menos, dividindo seus
lucros com seus funcionários de uma forma justa, a vida seria
diferente. Não teríamos fome, ninguém estaria na rua. Teríamos
a verdadeira ordem e progresso.”
“Isso é utopia, Sáfir! O mundo é assim. O dinheiro
manda, quem o tem dá as cartas. Claro que pode acontecer
imprevistos, como este que estou passando agora, mas
mandamos nessa merda de país. Governamos o governo,
mandamos na política. Matando a mim, outros tantos
aparecerão. É como um dragão mágico, cortando uma cabeça,
aparecerão duas.”
“Que venham as duas.”
Puxo o gatilho e a arma falha. Tento novamente e falha
mais uma vez. Jair percebe e levanta lentamente.
“Parece que é meu dia de sorte.” Diz sorrindo de forma
irônica.
Vem contra meu corpo como um lutador habilidoso.
Caímos abraçados no chão. Ele pesa muito mais, monta no meu
peito e acerta bons golpes. Diz algumas obscenidades enquanto
golpeia. Tento segurar suas mãos, mas sou imobilizado. Recebo
muitos socos. Ainda tenho a arma na mão, aponto na direção da
sua canela esquerda e puxo o gatilho, desta vez ela funciona. Jair
sai de cima rolando de dor.
Levanto com dificuldade, apalpo minha boca, alguns
dentes caíram com os golpes. Aperto mais uma vez o gatilho e o
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acerto na barriga. Ele coloca as duas mãos no abdômen e
serpenteia na relva. Encosto o cano na sua testa, acima dos
olhos.
“Você quer morrer?”
Jair apenas me encara, meu rosto dói. Sinto meus olhos
inchados, meu peito, assim como minhas costas e quadril, estão
dormentes. Devo ter engolido os dentes perdidos, olho para o
chão e não os vejo.
Puxo o gatilho mais uma vez e a arma falha. Afasto a
arma de sua testa e sigo na direção da picape. Tiro a chave do
bolso, largo a arma no banco de carona e dou a partida. Não sei
dirigir, nem tenho habilitação. A picape não tem câmbio, passar
as marchas não é necessário. Sigo em frente, o saco de dinheiro
e arma com quatro balas. Ele fica no meio da mata, já
anoitecendo, com sorte vai morrer rapidamente.
Sigo na direção da cidade. Talvez a polícia já sabe do
sequestro e preciso me desfazer do veículo.
Procuro no porta-luvas papel e caneta e não encontro,
entro na cidade e decido parar no primeiro supermercado que
avisto. Todos os clientes olham apavorados para meu rosto.
Compro algumas folhas de ofício e duas canetas. Antes de
retornar para a estrada, escrevo três bilhetes e separo o dinheiro
em três montes iguais da forma que acho mais justo.
O primeiro monte de dinheiro com o bilhete “Invista
mais em Tomates-cereja” deixo num dos largos corredores de
plantas da floricultura da senhora que me vendeu os pés de
tomate. O segundo bilhete com o dinheiro, deixo na porta da
minha vizinha adolescente grávida, com a mensagem “para as
despesas com o bebê, invista na sua educação, dê a ele um
futuro digno”, o terceiro bilhete com o dinheiro deixo na porta
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da minha antiga casa “para ajudar com as despesas, viaje com
Linda pelo continente, tire longas férias e com a sobra compre
um presente para você.”
A primeira parte do planejado está concluída, agora
preciso partir para a fase mais fácil.

Agora só resta encontrar a escuridão.


Não existem saídas, portanto não há como fugir, e nem
quero. Uma semana, foi o combinado com o advogado –
observo meu reflexo no retrovisor, olho esquerdo roxo, pele
pálida, rosto de caveira faltando alguns dentes. Ensaio um
sorriso e conto quantos estão faltando. São quatro, um incisivo
central direito, os incisivos laterais e o segundo pré-molar
esquerdo. Aquele maldito monte de fezes republicano sabe soltar
bons golpes.
Não fico assustado com meu rosto cheio de hematomas
parecendo o Fester Addams. O problema ecoa nos meus olhos
vivos, meu corpo está morrendo e meus olhos continuam
brilhantes como os de um menino – será que já não foi o
suficiente? O que meus olhos ainda querem? Os olhos apenas
continuam brilhando e é por isso que devo levar o planejado
adiante.
Continuo dirigindo pela cidade. Ainda é cedo, tenho que
rodar mais um pouco. Para onde? Me pergunto. Jair ainda deve
estar agonizando na mata? Paro num bar, a gasolina da picape
está terminando. Desço, entro no estabelecimento, compro uma
carteira de cigarros e peço uma cerveja. O bar está cheio de
homens, alguns jogam sinuca na surrada mesa ao fundo, outra
turma joga baralho noutro canto, outros seguem sentados em
silêncio, apenas movimentando seus copos. Todos aqui dentro,
49
cansados de um dia infernal de trabalho, procurando de alguma
forma distração, uma pequena diversão para se sentirem livres,
mostrando que podem resistir a mais um ciclo de rotina. Suas
mulheres talvez estejam em casa cozinhando, passando,
cuidando dos filhos, trabalhando, estudando ou até trepando
com outros sujeitos que as fazem se sentirem vivas numa outra
pequena distração.
Fico distraído, bebericando a cerveja, olhando para essa
parte da humanidade. Na tevê o noticiário regional não mostra
nada sobre Jair, o tempo ainda está ao meu favor. Preciso
colocar o restante do planejado em jogo. Minha última cartada.

Chego na casa do médico responsável por retirar meu


pulmão doente, é noite, estou embriagado e fraco. Tudo é
silêncio no Bairro Burguês. Achei fácil seu endereço, lembro de
escutá-lo falando sobre sua casa de três andares amarela, dentro
daquele bairro, numa das intermináveis sessões de quimioterapia
onde eles roubavam minha sanidade. Contava à secretária o
quanto é difícil escolher uma piscina de cinquenta ou sessenta
mil litros, dar carros novos para seus afilhados, viajar pelo
mundo ganhando aquela miséria de vinte ou trinta mil reais por
mês. Quando alcanço a frente da casa tenho certeza, é a maior
entre as maiores e somente o doutor dentro de seu egocentrismo
poderia querer um lugar tão grande.
Toco o interfone e aguardo. Não sou atendido, volto para
a picape e espero.
O carro luxuoso e imponente encosta na frente da
garagem, é o médico e sua família. Desço rapidamente da
picape, antes dele arrancar bato na janela e sorrio mostrando os
dentes que sobraram. Assustado por me ver nesse estado

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deplorável, ele fica imóvel, apenas olhando meus hematomas.
Faço sinal para baixar o vidro.
“Olá, doutor!”
“Olá, filho! Está tudo bem?”
“Preciso falar com o senhor.”
“Certo, entre pelo pátio. Vou estacionar o carro e depois
preparo uma bebida. Você parece necessitar.”
Entro caminhando atrás do carro. O doutor é um cara
velho com aspecto de boneco de madeira, mas sua mulher ainda
é bela, talvez com quinze anos a menos, seus dois filhos têm os
cabelos alaranjados e sardas pelo rosto, pescoço e nuca. São
feios e desagradáveis.
Caminho por um jardim com flores de muitas cores. A
casa é enorme, desperdício total de espaço. A mulher e as
crianças seguem para um lado e vamos para outro. Chegamos a
um cômodo munido de frigobar, pebolim, um pequeno gol de
futebol, cama elástica. Um parque de diversão particular para as
crianças e as bebidas para os adultos. Sem dúvida uma sala
excêntrica. Ele serve dois copos com bebidas azuis sem gelo
que tem gosto de salsicha.
“Diga garoto, o que o traz aqui?”
“Preciso de algumas informações.”
“Claro. É sobre a recuperação da cirurgia?”
“Não. É sobre doação de órgãos.”
“Não compreendo.”
“Quero doar meus olhos. Eles não me pertencem. São

51
vivos e brilhantes. Um garoto faria melhor proveito com eles.
Assim como outros órgãos.”
“Você enlouqueceu?”
“De forma alguma.”
“Mas parece que sim!”
“E ainda posso doar outras partes do meu corpo. Salvar
pessoas querendo viver. Quanto tempo um corpo pode ser
aproveitado para doação?”
“Isso é loucura.”
“Quanto tempo, doutor?”
“Depende. Até 6 horas depois de parar o coração, caso a
morte seja cerebral. Isso é um processo muito delicado, os
médicos precisam colocar o doador em cima da mesa de cirurgia
o mais rápido possível.”
“Para facilitar o trabalho devem saber onde está o corpo
do doador. Não é mesmo?”
“Exatamente.”
“Devo me matar, por exemplo, dentro do hospital.”
“Sim! Quero dizer, não. Meu Deus, essa conversa é uma
completa loucura.”
“Quais os órgãos que podem ser aproveitados?”
“O coração, o fígado, claro, estando em bom estado; os
dois rins, pâncreas, o intestino, as córneas, ossos, pele, válvulas
cardíacas. Na verdade vai depender do estado do corpo e os
motivos da morte.”

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“Obrigado doutor!”
Saio na direção do portão, tropeço por cima das flores e
acabo amassando parte do jardim. Escuto o médico chamando
ao longe.
“Ei, Sáfir! É isso mesmo que deseja?” Olho na sua
direção, movo a cabeça concordando. “O suicídio não pode
acontecer em qualquer hospital. Tem de ser no Hospital de
Transplantes do Estado, lá estarão preparados para o
procedimento.” Conclui.
“Ok! Obrigado!”
Ele abre o portão com o controle e sigo para a picape. O
médico falou sem ficar muito preocupado, acredito ser
proposital para não me encorajar a praticar o suicídio. Ele
imagina que o medo me fará mudar os planos, está enganado.

De noite tudo esfria, reclino o acento, sigo dirigindo pela


cidade e estaciono numa rua qualquer. O mostrador de
combustível já está no alerta há muito tempo. A rua quieta,
decido dormir minha última noite antes da escuridão, evito olhar
para o retrovisor, não quero meus olhos vivos me vigiando, não
quero explicar nada, sou um homem durão, com colhões, não
preciso de olhos vivos. Um menino, precisa dos meus olhos, um
menino que não vê e acredita na humanidade, pois meus olhos
ainda acreditam em tudo, não me pertencem, sou descrente, acho
os humanos repugnantes.
Meu coração ainda tem jeito, pode ser doado para uma
garota que gosta de ler poemas, isso seria maravilhoso, meu
coração é sensível, gosta das artes. Meu único pulmão não terá
jeito, fígado e pâncreas podem ser doados para bons velhinhos,
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ajudá-los na digestão para ficarem sentados em suas cadeiras de
balanço sem preocupação. Adormeço com dor na boca, costelas
e cabeça. Minha última noite de sono.

Sou acordado com batidas na janela. O sol está quase


centralizado no céu. Um policial com cara de zangado faz sinal
para baixar o vidro, fico desesperado, mas seguro a onda.
Baixo o vidro lentamente, pressionando e largando o
botão eletrônico.
“Bom dia, senhor!” Diz ele.
“Bom dia, seu guarda!”
“Recebemos uma denúncia sobre uma picape parada a
noite inteira aqui.”
Percebo minha burrice por ter passado a noite inteira
dentro de um carro roubado parado no meio da cidade.
“Tive uma noite ruim”, digo.
“Compreendo. Preciso ver seus documentos e os do
veículo.”
Baixo meu corpo na direção do porta-luvas tentando ter
uma boa ideia nestes poucos segundos. O revólver está embaixo
do banco do carona, não quero matar um policial. Jair merecia
morrer e mesmo assim não tenho certeza que está morto. O
policial tem uma das mãos no coldre, sem sombra de dúvida é
mais rápido e serei baleado, sem chance de reação.
Abro o porta-luvas e por sorte tem alguns papéis lá
dentro, os pego e entrego nas suas mãos e antes dele perceber
que não são os documentos, junto a arma no chão do lado do
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carona, tiro meu corpo pela janela, quase pendurado e encosto o
cano do revólver na sua testa.
“Jogue sua arma bem devagar no chão”, ele joga a arma
lentamente, “agora entre na picape”, ele entra do meu lado, “não
vou machucá-lo, só preciso chegar ao Hospital de Transplantes
do Estado. Então, descerei agora e apanharei sua arma.
Enquanto isso, pule para o banco do motorista e vai dirigir para
mim. Entendido?”
“Sim”, ele responde com dificuldade. Está tremendo,
nem parece que fora treinado para isso.
Tiro a chave, saio do carro, pego a arma do chão e
trocamos de lugar. No caminho penso em conversar com o
sujeito, pedir a ele porque escolheu sua profissão, mas não gosto
de policiais e prefiro ficar quieto.
A gasolina está prestes a terminar, ordeno a parar num
posto, miro o cano na direção da sua barriga.
“Você tem dinheiro?” Pergunto.
“Sim.”
“Então pegue vinte pratas e peça para o frentista colocar
o valor em gasolina.”
O dinheiro não dá para muita coisa, o tanque continua no
alerta, contudo dará para chegar ao hospital. Voltamos para a
rua.
“Você está muito ferido?” Pede o policial reparando nos
meus hematomas.
“Nada grave. Ficarei bem.”
“Vai matar alguém no hospital?”
55
“De certo modo, sim!”
O policial continua dirigindo. De repente seu rádio,
pendurado na cintura, chama. São alguns policiais querendo
ajuda no Centro da cidade. Ele não atende, o aparelho chama
mais vezes, coisas banais do dia a dia. Ser policial, com certeza,
é a coisa mais perto de ser um vagabundo de salário fixo.
Quando dobramos a esquina para o acesso do hospital,
algumas viaturas estão saindo de lá, reparam na farda do meu
motorista, mas seguem viagem, fico aliviado. O ordeno a parar.
“Vou descer aqui” digo, “quero que dê a volta e dirija até
não poder mais vê-lo. Não freie ou volte, do contrário, farei
reféns e muito sangue vai voar pelas paredes. Vá em paz, não
farei mal a ninguém.”
O policial não diz nada, apenas manobra a picape e
cumpre o combinado.
Fico olhando a camionete desaparecer na reta e adentro o
hospital. Vejo pessoas por todos os lados, na espera, parecendo
patéticas na fila da morte, a um passo do nada, apenas
continuam lutando por suas vidas, agarrados na esperança de um
órgão cair do céu. É como sortear um bife no meio de 1000
refugiados.
As pessoas partirão em breve, lutando contra a falência
da vida, contra o tempo, precisando de algo novo para continuar
funcionando. Precisam de alguém numa distância de 6 horas
para doar um pedaço de vida. A morte pode ser tão patética
como a vida. A esperança é a fraqueza dos humildes.
A vida é o imenso quebra-cabeça, como dominó jogado
por jogadores experientes, jogadores de cadeia. A roleta Russa
dos órgãos, a sorte lançada, um prato de sopa no meio da
56
madrugada de inverno para satisfazer cem famintos. Atravesso
as cadeiras de espera e caminho até a recepção.
“Preciso falar com o médico responsável”, digo à
recepcionista.
“Responsável por qual das áreas, senhor?”
“Responsável pelo hospital.”
A recepcionista ri de uma forma amarela, pega o telefone
e disca um ramal, antes que possa falar levanto minha camiseta e
deixo a mostra o cabo das armas na minha cintura.
“Desligue o telefone. Preciso muito falar com o médico
responsável. Por favor, moça. Seja inteligente e me ajude.”
Ela concorda assentindo. Coloca o telefone no gancho.
“Levante daí e me leve ao médico responsável.”
Ela concorda novamente, mas sem levantar.
“Moça, levante daí e me leve a ele, não tenho tempo a
perder.”
Enfim ela levanta e seguimos na direção de uma porta de
acesso restrito aos funcionários, passamos pelos seguranças, que
não notam a situação. Prosseguimos por corredores vazios.
“Você vai matá-lo?”
“Não. Preciso falar com ele. É um caso raro sobre
doação de órgãos.”
“Tudo bem, mas fique sabendo que ele merece morrer, é
um cretino.”
Rio da situação, um caso que conheço bem, no qual o

57
funcionário odeia o chefe.
“Ele vai ouvir, mesmo sendo um cretino. Como pode
notar tenho argumentos fortes, mas minha intenção não é matá-
lo.”
A recepcionista suspira frustrada e prosseguimos
caminhando. Algumas pessoas passam por nós no caminho.
Nenhuma parece assustada com meu estado lamentável. Pareço
um paciente.
Subimos de elevador até o quinto e último andar,
paramos na frente da porta com a placa, escrito PRESIDÊNCIA.
A recepcionista bate na madeira. Escuto ao longe, sirenes de
viaturas policiais chegando perto do hospital. Preciso apressar o
plano.
“Bata novamente!” Ordeno.

A porta abre lentamente. Sou atendido por um senhor


simpático com os cabelos e barba tão brancos quanto a neve. É
velho, mas parece saudável.
“Bom dia!” Ele diz sorrindo.
“Bom dia, doutor!” A recepcionista responde.
“Precisam de ajuda?”
“Este senhor” ela diz, “gostaria de conversar com o
responsável pelo hospital.”
“Claro, pode entrar.”
Fico surpreso pela facilidade que ele permitiu minha
entrada. Adentro na sua sala sem a necessidade de mostrar a

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arma ou sequer falar algo.
Ele dispensa a recepcionista e com um sinal sou guiado
até a confortável cadeira dos visitantes. Sua sala é imensa, com
biblioteca, móveis cor de caramelo, mesa de reuniões.
“Diga rapaz, o que o traz aqui?” Segue sorridente.
“Quero doar meus órgãos.”
“Ótimo!” Diz surpreendendo, “avise seus familiares
sobre seu desejo e quando morrer seus órgãos ajudarão muitas
vidas.”
“O senhor não entendeu. Quero doar meus órgãos
agora.”
O telefone toca. Ele atende e começa a responder apenas
com palavras vagas até desligar.
“A polícia está no hospital procurando um sujeito com
suas descrições.”
“Desculpe por esse escândalo no seu hospital, doutor.”
“Tudo bem, mas o hospital não é meu, é do povo. Sou
apenas o presidente. Não o entregarei, apenas quero que
mantenha a calma. Tudo bem?”
“Tudo bem.”
Pega o telefone novamente, disca um ramal.
“Madalena, diga aos policiais que esse rapaz foi visto
indo na direção leste e não está mais no hospital.”
Coloca o telefone no gancho e sorri tranquilo.
“Pronto rapaz. Agora podemos conversar com mais

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tranquilidade.”
O velho tem estilo. Corajoso. Reparo nas fotos de
crianças espalhadas pela estante as suas costas. Alguns diplomas
na parede em molduras baratas, e no meio, em destaque, um
grande quadro de Guevara, jovem, sem barba, todo de branco,
sorrindo para a câmera. Um belo retrato del Che estudante de
medicina em Buenos Aires que poucos conhecem. Sorrio para o
velho, mostrando meu sorriso sem dentes.
“Você é durão rapaz. Entrar aqui, render uma
recepcionista e vir até minha sala foi demais. Estou admirado.”
“Só quero salvar algumas vidas, doutor.”
“Não precisa me chamar de doutor, se quer fiz
doutorado” ele ri “me chame apenas de Lauro.”
“Ok, Lauro, só quero arrebentar meus miolos aqui na sua
sala, doar alguns órgãos e partir. Ficar no nada e nunca mais
precisar olhar para a humanidade.”
“Certo, faça o que convêm, mas antes servirei um
drinque, pode ajudá-lo a pensar melhor. Uísque com água, 2/3
no copo.”
“Agradeço, realmente preciso de um drinque.”
Lauro levanta, serve os copos com extrema habilidade.
Completa com uma pedra de gelo que fica como um Iceberg
solitário num mar de mijo. Alcança o copo, bebo em apenas um
gole, o líquido aquece, me sinto vivo. Tiro as duas armas da
cintura e repouso em cima da mesa.
“O senhor tem cigarros?”
“Tenho. Aqui estão”, abre uma gaveta em sua mesa e

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alcança junto com o isqueiro.
Levanto, acendo o cigarro e caminho fumando até a
janela do consultório, a vista é agradável, posso ver as matas ao
sul, os bairros burgueses ao sudoeste. Um bom lugar para levar
uma garota e impressioná-la. Dou conta que esqueci os dois
revólveres em cima da mesa. Viro esperando que o doutor tenha
pegado e os aponte para mim, mas, para meu espanto, ele
continua impassível na sua cadeira, tragando seu cigarro.
“Surpreso garoto?” Pergunta percebendo minha reação.
“Um pouco.”
“Sente aqui, vamos calcular quantas vidas você pode
salvar com esse corpo que mais parece um trapo.”
Sento na sua frente. O velho tem um aspecto jovial, seu
sorriso é cínico, mas transparece confiança. Parece que engana
bem, talvez ele tenha menos esperança no mundo do que posso
imaginar. Podemos até sermos parecidos.
“Mais uma bebida?” Oferece.
“Por favor.”
Ele levanta e serve mais um dos 2/3. Vem na minha
direção sorridente, passa o mais cheio. Tomo novamente em
apenas um gole.
“Você tem sede rapaz. Quer mais um?”
“Por favor.”
Ele levanta e serve mais uma dose 2/3.
“Sabe rapaz, é louvável o que deseja fazer. Um ato
corajoso, poucos homens têm essa coragem, mas acho que você

61
pode mais, ser mais ganancioso.” Diz alcançando o copo e
sentando na poltrona a minha frente, atrás de sua mesa “quer
trabalhar para mim?”
“Trabalhar para você?”
“Sim… A propósito, ainda não sei seu nome.”
“Sáfir Opal.”
“Certo, Sáfir! Tenho um negócio promissor. Pago bom
salário. Tenho alguns colaboradores, mas ainda não consegui
encontrar alguém como você, com tamanha coragem.”
“Odeio trabalhar!”
“Também odeia corrupção, injustiça, miséria entre outras
pragas que assolam a humanidade?”
“Óbvio!”
“Então minha proposta de trabalho é do seu interesse.”
“E qual é?”
“Bom, vamos direto ao assunto. Sou fundador dos
Assassinos de Anúbis. Modéstia à parte, tive essa ideia
enquanto, ainda muito jovem, assistia a um programa de história
egípcia no horário das oito.”
“E o que fazem?”
“Matamos políticos corruptos. Simples, se a ética do
sujeito for mais pesado que A Pena da Verdade ele morre
devorado por Ammit. E tudo é supervisionado por Anúbis.”
“Isso é tentador.”
“Sim, os matamos, na verdade, todos são julgados.

62
Sendo culpados, meus funcionários matam, trazem o corpo para
cá e retiro seus órgãos para transplante. Assim como Anúbis,
preparamos o corpo, o dissecando.”
“E a polícia?”
“Ainda não matamos policiais corruptos. Quem sabe no
futuro.”
“Não é isso que pergunto, quero saber, algum de seus
funcionários já foi preso?”
“Não, não. Nunca. O nosso esquema é perfeito.”
“O trabalho de vocês é magnífico, mas preciso morrer,
meu testamento será aberto na próxima semana e tenho de
ajudar uma pessoa com ele.”
“Aceitando minha proposta darei um jeito de forjar sua
morte.”
Não quero aceitar a proposta, nem emprego, muito
menos continuar vivendo.
“Desculpe, Lauro. Não posso aceitar, meus olhos não
pertencem ao meu rosto, eles brilham, sempre querendo viver,
não conseguirei conviver com isso.”
O velho sorri, abre sua primeira gaveta, tira de lá um
óculos escuro e atira na minha direção, também pega um
pendrive e conecta no notebook.
“Coloque os óculos escuros se não quer ver seus olhos e
venha cá, preciso mostrar algo.”
Coloco os óculos. Levanto, dou a volta na mesa e paro
ao lado de sua cadeira. Uma foto na tela do computador. É o
velho Lauro de jaleco branco, com mais três homens vestidos,
63
da cabeça aos pés, de preto. Eles sorriem muito alegres. Todos
de botas de combate, calça especial cheia de bolsos, cinto de
utilidades e suéter. O cenário é um imenso jardim. Parecem
preparados para uma ação especial.
“Vê os sorrisos deles? Repare nos olhos.”
Todos têm lindos sorrisos e olhos brilhantes. Preciso
frequentar um bom dentista para ter um sorriso como os deles.
Seus olhos são realmente muito vivos, olhos de meninos, mais
brilhantes do que os meus.
“São olhos bem brilhantes”, concluo.
“São, Sáfir! São como os seus, olhos de quem acredita
na justiça. O que fazemos é bem mais do que livrar o mundo de
políticos corruptos, damos outra serventia para seus órgãos.
Damos outra chance para a vida.”
“Preciso pensar.”
“Quer mais um drinque?”
“Não sei. Estou muito cansado, preciso dormir um
pouco.”
“Ok! Pode descansar no meu divã.”
Levanto e caminho até o divã, exausto não penso em
mais nada. Deito, fecho os olhos e adormeço.

Quando acordo, os três caras que estão com o médico na


foto se encontram na minha frente.
“Olá!” Digo.
Lauro continua sentado em sua confortável cadeira
64
reclinável.
“Sáfir, esses são meus homens” diz Lauro, “fiéis
colaboradores dos Assassinos de Anúbis. Vou apresentá-los! O
de cabelo raspado é chamado de Braço, meu paciente. Entrou
aqui no hospital com alguns órgãos perfurados e com o braço
decepado. Prometi salvar sua vida, em troca pedi que fosse fiel a
mim. Passei ele na frente de outros pacientes que estavam na fila
de espera. O salvei, resolvi o problema do braço e depois da
recuperação cobrei o favor. Ele tem um braço mecânico.” O
homem acena com um braço de metal. “O segundo chamamos
de Fêmur. Ele teve uma doença rara no osso que lhe dá o nome,
arrumei um fêmur adulto para ele, claro, já contava com ajuda
de Braço. Transplantei e depois o recrutei. Precisa usar uma
prótese exosqueleto.” Ele sorri para mim, parece um soldado
experiente. “O terceiro é chamado de Terceiro. Nunca teve
problemas de saúde. Na verdade, ele me assaltou no farol.
Consegui o convencer a sair daquela vida e passou a trabalhar
para mim. Esse é o time de elite dos Assassinos de Anúbis.
Claro, temos outros membros espalhados por aí. Policiais,
agentes penitenciários, outros médicos querendo ajudar a
sociedade, mas estes não realizam tarefas de campo. Cobrimos
toda a parte Sul do país.” O terceiro acena sorridente. É negro,
alto e muito forte.
Sento no divã, as dores fazem minha existência ainda
mais amarga. Penso em falar para Lauro e seus rapazes que não
consigo matar pessoas, mesmo querendo. Entretanto mudo de
ideia. Imagino o tempo que deixava a tevê ligada entre uma crise
respiratória e outra, quando meu câncer era agudo, sempre era
noticiado o sumiço misterioso de alguns políticos. Aquilo fazia
bem, por sorte só os corruptos sumiram. Eram os Assassinos
trabalhando.

65
“Tomate-cereja” falo e todos olham sem entender,
“Tomate-cereja” repito.
“O garoto é maluco”, diz Fêmur.
“Doido de pedra”, diz Braço.
“Ele não é!” Diz Terceiro e sorri pra mim, “é seu novo
nome. Seja bem-vindo, Tomate-cereja!”
“Obrigado! Aceito trabalhar com vocês com uma
condição.”
“Pois diga”, fala Lauro.
“Preciso visitar um dentista.” Completo sorrindo,
mostrando os poucos dentes na minha boca. Todos riem.
Sempre reparei nas pessoas, sempre as julguei
medíocres, esperando a morte ou ganhar na loteria. Reféns de
um sonho americano. Com o tempo fui percebendo que o
problema é muito maior. As pessoas são medíocres porque são
manipuladas para que algo que compre traga sua felicidade e só.
Acreditam na tal história que os últimos serão os primeiros e que
o céu é dos pobres. Pura marcação de gado, mentira total.

Com o tempo, percebi que o problema era muito mais


profundo e, além de não ter lógica, é cruel. Como uma
multinacional escravizando pessoas do outro lado do mundo de
sua sede. Uma fábrica de automóveis decide demitir seus
funcionários para trocá-los por máquinas, como se eles fossem
animais. Pessoas têm e querem muito mais do que necessitam, e
sempre querem mais do mais. O sistema em que vivemos não
tem lógica, dentro do labirinto tentamos encontrar a solução
para essa loucura. Deixamos de ser “animais”, mas agimos
66
como coisas piores do que animais, pois dentro da sua
irreparável irracionalidade os animais tendem a, pelo menos,
respeitar o ambiente em que vivem.
Agora sou um Assassino de Anúbis.

67
68
Assassinos de Anúbis
Com o tempo tudo passa, as tecnologias, as facilidades,
(in)felicidades.
Com o tempo tudo vai embora, as viagens, as tempestades,
as regras gerais.
Com o tempo ficamos menos ciborgues, a cara murcha e a
bunda cai.
Sobra o humano e então você vê o resultado.

Parte II
Bengala
69
70
– Você havia dito que ela tinha morrido de infarto – digo.
– Sim, foi o que Genaro havia me dito.
– Mas o Thomas falou que tinha sido derrame e na parte
da tarde, tentaram levá-la para outra cidade inutilmente –
concluo.
– Aí já não sei o que dizer. Só sei o que Genaro
comentou.
– Ok! Vou falar com ele sobre isso. Obrigado Leitão.
– De nada, Natal.

Thomas disse derrame, Genaro infarto.


– Ei, Cassi – a chamo do outro lado da sala – sabe como
minha tia morreu?
Ela caminha na minha direção.
– Falência dos órgãos, não foi?
– Não sei! Thomas diz uma coisa, Genaro outra, Leitão
está dividido e você acaba de dar a ela outra morte. Não
compreendo. Quem foi o responsável pela necrópsia?
– Não sei.
– Ok. Obrigado, Cassi.
– De nada, Natal.

71
Sempre achei os moradores da pequena cidade de Nova
Harz, localidade fundada por imigrantes alemães e esquecida
pelo tempo, pessoas estranhas e quando mudamos para a
Capital, não tive objeções. Hoje Nova Harz tem quinhentos e
oitenta e três habitantes. Agora voltei para enterrar minha única
tia, irmã de meu pai, Teresa.
Tia Teresa faria 80 anos em poucos dias, mas apareceu
morta dentro de sua casa em circunstâncias misteriosas, isso faz
2 dias. Não sei a hora, nem os reais motivos, ela apenas estava
no chão da sala, morta, e agora está ali no caixão, gelada com
um quase sorriso no rosto.
As pessoas que conheci durante o tempo que morei em
Nova Harz estão menos ou igualmente informados como eu.

– Olá, Genaro!
– Olá, Natal!
– O Leitão disse que você comentou sobre a morte da
minha tia. Foi infarto?
– Sim, mas foi o próprio Leitão que confirmou para
mim. Cassi ou Thomas tinham comentado alguma coisa sobre
isso.
– Certo. Vou falar com eles – digo fazendo com que ele
não fuja da conversa – mais uma coisa, sabe quem foi o
responsável pela necrópsia?
– Não sei, Natal. Talvez o doutor do posto de saúde, o
Max. Ele está ali perto do caixão. Era grande amigo de sua tia.
– Obrigado, Genaro. Vou falar com ele.

72
Max está sentado ao lado do caixão. Olhar taciturno,
cabelos brancos, óculos com armação antiga. Um velho
tranquilo com certo ar aristocrático, mas passa confiança. Chego
perto dele.
– Olá, Max.
– Olá, filho. Estou muito triste. Eu e sua tia éramos
grandes amigos.
– Acredito em suas palavras – pouco importa a relação
que eles tinham, quero saber da verdade – o senhor foi
responsável pela necrópsia de titia?
– Fui, sim. A examinei depois de seu falecimento e
preenchi seu atestado de óbito.
– Ótimo. Qual foi a causa da morte?
– Infarto no miocárdio. Fulminante, morreu em menos
de um minuto. O que conforta é a ausência de sofrimento. Sabe,
ela…
– Obrigado, Max – o interrompo.
– De nada, filho. Sabe, eu e sua tia éramos grandes
amigos – ele insiste – ela sempre me procurava para ajudar nas
suas caridades. Não sei o que dizer. Simplesmente estou muito
triste.

Enterro o corpo de tia Teresa, meu único parente na


cidade no fim do mundo. Até o final da tarde assino os papéis,
autorizo a abertura do testamento. Ela deixou a sua casa para a
caridade e suas outras posses também, mas tudo tem de passar
73
por minha autorização, não fiz objeções. Quero sair o mais
rápido possível de Nova Harz.
No começo da noite dirijo novamente para a Capital,
enfim voltando para a casa. Penso em nunca mais voltar para a
miserável cidade de quinhentos e oitenta e três habitantes.
Dirijo pela autoestrada com o rádio no volume máximo,
cantando as músicas, mascando chiclete, bebendo refrigerante.
Não estou, sobre hipótese alguma, triste por tia Teresa.
Conversamos poucas vezes enquanto morei em Nova Harz,
nunca me senti atraído por conversar com aquela figura tão sem
luz, inacabada, sem graça. Uma velha, nada mais.
Sinto fome e resolvo parar no primeiro posto e mandar
para dentro um pastel e uma xícara de café com leite. Estaciono
o carro perto da entrada.
Entro na conveniência do posto, percebo que sou o único
cliente. Faço o pedido e caminho até as mesas. Sento olhando
pela vidraça, lembro do tempo que morei em Nova Harz.
Apenas um pré-adolescente tímido e pouco dedicado aos
estudos. Genaro, Thomas e Leitão foram meus colegas de classe,
eram fortes e burros, gostavam de brigar nos intervalos, mas
sempre me deixaram em paz. Nunca tivemos intimidade. Hoje
são respectivamente o tabelião/prefeito, padeiro e delegado.
Cassi, mais nova, era uma criança quando parti, hoje é
professora da única escola em funcionamento na cidade, a
Escola Municipal Tia Teresa, sim, o nome é em homenagem a
minha tia pelo conjunto de sua obra caridosa. Doutor Max é
novo na cidade, o conheci hoje no enterro, parece que sempre
foi velho. Pensar nisso dá náusea. Não termino o lanche, pago a
conta e saio da conveniência. Quando vou embarcar no carro
para prosseguir a viagem, a vejo.

74
Ela pede carona para alguns motoristas, caminhoneiros
parados no posto. Sei que o preço de viajar com eles para uma
garota como ela, poderá ser caro demais. Corre risco de ser
estuprada, talvez assassinada e abandonada na mata. O motorista
do caminhão estacionado a frente conversa com ela, muito
dedicado lhe dá toda atenção, é como um cachorro olhando para
um pedaço de carne. Espero ela olhar para onde estou e faço um
sinal. Ela fica curiosa e vem ao meu encontro, e quanto mais
chega perto, mais vejo o quanto é jovem.
– Olá, senhor – ela me chama de senhor, mal passei dos
30 anos.
– Olá, garota. O que você faz por aqui?
– Preciso de uma carona.
– Para onde está indo?
– Para qualquer lugar, só preciso de carona.
– Quantos anos você tem?
– 19! – Aparenta ser mais jovem, mas sua resposta é
rápida e convincente, deve estar sendo sincera.
– Está viajando sozinha?
– Sim.

Olho para ela, olho para aqueles caminhoneiros rotos.


Penso em fazer uma boa ação tirando ela desse lugar tão
diferente dos lugares que ela deveria estar.
– Como é seu nome?
– Paloma Frances.
75
– Nome estranho…
– E como é o seu?
– Natal. Na verdade, é meu apelido, meu nome é
Natalino Solda.
– Depois meu nome é estranho.
Rimos, deixo ela entrar, dou a partida e alinho o carro na
estrada.

– Por que está viajando sozinha?


– Gosto de aventura!
– De onde você vem?
– Do norte do Estado…
– Onde você mora?
– Moro em mim, mas nasci em San Madre.

Suas respostas são muito vagas. A garota é realmente


bela, tem aspecto frágil, talvez não tenha mais do que cinquenta
quilos. O cabelo é simples, quase ruivo, escorrido e muito
grande, como uma “Maria Mijona”. Não usa maquiagem, nem
brincos. Olhos brilhantes, grandes e castanhos. Veste camiseta
desbotada que um dia foi preta e é grande demais para ela, usa
calça jeans rasgada nos joelhos, calça um All Star verde muito
gasto.

– Há quanto tempo está viajando?


76
– 5 meses.
– Uau! 5 meses sem voltar para casa. Grande aventura.
– É – responde displicente, sem dar valor a sua própria
façanha – e você é de onde?
– Sou da Capital e estou somente um dia fora de casa.

Sigo dirigindo, o rádio ligado, janela semiaberta, o vento


balançando meus cabelos. Alguns minutos de viagem e Paloma
coloca seus pés sobre o painel, reclina o banco e acende um
cigarro.
– Isso não são modos de andar no carro de um estranho.
– Você não é estranho. Seu nome é Natalino – ela ri – o
conheço há quanto tempo? 1 hora? Não leve a mal, preciso
descansar as pernas.
– Você precisa de banho e roupas novas. Já trocou de
roupa nesses 5 meses?
– Algumas vezes.
– Há quanto tempo fuma?
– Não sei ao certo. Faz muito tempo.
– Isso mata, você sabe disso.
– Sei, mas sempre gostei de brincar com o fogo.
Não respondo, apenas abro ainda mais as janelas. Penso
no meu dia. No meu passado. E na ousadia da minha passageira.

77
Sempre me achei melhor que os moradores de Nova
Harz, afinal, fui para a cidade grande, estudei em bons colégios
e universidade. Eles ficaram lá, esperando algum profissional
morrer para pegar o seu lugar. Apesar da realidade atual da
cidade ser outra. Sempre acreditei que nunca sairiam de lá e
minha tese foi comprovada quando entrei novamente na cidade.
É incrível como não tenho apresso por nada de lá. Espero nunca
mais chegar perto de Nova Harz.

– No que trabalha? – Paloma pergunta me tirando das


lembranças do passado.
– Sou comprador de uma multinacional que manufatura
materiais de cirurgia.
– Comprador, é só isso?
– Sim, é só isso.
– Seu trabalho deve ser uma merda.
Olho para ela, que prossegue impávida olhando para o
horizonte e tragando o cigarro.

Trabalhar como comprador não é de todo ruim. O salário


é atraente, basta ficar sentado e fazer algumas ligações. A parte
ruim é andar de sapatos e camisa de colarinho o dia todo, mas o
resto, com o tempo, fica suportável.

– Há quanto tempo?
– Há quanto tempo o quê? – Respondo com outra

78
pergunta um pouco irritado pela insolência da garota, tenho
vontade de parar o carro e mandá-la descer.
– Você tem esse trabalho de burguês.
– 8 anos. Logo depois da minha formatura.
– Legal, quase me fez dormir. Muito bom seu trabalho,
se você quer andar de sapatos, ir para praia em janeiro, ir para a
serra em junho, churrasco aos domingos, ter uma mulher com
sobrepeso, dois filhos que mais parecem máquinas de fazer
cocô.
– Ok, ok, você ganhou, sua sabe tudo. E você?
– Eu o quê?
– Você trabalha?
– Não. Roubo às vezes para matar a fome, mas não
considero trabalho, é mais uma diversão.
– E sua família, seus pais trabalham?
– Não tenho pais…
Ela fica séria e faz silêncio mortal, não quero entrar em
detalhes, parece que foi separada dos pais por uma grande
tragédia. Não quero discutir. Sigo dirigindo.

– Você é casado? – Interrompe o silêncio.


– No momento solteiro. Nunca fui casado, tive alguns
relacionamentos que não duraram.
– Caso sirva de consolo, apesar de meio gordinho, é
bonito. Meio coroa, mas bonito.

79
– Nossa! Fico muito lisonjeado, vindo de uma sem teto –
concluo vencedor.

Rio sem graça. A garota não tem freios na língua. Faz


careta e vira o rosto. Contemplando a paisagem.

Sempre gostei muito de mulheres. Passei minha


adolescência as admirando só que elas não prestavam atenção
em mim. Depois virei adulto e continuei não sendo reparado
pelo sexo oposto. Por isso, fui em busca de um excelente salário,
bom carro, apartamento no melhor bairro de classe média da
Capital. Então passei a chamar atenção e continuo apreciando as
mulheres da mesma forma. Aprendi a jogar o jogo e agora sou
eu que dou as cartas.

– Estamos chegando – digo – você tem algum lugar para


ficar?
– Não. Quero ficar no Centro. Me viro por lá.
– Está anoitecendo. O Centro é o lugar mais violento da
cidade à noite. Não a deixarei lá.
– Hei, coroa! Sei me virar – diz ela tirando do bolso um
spray de pimenta.
– Isso pode dar certo com seus amigos adolescentes, aqui
é mais sério e não é nenhum pouco prudente, caso fosse não
pediria carona para caminhoneiros no posto.
– Você não é meu pai!

80
– Ainda bem.
– Pare o carro – ela ordena.
Paro, ainda faltam alguns quilômetros para o Centro e o
dobro da distância até minha casa. Ela sai batendo a porta com
força.

Sou filho único. Meu pai era marceneiro e minha mãe


babá. Eles largaram seus empregos no interior, decidiram tentar
e prosperar na Capital. Os anos passaram e com 5 anos na
metrópole tínhamos uma casa confortável, carro, telefone fixo,
depois internet, tevê a cabo, ar-condicionado, todos os luxos
possíveis. Nunca passamos necessidades. O meu único dever foi
estudar. No segundo grau fui matriculado numa escola particular
e depois universidade. Tudo fácil e meus pais tiveram muito
orgulho de mim. Eles morreram, fiquei sozinho. Até hoje não
sei; será que os amei? Na verdade, não sei se amei na vida.
Fui para a Itália, depois Austrália, nadei em Fernando de
Noronha e esquiei na Argentina. Emocionante? Nem perto
comparado com viajar 5 meses pelo Estado de carona, mentindo
por aí com um spray de pimenta no bolso, roubando para seguir
em frente. A garota tem coragem e algo mais forte do que a
vontade de ir para casa, assistir alguma série, faz querer
conhecê-la melhor.

Dou ré até alcançá-la.


– Ei! Entra aqui, a levarei até o Centro! – Digo com o
vidro do carona aberto, engato a primeira marcha e vou
acompanhando seus passos.

81
– Não preciso de você! Não preciso de ninguém!
– Entra aqui. Por favor. Desculpe pela grosseria.
– Não. Deve ter metrô por aqui em algum lugar.
– Tem sim a, mais ou menos, quinze quilômetros ao Sul
– ela olha para trás, muito frustrada.
– Babaca… O que aconteceu? Ficou com medo de viajar
sozinho?
– Babaca ou não, posso tirá-la daqui. Entra…
Ela entra batendo a porta com ainda mais força. Dirijo
pela autoestrada de acesso à Capital, faço alguns retornos e
contorno o Centro. Paloma não percebe e deduzo que ela não
conhece a cidade. Paro em frente ao meu condomínio.
– Veja bem, Paloma. Você está um lixo, moro aqui neste
condomínio. Entre comigo, tome um banho, faça uma refeição
decente, durma um pouco na minha cama confortável e de
manhã você segue viagem. O que acha?
– Você tem banheira?
– Não.
– Tem cerveja na geladeira?
– Devo ter algumas.
– Ok. Eu fico.
Para alguém viajando apenas com sua mochila ela está
bem exigente. Subimos. Meu apartamento foi pago em cem
vezes, meu aconchego, decorado ao meu gosto. Sou
proprietário, não é como apartamentos alugados que não pode,
nem ao menos, pendurar quadros na parede, por não poder
82
avariar o imóvel. Não é minha realidade, posso derrubar uma
parede, pintar toda a sala de cores psicodélicas, jogar tênis na
cozinha, pular corda pelado. É meu canto. É onde posso ser eu
depois de um dia estressante.

– É bem aconchegante seu apartamento – ela diz jogando


sua mochila no chão e caminhando pelos cômodos.
– Obrigado. A cozinha é por aqui. Vou preparar o jantar.
Depois preparar o banho. Tenho algumas roupas femininas no
meu guarda-roupas. Caso necessite, pode pegar.
– Obrigado, mas não precisarei. Tenho outra muda na
mochila.
Entramos na cozinha. Paloma vai na frente, abre a
geladeira sem cerimônia, pega uma cerveja, uma maçã, dá meia
volta e segue para a sacada. Agora definitivamente tem estilo.
Parece uma monarca. Fico na cozinha preparando omelete e
torradas.
Terminamos o jantar e ela vai para o banho. Arrumo o
quarto das visitas para que Paloma possa deitar quando desejar.
Fico na sala assistindo a reprise da NFL sem pensar em nada até
adormecer.

Pela manhã acordo sem despertador, levanto do sofá e


espio as horas no relógio da cozinha, 10 horas, precisava estar
no trabalho às 7:30. Troco de roupa e saio correndo pelas
escadas, quando chego no carro lembro de Paloma. Volto
correndo e deixo um bilhete em cima da mesa das refeições:
“Precisei trabalhar, fique à vontade, volto ao meio-dia”.

83
No trabalho, depois de bater o ponto, sigo direto para
minha sala que, para minha surpresa, está ocupada por Ademir, o
garoto de 22 anos, responsável pelo almoxarifado, bilíngue, com
o cabelo perfeito e o sorriso mais branco que já vi. Está sentado
na minha cadeira reclinável. Se tivesse uma arma daria um tiro
na sua cara só pela ousadia.
– Olá, Natal – ele diz parecendo irônico.
– Olá, Ademir.
– O Derico precisa falar com você.
– Precisa mesmo, vou requerer uma boa explicação –
digo triunfal. Sigo até a sala de Derico, o chefe da repartição.
Quero respostas, saber do motivo para o garoto estar na minha
sala.
Cumprimento todos com o mesmo sorriso de sempre,
mas alguma coisa ocorreu na minha ausência. As pessoas da
repartição fingem não me ver e disfarçam, olhando para outro
lado. Chego na sala do chefe.
– Precisa falar comigo? – Pergunto ao Derico,
adentrando na sala.
– Sim, Natal! Sente-se – Derico ajeita alguns papéis na
mesa e prossegue – como foram as coisas em Nova Harz?
– Tudo bem.
– Bom. Como deve ter reparado, fizemos algumas
mudanças na sua ausência. A sua antiga sala vai ficar com
Ademir.
– É! Já percebi…
– Natal, infelizmente estamos te desligando da empresa.
84
Ordens superiores, redução de custos.
– O que? Sou o melhor comprador da repartição…
Digo algumas palavras feias e saio da sala. A notícia cai
como uma bomba. A sinceridade e a forma direta na qual
comunicou foi um choque, demoro até entender o que está
acontecendo, estou sendo demitido.

30 minutos depois, carrego uma caixa de mudança com


meus pertences para o carro. 8 anos de história dentro do
papelão. Sou só uma caixa velha para a empresa. Alguém que
fez sua parte e foi descartado.

Quando chego em casa, cansado de segurar a caixa,


encontro Paloma seminua, deitada no sofá, fumando e assistindo
um reality show musical com cozinheiros. Uma destas
aberrações da tevê aberto. São 11:45.
– Programa divertido? – Pergunto leve. Sinto felicidade
em vê-la no sofá. Por alguns segundos esqueci que fui demitido
e trocado por um garoto 10 anos mais jovem.
– Horrível, estou morrendo de tédio. O que é essa caixa?
– Meus pertences do escritório, 8 anos de souvenires. Fui
demitido.
– Mas que notícia maravilhosa. Temos que comemorar!
– O que?
– Sim, vamos comemorar. Podemos começar agora.
Quando saí para comprar cigarros vi um restaurante mexicano.

85
Parece ser bacana.
– Nunca comi comida mexicana.
– Melhor ainda. Mixiote, Guacamole e Burrito são meus
preferidos. Isso mesmo, vá trocar de roupa, vou colocar minha
calça.
Passa por mim com a camiseta sem sutiã. As coxas e a
bunda duras, sexy e perfeita. Suspiro e sigo trocar de roupa. Em
um minuto ela foi capaz de suavizar a situação. Quando
descemos para a garagem reparo que está descalça.
– E seu velho tênis?
– Lavei, estava imundo.
– E vai sair de pés no chão?
– Alguma objeção?
– Nenhuma. Não sei explicar, mas essa atitude não
surpreende.
– Que bom. É libertador estar de pés descalços, e ainda
mais quando todas as pessoas são escravas destas regras sociais
e ver alguém quebrá-las pode ser um choque, como foi pra você.

Por costume, e para preservar seus pés, decido ir de


carro.
– E agora?
– E agora o que?
– O que você vai fazer? Pensa, pode tirar férias
acampando num Grand Canyon, atravessar o pacífico com um

86
barco a vela – diz com os pés novamente no painel. Balança os
dedos como uma criança.
– Tentarei arrumar outro emprego o mais breve possível.
– Você é maluco!
– Não, sou realista. Preciso pagar as contas.
– Já fez seu acerto?
– Não… Será semana que vem.
– Isso vai render um bom dinheiro extra. O suficiente
para que possa relaxar e pensar na vida.
Suas palavras entram dentro do meu coração e fazem
morada. Fico refletindo como seria bom ficar sem trabalhar por
um tempo. Chegamos no restaurante. Comemos coisas
apimentadas que fico preocupado só de pensar em como serão
expelidas do meu corpo.

– Podíamos viajar juntos. Ir para o Chile, subir até a


Costa Rica. Estou indo para lá.
– Você está enlouquecendo garota. Não viajarei com
você.
– Por que não sou como você, um patético comprador?
– E o que a senhorita sabe fazer?
– Sei viver. Sei que passar frio dormindo no chão é
compensador porque verei o céu por completo, com todas as
suas estrelas. Sei que caminhar por aí é bem melhor do que
assistir a vida passar numa tela. Ficar e esperar é muito pior do
que ir e surpreender-se.
87
– Seu discurso é bem bonito. Pena não ser verdade. Sei
que dá muito trabalho ser assim como escolheu ser.
– Você é burro? Disse que ser assim é bom. Pode
acreditar que é bem mais difícil ser como você e os outros.
Pagar IPVA, IPTU, tarifas do cartão, cheque especial, prestação
da casa, do carro, conta de luz, condomínio. Canso só de pensar.
Terminamos a refeição em silêncio.

Sigo dirigindo até ela mandar parar gritando “PRECISO


DE SORVETE”, paro e enquanto ela desce para comprar o
imenso sorvete expresso, fico admirando a inocência agressiva
que carrega na sua personalidade. Jeans surrada, camisa solta,
pés descalços. Tenho vontade de convidá-la para dançar.

A tarde resolvo colocar algumas coisas em ordem.


Paloma tira suas calças e retorna para o sofá, liga a televisão e
fuma um cigarro. Preciso dar um jeito na caixa de pertences do
escritório. Todas as lembrancinhas de quase uma década de
rotina. Presentes de amigo-secreto, nem lembro quem me
presenteou com todas as xícaras horríveis, canecas ruins e tantas
porcarias sem sentido. Apenas o apontador do Darth Vader vale
a pena guardar.
– Ei – diz Paloma do sofá – podemos caminhar pelo
bosque. Vi um quando retornamos.
– Você saíra só de calcinha?
– Não. Colocarei minha calça e ande logo seu velhote,
precisa perder barriga.

88
– Não tenho tênis para caminhada, apenas sapatos.
– Você realmente não tem amor-próprio, podia, pelo
menos, cuidar melhor dos seus pés.
Em alguns minutos descemos e caminhamos pelo
bosque. Estou de bermuda e sapatos. Parece que vou desmaiar,
meus pulmões não conseguem puxar ar suficiente. Ela mantém o
ritmo, sorri e deixa o sol bater em seu rosto. Quando sua pele
clara reflete a luz do sol, seus olhos mudam de cor, seu cabelo
brilha, seu sorriso encanta e todos os problemas ficam para
depois.
Peço para retornarmos, meu corpo precisa descansar.
Deito no sofá menor da sala, adormeço sentindo o cheiro do
cigarro de Paloma.

– Preciso partir – ela diz jogando sua mochila no chão


perto da porta – mudei minha rota – são 10 horas, preparo nosso
café da manhã.
– Você disse que viajava sem destino.
– Agora tenho.
– Para onde você vai?
– Para o norte, vou sair do Brasil, chegar até a América
Central. Aquele lugar parece bem poético, marginalizado pelos
ianques e esquecido pelos imigrantes europeus.
– Nisso você tem razão.
– É?
– É! Tem sim, você tem muitas razões – digo olhando em

89
seus olhos.
– Então venha comigo…
– Não posso, minha vida é aqui.
– Você é patético. Me causa náuseas. Adeus seu velho
chato – diz caminhando rápido para a porta. Sigo no seu
encalço, tento impedir sua partida, a segurando pelo braço.
– Adeus, Paloma!
Chego perto, tão perto que posso sentir seu hálito de
chiclete. Ela não tenta se soltar.
– Por favor garota, mande notícias.
– Pode deixar – sorri feliz.
Nos abraçamos e a beijo. Ela retribui e acabamos na
cama.

Desperto sem noção das horas. Paloma não está ao meu


lado. Chamo por seu nome e não tenho resposta. Levanto, vou
ao banheiro, vou à cozinha, bebo água. Chego na sala e vejo
colado na tevê um bilhete, está escrito: “Ei coroa! Obrigado pela
estadia. Gostei do chuveiro, do sofá e do sexo! Gostei do seu
jeito meio bobo! Continue caminhando e por deus, você precisa
de mais canais na televisão. Com carinho, Paloma!”. Amasso o
bilhete, sento no sofá sem entender o quanto de mim foi embora
com ela.

No início da noite ligo o computador, redijo um novo


curriculum vitae, atualizo meu perfil profissional em algumas

90
redes sociais especializadas. Bebo cerveja, imaginando por onde
andará aquela maluca, tão rápida quanto uma catástrofe natural.

Acordo com meu celular tocando. Fico animado, pode


ser uma proposta de emprego. Humildade a parte, meu currículo
é de dar inveja a qualquer comprador. Na tela o número é do
interior. Resolvo atender.
– Alô!
– Alô, Natal?
– Sim, sou eu.
– É a Cassi, peguei seu número com Genaro.
– Algum problema com o enterro de tia Teresa?
– Na verdade, não. Correu tranquilamente, mas você
precisa voltar para Nova Harz.
– O que!? Dirigir 4 horas novamente até esse fim de
mundo, não poderei, estou muito ocupado.
– Pois precisa, é muito importante!
– Me manda, seja lá o que for, pelos correios.
– Não posso. O foro é na nossa cidade, o cartório não
pode enviar documentos originais, você é o único parente vivo.
– Achei que tinha assinado todos os papéis.
– Faltou um.
– Qual?
– Sua tia não era apenas dona dos casebres e dos

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pequenos terrenos na entrada da cidade. Era dona também do
terreno da escola, o maior e mais bonito terreno urbano de Nova
Harz. Teresa não mencionou no testamento por algum motivo,
por favor Natal, agora sou diretora da escola, não quero ter
problemas no futuro. É só assinar uma declaração passando a
posse aos meus cuidados, nada mais. Não sei explicar como,
neste tempo todo ela não havia doado o terreno para a prefeitura,
e esqueceu por completo dele no inventário.
– Ok. Pedirei folga pela manhã e vamos acabar logo com
isso – minto, não quero o povo da cidade fazendo fofocas sobre
minha vida profissional.
– Obrigada, Natal! É a coisa certa a ser feita.
– De nada, Cassi! Amanhã terminarei com isso.
Cassi é a diretora da escola, não faço ideia como ela
chegou a isso, como também não sei como Genaro chegou a
prefeitura, ou Thomas vereador e padeiro, ou Leitão como
delegado. Parece que foram colocados lá como marionetes,
fazendo parte de um medíocre teatro onde cada um sabe
exatamente as cenas sem nunca ter ensaiado. A linda Paloma
achou minha vida miserável, imagina conhecendo Nova Harz.
Finalizo a ligação, a campainha toca muitas vezes. Troco
o pijama por roupas normais e atendo. Caminho sem pressa,
caso seja Paloma, faço questão que fique esperando, mesmo
com meu coração batendo acelerado por revê-la. Giro a chave,
abro a porta, vejo Max, o doutor de Nova Harz, parece aflito. É
a coisa mais estranha do ano. O velho médico que mal conheço
na minha casa.
– Preciso falar com você, garoto.
– Tudo bem doutor, entre – direciono o velho até a sala –
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servirei algo para beber.
– Obrigado, filho. Aceito água.
Dou conta de que não sei a idade dele, mas é bem velho
como minha tia sempre foi. Abro a geladeira, pego a garrafa de
vidro, dois copos em cima da pia. Fico imaginando como o
velho conseguiu meu endereço.
– O que traz o senhor aqui? – Pergunto, alcançando o
copo de água.
– Antes de tudo, preciso ser sincero e dizer que amo sua
tia. Cheguei há 3 anos em Nova Harz e depois que a conheci,
lutei para conquistá-la. Demorei para convencê-la a aceitar
namorar comigo, nossas idades eram os maiores obstáculos.
Mas acabei por induzi-la a aceitar. Íamos nos casar na
primavera, mas ela se foi, minha amada Teresa.
– Sinto muito, Max. Não conheci direito minha tia,
convivemos poucos anos.
– Sim. Sei disso, entretanto falava de como gostaria de
poder ter convivido com seu único sobrinho, de como tinha
orgulho de sua formatura e profissão. Ela sentia saudade.
– Acredito que sim, – digo lembrando de quantas vezes
ela ligou e nunca atendi – mas o que traz o senhor aqui?
– Sua tia era uma mulher da caridade, sempre ajudou a
escola, a igreja, as confraternizações das datas festivas.
– Sei disso. Todos no enterro fizeram questão de ressaltar
as qualidades dela.
– E temos apenas cem crianças em Nova Harz. A escola
Tia Teresa tem oito salas, incluindo espaço de informática, vídeo

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e biblioteca. As outras salas são divididas em ensino básico e
médio. São seis professores. Duas pedagogas, dois de ciências
humanas e sociais e duas das outras ciências.
– Sim, e…
– Precisamos da escola, é o que sua tia gostaria. Genaro
deseja instalar a filial da Lã Cicic na cidade. O projeto é
impactante, o tamanho da cidade pode dobrar, centenas de
famílias serão atraídas, trazendo prosperidade para a cidade.
– Isso é magnífico. Não vejo problemas. Lã Cicic é
gigantesca e faz roupas de qualidade.
– Também não veria se o “único” terreno da cidade capaz
de dar conta das instalações da fábrica fosse o da escola. O
terreno da sua tia que agora é seu e por sorte não foi citado no
testamento, do contrário não seria mais. Genaro não quer perder
o negócio, mas há outro terreno propício para a instalação em
outro lugar da cidade, é o da família de Thomas, na entrada de
Nova Harz, só que foi descartado. A família de Thomas é
formada por criadores de gado. Vendendo o terreno para a
prefeitura, terão de diminuir sua criação em alguns por cento e
assim lucrar menos, o que está fora de cogitação. Como vê, não
é apenas birra minha, existe outra saída, a escola não precisa ser
demolida, até porque não temos projeto para outra escola na
cidade. Genaro, Thomas, talvez até Cassi, estão juntos nessa,
querem te convencer a passar a posse para a caridade. Uma vez
sendo da caridade, será da prefeitura e destruirão a escola, vão
colocar os estudantes em algum lugar sem estrutura e a fábrica
trará prosperidade para Nova Harz. Ou seja, assalariados para
comprar no comércio dos ricos, vivendo em casas alugadas dos
ricos. A burguesia ganha e os assalariados acham que ganham,
como sempre.

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– Compreendo, Max. Mas não vejo problema em levar
esta fábrica para Nova Harz. Com certeza terá uma nova escola
noutro lugar.
– Qual sua formação, filho?
– Administração.
– Por isso pensa assim, seu merdinha. Os
administradores, de modo geral, só pensam no lucro, no dinheiro
– diz levantando o tom de voz – não dão bola para as escolas e
hospitais. Vocês são, na maioria, pessoas que não estão
preocupadas, nem um pouco, com algo além de suas contas
bancárias. O que precisamos em Nova Harz é que nossas
crianças sejam educadas, os velhos, cada vez mais velhos e
saudáveis. Devemos continuar tendo bons empregos, mandando
nossos filhos para a universidade. Se a Lã Cicic for instalada em
Nova Harz, tudo mudará!
– É o preço que a ser pago pelo progresso.
– Certo, já entendi. Já vi que nunca o convencerei. Vai
assinar aqueles papéis amanhã e todo o trabalho de sua tia estará
acabado – ele levanta irritado – bom, preciso almoçar com
alguns amigos aqui na Capital. A propósito, trouxe esse jornal,
quem sabe ajude na decisão.
O velho levantou com dificuldade, caminha até a porta
sem olhar para trás. Olho o jornal e sua manchete é “Fábrica Lã
Cicic é acusada de trabalho escravo e exploração infantil no
norte do país”.
Abro o notebook e pesquiso sobre a fábrica. A Lã Cicic é
comandada a pulso firme por Milos Cicic, imigrante Turco que
trouxe para o Sul a arte de fazer lã. Em 40 anos de história, a
fábrica conta com algumas filiais pelo país, somando mais de
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dez mil empregados, entretanto, durante os últimos anos foi
envolvida, direta ou indiretamente, em muitos escândalos contra
o fisco ou com a justiça do trabalho. Como o caso da filial de
Semelhança, cidade no norte, foi acusada de trabalho escravo,
forçando seus empregados a praticarem horários inadmissíveis
para os dias de hoje, com até 16 horas de trabalho ininterruptas.
Em Cananduva do Oeste foi acusada de dar trabalho à menores
de idade sem condições e sem segurança, e em Brasiliana foi
acusada de pagar propina a políticos e funcionários públicos
para que seus casos fossem arquivados ou não tivessem mídia.
Milos Cicic aparece nas fotos de terno, impecável, barba feita,
cabelos brilhantes, grisalhando, penteado para trás. Leio uma
breve biografia do distinto empresário. Sua esposa já é falecida e
sua única filha, Marjorie Cicic, está desaparecida.
Olho as fotos da filha e meu coração dispara, minha
respiração acelera. Para minha surpresa, Marjorie Cicic, de toda
aquela riqueza, é Paloma, a garota mentirosa que dei carona e
que levou junto com ela boa parte de mim, e agora estou vazio.
Garota esperta, a princesa disfarçada de plebeia. Paloma é filha
de Milos. Caso não houvesse fotos para provar a verdade a
história seria absurda e improvável.
Abro outra cerveja, tiro as calças, deito no sofá,
imaginando como é viver assim, sem amarras. Paloma ou
Marjorie? A garota tem estilo, sabe viver. As notícias relatam
que Milos declara a filha com problemas psicológicos sérios. É
mentira, pois ela parecia muito bem.

Começo a pensar o que tenho a ver com Nova Harz, se


Genaro quer trazer prosperidade para o lugar que o faça e ponto
final. Max quer apenas salvar uma parte da história de minha tia.
O prefeito deve estar comprometido com a construção de outra
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escola, então não há problema. Tomo mais duas cervejas, troco
algumas vezes de canal com a certeza de que preciso de mais
canais, Paloma ou Marjorie, seja como for, estava certa sobre
isso.
Perco o sono de madrugada, decido tomar banho, coloco
roupas confortáveis e parto para Nova Harz. Verei a cidade
acordar, esperarei o tabelionato abrir, pedirei a procuração em
meu nome, assinarei e estará tudo acabado. Todos felizes e
prontos para viver suas vidas.

Tudo é silêncio ao amanhecer na pequena cidade.


Reclino o banco e fico descansando até abrir o tabelionato, onde
estacionei na frente. Observo o lugar, também estou ao lado da
praça e na frente da prefeitura. Tudo é perto de tudo. Não
durmo, vejo o leiteiro passando com sua carroça, o jardineiro
com sua moto muito velha carregando a cortadeira de grama
amarrada no varão, o padeiro abrindo a padaria e o cheiro de pão
invadindo todo o pequeno centro da cidade. Tudo acontece
mecanicamente. Mais tarde, as crianças passam com seus
uniformes ridículos, suas mochilas, sua juventude, seus lindos
sorrisos. Atravessam a praça e seguem para a escola. Por fim, o
sol começa a arder nas paredes, a prefeitura abre suas portas e o
tabelionato também. Decido não sair do carro, dou a partida,
outra volta na cidade, passo por minha antiga casa, depois pela
casa de Teresa, pela escola e paro no cemitério, desço e caminho
até o túmulo de meus pais, que descansam ao lado de minha tia.
– É o seguinte – digo para os três túmulos – mesmo que
eu não assine o último papel, fiquem sabendo que será por causa
de Paloma ou Marjorie, seja lá como é seu verdadeiro nome, e
por causa daqueles adolescentes a caminho da escola. Não sei no
que as lideranças políticas desta cidade estão metidas, mas a
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coisa não cheira bem. Está mal contado, Cassi quer minha
assinatura para salvar a escola, mas segundo Max, sabe dos
planos para o terreno. Então, vou segurar as coisas por enquanto.
Volto para o carro…

– Tenho uma procuração para assinar – digo a


recepcionista.
– Pois não, senhor. Qual seu nome?
– Natalino Solda.
– Só um minuto.
A garota caminha entre alguns arquivos, vejo ao longe
Genaro falando ao celular, tento acenar, mas não percebe e vai
saindo pelos fundos.
– Já está redigido, basta assinar e estará tudo finalizado.
– Só tem esta cópia?
– Sim, senhor!
– Que bom – digo, rasgando o documento em muitos
pedaços.
– O que é isso senhor?
– Não assinarei essa porcaria. Quem redigiu o
documento?
– Foi meu chefe, Genaro.
– Certo, obrigado… Onde ele está?
– Saiu para trabalhar na prefeitura. Ele também é o

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prefeito da cidade.
– Certo. Sei o que ele é. Desculpe a descompostura, nada
pessoal.
Saio do tabelionato e entro na prefeitura. O prédio
simples de arquitetura antiga e pequeno com o gabinete do
prefeito no fim do corredor. Passo pela secretária e entro sem ser
anunciado. A moça tenta impedir, dou de ombros e abro a porta.
– Olá, Natal! – Diz Genaro sorridente, não parece
impressionado com a situação.
– Olá, Genaro! Recebi uma ligação de Cassi, ontem à
noite.
– Sim! Conversamos sobre isso, faltou uma procuração
para fecharmos a papelada. Por um lapso de sua tia o terreno da
escola não aparece no testamento. Queremos reformar a escola,
talvez ampliá-la – é nítida sua mentira.
– Excelente iniciativa.
– Obrigado! Trabalho para o bem de Nova Harz.
– Isso é perfeito, poderei acompanhar a reforma. Já que
foi esquecido no inventário, decidi assumir este último
patrimônio de titia. Quero acompanhar de perto seu legado.
Ficarei com a posse do terreno. Quero um dia ser respeitado
como ela é.
Genaro engole em seco, tenta sorrir e não consegue.
– Ficarei na casa de titia alguns dias – prossigo – preciso
de férias, quero relembrar minhas origens.
– Fique à vontade. Você sempre será bem-vindo nesta
cidade – diz sem graça, tentando fazer de nossa conversa uma
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situação normal.
– Certo, tchau Genaro. Quero aproveitar o dia, conhecer
o terreno e andar por lugares que nunca mais andei.
– Tchau, Natal. Tenha um bom passeio. Estou à
disposição para o for necessário – conclui com um sorriso
amarelo.

Sigo para a casa de Teresa, abro as janelas para tirar o


cheiro de mofo e procuro não pensar que o corpo foi encontrado
no chão da sala. Troco de roupa, sento no velho sofá, ligo a tevê
e deixo o tempo passar. Não demora muito e alguém bate na
porta, levanto e atendo. É Cassi, está sorridente.
– Olá, rapaz da Capital!
– Olá, Cassi, tudo bem?
– Sim e com você?
– Estou bem, o ar daqui é úmido e puro.
– Aqui é maravilhoso. Tudo certo com os papéis no
tabelionato?
– Tudo na perfeita ordem.
– Estranho. Genaro ligou para mim e disse que houve um
problema.
– Não houve nada. Decidi passar um tempo pela cidade,
só isso.
– Que bom – diz querendo não dizer – vai ser bom.
– Vou tirar férias por pouco tempo.

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– Férias aqui na nossa pequena cidade?
– Sim. Quero curtiu um pouco, relembrar das origens.
– Então está bem… Preciso ir para a escola. Já que vai
ficar teremos tempo para conversar.
Ela vai embora. Não consigo distinguir quais suas
intenções. Sento novamente no sofá. Alguém bate na porta.
Levanto e atendo. É Thomas e Leitão que esperam.
Eu – Olá, garotos!
Thomas – Tudo certo por aqui?
Eu – Tudo sim, e com vocês?
Thomas – Tudo tranquilo.
Leitão – Tudo em ordem.
Eu – Vocês querem entrar? O sol está muito quente.
Ainda não fiz compras, mas deve ter pó de café no armário.
Thomas – Obrigado, Natal. Passamos para dar boas-
vindas.
Leitão – Genaro nos disse sobre suas férias, passará um
tempo conosco?
Eu – Sim, férias para relaxar.
Leitão – Certo, descanse, fique longe de confusão e não
faça barulhos. Aqui, depois das 20 horas tudo é silêncio.
Eu – Tudo bem, delegado.
Os despacho com uma desculpa qualquer. Sigo para o
sofá. Novamente batem na porta. Levanto e atendo irritado. Para
minha surpresa, não há ninguém quando abro, apenas um bilhete
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no chão: “Bom trabalho, filho. Assinado Max.”
Tranco a porta, desligo a tevê, caminho pela casa,
ultrapasso a sala e saio pela porta da cozinha. Sento na varanda,
olhando o tanque de lavar roupas, a mata, os pássaros.

Volto para a cozinha, não existe comida na casa,


geladeira desligada. Saio para a rua e não há nada aberto.
Inocência a minha, quinhentos e oitenta e três habitantes, não há
mercados nem bares abertos ao meio-dia. Todos fecham seus
estabelecimentos para praticar o sono. Morrerei de fome. Assim
meus inimigos nem precisam ter a preocupação de me matar.

Pela manhã, bem cedo, escuto o canto dos galos em


algum canto da cidade. Depois apenas silêncio. A fome não me
deixa dormir. Levanto, coloco um short, camiseta, fico de pés
descalços. Saio para a rua como estou, caminhando na direção
da padaria. Meus pés sensíveis de burguês doem em contato
com a calçada, mas a sensação é libertadora. Como Paloma
ensinou, alias, por onde andará aquela maluca?
Na padaria bebo dois cafés expressos com leite, como
pastel de carne, sanduíche de presunto e sonho de chocolate. Um
café da manhã de um glutão, um rei sem sapatos. Leitão entra na
padaria e senta ao meu lado. Pede um cafezinho, pão e salame.
– Acharam o corpo do velho Max, hoje de manhã – ele
diz sem cerimônia. Sequer nos cumprimentamos.
– O que? Max está morto?
– Sim, Max está morto. Cometeu suicídio. Encontramos
o corpo pendurado na figueira atrás de sua casa.
102
– Cometeu suicídio? Ele não parecia ser um suicida.
– Sinto muito. Ele e sua tia eram namorados.
– Você vai investigar, delegado?
– Não há necessidade. Ele tirou a própria vida.
– Tem certeza?
– O que está tentando insinuar? Foi suicídio, não há
dúvidas – ele me encara.
– Não estou insinuando nada. Max era um grande amigo
e sabia muitas coisas.
– Sinto por isso, mas até os mais sábios morrem – diz
arrancando um pedaço de pão com fúria. Não é mais segredo, as
mensagens subliminares de nosso diálogo declaram nossa
inimizade.
Pago o padeiro, saio para a rua sem dizer adeus. Pergunto
para um pedestre onde é a casa do Max. Ele aponta com o dedo,
sigo para lá de pés descalços.
Chego em alguns minutos, aliás, se demora alguns
minutos para chegar a qualquer lugar em Nova Harz.
A casa está vazia, sem curiosos, é rotina os velhos
morrendo e cometendo suicídio na cidade, mesmo ele sendo o
único médico, todos preferem ficar longe, sem holofotes. Entro
no terreno, as portas destrancadas, a sala é como todas as salas
das casas da cidade, um sofá velho, raque, televisão, mesa de
jantar com quatro cadeiras. Atravesso a cozinha, saio da casa
pela porta dos fundos. A corda do enforcamento ainda está
pendurada na figueira, balançando com o vento. Cena macabra.
Volto, passo no mercado, compro sacos de petiscos e
103
refrigerante. Entro na loja de calçados e compro duas sandálias
de praia. Passo o resto da manhã pensando no suicídio do velho
Max.

De almoço, faço bifes com batatas. Tomo refrigerante.


Sento no sofá, é enfim, uma cidade boa, quem sabe, sendo
menos ganancioso no princípio, podia ter passado mais tempo
com minha tia. Não preciso ficar ligando para outros homens
para pechinchar, prevendo que centavos a menos deixará um de
nossos patrões mais ricos. Não sou mais comprador.

Pela manhã, decido ir até a escola para falar com Cassi.


A encontro varrendo o pátio, surpreendente a diretora limpando
o chão. Estaciono o carro e saio para conversarmos.
– Olá, Cassi! Surpreendente uma diretora varrendo o
chão.
– Olá cowboy da cidade. Caso isso tenha sido um elogio,
agradeço. Como tem passado?
– Muito bem. A noite por aqui é muito silenciosa, preciso
desta quietude. Descobri o que é relaxar de verdade.
– Que bom! Veio conferir a obra de sua tia?
– Sim. Quero estar por dentro das coisas.
– Isso é ótimo. Verá que isso é feito de muita labuta.
Enquanto as outras professoras lecionam, Cassi limpa o
quintal, prepara a merenda e organiza uma reunião com pais e
mestres.

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– Por que você não contrata alguém para te ajudar?
– Não posso. Genaro não libera mais verba. Já pedi para
abrir edital, mas sempre alega que é preciso reter os custos. Na
verdade, Genaro está se lixando para a escola, como para o resto
da cidade. Só pensa em ir embora como quase todo mundo que
conheci. Quer concorrer a deputado estadual e fará de tudo para
isso.
– Quer dizer que vocês não são aliados?
– Eu aliada ao Genaro? Não nessa vida, odeio ele!
– Sabe alguma coisa sobre a fábrica Lã Cicic?
– Não sei de nada. É… isso é algo ruim?
– Nunca ouviu falar?
– Claro. Tenho roupas de inverno da marca Cicic.
– Antes de cometer suicídio, Max foi até minha casa na
Capital, alertando para não passar o terreno para a caridade, pois
Genaro tinha planos, traria uma filial da Lã Cicic para Nova
Harz. A escola seria demolida e as crianças estudariam em outro
canto qualquer.
– Max também falou comigo. Disse um enigma, “se
Natal falhar, nunca traia os ideais de Teresa, lute por suas
memórias e pelas crianças”. Era isso que ele temia.
– Como vê, não falhei – digo orgulhoso, estufando o
peito.
– Pelo menos herdou alguma virtude de sua tia.
– Você também me odeia?
– Não, sequer o conheço para odiá-lo. Te acho esnobe,
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mas não te odeio.
– Apenas um playboy da cidade grande.
– Mas parece que tem um bom coração.
– Agora é minha vez de agradecer. Existe apenas uma
saída. E ela é: posso confiar em você, Cassi?
– Claro, Natal! Sua tia foi minha mentora, me ensinou a
amar e respeitar a licenciatura e principalmente as crianças de
Nova Harz.
– Então passarei o terreno para seu nome. Você saberá e
lutará pelos direitos das crianças, melhor do que eu.
– Ficaria honrada!
Confio em Cassi. Na condição de suas intenções serem
erradas, jamais abriria mão de tudo para tocar o colégio. Vê-la
varrendo, suando em cima das panelas, ligando para os pais,
demonstra verdade, ilustra seu discurso. Encerro a visita e
retorno para a vila.

Pela manhã seguinte, redijo a procuração em nome de


Cassi, dando a ela pleno direito sobre minha propriedade em
Nova Harz.

– Preciso falar com Genaro – falo para a recepcionista.


– Um momento, senhor. Vou anunciá-lo. Como posso
chamá-lo?
– Garota, acredito que saiba quem eu sou. Numa cidade
tão pequena todos sabem.
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– Tudo bem, senhor Solda. Sente e aguarde, por favor.
Ela enrubesce, pega o telefone, disca o ramal do gabinete
do prefeito. Conversa de forma breve, desliga e diz para eu
entrar. Abro a porta.
– Olá, Genaro!
– Olá, Natal. Sente-se. O que o traz aqui meu amigo?
– Nada sério, apenas alguns esclarecimentos.
– Claro, estou à disposição…
– Você tinha a intenção de usar o terreno da escola para
trazer a fábrica Lã Cicic até Nova Harz?
Genaro enrubesce. Empedrado em silêncio, olha para
mim mexendo os indicadores com as mãos perto do rosto.
– Por isso não assinei os papéis – prossigo – não foi por
mim, nem por tia Teresa, mas sim pelas famílias da cidade.
Homem, vi aquelas crianças indo para a escola e pareceram
realmente felizes. Vocês são menos de seiscentos habitantes, não
há desemprego, quase todos são de classe média alta. Por aqui
até o jornaleiro ganha o suficiente para mandar seus filhos para a
universidade, não é como no meu tempo. Nova Harz é perfeita,
não há necessidade de uma grande fábrica por aqui.
Genaro continua sem falar. Apenas mexe vividamente
seus indicadores. Levanto e saio do gabinete, escuto algo
quebrando quando fecho a porta. O plano deve ser óbvio, traria a
fábrica de Cicic para a cidade e não cobraria impostos da
mesma, e, assim, teria ajuda de Milos para candidatura a
deputado estadual. Estraguei seus planos, por enquanto.
Volto para a casa de tia Teresa, descanso no velho sofá,

107
depois aproveito a visão da mata no quintal. Procuro no quarto
papel e lápis, encontro e escrevo um bilhete para Cassi, dando
adeus.
Tiro as sandálias e vou caminhando até a casa de Cassi
entregar o bilhete. O vento esfria meu corpo e tenho vontade de
nunca mais parar de caminhar, mas paro no destino. Coloco o
bilhete embaixo de sua porta e retorno para casa.

Pela manhã, preparo o café com leite bem quente, pão,


salame e queijo colonial.
Termino a refeição e arrumo as coisas para partir.
Desligo a chave geral da luz, chaveio a casa, dou um suspiro de
adeus e sigo para o carro. Rumo a Capital, acessar meus e-mails,
e na hipótese de selecionado para um novo trabalho, recomeçar
tudo de novo. Seguir meu caminho e talvez um novo emprego
por mais 8 anos.
Saio da cidade olhando pelo retrovisor, desejo sorte em
silêncio para Cassi e a pequena vila vai diminuindo até sumir
completamente entre as árvores. Vou ganhando velocidade entre
as curvas e quanto mais perto da Capital, mais meu coração fica
apertado no peito. Revejo Paloma no pensamento, gostaria de tê-
la comigo.
Ganho mais alguns quilômetros quando percebo que
preciso abastecer e tomar alguma coisa. Vou ao freio e o carro
continua imprimindo velocidade, passo pelo posto a 95 km/h,
chega a 100 km/h na primeira curva, tento reduzir as marchas
gradativamente. Venço algumas boas curvas como um piloto
profissional. Reduzo até a primeira marcha e sinto o motor
parando o carro até 60 km/h, então tenho confiança que não
capotarei no caso de puxar o freio de mão. É o que faço, tento
108
controlar, mas o carro resvala na pista. Paro no meio da estrada
com o motor apagado. Não tive medo de morrer, mas tenho
medo de outro carro colidir comigo, parado entre as duas pistas.
Saio, empurro o carro até o acostamento, abro o capo, espero a
fumaça dissipar, então percebo que a mangueira do freio não
está mais no seu lugar. Alguém tentou acabar comigo da forma
mais baixa possível e tenho certeza que Genaro está envolvido.
Avisto uma viatura da polícia vindo ao longe, dia de
sorte, alguns carros passam buzinando e xingando obscenidades.
O veículo está no acostamento, mas invade a pista. Afastado um
pouco do carro, espero a viatura chegar mais perto, e quando
acontece, reconheço Leitão.
– Bom dia, Natal! – Está sorridente, talvez feliz por ver
minha situação.
– Bom dia, delegado.
– Problemas com o carro?
– Foi bom você aparecer, preciso fazer um B.O. Alguém
simplesmente arrancou a mangueira do freio. Senti diferença
quando sai da cidade, o freio estava baixo, mas não dei bola. Em
alta velocidade não consegui frear, por sorte conheço bem o
veículo e fui reduzindo as marchas até ter segurança para puxar
o freio de mão.
– Certo! Isso é uma acusação muito séria. Estamos em
outra jurisdição, aqui pertence a cidade de Triunfo. O levarei até
a delegacia da cidade – diz parecendo muito preocupado.
– Leitão, pensando bem, deveríamos ir até Nova Harz,
afinal foi lá que aconteceu o crime – digo ao entrar na viatura.
– Como pode ter tanta certeza?

109
– Porque não parei em nenhum outro lugar depois que
sai de lá.
– Compreendo, mas, mesmo assim, seu carro está nesta
jurisdição. Precisa fazer o B.O. em Triunfo. Chegando lá peço
aos meus colegas para buscar o veículo.
– Tudo bem. Parece o melhor a ser feito.
Entro na viatura, coloco o cinto e seguimos, passamos
por estradas de chão, entre a mata, não conheço a região, mas
algo estranho está acontecendo, posso sentir e preciso agir.
– Qual é a do Genaro? – Pergunto.
– Como assim, Natal? Seja mais claro.
– Sei que ele quer prosseguir na política. Crescer no
cenário Estadual.
– Sim. Parece que vai teimar em ser deputado. Mas o
partido não está cedendo. É uma pré-eleição muito cara e é
necessário muito patrocínio. Como Genaro não é tão conhecido
pelo partido, precisa ter um bom investidor. É apenas um
prefeito de uma minúscula cidade.
– Por isso decidiu vender a cidade em troca de
patrocínio?
Ele me olha. Sorri como alguém que já sabe o final do
filme.
– Agora posso falar isso para você. Merece saber a
verdade. Ele planejava matar sua tia e ela morreu antes disso,
depois queria matar Max que acabou pendurado naquela
figueira, mas antes deu com a língua nos dentes. Estávamos
felizes por não ter matado ninguém.

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– Estávamos?
– Para que o espanto? Estamos juntos nesta, somos
amigos. Eu e Genaro, talvez Thomas, não sei se ele sabe dos
planos, mas são do mesmo partido. Não queria prejudicar as
pessoas, mas é preciso sujar as mãos para garantir o futuro. Não
quero terminar meus dias naquela delegacia fedida e minúscula.
Você e Cassi estão atravancando nosso projeto. Bom, vamos
matar só você. Cassi é da cidade, seus pais ainda vivem por lá,
acho que tudo pode ser resolvido com uma boa conversa. Já
você é um homem-morto.
O encaro e ele sorri parando o carro, saca sua arma e sou
ordenado a descer. Estamos no interior, numa estrada de chão,
entre as árvores. Quando abro a porta começo a correr para
dentro da mata, minha vida depende do quanto minhas pernas
são capazes de imprimir velocidade. Adentro alguns metros
quando sinto a dor invadir minha coluna, perto do ombro direito.
Continuo correndo e escutando mais disparos.
Corro até não poder mais, a dor dificulta a respiração,
meus braços estão cortados pelos galhos secos da mata. Paro
para descansar, escorado numa árvore e o sono invade minha
cabeça, preciso dormir, fecho os olhos sem querer. Corpo pesado
demais para seguir fugindo.

Não sei quanto tempo fiquei adormecido. Sou despertado


por passos quebrando galhos perto de mim. Espio pelo lado da
árvore e vejo Leitão me procurando com a arma em punho. Com
sua imensa barriga e com a farda molhada de suor. Ele continua
mata adentro. Espero ganhar distância e sigo a passos leves na
direção da viatura. Tento caminhar em linha reta, torcendo para
estar no rumo certo. A escuridão da noite deixa a visão

111
prejudicada. Sigo caminhando no sentido que acredito ser o da
estrada.
Saio na estrada, mas não avisto a viatura, nem tenho
noção para qual lado prosseguir. Sigo para a esquerda, meu
corpo começa a ficar fraco, caminho a passos lentos.
Por milagre chego ao carro policial e fico aliviado,
caminho rente a mata, escondido atrás das árvores. A viatura
está vazia, testo a porta que está destrancada, a chave na ignição.
Leitão não contava com meu retorno. Não há armas, nem kit de
primeiros socorros. Ligo o motor e dou marcha ré, manobro e
decido ficar e esperar. Leitão deve sair da mata a qualquer
momento. Não acabando com isso serei morto em outra
oportunidade. Desligo o motor.
Leitão sai da mata a quarenta metros atrás da viatura.
Ligo o motor, engato novamente marcha ré e acelero o máximo
possível. Ele aponta a arma e dispara, abaixo e o atinjo com o
carro nas pernas, na altura do fêmur. Engato a primeira marcha,
faço o retorno e paro o carro a quinze metros de seu corpo caído,
de frente. Leitão fica atirando contra o carro, os vidros quebram
e os tiros param.
– FILHO DA PUTA – ele grita – VOCÊ QUEBROU
MINHAS PERNAS! SAIA DAÍ SEU COVARDE!
– Seu filho da puta do inferno – respondo – atirou em
mim pelas costas. Tudo isso por dinheiro. O que vai ganhar com
os negócios do Genaro?
– CALE A BOCA E SAIA DAÍ!
Ficamos assim, talvez uma hora, talvez mais. Abaixado
no banco e ele deitado na estrada de chão, gemendo de dor. Às
vezes Leitão grita por socorro, esbraveja e excomunga.
112
– Quantas balas você tem?
– O SUFICIENTE! NÃO FIQUE PREOCUPADO,
NATAL! SEU DESGRAÇADO, VOU MATÁ-LO DE
QUALQUER JEITO!
Preciso do carro para sair da mata. Penso em arrancar,
mas temo que Leitão atire nos pneus e assim nós dois
morreremos sem socorro. A dor irradia do ombro para toda a
parte superior. Ficamos assim mais algumas horas.

– Ainda acordado, Leitão?


– SIM, SEU FILHO DA PUTA!
– Entrará em choque por causa do ferimento e desmaiará.
Daqui a pouco vai amanhecer, precisamos entrar num acordo, do
contrário, somente um de nós sairá vivo daqui. Concorda?
– CALE A BOCA! VOU TE MATAR! SOCORRO!
SOCORRO! – Grita a plenos pulmões, ninguém responde.
– Você quebrou os fêmures, precisa urgente de
atendimento, do contrário, pode ser irreversível. Parei de sangrar
por algum motivo. Tenho febre, meu ferimento está criando pus,
posso aguentar por mais algumas horas.
– QUE BOM PARA VOCÊ! – Ele geme e grita,
desesperado por socorro.
– Jogue a arma para longe e esquecei tudo, o coloco
dentro da viatura e saímos daqui. Me matar é burrice, não
poderá dirigir, desmaiará de dor. Estamos aqui a quase um dia e
não passou nenhum carro. Só eu posso tirá-lo daqui.
– Seu desgraçado – diz ele – você tem razão.
113
– Jogue a arma na mata e o levarei para o hospital.
Ele pede por socorro mais algumas vezes até desistir.
– ESTÁ BEM, VOU JOGAR A ARMA NA MATA!
Escuto o barulho, levanto a cabeça e vejo Leitão ainda
caído do mesmo jeito, humilhado. Dou a partida no carro,
acelero o máximo que posso e passo por cima dele. O carro
balança quase virando. Saio do veículo e confiro, ele não tinha
jogado a arma na mata e sim o coldre. Me mataria de qualquer
forma. Pego a arma, verifico sua respiração, está morto. Volto
para o carro e sigo novamente para Nova Harz.

Chego na frente da casa de Cassi, a madrugada pinga seu


orvalho. Buzino e ela atende assustada. Estou com muita dor.
– O que houve, Natal? O que é essa viatura?
– Leitão tentou me matar.
– Nossa, isso é terrível! Por que está com sua viatura?
Onde ele está?
– Morto numa estrada de chão à direita da autoestrada,
na direção interior/capital.
– Agora você está encrencado. Olha seu estado, precisa
de atendimento médico, a cidade ainda dorme. Venha comigo,
vou, pelo menos, desinfectar seu ferimento, tome alguns
comprimidos e dirijo para você até a próxima cidade.
Subo a pequena escada com a arma na cintura, não deixo
Cassi vê-la. Quando entramos na casa, percebo movimentos no
soalho de madeira. Estalos imperceptíveis caso não estivesse em
estado de alerta. Saco a arma e aponto para sua cabeça, dando
114
alguns passos até a porta de entrada.
– Quem está com você?
– Ninguém – responde em choque.
– Mentirosa. Tem alguém sim. Estava atrás da porta me
esperando – pego ela pelo braço e descemos os degraus até o
quintal – seja quem for, mande sair ou vou te matar.
– Não há ninguém. Por favor, Natal, fique calmo.
– Mande sair, sua traidora. Não estou brincando –
engatilho a arma.
Cassi começa a chorar até perceber que o melhor é pedir
para a pessoa sair.
– Por favor, saia ou ele vai atirar em mim.
Detrás da porta surge Genaro segurando um revólver.
– Ele me mataria – diz Cassi – precisava levá-lo para
dentro de casa.
Genaro – Olá, Natal! – Diz sorrindo como um psicopata.
Eu – Como soube que viria até aqui?
Genaro – Instinto! Sabe como é, as pessoas do interior
são assim.
Eu – Leitão passou seus recados, agora não poderá falar
mais nada.
Genaro – Bom! Leitão era um escroto. Meu leão de
chácara. Não fará falta para a humanidade. Vou aproveitar a
oportunidade e matar vocês dois.
Eu – Certo. Pelo menos é mais esperto que Leitão –
115
aponto a arma na direção de seu peito, será meu primeiro tiro.
Mantenho Cassi na minha frente, não posso confiar em
ninguém.
Ele aponta a arma na direção do meu crânio. Dou um
passo à frente, subimos um degrau dos quatro que nos separam.
Genaro – Pare onde está!
Eu – Está tudo acabado. Seu plano será descoberto.
Cassi – Tudo acabou, Genaro!
Genaro – Nada acabou. Sou dono da cidade, não haverá
testemunha, posso garantir. Vocês estão falando com o próximo
deputado estadual mais votado.
Ficamos assim, ameaço subir mais um degrau, Genaro
segura a arma mais firme, paro o movimento pela metade. Perco
o foco e Cassi sai correndo para a lateral da casa. Fico assustado,
por um instante o perco de mira, puxo o gatilho, o atingindo no
peito, dou mais um disparo e rolo para o lado.
Genaro cai no chão urrando de dor, atira e me atinge na
altura no baço. A dor toma conta do meu corpo. Fico
desesperado, acho que vou morrer.
Respiro fundo, tento ficar calmo. Penso em coisas boas,
então Paloma aparece no pensamento. Sorri com escárnio de
alguma piada velha. Percebo que a amo. Então sou invadido por
uma força misteriosa. Preciso sair dessa.

Eu – Cassi, você está bem?


Cassi – Estou! – Permanece escondida na lateral da casa.

116
Rolo mais um pouco e paro atrás da pequena cerca
branca que envolve o jardim.
Eu – GENARO?
Genaro – Ainda estou aqui – sua voz sai muito fraca.
Eu – Como ele sabia que viria? – Pergunto a Cassi.
Cassi – Não sabia, estava ameaçando me matar quando
você chegou. Queria a posse do terreno da Escola.
Espio rapidamente para Genaro que está atirado na frente
da porta, na varanda da casa. Não consegue mais empunhar sua
arma, fora de batalha. Levanto com muita dificuldade, não
consigo trocar os passos, estou manco. Respiro fundo e caminho
até ele, corpo estendido no chão, respiração ofegante. Chuto sua
arma para longe, quase caio. A cada movimento tenho a
sensação que minhas entranhas sairão do meu corpo.
Eu – Agora está tudo acabado – seus olhos estão cheios
de lágrimas.
Cassi aparece ao meu lado, chorando, em estado de
choque.
Cassi – Genaro morrerá. E agora?
Eu – Corro perigo aqui. Não fique preocupada, Genaro
sobreviverá, Leitão está morto. Preciso fugir. Sendo preso, meus
dias estarão contados.
Cassi – O que farei? As ameaças prosseguirão.
Eu – Conte a verdade. Entre e ligue para a televisão da
Capital, depois chame um médico para Genaro, ele precisa pagar
por seus crimes. Tudo acaba aqui.

117
Cassi – Para onde você vai?
Eu – Ainda não sei. Para longe, muito longe.

Entramos. Deixo Genaro agonizando, deitado na


varanda. Cassi rasga minha camisa, faz bons curativos no ombro
e na altura do baço. A bala do ombro ficou alojada, a outra
atravessou o abdômen. Tomo algumas cápsulas de remédios,
entro no carro de Cassi e parto. Antes de fugir, paro na casa de
Thomas. Preciso terminar o serviço antes de fugir ou morrer.
Saio do carro caminhando com dificuldade. Bato na
porta e um menino loiro, cheio de sardas, abre a porta, fica
assustado com meu aspecto de zumbi, mas não deixa de ser
educado.
– Boa noite, senhor!
– Boa noite, garoto. O que faz acordado a essa hora?
– Fiquei jogando videogame e perdi a noção do tempo.
– Isso não é bom. Preciso falar com Thomas. Pode
chamá-lo? E depois vá para a cama.
– Sim, vou chamar – e sai correndo, gritando PAPAI,
PAPAI!
Thomas surge pelo corredor e caminha assustado na
minha direção. Veste pijama.
– Meu Deus, o que houve, Natal?
– Leitão e Genaro tentaram me matar.
– Que loucura! – Sua preocupação parece genuína –
precisa de um médico, urgente!
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– Não! Apenas preciso fazer uma pergunta.
– Sim, pode pedir, mas você precisa de um médico – diz
chegando perto, mostro a arma na cintura o fazendo parar.
– Não, só preciso fazer uma pergunta. Você tem alguma
ligação com as tentativas de me matar?
– Que é isso? Não sou um assassino. Sou honesto, pai de
família. Jamais mataria alguém.
– Tem certeza? – Tiro a arma da cintura e seguro ao lado
do corpo.
– Para que essa arma?
– Sempre foram grandes amigos. Certamente está
envolvido nesse caso.
– Sim, somos amigos, mas não sei porque tentaram te
matar. Eu juro.
– Por que você entrou para a política?
– Para ajudar as pessoas da cidade. Quero ver meu filho
crescer com segurança aqui onde moramos. Claro, o salário
ajuda muito, traz estabilidade, mas não é por causa dele que sigo
na política.
– Por que não usa o dinheiro da sua família?
– É uma longa história. Briguei com meu pai quando
decidi fazer gastronomia na Capital. Queria que eu seguisse na
fazenda, cuidando do gado. Fui deserdado.
– O que sabe sobre a Lã Cicic?
– É uma marca de roupas. Não é?

119
– Mesmo que esteja falando a verdade, ou mentindo,
pouco importa, acho que sobreviverei. Cassi ligou para a polícia
e televisão. Ela será intocável agora. Sou assassino, sei disso,
mas todos saberão que cometi os crimes em legítima defesa.
Guardo a arma na cintura, viro as costas para Thomas,
dou alguns passos e tudo apaga.

Acordo nu, numa cama confortável, meus ferimentos


apresentam melhora, a arma que peguei de Leitão está num
banco ao meu lado. Estou numa casa simples, as paredes são de
madeira, pintadas de um vermelho desbotado. Tenho muita sede,
tento mover meu corpo, a dor rasga meu abdômen e meu ombro.
Deito e adormeço.

Acordo e desta vez há uma jarra de água e copo ao meu


lado. Sento na cama superando a dor, bebo e fico sentado
olhando para a porta. Olhos pesados, cansaço.
Depois de algumas horas, a porta abre devagar, apenas
assisto, sem forças para reagir. Cassi surge, estou aliviado em
vê-la, mas não consigo sorrir. Suor escorre em meu rosto.
– Está na hora dos remédios – ela diz.
– Quanto tempo dormi? – Engulo o remédio e adormeço
sem ouvir sua resposta.

Desperto, estou melhor. Cassi ao meu lado, olha para


mim, segurando um copo de suco de laranja. Oferece a bebida.
Sento na cama, com menos dor, e pego o copo.

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– Quanto tempo estou aqui?
– Quatro dias de muita febre.
– Que lugar é esse?
– Um sítio, a casa de um velho criado, pertence à família
de Thomas.
– Quer dizer que ele não é culpado. Mas por que não
trazem a fábrica para os terrenos da família dele?
– Genaro tentou, mas o pai de Thomas negou
veementemente, afinal, o sonho dele é morrer nesta pacata
cidade, e ver seu neto crescer… Ele não é culpado. Só não quer
a cidade cheia de pessoas estranhas. O velho ainda ama seu
filho, mesmo não querendo seguir com os negócios da família.
– O que aconteceu enquanto eu dormia?
– Depois que o escondemos aqui, chamei a polícia,
contei toda a história. Disse que você tinha fugido para a
Capital. Estão te procurando pelo Estado inteiro, pelo
assassinato do Leitão. Matar policiais provoca a ira de outros
policiais.
– E Genaro foi preso?
– Não. As provas são praticamente inexistentes. Não
existem ligações, e-mails, ou qualquer outra documentação
provando que Genaro negociou com Milos Cicic, ou que
premeditou seu assassinato. Você é acusado de tentar matá-lo.
– Desgraçado, ficou impune. Como ele está?
– Em estado regular no hospital HBD em Lagos, aqui da
região. Você o acertou no pulmão esquerdo, a dois centímetros
do coração. Por pouco não o matou.
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– Como vim parar aqui?
– Antes das viaturas chegarem na cidade, eu e Thomas o
jogamos no porta-malas do carro dele e o escondemos aqui.
Estamos a cinco quilômetros de Nova Harz. Natal, não há saída,
ou você se entrega ou a polícia vai persegui-lo até matá-lo.
– Não vou me entregar. Sairei do país. Partirei para a
América Central. Saio pela Bolívia e pego um navio no norte do
Chile. Preciso de um carro, por favor, me ajude.
– A cidade está cercada por viaturas estaduais. Será
necessário aguardar. Precisa estar 100% para fugir – ela levanta
e caminha na direção da porta, antes de sair diz – obrigada por
acreditar em sua tia.
Fico mais uma semana, apenas levanto para ir ao
banheiro. Manco, caminho com muita dificuldade, quase não
consigo mover a perna, nem o braço. Cassi me presenteia com
uma bengala preta de madeira Indaiá, com cabo estilo Europeu.
A bengala é linda. Caminho pela casa, arriscando passos mais
espaçados. Meu ombro está cada vez mais enrijecido, a bala
alojada está me deixando aleijado.

As feridas cicatrizaram, meu abdômen quase curado,


contudo a dificuldade de caminhar continua. Estou pronto para
fugir, ansioso, aguardo a visita diária de Cassi, e todos dias torço
para que diga que as viaturas estaduais partiram da cidade.
– Vou emprestar meu carro – diz Cassi – não é tão veloz,
mas vai servir. Não há mais policiais nas redondezas da cidade.
Você só precisa dirigir para o norte. Evite as rotas principais e
não seja parado em blitz. Seu rosto está em todos os lugares
como procurado. Não precisa devolver o carro, é um presente
122
por ter salvado a escola…
– Obrigado, Cassi. Serei grato para sempre.
– Use óculos escuros e boné, sempre. Não faça a barba
por enquanto. Servirá para o disfarce.

Mais 2 dias. Arrumo, dentro de um saco, algumas roupas


doadas por Thomas, mais lanche para a viagem, preparado por
sua mulher, conto com quinhentos reais emprestados por Cassi.
Guardo a arma de Leitão na mochila. Saio da cidade por uma
rota alternativa de estradas de chão, buscando o norte. Sem
rumo certo, apenas tentando encontrar a fronteira.

Dirijo por algumas horas, cansado, paro numa venda


qualquer, à beira da estrada, no meio do nada, o tanque de
combustível marca ¼. Peço coordenadas ao bodegueiro e
descubro que já rompi o Estado. Agora preciso dirigir mais
quarenta quilômetros para a esquerda, por lá encontrarei a
estrada paralela e postos de combustíveis em abundância.

Os quilômetros são vencidos sem dificuldades. A estrada


de chão é deixada para trás e o silêncio de dirigir sobre o asfalto
é prazeroso.
Estaciono na frente do primeiro posto que encontro, peço
para completar o tanque, entro na sala de conveniências, sempre
apoiado na Bengala. Meus ferimentos doem pela viagem inteira,
preciso encontrar um médico com urgência, mas antes, preciso
achar Paloma. Creio que ela prefira ser chamada pelo nome que
escolheu. Sei que posso encontrá-la na América Central. Meu
123
coração me guiará até ela.
Como sanduíche integral, bebo refrigerante em lata.
Entro no carro e sigo novamente, sempre para o norte.

Dirijo por 48 horas, o velho carro de Cassi dá sinais de


que não concluirá a viagem. O dinheiro está quase no fim. Só eu
e o revólver com algumas balas.
Anoitece e de madrugada estaciono no meio do nada,
dou alguns passos para dentro da plantação de aveia. Jogo a
bengala no chão, fico ajoelhado, tiro a arma da cintura e levo até
minha cabeça. Penso em tudo que aconteceu até agora. As coisas
sem sentido foram muito mais numerosas do que as com
sentido. Resumindo, minha vida foi uma merda. Trabalhei,
estudei, prosperei e fiz exatamente o que a sociedade pedia. Fui,
pela vida, apenas mais uma parte da engrenagem. É só puxar o
gatilho e tudo acabará. Apenas um estrondo no silêncio
profundo da noite. Acharão meu corpo já podre, comido pela
terra e animais. Tento movimentar o dedo, e o gatilho não move,
meu dedo não mexe. Não consigo atirar em mim.
Volto para o carro e dirijo até a próxima cidade. São
Vicente do Noroeste, no interior do interior do estado vizinho. A
cidade dorme enquanto estaciono na frente de um hotel barato.
Peço um quarto, subo as escadas e quando encontro a cama
durmo como uma criança.

Acordo cedo, tomo o banho mais demorado da minha


vida. Desço e peço café bem forte e quente. Preciso seguir
viagem, o hotel pode, a qualquer momento, descobrir que o CPF
que forneci é falso. E, por sorte não tem as mesmas práticas de
124
segurança que as grandes redes das regiões metropolitanas.
Saio e caminho pela cidade, preciso de exercício, mexo
as pernas o mais rápido que posso, auxiliado pela bengala. Paro
na praça central encharcado de suor e febre.
Antes de voltar ao hotel, encontro uma Lan House, entro
na internet, pago por 1 hora. Acesso meus e-mails e constato que
quatro empresas retornaram com propostas de emprego. Digito
meu nome no Google e leio todas as mentiras que escreveram
sobre mim. Agora sou o assassino de policiais. Genaro está
recupado dos ferimentos, processou Cassi por difamação e a
imprensa dá como certa sua candidatura. Agora é um mártir, não
posso acreditar que o ajudei a conseguir o que desejava. Saio e
avisto um banco, testo meus cartões que ainda funcionam.
Retiro todo o dinheiro possível. Estranho ainda não estarem
bloqueados, deve ser um movimento da polícia para rastrear
minha posição.
Entro em silêncio no hotel, pego minha bagagem, acerto
minha estadia e volto para a estrada. Meus cartões ainda
funcionam, certo é que a polícia rastreará seu uso. Dirijo para
noroeste, mais trinta quilômetros. Penso em Marjorie/Paloma,
de nada adiantará fugir dos problemas. Marjorie/Paloma é um
sonho, para mim apenas Paloma, alguém que amei
profundamente por alguns dias, posso seguir seu rastro, mas ela
sempre estará distante. É livre como uma espécie rara. Ela disse
não ter pai, então já sabe quem ele é. Não! Não fugirei das
minhas responsabilidades.
Reduzo e retorno para o Sul, na direção de Nova Harz.
Não vou fugir, deixar Genaro mentir e me incriminar. Sem
medo, apenas vingança e sede de sangue. É meu destino.

125
Dirijo 5 horas para o Sul até a primeira parada para o
lanche, num restaurante na beira do asfalto. O local fede a peixe-
frito e cachaça. Outro carro estaciona atrás do meu carro.
Observo tudo sentado no balcão, pela pequena janela. Um
homem todo de preto, muito magro e pálido entra e senta ao
meu lado. Apesar de muitos lugares estarem vagos.
O senhor baixinho, com aspecto bobo, surge novamente
por detrás das cortinas para nos atender.
Velho – Olá, senhores!
Eu – Boa tarde, senhor!
Cliente – Olá.
Velho – O que vão pedir?
Eu – Torrada, café com leite, por favor.
Cliente – Uma carteira de cigarros, duas doses de uísque e um
cinzeiro.
O velho desaparece novamente, mergulhando nas
cortinas. O homem estranho e pálido puxa assunto…
Cliente – Dia ótimo para pegar a estrada.
Eu – Bom, muito bom.
Cliente – Muito bonita sua bengala, é feita de Indaiá?
Eu – Sim. Foi um presente.
Cliente – Você até que está caminhando bem para um homem
que levou um tiro no baço.
O encaro, ele sorri. Seu sorriso tem aparelho dentário de
cor vermelha, mas faltam alguns dentes. Tiro a arma da cintura,

126
mas ele já está apontando a sua para minha testa. O velho dono
do restaurante sai pela cortina e quando vê a arma retorna com
os pedidos, sem falar.
Eu – Você é da polícia?
Cliente – Não, sou alguém que vai ajudá-lo.
Eu – Apontando uma arma para minha testa?
Cliente – Isso é só até confiar em mim.
Um senhor entra pela porta principal do estabelecimento,
usa óculos de grau, cabelos grisalhos, barba generosa,
impecavelmente vestido de terno.
Velho II – Vejo que vocês já se conheceram, e já estão se
divertindo.
Cliente – Na verdade ainda não nos apresentamos.
Velho II – Baixe a arma, filho.
O homem baixa a arma, mas não a guarda no coldre.
Eu – Quem são vocês?
Velho II – Somos amigos, viemos em paz.
Eu – Percebi – aponto para a arma que o homem segura ao lado
do corpo.
Velho II – Vi quando você chegou, precisa com urgência de
cuidados médicos no ombro e no baço.
Eu – Quem-são-vocês?
Velho II – Desculpe, nos apresentarei. Meu nome é Lauro, sou
médico. Esse aí ao seu lado é chamado de Tomate-cereja e você
é Natalino Solda. Como vê, já o conhecemos. Acredite, viemos
127
em paz.
Eu – Vocês são policiais ou vieram a mando de Genaro para
acabar comigo?
Lauro – Não somos policiais e não vamos matá-lo. Somos ajuda.
Tomate-cereja – Você fez um estrondo em Nova Harz, ficamos
sabendo de sua história e queremos que trabalhe conosco.
Eu – Vocês não olham o noticiário? Sou um assassino de
policiais. Altamente perigoso, não podem dar emprego para um
bandido como eu.
Lauro – Investigamos tudo. Sabemos que você é inocente.
Eu – Obrigado! Já é um alento, dois distintos homens
acreditarem na minha inocência, mas não estou interessado.
Preciso voltar à Nova Harz, matarei Genaro e preciso encontrar
uma amiga.
Tomate-cereja – Você fala de Marjorie Cicic?
Eu – Sim, como sabem disso?
Lauro – Depois que tomamos conhecimento de sua história,
investigamos seu passado recente.
Eu – Sabem onde ela está?
Lauro – Era dada como desaparecida há um ano, mas foi
encontrada quando tentava embarcar num avião para o Panamá,
o pai conseguiu interná-la numa clínica psiquiátrica em
Curiçaba.
Eu – Não pode ser, ela queria chegar até a América Central.
Desgraçado, ela o odeia…
Tomate-cereja – Isso não provoca espanto, o cara é um porco
128
capitalista.
Eu – Depois de matar Genaro, vou tirá-la de lá. Qual a sua
proposta? – Digo me agarrando aos dois malucos. Não pareço
mais um comprador experiente acostumado a negociar.
Lauro – Quero que trabalhe para mim. Limpo sua ficha na
polícia, será um novo homem com novos documentos. Cuidarei
do seu ombro, colocarei ele novamente em condições, tratarei do
seu abdômen. Tiro Marjorie do sanatório e dou a ela outra
identidade. Fornecerei carro, casa, dinheiro, o que desejar. Só
exigirei uma coisa em troca.
Eu – O que é?
Lauro – Que você mate políticos corruptos e me dê seus órgãos.
Que seja um Assassino de Anúbis.
Tomate-cereja – É um trabalho compensador, garoto! – Ele sorri
com seu aparelho excêntrico.
Lauro – Matando um político corrupto, ajudará o país, uma
laranja podre a menos no cesto. Os órgãos serão transplantados
para pessoas que estão na fila da morte. Salvamos muitas vidas,
aproveitamos quase tudo. Aceita?
Eu – Preciso tentar entender tudo isso. Mas aceito – não tenho
mais nada, posso arriscar.
Lauro – Ótimo, garoto – diz, chegando perto, sou envolvido
num abraço, ele sorri – Tomate-cereja, ligue para os rapazes,
ordene que tirem Marjorie do sanatório…
Tomate-Cereja – Sim senhor – o esquelético homem tira o
celular do bolso e inicia uma ligação.
Lauro chama o velho dono do bar. Entrega a ele muitas

129
cédulas de cinquenta reais, comprando seu silêncio.
Contam mais sobre os Assassinos de Anúbis. Não presto
atenção em grande parte do diálogo, só consigo pensar em
Paloma. Sinto que devo muita coisa para estes homens e aos
Assassinos de Anúbis. Eles trarão de volta o sentido da minha
vida.

Abandono o carro velho de Cassi alguns quilômetros à


frente, ateamos fogo. Embarco na picape preta com vidros
escuros. Lauro dirige e Tomate-cereja vai no banco de trás,
tomando vinho no bico de uma garrafa, longos goles. Confio
nestes homens, reclino o banco e adormeço aliviado.

Sou acordado por Lauro na frente de um casebre, bem ao


lado de uma estrada de chão no interior do Estado. Já é noite.
Eu – Por quanto tempo dormi?
Lauro – Por muitas horas. Venha, vamos cuidar de você antes de
mandá-lo para a batalha.
Entramos na casa. Apalpo minha cintura e minha arma
ainda está comigo. Tenho a certeza, não precisarei usá-la tão
cedo.
Somos recepcionados por um homem negro, magro, mas
um magro natural, não como a magreza zumbi de Tomate-cereja.
Lauro – Natal, este é Terceiro.
Eu – Como vai, Terceiro? – Aceno sorrindo.
Terceiro – Vou bem e você?

130
Eu – Vou indo – olho para meus ferimentos.
Terceiro – Este já veio batizado? – Pergunta olhando para Lauro
e Tomate.
Lauro – Não, não. Natal é o diminutivo, seu nome é Natalino.
Tomate-cereja – Lauro, preciso voltar para minha missão em
Uruguaiana – diz interrompendo a apresentação.
Lauro – O sim, filho! Pode ir, mas lembre-se, precisamos dos
órgãos no hospital em, no máximo, seis horas.
Tomate-cereja – Sim, senhor! Tchau Terceiro! Tchau e boa sorte
Natal!
Eu – Tchau – ele sai triunfante.
Terceiro – Tchau Tomate-cereja, boa sorte na missão – diz feliz e
fraterno.
Enquanto conversamos, tento arrumar um lugar para
sentar dentro da casa, uma humilde construção de madeira, sem
pintura. Sento numa cadeira de madeira da simples mobília.
Escuto Tomate-cereja entrar na picape e acelerar para longe.
Eu – O que ele fará?
Terceiro – Vai matar um vereador acusado de corrupção e abuso
de menores – diz calmamente – coisa de praxe. Venha comigo.
Levanto, a dor de pontada aparece quando faço qualquer
esforço. A casa parece maior por dentro. Caminhamos até a
cozinha, onde há uma mesa de jantar no centro. O velho Lauro
agora está com jaleco de médico e luvas brancas.
Lauro – Tire suas roupas, Natal. Precisamos operá-lo com
urgência, recuperar alguns tecidos, músculos e ossos. Só depois

131
estará pronto para cumprir suas tarefas. Deite-se na mesa.
Deito, ele pede para virar e aplica anestesia bem no meio
da minha coluna.
Lauro – Natal, a anestesia fará efeito brevemente. Quando
acordar será um novo homem. O justiceiro que mata para
construir um país melhor. Por isso, quero que escolha um novo
nome para esse novo homem que surgirá.
Terceiro – Capricha, garoto! Depois não poderá mais trocar –
diz sorrindo.
Eu – Podem me chamar, a partir de hoje, de Bengala.
Lauro – Excelente nome, Bengala.
Terceiro – Durma bem, Bengala!

Acordo com sede. Curativo no ombro e no abdômen.


Sento na cama, apenas sinto dor no corte, mas não no
machucado interno. A casa está em silêncio, sem iluminação.
“Alguém aí?” Digo. Lauro aparece na porta da cozinha.
Lauro – Estamos jogando xadrez na sala. Preciso terminar
minha jogada antes de examiná-lo – sai e volta rapidamente –
pronto, como está? Sente alguma dor?
Eu – Tudo bem, apenas com muita sede.
Lauro – Certo, trarei água. Agora deite-se, mais uma semana de
repouso e estará novo em folha.
O velho traz água. Bebo goles demorados e sinto sono. A
mesa é desconfortável, estou deitado sobre um colchonete e
meus pés estão para fora.

132
Eu – Doutor – chamo quando está saindo.
Lauro – Diga, Bengala.
Eu – Vocês podem jogar aqui na cozinha para que eu possa
assistir?
Lauro – Tudo bem. Sempre é bom uma distração.
Lauro e Terceiro ajeitam outra pequena mesa ao lado de
meu leito. Sentam em caixotes de cerveja. Nos primeiros
movimentos adormeço.

Acordo e ainda os vejo jogando. A partida é parelha;


claro que Lauro tem mais elegância, pensa muito em cada
movimento. Terceiro é mais corajoso, prefere os movimentos
arriscados, mesmo expondo a rainha. Ao fim, Lauro ganha por
pouco, tirando proveito de uma subida imprudente do bispo
esquerdo e torre esquerda de Terceiro.
Lauro – Bengala, retirei a bala que estava alojada em seu ombro,
a infecção tinha avançado bastante, mas está melhorando. O
tecido muscular abdominal tinha ido para o espaço, por isso
sentia muitas dores ao caminhar, dei uma arrumada nisso. Não é
minha especialidade, mas dei conta.
Eu – Obrigado, doutor!
Lauro – De nada, fiz um favor a um bravo soldado. Por favor,
me chame apenas de Lauro, sequer fiz doutorado. Descanse
mais alguns dias.
O celular dele toca, o que o faz caminhar até a sala para
atender, fico em silêncio olhando para o tabuleiro que Terceiro
arruma para uma nova partida.

133
Lauro volta às pressas para a mesa, alegre por poder
começar outra partida.
Lauro – Tomate-cereja matou mais um. Cumpriu seu trabalho na
região Oeste. Jogarei mais uma partida e partirei para a Capital.
Ele está levando o corpo para lá.
Eu – Onde estamos? – Pergunto me dirigindo a Terceiro.
Terceiro – A, pelo menos, 8 horas da Capital.
Eu – Não vai dar tempo.
Lauro – Tem que dar, preciso daquele coração, há um bom
homem esperando por ele. Preciso dos rins, uma boa vovó
precisa deles.
Terceiro – O capitão Amílcari ainda está conosco?
Lauro – Excelente ideia, Terceiro.
Lauro sai novamente da cozinha, disca um número no
seu celular. Terceiro vira para onde estou e passa algumas
informações.
Terceiro – Os Assassinos de Anúbis são formados por três
camadas. O batalhão especial que é formado por eu, Tomate-
cereja, Braço, Fêmur e agora você. Somos responsáveis por
varrer o lixo, espremendo as laranjas podres. Mas também temos
colaboradores especiais, formadores da Rede de Apoio. A Rede
é formada por policiais, juízes, desembargadores, integrantes das
forças armadas que respeitam a causa e nos ajudam quando
estamos em apuros. Amílcari é o piloto do helicóptero da polícia
civil, sempre nos ajuda, porque não gosta de políticos corruptos.
Todos, de alguma forma, sofreram com a corrupção na política e
hoje lutam contra essa praga.

134
Eu – E você, por que está aqui?
Terceiro – Era um viciado em crack quando fui encontrado pelo
doutor Lauro. Na verdade, tentei assaltá-lo no farol. Em poucas
palavras, Lauro me convenceu a largar a arma e entrar para os
Assassinos de Anúbis. Explicou que boa parte do meu vício é
culpa da negligência das políticas públicas e que eu devia lutar
contra isso para salvar todos os outros que sofrem com o vício
das drogas. Hoje estou contente. Em 6 anos, já varri dezesseis
laranjas podres para dentro do lixo.
Eu – Matou dezesseis homens?
Terceiro – Sim, sou o segundo na lista. Braço tem dez, Fêmur
tem nove e Tomate-cereja tem dezoito baixas.

Lauro não retorna. Depois de 4 dias, liga para Terceiro e


diz para me auxiliar a caminhar. Minha recuperação é rápida.
Então, Terceiro acaba designado para uma missão. Ainda posso
vê-lo sorrindo, quando saiu da casa falando “lá vem o 17º,
menos outra laranja podre no mundo”.
Fico sozinho na casa. Mau posso esperar a hora de matar
Genaro e ver Paloma. Continuo caminhando com o auxílio da
bengala de Indaiá, mas por puro charme, afinal, ela me batizou
novamente. Fico com uma pistola automática carregada, com
ordens expressas de não sair até um de meus colegas trazer
novos documentos. Uso o tempo livre para planejar minha nova
vida e sempre coloco Paloma nos meus planos. Espero ansioso
para vê-la e mostrar o quanto mudei.

De madrugada, sou acordado com fortes batidas na porta.

135
Saio da cama com a pistola empunhada, fico espreitando, alguns
metros longe da porta, com frio, vestindo apenas cueca.
“Bengala, você está aí?” Chama uma voz estranha. Continua
batendo, “Bengala, me chamo Braço, trouxemos uma
encomenda”. Tomo coragem e abro. São dois homens vestidos
de preto, trazendo arrastado num saco preto algo que parece um
corpo desfalecido. Puxam o saco até a sala vazia e o deixam no
centro.
– Olá! Sou Braço – ele estende a mão. O cumprimento e
percebo que é um braço mecânico.
– Olá, Braço! – Digo colocando minha mão sobre sua,
friamente metálica.
O outro homem chega perto de mim manquitolando.
– Olá, Bengala. Me chamo Fêmur! – Ele usa um
exoesqueleto moderno na perna esquerda.
– Olá, Fêmur!
Vamos até a cozinha e os sirvo água, mas Fêmur quer
uísque.
Braço – Trouxemos uma encomenda. Sabe o que tem dentro do
saco?
Eu – Não faço ideia.
Braço – Então vamos abrir o saco…
Abrimos o saco e vejo um homem desfigurado.
Braço – Sabe quem é?
Eu – Não faço ideia. Seu rosto está desfigurado de tanta
pancada.

136
Fêmur – Braço tem uma direita e tanto – diz rindo. Fazendo
menção a mão mecânica.
Braço – Esse verme é o Ari Kerogah. Vendedor de peças de
carro no litoral, pai de três filhos, casado há 14 anos. Atualmente
é presidente da câmara de vereadores da cidade de Capão do
Caico.
Eu – Não o conheço.
Fêmur – Por detrás da sua linda vida, ninguém sabe que ele já
cometeu alguns estupros seguidos de morte nas suas viagens.
Foram quatro no total.
O homem começa a gemer deitado dentro do saco.
Acordou e quer explicar seus erros sem explicação.
Braço – Podíamos tê-lo levado para os pais e mães das mulheres
que ele estuprou, pessoas que nunca mais verão suas filhas, mas
sabemos, serão representados por você.
Olho para o homem gemendo. Começo a chorar, nunca
vi alguém tão machucado. Meu coração dispara.
Braço – Você terá a honra de matar esse verme. Lauro já nos deu
carta branca, não precisamos aproveitar seus órgãos. Pode dar
quantos tiros quiser.
Fêmur – Mate ele, Bengala. Você tem uma arma?
Eu – Sim, está aqui – a arma está na minha mão.
Braço – Já a usou?
Eu – Nunca.
Fêmur – Então aponte para a cabeça dele e o mate. A justiça do
nosso país é falha, os ricos são os donos da lei, os pobres são

137
escravizados nas fábricas. Mas nós, os Assassinos de Anúbis,
estamos mudando o jogo. Os políticos já sabem que algo está
acontecendo, que seus colegas corruptos estão desaparecendo e
que é melhor andarem na linha. Centenas de pessoas estão
ganhando outra chance de viver com seus órgãos. Nós somos a
verdadeira justiça.
Aponto para a cabeça do homem e atiro cinco vezes. Ao
fim sinto culpa e alívio, pareço em transe.
Braço tira algumas fotos do corpo com seu celular.
Parece orgulhoso.
Braço – Vamos mandar para o líder de seu partido.
Fêmur – E junto mandaremos um recado para não admitir no seu
partido vermes como esse.
Deixamos o corpo onde está. Sentamos no sofá. Sigo
olhando para ele.
Braço – Vejo que você está recuperado.
Eu – Me sinto muito melhor – digo sem tirar os olhos do corpo.
Braço – Temos mais uma encomenda para você. Nos siga!
Saímos da casa, a noite deixa tudo muito tranquilo,
apenas vejo o carro esporte preto com os vidros muito escuros
na frente. O frio faz meu corpo tremer.
Braço – Abra a porta traseira, garoto! – Ele ordena, faço sem
questionar.
Depois de tudo, não tenho medo de nada, confio nos
dois. Chego na porta traseira do carro, abro e vejo Paloma
dormindo.

138
Fêmur – Perdoe o mal jeito, foi necessário dar um sedativo para
ela no caminho.
Eu – Obrigado – é a única palavra que sai da minha boca.
Entro no carro e movimento seus ombros, ela acorda de
um sono leve. Sorri quando me vê. Não parece assustada e isso
não surpreende.

Não sei como explicar para Paloma o que me tornei, mas


é algo diferente do que fui e isso pode agradá-la. Enterramos o
corpo nos fundos da casa. Voltamos a conversar na sala.
Enquanto Paloma, sobre os efeitos do calmante, dorme no
quarto.
Braço – Está pronto para seu primeiro trabalho?
Eu – Estou e qual será?
Fêmur – Encontrará um velho amigo.
Eu – Genaro.
Braço – Exatamente, mas lembre, você agora é o Bengala.
Natalino Solda não existe mais. Trouxemos quatro identidades e
quatro carteiras de motorista diferentes. São suas!
Fêmur – Natal não pertence mais a esse mundo, isso significa
evitar contato com todas as pessoas que conhecia. Isso é para
seu bem, mas também para o delas.
Eu – Tudo bem. Aceito as cláusulas, desde que permitam matar
Genaro.
Braço – É assim que fala, garoto! Vamos levá-lo até a próxima
cidade, lá compramos um carro para você. Geralmente

139
trabalhamos sozinhos. Nos unimos apenas quando o alvo for
difícil de ser encontrada ou em casos especiais. Fêmur e eu
vamos nos separar logo ao amanhecer. Lauro tem outro trabalho
para nós.
Eu – Tudo bem, mas e quanto a Paloma?
Braço – Temos uma nova identidade para Marjorie. Seguirá
sendo Paloma Frances. Lauro alugou um apartamento para ela
no Centro da Capital. Você poderá visitá-la sempre que possível.
Desde que moderadamente. É muito importante preservar sua
segurança.
Ao amanhecer sou deixado na frente de uma revenda de
carros com um cartão de crédito no nome de Fiódor Dostoievski,
com a senha 1821, o ano de nascimento do maior escritor de
todos os tempos, o velho Lauro tem um senso de humor
britânico e coloca a ignorância das pessoas em xeque. Me
despeço de Paloma com um abraço e um longo beijo. Saio do
carro.
Braço – Lauro é fã de Dostoiévski. Exigirá que leia a obra
completa, num futuro não muito distante. Sua primeira
identidade será Fiódor, como foi de todos nós.
Eu – Já li alguns e lerei o restante com prazer. Nos vemos em
breve, rapazes?
Fêmur – Esperamos que sim! Caso não surgindo outro trabalho
em conjunto, nos veremos no encontro semestral no consultório
de Lauro, na Capital.
Eu – E como saberei disso?
Braço – Não precisa esquentar a cabeça com isso. Você será
informado. Na verdade nunca estará sozinho. Sempre

140
encontramos um ao outro quando é preciso.
Olho para Paloma, está com os olhos fechados, fone nos
ouvidos. Prefiro que nossa separação temporária seja assim.
O carro arranca, viro e sigo para a entrada da revenda,
mas o carro freia em seguida, olho para trás e vejo Paloma
saindo, corre ao meu encontro até ficar entre meus braços.
Paloma – Eu te amo, seu velho corajoso.
Eu – Também te amo, sua maluca… Nos encontramos em breve.
Marjorie – Esterei esperando no nosso lar.
Não ouso responder, sei que nos veremos com pouca
frequência.

O cartão de crédito não tem limites. Compro um carro


utilitário veloz, totalmente preto, como é o uniforme que uso e
sigo viagem para Nova Harz.
Dirijo evitando paradas, quero chegar logo e cumprir o
meu primeiro trabalho.
Faço uma viagem de 10 horas na metade do tempo. Ao
chegar no trevo de acesso à cidade, sou surpreendido por uma
blitz, mantenho a calma e acredito nos Assassinos de Anúbis.
Retiro do bolso uma das carteiras de habilitação falsa, abro a
janela calmamente.
– Bom dia, senhor – diz o policial rodoviário.
– Bom dia, senhor policial. Aqui está o documento do
veículo e minha habilitação.
– Pode guardar, não será necessário.
141
O policial coloca o braço para dentro do veículo e joga
no banco do carona um celular.
– Presente em nome de Anúbis, senhor.
O encaro e ele sorri. Dou partida novamente. Aquele
policial estava conosco e ajudou da sua forma a organização. Só
então pude compreender a força e as ramificações dos
Assassinos de Anúbis.
O celular toca, no visor está escrito Lauro. Atendo ao
mesmo tempo que estaciono no acostamento.
– Alô, Lauro?
– Olá, Bengala! Como foi a viagem?
– Cansativa, mas ainda tenho energia.
– Acredito; deve ter sido mesmo, mas esse carro é bem
veloz, chegou na metade do tempo. Estou ligando porque
preciso saber como está? E tem certeza que dará conta da tarefa
sozinho?
– Estou bem. Tenho a pistola carregada. Quatorze balas
são suficientes para o trabalho.
– Ok. Preciso o alertar que Genaro está sendo protegido
por dois seguranças. Dois ex-policiais corruptos expulsos da
corporação. São perigosos e bem treinados. Cada um tem seu
revólver com seis balas, talvez tenham munição extra. Genaro
está em casa, você o conhece, possivelmente ele dorme no
segundo andar. Os dois seguranças revezam as rondas, depois
das 10 da noite e de hora em hora. Um deles é fumante, sai na
sua hora de vigília para fumar no quintal. É a sua chance, pode
apanhá-lo. Ao sair ele não tranca a porta. Só tenha cuidado, há
uma inocente na casa, uma técnica de enfermagem que cuida de
142
Genaro. Não sei em qual cômodo dorme, mas sempre está de
plantão. Creio que não conseguirá trazer o corpo dele para nós,
por isso designei alguns policiais que estão conosco, trarão o
corpo dos dois seguranças. Eles não terão tanta atenção.
– Obrigado, Lauro.
– Boa sorte, Bengala!

Entro na cidade depois de anoitecer. Estaciono o


utilitário distante do centro e sigo a pé para a casa de Genaro.
Todo vestido de preto, as luzes da cidade muito fracas me
tornam quase imperceptível. Espero atrás da casa de tia Teresa,
no mesmo quarteirão do meu alvo. Aguardo até todas as luzes
das casas da rua apagarem. São 22 horas quando saio e sigo na
direção do alvo, espero escondido entre algumas árvores ao lado
do grande jardim. Às 22:05 a porta do casarão abre, o segurança
fumante sai. De longe parece ter dois metros de altura, talvez
cento e vinte quilos. A porta da frente fica apenas encostada e
ele caminha entre as árvores do quintal sem grades e acende seu
cigarro.
Caminho no seu encalço, tiro a arma da cintura e aponto
na direção do seu peito a três metros de distância.
– Olá – digo.
– Olá – diz ele sem demonstrar medo – você deve ser
Natalino Solda.
– Exato. Já me esperavam?
– Na verdade não. Genaro nos falou que é um covarde,
mas parece que não é bem assim. Estou desarmado. Você vai
atirar num homem desarmado?
143
Aponto a arma para sua cabeça e atiro, o barulho é
estrondoso no meio da noite. Luzes acendem na casa. O corpo
cai imóvel. O outro segurança sai correndo pela porta com o
revólver em punho. Me escondo atrás da casa e a contorno.
Entro pela porta da frente e fico aguardando. Movimentos de
passos no andar de cima. Genaro está preparado para descer.
O segurança entra. Encosto a arma na sua cabeça.
“Parado” digo, “jogue a arma no chão” ordeno. Ele joga a arma
no chão.
– Onde está Genaro? – Ele fica em silêncio – ONDE
ESTÁ GENARO?
– No andar de cima – responde vencido.
– O ordene a descer agora mesmo.
– Nesse momento a polícia já está a caminho. Eu mesmo
chamei. Desista.
– Não pedi sua opinião, seu verme, policial corrupto de
merda. Ordene aquele verme a descer!
– Ordene você!
– Está bem. Então você é inútil para mim.
Puxo o gatilho. Estouro seu crânio, o acerto bem na
têmpora esquerda. O corpo cai em queda livre, suspenso no ar.
O barulho de passos no andar de cima acabou. Subo lentamente
e com cautela, cada degrau da escada é vencido. No corredor de
cima encontro três portas. No meio do breu surge uma moça
vestindo uma camisola, empunhando uma pistola com as duas
mãos trêmulas.
– QUEM É VOCÊ? – Ela pergunta desesperada.

144
– Moça, largue a arma, não vim aqui para machucá-la.
– Você matou os dois seguranças?!
– Sim. Eles mereceram. Eram ex-policiais corruptos.
Causaram muita dor, aliados de traficantes, aliciadores de
menores, com as drogas. Suas almas eram cheias de dor.
– Mentiroso! Eram homens trabalhadores, pais de
família.
– ERAM EX-POLICIAIS CORRUPTOS QUE
MANCHARAM A CATEGORIA! PORRA! LARGUE ESSA
ARMA!
– Não largarei. A polícia deve estar vindo, eu os chamei
– conclui tremendo ainda mais.
– Moça, presta atenção. Matei os seguranças porque
mereciam, você não merece. Largue a arma e vá para casa.
Aponto a arma para sua cabeça.
– NÃO! Vou segurá-lo bem aí onde está, até a polícia
chegar da cidade vizinha e Genaro estar bem longe, em
segurança.
– O que disse?
– Sim, enquanto conversamos ele pulou a janela e fugiu.
Não tem mais saída para você.
Levanto minha arma e atiro três vezes na direção da
enfermeira. Na verdade erro de propósito, todos bem perto da
cabeça. Ela cai como um saco de farinha no chão,
completamente em choque, sem forças para reagir. Desço
correndo as escadas, olho ao longe e posso ver a silhueta de
Genaro correndo com dificuldades. Vai longe, talvez a

145
quinhentos metros. Os vizinhos estão acordados, luzes acesas
por todos os lados. Muitos estão na frente de suas casas,
assustados pelo barulho dos tiros, vestidos de pijama.
– Voltem para suas casas – grito – sou da polícia! A
situação está controlada!
Corro o mais rápido que posso, ajudado a cada passo por
minha bengala. Escuto as sirenes da polícia cada vez mais perto
e Genaro corre na direção do som. Enquanto dou três passos,
Genaro muito fraco dá um. Vou ganhando metros. As sirenes
mais altas, Genaro mais perto.
Aumento o ritmo das passadas. Chego tão perto que
posso tocá-lo. Acerto suas canelas com minha bengala, ele cai de
cara. Urra de dor.
– Olá, meu velho amigo Genaro!
Ele apenas vira com o rosto ensanguentado. Tenta pegar
algo na cintura, mas aponto minha arma na direção de seus
olhos.
– Sabe que vou atirar não sabe? Não temos muito tempo.
Preciso apenas fazer uma pergunta.
Ele não fala. As sirenes mais perto, menos de 5 minutos
de distância.
– Genaro, está arrependido de ter sido esse verme
corrupto que foi? Por sua culpa nosso país vive em miséria.
Garotos nos faróis sem perspectiva caem nas drogas. Pessoas
trabalham por salários injustos, enquanto você enriquece com o
dinheiro público. Se arrepende de alguma coisa?
– VÁ SE FODER! Você acha que é quem? Eu fiz o que
era certo. Não fosse isso ainda seria um assalariado, sem casa
146
nova, sem carro do ano. Apenas um pobre coitado, habitante
comum de Nova Harz. Queria o luxo e não posso ser culpado
por ser ganancioso.
– Vejo que não está arrependido.
Aperto o gatilho e descarrego a arma atirando no seu
rosto. A sensação é uma perigosa mistura de ódio e medo.
Corro para dentro da mata e fico observando o trabalho
dos policiais e paramédicos tentando, inutilmente, trazer Genaro
a vida. Alguns moradores indicam para onde o assassino correu.
Fico assustado e adentro ainda mais a mata. Pego o celular e ligo
para o único número salvo em sua memória, para Lauro.
– Alô, Lauro! Preciso de ajuda.
– Olá, Bengala, tudo certo?
– O serviço está feito, mas tenho problemas.
– Você foi preso?
– Ainda não. Demorei para fazer o serviço, deixei a
polícia chegar muito perto. Estou na mata escondido e, pelo
menos, oito policiais estão vindo atrás de mim. Preciso de ajuda
para sair daqui.
– Ok. Enterre sua arma em algum canto, corra o mais
rápido possível para outra direção. Enterre também o celular.
Tente chegar ao carro que comprou.
– Assim serei preso…
– Confie em mim, garoto. Na hipótese de ser pego, não
reaja, fique em silêncio. Vamos resgatá-lo de alguma forma.
– Certo. Confio em você.

147
Corro para a direita o mais rápido que posso. Saio da
mata despistando alguns policiais. Caminho normalmente na
calçada, mas sou pego antes de chegar ao carro.
– Parado, senhor!
Paro e viro lentamente. Vejo um policial. Ele está com a
mão sobre a arma no coldre.
– Algum problema, senhor guarda?
– Na verdade sim. Um maluco matou três pessoas. O
prefeito e seus seguranças. Não está sabendo?
– Nossa, que tragédia. Não sei de nada.
– Posso ver seus documentos?
– Claro, estão aqui – tiro do bolso, ele não teme meus
movimentos.
– Certo – diz conferindo – senhor Alberto Camus. O
senhor é da cidade?
– Não. Sou da seguradora responsável pelos seguros de
vida de alguns moradores da cidade. Nova Harz anda muito
violenta ultimamente. Vim rever alguns amigos, perdemos a
hora jogando canastra e já estava partindo, meu carro está logo
ali – digo apontando para o carro estacionado quase dentro da
mata.
– Certo – diz, devolvendo o documento falso – não sei o
que mais vai acontecer nesta cidade, mas aconselho a sair o mais
depressa possível. O assassino pode estar à solta. Boa viagem,
senhor!
– Obrigado e bom trabalho. Espero que peguem esse
assassino desgraçado.
148
– Pegaremos. Pode ter certeza. É questão de tempo. Sabemos
que está dentro da mata ao lado oeste. É um covarde, vamos
cercá-lo e prendê-lo.

149
150
O dia tem 24 horas e muitas pessoas ao redor do
mundo trabalham metade disso em nome do
patrão nosso de cada dia. Por não existir saída.
Para mim, isto também é uma forma de
escravidão.

PARTE III
Pai

151
152
Chove muito e os pingos embaçam meus óculos. Ficando com
eles não consigo ver muita coisa, os tirando, vejo menos ainda.
Decido ficar com eles.
– Ainda falta muito? – Pergunto a Thiago.
– Não. Continue caminhando, falta pouco.
Continuo, cansado, com sede, a água da chuva gelada
encharcando minhas roupas. Mas preciso estar aqui. A vida de
Maurício depende disso.
Chegamos numa imensa porta de ferro. Thiago bate com
muita força algumas vezes. Ela abre e entramos. Alguns
seguranças de terno estão espalhados logisticamente pelo local.
Ao redor da imensa mesa, alguns empresários,
comerciantes e políticos conversam. Reconheço alguns,
figurões, magnatas envolvidos em escândalos de corrupção.
– Olha os rapazes – diz Milos Cicic sorrindo – já não era
sem tempo.
– Olá – diz Thiago sorridente, ninguém o responde.
Fico em silêncio, olhando para todos e todos nos
encarando com admiração, como se fôssemos dois santos.
– Senhores – prossegue Milos – estão diante dos dois
mercenários mais requisitados do país. Precisamos deles para
dar sequência ao nosso plano.

– Qual é o plano? – Pergunto em voz baixa para Thiago.

153
– Não podemos ficar falando nisso, Césio. Só nos
pagam, não fazemos perguntas. Lembra?
– Tudo bem – prossigo em voz baixa – mas será meu
último trabalho. Depois serei empreendedor numa cidade
pequena e farei o transplante em Maurício.
– Está certo. Depois conversamos sobre isso.
– Quanto vão nos pagar?
– 1.000.000 para cada um.
– Uau! Vamos matar quem, a presidenta? – Insisto.
– Na verdade, sim. Mataremos a presidenta.
– Merda. Como assim? – Não posso acreditar. Matar a
presidenta é suicídio. O encaro, ele não me olha.
– Está vendo aquele cara bem-vestido ao lado de Milos?
– Continuamos cochichando.
– Estou. O engomadinho com cara de playboy viciado
em cocaína.
– É Dilécio Mendez, presidente do Partido D. Caso
lembre ele perdeu a última eleição para Elma Saniffi, presidenta
e representante do Partido E. Não será bom para os negócios
destes homens ela continuar no poder. E o pior, ela não pode, em
nenhuma hipótese conseguir a reeleição.
– Merda! Querem realmente que matemos a presidenta.
– Sim, esses são os homens mais poderosos do país. Eles
podem tudo, conseguiram suas riquezas passando por cima de
outros e tendo a oportunidade comem o coração de seus
inimigos.

154
– Então – prossegue Milos – pagaremos a vocês um
adiantamento e daremos 2 meses para cumprirem com sua parte
do trato.
Dilésio levanta, bate com uma colher no seu copo de
uísque pedindo a palavra.
– Matem Elma em duas semanas e darei a vocês mais
3.000.000, para cada um.
Meus olhos arregalam automaticamente. A uma
comoção, todos espantados com a proposta. E depois todos
calam. Com esse dinheiro posso dar a Maurício o melhor
tratamento possível. Posso, inclusive, comprar um rim para ele
no mercado clandestino de órgãos. Posso comprar uma equipe
com os melhores profissionais da saúde.
– Vamos pegar logo a grana – digo em voz baixa para
Thiago – e daremos a eles o corpo da presidenta.
– Ok. É assim que se fala!

A reunião termina, caminhamos novamente na chuva,


não vemos os homens saindo das docas onde foi a reunião.
Thiago me deixa em casa. Novamente estou perto dos braços de
Gabriela e do carinho de Maurício.
Chego no condomínio onde moro, o edifício de quatro
andares, no bairro longe de ser burguês. Gabriela espera na sala.
– Boa noite, amor! – Digo a ela a mesma coisa, faz tanto
tempo e ainda é a única coisa que preciso dizer quando chego
em casa.

155
– Boa noite, Césio. Nossa, está todo molhado! Vá trocar
de roupa e volte aqui, o esperei para o jantar.
– Que bom. A viagem me deixou com muita fome.
Ela larga seu celular no criado, devia falar com suas
amigas no grupo de mensagens, vou para o quarto trocar de
roupa, em alguns minutos sigo para a cozinha.
– Como foram as vendas? – Diz da sala sem levantar do
sofá, demoro a responder, ela vem ao meu encontro.
Gabriela acha que meu trabalho consiste em vender
suplementos alimentares para velhos em asilos espalhados pelo
Estado. A ideia do falso emprego foi de Thiago, faz 5 anos que
sustento a mentira, quando fiquei apaixonado por Gabriela.
Dizia ele “vendendo canetas, chá para emagrecer ou peças de
carro, somos mentirosos, mas vendendo suplementos
alimentares para velhos, somos homens honestos que salvarão o
mundo”. Pelo menos funcionou, escondo meu trabalho desde o
princípio.
– Foram razoáveis. Continuando assim atingiremos as
metas em duas semanas.
– Isso é ótimo, amor. Você e Thiago são ótimos
vendedores.
– É, somos os melhores. E Maurício?
– Ficou perguntando por você o tempo todo. Sente sua
falta. Fomos ao hospital, fizemos as sessões de hemodiálise, mas
o médico não disse nada sobre a fila de transplante.
– Droga… Caso nenhuma novidade acontecer não sei o
que sou capaz de fazer. Ele precisa de um rim.

156
– Tudo vai dar certo. Amo Maurício como sendo meu
filho biológico, não vamos perdê-lo. Eu sinto – ela sorri seu
sorriso de paz.
– Obrigado por tudo. Te amo, Gabriela!
– Também te amo, Césio!
Termino a refeição. Vou até o quarto de Maurício, meu
filho querido, beijo seu rosto, ajeito sua coberta sem acordá-lo.
Ele é tão frágil para sua idade, fico tão triste com isso. Meu
pequeno garoto.
Transo com Gabriela no sofá da sala. Fumo um cigarro,
bebo três doses de vodca.
– Viajarei por duas semanas. Quando voltar tirarei férias.
Quero conversar com o doutor, preciso que forneça informações
concretas sobre o transplante de Maurício.
– O doutor Lauro é muito atencioso, tenho certeza que
pensa muito no caso de Maurício. No momento ele é o décimo
quarto da fila, talvez em 6 meses chegue a sua vez.
– Espero que esses meses passem muito rápido para o
bem da nossa família.
Adormeço abraçado nela. A televisão ligada.

Somos acordados pela manhã, por batidas fortes na


porta. Visto short, calço chinelos e vou até a porta. É Thiago,
parece aflito.
– Precisamos conversar – está estranho, tem medo nos
olhos.

157
– Ok. Entra, vou passar café para nós.
– Não, Césio. Não pode ser aqui, é particular – diz
olhando para Gabriela por cima de meu ombro.
– Certo – sei que precisa falar algo sobre nossa missão –
só um segundo.
Encosto a porta, viro para Gabriela.
– Preciso sair. Thiago pediu ajuda para finalizar alguns
pedidos de última hora.
– Mas hoje é sábado, amor.
– Eu sei querida, mas sabe como ele é, o rei da
ansiedade.
– Tudo bem, mas fique, pelo menos, para o café da
manhã.
– Não posso. Como algo na rua. Prometo não demorar.
– Promete mesmo? – Caminho até a porta.
– Prometo – a beijo demoradamente e saio.

Caminhamos rua acima. Paramos num bar, pedimos uma


cerveja de litro.
– Não sei Césio, talvez não devêssemos fazer o serviço –
diz Thiago.
– Não podemos voltar atrás. São milhões!
– Cara, andei pesquisando a vida de Elma. Aonde quer
que vá, sempre é protegida por no mínimo vinte homens,
segurança especializada. Isso sem contar o apoio que recebe dos
158
policiamentos locais nas cidades na qual visita. Não quero
morrer, Césio.
– Não podemos desistir, Thiago. Preciso do dinheiro, é a
saúde do meu filho em jogo. Você tem que fazer esse trabalho
comigo, pelo Maurício. Somos amigos desde a infantaria, ele é
seu afilhado. Por favor, amigo.
– Droga, somos assassinos, mas sinto que estamos
fazendo a coisa errada.
– Quando o dinheiro vai entrar em nossas contas
fantasmas?
– Uma parte já está lá. 250 mil em cada conta.
– Não podemos voltar atrás. Na segunda-feira
conversarei com o doutor responsável pelo Hospital de
Transplantes Estadual. Vou suborná-lo caso seja necessário,
preciso salvar meu filho.

De tarde, vou até o hospital. Na recepção peço para ver o


doutor responsável, a recepcionista, uma moça mal humorada,
não recusa ajuda e sou encaminhado até a sala do médico, no
último andar, onde está o tal Lauro.
– Sabe – diz ela – muitos como você vêm ver o doutor
Lauro – caminhamos para o elevador.
– Como eu?
– Sim, “com seu estilo”.
Não compreendo. Decido não seguir conversando. Em
poucos minutos sou recebido pelo médico. O velho está sentado
atrás de sua grande mesa. A sua frente há um homem robusto,
159
vestido de preto. Parecem amigos íntimos, apesar da diferença
de idade. O homem tem um braço mecânico. É uma cena muito
diferente.
– Pois não – diz o doutor ao olhar com felicidade na
minha direção.
A recepcionista sequer olha, vira e sai da sala sem
cerimônia.
– Doutor Lauro?
– Sou eu mesmo, mas me chame de Lauro. Não tenho
doutorado.
– Como queira, Lauro. Preciso falar com o senhor, mas
caso esteja ocupado posso voltar mais tarde.
– Imagina rapaz. Sente-se, Braço já estava de saída.
Braço, o apelido faz jus. O homem robusto, de rosto
quadrado, barba por fazer, vestido de preto levanta, me
cumprimenta e sai da sala. Espero bater a porta para prosseguir a
conversa.
– O que deseja, rapaz?
– Doutor, é meu filho, está morrendo. Na fila dos
transplantes é o décimo quarto. Temo por sua vida o transplante
não pode demorar. Minha namorada contou que o senhor projeta
a vez dele para daqui a 6 meses. Estou disposto a pagar qualquer
quantia pelo transplante.
– Calma, rapaz. Entendo seu desespero, mas a questão
não é dinheiro.
– Eu sei, mas pensei que pudéssemos fazer um acordo. O
senhor pode usar o dinheiro para reformar seu hospital.
160
– Como é seu nome?
– Césio.
– Então, Césio. A fila para os transplantes obedece várias
regras de urgência. Seu filho terá o transplante em breve. Tenha
fé.
– Meu filho está morrendo, como terei fé?
– Como tantos outros pais que têm seus filhos
padecendo.
– Posso pagar! Tenho muito dinheiro!
– A questão não é dinheiro.
– A questão é dinheiro. O dinheiro compra tudo.
– Esta questão não é verdadeira, rapaz. Não sou
corruptível, Césio. Pode acreditar.
– Posso dar ao senhor um bom motivo.
Tiro minha pistola automática da cintura e aponto para
seu peito.
– Isso não vai mudar nada – diz Lauro – e sendo você,
teria mais cuidado com isso.
Acho estranho, o médico que deveria ficar assustado
vendo a arma, porém, nem sequer demonstra nervosismo.
– Cuidado, Lauro. Está me ameaçando?
– Césio, não ameaço. Pode acreditar. Acho um pecado
alguém como você, com um bom treinamento militar,
participante das pacificações das maiores favelas do país, que foi
voluntário no Haiti, morrer sem ver seu filho curado.

161
– Morrer? Sou eu que estou com a arma na mão – então
reflito suas palavras, ele sabe coisas da minha vida que não
deveria – como sabe de tudo isso?
– Sei muito mais do que pode imaginar, Césio Konin. Sei
de muitas coisas.
Seguro a arma mais firme. De repente um homem
segurando uma bengala, vestido de preto entra na sala. Aponta
uma pistola na minha direção.
Bengala – O que isso significa, doutor?
Lauro – Calma, Bengala. É só um pai desesperado procurando
cura para seu filho.
Eu – Quem é esse cara? – Pergunto à Lauro. Aponto a arma na
direção do homem.
Bengala – Ele está apontando uma arma para mim. O último que
fez isso morreu com muitos tiros na cara.
Eu – Cale a boca. Olha para você. Precisa de bengala para andar.
Bengala – Solte sua arma e mostrarei do que preciso para te
ensinar quem sou.
Lauro – PAREM COM ISSO! Césio, estava esperando por você.
Conheço Maurício, conheço sua companheira e posso ajudá-lo.
Baixo a arma, outro homem muito pálido, sem cabelo,
olheiras profundas sai detrás do tapume, segurando uma
carabina de longo alcance. Outro homem sai de outra porta pela
esquerda. Manquitola, usa um exoesqueleto na perna esquerda,
segura um trinta e oito. O homem de braço mecânico retorna
para a sala. Todos vestem preto.
Lauro – Por favor, fiquem onde estão, ainda temos mais um
162
convidado.
Outro homem, este comum, de cabelo bem cortado, porte
atlético, entra pela porta. É negro e veste preto como os outros.
Lauro – Agora estamos completos. Césio, você terá um
recrutamento diferente dos outros.
Eu – Recrutamento? Do que está falando? Vocês estão loucos.
Lauro – Por favor, escute. Na verdade, não aceitamos pessoas
como você. Matadores de aluguel, no nosso ponto de vista, são a
pior espécie de matadores, porque matam sem motivo. Mas
preciso completar a equipe com alguém com suas
características.
Eu – Você bebeu, velho. Só pode ser isso. Seus problemas com o
álcool são bem graves.
Lauro – Na verdade bebi uísque 18 anos, meu preferido. Onde
está Maurício?
Eu – Em casa, com minha esposa.
Lauro – Na verdade não pedi para você. Terceiro, trouxe a
encomenda?
Terceiro – Sim, senhor. Está sendo preparado pelas enfermeiras
na sala de transplantes.
Eu – Mas o que é isso?!
Lauro – Ok! Sentem-se todos.
Na verdade, apenas o homem magro de olheiras e o
homem de braço mecânico sentam, os outros ficam de pé ao
redor da mesa do médico. Os acompanho, sem entender nada,
Lauro não responde minha pergunta.

163
– Senhores – diz Lauro – como sabem, estou ficando
velho. Faço isso há muitos anos e esperava fazer ainda mais,
mas o destino impossibilitou meus planos. Não tenho mais tanto
tempo para tentar mudar o destino do país.
Os cinco homens de preto escutam com atenção. Quatro
deles choram, menos o magro e sem cabelo.
– Preciso dizer – ele prossegue – que vocês são como
meus filhos e estou orgulhoso por tudo que passamos. Serei
direto. Estou com um tumor maligno no cérebro. Tenho mais ou
menos 6 meses de vida. Por isso, passamos bom tempo
investigando o último integrante e o destino fez com que Césio
nos procurasse.
– Que porra é essa? – Pergunto indignado.
– Césio – prossegue o velho – vocês não conseguiriam
matar a presidenta. Meus homens estavam naquela reunião e
matariam todos, mas intervi, porque queria você vivo.
Bengala – Devia ter atirado bem no meio da sua testa.
Eu – Cale a boca seu aleijado.
Lauro – SILÊNCIO. Sabem as regras!
Lauro pega seu celular, disca e leva o aparelho até a
orelha. Ordena alguém a subir.
Lauro – Césio, aceitando minha proposta, transplantarei um rim
de Maurício ainda hoje, mas você terá que abrir mão de sua
vida. Não poderá ver Gabriela, nem Maurício com frequência.
Baixo a cabeça sem entender ao certo o que está
acontecendo nessa sala. Vim para comprar o médico e é ele que
me suborna. Largo a arma em cima da mesa e junto as duas

164
mãos no rosto. A porta abre novamente. Um rapaz entra.
Lauro – Entre Talico, sente-se aqui ao meu lado.
Não há cadeira ao lado de Lauro e Talico fica de pé.
Olho para o homem, na verdade um garoto, com menos de 25
anos. Usa óculos de grau com armação redonda, estilo Lennon.
Tem o cabelo mal cortado e parece um adolescente. Está
vestindo o uniforme verde dos residentes.
Lauro – Rapazes, esse é Talico, médico cirurgião especializado
em transplantes. É meu sobrinho, filho da minha irmã Martina.
O treino há 4 anos para me substituir. Ele sabe tudo sobre os
Assassinos de Anúbis. Tenho certeza que o protegerão até a
morte.
Todos – SIM, SENHOR!
Lauro – Muito bem! Ele começa conosco agora. Só falta você,
Césio, para completar nosso time. Aceita?
Eu – Vocês são malucos, e ainda não sei o que fazem, mas
aceito. Quero meu filho vivo de qualquer jeito. E quero ver até
onde isso vai dar.
Lauro – Ótimo. Explicarei tudo quando estiver com mais tempo.
Braço e Terceiro, por favor, quando a reunião terminar,
acompanhem Césio, quero que mostrem o menino.
Braço e Terceiro – Sim, senhor!
Lauro – Vamos facilitar as coisas rapazes. Vou morrer, é um fato
e não há nada para prolongar minha vida. Na minha ausência,
Talico ficará a cargo das dissecações e os transplantes, mas
preciso apontar um novo líder para os Assassinos. E como deve
ser esperado, ele será Tomate-cereja, o mais corajoso entre
todos, espero que todos respeitem minha decisão.
165
Todos – SIM, SENHOR! – Eles olham para o homem pálido,
fumando um cigarro, tem um sorriso débil. Este é o novo líder
deste exército de malucos.
Lauro – A reunião está encerrada. Não quero conversar sobre
minha doença com ninguém. Por isso, respeitem minha decisão
e vão todos cuidar de suas vidas.

Seguimos por alguns corredores. Passamos na frente da


sala de cirurgia. Vejo Maurício, com seu corpo esquálido em
cima da cama. Apenas a centelha de vida que não caminha, não
corre como os outros garotos. Só espera pela morte ou por um
rim. Duas enfermeiras conversam com ele. Tenho vontade de
invadir a sala e dizer o quanto o amo, mas de alguma forma sei
que não devo fazer isso e confio nas palavras de Lauro. Saímos
do hospital pelo estacionamento. Entramos numa picape preta e
seguimos até minha casa. Braço dirige pelas ruas sem que eu
fale meu endereço. Terceiro vai ao seu lado.
Eu – O que vocês fazem?
Braço – Limpamos o mundo.
Eu – Vocês matam pessoas, não é mesmo? Do contrário não
estaria aqui.
Terceiro – Bingo! Temos um cara esperto no time – diz irônico.
Eu – Um bando de matadores de aluguel. Isso é fácil de aturar.
São, no fundo como eu!
Braço – Não somos pistoleiros como você. Não nos rebaixe.
Limpamos o mundo, não cobramos pelos nossos serviços.
Vivemos de patrocínios.

166
Eu – O que é isso, um tipo de esporte?
Braço – Não. Matamos políticos corruptos e com seus órgãos
salvamos vidas de transplantados. Seu filho vai receber um rim
por causa de nosso trabalho.
Eu – Isso não faz sentido.
Terceiro – Faz todo sentido. Estamos chegando – é verdade, já
estamos na frente de minha casa – entre na casa, arrume suas
coisas e diga adeus a sua esposa. Diga que terá de fazer uma
longa viagem. Ela deve estar assustada, quando busquei
Maurício tive que ser enérgico.
Eu – O que fez com Gabriela?
Terceiro – Nada demais… Apenas tivemos uma longa conversa.
Desço o mais rápido possível. Preocupado com Gabriela!

Fico pensando nas últimas horas. Farei tudo que pedirem


para salvar meu filho. Talvez, depois de sua total recuperação,
possamos fugir com Gabriela para o interior ou algum país da
América do Sul.
Entro no apartamento, encontro Gabriela deitada no sofá,
está num estado quase vegetativo, deram a ele alguma droga
para conseguir levar meu filho. Explico que Maurício está bem,
e que fora levado mediante meu consentimento. É difícil para
Gabriela acreditar, diz que o homem de preto não parecia
enfermeiro, e caso não fosse a droga que injetaram nela para
dormir, teria impedido com sua vida. Digo que tenho muito
trabalho e terei de partir. É o dialogo mais estranho que já
tivemos. Pego no guarda-roupas apenas roupas pretas. Vou
jogando tudo dentro da mala.
167
– Sei que é mentira – diz Gabriela – você está
escondendo muitas coisas, mas sei que é pelo bem de Maurício.
Não quer contar, tudo bem! Só prometa que vai voltar vivo para
mim – ela tenta mover o corpo e faz cara de dor, não consegue.
– Voltarei, meu amor.
– Também sei – prossegue – que não é vendedor. Sei do
seu esconderijo no fundo falso do guarda-roupas. São armas e
isso não é nada bom. Sempre rezei para que voltasse mesmo
assim. É óbvio que vender suplementos para velhotes não
sustentaria a casa, nem pagaria os remédios de Maurício… Vá,
Césio. Esperarei porque te amo. Só fique vivo. Um dia quem
sabe, possa entender sua vida.
– Eu voltarei…
A beijo. Peço que cuide de Maurício. Pego minha mala,
retorno para a picape e seguimos novamente para o hospital.
Meu coração está rachado de dor, amo Gabriela e ficar longe
dela será sofrido. Contudo, preciso concentrar e seguir o plano,
para o bem de Maurício. Tentar entender toda essa loucura.
No hospital volto para a sala onde está Maurício, muito
fraco, naquele estado de semiconsciência não entende o que está
acontecendo, e prefiro não explicar, acredito que ele não
lembrará das coisas que falei, apenas beijo seu rosto. É dolorido
ficarmos longe e fico imaginando que aqueles outros homens
também tiveram de abrir mão de suas famílias. Vejo meu filho
em cima da maca, entrando para a sala de transplantes. Lauro e
Talico passam por mim, muito sérios e concentrados. De
máscara e luvas. Então lembro que havia recebido uma parte do
pagamento para matar a presidenta.
Espero por uma distração de Braço e Terceiro, saio do
corredor e procuro um telefone público dentro do hospital.
168
Encontro e ligo para Thiago.
– Alô, Thiago?
– Sim. Pode falar.
– Sou eu, Césio! Desculpe a ligação a cobrar, mas
preciso falar com você.
– Claro, sem problemas, teremos dinheiro para muitas
ligações a cobrar depois que terminarmos o serviço para Milos.
– É disto que preciso conversar. Desistirei do trabalho,
devolverei o dinheiro. É muito perigoso e é inocência a nossa
pensarmos que mataríamos a presidenta tão facilmente.
– Ufa! Já não era sem tempo. Pensei muito nisso, é uma
missão impossível. Andei conversando com alguns de nossos
colegas. A presidenta é praticamente intocável. Além dos
seguranças, do exército, das escoltas das cidades, há por trás de
tudo uma organização supersecreta sem vínculos com o estado,
ninguém sabe da onde vieram, mas estão protegendo a
presidenta desde que souberam que o Partido D está tentando
assassiná-la. E tem mais, também estão protegendo políticos
tidos como “honestos” e matando os tidos como “corruptos”, ou
seja, esses caras estão prejudicando nosso trabalho, pois são os
corruptos que nos pagam.
– Uau! Não sei nada sobre isso – minto, obviamente está
falando, sem saber, dos Assassinos de Anúbis – estou largando
essa vida, amigo.
– O que isso significa?
– Estou saindo disso. Fale com nosso atravessador que
negociou o trabalho. Diga para mandar o número da conta de
Milos, devolverei todo o dinheiro.
169
– Tem certeza, vai parar de trabalhar, e o tratamento de
Maurício?
– É uma longa história. Quem sabe um dia voltaremos a
trabalhar juntos.
– Não estou entendendo, Césio. Sabe o que acontece com
quem sai da agência de assassinos. Irão atrás de você!
– É para não entender, apenas diga aos atravessadores e
os assassinos de aluguel que estou fora do jogo.
– Tudo bem. Sabe quais são as consequências.
– Te ligo em uma semana. Até breve meu amigo.
Quando encerro a ligação, Bengala está ao meu lado.
– Venha comigo até o escritório de Lauro. Precisamos
falar com você.
Caminhamos a passos rápidos e entramos no elevador.

– Você realmente ia trabalhar para Milos? – Bengala


pede.
– Sim… Trabalhar como assassino de aluguel está cada
vez mais disputado. Os trabalhos vem diminuindo, por isso
aceitei, não podemos rejeitar contratos e usaria o dinheiro para
salvar Maurício. Ato que não é mais necessário.
– Por causa de Milos tomei dois tiros e quase morri no
meio da mata de Nova Harz.
– É mesmo? Devia ter morrido – digo olhando para ele,
sorrindo ironicamente.

170
– Muito engraçadinho. Só quero deixar claro que o
matarei, na condição de prejudicar todos nós. Amo esses caras
como que fossem meus irmãos. E a grande batalha está próxima,
pressinto isso. Você não tem a mesma ética que nós. É um Judas.
– Não pedi para estar aqui. E caso isso o satisfaça, não
sou realmente como vocês. Amo meu trabalho, caçar e matar
dão prazer, mas Lauro decidiu me recrutar e salvar meu filho é
porque confia nas minhas habilidades. Em nome de meu filho
vou honrar minha parte no trato.
Chegamos na sala. Os outros Assassinos estão sentados
na mesma mesa da reunião anterior.
Lauro e Talico estão transplantando o rim de meu filho.
Tomate-cereja, o novo líder está sentado no lugar de Lauro.
Tomate-cereja – Sentem-se – olhamos em volta e vemos apenas
uma cadeira, deixo Bengala sentar e permaneço de pé – Césio.
Todos passamos por alguma espécie de treinamento. Você já tem
todos os treinamentos imagináveis e suas habilidades devem ser
bem superiores às nossas. Por isso, pulamos esta fase, vamos
integrá-lo. Mas como símbolo de sua nova vida, terá que
escolher um codinome. Por isso, por favor, nos diga, qual seu
novo nome?
Eu – Ainda não consegui pensar em nada.
Tomate-cereja – Então darei um codinome a você e o carregará
para o resto de sua vida. A partir de agora, Césio não existe
mais.
Eu – E qual é minha nova identidade?
Tomate-cereja – Vamos chamá-lo de Pai. É o único que é pai
natural entre nós e é uma forma de homenageá-lo, afinal, verá

171
raramente seu filho e ele nunca saberá que seu pai é um herói
que constrói uma nova nação.
Todos concordam. Fim da reunião.

Meu primeiro trabalho será matar Caetaninho, deputado


estadual que representa o litoral na câmara, levanta a bandeira
do turismo. Ele mora no Balneário Mostardeiro, praia do litoral
sul. Preciso levar seu corpo em seis horas até Lauro no Hospital
Estadual de Transplantes na Capital. Será um grande desafio,
não costumo transportar os corpos das vítimas que faço.
Para ir até Mostardeiro, pego ônibus, 4 horas de viagem.
Caetaninho é o terceiro deputado mais votado nas
últimas eleições, a região litorânea o elegeu. Só que seus
eleitores não sabem, ele é o principal responsável por muitas
casas de prostituição. Foi a exploração sexual que fez sua
campanha tão rica, com o marketing tão elaborado. Para os
Assassinos de Anúbis, seus pecados pesam mais do que uma
pena, por isso merece morrer.
Chego como visitante, morador da Capital, com roupas
leves e sandálias, típico homem solitário, perto dos 40 anos e a
fim de praticar turismo sexual, instalado num hotel barato.
Trancado no quarto, limpo meu revólver, também meus óculos,
tomo três drinques de vodca, fumo alguns cigarros e aguardo a
vida noturna da cidade acontecer.
Saí da Capital logo depois do “meu batizado”, não sei
como foi a cirurgia de Maurício, contudo, confio em Lauro, meu
filho, com certeza, está descansando, com Gabriela velando seu
sono.

172
Como é regra nos Assassinos de Anúbis, nunca podemos
carregar armas pesadas ou munição em excesso. “Se não
conseguirmos fazer o trabalho com poucas balas, o trabalho não
pode ser feito”, esse é o lema, fazer as coisas em silêncio e com
maestria. Na dúvida, trouxe um pente reserva, conto com vinte e
oito balas.
Às 2 da manhã saio do hotel e sigo para o centro de
Mostardeiro, com a arma na cintura, roupas floreadas e leves.
A casa de festas Nostradamus tem letreiros em neon,
paredes pintadas de preto, dois seguranças de dois metros ou
mais de altura, com cem quilos ou mais, dois touros, dois
montes de músculos. Devem estar armados com spray de
pimenta, revólveres, armas elétricas de 10.000 volts. Preciso
entrar na casa de festas, conhecer e estudar o interior do
ambiente. Estarei vulnerável, mas é necessário.
Dou a volta no quarteirão, escondo a arma com a
munição, atrás do muro de uma casa, aparentemente
abandonada, e retorno para ingressar no Nostradamus. Como
temi, a revista foi minuciosa e certamente encontrariam a arma
na minha cintura.
Ao entrar, vejo homens vestidos como frequentadores de
turfe e mulheres por todos os lados, seminuas. Sento na frente
do balcão e peço uma dose dupla de uísque com gelo. Viro para
a pista procurando aquele rosto, o qual fiquei olhando para sua
foto por 2 horas, até ter certeza que não cometerei engano ao ver
Caetaninho. A cafetina vem ao meu encontro. É velha, cabelo
platinado, dentes amarelados, maquiagem exagerada e suas
roupas têm mais pano do que as outras.
– Boa noite, senhor!
– Boa noite, senhorita – digo garboso.
173
– Turista, certo?
– Sim, sou da Capital. A trabalho na cidade.
– Muito bem, muito bem. O que procura?
– Drogas e sexo. Muita diversão!
– Veio ao lugar certo. Contudo seja mais específico. Que
tipo de diversão?
– Pelo que observei, suas meninas não podem oferecer o
que procuro.
– Por que? – Ela ri a todo tempo – não gostou das
garotas?
– Gostei, são belas mulheres, mas procuro algo mais
picante.
– Travestis, homens?
– Não. Meninas muito jovens.
– Hum! Um papai está aqui. Não fique preocupado
cowboy, veio ao lugar certo. Pegue sua bebida e me siga, por
favor.
– A bebida não será necessária.
Termino meu drinque num gole e a sigo. Passamos por
mais outra porta com mais dois seguranças. Desta vez não sou
revistado. Seguimos por um extenso corredor e chegamos num
ambiente reservado. A meia-luz, alguns homens espalhados pelo
ambiente, poucas mesas. Adolescentes caminham pela sala,
também seminuas. Só de vê-las fico com raiva de todos no
ambiente, usando de meninas para exploração sexual. Minha
vontade é matá-los, um a um, esganando-os.

174
– Essa é nossa ala picante – diz a cafetina – todas essas
garotas têm entre 14 e 17 anos. O programa custa trezentos
reais, com direito a uma hora no quarto, passando disso,
batemos à porta e o senhor será convidado a sair. Pode bater nas
meninas, mas isso custará mais duzentos reais. Só não a deixe
inválida. Para dar lucro, precisamos delas todos os dias em
condições de trabalho.
Olho para tudo, num canto, sentada no colo de um
homem gordo está uma menina aparentando ter menos de 14
anos. Parece assustada. A cafetina continua sorridente, é um
monstro, deveria protegê-las e não ajudar a prostituí-las.
– Quero aquela – aponto para a que parece mais jovem.
– Quem?
– Aquela que está no colo do gordão.
– Ó, sim, a Lelinha, mas ela já está com um cliente.
– Pago o que for preciso.
– O dobro?
– O triplo!
A cafetina toma distância. Caminha até a mesa lateral
onde um homem está sentado com três garotas. Duas delas
sugam cocaína na mesa e a outra acaricia o homem. O homem é
Caetaninho. A cafetina conversa brevemente com ele, após,
atravessa a sala e conversa com o gordo. Logo, ela pega Lelinha
pela mão e traz até onde estou.
– Dia de sorte cowboy! Lelinha é nossa garota mais nova.
Chegou ontem do norte do país. A compramos de sua família.
Será seu primeiro programa, por isso o valor é de mil reais

175
adiantados.
Ela está leiloando a garoto. Fico com muita raiva e na
hora certa essa cafetina pagará por tudo. Respiro fundo, pego o
dinheiro no bolso e entrego a ela. A cafetina sorri.
– Você tem uma hora. Seu quarto é a suíte número doze.
A cafetina mostra a direção para o quarto, passamos por
mais um segurança quando entramos no corredor dos quartos.
Entro com a menina e tranco a porta. Olho sério para Lelinha.
Não aparenta ter medo, está acostumada com a rotina. Senta na
cama e fica imóvel de cabeça baixa.
– Menina, você quer sair daqui?
– Não, senhor – fala sem levantar a cabeça.
– Você quer fazer sexo comigo?
– Quero sim, senhor.
– Quer ou é obrigada a dizer que sim?
Ela apenas olha para o nada. Sua tristeza é de doer,
sequer consegue esboçar reação.
– Preciso de sua ajuda – digo – posso tirar você daqui e
dou uma considerável quantia em dinheiro para começar a vida
em outro lugar. Posso contar com você?
– Ajudo! – Seus olhos ganham vida.
– Quantos guardas têm na casa?
– Não sei ao certo. Sete ou oito.
– Muito bem, estamos indo bem. Aquela janela ali dá
para onde?

176
– Para o estacionamento dos fundos.
– Há seguranças no estacionamento?
– Sim. Somos proibidas de sair, se nos pegam pulando as
janelas nos batem.
– Quantos fazem a ronda?
– Acho que apenas um.
– Muito bem. Preciso que confie em mim. Pularei a
janela, pegarei minha arma. Mantenha a porta trancada até meu
retorno. Quando voltar liberto você e suas amigas.
– Somente eu e Marijane somos prisioneiras. As outras
meninas e mulheres são da região. Vêm por livre e espontânea
vontade. As mais novas são obrigadas por seus pais.
Fico ainda mais irado, mas mantenho a calma. Um
problema de cada vez. Salvo Lelinha e Marijane e mato
Caetaninho. Com certeza ajudarei todas num primeiro momento.
– Tudo bem. Seria realmente seu primeiro programa?
– Não. Sou obrigada a mentir isso para clientes
estranhos. Faço de cinco a quinze programas por noite.
– Que idade tem?
– 13 – fico olhando para ela. Apenas uma garota que
devia sonhar seu futuro.
– Prometo que vou matá-los – olhos nos seus olhos –
todos eles.
Pulo a janela evitando fazer barulho. O segurança está
fumando, distraído, olhando para o nada. Aterrizo no chão,
encontro alguns tijolos sobressalentes de uma reforma. Chego
177
perto e esmago sua cabeça com um golpe potente. O tijolo
quebra. O corpo cai imóvel. O revisto, ele estava desarmado,
arrasto o corpo para baixo de um dos carros. Pego o controle do
portão eletrônico e corro até onde escondi meu revólver. Volto
para o estacionamento, escalo o telhado e estou novamente no
quarto, Lelinha está quieta, esperando.
– Lelinha, logo depois que a porta abrir haverá muito
barulho lá fora. Quando isso começar volte e fique aqui trancada
até meu retorno. Ok?
– Sim. Como é seu nome?
– Pode me chamar de Pai.
Saímos do quarto, coloco a mão sobre seu ombro,
caminhamos até a sala secreta. Não avisto a cafetina. Caetaninho
continua com as três meninas. Sussurro “agora” no ouvido o que
a faz voltar correndo para o corredor dos quartos. Sigo na
direção de Caetaninho, quando estou perto saco a arma e atiro na
sua têmpora esquerda, arrebentando seu cérebro, vejo a cafetina
sem reação ao fundo, atiro na sua cabeça.
Crio muita gritaria e correria das garotas. Cinco
seguranças, sacando suas armas, correm na minha direção.
Corro para trás do balcão do bar, pulo por cima, aterrizo do
outro lado, momentaneamente estou protegido. Tenho vinte e
poucas balas e eles são muitos. Os seguranças fazem silêncio,
respiro fundo, esquivo para a entrada do balcão e disparo dez
vezes, antes que pudessem reagir. Não consigo ver quantos
seguranças abati, mas só duas pistolas atiram contra o balcão do
bar.
Descarregam suas armas contra o balcão. Fico abaixado,
as balas passam por cima da minha cabeça. Param por alguns
segundos para recarregar. Aproveito a chance, levanto
178
rapidamente e dou três tiros. Atinjo duas vezes o da esquerda, o
derrubo, o terceiro tiro erro. O da direita rola para o lado,
recarrega seu revólver e recomeça a atirar a esmo. Corro para a
cozinha, não há tempo suficiente, e sou atingido do lado da coxa
direita, na altura do quadril. Lanço meu corpo para dentro do
cômodo e recarrego com o único pente de munição que resta.
Com a perna baleada fica quase impossível arrastar o pesado
corpo de Caetaninho para fora. Conto os tiros, ele aperta o
gatilho oito vezes. A dor invade meu quadril, temo por não
conseguir andar. Começo a suar frio e meus movimentos da
perna saem espasmódicos. Consigo rastejar até a geladeira.
Observo pela sombra quando ele entra na cozinha, o rastro de
sangue deixado pelo ferimento denuncia meu esconderijo. Tenho
que agir em poucos segundos.
Aponto a arma por cima do ombro, sem olhar. Dou
alguns disparos. Ele rola para o lado e cai perto da pia, fora do
meu alcance. Ficamos esperando.
– Te acertei? – Pergunto.
– Sim. De raspão na costela. Eu te acertei?
– Sim. Perna esquerda, abaixo do quadril. Não estou
conseguindo movimentá-la. Me pegou de jeito.
– Bem feito, seu filho da puta.
– É, isso vai render alguns meses de recuperação. Já você
vai morrer aqui.
– Espero que esteja errado. Quem é você?
– Alguém que veio julgá-los.
Ficamos parados e escuto sirenes ao longe. Levanto com
dificuldade, apoiado numa perna, impulsiono o corpo para fora
179
da cozinha, no pátio onde matei o segurança, outro bem vivo
espera. Atira na minha direção, acertando de raspão meu
pescoço. Vejo a morte de perto, sangue escorre com abundância
molhando minha camisa. Fico deitado esperando a morte, não
ouso mover o braço que seguro a arma, o segurança chega perto,
rindo e apontando a arma na direção da minha cabeça. De
repente, quatro tiros estouram no silêncio, o homem cai morto
ao meu lado.
Levanto meu corpo e vejo Lelinha empunhando um
revólver. Larga a arma no chão como que fosse algo muito
quente e vem na minha direção. Tento estancar o ferimento do
pescoço com a mão, sinto o sangue quente molhar todo o
antebraço. O outro segurança aparece na porta, e quando o vejo
atiro quatro vezes. O atingindo no peito. Ele cai sem vida. Sei
que tenho pouco tempo de vida.
– Sabe dirigir, Lelinha?
– Não…
– Está vendo aquela picape ali? – Ela consente com a
cabeça – ela é automática. Não conseguirei dirigir. Vá até lá e
veja se a chave está na ignição.
Sigo pressionando o ferimento do pescoço, perco muito
sangue. Ela vai e volta correndo.
– Está…
– Muito bem, temos pouco tempo. Vá até o caixa, pegue
todo o dinheiro que conseguir. Eles tem um cofre?
– Não. Todo dinheiro é guardado por Caetaninho.
– Onde ele guarda?

180
– Ele carrega uma bolsa.
– Ok. Vá até lá e pegue a bolsa. Rápido. Não temos
muito tempo.
A polícia já está na frente do Nostradamus.
Enquanto ela entra, levanto com dificuldade e saltito na
direção da picape. Ela retorna, mas não está sozinha, vem de
mãos dadas com outra garota com aparência de menina, deve ser
Marijane. Estou a poucos metros da picape. As ordeno a entrar
nos bancos da frente e me atiro no banco de trás. Um policial sai
pela porta da cozinha.
– Certo, mantenha a calma e faça o que eu ordenar – é
impossível conseguirmos fugir. Serei preso, mas decido tentar.
– Tudo bem, estou calma – ela diz, suas mãos estão
trêmulas.
– Vire a chave na ignição e acelere um pouco.
Faz o ordenado, o policial chega no estacionamento,
grita “parem onde estão!”. Ela fica assustada.
– Não escute. Pegue o câmbio, aquela alavanca – aponto
para ela – e a mova até onde diz automático.
Ela o faz, o policial saca a arma e vem na nossa direção.
Respiro com dificuldade.
– Agora acelere novamente e nos tire daqui. Gire o
volante para fazer as curvas.
Abro o vidro elétrico e atiro contra o policial, o acerto na
altura da canela. Ele cai gemendo de dor.
Saímos até a rua por detrás da Nostradamus. Lelinha

181
acelera bastante e com habilidade surpreendente. É guerreira,
quer deixar seu passado para trás e sabe que isso depende do
nosso sucesso na fuga.
– Vou levá-lo para um hospital – ela diz.
– Não, Lelinha. Não posso ir para um hospital. Não aqui.
Preciso que siga em frente, até o combustível acabar.
E é o que ela faz. Perco muito sangue, não resisto ao
sono que invade minha cabeça e adormeço. Não quero dormir,
não quero morrer sem ver os que amo novamente.

Sou acordado por Lelinha algumas horas depois, ainda é


madrugada e estamos parados no meio do nada.
– Acorde Pai, acorde! – Chacoalha meu corpo.
– O que aconteceu? – Estou com a boca seca, minha
roupa fede a sangue.
– A gasolina acabou.
Muito fraco, tenho a sensação que posso desmaiar a
qualquer momento.
– Droga, sabe onde estamos?
– No meio do nada.
– Não leu as placas?
– Não sei ler com clareza.
Estamos numa estrada de chão rodeada por mata
fechada.
– Merda. Preciso de um celular.
182
– Tenho este aqui, Pai. Toma.
– Porque não disse que tinha um celular antes?
– Não é meu. Estava dentro da bolsa com o dinheiro de
Caetaninho.
Disco o número de emergência do Hospital Estadual de
Transplantes.
– Hospital Estadual de Transplantes, bom dia!
– Bom dia. Telefonista, preciso falar com o doutor Lauro.
– Não será possível, ele está de plantão.
– Droga! Alguém está na sala dele?
– Não sei. O senhor parece muito debilitado e nervoso.
– Desculpe, trata de um caso de urgência.
– Ok. Vou transferir a ligação.
As moças responsáveis pelas ligações não provocam
resistência, estão habituadas a esse tipo de emergência com o
responsável do hospital. O telefone chama algumas vezes até ser
atendido.
– Alô, pode falar!
– Alô, quem?
– É o Pai.
– Olá, Pai. Sou eu Fêmur.
– Fêmur, tomei dois tiros, acho que tenho mais 2 ou 3
horas de vida. Perdi muito sangue. Estou no meio do nada.
Infelizmente não consegui trazer o corpo de Caetaninho comigo

183
como foi ordenado.
– Certo. Este telefone que você está usando deve ser
destruído ao final desta ligação. Não se preocupe, vamos
encontrá-lo.
– Ok. Será quebrado. Por favor, não demore.
– O corpo de Caetaninho já chegou aqui no hospital, a
polícia de Mostardeiro nos trouxe, Lauro e Talico estão
trabalhando nos transplantes. Rastrearei a ligação. Peço que
fique na linha por mais 30 segundos.
– Certo…
Afasto o telefone da orelha e falo com Lelinha.
– Estão vindo, serei resgatado, acho que não
sobreviverei, mas pedirei para as colocarem num lugar seguro.
Ela consente balançando a cabeça. Estou cansado, fecho
os olhos.

Não lembro de ter a visto quebrando o celular e nem de


ter sido resgatado.
Acordo numa cama de hospital com Lauro olhando para
mim.
– Nada mal para seu primeiro trabalho – diz rindo –
salvamos quatro vidas com os órgãos de Caetaninho, aquele
verme corrupto aliciador de menores. Seu coração, seu fígado,
intestino e rim. Parabéns!
– E aquelas garotas no Nostradamus?
– Não fizemos todo o trabalho, essa parte fica para a
184
polícia correta, li no jornal que todas foram para a delegacia e
depois liberadas.
– Mas isso não resolve o problema.
– Não resolve, mas é o começo. As garotas voltando para
casa e as políticas públicas dando chance a elas, terão uma vida
digna. Tudo estará bem. Ainda não temos condições de limpar a
sujeira por completo.
– Isso não vai acontecer. Sabe disso!
– Talvez não, mas com os Assassinos de Anúbis,
estaremos por perto e vamos julgar quem voltar a aliciar
mulheres naquela região.
Lauro vira as costas e segue até a porta.
– Espere Lauro!
– Sim, Pai?
– O que aconteceu com Lelinha e Marijane, as garotas
que estavam comigo na picape?
– Você estava sozinho. Não haviam garotas.
Bom, Lelinha não fez o que combinamos, fugiu com
Marijane levando todo o dinheiro da noite. Espero que possam
ter uma vida livre e digna a partir de hoje. E farei de tudo para
mudar a política no país, para que, casos como o delas nunca
mais aconteçam.
– E meu filho?
– Ele está bem, melhorando. Gabriela vem visitá-lo todos
os dias. Não poderá visitá-lo antes de curar seus ferimentos, não
podemos deixar nosso segredo tão vulnerável. Sabe disso, não

185
é?
– Sei. Obrigado por salvar a vida de meu filho.

Passo por duas cirurgias para reconstruir o osso entre o


fêmur e o quadril. No pescoço foi feito recuperação do tecido e
fechado com alguns pontos. Uma grande e linda cicatriz
embeleza meu pescoço. Lauro não vem mais ao meu quarto.
Durante minha vida profissional, fiz coisas por dinheiro e
no meu último trabalho não ganhei nada, mas salvei a vida de
duas jovens garotas que certamente morreriam antes dos 30
anos, viciadas, magoadas e desiludidas. Sem contar no bem que
fiz para a sociedade quando matei um político corrupto.
Duas semanas passaram, sou tirado da cama, ajudado a
sentar numa cadeira de rodas. Estou melhor e quero saber como
anda o trabalho dos Assassinos. Saio do quarto sem ordem e
subo até a sala de Lauro. Tocando a cadeira, empurrando as
rodas.
Bato na porta e sou atendido por Talico.
– Olá, Pai!
– Olá, como estão as coisas?
– Estão muito bem. Cada vez mais, temos novos
patrocínios, os garotos não ficam parados. No último ano já
salvamos centenas de vidas. Crianças, adultos e velhos sem
chance, que morreriam na fila de espera. Sem contar com as
políticas públicas que estão cada vez mais voltadas para o povo,
sem interesses particulares.
– Quantos políticos mortos?

186
– Deixa eu ver – vai até o computador conferir, o
acompanho empurrando as rodas da cadeira – foram sessenta e
dois políticos, sem contar os seguranças e as pessoas que
impediram de alguma forma as missões. O recordista é Tomate-
cereja, com vinte e duas mortes.
– É, ele é bom. Quantos inocentes morreram em
consequência do nosso trabalho?
– Nenhum. Nunca matamos pessoas que não estivessem
envolvidas de alguma forma em casos de corrupção, nem por
engano.
– E os seguranças que matei na Nostradamus?
– São considerados culpados. Seus crimes são mais
pesados que uma pena.
– E suas famílias?
– Serão ajudadas pelos Assassinos de Anúbis. Não há
outro veredito, eram culpados, mas levamos em conta sua
família e filhos. Ou acha que homens que protegem outros
homens enquanto esses estupram garotas de 13 e 14 anos são
inocentes?
– Tem razão. Para mim são culpados.
– Sim, eu sei. Por isso Lauro o recrutou. Meu tio nunca
erra, sabia que era um homem correto.
– Onde está Lauro?
– Sua saúde debilitada tem o deixado indisposto.
– Ele está em tratamento?
– Quando tem um tumor do tamanho de uma laranja no

187
meio do cérebro não há opção de tratamento.
– Ele vai morrer sem lutar?
– Ele já lutou pela vida inteira. Por sua maravilhosa ideia
a política do país está mudando. Os políticos estão levando a
sério suas funções e a cada dia menos corrupção acontece. O
fato de ter alguns justiceiros matando políticos corruptos está se
espalhando e todos estão assustados. Uma nova política no
horizonte. Ele morrerá, mas sua ideia mudará o país e espero, o
mundo. E que outros Assassinos de Anúbis apareçam em outros
países.
– E os rapazes, por onde andam?
– Braço está na fronteira em Chuí, pegará Amaury,
aquele deputado do merendaço. Fêmur e Bengala estão no
trabalho mais difícil, aqui na Capital, pegarão o Malafala, o
ministro dos esportes, responsável pelos escândalos de doping
que alterou o resultado de muitas competições, Tomate-cereja
está investigando como Dilécio e Milos estão organizados,
tememos por uma investida contra os Assassinos. Terceiro está
fazendo a segurança de Gabriela e Maurício só para termos
certeza que não receberá represália de Milos por desistir do
trabalho.
– Como está minha família? – Por alguns minutos
esqueci deles e só pensei nos Assassinos de Anúbis, percebo o
quando estou envolvido neste trabalho.
– Tudo normal, estão ótimos. Seu filho está fora de
perigo.
Sorrio e choro. O celular de Talico toca. Faz sinal para
esperar com a mão livre. Conversa brevemente. Desliga e
voltamos a conversar.
188
– Pai, volte ao seu quarto descansar. Neste momento,
Braço está vindo para cá, dirigindo a 140 Km/h. Tenho que
dissecar um verme, tirar seus órgãos e fazer viver moribundos
que só precisam de mais uma chance para aproveitar sua vida de
outra forma.
Volto, tocando a cadeira até o elevador. Não retorno ao
quarto, desço até o primeiro andar onde fica o telefone público,
pendurado na parede. Disco o número de Thiago, toca muitas
vezes e não sou atendido, mais uma tentativa e desisto. Fico
preocupado com meu amigo.

As sessões de fisioterapia começaram e as tardes são


verdadeiras sessões de tortura. A fisioterapeuta diz que correrei
em breve, o que duvido.
Mais duas semanas e começo a andar de muletas, mais
outras duas semanas e dou passos livres, sem ajuda.

Não somos vigiados. Homens livres quando não estamos


trabalhando, bem verdade é que trabalhamos quase 24 horas por
dia durante 7 dias por semana. A única atitude exigida por Lauro
é que andemos desarmados quando a paisana, afinal, depois que
abandonarmos nossas antigas identidades, não precisamos mais
ter armas. Deixo minha roupa preta pronta no quarto no qual
tenho no hospital, e uso as habituais que consegui emprestadas
de um enfermeiro que sabe da verdade.
Mesmo com meu revólver particular confiscado por
Lauro, decido sair. Está na hora de ver o mundo novamente.
Caminho com dificuldade até o ponto de ônibus, entro

189
pela porta da frente, sem pagar, e sento nas cadeiras amarelas
direcionadas aos deficientes ou idosos. As pessoas parecem
cansadas, estão indo para o trabalho.
Paro a uma quadra da casa de Thiago. Um belo
apartamento, caso voltemos para os anos 80. O prédio está
caindo aos pedaços, sem grades, sem porteiro. No bairro quase
suburbano, poucos carros e pessoas movimentam a rua.
Entro no prédio, elevador estragado, subo oito andares
pelas escadas. A dor traz desespero. Chego na sua porta e há um
aviso da polícia civil, para não ultrapassar. Abaixo para não
arrebentar a fita amarela e entro no apartamento. Tudo está
revirado. Chamo por Thiago em vão. Caminho pelo
apartamento, os quartos e a cozinha estão quase intactos. Escuto
barulhos no corredor e corro, fico escondido na pequena
dispensa. São quatro passos, são dois homens. A dor estoura no
meu quadril e suo frio. Eles cochicham na sala.
Na dispensa, no meio das ferramentas, pego o pé-de-
cabra. Os Escuto invadindo cômodo por cômodo e continuam a
cochichar. Seguro firme a ferramenta e espero a porta abrir. É
nítido, estou sendo caçado. Sou o alvo de assassinos.
A porta abre lentamente, o primeiro braço a invadir
empunha uma pequena metralhadora automática.
Dou o primeiro golpe, quebro o antebraço do invasor, a
metralhadora cai no chão. Ele grita, o braço mole, balançando
no ar. Abaixo rapidamente, pego a metralhadora e volto para a
parede, o outro homem começa atirar contra a porta, para todos
os lados. Mantenho meu corpo protegido, então aponto a
metralhadora contra a porta, aperto o gatilho e o acerto nas
pernas. Ele cai, mas não para de atirar. Dou um tiro nas costas
de seu companheiro que pensava em levantar. Sinto os tiros

190
passarem ao meu lado. Meu braço começa a sangrar e percebo
que fui alvejado. Espero sua munição terminar, miro no seu
peito e aperto o gatilho. Dezenas de tiros o acertam. Estou livre,
eles mortos.
Revisto os dois corpos. Eles têm cara de policiais.
Obviamente, não acho documentos. De repente um celular toca
no bolso do que quebrei o braço, pego o aparelho e atendo.
– Alô!
– Alô, Jarbas?
– Sim – digo inseguro, mas no outro lado o homem não
parece desconfiar que não sou Jarbas.
– Mataram o desgraçado tratante?
– Sim, está feito.
– Muito bem. Agora o doutor e seu aprendiz estão
sozinhos no hospital, sem proteção. Vamos acabar logo com isso
de uma vez por todas – meu coração acelera, Talico e Lauro
estão em perigo.
– Tudo bem. Iremos para o hospital agora mesmo – é
incrível como não reconhece minha voz.
– Não há necessidades. Desloquei outra equipe para lá.
Começo a ficar desesperado. Lauro e Talico estão com
pouco tempo, preciso agir e ajudá-los.
– Vá até o esconderijo ao lado do comitê de Dilécio – ele
continua – onde um deles está escondido nos observando, faz
quase um mês, e por favor, dê um tiro na testa dele. Não aguento
mais olhar para aquele careca.

191
Desligo e com o mesmo celular ligo para o hospital. Peço
para falar urgentemente com Talico. Como de costume, a
telefonista não fica surpresa e passa a ligação sem maiores
problemas.
– Alô – ele diz despreocupado.
– Talico, fomos descobertos. Precisam sair daí agora
mesmo. Alguns homens estão indo para matar você e seu tio.
– Droga, Pai. Que merda é essa, onde você está?
– No apartamento de meu colega Thiago. Matei dois
mercenários de Dilécio. Não temos muito tempo para
explicações, fujam agora mesmo!
– Tudo bem. Estamos saindo do hospital. Quebre esse
celular, Com certeza estão rastreando a ligação.
Desligo, quebro o celular, o jogo dentro da pia e coloco
fogo. Procuro dinheiro nos bolsos dos corpos, encontro alguns
trocados e saio. Cada passo parte em meio a minha vida. Meu
quadril parece que não está no meu corpo, apenas dor. Se assim
prosseguir, terei que usar bengala como Bengala faz. Os
vizinhos estão pelo corredor, muito assustados. Devem ter
chamado a polícia.
Escondo meu braço baleado e sangrando, desço as
escadas, saio do edifício. Na rua, faço sinal a um taxista. Ele não
percebe meu ferimento e para, entro no banco de trás, digo o
endereço da minha antiga casa e seguimos. Em 15 minutos
estamos na frente do edifício. Acerto a viagem e desembarco.
Cumprimento o porteiro que fica assustado ao me ver pálido,
ferido e depois de tanto tempo.
Subo até meu andar, toco a campainha e Gabriela

192
atende, nos encaramos, nos abraçamos forte e nos beijamos.
– Não há tempo para explicações. Onde está Maurício? –
Pergunto.
– Aqui na sala – ele responde chorando.
Caminho rápido, esquecendo a dor. Meu filho assiste
televisão sorrindo. É meu Maurício duma forma que não
lembrava mais. Está de um jeito saudável. É um milagre.
– Olá, Maurício!
Meu filho levanta e me abraça. De pé, forte como uma
criança normal. Como deduzi, Terceiro entra no apartamento.
Viu quando entrei, lá do seu esconderijo.
– O que você faz aqui?
– Calma, Terceiro. Posso explicar. Fui até a casa de
Thiago, meu antigo colega, ele não estava, haviam fitas da
polícia na porta do seu apartamento. Fui seguido por dois
mercenários. Depois de acontecer o que pode imagina – mostro
o ferimento – o celular de um tocou e descobri que os
Assassinos de Anúbis estão sendo observados. Voltei aqui
porque soube por Talico que cuidava da minha família. Lauro e
ele correm perigo, assim como Tomate-cereja. Conversei com
alguém no telefone e pelo jeito são homens de Dilécio e Milos.
Precisamos avisar a todos.
Fico olhando para Gabriela e Maurício, mas não explico
nada. Terceiro pega o celular e liga para Lauro e Talico, e depois
para Tomate-cereja. Segue até a janela, conversa e espia pela
fresta da cortina.
– Vamos Pai, precisamos partir.

193
– Mas minha família corre perigo.
– Certo. Vamos levá-los conosco.
Entramos num carro preto estacionado a meio quarteirão
da minha casa.
– Talico disse que foram rastreadas ligações do hospital
para seu antigo colega Thiago. Foi você, Pai. Você quebrou
várias regras de segurança – diz Terceiro enquanto dirige, estou
no banco da frente – ao comunicar, tão cedo, com sua antiga
vida. Entrou no jogo e tinha que permanecer em silêncio. É um
homem experiente, como foi ser tão infantil?
– Sei disso, Terceiro. Não me orgulho do que fiz.
– Pode ter colocado nossas identidades reais em risco e
nossos familiares também.
Saímos da cidade e paramos numa grande casa no
interior, a 40 minutos da Capital. Dois carros pretos estão
estacionados na frente da casa.
Talico e Tomate-cereja estão na sala e olham curiosos
para Gabriela e Maurício. Enquanto entrávamos pedi à minha
esposa e meu filho para que não falem, nem conversem com eles
e que tudo terminará bem.
Terceiro – Onde está Lauro?
Talico – No quarto, com muita febre. A hora dele está chegando,
sua visão começou a embaçar, logo não enxergará mais nada.
O celular de Talico toca. Conversa por alguns minutos e
desliga. Está assustado.
Tomate-cereja – Quem era Talico?

194
Talico – Era Braço. Voltando de sua missão. Pediu para ligarmos
a tevê.
Ligo. Todos estão sentados nos dois sofás da sala. O
noticiário anuncia um incêndio devastador no último andar do
Hospital Estadual de Transplantes, o fogo já está controlado,
mas paralisa o funcionamento do hospital.
Terceiro – Desgraçados! Vou matá-los, eu juro!
Outro carro estaciona. Fêmur e Bengala entram na casa.
Fêmur – Viram o que está acontecendo com o hospital?
Terceiro – Estamos vendo agora.
Eles olham para a televisão, mas não deixaram de
observar minha família.
Talico – Fomos descobertos.
Bengala – Como isso aconteceu?
Eu – Acho que sei…
Todos olham para mim.
Eu – Logo depois que ingressei nos Assassinos de Anúbis,
quebrei o protocolo, liguei para Thiago, meu colega de trabalho.
Anunciei minha aposentadoria, mas havia um problema,
tínhamos recebido generoso adiantamento pelo serviço
contratado. Desistimos de matar a presidenta, e Thiago ficou de
desfazer o contrato.
Gabriela – Césio, o que isso significa, você é um assassino de
aluguel?
Eu – É uma longa história, quando a poeira baixar explicarei
tudo.
195
Gabriela – Quando isso acabar estarei bem longe de você…
Bengala – Sabíamos que não podíamos confiar nele. Agora
todos estão em risco, inclusive Marjorie. Seu esconderijo está
vulnerável.
Tomate-Cereja – Juliana e Linda também.
Outro carro estaciona e Braço entra na sala.
Braço – Olá, rapazes. A casa caiu…
Tomate-cereja – Olá, Braço. Estava esperando sua chegada.
Sentem e escutem – todos olhamos para ele atentamente –
fomos descobertos, mas sabemos quem fez isso com o hospital.
Para nós só resta uma saída. Revidar!
Ninguém fala nada. Todos sabem o que Tomate-cereja
quer que seja feito. A tal batalha precisa acontecer.

Talico fica na casa com uma pistola junto a Lauro que


dorme impávido. Gabriela pega um dos carros pretos, junto com
Maurício. A ordeno a dirigir até não poder mais, para qualquer
lugar e lá começar uma vida nova. Os acharei em breve, mesmo
ela contrariando e temendo que isso não possa acontecer.
Maurício não entende nada, para ele é apenas mais um dia
movimentado.
Os seis bravos integrantes dos Assassinos de Anúbis
partem em dois carros para San Madre, no centro do Estado. A
meta: matar Milos Cicic, o principal patrocinador dos políticos
corruptos, homem ganancioso e explorador de menores,
responsável por deixar homens ricos cada vez mais ricos e
pobres cada vez mais pobres.

196
Vou no carro com Tomate-cereja e Terceiro, que dirige.
Terceiro – Tomate-cereja, esteve vigiando Milos e Dilécio nesse
último mês. O que tem a dizer?
Tomate-cereja – Que vamos todos morrer.
Eu – O que!?
Tomate-cereja – Isso mesmo novato. Estamos em seis homens,
armados com revólveres e pistolas, com munição para poucos
tiros. Milos é protegido por mais de cinquenta homens armados
com metralhadoras.
Eu – Vamos desistir – eles dão de ombros, minha fala é
ignorada.
Terceiro – E, por milagre, passarmos deles?
Tomate-cereja – Caso o milagre acontecer, viajaremos por mais
2 dias até o estado de Montanhas Gerais, para matar Dilécio.
Esse tem, pelo menos, vinte seguranças armados com armas
leves, mas muito bem treinados. Mora numa cobertura que mais
parece uma fortaleza. Ninguém entra sem ser anunciado.
Não fizemos paradas. 4 horas de viagem serra acima.
Chegamos ao fim da tarde. A casa de Milos fica distante da
cidade, no meio da mata. Nenhum vizinho. Apenas seu império,
suas mulheres e sua meia centena de seguranças.
Terceiro – Como vamos entrar?
Tomate-cereja – Ao velho estilo. Jogaremos a picape em cima
do muro e entramos. Coloquem seus cintos de segurança.
Não nos comunicamos com o outro carro do comboio.
Tomate-cereja toma as decisões e ordena Terceiro que para do
outro lado da estrada, de frente para o muro. Alguns guardas
197
estão do lado de fora, ficam em alerta. Tomate-cereja liga o
alerta e o outro carro dos Assassinos para logo atrás. Arranca
com potência e antes do choque contra o muro, olho no
velocímetro. Estamos a 55 Km/h. A velocidade com o peso do
carro é irresistível ao muro. Do lado de dentro a pancada
solavanca minha coluna e a dor estoura por todo meu corpo. O
air-bag infla na minha cara. Ficamos em silêncio. Terceiro
sangra copiosamente no rosto, seu air-bag não funcionou.
Tomate-cereja olha assustado ao redor, estoura seu air-bag com
um canivete. Ao lado da casa, no lado esquerdo, alguns
seguranças de terno empunham suas metralhadoras, observando
o veículo.
Tomate-cereja – Vamos sair pelo meu lado, Terceiro. Deixamos
chegarem perto e abrimos fogo. Ande, vamos logo. Saímos e
ficamos atrás das rodas.
Saímos ao mesmo tempo. Os seguranças avançam
rapidamente. Seguramos nossas pistolas. Levantamos ao mesmo
tempo e abrimos fogo. Vejo alguns seguranças caírem
instantaneamente.
Abrem fogo contra a picape. Centenas de balas passando
perto da minha cabeça, continuamos escondidos atrás das rodas.
Furos e mais furos na lataria do veículo.
Tomate-cereja – Me deem cobertura!
Os tiros diminuem. Eu e Terceiro nos levantamos, os
surpreendendo. Atiramos algumas vezes, alguns seguranças
caem. Tomate-cereja corre até o fim da parede e quando está
dobrando a esquerda, é atingido. Cai no chão, sem movimento.
Abaixo rapidamente e os tiros recomeçam. Terceiro é mais lento
e é alvejado duas vezes nas costas. Os tiros vão cessando aos
poucos. Levanto e dou mais alguns tiros, abato os que ainda

198
estavam de pé. Terceiro respira com dificuldade, escorado no
pneu murcho, furado dos tiros.
Escuto trocas de tiros pelo lado de fora da casa. O portão
principal está aberto e, pelo menos, quinze homens atiram contra
a outra picape.
Eu – Pode continuar, Terceiro?
Terceiro – Não tenho certeza. Preciso de um médico, meus
pulmões estão perfurados. As balas atravessaram meu corpo –
ele puxa o ar e um barulho estranho é fabricado, como um motor
engasgado.
Eu – Acho que mataram Tomate-cereja, olhe – digo apontando
para seu corpo no chão, parece morto de onde estamos.
Terceiro – Então, neste caso, me ajude a levantar, temos que
continuar por ele.
O levanto, coloco seu braço em cima do meu pescoço e
seguimos na direção do corpo de Tomate-cereja. Estamos com
as armas em punho. Escoro Terceiro contra a parede e também
fico escondido. O corpo de Tomate-cereja fica a, pelo menos,
dois metros de distância. Tentar puxá-lo significa ficar
vulnerável ao que o atingiu.
Coloco o rosto para fora da parede, olho rapidamente
para onde veio o tiro que atingiu Tomate-cereja e quase sou
atingido por uma rajada. Recolho o rosto e as balas despedaçam
a parede.
Eu – São, pelo menos, cinco homens vigiando a porta da
cozinha – digo a Terceiro.
Os tiros do portão diminuem de ambos os lados, mas
estão longe de parar. Espero que meus outros três colegas
199
continuem vivos.
Terceiro – O que faremos?
Eu – Vamos aguardar.

A única saída é abrir caminho para os de fora entrarem


no pátio. Com a barreira de seguranças no portão morreremos
aqui dentro.
Eu – Terceiro, preciso ajudar os outros a entrarem. Fique aqui,
dê alguns tiros na direção da porta da cozinha para evitar o
avanço daqueles seguranças. Voltarei logo. Ok?
Terceiro – Ok, Pai. Vá até lá e mate alguns desses vermes. Seus
erros são mais pesados que uma pena.
Fico em pé e dou alguns tiros na direção da porta da
cozinha. Os pego desprevenidos e acerto dois deles. Saio
correndo na direção contrária, passo por dentro da nossa picape
furada e por cima dos corpos. Chego ao outro extremo da casa e
os seguranças seguem atirando contra Bengala, Braço e Fêmur.
Penso em Terceiro, caso os guardas da cozinha avançarem ele
será alvo fácil.
No portão os seguranças atiram muito contra a outra
picape. Coloco um novo cartucho. Descarrego as quatorze balas
na direção do portão. Derrubo cinco deles. Deve ser o suficiente
para equalizar a briga.
Volto correndo para o encontro de Terceiro. Recarrego
novamente e descubro que é meu último cartuxo. Antes de
passar novamente por cima dos corpos e por dentro da picape,
pego três metralhadoras pequenas dos cadáveres, as recarrego e
prossigo. Passo por dentro e novamente fico escondido atrás da
200
roda. Ao olhar para frente vejo um dos seguranças apontando
sua metralhadora para a cabeça de Terceiro. Tento levantar, mas
a dor no meu quadril faz ficar onde estou. Aponto a
metralhadora na direção da cabeça do segurança e atiro muitas
vezes. Ele cai e Terceiro me olha sorrindo debilmente. Levanta
seu polegar fazendo positivo, sangue escorre de sua boca, ele
está morrendo. Esqueço a dor no quadril e corro até ele. Meu
parceiro, fiel aos ideais de Lauro, não quero ele morto.
Eu – Feche os olhos, Terceiro. Descanse e respire fundo. Não
mova os braços. Alguns seguranças vêm ao meu encontro, não
podem saber que está vivo.
Não consegue responder, apenas fecha os olhos. Seus
ferimentos são fatais.
Eu – Vou deixar essa metralhadora ao lado de sua mão direita,
na hipótese de ser descoberto, mate alguns deles.
Sigo para a porta da cozinha, terceiro de alguma forma
matou dois seguranças. “Ei, Pai!” Escuto quando vou entrar na
porta. Tomate-cereja está levantando. Fico assustado, ele deve
ser imortal ou coisa do tipo. Não parece ter sido baleado, age
normalmente.
Eu – Caramba, vi te balearem. Pensei que estivesse morto.
Tomate-cereja – Lição para esses amadores. Nunca atire no peito
de um homem, se ele não tem mais pulmão daquele lado para
ser atingido.
Sorri. Mesmo sangrando, parece bem. O espero para
entrar na cozinha.
Tomate-cereja – Quantos ainda estão vivos?
Eu – Pelas minhas contas, quinze.
201
Tomate-cereja – Devem ter uma fortaleza aí dentro.
Passos rápidos vêm da direção de Terceiro. Empunhamos
as armas e saímos. Reconhecemos Bengala e Braço a tempo de
não puxar o gatilho. Ambos estão baleados e não parecem bem.
Tomate-cereja – É bom vê-los!
Eu – É bom vê-los vivos.
Tomate-cereja – Onde está Fêmur?
Braço – Foi atingido na cabeça na altura da orelha. Ainda
respira. Deixamos seu corpo ao lado da picape.
Tomate-cereja – Droga. Meus irmãos estão morrendo. Vamos
depressa. Precisamos matar esses vermes.

Entramos na casa. Conseguimos matar sem dificuldades


os quinze seguranças. Enquanto Bengala rola e busca proteção
atrás da geladeira, corro até a escada e abro fogo de peito aberto
contra os inimigos. Por milagre não sou baleado mortalmente.
Muito graças a frente de tiro criada por Braço e Tomate-cereja
que viraram a mesa e a usam como trincheira.
Não sofremos mais ferimentos. Em ambiente fechado os
Assassinos de Anúbis são praticamente imbatíveis. O restante
dos seguranças estão nos cômodos de cima. São alvos fáceis.
Somos ainda melhores quando a batalha é em lugares pequenos.
O segundo andar da casa está vazio. Abrimos porta a
porta dos quartos. Invadimos a suíte, Milos aponta uma arma
para a cabeça de uma mulher e mais duas estão à sua frente
como escudo humano. Bengala aponta a arma na direção de
Milos, dispara quantas vezes sua arma o permite. Milos e a

202
mulher caem mortos. As outras saem correndo para fora da
suíte. Ele é um matador a sangue frio. De certa forma é assim
que devemos ser, nossa missão é limpar o mundo, matar os
vermes corruptos, precisamos ter está atitude. Triste é ver a
mulher no chão, sem vida. A primeira inocente morta por nossas
armas.
Aqui estamos, os Assassinos de Anúbis: Tomate-cereja
baleado no peito; Braço baleado na perna, duas vezes; Bengala
atingido de raspão nas costelas e rosto; eu, por sorte, apenas
baleado no braço. Terceiro e Fêmur a beira da morte. Nosso líder
Lauro pode estar cego a está hora e Talico é apenas um residente
com cara de nerd.
Saímos o mais depressa possível. Ateamos fogo nas
nossas picapes. Pegamos dois carros da garagem. Dirijo um
deles, Bengala ao meu lado e Terceiro deitado no banco de trás,
no outro Tomate-cereja dirige, acompanhado por Braço, com
Fêmur deitado no banco de trás. Antes de sairmos da cidade
passamos pelo comboio da polícia seguindo para a casa de
Milos. A polícia atrasada como sempre. É o símbolo da justiça e
do Estado, compensando o que está errado.
Os Assassinos de Anúbis contam com várias casas de
apoio, doadas por patrocinadores, pelo Estado. E é numa delas,
no interior de Palmares das Missões, perto de San Madre que
paramos para juntar forças e seguir adiante.
Terceiro e Fêmur não respiram mais quando chegamos
na casa…
Os fiéis soldados de Lauro, companheiros que não pude
conhecer mais intimamente, estão mortos. Choro por eles, são
perdas importantes para o país. Só então percebo que a lente
esquerda dos meus óculos de grau está rachadas em múltiplas

203
direções.
Enterramos seus corpos no quintal. Nos revesamos para
fazer as covas. Perder dois companheiros é muito triste, mas, ao
mesmo tempo, motivo de orgulho. Enterramos dois guerreiros
que lutaram bravamente pelos mesmos ideais de limpar a sujeira
na política do país e, consequentemente, terminar com a
desigualdade, a fome, a miséria e a falta de educação. São as
primeiras baixas dos Assassinos de Anúbis desde sua criação.
Ninguém fala nada sobre a morte, não estamos preparados para
isso. Sem glamour, sem cerimonia. Assim foi o enterro de dois
heróis.

Todos limpos, com curativos em seus ferimentos.


Braço – Não tinha percebido, mas meu braço mecânico foi
atingido e não está mais funcionando.
Eu – Não consigo mais caminhar, meu quadril está me matando.
Bengala – Se você tivesse uma bengala como a minha poderia
caminhar – diz rindo – estou esgotado. Fechando meus olhos
agora, acordarei daqui a uma semana.
Ligamos a televisão e o noticiário fala sobre a morte do
grande empresário Milos. A cobertura é trash, os repórteres
caminham entre o sangue e os corpos cobertos por lonas. O
circuito de câmeras da casa mostram duas picapes pretas
estacionando, seis homens vestidos de preto agem. Quebram o
muro lateral da casa e matam os seguranças. Tidos como
trabalhadores, inocentes e pais de família. A polícia trabalha
para saber a identidade dos seis homens. “Tempo perdido” diz
Bengala. Somos homens-mortos, sem registros. Lauro tomou
todas as providências necessárias para que nunca fôssemos
204
reconhecidos. Jamais encontrarão ligação entre nós e Lauro.

Não bastando as perdas de nossos companheiros a morte


de Lauro é anunciada por telefone. Talico ligou para Tomate-
cereja. Ele não resistiu às complicações do tumor. Morre o
idealizador dos Assassinos de Anúbis, o mentor. Todos ficamos
o dia seguinte em silêncio, em luto. O mundo devia estar mais
triste. Lauro foi um homem a frente de seu tempo, sabia que a
única maneira de acabar com a corrupção é dando um fim às
laranjas podres e a todos aqueles que, de alguma forma, aceitam
vantagens por isso. Homens que têm seus atos corruptos mais
pesados que a Pena da Verdade. Somente com sangue é dado
exemplos aos corruptos. Enquanto a punição for branda, apenas
ficando ilegíveis ou serem presos numa cadeia luxuosa, nada
mudará.
Eu – O que faremos?
Tomate-cereja – O trabalho ainda não terminou. Nosso mestre
está morto, dois bravos guerreiros também. Temos que revidar.
Braço – Mas como? Estamos baleados, dois de nossos irmãos
estão mortos. Nossa base foi destruída e demorará muito para
podermos voltar lá.
Tomate-cereja – Saímos da Capital para matar Milos e Dilécio e
não podemos voltar sem completar o trabalho. Lauro não
admitiria isso e Talico também não.
Bengala – Mas será suicídio. Estamos com poucas armas e
munição. Sem dinheiro dos patrocinadores.
Tomate-cereja – Ligarei para Talico, devemos ter patrocinadores
aqui na cidade. Precisamos arrumar um médico e comida.

205
Coletes a prova de bala, armas e munição.
Ele pega seu celular e sai da sala, caminha para o pátio,
entre as árvores falando com Talico.

Somos atendidos por um médico da cidade, o rapaz foi


aluno de Lauro. Em uma semana conseguimos novas armas e
munição para seguir até Montanhas Gerais, na cidade de Bellos
Olhares, capital daquele estado.
O último andar do Hospital Estadual de Transplantes está
sendo reformado e Talico foi nomeado presidente de lá. Jovem e
com pouca experiência, mas foi como Lauro desejou. O
secretário de saúde cumpriu o pedido do seu velho amigo. Ele
também é colaborador dos Assassinos de Anúbis. Nomeou o
garoto e a obra de Lauro terá continuidade.
Acompanhamos pela televisão. Felizes pelo rapaz.

O dia da partida chegou, sairemos rumo à Montanhas


Gerais, enfrentaremos dois dias de viagem. Armados com as
armas leves de sempre. Antes da saída temos um decisivo
diálogo.
Tomate-cereja – Amigos. Apenas três de nós partirá para
Montanhas Gerais. Todos sabem que é uma operação suicida. É
muito provável que não voltaremos. Alguém precisa ficar e
continuar a obra de Lauro. Talico é muito jovem e precisa de
assistência. Pai, vou designá-lo para isso. Entre nós, é o mais
experiente em batalhas, pode treinar os mais jovens. Sou o líder
e isso é uma ordem.
Os três olham para mim. Quero estar junto deles e matar
206
Dilécio com minha arma ou morrer tentando.
Eu – Mas não posso deixar vocês partirem para a morte sem
fazer nada.
Tomate-cereja – É a minha decisão e já repassei para Talico.
Também mudei as regras dos Assassinos de Anúbis. A partir de
hoje, os Assassinos recrutados poderão conviver com seus
familiares de forma mais intensa. Gostaria de poder abraçar
Juliana, minha ex-esposa e sua filha, Linda, pela última vez.
Braço – E eu Marta, minha irmã mais velha e única parente.
Bengala – E eu Marjorie, meu grande amor. Mas estou contente
por partir. Os Assassinos continuarão trazendo equilíbrio para o
mundo, elevando o bem na luta contra o mau.
Tomate-cereja – Vá, Pai! Para a Capital, depois procure sua
mulher e seu filho, os mantenha protegidos. Assim como,
também olhe por nossos familiares. Diga à todos os políticos
corruptos que os Assassinos de Anúbis jamais serão derrotados.
Todos – VIVA LAURO! VIVA OS ASSASSINOS DE ANÚBIS!

Voltei para a Capital muito contrariado. Junto com


Talico, projetamos a continuidade dos Assassinos.
Os rapazes derrotaram os homens em Montanhas Gerais,
mataram Dilécio e passamos a frente, estamos ganhando a
batalha contra a corrupção.
Os políticos corruptos vendo os outros políticos
corruptos morrendo, aos poucos, estão deixando a política e
mudando seus comportamentos.
Enquanto o último andar do Hospital de Transplantes do
207
Estado não fica pronto, decidimos entrar em recesso. Estudamos
alguns possíveis novos integrantes para nossa equipe. Talico foi
para outro hospital da Capital prosseguir com os transplantes
mais urgentes. Antes de recomeçar o trabalho, decidi procurar
Gabriela e Maurício. Dirigi por muitos dias, sem referência.
Apenas com uma foto dos dois, perguntando em todos os
restaurantes e postos de beira de estrada.
Os encontrei em Coriçaba, capital do estado de Paranava.
Vivendo do salário que Gabriela ganhava como doméstica.
Poder abraçá-los novamente foi maravilhoso. Sem brigas, sem
cobranças, apenas conversa e risos. Os trouxe novamente
comigo para a Capital. Contei o que sou, o que fui e como
funciona as novas regras dos Assassinos de Anúbis.
As novas eleições chegam e diante da pressão exercida
pelas mortes provocadas pelos Assassinos de Anúbis, o projeto
Ficha Limpona saiu do papel. Pela primeira vez, as leis não
puderam ser contornadas, o candidato com algum problema na
justiça não pode concorrer. O país começa a entrar nos trilhos.
Pena que meus amigos não estão aqui para ver nossa vitória.

O primeiro a ser recrutado foi Patrício Costa. Um


entregador de gás. E foi fazendo seu trabalho, entregando gás na
casa de Dilsinho Jachetti, deputado estadual pelo Partido D, que
encontrou 5.000.000 reais dentro do fogão. Roubou o dinheiro e
a partir de então passou a ser perseguido por capangas de
Dilsinho. Patrício, um homem fisicamente atrasado, com uma
barriga protuberante, amante da vida noturna, conseguiu, sem
ajuda e por milagre, liquidar com os capangas, mas a coisa ficou
séria, e os perseguidores multiplicaram. Foi então que o
recrutamos. O treinei intensamente por 4 semanas. Sua barriga
diminuiu. Seu primeiro trabalho foi liquidar Dilsinho. Assim o
208
fez, sem sofrer arranhões. Seu codinome é Barriga.
O segundo a ser recrutado foi Camilo Assamov,
professor universitário, doutor em Ciências Políticas. Ficou
famoso na internet com seus vídeos criticando o Partido D.
Acabou sofrendo dois atentados. Na primeira vez, conseguiu
escapar de um assalto premeditado, tomou dois tiros, se fingiu
de morto, os bandidos arrancaram sua orelha direita como prova.
Camilo permaneceu em silêncio, aguentou firme, manteve a
respiração muito leve e só abriu os olhos horas depois. Na
segunda vez, caiu numa emboscada na sua própria casa, um
assassino profissional o esperava. De alguma forma, travaram
uma interminável luta corporal. No enrosco o professor teve três
dedos da mão esquerda cortados pela faca do agressor. Caíram
na piscina e o assassino acabou afogado por Camilo. Depois
disso o recrutamos e o treinei. Assamov aceitou prontamente
nosso convite, cansado de tanta impunidade. Seu codinome é
Professor e sempre age mascarado por seu rosto ser famoso.
O terceiro a ser recrutado é uma garota. Natana Kimoto.
Foi secretária do gabinete de Josué Sierra, senador pelo Partido
D-C. Natana amava seu trabalho, marcar os eventos, preencher a
agenda, ligar para locadoras de veículos, reservar hotéis, marcar
entrevistas. Entretanto, um dia descobriu que Sierra ocultava
alguns compromissos da agenda principal do gabinete. Então ela
descobriu que o senador tinha ligações perigosas com o crime
organizado na cidade de Janeiro. Como uma heroína, investigou
os passos de seu chefe. Juntou todas as provas possíveis para
incriminá-lo. Entregou ao Tribunal da Justiça do Senado e nada
foi feito. Pelo contrário, ela foi demitida e nunca mais conseguiu
um emprego. Passou por muitas dificuldades e um dia, em
desespero, tentou cometer suicídio. Fomos visitá-la no hospital e
a recrutamos. Seu codinome é Atenas, por seu grande senso de
justiça.
209
Juntos formamos o atual time dos Assassinos de Anúbis.
Pai, Barriga, Professor e Atenas. A fila de transplante contínua
crescendo, assim como os assassinatos. Tudo está muito intenso.
A imprensa começa a dar sinais de que uma organização
está caçando os políticos. Nos chamam apenas de assassinos,
seguem nossas pistas incansavelmente, mas suas informações
não passam de especulações sobre nossas verdadeiras
identidades.

210
Palavra final do líder…

Quando atacamos o apartamento de Dilécio,


encontramos bem mais soldados do que havia levantado. A
segurança tinha sido reforçada devido ao ataque contra Milos.
Do hall de entrada até a cobertura enfrentamos intensa troca de
tiros. Com o barulho das metralhadoras entrei em transe, não vi
meus companheiros serem abatidos, apenas continuei em frente,
atirando no que tinha vida. Fui alvejado muitas vezes, mas não
sentia os tiros.
Eu que matei Dilécio, em nome dos meus companheiros.
Quando tudo estava acabado e meu corpo todo perfurado de
balas, senti meu pulmão novamente enchendo de água, aquela
gostosa sensação de morte invadindo minha existência. Meu
corpo só queria descansar, sem dor, somente exaustão. Como
não morri logo, concentrei em contar os furos para passar o
tempo, foram dezesseis tiros espalhados pelo corpo, talvez tenha
sido mais. Por humildade, decidi arrendondar para baixo.
Sentei contra a parede, enquanto meu corpo deslizava
para o chão, os ferimentos nas costas pintaram a parede. Listras
vermelhas num quadro abstrato. Tirei do meu bolso, com muita
dificuldade, minha carteira de cigarros e depois o isqueiro. Os
tiros furaram a carteira e estragaram quase todos os cigarros,
mas sobrou alguns pela metade. Há dois anos que tentei parar de
fumar e comprei aquela carteira especialmente para a ocasião,
para comemorar minha morte. Como a vela do bolo de
aniversário.
Coloquei o meio cigarro na boca, um filete de sangue
211
escorreu pelo canto, pingando no chão. Acendi o isqueiro com
dificuldade e dar a primeira tragada foi quase impossível. Fumei
com meu pulmão cheio de água, mas dessa vez eu sabia, não era
água ou pus, era sangue. Mijo nas calças e sinto prazer. O mijo
devia ser sangue, minha bexiga também foi perfurada por tiro.
Terminei o meio cigarro, escutei os policiais invadindo o andar.
Pensei em Juliana, no tempo do nosso amor puro, e de
quanto a odiei quando me traiu com Edno e a odiei ainda mais
quando teve uma filha com ele. Linda é uma linda princesa e
devia ser minha filha. A odiei porque ela destruiu meus sonhos.
Meu futuro dependida dela, trabalhei em subempregos e lugares
imundos por ela e não foi o suficiente. Não consegui transformar
meus esforços em luxo. Mas a odiei ainda mais quando descobri
que não consegui odiá-la.
Tentei morrer para não pensar mais nela e nunca admiti
que ainda a amava. Queria ter um espelho para poder ver meus
olhos, meu corpo mais morto do que vivo, mas meus olhos
deviam continuar vivos, e entendi, meus olhos continuavam
vivos porque ainda amava Juliana.
Catei mais meio cigarro na carteira, achei apenas uma
bituca, joguei no canto da boca e o acendi. Tragando forte e meu
pulmão não funcionou, o fim estava perto. A dor partindo do
coração e espalhando pelo peito, isso devia ser a morte real bem
próxima. Traguei o cigarro o mais profundo possível quando os
policiais invadiram o apartamento. Peguei minha arma e apontei
para minha cabeça, apertei o gatinho e nada aconteceu, a pistola
estava sem balas. Ri debilmente da situação. As armas sempre
falham quando mais preciso.
“Quero morrer!” Gritei.
Tentei ficar imóvel, torcendo para morrer antes de ser

212
socorrido pelos policiais, mas não consegui. Um soldado do
pelotão especial da polícia civil percebeu que ainda estava
respirando e com os olhos abertos e chamou os paramédicos.
Então fechei os olhos e veio a escuridão.
Desta vez a solidão não era de alívio, não fiquei
flutuando sem a dor do tumor. Pelo contrário, sofria dor
constante, e soube que vivia meu inferno.
Acordei, não sei explicar como. Para mim, viver é um
castigo e os deuses sabem disso e resolveram me castigar. Não
sei quanto tempo passou, estava em cima de uma cama cheia de
aparelhos. Não sentia meu corpo, tentei mexer meus dedos dos
pés e não tive certeza que consegui. A sensação era estranha,
como se minha consciência não pertencesse mais ao meu corpo.
Alguns médicos vinham me ver, alguns falavam comigo, tentei
responder várias vezes, mas não consegui mover os lábios e
desisti da ideia. Enfermeiras vinham limpar meu corpo, minha
consciência ficava constrangida, mesmo não sentindo nada. Não
percebia quando meu corpo expelia alguma coisa, não sei se
estava inteiro. Aquela situação durou muito tempo. Tempo
suficiente para me fazer acostumar com aquilo.
Então chegou o dia que pararam de mexer nas minhas
feridas. Comecei a sentir as partes de meu corpo, escutar e
compreender o que falavam perfeitamente. Não estava mais
sozinho, os humanos invadiram novamente meu universo. Então
percebi que o estado de semiconsciência e dor era melhor do que
conversar com os humanos.
Passei a enxergar os médicos, as enfermeiras, e os
guardas da porta do meu quarto. Movia os dedos dos pés e lá
estavam eles, fazendo parte do meu corpo. Era como nascer
novamente. Tentei falar para as enfermeiras que gostaria que
parassem de limpar meu corpo daquele jeito, afinal, já sentia
213
tudo e era constrangedor, mas não deram importância.
Então começaram os testes, o médico responsável pedia
para piscar ou tentar sorrir, e eu tentava mandá-lo se foder ou
chamá-lo de filho da puta. Ele apenas sorria e lembrava o quanto
eu era forte por ter sobrevivido a todos os tiros.
Então os dias passaram e as coisas plugadas no meu
corpo foram diminuindo. Quando estava com os olhos abertos
eles mantinham a cama levemente inclinada, quando fechava
deitavam o encosto por completo.
As sessões de fisioterapia iniciaram, um rapaz acima do
peso, jovem e com cara de bobo vinha dia sim, dia não, e movia
meus membros, apertava meu peito, barriga, virava meu
pescoço. Os movimentos davam a sensação de alívio e prazer.
Comecei a falar logo depois que comecei a sentar na
cama. Minha língua não obedecia meu cérebro e quando as
palavras saiam, parecia a voz de um bêbado. E foi então que ele
entrou no quarto. O homem vestia-se de forma impecável. Seu
paletó cinza prateado brilhava a cada passo. Elegante, careca,
sem nenhum fio de cabelo, mas ostentava barba cheia e grisalha.
Um jovem senhor. Não sei o que pensar dele, no início achei que
era um assassino, o que causou raiva, queria morrer, mas não
pelas mãos de um mercenário a mando do Partido D. Fiquei
bolando planos para matá-lo antes de ser morto.
“Bom dia, senhor” disse “gostaria de chamá-lo pelo
nome, mas não conseguimos descobrir. O senhor não existe,
nunca havia visto trabalho tão perfeito.” Falou surpreso “bom,
vamos ao que interessa, o senhor foi preso há 3 meses no
apartamento do ex-presidente do Partido D, o senhor Dilécio
Mendez. O único sobrevivente daquele banho de sangue. É
inexplicável como está vivo. Foi atingido por dezessete tiros.”

214
“Decexeis” falei.
“Como senhor?”
“Forammm decexeis tirox” fico irritado quando não
consigo falar, mas acredito que ele entendeu.
“Está certo, que seja, dezesseis. A pergunta é: o que o
senhor estava fazendo lá?”
“Fuui fazee commpraz. Fumá um xigarro.”
“Engraçadinho. Quem eram os outros dois assassinos
que o acompanharam? Também são fantasmas.”
“Naum xei.”
“O senhor não precisa falar agora. Na verdade, nem fui
autorizado a entrar aqui. Confesso que precisava conhecer o
homem que só tem um pulmão e sobreviveu a dezessete tiros.”
“Decesseix.”
“Que seja, dezesseis. Sou o detetive Nico Mezzacasa.
Voltarei quando estiver mais disposto.” Estendeu a mão, sabia
que não conseguia levantar os braços.
Já tinha ouvido falar de Nico Mezzacasa. O chefe da
polícia da Capital, o mais jovem a chegar ao posto, promissor,
aos 28 anos iniciou bem sua gestão, mas rapidamente estava
envolvido em escândalos. Por exemplo, foi na sua chefia que a
corregedoria descobriu policiais vendendo armas para
traficantes, muitos funcionários passaram a ganhar horas extras
sem trabalhar. Na sua gestão a violência na Capital cresceu
28,52%, os homicídios aumentaram de 382 para 815. Sem
contar a queda de rendimento de bons policiais e o medo foi
instalado na população. Depois do segundo ano como chefe, foi

215
afastado, para a imprensa, a Corporação afirmou que tratava de
problemas pessoais e outro foi designado para o cargo de Chefe
Geral da Polícia da Capital. Nico retornou ao trabalho alguns
anos depois no cargo de Detetive, investigando casos
importantes que envolvem assassinatos ou mortes de policiais e
políticos. Obviamente, Nico passou a ser o queimador de
arquivos, um manipulador de provas a serviço da polícia
corrupta. Sabia que ele estava ali para me matar, mas por algum
motivo não o fez. Quis morrer muitas vezes, como queria morrer
naquele momento, mas não pelas mãos de um policial corrupto.
Estava em risco.
Meu processo de melhora prosseguiu, minha fala foi
aperfeiçoada, consegui mover meus braços e um pouco as
pernas. Os aparelhos ficaram desnecessários. Apenas prossegui
usando a máquina para respirar e soro.
Fui mudado de quarto, onde Nico Mezzacasa retornou
para outra visita sombria.
“Senhor” disse ele “pelo estilo da matança, a grande
semelhança suicida, a silhueta nos vídeos e o pouco
profissionalismo que agiram, sabemos que está envolvido no
ataque ao empresário Milos Cicic. Só falta saber para quem você
trabalha. Coopere conosco e poderá ter sua pena reduzida, o que
acha?”
“Pega sua pena” disse a ele “e enfia na bunda. Não
negocio com corruptos” – ele continuou muito calmo, pareceu
inabalável.
“Está bem. Assim deseja, assim será. Se não colaborar
será transferido para o presídio de segurança máxima em uma
semana. Teremos muito tempo para conversar por lá.”
“Esperarei ansiosamente por esse dia” conclui mostrando
216
o dedo do meio quando ele saia do quarto.
Tivemos mais duas conversas até o dia da transferência
para o presídio Secobiano, no interior do estado de San Paolo.
Minha vida viraria o próprio inferno.
Fui instalado nas celas mais ‘leves’ do presídio. Comia
pequenas porções e o corpo recuperava a velha forma. Em um
mês estava renovado e fui transferido para as celas normais.
Antes de ser atirado aos leões fui a julgamento. Sei que teria de
lutar pela vida desde então.
Depois de analisar os vídeos, o juiz declarou culpado,
punido por 14 assassinatos direto e condenado a 150 anos de
cadeia. Podendo ser reduzido a 30 anos por bom
comportamento, mas sou um homem sem identidade, como
poderiam condenar quem não existe? Por isso fui transferido
para a prisão das Forças Armadas Nacionais Base Sul. Em San
Madre, terra de Milos Cicic. Lá era o lugar de minha morte.
Bastava esperar ser esfaqueado dormindo ou envenenado.
Haviam poucos presos, menos de cinquenta. Condenados
por insubordinação, recusa a farda, desobediência… Pequenas
penas comparadas a minha. Sabia que morreria ali e mais dia ou
menos dia a turma dos corruptos mandariam dar um fim no
careca sem nome. Procurei manter distância das encrencas, meu
corpo debilitado estava com os velhos cinquenta quilos, olheiras
profundas voltaram, mas os olhos vivos continuavam brilhantes.
Fiquei fumando, bebendo e comendo coisas contrabandeadas
por alguns meses. Para fazer renda, passei a trabalhar na
cozinha.
Planejei algumas vezes a melhor forma para acabar com
minha vida, mas não queria morrer do modo mais indigno para
um Assassino de Anúbis: na mão do inimigo. Cometer suicídio

217
passou a ser questão de honra, mas não podia arriscar não
morrer e ficar incapacitado de lutar, caso fosse preciso.

Até a noite que abriram minha cela. Alguém colocou um


capuz na minha cabeça e fui guiado para fora do Quartel
General. Fui forçado a ficar de joelhos na mata. Era o fim, um
tiro na cabeça, morto por um milico de merda. Então escutei
“caminhe na direção que você está” disse o soldado “foi uma
honra poder conviver com o senhor Tomate-cereja” prosseguiu
“desculpe ter demorado para soltá-lo, mas esperei o melhor
momento”. Ele retirou o capuz. Olhei para o garoto, apenas um
soldado, ele prosseguiu “quando eu tinha 16 anos tive um tumor
maligno no fígado, morreria em poucos meses, estava na fila de
transplantes, mas o doutor Lauro me salvou. Ele contou que
sobrevivi graças ao trabalho dos Assassinos de Anúbis, pediu
para guardar segredo e me declarou um colaborador. Aceitei na
hora. Guardei segredo e aguardei o chamado. Decidi entrar para
as forças armadas quando completei 18 anos. Menti para passar
no exame de saúde. E a hora finalmente chegou, o dia de ajudá-
los. É uma honra!”. Está emocionado. “Como sabe meu
codinome?” pedi. “Porque Lauro disse o nome do meu salvador
e mostrou uma foto do senhor, todo vestido de preto, como um
herói, como um sonho!” Ele concluiu emocionado, pude ver
lágrimas caindo de seus olhos. “Obrigado, garoto!”
Segui em frente, com aquela calça cinza de tecido pesado
do uniforme da prisão, sandálias e regata. Apertei o passo para
tomar distância. O garoto estava sozinho e certamente a fuga
seria descoberta e viriam em força máxima atrás de mim.
Caminhei algumas horas até as sandálias arrebentarem, fiz o
resto do percurso descalço. Meus pés sensíveis começaram a
criar bolhas e as bolhas rapidamente estouraram e viraram

218
feridas de sangue.
Cheguei numa estrada de chão no meio do nada.
Prossegui caminhando para a esquerda. Pés flagelados. De um
lado a mata e do outro a plantação de milhos. Continuei sem
sentido.
Caminhei até encontrar uma picape preta parada no meio
da estrada com o motor ligado. De lá saíram três pessoas
vestidas de preto. Um homem acima do peso, outro mais velho
usando óculos de grau, sem uma das orelhas e uma moça com
descendência oriental. Vieram ao meu encontro.
“Quem são vocês?”
“Somos os novos Assassinos de Anúbis” disse a moça
com um sorriso perfeito, com os dentes muito brancos e direitos
“Pai está ocupado em um trabalho e pediu para buscarmos o
senhor. Nosso líder.”
Como foi bom ver uma mulher no Pelotão Especial,
certamente serão mais fortes do que qualquer outro Assassino de
Anúbis, pois mulheres costumam ser mais espertas, acharão
diferentes formas, menos espalhafatosas de completar seus
trabalhos. Não sei descrever o que senti ao vê-los. Queria
mesmo é poder ver Juliana e Linda.
“Tudo bem. Como são seus codinomes?”
“Barriga” ele sorriu amavelmente, parece ter menos
idade quando o faz.
“Professor” o velho respondeu, acenando com a mão
esquerda, percebi que faltavam três dedos nela, o mínimo, anelar
e o central.
“Atenas” ela respondeu. A linda moça oriental leva o
219
nome de uma Deusa. Nada mais peculiar.
“Alguém de vocês tem um cigarro?” Perguntei.
“Não senhor” disse Barriga “não fumamos.”
“Certo. É melhor assim. Me tirem daqui.”
Entrei na picape quando já podia escutar os cachorros
dos soldados ecoando ao longe. Cães farejadores… Avistei sobre
o banco traseiro minha farda, a velha roupa preta simples, na
qual começamos a lutar contra o mal.

A viagem até a Capital foi interminável. Ao chegarmos


no Hospital Estadual de Transplantes precisei de cuidados
médicos por desidratação, Talico acompanhou minha
recuperação. Estava mais maduro, com cara de homem, com o
cabelo melhor cortado. Fiquei mais uma semana em repouso.
“Não entendo” disse Talico me examinando “você
simplesmente não morre. Foram dezesseis tiros e continua
vivo.”
“Também não entendo, Talico. Devem ser meus olhos.”
“Seus olhos?”
“Sim. Sempre quando meu corpo está morrendo meus
olhos continuam vivos. Olhos jovens de menino. Quando
brilham ficam quase negros. São meus olhos os responsáveis por
manter o corpo vivo, e descobri porque brilham tanto.”
“Por que?”
“Porque eles ainda amam Juliana…”
“Está recuperado Tomate-cereja. Já pode voltar ao seu
220
antigo posto de líder dos Assassinos de Anúbis.”
“Não voltarei. Estamos ganhando a batalha, derrotando
nossos inimigos mais fortes. Você e Pai estão realizando um
excelente trabalho de vanguarda. Não precisam mais de mim.
Onde está Pai?”
“Está trabalhando num recrutamento. O mais importante,
segundo ele, da história dos Assassinos. Um de seus
companheiros de exército. Serviram juntos no Haiti.”
“Ele é um líder melhor que eu.”
“Ninguém pode ser melhor do que você.”
“Estou cansado, amigo. Por favor, não me faça voltar a
campo. Quero minha antiga vida novamente. Quero consertar
algumas coisas do passado.”
“Está bem. Lauro, meu saudoso tio, preparou a todos
uma aposentadoria digna. Ele sabia que um dia ficariam
cansados de matar. Já enviei a quantia para os familiares de
Braço, Fêmur, Bengala e Terceiro. Não é muito, mas foi o que
Lauro conseguiu guardar para todos. Levante-se, vista-se e vá
até minha sala. O dinheiro estará a sua disposição.”
É o que fiz. Vesti as roupas normais e parti até o último
andar, na antiga sala de Lauro. O lugar estava diferente, com
traços modernos, mais a cara de Talico e sua nova equipe. O
quadro de Che Guevara estudante de medicina permanece no
mesmo lugar. Ainda existe a alma que batalha pela verdade. O
dinheiro estava dentro de uma bolsa preta, em cima da antiga
mesa de Lauro. Notas de cem e cinquenta reais.
“Cuide de sua saúde Tomate-cereja. Mandarei todos os
meses os remédios, mais dinheiro e documentos novos. Mande

221
seu endereço para o hospital, por favor.”
“Mande para meu antigo endereço. Voltarei para minha
casa.”
“Mas pode ser perigoso…”
“Mande um revólver e munição, esperarei o perigo. E
Talico?”
“Sim?”
“Meu nome é Sáfir! Sáfir Opal! Filho de Magnos Opal e
Clara Opal. Isso deve estar escrito no documento.”

222
O encontro…

A minha antiga casa ainda está igual. Estaciono do


outro lado da rua, mas não desembarco. Fico observando. Vejo
Juliana chegando do trabalho, mais velha, mais encorpada, com
rugas no rosto. Passaram alguns anos desde nosso último
encontro. Uma Van estaciona na frente da casa, a porta abre e
uma menina linda sai correndo, vestida de rosa. É Linda, que
agora deve ter 8 anos. Espero elas entrarem.
Não raspei o que restou do meu cabelo nas últimas
semanas apenas fiz a barba. Depois do soro bati a marca de 55
quilos. Estou tão diferente daquele homem de 4 anos atrás.
Desço do carro e caminho até a porta. Bato e espero
Juliana atender. Quando o faz, ficamos nos encarando. Aquele
rosto, aqueles cabelos e olhos negros, aquele sorriso largo.
“Você me perdoou?” Ela pergunta, sem nem ao menos
pedir como voltei do mundo dos mortos, sou pego de surpresa.
Reflito em poucos segundos, nas vezes que não quis viver,
muito tinha do quanto amava Juliana e não consegui perdoá-la,
não por incapacidade, e sim por ainda amá-la com todas minhas
forças.
“Perdi muito tempo, Juliana. Perdi muito tempo durante
os dias me perguntando se estou fazendo a coisa certa e se no
final de tudo não me arrependerei. E nesses anos dei sentido a
minha vida. Fiz coisas que não foram muito boas, mas
necessárias. Mas faltou uma coisa nesta jornada e meus olhos
pediam todos os dias por isso. Te perdoo porque estou em paz e

223
te amo.”
“Eu te amo, Sáfir! Pensei em você todos os dias depois
de sua partida. Desejei um dia poder conversar com você de
novo. Meu coração nunca acreditou que aquele corpo no caixão
fechado era o seu.” Ela avança, fico pronto para beijá-la quando
somos interrompidos.
“Quem é, mamãe?” Pede Linda, do quintal.
Juliana pega minha mão e caminhamos pela casa, tudo
ainda está como deixei. Os mesmos móveis escolhidos por
minha mãe, a tevê pesada, os livros antigos.
Linda está no quintal entre os pés de tomate-cereja, vem
ao nosso encontro com as mãozinhas cheias de tomatinhos. O
quintal está como deixei. Os pés de tomates vivos, muito verdes.
“Quem é ele?” Linda pede à Juliana apontando o dedo
sujo na minha direção.
“Esse é seu pai. O pai Sáfir que cuidou de nós quando
mais precisamos.”
Linda vem ao meu encontro, abraça meu corpo na altura
da barriga. Sujando minha roupa.

Acabo voltando ao meu antigo quarto, coloco algumas


roupas pretas no armário e decido comprar outras de cores
diferentes. Sento a mesa para comer com mãe e filha. À noite
deito ao lado de Juliana e toco em seu corpo, acaricio seus
cabelos, sinto seu cheiro. Depois de tantos anos estou com ela. É
libertador. Conto tudo que aconteceu. Ela escuta atentamente,
sem questionamentos. Posso ver orgulho em seus olhos, afinal,
aquele homem sem serventia tornou-se um herói. Ela acaricia
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cada cicatriz dos tiros e ferimentos no meu corpo. Ri quando
perde as contas várias vezes ao tentar contá-las.
Pela manhã levo Juliana para o trabalho e Linda para a
escola. Agora temos o carro preto para nossas necessidades, um
dos presentes deixados por Lauro. Linda despede-se de mim
com um abraço aconchegante, com seus pequenos braços
envolvendo meu pescoço. Posso acostumar com seus carinhos
fácil, fácil. Amo ela como sendo minha filha!
Retorno pensando em ficar os próximos dias olhando
para o jardim, mas ainda existe alguém que preciso visitar.
Dirijo pelo bairro até chegar na floricultura da anciã que
me vendeu aqueles pés de tomate-cereja e salvaram minha vida.
A floricultura ainda existe, do mesmo jeito, com os
intermináveis corredores de plantas. Agora há um espaço maior
para vários tipos de tomates, centenas de mudas espalhadas pelo
chão. Ela investiu o dinheiro do roubo como orientei. Caminho
pelos corredores procurando a velha. Como da última vez,
encontro o banco e o caixa, sento e espero. A velha aparece
saindo entre alguns pequenos arbustos.
“Olá, rapaz!”
“Olá” Digo sorrindo.
“Veio comprar mudas de tomate-cereja?” Diz sem
cerimônia.
“Não, tenho muitos pés em casa. Quero saber como a
senhora está” ela fica surpresa e feliz.
“Estou bem. Muito obrigada.”
“Que bom.”

225
“É.”
“Como andam as vendas?”
“Na mesma.”
“Na mesma?”
“Sim, no mesmo ritmo de sempre. Você está diferente.
Fala mais, parece mais saudável.”
“É. Andei melhorando.”
“Percebi.”
“A vida me ensinou algumas coisas.”
“Sim. Ela nos prega peças.”
“A senhora é da Capital?” Quero muito continuar
conversando com ela, por isso começo a perguntar o que vem na
cabeça. Ela segue dando suas respostas protocoladas.
“Como assim?”
“Se é natural desta cidade?”
“Ah sim! Nasci aqui.”
“Sempre trabalhou com as plantas?”
“Sim…”
“A senhora tem família?”
“Sou viúva.”
“Sem filhos?”
“Tive um filho e uma filha, mas ele já morreu. Ela faz
tempo que não vejo.”

226
“Meus pêsames, desculpe por tocar nesse assunto.”
“Ele era médico. Morreu de grave doença. Infelizmente
não pude estar presente em seu enterro. Morreu no exterior.”
“É mesmo?”
“Sim. Médico dos bons. Especialista em transplantes de
órgãos.”
“Sério. Como é o nome do seu filho?”
“Lauro Brizola.”
Fico em silêncio e sorrio. Aquela velha anciã é a mãe do
homem mais íntegro que conheci. O homem que mudou o país.
Mentiram para a velha sobre seu enterro.
“Deve ter sido um grande profissional.”
“Foi sim, ajudou muitas pessoas.”
“Tenho certeza que sim. E seu esposo, o que fazia?”
“Meu marido foi sapateiro. Depois meteu o bedelho na
política e tudo desandou.”
“Como assim?”
“Ele foi candidato a vereador, era conhecido como João
Sapateiro, foi o 3º mais votado na época. Depois conseguiu a
reeleição sendo o mais votado. Então o partido lançaria sua
candidatura à prefeitura quando meu João foi morto.”
“Morto por quem?”
“A polícia arquivou o caso por falta de provas, mas
Lauro, contrariando meu desejo, decidiu investigar a morte do
pai. Ele nunca disse o que havia descoberto e desistiu das
investigações quando seus estudos na faculdade de medicina
começaram a ser prejudicados.”

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“Houve mais mortes de políticos naquele ano?”
“Sim. Como sabe? O candidato da oposição o Mario
Contador apareceu morto, envenenado. A morte foi misteriosa,
nunca encontraram o assassino. Desde então tentamos esquecer
a dor. Lauro nunca mais comentou sobre a morte do pai. Ficava
em seu quarto, lendo livros de medicina ou lendo sobre o Antigo
Egito, seu fascínio. Acho que especializou-se em transplantes
devido a paixão sobre a medicina egípcia. Depois de formado,
trabalhou em alguns lugares do Estado até ser nomeado chefe do
Hospital de Transplantes do Estado. Vinha raras vezes para
casa.”
“Conheci seu filho.”
“O conheceu?”
“Sim. Ele salvou minha vida duas vezes. Quando evitou
o meu suicídio e depois quando deu outro sentido para viver.
Mas está na hora dos meus remédios” a velha tem lágrimas nos
olhos, está muito emocionada “a senhora tem um copo de
água?”
“Sim, vou pegar” desaparece com sua imensa bunda
entre as plantas.
Retorna com o copo de água. Coloco as cápsulas na boca
e bebo num gole.
“Sente-se” digo a ela “contarei tudo para a senhora.”
E é o que faço. Conto a velha sobre os Assassinos de
Anúbis. Como seu filho mudou a história política do país. Onde
o corpo está enterrado. Como Talico assumiu as coisas.
“Meu filho era um herói.”
“Exatamente. Salvou incontáveis vidas e limpou,
praticamente toda a sujeira da política.”

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“E meu querido neto, tornou-se médico. Que orgulho.
Minha filha Martina deve estar orgulhosa. Caso a veja por ai,
diga para visitar sua velha mãe. Ela não aparece faz tanto
tempo.”
“Não a conheço, mas tendo a oportunidade direi, sim.”
A velha serve café. Peço um cigarro, mas não fuma.
Enfim, ela pode compreender o tamanho da obra de seu filho, e
os motivos de visitá-la raras vezes. Prometo voltar assim que
possível, nos despedimos. Sigo para o carro com o coração leve.
Sei que seremos grandes amigos.

No final da tarde, busco Juliana no trabalho e Linda na


escola.
“Como foi seu dia?” Juliana pede.
“Foi bom. Foi o primeiro dia do resto da minha vida.”
“Que lindo, Sáfir.”
“E é verdade Ju.”
“Você está diferente…”
“Sim. Mudei e sinto alívio por isso. Como que estivesse
cumprindo alguns deveres.”
“E o que faremos daqui para frente?”
“Não sei, Ju. Pensei em ficar com você e Linda, depois
penso em outra coisa. A propósito, abra o porta-luvas, tem um
presente para você e outro para Linda.”
Ela abre o porta-luvas, lá estão duas rosas, uma vermelha
para ela e um botão cor-de-rosa para Linda. Uma lágrima cai de

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seus olhos.
“Obrigada, Sáfir!” Ela agradece.
“Obrigada, Sáfir” Linda agradece.
Partimos para casa como uma família.
Jantamos e acabamos a noite assistindo televisão.
Tranquilos. Minha alma está leve. Tudo está em ordem porque
não há o que temer, os Assassinos de Anúbis estão lá fora,
salvando vidas e destruindo o mal.

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DIGA A TODOS QUE OS ASSASSINOS DE ANÚBIS NÃO
FORAM DESTRUÍDOS.

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Continua…

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