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Assassinos de Anúbis – Olho de


Hórus
Everton Gullar
ASIN: B07YP5H7N5
ISBN: 978-65-00-04320-4
Assassinos de Anúbis – Olho de
Hórus é uma obra literário intelectual
escrita por Everton Gullar.
Todos direitos reservados ao autor.
Capa e Arte: Quadros Carvalho
Revisão: Soledad Abrachia

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Todos têm sua lenda.
Alguns aceitam destruir o que não se pode
destruir.
Decidem por árdua missão, longe dos
holofotes.
Onde o perigo habita e a glória tem mais
sabor.

Parte I
Tomate-cereja/
Avenida

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Abro os olhos assustado, o sol invade o
quarto.
É hora de levantar, manhã de sábado.
Visto-me, escovo os dentes, lavo o rosto, meus
olhos parecem órbitas saindo dos meus olhos, lindas
esferas negras brilhantes. Assim sempre será.
Desço as escadas, apoiando nas paredes
úmidas. Na cozinha, Juliana prepara o desjejum. Os
remédios estão, como sempre, esperando na pequena caixa
ao lado do telefone. Arrebento as embalagens e engulo em
seco. Preciso dos medicamentos para o câncer não voltar.
É uma merda viver assim. Os médicos me tratam como
uma cobaia.
“Bom dia!” Digo a ela, que responde com um
sorriso. Pela janela vejo Linda brincando com um gato
invasor, entre os pés de tomate-cereja.
Há tempos que deixei de ficar bravo com isto.
Há tempos que deixei de ser Tomate-cereja. Desde que
não mate os pés, Linda tem o direito de brincar onde
desejar. Juliana termina a omelete, junto serve um copo de
leite. Sabe como odeio leite, mas desde que diminui o
cigarro mantenho esse hábito, alguns dos médicos falaram
que faz bem para os pulmões. Eles sempre repetem isso
como um mantra. Ela escuta todos, é uma bobagem a
mais, eles pensam que falam a verdade.
“Ele vem mais cedo” diz sem olhar para mim.
Sei de quem está falando, é de Edno, aquele desgraçado.
Este final de semana é dele, o juiz ordenou. Não falamos
mais, sabe o quanto fico triste quando Linda passa o final
de semana longe de casa.
Não sei porque Edno insiste nisso, já deixou

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de ser pai da Linda há muito tempo. Aquele capitalista
devia nos deixar em paz, seguir com suas jovens
namoradas viajando por praias paradisíacas. Estamos
tentando viver em família aqui.
Escuto a buzina, Juliana chama Linda e a leva
até a entrada, mas antes damos um longo abraço, “tchau
pai Sáfir!” E é com esta frase que assisto a pequena partir,
sei, serão apenas dois dias, mas sempre fico com o coração
apertado.
Sento no sofá, aumento o som da TV, o
repórter anuncia um incêndio no Centro, feminicídios no
subúrbio, pedofilia na igreja, mais uma morte de político.
É sempre a mesma coisa. O mundo está doente, o mundo
está com câncer. Fecho os olhos.

Abro os olhos, não sei por quanto tempo


dormi. Juliana passa, está vestindo calça justa, salto alto,
blusa de renda e cabelos soltos. Ainda provoca em mim os
mesmos desejos. Seu corpo sempre será minha perdição.
Faz meu coração acelerar.
“Vai sair?” Pergunto, ela retorna para a
cozinha.
“Nós vamos” volta a entrar no meu campo de
visão, está colocando o brinco.
“Sair? Sabe quanto odeio sair. As pessoas dão
asco.”
“Ora, Sáfir! Vamos aproveitar o dia,
precisamos de um tempo só para nós dois.”
“Lembra o que aconteceu da última vez?”
“Lembro sim, e por isso, para que não brigue
no trânsito, iremos de ônibus. Assim poderemos curtir
mais o passeio.”
“E qual será o itinerário?”

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“Almoço, cinema, shopping.”
“Isso é insano. Todas aquelas pessoas
desesperadas, hipnotizadas pelo neon das vitrines. Sua
ideia é de enlouquecer. Esqueceu que é casada comigo?
Babarei veneno durante todo o dia.”
Ela sorri, chega perto, coloca as mãos nos
meus ombros, diz “eu te amo”, me beija e sai para a
cozinha. Sei que não poderei dizer não desta vez.

Caminhamos até a parada, o calor faz


transpirar. As pessoas esperam para seguir seus destinos.
A parada não tem banco, nem telhado, apenas uma placa
referenciando o local. Outro lugar esquecido pela
prefeitura. Em dia de chuva é fatal. Estamos na primeira
avenida de saída do bairro.
Os ônibus começam a passar, as pessoas
seguem suas rotas, para o shopping é sempre mais
demorado. Aos poucos a parada esvazia.
Agora somos apenas nós dois. Juliana carrega
um sorriso e transforma um momento desconfortável em
sublime. Ela faz a vida suportável.
Observo os carros passando na avenida, todos
violentamente velozes. O trânsito é louco e mata mais do
que a guerra. Os motoristas tratam isso como uma
competição, mas não são capazes de reparar que seus
filhos não usam cinto de segurança no banco de trás.
Uma camionete verde metálico para onde não
é permitido, do outro lado da avenida. Um homem
robusto, calvo, pardo, que veste camisa, calça social,
coloca um chapéu de caubói, salta do veículo. Parece
cansado. Vai até a carroceria, abre a tampa, retira um saco
preto e o joga ao lado do poste, onde não é permitido jogar
lixo.

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Olho para Juliana que também acompanhou a
cena, “filho da puta” digo. Ela balança a cabeça,
concordando. Inquieto, o assisto entrar na camionete e
partir, os carros rasgam a avenida. Atravessar para colocar
o saco no lixo será difícil, mas é o certo.
Ao longe, avisto nosso ônibus. Observo o
saco, não é um lixo normal, está mexendo. Há algo dentro
dele com vida. Encaro Juliana, que entende, não vamos
mais para o shopping. É necessário verificar o saco, não
conseguirei partir sem resolver isto.
O ônibus passa, começo a atravessar a rua. Os
carros freiam bruscamente, palavras de baixo calão são
gritadas na minha direção. Levanto o dedo do meio para
todos. Sigo em frente, impávido.
Em poucos segundos completo o percurso e o
trânsito volta ao normal. Chego perto do saco, o que está
ali dentro, sente minha presença e os movimentos
aumentam. Ainda mais próximo, de cócoras, pego o saco e
começo a rasgá-lo. Centímetro a centímetro, um pedaço de
algo peludo e cor cinza aparece. Abro o saco totalmente.
No corpo, perto do pescoço um enorme ferimento sangra
em abundância: é um cachorro ferido. Ele movimenta o
rabo, o resto permanece imóvel, seus olhos brilhantes, são
intensos e lindos.
Chego perto com cautela, tento tocá-lo, ele
rosna. “Calma, amigão, não vou machucá-lo” digo por
instinto, mesmo sabendo que não pode entender.
Aos poucos, sua confiança em mim aumenta e
coloco a mão direita por baixo de sua barriga, com a outra
enlaço seu quadril. O coitado geme de dor, mas sigo o
movimento. “É para seu bem. Aguente firme. Quem foi o
monstro que fez isso com você?” Pergunto afagando seu
pelo desgrenhado e médio. Pareço um idiota falando com

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um cachorro. Seu corpo é quente e leve, provavelmente
não pesa mais de 5 kg.
Retorno para a parada, desta vez os carros
param, mas não xingam, talvez seja pelo cachorro
agonizando, sujando meu colo de sangue.
“Coitadinho” é a primeira palavra de Juliana.
“Aquele monstro maltratou esse cão e o
deixou para morrer dentro de um saco. Precisamos ajudá-
lo.”
“Ele está muito ferido, não temos muito o que
fazer.”
“Por favor, Ju. Pegue seu celular e procure a
clínica veterinária mais próxima.”
Ela faz o que pedi. A mais próxima fica a três
quarteirões. Começamos a caminhar. Aos poucos o animal
fica inquieto, seus olhos suplicam, está com muita dor.
“Aguente firme, amigão.”
Na clínica, animais e humanos dividem o
espaço, vou até a recepção, desesperado.
“Olá, moça. Encontramos este animal na rua.
Está muito ferido e precisa de ajuda”, mostro o cachorro.
A moça não cumprimenta, olha para o
cachorro no meu colo, minha roupa cheia de sangue e não
transparece emoção.
“Senhor, por favor, retire uma senha” aponta
para um totem perto da porta “e espere como os outros
clientes.”
Os outros animais estão limpos e saudáveis,
assim como seus donos. Ela não sensibiliza com
urgências.
“Moça, acho que não percebeu, trata-se de um
caso urgente. Esse cachorro morrerá logo, caso não receba
ajuda.”

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“Lamento senhor, espere sua vez.”
Olho para as pessoas esperando, nenhuma olha
para o cachorro ferido no meu colo. Não estão dispostos a
ceder seus lugares na fila. Juliana sabe que a situação não
é favorável e a encrenca é inevitável. Chego mais perto,
com a mão suja de sangue encosto no monitor do
computador, a recepcionista faz cara de nojo. Minha mão
deixa uma bela imagem vermelha abstrata. Consigo sua
atenção.
“O senhor enlouqueceu?” Diz assustada.
Um homem da fila, esperando com seu
pinscher decide comprar a briga. “Algum problema aí,
Dani?” Diz à recepcionista.
“Tem e não é da sua conta”, digo o encarando.
Ele parece ofendido. “Moça, por favor, apenas chame
algum veterinário para olhar o cachorro”, falo
calmamente, “na condição daquele homem levantar, juro
que arrancarei seus olhos e faço você mastigá-los.” Ela
fica imóvel, e choque.
Antes de responder, o homem pensa em
levantar, mas surge por detrás da porta do consultório uma
jovem veterinária, sorridente com jaleco branco, olha para
a tela do computador manchado de sangue e perde o
sorriso.
“O que houve, Dani?” Fala com sua
funcionária.
“Este homem sujou o ecrã e ameaçou nosso
cliente.”
“Caramba”, digo, “esse não é o problema. O
problema é ele”, aponto para o cachorro.
A veterinária percebe o cão ferido no meu
colo.
“Minha nossa, pobrezinho”, chega perto, “ele

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precisa de ajuda. Por favor, senhor. Venha comigo.”
Caminho no seu encalço, Juliana fica na recepção. Entro
na sala sem olhar para a recepcionista e o homem do
cachorro de madame, pelo menos, alguém teve bom senso.
“Desculpe pela má postura”, digo largando o
bicho na maca. “Pobre animal, precisa de ajuda.”
“Este cachorro não é seu?”
“Não, mas não fique preocupado, pagarei
todas as despesas.”
“Não é este o caso, senhor, não estou
cobrando. E como o chamam?”
“Ele não tem nome na coleira, sequer tem
uma.”
“Pergunto o seu nome.”
“Ah, claro! Sáfir.”
“É um bom homem, senhor Sáfir.”
“Não sou e estou longe de ser, mas não
consigo ver injustiças. Aquele homem deixou o animal
ferido para morrer no relento de uma avenida. Estava
muito quente, ele não resistiria muito tempo.”
Ela pega e o vira para examinar. Aplica uma
injeção no quadril, em poucos segundos o cachorro
adormece. “Preciso suturar os ferimentos e fazer alguns
exames. Por favor, senhor Sáfir, peço que espere lá fora.”
“Certo, obrigado” dou as costas, mas antes de
sair pergunto “como é seu nome?” Ela já está de máscara,
diz algo que não entendo, mas leio na porta: Veterinária
Maria Copano. Retorno ao encontro de Juliana.
Na recepção a moça não olha para mim, o
burguês do cachorro de madame me encara, retribuo o
olhar e ele demora alguns segundos para perceber que sou
um homem sem nada a perder, é melhor não tentar. Baixa
a cabeça. Não quer arriscar.

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“Ele vai ficar bem?” Pergunta Juliana.
“Vai… já o homem de chapéu não.”
Ela apenas olha, sabe onde quero chegar. Não
discutimos.

“Senhor Sáfir!” Chama a veterinária.


Sigo até a porta. No seu colo o cachorro ainda
adormecido. Algumas suturas e curativos, é um bom
guerreiro, ruim de morrer.
“Meu trabalho está pronto” diz “compre esses
remédios”, alcança uma receita, “coloque os comprimidos
dentro de almôndegas, ele engolirá sem perceber. A
pomada, passe três vezes ao dia. Não cobrarei pelo
trabalho. O parabenizo pela boa ação, salvou uma vida.”
“Mas ele não é meu. Pensei que poderia dar
melhor encaminhamento ao cachorro.”
“Infelizmente, Sáfir, não costumo ter
envolvimento com o destino dos animais. Permita-me
opinar, deve levar o cão com o senhor. Cães muito feridos
costumam ficar muito agitados e agressivos com os
desconhecidos, mas com o senhor foi diferente. Ele sentiu-
se protegido.”
Fico pensativo, não quero levar um cachorro
de rua para casa. “Só um momento, por favor” digo dando
as costas e volto ao encontro de Juliana.
“Tudo bem?” Ela pergunta, aflita.
“Não há nenhum problema.”
“O cachorro morreu?”
“Não. É algo pior. Precisaremos levá-lo
conosco.”
Juliana não demonstra antipatia pela ideia,
pelo contrário, ela sorri. Não sabia que gostava de animais.
Volto até a veterinária e pego o cão no colo. Ele olha

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sonolento, adoro os olhos do bicho, ao final, ficará tudo
bem.

Em casa, Juliana dobra um velho cobertor, no


chão ao lado do sofá. Sento para assistir TV, o animal olha
com os olhos brilhantes e balança o rabo. Ainda está vivo
e isso faz dele um guerreiro igual aos que conheci no
passado. Ter um ser vivo por perto, com a cara tão
sensível e simpática, no fim das contas, fará bem. Faço
carinho na sua cabeça, ele fecha os olhos e deita. Em
segundos está dormindo.
No final da tarde de domingo, Linda chega em
casa, como de costume vem ao meu encontro, nos
abraçamos, logo segue procurando sua mãe, mas então
percebe o cão ferido, deitado ao meu lado. Como mágica,
ao ver a criança, o cachorro balança o rabo com rapidez e
Linda abre um sorriso.
“O encontramos numa avenida. Foi
abandonado para morrer, mas o salvamos e tivemos que
trazê-lo conosco. Prometa cuidá-lo e protegê-lo e ele será
seu” digo a ela que se agacha ao lado do cão e com
cuidado o acaricia seu focinho.
“E qual é o nome dele?”
“Ele é seu. Você deve escolher.”
“Onde disse que o encontrou?”
“Numa avenida, estava morrendo.”
“Então será seu nome”, fala com o cachorro
que parece adorar os carinhos recebidos, “o chamarei de
Avenida.”
“Ótima escolha”, concluo. Escolheu um novo
nome para um ser que esteve entre a vida e a morte, assim
como aconteceu comigo um dia. Sorri, sei que eles serão
felizes.

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Nos distraímos falando do cachorro. Passo
todas as informações sobre os cuidados necessários com
Avenida, ela escuta atentamente. Num dia normal teria
desligado a TV antes do telejornal, pois odeio ouvir as
notícias de um mundo doente e para evitar relembrar o que
não quero. Mas as notícias começam, pego o controle, por
engano troco de canal, por azar é um destes canais de fiéis
em que pastores surrupiam o dinheiro de seus seguidores
em troca de um lugar no céu. Fazem um teatro no qual
curam, através de supostos milagres, em frente às câmeras.
Não foi acidente, o destino quis assim. Para
minha surpresa um homem de chapéu ministra a missa. É
o homem que abandonou Avenida para morrer no asfalto
quente, meu sangue ferve. “Ju, pode vir aqui na sala, por
favor”, não responde, está na cozinha preparando o jantar.
Então escuto quando larga uma louça na pia e vem ao
nosso encontro. Com um sinal a faço olhar para a tela. Ela
fica de boca aberta ao reconhecer o homem.
“O filho da puta é pastor” diz muito surpresa.
“Esse assassino de animais é um maníaco,
ladrão de dinheiro de seus fiéis, como fazem todas as
igrejas que vendem esses milagres pela televisão.”
“As pessoas precisam saber que este maluco
maltrata animais.”
Mais alguns segundos e seu nome aparece no
rodapé da imagem, trata-se do Bispo Vantuir Machado da
Igreja do Bom Amanhã. Quando olho para Juliana, já está
digitando algo no seu celular, Linda está distraída com
Avenida.
“Ele é” diz “a maior autoridade desta Igreja.
Foi o próprio fundador em 1994. É divorciado, tem uma
filha, uma fortuna de milhões de reais. Além de enriquecer
com a igreja, também comete crimes, já foi acusado de

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sonegação de imposto e lavagem de dinheiro. A maior
parte da sua fortuna é proeminente das doações dos seus
fiéis que precisam doar 30% dos seus salários mensais
para a igreja.”
“Que tipo de pessoa doa dinheiro para uma
instituição mentirosa e sem retorno?”
“As ignorantes, fracas e sem esperança.”
A televisão anuncia que o autoproclamado
bispo fará a Coleta do Ouro em nome de Jesus domingo
no Parque Central da Capital.
“Ligarei para a polícia e denunciarei esse
porco” conclui Juliana. Leva o celular até a orelha e
caminha para o quintal.
Permaneço sentado, sigo assistindo o bispo
gritar, esbravejar e curar seus fiéis de um demônio pagão e
destruidor. Parece um programa irônico de besteirol. Não
consigo compreender como alguém pode levar esse circo a
sério.
Ela termina a ligação, parece derrotada. “Não
podemos denunciá-lo sem provas ou testemunhas.”
“E mesmo que tivéssemos tais provas, acusar
um homem tão ‘distinto’, sempre é muito ruim. Seríamos
acusados de muitas coisas, porque este doente provoca
paixões nos comuns, no fim das contas nós seríamos os
culpados.”
“Então é assim que acaba? Este homem
maltrata animais, escraviza pessoas vendendo esperança a
um preço caro e poderá seguir enganando o próximo?!”
“É assim que o mundo é. As pessoas não
pensam. Acredite, ele permanecerá impune, porque é o
combustível para a esperança dos doentes, mas também
abastece os poderosos e os partidos políticos ditos como
cristãos.”

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“O mundo é um grande saco de bosta” ela diz
suspirando.
“Então acabou. Coloque seu celular em cima
da mesa. Deixamos para lá. Quem sabe podemos pedir
uma pizza.”
Ju deixa o aparelho sobre a mesa. Pedimos
uma pizza. Dormimos cedo, sabendo que a missão do dia
foi cumprida, salvamos um ser vivo e sorrimos com Linda,
mesmo tendo motivos para chorar. Tento controlar a raiva
dentro do meu coração. Não sou mais esse homem, é isso
que repito em silêncio, tentando acreditar que é melhor
deixar para lá.

É segunda. Juliana prepara o café da manhã


para Linda. Hoje estão atrasadas, porque Linda resolveu
alimentar Avenida antes de qualquer outra coisa. Tudo é
bonito e ao mesmo tempo emocionante, vê-la tratar o
animal como parte incluída do que ela é, faz de nós pais
orgulhosos.
Enquanto termina as torradas, Juliana tenta
convencer a menina de que não precisa assistir o cão
terminar de comer. A cena é engraçada. Estou bem, em
segurança.
Terminamos a refeição, enquanto lavo a louça,
elas partem. Primeiro Juliana espera a van que leva nossa
filha para a escola, depois pega o ônibus para o Centro.
“Agora somos nós” digo para Avenida que
levanta a cabeça e logo esconde o focinho entre as patas e
volta a dormir. O cinza dos seus pelos agora está mais
vivo e parecem mais cumpridos, pois foram
desembaraçados, devido a cuidadosa escova que Linda fez
no animal.
Arrumo os vasos de flores, varro a calçada,

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rego os pés de tomate-cereja, lavo as roupas. Tudo
acompanhado por Avenida, por vezes levanta e corre entre
minhas pernas, plantas, atrás dos pássaros e volta para a
varanda, cansado, com a língua de fora. Seu pescoço está
cicatrizando. Olha atento para a grade no limite do nosso
terreno, quem chama sua atenção é uma criança de, pelo
menos, quatro anos. O neto da vizinha, o menino não
planejado, filho da adolescente. Ela é a Roxane, seu
apelido é Nina e a criança é chamada de Kadu Júnior.
Animal e criança entendem um ao outro como
feitos um para o outro.
Lembro quando encontrei Roxane
choramingando na grade por estar grávida na adolescência
do tal Kaduzinho. Teve seu filho sem complicações, o
namorado veio morar com ela e seus pais.
O rapaz amadureceu, e agora todos parecem
muito bem. Na outra casa, os vizinhos estão divorciados, o
homem descobriu que a mulher tinha amante, deixou a
casa e levou seus filhos cabeçudos. Logo uma placa de
‘vende-se’ estava cravada no jardim. Nunca mais vi a
esposa.
A vida segue da mesma forma. Parti por um
longo tempo e tudo permaneceu igual de algum jeito quase
trágico, como um universo paralelo. Estive tentando
morrer e a única coisa que consegui foi deixar o mundo
um pouco melhor. Fazendo a coisa certa do jeito errado.
Não sei o que aconteceu com meus
companheiros. Os Assassinos de Anúbis ainda devem
estar por aí, pois as notícias das mortes dos corruptos
ainda permanecem na televisão e minha pensão como
Assassino aposentado ainda está sendo depositada. Apesar
das melhorias, ainda há muito o que fazer, pois de longe
percebo que os corruptos sempre existirão, só mudam de

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rosto e partido e a culpa de suas existências é dos eleitores
que sempre caem no mesmo conto. O grande problema
está na interpretação, na estranha tentação de idolatrar um
salvador charlatão.
O mal continua no mundo, o mal é infinito
porque as pessoas são em essência más e cheias de
contrariedades misturadas com valores de natureza
duvidosa. O humano, na sua maioria, está apenas
pensando no seu umbigo, a minoria está sofrendo e
tentando fazer o melhor para o próximo.
“Olá, Sáfir!” Escuto a delicada voz capaz de
afastar as divagações e me devolver a órbita. Vejo Roxane
segurando o pequeno Kadu Júnior no colo.
“Olá, garota! Tudo bem?”
“Tudo bem. Lindo cachorro!”
“Obrigado, está sendo um bom companheiro.”
Chego mais perto, a grade nos separa.
“As cicatrizes combinam com você”, diz
sorrindo, “tal cão, tal humano.” Olho para algumas
cicatrizes de tiros visíveis nos meus braços. Respondo
com um forçado sorriso. “Como estão Juliana e Linda?”
“Estão bem. Na aula e no trabalho.”
“Certo. O que o senhor tem feito da vida, digo,
além de plantar tomates?”
“São tomates-cereja, Roxane. Além disso,
salvo cachorros da morte, nada muito empolgante. E
você?”
“O senhor sabe, comecei a trabalhar no
mercado. Ajudo meus pais com as despesas. O Kadu pai
recebeu sua primeira promoção semana passada, passou de
auxiliar para assistente de mercearia.”
“Ótimo, fico feliz em ver tudo correndo bem.
O rapaz é um bom homem.”

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“Obrigada! Acredito que o senhor é um dos
homens mais importantes da minha vida. Como vê não
somos ricos, batalhamos por nossa sobrevivência, mas
graças ao senhor daremos um futuro digno ao pequeno
Júnior. Todo aquele dinheiro está guardado para a
educação do nosso filho.”
“Não agradeça, apenas cumpra meu desejo e
faça dele um grande ser humano.”
“Pode ter certeza que será. Espero que seja
igual ao senhor.”
“Igual a mim?” Pergunto surpreso. Ela
concorda balançando a cabeça. “Não tenho certeza que
sirvo como exemplo.”
“Será sempre um bom exemplo.”
“Bom, é a coisa mais surpreende que poderia
escutar.”
“Quanto ao senhor, o que vai fazer?”
“Fazer o que com o que?” Não entendo sua
pegunta, nem a abrupta mudança de assunto.
“Com quem fez isso com o cachorro.” Seus
olhos ganham uma raiva repentina. Também não consegue
ficar indiferente a uma situação como essa. Está no mesmo
nível humano que eu e Juliana.
“Ah sim, então, ainda preciso pensar.”
“Espero que pense rápido, não quero imaginar
o que o responsável por esta atrocidade faz com outros
animais da cidade.”
“Ele também maltrata seres humanos” digo
enigmático, pensando na igreja.
Nos despedimos, suas palavras rebatem na
minha cabeça, imaginar que o bispo pode estar por aí
fazendo mal aos animais, sejam os falantes ou os
domesticados, causa ranço e raiva.

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Volto para a cozinha. Amarro Avenida com
cuidado na perna da mesa, sei que não irá mover-se com
intensidade, pois a coleira provocará dor caso assim fizer.
Deixo perto água e ração. Nos encaramos.
“Sabe o que farei não sabe?” Sua cabeça pende
para o lado, “não conte nada para Juliana e defenda nossa
família com toda sua força quando eu não estiver por
perto.”
Caminho até o quarto, procuro caneta e papel,
encontro o tome nota que Juliana utiliza para fazer nossa
contabilidade e listas de supermercado. Avenida late
algumas vezes, não quer ficar sozinho.
Volto para a mesa, ao lado de Avenida,
escrevo um bilhete anunciando que ficarei fora por alguns
dias resolvendo problemas. Sei que não aceitará, mas não
preciso desenhar para entendei aonde irei.
“Algumas coisas precisam parar” digo para
Avenida. “Às vezes necessitamos nos levantar contra
coisas terríveis, mesmo estando sozinhos.”
Rasgo a folha e deixo embaixo da fruteira, em
cima da mesa. Volto para o quarto. No armário, atrás das
gavetas, enrolados numa toalha, estão a arma e dois
cartuchos reserva. Ao lado, dentro da sacola de
supermercado a calça, guarda-pó e botas. Tudo preto como
Lauro um dia impôs. Divago sobre vestir a roupa e o que
significa. Dentro dela sou outra pessoa. Deixo tudo sobre a
cama e sigo para o banheiro.
Nu na frente do espelho, olho para meu rosto
de 34 anos, tenho mais pele, mais carne e bochechas.
Longe de ser o zumbi que já fui.
Olho para meu corpo, a grande cicatriz no
ombro direito termina na última costela, por aqui saiu meu
pulmão. Pontos escuros pelo corpo denunciam as dezenas

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de tiros que tomei. Como ainda estou vivo?
Entro no box, abro o chuveiro, deixo a água
bem quente correr pelo corpo.
Desligo o chuveiro, enxugo-me, visto-me.
Estou uniformizado. Coloco a arma na cintura, os
cartuchos no bolso. Pego dinheiro na caixinha de música
de Juliana.
Faço um carinho em Avenida e antes de sair
lembro, faltou uma frase no bilhete, pego a caneta e
escrevo ‘ps: regue os tomates-cereja’ agora está tudo
pronto. Saio, escuto Avenida latir algumas vezes, sei que
está desejando sorte.
Na rua o sol faz a testa suar. Resolvo caminhar
até a parada de ônibus, deixei o carro para Juliana resolver
possíveis emergências.
A parada está movimentada, as pessoas olham
assustadas. Estou com o pesado uniforme num calor de
28Cº.
Subo no primeiro ônibus com destino para o
Centro. Por sorte, muitos bancos estão vagos, sento no
fundo, sozinho, do lado das janelas.
Pelo vidro vejo as pessoas, os prédios altos, os
carros, os ambulantes. Não sei dizer o quanto as coisas
mudaram nestes anos, mas mudaram. Ou nelas ou em
mim. Nem tudo está parado, algo enfim, faz sentido.
Os Assassinos de Anúbis estão por aí, creio,
com muito trabalho, diante das merdas que aconteceram
nas urnas dos últimos anos. Encontraram um salvador,
lobo em pele de cordeiro. E a corrupção passou a ser outra
coisa que eles ainda não entenderam. Numa esquina,
policiais revistam homens negros, no outro lado da rua,
pessoas brancas filmam tudo. Lauro deveria entender que
o mal está impregnado no humano, então jamais teria

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formado um esquadrão para lutar por eles. Teria desistido
e seguido sua vida de médico. Agora todos estão fazendo
sinal de arma na direção dos homens negros, é assim que
tudo está acontecendo. Eles rezam por um deus e desejam
a morte dos humildes um segundo depois. Isso é o que
posso chamar de hipócritas.
Desço no Mercado Público, caminho até a
primeira avenida. Ali, numa monumental construção, está
uma das Igrejas do Bom Amanhã. Espero o sinal fechar e
atravesso a avenida.
O cheiro do Centro é algo perturbador, as
pessoas vendem coisas sem utilidade, garotos engraxam
sapatos, outros distribuem panfletos.
Entro na imensa igreja, com vidraças
coloridas, bancos de madeira compridos. Alguns fiéis
rezam, uma senhora passa pano no chão. Caminho até o
altar, algumas velas acesas deixam o ar pesado, com cara
de velório. Ao lado uma porta entreaberta, avanço até ela.
A senhora que limpa a igreja percebe meu
avanço, mas apenas encara, nem tenta impedir. Dou
pequenas batidas na porta e não espero ser convidado a
entrar. Um homem de meia idade com cabelo raspado,
acima do peso e pele morena, trabalha no computador. A
sala é pequena, ao fundo um imenso quadro com a foto do
bispo Vantuir, sorridente, usando chapéu, entre seus
seguidores.
O homem encara, pelo que vejo, usando minha
experiência, sei que está longe de ser um auxiliar
administrativo comum. Começa a mover a mão direita na
direção da gaveta.
“Sendo você não faria isso” digo olhando para
sua mão. Ele para o movimento.
“O que está procurando?” Pergunta levantando

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a voz como um militar em época de ditadura.
“Procuro ele” e aponto para o quadro.
“O que deseja com o Bispo Vantuir?”
“Tenho algumas perguntas para fazer.”
“Ele é um homem muito ocupado.”
“Não duvido disto.”
“Pode marcar uma consulta com ele. Custa
R$500,00. Há espaço na agenda para a próxima semana.”
“Não estou interessado.”
“Então não posso ajudá-lo.”
Outros dois homens entram, tem o mesmo
aspecto do que fala comigo. Vestem camisas de gola com
cores suaves, calças sociais e sapatos pretos.
“Algum problema por aqui, Renato?” O de
azul-celeste pergunta ao sentado.
“Não, Paulo! Este senhor já estava de saída.
Não é mesmo?” Olha irônico para mim.
“Sim, estou de saída.” Sigo até a porta, antes
de sair escuto Renato:
“Caso tenha interesse pela consulta, sempre
estaremos disponíveis.”
Baixo a cabeça e sigo em silêncio. Penso no
próximo passo. Sozinho teria rendido Renato e feito
confessar o paradouro de Vantuir, mas pelo que vejo, o
bispo tem ao seu dispor um pelotão de seguranças. Foi
melhor assim.
Saio da igreja. Caminho sem rumo, deixo o
tempo passar.

Em duas horas estou mais uma vez em frente a


igreja. A senhora que antes limpava o interior, agora varre
a calçada. Caminho ao seu encontro.
Ela percebe minha aproximação. Fica séria,

25
com cara de poucos amigos.
“Bom dia, senhora!” Não responde. “Sabe o
que vim fazer aqui?”
“Veio buscar encrenca” diz como uma mãe
zangada.
“O Bispo Vantuir maltratou um animal, por
sorte o salvei. Um cachorro sem raça definida. Olhe para
ele”, tiro o celular do bolso, seleciono a foto de Avenida
ao lado de Linda e mostro. “Demos a ele o nome de
Avenida, esta criança ao seu lado é Linda, minha filha.
Encontrei o cão agonizando, cheio de hematomas graves.
O pobre foi torturado.”
“Rapaz, vejo muitas coisas por aqui. Sei que
Vantuir e seu pessoal, não são boas pessoas. Este é meu
trabalho, daqui tiro sustento para três filhos sem pai. Por
favor, não quero envolvimento nessa encrenca.”
“Escute senhora! Assim como o bispo
maltratou esse animal, certamente fará isso com pessoas
que atravessam seu caminho.”
“Pessoas como você. Pode ter certeza, ele
pode fazer da sua vida um inferno.”
“Acredite, não vai. Sou do tipo de pessoa
acostumada a negociar com homens iguais a esse bispo
fajuto.”
“É apenas um, eles são dezenas.”
“Tudo bem, não fique preocupado comigo.
Quero sua ajudar e prometo dar um futuro melhor para sua
família.”
Seus olhos ganham vida. Fica nítido que
aguenta esse trabalho porque assim leva o sustento aos
seus filhos. Deixo que reflita por alguns segundos. “O que
pretende fazer?”
“Diga onde posso encontrá-lo e no final de

26
tudo todos ficarão bem.”
“Rua N, 1220. Também faço faxina na casa
dele.”
“Rua N, no Bairro Inglês?”
“Sim. Uma mansão. Ele tem aqueles homens”,
aponta para o interior da igreja, “ao seu dispor. É
impossível entrar sem ser revistado.”
“Tudo bem, Vantuir costuma sair?”
“Sim, com frequência. Tem coisas a fazer na
cidade e sempre está viajando em cultos para várias
regiões do Estado, aos domingos está aqui na Igreja
Central. Fala seu sermão para milhares de fiéis.”
“Como é seu nome?”
“Maria Eunice, mas todos me chamam apenas
de Nice” e sorri, posso ver que faltam alguns dentes.
“Ok! Obrigado Nice. Peço para prosseguir sua
rotina, logo estaremos juntos. Adeus!”
Não responde. Segue seu trabalho, escuto o
barulho da vassoura raspando na calçada.

***

Ele está mais velho, seu cabelo melhor


cortado, a barbicha continua embaixo do queixo, mas está
maior. O caminhar desengonçado é o mesmo, assim como
o tique nervoso no ombro esquerdo.
Está sozinho e distraído. O espero entrar na
picape, então caminho até o centro da passagem no
estacionamento. É obrigado a frear. Demora alguns
segundos até reconhecer seu velho amigo. Em seguida
abre a porta e desce. Sua cara é um misto de alegria e
espanto.
“Tomate-cereja é você?” Pergunta arrumando

27
os óculos com o indicador. Está muito alegre, caminha ao
meu encontro de braços abertos.
“Sou eu mesmo, Talico!”
“Minha nossa, faz quanto tempo?”
“Não sei ao certo, quatro, cinco anos…” Nos
abraçamos bem forte.
Outro carro pretende sair do estacionamento.
Buzina chamando nossa atenção. Liberamos a passagem.
“Gostaria de dar uma volta comigo pela
cidade?” Sou convidado.
“Adoraria”, caminhamos até a picape.
Entramos e seguimos para fora do Hospital Estadual de
Transplantes.
“O que tem feito?”
“Você sabe. Cuidando de Linda, fazendo
companhia para Juliana, mantendo o jardim de minha
falecida mãe intacto. Bebendo e fumando menos do que
gostaria.”
“Sei, foi seu desejo. Confesso, estou intrigado,
o que foi capaz de tirá-lo da sua pacata vida feliz, ainda
mais vestindo nosso uniforme.”
“Houve um contratempo, preciso de ajuda.”
“Sabe que os Assassinos de Anúbis sempre
estarão de portas abertas para o seu grande líder.”
“Não, Talico. Não estou pedindo para voltar. É
um problema particular, sem envolvimentos com o Pelotão
Especial.”
“Não é nossa filosofia ajudar em ‘problemas
particulares’, sabe disso. Trabalhamos para salvar vidas.”
“Por favor, Talico. Poupe seus sermões.
Preciso de ajuda, nada mais. Sabe quem sou, conhece
meus valores. Nada mudou.”
“Tudo bem, tudo bem. Sei que fará o certo. O

28
que precisa?”
“Um carro, colete a prova de balas,
armamentos, documentos novos. O de praxe.”
“Pelo jeito, isso não será um passeio no
parque.”
“Não, por mais vontade que eu tenha! Está
longe de ser diversão.”
“Tudo bem, amanhã estará pronto.”
“Não posso esperar, preciso para hoje.”
Segue dirigindo em silêncio. Fico inquieto.
Faz tanto tempo que não o vejo, era apenas um médico
residente quando o conheci e agora é o responsável pelo
maior hospital de transplantes do país.
“Como andam as coisas” quebro o silêncio
“com os Assassinos?”
“O trabalho continua, claro, tivemos algumas
coisas ruins acontecendo, e os verdadeiros lobos vestiram
peles de cordeiro. Contudo seguimos. Anúbis sempre
julgará o coração dos corruptos. Agora temos outros como
nós por ai, não fazem exatamente o mesmo trabalho, mas
ajudam muito.”
“Quem são eles?”
“Lobo Vermelho e Samurai Noturno. Os
holofotes estão sobre eles, o que nos ajudou sobremaneira.
Agora a mídia só fala destes heróis. Estão em batalha
contra o GRUPO A. Pouco envolvimento direto com
políticos.”
“É, ouvi falar. Não sabia que estavam
conosco.”
“E não estão. Digo, os ajudei, mas são
independentes. Decidiram trabalhar sozinhos.”
“Fico orgulhoso, toda ajuda é sempre bem-
vinda. Sei que as mortes continuam, às vezes leio e assisto

29
os jornais.”
“Sabe que precisamos do nosso líder…”
“Não tenho interesse em retornar, por favor,
não insista.”
“Tudo bem, não insistirei. Estamos chegando.”
Já estamos longe do Centro, entre os
quarteirões de residências.
Mais algumas curvas e chegamos numa
pequena casa de bairro, comum, com arquitetura da
década passada. Sem movimento, poucos vizinhos.
Estaciona na frente e descemos.
“Foi necessário distribuir a inteligência para
evitar rastreamento. Depois do incêndio passamos por
constantes revisões do Estado, quase fomos descobertos.
Alegam que é para a segurança da estrutura, mas
averiguamos, são agentes do governo buscando pistas dos
supostos eventos comandados por meu tio Lauro, contudo,
para eles não passo de um médico bobo.”
Abre o portão com uma chave antiga, na porta
aperta um botão no pequeno controle que carrega. Está
desligando o alarme. Usa mais três chaves para abrir a
porta. Quando entramos vejo muitos computadores,
máquinas estranhas de designer moderno, armas
penduradas na parede.
“Fique à vontade, Sáfir.” Diz tirando o casaco
e caminhando a outro cômodo que numa casa normal seria
a cozinha.
Sento na primeira cadeira, Talico retorna com
duas cervejas. Acendo um cigarro, ele liga um
computador. Abrimos as cervejas ao mesmo tempo.

Em algumas horas os documentos estão


prontos. Observei Talico usando sua extrema habilidade

30
como hacker. Sempre foi a inteligência dos Assassinos de
Anúbis e sem ele, nada seríamos. É noite, estamos
cansados.
“Preciso de um lugar para dormir” digo.
“Pode ficar aqui o quanto necessitar.” Abre a
gaveta e pega um molho de chaves e alcança, leio no
chaveiro meu nome. “Fizemos para todos os Assassinos
vivos, mesmo os inativos. Para qualquer acesso aos
computadores sua senha é TOMATE_CEREJA, há uma
picape na garagem. Ela é a sua. Quando tudo terminar, sei
que deseja voltar para sua família, por isso tome cuidado.”
“Obrigado, Talico.”
Ele sai. É um bom garoto. Preparo o banho,
encontro fardas novas no quarto. São mais modernas e
resistentes.
Tomo banho, depois coloco roupas limpas.
Deito na cama, mas não consigo dormir, estou em alerta,
pronto para seguir ao amanhecer. Pego o celular, nenhuma
chamada de Juliana, fico aliviado. Enquanto ela não ligar,
sei que estranhamente estará comigo. Fecho os olhos.

***

Acelero até o bairro Inglês. No caminho


compro cigarros e duas garrafas de cerveja. Paro na frente
da mansão na Rua N, número 1220.
Acendo um cigarro, lembro que tenho apenas
um pulmão e pergunto a ele se um dia o maldito câncer
visitará meu corpo mais uma vez. Ainda lembro o quanto
foi prazeroso estar na escuridão, sem dor. Talvez ficar
vivo e longe da minha família seja o pior castigo.
Caminho para a casa, tem três andares, pé
direito muito alto, janelas de madeira pintadas de verde. É

31
um castelo e no seu interior vive um rei, um homem que
encontrou o pote de ouro no fim do corredor das almas.
Faz uso da palavra antiga de um deus para pedir ao povo
dinheiro, fez deles fiéis e suga suas almas para manter seu
império.
Perco alguns minutos pensando como as
pessoas caem na lábia deste bispo impostor e de tantos
outros espalhados pelo país. Prometem salvação a pobres
almas, cansadas demais com seus trabalhos, sua
ignorância, sua vida comum. Cansados demais para
compreender que precisam buscar uma nova vida longe o
suficiente de coisas que não mudam. O perfil das pessoas
que seguem estes falsos profetas é muito, como posso
afirmar, fácil de enganar.
Fisga os mais humildes e fragilizados demais
para entender que os ricos praticamente os escraviza e não
irão para o inferno, nem para o céu. Ambos são partes da
mesma jornada e cada um está gastando seus dias de
formas diferentes. É preciso lutar contra isso. É preciso
guerrear contra a desigualdade.
As pessoas precisam saber que devem erguer-
se contra os opressores, isso fará seu Deus feliz, caso Ele
realmente existe. Sermos pessoas melhores, buscando um
caminho próspero, entendendo que é necessário trabalhar
para alguém, porém sabendo que estão vendendo sua vida,
para contrabalancear suas escolhas. E no domingo pela
manhã quando sentir cansaço demais para ir a igreja e
abrir o ‘paraíso’, acordar cedo sim, mesmo cansado, mas
para estudar, ler, meditar, rir com sua família, aí então
descobrirão que o paraíso existe e já está acontecendo.
Estarão preparados para seguir um caminho sinuoso de
oportunidades sabendo dos seus direitos. Um escravo
conformado é o pior ser humano que existe na terra, os

32
pobres não podem ser assim.
Diante de tudo que imagino, já é o suficiente
para saber que o coração de Vantuir é mais pesado do que
uma pena, porém seus pecados são maiores e mais cruéis,
além de tudo, maltratou um animal e o jogou ao sol para
morrer. É uma dupla pena de morte.
Desço do carro e atravesso a rua. Toco a
campainha da mansão. Fico esperando. Há uma câmera
virada para meu rosto, em cima do portão.
[Olá…] Uma voz feminina atende.
[Bom dia, gostaria de falar com Vantuir
Machado.]
[Tudo bem, quem gostaria?]
[Sáfir Opal.]
[Tudo bem, Sáfir. Tens hora marcada?]
[Não…]
[Certo, pode entrar.]
O portão eletrônico abre. Foi muito fácil.
Preciso ficar atento. Confiro as duas pistolas que trouxe
embaixo do casaco, assim como o colete.
Na entrada da garagem os três capangas estão
a minha esperando. Devia ter prevido, estava fácil demais.
Seguram suas armas ao lado do corpo.
“Você não marcou hora” diz Renato
sorridente.
Avanço, todos apontam as armas na minha
direção.
“Olha rapazes. Só quero falar com Vantuir.
Não precisamos nos machucar.” Eles estão rindo.
“Só um de nós vai acabar machucado” o da
esquerda diz.
“Sabem dos crimes praticados por Vantuir,
não sabem?” Olham surpresos sem saber o que falar, “e

33
mesmo assim o protegem como vira-latas.”
“Olha cara, foi longe demais”, diz Renato, “já
teve sua chance. Agora vai sentir muita dor.”
Saco a arma, ao mesmo tempo sou atingido
por alguns tiros no peito. Sinto outro tiro passando perto
da minha cabeça e pescoço. Um projétil acertou meu braço
esquerdo na altura do bíceps. A dor ainda é horrível, havia
esquecido como um tiro pode doer tanto. Fico arqueado,
tentando puxar ar. Alguns segundos, meu único pulmão
não responde, precionado pelos tiros. Caio no chão.
Semicerro os olhos, peito latejando, ainda
tento respirar, mesma pressão. Parece que um carro
estacionou com a roda em cima do meu peito. Os
capangas estão avançando. Rindo, distraídos. Atiro, miro
nas cabeças, quase todos pegam em cheio. Caem mortos.
Levanto e só então consigo aspirar. Reviso
meus ferimentos, nada mortal. Caminho até a porta.
Experimento o trinco, não está trancado. Empurro a porta.
Quando a porta move um tiro arrebenta boa
parte do seu centro. Pedaços de madeira voam por todos
os lados. O tiro construiu um buraco redondo de, pelo
menos, vinte centímetros de raio. Outros dois tiros mais
altos arrebentam a madeira perto da minha cabeça. Por
sorte não sou atingido.
Abro o resto da porta com rapidez. Coloco o
rosto para dentro da sala, vejo uma moça adolescente
empunhando uma calibre doze. Está com dificuldade para
colocar outro cartucho no cano. Aponto a arma para sua
cabeça.
“Largue a arma moça!” Fica paralisada, “não a
matarei, basta cooperar. Largue a arma devagar.”
Alguns segundos para pensar, resolve
obedecer e deixa a arma em cima do luxuoso sofá.

34
Inclusive toda a casa é rodeada de móveis e decorações
luxuosos.
“Quem é você?” Pergunto.
“Taritsa Machado. Filha do dono da casa.”
“Foi com você que falei no interfone?” Olho
atento para todos os lados com a arma em posição de tiro.
“Sim…” Olha com segurança, parece
habituada a passar perigo.
“Onde está seu pai?”
“Saiu…”
“Está sozinha?”
“Sim…”
“Onde foi?”
“Vai matá-lo, não vai?” Concordo com a
cabeça. “Pelo visto será impossível pará-lo. Correto?”
“Pode ter certeza que sim.”
“Ele foi até a periferia, lá pratica rinha de
cachorros, atrás do Bar do Idem há um galpão.”
“Por que está entregando sua localização?”
“Lá meu pai está protegido. Será impossível
para apenas um homem matá-lo.”
“E se eu decidir esperá-lo entrar no seu carro e
partir?”
“Parece não ser do tipo de homem que faz
emboscadas. Não é como eles.” Faz um sinal com a
cabeça para o pátio na direção dos seguranças mortos.
“Deve ser por honra ou por uma dessas bobagens
qualquer.”
“Tens razão. Não posso perder a chance de
encontrá-lo na companhia de outros como ele. Por que não
chamou a polícia?”
“Armas ilegais, drogas, dinheiro sem
procedência.”

35
“Garota esperta.”
“Vai me matar?”
“Não, mesmo acreditando no contrário, darei
uma oportunidade. Estou ficando velho e meu coração está
meio estranho, amolecido. Pegue suas coisas e saia dessa
casa. Viva feliz, encontre amigos, forme uma nova família
e nunca mais volte aqui. Seja honesta e prometo que nunca
mais me verá. Onde está o cofre?” Aponta para um quadro
na parede, atrás do bar. “Sabe a senha?” Sinaliza que sim.
Faço ela abri-lo. Pego o dinheiro e coloco dentro das
fronhas das almofadas da sala.

Saio da casa. Carrego dois sacos cheios de


dinheiro. Entro na picape. O ferimento no braço continua
sangrando, preciso estancá-lo.
Dirijo até a primeira farmácia. Entro, sou o
único cliente, quando percebem minha presença, as
funcionárias transparecem medo. Pego gases, soro,
remédios, tudo sendo observado pelos olhares assustados.
Agora meu rosto vai reaparecer nas câmeras, logo
precisarei mais uma vez de Talico para ‘limpar minha
ficha’. Pago e saio.
Retorno até a picape e antes de entrar, envio
uma mensagem para Talico, informando a localização de
três corpos. Os seguranças podem servir para salvar vidas.
Dirijo para a periferia, não demoro a encontrar
o Bar do Idem dentro do bairro Distante. Muitos carros de
luxo estacionados na frente. Diante da realidade do local,
os carros caros são um bom indício de que algo
interessante acontece aqui. Com certeza Idem paga
propina para policiais corruptos e assim seguir com as
rinhas, talvez compre também a proteção o que dificultará
o serviço.

36
Estaciono, abro a janela. Faço curativo no
braço e o finalizo enfaixando bem apertado. A dor não
ocupa tanto espaço da minha paciência. Fumo alguns
cigarros e dou longos goles no vinho.
Resolvo descer com uma HK para equalizar a
briga. Na porta, ao me ver, um homem fica assusta e entra
correndo para o interior do bar. O local, apesar de arcaico
é enorme. Como os grandes bolichos do interior.
Dou a volta e caminho até a construção anexa,
um galpão donde posso escutar a algazarra. Onde homens
gastam dinheiro, que ganharam facilmente, com lutas
entre inocentes animais.
Uma grande porta de metal está fechada e seis
janelas basculantes com os vidros pintados de preto,
também estão fechadas.
O grande falatório diminui quando chego mais
perto. Estão em alerta, podem ser dezenas e até centenas
de homens e garanto que bem armados.
Paro cerca de vinte metros da grande porta,
aos poucos as janelas basculantes vão abrindo. Olham
pelas frestas e aos poucos muitos canos de armas
começam aparecer. Armas e mais armas enfileiradas
apontando na minha direção.
A grande porta de metal abre, um homem
gordo, loiro, barba por fazer, com a camisa aberta,
deixando sua imensa barriga a mostra, usa sandálias,
calça, boné de propaganda, tem cara de doença. Deve ser o
Idem.
“O que quer, forasteiro?” Pergunta, cuspindo
algo estranho no chão.
“Procuro um homem, sua filha disse que
estaria aqui com esses outros vermes, brincando de deuses.
Esse homem é um charlatão, vende salvação aos

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desesperados e maltrata animais. Procuro Vantuir
Machado!”
“Dia de azar, forasteiro. Hoje ele não deu as
caras. A moça deu a pista errada, com certeza para ganhar
tempo.” Completa sorrindo.
“Você diz a verdade, velho? Aconselho a não
mentir para mim.”
“Não estou mentindo, não queremos encrenca,
vá em paz e não teremos feridos.”
Jogo o cigarro no chão e apago com a bota.
Encaro o velho gordo, não confio num homem que
mantém uma rinha no seu quintal.
Abaixo a metralhadora e caminho para a rua.
Seja como for, os olhos da garota falaram a verdade.
Dou as costas, sei que não atirarão em mim.
Sigo até a picape e quando entro um flash de memória
rasga meus pensamentos. Lembro da camionete verde
metálico de Vantuir. Jamais lembrarei da placa, mas tenho
o modelo e a cor como fotografia na memória.
Há uma camionete igual, estacionada entre os
carros luxuosos. Ele está dentro do galpão. O velho Idem
mentiu.
Vejo o homem da entrada, olha com ódio.
Espero que seja o primeiro a morrer. Arranco a picape,
acelero entre os carros estacionados, entro pela pequena
estrada do acesso ao galpão anexo, acelero ainda mais.
Faço a curva sem frear e entro no galpão pela porta de
metal. A estrutura cede, o metal amassa. A porta cai.
Atropelei alguns homens, corpos em cima do
capo, embaixo da porta, embaixo das rodas, cachorros
bravos acoam desesperados. No meio do galpão há um
pequeno círculo com um muro de, pelo menos, um metro
de altura, é o ringue e algumas gaiolas com cachorros por

38
todos os lados.
Demora alguns segundos para os
sobreviventes entenderem o que aconteceu. Então sacam
suas armas e começam a atirar na picape. Os vidros
blindados resistem, mas não será assim por muito tempo.
Pulo para o banco traseiro, verifico todo o
armamento que peguei na casa de inteligência dos
Assassinos de Anúbis. Os homens não conseguem ver
meus movimentos, estão preocupados demais em romper
os vidros.
Pego duas submetralhadoras e abro o teto solar
da picape. Primeiro atiro a esmo, quando os tiros
diminuem coloco meu corpo para fora e sigo a franca troca
de tiro. Sou atingido de raspão no ombro direito e algumas
vezes no colete. Sigo atirando com a mão esquerda.
Corpos caem como bonecos, matá-los faz bem. São
homens ricos, patéticos que acham o mundo um lugar
lindo porque eles podem beber coisas caras, pagar por
sexo, deixar sua mulher com seus filhos em casa comendo
rosquinhas, usar drogas e desejar adolescentes parecendo
porcos. Eles não merecem viver.
Muitos começam a fugir apavorados, outros
são atacados pelos cachorros de rinha que estão soltos.
Vejo Vantuir fugindo. Entro na picape, dou ré, as rodas
patinam em cima dos corpos até conseguirem tração
suficiente para arrancar. É um banho de sangue.
Manobro até a rua, quando vejo Vantuir
entrando na sua camionete, atiro na sua direção. Fica
assusta, desiste de embarcar no veículo e corre para a
plantação de milho na frente do galpão. Atitude idiota,
agora será alvo fácil.
Acelero na sua direção. Passo por cima da
cerca de arame farpado que protege o terreno, em alguns

39
segundos o alcanço. O atropelo, fazendo Vantuir cair
alguns metros a frente. Freio, desço e sigo ao seu
encontro.
Atiro na direção dos outros para os manter
afastados. Viro seu corpo, ele tosse e cospe sangue. Está
vencido. Olho para o galpão, algumas viaturas policiais
estão encostando. Descem com armas em punho. Preciso
acelerar esse julgamento.
“Sabe por que estou aqui?” Não responde,
apenas olha arregalado, fico em dúvida, acho que não
conseguirá falar. “Consegue entender?” Ele não consente.
“Faz alguns dias que abandonou um cão. Agora sei, o
utilizou nas rinhas. O coitado estava muito ferido, ficou na
avenida para morrer. Vi tudo do outro lado da rua, estava
na parada de ônibus com minha esposa. O destino fez com
que nos encontrássemos e estou dando a chance de, pelo
menos, se arrepender dos seus crimes, pois seu coração
está condenado, é mais pesado do que uma pena.” Seus
olhos arregalados provocam asco, os covardes são assim,
sempre na hora da morte são os mais assustados. “Por que
está tão assustado? Um dia alguém cobraria a conta.”
Saco a pistola e atiro algumas vezes na cabeça.
O sangue esguicha como desodorante. Esperava mais
deste covarde, tantos anos fora e o primeiro homem que
julgo não passava de um estúpido verme. Esperava uma
resposta irônica como muitos ou que me julgasse um
assassino sem motivo. Preciso ligar para Talico, pode ser
que alguns desses vermes possam doar bons órgãos.
Quando viro para a picape um policial negro,
alto, aponta seu revólver para meu rosto. Parece nervoso,
suor escorre de sua testa até seu pescoço.
“Largue a arma e mãos para a cima”, ordena.
“Calma, rapaz. Não farei o que está pedindo.”

40
“Largue a arma ou vou atirar.”
“Atire!” Digo caminhando para a porta da
picape.
“Por favor, senhor! Fique parado” suplica.
Sigo caminhando. O policial atira na minha
perna direita, na altura da panturrilha, o tiro pega de
raspão. A dor faz meu corpo arrepiar. Dou mais um passo,
com a mesma postura.
“Precisa fazer melhor que isso”, digo entrando
na picape. O policial fica incrédulo, olhando para minha
atitude diante de sua ameaça. Abaixo o vidro que está
craqueado dos tiros. “Como é seu nome?”
“Franco Lopes.” Responde contrariado.
“És um policial honesto, não é mesmo rapaz?”
“Isso não é da sua conta.”
“É sim, rapaz. Podemos nos ver por ai no
futuro. Responda, por favor.”
“Sim. Sou muito honesto. Prezo por isso, faço
as refeições com meu vale-alimentação ao contrário dos
meus colegas que pedem nos bares em troca de proteção,
como isso não sendo nosso próprio trabalho.”
“Muito bem, foi a coisa mais sensata que ouvi
nos últimos anos. Sabe quem sou?”
“O homem de preto, e pelo comportamento, o
tal imortal que tanto falam. Estão procurando por você há
mais de três anos.”
“Não sou imortal. Sou apenas um maluco que
não tem medo da morte. E olha que isso está mudando.”
Ligo o motor, “siga sendo honesto e veremos um mundo
melhor, um dia. Sabe onde fica o Hospital Estadual de
Transplante?”
“O que isso tem a ver?”
“Só responda, por favor.”

41
“Sim, o hospital que passou pelo maior
incêndio da história. Faz alguns anos.”
“O próprio, vá até lá e peça para falar com
Talico, o atual presidente. Diga que é honesto e Tomate-
cereja pesou seu coração, comprovando, que é mais leve
do que a Pena da Verdade.”
Arranco, o jovem policial segue olhando sem
entender nada.
Enquanto os outros policiais ainda revistam
por todos os lados, entro na rua em alta velocidade. Sigo
para a saída do bairro Distante, em poucos minutos quatro
viaturas estão no meu encalço. Ganho distância, consigo
despistá-los, quando chego perto da região central, já não
sou mais seguido. Preciso ser rápido, não sei quantos
minutos tenho até voltar a vê-los no retrovisor. Ainda mais
com o carro todo alvejado.
Paro na frente da Igreja do Bom Amanhã, a
porta está fechada, aparentemente a morte de seu falso
profeta ainda não foi anunciada. Alguns pedestres olham
assustados para o carro. Entro, alguns fiéis oram. Caminho
pela sala, sou observado com desconfiança e susto, estou
com sangue por todo o corpo. Encontro Nice dentro de
uma pequena sala sobressalente que aparentemente serve
como dispensa. Prepara dois baldes com água e detergente
para iniciar o trabalho.
“Olá, Nice!” É pega de surpresa, olha
assustada, fica apavorada com meu estado, mas, após
alguns segundos, sorri.
“O que aconteceu?”
“É uma longa história.”
“Precisa ir ao hospital!”
“Não, sou um homem de palavra. Primeiro irei
ajudá-la. Darei a senhora e sua família uma melhor vida.”

42
“Não rapaz, precisa de um hospital” insiste
“sente-se um pouco” aponta para uma cadeira de madeira
ao fundo da pequena sala.
“Não, estou bem. Precisamos acabar logo com
isso.”
“Morrerá, caso não procurarmos um hospital!”
“Não teria tanta sorte assim. Tenho alguns
objetivos para finalizar antes de cuidar dos ferimentos.”
“Pelo seu estado”, olha para meus ferimentos,
“conseguiu chegar ao seu primeiro objetivo.”
“Sim, julguei alguns homens em nome de
Anúbis.”
“O que fez?”
“Os matei com alguns tiros na cara.”
Coloca as mãos sobre a boca, chocada. “Matar
é errado, mesmo Vantuir sendo um péssimo homem. E os
capangas?”
“Também foram julgados.”
“Entendo, por isso não vieram trabalhar.
Vantuir gostava de sair sozinho de tarde, os obrigava a
esperá-lo aqui. E o que acontece agora?”
“Está despedida”, sorrio, “sua rescisão está
comigo. Por favor, venha comigo.”
Saímos da igreja, por sorte, nenhuma viatura
está por perto. A convido a entrar na picape. Fica insegura
quando vê os vidros craqueados de tiros, mas entra sem
reclamar. Peço onde mora, responde em poucas palavras.
Digo para colocar o cinto e arranco.

Faço o caminho menos movimentado, com


sorte não sou seguido. A maioria dos policiais estão no
galpão do Bairro Distante. Dirijo até a periferia sul, onde é
o seu lar, uma pequena casa de quatro cômodos com seus

43
filhos. No rádio, as emissoras anunciam uma verdadeira
chacina no Bairro Distante, coisa de terrorista.
Pego no banco traseiro os dois sacos de
dinheiro que surrupiei da mansão de Vantuir e os entrego.
É a única forma de limpar o dinheiro que saiu das mãos de
honestos, apesar de bobos, e foi sujo no lado da corrupção.
Seus olhos brilham, são lindos como os da
minha mãe. Não são olhos de ganância, sabe que o
dinheiro a libertará, mas não é o principal de tudo.
Dinheiro sem amor, família sem união, é apenas papel.
Sinto falta dos meus pais. A velha Nice é
como as outras graciosas vidas que fazem a roda da vida
girar para o lado certo. “Faça dos seus filhos boas pessoas
e nunca mais nos veremos. Ajude a salvar o mundo.”
Seus olhos enchem de lágrimas, dou as costas
a ela. Entro na picape. As pessoas das pequenas casas em
volta saíram, olham assustadas para os vidros a prova de
balas rachados, a lataria amassada e arranhada.
Agora é só jogar o carro no Rio Meridiano,
trocar de roupa e tudo estará resolvido. Voltarei para
minha vida tediosa, porém feliz, onde posso
pacientemente ver Avenida correr e babar pela casa, Linda
crescer e Juliana envelhecer.
É o que faço. Dirijo até o Rio Meridiano, o
movimento é intenso, mas não posso me dar ao luxo de
esperar. Todos os policiais da Capital estão procurando o
autor da chacina por todos os cantos.
Paro no meio da rua. Entre os carros, manobro,
deixo a picape de lado, dois carros quase colidem, outro
sai da pista. Paro o trânsito, todos os carros enfileirados.
Buzinas e ladainha. Palavras obscenas.
Começo a acelerar o máximo possível, mas
não arranco. Sem tirar o pé da embreagem sinto toda a

44
potência do motor. De frente para o rio, não demora muito
para entenderem a minha intenção, alguns descem de seus
veículos com aparelhos celulares e começam a gravar. As
imagens servirão para despistar a polícia. Podem acreditar
que morrerei afogado. O barulho do motor é alto, chama
atenção de todos.
Arranco com máxima potência, antes de bater
no guard rail e quebrá-lo, olho para o velocímetro, estou a
70km/h. Num solavanco voo para o rio, uma longa e
infinita viagem de dois ou três segundos.
O choque balança com violência meu corpo, o
carro cai com o para-choque na água e começa a afundar.
Foi um lindo salto.
Seguro a respiração até ter a sensação de que
meu pulmão explodirá, abro a porta e mergulho para longe
do veículo. Então volto para a superfície e nado para a
outra margem.
Por sorte, não demoro para atravessar e chegar
embaixo das árvores da costa. As câmeras dos celulares,
ao longe, filmam onde a picape afundou. Retiro o colete,
casaco e camisa. As botas e meias. Os ferimentos estão
muito vivos, a dor ainda é suportável. No peito, manchas
roxas dos tiros que pararam no colete. Estou exausto,
ferido e dolorido, nadei por quase um quilômetro.
Caminho até encontrar uma casa, nela um
homem limpa peixes no tanque externo, quando me vê fica
paralisado.
“Dia difícil”, digo antes das minhas pernas
dobrarem. Perdi muito sangue e não percebi o quanto
estou fraco. Entro em choque, pelos ferimentos e o frio.
Minha pulsação cai. Os olhos são invadidos por muitas
luzes. Desmaio.

45
***

Abro os olhos. Não estou num hospital, mas


sentado, com as mãos algemadas e a corrente presa numa
argola, que por sua vez está presa a mesa de metal onde
meus braços estão quase esticados. A sala é fria e cinza.
Ainda estou só com a calça, mas a perna direita está com o
tecido cortado e um bom curativo cobre o tiro que tomei
do jovem policial, o ferimento do braço também foi
tratado.
Estou numa sala de interrogatório, viro a
cabeça ao máximo e consigo ver as minhas costas o vidro
que parece espelho, típico destas salas.
Isso estragará meus planos, queria voltar para
casa e viver da mesma forma feliz, mas esse contratempo
pode ser um atrasar, até de alguns anos.
A porta abre lentamente. Primeiro vejo os
sapatos pretos, muito brilhantes. A calça com a mesma cor
do casaco, um tom prata quase chumbo. A gravata é azul e
a camisa interna é branca. A cabeça é completamente
careca e a barba é branca, fechada e aparada. Reconheço o
homem, é Nico Mezzacasa, responsável pelos
interrogatórios misteriosos quando estive preso. Senta na
cadeira no outro lado da mesa.
“Desta vez”, ironizo, “foram apenas dois tiros.
Facilitei as coisas. Sei que tem dificuldade com cálculos.”
“Olá, Tomate-cereja”, fico assustado ao ouvir
meu codinome. “Para que o espanto?” Prossegue “o milico
que o soltou há quatro anos não resistiu muito tempo, logo
entregou seu nome e toda essa bobagem de Assassinos de
Anúbis.”
“O que fez com o garoto?”
“Ele mereceu, não acha? É um traidor.”

46
“Seu covarde, filho da puta!” Tento levantar,
as algemas impedem, Nico coloca a mão sobre sua arma.
“Calma, calma…não fique irritado, teremos
muito tempo para conversar sobre o garoto, agora fale dos
seus amigos. Vamos, abra o jogo. Existem quantos?”
“Não sei do que está falando.”
“Não precisa bancar o esperto. Poupe suas
palavras. Há muitas coisas que não temos conhecimento,
mas sabemos o suficiente. Seja lá qual foi a lavagem
cerebral que fez no garoto, antes de morrer só sabia repetir
que Tomate-cereja era imortal e um dia eu seria julgado
pelos Assassinos de Anúbis. Nós sabemos que isso é uma
completa mentira.”
“Aonde quer chegar?”
“Quero acabar com essa palhaçada. Os
Assassinos de Anúbis são fantasmas filhos da puta, e
odeio isso!” Me olha com fúria.
“Para quem você trabalha?” Os ferimentos
começam a doer, preciso de medicamentos.
Agora mira meus olhos como que a pergunta
dita tivesse feito a ordem do universo mudar. “Trabalho
para o verdadeiro dono do país. Para quem labuta na
construção da verdadeira Ordem e Progresso.”
“Adoraria conhecê-lo.” Olho com escárnio.
“Não é digno para tal.”
“Pode ter certeza que os julgarei e arrancarei
seus corações, somente com as mãos!”
“Não duvidaria disso. Admiro esta sua
capacidade de não morrer. É minha sincera opinião, matar
Cicic e Mendez foi demais. Heroico, mas não podemos
mais permitir tanta ousadia. No hospital tinha ordens
claras de não matá-lo, mesmo sendo essa minha função,
buscava apenas informações. Mas você fugiu, e seja lá

47
quem sejam os Assassinos de Anúbis e Tomate-cereja, a
pessoa para quem trabalho não está gostando de como
estão desequilibrando o mundo. Por isso, matá-los está
sendo uma opção mais aceita por ele.”
“O que?!” Digo muito surpreso.
“Desequilibrando? Estamos ajudando pessoas a
sobreviverem e varrendo a corrupção da terra.”
Levanta e caminha na minha direção. Retira
um molho de chaves do bolso e abre as algemas. Solto
minhas mãos, massageio os pulsos para retirar a sensação
claustrofóbica.
“Está livre para ir. Vá para a casa, volte para
sua família ou para onde sentir mais felicidade, pare de
caçar corruptos ou líderes religiosos charlatões. Isso está
desequilibrando o mundo. Diga aos Assassinos de Anúbis
para aposentarem as armas e ninguém mais morrerá. É o
último aviso!”
Vira e segue até a porta. A fecha, é a sensação
mais estranha. Meu inimigo não causa ferimentos, mas
machuca a mente. Não consigo entender.
Levanto e caminho até a porta, abro e vejo
outra porta dupla muito grande, igual a um contêiner. Fora
da sala as paredes são de lata. É muito estranho. Caminho
até a porta dupla, abro com dificuldades e o sol ilumina
meu rosto.
Em alguns segundos percebo que estou num
parque, muitas árvores, pessoas, cachorros. Isso é surreal.
Estava num contêiner de exportação e não numa sala de
interrogação da polícia civil, no meio de um parque. Foi
uma demonstração de força, por isso ainda estou vivo,
para espalhar por ai o quanto nossos inimigos misteriosos
são fortes e engenhosos.
Não vejo Nico Mezzacasa, fui enganado,

48
fizeram um teatro de mal gosto. Jamais foi um
interrogatório. Prometo que o matarei antes de voltar para
casa.
Caminho sem rumo. Não conheço este local da
Capital. As pessoas parecem assustadas com meu aspecto,
olham como olhassem para um doente moribundo. No
meu estado, pareço um toxicômano em situação de rua. O
vento frio estremesse meu corpo. Sigo caminhando.
Não gosto da ideia, mas a necessidade faz
Talico ser a única saída para voltar para casa.
Exausto, pés descalços e doloridos, paro num
posto de combustível. Entro no banheiro, aperto a torneira
automática e bebo água na concha das mãos.
Repito a operação até ficar satisfeito. Um
funcionário entra, sou encarado pelo espelho, irritado
pergunta: “Já usou o banheiro?” Sigo tomando água.
“Amigo, nada pessoal. Não quero encrenca, mas preciso
dizer que vá embora. Um cliente pode entra no banheiro e
tomar um susto com a sua presença. São ordens da
gerência. Mendigos são proibidos no banheiro!”
“Olha amigo, também não estou procurando
encrenca, na verdade estou perdido. Sofri um atentado e
parei aqui. Só preciso de um telefone emprestado.”
“Desculpe, mas não poderei ajudá-lo.” Chega
mais perto, coloca a mão sobre o ombro, onde fui atingido.
Aperta com força.
Faço o movimento contrário de alavanca,
fazendo com que solte meu ombro. Dou passos atrás,
ficamos longe. Bravo, desabotoa o primeiro botão do
uniforme, remanga ambos os braços. “Está bem, mendigo,
agora foi longe demais, lembre-se, foi você quem pediu
uma boa lição” levanta a guarda e vem ao ataque.
Solta bons golpes, esquivo e não sou atingido.

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Respira fundo, avança novamente, angustiado pela
ineficiência, tenta alguns suingues e chutes. O banheiro é
pequeno, esquivo, abafo alguns golpes com a lateral do
corpo. O braço machucado é atingido e o curativo
rapidamente mancha de sangue.
O funcionário está ofegante, aproveito e o
ataco. Corro na sua direção, exausto, apenas espera.
Abaixo na altura do seu abdômen, encaixo a cabeça na
lateral de sua barriga e o enlaço com os braços. O empurro
contra a parede. Com o choque bate a cabeça no azulejo e
as costas na pia. Caímos. Sobre mim, está desacordado.
Outro funcionário entra no banheiro, repara na cena e sai
correndo. Sei que chamará a polícia. Não posso permitir.
Retiro a camisa do funcionário desmaiado e a
visto. Pego no bolso da calça sua carteira, celular e um
molho de chaves.
Saio do banheiro, corro até a loja de
conveniência e outro funcionário está com uma moça que
cuida do caixa. Alguns clientes estão assustados.
Quando entro, o funcionário tenta atacar,
armado com um cassetete. Desvio do golpe e acerto um
cruzado na sua nuca, cai gemendo de dor. Um cliente
pensa em investir num ataque, porém com um olhar o
desencorajo.
“Qual é o carro do funcionário do banheiro?”
Pergunto para a moça do caixa.
“O Fusca” e aponta para o estacionamento.
Entre alguns carros populares um Fusca âmbar está em
destaca.
Caminho até o veículo, abro, embarco, ligo e
acelero. Não sei onde estou. Sequer passei pelas ruas que
costumo dirigir.
Pego o celular, ligo para o Hospital Estadual

50
de Transplantes, escuto a gravação da operadora
informando que o número discado está errado. Tento mais
uma vez, mas desisto quando leio numa placa de rua
Parque Municipal de San Paolo. Fico em choque!
Estou a 1.135 quilômetros de distância da
Capital. Os aliados de Nico são muito bons, é
inacreditável. Trouxeram-me tão longe, jogado num
parque, como um trouxa. Parece um pesadelo. Por isso a
ligação não deu certo. Estaciono, tento entender a situação
que parece surreal. Faço a ligação com o DDD correto. Só
uma pergunta na mente: Por que não fui morto?
Sou atendido…
[Hospital Estadual de Transplante, boa tarde!]
[Boa tarde. Preciso falar com Talico.]
[Pois não, quem gostaria?]
[Diga que Sáfir Opal deseja conversar.]
[Só um momento, senhor] ela fica em silêncio.
Aguardo, sei que serei atendido. Talico mantém a mesma
política de Lauro. Os Assassinos de Anúbis sempre serão
prioridades.
[Alô!] Escuto, sua voz, está emocionado,
parece preocupado.
[Olá, Talico!]
[Fiquei preocupado. Está tudo bem?]
[Sim, estou inteiro.]
[Vi seu salto para o rio Meridiano, na TV.
Quero dizer, sabia que era você, as produções dos canais
ainda estão tentando descobrir seu nome. O vídeo
viralizou, está em todos os sites.]
[Precisava despistar a polícia. Apareço nas
imagens?]
[Não, seu rosto não aparece.]
[Saí da água em alguns minutos, do outro lado

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do rio.]
[Imaginei isso. Onde está?]
[Em San Paolo.] Demora alguns segundos para
processar a informação.
[O que está fazendo aí?] Diz respirando fundo
[isso é inacreditável.]
[Depois que terminei o serviço encontrei uma
pequena casa de um ribeirinho. Desmaiei na frente de um
pescador, em choque, e acordei sendo interrogado por
Nico Mezzacasa dentro de uma sala de mentira. Um
contêiner no meio de uma praça.]
[Nico? Depois de sua fuga o investigamos.
Somente sua história passada na polícia de corrupção está
registrada, nos últimos quatro anos esse homem foi um
fantasma.]
[Como todos os Assassinos de Anúbis…]
[Sim, como vocês.]
[O que aconteceu na minha ausência?]
Permanece em silêncio por tempo suficiente para fazer
com que eu fique preocupado [Talico, ainda está aí?!]
[Sim, Sáfir. Desculpe a demora. Estava
inebriado em pensamentos.]
[Temos muito o que conversar, não é mesmo?]
[Sim, muito…]
[Cuide de sua segurança, não sei o quanto
Nico sabe. Contudo, torturou o soldado que ajudou no dia
da minha fuga. O rapaz sabia do seu tio. Cuidado Talico,
nossos segredos podem estar em perigo.]
[Não fique preocupado, Sáfir. Já estou
preparando a melhor estratégia de defesa.]
[E agora, por favor, preciso de ajuda para sair
de San Paolo e retornar a Capital. Estou ferido e dirigindo
um carro roubado.]

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[Dirija até o Partenon, bairro residencial de
San Paolo. Na rua Garoa, número 45. Ali amigos o
ajudarão. Volte logo para casa, esperarei.]
Desligo. O celular é simples, sem internet,
logo sem GPS, não pode ajudar. Começo a rodar, sigo as
placas até a região central, San Paolo é a capital do estado
mais populoso do país e é muito maior do que a Capital.
Paro, abandono o Fusca e entro no banco
traseiro do primeiro táxi no qual o motorista está distraído
demais para reparar que estou de pés descalços. Para ele
sou apenas um frentista.
“Para onde vamos?” Pergunta sorrindo.
“Partenon, rua Garoa, número 45.”
A viagem demora dez minutos. Acerto a
corrida, só então o motorista percebe meus pés imundos e
cheios de feridas. Pega o dinheiro e arranca o mais rápido
possível.
O endereço é de um grande edifício comercial.
Carros entram e saem da garagem.
Paro na frente do portão, sem tocar o interfone.
Um segurança aparece. Olha para meu aspecto deplorável,
faz sinal, chego mais perto.
“Posso ajudá-lo, senhor?”
“Talvez sim, estou procurando ajuda.”
“Certo, qual tipo de ajuda?”
“Estou ferido, cansado. Preciso de
atendimento médico. Venho de longe, da Capital.”
Ele analisa meu estado por alguns segundos.
Volta pelo mesmo caminho que veio.
Escuto o sinal da abertura do portão. Empurro
e entro. Caminho entre as plantas dos jardins, a terra
relaxa meus pés descalços, ao mesmo tempo engendra
lembranças de casa, em especial do jardim, do sorriso de

53
Linda, das palavras certas de Juliana, das piruetas de
Avenida.
Duas moças estão na recepção. Ficam
assustadas quando percebem meu avanço. Carros entram
pelo portão da garagem. Não demora para os clientes e
pacientes terem a mesma reação das recepcionistas. As
mulheres ficam inquietas, pegam seus celulares, com
certeza chamarão a polícia. O elevador chega ao térreo e
um homem na casa dos 60 anos aparece, vestido de
branco. Lembra muito Lauro.
Vem ao meu encontro, seu cabelo está
totalmente branco com um topete para o lado direito,
barbeado, armação de óculos retrô e largas. Sorri de um
modo pacífico. Quando mais perto, abre os braços. Sem
cerimônia quer abraçar um desconhecido.
“Talico ligou”, aperta o abraço, “estou muito
feliz. É enorme a satisfação em conhecer o grande
Tomate-cereja.”
Me larga e caminha para o interior do edifício.
Acompanho ele. Passamos pelas recepcionistas e
pacientes. Ficam ainda mais assustados quando reparam
nos meus pés.
“Sabe quem sou?” Pergunta.
“Não…”
“Me chamo Salomão Mariane. Fui colega de
Lauro na faculdade. No final do curso optei pela
especialização em próteses. Sou o responsável pelas
próteses de Braço, Fêmur e do tal Lobo Vermelho. Tenho
orgulho em ser o pioneiro no assunto e usei seus colegas
de Pelotão Especial como cobaias. As próteses eram
diferentes das comuns, como uma parte orgânica de alta
tecnologia. Desde então, graças a eles, aperfeiçoei os
estudos e ajudei muitas pessoas.”

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“E aqueles pacientes na recepção?”
“Então, ficaram bem assustadas com a sua
presença, não é mesmo” diz sorrindo.
“Na verdade, quis dizer que pareciam
‘normais’, sem próteses com tecnologias robóticas como
eram as de Braço e Fêmur, não conheço o tal Lobo
Vermelho.”
“A, sim! Aqueles não são meus pacientes,
existem outros médicos no edifício, a primeira triagem é
na recepção do térreo. Por isso não percebeu nada de
diferente.” O elevador para, andamos em frente a uma
imensa porta de madeira. “O segurança que abriu o portão,
paguei um extra para ele ficar atento a sua chegada. Valeu
o investimento.” O velho Salomão coloca a mão no trinco,
“aqui estão meus pacientes”, abre a porta.
Vejo homens, meninos e meninas, mulheres.
São muitos. Estão sentados numa imensa sala, um ao lado
do outro. Alguns têm apenas um pé, outros estão sem
braço ou mão, dedos, perna, tudo substituído por membros
mecânicos, com próteses modernas como as de Braço e
Fêmur. O trabalho de Salomão é magnífico.
“Por aqui, Tomate-cereja” diz, apontando para
uma porta a nossa frente.
Caminhamos para seu consultório. Um jovem
com próteses nos braços e pernas, trabalha numa mesa ao
lado. Parece mais um robô com apenas uma pele sintética
no rosto. É negro, com cabelo bem aparado e mesmo
sentado, é corpulento e deve ser bem alto.
“Deixe-me apresentá-los”, diz olhando para
nós, “este é Tomate-cereja, o grande líder dos Assassinos
de Anúbis.”
O rapaz levanta, é 30 centímetros mais alto,
seus movimentos fabricam um barulho baixo de robótica.

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“É um prazer, senhor Tomate-cereja” estende a mão. O
cumprimento sentindo o frio do metal.
“Tomate-cereja, este é Kripton” diz o velho.
“Satisfação em conhecê-lo.”
Salomão caminha até sua mesa, parece
orgulhoso, o rapaz volta para a sua, trabalha numa placa,
solda um fio muito fino, e como num filme futurista a
solda sai da ponta do seu dedo indicador.
“Kripton foi meu primeiro paciente. Foi logo
depois que peguei o diploma, era apenas um novato, ainda
não haviam estudos profundos sobre próteses robóticas
usadas organicamente, ou seja, as que são ligadas ao
cérebro, mas deixamos isso para outro momento. Está
ferido e exausto. E caramba, seus pés magoados, parece
que atravessou um deserto sem sandálias. Vá até a outra
sala”, aponta para uma porta ao fundo, “lá encontrará
banho quente e roupas limpas. Às vezes os pacientes
necessitam ficar aqui por alguns dias na fase de adaptação,
por isso fui obrigado a instalar um verdadeiro internato
para atender a demanda.” Sorri simpático.
Caminho para onde o velho apontou. Em
poucos segundos estou no banho. Primeiro sinto dor, com
o tempo a água quente cura e lava meus ferimentos. Ainda
estou tentando processar como vim parar em outro Estado
em pouco tempo. Estamos lidando com pessoas poderosas,
mas que não posso assemelhar com nossos inimigos
tradicionais, não estão preocupados em poupar dinheiro,
querem impressionar, os políticos jamais fariam um
movimento deste tipo, querendo economizar, contratam
seguranças mal treinados, por isso são presas tão fáceis.
Enquanto o velho trabalha, fico em outra sala,
numa espécie de biblioteca, Kripton também faz o papel
de secretário de Salomão, recepciona e encaminha os

56
pacientes. Os livros nas estantes tratam apenas de
medicina, obras em vários idiomas, com desenhos de
membros metálicos, estudos já ultrapassados e obras
novas, com estilos futuristas e próteses que parecem mais
membros ‘normais’.

O expediente encerra, o velho Salomão e


Kripton permanecem no consultório. Os pacientes seguem
para suas casas. Estou vestindo um macacão cinza e calço
sandálias. É uma espécie de uniforme de mecânico que
encontrei no armário de roupas.
O velho mexe em algumas gavetas, tira de lá
uma arma, um pacote de cédulas e uma chave de carro.
“Tomate-cereja, aqui tenho dificuldades de arrumar
documentos novos”, diz, “mas como colaborador,
mantenho guardado uma arma e esta soma em dinheiro
vivo para emergência, também posso emprestar meu carro.
Sei que estamos muito longe da Capital, mas é melhor do
que nada.”
“Senhor Salomão, sabe que algo misterioso
está por trás de tudo, e a batalha está próxima, não sabe?”
Concorda com a frase. “Tentarei devolver o dinheiro,
assim como a arma e o carro, mas não posso dar
garantias.”
“Tudo bem, fico feliz em poder ajudar na luta
que meu grande amigo Lauro iniciou.”
“Antes de partir preciso entrar em contato com
Talico.”
“Claro, o telefone está aqui”, alcança um
celular.
Procuro o número de Talico nos contatos e
início a chamada. Em dois toques sou atendido.
“Olá, Salomão!” diz Talico muito

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entusiasmado.
“Sou eu” respondo.
“Tomate-cereja” diz surpreso “fico contente
que tenha chegado tão rápido no consultório de Salomão.”
“Obrigado. Agora pare de rodeios. Diga logo o
que descobriu, quais são as pessoas para quem Nico
trabalha.”
“Ainda não sabemos muito.”
“Conte o que sabe.”
“Depois de sua saída, fomos perseguidos por
assassinos profissionais. Por sorte, não tivemos baixas,
mas numa batalha contra os corruptos Professor foi
capturado. Ficamos desesperados com seu destino,
contudo, como milagre reapareceu inconsciente no Centro
da Capital ao lado do Mercado Público. Quando recobrou
os sentidos nos contou que fora interrogado por um
homem chamado Nico Mezzacasa. O verme corrupto
ordenou que parássemos com o combate a corrupção, pois
isso causa desequilíbrio ao mundo. Muito estranho, depois
do ocorrido o cuidado com nossas identidades foi
redobrado.”
“É estranho, nos capturam e não nos matam.
Sequer nos machucam. Pela primeira vez estou apreensivo
com o futuro.”
“Pode ter certeza, meu sentimento é o
mesmo.”
“Parar com a batalha, foi o que ele me disse.
Não consigo entender, não nos ferem, mas querem que
paremos de matar corruptos.”
“Desde então trabalhamos dia e noite para
tentar entender a mensagem e quem são os inimigos que
não nos matam, apenas mandam recados. Então, de tanto
pensar, esgotei a maioria das opções, mas ainda havia

58
uma.”
“Por favor, Talico. Diga logo.”
“Encontrei a resposta com meu falecido tio
Lauro e suas anotações. Estava tão desesperado que fiquei
noites em claro estudando os documentos secretos que ele
deixou aos meus cuidados. Seus papéis são uma fortuna de
informações. A resposta estava no passado.”
“No que Lauro estava metido?”
“Foi antes dos Assassinos de Anúbis. Claro
que é apenas uma suposição, diante da falta de respostas e
pelo jeito não violento que fomos ‘atacados’. Comparei as
antigas informações e cheguei a uma conclusão.
Quando jovem, Lauro participou de uma
irmandade na universidade, era chamada de Olho de
Hórus, diante da sua admiração pela mitologia egípcia,
certamente meu tio esteve envolvido na criação do nome.
Os jovens fundadores da irmandade eram postulantes a
cargos importantes na sociedade, universitários de vários
cursos da Universidade Federal, a tal agremiação era
apenas o primeiro passo para o que estava tomando forma.
Também encontrei nos arquivos, um livro
caixa de 1975, época na qual Lauro foi tesoureiro da
irmandade e membro mais ativo. Parece que tudo
transpareceu normal, afinal, jovens estão reunidos em
grupos, alguns de forma mais organizada, outros não, até
os dias de hoje.
Preste atenção, aos poucos os jovens ficaram
adultos, muitos foram naturalmente tomando distância da
irmandade Olho de Hórus, viraram distintos profissionais
e seguiram suas vidas. Meu tio saiu da organização
quando passou a ser o médico responsável pelos
transplantes e perdeu o contato, assim acredito, com os
seus antigos amigos. Fundou os Assassinos de Anúbis e aí

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é o problema, a pista termina aqui.
Mas seguimos com as suposições: como em
qualquer outra irmandade, haviam filosofias e desavenças,
alguns dos integrantes acreditavam fielmente numa
hipótese, a de que nenhum homem pode mudar a ordem
do mundo. Ideologia um pouco distorcida da original que
é: nenhum homem pode mudar a ordem do mundo, sem
entender sua realidade. Meu tio cunhou a mesma. Seus
diários despendem muitas páginas sobre o Olho de
Hórus.”
“Tudo bem, mas não estou entendendo. Isso
ainda existe, Lauro sabia deles, no que eles acreditam
exatamente?”
“Foram as mesmas questões responsáveis
pelos dias de mergulho nos diários de Lauro e com suas
anotações, cheguei a essa conclusão:
No início todos discutiam tudo, meu tio era
quem cuidava da documentação. O lema supra é ‘O
mundo é finito e está passando por sua pior fase e somente
quando o homem terminar com tudo o verdadeiro ser
humano surgirá e a paz reinará na terra.’ Resumindo,
entendiam que o mundo precisava terminar pelas mãos dos
homens já que o próprio homem não consegue evoluir.”
“É um lema um tanto quanto estranho, não
parece coisa do Lauro.”
“Não sei exatamente quanto era influente na
irmandade Olho de Hórus, como dito, o lema inicial era
bem diferente do que este. Certo é, meu tio não
concordava com muitas coisas, mas não deixava a
irmandade exatamente por esse problema. Mesmo sendo
um jovem, já tinha a mesma visão heroica que
conhecemos. Tinha um propósito que era cuidar de perto o
movimento de alguns membros, acreditava que dariam

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problema no futuro. Enfim, Lauro sabia, o Olho de Hórus
era podre, ficou arrependido de participar desta palhaçada
e permaneceu para implodi-la.”
“Então o Olho de Hórus ainda existe?”
“Sim e não.”
“Como assim?”
“Os nomes listados como integrantes, muitos
são distintos empresários, médicos, engenheiros entre
outras profissões, todos estão limpos.”
“Então qual o problema?”
“Um homem, o apontado como mais radical
por Lauro, defendia a tese que para chegarmos a um nível
superior de ser humano, o desmatamento precisa
continuar, assim como a corrupção, tráfico, violência. Era
o antagonista. Ele e meu tio formavam polos de ponto de
vista totalmente diferentes. Ainda está vivo, é um
milionário maluco, apoia os políticos mais radicais.”
“Quem é ele?”
“Lucius Yung.”
“O empresário careca, babão que fez
campanha para o atual presidente.”
“Esse mesmo…”
“Pensei que era apenas mais um empresário
ganancioso, sem valores humanos.”
“Na hipótese da minha teoria estar certa, a
conduta de Lucius vai muito além disso. Segundo os
diários do meu tio, os Assassinos de Anúbis também
foram criados para monitorar os passos dos membros do
Olho de Hórus, pois nunca acreditou que o ideal do Olho
de Hórus fora esquecido. Segundo titio, a irmandade
tomou proporção de agência secreta. Lucius, de alguma
forma, encontrou e passou a trabalhar com interessados
em seguir os ideais malucos do velho, logo, quando um

61
bando de homens começou a agir, matando os corruptos,
foram contra a ordem natural dos ideais e desacelerou o
fim da era dos homens ‘não evoluídos’.
Também há a hipótese que Lucius ficou
sozinho e passou a usar sua fortuna para manter essa
loucura. Não sei, Tomate-cereja, posso ter seguido pelo
raciocínio errado. Por vezes, em seus diários, Lauro
divaga sem rumo certo.
Resumindo, Lucius e seus aliados desejam que
o caos prossiga, e quando passamos a matar os corruptos
nos tornamos os maiores inimigos do Olho de Hórus.”
“Certo, e porque nos deixam vivos?”
“O Olho de Hórus tem um código de conduta,
separado por números. E o sétimo diz: só mataremos os
inimigos depois que a chance de rendição for dada, pelo
menos uma vez. Ele segue seu código.”
“Tudo bem, tudo bem, é uma boa história, com
algumas amarras, mas como chegou a essa conclusão? Ele
pode ser apenas um velho capitalista maluco.”
“A chave para tudo isso foi Nico Mezzacasa.
Ao hackear os computadores de Casius, descobri que Nico
está na folha de pagamento, com um salário estratosférico.
A prova é essa! Nico caça os Assassinos e ainda trabalha
para um velho inimigo de meu tio.”
“Então, tentarei entender: Lauro foi um dos
fundadores do Olho de Hórus, uma irmandade de
faculdade, cheio de adolescentes ricos e esnobes
acreditando que o mundo precisa terminar para a
humanidade evoluir, e não aceitavam pessoas adiando esse
projeto. Os jovens cresceram, 99% seguiram seus
caminhos. Menos Casius e Lauro, e quis o destino que
virassem inimigos. Por isso querem os Assassinos de
Anúbis fora do jogo.”

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“Correto. São tão bem organizados quanto nós,
porém ainda não sei o quanto são influentes. Contam com
um tipo de Pelotão Especial, formado por perigosos
assassinos. São como os Assassinos de Anúbis, só que
usam ternos azuis e óculos escuros.”
“Se Lauro estivesse vivo, o mataria, pois
também é responsável por isso.”
“Ele nunca acreditou nisso, Tomate-cereja,
apenas participou como coadjuvante de uma irmandade de
rapazes que não conheciam as dores do mundo e só
olhavam para seu próprio umbigo.”
“Há quanto tempo sabe disto?”
“Desde quando nos deixou, passei a investigar
incansavelmente Nico Mezzacasa, mas só consegui juntar
as pontas desta história a pouco mais de um ano.”
“Quem mais sabe?”
“Agora, depois do seu sequestro, todo o
Pelotão Especial.”
“Por que não me contou quando nos
encontramos?”
“Você foi muito enfático quando disse que não
voltaria para os Assassinos de Anúbis.”
“Tens razão, não voltarei, mas nem por isso,
deixarei um bando de almofadinhas destruir a melhor
coisa que já aconteceu para o país.”
“Obrigado por nos ajudar neste momento
difícil.”
“Não é por você, nem por Lauro. É por Juliana
e Linda e por tudo aquilo que julgo ser bom. Quero ver
minha filha crescer num mundo menos caótico, mas não
seria capaz de envolvê-la numa utopia.
Salomão não conseguiu os documentos, não
retornarei de avião. Dando tudo der certo, em dois dias

63
estarei na sua presença. Junte a equipe, convoque uma
reunião. Faremos o que mais sabemos, julgar homens com
pecados mais pesados que uma pena.”
Desligo o celular e o entrego para Salomão, o
velho escutou tudo e, assim como Kripton, estão
assustados. O rapaz levanta e vem ao nosso encontro.
“Quero partir com o senhor”, diz a mim.
Nos olhamos, tenho que virar a cabeça para
cima. Salomão caminha na sua direção, levanta o braço
bem alto e coloca a mão sobre o ombro de seu pupilo.
“Sabia que isso aconteceria um dia.” Parece emocionado.
“Kripton é como um filho, mas estou preparado para sua
partida.”
“Sabe o que nos espera, garoto?” Pergunto.
“Sei, não fique preocupada comigo. Tenho
experiência em combate.” O velho médico concorda
movimentando a cabeça.
Salomão caminha até o grande armário na
lateral direita de seu imenso consultório. Abre a porta e
tira de lá dois braços e duas pernas, cor de prata,
brilhantes. Parecem ser feitos de um material forte e ao
mesmo tempo moderno e flexível. Kripton sorri como uma
criança ganhando um novo brinquedo.
“Essas novas próteses”, diz o velho, “são mais
resistentes e não necessitam de manutenção.” Começa a
trocá-las, pelos que Kripton está usando, é estranho vê-lo
em pedaços. “Ainda são a prova de altas temperaturas,
água, gelo e a maior inovação”, faz suspense, olhamos
curiosos, “é resistente a tiros. Com elas Kripton passa a ser
um guerreiro ainda mais poderoso.”
Deixo o velho trabalhando, saio da sala e
numa cozinha improvisada abro a janela e fumo dois
cigarros.

64
Em meia hora Kripton está pronto para partir.
Nos despedimos, o rapaz chora, o velho segura a emoção.
Descemos para o estacionamento. O carro de Salomão não
é veloz, mas confortável. Necessitamos rodar durante
todas as horas em alta velocidade para chegar na Capital
em dois dias.
Guardo a arma no porta-luvas, faço o mesmo
com o dinheiro. Apesar da temperatura mais elevada de
abril, Kripton usa casaco para esconder os braços
mecânicos.
Seguimos pela autoestrada ao Sul, na direção
da Capital.
Nas primeiras horas o silêncio impera até o
garoto puxar assunto. “É verdade que o senhor tomou 16
tiros na batalha de Montes Gerais?”
“Sim, foi o que os médicos laudaram.”
“E como não morreu?”
“Também gostaria de saber.”
“Quando tinha quatro anos sofri um acidente.
Estávamos descendo a Serrinha. Não lembro porquê
partimos para o norte de San Paolo. Na terceira faixa
fomos cortados por um caminhão. Meu pai estava
dirigindo. Tentou frear, porém era inevitável.
Saímos da pista, caímos no penhasco. Estava
sem cinto, papai tentou desviar das árvores, sem chance,
colidimos com uma de grosso tronco, sai voando,
ultrapassando o vidro dianteiro.
Tive dezenas de fraturas nos braços e pernas,
além de perfuração em alguns órgãos. Foi tão feio que a
amputação foi a única saída para permanecer vivo.
Meus pais morreram na hora. Veio a
recuperação, centenas e dolorosas sessões de fisioterapia.

65
Não entendia nada. Foi então que Salomão entrou na
história. Órfão e com a qualidade de vida comprometida,
passei a viver com Salomão e servi de cobaia do seu
trabalho. Nunca fui tratado como paciente, ele foi sempre
como um pai.”
“Teve sorte, muitos sequer contam com
cadeira de rodas elétricas.”
“Sei disso, por isso sou muito grato a Salomão
e sinto que preciso fazer minha parte para ajudar meus
semelhantes. Ouvi sua conversa, estes malucos do Olho de
Hórus precisam deixar os que desejam melhorar o mundo
em paz.”
“E vão…”
Fazemos a primeira parada. Meu corpo já não
é mais o mesmo. Estou ficando velho, olhos ficam
pesados, o sono invadiu a cabeça. Kripton assume o
volante. Fecho os olhos e adormeço.

***

Abro os olhos, amanheceu.


“Por quanto tempo dormi?”
“Bom dia”, responde contente, “o senhor
dormiu por 10 horas e 32 minutos.”
Reclino o banco, coço os olhos. “Dirigiu por
tanto tempo sem descanso?”
“Sim, senhor. Sabe, não são só os braços e
pernas no meu corpo que são mecânicos. Tenho dois rins,
um pulmão e 40% da coluna que são próteses orgânicas.
Sou praticamente um ciborgue. Para funcionar Salomão
fez de mim seu grande projeto, sou um pouco sintético.”
Sorri orgulhoso.
“Como é possível?”

66
“Não sei. O único que tem as respostas é
Salomão. Quando meu corpo passou a morrer aos poucos,
horas depois do acidente, prometeu que nunca deixaria de
estudar para encontrar minha cura, e jamais permitiria que
seus estudos fossem parar em mãos erradas.”
“O velho tem razão, caso os estudos caiam em
mãos erradas, gananciosos usarão o conhecimento na
criação de supersoldados e farão uma guerra injusta.”
“Sim, tem medo que isso aconteça um dia.”
“Dependendo de mim, jamais acontecerá. Pare
no próximo posto. Preciso ir ao banheiro e depois
trocaremos de lugar.”
Paramos. Vou ao banheiro e trocamos de
lugar. No início da tarde estamos em Paranavaí. Andamos
mais do que o esperado.
“O senhor tem família?”
Demoro alguns segundos para responder. As
lembranças invadem meu peito. Saudades dos abraços das
mulheres da minha vida. “Tenho, minha esposa se chama
Juliana, e minha filha Linda e mais recentemente
adotamos um cachorro, seu nome é Avenida.”
“Lindo nome para um cachorro.”
“É por causa de Avenida que estamos aqui.
Digamos que o encontrei em circunstâncias semelhantes,
igual quando Salomão o encontrou. Só que não necessitou
de próteses, só um pouco de amor e carinho.” Rimos.
“Precisei acertar as contas com o responsável por deixá-lo
para morrer no relento, com graves ferimentos.”
“Foi julgado por Anúbis?”
“E devorado por Ammit!” Digo olhando para
o horizonte.
Seguimos pela autoestrada. Muitos carros,
milhares de vidas. Famílias viajando, caminhoneiros sem

67
dormir cheios de rebites na cabeça, ônibus de turismo.
Buracos nas estradas, nas cabeças, nas índoles.
O mundo foi constituído assim. Com todas as
suas anomalias e doenças. Com os estupradores,
contraventores, corruptos, ladrões, sociopatas. Todos são
como infecções, doenças graves, tumores, cânceres. E para
tudo, por mais grave que seja a doença, sendo
diagnosticada a tempo, haverá um antídoto. Os homens
sempre buscaram a cura para salvar a humanidade dos
perigos e o perigo são os homens.
Os Assassinos de Anúbis são um destes
antídotos. A cura contra a grave doença chamada
corrupção. Os que com isso colaboram fazem o bem. Os
que com isso fazem a guerra procuram o bem.
Estou ao lado de Anúbis, realizado com meu
posto de Assassino. Não sei ao certo quem são nossos
inimigos, contudo eles têm outra ideologia, e sua bandeira
revela outro mitológico deus ao seu lado. Será a grande
batalha dos homens que fazem o certo do jeito errado
contra os homens que acreditam que o errado é o caminho
certo. Será a batalha de Anúbis contra Hórus.
Paramos, mais uma troca. Minha vez de
descansar. Não vi Kripton fechar os olhos durante a
viagem. Não estou preocupo, assim são os jovens, sempre
tentando provar algo. Resolvo dormir mais uma vez.

Acordo, lembrando com o que sonhei. Eu e


Lauro dentro de um pequeno barco, remava sorrindo. Era
noite, mas não estava totalmente escuro. Uma imensa lua
cheia nos iluminava. Não conversamos, apenas olhávamos
a água, o brilho da lua sobre suas pequenas ondas.
Chegamos na costa, areia e muitas dunas,

68
começamos a caminhar, as ondas de areia pareciam sem
fim. Caminhamos por muito tempo sem cansar até o
momento que uma figura apareceu numa duna mais alta.
Chegamos perto, reconheci, era Anúbis, cabeça de coiote,
o corpo de homem, com todas os detalhes dourados na sua
roupa. Seus olhos brilhavam um vermelho sangue, os
braços fortes. Ao seu lado um imenso animal formado de
várias partes de animais, era Ammit.
Caminhamos até os pés de Anúbis, a cada
passo ele ficava mais alto e quando chegamos ao seu lado
éramos apenas minúsculas criaturas.
Abaixou e com sua mão de afiadas unhas
furou meu peito e arrancou o coração. Não senti dor. Uma
balança muito grande apareceu ao seu lado. Colocou meu
coração de um lado e do outro havia uma imensa pena. A
balança balançou até o coração ficar na mesma altura da
pena. Um feixe de luz atravessou meu corpo, a sensação
foi purificadora. De repente estava leve e limpo. Julgado
por Anúbis e não devorado por Ammit.

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70
Nossas chances são as mesmas se largamos
nas mesmas condições.
Não deixe seu egoísmo acreditar no
contrário.

Parte II
Paloma
Frances/Arno

71
72
Eles estão de volta.
Muitos choram, mal consigo vê-la. Sento ao
fundo e espero alguns minutos. Então consigo ver seus
pés. Está com um lindo sapato branco. Vejo a ponta do seu
vestido. Mais alguns minutos, consigo ver o resto do corpo
e rosto. Está linda. Maquiagem suave, nas orelhas um
brinco simples, uma esfera azul metálico. Nas mãos a
unha está pintada apenas com base transparente.
Avisto Nara, sua mãe. Parece muito
emocionada, vem da cozinha.
As pessoas vão saindo, enfim.
Levanto e caminho até Margô, seu rosto é
lívido, sempre foi linda, lembro como os garotos corriam
atrás dela. Os olhos eram misteriosos de um azul acrílico
que mais parecia artificial.
No pescoço as marcas roxas, por mais que o
excesso de base queira esconder.
É muito triste vê-la assim. Minha curiosidade é
maior do que o bom senso e decido conversar com Nara.
Quando chego perto, abre os braços, correspondo e
encontro abrigo e conforto no abraço. A mãe da minha
melhor amiga sempre foi alguém em quem pude confiar.
– Ainda não consigo acreditar que ela foi
embora – chora, soluça, não sei o que dizer – aquele
monstro a tirou de mim. Monstro! Quero que arda no
inferno.
– Calma Nara. A justiça será feita, irão
encontrá-lo.
– Rezo para isso acontecer.
Nara encontrou Margô, sua filha e minha
melhor amiga, morta na visita semanal que fazia para

73
revê-la, abraçá-la e dizer o quando a amava. Foi no
apartamento de Margô, a encontrou caída no piso frio da
cozinha. Sinais de luta no corpo, um imenso hematoma
roxo no pescoço. Foi estrangulada. Morava com Carlos
Calamaris, o namorado de oito anos de relacionamento.
Agora, o principal suspeito.
Eu e Margô éramos inseparáveis, colegas do
jardim de infância até o segundo grau. Estudamos na
melhor escola de San Madre. Então fugi de casa e
perdemos o contato por muitos anos.
Perdê-la está sendo terrível.
Conhecia seus medos e sonhos e por pouco,
aliás, por muito pouco, não fugimos juntas. Contudo,
mudei de ideia e acabei partindo sozinha. Duas garotas
seriam alvo fácil para os capangas de meu pai. Tenho
certeza que teria adorado conhecer Natal, ficaria em êxtase
ao descobrir que era um verdadeiro herói.
Volto para a realidade, Carlos, o namorado,
não foi encontrado desde então. Suas roupas não estavam
no armário, nem o carro na garagem, não apareceu no
trabalho. Para todos é o assassino e neste momento a
polícia de San Madre está mobilizada para prendê-lo.
Deixei meus compromissos na Capital para
acompanhar a despedida final de minha eterna melhor
amiga. Essa garota no caixão era o elo de um passado
raramente feliz.
A tarde passa, todos conversam sobre
banalidades, a morta já deixou de ser o assunto principal.
Fim de enterro tem o mesmo gosto de fim de festa.

Quando os parentes distantes estão preparando


as coisas para partir o namorado Carlos Calamaris entra,
todos ficamos assustados. É tido como o autor do crime.

74
Estava sumido, pensamos que havia fugido.
Tios, primos e Nara partem para cima de
Carlos. Acusações misturadas com xingamentos. Ele
levanta os braços e grita “posso explicar!” Ninguém dá
ouvidos. O cerco fecha ainda mais ao seu redor. Começa a
ficar perigoso. O empurram, falta pouco para o agredirem
fisicamente.
A situação passa a ser insustentável, o acusado
acabará sendo linchado. Então pego um copo e jogo contra
a parede, todos fazem silêncio, olham assustados para
mim. Muitos estão perplexos com a minha atitude, alguns
cacos de vidro foram parar em cima da morta.
– Deixem ele falar! – Digo o mais alto
possível.

Em cinco minutos estamos num cômodo usado


como escritório. Eu, Nara e Carlos. Algumas pessoas da
família foram atrás de ajuda, outros estão do lado de fora
da porta, armados com facas, fazendo a ronda, temendo
pela fuga de Carlos. Todos acham que ele deve sair da
casa algemado. Para a grande maioria, é o responsável
pela morte de Margô. Confesso, sua situação é muito
delicada, mas seu retorno torna a história no mínimo
peculiar. É preciso investigar.
– Não fui eu, juro! – Diz pela décima fez a
mesma frase. Está chorando copiosamente.
– Então por que desapareceu? – Nara pergunta.
– Não sei. Acordei hoje de manhã na cama dos
meus pais na casa do lago que fica a 50 km daqui. Achei
que estava ficando louco. Levantei, tomei um banho,
troquei de roupa.
Tentei contato com Margô durante todo o
tempo, porém não atendeu, fiquei muito assustado, ela

75
sempre atende. Então fui até meu carro para voltar à
cidade e minhas malas com todas as roupas, estavam no
banco traseiro. Foi muito surpreendente. Não consigo
entender ainda. Meu Deus – chora com desespero – ela
está morta ali na sala.
Batem na porta, Nara levanta para atender.
Entreabre e fala com alguém. Aproveito a situação.
– Sabe quem sou? – Pergunto.
– Não – olha para mim, está muito assustado –
nunca a vi antes.
– Sou Marjorie Cicic, a melhor amiga de
Margô. Desde criança.
– Sim – seus olhos ganham vida – falava de
você – então envolve-se entre seus braços e começa a
chorar mais uma vez. – Por favor, acredite em mim. Não a
matei. A amava mais do que tudo. Jamais faria mal a ela.
– Tem dois minutos. Conte o que aconteceu. –
Olho para Nara que ainda conversa na porta.
– Não sei! Como já relatei, acordei na casa de
campo dos meus pais. Caramba, eu vi o grande amor da
minha vida, morta quando entrei nesta casa. Tem noção da
minha dor? – Seus olhos são apenas manchas vermelhas
de dor.
– É, parece que fala a verdade.
– Acredita em mim?
– Não, mas acredito em Margô. Sei que não
namoraria qualquer babaca.
– Sempre procurei ser um grande
companheiro, sei que era uma mulher exigente. Não
aceitava nada menos do que honra e honestidade. Sou um
homem honrado e honesto e honraria nossa família
durante toda a vida.
– Então diga, quem poderia ter feito isso?

76
– Não faço ideia – lágrimas voltam a rolar por
seu rosto.
Nara deixa dois policiais entrarem. Dão voz de
prisão a Carlos que resiste, começa a implorar e defender
sua inocência. A cena é feia. Os policiais batem nele com
seus cassetetes até ceder. Ele sai algemado para deleite dos
presentes.
Nara vem ao meu encontro e nos abraçamos –
a justiça está feita – diz ao meu ouvido.
– Acho que não foi ele – digo. Ela toma
distância, me encara muito séria.
– Como pode dizer isso?
– Parece que diz a verdade – ela senta envolvida em dor.
Não desconsidera minhas palavras, prossigo – preciso das
chaves do apartamento de Margô, bem como acesso aos
seus eletrônicos. Por favor, Nara, pode parecer loucura,
mas sei o que estou fazendo e posso ajudar.
– Mas a polícia investigou o caso, periciou o
apartamento, não encontraram o celular de minha filha,
assim como já fizeram o levantamento de todo o caso.
– Acredite, não fizeram. Sempre fica algo para
trás.
– Mas como…
– Me deixe, pelo menos, dar uma boa olhada
em tudo antes que o caso seja encerrado. A polícia tem o
principal suspeito, logo a investigação será cessada.
Fica reflexiva. Mesmo parecendo não gostar
da ideia resolve ceder ao meu pedido – tudo bem. Sempre
foi a melhor amiga de minha filha. Esse é seu desejo?
Aqui está – retira da bolsa um molho de chaves – além do
mais, tens experiência, digo, com a morte de seu pai;
contudo, caso nada significativo seja encontrado, peço
para esquecer o caso e deixe o Carlos apodrecer na cadeia.

77
Por respeito a minha dor e a memória de Margô.
– Tudo bem – digo pegando as chaves – farei o
melhor possível para descobrir quem fez esta atrocidade
com Margô – a mãe em luto chora baixinho.
Saio da sala, volto ao corpo. As pessoas estão
nervosas e falam do aparecimento de Carlos. Uma senhora
cata os pequenos cacos por cima dela. Me despeço de
Margô, não ficarei para o enterro, é nosso adeus.

Dirijo por San Madre, a cidade onde nasci e


fugi devido ao tédio. Voltei a ser Marjorie depois que
soube da morte de Bengala e agora vivo tentando
encontrar saída para o caos interior. Meu celular toca
algumas vezes. São os administradores das Empresas
Cicic, haverá o conselho trimestral em breve, é um saco. O
dinheiro continua entrando em abundância, o império
deixado por meu pai praticamente dobrou, o Lã Cicic é
responsável por 90% do mercado de roupas pesadas no
País. Agora as administrações são totalmente honestas e a
função da empresa é fazer um mundo melhor, tornando
nossos colaboradores realizados.
Como herdeira e maior acionista sigo no cargo
de Presidenta Geral, mas logo pedi afastamento e passei a
responsabilidade para pessoas honestas, assim acredito.
Hoje, estou ocupada com a única tarefa ainda prazerosa,
mantenho uma loja de utilidades ortopédicas, vendendo
desde bengalas a cadeiras de rodas na Capital. Geralmente
não tenho lucro, vendo os produtos a preço de custo ou
dou para a caridade. A garota rebelde virou empresária,
por um bom motivo, para ajudar o próximo. E claro, assim
parece que estou mais próxima de Bengala. Quando
ausente, minha única funcionária Madalene toca a loja.
Não atendo, tenho afazeres mais instigantes a

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cumprir. Sigo em frente.

Chego no apartamento onde Margô foi


encontrada morta. O edifício fica num bairro residencial
de classe média alta no Bairro Anjos.
Estaciono. Desço e caminho até a porta do
saguão. Testo as chaves até encontrar a correta. Abro-a.
Sem porteiro, caminho até o elevador. Entro e aciono o 8º
andar.
Desço na frente da porta do apartamento 808,
onde Margô e Carlos moravam. Procuro a chave certa,
percebo, não será necessário. A porta está entreaberta. O
que é muito estranho, mas entendível, no meio do
turbilhão de emoções, Nara pode ter esquecido de chaveá-
la.
Entro no apartamento. O lugar está revirado,
parece que alguém apressado revistou o local. A bagunça
deixa a procura ainda mais difícil. Isso não parece uma
investigação policial, fico atenta.
Começo a olhar com cautela para todos os
lados. Estou atrás de qualquer evidência que possa culpar
ou inocentar Carlos Calamaris.
Sigo no pente fino. Abro as gavetas dos
cômodos da sala e antessala. Não acho nada interessante.
Mexo em álbuns, livros, objetos de decoração.
Ao lado do móvel do telefone encontro uma
agenda, analiso, porém não contém nada além dos
compromissos futuros do casal.
Passo para o quarto. Entre as roupas, nada
demais. O objetivo é encontrar um celular, tablet ou
notebook. Algo que possa ter rompido o crivo de quem
passou pelo apartamento ou anotações importantes que
possam levar ao verdadeiro culpado.

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Estou convencida que não encontrarei nada.
Volto para a sala e sento no sofá, tento imaginar como
tudo aconteceu.
No bolso, pego o celular e procuro as
manchetes nas quais o assassinato é mencionado. Todos
colocam Carlos como o assassino, muitos já noticiam sua
prisão. Meu tempo começou a encurtar.
O assunto ganhou repercussão nacional pois,
acabo de descobrir, Carlos Calamaris é um conhecido
advogado no Estado, famoso por defender o meio
ambiente ferozmente nas redes sociais e manifestações,
denuncia os crimes ambientais da cidade e aponta os
responsáveis. Ainda bem que a Lã Cicic agora é uma
empresa séria e segue rigidamente as corretas orientações
ambientais.
O grande advogado, defensor do meio
ambiente, é preso por feminicídio, tudo é um deleite para
os críticos e seus inimigos. Não é necessário ser muito
esperta para entender o que aconteceu.
O advogado Carlos Calamaris, passou a
aumentar o território de denúncias e começou a apontar os
responsáveis por atrocidades feitas por empresários ao
redor da Floresta Amazionia Noroeste. Estava ficando
muito conhecido e chamando atenção da imprensa por
denunciar o desmatamento desenfreado com o aval do
Ministério Verde e virou o principal inimigo do ministro
da pasta, o senhor Carbo Natan que também é presidente
do DRU – Democracia Ruralista Unida, organização a
favor apenas do lucro, sem dar valor ao meio ambiente ou
vidas. O importante para esse tipo de ser humano é
alcançar as metas, utilizando muitos agrotóxicos e
cortando centenas de milhares de toneladas de árvores.

80
Mesmo que a história de Carlos seja real,
qualquer pessoa observaria o caso como um assassinato no
qual o próprio fabricou álibis para sair impune. A opinião
pública irá crucificá-lo.
O típico homem branco, rico e covarde.
Consigo ver de outra forma porque conheço tudo isso,
utilizo a experiência com meu pai e depois com Bengala, o
grande amor da minha vida, somado ao quanto conhecia
Margô, tenho certeza que amaria alguém honesto e
confiável. Por isso, antes que eles não possam provar o
contrário, Carlos é inocente.
Vasculho as redes sociais de Margô e, pelo
menos, metade das fotos são ao lado de Carlos, em lugares
exóticos, sempre sorridentes e felizes. O advogado ativista
e a designer mais requisitada de San Madre. Algo tinha
que dar errado na vida perfeita que levavam.
Ligo para Nara, na segunda chamada sou
atendida.
[Alô!]
[Nara, sou eu, Marjorie.]
[Oi. Logo enterraremos minha filha, você
vem?]
[Não irei.]
[Tudo bem.]
[Estou no apartamento de sua filha.]
[Oh! Não sei se terei coragem de entrar
novamente neste lugar.]
[Não encontrei evidências que incriminem ou
inocentem Carlos.]
[Ele é culpado. É um assassino.]
[Tenho argumentos para convencê-la do
contrário.]
[Como assim? Acabou de dizer que não

81
encontrou evidências para inocentá-lo.]
[É uma longa história, ainda é muito cedo para
provar algo.]
[Isso é loucura, Marjorie. O melhor é deixar a
memória da minha filha em paz.]
[Sei que parece loucura, mas necessito de um
favor.]
[Sabe que estou vivendo um momento muito
difícil, mas estando ao meu alcance, tentarei ajudar.]
[Sei que parecerá uma loucura, mas quando
depor diga a todos, inclusive à imprensa, que Carlos é
inocente.]
[Você enlouqueceu?]
[Não. Ele é, provarei isso, contudo preciso de
tempo. E só com suas palavras a favor dele, terei tempo
para tal.]
[Desculpe, Marjorie. Quando todos falaram
que era uma adolescente problemática, fiquei do seu lado,
pois confiava em Margô que sempre escolheu boas
pessoas para ficarem por perto, mas está pedindo algo que
não posso fazer.]
[Confie em mim. Sei que Margô não manteria
um relacionamento com um assassino. Como acabou de
dizer, sabe a criação dada para sua filha. Sabe o quanto
Margô amava Carlos e o quanto procurava fazer o bem
para os outros.]
[Desculpe, não conseguirei fazer isso.]
Nara encerra a ligação. Seria difícil, mesmo
contando com seu apoio e Carlos provando sua inocência,
sua carreira como ativista social estará encerrada e o caso
de Margô permanecerá sem o verdadeiro culpado. Seu
assassino precisa ser julgado.
Tento ligar mais uma vez para Nara, não sou

82
atendida. Pronta para sair, é quando sou pega de surpresa.
A porta abre, um homem muito alto, bem-vestido, barba e
cabelos ruivos, perto dos 40 anos adentra a sala. Não
parece policial, muito menos o porteiro. Quando olha, fica
parado, está assustado.
– Quem é você? – Pergunto.
– Eu… sou… – respira, sei que está mentindo
– um repórter – não parece com repórter, conheço seu
estilo, convivi com pessoas assim durante toda minha
vida.
– De qual jornal?
– Folha da Capital.
– Como entrou aqui?
Fica cada vez mais inquieto. – Pergunto o
mesmo – tenta me intimidar.
– Sou amiga da família, tenho as chaves – digo
mostrando o molho de chaves.
Avança ao meu encontro. Caminho para trás,
estou encurralada.
O homem deve ter quase 2 metros, talvez 110
kg. Com meus 49,5 kg e pouco mais do que 1 metro e
meio de altura, não terei muita chance.
Mais um passo. Já fugi de homens semelhantes
ao ruivo, eram seguranças do meu falecido pai, só que
aqueles eram proibidos de agredir. Agora a realidade é
outra.
Desvio do sofá e sigo em marcha ré. Mais dois
passos e encosto na parede gelada. O homem segue
avançando, abre os braços para me segurar.
– Você a matou? – Pergunto.
Não responde, estou ao alcance de suas mãos.
Abaixo, suas mãos abraçam o vazio, resvalo para o lado
direito. Analiso o perímetro. A arma mais mortal ao meu

83
alcance é um vaso em cima da mesa de centro.
Pego o artigo decorativo. O homem vira e vem
para cima. Jogo o vaso, desvia e o vaso quebra em
pedacinhos ao bater na parede.
– Por que mataram Margô? Era mais fácil
acabarem com Carlos – segue avançando. Não responde as
provocações.
Começa a correr, não tenho tempo de fugir,
sou segurada por seus braços com muita força. A dor é
aguda. Começa a me levantar meu corpo, até as pernas
ficarem soltas no ar.
Desfiro o único golpe possível. Um chute com
toda força no meio de suas pernas. O acerto em cheio. Sou
solta, coloca as mãos na região atingida. Acerto mais um
chute no seu rosto que não causa tanto estrago. Ele
assimila a dor e começa a recuperar o equilíbrio. É hora de
fugir da morte.
Começo a correr na direção da porta. Saio pelo
saguão do oitavo andar, abro a porta corta-fogo da escada
e começo a descer o mais rápido possível. Aparentemente,
não estou sendo seguida.

No primeiro andar abro a porta de acesso ao


hall de entrada. Perto do elevador dois homens parados de
braços cruzados. O grande ruivo não está sozinho.
Não tenho como chegar até a porta de saída. O
homem está descendo. Entro na garagem, é a única saída.
Caminho para o fundo, fico escondida atrás do último
carro. Retiro o celular do bolso. Não tenho mais opções.
Encontro o único número capaz de ajudar neste momento.
O número que nunca tive coragem de apagar. Começo a
ligação e logo sou atendida.
[Boa tarde! Hospital Estadual de Transplantes.

84
Me chamo Cariri, no que posso ajudar?]
[Boa tarde, Cariri! Me chamo Marjorie Cicic e
preciso falar com Talico, tenho muita urgência.]
[Pois não, senhora. Temos ordens expressas de
repassar imediatamente as ligações para o senhor Talico.
Contudo, no momento está numa cirurgia e não poderá
atender.]
Droga. Não pode ser. Agora estou sozinha.
Termino a ligação. A porta de acesso a garagem abre
lentamente, sinto a presença de outra pessoa. Passos de
sapatos masculinos. No molho de chaves um controle
remoto da porta eletrônica da garagem. É isso, a milagrosa
saída.
Aciono o botão. Espero a porta abrir por
completo.
Levanto, o grande ruivo está procurando entre
os carros do outro lado da garagem, os dois comparsas
estão de guarda. Um na porta de saída que acabei de abrir
e outro na calçada pelo lado de fora. Inquietos, tentando
entender como a porta abriu sem nenhum carro entrando
ou saindo.
Começo a caminhar, abaixada entre os carros.
Não reparam no meu avanço.
Último carro antes da porta. Vejo o comparsa
retirando uma arma de dentro do casaco, fico desespera.
– Não, não. Sem armas – escuto o ruivo
ordenando o outro a guardar a arma de onde tirou.
– Seu doente – o comparsa fala com deboche –
prefere estrangular, invés de meter uma bala na testa. Seu
maluco, tarado.
– Por isso que o chefe confia em mim, não
deixo rastros. Faça tudo exatamente como ordeno e logo
estaremos longe daqui.

85
É isso, tenho taquicardia. Agora sei quem
matou Margô. Foi estrangulada por esse brutamonte. Só
posso desejá-lo uma morte lenta e dolorosa.
– Acho que ela não está aqui – diz o outro
terminando de olhar na fila de carros do outro lado.
– Não fale bobagem – diz o ruivo – ela não
saiu pela porta da frente, onde mais estaria?
– Dentro de outro apartamento.
– Não. Seguiu direto para o hall de entrada.
Demorei alguns segundos, mas corri no seu encalço.
O portão começa a fechar, aguardo até o
limite. É a única chance de viver. Quando fechado o
suficiente para somente uma pessoa baixa e magra passar
rolando, começo a avançar. Corro, chego perto, deslizo e
rolo para passar. Os dois tentam, esticam os braços, por
pouco não seguram minha roupa. Consigo escapar por
alguns centímetros.
No lado de fora, levanto e começo a correr. O
outro comparsa saca sua arma e aponta na minha direção –
parada aí, moça, ou vou atirar!
Paro. Viro para ele. Estamos entre edifícios e
algumas pessoas estão nas sacadas. Sabe que somos
observados, então baixa a arma. Sem graça, começa a
caminhar para o lado contrário. Viro e começo a correr
para meu lado. Dessa vez foi por pouco.
Não voltarei até meu carro. Certamente os
outros já estão dando a volta para chegar até aqui. Corro
até meus pulmões doerem. Chego a uma avenida, faço
sinal a um táxi, entro e solícito a viagem até a sede das
empresas Cicic.
A viagem demora dez minutos. Cada vez mais
próximo, sinto saudades do tempo que era apenas uma
menina rica e inocente, lembranças boas de uma criança

86
ao lado de sua mãe e pai correndo pelo pátio, até me tornar
uma adolescente infeliz dentro da imensa sala do velho
Cicic.
Ainda é a mesma construção gigantesca, com
paredes bem pintadas. É a maior geradora de empregos da
cidade. Na entrada os seguranças pedem minha identidade.
Entrego o documento sem contestar.
Ao constatarem quem sou ficam perplexos e
passam a um tratamento mais sofisticado.
– Poupem trabalho, rapazes – digo – não quero
ser anunciada para a diretoria. Trata-se de uma visita
informal. Tudo bem?
– Sim, senhora – respondem quase ao mesmo
tempo.
– Ok. É bom poder contar com vocês. Quem é
o atual responsável pela segurança da unidade?
– É o senhor Arno Ralf – diz o que está mais
perto.
– E onde posso encontrá-lo?
– Ele tem uma sala depois das docas.
– Quero vê-lo – ordeno.
– Sim, senhora – mais uma vez respondem.
Em alguns minutos estou na frente de um
senhor idoso, perto da aposentadoria, usa um boné preto,
botas, lanterna e rádio pendurados no cinto de utilidades.
Sento na sua frente. Digita algo no teclado,
após pega seu rádio e passa algumas coordenadas para sua
equipe. É dedicado, primeiro completa suas tarefas
urgentes, parece amar o que faz.
– É um prazer recebê-la aqui – diz contente,
um tanto quando bajulador, mas sem exagero.
– Conheceu o meu pai? – O surpreendo com a
pergunta e o tom seco.

87
– Pessoalmente não. Quando estava no
comando da empresa eu era apenas um simples membro
da segurança.
– É mesmo?! E como veio parar aqui? – Digo
olhando pela sala.
– Foi a senhorita. Na reformulação dos setores,
indicou meu nome para ser chefe da segurança. Consegue
lembrar senhorita?
– Desculpe, Arno. Não lembro.
– Mesmo assim agradeço pela oportunidade.
Com essa posição e o salário, posso manter meu filho
Neônio na Capital. Estuda medicina na universidade
pública.
– Fico feliz pelo senhor e sua família.
– Obrigado. Seremos sempre gratos, mas diga
senhorita Cicic, no que posso ajudá-la?
– Lembro que na época do meu pai os
seguranças andavam armados por todos os lados. Coisa
que não vi até o momento. O que aconteceu?
– Sim. Não trabalhamos mais armados. Foi
uma decisão minha. Não havia necessidade e as armas
precisavam de manutenção e operação especializada.
Acredite, a mudança trouxe economia significativa ao
centro de custo da vigilância.
– Acredito nisso. Foi uma excelente iniciativa.
– Obrigado! Não precisamos andar por aí
armados, a empresa não tem histórico de assaltos, na
maioria dos casos quando os dois lados estão armados a
tragédia é certa.
– E o que foi feito das armas?
– Depois da mudança, um dossiê contendo as
informações de calibre, tipo, marca e potência foi feito, e
as armas destinadas a venda. Contudo as negociações

88
acabaram paralisadas diante da burocracia, o jurídico
decidiu bloquear as vendas e as armas foram guardadas.
– Guardadas em qual lugar?
– Aqui nas dependências, no cofre da empresa.
– Então estou dando uma ordem expressa.
Preciso ter acesso ao cofre e agora mesmo – olho
diretamente em seus olhos, o velho sorri sem jeito.
– Tudo bem, as armas no final das contas, são
suas.
Saímos da pequena sala. Passamos por outra,
na qual dois vigilantes monitoram as câmeras da indústria.
No pátio, caminhamos entre os caminhões, os funcionários
olham surpresos para Arno ao lado de uma moça que não
parece executiva. Confesso que, pelas roupas, sempre
pareci mais uma adolescente. Uso calça jeans, tênis casual,
casaco de moletom com capuz, tudo preto devido ao luto
de Margô.
Passamos pelo almoxarifado e entramos no
setor administrativo. Ultrapassamos as recepcionistas que
mesmo percebendo minha estranha presença apenas nos
cumprimentam. Acredito, não fui reconhecida.
Subimos algumas escadas, caminhamos por
corredores. A Lã Cicic não é mais a mesma. Não lembro
de muitas coisas, mas quando era criança corria por todos
os lados da empresa, pode até ser que corri entre esses
corredores nos quais passamos, mas agora tudo está tão
moderno. Não consigo lembrar.
Chegamos numa porta de grades. Arno retira
seu grande molho de chaves da cintura. Demora alguns
segundos para encontrar a certa. Entramos, ainda há mais
uma porta de madeira que demora mais alguns minutos
para abrir – são sempre tantas chaves – diz sorrindo.
Abre a porta, então estamos em frente de um

89
cofre moderno da minha altura e com, pelo menos, um
metro de largura.
O velho segurança disca a senha do cofre e
gira a chave, ao abrir a pesada porta vejo uma pilha de
armas de pequeno calibre.
– Quero aquela – aponto para uma pistola
automática preta – dois cartuchos reservas serão o
suficiente.
– Sei que não é da minha conta, mas andar
armada por aí é perigoso.
– Desculpe, Arno. Não quero explicar nada.
– Senhorita – parece nervoso – sabe que isto
não é certo. Não posso simplesmente entregar a arma,
precisamos dar baixa no sistema e recolher uma
assinatura. Aliás, tem porte de arma?
– Não tenho, mas acredite, é para um ótimo
motivo.
– Ai, ai, ai. A senhorita me colocará em
encrenca.
– Não, Arno – olho muito séria – entregar a
arma significa salvar minha vida.
Ele olha chocado. – Caramba, no que está
metida?
– Em algo muito maior, nunca acreditaria.
– Tente contar, quem sabe possa ajudá-la.
Podemos falar com a polícia.
– Não! Precisa ficar aqui, seguir trabalhando
duro, seu filho necessita disso. Quanto ao documento, eu
mesmo assino. Ainda sou a maior acionista da Lã Cicic. É
apenas uma ordem, meu velho amigo, não se envolva.
Precisa deste trabalho, depois que a arma estiver comigo,
esqueça que um dia estive aqui.
– Tudo bem – pega a arma e dois cartuchos,

90
muito contrariado – venha comigo, por favor.
Caminhamos pelos corredores. Dessa vez
subimos de elevador. Retornamos ao administrativo. Ao
abrir a porta vejo uma repartição com mesas espalhadas
em ilhas, com, pelo menos, uma centena de pessoas
trabalhando no local.
– Bem-vinda ao novo setor administrativo da
Lã Cicic. Depois de tantas especulações e mudanças
malsucedidas, você autorizou a modernização de tudo,
como deve lembrar.
– Sim, lembro! Participei de tudo, não lembro
dos nomes, mas de como as coisas evoluíram, sim.
Confesso, não imaginava que tinha ficado tão lindo – digo
orgulhosa, o sangue empreendedor dos Cicic fala mais
alto.
Tudo está muito moderno e lógico. As pessoas
trabalhando parecem felizes, fico imaginando como isso é
possível. Ele começa a caminhar entre as ilhas. O
acompanho.
Paramos numa ilha qualquer. Não sei dizer
qual assunto eles tratam, pois são semelhantes aos outros
vizinhos de ilhas. Todas as pessoas, homens e mulheres
são muito parecidos, mesmo com suas peculiaridades
físicas, no final, dentro das cabeças são iguais. Apenas
pessoas comuns realizando o sonho de trabalhar numa
repartição. São tão simples quanto camundongos em suas
tocas.
– Essá é a ilha que cuida do patrimônio – ele
aponta para a ilha, três moças e um homem olham
sorrindo – esses são: Ju, Marta, Carina e Júnior –
apresenta no sentido horário – essa é Marjorie Cicic.
Mesmo falando de uma forma discreta e num
tom moderado. Ao invocar meu nome as pessoas param

91
seus afazeres e rapidamente todos estão olhando de forma
muito curiosa.
– Então – diz Arno – a senhorita Marjorie
levará um patrimônio. Preciso que faça uma carta de
autorização – dirige a palavra para Marta.
– Sim – diz ainda em choque por estar na
frente da herdeira do império Cicic. Não acredito, as
pessoas estão olhando como que vissem o próprio espírito
santo. Não deveriam dar bola, sou apenas uma herdeira de
uma riqueza emergida da forma errada e somente agora
passou a ser correta. Reneguei tudo isso por muitos anos,
mas no fim descobri que era uma excelente oportunidade
para fazer a coisa certa. A filantropia equalizou os erros do
passado da Lã Cicic.
– Tudo bem, contudo necessito – diz Marta,
limpando a garganta e ajeitando o corpo na cadeira – do
número do patrimônio.
– 1.4.5.63; o outro 1.4.5.63-1 e 1.4.5.63-2. –
diz Arno – tenho memória fotográfica – explica quando
percebe o quanto fiquei surpresa ao saber que decorou os
números dos patrimônios lendo apenas uma vez.
A moça tecla e lê no ecrã, percebe o que são os
patrimônios, fica assustada, mas segue discretamente seu
trabalho. Os seus colegas de mesa não perceberam.
Olho em volta, todos ainda prestam atenção
em mim. Então vislumbram o tempo significativo que
observando a filha do Cicic, caem em si, e aos poucos
retornam as suas tarefas.
– Parece que estão vendo um fantasma – digo
apenas para Arno escutar.
– Não é culpa sua. Desculpe a sinceridade,
mas ninguém jamais esperaria sua visita. Para eles é
apenas uma moça mimada e problemática vivendo para

92
gastar o dinheiro do seu falecido pai. Na maioria são
funcionários novos, não sabem o quanto a senhorita
participou de forma significativa das mudanças agudas
dentro do grupo. Eu sei o quanto é competente – finda
sorrindo.
– Como não sabem? Participei do último vídeo
institucional.
– Nos vídeos institucionais a senhorita só
aparece como filha herdeira, nada mais.
– Filhos da puta, editaram tudo e fui deixada
de fora.
– Sem dúvida isso foi ruim.
– Talvez seja melhor assim – concluo no
momento que Marta levanta e caminha até o fundo da
grande sala onde está a impressora. Disse da boca para
fora, não conseguirei digerir o corte da minha fala no
vídeo institucional. Nele exigia a boa índole de todos,
deixava claro o tipo de moral que seria analisada no grupo.
Ela retorna lendo o documento, entrega para
Arno que também lê. O segurança fica inquieto e todo sem
jeito, começa a falar.
– Ainda precisamos ver mais uma pessoa –
alcança nas minhas mãos.
Leio no campo da assinatura, não há espaço
para meu nome e sim para Télber Nieb, atual presidente da
unidade San Madre da Lã Cicic.
Deste nome lembro. Télber é especializado em
organizações de manufatura. Foi escolhido por uma
comissão de experientes colaboradores do grupo. Na
ocasião, era apenas um voto, nem de longe foi meu
preferido, mas os conselheiros acharam mais importante
meu envolvimento com as mudanças estruturais e a
escolha do presidente-executivo deveria ser da forma mais

93
agradável para os acionistas. “Um passo atrás para dois a
frente.” Foi o que falou meu conselheiro. Óbvio é, não foi
a melhor opção!
Mais uma romaria. Estou ficando aflita,
perdendo tempo e ainda tem mais esse Télber para
enfrentar, o cara deve ser um babaca patético. Preciso
provar que Carlos não matou Margô e chegar ao
verdadeiro mandante do crime o mais rápido possível.
A sala da presidência fica em outro prédio.
Uma pomposa construção, ainda mais esnobe, comparada
com a do meu velho pai. No seu tempo a antiga sala da
presidência ficava no último andar da administração, mas
essa é ainda mais luxuoso.
– Não conheço este espaço – digo a Arno.
– O prédio da presidência executiva é novo.
Finalizado há dois anos, foi uma exigência de Télber.
Sim, lembro porque não era meu preferido.
Seu currículo mostrava tudo muito claro. Trata-se de um
‘almofadinha’ com rompante de dono do mundo, muito
parecido com meu pai.
Chegamos no prédio. Uma moça bem-vestida
na recepção.
– Bom dia, Ana! – Diz Arno – viemos ver
Télber.
Ana nos analisa com desdém e responde:
– Desculpe Arno e senhorita, mas o senhor
Nieb não poderá recebê-los. Está numa reunião com
alguns acionistas.
– Eu que peço desculpa – Arno segue
resiliente – o que temos aqui é um caso atípico e urgente –
noto que faz um pequeno sinal com os olhos para a moça,
tenta fazer com que preste atenção em mim e perceba
quem sou, mas não sou reconhecida.

94
– Não! – Responde abrupta de forma descortês
– tenho ordens específicas. Não receberá ninguém.
O velho Arno fica sem jeito, não consigo
acreditar como um colaborador da Lã Cicic possa tratar
seu colega de trabalho de tal forma insensível. Bons
treinamentos foram exigência muito reforçada na
reestruturação.
– Olá, moça – chamo sua atenção.
– Já falei, por favor, não posso fazer nada –
nos olha com desprezo.
– Desculpe o transtorno – Arno cochicha ao
meu ouvido.
– Tudo bem. – Sussurro. Volto a falar com a
secretária – entendo que só está cumprindo o ordenado,
contudo existem muitas formas de tratamento e, acredite,
as suas são pouco indicadas – olha com fúria e antes de
falar, prossigo – agora deixe de ser uma vadia e diga a
Télber que Marjorie Cicic está aqui e deseja vê-lo.
Quando termino a frase a moça empalidece,
perplexa.
– Está tudo bem? – Arno pergunta de uma
forma sutilmente debochada.
– Sim, está tudo bem – prossegue buscando a
compostura.
– Nos anunciará agora? – Pergunto.
Pega o telefone, mas não disca. Ficamos
esperando. Então muito aflita segue – desculpe, mas não
posso. Isso pode custar meu emprego – nos olha muito
triste.
– Acredite, não vai custar nada. Pode nos
anunciar – a encorajo.
– Tudo bem – disca. Em alguns segundos ela
nos anuncia. Por sua reação sabemos que foi ofendida por

95
Télber.
Coloca o telefone no gancho, de seus olhos
correm lágrimas silenciosas – ele só precisa de alguns
minutos – fala.
Esperamos alguns minutos. A porta da
presidência abre. Para nossa surpresa e perplexidade, duas
moças vestidas com roupas curtas saem, parecem
assustadas. Posso estar enganada, mas não parecem, nem
de longe acionistas. Aquele desgraçado acha que está em
Ibiza.
A porta da presidência começa a fechar. Corro
na sua direção, mas não chego a tempo, Télber a trancou.
Bato algumas vezes, aguardo e repito a operação.
Perco a paciência e começo a chutar a porta.
Tento arrebentá-la, porém não consigo. Arno aparece ao
meu lado – é o que a senhorita realmente deseja? –
Pergunta olhando para a porta.
Concordo com um sinal, então pega distância,
caminhando em ré, para; respira fundo, então começa a
correr e joga todo seu peso contra a porta que abre.
Arrebentou a fechadura. Não consegue parar e cai no
chão, bem no meio da sala da presidência. Estou
impressionada com sua coragem.
Adentro e vejo Télber sentado atrás de sua
mesa, parece assustado. Força uma imagem forte e
intimadora. Para meus olhos não passa de um monte de
merda, sugador do planeta, um peso morto para nossa
geração. A sala mais parece um apartamento de luxo.
– O que é isso? – Pergunta indignado, apenas o
encaro – quem pensam que são para invadir minha sala
dessa forma? – Ele olha para Arno – está demitido, seu
velho maluco.
– Sabe quem sou? – Pergunto.

96
– Claro que sei, vi muito suas fotos. É
Marjorie Cicic, a patricinha metida que nunca passou um
dia da sua vida trabalhando e acha que pode mudar o
mundo – levanta e chega muito perto – no que estava
pensando? Que chegaria aqui e seria recebida com chuva
de rosas? Sou um homem de negócios. Não tenho tempo
para frivolidades.
– Não consigo entender – digo.
– Pelo jeito, não entende nada mesmo – diz.
– Não entendo como babacas como você
chegam a um posto tão alto. O conheço a menos de um
minuto e já quero te matar.
– Calma, senhorita – diz Arno ao levantar.
– Já não falei que está demitido? Pode sair
daqui. – Télber fala a Arno. Ao ouvi-lo o velho começa a
caminhar na direção da porta.
– Pare onde está – ordeno o velho – e você –
digo a Télber – quem eram aquelas moças?
– São modelos para a próxima campanha de
moda da Lã Cicic, mas isso não é da sua conta, não devo
satisfação a ninguém. Sou o presidente, faço o que quero!
– Por que a Lã Cicic não contrata uma
produtora como qualquer outra empresa?
– Se estivesse envolvida no processo saberia
que é muito mais barato fazermos toda a produção. É
preciso campanhas cada vez mais fortes para manter a
marca firme no mercado – posso perceber que está
mentindo de uma forma desavergonhada.
Olho para Arno e pergunto – isso é verdade?
– Não, senhorita! – Responde sem titubear.
Télber o fuzila com os olhos.
– Mas o que é isso? – Télber pergunta
indignado – é a reunião dos imprestáveis? Fora daqui os

97
dois, e Arno, passe no Recursos Humanos. Está no olho da
rua.
Ele está perto o suficiente. Estudo seu tamanho
e lanço um direto de direita no seu queixo. É um homem
forte, não cai, mas leva as mãos ao rosto. Seu lábio
inferior sangra. Minha mão dói muito.
– Sua maluca. Todos da diretoria estavam
certos ao seu respeito. Deveria ter apodrecido no hospício
– grita e caminha para trás.
– Ainda não viu nada – aproveito que Arno
está distraído e uso os conhecimentos aprendidos com os
Assassinos de Anúbis. Pego com muita rapidez a pistola e
um cartucho, da sacola, carrego e aponto para a cabeça de
Télber. Ao ver a arma paralisa, começa a tremer.
– Caramba, senhorita, não faça isso! – Diz o
velho ao perceber tarde demais meus movimentos.
– De joelhos – digo para Télber que titubeia,
mas resolve obedecer. – Cadê o papel? – Pergunto a Arno.
Começa a ajoelhar contrariado. Não esperava
minha atitude.
O velho alcança o documento, estou com as
duas mãos ocupadas segurando a arma. Com um sinal o
faço alcançar para Télber.
– Assine seu desgraçado – ordeno.
– Preciso de uma caneta – pega o papel
encarando.
O velho Arno vai até a mesa e pega uma
caneta, logo a entrega para Télber que assina o
documento. Arno pega o papel e traz para mim.
Coloco a arma na cintura, pego o papel, dobro
e o coloco no bolso. Télber levanta, tenta não transparecer,
mas está assustado.
– Preste bem atenção – digo a ele – sabe que

98
não tem capacidade para ser o gerente-executivo da Lã
Cicic. Infelizmente, devido a tanta burocracia não posso
chutar sua bunda de mauricinho porta fora agora mesmo.
Então faça o que ordenarei. Amanhã pedirá demissão e
indicará para seu lugar Arno Ralf – o velho fica muito
surpreso – caso não cumpra com o ordenado voltarei e,
olhe nos meus olhos. Juro que meto uma bala no meio de
sua testa. Seu porco capitalista.
Viro e começo a caminhar para a porta, Arno
ao meu lado. – Sua maluca! – Télber grita – seu pai devia
ter a deixado apodrecer nos porões daquele hospício – diz
sem saber que faria isso, fui solta graças os Assassinos de
Anúbis.
Respiro fundo. Pego a arma, viro e aponto para
sua cabeça. Puxo o gatilho. Erro de propósito. Ele fica
imóvel, em seguida vemos uma mancha líquida
aumentando no meio de suas pernas. Urinou nas calças.
– Agora seu tempo diminuiu! Saia da Lã Cicic
o mais rápido possível. Tem 3 horas para arrumar tudo. Se
nada acontecer, voltarei e não errarei o tiro – calado, não
consegue responder.
Caminhamos para o pátio. Pelo caminho,
quem encontramos nos olham curiosos. Os mais próximos
ouviram o barulho do tiro e estão apavorados.
– O rapaz vai chamar a polícia – diz o velho.
– É, pode ser que sim – respondo com ironia.
– Não está com medo?
– Nem um pouco, mas minha fuga é
aconselhável.
– Senhorita, para mim não é a melhor saída…
Fugir dos problemas nunca foi a melhor opção.
– Arno, meu velho, fique tranquilo, sei o que
estou fazendo – na caminhada vira para o lado esquerdo –

99
onde vai?
– Ao Recursos Humanos. Aquele babaca fará
o que prometeu, serei demitir.
– Não seja frouxo, homem. Volte ao seu posto
de trabalho, Télber é um covarde. Não será demitido e
caso isso aconteça, será meu segurança particular.
Contudo, acredito, seguirá minhas ordens.
– Sabe que pediu algo muito difícil de ser
cumprido. Télber é um homem egoísta, arrogante e
vaidoso.
– Mas tem medo da morte assim como a
maioria dos homens covardes.
– Como tem tanta certeza que ele vai embora?
– Não partindo, tenha certeza, ele morrerá.
– Nossa! Não quero nem saber de onde vem
tanta certeza.
– Arno, tem um carro? – Pergunto, parando de
caminhar.
– Tenho – responde sem entender a brusca
mudança na conversa.
– Preciso dele. Prometo devolvê-lo inteirinho.
– Não sei, não. É meu único veículo.
– Qual é velhote, não confia em mim?
– Não – responde sorrindo – mas conheci a
história de seu pai. Comparando com a sua, percebo que
não eram nenhum pouco semelhantes. Ele parecia muito
mais com Télber. Aquele burguesinho devia ser o filho
dele.
– Obrigado, Arno. Suas palavras para mim são
elogio.
É a sua vez de parar de súbito. Olha ao longe,
então percebo, está observando duas viaturas policiais
entrando pela cancela. Tira uma chave do bolso, alcança e

100
a pego das suas mãos.
– O Volvo 77, marrom. No final do
estacionamento. Vá logo Marjorie, liberarei sua passagem
na guarita.
– Obrigada, Arno, mas por favor, prefiro ser
chamada de Paloma. É o nome que escolhi e assim vivi os
momentos mais felizes da minha vida.
– Como queira, Paloma. Não sei o que está
procurando, mas desejo sorte.
– Obrigada, precisarei – digo adeus, um forte
abraço e corro até o Volvo.

Quando saio debaixo da guarita os carros da


polícia estão estacionados na frente do prédio da
presidência, Télber é um covarde e usa sua posição para
aliciar mulheres, talvez seja burro demais para ser
corrupto, pois a Lã Cicic passa por constantes auditorias
de todas as formas. Sei que ainda vamos nos encontrar, e
não usando o dia de hoje para ser outra pessoa, só restará
matá-lo.
Sigo pela rodovia, contornando San Madre. O
carro é uma banheira sobre rodas, pouco econômico e é
totalmente contra indicado aumentar a velocidade, não
posso confiar nos freios. Estaciono e pego o celular. Ligo
mais uma vez para o Hospital Estadual de Transplantes.
[Hospital Estadual de Transplantes, me chamo
Ane, no que posso ajudar?]
[Olá, Ane! Me chamo Paloma Frances, preciso
falar com Talico. É possível?]
[Por favor, um momento, Paloma. Verificarei
onde ele está no momento.]
Uma música erudita, estilo telemarketing
começa a tocar enquanto aguardo.

101
[Senhora Paloma.] Volta a falar.
[Estou aqui.]
[Irá atendê-la. Por favor, fique na linha.]
Alguns pulsos e posso escutar novamente a
voz jovem de Talico.
[Olá, Paloma. É muito bom poder falar com
você novamente. Pensei que apenas Marjorie estivesse
conosco.] Sinto na sua voz que está sorrindo.
[Também é bom ouvir sua voz, meu amigo.
Tinha enterrado Paloma, mas precisei trazê-la a tona, e
dessa vez para ficar.]
[Isso parece ser um sinal de encrenca. Diga no
que posso ajudá-la?]
[Garbo Natali, o ministro do Verde e
presidente do DRU. Acredito que está envolvido num caso
de feminicídio. A vítima era minha melhor amiga.]
[É, isso é muito pior do que encrenca.]
[Precisa de ajuda, por favor…]
[Espere um pouco, verificarei] afasta o
telefone, bate com rapidez nas teclas do computador, então
retorna [Paloma…]
[Pode falar.]
[O ministro já foi investigado pelos Assassinos
de Anúbis. E como não deve ser novidade, está na fila,
será o quarto a ser julgado. Parece que tem muitos
latifundiários como aliados que corrompem quem segue as
leis ambientais, em contrapartida, há os inimigos ativistas
das causas ambientais. Sem dúvida Anúbis verá, o coração
dele é mais pesado do que uma pena.]
[Sabe que depois da morte de Natal, o nosso
Bengala, decidi viver de uma forma diferente. O amava
muito, para ser sincera, acho que nunca mais voltarei amar
alguém assim, por isso decidi não ficar de braços

102
cruzados, em respeito a sua história. Uma inocente foi
morta e um homem está preso injustamente por esse
crime. Bengala nunca esteve tão vivo dentro de mim, fico
pensando, meu falecido amor jamais deixaria estes
homens sem julgamento.]
[Também sinto falta de Bengala. Não fique
preocupa, sei que deve estar muito ocupada com seus
negócios. Agora assumiremos daqui. Julgaremos o
ministro e soltaremos o rapaz preso injustamente.]
[Não é esse o meu desejo.]
[Não?]
[Não, Talico. Não será assim que as coisas
funcionarão. O grupo Lã Cicic prosseguirá com suas
políticas filantrópicas e sendo totalmente honesto, mas
isso as pessoas normais podem realizar, pois são tarefas
normais, eu não. Vi coisas demais. Perdi o grande amor da
minha curta vida, fui presa num hospício por meu pai,
quando criança vi minha mãe morrer de desgosto, então
veio a grande guerra na qual o homem que eu amava
matou meu pai. São coisas demais para ficar de braços
cruzados.]
[Entendo sua indignação, entretanto sabe
quanto é perigoso lutar contra o mal. Sugiro que mantenha
distância.]
[Obrigada pelos conselhos, mas sabe, não
posso voltar atrás. O nome do homem preso injustamente
pela morte de Margô Rubem é o ativista ambiental Carlos
Calamaris. Não tenho provas, mas acredito que minha
melhor amiga de infância não ficaria noiva de um
assassino e diante do histórico deles, fica difícil acreditar
que ele possa ter matado minha amiga. Voltei até a cena
do crime e três homens tentaram me matar. Por sorte saí
com vida.]

103
[Caramba, precisa urgente de proteção.]
[Não, Talico. Consigo dar conta sozinha.
Julgarei Garbo Natali e levarei comigo o corpo para o seu
hospital ou morrerei tentando.]
[Isso é loucura, quero dizer, não tem
treinamento para uma ação dessa proporção…]
[Não é loucura e sabe disso. Mande a
localização do ministro e algumas fotos atuais. Estou
preparada, caso não conseguir é porque não mereço ser
uma Assassina de Anúbis.]
[Não, Marjorie…]
[Por favor] o interrompo [quero ser chamada
de Paloma.]
Desligo. Sigo na direção da Capital. Alguns
minutos e recebo uma mensagem de texto, é de Talico:
‘Não deveria ajudá-la, ainda acho uma loucura, mas assim
deseja (…) Só posso desejar sorte Paloma. Garbo Natali
estará em Planaltina pela manhã numa reunião com
ruralistas.’ É a minha chance, Planaltina fica a oeste do
estado do Mato Sul, onde a pecuária é muito forte e ao
redor das fazendas, reservas ambientais que deveriam ser
preservadas estão sendo desmatadas em nome da
ganância. Tenho centenas de quilômetros para percorrer
em 12 horas, dentro de um carro desconfortável.
Acelero a banheira…

Olho meu rosto pelo retrovisor. Maquiagem


borrada, olheiras, olhos vermelhos. Tiro os tênis. Ficar de
pés livres ainda é muito bom para diminuir o estresse. É
um hábito que mantenho faz muito tempo.
Apesar do cansaço, estou bem. Um sentimento
de aventura, e desde os longos meses que passei viajando
pelo país, fugindo do meu pai. É como ser livre, caçar

104
políticos corruptos é a melhor coisa do mundo.
Não quero lembrar, mas é inevitável, meu
coração congela e depois acelera. Lembro da minha mãe,
o quanto era bom enquanto estava aqui, até o avarento
Cicic era um homem melhor. Ela nos mantinha unidos,
mesmo sabendo que estava doente. Agora sou como ela,
quero sentir sua força e para ficar unida ao que realmente
sou, farei o que é certo.
Consigo chegar em Planaltina.
Paro na redondeza da praça central. A cidade
não é grande, mas rica, com carros luxuosos e muitos
homens dirigindo camionetes, vestindo camisas listradas,
usando chapéu e botas. É um local de jecas, os típicos
brutos que não sabem nada do mundo, mas acreditam que
seu dinheiro pode abrir portas. Homens sem classe, sem
delicadezas e prontos para votar no primeiro candidato que
prometa liberar o armamento para todos. São apenas
meninos que ainda precisam de afirmação e nunca devem
ter levado suas esposas ao orgasmo.
Desço da banheira, caminho de pés no chão
até um café, sento nas cadeiras externas e peço o desjejum.
Meus olhos estão cansados. Evito pensar no que causa dor.
Nas pessoas que foram embora. De repente fui deixada
sozinha neste mundo sujo e injusto. Mãe, amor da vida e
até a melhor amiga. Mortes de jeitos diferentes e cruéis.
Agora eu sei, não tenho para onde ir, e o que mais tenho
de semelhante a uma família é Talico e seus fiéis
colaboradores.
Barulho de buzinas começam a aumentar até
ficarem ensurdecedoras. Muitos carros passam lentamente
pela praça. É uma carreata. Faço sinal a garçonete. Ela
vem ao meu encontro. Olha para meus pés, mas disfarça
sua surpresa.

105
– O que está acontecendo?
– Parece que um grande figurão está na cidade,
político do alto escalão. Vem numa reunião com os
representantes das cooperativas de agropecuários da nossa
região. Querem pressionar o governo para limitar as leis
do meio ambiente, algo assim.
Sim, o circo acontecendo na rua é a recepção
para Garbo Natali – Por favor, traga mais um café –
solicito à garçonete.
Sigo observando as pessoas dentro dos carros.
Agora são homens, mulheres, crianças, todos muito felizes
por participar de algo maior. Eles não sabem, o homem
que estão exaltando está desmatando as florestas do país e
terminando com o mundo no qual as próximas gerações
viverão. Ou talvez eles saibam e não dão importância,
querem mesmo é viver suas vidas da forma mais egoísta
possível. Além de tudo, Garbo é um assassino. E quem o
protege tem o mesmo valor.
São todos imbecis e egoístas, prontos para
acreditar no que é espelho, sem dar o braço a torcer,
mesmo sabendo que estão errados. Querem apenas
afirmação, imbecis, intolerantes.
É a triste maneira das pessoas destruírem o
futuro de outras, adorando deuses inexistentes e acusando
os verdadeiros heróis de vagabundos, visionários, malucos
e sonhadores.
A garçonete retorna com o café.
– Onde vai ser o comício? – Pergunto.
– Na Concha Acústica da cidade. Fica no
Parque Municipal.
Termino o café, a carreata já vai ao longe.
Entro no Volvo 77 e sigo ao encontro dos carros.
Adiante, os carros começam a estacionar.

106
Preciso rodar alguns minutos até encontrar uma vaga.
Todos descem e caminham até a frente do
palanque. Preciso pensar em alguma coisa para poder
atacá-lo sem ser notada. Percebo que ainda tenho que
treinar muito para isso, estou nervosa e com medo.
Coloco a arma na cintura. Visto os tênis, desço
e começo a caminhar com a multidão, aos poucos vou
desgarrando das pessoas até chegar ao fundo do palco.
Homens de terno conversando e rindo como
sendo os donos do jogo. Todos parecem arrogantes,
intragáveis. Por mim, pegaria a pistola e mataria todos.
Fico ao longe, poucos notam minha presença,
os seguranças não percebem que sou perigosa. Alguns
olham com desprezo, velhos asquerosos olham para meu
corpo com desejo, o que causa repulsa dos pés a cabeça,
para mim só vejo porcos vestidos de terno.
O plano mais aceitável é esperar Garbo Natali
aparecer, matá-lo, fugir e ligar para Talico buscar o corpo
e dissecá-lo. Olhando para tantos homens e alguns
seguranças, o plano parece muito improvável. De tão
simples parece falível, mas decido prosseguir.
Meus reflexos estão lentos, corpo cansado.
Não sei o quanto estou apta para fazer tudo dar certo.
O burburinho aumenta, o movimento passa a
intenso, as pessoas aglomeradas na entrada do palco. Vejo
Garbo no meio da multidão de homens. Coloco a mão
sobre a pistola, mas diante da cena é impossível acertá-lo
com chance de matá-lo.
Começo a caminhar na sua direção. Sou a
única mulher no meio de tantos homens sórdidos. Vestida
como uma adolescente, para eles apenas uma curiosa.
É impossível mirar somente nele. Começo a
caminhar até o fundo do palco. Só resta matá-lo na frente

107
de todos.
Chego ainda mais perto, de repente alguém
segura meu braço com muita força, sinto um cano de arma
nas costas. Viro, vejo de relance o homem ruivo que
tentou acabar comigo no edifício de Margô. Agora tenho
certeza que Garbo é o responsável pela morte da minha
melhor amiga.
– É um prazer revê-la – diz irônico.
– Então não é só um assassino de aluguel, é
também o cachorrinho de Garbo Natali.
Fica muito sério, segura com mais força, não
consigo mais vê-lo, tento virar, ele não deixa, aperta meu
braço, resolvo não tentar novamente.
– Tente alguma gracinha e a matarei.
Sou guiada, voltamos para o fundo do palco.
Entre as cortinas os outros dois homens que estavam com
ele no prédio de Margô nos esperando. Logo, um deles
segura meu braço torcido nas costas, enquanto o ruivo
retira minha arma.
Começo a gritar SOCORRO! O ruivo acerta
um forte soco no meu estômago, depois uma coronhada no
meio da testa. O sangue escorre, a dor é forte.
– Seja tranquila como sua amiga foi – diz o
ruivo.
Recomponho e o encaro com fúria – então
você mata mulheres inocentes e indefesas?
– Sim, com minhas mãos – diz mostrando suas
mãos como dois troféus.
– Seu desgraçado de merda, irei matá-lo com
prazer.
– Não está em posição de proclamar ameaças.
Não quero ouvir seus xingamentos. Tirem essa louca
daqui – diz aos dois homens – Garbo quer vê-la antes de

108
sumirmos com o corpo.
Sou arrastada pelos homens até uma van.
Outros de terno percebem a violência que sofro, mas não
fazem nada, devem reconhecer os homens como
seguranças de Garbo. Acreditam que sou uma ativista
sendo retirada do evento. Todos são covardes.
A van é preta, está estacionada no meio dos
outros carros, antes de entrar sinto uma forte pancada na
cabeça. Golpeada com alguma coisa de madeira. Estou
tonta e fraca. Fecho os olhos, caio. Escuridão.

***

Acordo. Estou no chão da van. As portas estão


abertas, os dois homens estão sentados no chão da van
com as pernas para fora, balançando no ar. Um olha muito
atento para onde estou, o outro está virado para fora. As
pessoas passam ao longe, ainda estamos no comício, mas
o movimento diminuiu. A pancada lateja no cocuruto da
minha cabeça. A dor é muito forte. Desgraçados!
Percebem que acordei.
– A maluca acordou! – Diz para alguém que
não está no meu campo de visão.
Em alguns segundos o ruivo aparece, aparenta
ser ainda mais alto. – Garota, venha comigo – ordena, não
movo nenhum músculo – vamos moça, o senhor Garbo
Natali está nos esperando…
Sigo imóvel, irritado o gigante sobe na van,
agarrada pelo casaco, cansada e ferida, sou uma oponente
fácil de vencer. Segura minhas mãos e as prende com uma
fita.
– Seu covarde. Posso morrer, mas garanto que
terá uma morte lenta e dolorosa – ele responde com um

109
sorriso de escárnio.
– Garota, ninguém vai encostar a mão em
mim. Os poderosos deste país adoram meus serviços, por
isso tenho proteção.
O que não sabe, seus chefes podem até ser
poderosos, mas um dia a justiça chegará e serão julgados.
Caminhamos entre os carros, o movimento
diminuiu, entretanto algumas pessoas veem o homem
segurando a moça, talvez não percebam que estou presa
pelas mãos, mas podem ver o sangue no meu rosto, não
peço socorro, pois nada fazem ao ver, sequer ficam
assustadas. As mulheres olham com mais atenção, mas
não vejo compaixão nos seus olhos, são mulheres
diferentes de mim, são como bonecas de cera, servem
apenas de enfeite. Não lutam por nada, apenas obedecem
seus companheiros.
Decido não pedir ajuda, é melhor poupar
energia para fugir ou tentar entrar em contato com Talico.
A multidão dissipada, as pessoas estão indo
embora em êxtase por participar de algo que não
entendem. Muitos vestem as cores da bandeira de nosso
país, como isso sendo o maior ato patriótico. Tem sido
assim nos últimos anos na nossa nação, muitas pessoas
saem as ruas, gritam palavras a favor de homens que só
querem seguir nos seus interesses. Acreditam num falso
Messias, num tal salvador da pátria que venderá suas
almas para os ricos a preço de banana. As pessoas são
assim, e uma pequena parcela segue lutando por coisas
simples, óbvias, mas os comuns não percebem e seguem
como zumbis caminhando em direção ao precipício.
Caminhamos para o palco e entramos nos
bastidores. Todos olham para meu rosto machucado,
nenhum deles demonstra pena. São homens envolvidos

110
com a política, alguns rostos que conheço.
Espero que todos sejam julgados por Anúbis o
mais rápido possível.
Sentado dentro de um camarote improvisado,
nos espera Garbo. O ruivo abre a porta, com um empurrão
sou obrigada a entrar e sentar na frente dele.
– Então essa é a garota do apartamento? –
Pergunta ao ruivo, sorrindo.
– Ela mesmo, senhor – responde o ruivo.
– Muito bem, pode soltá-la! – Diz pegando seu
capanga de surpresa. Tenta argumentar, mas é convencido
com um sinal, então solta minhas mãos, está contrariado –
agora nos deixe a sós – a ordem o choca. Titubeia, mas
obedece.
Ao sair, Garbo pega um celular do bolso e
alcança. Reconheço o aparelho, é o meu celular. Devem
ter pego enquanto estava desmaiada. O ministro parece
muito tranquilo.
– Quando vi a foto do fundo de tela no seu
celular a reconheci. Marjorie Cicic. Talvez não lembre, fui
um grande amigo do seu pai.
Não fico surpresa, meu pai tinha amigos tão
podres quanto ele – desculpe, não lembro.
– Tudo bem, tudo bem. Foi um choque quando
soube que estava aqui armada. Peço que esqueça o
comportamento dos meus homens, são pagos para isso,
não sabem quem é você.
– Compreendo, meteria uma bala na testa de
cada um. Nosso sentimento é recíproco.
– Relaxa, garota. Sei da sua história, teve
muitos problemas na adolescência e fiquei contente
quando soube que havia assumido o lugar do seu pai na Lã
Cicic. Pelo que vejo, não está bem-curada da loucura.

111
– Foi apenas por um tempo. Logo deixei na
mão dos conselheiros e fui viver minha vida. Não sou
louca, sou livre. A diferença é gritante.
– Compreendo, o mundo dos negócios é muito
cansativo. Fiquei muito surpreso em vê-la aqui, armada,
tentando matar um ministro. É uma postura muito
socialista.
– Você é o responsável pela morte da minha
melhor amiga, esperava o que?
– Vendo por esse lado, faz muito sentido. –
Olha nos meus olhos – contudo, na minha posição, veria
que tudo é apenas negócios.
– Então, acredito que serei sua próxima vítima,
certo?
– Não, não vamos matá-la. Pelo menos, não
hoje. Muitas pessoas a viram. Há câmeras e celulares por
todos os lados. Já temos escândalos demais para esconder,
a morte de uma milionária seria mais uma dor de cabeça.
E ainda tem a dívida moral que tenho com a memória de
seu pai, sabe, durante muito tempo a Lã Cicic foi uma
contribuinte muito forte para meu partido, sou um homem
grato, não posso esquecer.
– Meu pai era um idiota, só pensava em
dinheiro.
– Seu pai era um homem de negócios. Um
verdadeiro patriota.
– Ele escravizava pessoas para ganhar
dinheiro.
– Ora, Marjorie, não seja hipócrita. Sua vida
sempre foi boa e mansa.
– Não sou mais chamada de Marjorie. Meu
nome agora é Paloma.
– Você está enlouquecendo. Devia ter

112
vergonha.
– Sabe que tentarei matá-lo outra vez, não
sabe?
– Sei – olha muito grave – e esperarei, sem
piedade.
– Então, até a próxima – levanto e o
cumprimento.
– Até a próxima Marjorie/Paloma.
Saio da sala, os capangas olham muito atentos.
Pego o celular, parece em bom estado, mas não tenho
certeza o quanto descobriram no aparelho, não apaguei as
ligações que fiz para Talico, foi um grande erro. O abro,
retiro o chip e o jogo no chão com toda minha força. As
peças voam para todos os lados. As pessoas percebem,
desta vez ajudam a juntar as peças, é incrível o
comportamento, ao ver um bem material perdido, ficam
compadecido. Quando viram minha cabeça rachada nada
falaram.
Junto todas as peças, coloco no grande bolso
do casaco para depois jogar no lixo, longe deles.
– Adeus, cachorrinho – digo ao passar pelo
capanga ruivo que responde com um aceno cômico.
Minha cabeça dói, corpo exausto. No caminho
para o estacionamento encontro um senhor fumando. Peço
um cigarro e fogo, sem titubear, alcança olhando para meu
ferimento.
– Dia difícil – digo. Apenas sorri.
Acendo o cigarro, trago profundamente, então
pego o chip e o queimo, segurando em pinça até quando
meus dedos suportam o calor. Seja lá o que já tenham
descoberto da minha vida, não será mais possível rastrear,
pelo menos, por enquanto.
Conto com dois grandes problemas: caso

113
descobriram algo, o que acredito que sim, as ligações para
o Hospital Estadual de Transplantes, Talico está em
perigo, o outro é a arma. A mesma está em nome do grupo
Lã Cicic e existe um documento no qual assinei, a
retirando do cofre da empresa, podem cometer algum
crime com o armamento e serei a principal suspeita.
Preciso arrumar essa bagunça.
Entro no Volvo 77, meu estômago
contorcendo de fome. Abro o vidro de manivela. Faço
sinal ao vendedor de churros. Compro alguns. Como e
bebo uma lata de refrigerante. Mastigando e pensando no
próximo passo.
– Esses figurões ai são uns sujos, só pensam
em dinheiro – diz o vendedor de churros quando alcança
mais um lanche.
– São todos uns capitalistas de merda –
concordo.
– Vi quando te pegaram de jeito. Achei que
iriam matá-la, mas quando a vi saindo da van fiquei
tranquilo. Cuidei durante todo o momento, moça. Se a van
saísse do lugar chamaria a polícia.
– Obrigada – digo olhando nos seus humildes
olhos, mesmo sabendo que a polícia não adiantaria
naquele momento – é bom poder ver um ser humano por
aqui.
– Pelo menos, hoje foi um dia lucrativo,
primeiro fui na recepção deles no heliporto, vendi muitos
churros por lá, depois vim aqui, não vendi tantos, mas não
posso reclamar.
– Então eles vieram de helicóptero.
– Sim, nesta cidade de merda, não existe
aeroporto.
Agradeço pelo lanche, fecho os vidros tocando

114
a manivela e começo a refletir.
Sem arma, cansada, com o inimigo em posse
de informações importantes. Diante dos fatos, voltar para a
Capital não é uma saída aceitável. Perderia um dia na
viagem, tempo o suficiente para Garbo espalhar para seus
aliados o que sabe. Preciso agir aqui e agora.
Alguns repórteres ainda entrevistam figurões
da política no palco. Apenas seguidores fiéis dos mesmos
esperam para tirar fotos, algo impossível de entender,
políticos não são artistas, são funcionários do povo e
deveriam comportar-se como tal.
Sigo aguardando sem saber o que fazer. O
estacionamento está praticamente vazio. Apenas o Volvo e
os carros de luxo dos políticos preenchem o mesmo.
Mais uma hora passa e observo Garbo saindo
dos bastidores. O ruivo e os dois seguranças o escoltam
muito atentos. O ministro sorri e acena para as câmeras.
Seguem para o carro de luxo, o motorista os
espera. O ruivo entra na frente, Garbo senta no meio do
banco traseiro, os dois seguranças o cercam.
Os motoristas começam a mover as rodas dos
carros. Para sair do parque é preciso andar por uma larga
rua de dois quilômetros e de lá acessar a avenida que os
levará até o heliporto.
Ligo o Volvo e saio do parque. Acelero até o
final da longa rua. Ultrapasso o comboio de Garbo,
observo os carros pelo retrovisor.
Não sei exatamente para onde seguir para
chegar ao heliporto. Certo é, seguir o comboio significa
colocar um alvo gigante nas costas. Desgarro do comboio
e procuro outra saída.
Estaciono num posto, vejo ao longe o comboio
dos carros de luxo separando-se no final da reta, o carro de

115
Garbo segue sozinho. Entro na loja de conveniências, peço
um café forte e sento. A moça, muito simpática, serve com
agilidade.
– Muito obrigada – digo – estou perdida,
preciso chegar com urgência ao heliporto.
– De nada! Para chegar ao heliporto é muito
simples. Siga pela Avenida J.K. e dobre a esquerda na Rua
B.C., é muito fácil, só dirigir até o final e lá é o Heliporto.
Consigo o que quero. Pago o café. Pego outro,
bebo alguns goles e corro até o Volvo.
Arranco, acelero até a J.K., ultrapassando os
carros. Os sinais vermelhos são o atraso, começo a ficar
nervosa.
Abro espaço entre os carros, motoristas
buzinam, irritados com a manobra. Última sinaleira para
acessar a rua B.C. posso ler na placa da esquina. O trânsito
de Planaltina é intenso, mas não chega a ser caótico.
Entro na rua B.C., ultrapasso alguns carros,
menos sinaleiras, fico atenta para avistar meu destino.
Como era de esperar, placas anunciam a distância até o
heliporto. 1 km, 800 m, 400 m, 150 m. Já posso vê-lo.
Alguns helicópteros estão parados, um levanta
voo. Carros de luxo no estacionamento, alguns são iguais
ao de Garbo.
Chego na entrada, cancela abaixada. Dois
seguranças uniformizados fazem a vigia. Um está dentro
da guarita, outro ao lado da cancela. O de fora chega perto
da janela. Abaixo o vidro.
– Bom dia, senhorita – ao ver meu ferimento
na cabeça e estado, fica assustado – está tudo bem?
– Estou bem, sofri um pequeno acidente, bati
com a cabeça no volante numa necessária freada brusca.
– Caramba, a senhorita precisa de um médico.

116
– Na verdade preciso de um helicóptero.
– Tens voo marcado?
– Não, sou Marjorie Cicic, herdeira do grupo
Lã Cicic. Conhece?
– Sim, quem não conhece? A marca de roupas
mais vendida no país.
– Isso mesmo. Preciso de um helicóptero para
chegar até o aeroporto mais próximo.
– O aeroporto mais próximo é na Capital Mato
Sul.
– Sei disso. Pago qualquer valor, tratasse de
uma urgência.
Olha muito sério, repara no Volvo, um carro
tão velho para alguém tão rico. Aposto, também acha que
sou maluca e excêntrica – só um momento, por favor – diz
e caminha para dentro da guarita. Fico olhando para os
helicópteros.
Vejo Garbo Natali, o ruivo gigante ao seu lado
e os outros seguranças caminhando para o helicóptero
pousado no meio do H na zona de voo. Não posso deixá-
los fugir, uma vez aquele helicóptero levantando voo os
resultados serão catastróficos.
Dou ré no Volvo, o segurança sai da cancela
sem entender minha atitude. Em alguns metros paro, em
seguida arranco. O Volvo é muito pesado, acelero o
máximo possível, o segurança cai para o lado ao perceber
minha atitude e ao atingir a cancela, a quebro como um
graveto.
Sigo acelerando, meus alvos já estão subindo
no helicóptero. Não tenho outra saída. Preciso atacar.
Arrebento a grade de acesso à zona de embarque. Os
pneus cantam, eles percebem, Garbo já subiu, os
seguranças ainda estão no chão. O ruivo saca sua arma e

117
atira na minha direção. Abaixo a tempo e acelero ainda
mais.
Em alguns segundos o impacto faz meu corpo
ricochetear, fecho os olhos, não sei o que está
acontecendo, capoto ou giro.

Abro os olhos. Estou de frente para o que


aconteceu. O vidro do Volvo está quebrado, o capô muito
amassado e sujo de sangue. O ruivo e mais um segurança
estão no chão. Seus braços e pernas, um membro para
cada lado, como um boneco de pano jogado. Sofreram
muitas fraturas.
Atingi o lado direito da aeronave, arranquei o
suporte do mesmo lado que o mantinha em ‘pé’. O
helicóptero está de lado, quase virado.
Olho para o Volvo, acho que não funcionará
nunca mais. Arno ficará uma fera. A dor espalhada pelo
corpo, minha cabeça com muita pressão. As costas em
frangalhos, joelhos e braços dormentes.
Abro a porta, emperrada, preciso fazer muita
força. Coloco a perna esquerda para fora, depois a outra.
Quando tento levantar, caio de cara no chão. Sou invadida
por uma dor aguda no joelho. É tão forte que começo a
chorar. Devo ter rompido alguns tendões.
Preciso prosseguir. Suporto a dor insuportável,
estômago embrulhado, viro e vomito. Limpo a boca com a
manga do casaco. Apoiada no Volvo consigo levantar,
coloco todo peso na perna direita.
Começo a saltitar até os corpos. Escuto
barulho vindo do interior do helicóptero, é o piloto zonzo
saindo da aeronave. Caminha na direção da guarita. Os
dois seguranças caminham ao encontro dele.
Bem perto, posso ver o ruivo ainda vivo, geme

118
e está impossibilitado de mover os ombros.
– Oi, cachorrinho – digo irônica. O outro
segurança está com os olhos abertos, sem brilho, está
morto.
Abaixo, com dificuldade pego sua arma no
coldre interno do terno. Mais barulho dentro do
helicóptero. Olho para o ruivo, aponto a arma para sua
cabeça.
– Como está agora? – Não responde, seus
olhos focados nos meus – seus pecados são mais pesados
do que uma pena. Seja devorado por Ammit – puxo o
gatilho e acerto na sua testa.
Ao ouvir o tiro, os seguranças da guarita
sacam suas armas e correm ao nosso encontro. Preciso ter
pressa.
Saltito até o helicóptero. Chego cansada, não
consigo ver o outro segurança ou Garbo. Com cautela vou
rodeando a aeronave, chego na porta, com o helicóptero
praticamente virado fica difícil ver como eles estão sem
abaixar e ficar vulnerável.
Resolvo abaixar, vejo o corpo do segurança.
Está de bruços. Sangue escorre da sua cabeça. Ao seu
lado, segurando a perna direita está Garbo. Tem uma
fratura exposta. Chora e transpira em abundância, respira
com dificuldade. Sua perna sangra, o fêmur furou sua coxa
num ferimento muito grave.
– Olha para mim sua maluca, olha o que você
fez! – Esbraveja.
– Devia ter acabado comigo quando teve a
chance! – Sorrio.
– Por Deus que vou. Com minhas mãos.
– Tem certeza? – Mostro a arma. Seu rosto
transparece em desespero.

119
– Seu pai estava certo. É uma maluca
anarquista que nunca deu valor ao trabalho dele. Nem ao
dinheiro que ganhou para te dar uma vida melhor.
– A que custo o velho Cicic fez sua fortuna?
– Não interessa, garota. Ele era seu pai!
– Não, Garbo. Ele nunca foi meu pai de
verdade. Um verme que só pensava em dinheiro, com
muitas amantes e conchavos para sonegar impostos e
comprar políticos para conseguir ampliar seus negócios,
pagando salários baixíssimos, mulheres, idosos e
adolescentes morrendo no chão das fábricas.
Perdi a noção do tempo. Os seguranças da
guarita estão perto – largue a arma! – Ordena o mais
próximo, o outro mira de longe. – Largue ou atiro!
– Parece que estamos num impasse – diz
Garbo irônico.
– Não – respondo – não estamos. Mesmo que
eu morra não sai vivo daqui. Em nome de Anúbis o
declaro culpado – olha sem entender – seu coração é ruim,
mais pesado do que a Pena da Verdade. Seja devorado por
Ammit.
Puxo o gatilho, acerto sua têmpora. Ao mesmo
tempo os seguranças fazem o mesmo. Sou atingida por
dois tiros. Um nas costas e outro na perna direita.
A dor é como um sinal que foi desligado, um
interruptor batido para baixo. Meu corpo cai. No chão
posso vê-los chegando perto.
– Largue sua arma – segue ordenando, não
respondo apenas fecho os olhos. Ele chuta minha mão, a
arma desprende dos meus dedos e para, um metro longe.
Penso em Margô, lembro do seu sorriso e de
como fez minha vida mais mágica, com sua amizade
sincera. Parece que vamos para o mesmo lugar.

120
– Nossa, olha o que essa maluca fez. Matou
todos – diz o outro segurança.
– Caramba, isso não será nada bom para nós,
afinal atiramos nela. Teremos que dar explicações, sendo
verdade, caso seja a milionária lá do Sul – o outro
comenta.
– Não vamos nos precipitar. Daremos um jeito
em tudo. Colocamos uma arma na mão do velhote ali
dentro, é isso. Rixa antiga, um matou o outro e fim de
conversa. Tudo foi tão rápido, não conseguimos fazer
nada.
– Mas para isso não pode haver testemunhas.
Todos devem estar mortos.
– Todos? As pessoas estão dentro da sala de
espera, olhe para lá, estão aterrorizados. Cinco
testemunhas, seis com o piloto.
– Todos devem morrer!
– Até o piloto?
– Sim, ele viu tudo.
– Certo, verifique os sinais vitais dos corpos.
Caso alguém apresente pulso, meta uma bala na cabeça.
Pegue suas carteiras, depois rachamos o dinheiro. Cuidarei
dos outros passageiros e do piloto. Ande logo, porque em
seguida outro helicóptero pousará aqui.
Escuto um deles tomando distância. Abro os
olhos, vejo o outro abaixando e entrando no helicóptero
tombado. A dor é terrível, cada movimento é como mil
agulhas perfurando meu corpo.
O tiro foi perto da coluna, mas consigo mover
o corpo, o tiro na perna dói demais, porém não parece um
ferimento grave. Não é hora para chorar, não é hora para
covardia.
Mexo a cabeça, vejo, a arma que usei. Dentro

121
do helicóptero o segurança confere os sinais vitais do
outro segurança.
Dobro a perna baleada e com ajuda dos braços
começo a evoluir na direção da arma. Um movimento
brusco, a dor é tamanha, tenho vontade de gritar. Fecho os
olhos e aguardo.
Olho para o segurança, está perto do corpo de
Garbo. Mais um movimento e paro, respiro, fecho os
olhos. Mais um movimento, espero, olho para o segurança
que agora está tirando o dinheiro de dentro da carteira do
falecido ministro. Além de assassino é ladrão, e é sua
ganância que fornece mais tempo.
Tento alcançar a arma, cerca de dez
centímetros nos separam, apenas mais um avanço. Agora
tira o dinheiro da carteira do outro segurança, sai do
helicóptero e olha para o rastro de sangue deixado por
meus ferimentos.
Demora alguns segundos para entender o que
está acontecendo. Tempo suficiente para vencer os dez
centímetros, mirar na sua cabeça e atirar. É certeiro, ele
cai agonizando aos meus pés.
Olho para a guarita, o outro vem com pressa
ao nosso encontro.
Fecho os olhos e aguardo. Mais perto chama
por seu colega que não responde. Fica intrigado. Quem
poderia ter matado seu colega? Abro os olhos e o vejo
averiguando dentro do helicóptero. Miro nas suas costas e
atiro. Uma, duas, três vezes. Os tiros entram na altura dos
pulmões. Vira antes de cair, atira na minha direção. O tiro
pega de raspão na testa. Tenho mais sorte do que imaginei.
O homem cai, sua respiração está difícil,
parece um asmático em crise.
O sangue escorre da minha testa até a orelha. É

122
quente e desconfortável.
Junto forças. Viro e começo a arrastar na sua
direção. Ainda segura a arma, deslizo para cima dele, deito
em seu peito e o desarmo. Apenas olha. Está pálido e a
respiração é praticamente inexistente.
Pego minha arma e encosto o cano na sua
têmpora. Aperto o gatilho, o sangue respinga para todos os
lados e suja o resto do meu rosto. Olho para a sala de
espera ao longe, ao lado do estacionamento, algumas
pessoas saem de lá e seguem na direção da tragédia.
Preciso ser ágil. Vasculho nos bolsos do
segurança. Pego seu celular, está bloqueado. Liberado
apenas para ligações de emergência. Não quero ligar para
a polícia. Um helicóptero pousa no gramado ao lado de
onde estamos. Tempo esgotado. Jogo a arma para longe e
rolo para o lado.
Fecho os olhos, a dor é tanta que preferia ter
morrido. Em alguns segundos pessoas estão ao meu redor,
apavorados com o ocorrido.
Aguardo, com os olhos fechados, brigando
com a dor até os paramédicos chegarem e verificarem que
estou viva – ela ainda está viva – um anuncia para todos,
sou colocada numa maca e levada para a ambulância.
Meus documentos estão no Volvo, logo
saberão quem sou, a pobre menina rica e agora assassina.
Falam comigo, não respondo, permaneço de olhos
fechados. Não terei mais volta. Marjorie acabou de vez.
A ambulância começa a rodar. Meus
ferimentos receberam os primeiros socorros, recebi algo
direto na veia, que fornece sono e alívio. Adormeço.

Acordo quando abrem a porta da ambulância.


Sou tirada de uma maca para outra.

123
– Foi baleada, aparentemente três vezes,
ferimentos graves no peito, cabeça, pernas. Escoriações
pelo corpo – diz o paramédico para outros profissionais
que puxam a maca para o interior do hospital – é um
milagre ainda respirar.
Começam os exames. As pessoas em volta
conversam banalidades. Então sou jogada mais algumas
vezes para outras macas, tiraram minha roupa, estou nua e
com muito frio.
Sinto uma pontada muito forte na coluna. Em
segundos muito sono invade meus pensamentos.
– O pessoal da polícia comentou, parece que
ela é uma moça muito rica, vem lá do sul do país – é a
última frase que escuto antes de adormecer.

***

– Gosto de pegar sol – solicito a enfermeira,


sorridente chega perto, arrasta minha cadeira de rodas até
a janela – obrigada, Dina!
– Sempre as ordens, Marjorie! – Olho com
reprovação, Dina sorri. – Desculpe, sempre esqueço que
prefere ser chamada de Paloma – coloca a jarra de água e
um copo na mesa ao meu lado e sai do quarto.
Já são 12 dias, estou aqui no hospital da
Capital Mato Sul. Muito aflita, sem notícias de Talico que
precisa me tirar daqui ou vou enlouquecer.

Descobriram minha identidade e logo fui


enviada ao quarto mais caro do hospital. O grupo Lã Cicic
está encarregado de pagar as despesas. O advogado da
empresa fez algumas visitas, explicou a situação que estou
metida perante a justiça. Sou acusada de atirar contra

124
Télber Niab e ameaçá-lo de morte. Para completar, não
pediu demissão do grupo, mas está afastado do trabalho,
segundo alega, traumatizado depois do ocorrido. Indicou
Arno para o seu lugar, ou seja, cumpriu metade do
ordenado, mas ainda está dependendo do grupo.
Precisaremos conversar mais uma vez. Quanto ao caso do
heliporto, fui interrogada, algumas vezes, relatei perda de
memória. O advogado ainda não sabe o posicionamento
das autoridades, mas não deve ser favorável, pois há um
policial de vigia no corredor, na frente da minha porta,
durante 24 horas por dia.
A cada novo interrogatório os policiais da
cidade de Planaltina vem com provas mais contundentes,
as pessoas da sala de espera são testemunhas e estão
prestes a provar que sou a responsável pelo banho de
sangue do heliporto. Querem fazer de mim a culpada por
matar um homem sórdido, mas para eles um respeitável
ministro. Deveria ganhar um prêmio, pois matá-lo foi bom
para o país.

***

Na décima noite, uma enfermeira que não


conheço invade o quarto. É muito estranho. Sempre foram
as mesmas enfermeiras que entraram aqui. Aliás, essa não
tem nem jeito de enfermeira. Começo a ficar tensa.
Chega bem perto, não terei chance de defesa,
mal consigo mover os braços. A enfermeira é linda, com
os olhos levemente puxados, como uma oriental, seu
cabelo é de tamanho médio, muito preto, liso e brilhante.
Estamos no escuro. Tento ligar a luz ao meu lado. Ela
coloca o dedo indicador na frente da boca, fazendo sinal
de silêncio. Pega a cadeira de rodas e traz perto da cama.

125
Depois reclina a cama.
– Suba na cadeira – sussurra.
– Quem é você? – Pergunto o mais baixo
possível. Estranhamente não estou com medo.
– Sou Atenas, fui enviada por Talico.
Fico aliviada. Movo o corpo, ainda tenho
muitas dores. Agora, durante a noite não necessito mais de
soro, o que facilita na locomoção. Com sua ajuda subo na
cadeira. Abre a porta, tomo um susto. O guarda está
sentado na cadeira, entretanto olha e sorri. É velho, usa
óculos de grau, barba e cabelos brancos.
Ele segura a ponta do seu quepe e a abaixa
num pequeno movimento de gracejo e sorri. Na sua mão
faltam alguns dedos. Sei que está conosco.
A moça empurra a cadeira em passos rápidos
até o elevador. Aperta o botão para descer. Esperamos,
olho para os lados, poucas pessoas nos corredores,
algumas enfermeiras, um médico. Aguardamos
impacientes, as portas abrem. Entramos, aperta o botão do
estacionamento, descemos.
Levanta o braço até a câmera do elevador,
percebo, segura um pequeno spray e com ele pinta a lente.
A tinta é preta.
O elevador para, a porta abre. O
estacionamento está quase vazio. Saímos, ela empurra. A
cada 5 metros a luz automática acende, acionada pelo
movimento.
Chegamos na picape preta, a misteriosa
oferece sua mão, é muito forte, me ajuda a embarcar.
Impulsiona a cadeira de rodas para o escuro, longe da
picape. Estou exausta, escoro a cabeça no banco. Senta no
banco do motorista ao meu lado. Essa picape faz lembrar
de Talico.

126
– Quem é o guarda?
– O chamamos de Professor – responde
prendendo meu cinto – o verdadeiro guarda está
desmaiado no banheiro – não dá a partida. Devemos
esperá-lo – é durona – diz muito satisfeita – seu estilo é
muito mais sangrento do que todos nós – sorri.
– Vocês são Assassinos de Anúbis?
– Somos integrantes do Pelotão Especial.
– Fiz o que era certo – digo – por que
demoraram tanto?
– Tivemos alguns problemas na Capital.
Viemos o mais rápido possível.
Vemos Professor chegando perto – parece
velho demais para ser um Assassinos de Anúbis –
comento.
– Não o subestime, tem muitas habilidades, o
que faz de sua idade apenas um número.
Não ouso responder. Ele entra na picape pela
porta traseira. Senta atrás de mim. Atenas liga o motor e
partimos.
Saímos do hospital sem dificuldades.
Rumamos para a saída da cidade.
– Satisfação em conhecê-la – Professor diz
para mim.
– Obrigada, sinto o mesmo.
– A viagem será longa – diz Atenas – sem
aviões ou helicópteros, é bom descansar – olha para mim.
Reclino o banco. Fecho os olhos e sonho com
Natal. A vida teria sido outra com aquele atrapalhado vivo
ao meu lado. Com todo o dinheiro a minha disposição
durante toda a vida, fui encontrar meu amor da forma mais
louca e perigosa possível. Longe de ser um grande
empresário, filho de um amigo do meu pai, como o velho

127
sempre sonhava.
O homem que amo morreu tentando matar
meu pai. Minha mãe morreu quando eu era uma menina.
Meu pai era um filho da puta de um empresário sem
coração que tratava minha mãe como lixo. Entreguei meu
melhor a garotos incapazes de dar prazer, tudo era tão
chato, tudo era tão rico e sofisticado. Então busquei minha
vida, fazer meu coração bater em outro ritmo, fora de casa.
O único homem capaz de satisfazer meus
desejos foi Natal, apesar de medroso no início, acabou
mostrando ser um grande homem, guerreiro e honesto.
Passou a ser chamado de Bengala, ajudou a germinar
Paloma, virou um Assassino de Anúbis, agora também
preciso lutar pela sua causa. Preciso me tornar uma
Assassina de Anúbis.

Abro os olhos, a neblina invadiu o asfalto. A


picape em alta velocidade, rasgando a estrada. Meu corpo
está dolorido, no hospital estava melhor. Fico triste por
lembrar de quem deixou saudade. Agora mergulho na
realidade.
– Quais foram os problemas? – Pergunto para
Atenas.
Ajeita o corpo atrás do volante, Professor
permanece em silêncio – quais problemas? – Retribui a
pergunta com outra. Esperava mais de uma Assassina.
– Você não precisa demonstrar ser
desentendida, sabe do que estou falando. Dos tais
problemas que atrasaram vocês na Capital – digo.
– Coisas bobas, já passaram, agora estamos
tratando de resolvê-los.
– Não enrole, diga logo o que aconteceu.
– Não estou autorizada a falar.

128
– Vamos, mereço saber a verdade e tem mais,
ficarei com vocês na batalha. Daqui para frente serei
Paloma – ela fica surpresa, olha para mim – então, trate de
começar a falar.
– Mas você é rica…
– Ande, conte logo. O dinheiro da minha
família cresceu sobre o sangue dos humildes, portanto não
é meu.
Professor ri nas minhas costas – ela é como
nos disseram. Língua afiada, personalidade gigante.
– Isso é um elogio? – Pergunto irônica.
– Sem dúvida, senhorita.
– Por favor, prefiro ser chamada de Paloma
daqui por diante.
– Como queira, senhorita Paloma.
– Mas ainda não contaram sobre os problemas.
Atenas limpa a garganta, a picape começa a
desacelerar. – Vamos trocar – diz ao Professor. Então olha
nos meus olhos e diz – Tomate-cereja retornou.
– Ele voltou! – Faço um movimento brusco de
espanto. Com o movimento a dor é espalhada pelo corpo
inteiro. Volto a antiga posição e fico imóvel.
– Sim – prossegue – estava resolvendo
assuntos particulares, sem envolvimento com os
Assassinos de Anúbis, mas acabou numa enrascada sem
tamanho. E o fim você pode imaginar, pessoas feridas e
corruptos mortos, aliás, seu estilo é muito parecido com o
dele.
– Tomate-cereja é incomparável, o homem que
não morre.
– Seguindo a história, – diz Professor sem tirar
os olhos da estrada – acabou envolvido com pessoas
perigosas e descobriu inimigos poderosos, como foram um

129
dia…
– Meu pai e Dilécio Mendez – digo o
interrompendo. – Achava que depois deles, seria fácil
desmontar a corrupção no país, mas os inimigos agora são
outros, os malditos lobos em pele de cordeiros. Não é
mesmo?
– Também achamos, contudo, além das
pessoas colocarem incapazes no poder, os corruptos
encontraram guardiões. Homens que querem ver o circo
pegar fogo – ela diz.
– Quem são eles?
– Ainda não sabemos ao certo. São chamados
de – Professor desvia de um grande buraco na estrada e
permanece em silêncio, prestando atenção nos buracos,
Atenas prossegue:
– São chamados de Olho de Hórus.
– É muito estranho os inimigos terem ligações
com a mesma mitologia que seguimos – concluo.
– Então, não sabemos muito, mas é no mínimo
bem curioso – ela diz.
– Talico nos falou, sem detalhes – diz
Professor – eles querem nos parar porque acham que o
mundo deve seguir sem interrupções. Com a injustiça,
corrupção, maldade. Acreditam que só assim, depois da
morte dos impuros, nos tornaremos humanos superiores.
– Caramba, isso é a maior loucura que já ouvi
– digo – neste ano, é muito mais surreal do que os malucos
alemães da SS – ficamos em silêncio.
Pessoas querendo ver outras morrendo e
matando, desejando a corrupção, violência e todas as
anomalias compreendidas pela sociedade. Querem as
pessoas morrendo para, com a dor, formar uma espécie de
pessoas superiores para viver o futuro. Confesso, não sei

130
até onde a loucura humana pode chegar.
– São como uma seita – diz Atenas – homens
poderosos querendo ver a morte. Não apoiam a justiça
nem a injustiça, nem a violência ou a paz. Esses malucos
querem ver as pessoas tidas como ‘inferiores’ morrendo
para herdar a terra.
– O inimigo é bem mais forte quando acredita
no absurdo – completa Professor.
Avisto um posto, Atenas fala – Paloma precisa
de água para os remédios.
Professor para na frente da loja de
conveniências, Atenas desce. A loja é toda de vidro.
Observamos ela comprar garrafas de água e dois copos de
isopor cheios de café.
Retorna, abre a porta do meu lado, faz o
mesmo com o porta-luvas e vejo algumas embalagens de
remédios. Pega um de cada e coloca na minha mão –
Talico os receitou – diz entrando na picape.
Voltamos para a estrada. Os remédios são
ótimos, trazem alívio imediato.
– Você precisa descansar – diz Atenas. Fecho
os olhos e adormeço.

Abro os olhos, é dia, Atenas está dirigindo.


Não percebi quando fizeram a troca. Ainda não consigo
virar para ver Professor, mas tenho certeza, deve estar
muito cansado e dormindo, pois escuto seu ronco.
Minha boca está seca, corpo muito cansado –
acredita que estamos fazendo a coisa certa? – Pergunto.
– Nem a coisa certa, nem a coisa errada. Não
sei se é certo ou bom, mas fazemos o que é necessário. As
pessoas morrem de fome por causa da má política neste
país continental. Matar é errado, mas quantas pessoas eles

131
matam quando tomam decisões erradas? Desviando
dinheiro público que serviria para alentar os mais pobres,
mudando a previdência e fazendo os trabalhadores
praticamente morrerem nas fábricas. O que fizemos é
errado, mas tenho a consciência tranquila porque o que
eles fazem é ainda pior.
– Estamos numa guerra.
– Quem decide levantar a guarda contra o mal,
fazendo uso da mesma violência está em guerra física e
moral desde o primeiro segundo.
– Ainda falta muito? – Pergunto olhando o sol
a nossa esquerda. Estou muito cansada. De repente ouvir e
falar sobre nosso posicionamento político esgotou minhas
energias.
– Para a capital, 250 km.
Pego a garrafa e bebo água. Não conheço o
trecho onde estamos. Fecho os olhos e adormeço
novamente.

Abro os olhos. O sol está no meio do céu.


Meio-dia de mais um dia.
Estamos perto, reconheço a larga rodovia de
acesso a Capital.
– Tem mais alguma coisa que preciso saber
antes de chegar ao Hospital.
– Tudo que ainda precisa saber, Talico contará
– Atenas responde enigmática, segue dirigindo atenta pelo
intenso tráfego de carros.
Segue acelerando. Entramos na Capital. Quero
estar melhor para conseguir ajudá-los. Cada minuto é uma
aflição.
Chegamos no Hospital Estadual de
Transplantes. Apesar da reforma depois do incêndio, tudo

132
parece igual.
Estaciona no lado privado do estacionamento.
Um homem, acima do peso, sorridente nos espera. Está
vestido de preto como nós, mas não parece ser um
Assassino. Na sua frente uma cadeira de rodas. Será que é
um Assassinos de Anúbis, mesmo parecendo um
humorista de stand up?
– Paloma, esse é Barriga, nosso colega – diz, o
cumprimento. Realmente o Pelotão Especial mudou
sobremaneira.
– Seja bem-vinda, Paloma – ele diz
aumentando o sorriso.
Esse novo Pelotão Especial, tirando Tomate-
cereja e Pai, parece mais um grupo de pessoas normais
vestidas de preto.
Sou auxiliada a sentar, seguimos todos ao
elevador, sem conversar.
Chegamos na sala de Talico. Sou recebida com
um forte abraço fazendo meus ferimentos doerem. Está
mais velho, com o mesmo jeito estranho de caminhar e a
cara de bobo.
– Seja bem-vinda, Paloma – sorri, com um
sinal faz os outros sentarem.
Caminha até sua mesa. Acima de sua cabeça a
foto de Guevara praticando medicina em Buenos Aires
ainda faz Lauro muito presente.
– Creio que já foram apresentados – prossegue
– então vamos ao que interessa. Carlos Calamaris foi solto
por habeas corpus – sorrio – a mãe de Margô já sabe que
Garbo e seus seguranças foram responsáveis pela morte de
sua filha. Também sabe quem os julgou – sou pega de
surpresa – ela agradeceu a você, Paloma. Ela agora é nossa
colaboradora, jamais vai encarar as coisas do mesmo jeito.

133
No grupo Lã Cicic, Télber Niab, após breve afastamento,
pediu exoneração do seu cargo e para seu lugar nomeou o
chefe da segurança Arno Ralf. Apesar do assédio negativo
da imprensa, as ações subiram, parece que todos gostaram
de ver um homem honesto na presidência da maior
fabricante de roupas do país. Marjorie Cicic, estava sendo
investigada pela morte de Garbo e sua pequena milícia,
mas nada foi provado, entretanto, com sua fuga complicou
muito sua situação.
– Não me entregarei – digo.
– Tudo bem, entretanto saiba, não indo ao
julgamento a defesa fica impossível, é o fim para Marjorie
Cicic.
– Sabe que Marjorie Cicic deu lugar a Paloma
Frances no dia que fugi de casa.
– Tudo bem – sorri fraterno – fico feliz com
sua escolha.
– Quero ficar aqui, acredito que provei meu
valor ao matar Garbo.
– Foi muito corajosa em atacá-los sem ao
menos estar armada. Poucas vezes vi um ato tão corajoso.
– Obrigada – digo com os olhos marejados de
emoção.
– A propósito, os órgãos dos corpos foram
importantes. Fiquei sabendo, o Hospital de Transplantes
do Mato Sul conseguiu salvar muitas pessoas.
– Fico contente. Então serei aceita como
Assassina de Anúbis?
– Sim, será aceita e seu codinome é apenas o
nome que escolheu usar, Paloma Frances, pois representa
muito para sua transformação. É um prazer tê-la conosco.
Seja bem-vinda.
– Obrigada! Na viagem, Atenas e Professor

134
contaram o problema com o Olho de Hórus, porém sem
detalhes. Agora que sou uma Assassina, tenho o direito de
saber a verdade.
Olho para todos, de repente ficaram tristes e
vencidos como o último soldado no final da guerra.
– Primeiro, sabemos apenas o nome de um
integrante, trata-se de Casius Yung, proprietário da rede de
lojas Tamann. Não há sequer sinal de outros. Inclusive,
acredito que esteja sozinho nessa.
– O maluco careca de Sant Catarine – falo.
– Esse mesmo – prossegue Talico – o
problema é: sabemos pouco do Olho de Hórus, já eles
estão descobrindo nossas identidades e estudando os
estilos de ataque e então – olha muito grave – começaram
a nos atacar.
– Sim, porém Tomate-cereja saiu ileso do
ataque – completo orgulhosa.
– Não foi o único, houveram outros ataques.
Olho para todos, dou conta que não sei
quantos estão no Pelotão Especial, lembro apenas os
sobreviventes que são Pai e Tomate-cereja – quantos
formam o pelotão especial? – Pergunto.
– Atenas, Barriga, Professor, o retorno de
Tomate-cereja e dois novos recrutamentos: você e
Krypton.
São seis, é o número ideal, como foi no
passado, contudo falta um nome. Estou confusa. Os
Assassinos ao meu lado ficam inquietos, olhos marejados
– Pai voltou para casa? – Pergunto.
– Não, Pai teve um conflito com o Olho de
Hórus – diz cabisbaixo, tristeza invade meu coração.
Tenho medo de seguir a conversa – estava investigando
como o Olho de Hórus está organizado, seguiu uma pista e

135
foi surpreendido. Paloma, o Pai está morto. Foi vítima de
uma explosão no Centro.
– Caramba – lágrimas silenciosas começam a
cair – era um soldado muito experiente, talvez o melhor –
não resisto, começo a chorar e soluçar.
– Em muitos quesitos era o melhor, mas
nossos inimigos também parecem ser – conclui Talico
muito triste.

***

As árvores muito verdes. O sol do final da


tarde. Estou na cadeira de rodas, ao meu lado direito
Professor, Atenas e Talico, ao meu lado esquerdo Barriga
e Krypton. No outro lado do caixão, Tomate-cereja, agora
mais velho, com a calva ainda maior, ao seu lado Gabriela
e Maurício, que agora já é quase um homem, com seus
lindos 12 anos. Também senti uma dor inimaginável mais
ou menos com a mesma idade. Foi a morte de minha mãe.
– Para nós ele era Pai, para sua esposa e filho,
Césio. Um grande homem – diz Talico – viveu entre o
bem e o mal por anos. Seu coração era puro, por isso foi
reconhecido como homem de confiança por meu tio, assim
como para mim. Grande soldado e na ausência de Tomate-
cereja, durante esses anos foi o líder do Pelotão Especial.
“Quis o destino que um substituísse o outro
nos momentos mais difíceis, como esse no qual vivemos
agora. Sua família – olha para Gabriela e Maurício que
estão chorando – devem ficar orgulhosos, pois sempre foi
um exemplo para todos – finaliza.”
Os Assassinos de Anúbis abaixam o caixão até
o chão da cova. Dentro do caixão não há corpo, não
sobrou o que enterrar depois da explosão. O que preenche

136
são as roupas pretas de Pai, junto com sua arma preferida.
O enterro foi um pedido de Gabriela, muito
religiosa, e prontamente atendido por Talico.
Barriga e Professor, cada um com uma pá,
começam a fechar a cova. Assisto a terra cobrir a madeira.
Tudo é melancolia.
Todos querem vingar Pai, mas ao mesmo
tempo não sabemos ao certo por onde começar. Não será
apenas matar Casius Yung, é necessário saber todos os
elementos que envolvem o Olho de Hórus.

***

Sessões de fisioterapia, academia, natação,


estou recebendo tratamento de atleta. Quero estar apta o
mais rápido possível. Existe um verdadeiro complexo
esportivo em um anexo secreto dentro do Hospital
Estadual de Transplantes. Tudo para transformar os
Assassinos de Anúbis em máquinas de combate.

Recebo uma mensagem de texto de Talico.


Está convocando uma reunião urgente. Preparo as coisas,
visto a farda dos Assassinos e caminho até a sala da
presidência. Estou ansiosa para combater os corruptos.
Ao chegar, vejo Talico sentado atrás de sua
mesa, Tomate-cereja, Professor e Krypton esperando na
sua frente. Os outros devem estar em missões.
– Olá, Paloma! – diz Talico. O cumprimento
com um movimento de cabeça, faço o mesmo com os
outros – temos novidades – diz contente, parece renovado,
cheio de energia – um policial perito, nosso colaborador,
encontrou um celular dentro da lata de lixo no lado de fora
do local da explosão que causou a morte de Pai. De

137
alguma forma já esperava o pior, por isso parou com a
comunicação, fazia alguns dias antes de sua morte que não
nos falamos. O celular, um aparelho novo, comprado com
o nome civil de Pai numa loja perto da explosão. Não há
ligações, nem mensagens. Apenas um vídeo – vira a tela
do computador para nosso lado e solta o vídeo.
Pai aparece nervoso, a câmera pega seu rosto
de baixo, caminha a passos rápidos, respiração acelerada,
às suas costas os prédios de uma rua da Capital. Barulho
de carros passando, buzinas, conversas e pedestres.
"Olá, Talico – diz no vídeo – ou para quem
estiver vendo esse vídeo. Caso esse celular seja
encontrado, precisa chegar as mãos de Talico, o presidente
do Hospital Estadual de Transplantes. Toda e qualquer
parte desta mensagem é secreta. Civis em posse dela
devem procurar Talico e será recompensado,
financeiramente.
Talico, caso esteja vendo esse vídeo, desculpe
não ter entrado em contato para pedir ajuda. Acredito,
tendo feito isso todos estariam mortos, inclusive nossos
familiares. Estou fazendo esse vídeo num último ato,
acreditando nos colaboradores dos Assassinos de Anúbis.
Torcendo para que encontrem esse material caso algo
aconteça comigo e não caiam nas mãos de pessoas erradas.
Após o reaparecimento de Tomate-cereja, e
diante dos atentados sofridos fui designado por Talico para
investigar o Olho de Hórus. No início foi complicado,
parti de coisas amplas. Segui a pista de Casius Yung e
sequestrei e interroguei um dos seus seguranças, o mais
antigo, chamado Toni Capoam. É realmente intrigante
esses homens não matarem os Assassinos capturados.
Depois de usar meus métodos pouco cristãos,
o homem começou a falar. Contou o que sabe. Logo

138
depois da formatura de Casius, o próprio coligou-se com
políticos e espalhou a filosofia do Olho de Hórus por
vários Estados e pelos partidos de direita. A maioria não
sabia o que desejava, afinal, já era um empresário com
certo sucesso e muito dinheiro para gastar. Com seu apoio,
políticos armaram traficantes, corromperam o sistema,
apoiaram e não apoiaram várias questões sociais, somente
para instalar a discórdia. Financiou empreendimentos
superfaturados, apoiou o aumento do combustível, o fim
das verbas públicas e todas as coisas que prejudicaram os
mais necessitados.
Aos poucos, os que continuaram dentro do
Olho de Hórus foram contra as iniciativas radicais de
Casius, e abandonaram o grupo. Sim, não fiquem
espantados, descobri que o velho está sozinho nessa. E o
Olho de Hórus é como um Assassinos de Anúbis às
avessas.
O proprietário das lojas Tamann, segundo o
segurança, é o homem mais egoísta já conhecido e
realmente acredita que seu compromisso com o mundo é
limpá-lo, assim como Lauro queria eliminar a corrupção,
esse homem acredita que algumas pessoas não têm o
direito de viver. Fez disso seu projeto de vida. Antes de
morrer Toni confessou, seu chefe, agora está sozinho, mas
contratou assassinos capazes de ajudá-lo, como Lauro fez
conosco. Já os políticos aceitam seu dinheiro e ajuda para
financiar suas campanhas, em troca, Casius pede o que
deseja.
Não está exclusivamente atrás de nós. Somos
apenas mais um de seus alvos. Primeiro eliminaram os
líderes políticos deste país que lutam pela igualdade social
como a Elma Saniff e Molu da Valci. Estão conseguindo
acompanhar meu raciocínio? Sei que estou parecendo um

139
pouco contraditório, mas talvez não tenha tempo de
explicar tudo com detalhes. O velho doido também apoia
ruralistas e agropecuaristas no desmatamento da Floresta
Amazionia – para, ofegante, respira fundo, olha para os
lados, atravessa a rua e volta a falar para a câmera – então,
o mais assustador é que o Olho de Hórus não é uma legião
de homens sórdidos e sim apenas um muito rico e maluco,
com seu dinheiro sujo, apoiando outros homens sórdidos,
sem nenhum critério, apenas com o desejo de ver as
pessoas morrendo de fome, violência ou doenças. E com
seu dinheiro pode fazer uma equipe tão mortal quanto o
nosso Pelotão Especial.
Como sabemos, muitos homens nos querem
fora de ação, mas não estão organizados em uma ordem,
apenas a ganância os une. Olho de Hórus começou no
passado, uma ideia meio distorcida de um bando de
adolescentes ricos e acabou sendo alimentada por um
deles, que virou um grande empresário do país.
Segundo o segurança, o velho usa boa parte do
seu dinheiro para manter seu plano, e muitas pessoas estão
envolvidas. Pegando o velho, toda a rede de impunidade e
corrupção que ele sustenta cairá, terminamos com seu
sonho utópico e todo o mal enfraquece mais um pouco –
então para de caminhar, vai para perto da parede, olha
assustado para a rua e entra num beco – minha pista estava
certa, acabo de ver Nico Mezzacasa entrando num
restaurante. O que!? – Exclama muito assustado, algo está
acontecendo. Engole em seco e prossegue ainda mais
nervoso. – Então, Nico é o policial corrupto braço direito
de Casius, ganha muito dinheiro para fazer seu trabalho
sujo. O capturando saberei ainda mais sobre o Olho de
Hórus, pois nada, até agora está muito claro – afasta o
celular e pega sua arma – volto logo, preciso saber onde

140
está o velho – diz largando o celular ainda gravando entre
o lixo, são suas últimas palavras."
– Ao entrar no restaurante – diz Talico – Pai
foi vítima de uma emboscada. Segundo nossos
colaboradores as mesas estavam vazias, não haviam
clientes. Pai tentou correr para a rua, não teve tempo.
Quatro bombas de média potência explodiram ao mesmo
tempo, Pai deve ter morrido na hora. – Talico fecha o
notebook e olha grave para nós – antes de descobrirem o
vídeo, Pai conseguiu informar algumas descobertas. Uma
delas é que Casius Yung faz uma reunião, uma espécie de
missa, semanalmente na Igreja Central, na ocasião
recepciona seus novos aliados num ritual insano. Para
serem reconhecidos, neste dia, ele e seus seguranças usam
as cores verde e amarelo. Sabemos que patrocina nossos
inimigos e como ele e seus seguranças comportam-se
durante esse dia, agora nos resta atacar.
– Irei na missão – diz Tomate-cereja. Ninguém
tem objeções, sabemos que é o mais preparado para pegar
o velho Casius e seus seguranças.

141
142
Mesmo não querendo prosseguir, o medo toma conta
dos justos durante o caminho
Não sabemos quando a mão invisível nos calará
Com todos os motivos para desistir uma pergunta
sempre surgirá
“Mas por que não desisto?”
Porque estamos do lado do bem e sempre venceremos
o mal.

Parte III
Thiago
143
144
Três dias depois…
Entro na igreja. No altar um homem de
camisa amarela com detalhes em verde, sou chamado com
um sinal.
Sigo no seu encalço. O homem vira e entra
numa porta lateral, entro em seguida. É uma imensa sala
anexa.
O homem senta na extrema direita de uma
imensa mesa, ao seu lado mais quatro pessoas, todos
vestidos de verde e amarelo. Quatro homens e uma
mulher. Com exceção do velho no centro, todos parecem
assassinos profissionais.
– Pode sentar – o que está no meio ordena. É
um homem velho, careca, sem barba, tenho a impressão de
tê-lo visto em algum lugar, talvez numa propaganda de
TV. Antes de falar pega um bocal de oxigênio, então olho
para o chão e vejo ao seu lado um cilindro. Respira
profundamente e depois fala – sabe quem sou?
– Não e não estou interessa em saber. São
apenas meus contratantes, nada mais.
– Muito bem, mas gosto de dizer. Sou Casius
Young, milionário, dono das lojas Tamann – sim, por isso
achava que já o tinha visto, é o velho maluco das lojas.
Não sabia que estava doente. Seu egocentrismo não o
deixou ficar com sua identidade oculta.
– Olá, senhor Casius.
– Muito bem, agora que já sabe quem sou,
vamos aos negócios. Seu agenciador nos deu boas
referências, – respira mais uma vez do cilindro – relatou
que foi por muito tempo um dos melhores assassinos de
aluguel da Capital.

145
– Fui não, ainda sou. Estive fora por um
tempo, agora estou de volta a ativa.
– Muito bom. Receberá 2 milhões adiantados e
o restante depois do serviço feito.
– Tudo bem, qual é o alvo?
O velho retira uma foto de dentro de uma pasta
verde a sua frente, a coloca sobre a mesa, vira para mim e
arrasta.
Pego a foto, vejo um homem na casa dos trinta
anos, cabelo numa cor intermediária entre ruivo e loiro,
uma barbicha embaixo do queixo e óculos de grau com
armação redonda.
Conheço o rapaz da foto. Foi um dos
responsáveis por salvar meu afilhado e Césio. Estive longe
dos negócios desde o dia que assassinos invadiram meu
apartamento para acabar comigo, mas investiguei o
destino das coisas.
– Conhece o alvo? – O velho pergunta diante
da reação dos meus olhos.
– Não! – Respondo tentando ser convincente,
sabendo que os outros assassinos na sua volta podem
detectar a mentira na entonação da minha voz.
– Seu nome é Talico – diz o velho depois de
respirar no aparelho – atualmente é o Presidente do
Hospital Estadual de Transplantes, temos indícios para
acreditar que é o homem por trás de uma seita criminosa
aqui na Capital. Queremos ele morto, está atrapalhando
nossos projetos. Segundo seu agenciador, é o assassino
mais indicado para matá-lo.
– Tudo bem – pego a foto e a guardo no bolso
interno do casaco.
– Tem mais uma coisa. Ele é cercado por
homens bem treinados e perigosos.

146
– Sem problemas. Dou conta!
Levanto e caminho para a porta, sem dizer
adeus.
– Tem uma semana – completa.
Saio da igreja, algumas beatas rezam por um
deus que não vem, entro no meu carro e dirijo pela
Capital.
Foram alguns anos longe da cidade, desde
então muita coisa mudou. Menos as pessoas comendo do
lixo, as calçadas sujas, as pessoas ricas vivendo em
paralelo. Alguns gritam nas esquinas vendendo coisas sem
sentido. Paro na sinaleira, abro o vidro, respiro o fétido e
poluído ar da Capital. Tudo está igual. Tudo é doença e
megalomania.
Contratado para matar o homem que salvou
Maurício. Deveria ter guardado o contato de Césio,
poderia alertá-lo do perigo.

Chego no Hospital Estadual de Transplantes.


Não há seguranças, apenas uma cancela eletrônica,
estaciono com tranquilidade. Sigo o caminho até a
recepção. Entro, outra vez sem seguranças.
Quatro fileiras de cadeiras, todas preenchidas,
alguns de pé, alguns cadeirantes formam outra fila a frente
com suas cadeiras de rodas. Ao lado da recepção um rolo
de senhas. Pego a minha e aguardo ser chamado.
Sou chamado, sento no guichê de atendimento,
a recepcionista sorri – boa tarde, senhor! No que posso
ajudá-lo?
– Boa tarde. Me chamo Thiago e gostaria de
falar com Talico.
Segue sorrindo – por favor, só um instante,
senhor – pega o telefone, conversa rapidamente e coloca o

147
fone no gancho – irá recebê-lo. Por favor, a esquerda no
final do corredor – aponta com o indicador para onde devo
ir – pegue o elevador até o quinto andar.
Acho tudo muito estranho, a moça sequer
pediu meu sobrenome. É algo muito curioso, jamais
imaginei que entrar no hospital e falar com Talico seria tão
simples. Não há burocracia. Não há perigo para matá-lo.
Saio do elevador, um corredor sem portas,
caminho até o final. Dobro a esquerda e chego numa porta,
nela há uma placa, está escrito o nome e o título carregado
por Talico.
Bato na porta. Em segundos Talico abre, está
sorrindo. Nunca nos vimos, eu já o vi, ele não me viu, mas
seu olhar passa algo diferente. Parece que já nos
conhecemos.
– Olá, entre – sou convidado com um sinal
cortês. Adentro na sua imensa sala – sente aqui – mostra a
cadeira na frente da sua mesa. É um homem corajoso.
Sabe sua posição e mesmo assim recebe desconhecidos na
sua sala.
– Sabe quem sou? – Pergunto quando sento.
– Sei – diz sorrindo e dá a volta na mesa e
senta na sua confortável cadeira.
– Seu nome é Thiago, amigo íntimo de Césio,
nosso Pai. É padrinho de Maurício.
– Exato. Você é bom. Estive fora da cidade
durante os últimos anos. Depois que recusamos o serviço
para matar Elma Saniff, fui caçado incessantemente por
mercenários. Sabe, a própria agência colocou minha
cabeça a prêmio e muitos assassinos gananciosos
resolveram tentar a sorte. Matei todos. Já com Césio foi
diferente, não sei como conseguiram, mas o fizeram sumir
do radar da agência. Então um dia eles pararam de chegar

148
e decidi voltar ao jogo.
– Sabe o quanto repudiamos assassinos de
aluguel, mas essa é sua escola, a respeito. Como disse,
voltou ao jogo, isso quer dizer que seu próximo alvo tem a
ver comigo. O que veio buscar?
Tiro a foto do casaco e jogo em cima da sua
mesa, percebe que é ele na foto e recompõe a postura – 5
milhões para matá-lo. Tenho uma semana para completar
o serviço.
– E cumprirá sua tarefa? – Está encarando
profundamente. Sem dúvida, é difícil matar um homem
que parece tão bom.
– É muito ruim fugir por não completar uma
missão, passarei a ser um alvo gigante, mas confesso que
adorei ver tantos assassinos inexperientes tentando me
matar. Por isso, não vou completar o serviço, quero
mesmo ver Césio, dar um abraço forte no meu grande
amigo, ver Gabriela e Maurício e depois voltar de onde
vim.
– Abraçar Césio, isso será impossível.
– Está numa missão?
– Não, Thiago, ele morreu, o enterramos há
três dias, estava em perseguição e caiu numa emboscada.
Uma explosão no Centro da Capital.
Meu coração dispara. Meu amigo, servimos
juntos nas missões de paz da ONU, matamos, salvamos,
sequestramos, aprendemos. Césio foi a única família que
tive. Juntos desde os 19 anos até o problema com a saúde
de Maurício obrigá-lo a seguir noutra direção. Jamais
pensei na sua morte.
– Quem foi o responsável? – Pergunto,
levantando e dando um soco sobre a mesa.
– Primeiro um de nossos homens foi atacado.

149
Então, há duas semanas, Tomate-cereja, nosso líder, foi
encontrado e ameaçado por Nico Mezzacasa. Na ocasião
acabou parando em San Paolo de forma misteriosa. Na
oportunidade contou que o Olho de Hórus estava
monitorando nossos movimentos, nos ordenou a parar com
nossas missões. Como deve imaginar, não paramos.
Passamos a investigar o Olho de Hórus, Pai estava a frente
da operação. Até ser atraído por Nico para um restaurante,
entrou no encalço do investigado, quando percebeu que o
restaurante estava vazio, era uma emboscada, tentou
escapar. Era impossível.
– Não posso acreditar, era tão experiente,
devia ter previsto.
– Antes de morrer, nos deixou um vídeo.
Vira seu notebook na minha direção e solta o
vídeo, Césio relata os fatos que até o momento descobriu.
Tento não parecer assustado.
O destino aprontou mais essa comigo. Meu
primeiro serviço no retorno é matar alguém que ajuda as
pessoas, por mais que a forma pareça errada, faz o bem ao
seu jeito. Então descubro, meu melhor amigo, a pessoa
mais importante da minha vida, está morto.
– Algo parece dizer que meus contratantes têm
algo a ver com a morte de Césio. É o velho rico e
excêntrico, seu nome é Casius Yung.
– Tudo leva a crer que é o responsável pelo
Olho de Hórus.
– Mataram meu amigo e agora o querem
morto. Devem saber a verdade sobre os Assassinos de
Anúbis – nos encaramos.
– Então, chegaram até meu nome, realmente
nos acharam – diz vencido.
– É, mas parece que é seu dia de sorte.

150
Dependendo somente de mim, viverá.
– Pode sair – diz em voz alta, não entendo.
Uma porta ao lado abre, uma linda moça, com o cabelo
ruivo sai, segura uma metralhadora, vestida de preto –
parece que nosso convidado veio em paz, pode baixar a
arma – conclui Talico.
A moça abaixa a arma e caminha para a
grande janela que dá vista para as árvores do bairro. Pega
um cigarro, acende e permanece contemplando a
paisagem. Não olha mais para nós.
– O que pretende fazer? – Pergunto.
– O velho Casius Yung é doente, deseja a
morte do mundo, jura que somente assim salvará o
planeta. O Olho de Hórus está atrapalhando nosso
trabalho, matando nossos soldados, precisamos reagir.
Mataram um homem honrado, pai e amigo. Sem dúvida
revidaremos.
Alguém bate na porta do consultório. A moça
ruiva fica imóvel, Talico levanta e abre a porta. Um
homem muito magro com calva e outro muito alto, com
braços e pernas de metal entram. Isso é surpreendente,
nunca vi um ser humano assim, parece um robô.
O homem magro quando percebe minha
presença saca sua arma e aponta na minha direção – esse
homem veio matá-lo – diz caminhando ao encontro de
Talico, fazendo com que fique protegido as suas costas.
O homem alto caminha ao meu encontro, me
segura pelos braços. Seus dedos de metal são frios e sua
força é descomunal. Tira meus pés do chão.
– Não, Krypton – diz Talico, saindo detrás do
magro e abaixa seus braços – largue o Thiago. Ele veio em
paz.
– Esse homem estava na igreja com Casius

151
Yung, trabalha para o Olho de Hórus. É um assassino de
aluguel e veio matá-lo – diz o magro.
– Tens razão – prossegue Talico – foi
contratado para isso, mas não vai completar o trabalho.
Pode soltá-lo, Krypton – sou solta, sinto alívio, meus
braços estão doloridos – seu nome é Thiago, trabalhava ao
lado de Pai para matar Elma Saniff, é padrinho de
Maurício, e está tão triste quanto nós pela morte de seu
amigo.
– Não podemos confiar em ninguém – diz o
magro. Ainda segura a arma ao lado do corpo.
– Soube que Talico seria meu alvo no
momento da reunião – digo – não vim aqui matá-lo, pelo
contrário, queria apenas alertá-lo antes de fugir.
– Seus contratantes mataram Pai – diz o magro
– sabe disso?
– Talico contou e compartilho da mesma raiva.
Quero vingar meu amigo.
– Agora que todos estão mais calmos – diz
Talico num tom apaziguador – vamos sentar e conversar –
nos sentamos na frente dele, a moça sai da janela e junta-
se a nós. O médico faz as honras – bom Thiago, o grandão
é Kripton, veio de San Paolo para nos ajudar, a moça é
Paloma Frances e o homem ao seu lado é Tomate-cereja.
– Olá! – Digo a todos que respondem com
menos entusiasmo.
– Então Tomate-cereja, o que descobriram?
– O velho tem um exército ao seu dispor.
Camuflados ou disfarçados, contamos 20 seguranças ao
redor da igreja. Atacar era impossível – relata Tomate-
cereja – são mercenários, ex-soldados de alta performance.
– Detectei, pelo menos, 18 deles ao entrar –
digo – pareciam soldados experientes e bem treinados.

152
– E o que faremos? – Apreensivo, Talico
pergunta ao seu líder.
– O que fazemos quando nos acuam. Vamos
revidar e matar os camisas amarelas – diz Tomate-cereja.
– Pensando bem, já não tenho mais certeza que
é ou não a melhor alternativa, – diz Talico – muitos
morreram da última vez que decidimos isso. Diante de
tantos seguranças experientes, não podemos simplesmente
pegar em armas e partir para cima. Precisamos de
planejamento.
– Posso ajudar – os interrompo, todos prestam
atenção.
– Ser ajudado por um assassino de aluguel,
parece piada – diz Krypton desdenhoso, tem a voz grave.
– O robozinho fala – digo irônico.
– O robô aqui pode esmagá-lo com as próprias
mãos – está muito bravo.
– Essas mãos não são suas, homem de lata.
– Levante daí e provarei quem é o homem de
lata – esbraveja.
– Silêncio! – Diz Talico irritado – Thiago é um
assassino de aluguel, assim como Pai foi um dia. Acredito
na redenção dos homens.
– Pai tinha um bom motivo para isso –
completa Tomate-cereja.
– Espero que Thiago também. Vamos, pelo
menos, ouvir seu plano. Anda, nos conte o que planejou –
fala Talico.
– Em até uma semana preciso matá-lo. Isso
não vai acontecer, então virão atrás de mim. Nesses anos
dezenas de mercenários tentaram minha morte, muitos não
querem um assassino de aluguel sem palavra a solta. Então
voltei ao jogo provando que sou bom para tal. Não

153
completando a missão, outros assassinos virão atrás de
mim, e outros, e outros…
"Não matarei Talico – olho para ele – mas
aconselho, em no máximo uma semana, suas aparições
públicas devem parar, sua segurança deve aumentar.
Vou esperar os assassinos da agência
chegarem. Matarei todos, e ao mesmo tempo caçarei os
amarelos que trabalham para o Olho de Hórus. Quando
chegar o momento certo os convocarei e começaremos a
guerra."
– Parece bom – diz Talico.
– Pelo menos não é um completo covarde –
diz Krypton.
Talico dá de ombros às suas palavras – todos
estão de acordo? – Pergunta, Krypton fica em silêncio,
mas Tomate-cereja e Paloma não concordam. – Tudo bem,
tudo bem, então assim será, tomarei a decisão – olha para
mim – concordo, Thiago. Confiaremos no seu plano – seus
soldados o contrariam com o olhar.
Saímos da reunião. Tudo está acordado. Até o
limite do prazo serão sagradas horas de paz. Preciso
aproveitar.
Dirijo na direção do meu antigo apartamento.
O edifício é velho e pouco luxuoso. Ainda tenho as
chaves. Primeiro o portão enferrujado, depois a porta do
saguão. Subo as escadas até meu andar.
Aqui Césio matou dois homens depois que
desapareci. Testo a antiga chave, não consigo abrir,
trocaram a fechadura. Não percebo movimentos no
interior do imóvel, então em alguns segundos arrebento a
tranca.
O ar pesado me faz espirrar. Cheiro de
fechado. Nunca coloquei o imóvel a venda, a troca da

154
fechadura deve ter sido obra do condomínio.
Vou até o interruptor, não há luz. Os móveis
estão cobertos por lençóis. Caminho pelos cômodos, a
cozinha está com os armários vazios, o mesmo acontece
com a geladeira. Na despensa a porta está furada por tiros,
no chão tem uma mancha de sangue mal limpa. Seja como
for, não terminaram de arrumar as coisas por aqui.
Vou até o quadro eletrônico no final do
corredor do andar. Religo a energia do apartamento.
Retorno, giro o pesado registro que fica embaixo do
tanque de lavar roupas e abro a água.
No banheiro o chuveiro ainda funciona, água
quente para relaxar depois de um dia cansativo.
No armário, as roupas ainda estão dobradas, o
cheiro é muito desagradável. Jogo tudo na máquina,
mesmo sem sabão e fico nu até que tudo esteja mais limpo
e seco.
Ligo a TV, acendo um cigarro e deixo o tempo
passar, depois de tanto tempo, da forma mais normal
possível. Lar doce lar…

***

Ajo normalmente, os vizinhos antigos ficam


assustados ao me ver. Nunca fui um bom vizinho, por isso
nenhum decide perguntar como tenho passado, o que
andei fazendo nesses longos anos longe de casa. Não
precisar ter contato com eles é um alívio.
Supermercado, comida japonesa, churrasco,
restaurantes no Centro, cinema, sorvete, fast food. Até o
último dia faço todas as coisas possíveis com minha
liberdade provisória.
Deixo todas as câmeras filmarem meu rosto.

155
Converso com vendedores de loja, gasto muito dinheiro
em futilidades.
Redecoro o apartamento, os vizinhos ficam
acostumados com a minha presença, quem não gostou foi
o síndico, já mandou cartas para cobrar as mensalidades
do condomínio que estão atrasadas e a troca da porta.
Certamente, alguns assassinos mais
experientes sabem onde estou e devem ter percebido que
pretendo não cumprir o trabalho.

A semana passou. É de noite! As portas estão


destrancadas, espero no sofá, a arma ao meu lado, logo o
primeiro assassino entrará pela porta.
O silêncio é quebrado pelos movimentos dos
carros na rua. Somos eu e o destino. Hoje tudo pode
acabar. O condomínio mais uma vez acordará com o
barulho dos tiros.
Fecho os olhos, lembro, ou pelo menos, tento
lembrar de quem sou. No meio de tanta coisa errada não
posso parecer óbvio. Tudo foi sempre por amor.
Foi aqui na Capital, neste mesmo bairro que
cresci. Um garoto normal, pobre, correndo sem camisa
pelas praças, nas quadras de futebol, sempre atrás de uma
bola.
Não fui um pequeno prodígio, sem notas altas,
roupas bonitas, talentos artísticos, nem namorei as
meninas mais bonitas na escola. Tudo foi normal e por ser
assim não posso afirmar que fui ou não feliz. Meus pais
foram boas pessoas, homem e mulher comum.
Acordavam, trabalhavam e dormiam. Assim também fui
ensinado a ser. E como esperar o contrário? Só olha para o
horizonte quem tem tempo ou é iluminado. No meu caso,
não fui instruído para tal e meu tempo foi desperdiçado

156
sem conseguir dar por mim.
Todas as coisas que não entendia, junto a
minha incapacidade de sonhar, desapareceram quando aos
18 anos peguei uma arma pela primeira vez. Foi no
serviço obrigatório do exército. Rapidamente virei o
melhor em manipulá-las. Acertava os alvos mais distantes.
Fui visto e observado como um talento e logo
ascendi ao corpo de fuzileiros navais. Passei a ser uma
máquina de matar. Fiz a guerra em missões de paz,
primeiro comecei a vender meus préstimos para os
coronéis, no Haiti nosso exército mandava no tráfico de
drogas e qualquer traficante daquele país era morto,
conheci o pior do ser humano, dentro e fora da minha
nação.
Treinei exaustivamente até colocar minhas
habilidades acima dos outros homens. Passei a ser visto
como um supersoldado, mas, de repente, tudo acabou.
As missões de paz findaram e trocaram meu
fuzil por papel e caneta. Fui jogado dentro de uma
pequena sala entediante. Queriam me transformar num
tomador de café compulsivo, acima do peso, com um
pensamento político limitado, queriam transformar um
supersoldado em gado. E quem sabe cometeria suicídio
antes dos 40 anos.
Construíram uma máquina de matar sem um
alvo. Um leão sem caça. Queria morder pescoços vivos e o
máximo que ganhava eram generosos pedaços de carne
fria. Apenas um pássaro de zoológico.
Então Césio, meu antigo amigo, que serviu
junto comigo desde o início, havia pedido exoneração,
veio ao meu encontro. Disse que entrara para outro ramo,
não estava arrependido, porque no novo trabalho podia
seguir sendo o bom soldado que aprendeu a ser. Esse

157
amigo era Césio, o Pai. Com ele ingressei no jogo e depois
fiquei sozinho.

Escuto barulho no corredor. Olho para a porta


que está abrindo.
A luz do corredor preenche a sala. Primeiro
um cano de metralhadora, depois um homem. Não
consegue ver onde estou, na escuridão da sala seus olhos
demoram a calibrar à penumbra. Coloco o silenciador no
cano. Miro para o meu convidado. Atiro duas vezes, ele
cai aos poucos, contra a parede.
Outro aparece, atiro. O acerto no braço, é mais
esperto, busca abrigo atrás da parede. Outro aparece, este
abre fogo. Jogo o corpo para trás, com o movimento o sofá
vira. Os tiros seguem para todos os lados. Permaneço no
chão, o barulho é muito alto. As paredes quebrando em
pedacinhos por todos os lados.
Sinto forte dor na panturrilha direita, verifico,
fui atingido. Os tiros prosseguem, estou cada vez mais
perto de ser atingido mortalmente. Preciso de proteção.
Aponto sem mirar para a porta e atiro, eles param de
atirar.
Olho para a porta, o homem está ferido no
chão. Logo os tiros recomeçam. Ferido e sem noção,
aponta a metralhadora a esmo e recomeça a atirar. Abaixo
e rolo no chão.
Os tiros param novamente. Levanto, minha
única chance. Miro para a porta e começo a correr. O
homem ainda está no chão, aponto para sua cabeça e atiro.
Perto da porta desacelero, encosto na parede. Outro
homem entra, atiro duas vezes na sua nuca, cai sem vida.
Começo a ficar assustado. Não esperava
tantos. Parece que não fui subestimado. As luzes

158
automáticas do corredor não apagam. Quase certo que não
é um vizinho curioso o suficiente para arriscar a vida,
ainda tem mais deles. Fico com a segunda opção. Preciso
de um reforço, abaixo e pego a metralhadora do morto.
Avanço lentamente até conseguir olhar o
corredor, olho de relance, consigo ver, pelo menos, 6
deles, equipados como polícia de choque. Estão
aguardando minha saída.
Começam a avançar. Volto correndo, entro na
cozinha. Ao entrar os homens já estão em posição de tiro e
começam o serviço, espero os tiros diminuírem, coloco o
cano virado para a sala e atiro.
O volume de tiros aumentou. Começam a
avançar. A parede quebrando onde os tiros pegam. Conto,
são 5 armas. Estou acuado. Preciso recuar, entro na
dispensa. Miro para a porta e aguardo.
Param de avançar. Aguardo. Os minutos
passam. O tempo que calculei para a polícia chegar
estourou. Pode ser isso, agora corro o risco pior do que
morrer, temo em ser preso.
Em alguns segundos uma luz de lanterna
ilumina a parede em vários sentidos. Não demora para
iluminar meu rosto. É um policial.
– Mãos para cima! – Ordena. Largo a
metralhadora com calma e fico com as mãos para cima.
Outro policial aparece, bem perto, retira as algemas da
cintura e prende minhas mãos. Fazem algumas perguntas.
Resolvo não resistir.
– Não vou responder nada – digo. Param de
fazer perguntas.
Forçado a descer as escadas, meus vizinhos
nas portas, olham como que olhassem para um moleque
que foi pego roubando o mercadinho da esquina.

159
Em alguns minutos estou algemado, dentro da
viatura. Ambulâncias, peritos, paramédicos. Todos
envolvidos, prontos para cobrir o grande banho de sangue.
A imprensa está presente. Tudo é caos. As janelas dos
edifícios estão abertas. As pessoas apavoradas filmam com
seus celulares. Por sorte, fui acomodado na viatura mais
distante, dentro do cordão de isolamento, aqui a imprensa
não consegue fotos boas.
Meu ferimento já passou por verificação. A
bala ainda está no meu corpo, mas estou livre de infecção.
Começo a cansar. Fecho os olhos, permaneço assim até
abrirem a porta.
Um homem com terno bem cortado de cor
prata, careca, com barba branca, sorri quando abro os
olhos – já disse que não direi nada – digo.
– Não será necessário – responde – então você
é o Thiago, acaba de voltar ao jogo e já fez essa merda.
– Como sabe meu nome?
– Sei muitas coisas. A propósito, sou Nico
Mezzacasa – estende a mão, sorri com ironia, um homem
algemado não pode cumprimentar de mãos.
– Sei, deve ser da mesma corja dos soldados lá
em cima. O que mais intriga é, por que ainda estou vivo?
Sabe que sou descartável.
– Calma, rapaz. Temos tempo até isso
acontecer.
O movimento é intenso. Um repórter descobre
que sou um ‘sobrevivente’ do tiroteio misterioso, vem ao
meu encontrou, logo outros repórteres e fotógrafos fazem
o mesmo, Nico percebe o avanço, olha para mim e diz –
nos vemos em breve, boa sorte – e caminha para a
escuridão. Os repórteres cercam a viatura. Escondo o rosto
entre as pernas.

160
Chegamos na delegacia. Sou obrigado a sentar
na frente de uma delegada que faz mil perguntas, não falo
nada. Fica irritada sobremaneira.
Sem chance de interrogatório, sou jogado
numa cela. Espero um advogado designado pelo Estado
para minha defesa. Ainda preciso entender o que está
acontecendo. Projetar minha fuga também é urgente.
Talvez demorem algumas horas para descobrirem minha
verdadeira identidade através das digitais.
Os tais amarelos são mais poderosos do que
imaginei. Quase acabaram comigo, entendi o recado.
Espero que Talico e sua turma não os subestimem. Dois
policiais aparecem, não falam, sou algemado e
direcionado para outra sala de interrogatório. Sentado
numa cadeira dura e algemado na mesa. Luz forte no
rosto, parede cor de chumbo, baixa temperatura, devo
esperar o advogado ou farão pressão psicológica mais uma
vez?
A porta abre, conheço a tática, policial mal,
policial bom. Horas e horas de perguntas, até arrancarem
minha confissão ou provas. Não sabem que sou um
soldado experiente, ninguém pode tirar algo de mim.
Morro cadeado.
Para minha surpresa vejo o cara que falou
comigo quando fui preso, é Nico Mezzacasa. – Parece que
tem as costas quentes e acesso irrestrito – digo, ele sorri.
– O que posso fazer – abre os braços num
gracejo – sou um homem influente.
– E prevejo, pensa que sei algo importante,
afinal, ainda estou vivo.
– Sim, tem!
– Qual é, sabe que sou apenas um assassino.

161
– Que recusou 5 milhões para matar Talico, e
havia sumido em circunstâncias misteriosas durante 4
anos. Além de mal profissional é um tanto quanto sem
palavra.
– Isso não é da sua conta.
– É sim, pois represento seus contratantes.
– Para conseguir meu silêncio, basta me matar
e tudo estará resolvido.
– Não, isso não acontecerá. Por mais que nossa
cena dê vontade para tal, logo conversaremos pela última
vez, logo terá visitas, siga no plano – diz sorrindo e sai da
sala.
Fico algemado, minutos de silêncio. Dois
policiais entram. Um acima do peso com barba curta e
bem aparada, o outro é velho, também com barba, mas a
dele é exageradamente maior e totalmente branca.
– Olá! – O mais jovem cumprimenta sorrindo.
– Está cansado? – O mais velho pergunta.
– Olha, rapazes. Não sei qual é o jogo, mas
não falarei com vocês.
– Nem com os Assassinos de Anúbis? – O
velho sorri, retira do bolso a chave. Abre as algemas.
– Quem são vocês?
– Desculpe o mal jeito – diz o velho de um
modo muito cortês – deixe-me apresentá-lo. Meu
companheiro é Barriga, eu sou o Professor. E como deve
prever, Talico nos enviou.
– Vamos, não temos tempo para jogar
conversa fora – diz Barriga. Rumam pela porta, os sigo.
– Coloque as mãos para trás, finja que está
algemado – Professor orienta.
Jogo as mãos para trás. Abaixo a cabeça. A
repartição está cheia de policiais. Alguns nos olham e logo

162
prestam atenção em outras coisas. Para os policiais é uma
situação banal. Caso descubram o que pretendemos, a
coisa ficará feia. Adrenalina lá em cima, é como passar no
meio de leões e não ser atacado.
O velho cumprimenta, descaradamente os
policiais que nada percebem. Passamos das mesas,
entramos no corredor e ingressamos nas escadas.
– Onde estão levando o meliante? – Um
policial nos surpreende no trajeto. É velho, parece
estressado. Ele está subindo, nós descendo.
Paramos, Barriga coloca a mão sobre a arma
no coldre, mas com um sinal de Professor a solta – vamos
levá-lo para a reconstituição do tiroteio, sabe, aquele
durante a madrugada. É coisa urgente, imprensa em cima
da delegada – relata Professor.
– Não brinca – fala o policial num tom de
camaradagem – para ser tão rápido é porque tem gente
importante envolvida.
– É o que estamos tentando descobrir. Sabe
como é, só seguimos ordens – remenda Barriga – são os
ossos do ofício – completa Professor.
Em dois segundos o policial sorri – então
desejo boa sorte – assente e caminha para a grande sala.
Era apenas um velho policial procurando distração. Nos
olhamos aliviados e prosseguimos.
Saímos na garagem, outros policiais cruzam
nosso caminho. Evitamos contato visual. Entramos numa
viatura, Barriga dirige. Arrancamos e partimos.
Barriga – O que ele disse? – Pergunta para mim.
Eu – O que ele disse o que?
Barriga – O homem que o interrogou. O careca com cara
de vilão de filmes de espionagem.
Eu – O tal Nico Mezzacasa – ficam inquietos ao ouvir o

163
nome, sabem que é o responsável pela morte de Césio –
disse que é o representante do Olho de Hórus.
Professor – Foram as mesmas palavras que disse a mim,
Tomate-cereja e talvez para…
Eu – Ia dizer para Césio?
Professor – Sinto muito, sei que eram grandes amigos.
Eu – Há quanto tempo os Assassinos de Anúbis têm
contato com esse maluco?
Professor – Tem aparecido na vida dos Assassinos de
Anúbis desde a batalha de Montes Gerais. É como um
agente secreto de alguma porcaria do governo. Mas agora
sabemos que trabalha para o Olho de Hórus.
Eu – Muito esclarecedor – concluo debochado.
Um celular toca, Barriga tira o aparelho do
bolso ao mesmo tempo que estaciona a viatura. Leva o
aparelho até a orelha. – Alô! Sim, estamos com ele. Não
foi difícil – faz uma pausa – parece bem. Está mancando
um pouco.
Eu – Levei um tiro na panturrilha – faz sinal para que eu
fique calado.
Barriga – Certo, vamos para lá agora mesmo. Até mais,
Talico – ele encerra a ligação.
Professor – O que houve?
Barriga – Talico conseguiu rastreá-lo. Está na Rua N,
número 1050.
Eu – O que está acontecendo?
Barriga – Observamos quando Nico Mezzacasa chegou na
repartição. Colocamos um rastreador no seu carro, Talico
está no seu encalço.
Eu – Rua N, 1050. Conheço este lugar, não consigo
lembrar com clareza onde é.
Professor – É o Hospital Particular, o maior da Capital.
Ele acelera na direção do Hospital Particular.

164
Chegamos em poucos minutos. Rodamos na frente do
local. Vemos muitos guardas na parte externa o que não é
normal. Irônico, pode ser o ponto de encontro do Olho de
Hórus, dentro de um hospital, como é com os Assassinos
de Anúbis.
Barriga – Como entraremos?
Professor – É uma boa pergunta.
Barriga – Ligarei para Talico.
Professor – Tudo bem. Saberá como auxiliar.
Inicia a ligação, fala ao ser atendido – estamos
aqui – faz uma breve pausa, escuta as próximas
coordenadas – faremos isso – encerra a ligação e conversa
com nós.
Barriga – Há um homem internado, seu nome é Hermo
Tavares. Diante de todos os pacientes hackeados por
Talico, o único que apresenta conduta estranha é o tal.
Segundo os registros, é um fantasma, não há nada antes de
sua internação. Parece que nasceu dentro do hospital.
Professor – Só pode ser esse fantasma que Nico
Mezzacasa está visitando. Tudo leva a crer que é parte do
Olho de Hórus.
O celular de Barriga apita ao receber uma
notificação. Verifica, foi Talico que enviou uma foto do
sujeito, anexada a sua ficha de paciente. Nos mostra. O
reconheço, é o velho que me contratou, a imagem é 3x4,
mas posso ver sua camisa amarela com a gola verde. O
velho é Casius Yung.
Eu – É o velho do Olho de Hórus. É meu contratante.
Ficam inquietos. É a minha vez de agir.
Solicito uma arma, Professor a passa. A coloco na cintura
e abro a porta da viatura.
Professor – Aonde vai?
Eu – Terminar com isso de uma vez por todas.

165
Barriga – Espere, não sabemos o que nos espera…
Sigo sem olhar para trás. A panturrilha dói e
me sinto sujo. Atravesso a rua. Tentam argumentar algo,
mas não quero ouvir. Parte de mim fede a sangue, espero
que consiga entrar.
Chego na porta do hospital, cumprimento os
seguranças que abrem caminho. Chego na recepção.

– Olá, senhor! – Diz a recepcionista – no que


posso ajudá-lo?
– Preciso falar com Hermo Tavares.
– Desculpe senhor, o horário de visitas…
– Poupe suas palavras – a interrompo – sou
Thiago. Tenho assuntos importantes a tratar com ele,
tenho certeza que serei recebido.
– Como disse senhor, o horário de visitas…
– Não, moça. Parece que ainda não entendeu,
esse homem é um milionário, para ele nunca há horários
de visita. Chame ele logo, garanto, ficará chateado caso
não consiga falar comigo.
– Só um instante – diz vencida. Pega o
telefone, disca alguns números. Fala curtas frases e desliga
– tudo bem, senhor Thiago. Irá recebê-lo, quarto 401.
– Obrigado! – Agradeço, alcança um adesivo
de visitante, o colo no peito. Caminho até o elevador e
subo até o quarto andar.
Na porta do quarto dois seguranças armados
fazem a proteção. Avanço, sabem quem sou, não preciso
ser anunciado. Adentro o quarto. Nico está sentado ao lado
do suposto Hermo que nada mais é do que Casius usando
outra identidade, não quer demonstrar para a imprensa e
seus inimigos que o milionário proprietário das Lojas
Tamam, o homem feliz dos anúncios de tevê, está

166
condenado. Respira com a ajuda de um cilindro de
oxigênio. Sorri quando me vê.
– Tudo bem, Thiago?
– Tirando a parte que contratou assassinos de
verdade para me matar.
– Deixa disso – puxa o bucal e respira
profundamente antes de prosseguir – sabíamos que sairia
muito bem dessa enrascada, não passou de um exercício
para um supersoldado. Sabe que deveria parecer real.
– Tirando a parte que estou ficando velho e fui
baleado, tenho que confessar, foi um bom exercício – digo
satisfeito – quem eram os assassinos?
– Jovens mercenários, nada de mais.
– Pareciam mais policiais mal treinados.
– Tanto faz. Então o que mais descobriu?
– A mesma coisa, são amadores, agem por
impulso. Com pouco ou nenhum planejamento. Mesmo
assim, são fortes e como ficam juntos em raros encontros,
é difícil matá-los. E agora estão mais unidos com o retorno
do seu líder, Tomate-cereja não entendeu o recado e
decidiu retornar.
– Então, decidiu voltar ao jogo – diz Nico com
brilho nos olhos – agora poderei ter meu deleite –
completa, seu grande objetivo é matar o líder dos
Assassinos de Anúbis.
– O que sabem sobre o Olho de Hórus? –
Pergunta o velho.
– Quase tudo. Sabem que o senhor está
praticamente sozinho, mas usa seu dinheiro para
prosseguir a filosofia e comprar aliados. Sabem dos
assassinos profissionais.
– E por que não atacam?
– A ideia é revidar. Aguardam o melhor

167
momento, esperam que eu leve novas informações, não
desconfiaram das minhas reais intenções. Acreditaram que
sou um assassino de aluguel buscando a redenção, porém
tem quase certeza de que Hermo é Casius.
– Ainda tento entender por que não os matou
no Hospital Estadual de Transplantes – prossegue Casius –
o teatro feito na igreja fez com que caíssem como raposas
numa armadilha de queijo. Demos muitas chances para
eles, agora é necessário eliminá-los.
– Estava cercado. Não consegui implantar a
bomba, e além do mais, a moça, herdeira do império Lã
Cicic, estava muito longe de nós, talvez sobrevivesse.
– Tudo bem, tudo bem – Casius demostra
cansaço, tosse debilitado – e os dois que estão no carro?
– São amadores. Os matarei ainda hoje.
– Bom trabalho… Os Assassinos de Anúbis
morrerão e o sonho de Lauro de ver um mundo melhor
morrerá com eles. Meu velho amigo de faculdade tinha o
sonho utópico de salvar o mundo e tentou nos convencer
na época do mesmo, porém não éramos bobos o suficiente
para acreditar nos seus devaneios. E agora precisam parar
antes que outros acreditem nesse delírio.
– Por que o odeia tanto? – Pergunto.
– Aquele maluco, sempre foi um idiota, com
essa história de salvar o mundo, as pessoas que passam
fome por aí. Esse assunto causa asco. Não podemos ajudar
os fracos, assim nos tornaremos fracos.
– E o localizador? – Nico pergunta para Casius
o fazendo mudar de assunto.
– Permaneça assim – pausa para respirar –
deixem pensar que estão no jogo. Ajudaremos Thiago a
pegá-los.
– É melhor assim – prossigo – os matarei,

168
assim como fiz com Pai. Precisamos trabalhar em equipe,
como fizemos naquele caso, chamando sua atenção para o
falso restaurante.
O velho larga o oxigênio – não acredito – diz
para mim – que está fazendo isso por causa de uma mulher
– finaliza num tom debochado.
Não respondo. Faz um sinal a Nico Mezzacasa
que estica um pequeno volume na minha direção. Sei que
é um explosivo envolvido, tudo embrulhado numa
pequena caixa, é a arma para matar Barriga e Professor.
Pego o volume – eu amo Gabriela. Estou livre
do maior obstáculo que era Césio. Quando tudo isso
terminar, darei um jeito em Maurício e vamos viver
felizes, bem longe de tudo – levanto e caminho para a
porta.
– Não acredito – o velho diz chamando minha
atenção – que um amor platônico me fará ganhar a guerra
contra os Assassinos de Anúbis.
Não respondo. Saio do hospital. Escondo a
pequena caixa dentro do casaco. Volto para o carro,
Barriga e Professor esperam. Entro na viatura. Agora
Professor está no volante e Barriga ao seu lado.
Professor – Então o que descobriu?
Eu – Nada, não consegui descobrir nada. O velho está
numa verdadeira fortaleza. Fiquei esperando na recepção a
melhor chance para invadir os corredores, mas são muitos
seguranças por todos os lados. Quando desconfiaram da
minha presença, decidi retornar.
Professor – Droga, esse velho rico mantém um exército ao
seu dispor.
O telefone de Barriga toca mais uma vez.
Atende, fala algumas frases e desliga.
Barriga – Nico Mezzacasa está em locomoção, Talico nos

169
pediu para segui-lo, o velho não vai a lugar nenhum.
É isso! Caíram como patos no plano do velho
Cassius…
Professor – Tudo bem, mas para onde?
Barriga – Talico está enviando a localização de Nico em
tempo real. Neste momento está na Rua Z, número 04.
Permanece parado.
Eu – Conheço esse lugar. É a Biblioteca Pública
Municipal.
Professor – Vamos para lá agora mesmo.
Liga o motor e arranca. Dirige como se nossas
vidas dependessem disso. Em poucos minutos chegamos
na Biblioteca Municipal. Vemos Nico parado na entrada,
com olhar perdido. O quarteirão é movimentado. Para
estacionar é preciso procurar uma vaga adiante. Paramos,
deixo o pacote resvalar até o assoalho da viatura. Não
percebem o movimento.
Eu – Fiquem aqui. Não sabemos o que nos espera,
aguardem meu sinal – abro a porta e saio.
Não escuto objeções. Caminho na direção da
Biblioteca, vejo Nico sorridente na entrada, então viro
para a viatura.
O explosivo é acionado. A viatura quebra em
pedacinhos. Fogo por todos os lados, gritaria e chororô. A
labareda de fumaça invade toda a rua. Dois Assassinos de
Anúbis a menos.
Nico – bom trabalho – diz ao meu lado. Então
caminha para longe e desaparece entre as pessoas.

***

Fico sentado nas escadas da Biblioteca


Municipal observando o trabalho dos bombeiros. Procuro

170
parecer abatido. Então avisto Atenas. Sabia, algum
Assassino verificaria a situação. Vem ao meu encontro,
perto, quebra o protocolo me dando um abraço.
– Sei que não nos conhecemos, mas Talico
contou como está empenhado em nos ajudar – lágrimas
caem dos seus olhos – e agora os rapazes – não consegue
terminar a frase.
– Não fique preocupada. Os responsáveis por
isso vão pagar. Foi por pouco, mas fiquei a salvo. Agora é
questão de honra vingá-los.
Ela está deixando a emoção falar mais alto,
isso fará que seja a mais fácil de matar até o momento.
– Precisamos partir agora mesmo – toma
distância, caminha na minha frente.
Saímos do movimento, numa rua secundária.
Chegamos na picape.
– Para onde vamos? – Penso em sacar a arma e
abatê-la, mas ainda é cedo. Pegarei todos juntos.
– Para uma base alternativa, na periferia da
Capital.
– Quem estará lá?
– Todos os Assassinos. Ninguém mata um de
nós e sai impune. Vamos nos reunir e contra-atacar.
Entramos, ela dirige pela cidade. Não faço
ideia para onde vamos.
Saímos do Centro, passamos pelos bairros
residenciais e chegamos aos industriais. Atenas para na
frente do que parece um galpão abandonado. Outra picape
já está estacionada na frente.
Saltamos do carro. Entramos no terreno. Sem
movimento. Somente baratas caminhando pelas paredes.
Ela empurra a pesada porta. O local parece ainda mais
sujo no seu interior. De mobília, uma imensa mesa e

171
algumas cadeiras. Vejo Krypton trabalhando em pé,
olhando um mapa da Capital.
– Olá, Thiago – cumprimenta, sinto que não
confia em mim. E com a morte de seus companheiros
pode ficar ainda pior nosso relacionamento. Preciso tomar
cuidado, ele é o mais forte com seus braços e pernas de
metal.
– Olá, Krypton – chego perto – no que está
trabalhando?
– Num mapa de ação. Depois da morte de –
ele olha para mim e Atenas – estou falando disso como
quem fala de algo fútil. Desculpe. Sei do seu trauma,
Thiago e sei o quanto Atenas gostava de seus
companheiros. Infelizmente, convivi pouco com eles,
mesmo assim eram homens bons.
– Tudo bem – diz Atenas. Seus olhos estão
marejados, ela toma distância, ao longe entra numa porta.
Aproveito para descobrir mais sobre o encontro.
– O que exatamente estamos fazendo aqui? –
Pergunto ao grandão.
– Vamos nos reunir, Talico está muito
apreensivo com o atentado que vocês sofreram no Centro.
Querem planejar o contra ataque imediatamente.
É a minha chance, preciso entrar em contato
com o velho Casius que pode lançar uma bomba em cima
desses malucos e estará tudo resolvido. Krypton continua
estudando o mapa da cidade, Atenas volta para onde
estava.
– Preciso ir ao banheiro – digo quando vejo
Atenas retornando, está secando suas lágrimas.
– Ali – aponta para a porta de onde acabou de
sair.
– Obrigado – sigo para lá.

172
Entro no banheiro. A porta não tem tranca.
Então a fecho e fico escorado nela. Somente meu peso a
mantém fechada. Pego meu celular no bolso e ligo para
Casius.
[Alô] ele atende muito fraco, está morrendo.
[Sou eu] respondo.
[O que está fazendo? Meu número é somente
para urgência.]
[Trata-se de uma urgência. Peguei todos eles.
Só enviar a bomba e estará tudo resolvido.]
[Você realmente é muito bom] diz muito
animado [Onde está?]
[Não sei ao certo. Rastreie meu aparelho e
saberá. Avise o momento do ataque para garantir minha
fuga.]
[Tudo bem…]
Volto para a grande mesa. Sento ao lado de
Krypton. O tédio toma conta do ambiente. Não nos
conhecemos, nos odiamos, não existem assuntos para
conversar.
Alguns minutos e um veículo para na frente do
local. Terá mais alguém quando a bomba explodir? Espero
que todos, não podemos perder essa chance. A pesada
porta abre, Tomate-cereja entra. Meu coração acelera,
estou apreensivo para o momento da minha fuga.
– Cadê os outros? – Pergunta irritado.
– Ainda não chegaram. Não fique preocupado,
logo meteremos bala naquele velho maluco – diz Atenas.
– Isso está muito lento. Mataram três dos
nossos homens. Não podemos esperar pacientemente – diz
bravo.
– Espero que ninguém mais morra – remenda
Krypton.

173
Tomate-cereja vem ao meu encontro – então
como aconteceu? – Pergunta para mim.
– Invadi o hospital, mas não consegui nada,
então seguimos o ex-policial corrupto, o tal Nico
Mezzacasa. Tentei achá-lo, e depois seria a vez do velho
Casius que está internado sobre o nome de Hermo Tavares
no Hospital Particular, mas como já deve saber, eram
muitos guardas. Precisei sair do hospital, temi ser
reconhecido. Então Talico ligou, ordenando para seguir o
rastro de Nico. O seguimos até a biblioteca, saí da viatura,
temendo um confronto, pedi aos rapazes para esperarem e
quando estava afastado o carro explodiu.
– Barriga e Professor, não os conheci direito,
mas sei que serviram aos Assassinos de Anúbis por anos e
fizeram muito bem ao mundo – ele diz com fúria nos
olhos que brilham intensamente.
– É realmente uma pena – digo.
Krypton deixa o mapa sobre a mesa. Dá a
volta e para ao meu lado, Atenas caminha até ficarmos
frente a frente e aponta uma arma para minha cabeça.
– Que loucura é essa? – Pergunto.
Tomate-cereja pega minha arma e celular.
A pesada porta abre mais uma vez, Talico e
Paloma entram. Tomate-cereja acerta um soco na altura do
meu estômago, sua força é surpreendente, arqueio o corpo,
então recebo mais um golpe no rosto.
– Devia ter vergonha por ser um homem de tão
pouco valor – diz caminhando para longe, fazendo
massagem na mão que usou para dar os golpes.
Talico chega perto, parece muito abatido,
amava os Assassinos mortos como irmãos – gostaria de
saber por que? – Pergunta olhando nos meus olhos. Fico
em silêncio – sei que é um mercenário de merda, é sua

174
natureza. Demos sorte com Pai, ainda tinha pelo que lutar,
por isso o admiro tanto, meu tio Lauro tinha feeling para
recrutar homens bons ou desesperados o suficiente para
nos ajudar. Eu não sou tão bom quando ele – olha muito
grave nos meus olhos e abaixa a cabeça. Atenas fica a sua
frente e coloca as mãos sobre os seus ombros.
– Como descobriram? – Pergunto.
– Câmeras de trânsito. Talico hackeou as
imagens e o vimos ao lado de Nico. Não parece tão
esperto agora – completa Paloma.
– É tarde demais, não podem fazer nada. O
velho é muito rico e tem muitos homens espalhados por
tantos lugares. Está do lado do atual presidente, corruptos
do exército, polícia e seus aliados. Pegá-lo é mais difícil
do que matar políticos corruptos. Eles apoiam o lado mais
vantajoso para seus objetivos. Esse sentimento é como
uma doença e abrange tantos dentro do nosso país que
tremo de medo só de pensar nas barbaridades que o Olho
de Hórus está metido há décadas.
– O que eles prometeram? – Pergunta Talico.
– A paz… Desde o maldito dia que seu tio
recrutou Pai minha vida virou um inferno. Fugi para todos
os lados do continente, matando assassinos da agência.
Sabe quanto a agência oferece pela cabeça de assassinos
sem palavra? É preciso dar exemplos – minto, espero ter
sido convincente.
– Isso não é desculpa. Você matou todos que
tentaram te matar. Usou sua experiência e habilidade, não
foi tão difícil. Diga qual o verdadeiro trato.
– Matar todos os Assassinos de Anúbis.
Forjaria minha morte e junto receberia uma grande quantia
de dinheiro, somado ao que deveríamos ter ganhado para
matar Elma Saniff – jamais direi o real motivo, que meu

175
desejo mais profundo sempre foi ter o amor de Gabriela.
– Seu desgraçado – diz Tomate-cereja – vou
matá-lo – saca sua arma e aponta para minha cabeça.
– Calma, Tomate-cereja, ainda não sabemos o
quanto ele está envolvido. Precisamos mantê-lo vivo, por
mais que nosso desejo seja outro – fala Talico – traga o
cinturão.
Paloma sai para a rua, em poucos minutos,
retorna com um cinturão com explosivos. Vem ao meu
encontro. Não posso deixar que coloquem isso em mim.
Resolvo lutar por minha vida.
Parto para cima de Tomate-cereja, sabe lutar,
esquiva dos golpes. Tento acertá-lo um chute, outra
esquiva, Atenas está próxima, em posição de combate,
Paloma faz o mesmo, depois de entregar o cinturão de
explosivos para Talico.
Estou cercado, Krypton também levanta a
guarda.
– Não é tão bom assim, para derrotar todos os
Assassinos de Anúbis – diz Atenas.
Avanço e a ataco, acerto um direto no seu
nariz, ao mesmo tempo Paloma acerta um potente chute
nas minhas costelas, Krypton acerta um soco no meu
rosto. Seu golpe é muito forte. Minha cabeça fica pesada.
Não consigo assimilar o golpe. Minha visão fica
embaralhada, Krypton me dá mais um golpe e desmaio.

Abro os olhos, minha cabeça lateja, meu corpo


está dolorido. O cinturão de explosivos está preso na
cintura. Estou deitado em cima da mesa. Lembro dos
explosivos que Casius enviará, levanto assustado.
– Calma aí – diz Paloma ao perceber que estou
acordado – tente alguma coisa e juro que passo por cima

176
das ordens que recebi e arrebento seus miolos – aponta a
arma para minha cabeça.
Olho para os lados, não vejo os outros – onde
eles estão?
– Num lugar seguro.
Tento caminhar até a pesada porta, ela atira na
minha direção, erra por querer, paro de caminhar, viro na
sua direção.
– Paloma, por quanto tempo dormi?
– Já falei para ficar quieto.
– Por favor, escute, Casius explodirá esse
lugar. Quando fui ao banheiro liguei para ele, era sua
grande chance. Então rastreou meu aparelho celular. É um
velho maluco, estamos com sorte, ainda não explodiu esse
galpão, então vamos sair daqui.
Arregala os olhos – Talico levou junto seu
celular para o hospital, vai analisá-lo.
– Então, ele e os que estão por perto morrerão
ou já estão mortos.
Pega seu celular sem perder a mira, está muito
alterada. Conversa rapidamente com Talico e desliga, está
em choque. Anda em ré até chegar na mesa e fica
escorada. Começo a caminhar na sua direção, ela guarda a
arma, fico surpreso, coloca a mão no bolso e tira de lá um
pequeno controle – continue avançando e te arrebentarei,
seu filho da puta – paro onde estou. Segura o controle que
aciona os explosivos.
– O que aconteceu com Talico?
Seus olhos são puro ódio – eles pararam a
picape para abastecer, Talico e Tomate-cereja desceram
para comprar cigarros e café. Lembram apenas do clarão,
Atenas e Krypton ficaram no carro, assim como seu
celular. Algumas testemunhas viram outra picape

177
encostando ao lado da deles e deixando um pacote
parecido com uma caixa ao lado do veículo. A explosão
levou a outras, devido ao combustível estocado no posto.
Os dois sobreviveram graças ao costume de Tomate-cereja
de sentar ao fundo dos lugares que frequenta. A distância
forneceu vantagem e tempo para buscarem abrigo. Estão a
salvo, sofreram queimaduras de 2º grau em alguns lugares
do corpo. Ficarão bem.
– Agora restam apenas dois, três com Talico –
penso alto.
Ela exibe o pequeno controle com um único
botão. Minha vida está em suas mãos. Então pega fita
isolante preta e prende o controle na sua mão direita de
modo que qualquer contato acione o botão.
– Venha comigo, caso saia da linha morrerá,
tente me imobilizar e também morrerá – então sou
ordenado a caminhar na sua frente. Saímos do galpão,
avisto a picape preta a nossa espera. Sou obrigado a sentar
no banco do motorista, ela entra e senta às minhas costas.
– Para onde vamos?
– Siga na direção do Centro e aguarde novas
coordenadas.
Dirijo para o Centro, Paloma pega sua arma e
mira na direção das minhas costelas, o pequeno controle
na sua outra mão, estou com explosivos para mandar um
quarteirão aos ares na minha cintura. Sou obrigado a parar
na frente de uma casa comum, vejo outra picape na
garagem, desligo o motor – desça, seu verme – encosta a
arma na minha nuca.
Saio do carro, em seguida muda o cano de
lugar e o encosta na minha coluna, forçando a entrada no
portão, depois ingressamos, câmeras de segurança cercam
o perímetro da simples casa.

178
Vejo Tomate-cereja sentado na frente de um
computador, seu rosto está cheio de hematomas, Talico
está sentado adiante, numa cadeira reclinável. Faixas nos
braços, curativo no olho esquerdo, está sem as roupas
brancas de médico, veste as roupas pretas dos Assassinos.
Sou direcionado a sentar na sua frente, seu
olhar não é de raiva, mas sim de menosprezo, Paloma
coloca um celular no meu colo.
– Ligue para ele – diz Talico.
– E o que quer que eu diga?
– Que precisa vê-lo, e que eu, Tomate-cereja e
Paloma estamos vivos. Minta que está ferido e precisa de
medicamentos e armamentos para finalizar o serviço.
Coloque a ligação no viva voz.
Pego o celular e disco o número de Casius.
[Alô] o velho diz com a voz cada vez mais
rouca. Eles ficam espantados ao ouvi-lo tão debilitado.
[Sou eu]
[Olá, Thiago. Parece que devo a você mais 2
milhões.]
[Ainda não velho. Tomate-cereja, Talico e
Paloma sobreviveram.]
[O médico, o maluco que não morre e a filha
do Cicic. Onde estão?]
[Escondidos e temo que estejam atrás de mim
também. Preciso de dinheiro e armas, quando podemos
nos encontrar?]
[Sabe da minha situação. Não vou a lugar
algum] tosse como um asmático [preciso de repouso, não
posso receber visitas. Diga um local e mandarei Nico ao
seu encontro.]
Olho para Talico, balança a cabeça
positivamente, mostra um bilhete, leio em voz alta. [Praça

179
Antiga] digo. Os olhos de Tomate-cereja brilham como as
estrelas. O sentimento entre ele e Nico é reciproco.
[Lugar público, garoto esperto. Temos motivos
para desconfiar?]
[Nenhum! Eles podem estar por aí, sei que não
farão nada comigo com inocentes ao redor.]
[Certo, no mesmo horário da nossa primeira
reunião.]
[Combinado.]
Escuto a respiração ruim do velho antes de
desligar.
– Sabe que morrerá e não há mais saída – diz
Tomate-cereja, seus olhos muito vivos como sempre não
demonstram outro sentimento além do desprezo.
– Estou convencido.
– Está arrependido de alguma coisa?
Penso em todas as atrocidades que cometi,
poderia ficar arrependido de tudo, mas é tarde demais –
não, não estou arrependido.
– É uma pena, pois não serei eu que o julgarei.
Então fale isso para seus julgadores – fica calado.
Vejo Gabriela e Maurício entrando no
cômodo. Ela ainda segue linda, os anos a fizeram bem, já
Maurício cresceu, está saudável, nunca o havia visto tão
forte, é praticamente um homem. Meu coração dispara.
Sem entender, estremeço de medo, esses caras realmente
sabem causar dor aos seus inimigos. Tocaram no meu
ponto mais fraco.
Eles trocam de lugar com Tomate-cereja.
Gabriela senta na cadeira a minha frente, Maurício ao seu
lado em pé. Olham com muita raiva, dor, desprezo, fúria.
Seus olhos são faíscas de tudo que é dor.
– Seu canalha – diz Gabriela – ele era seu

180
melhor amigo, só o abandonou para salvar a vida de nosso
filho. Césio estava ajudando as pessoas, algo muito melhor
do que fazia ao seu lado. Agora, caso seja homem o
suficiente, gostaria de uma explicação, por quê está do
lado errado?
Caso tenha passado por uma situação tão ruim
na minha vida não consigo lembrar. Quero dizer o quanto
a amo e o quanto reguei esse amor por todos esses anos,
morrendo de ciúmes vendo ela sendo feliz ao lado de
Césio, mesmo com a doença do filho, eram felizes.
– Naquela noite no bar – olho em seus olhos –
assim que chegou, disse a Césio o quanto era atraente.
Lembra daquele dia? – Lágrimas começam a cair de seus
olhos, a fiz lembrar do dia que conheceu Césio – para mim
foi paixão avassaladora. Comentei ao meu amigo que faria
você a mulher mais feliz do mundo caso permitisse. Então
fui ao bar pegar duas bebidas, uma para mim e outra para
você. O bar estava muito cheio, demorei alguns minutos
para ser atendido e quando voltei vocês estavam juntos,
sorrindo e dançando ao som de David Bowie. Ele roubou
você de mim.
– Caramba, você é doente – esbraveja – seu
assassino de merda – prossegue – tirou de nós a parte mais
importante. Quer saber, jamais aceitaria a sua companhia.
É mesquinho, arrogante e isso diminui ainda mais a sua
pouca beleza. Nunca seria capaz de amá-lo – lágrimas de
raiva caem dos seus olhos.
– Junto com papai, você sempre foi um herói
para mim – diz Maurício, suas palavras são como tiros,
não resisto e começo a chorar – sempre foi como o
cavalheiro ao lado de meu pai, mas o traiu como um vilão.
Olho para Talico, Tomate-cereja e Paloma.
Estão sérios encarando. Sabem que estou vencido, sequer

181
tomei um tiro. Primeiro fui morto por dentro, só depois
terminarão com meu corpo.
– Me matem logo – digo olhando para eles.
– Precisaremos de seu carro – Talico fala para
Gabriela – podem seguir com a minha picape – conclui.
Tomate-cereja faz com que eu levante, depois
sou empurrado até a saída, enquanto Talico pega a chave
do carro com Gabriela. Tomate-cereja abre a porta e sou
obrigado a entrar, Talico coloca as chaves na palma da
minha mão – estaremos logo atrás – diz – tente alguma
gracinha e o mandarei pelos ares. Pode sair, pegar reféns,
não darei importância, hoje é o dia da sua morte e não
estou nem um pouco interessado neste papo pacifista de
Talico. O matarei e quem mais for necessário – alcança
um casaco verde e grande – coloque isso.
– Não está frio, com certeza Nico
desconfiará…
– Desgraçado, não estou interessado! Agora
coloque a merda do casaco.
Faço o ordenado. Ele vai até a picape, ligo o
carro e partimos.

Chego na Praça Antiga. Não vejo os


Assassinos de Anúbis estacionando.
A praça não tem muito movimento, fico feliz
por isso. Não sou um louco, vi muitas pessoas morrerem
durante toda a vida e só senti prazer quando os que
mereciam morriam.
Estaciono ao lado das árvores. Assim que
desço um ‘flanelinha’ vem ao meu encontro, diz que tudo
está na ‘tranquilidade’, ninguém mexerá no carro e depois
é só apoiá-lo com uma nota de 10.
Não respondo, viro as costas e sigo para o

182
centro da praça. Sento num banco mais ao lado, acendo
um cigarro e aguardo. É estranho esperar a morte. Não é o
completo vazio que sempre imaginei, tem tanta coisa
acontecendo que só penso em como estraguei tudo.
Dois viciados estão usando drogas perto do
banheiro, outros rapazes jogam basquete na meia quadra,
algumas pessoas comem cachorro-quente no outro
extremo na praça, compram de um vendedor ambulante
que faz tudo dentro de um pequeno trailer.
Espero, então avisto o homem impecavelmente
vestido de terno cor de prata, careca e com barba. Vem
caminhando do sul. É sempre o mesmo jeito. Aparece e
desaparece misteriosamente. Traz uma mochila na mão
esquerda, deve carregar armas e o dinheiro. Para na minha
frente.
– Sente – digo muito sério.
– Aqui está o que pediu. Não somos amigos,
não sentarei ao seu lado.
– Se virar as costas e partir, morreremos – fica
assustado – eles descobriram, fui pego, tenho mais ou
menos um quilo de explosivos na cintura. Comece a
caminhar e acionarão a bomba.
Sua cara é pura surpresa e medo.
– Sabia que Casius estava errado sobre você. É
falho como os outros, mesmo sendo um maluco
platonicamente apaixonado. É apenas um ‘merda’, não
acredito que fui arrastado junto com você.
– Matei 4 deles enquanto passaram quatro
anos tentando descobrir como estão organizados. Trabalho
matando, não conversando.
– E acabou aqui, condenado.
– Parece que o grande Mezzacasa também
está.

183
– O que sabem?
– Sabem que Casius é o cabeça do Olho de
Hórus. Pretendem matá-lo.
– Apenas matarão um homem no final de sua
vida. Nada acabará aqui.
– Eles podem descobrir o resto. E o que farão?
– Mesmo assim, somente um milagre poderia
salvar a nacão. O caos permanecerá e no fim deste filme
de terror, eles vencerão. Seria necessário milhões de
Assassinos de Anúbis para salvar esse país.
– Caso tivesse sido recrutado, e as coisas
fossem diferente, bem que gostaria de chutar a bunda de
alguns corruptos.
– Morreria tentando como os outros. Um dia a
terra será livre dos pobres, negros, deficientes,
homossexuais e transgêneros. A terra será limpa.
– Isso é loucura!
Senta ao meu lado – já que morreremos, que
seja relaxado – diz pegando um cigarro, acende um,
alcança, acende outro para ele – como foi pego?
– Fui encurralado num depósito da periferia.
Não tive chance. O médico maluco hackeou as câmeras do
Centro, nos viu na frente da Biblioteca Pública.
– Tenho que confessar, os tais Assassinos de
Anúbis são bons. Amadores, mas bons.
– Nisso tens razão, amam e acreditam no que
fazem.
– Sim, e tem aquele magrelo, doido, que não
morre.
– O Tomate-cereja.
– Por falar nele – diz apontando para frente,
vemos Tomate-cereja nos encarando.
Eles se encaram como inimigos íntimos.

184
– Parece que nossa jornada termina por aqui –
digo.
– Nos vemos no inferno – fala na minha
direção.
– Nos vemos em breve – digo com sarcasmo.
– É SÓ O COMEÇO DE TUDO. A GRANDE
BATALHA AINDA NÃO COMEÇOU – grita Nico na
direção de Tomate-cereja – nada termina aqui – diz
somente para que eu ouça.
Nico Mezzacasa respira fundo, levanta e
começa a correr o mais rápido possível como um covarde.
O homem que ajuda outros homens a espalhar o medo,
fome e morte pelas periferias, é apenas um covarde.
Escuto um clique na minha cintura, chegou a
hora. O barulho é infernal.

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186
Por onde podemos andar ao amanhecer
Se passamos toda a noite em claro e agora
sabemos de tudo
Como vamos encarar a luz do sol
Encarar as pessoas, ver as vidas seguindo no
escuro, mesmo banhando-se sob toda a luz
Como vamos encarar este mundo chato – sem
graça – patético?

Parte IV
Polpo

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188
#Houve uma explosão na Praça Antiga, muitos
feridos, ainda não sabemos quantos mortos#
Acabo de ler a notícia no site instantâneo,
saio do vaso, puxo a calça, fecho a braguilha e o botão.
Aciono a descarga, guardo o celular, lavo as mãos e saio
do banheiro.
Sempre enrolo quando estou no banheiro. Não
aguento ficar servindo café para as pessoas que fedem a
doença. O senhor Mulato não gosta muito, tentou
repreender meu hábito algumas vezes, mas esse assunto de
banheiro é muito delicado. Sabe que não faço
necessidades, mas não consegue mais tocar no assunto. Da
última vez aleguei ter problemas com isso. Tenho o
sistema digestivo muito delicado e preciso ir ao banheiro
muitas vezes, ele aceitou a resposta.
– Dois cafés na mesa 4 – diz ao me ver, está
muito sério.
Pego duas xícaras, encho com café e sigo até a
mesa. Nela um homem careca, muito magro, com o rosto
cheio de hematomas espera ao lado de outro com curativo
no olho esquerdo, óculos de grau por cima, com cara de
bobo. Na outra extremidade da mesa, uma moça. Quando
nos olhamos meu coração dispara. É linda, atraente,
sensual. Parece perigosa, apesar de aparentar ser muito
jovem. Ruiva, com os olhos verdes-esmeralda, grandes e
redondos, maquiagem suave. Todos estão vestidos de
preto.
Deixo as xícaras sobre a mesa, os sirvo, os
homens ficam com os cafés. Acho que agradecem, mas
não consigo escutar. Volto para trás do balcão, não
consigo parar de olhá-la. Mulato manda fazer algumas
189
tarefas na cozinha, o que faço o mais rápido possível para
seguir olhando para a linda moça.
Meu emprego é péssimo, são 10 horas por dia
servindo mesas nesta cafeteria cafona. A Cafeteria Mulato,
a única em frente a entrada do Hospital Particular.
Tento fazer destas horas algo suportável, por
isso passo, pelo menos, três horas lendo no banheiro,
livros eletrônicos, notícias, ou então, quando Mulato não
está, uso o computador do caixa para assistir filmes do
Quentin Tarantino.
O salário é pouco, uma mixaria, mas é o que
sustenta o corpo e sempre faço sobrar o pouco do pouco
que ganho para ajudar minha mãe nas compras de seus
remédios.
A Capital é uma cidade de merda, a vida
também pode ser, na maioria das vezes uma imensa e
fétida bosta. Sou como um brinquedo que não quebra e é
sempre esmagado ou jogado contra a parede. Sou a
resiliência do mundo, pratico a divina arte de apanhar e
continuar em pé.
Todos os dias, vejo aqueles médicos entrarem
aqui, antes de tudo bebem seus cafés. Parecem tão
superiores, tratam todos como vermes, depois entram no
hospital particular, ganham muito dinheiro e no final do
dia sentam nos seus luxuosos carros e partem para suas
luxuosas casas, bebem seus caros uísques e comem algo
sem tempero que alguém de moto entregou dentro de uma
caixa. Antes de dormir transam com suas mulheres que já
trazem no currículo algumas cirurgias estéticas. Queria ter
oportunidade de conhecer um médico de verdade. Um que
lute pela justiça.
Parece uma vida de merda, mas com dinheiro,
o que facilita um pouco. Pelo menos as distrações podem

190
ser adquiridas com mais facilidade.
Sou tão contraditório, pareço infeliz e
desacreditado, entretanto as vezes me sinto muito feliz, é
como poder ver o mundo de cima. Fico olhando para a
linda moça que deixa a vida mais suportável. Certamente
com ela o dinheiro ficaria em segundo plano.
O mais magro ajeita o corpo na cadeira, vejo
na sua cintura uma arma. UMA ARMA? Vão assaltar o
senhor Mulato e mesmo odiando o velho, acho isso errado
e ainda tem a parte mais importante, estou cuidando do
caixa. O velho mesquinho pode descontar do meu salário o
prejuízo do roubo, não posso deixar, caso isso acontecer
ainda acabo por matar o velho.
Bem que eles não são semelhantes aos outros
frequentadores da cafeteria. Parecem pessoas legais,
mesmo tendo uma arma, vestidos de preto e ostentando
pequenos ferimentos.
O homem de curativo no olho, corte de cabelo
indefinido levanta e caminha até o balcão, o velho Mulato
está no estoque, preciso atendê-lo. Espero que não seja o
momento do assalto.
– Um maço de cigarros e mais dois cafés e um
refrigerante para a moça.
– Tudo bem – digo alcançando o maço de
cigarros – é proibido fumar dentro da cafeteria.
– Obrigado – diz pegando os cigarros – não
fumaremos aqui dentro.
Volta para a mesa, troca algumas frases com a
moça e sai, acompanhado pelo magro. Foram fumar na
rua. A moça está sozinha, é minha chance, não sei para
que, mas é minha chance.
Sirvo as duas xícaras de café e caminho até a
mesa, a moça está reflexiva olhando para a TV. Não sei

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como começar.
– Dia difícil? – Pergunto deixando as xícaras
na mesa.
– Todos os dias são difíceis para quem pensa –
fala profeticamente. Sua voz é linda, macia e ao mesmo
tempo encorpada, forte sem ser agressiva.
– Me chamo Polpo – estendo a mão para
cumprimentá-la – quero dizer, meu verdadeiro nome é
Leopolpo Almada, mas todos me chamam de Polpo.
Todos, quero dizer o senhor Mulato e minha mãe. Não
tenho amigos – baixo a cabeça pensando na besteira que
falei. Pensará que sou um sociopata estranho.
Ela ri – nome engraçado, – estende sua mão
para o cumprimento – pode me chamar de Paloma – aperto
sua mão, ela aperta mais forte.
Seu sotaque é misto, parece que foi criada no
interior, mas já vive no meio de pessoas da Capital há
muito tempo, é um bom caminho para continuar a
conversa – é da Capital?
– Não, sou de San Madre.
– Percebi – digo feliz por acertar no palpite – é
o sotaque. E é mais bonita do que as meninas daqui.
– Não acha que ficar paquerando clientes é
antiético? – Pergunta sorrindo.
Fico sem jeito, sem saber o que responder –
desculpe – digo olhando mais uma vez para o chão.
– Tudo bem. Pelo menos foi gentil e
audacioso. Não esqueceu de nada?
Então lembro que preciso servir seu
refrigerante. Vou até a geladeira, pego um refrigerante,
passo no balcão e pego um copo. Volto para a mesa e a
sirvo. Evito olhá-la.
– Não fique assim – diz quando estou

192
retornando ao balcão.
– Tudo bem, só quero que saiba, não é meu
comportamento padrão, você sabe… não paquero clientes.
Analisa meu rosto como analisando uma nova
roupa – Polpo… parece um homem honesto e bom.
Meu coração acelera, nunca havia sido tão
elogiado na vida, é raro alguém perceber isso antes de
julgar pelas minhas posses, ou a falta delas – obrigado! –
Respondo encabulado. Inquieto, olho para o chão e para os
lados, não consigo olhar em seu rosto. Sempre tive essa
dificuldade quando estou perto de mulheres bonitas.
– O que vai fazer depois do trabalho? –
Paraliso com a sua pergunta. Deixo escapar um sorriso
bobo. Uma mulher de iniciativa, não há como ser mais
sexy. Tento falar, abro a boca, mas não sai palavras. –
Tudo bem com você? – Pergunta.
Respiro fundo – às 20 horas fechamos a
cafeteria, pegarei minha bicicleta e pedalarei até o
subúrbio – digo de seco. Ainda não sei porque escolhi
essas palavras, espero que tenham feito sentido.
– É uma vida de merda – comenta – aqui, entre
essas paredes…
– Tenha certeza disso, mas existem momentos
bons – concluo.
– Sempre haverá a beleza oculta nas coisas…
Olha para os lados, vê seus colegas do lado de
fora, ainda fumam. Olha para o balcão, o velho Mulato
ainda está no depósito, nas outras mesas alguns clientes
matando os minutos. Paloma levanta e me beija, estou
surpreso demais para retribuir. Deixa seus lábios
encostados nos meus. Sua boca é quente e macia. Não
mexo os lábios, mas fecho os olhos e curto o momento por
um segundo. É como subir a lua e retornar, escutar Legião

193
Urbana no volume máximo, pular de uma ponte, andar de
metrô, caminhar por horas dentro da mata. É tudo que a
adrenalina permite e muitas coisas que ainda não fiz.
Beijá-la é perfeito. Ela afasta os lábios, abro os olhos.
– Por que me beijou?
– Porque ainda estou viva e faz 4 anos que não
pratico. Esse pode ter sido meu último beijo, mas posso
estar errada, caso esteja, te peço para esperar, daqui a uma
hora nos fundos do hospital.
– Mas lá não tem nada. Existe apenas a rua
sem saída das docas.
Ela sorri, acho que entendi o recado. Não
acredito, parece uma brincadeira de mal gosto.
Os homens entram, Paloma senta como que
nada tivesse acontecido.
Volto até o balcão. Fico olhando para ela.
Terminam suas bebidas. O bobo do curativo no olho vem
ao caixa e paga a comanda. Então partem sem olhar para
trás.

Fico disperso, só consigo pensar no beijo,


Mulato chama algumas vezes, não respondo e acaba
fazendo o trabalho por mim, não sem antes resmungar. No
relógio, cada segundo deixa nosso reencontro mais perto.
Então escuto o primeiro barulho de tiro. As
pessoas começam a correr desesperadas, muitos entram na
cafeteria buscando abrigo.
Levanto e caminho até a porta, todos estão
apavoradas, o barulho de tiros aumentam.
“Os tiros são no interior do Hospital
Particular!” Alguém grita apontando para os últimos
andares do hospital.

194
Viaturas policiais, furgões dos canais de TV,
pessoas curiosas filmando o prédio, tentando pegar um
segundo de adrenalina para fazer suas vidas um pouco
mais suportáveis.
Todos estão extasiados e eu preocupado. As
três pessoas de preto que estavam aqui, algo me diz, eles
tem muito a ver com os tiros. Meu coração acelera.
Lembro das palavras de Paloma – peço que espere, daqui a
uma hora nos fundos do hospital – repito isso na minha
mente como um mantra. A arma na cintura do magro, os
machucados, são como peças de um quebra-cabeça.
Caminho até a entrada da cafeteria, entre as
pessoas, tentando passar, uma explosão acontece,
destruindo praticamente todo o quinto andar do hospital.
Fico rente a parede, buscando proteção dos escombros que
estão voando para todos os lados do quarteirão. Mulato
aparece ao meu lado.
– Meu Deus, meu carro! Vai estragar toda a
pintura! – Diz apavorado, com sua voz empastada de
professor de química.
– Onde ele está? – Pergunto.
– Lá na esquina – aponta para a local.
– Pode deixar, senhor. Eu o tiro de lá – digo, o
pegando de surpresa, sabe que não é do meu perfil ser
proativo. É minha única chance de voltar a ver Paloma.
– Tem certeza? Pode acabar machucado. Não
vai ficar de atestado por duas semanas como da última
vez.
– Não fique preocupado. Sem atestado dessa
vez. Me dê a chave antes que eu mude de ideia – pega a
chave do bolso, estica na minha direção, sabe que não
estou blefando.
– Obrigado, rapaz – está muito agradecido.

195
Caminho para a esquina, pedaços de vidro,
tijolo e cimento por todos os lados, poeira embaça a visão
e sou obrigado a semicerrar os olhos. A multidão está
dissipada, alguns permanecem tentando buscar com as
câmeras de seus celulares uma última novidade.
Carros escuros passam em alta velocidade e
estacionam na frente do hospital, no limite do bloqueio,
são membros da polícia especial.
Encontro o carro de Mulato, é espaçoso, mas
não é de luxo. Desligo o alarme, entro, arranco e começo a
rodar para outro quarteirão, foi sorte, os policiais já estão
aumentando o bloqueio. Mais alguns minutos e minha
saída seria mais demorada ou improvável.
Lembro das palavras de Paloma, a chance de
nos encontrarmos novamente são quase zero. Pago para
ver, pois seus olhos pareciam ser sinceros. Dirijo até os
fundos do hospital, a rua é estreita e sem saída, sem casas
de moradia, o lugar é usado somente para carga e descarga
das necessidades do hospital.
Não há movimento, nem os policiais acreditam
que a rua dos fundos pode ser uma rota de fuga em
potencial, ou são muito burros para acreditar. Seja lá como
for, imagino que possa servir como rota de fuga, mas trata-
se apenas da minha imaginação de homem apaixonado.
Ou fui enganado, pode ser que esteja apenas perdendo
tempo. Estou confuso.
Estaciono, ligo o rádio, sincronizo numa
estação de notícias, reclino o banco e fico escutando as
especulações sobre a explosão no hospital. Começo a
refletir sobre a vida e como odeio trabalhar na cafeteria.
Estou com 23 anos, numa corrida maluca pela
vida, cheguei a este ano, nesta idade sem ser ninguém!
Sou um ninguém. Quando chove preciso andar de ônibus,

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quando faz frio uso o mesmo casaco de inverno, faz 10
anos, casacos de inverno são muito caros e o inverno do
sul é carrasco.
Nunca desejei uma vida assim, e quem
desejaria? Lembro dos meus sonhos. Por que deixamos de
ser quem somos nos sonhos quando crescemos? Quem
deve ou não ter seus planos ceifados? Quem são os
privilegiados?

Às vezes, por pensar demais é melhor não


pensar demais.
Quero mesmo é estar em outro lugar, queria
teletransportar minha vida, conhecer outras realidades,
estar embaixo dos meus cobertores, dormir mais, quero
tantas coisas de tantos sabores, lugares, realidades.
Eu insisto em não deixar meu coração morrer,
mesmo que a rotina amasse meu peito, sem deixar meus
pulmões trabalharem. Eu insisto, mesmo que a sociedade
termine com todas as minhas chances de ser feliz.
Queria ser parecido e estar perto das pessoas
como Paloma e seus amigos. Eles pareciam ser pessoas
legais. Eles aparentavam conseguir pensar.

Volto a órbita, o plantão transmitido da frente


do hospital cessou e um homem está comentando sobre a
política atual. São momentos estrangeiros. As pessoas e
suas visões distorcidas, nosso líder parece o tio
preconceituoso e egoísta fazendo o churrasco do final de
semana, decidindo o que vai na lista de supermercado com
seus débeis filhos. Aquele mesmo cara que fala de algo
complexo, acredita que entende de tudo, mesmo sem ter
aberto um livro sobre o assunto durante a vida inteira.
Entender o que não entende é um mérito do homem

197
comum que acredita ser igual aos poderosos. Tudo está ao
contrário. E a forma sistemática de renegar a ciência e
aceitar o senso comum anunciado pelo sino da igreja é a
boa nova.
Não sei onde tudo acabará, o futuro de homem
pobre, negro e jovem como eu, neste país é incerto. Uma
visão nebulosa no fim do túnel. E estou dentro de todas
essas estatísticas. Pode ser que os semelhantes a mim
jamais participem de algo importante. Seremos apenas
puros-sangue puxando carroça. Meu futuro é obscuro.

O tempo passou, já ultrapassei os limites,


Mulato ficará muito bravo comigo, sei o quanto um
emprego no meio de tantos desempregados é o mais
importante no momento feudal que vivemos.
Confiro no relógio do rádio, faz mais de uma
hora que falei com Paloma. Talvez estava só brincando
comigo. Talvez nem tenha entrado no hospital, talvez
agora seja apenas pó. Decido arrancar e estacionar mais
próximo da cafeteria, foi bom imaginar um futuro
diferente ao conhecer a moça de preto. Sua energia
dominante e contagiante foi capaz de estremecer, contudo
não passou de uma cena. Fruto de um desejo dela.
Caso ela tenha algo a ver com a ‘guerra’
dentro o hospital, a essa hora deve estar presa ou morta.
Ligo o motor, engato a primeira marcha,
abaixo o volume do rádio, e quando decido arrancar,
aparece na frente do carro um homem ensanguentado, com
dezenas de ferimentos. Estou assustado, contudo reparo e
o reconheço. É o homem magro e careca que estava com
Paloma.
Sua roupa tem diversos furos, devem ser tiros.
O homem mal consegue ficar em pé. Seus olhos são muito

198
brilhantes e parecem implorar por ajuda. Seu rosto está
cheio de sangue.
Ficamos nos encarando por alguns segundos e,
por instinto, faço sinal para entrar no carro. Sei que ficarei
arrependido, os bancos não são de couro, nem
envelopados, ou seja, manchas de sangue farão de mim
um homem sem emprego.
Daqui para frente, não sei como será, o certo é
que ficou difícil olhar para trás. O homem entra,
cambaleante e muito fraco. Senta ao meu lado. Estou com
medo.
– Boa tarde – digo, fico sem graça, percebendo
o quanto parece ridículo tentar ser educado na atual
situação.
– Me tire logo daqui – suplica muito fraco.
Arranco o carro, o homem pega um cigarro e
acende. Não posso acreditar, ainda é capaz de pensar
nisso, está morrendo.
– Isso não é permitido aqui. O dono do carro
odeia o cheiro de cigarro – falo.
Olha para mim, depois para a sujeira que seu
sangue deixou no estofado, porta, painel. Não é necessário
comentar mais nada. O cheiro de cigarro será o menor
problema na atual realidade. Ao dobrar a esquina algumas
viaturas passam por nós, o homem abaixa, tento parecer
tranquilo. Os policiais nada percebem, estou tremendo na
base.
– Sei que parece estranho – digo – mas estava
esperando outra pessoa – então meço minhas palavras,
meu coração acelera, Paloma pode ter morrido no que
parece ser uma missão suicida. Ele tira a arma da cintura e
aponta para mim – hei cara, para que essa arma? Não é
necessário, o levarei para onde quiser – digo muito

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nervoso – na verdade estava esperando sua amiga, a
Paloma.
Ele sorri – Boa garota – diz. Sorrindo posso
ver seus dentes manchados de sangue.
– Boa garota? O que isso significa? Ela morreu
no tiroteio?
Permanece em silêncio, olha para frente, traga
seu cigarro.
Dirijo sem rumo, concluo que a moça morreu
no tiroteio. Diante de tantos tiros, ficar viva não é algo
com muita chance de acontecer.
– Que diabos vocês são? – Pergunto, ele não
responde.
O homem termina o cigarro, joga a bituca pela
janela, uma atitude muito ruim, as coisas precisam ser
descartadas corretamente.
– Hospital Estadual de Transplantes –
sussurra.
Só pode estar delirando. Na sua situação o
ideal é ir para o pronto socorro, contudo, aparecendo no
seu estado lastimável num hospital será preso ou sua ideia
é doar seus órgãos? Entretanto isso deve ficar difícil, com
tantos tiros, não deve ter sobrado o que aproveitar.
Continua apontando a arma para mim. Resolvo não
contrariar e começo a pilotar na direção do local ordenado.
Reclina o banco, fecha os olhos, seus braços
ficam moles, a arma cai aos seus pés. Está morrendo.
– Não morra na minha frente – falo em alto
tom – o carro não é meu e nunca vi um homem morrer –
não responde. Acelero, o tempo está esgotando, rumo ao
hospital de transplantes.
Chegamos em 15 minutos, na entrada, não sei
para onde seguir. Dou por mim que num hospital como

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esse as coisas devem ser diferentes.
Entro, não há seguranças, nem homens
cuidando do estacionamento como os outros hospitais.
Paro na frente da recepção. Desço e corro para o interior.
Ao entrar, uma fila de pessoas com cara de doença
aguardam. A recepcionista presta atenção em mim. Chego
mais perto.
– Olá, senhor! No que posso ajudá-lo?
– Estou com – percebo que estou falando
muito alto, há crianças na espera, não quero assustá-las,
chego mais perto e sussurro – estou com um homem
semimorto no carro, aliás, o carro não é meu, é do meu
chefe e serei morto quando descobrir toda aquela sujeira.
Está assustado. – Um homem morrendo? – Seu
tom é alto, as pessoas escutam e ficam curiosas.
Faço sinal para falar baixo, chego perto –
semimorto é o termo ideal para o momento – digo
baixinho.
– Tudo bem – diz ainda mais baixo – eu
acredito.
Olho para as pessoas na fila, muitos estão
semimortos ou condenados.
– Solicito que procure o pronto-socorro…
– Moça, é – a interrompo – uma urgência, e o
homem pediu para que o trouxesse até aqui.
Ela fica inquieta. Entende a seriedade nas
minhas palavras. Resolve levantar, dá a volta no balcão,
pega uma cadeira de rodas, caminho ao seu lado e saímos
da recepção.
Chegamos no carro, apressados para salvar o
homem. Abro a porta do carona, vejo sujeira e sinto o
cheiro de sangue. Para minha surpresa o homem não está
mais no veículo.

201
Ao ver o banco a recepcionista faz cara de
nojo. Me olha como se eu fosse um louco.
– O que isso significa? – Pergunta apontando
para o banco.
– Aqui estava o homem semimorto. Não
entendo – olho para todos os lados.
– Isso é uma brincadeira?
– De forma alguma. Estava aqui agonizando.
Olha como está o banco, cheio de sangue. Essa é a prova.
– Isso só pode ser uma brincadeira de muito
mal gosto. Aqui ajudamos pessoas, senhor. Não temos
tempo para esse tipo de coisa.
– Mas – antes que eu possa concluir, vira as
costas e volta ao seu trabalho.
Começo a olhar para todos os lados. Não
posso acreditar. O homem estava praticamente morto.
Seria impossível sair do carro sozinho. Não estou louco.
Sem dúvida é a coisa mais extraordinária que
já vivi. Primeiro a linda moça me beijando. Eu, apenas um
garçom de cafeteria, depois conseguir o carro do velho
Mulato, então o homem morrendo e agora isso.
Entro no carro, o cheiro de sangue é
insuportável. Ele estava dentro do carro. Morrendo!
Pensando bem, até parece um sonho.

Retorno para a cafeteria, a rua está interditada.


Estaciono ao longe.
Ao entrar, Mulato vem ao meu encontro,
muito bravo.
– Por onde andou?!
– Estacionando, tome – digo alcançado as
chaves.
– Foram três horas na rua. Ficou todo esse

202
tempo estacionando o carro?
– Sim, senhor. A rua está um caos.
Respira fundo, não acredita, mas diante de
tantos clientes esperando por atendimento, resolve não
discutir.
– Coloque o avental e volte ao trabalho.
Faço o ordenado. Tento compreender o que
aconteceu. Não tem explicação. A única certeza é que meu
coração ainda bate acelerado. É bom, mesmo parecendo
muito louco, estar vivo. Jamais serei o mesmo.
Aos poucos o movimento da cafeteria diminui,
mesma coisa acontece com a rua. O show da explosão
deixou de ser novidade. Os policiais deram lugar aos
bombeiros e ambulâncias.

O expediente termina. Pego algumas cédulas


do caixa sem o velho perceber. Para minha surpresa,
Mulato parece tranquilo, não sou demitido. O velho, por
incrível que pareça tem um apreço por mim, maior do que
sua paciência. Talvez esteja zonzo com tudo o que
aconteceu. Amortecido com tanta peculiaridade no mesmo
dia, dentro da sua existência tão igual.
Estou nos fundos da cafeteria, onde colocamos
os lixos, pego minha bicicleta e sigo para a saída. Olho
para as mesas, prateleiras, balcão, decoração brega. É o
lugar que passei três anos da minha vida. Sei que é o
último dia de trabalho, pois Mulato me demitirá quando
ver o estado do seu carro.
Gostaria de saber como terminou a história de
Paloma. O homem magro com as roupas furadas a bala,
desejo uma morte rápida para ele, pois me enganou, e está
muito ferido. Nada mais.
Saio sem dizer adeus para Mulato, subo na

203
bicicleta e uma leve garoa começa a cair. Não é fria, mas o
suficiente para molhar por todo o caminho, até chegar em
casa estarei ensopado. Umedece a roupa e anuncia a
chegada do inverno.
O melhor de pedalar a noite é conseguir olhar
as luzes dos prédios, um grande mosaico louco, cada luz
uma ou várias histórias, morada de sonhos e desilusões.
Dobro a esquina e entro na Rua M, imensa e
com uma via para ciclistas. Agora posso imprimir
velocidade, sentir o vento na cara. Aqui é onde ganho
liberdade.
Minha mãe, com certeza, espera com a janta
pronta, assistiremos as novelas noturnas da TV aberta.
Gostaria de ver filmes do Tarantino, mas para isso seria
necessário ter uma assinatura de canais fechados ou
streams, impossível no meu atual orçamento.
Mais velocidade, os cabelos mexendo,
marchas altas, então uma picape preta, com os vidros
escuros, começa a andar ao meu lado. Com o susto quase
caio. Penso que é um assalto, ideia que logo descarto, uma
picape preta não precisa assaltar um ciclista. Não assim,
apenas na ordem da mais valia.
Fico apreensivo, diminuo a velocidade, a
picape também. Não tenho como fugir.
O vidro começa abrir, para minha surpresa,
vejo Paloma dirigindo – hei caubói! – Diz – jogue a
bicicleta na carroceria e entre aqui.
A felicidade invade meu coração. Faço o
ordenado. Achei que estava morta. Ela está inteirinha.
Achei que nunca mais a veria. Parece um sonho. Entro,
sento ao seu lado, arranca e partimos. Pelo caminho, segue
sorrindo, tenho vontade de beijá-la, desta vez de verdade.
Olho para seu corpo, ela parece bem, sem ferimentos.

204
– Pensei que estivesse morta!
– Desculpe ter faltado ao nosso encontro.
Apenas um homem entrou no hospital. Tomate-cereja
nosso líder. Fomos obrigados a não entrar, obedecemos as
suas ordens.
– Caramba! Quer dizer que apenas aquele
homem esquelético com cara de doente foi responsável
por tudo aquilo?
– Sim, ninguém consegue explicar como ele
consegue essas coisas.
– Isso já aconteceu mais de uma vez? – Estou
completamente boquiaberto em saber que o magrelo é um
supersoldado.
– É a segunda vez.
– Nossa, quantos tiros levou?
– Desta vez foram apenas oito tiros,
sobreviverá.
– Por que isso aconteceu no hospital?
– Longa história. Agora o levarei para casa e
amanhã prosseguiremos. Tenho um amigo que deseja
conhecê-lo.
– Juro, até o momento não entendi nada do que
aconteceu.
– Acredite, nem eu, mas essa foi minha
escolha e assim permanecerá. Basta saber que estamos do
lado certo.

Chegamos onde moro com minha mãe. Desço


e tiro a bicicleta da carroceria. Não sei muito bem o que
fazer. Acho que devia ter a beijado. Fico segurando a
bicicleta ao seu lado, está com a janela aberta.
– Como sabia que estaria nos fundos do
hospital?

205
– Não sabia, mas acreditei. No fundo, só
parece um covarde, mas não é.
Enrubesço – acho que perdi o emprego. Por
você. Isso foi bom e ruim! Pense como quiser, pode não
ser covardia, foi libertador de uma forma diferente. Gostei
de ser algo diferente por um dia.
– Gostaria de viver essas aventuras todos os
dias?
– Isso é possível?
– É, daremos um jeito. Vai ser um pouco
perigoso, mas ao fim, tudo ficará bem!
– Promete? – Olho em seus olhos.
– Espere pronto, pela manhã – sorri de um
jeito lindo e todas as coisas que passei no dia passaram a
valer a pena. Poderia morrer por esse sorriso – desta vez
eu estarei aqui.
– Acordo cedo. Esperarei.
Chama com o indicador, largo a bicicleta no
chão, bem perto, tira o corpo para fora da janela, nos
beijamos. Flutuo no ar, a vida passa a valer a pena, e pode
ser boa.
– Aguarde, buzinarei. Esteja pronto – volta
para sua posição. Liga o motor e arranca sem olhar. Fico
observando a picape tomando distância, sumindo da
realidade do Bairro Distante.
Talvez ela seja a saída para a minha vida. Meu
caminho, minha fonte. Talvez ela represente perigo e isso
soa como a melhor parte. Provarei que não sou um
covarde.
Entro em casa, abraço minha mãe, entrego o
resto do dinheiro que tenho na carteira. Jantamos comida
requentada. Assistimos as novelas.
Quando deito tento imaginar o que acontecerá

206
com a minha vida. Tem que ser uma nova vida. Tem que
ser algo que valha a pena.

207
Palavra final do líder…
Foi difícil convencer Talico e Paloma a não
entrarem no Hospital Particular comigo. Seria muito
perigoso, mas no final prevaleceu a ordem do líder.
Era algo fora de lógica, caso todos morressem
quem seguiria a frente dos Assassinos de Anúbis?
Não tivemos tempo para frivolidades. Foram
dois longos abraços, algumas lágrimas. Paloma indicou
que fugir pelos fundos do hospital seria a melhor
alternativa. Não tinha certeza se viveria para fugir, mas
prometi lembrar de suas palavras.
Eles retornaram para o Hospital Estadual de
Transplantes.
Deixei Paloma com ordem expressa de matar
quem sobrevivesse ao meu ataque e Talico a esperar, de
plantão notícias minhas e, caso sobrevivesse, remendasse
meu corpo.
Na cintura levei uma pistola automática e um
cartucho. Sabia, era um erro, entretanto não precisaria de
mais. Muitos seguranças contra apenas um Assassino, o
raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Sabia que
morreria.

208
E foi assim que aconteceu…
Caminho para a recepção do hospital, dois
seguranças armados estão atentos aos meus movimentos.
É surreal estarem armados, mesmo sendo um hospital
particular. Estão usando óculos escuros, terno azul, são
altos e fortes. Não são simples seguranças e sim assassinos
de aluguel, soldados do Olho de Hórus. Quantos deles
haverá até encontrar Casius?
Sento nas cadeiras de espera, apenas uma
senhora na minha frente. A velha reclama com a
recepcionista, alega ser mal atendida. Enquanto elas
discutem, começo a estudar a melhor forma de atacá-los.
O atendimento da velha termina. É minha vez.
Os seguranças reparam. Braços enfaixados e cheio de
hematomas no rosto. As recepcionistas estão inquietas
com a minha presença.
A moça chama, está na hora. Ainda não sei o
quanto perdi da vontade de morrer, agora gostaria de ficar
mais um pouco. Reencontrei o amor dentro do meu ex-
amor, vi o fruto de uma traição tornar-se a pessoa que
mais amo na vida e chamá-la de filha com orgulho. Linda
está crescendo, inteligente, sagaz. Será uma mulher
empoderada e orgulhará Juliana. Será que verei Linda
adulta? Isso corta meu coração.
Lembro porque estou aqui, preciso parar de
pensar na minha família, pois imaginar como será a vida
sem mim faz crescer angústias no coração e isso parece
medo de morrer. Meu coração está ficando mole. Não
posso permitir!
Não posso ter medo de morrer, preciso decidir,
tenho que seguir em frente. Não posso pensar nas pessoas

209
que amo e sim em todas as pessoas. Fazer o amanhã,
construir um futuro para todos.
Saco a arma, dois tiros na cara do segurança da
esquerda, o outro saca sua arma, atiro duas vezes na sua
cabeça. Ainda caindo puxa o gatilho, sou atingido no
braço.
O tiro rasga a carne, atravessa o braço e
ricocheteia na parede, a sujando de sangue.
A gritaria é generalizada, os funcionários
começam a correr para todos os lados. Aponto a arma para
a moça responsável pelo atendimento, está imóvel. A dor
invade meu corpo, sou íntimo dela, nos entendemos muito
bem. A dor é minha irmã. Começo a falar com a moça.
“Calma, não a machucarei. Quero apenas
informações.” Balança a cabeça. Lágrimas escorrem por
seu rosto. “Esses seguranças eram de Casius Young, o
paciente misterioso?” Volta a balançar a cabeça
afirmativamente “muito bem, estamos progredindo. Há
muitos deles no hospital?” Ela chacoalha a cabeça da
mesma forma. “Ótimo. Em qual quarto posso encontrá-
lo?”
“506” responde, sua voz é baixa, está nervosa.
“Obrigado. Agora pode ir” abaixo a arma, ela
vira e sai correndo.
Saio da recepção rumo ao interior do hospital,
sei que não tenho muito tempo. Preciso ser rápido.
No primeiro corredor não há movimento. Subo
as escadas, pessoas estão descendo, quando me veem dão
meia volta e correm, desesperados, para o outro lado.
Sigo pelas escadas. Não quero ser
surpreendido. A cada lance, miro atentamente para todos
os lados. Chego no andar de destino. Abro a porta com
muita atenção.

210
Entro no corredor com cautela, está estranho,
já passou da hora, devíamos estar atirando um no outro,
eles armados até os dentes, como foi em San Madre.
Chego na frente do quarto 506, abro a porta e
entro, estou de espírito pronto para matar ou morrer. Fico
surpreso, ninguém a minha espera. É estranho, será que
perdi a viagem?
Começo a vasculhar o quarto. A recepcionista
pode ter me despistado, falando o número do quarto
errado. Na dúvida, sigo com cautela. Entro no banheiro,
nada vejo.
No espelho olho meu rosto, está velho, os
cabelos que ainda restam estão brancos, a pele murcha,
sulcos na testa, ao lado das bochechas. Minha cara é
deprimente. Apenas algo dentro do semblante demonstra
vida, são meus olhos, muito negros e brilhantes. Eles ainda
querem viver. Eu ainda quero viver, agora. Crio coragem.
Volto para o quarto, o tempo está acabando.
Algo chama atenção embaixo da poltrona do
acompanhante. Chego mais perto para saber o que é.
Arrasto a poltrona e o que vejo é uma pequena caixa, no
seu exterior está estampado um Olho de Hórus. Sei o que
é! Esse maluco não usa armas. Caí na mesma emboscada
de Pai, trata-se de uma bomba. Era esperado neste quarto,
fui enganado.
Começo a correr, saio do quarto, um, dois,
três, quatro passos. Vejo no início do corredor alguns
policiais. Então o calor acontece. Um grande clarão que
queima. Uma força empurra meu corpo, sou impulsionado
para frente. Caio no chão e rolo para perto da parede. Os
policiais não conseguem escapar. O fogo queima minha
pele superficialmente, mas pega em cheio os policiais.
O barulho faz meu sentido de audição parar de

211
funcionar por alguns minutos, o silêncio causa sensação de
vazio infinito. Olho para meu corpo, ainda estou inteiro,
sinto ardência nos pedaços de pele expostos no braço.
Levanto, zonzo e cambaleante. Escombros por
todos os lados, quase todo o andar foi pelos ares. Os
sobreviventes dos outros quartos, os que não fugiram, ou
não conseguiram fugir, agora são corpos pelo corredor ou
estão arrastando o que sobrou para algum lugar.
Pedaços de parede não existem mais, camas,
armários e tudo que é combustível para o fogo está em
chamas.
Troco alguns passos, tonto, cambaleante. A
dor da ardência na pele. Eles armaram outra armadilha e
caí como pato. Caminho pelo corredor a esmo. Mais
policiais devem subir nessa direção. Zonzo, não sinto
meus passos. Chego nas escadas. Perco o equilíbrio e caio.
Rolando até o último degrau do lance. A dor é grave. Não
sinto as extremidades, a cabeça parece que explodirá.
Preciso prosseguir, esses filhos da puta ainda
não acabaram comigo.
Me recomponho, preciso levantar. Faço com
muita dificuldade. “Por aqui” escuto um homem gritando
a, pelo menos, três lances abaixo. Olho pelo vazio da
escada, vejo dois policiais subindo. Caminho o mais
rápido possível para a porta do lance e entro no quarto
andar. Fecho a porta às minhas costas e quando olho para
o corredor, dois seguranças vestidos iguais aos que
estavam na recepção fazem guarda na porta de um quarto,
pelo corredor, funcionários do hospital empurram camas,
cadeiras de rodas ou ajudam os doentes a fugirem para o
outro lado do prédio, onde há outra escada.
Um dos guardas atira, sou atingido na barriga
e no peito, bem no colete. O andar é construído em U,

212
corro para onde o corredor dobra, buscando abrigo atrás da
parede, eles continuam atirando, chega a ser um ato
suicida prosseguir. Os tiros não são fatais, acho que
resistirei por mais algumas horas, posso até ser alvejado
mais uma vez ou duas. Suas armas estão munidas de
silenciadores. O som não chamará atenção, nem sobressai
acima dos estalos causados pelo fogo.
Os dois tiros não doem como antes. Na
verdade não sei dizer o que sinto.
Sento no chão, bem no limite da parede,
espero o último paciente passar fugindo, pego a arma e
miro na direção dos seguranças. Atiro, eles revidam.

Os tiros param, espio e percebo que acertei um


deles na lateral do corpo e na perna esquerda. Está no chão
urrando de dor, o outro segue avançando rente a parede,
recarrega e segue atirando. Levanto, respiro fundo,
caminho de ré, então começo a correr, salto para o
corredor, atiro algumas vezes na direção do sobrevivente,
mas sou atingido no ombro direito e na altura do
estômago, esse mais lateral e não é páreo para o colete,
perfura meu corpo. Caio de braços e pernas abertas. Acho
que não o acertei.
Os tiros param. Sigo de olhos fechados. De
braços e pernas abertas sinto novamente a liberdade de
estar morrendo, o cansaço invadindo o corpo. O sono
domina. É como morrer em casa, no meu sofá, com
câncer. A ausência de dor, a felicidade invadindo cada um
dos meus músculos.

***

Delírio ou realidade?

213
Em outra dimensão. As coisas ao meu redor
param e numa centelha de segundo estou com Lauro
dentro do um pequeno barco egípcio, está sorrindo,
estamos no meio da escuridão, mas posso vê-lo. “Olá, meu
velho!” Sigo sorridente. Não há dor. É libertador.
Ele segue sem falar, apenas sorri, então
chegamos na areia, vejo Atenas, Kripton, Professor,
Barriga, Pai, Terceiro, Bengala, Braço e Fêmur. Todos
saudáveis, sorrindo. A sensação é maravilhosa. Então esse
é o céu de um Assassino de Anúbis? Duvido, estamos
juntos é porque aqui também existe o mal para lutarmos
contra.
“Olá, rapazes!” Digo ao descer, não
respondem. Mesmo assim estou muito feliz, sem dor.
Chego perto, Pai dá um passo a frente e com um sinal
impede meu movimento. “O que aconteceu?” Então vejo,
saindo de trás deles, um ser, corpo de homem e cabeça de
coiote, pele preta, seus olhos são como lanternas
vermelhas. Suas roupas são esquisitas e douradas. É
Anúbis. Já nos vimos antes. O ser caminha na minha
direção, mais perto. A cada passo vai ficando maior,
quando chega a um metro de distância está com mais de
dois metros de altura. “Aqui é a casa dos Assassinos de
Anúbis?” Pergunto. Apenas olha, com seus olhos
vermelhos de lanterna, nos meus.
Ficamos assim por alguns segundos, então
num milésimo de segundo, Anúbis recolhe o braço
esquerdo e atinge um forte soco no meu peito. Tão forte
que voo. Não entendo nada, não sinto dor. Abro os olhos e
estou novamente no corredor, de braços e pernas abertas,
sentindo muita dor. Fecho os olhos tentando procurá-los.

***

214
“Você está bem?” Escuto o segurança que
atirou em mim, pedindo ao seu companheiro. Estou de
volta a esse mundo, não sei o que isso significa, mas não é
bom.
“O filho da puta acertou dois tiros em mim.
Como acha que me sinto?” Diz num misto de raiva e dor.
“Tudo bem, não seja tão dramático. Ficará
bem.”
“Ande logo, vá lá e dê mais alguns tiros na
cabeça daquele maluco” finaliza.
Escuto passos na minha direção. Permaneço na
mesma posição, tento suavizar ainda mais a respiração. O
homem para aos meus pés. “O cara está mortinho da
Silva” diz ao que está gemendo no chão “arrastarei o
corpo para mais longe. A polícia o encontrará e fará dele o
culpado por tudo. Alegaremos que estamos fazendo a
segurança do velho e não podemos sair do nosso posto.
Mesmo com a explosão, não deixamos o velho que nos
paga para isso.”
“Mas antes disso meta uma bala na cabeça
desse miserável.”
“O cara tá morto!”
“Sabe o que dizem! Parece que um deles não
morre, é melhor meter uma bala na sua testa para garantir,
caso seja o tal maluco.”
“Será que esse é o cara imortal? Para mim,
parece morto, olha só” ele cutuca minha perna com o pé,
não movo nenhum músculo.
Dá a volta e pega meu braço esquerdo e
quando pega o direito, abro meus olhos. O assusto, tropeça
e cai, tenta sacar a arma, mas pego a minha e o acerto duas
vezes.

215
O outro, mesmo debilitado, pega sua arma e
atira na minha direção. Dois tiros pegam na minha coxa
direita, um na canela esquerda. Atiro nele, acerto seu
corpo, várias vezes. Ele morre. O barulho é alto.
Certamente chamei a atenção dos policiais no andar de
cima.
A dor latente, suor, cheiro de sangue, fogo,
carne humana queimada. A dor é o presente e o resultado
trata-se do quanto você quis fazer. Por isso, tento levantar.
Aos poucos, apoio uma perna, depois outra. O tiro na
canela esmigalhou o osso, um líquido amarelo escorre
com sangue, manco e cambaleio até chegar na parede.
Caminho, crio manchas de sangue na parede.
Passo por cima do segurança morto e chego na porta do
quarto, onde antes faziam guarda.
Abro a porta, vejo Casius, ainda está
respirando, graças a uma máquina ao lado da cama. Canos
ligados a ele e ao seu nariz. Não está assustado, pelo
contrário, sorri. Outro segurança aparece, mira na minha
cabeça. Serei abatido e não poderei fazer nada.
“Não o mate” diz Casius com sua voz cansada.
O segurança está confuso, abaixa a arma “vá enquanto tem
tempo” ordena seu segurança a fugir. O homem parece
aliviado, abre a porta e sai correndo. O encaro “venha até
aqui” me chama, avanço com muita dificuldades em
mover as pernas. Paro ao seu lado. “Então você é o cara
imortal que todos falam? Realmente” olha para meus
ferimentos “parece ser verdade. Confesso, pensei que
fosse mais forte.”
“Também pensei algo sobre você e vejo que
não é realidade. Um homem a beira da morte quer
promover a morte de muitos para fazer um futuro utópico.
É irônico e estranho!”

216
“Todos temos nossas razões, estou morrendo,
mas tenho filhos e netos.”
“E eles sabem dos seus planos?” Chacoalha a
cabeça, negando.
“Não tenho contato com meus familiares. Não
somos amigos.”
“Grande ironia.”
“São patéticos como os outros humanos” para
e respira “todos querendo ajudar o próximo, tentando
vencer a fome e a miséria. É deprimente! A única saída é
escravizar os mais fracos e seguir adiante. A felicidade
não é para todos. Um dia eles observarão a grande obra
que criei.”
“Seus parentes sabem do seu problema de
saúde?”
“Não sabem do meu câncer avassalador
espalhado pela faringe, garganta, boca e pulmões. Estou
vivo por causa das máquinas. Sou apenas carne podre e
um cérebro que ainda funciona.”
“Você é durão, velho.”
“Obrigado, vindo de um homem imortal é uma
honra.”
“Não sou imortal. Esqueça essa bobagem.
Olho de Hórus acaba em você?”
“Não. Sempre haverá a mão invisível em
algum lugar querendo que o mundo seja mais bonito.
Essas coisas da sociedade mancham a terra, sugam tudo,
logo adiante verá que estou longe de ser o mais poderoso a
atravessar o seu caminho” pausa para respirar “lutei pelo
que acredito. O podre de tudo eu apoiei. Homens querendo
obter o poder sobre outros, querendo escravizar os
semelhantes. Olhe para todos os lados e verá.” Outra
pausa “não existem mais lados ideológicos. No passado

217
havia algo para acreditar. Essa baboseira política é só mais
uma desculpa, os poderosos estão atrás de mais poder e foi
isso que fiz durante a vida. Dei poder através do meu
dinheiro e deixei que brincassem de deuses, torci para
matarem o maior número de humanos possíveis. Assiste a
tudo de braços cruzados.”
“Por que matar os que mais necessitam?”
“Por que é a lei natural.”
“Então é um lixo como todos os outros, a
única diferença é que é um maluco milionário.”
“Tentei salvar a terra. A superpopulação é
questão de tempo. Logo haverá guerra por causa da água e
comida. É preciso desacelerar o processo.”
“Estamos fazendo algo bom, matamos homens
corruptos e com seus órgãos salvamos outras pessoas. Os
Assassinos não morrem comigo. Assim como sempre
haverá a mão invisível, haverão outros como eu.”
“O mundo não precisa mais de bondade.
Precisa de dor. O mundo necessita de menos população e
assim reduzir todo o mal. Isso só acontecerá quando os
mais fracos morrerem.”
“Seu sonho utópico jamais será concretizado,
porque os mais fracos vão se unir, um dia, para juntos
garantirem seus direitos, pois eles são a maioria e podem
destronar reis. É nisso que acredito, basta que acreditem
da mesma forma e a guerra terá um vencedor definitivo.”
“Impossível neste país. Veja o resultado das
eleições neste lado do mundo. Admita, não adianta lutar a
favor de quem não deseja a liberdade. Eles são inteligentes
como um bebê tentando abrir um pote de mel. São apenas
idiotas com fome.”
“Eles ainda precisam de conhecimento. Não
deixarei de acreditar. Só esqueceram como amar, e quando

218
isso acontece os líderes refletirão o que o povo deseja.
Hoje votam num tirano, mas aprenderão na dor os erros
cometidos, contudo nem por isso merecem morrer.”
“A dor para eles é o presente, a libertação é a
morte!”
“Não, a dor fará todos perceberem que um
tirano governa para seus iguais. Mesmo com os
Assassinos de Anúbis, muitos morrerão e o trabalho
poderá ser dobrado, pois a corrupção de ontem pode ser a
fórmula ideal do futuro. Eles estatizarão a corrupção e
cada um ganhará um tiro na cabeça e os Assassinos de
Anúbis que puxarão o gatilho. São milicianos, são
bandidos. E todos perceberão que nem corruptos, nem
milicianos devem governar!”
“Seu coração está cheio de esperança, homem
imortal.”
“Tenho esperança que as pessoas deixem de
ser cuzonas, deixem de ser comuns e o mundo vire um
lugar glorioso de intelecto e amor.”
“É mais louco do que eu” sorri e respira fundo.
“Esses loucos estão pensando como a igreja medieval. São
tão idiotas que muitos desdizem o que é provado, como
terra redonda e homem na lua. Só por isso merecem
morrer. Quem acredita em falsos deuses é um falso ser.
Eles só querem dinheiro. Dê-lhes um pouco e serão como
cachorrinhos adestrados.”
“Talvez concordamos em algo” digo irônico
“mesmo assim, com as informações corretas, talvez um
dia voltem a pensar.”
Escutamos barulho no corredor. “Tem dois
corpos aqui” um homem grita, deve ser um policial.
“Parece que chegou a hora da nossa
despedida” diz o velho.

219
“Parece que sim. Tenho uma última pergunta.”
“Sou ‘todo ouvidos’ homem imortal…”
“Por que não acabou comigo quando teve
chance?”
“Ainda não sei explicar. Acredite, era o que
Nico desejava até o último fio de sua barba. Talvez tenha
sido admiração.” Olha nos olhos, está falando a verdade.
Pego a arma e encosto no seu queixo. “Não o
julgarei como faço com os outros. Você está podre por
dentro, não sobrou nada de bom para matar ou aproveitar.
Então senhor Olho de Hórus, como é morrer?”
“É libertador. Enfim a dor acabará.”
“Sabe que não há nada depois da escuridão.”
“Prefiro acreditar que sim.”
“Ora homem, não seja covarde. Aceite sua
morte sem egoísmo.”
“Haverá um céu me esperando…”
“Seu velho maluco. Quem está acima de
você?”
“Caso sobreviva, em breve saberá. Eles o
encontrarão!” Diz sorrindo.
Puxo o gatilho, pedaços da sua cabeça pintam
a parede num quadro abstrato. A carne é de um vermelho
quase preto, morta! O movimento do corredor aumenta.
Olho para a porta, olho para a janela.
É assim que acaba. Olho de Hórus não passava
de um homem extremamente egoísta e milionário,
patrocinando a corrupção e todos os males que provoca
dentro da sociedade. Lauro teve sua parcela de culpa,
devia ter acabado com isso ainda na faculdade, mas
preferiu inventar o antídoto. Meu velho amigo, ainda o
amo de qualquer forma. E agora, tudo está interligado. A
guerra não acaba neste quarto.

220
Junto todas as forças que tenho e correndo do
jeito que meu estado permite, vou na direção da janela. A
porta do quarto abre. Eles não têm tempo. Pulo na janela
arrebentando os vidros.
Estou num voo livre, sem paraquedas. 12
metros, quatro andares. Alguns segundos de viagem, os
segundos mais livres da minha existência.
O impacto é forte, meu corpo bate e balança
no ar para ser sugado de uma vez por todas pela gravidade.
A dor corroí minha vida.
Observo, não estou no chão, caí em cima de
uma van, deixada no meio do pátio do hospital, onde não
estaria em circunstâncias normais. O motorista deve ter
abandonado o veículo no momento da explosão. Isso pode
ter me salvado de algumas fraturas. Olho para meu corpo,
não consigo ver com nitidez. Estou perdendo os sentidos.
Os policiais olham da janela, miram suas
armas, sou ordenano a ficar parado. Rolo para o lado e
caio no chão. Todo meu corpo é uma grande úlcera de dor.
Levanto, minhas pernas doem tanto que os
outros ferimentos pelo corpo passaram a ser suportáveis.
Uma placa mostra a saída, outra abaixo mostra
a direção da garagem de carga e descarga do hospital. É
minha chance. Fugir pelos fundos. Lembro das palavras de
Paloma “fuja pelos fundos!” Tinha razão. É a melhor
saída. Como sabia?
Entro na van, os policiais do quarto andar
atiram nos pneus. Arranco, não consigo imprimir
velocidade. Minhas pernas estão duras, não posso dobrá-
las para debrear e passar as marchas, sigo lentamente, os
policiais atiram nas laterais. Faço a curva atrás dos prédios
e os tiros param. Não tenho muito tempo.
Um imenso muro com grade acima separa eu

221
da liberdade. Jogo a van em cima do muro. Ele não mexe,
mas vejo um furo na grade, ao lado do poste de ferro que a
sustenta.
Estaciono a van ao lado do muro, a escalo,
com muita dificuldade. Abro a porta, um pé em cima do
banco, seguro no teto, impulsiono meu corpo, coloco uma
perna no teto da van, então consigo subir. Arrasto o corpo
até chegar no furo da grade. Começo a sair. Não consigo
segurar e caio no outro lado do muro.
No chão, tento levantar algumas vezes, mas a
fraqueza e a dor não permitem. Então cambaleio até o
muro e consigo ficar de pé. Começo a fazer algo parecido
com trocar passos na única direção que a rua permite. Por
milagre, avisto um carro popular, e como uma miragem
um motorista distraído no seu interior. É minha única
chance de fuga.
Chego mais perto, o reconheço, é o garoto que
nos serviu café na cafeteria. Com sua cara de bobo e
covarde. Será fácil persuadi-lo. Não tenho condições
dirigir no atual estado, o garoto é minha única saída.
Chego mais perto, ele não percebe. Apareço na
frente do carro, fica imóvel, com sua cara de idiota, parece
com muito medo. Bato no vidro, ele abre a porta. Acho
que me reconheceu. Mostro minha arma, entro no carro e
seguimos viagem.
Ele diz que estava esperando Paloma, então
era isso “boa garota!” O persuadiu a esperar atrás do
hospital, pois sabia que poderia necessitar de ajuda para
fugir.
Por sorte, conseguimos despistar a polícia,
desmaio o restante da viagem.

Acordo e estou sozinho no carro, na frente do

222
Hospital Estadual de Transplantes. Saio com muita
dificuldade do carro e caminho até o estacionamento.
Talico me reconhece pelas câmeras e sou
resgatado. Logo estou em cima de uma cadeira de rodas e
sigo para a sala de cirurgia.

Conversamos, conto que existe algo acima do


Olho de Hórus que não conhecemos, e a lógica
persistindo, isso será mais poderoso. Precisamos ficar
atentos e fortes para não sermos derrotados. É preciso
mais força, um pelotão especial perfeito…

223
MESES DEPOIS…
O sol bate nos seus cabelos cor de caramelo,
seu sorriso mostra seus dentes perfeitos. Corre ao lado de
Avenida no Parque Central, ora atrás de uma bola, ora
joga um osso de brinquedo, o cão busca e o entrega nas
suas mãos. Ao meu lado, Juliana sorri, come uma maçã e
conversa com nossa convidada.
Estamos num piquenique. Eu, nossa filha e a
Velha da floricultura. Mãe de Lauro e vó de Talico. É
assim, agora a Velha é nossa companhia nos passeios,
somos bons amigos e sempre diz que a faço lembrar de
Lauro. A propósito, ainda não conheço sua outra filha, a
mãe de Talico. Penso em conversar sobre isso quando meu
celular toca. No visor o nome de Talico. Olho para Juliana
que já leu na pequena tela quem está ligando, não quer que
eu corra para a morte e fica cabisbaixa. Não desejo
retornar aos Assassinos de Anúbis, por pouco não fiquei
cagando e urinando num saco, agora preciso tentar viver.
Meu corpo não resistirá a mais uma batalha.
“É o…” digo para Juliana antes de atender.
“Sei quem é” sou interrompido. “O que vai
fazer?”
“O que quer que eu faça?” A encaro muito
sério.
“Faça o que seu coração mandar” seus olhos
brilham num misto de tristeza e preocupação.
“Quero dar um futuro melhor para nossa
filha.”
Sei que entende, ela sabe, não posso mais virar
as costas para as injustiças. “Será que seu corpo aguenta
mais uma batalha?”

224
A Velha percebe do que estamos falando e diz:
“Acredito que não. Ele está um trapo.”
Ficamos alguns segundos em silêncio, o
telefone para de vibrar. Decido perguntar para a Velha
sobre a mãe de Talico, no exato momento o telefone volta
a tocar.
“Não quero que você morra” diz Juliana.
“Não morrerei enquanto eu te amar” digo.
Chego perto e a abraço, nos beijamos. A velha nos olha
sorrindo. Ficamos assim até Linda chegar perto, cansada
de brincar com Avenida.
“Por que está chorando?” Pergunta para sua
mãe.
“Sáfir precisa partir mais uma vez.”
Olho para Linda que não chora, pelo contrário,
seus olhos estão brilhando como os meus, meu coração
dispara. É minha filha, mesmo ‘nossos sangues’ não sendo
iguais.
“Meus colegas de escola” diz, “brincam com
seus heróis, são todos de muito longe com poderes
absurdos. Nunca disse nada, mas fico muito feliz em ter
meu próprio herói em casa. Por favor, pai! Volte vivo para
nós” completa jogando-se no meu pescoço com os braços
abertos.
Agora é minha vez de ficar emocionado. A
morte começa a ser uma sombra cada vez maior e fria,
toma seu espaço na minha existência. Estou com medo de
morrer. Meu corpo está falindo, todos os ferimentos me
deixaram dependente de muitos remédios e serei cobaia,
em breve, de Salomão Mariane, talvez seja o único que
pode dar um jeito nesse velho corpo.
Talvez o amor me matará. Talvez o medo de
não voltar para casa fará meu coração parar.

225
O telefone começa a vibrar. Desta vez olho
para elas e levo o aparelho até a orelha. Aceito a ligação.
“Alô!”
“Olá, Tomate-cereja.”
“Tudo bem, Talico?”
“Sabe que minhas ligações jamais serão para
boas notícias.”
“Qual é a novidade?”
“Nada de mais”, sua voz está diferente, parece
sombria, “políticos envolvidos com milícias, juízes
envolvidos com ideais de partidos, funcionários desviando
dinheiro público, a floresta morrendo pela mão da
ganância. A mesma guerra infinita de sempre.”
“Então, qual é o problema? Achei que o novo
Pelotão Especial fosse o suficiente para mantermos as
missões em dia.”
“Sim. Eles são capazes, mas estou cansado de
tudo. Nossa vida, todos os dias na mesma luta para as
pessoas seguirem vivendo num mundo mais igualitário e
quando precisamos delas, as mesmas transformam
bandidos em heróis mais de uma vez. Essa é a novidade.
Estou muito cansado, dentro do mesmo carrossel desde a
adolescência. Estou cansado meu amigo. Os Assassinos de
Anúbis precisarão do Tomate-cereja mais do que nunca,
Sáfir.” A ligação prossegue, mas Talico não fala, escuto
um estouro de tiro no outro lado da linha. Então mais
outros.
“Talico! Talico!” Ninguém responde, elas
olham assustadas.

226
Acho que Talico cometeu suicídio.

Continua…
227

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