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As principais mudanças na aposentadoria do servidor público trazidas pela reforma da previdência

Prof. Rodrigo Tenório

As principais mudanças na aposentadoria


do servidor público trazidas pela reforma
da previdência

Professor
Rodrigo Tenório

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As principais mudanças na aposentadoria do servidor público trazidas pela reforma da previdência
Prof. Rodrigo Tenório

Olá, leitor. No formato de perguntas e respostas, esse e-book o ajudará a


atender o quão impactado o servidor público foi com a última reforma da
previdência. O estrago foi bastante grande, como você verá.

1. Quais os efeitos da última reforma da previdência em relação a


valor, idade e tempo de contribuição para os atuais e os futuros
servidores?

A última reforma feita por meio da EC 103, em novembro de 2019, teve um


impacto devastador. No âmbito federal, aumentaram-se o tempo de
contribuição (são necessários 40 anos para integralidade), a idade de
aposentadoria (em cinco anos, tanto para homens quanto para mulheres) e os
valores da contribuição previdenciária (de 11% para uma alíquota progressiva
que chega a 22%). Vinte e dois Estados alteraram suas alíquotas, com a maioria
adotando a de 14%. Revogaram-se regras de transição benéficas, com a do
contrapedágio da EC 47 que beneficiava os que ingressaram antes de 16 de
dezembro de 1998. Seu art.3° estabelecia que ultrapassados os 35 anos de
contribuição, para homem, e 30, para mulher, cada ano excedente geraria
redução de um ano na idade mínima de aposentadoria. Infelizmente, o art. 35,
IV, da EC 103 revogou o art. 3° da EC 47/2005, acabando com o contrapedágio.

Mudou-se o cálculo da média dos salários de benefício de quem entrou no


serviço público entre 2004 e 2013. Antes, levavam-se em conta as 80% maiores
remunerações. Com a EC 103, todas as remunerações passaram a ser
consideradas, o que fará a média, e consequentemente a aposentadoria, cair.
A aposentadoria agora é calculada da seguinte maneira: 60% da média
acrescidos de 2% por ano a partir de 20 anos de contribuição. São necessários,
portanto, 40 anos para se obter a integralidade da média. Aos que migraram,
buscar a integralidade está fora de cogitação, pois o valor da sua aposentadoria
será limitado pelo teto do RGPS. Desncessário, assim, contribuir por 40 anos

Você deve estar pensando: e as regras de transição? Como fica a minha


situação, que já era servidor público quando promulgada a EC 103? Tenho
péssimas notícias: as regras de transição são duríssimas. Beneficiarão uma
pequena fatia dos servidores. Para pessoas como eu, com 15 anos de
contribuição, são inúteis. Repito a seguir, o que já escrevi sobre o tema para a
Associação Nacional dos Procuradores da República:

As regras de transição na EC 103 são especialmente perniciosas aos servidores


públicos. Comecemos falando da manutenção da paridade e integralidade. As
exigências criadas pela Reforma para obtê-las se dividem em dois grupos: a) o

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do art. 4°, que estabelece a regra de pontos; b) o do art. 22, que cria um
pedágio de 100%. Basta preencher os requisitos de um dos grupos para que
sejam mantidas a paridade e a integralidade.

Conforme o art. 4°, o servidor que tenha ingressado no cargo até a entrada em
vigor da Emenda Constitucional poderá se aposentar voluntariamente quando
preencher cumulativamente os requisitos expostos nesta tabela:

Transição do art. 4° da EC 103 com pontuação

Manterá a paridade e a integralidade aquele que, cumpridos os requisitos de


tempo de contribuição, no serviço público e no cargo efetivo, tiver idade mínima
de sessenta e dois anos de idade, se mulher, e sessenta e cinco, se homem.

Aos professores que comprovarem exclusivamente tempo de magistério na


educação infantil e no ensino fundamental e médio, as regras são menos rígidas
quanto à idade tempo de contribuição e somatório. Todos serão diminuídos em
05 anos em relação aos demais servidores (art. 4º, § 4º e § 5º da EC 103).
Logo, o somatório da idade e do tempo de contribuição será de 81 (oitenta e
um) pontos, se mulher, e 91 (noventa e um) pontos, se homem, aos quais serão
acrescidos, a partir de 1º de janeiro de 2020, 1 (um) ponto a cada ano, até
atingir o limite de 92 (noventa e dois) pontos, se mulher, e de 100 (cem) pontos,
se homem.

Tabela – Transição de professores com pontuação

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Para os policiais, a reforma foi extremamente generosa. Nos termos do art. 5º,
os integrantes dos de polícia civil, militar e corpo de bombeiros do DF; polícia
da Câmara dos Deputados e do Senado; Polícia Federal, Polícia Ferroviária
Federal e Polícia Rodoviária Federal que tenham ingressado na respectiva
carreira até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional 103
poderão aposentar-se, na forma da Lei Complementar nº 51, de 20 de dezembro
de 1985, observada a idade mínima de 55 (cinquenta e cinco) anos para ambos
os sexos ou o disposto no § 3º. O parágrafo terceiro, por sua vez, determina os
citados policias poderão aposentar-se aos 52 (cinquenta e dois) anos de idade,
se mulher, e aos 53 (cinquenta e três) anos de idade, se homem, desde que
cumprido período adicional de contribuição correspondente ao tempo que, na
data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional, faltaria para atingir o
tempo de contribuição previsto na Lei Complementar nº 51, de 20 de dezembro
de 1985 . A LC 51/85 estabelece como requisitos de aposentadoria, que será
sempre integral, 30 anos de contribuição, sendo 20 na atividade policial, se
homem, e 25 anos de contribuição, sendo 15 na atividade policial, se mulher.
Em outros termos: a Reforma da Previdência restabelece a paridade e
integralidade para todos os policiais que ingressaram a partir da EC 41/03.

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Transição para policiais com paridade e integralidade

Também estabelece regras de transição o art. 20 da EC, cujas exigências são


expostas a seguir:

Tabela – Transição do art. 20 para servidores em geral

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Vê-se que o art. 20 estabeleceu pedágio correspondente a 100% do período que


falta para atingir o mínimo de contribuição (35 para homens e 30 para
mulheres). Assim, mulheres com 25 anos de contribuição precisariam contribuir
por mais 10 para se aposentar com integralidade e paridade, já que os cinco
anos que faltariam para os 30 seriam dobrados graças ao pedágio. Homens na
mesma situação deveriam contribuir por mais 20 anos. E em qual norma se
prevê que quem cumprir o pedágio teria a paridade? Afinal, o caput só fala no
direito de se aposentar, e não no valor dos proventos. A matéria é regulada pelo
parágrafo segundo do art. 20, o qual assevera que os proventos de
aposentadoria corresponderão, ao servidor público que tenha ingressado no
serviço público em cargo efetivo até 31 de dezembro de 2003 e não migrou de
regime, à totalidade da remuneração no cargo efetivo em que se der a
aposentadoria.

Para os professores, a regra é mais favorável, graças ao art. 20, § 1º, o qual
reduz em cinco anos os requisitos de idade e de tempo de contribuição aos
professores de ambos os sexos que comprovarem exclusivamente tempo de
efetivo exercício de funções de magistério na educação infantil e no ensino
fundamental e médio. Eis os requisites de tempo e idade para eles:

Tabela – Transição do art. 20 para professores

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Nenhuma outra categoria tem regra de pedágio tão dura na atual reforma da
previdência quanto os servidores públicos civis. Aos parlamentares, o pedágio
é de só 30%. Para militares, o pedágio varia de zero a 17%. Para trabalhadores
do RGPS que quiserem se aposentar sofrendo a incidência do fator
previdenciário e estiverem a dois anos de completar o tempo de contribuição,
50%(art. 17 da EC). Para os servidores civis, 100%.

Nada impede que novas reformas venham por normas infraconstitucionais – um


dos nortes da reforma é justamente a desconstitucionalização da previdência -
tornando ainda mais difícil a aposentadoria do servidor.

2. Somente a União fez a reforma da previdência?

Não. Quinze estados já fizeram alterações em suas regras de benefícios. Em


relação às alíquotas de contribuição, 22 estados e mais de 500 municípios já as
mudaram.

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3. Como garantir que a paridade e integralidade aos que


ingressaram antes da EC 41/2003 será mantida?

Não há como garantir. Ainda que elas sejam preservadas, há o risco da
remuneração dos da ativa ser composto por itens que não se refletem nas
aposentadorias, como verbas indenizatórias, incentivos por eficiência ou
honorários advocatícios (no caso da advocacia pública). Nessa hipótese, a
paridade e integralidade serão puramente ilusórias. Tem-se ainda o risco de
ausência de reajuste, que, embora previsto constitucionalmente, tem sido
sistematicamente negado a determinadas categorias como membros do
Ministério Público(MP) e do Judiciário.

4. Quais as modificações ao regime de previdência complementar


da União, em especial quanto às FUNPRESPs?

Atualmente, a CF/88, no art. 40, §15, reza que o regime de previdência


complementar será instituído por “intermédio de entidades fechadas de
previdência complementar, de natureza pública”. A nova redação do dispositivo
dada pela PEC 06 acaba com às restrições às entidades: poderá ser utilizada
qualquer “entidade fechada de previdência complementar ou de entidade aberta
de previdência complementar”.
Na nova redação do art. 40, §15, as FUNPRESPs terão um futuro pouco
promissor. A razão disso é que o texto da PEC 06, replicando defeito da PEC
287, possibilita que os planos dos servidores sejam administrados por qualquer
entidade de previdência pública ou privada, fechada ou aberta. Assim, os planos
dos servidores podem ser entregues a fundos privados de qualquer
banco/seguradora e de empresas controladas pela União, como Petros(da
Petrobrás) e Postalis(da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos). Existe
uma restrição temporária: o art. 33 da PEC veda que sejam usadas entidades
abertas até que publicada lei complementar que discipline a relação entre a
União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios e entidades abertas de
previdência complementar.

5. Quais as novas alíquotas previdenciárias?

A EC 103 alterou o art. 149, §1° para prever progressividade das alíquotas da
contribuição social. Foram estabelecidas alíquotas que vigerão enquanto não
publicada a lei que altere a alíquota prevista na Lei 10887. Ei- las:

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Faixa do salário de contribuição Alíquota


Até R$ 1.045,00 7,50%
De R$ 1.045,01 a R$ 2.089,60 9%
De R$ 2.089,61 a R$ 3.134,40 12%
De R$ 3.134,41 a R$ 6.101,06 14%
DeR$ 6.101,07 a R$ 10.448,00 14,50%
De 10.448,01 a 20.896,00 16,50%
De 20.896,01 a R$ 40.747,20 19%
Acima de R$ 40.747,20 22%

Veja-se que tais alíquotas ainda podem ser aumentadas por lei complementar,
consoante a redação dada pela PEC ao art. 40, §22, X da CF.

6. O que são as contribuições extraordinárias? Em que hipóteses


serão criadas?

Permite-se a instituição de contribuição extraordinária quando não for suficiente


a suprir déficit atuarial a ampliação da base de cálculo da contribuição dos
aposentados e pensionistas, a qual, ordinariamente, equivale ao valor que
ultrapassa o teto do RGPS. Tal base poderá ser aumentada a fim de que se
abarque o valor dos proventos de aposentadoria e de pensões que ultrapasse o
salário mínimo(art. 149, §1°-A e §1°-B). Na hipótese do aumento não resolver
o déficit, permite-se a criação da contribuição extraordinária (art. 149, §1°-A e
§1°-B), a ser paga por servidores, aposentados e pensionistas, por tempo
determinado, até o máximo de 20 anos. Conforme o art. 40, §22, X, “lei
complementar federal fixará parâmetros para apuração da base de cálculo e
definição de alíquota de contribuições ordinárias e extraordinárias”.

7. O abono de permanência foi extinto?

Não, não foi. Atualmente, o art. 40, § 19, garante ao servidor titular de cargo
efetivo que tenha completado exigências para aposentadoria voluntária e que
opte por permanecer em atividade fará jus a um abono de permanência
equivalente ao valor da sua contribuição previdenciária. Na redação dada pela
Reforma, permite-se que, observado critérios a serem estabelecidos em lei, o
abono de permanência seja equivalente, no máximo, ao valor da contribuição
previdenciária. Logo, possbilita-se que o valor do abono seja fixado em patamar
menor que o dessa, podendo chegar a zero. O art. 3°, §1°, da PEC garante que
até que entre em vigor a lei referida no novo art. 40, § 19, o abono continuará
equivalente ao valor da contribuição. De seu turno, o art. 8° assegura o mesmo
direito ao servidor que cumprir as exigências para a concessão da aposentadoria
após a promulgação da PEC e até que entre em vigor a lei de que trata o 40, §
19.

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8. Serão consideradas nulas aposentadorias em que se reconheceu


tempo de serviço sem contribuição?

No art. 25 da PEC, afirma-se que se considera nula a aposentadoria que tenha


sido concedida ou que venha a ser concedida por regime próprio com contagem
recíproca do RGPS mediante o cômputo de tempo de serviço sem o recolhimento
da respectiva contribuição. Além da evidente ofensa à proteção ao ato jurídico
perfeito de quem se aposentou pelas regras vigentes à época, o mesmo
tratamento não foi dado aos militares. Esses, vale lembrar, não contribuem com
a previdência como os servidores civis. No entanto, o art. 201, § 9º, prevê que
o tempo de serviço militar – em que não se paga contribuição – e o tempo de
contribuição do RGPS ou de RPPS – no qual se paga contribuição - terão
contagem recíproca para fins de inativação militar ou aposentadoria.

9. Houve desconstitucionalização da previdência?

Sim, de boa parte dela, ao contrário do que se tem dito. Diversos temas foram
remetidos à legislação infraconstitucional, tais como: a) extinção dos regimes
próprios (art. 40, par. 22) b) fixação dos parâmetros da contribuição
extraordinária; c) redução do abono; d) aumento das alíquotas progressivas
fixadas no texto constitucional; e) a cálculo do valor da aposentadoria por
invalidez; e f) valores dos benefícios em caso de cumulação.

10. A EC 103 traz nova oportunidade para migrar de regime?

Para a União, não. Para Estados e Municípios, seja com a criação obrigatória do
regime de previdência complementar no prazo de dois anos da promulgação,
seja com a extinção dos regimes próprios, a oportunidade deve surgir. Nada
impede que novo prazo de migração seja concedido por lei ordinária ou medida
provisória, como feito outrora, para os servidores federais.

11. Que órgão irá analisar os pedidos de aposentadoria?

O art. 20 veda a existência de mais de um regime próprio ou de mais de um


órgão ou entidade gestora deste regime em cada ente federativo, abrangidos
todos os poderes. Há, aqui, alteração drástica do quadro atual. Membros do MPF
e Ministros do STF que atualmente têm os requisitos da aposentadoria
analisados pelos órgãos a que pertencem os terão examinados por uma
entidade gestora única, ligada fatalmente ao Executivo.

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12. Como ficarão a pensão por morte e a aposentadoria por


invalidez?

Esse é um dos temas mais caros aos que se encontram diante do dilema da
migração. Veja nosso e-book específico sobre o tema clicando aqui
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Rodrigo Tenório. Procurador da República, bacharel em Direito pela USP, mestre


pela Harvard Law School, doutorando pela UFPE, Pós-graduado em gestão
pública pela FGV, especialista em investimentos pela Anbima (CEA), aprovado
em módulos do exame Certified Financial Planner (CFP), autor de livros jurídicos
entre eles “Regime de Previdência: é hora de migrar “(Amazon, 2020).

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