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FACULDADE NACIONAL DE DIREITO

Disciplina: Introdução aos Direitos Humanos


Professora: Ana Paula Barbosa-Fohrmann
Doutoranda em estágio: Luana Adriano Araújo
Monitor: Gustavo Cardoso Silva

ATIVIDADE: ESTUDO DIRIGIDO SOBRE “CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS


HUMANOS E DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS”
Leitura principal: HUNT, Lynn. Introdução – “Consideramos estas verdades autoevidentes”.
In: Invenção dos direitos humanos. Trad. de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Cia das Letras,
2009, p. 13-33.

1. História das verdades autoevidentes


Os direitos humanos universais têm uma história muito particular. Antes da segunda metade do
século XVII, a ideia de que todos os seres humanos, simplesmente por serem humanos, têm
direitos que podem exercer contra o Estado e a sociedade não recebeu nenhum endosso político
substancial em qualquer parte do mundo – embora se tenha argumentado que todas as grandes
civilizações nutriram versões culturalmente próprias de “direitos humanos”1. Contudo, é
moderna a ideia de que todos os seres humanos têm direitos iguais e inalienáveis pelo simples
fato de serem humanos, sendo esses direitos oponíveis a um Estado ou a uma sociedade.
O quadro referencial para o surgimento dos direitos humanos é o iluminismo calcado no
jusnaturalismo de caráter antropológico2. Para a concepção jusnaturalista, existem prerrogativas
essenciais, decorrentes de normas anteriores e superiores em relação ao direito positivo, que
consistiriam em direitos naturais. Seu fundamento teria origem divina ou racional (i.e.,
decorrente da própria ideia de natureza humana racional). São esse fundamento jusnaturalista
racional e uma outra concepção relevante para a modernidade, qual seja a de contratualismo,
que animariam, conjuntamente, o surgimento do conceito de direitos humanos.
De acordo com Hunt, a expressão “direitos do homem” apenas surgiu na França e depois nos
Estados Unidos a partir dos anos de 1760. Seus antecedentes, contudo, se encontram também na
Inglaterra do Século XVII, com a Petição de Direitos de 1626, o Habeas Corpus Act de 1759 e
o Bill of Rights, de 1689. Embora esses documentos reconhecessem direitos à liberdade de
1
DONNELLY, Jack. Universal human rights in theory and practice. Cornell University Press, 2013, p. 75 ss.
2
A caracterização como “antropológico” marca a passagem de um sistema de referência “cosmoteológico”, de
origem divina, para um sistema de referências cuja base é a natureza humana. Para Goyard-Fabre, “a
antropologização do jusnaturalismo será na verdade sua ‘modernização’”. GOYARD-FABRE, Simone. Os
Fundamentos da Ordem Jurídica. Trad. de Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 39.
expressão, a proibição de prisão arbitrária e o princípio da legalidade penal, Hunt entende que
eles não declaravam a igualdade, a universalidade ou o caráter natural dos direitos3.
Em 1651, a teorização de Hobbes sobre o Estado de Natureza, no qual todos possuem plena
liberdade. Esse é um estado em que há uma “guerra de todos contra todos, sendo neste caso
cada um governado por sua própria razão” 4. É, portanto, com o intuito de preservação dos
indivíduos que Hobbes sugere uma formação contratual de Estado (Leviatã) a partir da
abdicação da liberdade inicial. As noções de Estado de Natureza e de Contrato Social seriam
posteriormente relevantes para Rousseau, em “O Contrato Social” (1762). Nele, Rousseau
sugere que o Estado é fruto de um contrato entre homens livres e iguais com vistas ao zelo do
interesse da maioria. Um ano depois d’O Contrato Social, a expressão “direitos do homem” é,
pela primeira vez, utilizada em “Tratado da Tolerância” (1763), de Voltaire.
De acordo com Hunt, foi a Declaração da Independência que permitiu uma disseminação da
expressão “direitos humanos” no mundo francês – especialmente depois dos comentários sobre
a Revolução Americana feitos pelo Marquês de Condorcet, em 1786, que, pela primeira vez,
definiu os direitos humanos como incluindo a segurança da pessoa, a segurança da propriedade,
a justiça imparcial e idônea e o direito de contribuir para a formulação das leis 5. A expressão
também viria a ser utilizada no panfleto “O que é o Terceiro Estado”, de Sieyès, cuja
distribuição inflamou os movimentos populares envolvidos na Revolução Francesa.
2. A ideia de direitos humanos como direitos históricos
Embora a inspiração original dos direitos humanos seja de matriz jusnaturalista, argumentar que
os direitos humanos são fruto de uma construção histórica admite, segundo Bobbio, que “por
mais fundamentais que sejam, [os direitos humanos] são direitos históricos, ou seja, nascidos
em certas circunstâncias, caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos
poderes, e nascidos de modogradual, não todos de uma vez e nem de uma vez por todas” 6.
Assim, o “elenco dos direitos do homem se modificou, e continua a se modificar, com a
mudança das condições históricas, ou seja, dos carecimentos e dos interesses, das classes no
poder, dos meios disponíveis para a realização dos mesmos, das transformações técnicas, etc” 7.
As principais consequências dessa variação são: a) a indeterminação do conceito de “direitos
humanos”, b) a variabilidade dos direitos que compõem os direitos humanos, c) a

3
HUNT, Lynn. A invenção dos Direitos Humanos: Uma História. Trad. de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Cia
das Letras, 2009, p. 19.
4
HOBBES, Thomas. Leviatã. Cap. XVI. Trad. de Alex Marins. São Paulo, Martin Claret, 2004.
5
HUNT, Lynn. op. cit., p. 23.
6
BOBBIO, Noberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 7. Tiragem. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2004, p. 9.
7
Id, p. 13.
heterogeneidade das pretensões que fundamentam os direitos humanos (as quais podem,
inclusive, ser incompatíveis entre si)8.
3. Referenciais para o surgimento dos direitos humanos
O surgimento dos direitos humanos, cuja datação geralmente remonta às declarações nacionais
de direitos do homem na França e nos EUA, tem uma inspiração profundamente filosófica, de
modo que, de acordo com Bobbio, “sua primeira fase deve ser buscada na obra dos filósofos” 9.
Nesse sentido, determinados quadros referenciais foram determinantes para que a noção de
direitos humanos (ou, inicialmente, direitos do homem) pudesse ser articulada.
3.1. Racionalismo
O racionalismo é o sistema de conhecimento segundo o qual o sujeito pensante é a referência
para se chegar à verdade. No contexto dos direitos humanos incipientes do século XVIII, o
racionalismo sugere que a razão humana é o fundamento dos direitos humanos. É a partir dessa
concepção que se desenvolve um “esforço de racionalização” do direito, consistente na
“elucidação de instrumentos conceituais destinados a constituir os axiomas básicos e as
estruturas arquitetônicas do sistema científico ou do sistema jurídico-político”10.
2.2. Secularização
Cabe a Hugo Grotius, um dos fundadores do Direito Internacional, os primeiros
desenvolvimentos da ideia de secularização estatal, especialmente na obra “Direito de Guerra e
Paz” (1625). Nela, diz o autor: “O direito natural é tão imutável que não pode ser mudado nem
pelo próprio Deus”11. Destaque-se que a ideia de secularização do Estado não coincide com a de
laicismo, dado que, em Grotius, há alusões de Deus como autor da natureza humana: “O direito
natural nos é ditado pela reta razão que nos leva a conhecer que uma ação, dependendo se é ou
não conforme a natureza racional, é afetada por deformidade moral ou por necessidade moral e
que, em decorrência, Deus, o autor da natureza, a proíbe ou a ordena”12.
3.3. Liberalismo
A doutrina do liberalismo entende que todos os seres humanos detêm liberdades iguais. Os
liberais clássicos conferem um papel de centralidade à autonomia individual, além de
expressarem um forte proteção da igualdade formal. John Locke, frequentemente creditado
como fundador do liberalismo filosófico, defende, no Segundo Tratado sobre o Governo, que
cada homem tem um direito natural à vida, à liberdade e à propriedade, sendo essas as
8
Id., p. 12-16.
9
Id., p. 18.
10
GOYARD-FABRE, Simone. Op. cit., p. 46.
11
GROTIUS, Hugo. O Direito da guerra e da paz (De jure belli ac pacis). v.1. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2005, p.
81.
12
Id., p. 79.
prerrogativas que foram, posteriormente, classificadas como pertinentes à “primeira geração
dos direitos humanos”.
3.4. Individualismo
De acordo com Lafer, o individualismo, em sua acepção mais ampla, abarca “todas as
tendências que veem no indivíduo, na sua subjetividade, o dado fundamental da realidade. O
individualismo é parte integrante da lógica da modernidade, que concebe a liberdade como a
faculdade de autodeterminação de todo ser humano”13. A passagem do Estado absolutista para o
Estado de Direito também perpassa a preocupação do individualismo em estabelecer limites à
ação Estatal no tocante ao indivíduo, especialmente no que diz respeito à manutenção de sua
propriedade.
3.5. Contratualismo
A noção de que a sociedade é fruto de um contrato – seja entre seres naturalmente selvagens,
que abrem mão de sua liberdade em nome da segurança, seja entre seres “livres, iguais e
independentes” – é típica da modernidade. Em Locke, por exemplo, a associação se dá como
forma de melhor aproveitamento dos direitos naturais, sendo motivada por sentimentos morais
cooperativos, que possibilitam a vida produtiva comum. Dessa forma, apenas visando ao
alcance de vantagens mútuas que os indivíduos “abdica[m] de sua liberdade natural e
[revestem-se] dos elos da sociedade civil”, podendo, assim, viverem “confortável, segura e
pacificamente uns com os outros, num gozo seguro de suas propriedades e com maior
segurança contra aqueles que dela não fazem parte”14.

4. Gerações ou dimensões de direitos humanos

É de Karel Vasak a noção de que os direitos humanos podem ser classificados segundo
dimensões, que corresponderiam aos princípios enunciados no lema da Revolução Francesa:
(direitos de) liberdade; (direitos de) igualdade; (direitos de) fraternidade. Essas seriam a
primeira, a segunda e a terceira geração de direitos humanos. Bonavides foi responsável, em
solo nacional, por acrescentar novas gerações aos direitos humanos, incluindo uma quarta
(referente aos direitos de participação democrática direta) e uma quinta (referente ao direito à
paz)15.
As principais críticas contra a noção de “gerações de direitos” são: 1) a ideia de gerações faz
entender que há uma substituição entre as gerações, o que é um erro, já que nem novos direitos

13
LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p. 120.
14
LOCKE, John. Dois Tratados sobre o Governo. Trad. de Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 468
(par. 95).
15
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 30. Ed. São Paulo: Malheiros, 2015, p. 574-209.
humanos que surgem não excluem os antecedentes, nem é necessário que uma geração seja
“madura o suficiente” para que haja o surgimento de outra; 2) não é verdade que os direitos
sociais surgem apenas com a crise do Estado liberal, visto que mesmo nas primeiras declarações
nacionais, já havia a previsão de direitos sociais (e.g., o dever de criar instituições públicas de
assistência às crianças, constante da Constituição Francesa de 1791, e o direito de “instrução
primária” gratuita na Constituição brasileira do Império de 1824); 3) é errada a noção de que os
direitos de primeira geração não geram gastos e não demandam uma ação do Estado, enquanto
os direitos das gerações seguintes, especialmente os sociais, são onerosos – isto porque todos os
direitos demandam uma organização orçamentária para serem realizados; 4) os direitos
humanos são indivisíveis e interdependentes, não sendo possível uma divisão que analise
conceitualmente apenas uma geração, sem que tal investigação impacte todas as outras.
Em uma esquematização, as gerações formariam o seguinte arcabouço:
1º Geração - 2º Geração - 3º Geração - Fraternidade 4º Geração –
Liberdade Igualdade Democracia Direta
Direitos Civis e Direitos Sociais, Direitos ao Desenvolvimento, Direito Direito à Democracia,
Políticos: Vida, Econômicos e Culturais ao Meio-Ambiente, Direito à Paz, Direito à Informação e
Liberdade e Direito ao Patrimônio Comum e Direito Direito ao Pluralismo,
Propriedade à Comunicação Direito ao Patrimônio
Genético
Direitos de Status Direitos de Status Direitos de Status Activus
Negativos Positivos
Titulares: Titulares: coletividades Titular: Humanidade Titular: Humanidade
indivíduos
Declarações Constituições Sociais: Declarações Internacionais, negociadas Declaração dos Direitos
Nacionais: Constituição Mexicana no âmbito das Nações Unidas (e.g., do Homem e do
de 1917 e Constituição DUDH, PIDCP, PIDESC, Pacto de San Genoma Humano feita
de Weimar de 1919 José da Costa Rica e Convenção pela UNESCO
Europeia dos Direitos Humanos)

QUESTÕES:

1) Os direitos humanos sempre existiram? Explique sua resposta.


2) Explique o que são as gerações de direitos humanos e destaque dois motivos pelos quais
essa concepção tem sido criticada doutrinariamente.