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Introdução

O exército romano suscita curiosidade e interesse no grande público. Apreciadores


de películas cinematográficas ou de séries televisivas históricas, leitores de banda-
desenhada, turistas em Roma, muitos deles já contemplaram as figuras de soldados
romanos. A estas representações se junta o fascínio pelo instrumento, por excelência,
da conquista do mundo conhecido dos Romanos, sendo grande a tentação de
estabelecer comparações e analogias com outros imperialismos, mas correndo o risco
de formular juízos anacrónicos. Esta sensação de familiaridade ainda mais se acentua
com a leitura dos autores latinos e gregos que, nas suas obras, privilegiaram a narração
de numerosas batalhas. Assim, Políbio descreveu o exército romano no apogeu da
República, enquanto Júlio César evocou aquele que lhe permitiu conquistar as Gálias e
ganhar o poder supremo. Quanto aos legionários e às tropas auxiliares de Trajano,
ficaram plasmados, desafiando a voragem do tempo, nos relevos marmóreos da sua
emblemática Coluna triunfal, localizada no coração da Urbs. Por outro lado, já se torna
muito difícil saber de que exército fala Flávio Renato Vegécio, ainda que o seu Tratado
da arte militar (Epitoma institutorum rei militaris), redigido na transição entre os
séculos IV e V, tenha servido como fonte de inspiração para múltiplas gerações de
estrategos da Idade Média em diante.

Os escritores antigos, tão atreitos a exaltar a glória dos generais e as virtudes dos
cidadãos, denegriram, em contrapartida, a imagem dos soldados, mostrando-os amiúde
como indivíduos caracterizados pela brutalidade e pela cupidez. Para os historiadores
actuais, as maiores dificuldades consistem em interrelacionar essas descrições sobre o
exército romano feitas em épocas diferentes, bem como lograr apreender como seria a
vivência do soldado deixando de parte os clichés veiculados pela literatura antiga.
Deve-se buscar o motor das transformações operadas na organização das forças
armadas tanto nas mudanças que se registaram na sociedade romana, como na
evolução das relações que Roma manteve com o mundo exterior.

Além da sua óbvia função bélica, o soldado contribuiu inegavelmente para a difusão
do modus vivendi romano e o funcionamento da administração do Império, afora
muito concorrer para a circulação de ideias e crenças. Para a elaboração deste estudo,
alicerçámo-nos em abundante documentação, que, aliás, continua a ser regularmente
enriquecida com a descoberta de novas fontes epigráficas, papirológicas, arqueológicas
e numismáticas. Na lápide de um soldado, observa-se frequentemente a concepção que

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o defunto e os seus camaradas do defunto tinham sobre o ofício das armas. Quanto às
dedicatórias ou ex-votos, espelham as crenças religiosas mais enraizadas nas
guarnições. Por seu lado, um óstraco (do grego ostrakon, fragmento de cerâmica
inscrito) exumado nas areias africanas ou, então, uma tabuinha de madeira recuperada
de uma sepultura de turfa na Britânia, podem também lançar luz sobre a vida militar
no Império. Estas peças, com efeito, serviam de suporte para os escritos mais correntes:
desde listas de provisões e relatórios, passando pela indicação de senhas, cartas
privadas e até convites, por exemplo, para uma festa de aniversário…

Foram essencialmente três preocupações, a de reconstituir o processo evolutivo das


instituições militares romanas e a descrição crítica da realidade da guerra, bem como o
estudo da vivência quotidiana do soldado, que melhor explicam o plano da desta obra.
Esta, apesar de obedecer ao factor cronológico, comporta igualmente dois blocos
temáticos, consagrados a diversas vertentes sobre o soldado romano durante um
período sobre o qual estamos bem informados – entre o século I e o III d. C. Como
facilmente se depreende, percorrer treze séculos de história da Roma antiga exigiu um
exaustivo labor de investigação documental e bibliográfica, bem como um apreciável
número de trocas de impressões com abalizados especialistas na matéria.

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CAPÍTULO 1 - A guerra e as forças armadas nos tempos da
Roma Arcaica e no começo da República. A conquista de
Itália

Preâmbulo

As narrativas das primeiras proezas mavórticas dos Romanos pertencem mais ao


domínio da lenda do que à história propriamente dita. As vitórias de Rómulo sobre os
seus vizinhos imediatos de Caenina, Crustumerium e Antemnae, as de Túlio Hostílio
sobre Alba Longa, os Etruscos e os Sabinos mostram mais esquemas narrativos
comuns aos mitos fundadores das culturas indo-europeias do que pormenores
concretos dos verdadeiros dispositivos defensivos da Roma arcaica. Neste sentido, é
preciso esperar até meados do século VI a. C. para se extrairem dados históricos
minimamente fiáveis. Os testemunhos sobre os primórdios da história romana são
problemáticos. Os historiadores antigos elaboraram narrativas que se conservaram,
essencialmente, em duas fontes, escritas em finais do século I a. C., por Tito Lívio e por
Dionísio de Halicarnasso (a última em grego, de que só sobreviveu a récita dos eventos
a partir do ano 443 a. C. em diante). No entanto, a historiografia romana principiou
apenas nos últimos tempos do século III antes da nossa era, pelo que se torna evidente
que os relatos evocando os períodos mais antigos foram retocados por escritores
posteriores.

Sobre o período da monarquia em Roma, muito do que é contado nas fontes literárias
corresponde a narrações lendárias e reconstituições imaginativas. A partir da fundação
da República (data tradicional: 509 a. C.), os historiadores antigos passaram a facultar
um «relatório» anual. Esta prática incorporou informações autênticas, oral ou
textualmente transmitidas, como a consignação dos acontecimentos que, desde tempos
recuados, efectuava o pontifex maximus. No entanto, este material sofreu distorções de
sucessivos escritores, que inseriram nos relatos dados suplementares, procurando
oferecer aos leitores mais detalhes. Consequentemente, a identificação do núcleo dos
informes autênticos no seio dos relatos históricos conservados revela-se complexa.
Actualmente, há um consenso praticamente generalizado de que muito do que lemos
sobre os períodos mais remotos corresponde a uma série de «construções» literárias,
das guerras, cujas narrações incluem, em muitas parcelas, invenções estereotipadas e
anacrónicas. Não obstante estas dificuldades, é possível reunir um apreciável conjunto

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de dados sobre a história arcaica de Roma e, extensivamente, avaliar o seu modo de
fazer a guerra, nas suas grandes linhas. Para este labor, dispomos de outros
testemunhos antigos, como os relatos «antiquários» das instituições romanas, um
conjunto de fontes epigráficas e, para o período monárquico, vários achados
arqueológicos1.

Salientemos, igualmente, o contributo da etimologia, que nos clarifica um pouco


sobre a organização militar da Roma arcaica. O termo tribunus (tribuno), por exemplo,
que designava um oficial, derivou possivelmente do vocábulo tribo 2. De facto, cada uma
das três tribos de carácter gentilício, pelas quais se terá repartido a população da Roma
primitiva – Ramnenses, Titienses e Luceres -, era, ela própria, subdividida em 10
cúrias. A fim de de que cada uma pudesse fornecer uma centúria de 100 homens
armados. Os 1000 indivíduos procedentes de uma mesma tribo seriam, assim,
comandados por um tribuno. A etimologia explica igualmente o significado de legio (do
verbo eligere, «escolher», «seleccionar»), que se referia ao conjunto dos 3 000 infantes
chamados a servir. Desde essa época, dificilmente localizável no âmbito cronológico,
havia, além disso, 300 cavaleiros, recrutados no seio das mais ricas linhagens, que
tinham de suportar as despesas com o seu próprio equipamento, na razão de 100
homens por cada tribo.
Quanto ao sufrágio (suffragium), que advém de fragor, «clamor», «estrépito» - e
sugere os remotos laços bem estreitos entre a organização política e a organização
militar que caracterizaram Roma, tal como outras cidades-estados. Convocados
conhecerem as decisões do rei ou do Senado, os Romanos manifestavam, talvez
originariamente, a sua aprovação ou desaprovação ao entrechocarem as armas. A
própria repartição dos mesmos nas trinta cúrias conduziu a que se chamasse a esta
assembleia comitia centuriata. A comunidade cívica confundia-se, pois, com a
assembleia dos guerreiros que devia defender a cidade.
Contrariamente a outras sociedades de origem indo-europeia, Roma parece que
nunca conheceu uma distinção entre uma classe de sacerdotes, uma de guerreiros e
outra de produtores. Nas fontes literárias, encontramos alusões a estes exércitos
gentilícios (gentes), formados a partir de solidariedades hierarquizadas, obedecendo a
laços de sangue (cognati) e relações de dependência, conhecidas respectivamente pelos
termos sodales e clientis. Como adiante se verá, Tito Lívio e Dionísio de Halicarnasso
evocam estas grandes tropas clientelares.
1
Para mais informações sobre os testemunhos relativos aos primórdios da história de Roma, consultem-se: T. J. Cornell,
The Beginnings of Rome. Italy and Rome from the Bronze Age to the Punic Wars (c. 1000-264 BC), Londres, 1995, pp.
1-30; G. Forsythe, A Critical History of Early Rome, Berkeley, 2005, pp. 59-77. Sobre a tradição histórica romana, veja-
se S. P. Oakley, A Commentary on Livy Books VI-X, Oxford, 1997-2005, 1.3-108.
2
M. Humm, «Tribus et citoyenneté: extension de la citoyenneté romaine et expansion territoriale», in M. Jehne e R.
Pfeilsch (eds.), Herrschaft ohne Integration? Rom und Italien in Republikanischer Zeit, Studien Zur Alten Geschichte,
Verlag Antike, pp. 39-64.

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1.1. Guerra e expansão territorial

Os primeiros êxitos militares de Roma deveram-se principalmente à sua localização


geográfica: um grupo de colinas defensáveis, junto do ponto de passagem onde o eixo
norte-sul da Etrúria e da Campânia se cruzava com a via interior, em direcção ao mar
Tirreno e às salinas da embocadura do Tibre. Na sua origem, Roma era apenas uma das
muitas comunidades de Latinos habitando a planura a sul do Tibre e as encostas
imediatamente circundantes, partilhando o mesmo dialecto indo-europeu, similar
cultura material e alguns santuários em comum. A norte do Tibre viviam os Etruscos,
que não tinham um idioma indo-europeu, mas que, nos séculos mais recuados, a
cultura material das comunidades meridionais etruscas, em particular a vizinha de
Roma, Veios (Veii), parece ter evidenciado bastantes pontos em comum com a dos
Latinos. A leste de Veios e a norte do Tibre, situavam-se os Falisci (Faliscanos),
linguisticamente próximos dos Latinos. Na margem romana do rio, além dos Latinos,
estavam outros povos aparentados, como os Sabinos.
O amplo leque de povos que partilhava estas terras constituiu um importante factor
para o desenvolvimento inicial de Roma. Esta começou a ser habitada desde, pelo
menos, 1000 a. C. aproximadamente, e no século VIII formaram-se diversas aldeias
compostas por cabanas na monte Palatino e noutros locais. Os recheios das sepulturas
descobertas na região patenteiam uma maior estratificação social e, a partir do século
VIII a. C., um índice de considerável riqueza. Nos últimos anos do século VII, a
arqueologia atesta a criação de espaços e edifícios públicos em Roma: por esta altura,
ela terá passado de uma comunidade, englobando diversas aldeias, para uma cidade-
estado. Neste período histórico, Roma era governada por reis, certamente mais que os
sete apontados pela tradição. Muitos supuseram que nos reinados dos derradeiros três
soberanos (Tarquínio-o-Antigo3, Sérvio Túlio4 e Tarquínio-o-Soberbo) Roma esteve sob
dominação etrusca, mas certos historiadores actuais, como T. J. Cornell, contestaram
esta teoria. Estes reinados devem ter abrangido o espaço temporal entre meados e
finais do século VI; tanto a tradição histórica como os próprios vestígios arqueológicos
mostram que este período gozou de certa prosperidade, sendo Roma a cidade mais
florescente do Lácio (Latium)5.

3
Que teria o nome etrusco de Lucumon e seria originário de Tarquínia (Tarquinii), tal como Tarquínio-o-Soberbo.
4
Proviria da cidade de Vulsi. O seu nome, citado pelo imperador Cláudio, figura também nos afrescos do denominado
«Túmulo François», que data do século IV e se localiza nessa comunidade etrusca.
5
T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, capítulos 4, 6 e 8. Veja-se, também, E. Gjerstad, «Innenpolistische und
militärische Organisation in frührömische Zeit», Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt, I.1 (1972), pp. 136-188.

5
A tradição histórica romana só atribuiu a um monarca guerras vitoriosas e intentos de
expansão territorial contra os Latinos e outros povos vizinhos, mas lembremos que
poucos dados contidos na primeira terão correspondido a factos reais. Ainda assim, é
provável que em finais do século VI a. C., o território romano praticamente atingisse a
extensão que a tradição refere para o período da realeza: haveria uma significativa
«testa-de-ponte» na margem direita do Tibre e, na esquerda, pelo menos, o território
de Roma alcançaria a faixa marítima, ao passo que para sudeste se estenderia até ao
Monte Albano. A. Alföldi argumentou que muitas destas etapas expansionistas só
tiveram lugar desde o fim do século V, mas isto não parece adequar-se à verdade, já que
um crescimento substancial certamente se reflectiria na tradição 6.
Roma não foi a única comunidade latina a expandir-se no período arcaico, mas o seu
território tornou-se indiscutivelmente muito maior do que qualquer outra. As
estimativas propostas por K. J. Beloch, se bem que conjecturais, apresentam indicações
aproximativas mais ou menos plausíveis: ele afirmou que, em finais do século VI, o
território romano teria 822 km2, isto é, pouco mais de 1/3 de toda a região latina (2,344
km2)7.
Desde o reinado de Túlio Hostílio, a tradição apresenta Roma a tentar exercer a
supremacia sobre os outros Latinos, oferecendo estes, frequentemente, uma oposição
concertada. Como se disse, são poucos os informes veiculados por esta tradição com
irrefutável valor histórico; porém, ao tomarmos em consideração o maior tamanho da
sua cidade e território, não custa admitir que os últimos reis tenham conseguido
estabelecer algum género de hegemonia sobre alguns dos Latinos, pelo menos.
Deparamos com um claro testemunho das reivindicações de Roma em finais do século
VI no primeiro tratado que a mesma concluiu com Cartago, cujo conteúdo o historiador
grego Políbio, escrevendo no século III a. C., conservou (Hist. 3.22): nesse convénio, os
Cartagineses comprometiam-se a não causar danos «ao povo de Ardea, Antium,
Lavinium, Circeii, Tarracina, ou quaisquer outros Latinos, que são súbditos». Embora
a datação do acordo de 348 a. C. ainda possua apoiantes no meio académico, nos
últimos anos a maioria dos historiadores tendeu a aceitar a data apontada por Políbio,
segundo o qual o tratado terá sido celebrado no primeiro ano da República.
Independentemente de qual das datas se afigura mais correcta, a pretensão, por parte
de Roma, de dominar Antium, Circeii e Tarracina talvez represente um exagero do seu
poder. Estas cidades costeiras, bem como a Planície Pomptina por detrás das mesmas,
foram ocupadas pelos Volsci, e o controlo total desta zona pelos Romanos, só se
materializou a partir de 338 a. C.
6
A. Alföldi, Early Rome and the Latins, Ann Arbor, 1965, pp. 101-175, 236-318. Para uma refutação das ideias deste
autor, cf. os comentários de R. Thomsen, King Servius Tullius, Copenhaga, 1980, pp. 130-138.
7
K. J. Beloch, Römische Geschichte bis zum Beginn der punischen Kriege, Berlim, 1926, pp. 169-179. Estes cálculos
foram aceites por T. J. Cornell: The Beginnings of Rome, pp. 208-209.

6
Em geral, crê-se que os Volsci eram invasores que chegaram à região Pomptina em
começos do século VI. Contudo, a tradição apresenta-os já nesta área no tempo dos reis
romanos e, neste caso, cabe dar crédito à primeira. Uma suposta invasão dos Volsci, no
século V a. C., da região Pomptina e a expulsão dos Latinos teria constituído uma fase
momentânea, daí, possivelmente, nenhum vestígio destes factos perdurar na memória
romana8.
Apesar de merecer pouca fiabilidade em diversos aspectos, a tradição histórica talvez
esteja certa ao retratar os Romanos como participando frequentemente em conflitos
com os seus vizinhos latinos e outros povos. Os lucros resultantes de tais guerras foram
uma maiores fontes de prosperidade para Roma no século VI a. C.: consequentemente,
a tradição segundo a qual o grande templo no Capitólio fora construído graças aos
despojos obtidos na captura de Pometia pelo Tarquínio-o-Soberbo pode, afinal,
corresponder à realidade9.
Quanto à periodicidade com que os conflitos armados se desenrolavam, só é possível
formular conjecturas. Ainda assim, vários indícios levam a presumir que houve
confrontos violentos entre os Romanos e os membros de outras comunidades num
ritmo quase anual. Muitas vezes, apresentaram-se evidências rituais para provar que,
nos tempos mais remotos, bem como posteriormente, a guerra era um fenómeno anual
para os Romanos, diversos investigadores interpretando os antigos ritos celebrados nos
meses de Março e Outubro como marcadores, respectivamente, do início e do fim da
estação das campanhas. Porém, o significado original da maior parte destes rituais
conduziu a opiniões divergentes, além de que não se preservaram provas explícitas que
corroborem a tese de que correspondessem a um ciclo de guerra sazonal 10.
8
Sobre o tratado com Cartago: T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 210-214; S. O. Oakley, A commentary on Livy
Books, 2.252-262. Quanto aos Volsci como estando já presentes na região Pomptina desde o século VI a. C. (pelo menos)
vejam-se: D. Musti, «L’immagine dei Volsci nella storiografia antica», Quaderni del Centro di Studi per l’Archeologia
Etrusco-Italica, 20 (1992), pp. 25-31; M. Gnade, Satricum in the Post-Archaic Period, Lovaina, 2002, pp. 138-156.
9
Cícero, Rep. 2.44; Tito Lívio, Ab Urb. cond. 1.53.2-3; 55.7-9; Dionísio, Ant. rom. 4.50; Tácito, Hist. 3.72. Talvez caiba
identificar Pometia com a cidade ulteriormente denominada Satricum.
10
Interpretação ainda defendida por certos historiadores, como P. Cosme (L’armée romaine: VIIe s. av. J.-C.-Ve s. apr.
J.-C., 2ª edição, Paris, Armand Colin, 2012, pp. 9-10: este autor refere que, desde tempos muito recuados, o calendário
definiu uma estação guerreira que se iniciava na Primavera, através da lustratio das armas, que depois terminava no
Outono por meio da cerimónia do «cavalo de Outubro» e da purificação das armas. Assim, a guerra teria sido marcada
por um ritmo sagrado: «…o serviço militar investia o Romano de uma missão exigida pelos deuses, que o fazia passar
para um meio diferente da sua comunidade civil e induzia, então, uma importante mudança na sua condição. Tratava-se
de dois estados vividos alternativamente. A passsagem de um para o outro operava-se por meio de ritos, fixados por um
calendário imutável, que faziam do cidadão um soldado e vice-versa». Em Março, uma cerimónia de lustratio abria a
estação das campanhas militares com corridas no Campo de Marte, a purificação das armas e das trombetas e os
suovetaurilia, sacrifícios de um porco, de um carneiro e de um touro. Assim se protegeria a Cidade das forças nocivas e
destruidoras, mantendo os soldados afastados dos limites sagrados do pomerium, recinto cujo traçado se atribuiu
tradicionalmente a Rómulo, o qual não se poderia atravessar com armas. Através dos ritos de partida para a guerra, cada
romano mobilizado, que fora consagrado a Marte, saía dos limites sagrados e teria de ficar fora do pomerium. Por fim,
quando terminava a estação guerreira, de novo se celebravam várias cerimónias para que o miles voltasse a ser quirite,
altura em que se procedia à purificação do exército, por este representar, aos olhos do resto da sociedade, um perigo. O
ritual do Tigillum Sororium, o da passagem dos guerreiros sob o arco na entrada da Urbs, que obedecia ao propósito de
purificar os cidadãos do sangue derramado e despojá-los do seu furor belicoso, este, assim, na génese da passagem do
exército trunfante pela porta trumphalis, ao pé do Capitólio. Quanto à cerimónia do «cavalo de Outubro» (equus
october), sacrificado no dia 15 deste mês, cele braria o retorno à paz. Em tal ocasião, os habitantes de dois bairros de
Roma disputavam os restos do equídeo, para a seguir os levar até à Regia, residência real no Forum. O sangue vertido
na imolação simbolizaria a propagação das forças da vitória para a subsequente campanha. Uma derradeira lustratio
acabava de purificar os soldados. J. Rüpke, pelo contrário, é um dos historiadores que se mostra contrário à ideia de que

7
Um dos indicadores mais sintomáticos da relevância da guerra no Lácio arcaico radica
na disseminação das fortificações: em certos sítios, no século VIII a. C., terão sido
erguidas muralhas feitas de terra providas de fossos em seu redor e, ao longo dos
séculos VII e VI, estes dispositivos defensivos aparecem em muitos outros locais. Em
alguns, construíram-se fortificações completas, como as três cinturas amuralhadas
protegendo a aproximação a Ardea. Além disso, uma cidade, pelo menos, Lavinium,
possuiu uma muralha de pedra no século VI a. C.
Porém, as cidades maiores ainda não sentiriam a necessidade de possuirem sistemas
defensivos desse tipo: as muralhas que cingiram as cidades etruscas meridionais
datam, aproximadamente, de finais do século V e já do IV; no caso de Roma, embora
tivesse algumas fortificações parciais, o primeiro dispositivo verdadeiramente
fortificado, a chamada «Muralha Serviana», não data realmente do reinado de Sérvio
Túlio, mas de começos do século IV a. C.

I.2. Guerra e expansionismo no começo da República

Os intricados contos sobre a destronização de Tarquínio-o-Soberbo (também


chamado convencionalmente Tarquínio II) encerram reduzida historicidade, mas
temos motivos para não duvidar do facto nuclear, confirmado por uma lista de
magistrados, de que no fim do século VI (convencionalmente em 509 a. C.) o monarca
foi expulso e substituído por dois magistrados supremos eleitos, inicialmente chamados
praetores, mas em geral conhecidos pelo seu ulterior título, o de cônsul 11. Como
referimos, os historiadores antigos oferecem, a partir desta altura, um «relatório»
anual, onde as guerras muito sobressaem, mas qualquer tentativa para avaliar o
fenómeno bélico neste período necessita de tomar em consideração as deficiências
destes «relatórios». Os pormenores das campanhas militares são, muitas vezes, fruto
de congeminações literárias; observam-se várias duplicações evidentes. Isto deveu-se à
necessidade que os autores antigos sentiram de «preencher» os secos «relatórios»
anuais com elementos fictícios mais ou menos verosímeis.
Uma corrente historiográfica postulou que os Romanos, nos princípios da República,
estariam constantemente em guerra, mas o facto é que, enquanto mais tarde o
fenómeno bélico adquiriu um carácter demarcadamente expansionista, no século V,

a guerra constituía um fenómeno anual para os Romanos (Domi Militiae: Die religiöse Konstruktion des Krieges in
Rom, Estugarda, 1990, pp. 23-26). Seja como for, a sacralidade de que se revestiria o acto bélico assume todo o sentido,
dado que observamos este mesmo aspecto no contexto de ritos praticados por diversos povos da Alta Antiguidade.
11
T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 215-241.

8
pelo contrário, Roma adoptou muitas vezes uma atitude defensiva, reagindo a ataques
inimigos e chegando mesmo a ter de lutar pela própria sobrevivência 12.
A própria tradição indica uma nítida flutuação na frequência das acções bélicas: entre
454 e 411 a. C., as forças romanas devem ter lutado em apenas catorze anos, ao passo
que antes e depois deste período se afirma que a guerra se realizava quase anualmente.
Na realidade, muitos relatos de conflitos podem ter sido inventados. Mas essa flagrante
disparidade talvez corresponda, pelo menos em certos aspectos, à verdade dos factos,
não sendo de arredar a hipótese de que os Romanos se envolveram em muito menos
campanhas e combates no fim do século V do que anteriormente ou nos decénios
seguintes.
A erradicação da monarquia conduziu a uma turbulência generalizada na região do
Tibre. Provavelmente, Roma ter ocupada durante certo tempo por um «aventureiro»
etrusco, Lars Porsenna13, e, afora outros conflitos, os Romanos tiveram que enfrentar
uma coligação de estados latinos. No entanto, saíram-se relativamente bem destas
lutas. A montante do Tibre, na sua margem esquerda, os «filhos de Marte» garantiram
a posse de Fidenae e Crustumerium14. Os Latinos sofreram uma derrota decisiva no
Lago Regillus (talvez localizado a noroeste de Tusculum; Tito Lívio situou a batalha em
499 a. C., e Dionísio de Halicarnasso, em 496).
Pouco mais tarde, os Romanos concluíram tratados de aliança, primeiramente com os
Latinos e, depois, com os Hernici, que viviam no vale superior do Sacco, separados do
Vale do Tibre pelas águas que corriam entre os Montes Albanos e Praeneste. De acordo
com a tradição, ambos os tratados foram negociados por Espúrio Cássio (Spurius
Cassius), respectivamente em 493 e 486 a. C. Sob o ponto de vista formal, estes
convénios terão sido redigidos de maneira similar, mas no celebrado com os Latinos,
Roma marcou a sua proeminência, uma vez que as comunidades dos primeiros
ratificaram um acordo bilateral com a República.
Nas descrições de Lívio e Dionísio dos conflitos seguintes, é quase certo que eles
exageraram o grau de subordinação dos Latinos e dos Hernici face aos Romanos, mas
subsistem dúvidas se, alguma vez, as forças aliadas, estiveram sob a liderança de um
comandante não romano. O mais importante é que tais alianças duraram bastante
tempo. Lívio (Ab Urb. cond. 6.23) pode ter exagerado ao afirmar que não se registou
12
S. P. Oakley, «The Roman Conquest of Italy», in J. Rich e G. Shipley (eds.), War and Society in the Roman World,
Londres, 1993, pp. 14-16; K. A. Raaflaub, «Born to be Wolves? Origins of Roman imperialism», in R. W. Wallace e E. M.
Harris (eds.), Transitions to Empire: Essays in Greco-Roman History 360-146 BC in honor of E. Badian, Norman,
1996, p. 283ss. Em termos globais, T. J. Cornell (The Beginnings of Rome, pp. 293-326) é um dos historiadores que
oferece uma boa análise sobre o modo de fazer a guerra dos Romanos, bem como das relações externas no começo da
época republicana.
13
Segundo a tradição, o último dos Tarquínios, ao ver-se destronado pelos Romanos sublevados em 509 a. C., teria
pedido auxílio a outro soberano etrusco, Porsenna, que reinava sobre Clusium (actual Chiusi). Não obstante a narrativa
lendária (Tito Lívio, Ab Urb. cond. 2.9.15), Porsenna logrou apoderar-se da Cidade, mas nesta se contentou talvez em
impor uma espécie de protectorado sobre o novo regime republicano.
14
A teoria de que Fidenae esteve sob o controlo de Veios até à Segunda Guerra Veientina põe de parte os testemunhos
antigos, sem aduzir razões válidas para o facto.

9
oscilação alguma na lealdade dos Latinos e Hernici até 389, mas em princípio,
deflagraram poucos conflitos armados entre os Romanos e os seus vizinhos Latinos no
período que se seguiu, havendo assim um marcado contraste em relação ao que
acontecera durante o século VI e antes deste15.
Por outro lado, Lívio e Dionísio aludem a confrontos muito frequentes com os
Sabinos, os Volsci e os Aequi, geralmente apresentados como responsáveis por
incursões em território romano ou nos dos seus aliados. Mostram, também, os
Romanos a sofrerem desaires mas, em geral, acabando por saírem vencedores, por
vezes ganhando batalhas e tomando cidades, mas em geral contentando-se com acções
retaliatórias de pilhagem. A guerra contra os Sabinos é a última exarada para o ano 449
a. C.-, mas com as outras duas extensões a partir das primeiras notícias, em 495, até
388 no caso dos Aequi, e no fim do século IV a. C. quanto aos Volsci.
A maioria dos especialistas entende que a realidade histórica subjacente a estas
narrativas é basicamente a seguinte: especialmente no começo do século V a. C., os
Romanos e os seus aliados sofreram assaltos quase anuais dos povos das montanhas,
que assim exerceram pressão sobre os habitantes das planícies. Esta interpretação
assentou grandemente nas fontes relativas à frequência dos conflitos e na concepção do
papel dos Romanos como essencialmente defensivo. Mas essa aparente frequência pode
derivar parcialmente das invenções criadas pelos historiadores antigos, a fim de melhor
«encherem» os registos anuais, e também da tendência dos primeiros em traçar uma
imagem homógenea de todas as guerras que os Romanos travaram como sendo
reacções justificadas por diversas agressões.
Os Sabinos do Vale do Tibre entabularam contactos regulares, simultaneamente
pacíficos ou violentos, com os seus vizinhos Romanos desde tempos recuados. Os
choques intermitentes entre uns e outros terão continuado em princípios do século V a.
C., mas depois diminuíram, como aliás a tradição sugere. Quanto aos conflitos com os
Aequi e os Volsci, emergiram da agitação regional verificada no começo do século V e
das subsequentes alianças com os Latinos e os Hernici. Repare-se que os Romanos
estavam separados das terras dos Aequi e Volsci pelo espaço geográfico ocupado pelas
comunidades latinas; neste sentido, a perspectiva de receberem auxílio contra estes
inimigos constituiu, quiçá, um dos principais factores que mais atraiu os Latinos e os
Hernici a tornarem-se aliados de Roma.
Os Volsci, que porfiaram contra os Romanos e os seus aliados, habitavam a litorânea
planura Pomptina, que se estendia de Antium a Anxur (o nome e que deram para
Tarracina), estando igualmente presentes nos adjacentes Monti Lepini. Como atrás se
15
Sobre os tratados cassianos: T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 299-301; S. P. Oakley, A Commentary on Livy
Books, 1-5, 1.336-341. Dionísio alegou citar o texto do tratado concluído com os Latinos. Um fragmento do antiquarista
Lucius Cincius (Festo, 276-277, Lindsay) dá a entender ter havido uma partilha na tomada de decisões entre Romanos e
Latinos; além disso, é provável que os comandantes fossem fornecidos por outras comunidades que não só Roma.

10
disse, actualmente diversos académicos ainda defendem a tese que se tratava de
invasores oriundos da cadeia montanhosa do Centro de Itália, que recentemente
tinham chegado a tal região. Neste caso, talvez seja preferível atermo-nos às fontes
antigas, segundo as quais este povo já aí se encontrava desde o século VI ou até antes.
Acresce que, independentemente da sua origem, os Volsci não se compunham apenas
de montanheses, já que muitos viviam na planície ou junto à costa, e alguns dos seus
assentamentos até podem ter possuído um carácter urbano.
Os Aequi, que defrontaram a aliança romana, viviam no alto Vale Aniene e nas
montanhas em seu redor. A partir daqui, podiam passar facilmente para o alto Vale de
Sacco, onde, aliás, alguns se fixaram. Os Aequi inscrevem-se mais no «modelo» de
montanheses que atacavam as populações das planícies, mas a verdade é que não se
comprovou se as suas lutas contra os Latinos e os Hernici eclodiriam sempre mais em
resultado de acções de saque dos Aequi do que de disputas mútuas entre vizinhos.
Sugeriu-se que, no começo do século V a. C., os Aequi terão ocupado o Algidus, a
principal cratera dos Montes Albanos, e o território adjacente, e que importantes
cidades latinas, como Tibur e Praeneste, ficaram submetidas aos Aequi ou chegaram a
algum tipo de entendimento com eles. Se isto efectivamente aconteceu, os Romanos
ficariam numa situação muito vulnerável, mas as fontes não nos transmitem pistas
sobre uma eventual expansão dos Aequi com tais proporções.
Nas fontes, os Volsci não surgem como ocupantes do Algidus, mas a levarem a cabo
raides sobre o mesmo. É altamente improvável que a sujeição de Tibur e de Praeneste
tenha deixado vestígios na documentação textual antiga. Praeneste talvez tenha
porfiado muitas vezes contra os Aequi, mas quase nada se sabe sobre estes confrontos,
talvez por tal cidade possuía mais capacidades para se defender do que os demais
aliados romanos16. A nível global, os Romanos não terão experimentado problemas de
maior nas guerras travadas contra os Aequi e os Volsci. Só esporadicamente as
incursões destes povos atingiram o território romano: registam-se apenas em 488, 478,
470, 469, 465-463 e 446 a. C., mas todas aparecendo em récitas de dúbia historicidade.
O maior envolvimento dos Romanos consubstanciou-se no envio de exércitos em
auxílio dos seus aliados latinos e hérnicos, ainda que tal ajuda pode ter sido bastante
menor do que a tradição dá a entender. Seja como for, essas expedições forneceram
boas oportunidades para a obtenção de despojos. Além do mais, relata-se que a aliança
romana realizou investidas territoriais significativas contra os Volsci, nomeadamente
no começo do século V a. C., quando as tropas se apoderaram temporariamente de
Anxur/Tarracina e se fundou uma colónia em Circeii.
16
Para a visão aqui criticada: T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, p. 306; S. P. Oakley, A Commentary on Livy Books,
1.338. É certo que Dionísio refere ocasionalmente que Algidus se localizaria no território dos Aequi (10.21.1; 11.23.4,
28.1) mas as suas indicações topográficas revelam-se confusas: vê no Algidus uma cidade, ficando a uma noite inteira de
distância de Tusculum. Para o ano 462 a. C., Tito Lívio relata saques e pilhagens (3.8.6).

11
A primeira fase da República conheceu igualmente três guerras contra a cidade
etrusca de Veios (Veii17), a sua vizinha mais próxima: a primeira ter-se-á desenrolado
durante o período de 483-424 a. C., e a segunda (que conheceu interrupções) entre 438
e 425. A razão que despoletou o segundo conflito foi Fidenae, que se rebelou contra a
Urbs, sendo apoiada por Veios, mas os Romanos acabaram por conquistar a primeira
cidade. Estas duas guerras significaram conflagrações típicas entre comunidades
vizinhas, mas já a terceira constituiu uma autêntica luta até à morte. Os Romanos
montaram assédio a Veios; a resistência dos sitiados foi, ao que parece, prolongada,
mas os Romanos acabaram por conquistar a cidade, sob o comando do famoso Marco
Fúrio Camilo18 (data tradicional: 396 a. C.): concedeu-se a cidadania romana a alguns
dos seus habitantes, ao passo que os restantes foram vendidos como escravos. O
território arrebatado a Veios converteu-se em ager publicus («terra pública») e grande
parte do mesmo depressa foi distribuído em pequenos lotes a cidadãos romanos 19.
Então, o território romano aumentou grandemente: K. J. Beloch 20 calculou que a zona
outrora pertencente a Veios teria uma superfície de uns 562 km 2, pelo que a extensão
total do espaço controlado pelo poder romano ascenderia, por esta altura, a 1 510 km 2.
Na década de 490 a.C. houve pouco (para alguns até nenhum) expansionismo, mas no
começo do século IV principiou uma nova etapa de dilatação territorial, de que a
conquista de Veios representa o exemplo mais notável. Como se viu, registaram-se
igualmente avanços na região Pomptina contra os Volsci e, depois do seu êxito na
tomada de Veios, os Romanos, em 395-394 a. C., continuaram a sua progressão,
fortalecendo o seu controlo na zona a norte do Tibre, ao impor a submissão das
comunidades faliscanas, de Capena e dos Falerii. Porém, a anexação de Veios e a
subsequente repartição das suas terras constituem acções inseridas numa escala
distinta, daí que acertadamente tenham sido vistas como o primeiro passo de Roma em
direcção a um poder imperial. Além disso, elas constituem também um puzzle: a
tradição antiga não fornece uma explicação satisfatória para a eliminação desta cidade
vizinha.
Mas eis que em 387 a. C. (de acordo com Políbio; a tradição situa o evento em 390) o
avanço romano sofreu um forte abalo: uma horda de Gauleses invasores venceu um
exército romano, que contaria com forças aliadas que cedo debandaram, junto ao rio
Allia. Os sobreviventes foram obrigados a abandonar a cidade de Roma, salvo uma
pequena guarnição no monte Capitolino, que esteve sob cerco. Assim, a Urbs acabou
17
Sobre as campanhas militares contra Veios: F. Gilbert: «Rome en guerre contre Véies (1re partie)», Prétorien, nº 9
(janvier/mars, 2009), pp. 5-8; «Rome en guerre contre Véies (2e partie)», Prétorien, nº 10 (avril/juin, 2009), pp. 5-8.
Porém, discordamos de algumas ideias expostas por este autor.
18
Marcus Furius Camillus.
19
J. Rich, «Warfare and Army in Early Rome», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army, Oxford/Malden
MA, 2011, p. 13.
20
Römische Geschichte bis zum Beginn der punischen Kriege, p. 620.

12
por cair nas mãos do inimigo, que a saquearam e depois abandonaram. Mais tarde,
segundo reza a lenda, Camilo veio a enfrentar os Gauleses numa refrega, conseguindo
repeli-los. A seguir, ainda antes de se retomarem os trabalhos da reconstrução da
Cidade, consta que os Latinos e os Volsci se aproveitaram da situação para também a
invadir. Mais uma vez, Camilo terá rechaçado os invasores.
No século seguinte, ocorreram mais invasões gaulesas, mas não implicaram derrotas
para os Romanos. Se bem que, a partir daí, tenham passado a representar uma ameaça
para os Romanos, as consequências do saque da Cidade não se foram graves nem
duradouras. Sob o ponto de vista arqueológico, não se detectaram danos estruturais no
centro urbano, pelo que provavelmente foram menos avultados do que clamou a
tradição. Para se evitar uma repetição de fatídicas consequências, ergueu-se uma
muralha circundante, englobando uma área com uns 426 ha, construção de tremenda
magnitude, ilustrativa da resiliência romana.
Os Romanos não tardaram a retomar a sua expansão territorial. Novamente, a
tradição não se mostra digna de confiança, mas a tendência principal que nela
entrevemos é suficientemente clara. Os Romanos consolidaram a sua posição no Sul da
Etrúria, ao fundarem as colónias de Sutrium e de Nepete por volta de 383 a. C., e as
contendas contra Tarquínia e outras cidades etruscas (358-351) findaram com umas
tréguas relativamente prolongadas. Mais a sul, os Aequi reduziam-se a uma força
antagonista já desgastada e exaurida, que atacaram pela última vez em 389-388, mas,
em contrapartida, subsistem notícias de guerras frequentes com os Volsci. Os Romanos
vieram a obter mais ganhos, o que resultou na entrega de mais lotes de terra na zona
confiscada da Planície Pomptina.
Em meados do século IV, as armas romanas acercaram-se da Campânia. Lívio alude a
desavenças e querelas entre os Latinos e os Hernici imediatamente após o saque de
Roma pelos Gauleses. A causa primeira dessa agitação relacionou-se possivelmente
com o recrudescimento da dominação romana. Em 381, ante claros sinais de
resistência, a cidade de Tusculum (estrategicamente crucial) foi anexada e os seus
habitantes integrados no corpo dos cidadãos romanos, um passo inédito para uma
comunidade com tal tamanho. Este acto peremptório provocou, decerto, a eclosão da
revolta de Praeneste, derrotada em 380 a. C. Sucederam-se mais conflitos em meados
do século: colhem-se menções a guerras contra os Hernici em 362-358, Tibur e
Praeneste em 361-354. Os diferendos persistiram e, em 340 a. C., teve lugar uma
insurreição generalizada que, dois anos depois, foi esmagada: inseriu-se a maioria dos
Latinos, assim como muitos Campanianos e Volsci no corpo dos cidadãos romanos,
iniciativa radical que transformou o carácter do Estado romano e serviu de poderosa
força motriz para a conquista da Itália.

13
Dito isto, o período desde o fim do século V conheceu uma firme expansão do poder
romano, apenas brevemente interrompido pelo saque gaulês da Urbs. Ora esta
expansão e os conflitos resultantes com os aliados de Roma levaram, provavelmente, a
um acréscimo na frequência das guerras em que os Romanos participaram. Porém,
mesmo na primeira metade do século IV, os Romanos não terão atingido o nível de
campanhas militares mais ou menos anuais que caracterizariam grande parte da
história ulterior da República, facto ainda mais aplicável ao século precedente: como
acima salientámos, a antiga tradição histórica apresenta os últimos anos do século V
como uma fase invulgarmente pacífica (em termos romanos) e para quase todo este
período de cem anos, é efectivamente possível que se tenham travado menos guerras do
que a tradição sustenta. Acresce, ainda, que quando ocorreram, estes confrontos
parecem haver-se desenrolado sobretudo longe do território romano.
Os primeiros anos da República viram-se ritmados por mudanças de alianças e
conflitos com os potentados vizinhos. No entanto, o acordo firmado com os Latinos, na
década de 90 do século V a. C., depois da vitória romana no Lago Regillus, e o seguinte
tratado de aliança, inauguraram uma etapa histórica comparativamente pacífica que
durou ao longo de grande parte do século V. Quando, em finais do último, a guerra
voltou a tornar-se recorrente, a principal causa radicou no próprio expansionismo
romano na Etrúria meridional e contra os Volsci, afora as tensões que isto gerou nas
relações mantidas com os Latinos.

I.4.O fenómeno bélico sob uma óptica dicotómica: «guerra pública» e


«guerra privada»

Muitos dos choques entre os Romanos e os seus vizinhos, no período monárquico


pelo menos, não se travaram num contexto comunal, mas foram antes raides e
expedições punitivas levadas a cabo por indivíduos e grupos21. No entanto, os conflitos
que principiaram desta forma envolveram muitas vezes a comunidade e, mais
globalmente, as pressões exercidas pelo fenómeno bélico e a necessidade de mobilizar
exércitos estimularam a formação do Estado e o desenvolvimento de instituições
comunitárias. A comunidade, por seu turno, pode ter procurado controlar a violência
privada, o que talvez se reflicta nos ritos dos sacerdotes fetiales22. Nas descrições dos
seus costumes, quando se declarava formalmente guerra, especificava-se amiúde que a
21
A este respeito: M. M. Sage, The Republican Roman Army: A Sourcebook, Nova Iorque/Londres, Routledge, 2008, pp.
4-10; N. Fields, Early Roman Warrior 753-321 BC, Oxford, Osprey, 2011, pp. 21-24
22

14
exigência apresentada se destinava ao pôr termo à «pilhagem e aos saqueadores»:
estamos aparentemente diante de uma espécie de resposta comunitária a saques
privados, exigindo-se à comunidade dos ofensores que resolvesse o problema em causa,
ao entregar os culpados ou aceitando a responsabilidade a nível colectivo.
Os senhores da guerra aristocratas, à cabeça de séquitos de acólitos armados, que
tinham ampla liberdade de circulação, constituem, para os historiadores actuais, um
importante elemento característico da sociedade no Ocidente da Itália Central arcaica.
Com efeito, dispomos de um corpus de testemunhos probatórios que apoiam esta visão.
Tais bandos de guerreiros significam com toda a probabilidade uma reminiscência do
mundo pré-estatal, não sendo difícil estabelecer paralelos com outras sociedades do
mesmo género, como a Grécia homérica. Entre estes senhores da guerra, os que melhor
se atestam consistem em três figuras da cidade etrusca de Vulci, os irmãos Caeles e
Aulus Vibenna, assim como o seu «associado» Macstarna: conhecemo-los tanto
através da arte etrusca, em especial os relevos do «Túmulo François» (do fim do século
IV a. C.) em Vulci, como pela tradição romana, segundo a qual Caeles socorreu um
monarca romano, estabelecendo-se depois na Urbs com o seu contingente23.
Bem mais tarde, o erudito imperador Cláudio aludiu a uma reivindicação etrusca,
segundo a qual Macstarna fora rei em Roma, e identificou-o com Sérvio Túlio 24. Seja
como for, as evidências conferem certa plausibilidade à eventualidade deste trio de
«aventureiros» (lembrando os condottieri dos séculos do Renascimento italiano) ter
participado, com um séquito armado, nos negócios de Roma25.
Numa inscrição-dedicatória de finais do século VI ou começos do século V a. C.,
descoberta em Satricum (localidade que terá passado das mãos dos Latinos para os
Volsci), verifica-se a menção a um bando 26 de camaradas fiel a um líder da elite; o seu
teor traduziu-se do seguinte modo: «[…] os camaradas [sodales] de Poplios Valesios
erigiram [isto] para Mamars»27. Aparentemente, Mamars significa um nome
alternativo para Marte e Poplios Valesios, uma forma arcaica para Publius Valerius. Se
os dedicantes do monumento eram de Roma, é provável, então, que este Valerius
corresponda a Públio Valério Publícola, a que a tradição atribuiu um importante papel
na fundação da República. A inscrição ilustra na perfeição a relevância dos
23
J. Rich, «Warfare and Army in Early Rome», pp.15-16.
24
A. Montesanti, «Servio Tullio. Macstarna», Storia. Rivista online di Storia e Informazione, n. 7 (31)8 (Dez. 2005-Jan.
2006), pp. 1-46.
25
T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 130-145, 157-158; L. Rawlings, «Condottieri and clansmen: Early Italian
raiding, warfare and the state», in K. Hopwood (ed.), Organised Crime in Antiquity, Londres, 1999, pp. 97-127. Para
uma visão global sobre a «guerra privada» e a «guerra pública» na Roma arcaica: T. J. Cornell, «La guerra e lo stato in
Roma arcaica (VII-V sec.)», in E. Campanile (ed.), Alle Origini di Roma, Pisa, 1988, pp. 89-100; D. Timpe, «Das
Kriegsmonopol des römischen Staates», in W. Eder (ed.), Staat und Staatlichkeit in der frühen römischen Republik,
Estugarda, 1990, pp. 368-387.
26
Sobre os «bandos de guerra»: N. Fields, Roman Battle Tactics 390-110 BC, Oxford, 2010, pp. 30-33.
27
Na inscrição lê-se: «[…] IEI STETERAI POPLIOSIO VALESIOSIO SUODALES MAMARTEI…»; J. Bremmer, «The
Suodales of Poplios Valesios», ZPE 47 (1982), pp. 133-147; M. Sage, The Republican Roman Army: A Sourcebook, pp.
13-14.

15
grupos/sodalis na região em tempos arcaicos, mostrando o caso concreto de um bando
de guerreiros28.
Não resta a menor dúvida que outros senhores da guerra seguiram o exemplo de
Macstarna e dos irmãos Vibennae, ao intervirem em Roma após a expulsão do último
rei: a actividade de Porsenna entende-se melhor neste contexto, mas a derradeira
tentativa de que há registo é de um aventureiro estrangeiro que levou a cabo um golpe
armado em Roma, o sabino Ápio Herdónio/Appius Herdonius, apoderando-se do
Capitólio em 460, redundando a iniciativa no mais absoluto fracasso.
Os périplos destes aventureiros pelas diversas comunidades constituem um reflexo
directo de um fenómeno mais vasto, o de processos migratórios de elementos da elite
tendo como pano de fundo os estados do Ocidente da Itália Central durante os tempos
arcaicos. Em Roma, o caso da recepção de não cidadãos como reis é só um exemplo
deste facto. Outro reside na admissão da gens Claudiana: na versão tradicional, o líder
sabino Attus Clausus (Ápio Cláudio/Appius Claudius) surgiu, certo dia, em 504, diante
dos Romanos, à cabeça de um grande séquito, instalando-se na Urbs; os seus 5 000
clientes terão integrado posteriormente o exército serviano (Lívio, Ab Urb. cond.
2.16.4; Dionísio, Ant. rom. 5.40.3).
De Roma, também, partiram indivíduos rumando a outras paragens, como se observa
na história de G. Márcio Coriolano (Gnaeus Marcius Coriolanus): segundo reza a
lenda, a oposição que este herói de guerra alimentava contra os plebeus levou-o a
exilar-se; juntou-se aos Volsci e depois conduziu-os numa campanha de conquista,
internando-se no território romano. A intervenção da mãe de Coriolano pôs termo à
iniciativa bélica, conhecendo o último uma morte trágica. Este conto poderoso foi
evidentemente desenvolvido, numa primeira fase, na tradição oral, antes de se inserir,
com adições, na narração formulada pelos historiadores antigos dos anos entre 493 e
488 a. C. Deve existir uma ponta de verdade neste episódio, tratando-se, segundo T. J.
Cornell, de um renegado que resolveu bandear-se para os Volsci29.
A generalidade dos estudiosos viu nas guerras privadas envolvendo clãs (gentes)30
uma extensão das actividades empreendidas pelos senhores da guerra nobres, conflitos
28
C. M. Stibbe, G. Colonna, C. de Simone e H. S. Versnel, Lapis Satricanus. Archaeological, Epigraphical, Linguistic
and Historical Aspects of the New Inscription from Satricum, Haia, 1980; H. S. Versnel, «IUN]IEI. A new conjecture in
the Satricum inscription», Mededelingen van het Nederlands historisch Institut te Rome 56 (1997), pp. 177-197: H. S.
Versnel interpretou a primeira palavra incompleta na inscrição como «young men». Para uma visão bastante recente,
consulte-se J. Armstrong, «’Bands of Brothers’. Warfare and Fraternity in Early Rome», JAH 1(2013), pp. pp. 53-69
(esp. pp. 64-66).
29
T. J. Cornell (cf. «Coriolanus: Myth, history and performance», in D. Braund e C. Gill [eds.], Myth, History and
Culture: Studies in Honour of T. P. Wiseman, Exeter, 2003, pp. 73-97) observou, com acerto, que a visão comum
segundo a qual Coriolano seria um inimigo vólscio ou latino rejeita integralmente um dos elementos essenciais da sua
história. No entanto, Cornell mostra-se menos convincente ao salientar que Coriolano já se perfilaria como um senhor
da guerra mesmo antes de abandonar Roma. Refira-se que as menções ao último nas fontes, apresentando-o
acompanhado de um séquito em Roma e chefiando uma força de voluntários contra Antium (Dionisio, 7.19, 21, 64;
Plutarco, Coriolanus, 13), são, possivelmente, construções literárias.
30
C. E. Smith, The Roman Clan: The Gens From Ancient Ideology to Modern Anthropology, Cambridge, Cambridge
Univ. Press, 2006, pp. 290-295; M. M. Sage, The Republican Roman Army: A Sourcebook, pp. 10-11; N. Fields, Early
Roman Warrior 753-321 BC, pp. 28-29.

16
liderados pelos membros dos clãs, apoiados pelos seus dependentes, os quais se
centraram na defesa e no aumento das suas possessões fundiárias. Esta hipótese,
todavia, bem como a tese de que o exército romano se formou originariamente a partir
de líderes clânicos com os seus respectivos séquitos, repousa em pressupostos
problemáticos sobre o papel e a importância das gentes nos tempos mais remotos.
A única prova textual de uma gens travando uma contenda à sua própria custa é a
história da derrota sofrida pelos Fabii, liderados pelo cônsul Kaeso Fabius, no Cremera
(afluente do Tibre, junto ao qual se situava a cidade de Veios), durante a primeira
guerra da República contra Veios. De acordo com a maior parte das fontes, em 479 a.
C., 306 Fabii estavam a guarnecer uma posição nessa zona, acompanhados (segundo
alguns relatos) por 4000-5000 clientes, mas, em 477, foram apanhados numa
emboscada e só um Fabius sobreviveu (Lívio, Ab Urb. cond. 2.48-50; Dionísio, Ant.
Rom. 9.15.3).
Embora esta história tenha sido literariamente retocada e embelezada, parece
garantido que derivou de um facto autêntico, marcado por um desastre dos Fabii.
Diversos estudiosos imaginaram que estes foram vencidos numa guerra privada, talvez
relacionada com as suas propriedades fundiárias, o que significaria um resquício dos
actos conflituais independentes e gentílicos dos tempos arcaicos. No entanto, esta
derrota ganha acrescida verosimilhança se o entendermos, segundo a tradição, na
qualidade de um episódio ocorrido numa guerra pública31. Os Fabii, que ao tempo eram
politicamente proeminentes, talvez ocupassem uma posição a partir da qual se
efectuariam incursões, mas o local não se conseguiria manter só com uma leva normal
de homens para uma operação de curta-duração; neste caso, então, isto constituiria
uma inversão excepcional relativamente à mais antiga forma de recrutamento
gentílicio. Resta outra alternativa: os Fabii talvez tenham sofrido pesadas baixas numa
batalha de características convencionais, o que corresponderia, aliás, à versão mais
antiga que se conservou, Diodoro de Sicília (Bibl. Hist. 11.53.6)32.

1.5. A evolução do exército


31
M. M. Sage, The Republican Roman Army, pp. 11-13.
32
Cf. também Ovídio, Fasti, 2.195-242. J.-C. Richard, entre outros, preconizou a tese de uma guerra gentilícia, de
carácter privado (cf. «Historiographie et histoire: l’expedition des Fabii à la Cremère», Latomus 47 [1988], pp. 526-553),
a qual foi rejeitada por K.-W. Welwei «Gefolgschaft oder Gentilaufgebot? Zum Problem eines frührömischen familiare
bellum (Liv. II. 48.9», Zeitschrift für Savigny-Stiftung, Röm. Abt. 110 [1993], pp. 60-76). A localização da tribo Fábia e
das suas propriedades, junto da fronteira com Veios, é simplesmente uma conjectura moderna. Para uma visão global do
papel desempenhado pelas gentes na sociedade da Roma arcaica, cf. C. J. Smith, The Roman Clan: the Gens from
Ancient Ideology to Modern Anthropology, pp. 15-16, 281-291.

17
Por volta de 1000 a. C, os recheios sepulcrais passaram a incluir armas e, do século
VIII em diante, os túmulos de guerreiros de elevado estatuto, localizados nas
necrópoles etruscas e latinas, demarcam-se pela presença de combinações de armas de
ferro com couraças de bronze, muitas das quais, na realidade, se destinariam mais para
ostentação do que para serem utilizadas nos campos de batalha. No início do século VI
a. C., essas peças, bem como outros artigos funerários, quase desapareceram das
sepulturas em locais associados aos Latinos. Porém, neste momento, já o equipamento
hoplítico grego começara a ser adoptado na região, incluindo o escudo com pega dupla,
elmos e armaduras corporais distintivos.
O equipamento hoplítico surgiu possivelmente no mundo helénico em finais do século
VIII a. C. e, a partir de 650, confirma-se a disseminação deste género de panóplia nas
cidades etruscas, por meio de achados funerários e representações artísticas. Em
relação a Roma e às outras comunidades latinas, os testemunhos são mais escassos; no
entanto, é possível que o equipamento hoplítico já existisse nas últimas no mesmo
período ou pouco depois da sua introdução na Etrúria.
Actualmente, há autores que insistem teimosamente na ideia, redutora e artificial, de
que a adopção do equipamento hoplítico conduziu rapidamente a um novo estilo de
combate, com hóplitas (infantaria pesada) dispostos em formações compactas (a
falange33), servindo-se de lanças de estoque como principal arma ofensiva e munidos
também de espadas. Vários académicos modernos preconizaram a teoria de que a
defesa das cidades-estados gregas passou a depender dos hóplitas da «classe média»,
que serviriam junto dos nobres nas fileiras da falange, o que acarretaria importantes
consequências de ordem social e política.
Mas algumas dificuldades obstam a que se aplique este «modelo» à Etrúria: há quem
se interrogue se um exército de hóplitas-cidadãos seria compatível com a estrutura
social etrusca, que se acredita ter sido dominada no período em foco por gentes
aristocráticas; ademais, note-se que o equipamento grego foi amiúde descoberto
mesclado com armamento etrusco, como se assinala na estela mortuária de Aule
Feluske de Vetulonia, guerreiro que se representou provido de um escudo e de um
casco hoplíticos, mas, ao mesmo tempo, brandindo um machado duplo etrusco 34.
33
M. Sage, The Republican Roman Army, pp. 15-18; N. Fields, Roman Battle Tactics 390-110 BC, pp. 36-38.
34
A. M. Snodgrass, «The hoplite reform and history», JHS 85 (1965), pp. 110-122; N. Spivey e S. Stoddart, Etruscan
Italy, Londres, 1990, pp. 127-129; B. D’Agostino, «Military organization and social structure in archaic Etruria», in O.
Murray e S. Price (eds.), The Greek City. From Homer to Alexander, Oxford, 1990, pp. 59-82. Para um exame
circunstanciado do equipamento militar em Itália, desde o século IX até ao VII a. C., P. F. Stary, Zur eisenzeitlichen
Bewaffnung und Kampfesweise in Mittelitalien, Mogúncia (Mainz), 1981.Para a descrição de armas e armaduras (com
fotografias de achados arqueológicos e reconstituições com elevado nível de rigor) da época arcaica de Roma e do
começo da República, consultem-se: N. Sekunda e S. Northwood, Early Roman Armies, Oxford, 3ª edição, 1999; N.
Fields, Early Roman Warrior 753-312 BC.

18
As interpretações mais tradicionais sobre o protótipo da guerra hoplítica (aceites ao
longo de décadas) foram, não há muito, submetidas a uma crítica revisionista radical,
designadamente por Hans van Wees 35: este salientou que o combate em formações
cerradas não era essencial para a eficácia do novo equipamento, e que, até ao começo
do século V a. C., os hóplitas gregos continuaram a lutar num tipo de formação bastante
aberta, englobando tropas com armamento ligeiro. O mesmo historiador defendeu a
existência de uma disparidade considerável entre os hóplitas da «classe trabalhadora»
e os mais ricos e desocupados, só estes dispondo de armaduras.
Estas conclusões coincidem com alguns indicadores etruscos e, se estiverem
correctas, as diferenças entre os desenvolvimentos registados na Hélade e na Etrúria
talvez não tenham sido tão grandes como até há pouco se pensou. Isto será igualmente
válido para Roma e o Lácio, em geral: os métodos de combate continuaram
provavelmente a ser fluídos e flexíveis, baseando-se em formações abertas, envolvendo
guerreiros providos tanto de armamento ligeiro como pesado e, especialmente, no
começo, só os mais abastados teriam recursos para adoptar o novo «estilo» grego de
escudos e couraças.
Debrucemo-nos sobre o caso etrusco. Desde finais da década de 50 do século passado
que os estudos de Plinio Fraccaro vieram a contribuir para a tese de que os Etruscos, ao
«chegarem» a Roma, introduziram uma série de inovações que fortaleceu grandemente
a cidade, de entre as quais estaria a falange hoplítica. À primeira vista, as evidências
materiais parecem confirmar a existência de uma falange etrusca: sobreviveram
abundantes representações plásticas datando dos séculos VII e VI a. C., bem como
foram recuperadas peças de armamento em diversos monumentos funerários da Itália
Central (e. g. a Tomba del Guerriero, em Tarquínia, de c. 680 a. C., o «Túmulo
Regolini-Galassi» quase coevo de Cervetere, ou o «Túmulo 43» de Narce, de meados do
século VII), testemunhos que parecem materializar a imagem reflectida pelas fontes

35
«The Development of the Hoplite Phalanx: Iconography and Reality in the Seventh Century», in H. van Wees (ed.),
War and Violence in Ancient Greece, Londres, Duckworth and the Classical Press of Wales, 2000, pp. 125-166; IDEM,
Greek Warfare: Myths and Realities, Londres, Duckworth, 2004, pp. 166-184, 233-235. H. van Wees argumenta que as
verdadeiras falanges não surgiram por volta de 650 a. C., como durante lasrgo tempo os estudiosos aceitaram
consensualmente. Em vez disso, as formações de combate mantiveram-se fluídas e «homéricas» nos séculos VII e VI a.
C. Embora, neste período, se tenha utilizado o equipamento hoplítico, em especial o escudo grande e redondo (aspis), tal
não implica necessariamente, segundo o autor, o emprego de uma massa densamente compacta de soldados
uniformente armados nas batalhas. Os moldes organizativos da prática da guerra caracterizavam-se pelos laços de
parentesco e de dependência que estruturavam a vida civil dos indivíduos. Os homens mais poderosos partiam em
campanha rodeados por parentes e servidores, que podiam estar ou não equipados como hóplitas. Assim, neste
momento histórico, as refregas envolviam um estilo de peleja mais flexível.Para H. van Wees, a mudança crítica que
conduziu à adopção da falange só terá ocorrido no extremo final do século VI, quando a comunidade, actuando como
polis, adquiriu suficiente autoridade e controlo sobre os seus cidadãos, ao ponto de suplantar as matrizes sociais em que
os últimos estavam enredados, compelindo-os a ocuparem os seus lugares em formações uniformemente equipadas. Em
geral, esta teoria foi bem recebida no meio académico, mas não convenceu todos os especialistas, como, por exemplo, A.
Schwartz («The Early Hoplite Phalanx: Order or Disarray?», Classica et Mediaevalia 53, 2002, pp. 31-64). Se partirmos
do princípio de que os Gregos não desenvolveram uma verdadeira falange até finais do século VI, então a possibilidade
de Roma estabelecer uma formação idêntica cinquenta anos antes torna-se bem mais remota. Por outro lado,como
referiu N. Rosenstein, isto levanta a questão de como e quando a falange apareceu em Roma: pode ter acontecido algum
tempo após a varagem do século VI a. C, «mas, para além desta suposição toda e qualquer certeza se afigura difícil» (cf.
«Phalanges in Rome?», New Perspectives on Ancient Warfare, 2010, p. 292). A juntar-se a esta problemática está a
dúvida se os Etruscos adoptaram realmente a falange.

19
icónicas. O recheio do «Túmulo Avvolta», em Tarquínia, terá contido «um conjunto
completo de armamento corporal (elmo, couraça, grevas), dois escudos circulares de
bronze […], oito dardos, uma espada de dois gumes…»36.
No entanto, vários estudiosos manifestaram significativas reservas face a este
consenso alargado: Arnaldo Momigliano 37 questionou-se «como os Etruscos
conseguiram alguma vez combinar um exército de hóplitas com a sua estrutura social
assente numa acentuada distinção entre nobres e clientes», e Bruno D’Agostino38
também alimentou dúvidas que a sociedade etrusca tenha realmente permitido o
desenvolvimento de uma verdadeira falange hoplítica. William V. Harris 39 sugeriu até
que a falange romana não passaria de uma ficção.
Por seu turno, N. Spivey e S. Stoddart reavaliaram os vestígios arqueológicos
etruscos: notaram, por exemplo, que o corselete de bronze do «Túmulo 43» era
somente uma «folha ornamental de bronze […]», não se revelando uma peça funcional,
além de ser dispendiosa; «significa «uma ostentação conspícua, não [uma amostra] de
avançada tecnologia militar»; no entender dos dois autores, as armas e armaduras
numa sepultura «servem como […] indicadores de estatuto; no meio dos bens
domésticos depositados, as armas e as armaduras são objectos que inspiram orgulho e
reverência […] vistas sob esta luz, as evidências tumulares são provavelmente
enganadoras, quando se trata de afirmar que os Etruscos combateram em falanges
hoplíticas»; salientaram que a inumação de peças de armamento [….] constituía uma
forma de ritual, e que «panóplias como as da necrópole de Osteria, em Vulci […] de
630-620 a. C. se devem entender como produtos de luxo, [procedentes] do mundo
grego ou produzidas sob influência grega, obedecendo às mesmas finalidades rituais
que as extravagantes panóplias «orientalizantes» 40. No entanto, estes comentários só
afectam indirectamente a percepção do estabelecimento da falange hoplítica em Roma,
na medida em que se limitam à eventualidade de a Etrúria ter sido a fonte para um tal
desenvolvimento, não o desenvolvimento em si mesmo.
No terreno pantanoso da história dos primórdios de Roma, a formação da falange,
supostamente adoptada em meados do século VI a. C., consistiu, durante decénios, um
dos poucos elementos que se consideraram garantidos 41. As bases para esta convicção
36
N. Spivey e S. Stoddart, Etruscan Italy: An Archaeological History, p. 129.
37
«An Interim Report on the Origins of Rome», JRS 53 (1963), p. 119.
38
«Military Organization and Social Structure in Archaic Etruria», in O. Murray e S. Price (eds.), The Greek City…, pp.
59-82.
39
«Roman Warfare in the Economic and Social Context of the Fourth Century B. C.», in W. Eder (ed.), Staat und
Staatlichkeit in der frühen römischen Republik, Estugarda, Steiner, 1990, p. 508.
40
Etruscan Italy, pp. 129-131. Veja-se, também, o breve artigo de J. Rich, «Warfare in Early Rome», in M. Pearce, M.
Tosi et al. (eds.), Papers from the EAA Third Annual Meeting at Ravenna 1997, Oxford, Archaeopress, 1998, p. 6.
41
Assim, recentemente, consultem-se: R. E. Mitchell, Patricians and Plebeians: The Origin of the Roman State, Ithaca,
Cornell Univ. Press, 1990, pp. 35-41; S. P. Oakley, A Commentary on Livy Books VI-X, I, Oxford, Oxford Univ. Press,
1998, p. 453; T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 183-185, G. Forsythe, A Critical History of Early Rome, pp.
113-115. Sobre esta questão, J. E. Lendon, Soldiers and Ghosts: A History of Battle in Classical Antiquity, New Haven,
Yale Univ. Press, 2005, pp. 183-186.

20
são conhecidas, principalmente os testemunhos de dois autores antigos (além das
fontes iconográficas e arqueológicas). Tito Lívio, na sua descrição do exército romano
que enfrentou uma força de Latinos rebeldes em 340 a. C., afirma, de passagem:
«Antes, os Romanos usavam os clipei, depois, tornaram-se stipendiarii, fizeram os scuta em
vez dos clipei, o que havia sido uma falange, como as macedónicas, começou a desdobrar-se
como linha de batalha através de manípulos, com os soldados na retaguarda organizados em
mais destacamentos»42.
Esta asserção aparece repetida mais pormenorizadamente no fragmento textual do
Ineditum Vaticanum (de autor anónimo, aparentemente do século II) que apresenta
um diálogo, que alegadamente teve lugar antes da eclosão da Primeira Guerra Púnica,
entre um cartaginês e um romano chamado Kaiso:
«Quando o Cartaginês assim falou, Kaiso retorquiu: “Isto é como nós, Romanos, somos…
[C]om aqueles que fazem a guerra contra nós, concordamos em combater segundo os seus
termos, e quando se trata de práticas estrangeiras, conseguimos ultrapassar os que, desde há
muito, se habituaram a elas. Os Tirrenos [Etruscos] costumavam lutar contra nós com escudos
de bronze e em formação de falange, não em manípulos; e nós, mudando o nosso armamento e
substituindo-o pelo deles, organizámos as nossas forças e, ao assim porfiarmos contra homens,
que durante muito tempo estavam familiarizados às batalhas de falange, saímos vitoriosos.
Analogamente, o escudo samnita não fazia parte do nosso equipamento nacional, nem tão pouco
tínhamos dardos, mas combatíamos com escudos redondos e lanças; também não éramos
poderosos na cavalaria, já que quase toda a força de Roma residia na infantaria. Mas quando
nos vimos em guerra com os Samnitas, armámo-nos com os seus escudos oblongos e dardos de
arremesso, e pelejamos contra eles a cavalo e, ao copiarmos as armas estrangeiras, tornámo-nos
senhores daqueles que se tinham em grande conta»43.
Estas fontes não provam, todavia, que Roma adoptou o sistema da falange, tanto mais
que, para vários investigadores, restam incertezas de que os próprios Etruscos a
tenham usado; além disso, se, como afirmou H. van Wees, os Gregos não
desenvolveram uma verdadeira falange até finais do século VI a. C., então a
possibilidade de Roma ter introduzido tal formação cinquenta anos antes (segundo a
tradição literária) torna-se ainda mais remota44.
Seja como for, levanta-se a questão de como e quando a falange terá aparecido em
Roma. Provavelmente isto aconteceu algum tempo após a viragem do século VI para o
V, mas afora esta suposição, apenas sobejam dúvidas. As fontes antigas oferecem pouca
ajuda. Como se viu, o autor anónimo do Ineditum Vaticanum situa a mudança no
contexto das guerras de Roma contra os Etruscos, o que poderia significar uma
determinada altura desde começos do século V em diante. Quanto à passagem de Lívio,
igualmente citada, aponta para uma data anterior à instituição do stipendium (o
pagamento pelo serviço militar prestado, mas isto pouco vale como terminus post

42
Ab Urb. cond. 8.8.3: clipeis antea Romani usi sunt; dein, postquam stipendiarii facti sunt, scuta pro clipeis fecere; et
quod antea phalanx similis Macedonicis, hoc postea manipulatim structa acies copeit esse: postremi in plure ordines
instruebantur. Para as dificuldades interpretativas que este trecho contém, veja-se S. P. Oakley, A Commentary on Livy,
II, p. 459, 467.
43
Ineditum Vaticanum, 3. H. von Arnim, «Ineditum Vaticanum» Hermes 27 (1892), pp. 118-130 (= Jacoby FgrHist 839
F.1); T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, p. 170. Cf. Diodoro, 23.21; Ateneu de Damasco, Deipn. 6.273 e-f; Salústio,
Cat. 51.37-38.
44
C. E. Smith (The Roman Clan, pp. 286-289) e J. Rich (Warfare and the Army in Early Rome», in P. Erdkamp [ed.], A
Companion to the Roman Army, p. 17) chegaram a conclusões similares às de H. van Wees, mas para o exército arcaico
romano.

21
quem, já que não há unanimidade quanto ao momento a partir do qual os Romanos
começaram a remunerar os seus soldados: as opiniões dividem-se entre o fim do século
V, em conexão com o cerco à cidade etrusca de Veios, que é onde Lívio 45 e Diodoro46
localizam a introdução do salário, e o período da Segunda Guerra Samnita (cf. infra).
Como dissemos, as representações iconográficas do armamento hoplítico e as peças
encontradas em monumentos funerários, não asseguram, per se, que o mesmo fosse
utilizado por homens integrados numa falange47.
A adopção da falange clássica na Grécia parece representar um exemplo típico daquilo
que se convencionou designar como «peer-polity interaction»: depois de uma polis a
introduzir, no quadro de uma grande reorganização da cidade, as outras poleis eram
compelidas a imitá-la, ao correrem o risco de ficarem eventualmente para trás e se
verem suplantadas48.
Poderíamos tentar descobrir um contexto militar romano em que o uso das tácticas
da falange fizesse sentido ante alguma ameaça externa. Contudo, não divisamos uma
tal situação ao longo dos séculos V ou IV a. C.: durante o século V, os inimigos da Urbs
foram principalmente os Aequi e os Volsci, tribos cujas instituições estariam num nível
ainda mais rudimentar que o de Roma; os conflitos que então se desenrolaram
caracterizavam-se, amiúde, por raides e contra-raides, modalidades em que o emprego
de formações de infantaria compactas não se adequaria de todo. As diversas cidades
latinas com que os Romanos guerrearam durante os séculos V e IV a. C. não seriam,
decerto, tacticamente mais sofisticadas, além de que, conforme frisámos, não há provas
concretas para a utilização da falange pelos Etruscos. Importa ainda ressaltar que o
palmarés global da República em relação a estes oponentes se saldou em êxitos, embora
as vitórias nem sempre tenham sido isentas de dificuldades ou vicissitudes.
Se um enfoque estritamente militar não nos ajuda a progredir, talvez devamos analisar
o problema sob o prisma da formação do estado, como a reconstituição preconizada por
H. van Wees do desenvolvimento da falange na Hélade sugere. Coloca-se a questão: até
que ponto a República teria conseguido ganhar suficiente lealdade por parte dos seus
cidadãos e controlo sobre estes, para se sobrepor aos laços sociais que até aí haviam
estruturado a maneira como praticavam a guerra? Em 1929, M. Nilsson propôs uma
resposta, afirmando que esse momento histórico teve lugar em meados do século V a.
C49. Nilsson defendeu que a criação dos censores, em 433, foi consequência da
introdução da falange, porque a partir de então se tornou necessário conhecer a fortuna

45
Ab Urb. cond. 4.59.11-60.8.
46
14.16.5.
47
N. Rosenstein, «Phalanges in Rome?», p. 293.
48
C. Renfrew, «Introduction: Peer Polity Interaction and Socio-political Change», in C. Renfrew e D. Cherry (eds.), Peer
Polity Interaction and Socio-political Change, Cambridge, Cambridge Univ. Press, 1986, pp. 1-18.
49
«The Introduction of Hoplite Tactics at Rome: Its Date and its Consequences», JRS 19 (1929), p. 5.

22
de cada cidadão, a fim de apurar se ele estaria ou não obrigado a servir como hóplita. A
teoria é engenhosa: o autor associou a criação dos censores à introdução, no ano
anterior, dos tribunos militares com poder consular, o que também poderia relacionar-
se com alguma espécie de reforma militar.
No entanto, dois pontos levantam objecções: primeiro, o da eleição dos censores pela
primeira vez em 443 não implica necessariamente a inexistência da prática do census
em tempos mais recuados; segundo, e o mais importante, a «Luta das Ordens»
encontrava-se na sua fase mais intensa em meados do século V e, independemente do
que se possa afirmar sobre este período mal conhecido da história de Roma, parece-nos
razoável imaginar que não seria uma altura em que a comunidade estivesse a ganhar
acrescido controlo sobre os seus cidadãos, bem pelo contrário: o Estado achava-se
prestes a ruir e só se manteve por era preciso para a resolução dos diferendos face a
grandes ameaças externas50. De facto, o conflito entre as ordens torna muito difícil
imaginar o Estado romano, ao longo do século V e durante grande parte do IV a. C., a
ser capaz de adquirir o género de controlo mais forte sobre os cidadãos que as poleis
gregas desenvolveram no fim do século V a. C., que originou as primeiras verdadeiras
falanges.
Verifica-se uma propensão para compreender o conceito de falange na sua acepção
mais estrita e, nesta linha de raciocínio, é possível que os Romanos jamais a tenham
utilizado; porém, num sentido mais abrangente, aí, talvez, já possamos equacionar a
adopção de uma formação cerrada pelos «filhos de Marte», enquanto sistema
pontualmente aplicado, e provido de características adicionais próprias da maneira de
guerrear na península itálica dos tempos arcaicos, incluindo o recurso a armas de
arremesso e unidades tácticas mais pequenas e flexíveis, que estiveram quase sempre
presentes nas guerras travadas pela Urbs. Na realidade, é exequível pensar que os
próprios Etruscos se tenham servido da falange episodicamente 51, mas não de acordo
com o rígido modelo helénico. Assim, mesmo tendo em conta as incertezas que
subsistem nesta matéria, inclinamo-nos a aceitar a opinião de Christiane Saulnier 52 em
1980, segundo a qual haveria duas componentes distintas que fizeram parte do
primitivo exército romana, uma dotada de armamento hoplítico e outra, provida de um
equipamento mais heterogéneo e menos oneroso, se posicionariam em duas linhas
separadas no campo de batalha.

50
K. Raaflaub, «Born to be Wolves?…», pp. 290-292.
51
Como sugeriu J. R. Jannot: «Armement, tactique et société. Reflexions sur l’exemple de l’Etrurie archaïque», in B. S.
Frizell (ed.), Arte militare e architettura nuragica, Estocolmo, 1991, pp. 73-81.
52
L’Armée et la Guerre dans le monde Étrusco-Romain (VIII-IVe s. av. J.-C.), Paris, Diffusion de Boccard, 1980, pp.
105-115. P. Connolly também imaginou o exército arcaico romano como englobando uma falange e um contingente de
homens munidos de um equipamento como o que Lívio descreve na sua obra (Ab Urb. cond. 1.43.1-7).

23
Para finalizar, chamemos à atenção para a capacidade de improvisação que os
Romanos tantas vezes mostraram ter, ao introduzirem determinado armamento ou
certas tácticas, em função dos inimigos que enfrentaram ao longo da sua história:
lembremos, por exemplo, o que aconteceu, em data bem mais tardia, na batalha de
Beneventum, em 275 a. C., com base no testemunho de Dionísio: os Romanos, depois
de sofrerem duas derrotas ao defrontarem os mercenários de Pirro (rei de Épiro, cf.
infra), que combatiam armados com as sarissas (enormes piques com cerca de 7 metros
de comprimento que se celebrizaram nas forças de Alexandre-o-Grande e dos
subsequentes exércitos selêucidas e ptolemaicos), resolveram equipar os seus principes
com a mesma arma, para melhor lidar contra o ataque em massa que Pirro utilizou em
Asculum53.
Embora desconheçamos precedentes para esta medida improvisada, por outro lado,
deparamos com o que parece tratar-se de uma sequela: meio século mais tarde, em 225
a. C., Políbio conta que os tribunos militares do exército de Flamínio ordenaram aos
triarii que passassem as suas lanças para a vanguarda, a fim de se precaverem contra
uma investida de uma força muito maior de Gauleses 54. O que ocorreu em Beneventum
reflecte, quanto a nós, um dos múltiplos ajustamentos que se operaram no exército
romano ao longo do período compreendido entre meados do século IV e princípios do
século III a. C.55: algumas dessas modificações foram descartadas, ao passo que outras,
ao revelarem-se úteis e eficazes, inseriram-se numa longa evolução que culminou nas
legiões manipulares, que continuaram a conquistar um império para Roma.

O primitivo exército curiado

Persistem múltiplas incertezas sobre o exército arcaico romano, mas, em princípio,


seria de carácter censitário, composto alegadamente por 3 000 homens, na razão de mil
por cada uma das tribos de Tities, Ramnes e Luceres (segundo Varrão, De ling. lat.
5.89), e de cem por cada uma das centúrias. A estes se adicionariam 300 cavaleiros
(celeres). É provável que a estrutura fundamentada em 30 centúrias com 100 homens
deve ter estado na origem do posterior ordenamento serviano. Estas tentativas de
recriação contêm muitas especulações, o que não impediu a formulação das mais
diversas teorias. Este exército representaria, no parecer de J. M. Roldan Hervás, uma
53
Plutarco, Vida de Pirro, 21.6-7.
54
Hist. 2.33. 1-4.
55
A.-M. Adam, «Évolution de l’armement et des techniques de combat aux IVe et IIIe Siécles, d’après les sources
historiques et archéologiques», in E. Claire e S. Pittia (eds.), Guerre et diplomatie romaines (IVe et IIIe siècles av. J.-
C.). Pour un réexamen des sources, Aix-en-Provence, Publications de l’Université de Provence, 2006, pp. 250-251; N.
Rosenstein, «Phalanges in Rome?», pp. 303.

24
«superação dos bandos armados primitivos»56, o que nos parece uma ideia aceitável,
mas julgamos que, a par desta força organizada, os últimos ainda coexistiram durante
considerável espaço de tempo. Num determinado momento, os efectivos do exército
duplicaram, se bem que mantendo a estrutura baseada nas três tribos, o que, segundo
alguns, teve lugar no reinado de Tarquínio Prisco (c. 616-578 a. C.), 57 mas para a
maioria dos historiadores aconteceu em data algo ulterior 58.
Originariamente, os membros do exército arcaico romano teriam armas de tradição
lacial e villanoviana59. Mais tarde, o equipamento hoplítico terá sido introduzido em
Roma, eventualmente no século V a. C., mas apenas se limitando aos seus cidadãos
mais abastados, os únicos com posses para adquirir tal equipamento. Certos indícios
apontam para que a adopção do armamento hoplítico até pode ter ocorrido antes da
denominada «Reforma Serviana» (cf. infra), mas é aspecto que levanta diversas
interrogações60.

A organização centuriada: o exército «serviano»

A tradição romana atribuiu ao rei Sérvio Túlio (que governou a Cidade entre 578 e
534 a. C.) a divisão do corpo dos cidadãos em centúrias segundo o critério da riqueza, e
não há razões para duvidar da veracidade desta afirmação 61. A certa altura, o sistema
centuriato sofreu modificações drásticas e veio a assumir uma importância política
duradoura enquanto base na votação da assembleia, mas, quando foi introduzido no

56
La República Romana, Madrid, Cátedra, 1981, p. 56.
57
Segundo a discutível cronologia tradicional, contestada, entre outros, por T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp.
149-157.
58
P. Fraccaro, «La storia del antichissimo esercito romano e l’etá dell ordinamento centuriato», Opuscula, II, Pavia,
1957, p. 287ss.; E. Rawson, «The literary sources for the pre-Marian Army», Papers of the British School at Rome, 39
(1971), pp. 13-31; J. Martínez Pinna, Los orígenes del ejército romano. Estudio de las formas pre-militares en relación
con las estruturas sociales de la Roma más primitiva, Madrid, Universidade Complutense, 1981, p. 275ss.; J. M. Roldan
Hervas, La República Romana, p. 55ss.; T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, p. 143ss.
59
N. Sekunda e S. Northwood, Early Roman Armies, p. 8ss.
60
A. K. Goldsworthy, The Complete Roman Army, Londres, p. 24; T. J. Cornell entende que a adopção do armamento
hoplítico teve lugar antes das reformas de Sérvio Túlio: The Beginnings of Rome, p. 227. No entanto, outros autores
defendem que tal aconteceu no tempo serviano. L. Keppie, The Making of the Roman Army: From Republic to Empire,
Londres, 1984, p. 17; N. Sekunda e S. Northwood, Early Roman Armies, p. 14.
61
D. Sierra Estornés, «Las legiones romanas de época monárquica y republicana: un ejército armado por el Estado»,
Antesteria, nº 1 (2012), p. 485; N. Fields, Early Roman Warrior, pp. 29-33. Segundo Aulo Gélio (Noctes Atticae, 5.28),
as centúrias estariam organizadas em cinco classes censitárias e, dentro de cada uma, dividiam-se em centúrias de
iuniores e seniores: as primeiras seriam compostas por indivíduos com idades compreendidas entre os 17 e os 46 anos, e
as dos seniores englobavam os cidadãos entre os 46 e os 60 anos. Os iuniores combateriam fora de Roma, ao passo que
os seniores permaneciam no interior da Urbs como guarnição. Num grande grupo ficariam os adsidui, capazes de
custear o seu próprio armamento, e noutro os capite censi (depos proletarii), que ao não possuirem recursos, careciam
da obrigatoriedade do serviço militar e não teriam direitos políticos (J. Heurgon, Roma y el Mediterraneo Occidental
hasta las guerras púnicas, Barcelona, Nueva Clio, 1971, p. 167). Refira-se, todavia, que Tarquínio-o-Antigo (616-578 a.
C., segundo a cronologia convencional) já teria esboçado um alargamento do recrutamento da cavalaria, medida que
visaria diminuir o poder dos chefes das grandes linhagens romanas. É possível que Servio Tulio também pretendesse
atingir o mesmo objectivo.

25
fim do século VI a. C., o seu objectivo deve ter sido fundamentalmente militar. Ao
instaurar, pela primeira vez, um critério censitário na organização militar, ele talvez
pretendesse apoiar-se num corpo cívico maior do que a nobreza tradicional. A legião
totalizaria 4 000-4 500 infantes, distribuídos em 40 centúrias, na razão de 10 por cada
uma das quatro novas tribos topográficas criadas por Sérvio Túlio – Suburana,
Palatina, Esquilina e Collina. Terá igualmente aumentado o efectivo da cavalaria,
estabelecendo 12 novas centúrias equestres, que se juntariam às três primeiras, já
divididas em centúrias de priores e posteriores, antes da subida ao poder de Sérvio
Túlio. Com o sistema censitário, o monarca podia ainda beneficiar do aumento
populacional, do desenvolvimento das actividades económicas e das trocas, de que a
estampagem de lingotes de bronze (aes signatum, que significaram uma primeira
forma de moeda) é um elemento revelador.
No entanto, Michel Humm62 preconizou que, na sua génese, este sistema dividiria só
os cidadãos entre os pertencentes à classe» (classis), que serviam nas fileiras como
hóplitas, e os restantes funcionando como infantes ligeiros. Contudo, embora saibamos
que no século II a. C., a primeira das então cinco classes se designaria simplesmente
como «a classe» e as outras como «abaixo da classe» 63 (infra classem; assim Catão, que
é citado por Aulo Gélio: Noctes Atticae, 6.13), teoria igualmente abraçada por L.
Keppie, M. C. J. Miller64, bem como por N. Sekunda e S. Northwood 65. Assim, a
distribuição dos cidadãos em cinco classes censitárias atribuída por Lívio e Dionísio
única e exclusivamente a Sérvio Túlio, não terá sido criada de uma assentada, mas
resultar antes de uma evolução muito progressiva durante a época republicana,
encetada a partir de meados do século V a. C. 66. Embora não restem grandes dúvidas
sobre a historicidade da reforma serviana, há indícios, na reconstituição apresentada
pelas fontes literárias, que apontam para a inclusão de elementos mais tardios, talvez
remontando aos séculos IV-III a. C., como a distinção da segunda e da terceira classes
(com fortunas de 75 000 e 50 000 asses, respectivamente) através do critério do uso ou
não de grevas metálicas (ocreae). Originariamente, talvez só se diferenciassem três
corpos militares básicos. A infantaria pesada, a infantaria ligeira e a cavalaria. Em todo
62
Appius Claudius Caecus. La république accomplie, Roma, École française de Rome, 2005, p. 256, 261, n. 106.
63
Ideia aceite por P. Cosme: L’armée romaine, p. 12.
64
«The principes and the so-called Camillan Reform», The Ancient World 23.2 (1994), p. 64. No seio da infra classis,
posteriormente, talvez durante a guerra contra Veios (406-396 a. C.), adicionaram-se novos contingentes militares
formados por tropas com armamento inferior (possivelmente as classes II e III).
65
Early Roman Armies, p. 16.
66
Ibidem, p. 13. Veja-se J. Armstrong, «Power and Politics in Fifth Century Rome: The Censorship and Consular
Tribunate in Context», ASCS 32 Proceedings, p.6: o autor refere que o exército romano oficial, tanto do período
monárquico como do início da República, seria composto inteiramente por membros da «elite sócio-económica, embora
a natureza exacta e a estrutura interna deste exército ainda sejam incrivelmente ambíguas». Como as gentes
continuaram a assumir importância nas actividades militares em finais do século V e ao longo do IV a. C., juntamente
com a existência de motivações altamente individualistas na prática da guerra, é provável que as forças armadas
romanas desta fase mantivessem um aspecto clânico bem acentuado, baseando-se num núcleo de forte carácter
gentilício. C. J. Smith, Early Rome and Latium: Economy and Society C. 1000 to 500 BC, Oxford, Oxford Univ. Press,
1996, pp. 185-202; T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 143-150.

26
o caso, a qualificação económica mínima para se pertencer às diversas linhas do
exército não cessaria de ir diminuindo no decurso da época republicana, para satisfazer
as crescentes necessidades de recursos homanos para as guerras.
Se a criação da assembleia centuriada e a reforma tribal, acompanhada por uma
alteração substancial na composição e na organização do exército, remontarem de facto
a meados do século VI a. C., então a única coisa que temos a certeza é que as centúrias
consistiram nas suas unidades básicas. É algo que faz sentido, não só por causa do
vínculo óbvio entre o exército e a assembleia centuriada, mas igualmente pela
longevidade das centúrias, que continuaram a manter-se, mesmo depois de deixarem
de ter qualquer papel táctico no campo de batalha. Em meados da República, as legiões
manipulares continham centúrias, bem como as legiões coortais do período tardo-
republicano e ao longo do Império. A sua preservação exemplifica o género de mudança
progressiva que caracterizou a evolução do exército romano, sugerindo que as centúrias
já existiriam nos primórdios das forças armadas da Urbs.
Consequentemente, houve uma relação entre elas e as novas tribos criadas por Sérvio
Túlio, mas não sabemos ao certo como é que as últimas foram repartidas pelas
centúrias. A este respeito, T. J. Cornell sugeriu uma reconstituição plausível: os
membros de cada tribo serviana foram distribuídos em 60 grupos; quando se tinha de
mobilizar um exército, cada grupo, numa tribo, forneceria um número específico de
homens; depois, os contingentes dos grupos em cada tribo reunir-se-iam aos dos
grupos correspondentes nas outras tribos, assim formando as 60 centúrias que
compunham uma legião serviana67.
A estar correcta, esta teoria comporta duas importantes consequências: a primeira, e
mais significativa, é que o mecanismo para reunir um exército combinava nas centúrias
homens de diferentes tribos e, extensivamente, de distintas zonas – muito à
semelhança da leva que Políbio descreve para o século II a. C. -, o que neutralizaria, no
âmbito militar, os laços e as obrigações sociais que até aí haviam estruturado e
condicionada as vidas dos cidadãos. Esta conclusão parece confirmar-se no juramento
que, até 216 a. C., os soldados prestavam entre si, em cada centúria, declarando
assertivamente que não abandonariam as fileiras no campo de batalha 68. Um tal
juramento encaixa-se facilmente num contexto em que homens que não possuíam
vínculos sociais pré-existentes entre si eram chamados a suportar os perigos do
combate em conjunto, pelo que tinham de se certificar, por meio de um voto oral, que
nenhum deles faltaria à palavra dada. Ora esta necessidade só emergiria quando
indivíduos pertencentes a diferentes tribos e regiões se viam integrados nas centúrias,
da maneira que Cornell ideou.
67
The Beginnings of Rome, pp. 192-194.
68
Lívio, Ab Urb. cond. 22.38.2-5. Cf. Frontino, Strat. 4.1.4.

27
Sérvio Túlio tentou provavelmente maximizar os recursos militares do Estado,
impondo a obrigação do cumprimento do serviço militar a todos, salvo os cidadãos
mais pobres, e ao estabelecer medidas sobre como eles se deviam armar consoante os
seus meios, abrangendo que tinham a capacidade de se equipar com algumas ou todas
as peças da panóplia hoplítica, enquanto os mais ricos serviam como cavaleiros (talvez
formando uma autêntica cavalaria, não sendo apenas uma infantaria montada, como
aconteceu na maior parte das cidades-estados gregas da época arcaica) 69. Daqui
resultou um exército heteróclito, equipado com elementos hoplíticos e outros de origem
diversa, o que se adequa bem ao ideário de H. van Wees, respeitante à formação aberta
na guerra arcaica.
Quiçá no começo da República, por volta de 509 a. C. 70 ou então seguramente antes de
362, o exército terá sido dividido em duas legiões, uma para cada cônsul. Todavia,
certos autores, como T. J. Cornell, 71 consideraram pouco lógico que num mesmo
exército coexistissem escudos circulares na primeira linha e scuta oblongos nas
restantes duas. Em contrapartida, M. C. Miller72 e J. Rich73 não viram problema algum
nessa coexistência. A partir de então, o exército centuriado foi suplantando
gradualmente as levas de guerreiras baseadas nos princípios clânicos de parentesco e
dependência, à medida que os conflitos armados cessaram de se limitar a raides e
expedições de pequena envergadura e se inscreveram numa realidade bem mais ampla,
a das guerras expansionistas no final do século V e ao longo do século IV a. C.

***

O exército romano sofreu profundas mutações entre os séculos VI e IV a. C., mas,


apesar de muitos estudiosos tentarem reconstituir a sua evolução, a verdade é que
todas estas abordagens se resumem a meras conjecturas. Até a mutação que melhor se
atesta, a introdução dos soldos, é problemática. Uma tradição bem estabelecida (Tito
Lívio, Ab Urb. cond. 4.59-60) situa o início do pagamento de salários, com base em
impostos directos74, aproximadamente em 406 a. C., aproximadamente no início do

69
Com base em Lívio (Ab Urb. cond. 1.44), as centúrias da primeira classe teriam como armas defensivas o elmo
(galea), o escudo redondo (clipeus), grevas (ocreae) e couraça (lorica); como armas ofensivas, a lança (hasta) e a espada
(gladius); os membros da segunda classe utilizariam basicamente as mesmas armas, salvo a lorica e, em vez do clipeus,
empregavam o escudo mais alongado (scutum); os homens da terceira classe dispunham de equipamento idêntico às da
anterior, à excepção das ocreae; quanto às centúrias da quarta classe, só combateriam com lança (hasta) e venábulo
(ueretum); por último, os «legionários» da quinta classe estariam providos apenas de fundas (fundae) e projectéis de
pedra (lapides missiles). No entanto, em diversos aspectos, o autor romano introduziu alguns anacronismos.
70
«La storia del antichissimo esercito romano e l’età dell ordinamento centuriato», in Opuscula, II, p. 32.
71
The Beginnings of Rome, p. 223.
72
«The principes and the so-called Camillan Reform», The Ancient World 23.2 (1994), p. 65.
73
«Warfare in Early Rome», in M. Pearce e M. Tossi (eds.), Papers from the EAA Third Annual Meeting…, p. 6.
74
Segundo D. Sierra Estornés, em 406 a. C., «o Estado romano estabeleceu como norma fixa que os soldados, a partir
desta data, começariam a receber uma remuneração por servirem no exército, e ao imposto de guerra já existente,
somou-se um novo imposto, destinado a financiar o pagamento das tropas (stipendium tributum)» (cf. «Las legiones
romanas de época monárquica y republicana», p. 489). Assim, a partir do referido ano, relativamente aos assuntos
militares, o Estado romano arrecadaria dois impostos, o da guerra, que sufragava as despesas de uma campanha (armas,

28
cerco à cidade etrusca de Veios. Mas a cunhagem da moeda propriamente dita só
começou cerca de um século mais tarde, daí os soldos serem pagos sob a forma de
lingotes de bronze. No entanto, a maior parte das acções bélicas limitar-se-ia a
campanhas de curta-duração e numa escala local; por outro lado, as Guerras Samnitas
em finais do século IV a. C. parecem um contexto mais favorável para a introdução de
pagamentos regulares, embora saibamos que se remunerararam alguns dos militares
que participaram no assédio a Veios.
Em finais do século IV a. C., o exército romano talvez já compreendesse vários dos
elementos que Políbio (Hist. 6.19-26) descreveu século e meio depois. Neste sistema, os
«cidadãos-soldados» foram organizados em legiões, cada uma ascendendo (pelo
menos) a 4 500 homens, entre os quais 3000 formariam a infantaria pesada. Esta tinha
como equipamento o escudo rectangular e oblongo com as extremidades arredondadas
(scutum), um dardo pesado (pilum) e uma espada relativamente pequena, combatendo
as tropas numa formação flexível, que se desdobrava em três linhas, cada uma dividida
em dez manípulos. Vários especialistas defenderam que as componentes essenciais
deste sistema, o armamento e o manípulo, enquanto unidade táctica, foram
introduzidas apenas no decurso das Guerras Samnitas, doutrina alicerçada em ideias
antigas, segundo as quais estes elementos foram tomados dos Samnitas, o que nem
todos os investigadores modernos aceitam.
Actualmente, o meio académico tende a reconhecer que o exército manipular resultou
de um processo evolutivo mais longo, provavelmente remontando a um período
anterior a 390-360 a.C.75, no seio do qual forças variegadamente equipadas se
converteram, aos poucos, num conjunto mais estandardizado e organizado. No entanto,
a formação manipular terá sido mais aperfeiçoada e simplificada durante as Guerras
Samnitas. Determinados elementos, como o scutum, podem ter aparecido muito antes,
e a Lívio e a Dionísio de Halicarnasso talvez lhes assista razão ao apresentarem certos
soldados no exército serviano munidos com escudos deste tipo. Cabe advertir para um
importante factor de continuidade, desde o sistema serviano até ao manipular, que

outros apetrechos bélicos, alimentos, etc.) e o imposto para se proceder ao pagamento dos legionários. Os cidadãos que
serviam no exército só contribuiriam com o imposto de guerra, enquanto os que ficavam em Roma pagavam tanto o
imposto de guerra como o destinado a financiar o soldo militar. Com efeito, há uma passagem de Lívio que aponta nessa
direcção, inserida no contexto do assédio de Veios e do conflito que opôs patrícios a plebeus. Neste excerto, alude-se à
situação em que se achavam os legionários que regressavam da guerra contra Veios: cum confecta labore volneribus
postremo aetatae corpora rettulerint incultaque omnia diutino dominorum desiderio domi invenerint, tributum ex
adfecta re familiari pendant aeraque militaria, velut fenore accepta, multiplicia rei publicae reddant (Ab Urb. cond.
5.10,9); pode-se interpretar este fragmento no sentido de que, quando os cidadãos romanos estavam em campanha não
pagavam qualquer imposto, mas, ao regressarem às suas residências, teriam de entregar a parte do imposto que lhes
correspondesse. O problema que parece reflectir a passagem liviana é que, durante a ausência do soldado, tal quantia ia
aumentando e, quando ele retornava, não tinha dinheiro suficiente para pagar os montantes em atraso que devia do
imposto de guerra. Este facto, conjugado com o abandono dos cultivos provocado pela sua ausência, fazia com que a
situação económica destes cidadãos se tornasse crítica. Todavia, julgamos que o pagamento de soldos numa base regular
só veio a ocorrer durante as Guerras Samnitas, embora não excluamos que durante o assédio de Veios se tenham
efectuado alguns pagamentos esporádicos
75
Veja-se, entre outros, J. Tomczak, «Roman Military Equipment in the 4th Century B.C.: Pilum, Scutum and the
Introduction of Manipular Tactics», Acta Universitatis Lodziensis/Folia Archaeologica 29 (2012), p. 59

29
possivelmente radicou na maximização dos recursos militares romanos, mediante a
imposição do serviço militar obrigatório a todos os cidadãos, excepto os mais pobres 76.

I.6. A definição do comando

A história subsequente de Roma permite, num olhar retrospectivo, apreender os


fundamentos jurídicos e religiosos do comando militar, e avaliar o contributo etrusco
nesta matéria. A autoridade do rei (rex) sobre o exército já assentava no imperium, o
poder de mando civil e militar, que por esta altura não conheceria limites. O imperium
caracterizava-se por uma dimensão religiosa que conferia ao que dele estava investido
(por aclamação dos comitia centuriata) o direito de consultar os auspícios, isto é,
conhecer os designíos divinos através da observação do voo das aves. O juramento
(sacramentum)77 que o soldado fazia na altura da incorporação colocava-o à inteira
disposição do comandante-chefe. O poder que este tinha de condenar à morte
materializava-se nas insígnias, das quais se acharam vestígios em túmulos etruscos e,
mais tarde, simbolizaram os poderes dos magistrados da República romana: eram os
fasces, compostos por machados rodeados por um feixe de varas, que serviam para se
proceder às execuções capitais, mas também a sella curul ou o paludamentum, o
manto púrpura do triunfador. A própria cerimónia do triunfo, em que o detentor do
imperium se deslocava numa quadriga até ao Capitólio, para agradecer a ajuda de
Júpiter por lhe conceder uma gloriosa vitória, seria de origem etrusca. Este rito,
inicialmente anual, assimilava o soberano ao deus ao longo de um dia, a fim de garantir
a prosperidade e o poderio da Urbs.
I.7. Guerra e sociedade no começo da República

76
Sobre os scuta no exército «serviano»: C. Saulnier, L’armée et la guerre dans le monde étrusco-romain (VIIIe-IVe
siècles av. J.-C.), Paris, 1980, pp. 106-109; P. Connolly, Greece and Rome at War, Londres, 1981, pp. 95-96. Para mais
dados sobre a evolução do exército arcaico romano, consultem-se: E. D. Rawson, «The literary sources for the pre-
Marian army», PBSR 39 (1971), pp. 13-31 (artigo de novo publicado na obra Roman Culture and Society, Oxford, 1991,
pp. 34-57; D. Kienast, «Die politische Emanzipation der Plebs und die Entwicklung des Heerwesens im frühen Rom»,
BJ 175 (1975), pp. 83-112; R. Thomsen, King Servius Tullius, 1980, pp. 144-211; T. J. Cornell, The Beginnings of Rome,
pp. 173-197.Para uma visão diferente da abordagem aqui apresentada, G. Forsythe, «The Army and Centuriate
Organization in Early Rome», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army, pp. 24-38.
77N
Não dispomos de elementos que nos elucidem cabalmente sobre a origem do sacramentum: o que sabemos em
concreto é que este género de juramento constituía uma prática comum entre os povos itálicos. Se determinados
estudiosos defendem que os Romanos introduziram o sacramentum por influência dos Etruscos, outros, pelo contrário,
aventam a hipótese de o juramento significar um elemento típico dos Samnitas, que os Romanos posteriormente
adoptaram no âmbito do ius iurandum: é o que recentemente preconizou W. Doberstein, na sua tese para a obtenção do
grau académico de MA, intitulada The Samnite Legacy: An Examination of the Samnitic Influences upon the Roman
State, pp. 83-112 («Chapter 3: The Samnite Oath»), esp. 107-110; no entanto, em face da ausência de provas cabais, o
autor tem o cuidado de frisar que se trata apenas de uma sugestão provida de certa lógica. Doberstein entende,
igualmente, que a influência exercida pelos Samnitas sobre os Romanos se reflectiu ainda no domínio das formações de
combate e do armamento.

30
Com o derrube da realeza na Urbs, o domínio político transitou para os patrícios, um
grupo de ricas famílias nobres que, desde o começo da República, se tornaram numa
espécie de «casta hermética». Os primeiros dois séculos da época republicana serviram
de cenário para fricções recorrentes entre os patrícios e os plebeus, a que se deu o nome
genérico de «Luta das Ordens». No século V a. C., os plebeus lograram obter algumas
vantagens a nível jurídico: em 494/493, ganharam o direito de eleger os seus
representantes, os tribunos da plebe, e, em 451/450, viram-se contemplados em várias
medidas estipuladas no famoso código legal das XII Tábuas. No decurso do século IV a.
C., suprimiram-se muitos dos privilégios políticos que até aí os patrícios usufruiram, o
que permitiu aos plebeus mais abastados aceder a cargos públicos. Além disso, a
introdução de reformas económicas, sobretudo as disposições implementadas para
aliviar as dívidas e as limitações impostas sobre a posse das terras, contribuíram para
salvaguardar os interesses dos plebeus mais pobres78.
A principal «arma» de que os plebeus se serviam, quando estavam descontentes e
queriam ver satisfeitas as suas reivindicações era, precisamente, o serviço militar. Com
efeito, nas fontes antigas colhem-se referências a «secessões» plebeias ocorridas na
Urbs, o que significaram, por outras palavras, greves militares (494, 449 e 287 a. C.).
Sabe-se também que os tribunos impediam frequentemente a formação de levas de
recrutas, no claro intento de forçarem os magistrados e o Senado a aceitar várias
propostas dos plebeus, expediente que se usou em períodos posteriores; embora as
histórias individuais de obstrução sejam geralmente fictícias, inspiraram-se em
episódios autênticos que tiveram lugar no começo da República.
Os primitivos plebeus foram por vezes identificados com os cidadãos mais pobres que
serviam no exército (se é que realmente o fizeram), apenas providos de armamento
ligeiro. No entanto, se isto aconteceu, eles teriam então pouco «músculo» político, daí
que não exista razão alguma para rejeitarmos a imagem veiculada pelas fontes, segundo
a qual a plebe englobaria todos os não patrícios. Como vimos, a composição do exército
era bastante heteróclita, e nele todos os níveis da sociedade estariam representados,
incluindo o movimento plebeu e os seus opositores. Actualmente, ainda há
investigadores que sustentam que as guerras incessantes e as frequentes incursões
inimigas que marcaram o século V a. C. surtiram efeitos nocivos sobre o campesinato,
gerando uma recessão e o descontentamento entre os plebeus 79.
No entanto, este século foi, ao que parece, relativamente pacífico. Há, portanto, que
duvidar dessa suposta recessão: o declínio nas «importações» de peças de cerâmica
78
Sobre estes conflitos sociais: T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 242-292, 327-343; também, K. A. Raaflaub,
Social Struggles in Archaic Rome, Oxford, 2005.
79
T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 265-266, 306-307; K. A. Raaflaub, «Born to be Wolves? Origins of Roman
imperialism», p. 286.

31
(um fenómeno regional) e na fundação de templos dificilmente se revelam indicadores
seguros. A agitação causada pelo endividamento, atesta-s em fases que mostram níveis
comparativamente mais altos do fenómeno bélico: em 494/493 e, mais tarde, já no
século IV a. C. (perturbações a partir de 385 a. C. e medidas de alívio das dívidas em
367-342).
Houve, evidentemente, muita «fome» de terras por parte dos camponeses. Nas fontes
alude-se amiúde a incidentes aquando da distribuição de terras públicas no século V a.
C., mas as narrativas parecem mais reflectir as controvérsias que se registaram no fim
da República, pelo que vários académicos se interrogam se o conteúdo das mesmas
transmite elementos autênticos. Mas estabeleceram-se novas comunidades em zonas
confiscadas aos inimigos subjugados. No século V e no começo do IV, colhem-se
menções à fundação de coloniae, que adquiriram o estatuto de estados latinos e os
colonos foram tanto cidadãos romanos como aliados. Adicionalmente, no início do
século IV, concederam-se numerosos lotes individuais a cidadãos romanos no antigo
território de Veios e na Planície Pomptina. A «fome» por mais terras constituiu, aliás,
um dos factores que impulsionaram um renovado expansionismo em finais do século V
e inícios do IV a. C. Ao atingir-se o objectivo com a repartição de uma quantidade
substancial de terras confiscadas, houve um precedente que seria repetidamente
seguido, convertendo-se num aspecto nuclear da história do imperialismo romano.
O padrão tipificado por um estado de guerra endémico, que representou uma das
características nucleares da vida romana desde finais do século IV a. C. em diante,
ainda não se encontrava estabelecido no período antes do grande avanço ocorrido por
volta de 343 a. C. Sublinhe-se que a guerra contínua foi o produto mas não a causa do
imperialismo romano. Ainda assim, neste período mais remoto, os conflitos armados
travaram-se com elevado grau de periodicidade, e muitos elementos característicos (e
duradouros) da atitude dos Romanos para com a guerra, incluindo as modalidades da
condução das campanhas e das expedições, ganharam formas mais definidas na
organização militar, nos métodos de combate, no tratamento dispensado aos vencidos e
em práticas rituais como o triunfo.
Os Romanos continuaram a envolver-se em acções depredatórias, mas os conflitos
privados em terra firme parecem haver findado aproximadamente a partir do século V
a. C. A guerra tornou-se gradualmente numa actividade cívica: combater nas fileiras
dos exércitos da república passou a ser uma obrigação que recaía sobre todos os
cidadãos, à excepção dos mais indigentes. Esta mesma obrigação do cumprimento do
serviço militar ajudou a definir o significado do étimo «cidadão», para além de
proporcionar à gente comum uma certa margem de manobra contra a elite. Em suma, a
guerra consistia numa actividade em que tanto a elite como os cidadãos vulgares

32
tomavam parte, facto que se ilustra no papel desempenhado pelo combate individual,
nas acções bélicas da Roma arcaica. Não restam dúvidas que pelejar (por vezes através
de campeões) a título pessoal foi uma vertente importante nas guerras mais antigas. O
ideal heróico consistia, basicamente, em correr à frente dos outros guerreiros e
enfrentar os chefes inimigos, derrotando-os à vista de todos.
Ocasionalmente, os combates singulares (ou duelos) podiam ser formalmente
acordados com os adversários, costume observável na história lendária dos três irmãos
Horácios que lutaram contra os três irmãos Curiácios da vizinha Alba Longa80; segundo
a tradição, dois dos romanos rapidamente foram derrotados, apesar de ainda terem
ferido os seus adversários; porém, o último Horácio, ao simular a fuga, lançou os
Curiácios em sua perseguição, conseguindo o primeiro separá-los e matá-los um a um.
Quando regressou a Roma, ovacionado pelo exército e pelos seus concidadãos, ele
golpeou mortalmente a sua irmã por não o haver recebido com suficiente entusiasmo
(recorde-se que era a noiva de um dos Curiácios. Esta é só «uma das histórias de
heroismo singular – mesmo que a sequela seja brutal e usada para documentar a
progressiva regulação dos violentos comportamentos masculinos pelo grosso da
comunidade»81. Outro conto é o protagonizado por Horácio Cocles (com «um só olho»),
que barrou a passagem às forças armadas etruscas, enquanto a ponte sobre o Tibre era
derrubada nas suas costas, conseguindo escapar a nado. Mesmo havendo incertezas
sobre a veracidade destas narrativas, é indubitável que reflectem um género de
confronto típico e usual em muitas sociedades primitivas82.
Ulteriormente, mesmo quando predominaram os confrontos em massa, os actos de
valor individuais continuaram a ser apreciados e recompensados, tanto durante como
antes de um prélio. O hábito romano de atribuir condecorações por façanhas
demonstrativas de inaudita bravura remonta ao começo da época republicana, ou até
ao período monárquico. Antes de se travar batalha, seria habitual haver duelos entre os
Romanos e os seus inimigos; para além das porfias entre os Horatii e Curiatii, alguns
deles tornaram-se famosos, como os combates que opuseram Tito Mânlio Torquato a
vários gauleses (367 ou 361 a. C.) ou os duelos em que Marco Valério Corvo (349 a. C.)
se celebrizou. Porém, esporadicamente e a bem da disciplina, proibiam-se estas pugnas
singulares; sobreviveram também histórias de comandantes que impuseram uma
disciplina de tal modo severa que chegaram até a mandar executar os seus próprios
filhos pela infracção das regras83.
80
Episódio conhecido como a «Batalha dos Campeões». Os Horatii e os Curiatii eram primos, pelo que representam
outro exemplo de um conflito entre indivíduos partilhando laços de sangue: cf. J. Armstrong, «’Bands of Brothers’:
Warfare and Fraternity in Early Rome», pp. 61-62.
81
A. K. Goldsworthy, Generais romanos. Os homens que construíram o Império Romano, Lisboa, 2007, p. 24
82
Sobre os Horácios e os Curiácios: Tito Lívio, Ab Urb. cond. 1.23-27. Sobre Horácio Cocles, ibidem, II, 10-11.
83
S. P. Oakley, «Single combat in the Roman Republic», CQ 35 (1985), pp. 392-410; T. Wiedemann, « J. E. Lendon,
Soldiers and Ghosts. A History of Battle in Classical Antiquity, New Haven, 2005, cap. 8.

33
Os actos de valentia individual eram uma das melhores maneiras pelas quais nobres
como Torquato e Corvo se poderiam ver agraciados com distinções pessoais, mas as
recompensas também se atribuíam a simples soldados. Conta-se que o recorde em
termos de número de condecorações militares terá sido alcançado por Lúcio Sício
Dentato (Lucius Siccius Dentatus), tribuno em 454 a. C., que «lutou em 120 batalhas,
venceu oito combates singulares após o repto, notabilizando-se por ter 45 cicatrizes na
sua parte da frente e nenhuma nas costas» (Plínio-o-Velho, Nat. Hist. 7.101-102). A
magnitude das proezas de Sício é, na realidade, produto de uma ficção mais tardia,
além de que pode tratar-se uma figura legendária.
As narrativas destes feitos de armas mostram que os cidadãos comuns tinham a
possibilidade de ganhar notoriedade ao desempenhar o seu papel militar. Assim, a
partir dos primeiros tempos da República, os patrícios que buscavam a fama e a glória
através de actos de grande coragem, tentavam brilhar em actividades em que os
simples cidadãos também participavam activamente.

***

Em meados do século IV a. C., Roma começou a tornar-se uma potência na Itália


Central. Conseguiu sobreviver à ameaça suscitada pelos Aequi e dos Volsci no século V
e recuperou, sem grandes dificuldades, do saque da Cidade pelos Gauleses. Foi ainda o
parceiro dominante nas suas alianças com a «Liga Latina» e os Hernici. A própria
existência de contactos diplomáticos e da celebração de tratados indica a importância
de Roma a nível regional. Em 354 a. C., parece ter-se aliado aos Samnitas, uma
confederação tribal que vivia e controlava as terras altas dos Apeninos centrais e
meridionais (Lívio, Ab Urb. cond. 7.19.4). Em 348, Roma também firmou (ou
renegociou) um convénio com o império marítimo de Cartago (ibidem, 7.27.1-2;
Políbio, Hist. 3.22) e, pouco mais tarde, em 343, aliou-se à Campânia, região fértil e
densamente povoada, famosa pela sua cavalaria (Lívio, Ab Urb. Cond. 7.31).
Mas, como referimos, Roma não era o único centro urbano importante na península: a
norte, as doze cidades-estados etruscas mantinham-se prósperas e independentes,
capazes de reunirem exércitos organizados. Para além dos Etruscos, havia tribos
gaulesas que dominavam o Vale do Pó: uma delas, os Senones, controlava a costa
adriática, entre Rimini e Ancona. As forças gaulesas possuíam um forte ethos belicoso
forte e gozavam da reputação de efectuar temíveis investidas, embora evidenciassem
alguma fragilidade em combates prolongados.
As terras altas dos Apeninos formavam como que uma espinha sobre grande parte de
Itália e eram habitadas por diversas tribos Oscas: os Úmbrios, os Sabinos e os Aequi,

34
que eram, grosso modo, os vizinhos que habitavam as montanhas perto de Roma,
tinham estruturas tribais debilmente organizadas; mas, para sudeste, os Samnitas,
povo numeroso e extremamente belicoso, encontravam-se reunidos numa poderosa
liga, embora de carácter sobretudo defensivo. No Sul de Itália, localizavam-se as
cidades-estados helénicas da Magna Graecia, como Neapolis (Nápoles), Lócris,
Crótona e Tarentum, dispondo de exércitos compostos por hóplitas e mercenários, bem
como os territórios de povos itálicos, designadamente os Lucanianos, os Apulianos e os
Brutianos (Bruttii)84.
O período de 86 anos entre 350 e 264 a. C. foi palco de uma expansão radical do poder
romano na península italiana, definido-se a trajectória do futuro desenvolvimento
militar e imperial. Roma entraria com hostilidades contra este diversificado conjunto
de povos e, tanto através de derrotas infligidas aos inimigos, como ao conduzi-los a
integrar a sua rede de alianças, a Urbs lograria expandir cada vez mais o seu poder e
influência, controlando toda a Itália a sul do rio Rubicão.

II. A conquista romana de Itália85: enquadramento histórico global

O primeiro desafio com que a Urbs teve de lidar relacionou-se com os Latinos e os
Campanianos, que travaram uma guerra para se libertarem da hegemonia romana
(340-338 a. C.). A vitória de Roma saldou-se num aumento significativo do seu
território e dos recursos humanos. A Cidade também reformulou o seu sistema de
alianças, que se converteu num instrumento mais forte e dinâmico para as suas
operações de conquista. Depois, desencadeou uma série de longas guerras contra os
Samnitas, nos Apeninos centrais e meridionais. Em certas fases, toda a Liga Samnita
participou nas contendas, mas, em geral, a cooperação entre os membros da
confederação não funcionou, pelo que Roma defrontou amiúde tribos e comunidades
individuais. Os exércitos romanos invadiram usualmente o Samnium, sendo a situação
contrária mais rara, o que sugere que a agressão romana consistiu num elemento
subjacente na relação entre os dois grupos86.
84
Sobre a Etrúria, remetemos para estudos já citados: C. Saulnier, L’armée et la guerre dans le monde Etrusco-Romain;
B. D’Agostino, «Military organization and social structure in archaic Etruria», in O. Murray e S. Price (eds.), The Greek
City, pp. 59-84. Quanto ao modo de fazer a guerra dos Gauleses, veja-se L. P. Rawlings, «Celts, Spaniards and Samnites:
Warriors in a soldier’s war», in T. J. Cornell, B. Rankov e P. Sabin (eds.), The Second Punic War. A Reappraisal,
Londres, 1996, pp. 86-89. Sobre o Samnium e os Samnitas: E. T. Salmon, Samnium and the Samnites, Cambridge,
1967, C. Saulnier, L’armée et la guerre chez les peuples Samnites, Paris, 1983, e T. J. Cornell, The Beginnings of Rome,
p. 346, 351.
85
Dois bons estudos sobre o tema: J.-M. David, The Roman Conquest of Italy (tradução do original em língua francesa),
Londres, 1996, pp. 11-47; R. Cowan, Roman Conquests: Italy, Barnsley, Pen & Sword, 2010.
86
Para mais informações sobre as agressões perpetradas pelos Romanos no Samnium: T. J. Cornell, The Beginnings of
Rome, pp. 353-354; W. V. Harris, War and imperialism in Republican Rome, 327-70 BC, Oxford, 1979. No entanto,

35
Apesar de sofrerem algumas vexantes derrotas, como frente aos Samnitas nas Forcas
Caudinas (321 a. C.) e em Lautulae (315), os Romanos acabaram por levar a melhor
sobre este povo. De facto, a partir de 311 a. C., os Romanos também centraram a sua
atenção noutros vizinhos. Os subsequentes trinta anos (311-283) assistiram a uma
dramática dilatação do território e da esfera de influência de Roma. No último decénio
do século IV, os Romanos viraram-se contra os seus antigos aliados Hernici (acusados
de tentarem provocar uma secessão) e inimigos de longa data, os Aequi, incorporando
as suas zonas no território romano. Quanto a Sabinum, conheceu idêntico destino, após
uma campanha conduzida por M. Cúrio Dentato (M. Curius Dentatus, 290 a. C.).
No século III a. C., a natureza voraz do expansionismo romano conduziu à formação
de uma múltipla aliança integrada por Samnitas, Etruscos, Úmbrios e Gauleses, mas,
ainda assim, Roma obteve grandes vitórias em Sentinum (295) e Aquilonia (293). Estes
povos lutaram, a todo o custo, para se manter coesos face às vantagens estratégicas
romanas da integridade territorial, do comando unificado e da sua organização militar.
Os Samnitas e os Úmbrios viram-se subjugados em 290 a. C. e, poucos anos depois, os
Senones gauleses e os seus aliados etruscos foram estrondosamente derrotados em
Vadimon (238).
Além destes teatros de operações, os exércitos romanos imiscuiram-se cada vez mais
na vida dos Lucanianos, dos Apulianos e nas cidades da Magna Graecia; depararam
com a viva oposição da principal cidade grega do Sul de Itália, Tarentum, que se aliara
ao rei e aventureiro Pirro de Épiro, versado na arte da guerra de matriz helenística,
comandando um exército com 25 000 homens e 20 elefantes. A despeito de vencer as
forças romanas em Heraclea (280) e em Ausculum (279), assim como de encorajar o
reacendimento das hostilidades por parte dos Samnitas, Lucanianos e, possivelmente,
dos Etruscos e Úmbrios, Pirro acabou por ser vencido pelos Romanos em Beneventum
(275). Retirou-se para o Épiro, deixando os Romanos bem mais livres para derrotar
Tarentum (272) e os seus aliados: em 264 a. C., aproximadamente, Roma consumara a
conquista de Itália.

II.1. Modalidades bélicas

As tentativas para a compreensão do desenvolvimento operado nos métodos bélicos e


na organização militar dos Romanos suscitam alguns problemas de vulto. A indigência
de testemunhos materiais para o exército romano de meados da época republicana
uma recente corrente historiográfica defende que a belicosidade dos Romanos nem sempre se pautaria por atitudes
ofensivas, muitas vezes acontecendo que a eclosão de conflitos resultava de actos defensivos e de uma necessidade de
simples sobrevivência da Urbs.

36
obrigou a que a maior parte das descrições modernas se tenham fundamentado nos
relatos escritos por autores romanos e gregos. Mas os investigadores experimentam
consideráveis dificuldades na interpretação de tais fontes. A narrativa mais extensa, de
Tito Lívio (59 a. C-17 a. C.), escrita trezentos anos após o período aqui em foco, só está
completa até ao ano 293 a. C. Políbio (c. 200-118 a. C.) fornece material adicional, mas
o seu interesse narrativo só começa em 264 a. C. Outros escritores antigos transmitem,
igualmente, relatos parcelares e fragmentários. Ademais, as fontes tendem a
concentrar-se firmemente na história romana, daí raramente se captarem notícias de
conflitos em Itália que não envolveram os Romanos.
Em todo o caso, a guerra foi uma realidade constante na península itálica. As pressões
económicas e demográficas empurraram muitas tribos das regiões montanhosas dos
Apeninos para a prática de depredações contra os seus rivais das planícies, forçaram
indivíduos e grupos a abandonar as suas comunidades, entrando ao serviço de
potências ultramarinas, como Cartago ou os tiranos da Sicília, na qualidade de
mercenários. Muitas das actividades guerreiras que tiveram lugar na península itálica
pautaram-se por uma reduzida magnitude, sendo pouco mais do que raides ou
incursões, motivadas pelo arrebatamento de despojos ou pela glória, ou como meios
para se obrarem proezas e um grupo exercer a dominação sobre os seus vizinhos. O
povo de Privernum, por exemplo, terão efectuado, em 342 e 330 a. C., raides nos
territórios dos seus vizinhos, as colónias romanas de Setia e Norba (Lívio, Ab Urb.
cond. 7.41.8-81; 8.19).
Os Romanos também se entregaram a operações de saque: em 310, Q. Fábio Máximo
Ruliano (Q. Fabius Maximus Rullianus) pilhou as terras situadas no sopé do Monte
Cimiano (Lívio, Ab Urb. cond. 9.36.11-14). Por vezes, estes actos de rapina
degeneraram em confrontos de larga escala, como aconteceu quando uma grande força
mista etrusco-úmbria lutou contra tropas romanas perto de Sutrium (ibidem, 9.37). Se
bem que determinadas comunidades ameaçadas por um exército romano pudessem
ripostar com uma mobilização de apreciáveis proporções, elas geralmente optavam por
reacções armadas de curta duração e a nível local. Quando se organizavam campanhas
ofensivas, visavam, amiúde, os aliados romanos que estivessem mais próximos. O que
se afigura mais surpreendente é que nas fontes os Romanos aparecem a actuar
frequentemente numa escala e numa intensidade que excediam, em geral, os seus
antagonistas.
Possivelmente a partir de 338 a. C., e com total certeza desde 312, Roma agiu
essencialmente como um poder pan-itálico, capaz de intervir em simultâneo em dois ou
mais teatros de conflitos para lá do núcleo do território romano. No mesmo ano em que
Ruliano arremeteu sobre o Monte Cimiano, outro exército romano tomou Allifae aos

37
Samnitas e «muitos outros fortes e aldeias foram tanto conquistados intactos como
destruídos» (Lívio, Ab Urb. cond. 9.37). Mais ou menos na mesma altura, os Romanos
enviaram também uma frota para pilhar a costa perto de Nuceria (ibidem, 9.38)87.

II.2. As estruturas do expansionismo romano

No arco temporal entre 350 e 264 a. C., só houve, aparentemente, seis anos em que
Roma não esteve em guerra: 347, 344, 328, 288-87 e 285 a. C 88. Tal grau de
belicosidade requer determinados esclarecimentos quanto às pressões culturais,
institucionais e económicas que conduziram Roma a praticar a guerra. Os Romanos
estavam indubitavelmente imbuídos de um ethos belicoso (embora não exclusivo dos
«filhos de Marte», já que era compartilhado por outros povos itálicos, sobretudo os
Samnitas, como explicitaremos noutra alínea): o êxito em combate era, como dissemos,
uma boa maneira para os homens ganharem prestígio e influência. As façanhas
militares dos membros da aristocracia romana eram recordadas pelas gerações
vindouras e, às vezes, adquiriam dimensões heróicas (Políbio, Hist. 6.53-54): Valério
Corvo89 (348 a. C.; Lívio, Ab Urb. cond. 7.26) notabilizou-se em vários duelos,
sobretudo um contra um enorme gaulês e, em virtude deste feito, tornou-se cônsul pela
primeira vez (num total de 6 consulados).
Os generais romanos almejavam glória, fama e riqueza ao vencerem batalhas e,
quando tinham êxito, exigiam o reconhecimento dos seus pares e da comunidade em
geral. Desde o ano 312 a. C., capta-se nas fontes um número cada vez maior de triunfos
e ovações, além de outras celebrações militares concedidas a comandantes vitoriosos. O
profundo desejo de alguém se ver recordado postumamente através de uma ou várias
proezas bélicas queda manifesto no túmulo de Lucius Cornelius Scipio Barbatus (cos
298, ILLRP 309), em cujo epitáfio se alude vitórias no Samnium e na Lucânia; por seu

87
Provas materiais: M. C. Bishop e J. C. Coulston, Roman Military Equipment from the Punic Wars to the Fall of Rome,
Londres, 1993, p. 48. Fontes literárias: E. Rawson, «The literary sources for the pre-Marian army», PBSR 39 (1971), pp.
13-31; T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp. 1-30. Sobre os mercenários itálicos: G. T. Griffith, The Mercenaries of
the Hellenistic World, Cambridge, 1934, pp. 197-202, 208-211; G. Tagliamonte, I figli di Marte: mobilità, mercenari e
mercenariato italici in Magna Grecia e Sicilia, Roma, 1994. A respeito dos motivos predatórios: cf. Tito Lívio, 7.28.3 (a
incursão Aurunciana); S. P. Oakley, «The Roman Conquest of Italy», in J. Rich e G. Shipley (eds.), War and Society in
the Roman World, Londres, 1993, pp. 9-37, 14, n. 1. Sobre os padrões das modalidades bélicas: L. P. Rawlings,
«Condottieri and clansmen: Early Italian raiding, warfare and the state», in K. Hopwood (ed.), Organised Crime in
Antiquity, pp. 97-127.
88
W. V. Harris, War and Imperialism in Republican Rome, pp. 256-257; S. P. Oakley, «The Roman Conquest of Italy»,
pp. 15-16.
89
Valerius Corvus.

38
turno, um afresco tumular fragmentário de meados do século III a. C., descoberto no
Esquilino, talvez evoque as façanhas de Fábio Ruliano durante as Guerras Samnitas 90.
Quanto aos triunfos, estes reconheciam e simbolizavam as preocupações da elite com
a glória e os actos de bravura mas, por outro lado, significavam momentos concretos
para a comunidade, enquanto um todo, celebrar os êxitos do exército romano e
contemplar os despojos obtidos nas campanhas, sendo os últimos exibidos num cortejo
que percorria a Urbs (Lívio, Ab Urb. cond. 10.46.5, 14). Comentadores mais tardios
salientaram que, com o alargamento dos horizontes de Roma, se registou um aumento
das recompensas premiando os actos bélicos de valor; Floro (Ep. 1.13.26-27), ao
descrever o triunfo de Cúrio Dentato sobre Pirro em Beneventum, imaginou o seguindo
quadro:
«Anteriormente, os únicos despojos que poderíeis ver era o gado dos Volsci, os rebanhos dos
Sabinos, as carroças dos Gauleses ou os braços partidos dos Samnitas; mas se pudesséis haver
observado estes cativos, eram Molossianos, Tessálios, Macedónios, Brutianos, Apulianos e
Lucanianos; e se pudésseis presenciar a procissão, teríeis contemplado ouro, estátuas de cor
púrpura, pinturas e todos os luxos de Tarento».
Naturalmente que não se pode subestimar os benefícios económicos que resultavam
da guerra: à medida que o século IV a. C. foi decorrendo, as notícias alusivas a
pilhagens nas nossas fontes tornam-se mais frequentes. Embora as quantidades de
despojos e de tributos mencionadas nas fontes devam ser objecto de um estudo
cauteloso, os números apontados não deixam de servir de indicadores em relação às
fortunas acumuladas nos conflitos bélicos, com muitas riquezas afluindo para Roma.
Logicamente que tais lucros surtiram um efeito positivo na estrutura física da Cidade,
em especial no decurso da fase do recrudescimento das conquistas desde 312 a. C.
Entre 311 e 291 foram construídos nove templos. Em 312/311, o primeiro aqueduto para
uso exclusivo de Roma, que trazia água desde os Montes Albanos (perto de Gabii)
representou uma grande proeza edificatória (Lívio, Ab Urb. cond. 9.29.6).
Tudo isto mostra os recursos que o Estado dispunha e sugere, igualmente, o grau de
segurança e estabilidade que o núcleo central do território romano então já possuía.
Outra prova dos recursos da Urbs radica na construção da Via Appia, em 311 (Lívio, Ab
Urb. cond. 9. 29, 6), seguindo ao longo da costa até à Campânia, assim como a da Via
Valeria (307/306; Lívio, ibidem, 9.43, 25), no interior, em direcção a Alba Fucens. O
estabelecimento destas estradas facilitou obviamente as deslocações dos exércitos
romanos em campanha e manifesta, também, o aumento dos interesses do Estado no
estrangeiro.

90
Sobre o ethos belicoso: W. V. Harris, War and Imperialism, pp. 8-53; S. P. Oakley, «Single combat in the Roman
Republic», CQ 35 (1985), pp. 392-410. Sobre os triunfos: T. J. Cornell, «The Conquest of Italy», in F. W. Walbank et al.
(eds.), Cambridge Ancient History, 7.2 (2ª edição), Cambridge, 1989, pp. 363-364, «table 7»; S. P. Oakley, «The Roman
Conquest of Italy», p. 29; J. Rich, «Fear, greed and glory: The causes of Roman war-making in the republic», in J. Rich e
G. Shipley (eds.), War and Society in the Roman World, pp. 49-50. Sobre o epitáfio de Barbatus, T. J. Cornell, The
Beginnings of Rome, pp. 359-360, 466, n. 36. Para dados adicionais sobre o afresco do túmulo do Esquilino, veja-se F.
Coarelli, Affreschi romani dalle raccolte dell’Antiquarium communale, Roma, 1976, pp. 3-11.

39
Essencial para a conquista de Itália foi a exploração eficaz da mão-de-obra, tanto no
seu próprio território como nos dos aliados (socii). A seguir à derrota dos Latinos e dos
Campanianos (338), Roma dissolveu a Liga Latina e absorveu a maior parte da
Campânia no ager Romanus, o que fez com que, de uma assentada, triplicasse os seus
recursos humanos. Criou-se um novo sistema de aliança, mais dinâmico, que oferecia
os elementos necessários para apoiar a expansão e tinha a capacidade de integrar
futuros aliados e conquistas. De acordo com cálculos modernos, o território sob
controlo directo de Roma, o ager Romanus, aumentou de 1 902 km2, em 340 a. C., para
5 525, após a vitória sobre os Latinos e os Campanianos em 338. Em 264, o tamanho
passou para 26 805 km2, isto é, 1/6 da península itálica (c. 125 000 km2).
Parcelou-se algum deste território em lotes individuais (viritane) e entregue a
cidadãos, mas grande parte desta extensa área foi controlada por colónias, usualmente
com estatuto latino, das quais se esperava que, em caso de necessidade, fornecessem
tropas para os exércitos romanos. Crê-se que o maior índice atingido pela expansão
territorial, depois do alargamento inicial (mas substancial) do ager Romanus em 338 a.
C., ocorreu a seguir a 315 a. C. Embora, antes deste ano, se tenham estabelecido duas
colónias latinas, entre 340 e 315, fundaram-se outras sete entre 314 e 289, e mais seis
na década compreendida entre 273 e 263. Ao todo, estima-se que as colónias criadas
durante este período englobaram uns 70 000 colonos e os seus dependentes 91.

2.3. Forças armadas e contendas: milícias, mercenários e bandos


ajuramentados

Em múltiplos aspectos, o exército romano era basicamente uma milícia cujos recrutas
tinham de se armar à sua própria custa. Muitos deles seriam camponeses que teriam
diminuta instrução formal no treino com armas, mas deles se esperava que adquirissem
a necessária destreza à medida que fossem participando em conflitos. Certamente que
um serviço militar recorrente, muitas vezes anual, aumentaria a familiaridade com as
armas, as formações e as tácticas de combate, mas não olvidemos que os exércitos eram
de carácter temporário, vendo-se geralmente desmobilizados no fim de cada campanha.
No fim do século V a. C., o Estado romano terá procedido ao pagamento de algumas
remunerações aos que serviam no exército 92, o stipendium (Lívio, Ab Urb. cond. 4.59,

91
Sobre o aumento dos recursos humanos em 338 a. C.: A. Toynbee, Hannibal’s Legacy: The Hannibalic War’s Effects
on Roman Life, I, Londres, 1965, p. 141. A respeito da dilatação do ager Romanus: A. Afzelius, Die römische Eroberung
Italiens (340-264 v. Chr.), Copenhaga, 1942; S. P. Oakley, «The Roman Conquest of Italy», p. 12; T. J. Cornell, The
Beginnings of Rome, p. 380; quanto às colónias, ibidem, p. 381, «table 9».
92
Assunto que desenvolvemos noutra alínea deste capítulo.

40
11-60.8; 8.8.3; Diodoro, Bibl. Hist. 14.16.5). Teoricamente, a concessão de soldos
permitia aos Romanos manter um exército em campanha durante um ano inteiro, se
necessário, mas, na prática, a maior parte das expedições bélicas só durava umas
semanas durante o Verão. Quando o exército de Públio Valério Levínio (Publius
Valerius Laevinius) recebeu ordens para invernar em Saepinum (280/279 a. C.), esta
injunção foi encarada como uma punição pela derrota infligida pelas tropas de Pirro
(Frontino, Strat. 4.1.24)93.
A maior parte dos estados reunia forças armadas para responder a ameaças ou
desencadear guerras publicamente aprovadas. Quando Fábio Ruliano levou a cabo um
raide na Etrúria a partir da sua base situada no Monte Cimiano, Tito Lívio (Ab Urb.
cond. 9.36-7.1) descreve primeiro como ele lutou contra milícias organizadas por
nobres locais etruscas e, depois, enfrentou um contingente maior composto por
Etruscos e aliados vizinhos Úmbrios. Os exércitos de povos como os Samnitas,
Lucanianos e as cidades gregas devem entender-se, nas suas linhas essenciais,
enquanto agrupamentos de homens que se consideravam guerreiros apenas enquanto
durava uma campanha.
Por vezes, engrossavam-se as forças com mercenários, que viviam quase em exclusivo
das suas capacidades marciais. Nas fontes, Campanianos, Samnitas e Gauleses
aparecem amúde mencionados como mercenários; mas, na realidade, é provável que
qualquer italiano com suficiente motivação procurasse «emprego» nesta actividade.
Sabemos de um romano, pelo menos, que viajou até ao Egipto para ficarao serviço dos
Ptolomeus94. Aparentemente, Roma não empregou mercenários, sobretudo porque
conseguia obter grandes efectivos de aliados, mas cidades como Tarento serviram-se
correntemente de mercenários (Dionísio, Ant. Rom. 20.1); também se colhem notícias
de Samnitas e de Gauleses (Lívio, Ab Urb. cond. 8.38; Políbio, Hist. 2.19) os utilizarem
nos seus conflitos locais e regionais.
Os bandos de mercenários tornavam-se especialmente perigosos quando os seus
empregadores dispensavam os seus serviços: um grupo de mercenários que haviam
estado ao serviço de Siracusa, campanianos que se proclamavam como Mamertinos,
apoderaram-se da cidade siciliana de Messana e depois realizaram saques e razias nas
vizinhanças (c. 289 a. C. Diodoro, Bibl. Hist. 21,18; 22,7.4.13; Políbio, Hist. 1.7-8; cf.
Plutarco, Vida de Pirro. 23-24). Outro bando de veteranos mercenários, que também
que esteve ao serviço do tirano Agátocles e foi dispensado por Siracusa, fez uma
incursão em Bruttium, mas acabou interceptado pelos habitantes locais, que reuniram

93
Segundo A. Goldsworthy (The Punic Wars, Londres, 2000, pp. 44-45, 51-52), ao introduzir-se o soldo, a milícia
«hoplítica» romana começou a transformar-se num «exército de conscritos»; o autor sublinhou, judiciosamente, a
natureza impermanente dos exércitos romanos durante os séculos IV e III a. C.
94
T. G. Griffith, The Mercenaries of the Hellenistic World, p. 243.

41
uma grande força; esta tomou de assalto o reduto dos mercenários e aniquilaram-nos a
todos com dardos (c. 338 a. C. Diodoro, Bibl. Hist.16.82.1-2; cf. Plutarco, Tim. 30, 1-2).
Existiam ainda quadrilhas independentes de «predadores» que viviam da guerra e da
pilhagem, as quais representaram, ao que se julga, uma ameaça constante. Foi
precisamente um destes grupos, que operava a partir de grutas na Úmbria, o alvo de
uma expedição romana que teve lugar em 303 a. C. (Lívio, Ab Urb. cond. 10.1.4). De
acordo com alguns relatos, os Bruttii, que formaram uma espécie de confederação que
surgiu no século IV a. C., também terão sido, inicialmente, mercenários, salteadores e
antigios escravos. Se nos ativermos a Diodoro (Bibl. Hist. 16.15.1-2), os Bruttii
conseguiram subsistir graças às acções de rapina perpetradas contra os seus vizinhos; a
certa altura, porém, ganharam mais força, a tal ponto que sitiaram e conquistaram
Terina, Hipponium, Thuri e outras cidades, assim logrando criar a sua própria liga.
As iniciativas destes bandos armados mostram perfeitamente a ubiquidade dos
elementos predatórios e da violência em Itália neste período, bem como indicam quão
maleável era o estatuto dos guerreiros, homens que em certas ocasiões podiam ser
qualificados de bandoleiros, mas que noutras trabalhavam a soldo ou agiam
autonomamente, com o objectivo de criarem as suas próprias comunidades. Ao
designarem-se como Mamertinos (Mamertini, «filhos de Mamers», sendo Mamers o
equivalente em osco para o deus Marte), os referidos mercenários campanianos que se
apossaram de Messana, estavam a afirmar as suas origens culturais e étnicas, ao
mesmo tempo que desenvolviam um forte sentido de identidade grupal. Uma história
explica como estes indivíduos se entregavam a um ver sacrum («Primavera sagrada»;
Festo, 150L), que constituía um rito de expiação devido a uma catástrofe natural, após o
que se viam expulsos da sua comunidade, tendo que arranjar um novo modus vivendi
por meio da força das armas.
Havia muito que grupos similares de guerreiros eram uma componente típica do
fenómeno bélico na península itálica; observa-se outro aspecto característico – homens
que se dedicavam à prática de certos rituais, através dos quais criavam, entre si, laços
de identidade militar que punham em prática as noções de compromisso/obrigação e
de obediência, facto que continuou a persistir no século III a. C. Em 309, homens «que
se dedicaram à maneira samnita» ingressaram no exército de Papírio Cursor (Papirius
Cursor; Lívio, Ab Urb. cond. 9.40). De acordo com Lívio, esses guerreiros ficaram
estupefactos quando um comandante romano os ofereceu como sacrifício a Orcus (o
deus osco do mundo inferior), uma forma de que se destinava a eliminar o poder
mágico do seu anterior juramento.
Em 310 a. C., os Etruscos impuseram uma lex sacrata (juramento sagrado) a cada
indivíduo que foi seleccionado, o que aparentemente os fazia combater com mais

42
valentia no campo de batalha (Lívio, Ab Urb. cond. 9.39). Por seu lado, os Samnitas da
«Legião de Linho», em 293 a. C., comprometeram-se «a prestar um juramento terrível,
uma maldição sobre cada um deles e sobre as suas respectivas famílias […] caso não
seguissem os seus generais, se fugissem do campo de batalha ou não matassem alguém
que vissem a debandar» (ibidem, 10.38). Em Roma, como referimos, os soldados
também proferiam um juramento (sacramentum), declarando que obedeceriam, sem
falhas, às ordens dos seus generais. Desta forma, o cônsul ficava com o seu poder
reforçado, no tocante à coerção (coercitivo), dando-lhe o direito de castigar
sumariamente os cidadãos durante as campanhas, podendo aplicar mesmo a pena de
morte.
Nas fontes antigas, aparecem reiteradamente certos topoi: a disciplina pessoal e
colectiva e a subordinação de um indivíduo às necessidades do Estado romano. O
dictator Lúcio Papírio Cursor terá dito: «Tanto na guerra como na paz, submete-te à
autoridade legal» (Lívio, Ab Urb. cond. 8.35). Histórias que se pretendia que servissem
de exemplos, como a de Papírio Cursor, quando ordenou que o seu oficial subordinado
Fábio Ruliano fosse flagelado, por ter pelejado contra o inimigo sem permissão, ou da
decisão tomada pelo cônsul Mânlio Torquato (Manlius Torquatus), de mandar
executar o próprio filho, eram vistos como episódios particularmente severos e dignos
de nota95.
Além do sacramentum, os soldados romanos faziam outro juramento (coniuratio)
entre eles (ao qual também nos reportámos), no sentido de «não fugirem do campo de
batalha, nem de abandonarem as suas posições na linha de batalha» (Lívio, Ab Urb.
Cond. 22.38.2-5; Frontino, Strat. 4.14). Estes juramentos ajudavam, indiscutivelmente,
a fomentar a coesão e a identidade na guerra, mas, neste período, parece que caberia
aos soldados trocar estes votos entre eles. Terá sido só a partir de 216 a. C. que o Estado
se apropriou do último género de juramento, combinando-o com o sacramentum, na
qualidade de juramento de lealdade para com os comandantes.
Em meados do século IV a. C., cada cônsul comandava geralmente uma legião de
«cidadãos-soldados», complementada por contingentes de aliados. Em 311 a. C., o
número de legiões que participava regularmente em campanhas subiu, aparentemente,
para quatro. Nesse ano, conferiu-se formalmente ao povo o direito de eleger os tribunos
militares para cada uma das legiões, o que deixa entrever que a prerrogativa popular
apareceu juntamente com uma prática militar bastante recente (Lívio, Ab Urb. cond.
9.30.3). Doravante, cada exército consular consistia, em regra, em duas legiões de
cidadãos, totalizando 8 000 a 10 000 homens de infantaria e 600 de cavalaria, afora as
95
Sobre os bandos guerreiros na Itália arcaica, veja-se o artigo já citado de J. Rich, «Warfare and Army in Early Rome»,
pp. 15-16. Sobre Papírio e Fábio: Frontino, Estr. 4.1.39; Valério Máximo, 2.7.8; Tito Lívio, Ab Urb. Cond. 8.32. Sobre a
disciplina manliana: Lívio, Ab Urb. Cond. 8.7; Salústio, Cat. 52; Cícero, Fin. 1.7.23; idem, Off. 3.31.112; Valério Máximo,
2.7.6; Frontino, Estr. 4.140-141.

43
duas alae de aliados, que, provavelmente, conteriam idênticos efectivos de infantaria
(embora em certas situações talvez muitos mais) mas o triplo de soldados na cavalaria.
Os exércitos cada vez maiores parecem espelhar as aspirações pan-itálicas dos
Romanos e coincidem com o recrudescimento da beligerância, expresso no crescente
número de triunfos e de colónias desde então registados nas fontes. Tais forças iriam
pôr à prova os recursos da maior parte dos rivais de Roma e, no século III a. C., esta
conjuntura levou à formação de uma série de alianças pan-italianas anti-romanas.
Numa das maiores batalhas travadas entre povos itálicos neste período, em Sentinum
(295 a. C.), é possível que cada facção beligerante tenha participado com um efectivo
superior de 40 000 combatentes. As refregas entre os Romanos e as tropas de Pirro
envolveram igualmente efectivos muito elevados96.

II.4. Os socii

Quando cavalgava em direcção ao campo de batalha de Heracleia, Pirro ficou com a


nítida impressão de que estava a ser observado: não se tratava da sua guarda de corpo a
cavalo, que o acompanhava em cada um dos seus movimentos, nem membros do seu
exército poliglota de gregos e italianos; alguém, entre as forças romanas, se encontrava
a fitá-lo. Quando, por fim, os exércitos se defrontaram em renhida peleja, esse inimigo
em concreto e o seu pequeno grupo de companheiros abriram caminho através das
fileiras, até que o primeiro e Pirro se acharam, por instantes, face a face. No embate
inicial, o rei de Épiro perdeu o seu cavalo e conseguiu manter-se em segurança,
arranjando nova montada e deixando para trás o guerreiro antagonista desmontado,
que depressa pereceu esmagado, no meio da confusão e do tropel da cavalaria. Este
homem destemido não era romano: chamava-se Oblacus (ou Oplax) Volsinius e fora
líder dos Frentani, aliados dos Romanos, procedentes da costa adriática de Itália. É
possível que Pirro tenha evocado este episódio nas suas memórias, que não chegaram
até nós, mas que tanto Plutarco como Dionísio de Halicarnasso consultaram 97. Mesmo
supondo que esta história jamais tenha acontecido e signifique apenas um expediente
literário para dar mais vida ao relato da batalha, ela, ainda assim, mostra-nos uma
verdade fundamental: Roma apoiou-se efectivamente em aliados como os Frentani

96
A respeito da eleição dos tribunos militares em 311 a. C.: E. T. Salmon, Samnium and the Samnites, p. 232, n. 2; G. V.
Sumner, «The legion and the centuriate organization», JRS 60 (1970), pp. 70-71. Sobre a pan-italianização da guerra:
M. T. Burns, «The homogenisation of military equipment under the roman republic», « Romanisation»? Digressus
Supplement 1 (2003), pp.62-63. Acerca dos efectivos envolvidos em Sentinum, veja-se T. J. Cornell, «The Conquest of
Italy», p. 379.
97
Dionísio, Ant. rom. 19.12; Plutarco, Pyrrh. 16.8-10.

44
para travar as suas guerras, neles depositando forte confiança em razão da sua bravura
e empenho.
A visão que as fontes transmitem das operações militares romanas raramente se
afasta das acções empreendidas pelo exército dos cidadãos, mas salta à vista que o seu
êxito se escorou na organização e na integração dos socii, lutando juntamente com as
legiões. Era crucial que Roma tivesse capacidade para liderar estes aliados de uma
maneira eficaz, conseguindo absorver grupos étnica e militarmente diversos no seu
próprio sistema bélico. É muito provável que 50%, pelo menos, dos efectivos de
qualquer exército que Roma constituiu ao longo do período aqui em apreço se
compusesse de aliados, especialmente após o acordo de 338. Porém, nem todos os
aliados eram obrigados a fornecer contingentes regularmente; o teatro de operações em
que o exército fizesse a campanha determinaria, em regra, que aliados seriam
convocados a participar.
O peso sobre as comunidades, a nível individual, causado pelo recrutamento romano
foi, aparentemente, limitado, baseando-se o arrolamento nos dados contidos numa lista
guardada em Roma, conhecida como formula togatorum98. Estas tropas eram
financiadas e mantidas pelas respectivas comunidades quando se encontravam em
campanha (Políbio, Hist. 6.21), o que conduzia a que a guerra resultasse uma actividade
menos onerosa para os Romanos.
Não sobreviveram relatos coevos que nos esclareçam como os contingentes de socii
estavam armados ou combatiam neste período. Como dissemos, as fontes raramente
aludem à presença dos socii, não se dando ao trabalho de relatar detalhes acerca dos
seus actos; na realidade, parece que os imaginariam como tropas «romanas» em quase
todos os sentidos. Quando os Romanos e os Latinos lutaram entre si em 340 a. C., Tito
Lívio realça o facto de que os seus equipamentos e tácticas de combate praticamente
não se distinguiam (Ab Urb. cond. 8.8.15):
«Eles sabiam que um manípulo iria combater outro manípulo, que toda a linha dos hastati
defrontaria outros hastati, os principes contra principes, ao passo que os centuriões lutariam
entre si, enquanto as fileiras se mantinham intactas».
No entanto, o relato de Lívio é provavelmente anacrónico, reflectindo, acima de tudo,
a homogeneidade observável nos exércitos dentro do contexto mais tardio da «Guerra
Social», em que Roma porfiou contra os seus aliados no século I a. C. Com efeito, no
período em questão, as coisas não se passariam desta maneira. Sabemos que os
contingentes de aliados estavam sob o comando dos seus próprios oficiais (Políbio,
Hist. 1.7; 6,21), haja em vista o caso de Volsinius dos Frentani. Ademais, é de presumir
que as tropas lutassem com um equipamento que traduzisse as suas expectativas
marciais e os seus estilos de combate característicos.
98
Sobre a formula togatorum: A. Toynbee, Hannibal’s Legacy, pp. 424-427; P. A. Brunt, Italian Manpower 225 BC to
AD 14, Oxford, 1971, pp. 545-548.

45
Quando Roma absorveu os povos de Itália, não se sabe com que rapidez estes
sofreram influências dos métodos militares romanos ou, no sentido inverso, até que
ponto os Romanos adoptaram alguns elementos típicos seus socii. O tamanho dos
contingentes aliados e a sua organização interna variaram muito, o que se devia às
próprias diferenças das próprias dimensões dos estados aliados e à aplicação da
formula togatorum: algumas unidades podem ter sido reunidas mediante uma
combinação de elementos de diversas pequenas comunidades. Nas fontes, detecta-se
uma tendência para chamar aos contingentes de infantaria cohortes, mas, por esta
altura, estas unidades careciam da estrutura mais formal que, mais tarde, no século I a.
C., a coorte legionária viria a possuir (assunto que abordamos no próximo capítulo).
No século III a. C., estas «coortes» de tropas aliadas posicionavam-se nas alas ( alae)
do exército, estando sob o comando global de oficiais romanos, os praefecti sociorum
(Políbio, Hist. 6.26.5), que ajudavam a impor mais ordem e um controlo centralizado
sobre tais forças multi-étnicas. Nos flancos, a cavalaria aliada, dividida em turmae
(contendo cada uma 30 homens), desempenhava um papel importante, fornecendo
cerca de ¾ dos soldados montados do exército, protegendo os flancos durante as
contendas. É muito possível que os Romanos convocassem aliados com recursos
apropriados e perícia nesta arma, como os Campanianos (Lívio, Ab Urb. cond. 10.29)
ou determinadas elites locais, haja em vista o caso de Volsinius e do seu grupo, para
assim formarem o grosso da cavalaria. Entre as tropas aliadas, as julgadas mais
combativas ou que dispusessem de melhor equipamento, eram escolhidas para
actuarem na qualidade de extraordinarii no desenrolar das campanhas, encontrando-
se elas à cabeça do exército em marcha e, aquando das batalhas, talvez lutassem de em
separado, de forma mais ou menos autónoma. A primeira referência que captamos
sobre estes contingentes relaciona-se com os Hernici, que podem ter facultado o
modelo depois utilizado pelos Romanos.
Aparentemente, os Romanos depositavam confiança nos seus aliados, ao ponto de,
em várias ocasiões, os incumbirem da defesa de cidades e de praças-fortes. Porém, num
episódio ocorrido em 280 a. C., uma guarnição de campanianos liderada por um tal
Decius amotinou-se e adonou-se da cidade de Rhegium, ao longo de quase dez anos.
Por fim, estes campanianos foram capturados e trazidos até ao Forum de Roma, onde
os decapitaram. Este castigo radical e exemplar não só indica a preocupação que os
Romanos tinham enquanto protectores dos aliados, mas revela, igualmente, da forma
mais extrema, quais seriam as funestas consequências para os que se manifestassem
desleais99.

99
Lívio, Ab Urb. cond. 28.28.3; IDEM, Per. 12.15; Valério Máximo, 2.7.15; Políbio, Hist. 1.7.6-13; Orósio, 4.3.3-5. Sobre
os castigos aplicados sobre aliados, observe-se o caso do tratamento dispensado a Frusino, em 303 a. C., suspeito de
haver incitado os Hernici a rebelar-se: Lívio, Ab Urb. Cond. 10.1.3.

46
Naturalmente, Roma não foi o único estado a servir-se de alianças em guerra. Quando
os Privernates e os Fundani se aliaram, nos anos 30 do século IV, o comando geral foi
exercido por Valerius Vaccus de Fundi (Lívio, Ab Urb. cond. 8.19). No caso da «Liga
Samnita», quando as quatro tribos participavam numa operação bélica concertada, elas
escolhiam um comandante-chefe (meddix touticus) para as conduzir (ibidem, 9.1.2;
10.12.2; 24.19.2). Esta liga conheceu uma existência relativamente formal e teve
instituições federais duradouras, mas outras uniões idênticas não se mostraram tão
estreitamente integradas.
Entre aliados que eram estrangeiros, como sucedeu com os membros das grandes
alianças pan-itálicas que se estabeleceram contra o Commonwealth romano, em
princípios do século III a. C., o comando era partilhado por vários líderes, e os aliados
lutavam na ordem de batalha, organizados em contingentes separados (ibidem,10.27).
Tal divisão e a falta de familiaridade tornavam inevitavelmente a cooperação e a
confiança mútua dificilmente materializáveis, daí ocorrerem, amiúde, dissenções
(ibidem,10.10; Políbio, Hist. 2.18; 2.19).

II.5. A mutação do «rosto da batalha»

«[…] os Etruscos, que combatiam em falanges com escudos redondos de bronze, compeliram-
nos [aos Romanos] a adoptar armas idênticas e, consequentemente, foram derrotados. Então,
quando outros povos utilizavam escudos como os que os Romanos agora empregam, e lutavam
em manípulos, eles imitaram os dois, vencendo, portanto, os que deram origem a modelos tão
bons» (Diodoro, Bibl. Hist. 23.2.1).

As mutações na tecnologia militar, quando comentadas pelas fontes literárias


antigas, são frequentemente perspectivadas em termos de assimilação, por parte dos
Romanos, dos equipamentos dos inimigos, a fim de assim os derrotar. Embora este
facto possa transmitir a ideia de uma genuína abertura romana face às inovações
bélicas, no período em foco este fenómeno vê-se obscurecido por um processo bastante
mais complexo, feito de interacção e intercâmbio em termos culturais e militares,
presente em toda a Itália e ao longo da bacia mediterrânica.
Descortinamos este processo em testemunhos materiais e, não obstante os achados
arqueológicos relativos ao equipamento militar de Roma e do Lácio serem escassos,
conservaram-se, apesar de tudo, representações de guerreiros em pinturas parietais
tumulares na Etrúria, na Campânia e na Lucânia, bem como muitas cenas figuradas em
peças de cerâmica pintada do Sul de Itália. Ao conjugarmos tais fontes iconográficas
com armas e armaduras descobertas na península itálica, é possível captar uma visão
de conjunto sugestiva, ainda que incompleta e fragmentária.

47
As peças mais comuns do equipamento militar no século IV a. C. consistiram nos
elementos essenciais da panóplia hoplítica: o grande escudo circular e plano (clipeus,
na sua versão itálica), a lança e o elmo. Nas fontes icónicas, os últimos aparecem
esporadicamente acompanhados por grevas e protecções para o tronco, geralmente
couraças de linho ou metal (linothorax e kardiophilax). Apesar de detectarmos
numerosas variantes regionais nos cascos100 («Apulo-Coríntio», «Negau», «Italo-
Calcidiano», «Etrusco-Trácio», «Italo-Pilos», Samno-Ático» e «Montefortino» 101), o
modelo tipológico «Montefortino» acabou por predominar na península itálica. Quanto
às armaduras, muitos protótipos e variantes conheceram ampla difusão, o que sugere
uma ambiência marcada por trocas culturais e militares. Com efeito, a maioria dos
guerreiros «samnitas» nos afrescos tumulares surge com o equipamento hoplítico, em
maior ou menor grau, consoante os casos.
Este género de panóplia adaptava-se consoante as situações e as preferências locais:
por exemplo, embora a arma básica de muitos infantes em Itália fosse, neste período, a
lança, observa-se que desta havia uma enorme diversidade tipológica; os arqueólogos
descobriram desde grandes lâminas, provavelmente concebidas para assestar estocadas
e cutiladas, até pequenas pontas ligeiras empregues para a confecção de dardos. De
permeio, havia outros géneros apropriados para o arremesso ou para assestar golpes
penetrantes. Também não são incomuns representações pictóricas de guerreiros com
panóplia hoplítica, mas providos de múltiplas lanças, como se assinala nos afrescos
tumulares lucanianos ou na cerâmica produzida no Sul de Itália.
Mesmo os soldados pertencentes à «infantaria pesada» não eram avessos a combates
que envolvessem o lançamento de projectéis. Durante os séculos IV e III a. C., surgem
indícios de que se terão levado a cabo várias experiências bastante assistemáticas com
aquilo que podemos designar de proto-pila, ou seja, lanças com uma «cabeça» estreita
e uma longa haste de ferro, destinadas especificamente para o arremesso. O pilum
constituiu a arma primeira dos infantes romanos no século III a. C., mas subsistem
dúvidas quanto às suas origens e à data da sua introdução (assunto que exploramos
mais adiante). Não obstante, é provável que alguns romanos já estivessem a ensaiar o
uso do pilum, defendendo diversos estudiosos que talvez tenham começado a empregá-
lo mais tarde, depois de combaterem com os mercenários hispanos e celtiberos ao
100
Em latim, a palavra mais comum para elmo é galea, embora também se empregue o termo cassis.
101
O elmo «Montefortino» disseminou-se, aparentemente, a partir da região do Vale do Pó, onde terá aparecido em
finais do século V a. C., para sul. Na viragem do século V para o IV, cascos deste género foram utilizados pelos guerreiros
da Itália Central: descobriram-se espécimes em Perugia, num túmulo etrusco de Orvieto e em Cerveterii, no Lácio. Por
volta do final do século III, este modelo espalhou-se por toda a península itálica, passando então a constituir, no
entender de J. M. Paddock, na protecção básica dos legionários romanos: cf. The Bronze Italian Helmet: The
Development of the Cassis from the last quarter of the sixth century B.C. to the third quarter of the first century A.D.,
tese para a obtenção do grau académico de PhD, University of London, vol. 2, Londres, 1993, pp. 482-483; consulte-se
ainda J. Tomczak, «Roman Military Equipment in the 4th Century BC», p.55. No entanto, em muitas obras recentes,
simplifica-se todo este caleidoscópio tipológico dos elmos, resumindo-o, basicamente à existência dos cascos do género
«Ático», «Etrusco-Coríntio» e «Montefortino»: cf. A. K. Goldsworthy, The Complete Roman Army, Londres, 2003, p.
29, N. Fields, Roman Republican Legionary 298-105 BC, Oxford, 2012, pp. 27-30.

48
serviço dos Cartagineses, em meados do século III a. C., que se serviam de lanças com
«pescoço» de ferro (assunto que exploraremos no capítulo seguinte). Todavia,
sublinhemos que a introdução do pilum foi uma inovação de natureza mais tecnológica
do que táctica; no decurso do século IV, os Romanos talvez já usassem dardos
arrojadiços em combate, mas apenas episodicamente102.
Diodoro dá a entender que a principal mudança que ocorreu no equipamento romano
radicou na adopção do escudo oblongo rectangular (com os cantos arredondados), o
scutum. No século IV, o último, que tinha uma nervura central de ferro (spina), gozou
de popularidade entre os Gauleses do Norte de Itália e noutros povos. O scutum
aparece em diversas pinturas tumulares e em cenas decorativas de vasos da Itália
meridional; nestas imagens, ele perfila-se como uma alternativa ao escudo circular que
surge em cenas descrevendo típicos hóplitas. Contrastando com este corpus icónico,
certos escritores antigos associaram o scutum às alterações tácticas: segundo Diodoro
(Bibl. Hist. 23.2), assim como o scutum substituiu o clipeus, a formação manipular
substituiu a falange. As fontes literárias mostram-se discordantes quanto ao momento
histórico concreto em que os Romanos introduziram tais mudanças, embora a maioria
dos escritores antigos as situem no século IV a. C. As mutações foram, ao que tudo
indica, bastante graduais, o que se vê ilustrado pelo facto de que, no próprio seio do
exército romano, os triarii, em pleno século III a. C., ainda actuariam de uma maneira
semelhante à da falange hoplítica.
Mas apesar de se assistir a uma certa lentidão na adopção das mudanças, estas
apontam para tendências mais abrangentes assinaláveis no fenómeno bélico durante
este período. Nos últimos tempos do século IV a. C., os hóplitas começaram a perder
preponderância nos conflitos travados no Mediterrâneo. Paralelamente, o escudo oval
(thyreus) encetou a sua aparição na Grécia, enquanto os exércitos helenísticos
incluiram um número cada vez maior de unidades de infantaria «especializada»,
exercendo distintas funções militares. Na Beócia do século III a. C., criaram-se
designações para grupos de infantes-cidadãos: thyreaphoroi/«portadores de escudos
ovais», os peltophoroi/«portadores do escudo pelta», epilektoi/«escolhidos» e
agema/« conduzidos». O gradual afastamento romano do sistema da falange hoplítica
viu-se também acompanhado pela emergência de diferentes termos para classificar os
vários elementos da sua infantaria103.
102
Sobre a panóplia «hoplítica»: H. Van Wees, Greek Warfare: Myth and Realities. Elmos, couraças e intercâmbios
militares: M. T. Burns, «The homogenisation of militar equipment under the Roman Republic», pp. 68-73, mapas 1-5.
Sobre as lanças e os dardos: A. Small, «The use of javelins in central and south Italy in the fourth century BC», in D.
Ridgeway et al. (eds.), Ancient Italy in its Mediterranean Setting. Studies in Honour of Ellen McNamara, Londres,
2000, pp. 221-234. Para a visualização dos afrescos tumulares de Poseidónia/Paestum, consulte-se A. Pontrandolfo e A.
Rouveret, Le tombe dipinte di Paestum, Modena, 1992.
103
Para a data da presumível aparição do scutum: Tito Lívio, Ab Urb. cond. 8.8.3 (406 a. C.); Diodoro, Ant. rom.14.16.5;
Plutarco, Cam. 40.4 (367 a. C.). Noutras fontes antigas, situa-se a introdução dos scuta (bem como dos dardos de
arremesso e dos próprios manípulos) no contexto das Guerras Samnitas: Ineditum Vaticanum 3, von Arnim, p. 12;
Salústio, Cat. 51.37-38; Ateneu, 6.273ss. Diodoro (Ant. rom. 3.2.1) revela-se vago nos seus dados. Sobre os «hóplitas»

49
II.5.1 Manípulos e linhas de batalha

Pode-se dizer que a originalidade do exército romano emergiu quando este adoptou
uma organização militar que permitia uma maior articulação da milícia cívica no
campo de batalha do que antes sucedera. Fundamental nesta organização se revelou a
criação dos manípulos (manipulus, «mão-cheia», «punhado»), que consistiam em
pequenas unidades, compreendendo cada uma cerca de 120 homens, dispondo-se em
formação, com intervalos a separá-las umas das outras (Lívio, Ab Urb. cond. 8.8.5). Os
manípulos eram comandados por dois oficiais (centuriões/centuriones) e igual número
de adjuntos (optiones; Políbio, Hist. 6.24.1-2).Os manípulos conferiram à linha de
batalha superior resiliência104, mas não formações com maior tamanho e supostamente
mais sólidas. Plutarco (Philop. 9.1-2) escreveu que, no século III a. C., os Aqueus que
utilizavam o thyreos e lanças leves revelavam eficácia no combate à distância; no
entanto, como eles se posicionavam numa falange, e não em manípulos, recuavam
facilmente e acabavam por se dispersar quando se produzia o choque com o inimigo.
Tito Lívio, por seu lado (Ab Urb. cond. 9.32) referiu que os Etruscos, na batalha de
Sutrium (311 a. C.), ao concentrarem-se numa massa compacta, ficaram exaustos ao
lutar contra a linha da vanguarda romana, sendo derrotados quando a segunda linha
entrou em acção. Um dos aspectos mais vantajosos dos manípulos relacionava-se com o
facto de facilitarem o emprego de reservas (ibidem, 8.8.9-14; 9.32; 10.14), embora haja
dificuldades em perceber como se procederia a tal canalização de reforços ou que
métodos se adoptavam para a substituição das linhas (aspectos para os quais
tentaremos apresentar soluções explicativas mais adiante) 105.
Nas narrativas antigas, a legião manipular surge quase sempre a operar em linhas
múltiplas (acies), mas não sabemos exactamente quando se adoptou esta subdivisão da
antiga formação de batalha republicana, nem quantas linhas originariamente seriam.
No entanto, como referimos, é possível que esta inovação tenha surgido, ainda numa
fase embrionária, por volta dos anos 390-360 a. C. 106, em consequência dos embates
com escudos redondos e ovais, consulte-se G. Schneider-Hermann, The Samnites of the Fourth Century BC as Depicted
on Campanian Vases and in Other Sources, Londres, 1996, est. 68 e 105. Quanto à atestação de outros géneros de
escudos na península itálica: P. Stary, «Foreign elements in Etruscan arms and armour: 8th-3rd centuries BC»,
Proceedings of the Prehistoric Society 45 (1979), pp. 53-62.
104
A articulação em pequenas unidades, treinadas a combater em conjunto ou separadamente, garantia uma maior
mobilidade e uma melhor adaptação a diferentes terrenos.
105
P. Sabin, «The face of the Roman Battle», JRS 90 (2000), pp. 1-17; A. Goldsworthy, The Punic Wars, pp. 53-62.
106
Lívio situou a aparição do manípulo no fim do século V ou em princípios do IV, mas já o Ineditum Vaticanum refere
que foi adoptado perto de 75 anos depois; cada uma destas fontes possui os seus defensores modernos: T. J. Cornell
seguiu basicamente o relato liviano (The Beginnings of Rome, p. 187, 313; embora, paradoxalmente, na p. 354, o autor

50
contra os Gauleses, aperfeiçoando-se e simplificando-se durante os conflitos que Roma
manteve contra o mais temível dos povos chamados sabelianos, os Samnitas (alguns
defendem que o manipulus surgiu em data ainda mais recuada, no século V a. C., o que
nos parece um pouco exagerado107). A mudança pode ter ocorrido quando Marco Fúrio
Camilo efectuou várias reformas no armamento e nos dispositivos organizativos do
exército romano, durante a sua quinta ditadura, em 367 a. C., se nos ativermos a
Plutarco108; porém, de acordo com outras fontes, o manípulo apareceu mais tarde, no
início do século III a. C109.
A visão que os autores antigos oferecem sobre esta mutação é muito confusa. Todavia,
as opiniões divergentes quanto à data da introdução do manípulo não significam
necessariamente que os Romanos desconhecessem quando é que as legiões começaram
a lutar com base nesta unidade táctica; na realidade, as fontes mostram, acima de tudo,
que houve uma série de desenvolvimentos que poderiam identificar-se como pontos de
transição. Por outras palavras, a passagem das centúrias para os manípulos não foi
simples nem rápida, visto que englobou diversas etapas que progressivamente
converteram o exército de Roma do século VI a. C. na temível força que Políbio
descreveu quatrocentos anos depois110. Esta transformação terá sido especialmente
complexa: num dado momento, reuniram-se duas centúrias independentes para
formarem um manípulo; esta alteração, inicialmente, até pode ter sido temporária, já
que cada centúria no manípulo conservou o seu centurião e, talvez, o respectivo
estandarte111. Seja como for, deve perspectivar-se a criação dos manípulos como um
facto distinto da decisão de dispor os mesmos ou as centúrias em três linhas, que se
terá seguido (ou ainda coexistido) ao costume de organizar o exército em quatro
linhas112.
Pierre Cosme afirmou que o combate hoplítico se revelava especialmente inadaptado a
um adversário, como o Samnita, que evitava lutar em batalhas campais, onde o poder
da falange seria eventualmente decisivo. Além disso, o mesmo autor refere que Roma

date a reforma de cerca de 311 a. C.); G. Forsythe (A Critical History of Early Rome, pp. 304-306) sugeriu que o
manípulo terá sido introduzido em finais do século IV, o que nos parece mais verosímil.
107
Como Ross Cowan, que faz remontar a adopção do manipulus ao século V a. C., uma subunidade que não combateria
numa linha de batalha contínua; além disse, considera que a formação em triplex acies foi introduzida a seguir à derrota
junto ao Allia (cf. «Enemies of Rome: Etruscans, Gauls and the Samnites», Ancient Warfare MI/265 (2010), p. 20.
Embora reconhecendo que se trata de uma hipótese alternativa, preferimos neste ponto seguir mais a corrente mais
tradicional.
108
Plutarco, Vida de Camilo, 40.3-4; Dionísio de Halicarnasso, Ant. Rom. 14.9-10. Cf. E. T. Salmon, Samnium and the
Samnites, p. 107; contra E. Rawson, «Literary Sources for the pre-Marian Army», Papers of the British School at Rome,
39 (1971), p. 27.
109
Para começos do século III a. C.: E. Rawson, «Literary Sources for the pre-Marian Army», p. 26; S. P. Oakley, A
Commentary on Livy, II, pp. 454-456.
110
J. Rich, «Warfare in Early Rome», p. 6.
111
Sobre os estandartes: Políbio, Hist. 6.24.6. No entanto, Frank W. Walbank (A Historical Commentary on Polybius, I,
Oxford, 1957, p. 707) sugeriu que o segundo signifer seria escolhido meramente como substituto, no caso de algo de mal
acontecer ao primeiro, baseando-se em Varrão (De Ling. Lat. 5.88)
112
N. Rosenstein, «Phalanges in Rome?», p. 300. Cf. Apiano, Hisp. 1.1, para uma disposição em quadruplex acies, num
episódio ocorrido em 358 a. C.

51
se viu confrontada com incursões de bandos rapinantes cujo principal objectivo não
radicava em assumir o controlo duradouro de um território, mas antes o de arrebatar a
maior quantidade possível de despojos. Assim, os Romanos necessitariam de barrar
este inimigo vindo das montanhas, antes que alcançasse as planícies. Não bastava
aumentar os efectivos, pois que também era preciso conceber novas formas de
combate, cuja necessidade se fez sentir com particular acuidade depois da derrota
romana face aos Gauleses no Allia, em 18 de Julho de 390 a. C113. Não consideramos as
asserções deste historiador inteiramente plausíveis. Eis as razões: em primeiro lugar,
subsistem incertezas que os Romanos tenham efectivamente combatido segundo o
esquema da falange, na sua acepção mais estrita: quando muito, durante algum tempo,
talvez lutassem integrados num género de formação relativamente compacta, mas mais
fluída e aberta que a do modelo helénico; em segundo lugar, a adopção do sistema
manipular não foi imposta pela maneira de guerrear dos Samnitas, antes resultou da
necessidade de uma acrescida mobilidade e maior flexibilidade dos exércitos romanos
no contexto expansionista da conquista da Itália.
Além disso, estranhamente, ainda prevalece na historiografia moderna uma visão
preconcebida e superficial a respeito da belicosidade deste conjunto de quatro tribos
(Pentri, Caudini, Caraceni e Hirpini) que habitavam na parte meridional dos
Apeninos. Tal imagem destorcida procede da antiga tradição literária romana, cujos
historiadores, embaraçados com a magnitude da derrota infligida pelos Samnitas nas
Forcas Caudinas (321 a. C.), terão deformado deliberadamente os factos e
transformaram o que originariamente foi uma batalha campal numa emboscada tendo
como cenário um desfiladeiro: o sítio onde se travou a refrega corresponde, em
princípio, ao actual vale de Forchia, um espaço amplo e desimpedido. O próprio Cícero
admitiu que o «general» samnita Gravius Pontius derrotou as legiões num prélio
convencional, obrigando-as a claudicar. Neste sentido a maneira de guerrear dos
Samnitas assumia uma atitude muito mais ofensiva do que habitualmente se costuma
pensar.
Durante as Três Guerras Samnitas (343-341, 326-304, 298-290 a. C.), os Romanos
terão aprimorado o sistema manipular 114, subdividindo os manípulos em duas centúrias
113
L’armée romaine, p. 14.
114
Segundo W. Doberstein, o sistema manipular foi adoptado pelos Romanos com base nos modelos de agrupamento
tácticos empregues pelos Samnitas em combate: cf. The Samnite Legacy, pp. 37-82 («Chapter 2: The Samnite influences
on the Roman military: the adoption of the Maniple, Scutum, and manipular tactics»). Para o autor, «By the end of the
Samnite Wars, the Roman army shifted away from the Greek phalanx and its armaments, in favour of the missile
combat of the Samnites» (ibidem, pp. 114-115). Os argumentos são frágeis e carecem de provas concretas, assim como
relativamente ao scutum, elemento que os Romanos se teriam apropriado a partir das práticas bélicas samnitas. O que
nos parece digno de nota é que os Samnitas possuíam métodos de combate bastante semelhantes aos dos Romanos,
provavelmente compartilhados por outros povos itálicos.No Quanto ao pilum, é provável que os Samnitas tenham
influenciado os Romanos: veja-se R. Cowan, «The Samnite Pilum: Evidence for Roman boasts», Ancient Warfare VI.4
(2012), pp. 39-42. De facto, os próprios Romanos gabavam-se de que haviam adoptado o pilum dos Samnitas e que
depois os venceram (Ineditum Vaticanum, 3; Salústio, Catilina, 51.38). Porém, certos académicos, como Elizabeth
Rawson, rejeitaram esta possibilidade (cf. Roman Culture and Society: Collected Papers, Oxford, 1991): «Nada que se
assemelhe a um pilum sobreviveu, aparentemente, em túmulos samnitas» (ibidem, p. 594); na realidade, encontraram-

52
de 60 homens (ou, num primeiro momento, 30). M. Humm, na sua monografia sobre
Appius Claudius Caecus advertiu para a existência de uma relação directa entre as
crescentes necessidades da Cidade em efectivos e a adopção da organização manipular;
no entanto este autor defende que a última teve lugar por volta de 312 a. C. 115.
Porém, é difícil extrair informes objectivos das fontes literárias, na medida em que
encerram menções a dois géneros básicos de formações (pelo menos), possivelmente
contrastantes: uma consistia numa divisão bipartida (talvez remontando a tempos mais
recuados) entre os pilani (que podemos designar como «colunistas»), que ficavam
atrás dos estandartes (signa), e os antepilani (ou antesignani), que se desdobravam à
frente dos últimos. Mas no tempo de Políbio, os antesignani repartir-se-iam, por sua
vez, em duas linhas: a primeira compunha-se de hastati/«portadores da hasta», e a
segunda de principes («os principais», talvez os melhores combatentes), enquanto os
pilani se tornaram mais correntemente conhecidos como os triarii («os da terceira
linha»; Varrão, De Ling. Lat. 5.89; Ovídio, Fasti, 3.129).
Segundo Políbio, a legião encontrava-se organizada numa linha tripla (triplex acies),
contendo 1 200 hastati, 1200 principes e 600 triarii (Hist. 6.21.9), cada linha
dividindo-se em 10 manípulos (ibidem, 6.24.3). Esta distribuição é a que os estudiosos
modernos mais amplamente aceitaram, não dando grande crédito à asserção de Tito
Lívio (Ab Urb. cond. 8.8.5.7-8), segundo a qual existiriam 30 manípulos de antepilani,
15 de hastati e de principes, assim como 15 unidades (ordines) de pilani, constituídas
por triarii, accensi e rorarii, sobretudo porque tudo isto formaria uma legião
totalizando mais de 8 000 homens, contradizendo o número que o próprio Tito Lívio
regista noutro trecho da sua obra – 5000 (Ab Urb. cond. 8.8.14).
Em combate, os hastati enfrentavam, na primeira linha, o inimigo e eram reforçados
pelos principes, ao passo que os triarii funcionavam como reserva, os quais até podiam
ficar sentados ou ajoelhados (Lívio, Ab Urb. cond. 8.8). Os últimos geralmente só
pelejavam caso a batalha estivesse a demonstrar-se difícil ou a correr mesmo mal para
as armas romanas, o que deu origem à frase «chegou até aos triarii», reportando-se a
qualquer situação grave (ibidem,8.8); mas, afora tais momentos críticos ou mais
periclitantes, os triarii raramente eram chamados a intervir, como queda sugerido
numa passagem de uma comédia de Plauto: «Vinde agora, sentai-vos todos na
periferia, tal como os triarii (Frivolaria, par. 5 Ritschl = Varrão, De Ling. Lat. 5.8)116.
se vários exemplares de pontas de dardos em necrópoles do Samnium que parecem confirmar as referências contidas
nas antigas fontes literárias.
115
Appius Claudius Caecus. La République accomplie, pp. 268-344, 375-397. Segundo M. Humm, Claudius Caecus, no
âmbito das suas reformas institucionais, teria estabelecido nesta altura a quarta e a quinta classes censitárias, a fim de
recrudescer o número de cidadãos inscritos nos comitia centuriata, os quais se tornavam susceptíveis de servirem no
exército.
116
Pilani: o termo «colunistas» é preferível ao etimologicamente mais duvidoso «homem-pila»: cf. F. W. Walbank, A
Historical Commentary on Polybius, vol. 1, p. 702 (contra a definição oferecida por Varrão, 5.89). Sobre o
desenvolvimento das linhas múltiplas, vejam-se, por exemplo: A. Toynbee, Hannibal’s Legacy: The Hannibalic War’s
Effects on Roman life, I, pp. 514-518; E. Rawson, «The Literary Sources for the pre-Marian army», PBSR, 39 (1971), p.

53
Mas, à frente destas linhas, havia um substancial número de tropas a actuar, embora
elas amiúde sejam ignoradas ou omitidas nos antigos relatos de batalhas. Mas, numa
análise atenta, verifica-se que na descrição polibiana do exército romano, os soldados
com armamento ligeiro ascendiam a mais de ¼ dos efectivos em cada legião (1 200
homens num total de 4 200). Políbio rotulou estes elementos como grosphomachoi
(«combatentes com dardos»), mas a terminologia em latim parece haver sido bastante
mais fluída, o que até gerou certa confusão nas nossas fontes: na sua descrição do
exército romano de 340 a. C., Lívio (Ab Urb. cond. 8.8.5) empregou o étimo leves
(«leves») para se referir aos contingentes de combatentes munidos de dardos e lanças
adstritos aos manípulos dos hastati. Porém, isto pode ter levado o autor a confundir
outros dois grupos que ele julgou estarem também presentes, os accensi e os rorarii
(8.8.8).
Apesar de Lívio os imaginar como uma espécie de triarii de inferior qualidade, tal é a
maneira pela qual ele os apresenta na sua récita da batalha de Veseris, em 340 a. C.
(ibidem, 8.9.14; 8.10.2-4)117, provavelmente, o autor (ou a fonte em que se baseou) deve
ter compreendido mal o papel desempenhado por tais tropas. Segundo outras fontes, os
accensi («servidores,«empregados»; Catão em Varrão, De Ling. Lat. 7.58) exerceriam
as funções de mensageiros e ordenanças, ainda que se afigure também possível que,
inicialmente, fossem serviçais dos «hóplitas», similares aos que transportavam o
equipamento dos infantes gregos em campanha, e que talvez interviessem como
infantaria ligeira nos prélios. Cabe levar em linha de conta esta prática, numa menção
que se faz aos mesmos numa batalha travada em 340 a. C., isto se presumirmos que os
Romanos ainda combatessem numa formação de matriz hoplítica.
A associação que Lívio fez entre accensi e rorarii, 118 embora reflicta confusão quanto
aos papéis desempenhados por uns e outros no campo de batalha, encontra-se também
numa passagem da referida comédia Frivolaria, de Plauto (que data de começos do
século II a. C.; frag. 4, Ritschl. = Varrão, L. L., 7.58): «Onde estais, rorarii? Estão aqui.
Onde se encontram os accensi? Vede…». Noutras fontes, os últimos são identificados
com os rorarii e, ainda, com outro termo, ferentarii, homens que participavam em
escaramuças, caracterizando-se sobretudo por lançarem dardos (Paulus, Epit. Fest. 13).
Esporadicamente, os rorarii surgem como os homens que começavam uma batalha,
«como um aguaceiro antes de uma forte bátega» (Varrão, De Ling. Lat. 7.58; cf.

24; S. P. Oakley, A Commentary on Livy Books VIII-X, Volume II, Books VII-VIII, Oxford, 1998, pp. 455-457.
117
Para o investigador polaco Juliusz Tomczak, os accensi pertenceriam à infantaria pesada, já que de outro modo
dificilmente se compreenderia como poderiam eles ser confundidos com os triarii pelos Latinos, que estavam
familiarizados com o dispositivo de combate romano: cf. «Roman Military Equipment in the 4th Century BC»: Pilum,
Scutum and the Introduction of Manipular Tactics», pp. 49-50. Seja como for, continuamos a ter dúvidas quanto à
exacta natureza e função dos accensi no campo de batalha.
118
P. Cosme (L’armée romaine, p. 14), relativamente aos accensi e aos rorarii, opinou: «Não se pode identificar com
absoluta certeza as duas últimas categorias de soldados, que talvez procedessem da quarta e da quinta classes
censitárias».

54
Paulus, Epit. Fest., 323). No século II a. C., ainda se empregava o vocábulo rorarii, se
bem que a partir deste momento ele já estivesse a ceder lugar a uma nova designação
para a infantaria ligeira, velites.
As tropas com armamento ligeiro correspondiam, como se disse, aos cidadãos que não
tinham posses para adquirir o dispendioso equipamento dos hóplitas, aspecto que se
constata na descrição de Lívio das classes servianas (Ab Urb. cond. 1.43; Dionísio, Ant.
romanas, 4.16-18). Conquanto o exército manipular tenha passado a ficar estruturado a
nível etário, Políbio (Hist. 6.21.7) observou que os Romanos com menos posses se
mantinham providos de armamento ligeiro. Eles jamais terão conhecido oportunidades
de progredirem, ao contrário dos seus concidadãos com mais posses, que ingressavam
nos hastati, principes e, finalmente, nos triarii119.
No extremo oposto da escala social, os cavaleiros (equites) romanos procediam da
elite: eram indivíduos que dispunham de posses e tempo para adquirirem talento no
hipismo e aprenderem a combater a cavalo. A julgarmos pelo desaire romano nas
Forcas Caudinas (e mais tarde na batalha do Lago Trasimeno, em 217 a. C.), estes
aristocratas não mostraram ser dignos de confiança para efectuar missões de
reconhecimento ao longo da linha de marcha do exército. Em cada legião, arrolavam-se
300 cidadãos para a cavalaria, repartidos em 10 turmae, mas o seu papel no campo de
batalha não é fácil de discernir: os que foram representados numa pintura do templo de
Esculápio entenderam-se como ferentarii (Varrão, De L. lat. 7.57), palavra, como
vimos, principalmente aplicável a soldados que se dedicavam a provocar escaramuças.
No entanto, segundo Lívio, os equites atacavam ocasionalmente o inimigo nos seus
flancos ou na retaguarda (Ab Urb. cond. 8.39, 9.35, 9.40, 10.29), noutras investiam
frontalmente (Ibidem, 8.30, 10.14,36) e, por vezes, também desmontavam para lutar
apeados (ibidem, 9.22,39). Geralmente, as suas acometidas pareciam surtir um efeito
desproporcionadamente heroico e decisivo (ibidem, 8.30, 39; 9.22, 27, 39; 10.28), mas
importa assimilar estes dados com precaução, já que Políbio deixa extravasar
frequentemente uma parcialidade aristocrática; seja como for, o mesmo autor relata
um caso, em Tifanum (297 a. C.), em que a carga frontal dos cavaleiros romanos parece
ter fracassado, batendo todos em retirada do campo de batalha (Lívio, Ab Urb. cond.
10.14). Assim, é difícil avaliar o verdadeiro impacto da cavalaria nas guerras travadas
pelos Romanos, mas, segundo o lugar-comum da capacidade de adaptação, eles ter-se-
iam apropriado das tácticas dos guerreiros montadas dos Samnitas (ou dos

119
Sobre os números apontados por Políbio: F. W. Walbank, A Historical Commentary on Polybius, vol. 1, pp. 702-703.
A descrição de Tito Lívio (8.8.5-8) revela-se demasiado confusa para que consigamos calcular o tamanho dos
contingentes. Isto deve-se, em parte, ao facto de o autor entender os accensi e os rorarii como diferentes dos leves. Para
problemas textuais, consulte-se S. P. Oakley, A commentary on Livy Books, pp. 459-463. Quanto aos rorarii no século
II a. C.: Lucílio, 7.290, 10.393.

55
Campanianos), bem como do equipamento utilizado pelos cavaleiros helénicos (os
pírricos ou dos estados gregos italiotas)120.
Centremo-nos agora no juramento prestado pelo soldado romano (coniuratio), de
«não fugir do campo de batalha, nem abandonar a sua posição na linha de batalha»,
que comportava uma ressalva digna de interesse: os soldados teriam de se manter nas
fileiras à excepção dos casos em que fossem recuperar uma arma, salvar um camarada
ou atacar um inimigo (Lívio, Ab Urb. cond. 22.38.2-5). Se, por um lado, a primeira
parte do juramento promovia a coesão grupal, a última, por outro, entrevê a existência
de uma considerável liberdade de iniciativa individual no campo de batalha. Da
maneira como Lívio expõe a situação, os soldados podiam deixar a linha de combate
durante a contenda para arranjar novas armas ou recuperar outras, provavelmente
projectéis arremessados, e, além disso, adiantar-se em relação à linha para lutar contra
antagonistas a título individual, ou socorrer camaradas que se encontrassem numa
situação semelhante.
Um tal juramento parece incongruente face à ordem metódica (ordinatio) de uma
falange hoplítica, mas já demonstra adequar-se melhor ao género de combates travados
por soldados armados de dardos e organizados em pequenos grupos como os
manípulos (especialmente se o oponente porfiasse num estilo similar, como se vê nas
cenas de pugnas em várias pinturas tumulares lucanianas de Poseidónia/Paestum).
Com efeito, ao reportar-se à batalha de Sentinum, Lívio conta que os Romanos
passaram algum tempo a apanhar dardos que jaziam dispersos no terreno, no espaço
que separava as duas forças beligerantes, com vista à sua reutilização contra os seus
adversários gauleses (Ab Urb. cond. 10.29.6).
A mudança para o sistema de formação manipular 121 representou um passo em
direcção dos combates efectuados com armas de arremesso. No século II a. C., os
hastati e os principes estariam providos de pila, enquanto os triarii conservavam uma
lança (hasta), a qual serviria basicamente para trespassar um inimigo ou então para
espetá-la no solo, formando-se assim uma barreira pejada de pontas de lanças. Em
princípios do século II, Énio escreveu que «os hastati arremessaram as suas hastae;
sobreveio uma chuva de ferro». Esta linguagem metafórica serve de complemento às
palavras que citámos de Varrão, a respeito dos rorarii, que eram um «aguaceiro antes
de uma forte bátega»122.

120
Sobre a cavalaria romana: J. B. McCall, The Cavalry of the Roman Republic, Londres, 2002, pp. 13-25. A respeito da
assimilação romana de tácticas e de equipamento de cavalaria, cf. Ineditum Vaticanum 3, von Arnim, p. 121; Políbio,
6.25. Dúvidas de estudiosos modernos: M. W. Fredericksen, «Campanian cavalry: A question of origins», Dialoghi di
Archeologia, 2 (1968), pp. 3-13, 14 ss; J. B. McCall, The Cavalry, pp. 27-33.
121
Para este aspecto, veja-se N. Fields, Roman Battle Tactics 390-110 BC, pp. 40-47,
122
Macróbio, 6.1.52 = Énio, Ann. 8, frag. 281 Warmington = 287 Vahl. Varrão, De ling. lat. 7.58; E. Rawson, «The
literary sources for the pre-Marian army», pp. 13-31; A. Zhmodikov, «Roman republican heavy infantrymen in battle
(IV-II) centuries BC», Historia 49 (2000), pp. 67-78.

56
O lançamento de dardos, por meio de uma série de salvas, em batalha, fossem os pila
mais «especializados» ou (inicialmente) hastae «multifuncionais», parece coadunar-se
mais plausivelmente com o período em que se começou a organizar a legião em linhas
de manípulos, visto que este dispositivo permitia a grupos relativamente pequenos
avançarem em passo de corrida para lançar as suas armas, depois retrocedendo e sendo
substituídos por uma segunda linha. Como certas fontes sugerem, a adopção do
scutum, que ofereceria melhor protecção do que o escudo circular 123 na troca de
arremesso de projectéis (Lívio, Ab Urb. cond. 9.19; Políbio, Hist. 6.23), pode ter estado
conectada com esta esta mutação no método de combate.

***

Os textos antigos literárias são problemáticos. Neste sentido, qualquer interpretação


que se formule sobre a maneira de fazer a guerra romano, ao longo do século IV e
começos do III a. C., apenas se fundamenta em inferências lógicas e verosímeis mas, de
forma alguma, incontestáveis. Assistiu-se a uma mudança gradual rumo às linhas
múltiplas, o que proporcionou um movimento mais fluído e autónomo aos manípulos
(ou mesmo aos soldados), com uma tendência, nas primeiras etapas de uma batalha,
para se recorrer ao lançamento de dardos. Quando já não restassem mais armas
arrojadiças, ou à medida que os homens experimentassem acrescida fadiga, os
manípulos das linhas situadas mais atrás vinham reforçar ou substituir as fileiras da
frente, já com o propósito cada vez maior de entrarem nos confrontos corpo a corpo,
utilizando para o efeito lanças de contacto e espadas (no entanto, mais à frente
procedemos a uma reavaliação de que como este método de substituição se efectuaria
no campo de batalha).
Mas voltemos a lembrar: as alterações no equipamento não foram imediatas nem
generalizadas, sobretudo num exército-milícia cujos soldados tinham de se armar às
suas próprias expensas, consoante as suas posses. Na sua descrição das cinco classes
servianas (que, por vezes, certos historiadores modernos pensaram que reflectiriam o
período da introdução do stipendium, no início do século IV a. C.), Lívio (Ab Urb. cond.
1.43) reconhece a existência de variantes no conjunto das forças armadas, bem como a
presença de escudos tanto circulares como ovais entre os soldados 124.
O pragmatismo dos Romanos e a sua predisposição para se envolverem em guerras
em proporções relativamente consideráveis concorreram, não obstante a natureza
endémica dos conflitos armados na península itálica, para que o corpo dos cidadãos,
123
O desdobramento em 30 manípulos conduziu à substituição do clipeus pelo scutum (escudo rectangular oblongo
provavelmente tomado de empréstimo aos Gauleses. O clipeus só oferecia protecção aos combatentes caso estes se
mantivessem em linhas unidas, uns encostados aos outros.
124
Para uma data em finais do século V a. C. em relação às classes servianas, T. J. Cornell, The Beginnings of Rome, pp.
186-188.

57
enquanto um todo, se tornasse mais endurecido e experiente do que a maioria dos seus
inimigos. Por outro lado, os legionários romanos ainda estavam longe de ser soldados
profissionais, consistindo em «milicianos» que, no fim de uma campanha, geralmente
regressavam à terra-natal, voltando a labutar nas suas propriedades agrícolas ou
dedicando-se a outras profissões.
Posto isto, embora as acções bélicas ocorressem num ritmo quase anual, a proficiência
das suas armas e a capacidade no desenvolvimento de manobras tácticas eram ainda
algo frustes e limitadas. A formação manipular englobou, em certa medida, estes
elementos típicos de uma «milícia». Os «hóplitas» do exército arcaico e do início da
República romana terão sido seleccionados principalmente de acordo com os critérios
da riqueza e da propriedade patrimonial, mas o exército manipular, ainda que
preservando a qualificação básica fundiária, passou a organizar-se essencialmente
segundo a idade dos soldados. Com base em Lívio (Ab Urb. cond. 8.8.6-10) e Políbio
(Hist. 6.21.7-9), às tropas mais jovens (leves e hastati) cabia a tarefa de iniciar uma
batalha, mas por precaução, viam-se apoiadas pelos seus camaradas das fileiras
seguintes, mais experientes e maduros e, por fim, contando com o reforço da «Velha
Guarda» dos triarii.
Ressalvemos também que a instrução e o treino formais, que mais tarde foram
componentes cruciais, não seriam ainda tão relevantes num sistema como o manipular,
que ocasionava a fragmentação das linhas de batalha em pequenas «mãos-cheias» de
homens, característica que cedo se transformou numa das virtudes marciais de
referência. Políbio (Hist. 18.32.10-12) afirmou que «[…] qualquer soldado romano, uma
vez armado e pronto para combater, é capaz de enfrentar um ataque a partir das mais
diversas direcções, em qualquer momento ou qualquer local. Está também preparado e
em condições para combater enquanto parte integrante de todo o exército, de uma
secção, em manípulos ou a nível individual».
Quanto à capacidade de resiliência, por meio de agrupamentos de soldados que
lançavam saraivadas de dardos contra o inimigo, ela mantinha-se sólida graças ao
significado prático dos juramentos que os homens proferiam entre si e pelo medo dos
castigos extremamente severos que poderiam sofrer por parte do cônsul depois da
contenda. Os manípulos eram comandados pelos seus próprios oficiais, os centuriões,
que tanto impunham o devido controlo sobre as tropas, como permitiam, em certas
circunstâncias, que agissem através de iniciativas individuais no campo de batalha.
Ignoramos em que data os estandartes se tornaram num elemento integral das
legiões, mas foi certamente ainda em tempos recuados; eles funcionavam como valiosos
pontos de concentração no decurso de uma refrega em que os Romanos utilizassem o
fluido sistema manipular, ao passo que os pilani/triarii, aglomerados numa densa

58
massa, atrás dos estandartes, ofereciam à formação a resoluta solidez e tenacidade
típica dos veteranos.
As legiões tiveram capacidade para cooperar eficazmente em batalha com as unidades
aliadas, talvez sugerindo, num período em que a experimentação e a fertilização
cruzada de estilos de combate e armamento constituíam um fenómeno disseminado,
que as últimas também estariam familiarizadas com as modalidades de peleja que os
Romanos empregavam. Talvez o êxito do expansionismo romano tenha contribuído
para uma pan-italianização da arte da guerra que facilitou intercâmbios marciais. Para
Louis Rawlings: «A conquista romana de Itália não se desenrolou num vaccum e, não
obstante a natureza romanocêntrica dos relatos históricos, fica claro que os demais
protagonistas tiveram papéis a desempenhar»125.
Uma boa maneira para compreender algumas etapas que marcaram a evolução da
prática da guerra entre os Romanos passa pela sua inserção no contexto de processos
mais alargados assinaláveis nos métodos de combate itálicos e helenísticos. Neste
ponto, há que complementar as fontes literárias com os achados arqueológicos
realizados em solo italiano, a fim de ganharmos uma imagem de contornos mais nítidos
sobre a natureza da guerra desenvolvida pelos Romanos.
Apesar de existirem falhas ou deficiências no seu sistema (como em qualquer outro),
os efectivos militares romanos e aliados vieram a impor-se cada vez mais sobre os seus
vizinhos e inimigos, daí os seus exércitos serem, de acordo com os padrões italianos,
grandes. Mesmo quando lutando contra forças treinadas e organizadas, como as
pírricas, os Romanos recuperaram das suas derrotas e souberam aproveitar habilmente
os recursos humanos, conseguindo substituir as baixas sofridas através da mobilização
de novos efectivos (Plutarco, Vida de Pirro, 19.5; Floro, 1.13).
Dito isto, ao longo dos 85 anos aqui passados em revista, os seus antagonistas, fossem
tribos ou comunidades individuais, ou ainda exércitos «internacionais» e pan-itálicos,
conheceram sérias dificuldades nas suas tentativas de suplantar e competir com a
flexibilidade e a resiliência da República romana e dos seus exércitos.

II.6. O census e o recrutamento militar

Actualmente, a maioria dos historiadores renunciou a ver na repartição dos cidadãos


em centúrias dos comitia uma transposição exacta dos efectivos das unidades do
exército assim designadas. Considera-se que as 193 centúrias compostas pelas cinco

125
«Army and Battle during the Conquest of Italy», p. 59.

59
classes censitárias serviriam de enquadramento para o recrutamento dos soldados, pelo
menos até ao tempo de GaCaioio Mário, no fim do século II antes da nossa era. Em
virtude do princípio de «igualdade geométrica» que estava presente em qualquer
organização cívica romana, os cidadãos das primeiras classes deviam contribuir mais
para a defesa da Cidade do que os agrupados nas últimas classes. Os primeiros,
inscritos nas centúrias menos numerosas, seriam mais regularmente solicitados do que
os outros, já que cada centúria contribuiria de maneira equivalente para os efectivos do
exército (fornecendo inicialmente talvez 100 homens).
À fortuna somava-se o critério etário. Recordemos que só os cidadãos das cinco classes
censitárias com idades compreendidas entre os 17 e os 60 anos eram mobilizáveis. No
seio desta categoria dos adsidui/assidui, distinguiam-se ainda os iuniores (17-45 anos),
chamados a integrar o exército activo, dos seniores (46-60), que constituíam uma
reserva. Assim, cada classe censitária encontrava-se dividida em centúrias de iuniores e
seniores. Afora a idade, também se teria em conta a compleição física e o estado de
saúde dos mobilizáveis, mas não conhecemos bem as exigências do recrutamento neste
domínio antes da época imperial.
Os cidadãos com meios financeiros permaneciam mobilizáveis durante grande parte
das suas vidas. Mas, entre os 17 e os 45 anos, os iuniores só participariam num
determinado número de campanhas militares ao serviço do Estado. Segundo Políbio
(Hist. 6.19.2-3), tal cifra fixou-se em 16 para os infantes, mas prolongando-se até 20
anos em circunstâncias excepcionais. Todavia, estas campanhas consecutivas não se
materializavam em anos de serviço initerruptos. Enquanto os teatros de operações se
limitaram à Itália, o cidadão cumpria as suas obrigações militares entre os meses de
Março e Outubro.
Depois, mesmo quando o campo de intervenção do exército se estendeu à bacia do
Mediterrâneo, os períodos de mobilização não eram contínuos. O serviço militar dos
cidadãos consistia na participação em campanhas mais ou menos longas, em função do
tempo necessário para obter uma vitória. Entre as mesmas, os indivíduos regressavam
à vida civil. É, pelo menos, o que revela o discurso do centurião Espúrio Ligustino 126, em
171 a. C. (Lívio, Ab Urb. cond. 42.34.1.5).
A adopção destes critérios requeria procedimentos minuciosos de recenseamento e
controlo. Foi, como dissemos, a Sérvio Túlio que se atribuiu a instituição do primeiro
census127, que se converteu num importante momento da vida cívica. Desde 443 a. C., a
sua organização confiou-se a magistrados específicos, os censores 128. Quinquenalmente,
em princípio, os cidadãos eram convocados a Roma, reunindo-se no recinto da Villa
126
Que será objecto de análise no começo do próximo capítulo.
127
Sobre a aparição e o desenvolvimento histórico do census, cf. G. Pieri, L’histoire du cens jusqu’à la fin de la
République romaine, Paris, Sirey, 1968; IDEM, «Cens (Droit romain)», in J. Leclant (dir.), Dictionnaire de l’Antiquité,
Paris, PUF, 2005, pp. 440-441.

60
Publica, no Campo de Marte, onde declaravam os seus bens aos censores. A Villa
Publica era delimitada a oeste pelo pórtico que rodeava os templos republicanos da
Area Sacra do Largo Argentina, a norte pelo muro do Diribitorium, e a sul pelos
Circus Flaminius. Quando os soldados se equipavam à sua própria custa, competia
igualmente aos censores verificarem o estado do seu armamento. Este continuava
relativamente heterogéneo, na medida em que dependia muito dos recursos de cada
cidadão.
Recapitulemos vários pontos: segundo Lívio (Ab Urb. cond. 1.43), as 80 centúrias da
primeira classe conservariam ainda o equipamento de bronze hoplítico: elmo, grevas,
lança, espada e couraça constituída por discos metálicos colocados nas costas e no peito
para a protecção do coração (cardiophylax). Mas o escudo redondo (clipeus) foi
substituído por um modelo oval, o scutum, a partir do momento em que se adoptou a
ordem manipular. As armas dos soldados da segunda classe eram idênticas, à excepção
da couraça, que não tinham. Quanto às 20 centúrias da terceira, os homens estavam
desprovidos de grevas metálicas (ocreae). Em contrapartida, nas últimas classes
censitárias, o equipamento hoplítico estaria ausente: os combatentes recrutados para a
quarta tinham como armas só lanças e dardos, e as 30 centúrias da quinta forneciam
unicamente fundibulários. O resto do corpo cívico encontrava-se agrupado numa
centúria, dita infra classem, englobando os proletarii, dispensados do serviço militar.

Soldo e tributo

O referido princípio de igualdade geométrica, que determinava os deveres militares


dos cidadãos em função da sua fortuna, afigurava-se teoricamente incompatível com a
remuneração pela sua participação na defesa da Urbs. De facto, esperava-se dos
soldados-cidadãos que fizessem a guerra às suas próprias expensas, os mais pobres
vendo-se dispensados do serviço militar. Porém, Tito Lívio (Ab Urb. cond. 4.59.11) e
Diodoro de Sicília (Bibl. Hist. 14. 16.5) fazem remontar a instituição do soldo ao tempo
do assédio da cidade etrusca de Veios, entre 406 e 396 a. C.: tratou-se da primeira
longa campanha que reteve o exército romano vários anos seguidos num teatro de
operações, sem dar lugar, de imediato, a uma partilha de despojos.

128
Sobre os censores, consultem-se: J. Suolahti, The Roman Censors, Helsinquia, Kirjapaino, 1963; M. Humm, «Il
regimen morum dei censori e le identità dei cittadini», pp. 283-314.

61
Michel Tarpin129 enfatizou a importância dos despojos no pensamento romano: os
Romanos empregavam, para se reportarem àqueles, vocábulos diferentes que remetem
para práticas guerreiras arcaicas: a praeda, que designava também as presas dos
piratas, resultava da pilhagem efectuada pelos soldados com a autorização do seu
general, após a vitória sobre um inimigo que não se rendera; terá sido isto o que
sucedeu, amiúde, com as cidades tomadas por Roma durante a conquista de Itália. No
rescaldo de uma batalha campal, operava-se uma distinção entre as bagagens dos
vencidos, partilhadas entre os soldados romanos, e as armas abandonadas no sítio da
contenda – estas, no dia seguinte, eram separadas, queimadas ou até deixadas no local
caso o metal não valesse a pena ser recuperado, sem nunca ocasionar uma partilha.
Relativamente aos spolia, correspondiam ao que o imperator devia depositar no
tesouro do povo romano, situado no podium do templo de Saturno, quando o
antagonista se havia rendido (deditio). Estas capitulações negociadas tornaram-se mais
correntes a partir do período em que Roma se envolveu em conflitos contra as
monarquias helenísticas. Neste caso concreto, o comandante-chefe tinha de prestar
contas ao Senado, não podendo dispor arbitrariamente dos despojos. Quanto às
manubiae, representavam a parte reservada aos deuses e ao general vencedor. Mas
este, no seu triunfo, podia proceder a distribuições, chamadas donativa.
Consequentemente, a indemnização das tropas por meio do pagamento de um soldo
surgiu provavelmente bem mais tarde do que o cerco de Veios, talvez no decurso das
Guerras Samnitas da segunda metade do século IV a. C. O soldo veio a ser financiado
através de uma contribuição dos cidadãos mobilizáveis, o tributum130. Enquanto Roma
não teve uma verdadeira economia monetária (até começos do século III) tal montante
pagava-se sob a forma de lingotes de bronze. Como todos os adsidui estavam sujeitos
ao imposto em caso de guerra, designadamente os que não haviam sido mobilizados
para a campanha em curso, os que já não estavam em idade de servir e, ainda, aqueles
que não reuniam capacidades físicas, a instituição conjunta do soldo e do tributum
repartia mais justamente os deveres inerentes à defesa da Urbs por todos os
mobilizáveis.
Durante o tempo em que o financiamento do soldo se alimentou em exclusivo pelo
tributum, os «tribunos do tesouro» (tribuni aerarii) asseguravam o seu pagamento: os
últimos escolhiam-se entre os contribuintes mais ricos em cada tribo para avançar com
o montante do soldo que entregavam directamente aos legionários; depois eram
reembolsados pelos outros cidadãos mobilizáveis da respectiva tribo, segundo regras

129
«Les ‘Manubiae’ dans la procédure d’appropriation du butin», in M. Coudry e M. Humm (eds.), «Praeda». Butin de
guerre et société dans la Rome républicaine/Kriegsbeute und Gesellschaft im republikanischen Rom, Estugarda, Franz
Steiner, 2009, pp. 81-102; IDEM, «Devenir riche par le butin: données quantitatives dans l’empire romain», in C.
Baroin e C. Michel (eds.), Richesse et société (Colloques de la MAE, 9), Paris, 2013, pp. 66-80.
130
J. P. Roth, The Logistics of the Roman Army at War, pp. 230-231.

62
análogas ao funcionamento das summoriai atenienses131. Assim, o pagamento do soldo
também se alicerçava no sistema censitário. Os tribuni aerarii constituíam
efectivamente uma ordem, cuja lista oficial de membros, distribuídos pelas tribos, era
elaborada pelos censores. A partir de 214 a. C., solicitou-se às viúvas e aos órfãos,
isentos do tributum, que contribuíssem para os «subsídios» relativos às montadas e às
forragens dos cavaleiros (Lívio, Ab Urb. cond. 24.18.13-14).
Todavia, a equiparação do pagamento do soldo a uma leitourgia132 só seria aplicável
no quadro de uma cidade-estado, em que os soldados voltavam às suas casas depois da
realização de campanhas temporalmente limitadas. Um tal sistema pressupunha que os
legionários estivessem presentes em Roma para receber as remunerações. Assim, seria
apenas ao partirem para a guerra que eles tocariam numa primeira parte do seu soldo.
Depois teriam de aguardar pelo seu regresso para receber um complemento, em função
do número de dias que tinham passado efectivamente em campanha, uma vez que
parece improvável que os tribunos do tesouro se deslocassem com regularidade aos
teatros de operações para efectuar pagamentos frequentes. Por seu turno, o testemunho
de Varrão (A vida do povo romano = fragmento de Nonnius Marcellus, p. 853 L)
confirma que esse pagamento só ocorria uma vez por ano ou, então, uma de seis em
seis meses, consoante a duração e a localização das actividades bélicas.
É usual ler-se em apreciável número de obras que, além do soldo e parte dos despojos,
os milites podiam ganhar recompensas honoríficas ao notabilizar-se em façanhas
individuais. Efectivamente, Políbio (Hist. 6.39) evoca recompensas hierarquizadas: a
lança honorífica (gaesum) concedida ao que tivesse ferido um inimigo, uma taça ao que
eliminasse de despojasse um infante, uma phalera (placa de metal brilhante), se o
mesmo fizesse em relação a um cavaleiro adverso, uma corona muralis de ouro para o
primeiro a subir até ao topo de um bastão inimigo, e uma corona civica (coroa de
louros) para aquele que salvasse a vida de um concidadão. No entanto no período
histórico em apreço (entre finais do século IV e meados do III a. C.), é muito possível
que se atribuiria como único prémio a hasta, para assim recompensar a bravura
demonstrada em combate133.
Ao escrutinarmos as fontes literárias, epigráficas e iconográficas relativas aos dona
militaria (as condecorações militares), datando entre o século I a. C. e o II d. C.,

131
P. Cosme, L’armée romaine, p. 20. Em Atenas, as summoriai (summoría no singular) consistiam em grupos de
contribuintes que, em vez de pagarem individualmente pela manutenção de um trirreme, o faziam colectivamente.
Trata-se de uma instituição que remonta à década de 350 a. C.
132
Dever de estado imposto anualmente aos cidadãos mais ricos de Atenas, que tinham de pagar, entre outras coisas,
pela encenação de peças teatrais em festivais, pelas despesas com o funcionamento de um trirreme e outras relacionadas
com o esforço de guerra. Para este assunto: G. L. Cawkwell, «Athens at War», in P. V. Jones (ed.), The World of Athens,
Cambridge, Cambridge University Press, 1984, pp. 280-281.
133
C. Ricci, «Sul significato originario dell’hasta donatica», Rev. Ét. Milit. Anc. 4 (2009); S. E. Phang, Roman military
Service: Ideology and Discipline in the Late Republican and Early Principate, Cambridge, 2008, pp. 179-200.

63
constatamos que, neste período, as atestações são mais numerosas e diversificadas 134,
fornecendo uma série de elementos para a investigação da génese do «sistema romano
de condecorações militares»135. A distinção e o redimensionamento dos dona militaria
começaram no tempo de Augusto e dos seus sucessores. Mas é difícil acreditar, segundo
Cecilia Ricci136, que esta prática se tenha convertido alguma vez num sistema rígido. À
fase de ajustamento seguiu-se a estabilização do costume; mas, pouco depois, as
condecorações desapareceram gradualmente. É assunto que merecerá mais
comentários num dos próximos capítulos sobre o exército romano durante o Império.

II.8. Census e comando

Os censores tinham igualmente que contabilizar o número de campanhas em que


cada cidadão estivera envolvido, a fim de apurar quais é que ficariam libertos das suas
obrigações militares, os emeriti. No final do século III ou nos começos do III a. C., as
tarefas dos censores tornaram-se ainda mais complexas por causa da combinação dos
critérios da idade e da fortuna com outro parâmetro, desta feita de carácter geográfico:
a pertença a uma das 35 tribos. O número de centúrias da primeira classe passou então
a 70, de maneira a que houvesse uma centúria de iuniores e outra de seniores em cada
tribo. As operações de recenseamento permitiam, assim, fazer listas dos cidadãos
mobilizáveis, em primeiro lugar as tabulae iuniorum (Lívio, Ab Urb. cond. 24.18.7),
que serviam de base para o arrolamento no exército activo. Porém, alguns mobilizáveis
constavam em listas à parte – os que, pelo seu património, estavam inscritos nas 18
centúrias equestres. Os censores reconheciam-nos simultaneamente como capazes e
dignos para servirem na cavalaria, a arma aristocrática por excelência. Mas os gastos
com o equipamento dos cavaleiros e a manutenção das suas montadas depressa
exigiram que a Cidade pagasse a estes cidadãos um «subsídio» designado «cavalo
público».

134
Com base no livro de V. Maxfield (The Military Decorations of the Roman Army, Londres, 1981, pp. 42-54,
publicação que resultou do texto da tese de doutoramento da autora, defendida anos antes, a qual também
consultámos), dois terços das fontes literárias reportam-se à época republicana, ao passo que as epigráficas apenas
surgem a partir do século I antes da nossa era.
135
Expressão habitualmente utilizada por vários estudiosos: cf. V. Maxfield, The Military Decorations, pp. 63-65; D.
Rüpke, Domi militiae. Die religiöse Konstruktion des Kriegs, Estugarda, 1990, p. 204; M. A. Speidel, «Augustus’
militarische Neuordunung und ihr Beitrag zum Erfolg der Imperium Romanum. Zu Heer und Reichskonzept», in
IDEM, Heer und Heerschaft im römischen Reich der hohen Kaiserzeit, Mavors 16, Estugarda, 2007, p. 25.
136
«Dai dona ai donativa. Fine dello scambio simbolico tra comandante e soldati?», in Miti di Guerra, Riti di Pace. La
guerra e la pace: un confronto interdisciplinare, Edipuglia, 2011, pp. 235-240.

64
Esta inscrição nas centúrias equestres manteve-se essencial, mesmo sendo o papel
desempenhado pela cavalaria romana no campo de batalha relativamente reduzido:
com efeito, eram os detentores do censo equestre que tinham vocação para comandar
as forças armadas e exercer as magistraturas. Os magistrados superiores – pretores e
cônsules – investidos do imperium deviam, assim, manifestar capacidade tanto para
governar a Urbs em tempo de guerra, como para a defender em tempo de guerra. Além
disso, todo o candidato a uma magistratura tinha de cumprir o serviço militar. No
entanto, contrariamente aos infantes, os cavaleiros realizavam somente 10 campanhas
(=10 anos), antes de poderem candidatar-se à questura, que significava a primeira
etapa do cursus honorum, a «carreira das honras».
Findos esses dez anos, os cidadãos pertencentes às centúrias equestres desfilavam
solenemente no Forum, segurando os cavalos pelas rédeas, diante dos censores, que se
encontrariam junto ao templo dos Cástores, divindades tutelares dos cavaleiros.
Durante a cerimónia, chamada recognitio equitum, os magistrados verificavam as
condições em que estavam as montadas e o cumprimento das obrigações militares de
tais cidadãos. Ainda antes de acederem à pretura ou ao consulado, os últimos podiam
ter a oportunidade de ocupar postos de comando no exército enquanto tribunos
(tribuni militum). Estes oficiais (seis por cada legião), tanto eram indigitados pelos
detentores do imperium como eleitos pelos comitia tributa para as quatro primeiras
legiões a partir de 207 a. C. Nestes unidades, as legiões consulares, só dez dos tribunos
tinham cumprido dez campanhas na cavalaria, os demais dez perfazendo apenas cinco.
Alguns já pertenceriam a famílias senatoriais, ao passo que outros provinham de
famílias que possuíam o censo equestre mas em que nenhum membro tomara assento
no Senado. Neste sentido, para os últimos, o tribunato militar representava um meio
inequívoco de promoção social.

2.9. Mobilização e arrolamento nas legiões


O dilectus137

Anualmente, os cônsules avaliavam as necessidades em homens e dinheiro da Cidade


e submetiam a sua proposta ao Senado. Por decreto, este autorizava-os a recrutar a
seguir um determinado número de cidadãos, fixava o montante do tributum
correspondente e libertava das obrigações militares aqueles que tivessem cumprido o

137
N. Fields, Roman Republican Legionary 298-105 BC, pp. 14-16.

65
número regulamentar de campanhas. Esta declaração de licenciamento é conhecida
pelo vocábulo missio. Investidos do seu imperium, os cônsules convocavam então, por
meio de um édito, os cidadãos mobilizados num prazo de trinta dias no Capitólio, no
cimo do qual adejava um estandarte vermelho (Políbio, Hist. 6.19.1-6). Afixava-se o
édito na Urbs e o seu teor era proclamado por pregoeiros públicos (praecones) nos
campos vizinhos.
Desde o fim da Segunda Guerra Púnica ou pouco antes, o recinto da Villa Publica, já
usado para o recenseamento no Campo de Marte, veio a substituir o Capitólio, que se
tornou demasiado exíguo em face do aumento do corpo cívico e dos efectivos a
mobilizar. Os cônsules começavam por proceder à chamada dos cidadãos convocados,
baseando-se nas tabulae iuniorum dos censores. Deste modo, certificavam-se que
todos estavam presentes, ao mesmo tempo que observavam as suas aptidões físicas e
determinavam eventuais isenções: indivíduos que exerciam certas funções sacerdotais
eram dispensados de servirem nas armas.
Ao procedimento da mobilização chamava-se genericamente dilectus, cujo significado
era idêntico ao da legio, reportando-se à «escolha» ou «selecção». A presença de todos
os cidadãos convocados era obrigatória. No entanto, muitas vezes, os cônsules
convocavam apenas uma parte dos mobilizáveis, eventualmente sorteando os membros
das tribos solicitadas ou cingindo-se a uma classe etária, já que Roma não tinha
necessidade nem meios para arrolar todos os seus cidadãos.
Os que se subtraíssem à prestação do serviço militar incorriam em sanções bastante
severas, que podiam ir até à venda dos transgressores como escravos. O único recurso
para evitar ser mobilizado consistia em apelar aos tribuni plebis. Estes podiam,
efectivamente, opor-se à leva de tropas 138 invocando o seu direito de intercessio, ou
então recusar a mobilização de certos cidadãos em virtude do seu direito de auxilum.
Mas os tribunos da plebe ficavam reduzidos à impotência quando se tratava de uma
leva em massa, o chamado tumultus, decretado em casos de urgência. Nestas ocasiões,
convocavam-se todos os cidadãos, incluindo mesmo os proletarii eram. Determinadas
circunstâncias podiam até exigir a chamada às fileiras daqueles já libertos das suas
obrigações militares, que nessas alturas serviam sob a denominação de evocati139.
Acresce que as possibilidades de intervenção dos tribunos da plebe tornaram-se mais
limitadas, quando o dilectus passou a ter lugar no Campo de Marte, fora dos limites do
pomerium.

138
P. Southern, The Roman Army. A social and Institutional History, pp. 66-67.
139
Para uma abordagem detalhada sobre os evocati, veja-se o artigo de F. Cadiou, «NON MILITES SED PRO MILITE. La
question des evocati à l’époque républicaine», pp. 57-76.

66
II.10. O juramento militar: comentários adicionais

Embora já aflorado, parece-nos pertinente adicionar mais elementos sobre o


juramento militar. Segundo Políbio (Hist. 6.21.1-3), uma vez estabelecida a lista dos
cidadãos seleccionados, os tribunos militares realizavam o arrolamento em nome dos
cônsules, ao tirarem à sorte, numa urna, o nome da tribo cujos homens mobilizados se
teriam de apresentar em primeiro lugar diante deles. Os tribunos de cada uma das
legiões seleccionavam, assim, um recruta em cada tribo, sucessivamente convocadas,
até que se arrolassem todos os efectivos necessários. Estas precauções visavam criar
legiões com força equivalente, e, ao mesmo tempo, serviam para evitar que se
desenvolvessem solidariedades territoriais.
A seguir ao arrolamento, os tribunos ordenavam ao primeiro recruta escolhido (cujo
nome se considerava ser um bom presságio, cf. Cícero, Da adivinhação, 1.45) que
prestasse juramento; depois, os restantes cidadãos mobilizados proferiam o
sacramentum de obediência140 (Políbio, Hist. 5.21.1-3), o qual, como atrás notámos,
remontava a práticas bem remotas 141. O sacramentum ligava cada legionário ao
comandante-chefe mas também aos seus camaradas e à própria cidade no seu todo. Só
o juramento militar podia legitimar os actos violentos cometidos em tempo de guerra e
fazer do cidadão um soldado. Aquele que o violasse ficava automaticamente excluído da
comunidade cívica e podia ser condenado à pena capital, sentença proferida pelo
comandante-chefe, sem haver recurso que o salvasse. A derradeira fase da mobilização,
a incorporação, não tinha lugar em Roma, mas num sítio e data que os cônsules
estipulavam: amiúde, o ponto de reunião situava-se numa etapa da própria rota do
teatro das operações bélicas. Aí se distribuíam os recrutas no interior de cada legião,
em manípulos e em centúrias. Quanto aos ausentes ou aos retardários, eram
considerados desertores.
O dilectus, como o census, caracterizava-se pela importância dada aos procedimentos
orais e à presença física dos cidadãos convocados: a maneira pela qual se procedia à
chamada dos mobilizáveis, bem como a prestação do juramento, significavam
reminiscências de práticas assaz vetustas. Mas este processo também conduzia à
elaboração de documentos escritos. Juntamente com outros registos elaborados pelos
censores, a lista dos cidadãos mobilizáveis na infantaria era possivelmente arquivada,
ficando à guarda dos questores no Forum, nos subterrâneos do templo de Saturno, que
albergava também o tesouro público. Só em 78 a. C. se construiu, na encosta do
140
Provavelmente dizendo apenas Idem in me/«Também eu».
141
A. Holbrook, Loyalty and the Sacramentum in the Roman Republican Army, tese para a obtenção do grau académico
de MA apresentada à McMaster University, Hamilton(Ontario), 2003, esp. pp. 59-77.

67
Capitólio sobranceira ao Forum, o Tabularium, para servir de depósito arquivístico142.
Quanto à lista dos cavaleiros, ela talvez fosse depositada no Atrium Libertatis, a norte
do Forum.

II.11.Uma disciplina e um treino ainda incipientes

Como referimos, a organização manipular adoptada pelas legiões romanas já


obrigaria os legionários a efectuar movimentações envolvendo alguma complexidade,
como a de passar da ordem de marcha, em colunas paralelas, para a disposição dos
manípulos em três linhas de batalha. Contudo, ao formarem-se só para o tempo de
duração de uma campanha, nas legiões os soldados não reencontravam forçosamente
os mesmos companheiros de armas na campanha seguinte, pelo que dificilmente se
pode afirmar que os métodos e os dispositivos de combate primassem por um elevado
nível de rigor e sofisticação. Ainda que as manobras militares exigissem treino e
disciplina143, estas duas componentes ainda não haviam atingido o nível que viriam a
adquirir desde finais da República. Desenvolveu-se, progressivamente, toda uma gama
de sinais visuais e sonoros para guiar os legionários no campo de batalha. No seio de
cada legião, os 30 manípulos tinham, cada um, o seu porta-insígnia, que lhes servia de
referência. Relativamente aos 300 cavaleiros que acompanhavam uma legião,
deslocavam-se em função da direcção indicada pelo seu estandarte.
Talvez a partir deste período uma legião romana tenha passado a compreender 35
tocadores de tuba (trombeta direita), os tubicines, cujo papel consistia em dar o sinal
de partida, de ataque e de retirada, e 36 cornicines (que faziam ressoar o cornu, outro
instrumento de sopro), encarrregados de comunicar as ordens do comando ao porta-
insígnia dos manípulos. Repare-se que os critérios do recenseamento previam também
a selecção destes músicos a partir das duas centúrias procedentes da quinta classe
(Lívio, Ab Urb. cond. 1.43).

2.12.O desenvolvimento progressivo da hierarquia militar: os oficiais


subalternos

142
P. Cosme, L’armée romaine, p. 24.
143
A. Holbrook, Loyalty and the Sacramentum in the Roman Republican Army, p. 47ss.

68
Não recuar diante do inimigo, nem ceder ao pânico e correr riscos inusitados eram
atitudes que faziam parte das qualidades que se requeriam dos oficiais subalternos, que
estavam em contacto directo com os legionários (Políbio, Hist. 6.24.9). A divisão da
legião em subunidades necessitava, de facto, de quadros bastante numerosos para
garantir uma plena eficácia táctica. Afora o comandante-chefe detentor do imperium e
dos tribunos militares, havia 60 centuriões por legião, ou seja, um por cada centúria e
dois por cada manípulo. Eles eram escolhidos pelos tribunos entre os soldados que
evidenciassem maior mérito (Políbio, Hist. 6.24.1-2)144. Cabe perguntar se a eleição do
centurião pelas tropas depois de uma acção particularmente brilhante, atestada em
circunstâncias excepcionais sob o Império e em períodos marcados por guerras civis,
não remontará aos tempos republicanos. A utilização do vocábulo suffragium para
designar esta prática e a analogia com o título de tribunus militum a populo talvez
sugiram essa possibilidade, mesmo na falta de casos documentalmente conhecidos.
Em todo o caso, o sufrágio precisava de ser avalizado pelo detentor do imperium ou,
pelo menos, pelos tribunos. Mas tratar-se-ia, ainda, de uma nomeação temporária
vigente somente no contexto da duração de uma só campanha. Assim, antigos
centuriões não seriam necessariamente reintegrados neste posto por ocasião de uma
campanha subsequente. No século II a. C., o centurionato continuaria a possuir um
carácter provisório, o que não deixou de provocar descontentamentos, como o
testemunham os protestos de certos centuriões que se viram retrogradados no início da
guerra contra Perseu da Macedónia.
Mas cedo se esboçou uma hierarquia nos centuriões, vindo o primeiro centurião
nomeado a tomar assento no estado-maior de legião 145. Cada centurião escolhia um
optio para coadjuvá-lo. Os dois centuriões de cada manípulo designavam igualmente os
dois porta-insígnias do mesmo (Políbio, Hist. 6.24.3-8). Apreende-se, a custo, a
existência destes oficiais subalternos para os primeiros séculos da República. Contudo,
estes já se diferenciavam radicalmente dos oficiais superiores - os tribunos e os
magistrados – pela sua proximidade em relação aos simples soldados, de cujas fileiras
tinham saído. Quanto à cavalaria, estaria enquadrada de acordo com princípios
idênticos: existiam 300 cavaleiros em cada legião, repartidos em dez turmae; cada
turma tinha à cabeça três decuriões secundados, cada um, por um optio (Políbio, Hist.
6.25).

144
Para uma visão sintética das etapas mais recuadas do centurionato: R. D’Amato, Roman Centurions 753-31 BC. The
Kingdom and the Age of Consuls, pp. 11-23. O primeiro exemplo conhecido de um centurião (século V a. C.)
corresponde a Lucius Siccius Dentatus, que Aulo Gélio (Noctes Atticae 2.11) recorda como sendo o «Aquiles romano».
No entanto, subsistem dúvidas se não se trata de uma figura lendária, ainda que provavelmente bebendo inspiração
num homem que realmente terá existido.
145
Ibidem, p. 20.

69
Em resumo, a organização militar da Roma republicana conservou durante largo
tempo uma natureza censitária bem marcada, ao mesmo tempo que manifestou
resquícios de primitivos rituais como o juramento. No entanto, a evolução das
condições de guerra conduziram ao estabelecimento de um soldo financiado por uma
contribuição fiscal, provavelmente no decurso do século IV a. C. O equipamento e as
tácticas manipulares passaram a assentar mais nas diferenças etárias entre os
combatentes do que nas distinções estritamente censitárias.

CAPÍTULO 2 - A Era do Expansionismo ultramarino


(séculos III-II a. C.)

II.1. As «Guerras Internacionais»: o recrutamento

70
«Tornei-me soldado no consulado de Publius Sulpicius e de Gaius Aurelius [200 a. C.]. No
exército que se enviou por mar para a Macedónia, fui soldado durante dois anos contra o rei
Filipe; no meu terceiro ano, pelo meu valor, Titus Quinctus Flaminius nomeou-me centurião do
décimo manípulo dos hastati. Depois da derrota de Filipe e dos Macedónios, e após
regressarmos a Itália e sermos desmobilizados, parti, de imediato, como voluntário com o
cônsul Marcus Porcius para a Hispânia [195 a. C.] … Este general considerou-me digno para ser
nomeado centurião da principal centúria dos hastati».

«Pela terceira vez, novamente, voluntariei-me para o exército enviado contra os Etólios e o rei
Antíoco [195 a. C.]. Através de Manius Acilius, fui indigitado para primeiro centurião dos
principes … Depois, em duas ocasiões, servi em legiões que realizaram campanhas anuais. A
seguir, por duas vezes, estive em campanha na Hispânia, numa sob o pretor Quintus Fulvius
Flaccus, na segunda sob Tiberius Sempronius Gracchus [181-179 a. C.]. Por meio de Gracchus
fui trazido até casa, no meio daqueles que, pelo seu valor, vieram consigo da sua província; a
pedido de Tiberius Gracchus voltei à província».

«Quatro vezes, no espaço de poucos anos, fui primus pilus, 34 vezes condecorado, pela minha
bravura, por generais; recebi seis coronae civicae. Cumpri 22 anos de serviço no exército e
tenho mais de cinquenta anos de idade […] Mas, por favor, entendei estes comentários como
traduzindo simplesmente a minha situação. Por mim, desde que alguém que arrole um exército
me achar um soldado adequado, eu nunca suplicarei para sair das fileiras» (Tito Lívio, Ab Urb.
cond. 42.34, abrev.)146.

De acordo com Lívio, assim falou em público um «soldado-cidadão» veterano em 171


a. C., aquando da formação de um novo exército destinado a combater os Macedónios.
O Senado e os cônsules estavam, como habitualmente, ansiosos por mobilizar o maior
número possível de veteranos; Espúrio Ligustino e outros antigos centuriões
solicitaram servir nas fileiras ocupando postos equivalentes aos que anteriormente
haviam exercido. Mas, após o discurso pronunciado por Ligustino, eles terão declarado
consensualmente que aceitariam os postos que as autoridades lhes atribuíssem.Tal
alocução é uma construção literária de Lívio, através da qual apresenta a figura de um
«camponês-soldado» resoluto e patrioticamente belicoso. Mas se tivermos em conta os
detalhes expostos e as circunstâncias que Lívio relatou em torno deste personagem, é
de supor que o autor se baseou num episódio verdadeiro e em alguém concreto 147. Não
há dúvida que os pormenores comportam certa veracidade. Dispondo apenas de uma
iugerum de terra, Ligustino viu na vida de soldado um ofício mais atractivo. As suas
numerosas condecorações, em tantas guerras exitosas, deixam entrever, também, uma
146
Miles sum factus P. Sulpicio C. Aurelio consulibus. In eo exercitu, qui in Macedoniam est transportatus, biennium
miles gregarius fui adversus Philippum regem; tertio anno uirtutis causa mihi T. Quinctius Flaminius decumum
ordinem hastatum adsignauit. Deuicto Philippo Macedonibusque cum in Italiasm reportati ac dimissi essemus,
continuo miles uoluntarius cum M. Porcio consule in Hispaniam sum profecus. Neminem omnium imperatorum, qui
uiuant, acriorem uirtutis spectatorem ac iudicem fuisse sciunt, qui et illum et alios duces longa militia experti sunt.
Hic me imperator dignum iudicauit, cui primum hastatum prioris centuriae adsignaret. Tertio iterum uoluntarius
miles factus sum in eum exercitum, qui aduersus Aetolos et Antiochum regem est missus. A. M.’ Acilio mihi primus
princeps prioris centuriae est adsignatus. Expulso rege Antiocho, subactis Aetolis reportati sumus in Italiam; et
deinceps bis, quae annua merebant legiones; stipendia feci. Bis deinde in Hispania militaui, semel Q. Fuluio Flacco,
iterum Ti. Sempronio Graccho praetore. A Flacco inter ceteros, quos uirtutis causa secum ex prouincia ad trumphum
deducebat, deductus sum; a Ti. Graccho rogatus in prouinciam ii. Quater intra paucos annos primum pilum duxi;
quater et tricies uirtutis causa donatus ab imperatoribus sum; sex ciuicas coronas accepi. Viginti duo stipendia annua
in exercitu emerita habeo et maior annis sum quiquaginta. Quodsi mihi nec stipendia omnia emerita essent necdum
aetas uacationem daret, tamen, cum quattor milites pro uobis dare, P. Licini, possem, aecum erat me dimitti.
147
Sobre E. Ligustino: G. Perotti, «Sp. Ligustino “agente provocatore” del senato», in M. Sordi (ed.), Propaganda e
persuasone occulta nell’antichità (Contributi dell’Istituto di Storia Antica, 2 et Scienze storiche, 8), Milão, pp. 83-96; F.
Cadiou, «À propos du service militaire dans l’armée romaine au IIe Siècle avant J.-C.: Le cas de Spurius Ligustinus
(Tite-Live, 42, 34)», in P. Defosse (ed.), Hommages à Carl Deroux, vol. 2, Bruxelas, 2002, pp. 76-90; D. Hoyos, «The
Age of Overseas Expansion (264-146 BC), in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army, pp. 63-64.

71
apreciável «corrida» pelos despojos, uma quinta maior e mais recursos para a família
por volta de 171 a. C. Ainda assim, 22 anos de serviço militar era muito tempo e, em
168, se Ligustino regressou vivo da campanha, completou um quarto de século a operar
na milícia. A sua dedicação ao serviço militar, ainda que descontínua, quase prefigura
os profissionais da guerra dos tempos subsequentes.

Apesar de idealizada, a vida militar de Ligustino é bastante reveladora acerca do


«cidadão-soldado» de meados da República. As primeiras duas Guerras Púnicas
transformaram o sistema militar romano e produziram grandes efeitos na sua
sociedade. Desde logo, as campanhas fora da Itália tornaram-se habituais: ocorrendo
na Sicília e, em certas ocasiões, noutras zonas, os conflitos prosseguiram durante anos
na Primeira Guerra Púnica (264-241 a. C.). A guerra de Aníbal (218-201 a. C.)
acrescentou mais um elemento – um longo serviço contínuo exigido a muitas tropas na
maior parte dos teatros de operações -, o qual melhor se exemplifica nos soldados que
sobreviveram à batalha de Canas: recrutados entre 218 e 216 a. C., tiveram de expiar
pelo simples facto de escaparem com vida nessa derrota avassaladora; aplicou-se-lhes o
castigo de se manterem nas fileiras, primeiro na Sicília, depois no Norte de África 148.

Seguiu-se um período de conflitos armados de menor duração, e a carreira de


Ligustino mostra como os cidadãos-soldados podiam ser desmobilizados após uma
guerra para, pouco depois, se realistarem na próxima. Os magistrados que procediam
ao recrutamento de tropas tinham especial interesse em arrolar homens já experientes,
tarefa que não seria difícil caso a guerra se anunciasse breve e simultaneamente
lucrativa. A leva do ano 171 a. C. atraiu muitos veteranos, que se lembravam da anterior
guerra macedónica (Lívio, Ab Urb. cond. 42.32.6). Com efeito, Ligustino e os seus
camaradas quiseram servir, desde que mantivessem os seus antigos postos como
centuriões. Em 149 a. C., os cônsules não experimentaram problemas em mobilizar
homens para a Terceira Guerra Púnica, devido às perspectivas de fartos despojos
(Apiano, Pun. 75.351), o que contrastou com a suposta resistência evidenciada nas levas
que rumavam a Hispânia, ocorridas apenas dois anos antes.

Contudo, por vezes, as autoridades precisavam de recorrer à conscrição. As guerras


que comportassem grande esforço e risco de vida, sem recompensas que servissem para
contrabalançar os dois primeiros inconvenientes, raramente atraíam voluntários. Em
193 a. C., por exemplo, foi necessário usar a compulsão para uma campanha contra os
montanheses Lígures e, também, em 169 (Lívio, Ab Urb. cond. 34.56.1-2;43.14.6-7).
Nestas campanhas, os soldados sentir-se-iam explorados e manifestavam-se

148
Sobre as Legiones Cannenses: P. A. Brunt, Italian Manpower, 225 BC-AD 14, Oxford, 1971, pp. 419-420, 648, 652,
654-656.

72
violentamente, como aconteceu na Hispânia, em 206 a. C., quando uma unidade se
amotinou por algum tempo (Políbio, Hist. 11.25-30; Lívio, Ab Urb. cond. 28.24-29),
eclodindo outra revolta envolvendo homens que estavam sob as ordens de um dos
comandantes de Ligustino, Fúlvio Flaco (Fulvius Flaccus; Lívio, Ab Urb. cond. 40.35.5-
7; 36.4, 36.10-11)149.

Na opinião de Dexter Hoyos 150, entre outros, a Península Ibérica representaria um


teatro de operações bélicas muito impopular: os confrontos revelavam-se difíceis,
perigosos e, após as primeiras três décadas de dominação romana, que concorreram
para a exaustão dos recursos locais para as pilhagens e saques, conduziram a que este
cenário geográfico se caracterizasse como uma região que poucos ou nenhuns ganhos
dariam às tropas. O referido autor entendeu que existiria, assim, não uma aversão em
relação ao serviço militar em geral, mas uma nítida renitência face a certos conflitos em
particular. No mesmo sentido seguiu Giovanni Brizzi 151, ao salientar que várias das
aparentes dificuldades no recrutamento evocadas pelas fontes antigas se relacionam
directamente com as levas destinadas à Hispânia, designadamente no período das
guerras celtibero-lusitanas.
A este respeito, o episódio mais paradigmático consiste na recusa em massa face a L.
Lícinio Lúculo, em 151 a. C., ao qual Políbio dedicou um longo relato (Hist. 35.4, veja-
se, também, Lívio, Per. 48). Além disso, os incidentes narrados pelos resumos de Tito
Lívio para os anos 140 e 138 a. C. foram muitas vezes aproximados com o referido
episódio, com o propósito de defender a ideia de uma renitência generalizada do
populus em servir na Hispânia durante a segunda metade do século II a. C 152. Todavia,
os problemas que ocorreram nestas três ocasiões são passíveis de se explicar de outra
maneira. Cabe igualmente realçar que a atenção que Políbio prestou às dificuldades
com que deparou Lúculo terá servido, acima de tudo, como pretexto para o autor grego
pôr em evidência as qualidades pessoais do jovem Cipião Emiliano, cuja intervenção,
na sua récita, veio a resolver quase miraculosamente a crise.
Ao analisarmos atentamente a narração polibiana, é difícil continuar a ver no
incidente que teve lugar no dilectus de 151 a. C. um testemunho de uma autêntica crise
no recrutamento de legionários, seja ela concebida na qualidade de uma evolução
produzida pelo conjunto das guerras de conquista do século II a. C., ou, então, como
uma reacção mais pontual, relacionada com a dureza particular dos conflitos celtibero-
lusitanos. Sob este ponto de vista, os testemunhos relativos aos anos 151, 140 e 138 a.
149
R. Feig Vishnia abordou a prática da conscrição e referiu-se ao descontentamento entre as tropas: cf.State, Society
and Popular Leaders in Mid-Republican Rome 241-167 BC, Londres, 1996, pp. 147-152.
150
«The Age of Overseas Expansion 264-146 B.C.», p. 67.
151
«Roma e la Spagna. Considerazzioni su un fronte difficile», in D. Biello, V. G. Lerda e O. Bergamini (eds.), Le stelle e
le strisce. Studi americani e militari in onore di Raimondo Luraghi, II, Milão, 1998, pp. 23-30.
152
Lívio, Per. Oxy. 54.182-183; IDEM, Per. 55.1-2.

73
C., cuja interpretação é assaz delicada na medida em que se baseia em textos
fragmentários, não devem conduzir a exagerar o impacto das guerras hispânicas sobre
as transformações que se operaram na cidade romana nesta altura.
Ainda há uma corrente historiográfica que continua a atribuir ao palco de operações
da Hispânia uma natureza muito específica, o que é discutível 153. O medo que a
peculiaridade das guerras ibéricas alegadamente infundiu na Urbs aparece na
qualidade de um lugar-comum herdado da tradição antiga 154. Sem negarmos as
dificuldades reais experimentadas pelos exércitos romanos face aos Celtiberos e aos
Lusitanos, parece-nos, todavia, excessivo atribuir aos conflitos desenrolados na
Península Ibérica um particularismo que muitos académicos aceitaram, apoiados numa
documentação que, na realidade, se afigura bem menos explícita155.
Assim, quanto à atitude dos Romanos face ao serviço militar e a sua evolução, não nos
devemos contentar em invocar as guerras pretensamente repulsivas, mas antes
perguntarmos o que significava, concretamente, ser um cidadão-soldado nesta época 156.
Implicaria este estatuto, por definição, uma vontade permanente de todos homens se
alistarem nas legiões? Enunciada deste modo, a ideia é absurda, mas foi àquilo a que se
chegou, sem o dizer, a hipótese segundo a qual se teria sucedido a um período quase
ideal, em que os cidadãos serviam de boa vontade no exército (formando autênticos
cidadãos-soldados), um outro, em que eles teriam, em contrapartida, deixado de
desejar ingressar nas fileiras, em massa, o que reflectiria uma desagregação do laço
entre o cidadão e o soldado. Cabe não enfatizar demasiado o contraste entre os começos

153
O que F. Cadiou procurou demonstrar na sua obra Hibera in terra miles. Les armées romaines et la conquête de
l’Hispanie sous la République (218-45 av. J.-C.), Madrid, 2008.
154
A impopularidade das campanhas hispânicas é um dos argumentos mais frequentemente invocados para presumir a
existência de significativas mudanças evolutivas nas condições do serviço militar a partir de meados do século II a. C.: E.
Gabba, Esercito e società nella repubblica romana, Florença, 1973, p. 28; W. V. Harris, War and Imperialism, p. 49; J.
K. Evans, «Resistance at Home. «The Evasion of Military Service in Italy during the Second Century BC», in T. Yuge e
M. Doi (eds,) Forms of control and Subordination in Antiquity. International Symposium for Studies on Ancient
Worlds (Susono City, 5-8 January 1986), Tóquio Leiden, 1988, p. 124; P. Connolly, «The Roman Army in the Age of
Polibius», in J. Hackett (ed.), Warfare in the Ancient World, Londres, 1989, pp. 149-168. Reencontramos o mesmo
postulado em publicações mais recentes: E. García Riaza, Celtíberos y lusitanos frente a Roma. Diplomacia y derecho
de guerra, Vitória, 2002, pp. 155-156; D. S. Potter, «The Roman Army and the navy», in H. I. Flower (ed.), The
Cambridge Companion of the Roman Republic, Cambridge, 2004, pp. 79-80; J. Serrati, «Warfare and the state», in P.
Sabin, H. Van Wees e M. Whitby (eds.), The Cambridge History of Greek and Roman Warfare. Volume I, Cambridge,
2007, pp. 495-496; L. De Ligt, «Roman Manpower Resources and the Proletarianization of the Roman Army in the
Second Century BC», in E. Lo Cascio e L. De Blois (eds.), The Impact of the Roman Army (200 BC-AD 476): Economic,
Social, Political, Religious and Cultural Aspects. Proceedings of the 6th Workshop of the International Network Impact
of Empire, Leiden/Boston, 2007, p. 50; C. Wolff, Déserteurs et transfuges dans l’armée romaine à l’époque
républicaine, Nápoles, 2009, p. 72.
155
Sobre a questão da especificidade atribuída às guerras hispânicas, cf. F. Cadiou, Hibera in terra miles. Les armées
romaines et la conquête de l’Hispanie sous la République, pp. 173-276.
156
Devido às mutações profundas que afectaram a sociedade romana na era da expansão mediterrânica, parece evidente
que a própria noção de cidadão-soldado não pode revestir exactamente as mesmas implicações em meados do século III
a. C. e no início do I. Sobre esta perspectiva, afigura-se rica a abordagem relativamente recente de P. Erdkamp (cf. «The
Transformation of the Roman Army in the Second Century BC», in T. Ñaco e I. Arryás [eds.], War and Territory in the
Roman World, BAR Inter. Ser. 1530, Oxford, 2006, pp. 48-50, para quem a evolução da relação existente entre os
Romanos e a obrigação da militia «was not simply a matter of the dislike of a particular theatre of war». No entender de
Erdkamp, terão sido, acima de tudo, o desenvolvimento económico e o fenómeno da urbanização da Itália,
características do século II a. C., que teriam modificado gradualmente a atitude de uma parte dos adsidui face ao serviço
militar: «Increased avoidance of military service may not have been a sign of moral decline but of economic change».
Doravante, a participação numa campanha militar não seria mais considerada como a melhor oportunidade para melhor
a sua situação económica.

74
da República e a fase da expansão ultramarina, de outro modo arriscamo-nos a
reproduzir um dos topoi mais difundidos da literatura greco-latina.
O serviço militar, bem como o imposto que lhe estava associado, encarou-se desde a
origem «como um encargo pesado e constrangedor», o que explica, por um lado, a
vontade permanente dos cidadãos de fazerem respeitar os seus direitos neste domínio,
designadamente em relação às vacationes e aos stipendia iusta, assim como, por outro,
o cuidado manifestado pelo Senado em velar pela sua repartição 157. Tal como em termos
fiscais, a imunidade face à conscrição sempre foi um privilégio desejável, mas ela viu-se
concedida parcimoniosamente, por razões bem particulares, aspecto que Claude
Nicolet salientou158. Basta lembrar o caso do jovem cavaleiro Aebutius, a quem coube o
mérito de haver denunciado ao cônsul o escândalo das Bacanais em 186 a. C., que
recebeu como recompensa uma dispensa do serviço militar 159.
Uma repartição desigual deste encargo no interior do populus pervertia o ideal cívico e
é por esta razão que este tema aparece explicitamente nos discursos popularis a partir
de finais do século II. Estas observações não contradizem a imagem que temos de uma
sociedade romana dotada de uma cultura profundamente militarista. Para concluir
diremos que foi precisamente pelo facto de o serviço militar se manter altamente
considerado por todos como uma dimensão essencial do estatuto e da actividade do
cidadão romano, que ele só pode reflectir para nós a complexidade da relação entre o
indivíduo e a cidade, a qual não podemos resumir através de posturas simplistas e
contrapostas, como a adesão incondicional ou a total rejeição.

II. 2. O impacto do serviço militar

Aqui não abordamos as repercussões que estas guerras internacionais tiveram a nível
económico e demográfico: interessa-nos mais realçar o facto de que tais conflitos
significaram um elemento constante na vida dos Romanos e do resto dos Italianos,
ponto bem ilustrado pela carreira de Ligustino. A procura regular de recrutas
experientes foi um efeito de outra característica das guerras em que os Romanos
participaram após 264 a. C.: o tamanho, sem precedentes, das forças militares em

157
F. Cadiou, «Le dilectus de l’année 151…», p.. 30.
158
Le métier de citoyen dans la Rome républicaine, Paris, 1976, p. 139.
159
Tito Lívio, Ab Urb. cond. 39.9.2 e 19.3-4.

75
actividade. É certo que o fenómeno bélico constituiu um rasgo típico da sociedade
romana desde os primórdios da Urbs, como a própria tradição o reconheceu. O Templo
de Jano foi encerrado, como indicação de paz total, supostamente apenas duas vezes
antes do tempo de Augusto – uma sob a égide do rei Numa Pompílio (Lívio, Ab Urb.
cond. 1.19.3) e outra em 235 a. C160.
Durante o século III, as legiões compreendiam, em princípio, 4200 soldados romanos
de infantaria e 300 de cavalaria (os últimos recrutados entre os cidadãos mais
desafogados), mais as tropas latinas e italianas que totalizariam o dobro desses
efectivos. Na Primeira Guerra Púnica, dois exércitos consulares, cada qual com duas
legiões, eram reunidos anualmente. De 261 a 249, e depois, de novo, em 242-241,
precisaram-se mais recrutas para as empresas romanas no mar, obtidos não entre os
cidadãos romanos, mas entre os aliados italianos que habitavam na faixa litorânea.
Num cálculo moderado, a frota enviada para invadir o Norte de África, em 256 a. C.,
englobaria 69 000 tripulantes; em 253, outra, que realizou uma incursão na mesma
região, teria idêntico número de homens, e em 249, quando duas frotas consulares
sofreram desaires, devido tanto ao inimigo como à força dos elementos naturais, as
suas equipagens combinadas ultrapassariam os 80 000 homens 161.
Os esforços envidados para arrolar tantos efectivos foram notáveis. Quando uma
grande frota e várias legiões partiam em campanha, como sucedeu em 256 ou 249, a
península itálica teria mais de 100 000 homens em condições de serem mobilizados.
Numa estimativa aproximativa, nestes anos, cerca de 12% dos homens disponíveis
estavam nas fileiras162. Isto não conheceu precedentes, embora fosse um conjunto de
iniciativas descontínuas e as suas repercussões se afigurem pouco claras. Surgiram
necessidades ainda maiores: foram convocados uns 155 000 homens para enfrentar,
em 225 a. C., uma invasão gaulesa, e um número um pouco menor (145 000, para
exércitos e frotas) no começo da Guerra de Aníbal:no seu ponto álgido, em 212-211,
com 25 legiões em Itália, na Gália Cisalpina, na Hispânia e na Sicília, e mais de 200
navios de guerra, o total de Romanos, Latinos e Italianos ascenderia a uns 110 000
homens163. Estamos perante um número extraordinário, para uma península cujos
recursos humanos disponíveis, pouco após 218, atingiriam 770 000 homens, segundo
Políbio (Hist. 2.24), cifra ainda mais espectacular, se corrigida para um valor mais alto:
875 000.
160
Cf. MRR , l. 223.
161
Sobre a origem das tripulações e os totais da unidades das frotas: J. H. Thiel, Studies of the History of Roman Sea-
Power before the Second Punic War, Amesterdão, 1954, pp. 73-96; J. F. Lazenby, The First Punic War. A Military
History, Londres, 1996, pp. 61-141
162
Em 256 a. C., 292 000 cidadãos foram recenseados (Eutrópio, 2.18). Em 225, a ratio dos Romanos em relação a todos
os Italianos, segundo os números apontados por Políbio, seria de aproximadamente 1: 2.8, pelo que no caso do ano de
265, isto significaria uns 817 000 italianos ao todo.
163
P. A. Brunt, Italian Manpower, pp. 417-428, 432-433, 669-670 e 671-686 (calculando cerca de 300 marinheiros e 40
«fuzileiros» por cada navio).

76
A seguir a 200 a. C., com os conflitos ao longo do Mediterrâneo, da Hispânia à Ásia
Menor, os efectivos rapidamente voltaram a subir: cerca de 212 000 em 190; no
derradeiro ano da Terceira Guerra Macedónica, ainda uns 150 000; em 146, quando
Cartago e Corinto foram saqueadas, a frota e as legiões (cada uma com 5 500 soldados e
um número idêntico de contingentes aliados) alcançaram um número similar. Em cada
década, entre 225 e 146 a. C., existiriam 8%, pelo menos, e durante a Segunda Guerra
Púnica, até 29% de Romanos com 16 anos de idade a cumprirem o serviço militar.
Por seu turno, embora a proporção entre cidadãos e aliados tenha variado ao longo
dos mesmos decénios, as exigências impostas aos socii latinos e italianos não foram,
decerto, mais leves, pelo contrário, manifestaram-se até mais pesadas. A sociedade
achava-se, portanto, permeada pelo fenómeno bélico num regime quase permanente.
Não restam dúvidas de que a maioria dos Romanos e Italianos terá servido nas armas,
ou que parentes seus o fizeram ou, então, ambas as coisas 164.

II. 3. A substituição de tropas nos palcos de conflitos

Nem sempre era possível repatriar anualmente as unidades militares romanas para
Itália, a fim de as substituir por outras novas num processo rotativo. Além dos
problemas logísticos, em razão das distâncias e dos gastos com os transportes, tal
sistema tinha o inconveniente de render soldados que já haviam adquirido certa
experiência no terreno, por recrutas (tirones), obviamente menos preparados para
participar em operações bélicas. Mais do que dissolver as legiões no fim de um ano de
campanha para reformar outras novas, pareceu mais pertinente renová-las em parte
mediante o envio, o mais regular possível, de tirones, que substituiriam os legionários
feridos, doentes ou mortos, assim como os que tivessem terminado o tempo de serviço.
Estes contingentes procedentes de dilectus parcelares encontram-se mencionados nas
fontes antigas sob a designação de supplementa.
O caso bem documentado das guerras na Hispânia ajuda a compreender melhor este
aspecto: as cifras dos supplementa que Tito Lívio fornece para o período compreendido
entre 206 e 168 a. C. permitem reconstituir, nas suas grandes linhas, um sistema de
rendição bastante sofisticado, cuja razão só poderá ter sido o de repartir mais

164
As cifras polibianas para 225 a. C. foram objecto de debates académicos: F. W. Walbank, A Historical Commentary
on Polybius, 1, pp. 196-203; P. A. Brunt, Italian Manpower, pp. 44-60. Quanto a uma estimativa «corrigida», ibidem, p.
54. No que respeita aos homens em serviço entre 200 e 146 a. C.: K. Hopkins, Conquerors and Slaves, Cambridge, 1978,
pp. 33-35; P. Erdkamp, Hunger and the Sword. Warfare and Food Supply in Roman Republican Wars (264-30 BC),
Amesterdão, 1998, pp. 263-268.

77
equitativamente o dever do serviço militar entre os mobilizáveis, facilitando a
substituição regular dos soldados165. Nada leva a duvidar que este sistema não se
generalizou, nem que o seu princípio não se possa extrapolar para os períodos
subsequentes, sobre os quais carecemos de testemunhos tão precisos como o de Tito
Lívio.
Sublinhemos também que o Senado romano, do qual dependiam as decisões sobre os
efectivos e as levas, parece ter procurado assegurar em toda esta matéria uma
verdadeira gestão. O exemplo atrás mencionado de Espúrio Ligustino, de que Lívio
transmitiu o discurso proferido em público por ocasião do dilectus de 171 a. C. ilustra
tal princípio de rotatividade, no qual, em contrapartida, não se hesitava em mandar
regressar um soldado ao mesmo teatro de operações após uma interrupção
momentânea166. Se a importância desta noção de descontinuidade no cumprimento do
serviço militar faz parte, por exemplo, dos argumentos de Nathan Rosenstein 167 para
matizar o desenraizamento dos camponeses mobilizados, importa acrescentar que se
tratava de uma descontinuidade organizada em larga medida pelo Estado romano que,
longe de abandonar comodamente os cidadãos incorporados à sua sorte, como
pretendeu Arnold J. Toynbee168 para o século II, evitava, pelo contrário, deixá-los sob as
insígnias durante demasiado tempo. As próprias reivindicações em torno do respeito
pelas isenções, na segunda metade do século II a. C. só podem entender-se neste
contexto169.
Sabe-se que, em vários momentos, o Senado obrigou os generais enviados para a
Hispânia a «pouparem» os veteres milites em proveito dos tirones, como aconteceu em
145 ou em 140 a. C170. Muitas vezes interpretados de formas diversas, estes episódios
testemunham, acima de tudo, uma vontade deliberada de observar o princípio do
recrutamento, poupando o mais possível os menos jovens dos iuniores, os quais, por
volta dos 30 anos de idade, se costumavam casar e fundar uma família, isto se nos
escorarmos nos estudos dos especialistas em nupcialidade romana 171.
Para os soldados que serviam no Ultramar vários anos consecutivos, era muitas vezes
impossível fazerem-se recensear em Roma. Uma passagem de Lívio (Ab Urb. cond.

165
Veja-se F. Cadiou, Hibera in terra miles. Les armées romaines et la conquête de l’Hispanie sous la République, pp.
157-170.
166
IDEM, «À propos du service militaire dans l’armée au IIe siècle av. J.-C. Le cas de Spurius Ligustinus 76-90.
167
Rome at War: Farms, Families and Death in the Middle Republic, Chapell Hill/Londres, 2004, p. 103. Esta
interpretação da militia constitui um prolongamento de reflexões mais antigas, que nem sempre tiveram o eco que
mereceriam: tal é o caso, por exemplo, dos comentários tecidos por E. S. Gruen (The Last Generation of the Roman
Republic, Berkeley/Los Angeles/ Londres, 1974, pp. 379-380) num capítulo que se perfila como uma das apresentações
mais penetrantes e equilibradas sobre a evolução social do exército cívico no século I a. C.
168
Hannibal’s Legacy: The Hannibalic War’s Effects on Roman Life, II, Londres/Nova Iorque/Toronto, 1965, p. 75. A.
Toynbee acreditou, de facto, que o Senado abandonou à sua sorte os «forgotten armies» nas províncias.
169
E.g., em 151 (Lívio, Per. 48.16), e em 138 (ibidem, 55.3).
170
Para 145: Apiano, Ib. 65; para 140: ibidem, 78.
171
N. Rosenstein, Rome at War…, pp. 82-86.

78
29.37.5) sublinha os problemas com que deparavam os censores para exercerem a sua
função em 204 a. C. Doravante seria mais apropriado efectuar recenseamentos a nível
local para se arrolarem tanto os cidadãos romanos como os vassalos. De facto, era o
meio mais eficaz para avaliar os efectivos a renovar e calcular o montante dos soldos a
pagar. Os governadores das províncias em causa e os quadros das legiões terão sentido,
portanto, a necessidade de dispor de documentos actualizados em relação a cada uma
das unidades, a fim de gerirem mais facilmente o pessoal militar, colocado sob a
autoridade dos mesmos vários anos sucessivos, e de darem conta disto a Roma. Assim,
podiam contabilizar os anos de serviço (stipendia) e as baixas sofridas, sem que os
soldados ou os censores se vissem obrigados a deslocar-se: a mobilidade da
documentação começou a substituir-se à mobilidade dos homens.
Para distinguirem melhor as legiões mais numerosas e mantidas nos teatros de
operações anos a fio, as autoridades passaram a atribuir-lhes um número. Observa-se
esta numeração das legiões desde a Segunda Guerra Púnica. Sob a República, o sistema
de numeração das legiões era relativamente fácil de compreender: cada uma das
últimas tinha, aquando da sua criação, um número que dependia da quantidade de
legiões existente nesse ano. Os números I a IV parecem ter sido reservados para as duas
legiões mobilizadas por cada cônsul. Mas, como referimos, nem todas as legiões
formadas anualmente seriam dissolvidas ao mesmo tempo. Logicamente, a numeração
era então susceptível de mudar em cada ano, quando o número de legiões estivesse
completo ou diminuído, em função das necessidades do momento: uma legião, cujo
pessoal não houvesse sido inteiramente renovado de um ano para outro, podia ver
atribuído um número diferente.

II.4. A adaptação do comando às novas circunstâncias

A duração das operações bélicas excedia cada vez mais o espaço de um ano, o tempo
em que, segundo a lei, estavam vigentes as magistraturas. A continuidade indispensável
de certas campanhas tornava necessário o prolongamento dos poderes dos magistrados
que tinham recebido a tarefa de as conduzir. Estas missões encontraram-se na origem
do conceito romano de provincia: com efeito, antes de corresponder a um território

79
conquistado e bem delimitado a administrar, o termo latino provincia designava a
missão atribuída a um magistrado, podendo ela ser tanto de ordem militar como
administrativa ou jurídica. Se nos ativermos a Lívio (Ab Urb. cond. 8.23), o primeiro
caso de prorrogação dos poderes de um magistrado sobreveio durante as Guerras
Samnitas. Mas esta medida generalizou-se, sobretudo a partir da Segunda Guerra
Púnica. Em contrapartida, o recurso à ditadura, isto é, a um comando único por seis
meses, não se atesta mais como medida para afastar uma ameaça militar a seguir à
Segunda Guerra Púnica. O último que a exerceu foi Quinto Fábio Máximo, escolhido
pelo Senado para aplicar uma estratégia temporária contra Aníbal em solo itálico (217
a. C.). Não há dúvida que a limitação dos seus poderes a um período de seis meses
tornava a ditadura menos adaptada às novas condições em que se fazia a guerra.
No século III a. C., o Senado, na sua primeira sessão anual (no dia 15 de Março, até
153 a. C., que depois passou para 1 de Janeiro), podia decidir prorrogar o imperium dos
magistrados já investidos nos cargos para o ano seguinte. O senatusconsultum de
prorrogação era ser também ratificado por um plebiscito. Uma lei Sempronia, a
respeito das províncias, de Caio Graco (123 a. C.), estipulou que os senadores
determinariam quais seriam as províncias confiadas aos cônsules, antes da reunião dos
comícios eleitorais. Uma vez eleitos os magistrados, a repartição das províncias entre
eles e os promagistrados era objecto de um sorteio no Senado. Como a prorrogação ia
contra o princípio da anualidade das magistraturas, tentou-se evitar que se
desenvolvessem eventuais manobras, que poderiam levar a que certos comandos
provinciais servissem de trampolim para a instauração de um poder pessoal.
Os tribunos da plebe, ao contrário do que antes sucedera, já não podiam exercer o seu
direito de intercessão, salvo na atribuição das províncias pretorianas. Mas o Senado
conservava a possibilidade de qualificar uma província de pretoriana ou consular. Por
outro lado, constata-se a presença ainda frequente, em várias províncias, de homens
pertencentes à mesma família ao longo de duas ou três gerações. Após a derrota
romana pelos Cimbros perto de Arausio (actual Orange, França), em 105 a. C., um
plebiscito revogou o imperium do procônsul Quinto Servílio Cépio (Caepio), o que
nunca até aí havia acontecido. Em 52 a. C., uma lei Pompeia fixou um prazo de cinco
anos entre o exercício da pretura ou do consulado, e o direito de tirar à sorte uma
província, pretoriana ou consular, limitando a um só ano a duração de um governo
provincial.
A prorrogação consistia originalmente em prolongar uma magistratura para além do
seu termo legal. Contudo, este procedimento conduzia à distinção da magistratura, no
seu sentido estrito, que expirava, dos poderes que a mesma tinha conferido ao seu
titular, os quais se viam temporalmente dilatados. Mas os últimos apenas se podiam

80
exercer fora do pomerium, na medida em que a prorrogação só dizia respeito ao
imperium militiae. Atribuiram-se, então, competências e poderes a indivíduos que não
tinham forçosamente exercido a magistratura que aos mesmos correspondia. Um
procônsul não era, pois, necessariamente, um antigo cônsul, dando-se o caso de tratar-
se de indivíduos que somente ocuparam o cargo de pretor, ou até que não tivessem
exercido qualquer magistratura da carreira das honras, o chamado cursus honorum.
Foi o que sucedeu com o jovem Cipião, o futuro Africano, investido em 211 a. C. do
comando das operações militares contra Cartago na Península Ibérica, com o título de
procônsul.
Os promagistrados172 eram usualmente investidos de um imperium consular. De facto,
só este permitia ao seu detentor delegar poderes a subordinados na sua província.
Podiam, então, beneficiar um questor ou, ainda, oficiais que vieram a desempenhar um
papel cada vez maior, os legados. Num contexto caracterizado pelo aumento do número
das legiões mobilizadas em simultâneo, era necessário, de facto, confiar o mando de
algumas delas a oficiais senatoriais chamados legados. Estes, inicialmente, foram
designados pelo Senado, que os utilizava para controlar os comandantes-chefes
detentores do imperium.
No entanto, no último século antes da nossa era, parece que a sua nomeação caberia
ao magistrado ou ao promagistrado responsável pela condução das operações bélicas.
Assim, os legados recebiam uma delegação mais ampla de competências e atribuições
do que os tribunos militares. Todavia, o principal garante da continuidade da política
militar romana foi o Senado, pelo menos até ao último terço do século II a. C., que
comportava em si mesmo a permanência e a autoridade indispensáveis.

II.5. Avaliação dos «níveis de risco» nas «Grandes Guerras»

Curiosamente, as grandes massas de tropas de Roma conheceram destinos distintos


nos séculos III e II a. C.. As primeiras duas Guerras Púnicas foram praticamente
ruinosas em vidas. As frotas durante a Primeira Guerra Púnica constituíram sérios
riscos por causa da falta de perícia naval e, ocasionalmente, devido ao talento do
antagonista. Se bem que diversos estudiosos tenham posto em causa os números
172
P. Southern, The Roman Army. A Social and Institutional History, p. 66.

81
apontados por Políbio, é incontestável que se registaram perdas muito significativas
tanto em navios como em tripulantes, como atrás se disse. As baixas sofridas no mar
atingiram sobretudo os socii italianos, dado que os aliados da faixa costeira da
península forneciam a maioria das equipagens.
Na Segunda Guerra Púnica, foram os exércitos romanos a sofrer catástrofes, não só
em Itália, mas também na Gália Cisalpina e na Hispânia. Mesmo que, por exemplo, as
baixas que os Romanos sofreram em Canas se tenham estimado em cerca de 30 000
mortos, o que não é inteiramente convincente, e 10 000 prisioneiros – da mesma forma
que Apiano afirmou (Pun. 134.635) que Aníbal destruiu 400 cidades italianas e
massacrou 300 000 inimigos – a península itálica, em especial a sua metade
meridional, sofreu tremendamente durante quinze anos de guerra. O território romano
per se, fora da Campânia, não foi muito afectado após 217 a. C. No entanto, o census de
203, elaborado com especial cuidado (Lívio, Ab Urb. cond. 29.37.5-6), registou apenas
214 000 cidadãos - embora tenha omitido vários milhares de Capuanos então privados
de direitos civis. O impacto sobre as populações italianas mais leais a Roma terá sido
proporcionalmente muito mais duro, ao passo que os que se bandearam para o inimigo
não só tiveram de fornecer tropas para o esforço de guerra de Aníbal como também,
mais tarde, sofreram as funestas consequências da sua defecção nas mãos dos
Romanos173.
Os conflitos seguintes traduziram-se num contraste que podemos qualificar de
«revolucionário». Nenhum, no Oriente, durou mais do que quatro anos. Os Romanos
registaram baixas bem menores: 700 mortos contra 8000 macedónios em Cinoscéfalas,
em 191, em que Ligustino, a corresponder verdadeiramente a uma figura histórica, terá
participado (Políbio, Hist. 18.27.6; Lívio, Ab Urb. cond. 33.10.7); supostamente 324 em
Magnésia (190), contenda em que o monarca selêucida Antíoco III foi esmagado (Lívio,
Ab Urb. cond. 37.44.2); de acordo com Tito Lívio, na batalha de Pidna, em 168 a. C.,
terão perdido a vida, do lado romano, 100 homens, na sua maioria socii italianos, e
entre os Macedónios, 20 000 (44.42.7-8). Também houve derrotas, haja vista
Callinicus (171), contra os Macedónios (42.57.60), mas nenhuma delas assumiu,
aparentemente, grande magnitude. Houve poucas acções navais e nenhum desaire
significativo. Não obstante as mortes resultantes de ferimentos, escaramuças e
achaques diversos, é provável que as forças romanas possam ter acreditado, no âmbito
das guerras orientais, ser à prova de danos e, em certa medida, invencíveis.

173
Perdas navais e outras: (264-241 a. C.): J. F. Lazenby, The First Punic War, pp. 161-164. Baixas na batalha de Canas:
P. A. Brunt, Italian Manpower, pp. 419, 694-695; Lazenby, Hannibal’s War, Warminster, 1978, pp. 84-85; A.
Goldsworthy, Cannae, Londres, 2001, pp. 191-195; G. Daly, Cannae. The Experience of Battle in the Second Punic War,
Londres/Nova Iorque, 2002, pp. 155-200 (para a descrição da batalha), 198-199 (baixas sofridas pelos Romanos). Sobre
a punição de aliados rebeldes: J.-M. David, The Roman Conquest of Italy, pp. 62-69.

82
Ainda que os conflitos na Hispânia depois de 201 a. C. se caracterizassem por poucos
desfechos rápidos – em vez disso, envolvendo muitas marchas, uma série de assédios e
antagonistas bastante dispersos evidenciando uma resistência frustrante – as forças
romanas eram em número mais reduzido (habitualmente uma legião por cada
província), as baixas muito menores e, entre 179 e 154 a. C., o desenrolar dos
acontecimentos foi largamente pacífico.
No século II antes da nossa era, outras guerras caracterizaram-se pela sua escala
reduzida, haja em vista as operações intermitentes nas montanhas Ligurianas do Norte
de Itália, na Sardenha e na Córsega, assim como ao longo do Adriático, na Ilíria e na
Dalmácia; em geral, estas campanhas obedeceram à obtenção de despojos, escravos e
glória.

II. 4. Por que motivos combatiam os Romanos?

Esperava-se dos cidadãos que cumprissem o serviço militar no Mediterrâneo, como as


22 campanhas em que participou Ligustino ilustram. Tratava-se de um aspecto que
tanto o Senado como os magistrados tinham como dado adquirido. Eles também
partiam da premissa de que os indivíduos fisicamente aptos serviriam no exército, fosse
como voluntários ou como conscritos. Esta predisposição duradoura do cidadão
comum em participar nas guerras era um dos elementos que conferia às comunidades
romanas e itálicas uma extraordinária textura combativa e obstinada, como Aníbal
constatou e Políbio elogiou. A defesa de uma patria ameaçada oferecia aos soldados
romanos, e decerto também aos italianos, uma motivação especial, aspecto que Políbio
sublinhou, contrastando com os Cartagineses:
«[Os Cartagineses] utilizam forças de estrangeiros e mercenários, mas os Romanos,
autóctones e cidadãos… O Estado romano deposita as suas expectativas nas suas próprias
qualidades e no apoio dos seus aliados. Assim, caso eles dêem um passo em falso no início, os
Romanos reagem com toda a sua força, mas os Cartagineses fazem o contrário. Quando lutam
pela sua terra-natal e pelos seus filhos, eles [os Romanos] não podem, de maneira alguma,
relaxar o seu fervor, mantendo-se em ordem de batalha, psicologicamente firmes, até vencerem
os seus oponentes» (Hist. 6.52.4-7).
Mas nas guerras no estrangeiro, os grandes exércitos e as poderosas frotas não se
revelariam eficientes só mediante a imposição de uma disciplina feroz e de severas
punições, aspectos que Políbio também descreve (Hist. 6.36.6-38.4). Os despojos
constituíam um forte incentivo, como vimos. Mas nem todos os conflitos armados
forneceram avultados espólios.
Na realidade, havia séculos que um inequívoco consenso e um sentido muito forte de
compromisso, a nível comunitário, estavam enraizados nos cidadãos da res publica.
Políbio realça a coesão e o empenho dos mesmos: todos proferiam e mantinham o

83
juramento de obediência (Hist. 6.21.1-3); cada homem mobilizado para o serviço
militar apresentava-se quando tal lhe fosse ordenado (ibidem, 6.26.1-4); as tropas que
formavam a guarda de corpo (extraordinarii) do cônsul eram escolhidas entre os
contingentes dos aliados (ibidem, 6.26.6-9), o que constituía um indubitável «símbolo
de camaradagem e confiança»; os castigos e as recompensas motivavam igualmente
todos os indivíduos – não só os soldados mas também os seus familiares e vizinhos
(ibidem, 6.37.1-39.11). O autor grego também se impressionou com a meticulosidade
existente nos exércitos romanos no que respeita à reunião e à distribuição do produto
de saque numa cidade conquistada, com os efectivos aliados recebendo, assim como os
romanos, o seu quinhão (ibidem, 10.16.2-9)174.
O exemplo mais flagrante da determinação férrea evidenciada pelos Romanos na
guerra radicou, para Políbio, na sua recusa em negociar com Aníbal após a batalha de
Canas, quando praticamente se julgava tudo perdido; e um prisioneiro de guerra a
quem se deixou sair em liberdade condicional, para se deslocar a Roma, viu-se de
imediato enviado de volta ao cativeiro (Políbio, Hist. 6.58; Lívio, Ab Urb. cond. 22.58-
59-10, 61.1-10). As denominadas legiones Cannenses, que por longo tempo sofreram, a
despeito de algumas queixas (Lívio, Ab Urb. cond. 22.5.10-7.4), acabaram por oferecer
sólidas prestações ao longo de todo o conflito: capturaram Siracusa em 211 a. C. e, em
Zama (202), destruíram o último exército de Aníbal.
Quanto a E. Ligustino e os seus camaradas centuriões, mostraram-se suficientemente
resolutos ao protestarem em face do que encararam como um tratamento injusto, mas
depois, suficientemente disciplinados para aceitarem o que o seu comandante havia
decidido (dando Lívio a entender que a decisão estaria, aliás, em conformidade com as
exigências daqueles). Todavia, por vezes, ocorriam atitudes diferentes, acima referidas,
quanto ao serviço militar: não se tratava de uma aversão em relação à guerra, mas
cepticismo, quando se era convocado para campanhas em que não estava em causa a
defesa da pátria, nem havia boas perspectivas de lucro com os despojos.
Naturalmente que os exércitos romanos não corporizavam a perfeição moral, e os
seus historiadores registam muitas falhas e atrocidades175. Os despojos, as expectativas
de obtenção de riquezas, significavam um grande catalisador para alguém se alistar em
campanhas realizadas no estrangeiro. De novo, e à parte da natureza inexorável das
batalhas e perseguições, da tomada de cidadelas e da devastação dos campos, as tropas
podiam tornar-se desmoralizadas, como sucedeu na contenda de Trasimeno (Políbio,
Hist. 3.84.2-14), ou descontrolar-se por completo, como aconteceu no motim eclodido
174
No que toca às pilhagens e aos saques levados a cabo pelos Romanos (não tão «organizados» como nos dá conta
Políbio): Ziolkowski, «Urbs direpta, or how the Roman sacked cities», in J. Rich e G. Shipley (eds.), War and Society in
the Roman World, Londres, 1993, pp. 69-91. Sobre os despojos enquanto único factor, veja-se P. Erdkamp, Hunger and
the Sword, p. 265.
175
Veja-se, a propósito, Joseph Hall, «Brutality and the Roman soldier: Killing beyond the battlefield», Ancient Warfare
VI.1 (2013), pp. 2-6.

84
na Hispânia, em 206 a. C., ou ainda no saque selvático perpetrado em Foceia, em 190
(Lívio, Ab Urb. cond. 37.32.10-13).
Ocasionalmente, os próprios comandantes também exerceram mal as suas funções: a
seguir à batalha de Canas, alguns jovens oficiais quiseram emigrar (Lívio, Ab Urb.
cond. 22.53-5.4-13). Pleminio, o legatus de Cipião-o-Africano, na italiana Locri em
205, cometeu crimes e permitiu que se levassem a cabo outras atrocidades, até fazendo
orelhas moucas aos protestos dos seus tribunos militares (ibidem, 29.9,29.16.4-19.2).
Em 171 a. C., o nada escrupuloso pretor Lucrécio (Lucretius) chegou a incentivar os
seus soldados a agirem com inusitada violência, mesmo contra cidades amigas (ibidem,
42.63.3-11; 43.6.1-3, 7.5-11).
Na Hispânia, nos anos 50 do século I a.C., sobrevieram actos verdadeiramente
hediondos, muitos ordenados pelos violentos governadores Lúculo e Galba e pelos
jovens oficiais mandriões vexados por Cipião Emiliano. Em certos casos, estes
comportamentos lamentáveis provocaram furor em Roma e alguns perpetradores, pelo
menos, vieram a receber castigos, como Plemínio, que morreu na prisão, ou Lucrécio,
que obrigado a pagar uma multa de 1 000 000 asses (29.19.3-21.3; 43.8)176.

II.5. As estruturas militares romanas

Políbio, um militar experiente, demonstrou o seu assombro pela maneira como os


Romanos praticavam a guerra: eles organizaram (segundo ele) as maiores frotas que o
mundo, até então, havia conhecido, aquando do primeiro conflito com Cartago (Hist.
1.63.4-9). Verdade seja dita que Políbio transmite informações de inestimável valor
sobre o sistema militar romano durante as grandes guerras; explica por que razão as
paliçadas dos acampamentos romanos eram superiores às gregas, discorrendo,
também, como a formação legionária levou de vencida a falange (ibidem, 6.19-42;
18.18; 18.28-32). O autor grego mostrou igualmente que os Romanos dispunham de
efectivos, (de cidadãos e aliados), enormes comparativamente aos padrões gregos e
mesmo selêucidas, e que a sua história ilustrou, repetidas vezes, a sua capacidade na
utilização desse potencial humano da melhor maneira: «Naturalmente, os resultados
das suas empresas na guerra provaram ser exitosos e esplêndidos» (ibidem, 6.39.11).

176
Lúculo e Galba: MRR, l. 455-457. Cobardia e outros vícios nos Romanos descritos por Políbio: A. M. Eckstein,
«Physis and Nomos: Polybius, the Romans, and Cato the Elder», in P. Cartledge et al. (eds.), Hellenistic Constructs:
Essays in Culture, History and Historiography, Berkeley, 1997, pp. 175-198.

85
Como vimos, o exército fora originariamente constituído por cidadãos romanos em
armas, com o Campus Martius enquanto local tradicional de reunião das tropas 177.
Anualmente, os cônsules, e outros magistrados qualificados se necessário, recrutavam
as forças que precisavam entre os cidadãos fisicamente aptos, com idades indo dos 17
aos 46 anos (Políbio, Hist. 6.19.5-21.10). A organização das levas em fileiras legionárias
tinha lugar em Roma (embora o Africano, em 205 a. C., tenha mobilizado os seus
soldados na Sicília (Lívio, Ab Urb. cond. 29.1.1). Entretanto, as comunidades latinas e
italianas aliadas passaram a arrolar os seus próprios contingentes, conforme estava
especificado nos termos das suas alianças com os Romanos, juntando-se os mesmos, a
seguir, às forças romanas. Este processo podia levar algum tempo, mas se afluísse a
Roma um número suficiente de homens elegíveis antes da leva, como sucedeu em 169
a. C. (ibidem, 43.14.2-15.1), e talvez em 264 178, o recrutamento podia ficar terminado no
espaço de uns quinze dias.
Do século II a. C. em diante, o exército passou a incluir também, por vezes, pequenos
corpos de tropas especialistas de apoio, como os fundibulários das Baleares, cuja
pontaria certeira no arremesso de pedras e de bolas de chumbo era lendária, ou, então,
cavalaria gaulesa e ibérica, mais manobrável e dispensável do que os agrupamentos
montados de cidadãos ou de italianos. Políbio descreve, sugestivamente, como
funcionava o exército de princípios a meados do século II a. C.: os métodos utilizados
no recrutamento, o armamento, pormenores sobre a organização dos acampamentos de
marcha, e uma estrita disciplina179.
Confirmam-se alguns aspectos noutras fontes, nomeadamente nas arqueológicas: os
acampamentos romanos situados perto de Numância 180, em Espanha, bem como o sítio
de Renieblas, obedecem, grosso modo, aos princípios enunciados por Políbio, na
medida em que as condições do terreno o permitissem. Aqui, como noutros locais, os
achados apoiam igualmente a descrição que o autor grego (6.23-24) fez dos pila dos
legionários, do escudo pesado e oblongo (scutum), do gladius e das armaduras (que
podiam consistir em placas metálicas a protegerem o peito,ou, no caso dos soldados
com mais posses, em cotas de escamas ou de malha) e dos elmos, utilizando-se
sobretudo o tipo «Montefortino» e, em menor grau, o «Etrusco-Coríntio» 181.
Lembremos que na Segunda Guerra Samnita a legião desenvolveu um dispositivo
assaz flexível, baseado em pequenas «companhias» ou manipuli, desdobradas
177
L. De Ligt, «Roman Manpower and Recruitment during the Middle Republic», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to
the Roman Army, pp. 115-116.
178
D. Hoyos, Unplanned Wars: The Origins of the First and Second Punic Wars, Berlim, 1998, pp. 64-65.
179
N. Fields, The Roman Army of the Punic Wars, Oxford, 2007, pp. 17-27.
180
A. Schulten, Geschichte von Numantia, 2ª edição (a primeira data de 1933), Munique/Nova Iorque, 1975, pp. 41-48,
93-129.
181
Para uma abordagem objectiva do armamento romano durante a República: M. C. Bishop e J. C. N. Coulston, Roman
Military Equipment, pp. 47-64; quanto aos elmos, veja-se M. Feugère, Les armes des Romains de la République à
l’Antiquité Tardive, Paris, 1993, pp. 72-80; idem, Casques antiques, Paris, 1994, pp. 37-41.

86
normalmente em três linhas (triplex acies/«linha tripla») – situando-se os hastati (os
homens mais jovens) na frente, os principes no meio e os triarii (mais velhos e
experientes) na retaguarda. Por sua vez, o manípulo compunha-se de dois «pelotões»,
centuriae, cada um sob as ordens de um centurião. Em batalha, as centúrias
posicionavam-se umas atrás das outras - daí os dois centuriões manipulares serem
designados como prior e posterior (respectivamente), o que se confirma no discurso de
Ligustino -, ao passo que ao longo da triplex acies os manípulos se dispunham numa
sequência alternada, quase ao jeito dos quadrados pretos e brancos de um tabuleiro de
xadrez.
Um exército englobava igualmente numerosos soldados de infantaria ligeira aos quais,
por volta de 211 a. C., se deu o nome de velites: seriam, com toda a probabilidade,
cidadãos com idades variáveis que não tinham recursos para arranjar armamento
dispendioso. Numa legião de uns 4 200 homens, cerca de 1200 (quase um em cada
três) eram velites, cabendo-lhes a missão de perturbar os inimigos através de
escaramuças, antes de uma contenda realmente começar e, depois, após a vitória,
ajudavam na perseguição dos antagonistas e na pilhagem dos seus bens.
Lívio (Ab Urb. cond. 8.8.9-13) apresenta a formação manipular como existindo já em
338 a. C., embora nem todos os pormenores coincidam com a legião do século II
exposta por Políbio: por exemplo, Lívio atribui quinze manípulos a cada linha e lanças
(hastae) somente aos triarii. Implicitamente, então, as outras duas linhas já utilizariam
o dardo (pilum) e o gladius, embora Políbio seja o primeiro a atestar a presença destas
duas armas. Dois pila, para arremesso, um pesado e que outro ligeiro, substituíram a
longa lança (ou pique) do falangista; por fim, os triarii também deixariam de se servir
das suas hastae. Os legionários brandiam igualmente uma espada de dois gumes,
empregue tanto para estocadas como cutiladas, que Políbio e outros autores antigos
qualificaram de gladius hispaniensis (Hist. 6.23.6; cf. 2.30.8, 33.5-6; Livio, Ab Urb.
cond. 31.34.4, etc.).
Efectivamente, por meio de trocas comerciais ou de outros contactos, o gladius pode
ter procedido da Hispânia, já que se encontraram espadas muito parecidas em vários
sítios arqueológicos da Península Ibérica, datando de tempos mais recuados 182. Ao
manusearem o gládio, segundo vários textos antigos, os Romanos causaram grandes
carnificinas entre os antagonistas. Lívio registou, de maneira até complacente, o terror
dos Macedónios depois de um recontro com a cavalaria romana em 200 a. C.:
«[…] os que tinham visto ferimentos provocados por dardos, flechas e, ocasionalmente, lanças,
nos seus confrontos regulares contra os Gregos e os Ilírios, observaram corpos decapitados pela
182
D. Hoyos, «The Age of Overseas Expansion», p. 69. De acordo com F. Quesada Sanz, o tipo originário do gladius
hispaniensis romano terá sido uma versão celtibérica da antiga espada gaulesa do período La Tène I, substancialmente
modificada na Meseta hispânica durante o século III a. C., sobretudo no que se refere ao comprimento e no sistema de
suspensão: «Qué hay en un nombre? La cuestión del gladius hispaniensis», Boletín de la Asociación Española de
Amigos de la Arqueología 37 (1997), pp. 41-58.

87
espada hispânica, braços e ombros decepados ou pescoços inteiramente cortados, as cabeças
separadas dos corpos, as vísceras à mostra e outras chagas hediondas; em pânico, constataram
com que género de armas e com que homens teriam de combater» (Ab Urb. cond. 31.34.4)183.
A espada do legionário romano da época das Guerras Púnicas fez correr rios de tinta e
gerou abundante literatura, centrada sobretudo no momento histórico em que a espada
curta de estoque de tradição grega foi substítuida por outra mais comprida, servindo
tanto para assestar cutiladas como estocadas, de origem hispânica, e na identificação
do protótipo peninsular, para o qual se propuseram ideias peregrinas, como a de
considerar a falcata o modelo do gladius hispaniensis, ou o de outros tipos de espadas
da Segunda Idade do Ferro ibérica. A identificação recente de algumas espadas
romanas, datando do século II a. C., em locais como Delos, conduziu a uma autêntica
avalanche de publicações sobre outros achados no Sul de França, na Eslovénia, Israel e
noutros países, que demonstrou, em definitivo, que não se podem transpor para um
passado mais recuado as espadas de lâmina curta e recta alto-imperiais dos tipos
«Mainz» e «Pompeia»184.
Aceite tal facto, foi possível identificar com rigor o protótipo pensinsular do gladius
hispaniensis, neste labor se destacando, como atrás tivemos o ensejo e dizer, F.
Quesada Sanz185. Com base nas investigações deste historiador espanhol, os Romanos
terão adoptado, entre 216 e 209 a. C., a versão hispânica tardia da espada de lâmina
recta e ponta aguçada, produto da evolução do tipo gaulês de La Tène I (quando na
Gália propriamente dita esta arma já deixara de ser usada havia cerca de um século),
provida de uma bainha tipicamente peninsular, com armação metálica e suspensão por
meio de um boldrié e de ilhós, em vez da bainha gaulesa de chapa metálica suspensa de
um cinto. Esta teoria foi aceite por P. Connolly, 186 entre outros.
Publicaram-se outros estudos relevantes, como os de J. Horvart 187 e, sobretudo, de J.
Istenic188, que advertiu para a descoberta de um gladius na Eslovénia, pertencente ao
período tardo-republicano, dotado de uma complexa bainha de armação metálica,
denotando paralelos em algumas falcatas ibéricas 189. A. Rapin190 identificou, pelo seu

183
L. Keppie, The Making of the Roman Army, pp. 44-51. Sobre o equipamento militar: F. Walbank, A Historical
Commentary on Polybius, 2, pp. 703-706; P. Connolly, Greece and Rome at War, pp. 130-133.
184
M. Feugère, Les armes des romains de la République à l’Antiquité tardive, p. 137ss.; M. C. Bishop e J. N. C. Coulston,
Roman Military Equipment…, 1993, p. 69ss.
185
El armamento ibérico. Estudio tipológico, geográfico, funcional, social y simbólico de las armas en la Cultura
Ibérica (siglos VI-I a. C.), Monographies Instrumentum 3, Montagnac, Monique Mergoil, 1997, pp. 260-270; IDEM,
«Gladius hispaniensis: an archaeological view from Iberia», in M. Feugère (ed.), L’équipement militaire et l’armement
de la République, JRMES 8, 1997, pp. 251-270; IDEM, «Qué hay en un nombre? La cuestíon del gladius hispaniensis»,
art. cit. (para mais dados sobre as fontes originais e a discussão pormenorizada do tema.
186
P. Connolly, «Pilum, Gladius and Pugio in the Late Republic», in M. Feugère (ed.), L’équipement militaire et
l’armement de la République, p. 56.
187
«Roman Republican weapons from Smihel in Slovenia», in M. Feugère (ed.), L’équipement militaire…, pp. 105-120.
188
«A Roman late-republicans from the river Ljiubljanica (Slovenia)», Arheoloski vestnik 51 (2000), pp. 171-182; IDEM,
«A Roman late-republican gladius from the river Ljiubljanica (Slovenia)», in A. T. Croom e W. B. Griffiths (eds.), Re-
Enactment as research. 12th ROMEC, JRMES 11 (2000), pp. 1-9..
189
Por exemplo, Reig Segui, «El armamento de la necrópolis ibérica de La Serreta de Alcoi (Alicante, España)», Gladius
20 (2000), pp. 75-117, est. IV.
190
«Des épées romaines dans la collection d’Alise Sainte-Reine», Gladius 21 (2001), pp. 31-56.

88
perfil pistiliforme, como gladii polibianos duas espadas do espólio arqueológico
recolhido em Alise Sainte-Reine (Alésia), além de aflorar questões relativas às bainhas.
Três anos volvidos, G. D. Stiebel 191 descreveu um gladius exibindo características
«hispânicas», procedente de Jericó e situado num contexto helenístico, o que atesta a
rápida difusão que conheceu este tipo de espada, até no Oriente grego: a arma poderia
provir de qualquer ponto da Península Ibérica, durante o século II antes da nossa era.
Por último, a monografia de M. Luik 192 sobre Numância, o estudo de S. Sievers 193 das
armas de Osuna, bem como um artigo de E. Nuñez e Quesada Sanz 194 actualizaram os
nossos conhecimentos sobre a espada romana republicana na Hispânia.
Uma vez localizada a espada-protótipo e a sua quase indiferenciável versão romana,
facilmente deduzimos que se tratava de uma arma que requeria certo espaço para o seu
manuseamento, mais dio que os três pés, ou menos, típicos de uma falange hoplítica
(Políbio, Hist. 18.29.2). De facto, as fontes são explícitas: em Canas, os legionários
ficaram tão «atravancados» que não dispuseram de espaço para empregar eficazmente
as suas armas (Lívio, Ab Urb. cond. 22.47.10) e, já no tempo de César, este ordenava às
suas tropas para terem o cuidado de não se amontoar, a fim de possuirem mais ampla
liberdade de movimentos ao brandir os seus gladii (B. Gallico, 2.25).
A espada comprida, que servia tanto para desferir golpes penetrantes como cutiladas,
aliada a um escudo longo de extremidades arredondadas, atingindo aproximadamente
135 cm de altura (Políbio, Hist. 6.23.2), e o género de elmo de curto cobre-nuca
característico deste período, constituem factores que obtam a que se deva extrapolar
para a República (altura em que o legionário lutaria mais erguido) as modalidades de
combate do Alto-Imperio, em que o soldado se colocava mais curvado, protegendo-se
com um escudo em forma de telha, de menores dimensões 195, funcionando o gladius
essencialmente para efectuar estocadas 196, época em que o casco e a couraça foram
optimizadas para defender melhor a nuca e os ombros197.

***

191
«A Hellenistic gladius from Jericho», in E. Netzer (ed.), Hasmonean and Herodian palaces at Jericho. Final Reports
1973-1987, vol. II, Jerusalém, 2004, pp. 229-232.
192
Die Funde aus den Römischen Lagern um Numantia im Römisch-Germanischen Zentralmuseum, Mainz, RGZM,
2002, esp. Abb. 191, pp. 86-87.
193
S. Sievers, «Alesia und Osuna: Bemwerkungen zur Normierung der spätrepublikanischen Bewaffnung und
Ausrüstung», in M. Feugère (ed.), L’équipement militaire, pp. 271-276; P. Ruillard, Antiquités de l’Éspagne, Paris,
Musée du Louvre, 1997, p. 58ss (esp. p. 67).
194
«Una sepultura com armas de Baja Epoca Ibérica (o época romana republicana en la necrópolis del ‘Cerro de las
Balas’ (Ecija, Sevilla)», Gladius 20 (2000), pp. 191-220.
195
Dura Europos, c. 1 m. M. C. Bishop e J. N. C. Coulston, Roman Military Equipment, p. 149.
196
P. J. Hazell, «The pedite gladius», The Antiquaries Journal 61 (1981), pp. 78-79.
197
P. Connolly, «The Roman fighting technique deduced from armour and weaponry», in V. A. Maxfield e M. J. Dobson
(eds.), Roman Frontier Studies 1989, Exeter, 1991, pp. 358-363.

89
Actualmente, alguns autores questionam o rigor descritivo de Tito Lívio sobre das
legiões de meados do século IV a. C., uma vez que o seu contemporâneo Dionisio de
Halicarnasso escreveu, num excerto sobre a Guerra Pírrica (no presente do indicativo),
que «aos que lutam em fileiras cerradas com lanças de cavalaria firmadas por ambas as
mãos, e [que] muitas vezes decidem as coisas em batalha, os Romanos chamam
principes» (Ant. rom. 20.11.2). Como não era este o caso no tempo de Dionísio, nem de
Lívio, o primeiro talvez tenha copiado uma fonte do período pírrico, na qual os
principes aparecessem armados à maneira antiga. Mas Plutarco, ao apoiar-se noutro
testemunho literário do mesmo momento histórico, Jerónimo de Cardia (que, por sua
vez, leu os Comentários de Pirro), descreve os Romanos na sua segunda batalha contra
o rei epirota a resistirem na sua «falange» com as espadas, mas sem capacidade para se
movimentarem de acordo com o seu usual estilo flexível (Plutarco, Vida de Pirro. 21), a
«nova moda».
Provavelmente, em 279 a. C., talvez ainda coexistissem o antigo e o novo tipo de
legião, mas, a este respeito, perfila-se outra hipótese mais simples: que Dionísio (ou a
sua fonte grega) cometesse um lapsus calami, ao escrever principes em lugar de triarii,
sendo proverbialmente estes que davam o «empurrão» decisivo quando uma batalha
estivesse a revelar-se difícil para as armas romanas 198. A estar correcta esta
interpretação, a legião em meados do século IV a. C. descrita por Tito Lívio até pode
não ser anacrónica. Pouco surpreenderia que certos elementos mudassem ao longo do
subsequente século e meio (bem como o número de manípulos em cada linha e o
desaparecimento dos combatentes da retaguarda chamados rorarii).
A partir do decénio de 20 do século III antes da nossa era, o pilum, o gladius e a
formação manipular estandartizaram-se, como aliás o demonstram as narrações de
Políbio de batalhas contra os Gauleses (em 225 e 223 a. C.): nelas vemos dardos
lançados para romper as fileiras inimigas, os manípulos atacando de espadas em riste,
assestando estocadas e golpes com os gumes e, em 223, os triarii fornecendo as suas
hastae aos manípulos da vanguarda para se partirem as pontas das espadas gaulesas –
e depois, as linhas da frente desembainhavam os gládios e aniquilavam os antagonistas
(Políbio, Hist. 2.30.8.33.4-6).

III.6. A aparição da coorte

198
Sobre o exército manipular: E. Rawson, «The literary sources for the pre-Marian army», PBSR 39 (1971), pp. 19-20,
24-31; L. Keppie, The Making of the Roman Army, pp. 21-23, 63-66. A respeito dos velites: F. W. Walbank, A Historical
Commentary on Polybius, 1, Oxford, 1957, p.703; N. Sekunda, Republican Roman Army 200-104 BC, Oxford, 1996, pp.
21-23. Quanto ao horror experimentado pelos Macedónios: A. Zhmodikov, «Roman republican heavy infantrymen in
battle (IV-II centuries BC», Historia, 49 (2000), p. 75.

90
Num momento histórico que não conseguimos situar com exactidão, mas que talvez
tenha ocorrido na Segunda Guerra Púnica, os manípulos passaram a ser integrados (em
número de três, um de hastati, outro de principes e outro de triarii) em unidades
denominadas cohortes. Ao relatar a vitória de Cipião em Ilipa (206 a. C.), Políbio
menciona um corpo de três manípulos «a que os Romanos chamam coorte» (Hist.
11.23.1 coortis, cf. 11.33.1). Este género de agrupamento pode ter sido tomado de
empréstimo às formações adoptadas pelos aliados, já que as primeiras coortes a que se
faz referência nas fontes, em 294, 217 e 212 a.C., eram de tropas latinas ou itálicas
(Lívio, Ab Urb. cond. 25.14.4; cf. 28.45.29). Lívio reporta-se a uma cohors Romana na
Hispânia, em 211 a. C. (ibidem,25.39.1, mas infelizmente no relato muito exagerado de
uma batalha), e a outra, em 207 a. C., na refrega de Metaurus (27.49.4).
A data e a interpretação do aparecimento da coorte foram objecto de longas e acesas
discussões académicas. Lembremos que durante longo tempo se considerou, quase
unanimemente que, por volta de 100 antes da nossa era, a reorganização do exercitus
sobre esta base teria conduzido ao apagamento da estrutura manipular, em vigor desde
as Guerras Samnitas da segunda metade do século IV a. C. De acordo com a mesma
teoria, essa substituição fora imposta pelas insuficiências tácticas da organização
anterior, tornadas manifestas aquando das derrotas que os Cimbros e os Teutões
infligiram aos Romanos. Assim, ela atribuiu-se ao conjunto de reformas alegadamente
introduzidas por Gaio Mário na viragem do século II para o I a. C 199.
Contudo, as dificuldades suscitadas por esta visão tradicional cedo foram postas em
evidência: com efeito, nenhuma fonte permite colocar uma medida de consequências
tão significativas em relação directa com as medidas marianas, as quais estão bem
documentadas. A existência da coorte atesta-se, sem qualquer ambiguidade, antes do
ano 107 a. C., nos escritos de Políbio e Salústio 200.
Tais objecções impeliram alguns historiadores a optar por uma atitude mais
matizada, rejeitando a ideia de uma ruptura brutal no início do século I a. C. Nesta nova
corrente de opinião, a substituição do manípulo pela coorte seria, acima de tudo, o
culminar de um processo201. No entanto, o emprego da coorte é encarado como uma
medida que se manteve muito pontual, antes da sua generalização no exército no

199
J. M. Marquardt, De l’organisation militaire chez les Romains, Paris, 1891, pp. 148-149;T. Steinwender, «Zur
Kohortentaktik», Rheinisches Museum für Philologie 70 (1915), pp. 416-417; H. M. D. Parker, The Roman Legions,
Oxford, 1928, pp. 26-28; M. Marín y Peña, Instituciones militares romanas, Madrid, 1956, p. 48; G. R. Watson, The
Roman Soldier, Londres, 1969, p. 22..
200
Respectivamente: Hist. 11.23.1; Bell. Iug. 49.6.
201
J. Masquelez, «Cohors», in C. Daremberg e E. Saglio (eds.), Dictionnaire des Antiquités grecques et romaines, vol.
I.2, Paris, 1877, p. 1287; J. Kromayer e G. Veith, Heerwesen und Kriegsführung der Griechen und Römer, Munique,
1928, p. 376; F. E. Adcock, The Roman Art of War under the Republic, Cambridge, 1940, p. 21; P. Fraccaro,
«L’ordinamento a coorti», in Opuscula, IV, Pavia, 1975, p. 144; L. Keppie, The Making of the Roman Army, 1984, pp.
63-64; Roldán, 1996, p. 48; Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 48; IDEM, Roman Warfare, Londres, 2000, p.
99

91
contexto dos anos 100, em que os factores políticos e sociais, ao acentuarem a
profissionalização dos soldados e a uniformização do exército, desempenharam um
papel essencial. Nesta perspectiva, o recurso à coorte pré-mariana nunca foi claramente
explicado, na falta de elementos suficientemente reveladores. O problema deve-se ao
facto de as menções à mesma se entenderem como pouco fiáveis para se extrair uma
conclusão satisfatória.
Porém, ao tomar em consideração o «ficheiro» relativo à Península Ibérica,
constatamos que ele proporciona esclarecimentos dignos de interesse. O lugar
privilegiado aí ocupado pelas ocorrências do termo coorte foi ressaltado, em 1965, por
M. J. V. Bell num artigo ainda hoje muitas vezes citado 202. Esta constatação serviu-lhe
para formular uma tese sedutora, associando a inovação táctica e as guerras na
Hispânia: aqui, a coorte teria substituído precocemente o manípulo, que se manifestava
táctica e estrategicamente inadaptado à «especificidade» das modalidades de combate
contra os auctótones, antes de se disseminar gradualmente por outros teatros de
operações ocidentais (Ligúria ou Numídia), que suscitaram idênticas dificuldades 203.
Em contrapartida, no Oriente helenístico, segundo o mesmo autor, o exército romano
teria conhecido só o manípulo. Esta explicação, muitas vezes aceite, veio todavia a ser
posta em dúvida, mas sem merecer uma análise precisa e rigorosa 204.
O ideário de Bell assentou numa interpretação duplamente discutível, tanto no plano
da definição táctica da coorte, como no das concepções guerreiras próprias da
Hispânia. Assim, devemos procurar outra explicação que não um particularismo
hispânico nos desequilíbrios das informações proporcionadas pelas fontes. Para F.
Cadiou, não se deve excluir a possibilidade de uma utilização regular da coorte desde a
Segunda Guerra Púnica, da qual o espaço ibérico conserva ainda vestígios, bem como
em outros teatros de operações205.
Um dos principais fundamentos do raciocínio de Bell tem a ver com a estrutura da
legião manipular, que era táctica e estrategicamente desajustada às guerras que se
desenrolaram na Península Ibérica. Vejamos a sua argumentação: por um lado, os
intervalos estabelecidos entre cada manípulo na ordem de batalha enfraqueciam a
coesão do todo, vulnerável, portanto, face a uma impetuosa investida do inimigo; por
outro, o manípulo dividia a legião em unidades demasiado pequenas, se bem que, a
202
M. J. V. Bell, «Tactical Reform in the Roman Republican Army», Historia 14 (1965), pp. 404-419.
203
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 413: «Warfare in Spain presented certain strategic and tactical problems which the
maniple could not solve».
204
As conclusões de M. Bell foram retomadas por numerosos estudiosos (Y. Garlan, La guerre dans l’Antiquité, Paris,
1972, p. ; E. Gabba, «Le origini dell’esercito professionale in Roma: proletari e la riforma di Mario», in Esercito e società
nella tarda reppublica romana, Florença, 1973, p. 1; mais recentemente por A. K. Goldsworthy, The Roman Army at
War, p. 35, n. 91; IDEM, Roman Warfare, p. 99), mas não sem algum cepticismo (E. Rawson, «The Literary Sources for
the Pre-Marian Army», PBSR 39 (1971), p. 19; E. Wheeler, «The Roman Legion as Phalanx», Chiron 9 (1979), p. 306, n.
18; L. Keppie, The Making of the Roman Army, p. 63); tais reservas, todavia, circunscreveram-se a breves comentários.
205
«Les guerres en Hispania et l’émergence de la cohorte légionnaire dans l’armée romaine sous la République: une
révision critique», Gladius XXI (2001), p. 168.

92
nível estratégico, o exército não pudesse ser mais fraccionado de maneira eficaz em
subdivisões autónomas para operações de menor envergadura. A coorte reduziria estas
fraquezas, ao reforçar a solidez das linhas através do aumento do tamanho de cada
unidade e, sobretudo, pelo desaparecimento dos intervalos a separá-las. Para Bell, a
legião organizada no sistema de coorte apresentaria, então, uma frente contínua, ao
contrário da legião manipular; por outro lado, ao constituirem réplicas miniaturais da
legião, as coortes passaram a poder actuar de maneira autónoma 206.
Ao analisarmos o ideário deste autor, a maior dificuldade está no primeiro destes
argumentos: no plano táctico, não parece que a coorte fosse tão radicalmente oposta ao
manípulo. Em princípio, a cohors agrupava três manipuli de cada uma das linhas que
compunham a legião (hastati, principes, triarii)207. Talvez nem sempre tenha sido
exactamente assim, uma vez que Políbio não explicita que tipos de manípulos estariam
reunidos na coorte que menciona para o ano 206 a. C. Não excluamos a possibilidade
de todos pertencerem a uma mesma linha. Seja como for, ressalvemos que, desde este
período, a coorte estava bem definida, de acordo com Políbio, correspondendo ao triplo
do manípulo, isto é, a unidade de base da legião 208.
Consequentemente, a criação deste «escalão suplementar» obedeceu a uma vontade
de formar unidades de uma dimensão superior: a legião inteiramente organizada não
contava, assim, mais de dez subdivisões, em vez de trinta 209. Neste sentido, trata-se de
uma concentração, mas não podemos deduzir automaticamente que estes
agrupamentos constituiam uma frente mais maciça, unida e rectilínea como pensou
Bell, associando a coorte quase a um retorno à falange original. De facto, julgamos que
a introdução da nova subdivisão não deve compreender-se como o abandono de uma
dispersão táctica, entendida como insatisfatória 210.
É verdade que a legião manipular implicou uma certa deslocação na massa compacta
da falange: passou a formar-se em três linhas de batalha no lugar de uma e cada
manípulo ficava separado do seu vizinho por um intervalo, ao jeito de uma disposição
em jeito de tabuleiro de xadrez a que os autores modernos, não os antigos, cunharam
de quincunx211. Mas esta formação desconcentrada era precisamente o que fazia a força
e a originalidade da legião. Os intervalos permitiam manter uma melhor coesão do
conjunto durante das movimentações sobre o terreno, enquanto a linha tripla de
combate englobava parte das tropas em reserva, pronta a intervir se necessário. Por
este motivo, os espaços vazios não seriam preenchidos no momento do assalto, ao

206
M. Bell, «Tactical Reform…», , p. 411.
207
Pelo menos, é o que sugerem os títulos dos centuriões no século I: L. Keppie, The Making of the Roman Army, p. 174.
208
Hist. 11.23.1.
209
Aulo Gélio, Noctes Atticae, 16.4.6.
210
F. Cadiou, «Les guerres en Hispania…», p. 169.
211
Tal disposição foi reconstituída a partir de Lívio, Ab Urb. Cond. 8.8.9-13.

93
contrário do que se imaginou: eles poderiam servir para reforçar a frente com tropas
frescas, durante os momentos «mortos» ou pausas que caracterizavam a maneira de
pelejar na Antiguidade212. Este princípio da triplex acies, típico da legião manipular,
permaneceu vigente na sua versão em coorte, até ao fim da República e para lá desta 213.
Nada permite pensar que ele tenha dado lugar a uma interpretação diferente nessa
época214.
M. Bell, porém, concluiu haver uma frente contínua, baseando-se nas medidas
tomadas por Cipião em Zama (202 a. C.), que nos são facultadas por Lívio e Frontino 215.
Mas isto equivale a esquecer que Políbio se contentou em dizer que Cipião renunciou,
pura e simplesmente, ao quincunx, para alinhar os manípulos uns por detrás dos
outros216. É provável que os relatos de Lívio e Frontino, que escreveram numa época
muito posterior aos factos descritos, tenham sofrido a influência do facto de que, no
tempo cesariano, os três manípulos que compunham a coorte se posicionarem lado-a-
lado em batalha, e não um após outro, como anteriormente. No entanto, até neste caso,
a disposição numa frente única terá comportado, inevitavelmente, intervalos 217. A
interpretação que Bell fez de uma passagem de Frontino, sobre a batalha de Pidna, não
permite refutar esta ideia: o autor flaviano escreveu: triplicem aciem cuneis instruxit
inter quos uelites subinde emisit (Strat. 2.3.20). Bell depreendeu que Frontino,
habituado a um alinhamento ininterrupto da coorte não percebeu bem a presença de
intervalos na legião manipular, pelo que os apresentou como um estratagema 218.
Porém, afigura-se claro que Frontino descreve somente uma tentativa do general
romano para conferir maior capacidade perfurante aos diferentes segmentos da sua
linha de batalha, face à temível falange de Perseu, ao adoptar uma formação em vários
cunei219.

212
A questão dos intervalos foi das mais debatidas pelos especialistas do exército romano. Muitos consideraram
improvável, ou mesmo impensável, que se mantivessem tais espaços em pleno calor da contenda, como sustentou H.
Delbrück ou, mais recentemente, P. Connolly e L. Keppie. No entanto, durante largas décadas, no seguimento das
objecções de J. Kromayer e G. Veith (Heerwesen und Kriegsführung…, pp. 359-361) e F. E. Adcock (The Roman Art of
War…, pp. 9-10), prevaleceu a posição contrária, que se assinala nos trabalhos mais recentes de A. K. Goldsworthy ( The
Roman Army at War, p. 208) e de P. Sabin («The face of the Roman Battle», p. 16). Desenvolvemos este assunto no
apêndice do presente capítulo.
213
J. Marquardt (De l’organisation militaire chez les Romains, p. 149) entendeu que as dez coortes se dispunham numa
só linha; mas as fontes mostram o oposto, visto que apenas fornecem um exemplo de linha única, num contexto
particular (Bell. Afr. 13). Sobre isto, cf.: J. Kromayer e G. Veith, Heerwesen und Kriegsführung, pp. 428-429; P.
Fraccaro, «L’ordinamento a coorti», pp. 147-148; A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 137.
214
E. Wheeler («The Roman Legion as Phalanx», p. 307) demonstrou que na época republicana a formação tradicional
em falange compacta, à qual cabe associar a testudo, só ocorreu em circunstâncias excepcionais.
215
Lívio, Ab Urb. cond. 30.33.1 – Non confertas autem cohortes ante sua quamque signa instruebat sed manipulos
aliquantum inter se distantes; Frontino, Strat. 2.3.6 – Nec continuas construxit cohortes, sed manipulis inter se
distantibus spatium dedit. Para a interpretação de M. Bell destas passagens, cf. «Tactical Reform…», p. 409.
216
Hist. 15.9.7.
217
J. Kromayer e G. Veith, Heerwesen und Kriegsführung…, p. 378.
218
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 408. «A manipular legion would of course look like a series of wedges when seen
from its front; what is significant is that Frontinus thought of this as a stratagem, something unusual and out of the
way». No entanto, é difícil percebermos como o erro cometido por Frontino, ao escrever vários séculos após os factos,
poderia provir de uma ilusão de óptica. Por outro lado, Bell olvidou-se que, em virtude da disposição em quincunx, a
legião vista de frente parecia, pelo contrário, apresentar uma linha contínua.

94
Por fim, Bell julgou ver na expressão manipulos laxare, utilizada em várias ocasiões
por Lívio, César ou Frontino, uma prova suplementar para uma densidade superior da
linha formada em coorte, em que os manípulos não manifestariam, pois, mais
descontinuidades entre eles220. Na realidade, manipulos laxare remete sobretudo para
a elasticidade dos intervalos, que os generais romanos podiam fazer variar a sua
amplitude em função das circunstâncias: é desta forma que devemos compreender o
episódio bélico de 211 a. C., relativo à Península Ibérica, em que Márcio decidiu
aumentar os espaços entre os manípulos, a fim de permitir que o inimigo, cercado,
fugisse, o que debilitaria a sua coesão221.
A persistência desta prática até ao tempo de César confirma que os intervalos não se
encaravam como uma fraqueza, mas antes como um elemento pertencente ao
dispositivo de batalha, que o general podia tirar partido quando julgasse mais oportuno
ou necessário. Nesta ordem de ideias, é muito redutor fazer da coorte a «antítese
táctica» do manípulo: pelo contrário, a primeira prolongava, ao imprimir-lhe acrescida
complexidade, a profunda originalidade do último. Assim se percebe que o manípulo se
tenha mantido até ao Alto-Império como uma divisão de base da legião. A agrupação
em coorte, ao introduzir um elo suplementar na cadeia de comando, simplificava a
tarefa do general na chefia das suas unidades, podendo coordenar mais subtilmente as
manobras222.
No século I antes da nossa era, a crescente uniformização entre cada unidade ajudou a
multiplicar as combinações tácticas possíveis: enquanto até aí os manípulos de triarii
estavam diferentemente armados e contavam com metade dos homens do que os das
outras duas linhas, todas as coortes seriam, doravante, idênticas e intercambiáveis,
escapando assim à antiga especialização táctica das três linhas da legião manipular 223.
Imaginar o recurso à coorte como um regresso à rigidez da falange é não apreender
devidamente o significado profundo desta evolução que introduziu, pelo contrário, um
maior grau de sofisticação. A sua difusão atesta uma crescente diversificação das
soluções tácticas à disposição das legiões. Esta inflexão realizou-se, portanto, dentro do
219
Foi só num segundo momento, perante o fracasso deste primeiro desdobramento, que Emílio Paulo terá decidido
então empregar o estratagema que constituiu objecto de interesse de Frontino: um simulacro de fuga.
220
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 409. O autor apoiou-se essencialmente na leitura dos Commentarii de Bello Gallico
de César (2.25). Mas o trecho não nos transmite nada disso: o desenvolvimento da narração, referente a um combate
livrado junto ao Sambre, mostra que os legionários terão sido apanhados desprevenidos pelo ataque inimigo. Em 2.21-
22, César chega a precisar que as tropas não tiveram tempo para formar a ordem de batalha, antes de se verem
duramente pressionados pelo antagonista. A ordem dada consistiu, assim, em descerrar as fileiras, anormalmente
imbricadas umas nas outras. Posto isto, a passagem cesariana oferece antes um argumento a favor de uma prática
corrente, em que os intervalos entre os manípulos que compunham as coortes se consideravam indispensáveis para a
eficácia dos combatentes.
221
Frontino, Strat. 2.6.2: laxatis manipulis et concesso fugae spatio dissipatos sine periculo suorum trucidauit.
Consequentemente, dificilmente se pode aceitar a opinião de Bell, quando afirma que uma tal ordem só faria sentido
numa formação em coorte. Por esta razão, é impossível utilizar este excerto, como o fez Bell, enquanto prova adicional
para a existência da coorte na Península Ibérica a partir de 211 a. C.
222
Ponto sublinhado por A. K. Goldsworthy: The Roman Army at War, p. 34.
223
Para as diferentes possibilidades do desdobramento da legião em coorte, vejam-se: P. Fraccaro, «L’ordinamento a
coorti», pp. 148-149; A. K. Goldsworthy, Roman Warfare, Londres, 2000, p. 99.

95
mesmo espírito de flexibilidade, como a nível estratégico, em que a reforçada
autonomia da coorte lhe permitia actuar autonomamente, sem ser muito vulnerável 224.
A coorte, tal como a imaginou Bell, enquanto unidade que aliava a concentração
táctica à flexibilidade estratégica, não se encontra na documentação. Trata-se da
primeira objecção séria à ideia de que foi precisamente esta dupla característica que
converteu a coorte no tipo de unidade ideal para as guerras conduzidas na Península
Ibérica. Além disso, estes conflitos não apresentam o aspecto que, sob essa óptica,
requeriria uma tal inovação. Bell justificou a necessidade de uma concentração táctica
por causa da impetuosidade das investidas realizadas pelas forças indígenas, mais
temíveis ainda que as dos Gauleses ou dos Cimbros, ao passo que a dispersão
estratégica seria consequência de uma guerrilha quase perpétua. Mas esta asserção,
visando explicar o abandono precoce do manípulo, não está verdadeiramente
documentada e estabelecida para a Península Ibérica.
É certo que a flexibilidade que a coorte introduziu na ordem de batalha do exército
romano facilitaria aos generais o fraccionamento eventual dos seus efectivos e a
realização de operações de menor envergadura nas regiões peninsulares, onde a
fragmentação política do inimigo se afigura uma realidade bem atestada nas fontes.
Seguramente que Roma não lidou, na Península Ibérica, com um poder político
centralizador comparável aos das grandes monarquias helenísticas que defrontou no
Mediterrâneo Oriental. Porém, não assimilemos esta ausência de unidade a uma
estratégia de «guerrilha» que constituiria o seu corolário natural. Contrariamente a
uma ideia preconcebida muito disseminada, a guerrilha seria o recurso mais evidente
das populações autóctones, cujos meios humanos e materiais parecem, todavia, aos
olhos dos historiadores, como incapazes de se relacionar com os do conquistador:
ademais, tal prática reclamaria igualmente uma concepção guerreira que, na realidade,
não preponderou entre os povos peninsulares 225. A este respeito, Bell não demonstrou a
existência de uma guerrilha ibérica, considerando-a como um dado adquirido, quase
um rasgo civilizacional226.
Os trabalhos mais recentes sobre a guerra antiga mostram que, de uma maneira geral,
as estruturas políticas, económicas e sociais das sociedades «bárbaras», longe de
favorecerem conflitos de golpes de mão prolongados, incitariam, pelo contrário, os

224
F. Cadiou, «Les guerres en Hispania…», p. 171.
225
Tópico que F. Quesada Sanz salientou: «Las fuerzas de los antagonistas«, in Indibil i Mandoni: reis i guerrers (Lleida,
14 nov. 1996- 5 gen. 1997, Lérida, 1997, p. 142.
226
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 411: «…in Spain, the home of the word guerrilla, pitched battle area rarely decisive».
Os únicos argumentos que esgrimiu neste sentido foram a «Spanish incapacity for unity» e uma passagem extraída de
Bell. Hisp (8.3-5) sobre a qualidade defensiva dos numerosos lugarejos fortificados (turris) da Hispânia meridional.
Contudo, estes dois elementos não transmitem coisa alguma sobre as tradições guerreiras indígenas. A imagem que o
autor construiu das últimas inscreve-se, acima de tudo, numa tendência que, desde finais do século XIX, se transpõs
para o antigo mundo ibérico, numa perspectiva nacionalista, a do espírito de resistência das guerrilhas iespanholas já na
época moderna, em especial durante as guerras napoleónicas. Sobre esta noção, vejam-se os judiciosos comentários de
F. Quesada Sanz, El armamento ibérico. Estudio tipológico, geográfico, funcional, social y simbolico…, p. 654, n. 2.

96
exércitos autóctones a buscar uma decisão rápida numa batalha campal, de acordo com
moldes muito próximos dos que se conhecem para o mundo grego clássico e
helenístico227. Assim, as fontes literárias e arqueológicas revelam que o armamento e o
desenrolar dos prélios privilegiariam, no mundo ibérico dos séculos III e II a. C.,
modalidades de combate com uma formação menos apartada da levada a cabo pelos
próprios Romanos228. Os textos antigos que se alegaram como provas para a
«guerrilha» indígena reportam-se unicamente às populações do interior peninsular,
designadamente Celtiberos e Lusitanos229. Tais passagens encontram-se sobretudo em
obras de cariz geográfico ou etnográfico, pelo que as informações devem ser restituídas
dentro desta dimensão particular, sob o risco de se incorrer em contrasenso. Com
efeito, os relatos sobre a penetração romana nessas zonas contradizem as generalidades
observáveis em tais documentos230.
Mesmo que seja preciso distinguir em detalhe as práticas estratégicas e tácticas
variáveis consoante os povos que lutaram contra Roma, frisemos que o recurso à
guerrilha não se deduz das fontes disponíveis. Muito probavelmente, a dispersão
estratégica que a coorte permitia correspondeu mais às necessidades que nasceram das
próprias concepções romanas no âmbito da condução das operações, em que a
existência imprescindível de uma reserva, a execução de manobras complexas e o
costume de se formar destacamentos para objectivos diversos concorreram para
introduzir uma maior flexibilidade na organização da legião.
Embora a batalha campal tenha sido um fenómeno mais recorrente do que supôs Bell,
nada autoriza, porém, imaginar que ela gerasse dificuldades específicas na Península
Ibérica, obrigando à criação de uma unidade táctica mais compacta que o manípulo. Os
textos em que Bell se escorou para defender a sua argumentação são demasiado
esparsos e insuficientes para chegar a essa conclusão. Assim, o autor invocou uma
conhecida passagem de Júlio César (Bell. Civ. 1.44.1-2) para demonstrar a eficácia do
concursus indígena face a um exército romano: mas trata-se de uma pequena digressão
em relação à qual cabe não fazer excessivas extrapolações; na narração de um episódio
que teve lugar em 49 a. C. alude-se ao recuo de um destacamento cesariano, que não foi
capaz de se apoderar de uma pequena eminência, diante de Ilerda (Bell. Civ. 1.43.5).
O objectivo de César, que este declarou textualmente, era muito importante: cortar a
linha de abastecimentos do inimigo ao tomar posição num local a meio-caminho entre
a cidade e o acampamento pompeiense (ibidem, 1.43.2). Contudo, a manobra

227
A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 78.
228
F. Quesada Sanz, El armamento ibérico…, p. 615.
229
Estrabão, 3.3.6; Diodoro, 5.34.4-7.
230
Na realidade, a batalha campal foi o modo de confrontação usual, tanto contra os Celtiberos (Lívio, Ab Urb. Cond.
35.7.8; 35.22.8; 39.21.3, 40.30.6; 40.50.2-3) como face aos Lusitanos (ibidem, 35.1.5-11; 37.46.7; 37.57.5; 39.21.2;
Apiano, Ib. 56.57; 58; 67).

97
afigurava-se temerária, uma vez que o monte ficava demasiado perto das forças
adversárias, no meio de uma pequena planura bastante estreita, que César calculou ter
somente uns 300 passos. Ora este risco explica o fracasso acutilante da tentativa. César
reconhece que as tropas de Afrânio chegaram ao sítio breuitore itinere. O conquistador
das Gálias tentou dissimular o fiasco, ao insistir na tónica da desorientação
momentânea das suas tropas, relativamente a uma técnica invulgar dos soldados
pompeienses, aproveitando o ensejo para a associar insidiosamente aos «bárbaros».
Desta forma, César tentou minimizar os erros que cometeu, deformando alguns
aspectos e realçando outros secundários.
Se a adopção de uma táctica indígena correspondeu, de facto, ao elemento que deu aos
pompeienses vantagem sobre os seus oponentes, é estranho que nenhuma outra
passagem do Bellum Civile faça eco de uma tal superioridade, o que poderia ser
utilizado para elevar o mérito da vitória cesariana 231. Isto sugere que o reparo de César
exerceu a função precisa e pontual que acabámos de comentar. Bell relacionou o trecho
com o que Lívio nos diz da eficácia do cuneus celtibérico para os anos 185 e 182 a. C., o
que não é um bom método, tanto mais que se trata de um contexto cronológico e étnico
assaz diferente232. Por outro lado, a formação utilizada nessas ocasiões pelos Celtiberos
não consiste numa técnica de combate indígena, mas num processo característico de
uma batalha campal: significava um dos dispositivos que um exército podia adoptar,
com o propósito de romper a linha adversa233. Na passagem de Lívio, não se descortina
ideia alguma que leve a pensar numa originalidade peculiar na versão celtibérica 234.
Estes excertos parecem indicar que os confrontos entre Celtiberos e Romanos se
desenrolavam, geralmente, segundo um esquema relativamente «clássico». A
interpretação da batalha campal formulada por Bell comporta, por último, o mesmo
defeito referido a propósito da guerrilha. Os poucos exemplos que este autor extraiu
das fontes serviram apenas para ilustrar considerações generalizantes baseadas em
modelos alegadamente intemporais235.
231
Perante este silêncio de César, torna-se difícil de subscrever a opinião de M. Bell («Tactical Reform…», p. 411),
segundo a qual o episódio de Ilerda traduziria uma eficácia específica das tácticas indígenas: «this is implied by Caesar
where he ascribes the defeat of some of its finest troops to the adoption by the Afranians of Spanish methods of
warfare». César, pelo contrário, explicita (Bell. Civ. 1.47) que os Afranianos tinham a reputação de serem os soldados
menos capazes (cum esse omnium iudicio inferiores uiderentur).
232
Lívio, Ab Urb. cond. 39.31.3; 40.40.2. A aproximação com a passagem de César que M. Bell estabeleceu («Tactical
Reform…», p. 411) foi apresentada como elemento probatório.
233
É desta maneira que Vegécio descreve o cuneus: Ep. Rei Mil. 3.19.
234
Bell («Tactical Reform…», p. 411) imaginou que o cuneus celtibérico teria uma força de penetração ainda mais
temível, por se basear na utilização de uma espada de qualidade muito superior à dos Gauleses e dos Romanos. É
argumento que não nos convence. Para já, era preciso ter a certeza que a eficácia de uma formação deste género
assentava num corpo a corpo com espada, o que não corresponde com o que sugere Vegécio,citado na nota precedente.
Segundo ele, tal dispositivo permitia romper a linha inimiga: quia a pluribus in unum locum tela mittintur. Seja como
for, deve-se evitar fazer da arma branca um elemento decisivo a favor dos guerreiros peninsulares; sabe-se que os
Romanos dispuseram, a partir do fim do século III a. C., de uma espada idêntica à dos Celtiberos – F. Quesada Sanz,
«Gladius Hispaniensis…», pp. 251-270.
235
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 410. A pretensa dificuldade experimentada pelos Romanos frente aos «bárbaros» do
extremo ocidental da Europa, ao lembrar ao autor o caso em que um exército moderno é derrotado por um adversário
menos evoluído, fez com que se contentasse em explicar largamente o princípio por meio do exemplo da derrota das

98
O caso da Hispânia mostra que esta visão estereotipada acaba por distorcer a análise
da evolução do próprio exército romano: é o que se vê no que respeita à coorte
legionária. Os dados arqueológicos militares, relativamente abundantes na Península
Ibérica, apoiam esta constatação. Os acampamentos republicanos situados à volta de
Numância, os únicos que proporcionam elementos concretos das suas estruturas
internas, não servem para confirmar no terreno uma hipotética transição do manípulo
para a coorte236, contrariamente ao que imaginou Adolph Schulten. Não nos alongamos
sobre o assunto, visto que o desenvolvemos noutra alínea, dedicada à castrametação.
Quanto à «excepção» hispânica defendida por Bell, ela não surge claramente nas
fontes antigas. Se a maneira de guerrear dos «bárbaros», como a dos Celtiberos, veio a
servir de elemento catalisador para a imposição do recurso exclusivo a uma nova
fórmula táctica, então é, no mínimo, curioso que os textos livianos respeitantes aos
anos 185 e 182 a. C. não contenham qualquer referência à coorte comparada ao cuneus,
mesmo quando estamos diante de duas das descrição mais detalhadas que possuimos
para a Hispânia neste período; Políbio, por seu turno, refere que a coorte já se utilizaria
na Península Ibérica desde 206 a. C., pelo menos. Contudo, a menção polibiana, a
menos ambígua das que dispomos, inscreve-se no relato da refrega de Ilipa, onde teve
lugar um choque em formação contra um exército cartaginês, onde a infantaria pesada
africana, e não as suas tropas peninsulares, surgem descritas como a elite das forças
púnicas.
O que expusemos nas linhas precedentes é suficiente para afirmar que a coorte, como
não obedecia à funcionalidade rígida que Bell lhe atribuiu, não resultou de uma
necessidade táctica imposta pelas características supostamente peculiares da guerra na
Hispânia. Como compreender a abundância, nas fontes literárias, das ocorrências à
coorte legionária, nas narrativas relativas à conquista da Península Ibérica? Neste
aspecto, convém matizar a originalidade do corpus documental concernente à
Hispânia.
O vocábulo cohors aparece amiúde nas fontes literárias: habitualmente designa
explicitamente os contingentes dos socii (é o seu sentido mais frequente em Tito Lívio,
havendo cerca de 40 atestações). É mais raramente possível associá-lo às legiões
romanas. Quando aplicado neste sentido para os primeiros séculos da República, fica a
forte suspeita de se tratar de um anacronismo 237. Além disso, a falta de rigor dos

tropas inglesas pelos Escoceses em Prestonpans (1745) e de uma citação retirada da Arte da Guerra de Sun-Tzu (4.27).
236
F. Cadiou, «Les guerres en Hispania…», p. 174.
237
Na primeira década de Lívio, encontramos 27 menções à coorte num contexto legionário. Mas a natureza das tropas
nem sempre é clara. Quando a palavra se relaciona manifestamente com os soldados romanos, ela parece servir
comodamente ao autor para designar um contingente inferior a uma legião inteira. Há também três passagens de
Frontino (Strat. 1.6.1; 2.12.1; 4.1.29) que se inserem nesta categoria.

99
autores antigos levou-os a chamar genericamente cohors diferentes tipos de unidades,
incluindo até formações «bárbaras»238.
Esta ambiguidade é mais flagrante na literatura de língua grega, onde σπείρα quer
dizer «manípulo» em Políbio, mas este termo já tem o significado de «coorte» nas
obras de escritores da época imperial (Plutarco, Díon Cássio, Dionísio de Halicarnasso).
Bell239 demonstrou convincentemente que Apiano de Alexandria empregou, com toda a
probabilidade, a palavra nas suas duas acepções (em função das fontes em que se
inspirou), recorrendo a τάξεις, quando evoca, para o século II a. C., uma unidade
manifestamente maior que o manípulo mas inferior à legião. Esta confusão
terminológica conduziu a que muitos historiadores tenham optado, na esteira de
Marquardt, por manter uma atitude hipercrítica, nomeadamente para o conjunto das
referências contidas no texto liviano: nesta óptica, o carácter irrefutável do testemunho
de Políbio em relação à Segunda Guerra Púnica seria considerado como uma excepção,
reflectindo, quando muito, a utilização do étimo coorte enquanto expediente
temporário240. O contributo de Bell serviu para provar quão injustificada era tal rejeição
global: ao saber que Políbio atesta a existência da coorte em 206 a. C. na Hispânia, o
autor reconsiderou várias das menções de Lívio relativas a este mesmo teatro de
operações, salientando a existência de 16 ocorrências, mas lamentavelmente não
explicita pormenores sobre os seus critérios de selecção, salvo o contexto peninsular
dessas passagens241.
Neste conjunto, certas propostas são razoáveis, a começar pela interpretação da
narração da batalha de Ilipa, compatível com os informes polibianos: a expressão
precisa romano milite cornibus firmatis deixa pouco espaço para dúvidas quanto à
presença de coortes romanas nas unidades aliadas que compunham as alas (Ita
deductis cornibus cum ternis peditum cohortibus ternisque equitum turmis ad hoc
uelitibus citado gradu in hostem ducebant sequentibus in obliquum aliis)242.
Do mesmo modo, nada se opõe à possibilidade de as coortes referidas a propósito do
motim do Sucro, no mesmo ano, se comporem, em parte, de legionários 243. Com efeito,
não acreditamos que os amotinados (em número de 8 000) fossem principalmente
socii: neste caso, dificilmente se compreenderia as admoestações repletas de desprezo

238
Isto assinala-se num considerável número de passagens livianas (32 ao todo), o que se pode explicar pela utilização de
fontes gregas, para a terminologia das quais era preciso encontrar um equivalente. Veja-se igualmente Frontino, Strat.
1.6.3; 4.1.7.
239
Bell, «Tactical Reform…», p. 406.
240
Políbio, Hist. 11.23.1; 11.33.1.
241
Bell, «Tactical Reform…», p. 405: na realidade, o autor aponta 17 referências, embora só cite 16 numa nota.
242
Lívio, Ab Urb. cond. 28.14.17. Compare-se com Políbio, Hist. 11.23.1: καί λαβών … τρείς ϊλας ίππέων τας
ήγουμένας καί πρό τούτων γροσφ ομάχους τούς είθ ισμένους καί τρείς οπέίρας (τού το δέ καλειται τό
σύταγμα τών πεζ ών παρά ‘Ρωωαίοιςκοόρτίς).
243
Lívio, Ab Urb. cond. 28.25.15.

100
que Cipião lhes dirigiu, na sua alocução em Carthago Nova, invectivando-os por
escolherem como chefes Atrius de Úmbria e Albius de Cales.244
O âmbito em que aparecem as ocorrências à coorte nesta ocasião é, ademais, o de um
fraccionamento do exército em movimento, não de uma divisão administrativa (illa
dubitativo erat, singulae ne cohortes an uniuersi ad stipendium petendum irent). Por
último, o confronto com os Ilergetas, também em 206 a. C., sugere que o agrupamento
táctico em coorte podia muito bem obedecer a uma necessidade pontual no campo de
batalha (quattuor cohortes in fronte statuit quia latius pandere aciem non poterat)245.
Nestas condições, será de concordar com Bell, de que as referências em duas passagens
a uma cohors Romana, para os anos 211 e 195, se afigura plausível, e que todas as
menções livianas aceitáveis não se aplicam exclusivamente aos aliados 246.
Consequentemente, esta constatação permite interpretar, neste sentido, certas menções
equívocas, mas não se deve extrair conclusões categóricas em todos os casos 247.
No entanto, a coerência do corpus informativo respeitante à Hispânia não é tão estrita
como sustentou Bell. Certos textos que este autor reteve devem descartar-se, na falta de
elementos suficientemente sólidos. Repare-se que Frontino (Str. 2.6.2, para 211 a. C.)
não inclui qualquer alusão à coorte. A menção explícita a uma cohors romana a
propósito de Márcio, em 211 a. C., não basta para provar que é o mesmo episódio (Lívio,
Ab Urb. cond. 25.39.2). Existe, igualmente, uma história protagonizada por Q. Metelo
Macedónico, ocorrida em 143, relatada por vários escritores antigos, na qual se faz
referência a cinco coortes248.
Por si só, o contexto não basta para pôr de parte a hipótese de se tratar de socii. De
facto, urge não depreender, a partir do momento em que se atesta a coorte legionária
na Hispânia, que toda e qualquer referência à mesma nas fontes (sobre este teatro de
operações) corresponda a uma alusão às formações de legionários. Contrariamente ao
que sustentou Bell249, o manípulo continuou a estar presente, na obra de Lívio, como
244
Ibidem, 28.27.14-15; 28.4.
245
Ibidem, 28.33.12. Compare-se com Políbio, Hist. 11.33.1.
246
Ibidem,25.39.2 (para 211 a. C.); 34.20.3 (para 195 a. C.). No primeiro caso, todavia, é preferível usar de cautela, antes
de o considerar como a «earliest certain reference… to a cohors Romana». Lembremos que os pormenores do relato de
Lívio sobre as façanhas de Lúcio Márcio em 211 não gozam de grande credibilidade no âmbito historiográfico relativo à
Segunda Guerra Púnica: de facto, vários estudiosos tenderam a ver nessa récita uma invenção analística que se
destinaria a compensar o desastre dos Cipiões; a este respeito, vejam-se os comentários de H. H. Scullard ( Scipio
Africanus in the Second Punic War, Cambridge, 1929, p. 53) e de J. F. Lazenby (Hannibal’s War…, p. 131). Seja como
for, esta reserva não basta para retirar toda a fiabilidade aos dados transmitidos por Lívio sobre a coorte. Mas ela incita
a que não se lhe atribua excessivo valor informativo, a fim de fixar um terminus ante quem para a sua criação. Bell
(«Tactical Reform…», p. 415), ao constatar que Lívio não faz qualquer referência a algum tipo de inovação nesta matéria
por Márcio, entendeu então que caberia associá-la aos primeiros Cipiões, cujas actividades bélicas se encontram menos
documentadas.
247
Neste sentido, podemos apenas excluir as cohortes duas da batalha de Baecula (Lívio, Ab Urb. cond. 27.18.10), ou as
que surgem no ano 206 a. C. em Lívio (ibidem, 28.13.8; 28.23.8), como sendo efectivamente coortes legionárias. É
excessivo aceitá-las acriticamente, como fez Bell.
248
Frontino, Strat. 4.1.23: Q. Metellus Macedonicus in Hispania quinque cohortes quae hostibus cesserant
testamentum facere iussas, ad locum reciperandum remisit, minatus non nisi post uictoriam receptum iri. Exemplum
que conhecemos também através de Valério Máximo (2.7.10) e de Veleio Patérculo (2.5), narrativas em que o vocábulo
cohors volta a surgir.
249
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 405. «By contrast, Livy at no time mentions the maniple in Spain».

101
unidade táctica. Captam-se indícios, pelo menos para 206 a. C., ano em que a coorte,
segundo Bell, é a mais explicitamente atestada250. Parece impossível conceber uma
substituição neste plano, tanto mais que em Políbio as referências ao manípulo são
dominantes, incluindo para a Hispânia251.
A extrema indigência das menções ao manípulo em contexto táctico no palco ibérico
na obra liviana nada tem de particular, visto que o mesmo se assinala noutros teatros
de operações contemplados pelo autor. Assim, não se contam mais de três referências
para a Segunda Guerra Púnica: uma para o exército da Campânia, em 209, uma para o
de Bruttium, em 207, e outra, por fim, para as forças de Cipião na batalha de Zama 252.
Relativamente à primeira metade do século II a. C., dispomos só de duas menções: uma
situada em 178, a propósito da campanha do cônsul Mânlio na Hístria, e outra,
respeitante a 171, aquando do cerco de Haliarte, na Beócia, pelo pretor Lucrécio 253.
Ora isto é bem pouco, como afirmou F. Cadiou 254, para que Bell concluísse que Lívio
evocou a coorte para a Hispânia e o manípulo para outros espaços geográficos, 255 tanto
mais que o historiador augustano não reserva a expressão cohors Romana ou cohors
legionariae apenas em exclusivo para a Península Ibérica. Encontramos quatro
referências, pelo menos – ou seja, mais duas do que para as campanhas hispânicas -,
todas respeitantes a eventos ocorridos na Grécia: a primeira relaciona-se com o auxílio
de Sulpício Galba aos Etólios, no Outono de 208, por Sulpício contra Filipe V da
Macedónia (ispse rex cum equitatu in cohortem Romanam incurrit [Ab Urb. Cond.
27.32.4]); a segunda também tem que ver com o soberano macedónio (nunc auiditate
caedis intemperantius secuit in praegressas cum tribunis militum cohortes Romanas
incidere – ibidem, 31.37.5); a terceira encontra-se no relato da confrontação entre
Nabis e Flamínio, em 195 (primae legionariae cohortes ibant, leuis armatura et
equites cogebant – ibidem, 34.28.7)256.
250
Lívio, Ab Urb. cond. 28.19.9: scalas electis per manipulos uiris diuidunt. As referências à trariorum em 207 a. C.
(ibidem, 28.3.14) e à principes hastatosque para 195 (ibidem, 34.15.16) constituem também elementos que indiciam a
continuidade do emprego táctico do manípulo, as quais Bell rejeitou («Tactical Reform…», p. 404). Não existe a menor
dúvida que o manípulo se manteve como a unidade administrativa de base: para 211 a. C., Lívio qualifica geralmente os
legionários como manipulares: neque sedari lamentatio poterat excitantibus centurionibus manipulares (Ab Urb.
Cond. 25.37.10). O costume prevaleceu até ao fim da República, como se confirma em Cícero (Phil. 5.5), mas num
contexto extra-peninsular.
251
Políbio, Hist. 10.15.9; 10.35.5; 11.22.10; 11.23.6. Bell reconheceu este facto («Tactical Reform…», p. 414), mas achou
que Políbio teria subestimado a importância da nova capacidade táctica, tanto por razões pessoais (a sua formação grega
tornava-o incapaz de compreender a «guerilha» das populações hispânicas), como por outras circunstanciais (ele esteve
na Hispânia com Lúculo, em 151-150, tendo o último realizado uma tímida estratégia de concentração das suas forças,
não dando oportunidade a Políbio para observar a coorte). Nenhuma destas ideias assenta em lastro firme.
252
Para 209 a. C.: Lívio, Ab Urb. cond. 27.13.7-9; 14.10; para 207: ibidem, 30.33.1, 30. 33.3, 30.33.15. Fora do contexto
táctico, cita o manípulo em duas ocasiões, para designar os combatentes, em 215 (ibidem, 23.42.9: manipulatim), e em
212 (ibidem, 25.14.7: manipulares sui.
253
Para 178: ibidem, 41.1.5; 41.2.3. Para 171: ibidem, 42.63.5.
254
«Les guerres en Hispania…», p. 178.
255
M. Bell, «Tactical Reform…», p. 409. «Livy speaks consistently of the cohort in Spain and the maniple elsewhere».
256
Contudo, não sabemos se Títo Lívio utilizaria sempre o vocábulo no seu sentido técnico. Seja como for, não há razões
para pôr de parte estes testemunhos a favor dos que estão conectados com a Península Ibérica. Em todo o caso, eles
contradizem claramente a ideia segundo a qual as fontes sugeririam que as guerras no Oriente privlegiavam
tacticamente o manípulo em detrimento da coorte, contrariamente às que se desenrolaram no Ocidente. Será de pensar
noutra explicação para a aparição, nas fontes, de uma coorte legionária a partir do início da conquista da Hispânia?

102
Na realidade, se nos limitarmos aos trechos em que as coortes legionárias se afiguram
prováveis ou verosímeis, conseguimos reparti-las em dois grupos básicos: quando não
dizem respeito às campanhas de Cipião, na segunda metade da Segunda Guerrra
Púnica (nomeadamente para o ano 206 a. C.), reportam-se todas às conduzidas por
Catão, em 195 a. C257.
É caso para perguntar até que ponto esta repartição não reflecte a natureza das fontes
que Políbio e Tito Lívio usaram para descrever tais episódios 258: sabemos que Políbio se
apoiou numa importante documentação em primeira mão, em que os testemunhos
orais dos actores, especialmente Laelius, desempenharam um papel essencial 259.
Quanto ao livro XXXIV de Lívio, em larga medida consagrado à campanha de Catão, ele
ocupa um lugar especial no conjunto da obra, onde se observa toda uma profusão de
detalhes e uma invulgar precisão na terminologia técnica260. Isto talvez se explique por
Lívio utilizar o relato que o cônsul provavelmente lhe entregou, respeitante à sua
campanha na Citerior261.
É significativo que os dois únicos trechos de Apiano e de Plutarco, cujo vocabulário
Bell entendeu corresponder a uma descrição da coorte para o século II a. C., estejam
relacionados precisamente com as operações bélicas realizadas por Catão em
Emporion (Ampúrias)262. Assim, a eventual «sobrerepresentação» da coorte no
contexto hispânico talvez se deva ao acaso da documentação, em que a precisão
incomum nos esclarece sobre um aspecto usualmente ignorado, no seu detalhe, pelas
fontes263.
Com efeito, o conjunto das potenciais ocorrências da coorte legionária na Península
Ibérica reporta-se a manobras pontuais, efectuadas durante os combates, para as quais
o pequeno tamanho do manípulo não se adequaria. Eis alguns exemplos: um complexo
movimento envolvente (Políbio, 11.23.1; Lívio, 28.14.17; 34.14.10); a adaptação do
257
Lembremos as reservas que colocámos quanto à cohors Romana de Márcio, em 211 a. C.
258
Bell («Tactical Reform…», p. 405) limitou-se a citar Klotz (em F.HA, III, p. 52), que considerou que o essencial das
passagens de Lívio se deveria a Coelius Antipater, Claudius Quadrigarius e Valerius Antas: o primeiro autor, que
escreveu ao longo da década de 120 a. C., corresponderia à fonte mais utilizada pelo historiador augustano no que
respeita à Hispânia. E. Rawson («The Literary Sources for the Pre-Marian Army», p. 18), tal como M. Bell, só menciona
a coorte para o Ocidente, já que, ao contrário da sua narrativa dos factos ocorridos no Oriente, em que se apoiou
essencialmente em Políbio, ele se teria servido, para a outra pars do império, dos analistas, menos fiáveis; esta
académica reconheceu, ainda assim, a superior qualidade informativa do texto de Coelius. Conquanto verdadeira na sua
globalidade, não se deve sistematizar esta selecção de dados por Lívio, em particular para a Segunda Guerra Púnica,
uma vez que a sua récita das campanhas hispânicas muito deve a Políbio.
259
Não há dúvida que ele obteve do «lugar-tenente» de Cipião numerosos «pequenos factos verdadeiros» sobre as
operações conduzidas pelo último na Península Ibérica: cf. Políbio, Hist. 10.3.2.
260
Veja-se, por exemplo, a descrição das operações de 195 a. C., que comporta um vocabulário que raramente se assinala
noutras parcelas da sua obra. Consultem-se, a propósito: P. G. Walsh, Livy: his Historical Aims and Methods,
Cambridge, 1966, p. 163; J. Martínez Gázquez, La campaña de Catón en Hispania, Barcelona, 1974, p. 65; A. E. Astin,
Cato the Censor, Oxford, 1978, p. 28.
261
Parece a hipótese mais plausível, segundo a maioria dos especialistas. B. Janzer, Historische Untersuchungen zu den
Redenfragmenten des Porcius Cato, Würzburg, 1936, pp. 15-16; P. Fraccaro, «Le fonti per il consolato di M. Porcio
Catone», in Opuscula, I, Pavia, 1956, pp. 193-197; J. Martínez Gázquez, La campaña de Catón…, pp. 69-70; A. E. Astin,
Cato the Censor, pp. 302-307. No entanto, é impossivel determinar se Tito Lívio leu directamente o texto de Catão ou se
o fez por meio de outra fonte.
262
Plutarco, Vida de Catão, 11; Apiano, Ib. 40.
263
F. Cadiou, «Les guerres en Hispania…», p. 179.

103
dispositivo de batalha ao terreno (Políbio, 11.33.1; Lívio, 28.33.12); a necessidade de um
contingente de reserva (Lívio, 34.15.1; Apiano, Ib. 40); a utilização de um destacamento
para uma emboscada (ibidem, 25.39.1; 34.20.5); uma força para manter um posto
avançado (stationes; ibidem, 27.18.10; 28.13.8); ou um meio destinado, simplesmente,
para provocar o inimigo (ibidem, 34.14.1; 34.19.9).
Aparentemente, as guarnições eram constituídas por várias coortes (ibidem, 28.23.8;
28.25.15), e talvez uma divisão do exército em campanha se organizasse igualmente
desta forma (ibidem, 34.12.6; 34.19.10; 34.20.3). Esta utilização puramente táctica
explicaria o motivo pelo qual a coorte é citada por Políbio em dois relatos de batalhas,
mas não no seu livro VI, onde descreve o agmen e não a acies, cuja apresentação
ulterior, anunciada, se perdeu264.
Porém, esta formação legionária, de carácter temporário, coexistiu com uma estrutura
aliada permanente que tinha o mesmo nome, o que causou confusão, tanto entre os
autores antigos como entre os historiadores modernos. Assim, um fragmento das
Orationes de Catão alude claramente a uma cohors:
Interea unamquamque turmam manipulum cohortem temptabam quid facere possent;
proeliis leuibus spectabam cuiusmosdi quisque esset; si quis strenue fecerat, donabam honeste,
ut alii idem uellent facere, atque in contione uerbis multis laudabam 265.
Mas o contexto indica que o cônsul de 195 a. C. evoca aqui os seus contingentes de
socii, traduzindo-se a passagem numa enumeração das suas três categorias de tropas:
cavalaria (turma), infantaria legionária (manipulus) e infantaria aliada (cohors)266. É
pouco provável que Catão adicionasse uma formação táctica a duas unidades
administrativas. Infelizmente, este trecho é o único, atribuível ao cônsul, que menciona
a coorte. Contudo, o facto de ele associar manifestamente a última aos socii não
impede, por outro lado, que a palavra tenha sido empregue com diferente sentido.
Posto isto, não é impossível que o relato de Lívio, pouco ligado ao rigor técnico, nem
sempre tenha marcado bem (ou compreendido) a diferença. Deste modo se explicaria a
dificuldade de interpretar seguramente certas passagens referentes à campanha de 195,
haja em vista a narração da refrega de Emporion, onde se torna difícil apurar se os
destacamentos eram constituídos por aliados ou legionários.
Observa-se situação análoga a propósito do simulacro dos preparativos de partida,
aos quais o cônsul se entregou na presença dos embaixadores ilergetas, pouco após
haver chegado: aqui tão pouco se precisa a natureza das tropas envolvidas (denunciari
militum parti tertiae ex omnibus cohortibus iubet ut cibum quem in naues imponant

264
Argumento que E. Rawson já sugerira: «Literary Sources for the Pre-Marian Army», p. 19.
265
Catão, frag. 35. J. Martínez Gázquez (La campaña de Catón…, p. 120) associou plausivelmente o teor deste fragmento
aos preparativos para a batalha de Emporion referidos por Lívio (Ab Urb. Cond. 34.13) e Apiano (Ib. 39).
266
Seguimos a opinião de F. Cadiou («Les guerres en Hispania…, p. 180). Para E. Rawson («Literary Sources…», p. 19, n.
20) e M. Dobson, na sua tese de doutoramento (The Roman Camps at Numantia: a Reapparaisal in the Light of a
Critical Analysis of Polybius’ Discourse on the Roman Army, Exeter, 1996, p. 67), a coorte citada no fragmento seria
legionária, ideia que nos parece incorrecta.

104
mature coquant – Lívio, 34.12.6). Não faria sentido que as instruções de Catão se
destinassem apenas aos socii. Cabe então imaginar duas alternativas – ou estamos
diante de um erro de Tito Lívio, ou trata-se de um caso semelhante ao que, por outro
lado, a narração sugere, em que a coorte servia para dividir as legiões em corpos
expedicionários (Lívio, 34.19.10; 34.20.3). De facto, sabemos que, por meio deste
estratagema, o cônsul pretendia justamente evitar enfraquecer o seu exército (minuere
exercitum), ao contentar os seus aliados indígenas (Lívio, 34.12.1).
Estas incertezas dificultam os nossos esforços analítico-interpretativos, mas é
tentador concluir que a presença da coorte nos textos concernentes ao período anterior
ao século a. C. não limita a uma só explicação: o anacronismo flagrante pressente-se na
referência aos aliados, sem excluir a menção a uma autêntica unidade táctica
legionária. Mas não sobrestimemos a coerência interna das fontes. De um livro para
outro, ou mesmo no interior de um só, a presença e o significado da palavra cohors
podem variar consoante o contexto, mas sobretudo em função da documentação
utilizada pelo autor.
Muitas vezes interpretada como reflexo da inferioridade da tradição analística,
preponderante na narração dos eventos do Ocidente, a concentração das referências a
uma coorte pré-mariana para a Hispânia poderia proceder, em parte, do recurso (muito
pontual e desigual) a informações obtidas em primeira mão, mais precisas do que o
habitual. Consequentemente, a nível táctico, a especificidade dos exércitos romanos
que combateram na Península Ibérica nos séculos III e II a. C., é apenas aparente.
Pelo que ficou exposto, as hipóteses aventadas para relacionar a aparição e o
desenvolvimento da coorte legionária com as guerras conduzidas pela Urbs na
Península Ibérica carecem de fundamentos suficientemente sólidos. As tradições
guerreiras hispânicas, não mais do que as dos Cimbros ou dos Teutões um século
depois, estariam desprovidas da especificidade que esporadicamente se lhe atribuiu.
Assim, longe de encontrar a sua origem nos constrangimentos bélicos próprios da
Hispânia, a coorte parece ter coexistido constantemente com o manípulo, desde a
Segunda Guerra Púnica, pelo menos, no conjunto dos teatros de operações da
conquista. Este aspecto do exercitus republicano está muito mal documentado. No
entanto, a extrema pobreza de ocorrências fiáveis da coorte nas nossas fontes não
permite refutá-lo, o mesmo valendo para o manípulo, também pouco mencionado nos
relatos de campanhas militares.
O argumento ex silentio revela-se claramente insuficiente: nesta perspectiva, o corpus
documental relativo à Península Ibérica manifesta a sua verdadeira originalidade; ele
permite fazer remontar certas menções à coorte legionária a testemunhos como os de
Laelius ou de Catão, ocupando lugar em pormenores técnicos geralmente arredados do

105
discurso dos historiadores antigos. Assim, oferece-nos a oportunidade de captar,
mesmo que difusamente, o quadro em que tal unidade táctica era usualmente adoptada
ao tempo: circunscrita a manobras precisas no campo de batalha ou a tipos de
destacamentos pontuais, como as guarnições, a coorte representava uma maneira
alternativa de organizar e utilizar os manípulos, e não uma unidade per se267. Encontra-
se um eco deste facto em Salústio, que a par de historiador foi militar, a propósito da
Guerra de Jugurta. Em 107 a. C., a legião manipular de Metelo, atacada pelas forças
númidas junto do rio Muthul, conseguiu, graças à coorte, mudar a sua ordem de
batalha, apesar da confusão da contenda (Bell. Iug. 49.6).
Só mais tarde, a seguir à «Guerra Social», por ocasião da única transformação
institucional que se conhece para o exército republicano após a criação da legião
manipular, é que o significado desta subdivisão veio a mudar.
***

Políbio (Hist. 6.25.11) enalteceu a capacidade dos Romanos em adoptarem as armas


dos seus adversários, como o ilustra o episódio que descreveu da reprodução romana de
um navio cartaginês. Não admira, pois, que desde há muito que se tenha ressaltado,
nos estudos consagrados ao exército republicano romano, o tópico da sua enorme
adaptabilidade, no sentido de imitar e assimilar, sem reservas, as armas de outros
povos268. Aceita-se tradicionalmente que terá sido no decurso das Guerras Samnitas
que se procedeu à substituição da antiga panóplia, de tipo e origem helénicos, por outra
baseada no escudo oval (scutum) como arma defensiva269. De acordo com esta visão, o
segundo grande momento de adaptações no armamento romano situou-se no último
quartel do século III a. C., ou então nos primeiros decénios do III. Com base na tradição
literária, nesse período se tomaria da Ibéria não só a espada de lâmina recta com dupla
função cortante e penetrante (gladius hispaniensis), como também o protótipo do
pugio270.
Em vez de eventuais empréstimos ou apropriações, certos historiadores têm insistido
mais nas semelhanças que haveria, desde há muito, entre o armamento dos Romanos e
o dos seus inimigos. Com efeito, torna-se difícil atribuir esta ou aquela arma descoberta
pelos arqueólogos aos legionários ou aos seus antagonistas. Posto isto, certos autores
renunciaram em atribuir uma origem ibérica ao pilum - vários indícios apontam para
que tenha aparecido num contexto itálico. Muitas décadas atrás, autores como A.
267
Como bem salientou F. Cadiou: cf. «Les guerres en Hispania…», p. 181.
268
J. Heurgon, «La guerre romaine aux 4-3e siècles et la fides romana», in J. P. Brisson (ed.), Problèmes de la guerre à
Rome, Paris/Haia, 1969, p. 25; P. Couissin, Les armes romaines, Paris, 1926; D. Briquel, «La tradition sur l’emprunt
d’armes samnites par Rome» (1986) .
269
Ideia que se fundamenta nas próprias fontes clássicas, em especial no Ineditum Vaticanum (Arnin, 1892), em Salústio
(Catilina 51.38), Símaco (Epist. 3.11.3), Diodoro Sículo (Bibl. Hist. 23.2) e em Ateneu de Damasco (Deipn. 6.273F); cf.
Briquel, 1986.
270
F. Quesada Sanz, El armamento ibérico…, pp. 300-302.

106
Schulten ou o Marquês de Cerralbo defenderam que o pilum «nasceu» na Península
Ibérica, teoria que actualmente se sabe não corresponder à realidade, há, é certo, um
texto clássico que remete para uma tal origem (Ateneu de Damasco, Deipn. 6.273ss.
gaison), mas é contrariado por muitos outros que atribuem diferentes procedências ao
pilum271. Para F. Quesada Sanz, «Há […] mais de convergência táctica do que difusão no
aparecimento, desde o século VI a. C., de armas arrojadiças pesadas, tanto em Itália
como na Península Ibérica»272. Já em 1926 Couissin273 criticara a proposta de Schulten.
Cabe talvez imaginar uma origem itálica para o pilum romano e numa peninsular ou
pirenaica para as «versões» hispânicas e gaulesas (incluindo o soliferreum e a falarica,
funcionalmente similares ao pilum)274.
No tocante ao gládio, alguns sugeriram que os Romanos se teriam limitado a alongar
a lâmina da espada que já utilizavam, bebendo inspiração, mas indirectamente, numa
arma celtibérica, e apenas a adaga (pugio) significaria um empréstimo directo dos
Celtiberos, a qual desempenhava um papel bastante limitado no armamento romano.
Neste assunto, todavia, são mais credíveis os argumentos que Quesada Sanz carreou, os
quais aceitámos e desenvolvemos anteriormente.
Sobre o pugio, ao contrário do gladius, não colhemos referências antigas que
especifiquem terem os Romanos obtido o protótipo da adaga na Península Ibérica. Esta
ideia foi primeiramente exposta por H. Sandars 275 e depois retomada por Schulten 276, na
sua obra sobre Numância. As manifestas afinidades formais entre o pugio romano alto-
imperial e as adagas biglobulares celtibéricas (que também se atestam, no âmbito
peninsular, na zona catalã, levantina e na Andaluzia 277) justificam que se sustente uma
clara origem hispânica. A obsoleta e arrevesada sugestão de Couissin 278, segundo a qual
a lâmina pistiliforme romana derivaria de modelos gregos (o xiphos ou espada curta) e
a sua empunhadura se basearia em protótipos hispânicos não faz actualmente qualquer
sentido, visto que conhecemos espécimes bidiscoidais peninsulares com lâminas
pistiliformes.
Contudo, neste contexto, faltam elementos informativos, como para o hiato, no que
concerne ao material arqueológico romano, entre cerca de 133 a. C. (a suposta altura
em que os Romanos terão adquirido adagas celtibéricas, das quais posteriormente se
fabricariam cópias) e o século I d. C. (quando as «descendentes das primeiras se

271
Ibidem, p. 336ss.
272
«El legionario romano en epoca de las Guerras Punicas…», p. 189; IDEM, El armamento ibérico…, p. 340.
273
P. Couissin, Les armes romaines, p. 185.
274
F. Quesada Sanz, El armamento ibérico, pp. 331-343.
275
H. Sandars, The Weapons of the Iberians, Archaeologia 64, Oxford, 1913, p. 64.
276
A. Schulten, Numantia. Die Ergebnisse der Ausgrabungen 1905-1912. Die Stadt Numantia, Munique, 1931, pp. 214-
215.
277
F. Quesada Sanz, El armamento ibérico, p. 293, fig. 173.
278
Couissin, 1926, p. 236.

107
generalizariam como peça do equipamento-padrão nas legiões acantonadas no Reno),
se bem que a bainha descoberta em Basileia, anterior a 15 a. C. 279, e a estela de Pádua 280,
de aproximadamente 42 a. C., nos proporcionem uma conexão parcelar. Consideramos,
na esteira de G. Ulbert281 e Quesada Sanz282, que o momento da adopção, quiçá
inicialmente por meio de elementos de despojos ou de um troféu, terá correspondido à
guerra numantina. Além disso, na época de Cáceres el Viejo, as adagas bidiscoidais já
seriam frequentes nas legiões283.
Frequentemente, muitos estudiosos opuseram a superioridade de manobra das legiões
romanas face à rigidez das falanges dos reinos helenísticos, incapazes de pelejarem
segundo modalidades mais flexíveis, ao contrário dos guerreiros ibéricos que as
empregaram habitualmente, não se cingindo estes à prática da «guerrilha», como
amiúde alguns ainda supõem. Na sua monografia sobre a conquista romana da
Hispânia, F. Cadiou tendeu a relativizar o contraste entre a disciplina colectiva dos
legionários e a bravura individual que, alegadamente, seria apanágio dos seus
oponentes peninsulares; ainda contribuiu para restituir o lugar ocupado pela batalha
campal no Ocidente, fenómeno que teve lugar com certa recorrência no espaço ibérico.
Importa matizar diversos aspectos de uma visão preconcebida que, estranhamente,
continua a prevalecer em determinados livros e artigos. Por último, os métodos de
combate utilizados pelo exército romano até teriam mais pontos em comum do que
diferenças, quando cotejados com os dos seus inimigos, como F. Quesada Sanz
mostrou284.
Ao precisar de se adaptar a um esforço bélico que se estendia a frentes cada vez mais
distantes, o exército censitário passou por várias transformações, designadamente no
plano logístico. Os legionários passaram assim a efectuar certas tarefas de intendência e
de administração, imprescindíveis para a vida quotidiana no decurso das campanhas
ou no aquartelamento de Inverno (castra hiberna).

II.7. Nomen Latinum e Socii

279
Helmig, 1990.
280
Ibidem; M. Bishop e J. Coulston, Roman Military Equipment, p. 55, fig. 20.
281
G. Ulbert, Cáceres el Viejo. Ein spätrepublikanisches Legionslager in Spanisch-Extremadura, Mainz, Philipp von
Zabern, 1984, pp. 108-109.
282
«El legionario en epoca de las Guerras Punicas…», p. 188.
283
Contra M. Luik, Die funde aus den Römischen Lagern um Numantia…, 2000, p. 90.
284
«Not so different: individual fighting techniques and battle tactics of Roman And Iberian armies within the
framework of warfare in the Hellenistic Age», in P. François, P. Moret e S. éré-Nogués (eds.), L’Hellénisation en
Méditerranée Occidentale au temps des guerres puniques. Actes du Colloque International de Toulouse, 31 mars-2
avril / Pallas 70 (2006), pp. 245-263.

108
Como vimos, as cidades latinas (nomen Latinum) e o resto dos aliados (socii)
italianos eram obrigados a fornecer contingentes específicos, de acordo com que se
estipulara nos seus acordos com a República romana. Vários aliados que habitassem na
linha costeira da península, designadamente nas cidades gregas do Sul de Itália, como
Neapoli (Nápoles), Rhegium, Locri e Tarentum, facultavam navios de guerra,
embarcações de transporte e tripulantes, ao passo que a infantaria romana e a aliada
servia a bordo das galés de combate como «fuzileiros navais» (Políbio, Hist. 1.20.13-14;
Lívio, Ab Urb. cond. 26.39.5, 36.42.1-2). No entanto, as grandes frotas da Primeira e da
Segunda Guerras Púnicas não ressurgiriam nos conflitos que se desenrolaram no século
II a. C.
As unidades do exército latinas e aliadas estavam equipadas como as suas homólogas
romanas, com efectivos variáveis de infantaria e cavalaria adstritos a cada exército: as
seis legiões formadas em 218 a. C. totalizaram 24 000 infantes e 1800 cavaleiros
romanos, afora mais de 40 000 aliados apeados e 4 400 de cavalaria (Lívio, Ab Urb.
cond. 21.17.1-2, 17.5); mas em Canas, o número de soldados de infantaria equivalia ao
dos Romanos (Políbio, Hist. 3.107.12).
Esta quase igualdade, ou certa homogeneização, observável no século II a. C., deveu-
se talvez à constatação de que as devastações da guerra hanibálica, bem como as
exigências constantes de recrutamento pelos Romanos, estavam a causar danos nos
recursos humanos dos aliados. Mais tarde, no mesmo século é possível que se tenha
assistido a uma certa recuperação nos efectivos aliados ou, pelo menos, os Romanos
assim achariam, já que o ratio parece, uma vez mais, haver subido para 2:1, por volta
de 90 a. C285.

II. 8. Os Romanos em combate286

Os objectivos de um exército romano eram, a nível teórico-prático, bastante directos


e objectivos: ir ao encontro das forças inimigas e aniquilá-las, conquistar os seus pontos
fortes (e, claro, saqueá-los) ou ambas as coisas. As provisões, assim como os reforços,
viriam, em teoria, de Itália, mas, na prática, um exército tinha, amiúde, que subsistir na
região em que estava a operar. Movimentava-se cuidadosamente: quando as forças
antagonistas apareciam no horizonte, não livrava automaticamente uma batalha, salvo

285
Sobre as coortes aliadas: J. F. Lazenby, Hannibal’s War. A Military History of the Second Punic War, pp. 12-13, 22.
As coortes romanas: J. Kromayer e G. Veith, Heerwesen und Kriegführung der Griechen und Römer, pp. 299-300 (Ilipa
“die erste Belegstelle”), pp. 427-434; L. Keppie, The Making of the Roman Army, pp. 63-66 (datando-as do tempo de
Mário, o que não corresponde à verdade).
286
N. Fields, Roman Military Tactics 390-110 BC, pp. 52-60.

109
quando fosse montada uma emboscada, como sucedeu em Trasimeno, ou houvesse um
violento choque, como em Cinoscéfalas 287(gr. Kynoskephalai; lat. Cynoscephalae).
Realizava-se um apreciável número de manobras cautelosas, cada general buscando
escolher um sítio favorável para as suas tropas e evitando um local que pudesse
oferecer vantagens ao inimigo. Isto aconteceu, por exemplo, na Apúlia, durante meses,
em 217-216 a. C. Se bem que Aníbal tenha apanhado o exército romano desprevenido,
este veio a ser socorrido por Fábio Cunctator, que avançava com a outra metade dos
soldados. Na Hispânia, por seu turno, raramente se livraram batalhas decisivas,
assumindo os confrontos sobretudo a forma de recontros ou escaramuças, além de
envolver assaltos a numerosos centros fortificados da península.
Quando um exército romano participava numa grande batalha, esta podia determinar
o desfecho da guerra288. As excepções eram, obviamente, quando as forças da Urbs
perdiam e, neste caso, a guerra prosseguia. Actualmente os especialistas ainda
discutem bastante sobre como seria uma batalha «clássica» romana. Tanto podia ser
longa – três horas em Trasimeno e, supostamente, um prélio ainda mais demorado
contra os Ligures, em 172 a. C. (Lívio, Ab Urb. cond. 22.6.1, 42.7.5). A seguir às
escaramuças entre as tropas ligeiras de ambos os lados, uma batalha principiava
usualmente com os hastati a arremessarem os pila a curta distância, para desorganizar
o inimigo.
Surpreendentemente, talvez, esta iniciativa romana poucas vezes deparou com uma
resposta idêntica. Contra oponentes desprotegidos, como os Gaesatae, que porfiaram
completamente despidos em Telamon (Políbio, Hist. 2.30.1.5), os pila causavam
tremendos estragos mas, em contrapartida, parece que provocaram muito menos
consternação aos Púnicos, Macedónios e outras forças militares mais sofisticadas. A
seguir, as principais unidades de infantaria avançavam, uma após outra e, depois,
senão até antes, a cavalaria, posicionada nas alas, investia também contra as tropas
montadas adversas.
O combate corpo a corpo da infantaria não se resumia normalmente a uma mêlée em
que os beligerantes se defrontassem incansavelmente durante horas a fio. É fácil
perceber porquê: os soldados, ao utilizarem armaduras, escudos pesados e armas com
lâminas de ferro, não conseguiam aguentar um tal ritmo e esforço em termos físicos.
Prevalecia, em vez disso, um complexo padrão de confrontação, em que as fileiras dos
combatentes se entrechocavam ao longo de alguns minutos e, a seguir, cada um dos
lados retrocedia para recuperar o fôlego e reorganizar a formação: depois voltariam a

287
Sobre esta batalha: N. G. L. Hammond, «The campaign and battle of Cynoscephalae in 197 BC», Journal of Hellenic
Studies 108 (1988), pp. 60-82.
288
P. Sabin, «The mechanics of battle in the Second Punic War», in T. J. Cornell et al. (eds.), The Second Punic War. A
Reappraisal, pp. 59-79; IDEM, «The face of Roman battle», JRS 90 (2000), pp. 1-17; A. Goldworthy, Cannae, pp. 118-
143.

110
atacar (no apêndice deste capítulo, desenvolvemos detalhadamente este novo modelo
interpretativo). Na batalha de Zama, Cipião foi capaz, a meio da contenda, de mandar
recuar e realinhar todo o seu exército para o ataque final, recorrendo para o efeito a
sinais sonoros emitidos por trombetas, além de muito se ver ajudado pela passividade
da terceira linha de Aníbal, que quase se limitou a ficar a olhar, imóvel, para a
aniquilação do resto do seu exército (Políbio, Hist. 15.13-14; Lívio, Ab Urb. cond.
30.34).
Embora narrando uma batalha livrada aquando da guerra civil, em 43 a. C., Apiano
traça um quadro sugestivo do corpo a corpo (batalha de Filipos):
«…eles não lançaram qualquer brado de guerra… nem nenhum emitiu som 289 algum enquanto
pelejavam, estivessem a ganhar ou a perder. [Encurralados em pântanos e valas], incapazes de
empurrar as costas de cada um deles, achavam-se emaranhados uns nos outros com as suas
espadas, como se estivessem numa competição de luta. Se um homem caía, era imediatamente
retirado e outro tomava o seu lugar … Quando se encontravam extenuados, afastavam-se por
alguns instantes para recuperarem as forças … e depois lutavam uns contra os outros de novo.
Quando os novos recrutas apareceram, ficaram atónitos ao verem tudo isto se passar com tal
disciplina e silêncio» (Guerras Civis, 3.68.279-281; cf. 4.128.533-537).
A situação aqui descrita poder-se-ia aplicar tanto a Canas, antes da armadilha se
fechar sobre os Romanos, como a Zama, na sua terceira fase decisiva.
Lutar contra inimigos dispostos em falange ou noutros géneros de disposições menos
organizadas, haja em vista as hordas de Gauleses ou as unidades tribais hispânicas 290,
obrigava naturalmente a adopção de métodos diferentes. A falange podia revelar-se
irresistível, desde que avançasse firmemente e em solo plano. Assim, aos Romanos
restava aguardar até que a formação inimiga ficasse desordenada ao movimentar-se em
terreno acidentado, como sucedeu na batalha de Pidna 291, ou a carregar sobre a
retaguarda adversa ou um flanco desprotegido, o que os «filhos de Marte» fizeram em
Cinoscéfalas e em Magnésia. Frequentemente, a cavalaria decidia o resultado de uma
contenda campal, como aconteceu com Aníbal, que a utilizou em Canas, ganhando
fama; também recorreu aos ginetes o pretor Varão, contra Mago, na Ligúria, em 203 a.
C. (Lívio, Ab Urb. cond. 30. 18.1-13), bem como Masinissa e Lélio (Laelius), em Zama,
além do rei Eumenes de Pérgamo em Magnésia.
Os Gauleses, apesar de imbuídos de ardor belicoso, caracterizavam-se por terem
pouco disciplina, e a maioria deles possuía pouco armamento, à excepção dos escudos e
das espadas para assestar cutiladas. Os Hispanos, pelo contrário, estavam bem
equipados e ganharam acrescido treino desde que passaram a servir os Cartagineses. As
forças tanto gaulesas como hispânicas podiam exercer uma tremenda pressão sobre um
sólido dispositivo composto por legionários; mas, numa batalha, a dada altura, os
289
Sobre este suposto silêncio das tropas romanas, que alguns estudiosos modernos entenderam ser uma das
características típicas da actuação dos milites, teceremos mais comentários noutro capítulo.
290
P. Connolly, Greece and Rome at War, pp. 113-126, 150-152.
291
Para a descrição desta refrega, travada em 22 de Junho de 168 a. C., entre Lúcio Emílio Paulo e as forças macedónicas
do rei Perseu, consultem-se: N. G. L. Hammond, «The Battle of Pidna», Journal of Hellenic Studies, 104 (1984), pp. 31-
47; A. K. Goldsworthy, Generais romanos: «Capítulo 3: O conquistador da Macedónia: Emílio Paulo», pp. 102-126.

111
Romanos viam-se amiúde ajudados por uma carga de cavalaria ou por uma investida de
tropas ligeiras, o que ocorrendo no momento mais oportuno, geralmente lograva levar
de vencida tais inimigos (por exemplo, Políbio, Hist. 2.28.9-30.8; Lívio, Ab Urb. Cond.
29.2.4-18, sobre uma difícil vitória romana sobre os Hispanos setentrionais em 205 a.
C.).
Outra área de actividades bélicas a que os militares romanos, ao longo destes séculos,
também recorreram, ainda que não obtendo proezas verdadeiramente brilhantes,
consistiu nos assédios.292 O espírito inventivo e destruidor dos engenheiros helenísticos
gerou torres de assalto, aríetes e vários tipos de catapulta, engenhos que foram
empregues com êxito por Alexandre-o-Grande e pelos seus sucessores. Por vezes, os
exércitos romanos tentaram servir-se de tais máquinas de guerra, como aconteceu nos
prolongados cercos de Lilybaeum e de Drepana, durante a Primeira Guerra Púnica,
mas o sucesso nas empresas estava longe de ser garantido: estas duas cidades ainda não
haviam sido tomadas quando a guerra terminou. Se uma cidadela ou praça-forte não
fosse conquistada logo no primeiro assalto, como sucedeu em Carthago Nova
(Cartagena, Espanha), um dia depois de Cipião ter empreendido uma investida em 209
a. C. – havia então que estabelecer uma circunvalação e utilizar aríetes (e,
ocasionalmente, obras de sapa, para a abertura de túneis e galerias sob as muralhas
inimigas). Durante dois anos (212-211 a. C.), dois exércitos consulares sitiaram Cápua,
empregando apenas trincheiras e linhas fortificadas, até que os habitantes da cidade
acabaram por capitular, por estarem a passar fome.
Ao assediarem Oreus, na Grécia, em 200 a. C., os Romanos fizeram uso de manteletes
(parapeitos de defesa) e aríetes, mas deixaram a sofisticação militar técnica (catapultas
que lançavam pedras «e todo o tipo de artilharia») nas mãos dos seus aliados de
Pérgamo (Lívio, Ab Urb. cond. 31.46.10). No tocante ao cerco de Ambracia, em 189 a.
C., ele envolveu aríetes e a escavação de túneis, mas arrastou-se por vários meses, até
que os Etólios se renderam (Políbio, Hist. 21.27.1-6; 21.28.1-18; Lívio, Ab Urb. cond.
38.5-7). Por outro lado, os assaltos conduzidos por Marcelo contra Siracusa, de 213 a
211 a. C., viram-se frustados memoravelmente pelas engenhosas máquinas de
Arquimedes, a cuja eficácia o general só pôde responder com afirmações sarcásticas
(Políbio, Hist. 8.6.6). Por fim, como tantas vezes sucedia, Siracusa caiu por meio da
traição. Quanto a Cartago, em 146 antes da nossa era, teve de ser conquistada
literalmente rua a rua e casa a a casa.

292
Sobre a guerra de assédio praticada pelos Romanos: J. Kromayer e G. Veith, Heerwesen und Kriegsführung der
Griechen und Römer, pp. 244-245, 373-376; P. B. Kern, Ancient Siege Warfare, Bloomingtom IN, 1999, pp. 251-298.

112
2.8.1. A infantaria («pesada» e «ligeira») na legião republicana antes de
Gaio Mário. Comentários adicionais sobre o armamento romano

Na Antiguidade, a caracterização das tropas como pertencentes à infantaria «pesada»


ou à «ligeira» não dependia tanto da quantidade de armamento defensivo que
utilizavam, mas, acima de tudo, da sua forma de combater 293. Assim, enquanto a função
do infante ligeiro, organizado para intervir em escaramuças à frente ou nos flancos da
linha principal de batalha, exigia que ele tivesse ligeireza de movimentos e o obrigava a
estar praticamente desprovido de elementos de protecção corporal, à excepção, talvez,
de um escudo liviano e, ocasionalmente, de um elmo294, a infantaria que podemos
cunhar de «linha», mais do que «pesada», estaria provida tanto de um armamento
volumoso e pesado, como utilizar uma protecção limitada, quase em exclusivo, a um
grande escudo e um casco, à semelhança do que sucederia com o legionário romano em
meados da República. Assim, no Mediterrâneo antigo, predominaram os infantes
«pesados» ou de «linha», desde o hóplita clássico grego, coberto de bronze da cabeça
aos pés295 e protegido por um pesado aspis com 6,5-8 kg e perto de 1 m de diâmetro 296,
até aos falangistas macedónios das fileiras centrais, empregando um escudo medindo
cerca de 60 cm de espessura, sem couraça nem grevas, cingindo na cabeça um gorro ou
coifa de feltro em lugar de um elmo 297. Na legião romana, com base em Políbio e várias
fontes iconográficas, somente pequena proporção dos soldados envergaria protecções
metálicas corporais.
Por outro lado, a legião romana no início da Segunda Guerra Púnica não se traduzia
numa formação exclusivamente constituída pela infantaria pesada típica dos tempos de
Mário ou de Júlio César (século I a. C.), mas numa força combinada, fraca em cavalaria,
mas extremamente poderosa nas suas tropas apeadas: à frente de 2 400 hastati e
principes e 600 triarii, a legião republicana dos séculos III-II a. C. dispunha, em
circunstâncias normais, de uns 1200 velites, que representavam uma percentagem
perto de 30% do total dos efectivos (Políbio, Hist. 6.20.8, 6.21.7). Convém insistir neste
ponto, dada a imagem tradicional que ainda prepondera, de descrever a legião como
uma massa compacta de infantes pesados, sem tropas ligeiras. Por mais decisivo que
293
J. Lazenby, Hannibal’s War. A Military History of the Second Punic War, p. 14.
294
Fizeram-se outras experiências, mas quase todas redundaram em fracassos: tal foi o caso dos ekdromoi, ou classes
mais jovens da sociedade hoplítica, que saíam da formação para se lançar em perseguição, normalmente sem êxito, dos
peltastas inimigos, na medida em que, não obstante a sua força e agilidade, estes guerreiros viam-se entorpecidos pela
panóplia hoplítica (cf. ekdromoi. Tucídides, 4.125.3; Xenofonte, Hel. 4.5.16).
295
Com elmo praticamente hermético, couraça de bronze e grevas. Sobre isto, consulte-se a monografia de E. Jarva,
Archaiologia on Archaic Greek Body Armour, Societas Historica Finlandiae Septentrionalis, Rovaniemi, 1995.
296
P. H. Blyth, «The structure of the Hoplite shield in the Museo Gregoriano Etrusco», Bollettino Monumenti, Musei e
Galerie Pontificie 3 (1982), pp. 5-21; W. Donlan e J. Thompson, «The Charge at Marathon», Classical Journal 71 (1976),
pp. 339-343.
297
P. Connolly, Greece and Rome at War, pp. 79-80; A. Snodgrass, Arms and Armour of the Greeks, Londres, 1967, p.
117.

113
resultasse o choque dos hastati e dos principes, os velites eram tão numerosos como
cada uma dessas linhas, perfazendo o dobro dos triarii. Portanto, os velites, com os
seus dardos, espadas, escudos redondos e cascos simples (ou mesmo coifas,
perikephaia) desempenhavam um importante papel na estrutura táctica da legião.
Ao contrário do que se lê em várias obras e artigos de certos autores, que pecam por
uma generalização superficial ao descreverem os soldados romanos, estes, durante a
Segunda Guerra Púnica possuíam, em regra, um limitado armamento defensivo: só
uma reduzida proporção da legião – correspondente aos homens que declaravam no
census fortunas acima de 10 000 dracmas - tinha lorica hamata/cota de malha, que
provavelmente se limitaria aos 600 triarii e alguns principes e hastati; as restantes
tropas de «linha» exibiriam um pequeno peitoral a cobrir o peito. Embora Hans
Delbrück julgasse impossível a presença do pectorale enquanto única protecção,
acreditando que tal peça consistia apenas num reforço para uma couraça mais
completa de linho (linothorax) ou couro,298 há suficientes evidências que nos leva a
aceitar o que Políbio escreveu 299. Mais difundido estaria o elmo de bronze (Políbio,
Hist. 6.23.8), usualmente do tipo «Montefortino» – como anteriormente referimos –
ou pertencente a alguma das «versões» greco-itálicas assinaláveis na iconografia e
atestados pela arqueologia300. Quanto às grevas/ocreae, aparentemente não estariam
tão disseminadas como Políbio dá a entender (Hist. 6.23.8)301.
A principal arma defensiva era, indubitavelmente, o escudo rectangular de ângulos
arredondados, em forma de telha, ao qual Políbio prestou especial atenção e que,
conforme indicam reiteradamente as fontes literárias antigas, protegia melhor o corpo
do que o escudo oval gaulês, plano e mais estreito. Um tal escudo tornava, em certa
medida, redundante uma protecção corporal muito pesada, já que a maneira de
combater dos legionários implicava o arremesso dos pila com movimentos amplos
(Políbio, Hist. 6.23.8-9) e, depois, a luta com o gladius hipaniensis, que servia tanto
para desferir cutiladas como estocadas (ibidem, 6.23.6-7), o que requeria certo espaço
para a sua utilização.
As investigações produzidas nos últimos anos, apoiadas em abundante quantidade de
informes literários e na documentação icónica, conduzem, quase todas, à mesma
conclusão quanto ao uso do escudo romano – que pesava entre 6 e 10 kg – e que não
funcionava só como peça defensiva, uma vez que era empregue como um elemento de

298
H. Delbrück, Warfare in Antiquity, Londres, 1920, p. 280; também, incompreensivelmente, E. Hildinger, em data
bem mais recente: Swords against the Senate. The Rise of the Roman Army and the Fall of the Republic,
Cambridge/MA, 2002, p. 21.
299
P. Connolly, Greece and Rome at War, p. 133.
300
Ibidem, pp. 131-133; N. Sekunda, Republican Roman Army 200-104 B. C., Londres, 1996, pp. 6-7.
301
N. Sekunda, op. cit., pp.8-9; F. Quesada Sanz, «El legionario en epoca de las Guerras Punicas…», p. 175.

114
percussão ofensiva, vibrando fortes golpes sobre o inimigo, provocando-lhe ferimentos
ou desequilibrando-o (Políbio, Hist. 18.30.7)302.
Por outro lado, neste período, a protecção corporal metálica completa era muito
dispendiosa, daí que possivelmente estivesse fora do alcance da maioria dos soldados
das primeiras linhas da legião. A tudo isto, refira-se que os 1200 velites, uma proporção
muito considerável do total das forças de uma legião, não fariam uso de outros
elementos protectores substanciais para além de um grande escudo circular (com cerca
de 90 cm de diâmetro, se nos cingirmos a Políbio, Hist. 6.22.3).
Assim, não confundamos o armamento romano a partir do tempo de Mário em diante
com o bastante mais ligeiro do século III a. C., que, em geral, não seria mais elaborado
nem muito mais pesado do que o empregue pela maioria dos antagonistas contra os
quais os Romanos lutaram no momento histórico aqui em foco. O escudo, guarnecido
pela sua orla metálica (e o seu elemento, igualmente de metal, para o umbo), adoptado
de maneira homogénea pela legião, foi, juntamente com o elmo de bronze, simples mas
generalizado, a principal peça defensiva, mas no seu conjunto, a legião estava longe de
corresponder a uma massa de homens «forrados de bronze ou ferro como o tinha sido a
falange grega arcaica, ou como viria a ser a legião augustana ou trajânica» 303.
Quanto às armas ofensivas, detenhamo-nos no pilum, que constituiu objecto de
especial atenção por parte de Políbio; no entanto, da sua breve descrição (Hist. 6.23.8-
11), assomam quase tantos problemas como certezas: para já, os historiadores e outros
estudiosos mais perceptivos como P. Connolly, embora aceitando a sua utilização por
meio de «salvas», expressaram dúvidas sobre a possibilidade, em termos práticos, de
um soldado levar consigo os dois pila (um pesado e outro ligeiro) para o combate; de
facto, parece impraticável que segurasse numa mão o pilum pesado, enquanto com a
esquerda agarrava o escudo (com uma pequena manilha horizontal), ao mesmo tempo
que pegava na haste do pilum mais leve, ou o contrário; para além disto, colocou-se a
questão bem pertinente da dificuldade em lançar ambos os dardos a partir de uma
distância entre os 25 e os 30 m 304, contra uma formação inimiga que, por sua vez, ia
avançando; durante esses breves instantes, não haveria tempo suficiente para se
efectuarem as duas salvas e, logo a seguir, desembainhar a espada pouco antes do
contacto directo das duas linhas. A. K. Goldsworthy 305 abordou o mesmo assunto e
chegou a uma conclusão similar à de P. Connolly – o segundo pilum ficaria de reserva
na retaguarda.
302
P. Sabin, «The face of Roman Battle», p. 8; A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 218. Colhem-se
referências para períodos mais tardios nas obras de Tácito: e. g., Ann. 14.36-37; Agricola, 36.
303
F. Quesada Sanz, «El legionario romano en epoca de las Guerras Punicas…», p. 176.
304
A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 186; P. Connolly, «The reconstruction and use of Roman weaponry
in the second century BC», in A. T. Croom e W. B. Griffiths (eds.), Re-Enactment as research. 12th ROMEC, JRMES,
2000, p. 45; F. Quesada Sanz, El armamento ibérico…, p. 342.
305
The Roman Army at War, p. 199.

115
Ora, ou seguimos os referidos autores, imaginando que se deixaria um pilum em
reserva, no acampamento – o que tornaria desnecessário distinguir um dardo de tipo
ligeiro com maior alcance de outro pesado – ou a progressão e a carga inicial de uma
legião assumiriam um aspecto diferente daquele que costumamos supor. Para poderem
empregar os dois pila sucessivamente, os soldados deveriam avançar a passo, cravar
um dos dardos no solo, arrojar o outro a partir de uma posição basicamente estática,
recuperar o segundo e continuar a marchar em direcção ao adversário, realizando uma
última salva a menor distância, nesta altura talvez no decurso de uma corrida
contida306. Como a distância efectiva se cifrava em 25-30 m, isto implicaria que o
inimigo estivesse numa atitude passiva e estática durante todo este tempo, o que
contradiz claramente a própria lógica e não se revela consonante com a maior parte das
descrições de batalhas contidas nas fontes literárias.
Resta, por fim, uma terceira alternativa: que os dois pila se transportassem para o
palco do prélio, mas que os legionários das primeiras linhas só ficassem com um, ao
passo que os posicionados nas filas posteriores acumulariam vários para se utilizarem
mais tarde, quiçá fazendo-os passar para os seus camaradas situados na vanguarda. Em
todo o caso, as opções dois e três pressupõem um género de combate muito mais
prolongado, indeciso e ambíguo, pelo menos no seu início, muito diferente da imagem
estereotipada que associamos a uma carga de uma legião romana, vertente que
exploraremos no apêndice deste capítulo.

II. 9. Inimigos espalhados por três continentes

Até 264 a. C., os Romanos só tinham combatido em Itália. A partir desse ano, eles
desencadearam abruptamente uma grande guerra internacional, tanto contra os
Siracusenses (que depressa foram forçados a negociar a paz) como contra os
Cartagineses (que se aguentaram por muito mais tempo). A guerra de Aníbal foi, a
seguir, o primeiro de outros quatro extraordinários conflitos que, por volta de 167 a. C.,
converteram a República romana na potência arbitral do mundo mediterrânico. No
período entre os anos de 149 e 146, um par de guerras acutilantes e breves pôs termo à
independência de todos os estados gregos, incluindo a Macedónia, ao passo que foi
necessário uma conflagração bem mais extenuante para extinguir a cidade de Aníbal.
Houve outros conflitos intermitentes mas, por vezes, sérios contra povos menos
organizados mas tenazes, designadamente os Gauleses da Itália setentrional, os

306
F. Quesada Sanz, «El legionario romano en epoca de las Guerras Punicas…», p. 176.

116
montanheses Lígures e as comunidades e «confederações» hispânicas – nenhum deles
se convencendo que iria ser subjugado e anexado pela república romana.
Foi para o período entre 219 e 167 a. C. que Políbio colocou uma questão tornada
célebre: «Quem é tão insignificante ou inerte que não deseje saber como e através de
que sistema político praticamente todo o mundo habitado caiu, em 53 anos, sob a
dominação dos Romanos?» (Hist. 1.1.5, cf. 3.1.4-5.3.9). O costume bem arreigado de
travar guerras quase anualmente continuou, assim, a persistir, mas os antagonistas da
república imperialista passaram a situar-se em três continentes – no caso da guerra de
Aníbal, em todos ao mesmo tempo.
Além da boa fortuna que gozaram os Romanos, houve outro importante facto que
concorreu para o seu êxito militar – o cuidado dos seus exércitos não enfrentarem mais
do que um inimigo de «primeira classe» ao mesmo tempo. Porém, estiveram perto de
ter de lidar com esta situação, em 215-211 a. C., quando Filipe V da Macedónia tomou a
decisão (que seria ruinosa) de se aliar aos poderosos Cartagineses e a Siracusa, mas os
últimos revelaram-se fracos aliados. Noutro momento, durante os conflitos mais
recuados contra Pirro e Cartago, os Gauleses da Itália setentrional não causaram
problemas, sendo, apenas, uma ameaça esporádica ao longo da Segunda Guerra
Púnica. Mais tarde, os aliados da Macedónia e o «Grande Rei» (Etólia e Épiro, por
exemplo) significaram, quando muito, perigos secundários, enquanto a visão de Aníbal,
de uma coligação anti-romana entre Antíoco e Cartago, se limitou apenas a um sonho
sem concretização palpável.
A nível individual, o «outro lado», esporadicamente, pôs à prova os Romanos de
forma severa e até conseguiu averbar vitórias. Uma aliança entre dois ou três inimigos
podia conduzir, teoricamente, a república a um verdadeiro desastre: Cartago, a
Macedónia e o império Selêucida lograram formar exércitos comparáveis aos dos
Romanos, tanto em tamanho como em treino. Em Agrigentum (261), o general púnico
Asdrúbal teria supostamente 56000 homens de cavalaria e infantaria (Diodoro, 23.8.1,
ao citar o historiador agrigentino Filino). Talvez numa perspectiva optimista, Políbio
relatou a presença de 74000 tropas púnicas na batalha de Ilipa, em 206 (Hist. 11.20.2;
cf. Apiano, Iber. 25.100); já Lívio aponta um número menos impressionante – 54 500
(28.12.13-14)307.
Antíoco-o-Grande apareceu na batalha de Magnésia com 72 000 soldados dos mais
variegados géneros308, se bem que as cifras pormenorizadas de Tito Lívio, tenham ou
não sido baseadas em Políbio, apontem 57000 homens (Hist. 37.40; Apiano, Syr.

307
Exércitos presentes em Ilipa: J. F. Lazenby, Hannibal’s War, p. 145 (autor que preferiu plausivelmente basear-se mais
em Políbio do que em Tito Lívio.
308
B. Bar Kochva, The Seleucid Army. Organization and Tactics in the Great Campaigns, Cambridge, 1976, pp. 8-9,
167-169; J. D. Grainger (The Roman War of Antiochus the Great, Leiden, 2002, pp. 314-323) estima apenas 50 000
homens.

117
32.161). Quanto ao exército de Filipe V, ascenderia a um total de 25 500 soldados na
refrega de Cinoscéfalas (Lívio, Ab Urb. cond. 33.4.4), ao passo que o poderio militar
macedónico todo reunido, em 171 a. C., atingiria 43 ooo, os maiores efectivos desde
Alexandre-o-Grande (ibidem, 42.51.11). Por outro lado, importa frisar que estes
exércitos seriam muito dificilmente substituídos ou reconstruídos se aniquilados, o que
contrasta com a capacidade de gestão dos recursos humanos dos Romanos 309.
Nestes reinos do Oriente helenístico, um exército regular consistia numa falange
compacta de infantaria, cujas tropas usavam piques (sarissas) extremamente
compridos (medindo aproximadamente 6 m, maiores do que os empregues no tempo
de Alexandre-o-Grande), e em unidades de cavalaria e de infantes ligeiros de diversos
tipos, como se observa nas descrições de Tito Lívio sobre as forças de Antíoco e Perseu.
Uma falange subdividia-se em grandes «brigadas», mas normalmente combatia como
uma poderosa massa humana, investindo com as sarissas das fileiras dianteiras na
horizontal. As grandes potências do Oriente não encontraram razões válidas que as
fizessem alterar os seus métodos militares 310, que haviam funcionado bem desde o
reinado de Filipe II e durante o de Alexandre, a despeito de «intrusos» estrangeiros,
como os cavaleiros partos da Ásia Central e os guerreiros apeados e a cavalo trácios
(com armamento ligeiro) das terras do Baixo Danúbio, que frequentemente eram
contratados como mercenários.
No entanto, fizeram-se tentativas para adoptar variantes: Pirro defrontou as legiões
em Asculum com manípulos de aliados italianos, posicionados entre as «brigadas» da
sua falange (Políbio, Hist. 18.28.10-11); ele conseguiu rechaçar novamente o inimigo no
campo de batalha, mas à custa de fortes baixas do seu lado. Na contenda de
Cinoscéfalas, que se ocorreu inesperadamente, Filipe V possuía uma falange direita e
outra esquerda, as quais acabaram por ficar separadas (o que resultou desastroso). Em
Magnésia, a falange com 16 000 homens do «Grande Rei» desdobrou-se em dez
colunas, cada uma com 32 fileiras de profundidade, juntamente com um par de
elefantes em cada flanco interveniente (Lívio, Ab Urb. cond. 37.40.1-3), o que talvez
representasse uma variante experimental do método aplicado por Pirro, mas nem
assim evitou a derrota.
Não se pode dizer que o dispositivo manipular tenha apanhado as potências orientais
necessariamente desprevenidas, já que Pirro lidou com o primeiro cerca de setenta
anos antes. O mais provável é que as tradições e as inércias organizativas militares
terão impedido adaptações mais inovadoras. Além disso, a batalha de Cinoscéfalas
pode ser encarada, optimisticamente, como um feliz acaso, e a de Magnésia como um
309
Para os efectivos dos exércitos macedónios: N. G. L. Hammond e F. W. Walbank, A History of Macedonia, vol. 3,
Oxford, 1988, pp. 436-437, 540-542.
310
Para mais dados sobre as forças armadas helenísticas: Y. Garlan, «War and siegecraft», in Cambridge Ancient
History, vol. 7.1, Cambridge, 1984, pp. 353-362.

118
modelo de uma vitória da cavalaria: o enérgico aliado dos Romanos, Eumenes,
precipitou a derrota da infantaria de Antíoco mediante uma carga de flanco, bem à
maneira de Alexandre-o-Grande. Houve uma ou duas tentativas de imitação dos
métodos romanos, como a legião «romana» de Antíoco IV, com 5 000 soldados
envergando cotas de malha (Políbio, Hist. 30.25.3; Macabeus I, 6.35)., mas tiveram
uma existência efémera311.
Os exércitos romanos, como Políbio assinalou, eram geralmente superiores em
termos organizativos, técnicos e tácticos em relação a quaisquer outros durante os
séculos III e II a. C., à excepção das forças de Aníbal: estas perfilaram-se como um
desafio bem distinto; à semelhança dos anteriores exércitos púnicos, começaram por
ser uma combinação helenística de uma falange de tropas africanas, hispânicas (com
armamento ligeiro) e outras unidades, além da cavalaria. Lamentavelmente, a única
comparação de Políbio da maneira de fazer a guerra púnica com a romana é
estereotipada e genérica (Hist. 6.52.3-7).
Mas Aníbal teve em apreço o equipamento romano, a tal ponto que ordenou à sua
infantaria africana que se servisse de armas e armaduras capturadas (Hist. 3.87.3); ele,
ao tomar tal iniciativa, possivelmente pode haver imposto um dispositivo operacional
mais flexível na infantaria, embora não compreendesse o sistema manipular. As suas
tácticas, especialmente em Canas e, até, em Zama (Políbio, Hist. 15.12-15) sugerem esta
hipótese, pois que ao porfiar contra os legionários munidos de espadas, a infantaria
pesada de Aníbal também as utilizou, o que contribuiu para a carnificina quase
gigantesca que foi a batalha de Canas, representando o gladius, como dissemos, uma
arma assustadora nas mãos de soldados experientes (Lívio, Ab Urb. cond. 22.51.6-9).
Ciladas, marchas forçadas, como a empreendida em direcção a Roma em 211 a. C.,
secundadas por um avanço para sul, ameaçando Rhegium, e o facto de que, à medida
que o tempo foi passando, o seu exército englobou cada vez mais italianos, são aspectos
que apontam, de novo, para formações modificadas e mais versáteis.
Ironicamente, a arma considerada como «hanibálica» por excelência, os elefantes
(ainda que Pirro os tivesse já utilizado contra Roma), desempenhou um papel pouco
útil nas suas batalhas. Dos paquidermes que Aníbal trouxe para Itália, todos, salvo um,
morreram no Inverno de 218-217 a. C. Ademais, o seu maior contingente de elefantes,
oitenta na batalha de Zama, foi «despachado» facilmente pelos Romanos (Políbio, Hist.
15.12.1-4).
Aníbal cometeu o erro de chegar à península itálica com menos de metade dos
homens que conduzira através dos Pirenéus. Mas durante a sua estadia (218-203 a. C.),
ele criou um exército de campanha capaz de vencer os Romanos, embora por alguns

311
B. Bar Kochva, The Seleucid Army, pp. 55-56, 60, 180-183.

119
anos tenha mantido outro a agir autonomamente no Sul de Itália, além de estabelecer
guarnições em cidades amigas no Centro e Sul, perfazendo um total de
aproximadamente 90 000 homens. Em 208-207 a. C., com forças ainda na Hispânia e
o seu irmão Asdrúbal comandando cerca de 30 000 tropas frescas a caminho de Itália,
os Cartagineses deviam ter algo como uns 150 000 soldados (ao todo) entre a Hispânia
e a Itália (não contando com os efectivos fixados no Norte de África). É claro que
poucos deles eram cidadãos, uma vez que a «república» púnica se apoiava em larga
medida sobre os conscritos africanos e hispânicos e em mercenários estrangeiros; em
Itália, como referimos, obteve recrutas locais. Afigura-se surpreendente como, dez anos
após o princípio da guerra, o esforço militar dos Cartagineses ainda rivalizava com o
dos Romanos312.

II.10. Espírito e capacidade de liderança

Naturalmente, as legiões não tinham sempre garantidas vitórias instantâneas ou


automáticas. Tácticos talentosos da falange, como Pirro, podiam derrotá-las, mas à
custa de pesadas perdas. A impetuosidade dos Gauleses quase conseguiu fazer o mesmo
em Telamon, em 255 a. C., e a emboscada gaulesa numa floresta na Itália setentrional,
em 216 a. C., veio a anular a superioridade técnica romana, ao eliminar um eleito para
cônsul e as suas duas legiões, numa derrota praticamente tão grande como a sucedida
em Trasimeno (Lívio, Hist. 23.24.6-13). A capacidade de liderança não podia mostrar-
se muito mais abismal do que em 137 antes da nossa era, quando o cônsul Mancino, na
Hispânia, ao deixar-se apanhar numa cilada, foi obrigado a render-se aos indómitos
Numantinos313. De igual modo, as tácticas pouco ou mesmo nada imaginativas dos
generais podiam deitar a perder as vantagens das legiões, como a sua quase reversão à
formação em falange em Túnis (255 a. C.) e em Canas 314. Algo de similar acontecia com
uma estratégia demasiado «confiante», de que o caso mais flagrante consistiu nos
irmãos Cipiões, no Sul da Hispânia, em 211, que os conduziram à destruição 315.

Além de bom armamento, elevado grau de organização e boa dose de empenho, urgia
haver talento e competência no comando e, realcemos, um forte sentido de iniciativa a
312
Para mais detalhes sobre as forças de Aníbal: D. Hoyos, Hannibal’s Dynasty. Power and Politics in the Western
Mediterranean, 247-183 BC, Londres, pp. 108-119, 127-129, 227-228. Sobre os exércitos púnicos em geral W. Ameling,
Karthago: Studien zur Militär, Staat und Gesellschaft, Munique, 1993, pp. 155-194, 210-224.
313
Sobre Mancino: MRR, l. 484-485.
314
Batalha de Túnis: J. F. Lazenby, The First Punic War, pp. 103-106. Canas: A. K. Goldsworthy, Cannae, pp. 95-156.
315
Sobre os irmãos Cipiões: D. Hoyos, «Generals and annalists: Geographic and Chronological Obscurities in the Scipios’
campaigns in Spain 218-211 BC», Klio 83 (2001), pp. 83-89.

120
todos os níveis, de preferência contra um adversário que estivesse desprovido de tais
qualidades. Depois do revés sofrido pelos irmãos Cipiões, um tribuno militar chamado
L. Márcio (L. Marcius) reuniu as forças que sobreviveram e conduziu-as para norte,
rumo ao Ebro, ficando elas expostas a alguns ataques pouco significativos por parte dos
vitoriosos Cartagineses. Foi, analogamente, um tribuno, cujo nome se desconhece, que,
num momento de inspiração, em Cinoscéfalas, comandou vinte manípulos da ala
direita vitoriosa de Flamínio – os principes e os triarii da legião? - até à retaguarda da
outra falange (ainda intacta) de Filipe V. Na batalha de Pidna, apesar de uma primeira
arremetida bem sucedida da falange, o terreno acidentado veio a permitir que se
abrissem brechas na temível massa de sarissae, aproveitando então os flexíveis
manípulos romanos para tomar a iniciativa e romperem as linhas inimigas até derrotá-
las.

Mas nem os líderes antagonistas se notabilizaram usualmente como militares. Por


exemplo, a energia despojada de esplendor caracterizou Filipe V e o seu filho Perseu,
assim como Antíoco III e os comandantes aqueus de 147-146 a. C., Critolaus e Diaeus.
Entre os Cartagineses, poucos foram os generais – talvez só Xantipo, em 255, Aderbal,
em 249 (que depressa se perderam de vista), Amílcar e Aníbal – que se notabilizaram a
combater os Romanos. Cartago veio a sofrer grandemente com esta limitação, numa
guerra após outra.

O génio militar deste período foi indubitavelmente Públio Cornélio Cipião, mais
conhecido por Cipião-o-Africano316, cuja capacidade de raciocínio estratégico-táctico só
terá conhecido mais tarde um equivalente, Júlio César. Cipião treinou os seus exércitos
na Hispânia e no Norte de África, conseguindo que as tropas atingissem um notável
grau de sofisticação, ganhando cada uma das cinco vitórias sucessivas que ocorreram
entre 208 e 202 a. C., com manobras diferentes e muitas vezes complexas, para as quais
nem Aníbal tinha uma resposta adequada. Em Ilipa317, em particular, Cipião colocou as
suas divisões a realizarem uma série de movimentações intrincadas e desconcertantes
(o que se depreende, de certo modo, pelo esforço envidado por Políbio em descrevê-las:
Hist. 11.22.23). Em abono da verdade, a destreza dos exércitos cipiónicos significaram
tanto uma oposição como um tributo relativamente ao profissionalismo das forças
terrestres da era Bárcida.

316
Sobre este vulto incontornável da história militar romana e mundial, há diversas biografias: desde a da autoria de B.
Liddel-Hart, Greater than Napoleon (1ª edição, 1926), passando pela obra mais rigorosa e abrangente de Scullard,
Scipio Africanus. Soldier and Politician (1970) até, mais recentemente, ao livro de R. A. Gabriel, Scipio Africanus
(Potomac Books, 2009); para uma visão mais sucinta, consulte-se A. Goldsworthy, Generais romanos: «Capítulo 2: Um
Aníbal romano: Cipião Africano», pp. 57-87.
317
A. Goldsworthy, Generais romanos, pp. 76-84.

121
No entanto, esta sofisticação raramente se vislumbrou noutros generais romanos,
mesmo naqueles mais capazes, que não conseguiram igualar Cipião. Os comandantes e
os exércitos da primeira metade do século seguinte continuaram a mostrar-se hábeis e
bem-sucedidos, em parte porque tiveram de defrontar sistemas militares inimigos
sofisticados. Ainda assim, eles não precisaram de reproduzir as requintadas tácticas de
Cipião, e depois da subjugação dos reinos helenísticos e da aniquilação de Cartago, a
qualidade dos exércitos e dos comandantes romanos veio a oscilar entre a mediania e a
mediocridade. Os Lígures montanheses, os tenazes habitantes das terras altas da
Córsega e da Sardenha (Corsi e Sardi), os Ilírios e os Dálmatas, os povos gauleses (de
tempos a tempos nos Alpes ou para lá destes), bem como os escravos rebeldes na
Sicília, revelaram-se ocasionalmente difíceis de combater. Nos conflitos renhidos e
desencorajadores que tiveram lugar na Hispânia após 154 a. C., as tropas romanas
actuaram de maneira sofrível, quando não mesmo francamente má, embora Cipião
Emiliano tenha restaurado alguma da antiga disciplina no seu exército, em 134-133
antes da nossa era. Na realidade, seria necessário a deflagração der um novo conjunto
de grandes guerras (depois de 112 a. C.) para que o sistema militar romano viesse a
recuperar a sua elevada categoria.

II.11. O desenvolvimento da logística318

A castrametação319

As unidades do exército romano eram alojadas em acampamentos fortificados


durante o tempo que duravam as suas operações, consistindo, ao tempo, em instalações
provisórias (castra aestiva). Eles parecem ter obedecido, desde a sua origem, a uma
dupla função, defensiva e psicológica 320. Simultaneamente, tratava-se de assegurar a
protecção do exército em campanha e intimidar o antagonista. Além dos vestígios
arqueológicos, de que os mais recuados datam da segunda metade do século II a. C.,
como em Numância, o livro VI das Histórias de Políbio é a principal fonte sobre a
concepção dos acampamentos militares romanos no tempo da República 321. Os seus
moldes organizativos aparentam derivar de um plano-padrão, por vezes introduzindo-
se adaptações de pormenor, consoante os lugares e as circunstâncias. O autor grego
318
Para uma visão aprofundada da logística do exército romano, remetemos para J. P. Roth, Logistics of the Roman
Army at War (246 BC-AD 235), Leiden, 1999, e, sobretudo, para a obra, aqui já citada, de P. Erdkamp, Hunger and the
Sword. Warfare and Food Supply in Roman Republican Wars (264-30 BC), Amesterdão, 1998, pp. 46-155, 297-301.
319
Sobre esta matéria, reveste-se de particular interesse a monografia de J. Pamment Salvatore, Roman Republican
Castrametation: A Reappraisal of Historical and Archaeological Sources, BAR Inter. Ser. 630, Oxford, 1996.
320
C. M. Gilliver, The Roman Art of War, Gloucestershire, 1999 (capítulo 3: «At rest: campaign camps»), pp.63-88; para
uma reconstituição artistica do tipo de acampamento descrito por Políbio, veja-se P. Connolly, Greece and Rome at
War, pp. 136-137; A. Goldsworthy, The Complete Roman Army, p. 33.
321
E. Fabricius, «Some notes on Polybius’s description of Roman camps», JRS 22 (1932), pp. 78-87.

122
descreve um acampamento susceptível de acolher um exército consular de duas legiões,
acompanhadas pelo seu contingente de aliados itálicos, mostrando as suas etapas
construtivas a partir do quartel-general. Contudo, Políbio salientou que, no seu tempo,
os exércitos se compunham mais usualmente de quatro legiões.
Mas, em primeiro lugar, lancemos algumas achegas sobre a ordem de marcha do
exército romano durante uma campanha, ao fim de cada etapa, as tropas montavam
um arraial de carácter provisório; depois, de madrugada, levantavam o acampamento e
desmontavam as tendas: este processo era ritmado por três toques de trompa, altura
em que também se carregavam as bestas de carga e as carroças; então, os arautos
perguntavam três vezes se os soldados estavam prontos para partir, ao que estes
respondiam afirmativamente; quando retinia o terceiro toque, as tropas punham-se em
marcha. Cada legionário transportava sobre uma forquilha (cf. infra) o seu
equipamento pessoal. Quanto ao trem de transporte, seguia com as bagagens pesadas
(tendas, mós, peças de artilharia, provisões, etc.), formado essencialmente por bestas
de carga322 (machos e mulas), dispondo os oficiais superiores de várias, cada centurião
uma e outra por contubernium. O pessoal do trem compunha-se de escravos, os
muliones (arrieiros, boieiros e carroceiros) e calones, que serviam de ordenanças aos
soldados.
A ordem de marcha (agmen) era praticamente imutável: os batedores garantiam o
reconhecimento avançado; mais atrás, um destacamento de legionários e outro de
cavalaria, seguidos de um corpo de «engenheiros», encarregados de abrir caminho,
constituíam a vanguarda; depois vinham as bagagens dos oficiais, protegidas por uma
unidade de cavalaria; seguiam-se os ajudantes de campo e o próprio general com a sua
guarda; atrás, outro destacamento de cavalaria, os legados e os tribunos com os seus
respectivos séquitos e, caminhando em colunas de seis, o grosso das legiões,
secundadas pelas bagagens. Por fim, vinha a retaguarda, formada pelos auxiliares ou
tropas aliadas e, a rematar, um contingente de legionários em formação ligeira.
Caso pairasse uma séria ameaça de ataque, modificava-se a ordem para formar um
agmen quadratum, em duas ou três colunas de frente, antecedidas e seguidas pela
cavalaria, com o trem das bagagens entre as colunas: através de uma simples meia volta
à direita ou à esquerda, os soldados encontravam-se dispostos em formação de combate
(acies), em duas ou três linhas. Uma etapa diária era, usualmente, de 25 a 30 km, mas,
por vezes, tornava-se preciso realizar marchas forçadas de aproximadamente 50 km e,
quando no fim da etapa, os legionários depunham o seu equipamento, não era para
descansarem, mas para abrirem valas e montarem um novo acampamento.
Salientemos que, a deslocação de numerosas tropas requeria grande disciplina e

322
Uma legião possuía entre 1200 a 1500 bestas de carga.

123
meticulosa organização: um conjunto de colunas com 20 000 homens, o equivalente a
quatro legiões, estendiam-se ao longo de cerca de 4 km (não contando com a
vanguarda), e o último soldado iniciava a marcha só 40 km após a partida do general.
Habitualmente enviava-se um tribuno com uma escolta, à frente do exército, para
encontrar um sítio adequado para acampar: devia escolher um lugar com cerca de 800
m, em quadrado, de preferência em terreno inclinado. Além disso, o sítio não devia
oferecer possibilidades de ataque ao inimigo e teria de ser perto da água. O tribuno
plantava, então, uma bandeira branca para marcar o local da tenda do cônsul, o
praetorium, no ponto mais vantajoso. Noutros sítios, espetavam-se bandeirolas
vermelhas para indicar onde ficariam alojados os oficiais e os legionários. No centro de
uma linha definida por fora das tendas legionárias, o tribuno colocava, com a ajuda de
um agrimensor, o instrumento de verificação (groma), para medir o campo a nível
exterior, permitindo ao observador estabelecer uma grelha rectangular. Através deste
processo, marcava-se a linha das defesas frontais a uma distância de cerca 400 m.
Também se assinalavam as linhas das três principais vias do acampamento (cf. infra).
Quando o inimigo se encontrava muito próximo, o trem de bagagens ficava colocado
atrás das linhas marcadas para a defesa frontal do acampamento. Os velites, a cavalaria
e metade da infantaria pesada posicionavam-se em ordem de batalha, enquanto a outra
metade dos infantes, atrás desse anteparo humano, trabalhava no reforço das defesas.
Os legionários escavavam uma trincheira com cerca de 3 m de profundidade e 4 de
largura. Removia-se a terra da vala, alçando-a para dentro, sendo batida até se achar a
uma altura de uns 1,25 m. Reforçava-se a frente desta barreira com torrões retirados da
vala.
A referida trincheira ou fosso e o baluarte (agger) estendiam-se, em média, por cerca
de 700 m, constituindo um dos lados do acampamento, que, se possível, deveria ter
uma forma quadrangular. Uma vez construído o baluarte, o comandante ia mandando
para o interior do recinto o resto dos manípulos, um a um, mas a cavalaria só recolhia
quando a fachada estivesse acabada. Nos outros três lados do acampamento
construíam-se um fosso e um parapeito idênticos. Os acampamentos vulgares de
marcha, que estavam fora do alcance do inimigo, eram rodeados por uma vala só com
um metro de profundidade. Cada legionário carregava dois espeques, os quais firmava
no topo do baluarte, formando uma paliçada: por exemplo, 40 000 desses espeques
colocados num parapeito davam cerca de treze por cada metro. Como a disposição do
acampamento era basicamente a mesma, cada unidade sabia onde fixaria as suas
tendas.
À tenda do general-chefe chamava-se praetorium, que era flanqueada, de um lado,
pela tenda do questor (quaestiorium) e, do outro, por uma grande «praça» designada

124
forum. À frente do praetorium, do quaestorium e do forum apresentavam-se,
alinhadas, as tendas dos tribunos militares e, a seguir, as dos legionários. Tal como no
campo de batalha, as barracas dos legionários eram ladeadas pelas dos aliados
italianos, dos quais a maioria se dispunha nas duas alas do acampamento, enquanto
1/3 dos seus cavaleiros e 1/5 das suas tropas de infantaria – qualificados como
extraordinarii – ficavam posicionados atrás do praetorium, do quaestorium e do
forum, com as tendas dos auxiliares, ou seja, soldados suplementares não italianos.
A planta do acampamento não se limitava a atribuir um sítio concreto para cada
categoria de soldados, segundo o seu lugar na sociedade ou no campo de batalha:
previa igualmente as vias de circulação, que facilitavam os movimentos no interior do
recinto. A via principalis devia o seu nome ao facto de o seu traçado se situar ao longo
dos principia, ou seja, o quartel-general do acampamento constituído pelo praetorium,
quaestorium, forum e pelas tendas dos tribunos: de um lado do recinto, ela
desembocava na porta principalis dextra (à direita dos principia) e, do outro, na porta
principalis sinistra (à sua esquerda). No interior do acampamento, havia um
intervallum, que se deixava propositadamente vazio, entre as tendas e o recinto, com
vista a que as mesmas estivessem fora do alcance de eventuais projectéis lançados a
partir do exterior. Ao anoitecer, quando a palavra de passe era atribuída, os graduados
de cada manípulo tinham de se dirigir ao praetorium. Escolhia-se o oficial na cavalaria:
acompanhado por dois camaradas, efectuava as rondas nocturnas para inspeccionar a
guarda. Quando, nestas ocasiões, fosse descoberto um dos sentinelas a dormir, o
castigo que lhe estava reservado era, muitas vezes, a pena capital, sobretudo se isto
tivesse lugar durante uma campanha.
Os acampamentos de marcha não dispunham de portões, embora usassem
determinados tipos de parapeitos nas entradas (clavicular, agricola, tutulus). Eles não
impediam o inimigo de penetrar, mas evitavam que forçasse as entradas.
Segundo Plutarco (Vida de Pirro,16), o rei de Épiro, Pirro, após desembarcar no Sul de
Itália, imbuído do sentimento da sua superioridade militar, terá ficado assombrado ao
ver o exército romano a estabelecer o seu acampamento perto de Heracleia. Pelo
contrário, outros autores, como Lívio (Ab Urb. cond. 35.14) e Frontino (Strat. 4.1),
sugerem que, ao observarem o entrincheiramento do acampamento das forças de Pirro,
os Romanos teriam concebido a planimetria dos seus acampamentos. Porém, é mais
plausível encarar o acampamento romano como uma transposição, para a esfera
militar, dos métodos empregues para fundar as cidades e medir os terrenos. A
construção, a vigilância e a gestão do quotidiano de um acampamento exigiam uma
organização colectiva e uma distribuição de tarefas que vieram a tornar-se cada vez

125
mais complexas, face ao aumento da duração das campanhas e à distância geográfica
dos teatros de operações.
Os acampamentos republicanos descobertos em Espanha, designadamente em torno
de Numância, não permitem, ao contrário do que defenderam vários estudiosos,
confirmar no terreno uma hipotética transição do sistema manipular para a formação
em coorte. Como igualmente dissemos, A. Schulten acreditou identificar vestígios
materiais deste «facto» nas casernas romanas de Peña Redonda e Renieblas V, visto
que apresentam uma disposição diferente das de Renieblas III (relacionadas com as
guerras celtibéricas): o conhecido erudito alemão considerou que as duas primeiras
estruturas ilustravam perfeitamente o acampamento manipular, tal como aparece no
livro VI de Políbio. O caso de Peña Redonda, que Schulten datou da altura do assédio a
Numância, representaria uma primeira etapa, assimilável a uma «proto-coorte», ao
passo que Renieblas V, que o autor atribuiu a Titurius (um legado de Pompeio em 75 a.
C.), reflectiria a castrametação posterior à generalização da coorte 323. Mas a datação
proposta para o último local assenta em bases muito frágeis. Mais recentemente, por
meio de critérios numismáticos, propôs-se que seria um acampamento coevo de Peña
Redonda324.
Porém, é preferível não nos cingirmos a uma cronologia demasiado precisa e artificial,
e conservarmos, prudentemente, um intervalo longo entre o extremo final do século III
a. C. e as guerras sertorianas 325. Seja como for, a pobreza das estruturas de Renieblas V
trazidas à tona pelos arqueólogos, incluindo a parte nordeste (a que melhor se
conhece), impede que aceitemos a reconstituição formulada por Schulten: muito
próxima do modelo imperial, ela representa principalmente o fruto da concepção
preconcebida que o académico germânico tinha da aparência de um acampamento
romano após a «Guerra Social», mas não corresponde a qualquer elemento achado no
terreno326. Neste sentido, o acampamento V de Renieblas não se reveste de utilidade
para provar que as casernas estariam dispostas nos acampamentos republicanos da
Hispânia de um modo que deixaria entrever, precocemente, uma nova formação
táctica.
Peña Redonda é um caso mais problemático: o aspecto das estruturas situadas a sul
do praetorium, em virtude da sua forma alongada, lembra, à primeira vista, os

323
Peña Redonda: A. Schulten, Numantia. Die Ergebnisse des Ausgrabungen, 1905-1912, III: Die Lager des Scipio,
Munique, 1927, p. 135; Renieblas: IDEM, Numantia. Die Ergebnisse des Ausgrabungen, 1905-1912, IV: Die Lager bei
Renieblas, Munique, 1929, p. 128, 161.
324
Cf. H. J. Hildebrandt, «Die Römerlager von Numantia. Datierung anhand der Münzfunde», Madrider Mitteilungen
20 (1979), p. 26; ideia retomada por M. Dobson, The Roman Camps at Numantia…, p. 39.
325
J. Pamment Salvatore, Roman Republican Castrametation, p. 27.
326
A planta apresentada por A. Schulten foi criticada por J. Pamment Salvatore (Roman Republican Castrametation, p.
119) e M. Dobson (The Roman Camps at Numantia, p. 198).

126
hemistrigia que se conhecem para o Alto-Império 327. Mas torna-se difícil inseri-las num
conjunto coerente, susceptível de confirmar que a circunvalação de Numância
albergaria já uma legião organizada de acordo com o sistema da coorte, como alguns
sustentaram, ao aproximar Peña Redonda de outros dois sítios que a compõem
(Castillejo III e Molino)328. À semelhança de Renieblas V, a planta restituída por
Schulten em relação a Castillejo III levanta suspeitas, e o seu «rigor» alicerçou-se
somente na convicção de que o local teria englobado o quartel-general de Cipião 329.
Afora tudo isto, a sobreposição das diferentes fases complica consideravelmente a
interpretação dos vestígios materiais, cujo desaparecimento obsta, actualmente, a um
reexame em primeira mão330.
De igual modo, a estrutura interna de Molino, que se conhece pior, prestou-se às
suposições mais diversas331. A amplitude da margem de incerteza impossibilita que
usemos estes dois exemplos para escorar solidamente uma hipótese. Assim, em termos
globais, os vestígios são demasiado fragmentários para extrairmos conclusões
categóricas sobre a planimetria dos acampamentos numantinos, mesmo no de Peña
Redonda, em que o estado de conservação é melhor. Ao supor que isto fosse possível,
não basta estabelecer a forma e a organização das construções. Seria necessário ter a
capacidade de determinar que categorias de tropas estariam aboletadas nos
acampamentos, o que está longe de ser o caso, não obstante os comentários assertivos
de Schulten.

327
A. Schulten, Numantia. Die Ergebnisse des Ausgrabungen, 1905-1912, III: Die Lager des Scipio, pp. 163-164, J.
Pamment Salvatore, Roman Republican Castrametation, p. 99; M. Dobson, The Roman Camps at Numantia, p. 276.
328
Foi esta, em suma, a hipótese aventada por M. Dobson (The Roman Camps at Numantia, p. 67): segundo este, os
vestígios de Peña Redonda, Castillejo III e Molino atestariam um tipo de casernas em que cada um dos três manípulos
que fazia parte da coorte se encontraria posicionado atrás do precedente; acrescentou ainda que o que Schulten
entendera consistir no anexo do acampamento III de Renieblas, seria, na realidade, um acampamento suplementar,
datável do cerco de Numância, rotulando-o de «acampamento VI». Cabe salientar que o laço entre o último e o
acampamento III não se fundamenta em bases sólidas, além de que a sua associação aos acontecimentos do ano 133 a.
C. também carece de testemunhos com valor probatório. O único argumento aceitável de Dobson relaciona-se com uma
suposta semelhança com a planimetria dos sítios de Numância.
329
A este respeito, observem-se as críticas metodológicas de J. Pamment Salvatore, Roman Republican Castrametation,
pp. 85-90.
330
As «correcções» sugeridas por M. Dobson (The Roman Camps at Numantia, pp. 234-235) são pouco convincentes:
ele identificou dez blocos, designados A-J, repartidos em duas filas de casernas no sentido norte-su, relacionadas com as
dez coortes da legião. Mas o rigor desta reconstituição vê-se enfraquecido pelas reservas expressas pelo próprio autor,
que reconheceu a insuficiência de dados: «…the layout of the camp, on which any discussion of its garrison is based, is
itself based on much conjecture». Por estranho que pareça, Dobson veio a utilizar a sua interpretação como argumento
para apoiar as restituições de Renieblas VI ou de Molino.
331
A interpretação dos pouquíssimos vestígios da planta interna de Molino é bastante reveladora quanto aos limites do
método seguido por M. Dobson: este corrigiu (The Roman Camps at Numantia, pp. 279-282) arbitrariamente a
reconstituição já arbitrária de Schulten, ao transformar num edifício único as estruturas A e B, atribuidas pelo autor
alemão a duas construções alinhadas, apesar de não existir qualquer indício edificatório entre ambas. Esta primeira
conclusão serviu depoiis como argumento para reconstituir as estruturas C e D, que se entenderam como pertencendo,
sem nenhum grau de certeza, a um segundo hemistrigium, paralelo ao primeiro: «The northern limit of C/D is
uncertain, but like A/B could have extended as far as the northern edge of the terrace. The location of the southern end
of C/D is also uncertain but was presumably similar to that of A/B. It is conceivable therefore that A/B and C/D were
similar in length». A comparação sistemática entre uma série de reconstituições tão conjecturais forma, então, a base da
reflexão de conjunto de M. Dobson: «A degree of validity is given to this overall southern end, comparable to those at
Castillejo and Peña Redonda». J. Pamment Salvatore (Roman Republican Castrametation, p. 110) optou por uma
atitude mais razoável, declarando ser incapaz de se pronunciar sobre a morfologia de Molino.

127
Posto isto, não há garantia alguma de que os acampamentos da circunvalação de
Numância sejam realmente representativos da castrametação republicana: inseridos
numa zona, eles pertenceriam mais a um conjunto de fortes pelos quais as tropas
estavam distribuídas segundo uma lógica que nos escapa 332. Critérios circunstanciais,
como a necessidade de adaptação dos acampamentos aos constrangimentos impostos
pela topografia, influíam igualmente na mudança da disposição habitual das estruturas
internas333.

II.12. Soldos e despojos

O alargamento geográfico do raio de acção dos exércitos romanos levou a que fosse de
todo impraticável o pagamento do soldo pelos tribunos do tesouro. Com efeito, quando
as campanhas passaram a durar mais tempo e as primeiras guarnições se instalaram
nas províncias conquistadas, os soldados viram-se retidos vários anos longe de Roma,
sem poderem regressar para receberem o soldo. A partir de então, não seria mais
possível aos tribunos do tesouro procederem ao adiantamento da totalidade das somas
necessárias para efectivos tão numerosos e para períodos tão longos.
O montante do soldo do legionário republicano continua a alimentar debates no seio
da comunidade académica. Políbio (Hist. 6.39.12) representa a nossa principal fonte
sobre isto quanto ao exército romano antes do tempo de Júlio César:
«No que concerne ao montante do soldo, o legionário recebe diariamente dois óbolos, os
centuriões o dobro, e os cavaleiros uma drachma».
É difícil interpretar este trecho por várias razões: antes de mais, cabe identificar a
dracma que lhe serviu de referência (2 óbolos representando 1/3 de uma dracma).
Políbio terá utilizado o padrão ático ou outro? A primeira hipótese parece a mais
verosímil, na medida em que corresponde a uma referência compreensível para todos
os seus leitores. Uma vez identificada, a dracma de Políbio deve, em seguida, ser
convertida em moeda romana. Mas importa ter em conta a desvalorização da última no
decurso da Segunda Guerra Púnica, o que fez oscilar as equivalências entre o bronze e a
prata. O denário (denarius) de prata, introduzido em 214 a. C., valia, então, 10 asses.
332
Impõe-se, pois, uma atitude prudente, no momento de aplicar um modelo teórico para se compreender a organização
dos raros vestígios descobertos. A dificuldade de conciliar esta prudência com a tentação de se atingir um resultado
observa-se claramente nas contradições que o discurso de M. Dobson comporta. O autor admite (The Roman Camps at
Numantia, p. 134) que «the layout of these may be atypical compared to castra in general and so the above discussion of
the layout of camps could be irrelevant»; por outro lado, considera que os sítios de Numância reproduziriam, pelo
menos em certa medida e em escala miniatural, a estrutura dos grandes acampamentos, embora «as a result, applying
the general theroretical model to the siege sites has some justification». Ao procurar confirmar no terreno as ideias
advogadas por Bell («Tactical Reform…», p. 67), Dobson acabou por não se distanciar muito da metodologia de A.
Schulten, a qual, todavia, criticou severamente.
333
É o que acontece com Peña Redonda, onde todas as construções se apresentam agrupadas na única parte plana do
local, no seu lado leste. Cabe não excluir que o recurso a uma morfologia diferente das casernas poderia corresponder à
necessidade de aproveitar ao máximo o espaço disponível, e não tanto reflectir a organização de uma nova táctica. Sobre
este assunto, cf. J. Pamment Salvatore, Roman Republican Castrametation, p. 77; F. Cadiou, «Les guerres en
Hispania…», pp. p. 75-76.

128
Em 218 a. C., o as (pl. asses) pesava ainda meia libra de bronze, isto é 6 onças (163,8
gramas). Para o período em apreço, fala-se de as semi-libra.
No entanto, quatro anos mais tarde, o as talvez não excedesse 1/6 da libra (2 onças);
passou, portanto, a qualificar-se de as sextans. No final da guerra, ou possivelmente
por volta de 211 a. C., o as foi reduzido a um duodécimo da libra (uma só onça),
recebendo a designação de uncialis. Consequentemente, alterou-se a tarifa do denário,
que passou a valer 16 asses unciales, em vez de 10 asses sextantis334.
Provavelmente, os legionários continuaram a receber asses de bronze até meados do
século II a. C335. Mais tarde substituiu-se o as pelo denário de prata, que apresentava a
vantagem de limitar a massa monetária a transportar, quando as despesas militares
registaram uma tendência para aumentar. Contudo, Plínio-o-Antigo (Nat. Hist. 33.45)
indica-nos que os legionários tinham um soldo que consistia num denário valendo
sempre 10 asses sextantis, a fim de não serem prejudicados pela mudança da tarifa. Por
último, não olvidemos que Políbio só alude a um soldo diário, que os historiadores
modernos converteram, possivelmente de maneira algo precipitada, num montante
anual (tendo por base um ano de 360 dias). Mas em, termos práticos, as variações da
duração do ano no tempo de Políbio podem ter acarretado oscilações 336.
Independentemente do montante quotidiano calculado – 3 asses sextantis, 1/3, 4 ou
5 asses unciales – ele permaneceria inferior ao de um verdadeiro salário diário. É certo
que só dispomos de elementos comparativos para o século I a. C. Assim, Cícero diz-nos
que um trabalhador manual em Roma recebia, ao tempo, 12 asses unciales, isto é, ¾ de
um denário por dia. Mas não podemos assimilar o soldo a uma autêntica remuneração,
já que a defesa de Roma assentava num exército censitário, pelo que se esperava,
essencialmente, que os soldados servissem à sua própria custa. Assim, o soldo
representava apenas um simples «subsídio de subsistência», destinado a compensar a
duração cada vez maior das campanhas.
Não se utilizaram os despojos para pagar directamente o soldo dos legionários
vencedores. Em Roma, a colecta e a utilização dos despojos encontravam-se codificados
por regras muito precisas que repousavam no princípio geral de que as pessoas e os
bens dos vencidos pertenciam, por direito, aos vencedores. Admitia-se, então, que tudo
o que um exército derrotado pelas legiões romanas deixasse para trás fica à inteira

334
P. Cosme, L’armée romaine, VIIIe s. av. J.-C.-Ve s. ap. J. C., p. 36.
335
D. Rathbone, «Warfare and the State», in P. Sabin, H. van Wees e M. Whitby (eds.), The Cambridge History of Greek
and Roman Warfare, Volume II: Rome from the Late Republic to the Late Empire, Cambridge, 2007, p. 159; P.
Erdkamp, «War and State Formation in the Roman Republic», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army,
p. 105.
336
Sobre a introdução da moeda no pagamento dos soldos, vejam-se: M. H. Crawford, Coinage and Money under the
Roman Republic. Italy and the Mediterranean Economy, Londres, 1985, pp. 29-51; K. Harl, Coinage in the Roman
Economy, 300BC-AD 700, Baltimore, 1996, pp. 21-37; C. Nicolet, Roma y la conquista del mundo mediterráneo 264-27
a. de C., Barcelona, 1982, pp. 88-89. Para uma visão mais recente e problematizante: Elio Lo Cascio: «Spesa militare,
spesa dello Stato e volume delle emissioni nella Tarda Repubblica», AIIN 29 (1982), pp. 75-97; IDEM, «Ancora sullo
stipendium legionario dall’età Polibiana a Domiciano», AIIN 36 (1989), pp. 101-120.

129
disposição das últimas. Em contrapartida, o destino dos bens e das pessoas civis dos
Estados vencidos terá escapado aos simples soldados, uma vez que se considerava
pertencerem à colectividade dos cidadãos. Em 187 antes da nossa era, os ganhos
obtidos pela guerra conduzida por Gneu Mânlio Vulso, na Ásia, já haviam permitido
reembolsar uma parte do tributum aos cidadãos. Vinte anos mais tarde, após a vitória
de Emílio Paulo sobre Perseu, os despojos trazidos da Macedónia (120 milhões de
sestércios) revelaram-se suficientes para que se suspendesse o tributum. Se o depósito
de Emílio Paulo serviu para suspender a percepção do tributum, tal se deveu ao facto
de o vencedor de Perseu se manifestar mais parcimonioso para com as suas próprias
tropas.
Doravante, o pagamento do soldo exigiria uma organização das transferências de
fundos entre a Roma e os exércitos em campanha. Os despojos eram enviados para
Roma após a vitória, ao passo que o numerário destinado à subsistência dos legionários
se transportava decerto anualmente com o supplementum, assegurando a rendição das
tropas. Os magistrados que exerciam os seus cargos fora dos limites de Roma recebiam
uma dotação especial orçamental, a fim de prover à aquisição e manutenção de todo o
equipamento necessário para a prossecução das operações militares que eles deviam
conduzir: o vasarium era determinado caso a caso pelo Senado ou por uma lei. O
vocábulo deriva provavelmente de vasa, plural de vas, vasis, que designa as bagagens
dos soldados. As gratificações suplementares permitiam aos governadores satisfazer as
necessidades em víveres dos adjuntos que levavam com eles os cibaria.
Mas estes «subsídios» estavam longe de cobrir o conjunto de despesas que uma
campanha militar implicava. Assim, governadores e generais recebiam igualmente
fundos para remunerar os soldados que encontravam no terreno ou que os
acompanhavam. No fim da República, estes fundos procediam, na sua maior parte, do
tesouro de Saturno (aerarium Saturni). A sua afectação dependia geralmente de uma
decisão do Senado. O novo papel confiado aos tribunos do tesouro radicava na
distribuição desses fundos pelos diferentes exércitos.
Em termos concretos, a dedução do fornecimento de víveres e de armas de reserva do
montante do soldo dos legionários veio a limitar a amplitude das transferências de
fundos. Nos casos frequentes de transporte por mar, o impacto de um naufrágio via-se
mitigado pela organização de comboios de vários navios. Contudo, os que tinham sido
investidos do imperium nem sempre eram compelidos a transportar a totalidade dos
fundos de que precisavam a partir de Roma. Por vezes, podiam encontrar uma parte
dos mesmos no local onde exerciam o seu comando. De facto, ao tratar-se de uma
província explorada há já vários anos, o governador nela dispunha certamente de um

130
cofre alimentado pelas receitas fiscais chamado fiscus, palavra que se reportava ao
cesto ou cabaz onde se depositava o dinheiro.
Na maior parte das situações, as receitas eram arrecadadas por «sociedades» de
publicanos337, encarregados de recolher os impostos devidos pelos provinciais. Em caso
de urgência, um governador de província podia até requisitar os fundos reunidos por
aqueles. O produto do fisco provincial não era, portanto, canalizado integralmente para
Roma. O numerário que ficava no local servia para cobrir, esporadicamente, parte dos
gastos com a manutenção das tropas lá presentes.
Porém, os generais em campanha, tanto os cônsules como os pretores, salvo os
dictatores, não dispunham arbitrariamente dos fundos. O seu poder de mexer no
dinheiro público estava sujeito ao controlo prévio do questor que agia na qualidade de
adjunto dos primeiros. A complementariedade dos papéis desempenhados pelo questor
e pelo comandante-chefe materializava-se na própria topografia dos próprios
acampamentos militares, onde os principia associavam os aposentos do general
(principia) e do questor (quaestorium).
A partir daí, seriam os fundos geridos pelos questores enviados aos exércitos que
serviriam para pagar o soldo. No entanto, eles, ao serem por vezes responsáveis pelas
finanças de várias legiões, nem sempre se encarregavam pessoalmente do pagamento,
delegando esta tarefa aos tribunos militares. Como este pagamento se efectuava mais
frequentemente nos sítios onde se achavam as tropas do que aquando do regresso das
mesmas a Roma, o processo tinha de se fundamentar nos elementos informativos
facultados pelas legiões. O soldo era, então, provavelmente pago numa só vez, no fim de
cada campanha.

II.13. O aprovisionamento militar

Originariamente, todos os «cidadãos-soldados» deviam equipar-se e subsistir por si


mesmos. Mas a instituição do soldo coincidiu possivelmente com o fornecimento de
víveres, vestuário e armas de reserva pela Cidade aos legionários, de acordo com as
modalidades explicitadas por Políbio (Hist. 6.39.15). Isto supôs o desenvolvimento de
uma intendência militar gerida pelos questores adstritos à manutenção dos exércitos.
Contentar-se em viver numa região ou país representava um risco quase garantido para
um exército em campanha. Com efeito, por um lado, o país em questão podia ser o seu

337
E. Badian, Publicans and Sinners. Private Enterprise in the Service of the Roman Republic, Oxford,
1972.

131
ou o de aliados. Por outro, o inimigo podia adoptar a táctica da «terra queimada»,
tornando assim o aprovisionamento muito aleatório. Mas fazer vir de Itália todas as
provisões necessárias nem sempre era concretizável.
Relativamente aos víveres, só se distribuíam as rações de trigo aos soldados 338. O
produto dos dízimos em géneros das províncias da Sicília e da Sardenha era, assim,
destinado a alimentar os exércitos em campanha. Com efeito, os grãos podiam ser
transportados cobrindo distâncias longas e conservados sem demasiadas perdas nos
celeiros. Mas quando as terras cerealíferas passaram a ficar sob o controlo dos exércitos
romanos, como sucedeu na Península Ibérica ou em Africa, recorria-se obviamente
também às mesmas. Moído pelos próprios soldados, o trigo consumia-se sob a forma de
papas (puls), pão ou de biscoitos, mas não consistia no seu único alimento.
Os despojos, as colheitas, as cabeças de gado que acompanhavam os exércitos, bem
como as aquisições feitas a mercadores ambulantes, permitiam aos militares abastecer-
se igualmente de carne, frutos e legumes. Uma mistura de vinagre e água, a posca, era o
tipo de bebida mais corrente entre as tropas. Determinados géneros eram objecto de
um aprovisionamento diário, in situ, pelos soldados encarregados desta tarefa, haja em
vista a água, a madeira e as forragens, as últimas devido à importância da tracção
animal no trem dos exércitos antigos.
De facto, os soldados partiam em campanha sem a possibilidade de com eles levar
todos os alimentos de que precisavam. Diversos estudiosos já discutiram muito acerca
da «mochila» individual do legionário, as sarcinae (que significa «bagagem», «carga»)
mas, aparentemente, não ultrapassaria os 40 kg. Nas regiões áridas, limitava-se o
recurso às atrelagens, devido à falta de água e de montadas. Ademais, os impedimenta,
grande parte dos víveres e das forragens eram transportados com as tendas, as
máquinas de guerra e o equipamento dos oficiais pelos comboios que acompanhavam
os exércitos. Assim, o legionário partiria apenas com os víveres previstos para uns dez
dias, no máximo, mas não podia arcar pessoalmente com a carga que representava uma
tal quantidade de cereais. Em princípio, ele receberia uma vez por mês a sua ração de
trigo.
O Estado romano começou provavelmente a substituir as armas danificadas ou
perdidas em combate. Somente neste caso se procedia a uma dedução sobre o
montante do soldo. Com efeito, os recrutas não obteriam armas através dos vales
entregues pelos tribunos militares, adquirindo os primeiros a panóplia apropriada no
manípulo em que haviam sido incorporados. Até no seio dos manípulos que formavam
a mesma linha de batalha, o armamento dos legionários manteve-se, durante largo

338
P. Erdkamp, «The corn supply of the Roman armies during the third and second centuries BC», Historia, 44 (1995),
pp. 168-191.

132
tempo, relativamente heterogéneo. Em contrapartida, o vestuário parece ter sido
fornecido pelo Estado.
No entanto, é caso para perguntar se as mudanças neste domínio ocorreram no
decurso do século II a. C. Em 123 antes da nossa era, Caio Graco 339 instaurou a
distribuição gratuita de vestes pelos legionários (Plutarco, Vida de Caio Graco, V, 1),
mas torna-se bastante difícil apurar, ao certo em que é que consistiriam. Estes
vestimenta incluiriam, talvez, uma túnica e calçado. O mais novo dos Gracos o mesmo
fez em relação às armas dos legionários: esta medida obedeceria ao propósito de se
introduzir alguma estandardização do seu equipamento? De facto, as descobertas
arqueológicas atestam maior homogeneidade do equipamento militar neste período, o
que acarretava menores custos de produção. O fornecimento de armas diria respeito
apenas aos soldados mais pobres; os outros, nomeadamente os oficiais, continuariam a
comprar as suas armas a artífices italianos antes de partirem em campanha.
Mas, ao receberem as armas, os soldados não se tornariam, aparentemente, nos seus
proprietários340: em princípio, teriam de devolvê-las no fim do serviço militar,
retirando-se uma quantia do soldo que serviria como caução, em conformidade com as
modalidades que captamos melhor para a época imperial. Consoante as circunstâncias,
ofereciam-se várias soluções aos questores para encaminharem estas provisões para os
exércitos.
De acordo com pesquisas recentes, é de valorizar o papel das «sociedades» de
publicanos no abastecimento dos exércitos341. O Estado também adquiriria vestuário e
armamento a fabricantes privados. O seu transporte, assim como o do trigo fornecido
pelos dízimos da Sicília e da Sardenha, seria igualmente objecto de contratos com
armadores (navicularii) particulares, embora não se deva excluir o recurso a navios
requisitados. A amplitude de certas campanhas, sobretudo durante a Segunda Guerra
Púnica, pode ter conduzido, de igual modo, à instalação de verdadeiras bases logísticas,
englobando oficinas e celeiros, situadas nas proximidades dos teatros de operações.

II.14. A guerra no mar342

Já em 311 a. C., Roma terá mandado construir uma vintena de navios para mover
perseguição a piratas. Mas foi principalmente a Primeira Guerra Púnica, que se
desenrolou entre 264 e 241 a. C., em que estava em causa o controlo da Sicília, que

339
IDEM, «Feeding Rome or feeding Mars? A long-term approach to C. Gracchus’ lex frumentaria», AncSoc., 30 (2000),
pp. 53-70.
340
P. Cosme, «Les fournitures d’armes aux soldats romains», in L. De Blois e E. Lo Cascio (eds.), The Impact of the
Roman Army (200-BC-AD476). Economic, Social, Political, Religious and Cultural Aspects, Leiden/Boston, pp. 167-
196.
341
Sobre estes fornecedores privados (também chamados socii), afora a monografia anteriormente citada de Badian,
vejam-se: J.-J. Aubert, Business Managers in Ancient Rome: A Social and Economic Study of Institores, 200 BC-AD
250, Nova Iorque, Brill, 1994, pp. 325-330, 342-346; J. P. Roth, The Logistics of the Roman Army at War, pp. 230-
231.Consultem-se também os artigos incluídos na obra colectiva editada por C. Nicolet, Censeurs et publicains.
Économie et fiscalité dans la Rome antique, Paris, 2000.
342
Sobre as frotas romanas e as acções bélicas navais durante a época republicana, as obras de referência ainda
continuam a ser as de J. H. Thiel, Studies of the History of Roman Sea-Power in Republican Times, Amesterdão, 1946,
e A History of Roman Sea-Power before the Second Punic War, Amesterdão, 1954.

133
obrigou os Romanos a iniciarem-se na guerra naval. Segundo Políbio (Hist. I, 20, 9-5),
os Romanos teriam encetado a construção da sua primeira frota de guerra no início
desse conflito, inspirando-se num navio cartaginês que havia encalhado.
Uma batalha entre galés exigia o recurso à força propulsora dos remadores, uma vez
que a navegação à vela se mostrava então demasiado aleatória. No século III a. C., que
se caracterizou pelo gigantismo crescente das unidades navais, o principal barco de
guerra passou a ser a quinquerreme, que suplantou o trirreme: como o nome do
primeiro indica, compreendia cinco filas de remeiros, mas subsistem incertezas
relativamente à sua disposição concreta. Porém, a quinquerreme, por razões de
manobrabilidade, não era provavelmente muito maior.
Em contrapartida, como os efectivos dos seus remadores deviam ser cerca de 40%
superiores aos do trirreme, restava pouquíssimo espaço para embarcar combatentes
suplementares e víveres em quantidade suficiente para empreender grandes travessias.
Plenamente conscientes da superioridade das capacidades de manobra dos
Cartagineses no mar, os Romanos, em vez de investirem com os esporões (rostra)
contra os navios inimigos, preferiam fazer a abordagem, utilizando para o efeito uma
rampa provida de uma ponta acerada na sua extremidade, chamada corvus, que
aferrava na ponte adversa. Depois da aplicação deste dispositivo, os soldados podiam
então transpor a sua arte de combate terrestre para o mar.
Afora os legionários embarcados, os marinheiros e os remadores eram recrutados
entre os libertos ou entre os aliados italianos de Roma. Os procedimentos que Roma
adoptou para reunir as equipagens da sua frota de guerra, que Tito Lívio descreveu
pormenorizadamente (Ab Urb. cond. 24.11.7-9; 26.35.1-3), assemelham-se aos das
leitourgíai das cidades-estados gregas, sobretudo à trierarquia ateniense. Em função da
sua riqueza, em situações de emergência, como a que ocorreu em 214 a. C., os cidadãos
romanos deviam fornecer um certo número de escravos para servirem como remeiros,
juntamente com o montante do seu soldo e os víveres para um mês. Assim, cada
senador facultaria oito escravos com um ano de soldo incluído. Nenhum magistrado
estava especificamente afecto ao comando da frota: esta fazia parte dos meios militares
postos à disposição dos magistrados ou promagistrados responsáveis pelo conjunto de
uma campanha, os quais podiam delegar o seu poder de mando no mar aos legados.
Aparentemente, a primeira frota de guerra romana terá compreendido uma centena
de quinquerremes. No fim da Primeira Guerra Púnica, este número duplicou,
garantindo a Roma superioridade sobre Cartago. Mas, note-se, este esforço bélico
manifestou-se muito descontínuo: a partir do momento em que uma ameaça se
dissipava, Roma renunciava a manter uma frota de guerra. Durante a Segunda Guerra
Púnica, foi então preciso reconstruir praticamente uma nova frota com perto de 300

134
navios, a qual não sobreviveu a este conflito: quando Roma se envolveu na Terceira
Guerra da Macedónia, a sua frota comportava apenas 68 galés. Não havendo uma
ameaça marítima concreta, a Urbs recorria preferencialmente à marinha de guerra dos
seus aliados ou impunha cláusulas muito restritivas nos tratados de paz firmados com
os seus inimigos: depois da sua derrota em Zama, em 202 a. C., Cartago só pôde
conservar dez navios; o reino da Macedónia, por seu lado, após ser vencido em
Cinoscéfalas em 197 a. C, apenas conseguiu ficar com seis. Quanto ao reino selêucida,
com a paz de Apamea em 188 a. C., preservou somente dez barcos. Não admira que
esta política tenha contribuído para gerar um «vazio» militar no Mediterrâneo, o que
favoreceu o desenvolvimento da pirataria.

135
ANEXO: A problemática das modalidades de combate no período das
Guerras Púnicas. Um modelo interpretativo sobre a utilização dos pila, os
confrontos corpo a corpo e a duração das batalhas

Os últimos decénios foram palco de acesos debates no meio científico sobre a maneira
como se deve entender o legionário romano e a sua maneira de fazer a guerra. Por
oposição ao hóplita grego, basicamente um lanceiro que empunhava a sua arma e
apenas empregava o seu curto xiphos quando a primeira se quebrava no corpo a corpo,
a communis opinio viu, até não há muito (apoiando-se em larga medida nas fontes
clássicas: Políbio, Hist. 2.30.8; 2.33; 15.12.8; Vegécio, Epit. rei mil. 1.12), o soldado
republicano como, acima de tudo, um «espadachim», que combinava a utilização activa
do escudo para empurrar e desequilibrar o inimigo com golpes vigorosos, assestando
cutiladas e estocadas por meio do seu gladius. Nesta concepção, os dois pila (o pesado
e o ligeiro) seriam lançados em «salvas», sobretudo na fase inicial do prélio, para
desorganizar as forças do antagonista e causar-lhe baixas no momento imediatamente
antes do choque com a espada, como Lívio amiúde descreve (Ab Urb. cond. 9.13.2-5;
9.35.4-6; 28.2.5.5-6, etc.)343. De facto, Políbio só menciona a utilização do pilum em
batalha numa única ocasião (Hist. 1.40.12), na refrega de Panormus, em 250 a. C.
No entanto, algumas vozes dissonantes plasmaram-se num importante estudo de A.
Zhmodikov, publicado em 2000, que compilou um significativo número de fontes
literárias referentes ao emprego prolongado dos pila durante toda uma contenda, não
só no começo, o que implica que normalmente não se efectuariam salvas maciças de
dardos arrojadiços, já que desta forma se esgotaria a sua dotação logo nos primeiros
instantes da porfia344. Mais: isto também sugere que existiam momentos em que as
linhas dos exércitos beligerantes se separavam, dando assim a possibilidade aos
infantes de recuperar o fôlego, e que em tais alturas é que sobreviria um «intercâmbio»
mediante o arremesso de dardos, talvez a uns 20 m de distância.
Consequentemente, modificou-se a percepção que, durante largo tempo, se teve do
desenrolar de um combate, apresentando-se este menos concentrado, brutal ou
decisivo, resumindo-se a uns quantos segundos e minutos, e convertendo-se numa
confrontação mais prolongada, vacilante e irregular, até na fase do corpo a corpo com
espadas345. Esta nova visão do uso dos pila coaduna-se por inteiro com a longa duração
das batalhas e recontros que se relatam normalmente nas fontes literárias, pelo que um

343
Zhmodikov, 2000, p. 68.
344
Para outras referências: Sabin, «The Face of Roman Battle», p. 12.
345
A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, 1996, p. 222.

136
combate decidido em breves minutos significaria mais a excepção do que a regra.
Embora algumas refregas se resolvessem muito rapidamente, principalmente quando o
adversário debandava antes de ocorrer o corpo a corpo (Lívio, Ab Urb. cond. 8.16.6;
9.13.2; 9.35.7),346 muitas outras duravam duas, três ou até mais de quatro horas 347.
Como é inconcebível imaginar duas massas de soldados a lutarem corpo a corpo
continuamente, ultrapassando os 30 minutos, por uma simples questão de resistência
física348, cabe encontrar uma explicação para o facto de a maior parte das batalhas se
desenrolar por muito mais tempo, o que pressupõe momentos «mortos», em que as
linhas se afastariam e o combate dimuiria de intensidade.
Os estudos recentes de Adrian K. Goldsworthy 349 e de Philip Sabin ajudaram a
estabelecer um modelo de batalha que se distancia da perspectiva tradicional, mas que
está, por um lado, muito mais conforme com o conjunto das fontes literárias antigas (e
não só de certas descrições seleccionadas que sobressaem pelo seu carácter
excepcional, como as batalhas resolvidas numa única investida350), e, por outro, com as
possibilidades do emprego das armas, fundamentalmente, o gladius hispaniensis, os
pila e a relativa leveza do armamento corporal.
No mesmo modelo, introduziu-se também o exame das baixas documentadas em
diferentes batalhas pelos textos literários, relativamente reduzidas, oscilando entre 5 e
15% na conflagração propriamente dita, o que é incompatível com a visão de uma melée
quase interminável e sem interrupções, encenada à maneira de Hollywood, o que se
traduziria decerto em cifras de perdas humanas muito maiores do que as que as
conhecidas351.
Julgamos que P. Sabin foi quem melhor resumiu o consenso emergente entre os
especialistas: «[…] começa a surgir um consenso sobre a natureza dos choques da
infantaria pesada romana […] que estes choques eram muito mais indecisos [tentative]
e esporádicos do que se havia presumido, e que só um modelo como este pode explicar
a combinação aparente da longa duração, do desequilíbrio de baixas 352, da fluidez da
linha de batalha e da ênfase nas reservas, mais do que na profundidade da
formação»353.

346
Ibidem, p. 202, n. 96.
347
As fontes revelam-se explícitas neste sentido: Zhmodikov, pp. 70-71 (especialmente o catálogo na nota 34); Sabin,
«The Face of the Roman Battle», pp. 4-5; A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 225.
348
Militares experientes como Clausewitz ou Fuller estimaram que o tempo máximo de luta corpo a corpo rondaria os
15-20 minutos, ou mesmo menos: cf. A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 224.
349
Goldsworthy, The Roman Army at War, pp. 171-247, esp. 223-227.
350
Ibidem, p. 201ss.
351
P. Sabin, «The Face of the Roman Battle», pp. 5-10.
352
A favor do vencedor, o inimigo sofreria as maiores perdas durante a sua fuga: P. Sabin, «The Face of the Roman
Battle», p. 5; Krentz, 1986; Goldsworthy, The Roman Army at War, pp. 223-224.
353
«The Face of Roman Battle», p. 17.

137
Nesta visão, na maior parte das batalhas romanas, as linhas entravam em contacto de
forma esporádica, quando um ou outro lado arremetiam para um violento mas breve e
localizado corpo a corpo. Os confrontos cessariam quando uma das facções ficava em
desvantagem, e as suas tropas recuavam para restaurar uma «distância de segurança»,
enquanto brandiam as armas para dissuadir uma perseguição imediata do inimigo.
Para P. Sabin, «Este tipo de equilíbrio dinâmico, pontuado por episódios de luta corpo
a corpo, podia continuar durante algum tempo, até que um dos lados finalmente
perdesse a sua capacidade de resistir […] O mecanismo mais comum para esta
transformação seria o pânico das tropas devido a uma brecha na sua linha, um choque
psicológico como, por exemplo, a morte do general, ou a pura acumulação das baixas e
da fadiga»354.
Relativamente a esta vertente (e outras), a obra de J. E. Lendon, Soldiers & Ghosts. A
History of Battle in Classical Antiquity (2005), voltou a explorar o problema não
resolvido do funcionamento da legião manipular no campo de batalha, que, do século
XIX em diante, ocupou dezenas de investigadores 355. Da descrição de Tito Lívio (Ab
Urb. cond. 8.8.9-14), que é o autor que nos proporciona dados mais pormenorizados
sobre a forma de combate manipular, depreendemos que as sucessivas linhas de
batalha dos hastati, principes e triarii se formavam em manípulos – desconhecemos se
com as duas centúrias alinhadas ou uma atrás da outra - deixando entre elas espaços
vazios, talvez com a mesma frente de um manípulo ou algo menores, para assim
poderem realizar as manobras que Lívio descreve da substituição das tropas exaustas
por outras frescas. Importa citar integralmente o trecho fundamente a este respeito:
«…os hastati eram os primeiros a combater. Se não fossem capazes de desorganizar o inimigo,
retrocediam, passo a passo, e recebiam-nos os principes nos espaços livres existentes nas suas
fileiras. Então competia aos principes lutarem; os hastati postavam-se atrás; os triarii
mantinham a sua posição sob as insígnias, tendo a perna esquerda avançada, sustendo o escudo
sobre o ombro, as lanças com as pontas para cima, apoiadas em terra, oferecendo o aspecto de
um exército eriçado de pontas e rodeado por uma paliçada. Se tão pouco os principes obtinham,
ao lutar, resultados suficientemente satisfatórios, iam então recuando pouco a pouco, desde a
primeira linha até aos triarii; foi por causa disto que se tornou proverbial a expressão ‘a coisa
chegou até aos triarii’ [res redacta est ad triarios], quando se pretende dizer que se está em
apuros. Os triarii incorporavam-se e, depois de receberem os principes e os hastati, por meio
dos espaços livres das suas fileiras, estas, imediatamente fechadas, cortavam, por assim dizer, os
passos e, numa única formação compacta, já sem deixar atrás de si qualquer esperança, porque
este, ao perseguir os que pareciam vencidos, via de repente aparecer uma nova linha, com
efectivos maiores» (Ab Urb. cond. 8.8.9-13).
Esta descrição pressupõe uma formação inicial ao jeito de um tabuleiro de xadrez 356, a
que os autores modernos (não as fontes antigas) convencionaram chamar quincunx,
que parece consistir na única solução lógica para se explanar a táctica enunciada por
Lívio. Com efeito, para poderem retroceder e deixar espaço aos principes, os hastati,

354
Ibidem, pp. 14-15.
355
J. E. Lendon, Soldiers and Ghosts. A History of Battle in Classical Antiquity, New Haven, Yale University Press,
2005, p. 180ss.
356
E. Wheeler, 1979, pp. 305-306.

138
das duas uma - ou teriam adoptado formações, desde o início, com intervalos, para não
colidirem com os manípulos dos principes, ou, então, criariam tais intervalos no
momento em que retiravam, no pior momento possível, justamente quando se achavam
esgotados pela pugna e se viam pressionados pelo oponente que os estava a vencer.
Como há muitos decénios advertiu H. Delbrück357, por muito bem que Lívio tenha
descrito este sistema, trata-se de um processo táctico impossível, apenas compreensível
na qualidade de uma manobra de parada, e não como prática desenvolvida em batalha.
Mas não faltaram estudiosos que aceitaram directamente a ideia de que os Romanos
combatiam, possuindo grandes espaços vazios na sua linha 358.
A nosso ver, é impossível sustentar a hipótese de que os manípulos da primeira linha
de batalha lutassem deixando entre si intervalos do tamanho de outro manípulo, como
aliás salientou H. Delbrück e F. Quesada Sanz, 359 «interstícios» que não podiam ser
protegidos pelos manípulos, colocados na disposição em quincunx, dos principes da
segunda linha. Qualquer inimigo facilmente se aproveitaria destes intervalos, para se
infiltrar, apanhar pelos flancos os manípulos dos hastati, e neutralizá-los antes de os
principes terem tempo de intervir.
A disposição em coortes suscita dificuldades idênticas. Assim, propuseram-se várias
soluções para que, a partir da descrição de Lívio, a legião apresentasse, no momento do
combate, uma linha contínua, incluindo, quando muito, pequenos intervalos entre os
manípulos. À primeira vista, a solução que parece mais viável é que, no desdobramento
inicial, as centúrias de cada manípulo se dispusessem uma atrás da outra e que, no
momento antes do choque, as centúrias posteriores avançassem obliquamente para
fechar a linha de batalha, apresentando, assim, uma frente contínua mas articulada.
O problema é que esta hipótese gera dificuldades adicionais, algumas irresolúveis. De
acordo com as fontes antigas, a razão básica do sistema manipular e das linhas
dispostas em quincunx seria a de possibilitar que, encontrando-se esgotados os hastati,
os principes avançassem pelos intervalos que havia na linha para os render – ou que os
primeiros retrocedessem, ficando entre os manípulos dos segundos – e, se necessário,
que também os triarii pudessem revesar os seus camaradas das duas primeiras linhas.
Pois bem, para fazer tal substituição no sistema manipular, a primeira linha teria de se
afastar do inimigo e fazer recuar as centúrias posteriores de cada manípulo para ocupar
o seu lugar original atrás de cada centúria prior. Desta forma, abririr-se-iam
novamente os intervalos, para que a segunda linha avançasse com manípulos formados
por uma centúria (uma atrás da outra), a fim de substituir os extenuados hastati,

357
H.Delbrück, 1920, p. 293.
358
E. Wheeler, p. 306, n. 14.
359
«El legionario romano en época de las Guerras Punicas: formas de combate individual, táctica de pequeñas unidades
e influencías hispanas», p. 183.

139
desdobrando as suas centúrias posteriores, voltando a fechar a linha e a contunuar o
combate.
Ora isto significaria que, enquanto se combatia o inimigo, duas linhas executariam
uma coreografia complexa, exigindo que os hastati contraíssem os seus manípulos e
retrogradando, ao mesmo tempo que os principes vinham preencher os espaços vazios
recém-abertos, dispondo-se em linhas e fileiras nítidas, formando rectângulos
regulares. Todo este processo pode ficar bem no papel, através de gráficos atractivos 360,
mas manifesta-se absolutamente impraticável num campo de batalha, no momento em
que as forças em contenda estariam supostamente a menos de 20 metros uma da outra
– ou na fase do contacto directo, se as tropas da primeira linha se encontrassem
verdadeiramente esgotadas. O inimigo certamente tentaria desorganizar por completo
este mecanismo de substituição de tropas, operada no calor do prélio. O sistema
manipular não poderia funcionar assim 361, nem tão quanto das outras maneiras que se
propuseram362. De facto, como apontou E. Wheeler, a linha frontal de batalha deveria
ser essencialmente contínua, com intervalos muito pequenos a separar as unidades,
assemelhando-se a uma falange363.
Mas, por outro lado, numerosas fontes literárias (além do trecho problemático de
Lívio que atrás transcrevemos) mostram que a vantagem do sistema manipular (e
depois, nos tempos pós-marianos, do sistema de coortes) radicava na possibilidade de
substituir os soldados fatigados da primeira linha, apresentando ao antagonista uma
nova linha completamente fresca: foi o que aconteceu em Zama (Políbio, Hist. 15.14;
Lívio, Ab Urb. cond. 30.34.9-12) e, mais tarde, em Ilerda ou em Farsália (César, Bell.
Civ. 1.45; 3.94). Esta é uma das constantes observáveis nas descrições de batalhas do
exército romano. No entanto, como conciliar a rendição das tropas, aspecto bem
documentado pelas fontes, com a necessidade de evitar a existência de intervalos entre
os manípulos e a substituição dos legionários em pleno enfrentamento corpo a corpo
com o inimigo? Parece-nos que a resposta se encontra, em parte, (a) no estudo das
batalhas narradas com mais detalhe nas fontes antigas; parcialmente, também, nas
considerações anteriormente expostas sobre o espaço necessário para a utilização das
360
Como os apresentados por J. Warry ( p. 111) e P. Connolly, 1988, pp. 140-142), entre outros. Estas interpretações não
resistem a uma análise rigorosa.
361
Como frisou F. Quesada Sanz («El legionario romano en epoca de las Guerras Punicas…», p. 184).
362
O que já há muito afirmou H. Delbrück (1920, pp. 272-296), que rejeitou liminarmente a possibilidade de que a
primeira linha combatesse englobando grandes intervalos (ibidem, p. 283), bem como a ideia de que se substituissem
linhas completas em plena refrega (ibidem, pp. 292-294), embora acreditasse que manípulos individuais de principes
podiam, caso fosse necessário, ocupar os espaços que ficassem abertos na linha dos hastati (ibidem, p. 273): depreende-
se, portanto, que a primeira linha não lutaria com intervalos do tamanho de um manípulo, mas com espaços vazios
muito menores, por forma a ajustar as inevitáveis contracções e extensões das unidades num terreno irregular ou
acidentado. Só se o intervalo se alargasse excessivamente é que o manípulo correspondente da linha posterior intervia,
ocupando-o, postulado que se afigura também problemático no meio da confusão de um prélio, em que as nuvens de
poeira e a oscilação da linha tornariam impossível, no nosso ponto de vista, agir com tanta precisão ao nível dos
manípulos individuais, que contariam, todos eles, com centuriões que certamente avaliariam o melhor momento para
tomar a iniciativa e entrar em acção.
363
E. Wheeler, 1979, p. 306.

140
armas do exército republicano (b); e, por último, no modelo de um combate muito mais
prolongado e dubitativo do que se costuma imaginar (c).
Quanto ao ponto a, no relato de Lívio da batalha de Zama (Ab Urb. cond. 30.34.9-12),
fica claro que a reorganização da linha ocorreu durante uma longa pausa nas
hostilidades, estando as forças beligerantes separadas por um campo juncado de
mortos e feridos. A imagem que se extrai é a de breves períodos marcados por combates
furiosos corpo a corpo, interrompidos por fases de descanso relativamente
prolongadas, e não a de uma frenética e trepidante carga decisiva (o que só
esporadicamente sucedia) ou de uma melée (othismos) quase interminável.
Se, além disto, tivermos em conta para o ponto b os modelos preconizados por P.
Sabin, A. Goldsworthy, Zhmodikov e J. Lendon, alicerçados na análise das fontes e nas
nossas propostas (c) relativamente ao uso das armas num espaço desimpedido, é então
possível descobrirmos uma solução. Por um lado, a ideia de que as batalhas eram muito
mais vacilantes e prolongados do que se poderia supor implica que, durante períodos
relativamente grandes, as linhas opostas não estariam em contacto directo, nem sequer
muito perto, mas apenas dentro do alcance dos dardos arrojadiços, aguardando que um
dos lados comecasse a ceder, dando nítidos sinais de se econtrar psicologicamente
derrotado, ou com grupos de ambas as facções efectuando movimentos agressivos,
enquanto o resto dos soldados se dedicava à sua principal função, a de conservar a
própria vida364. Numa tal situação, seria viável que se procedesse a uma substituição
das linhas, mas se esta se realizasse como se fossem meras peças num tabuleiro de
xadrez, a confusão estaria garantida, num campo de batalha repleto de homens
exaustos, feridos e mortos no solo, e com um inimigo que não hesitaria em aproveitar a
ocasião. Posto isto, é necessário procurar um modelo alternativo que não envolvesse
manobras idênticas às de um batalhão de infantaria num quartel do século XVIII.
Regressemos a uma ideia atrás mencionada, de que tanto o manuseamento do pilum
como da espada (a lâmina medindo cerca de 60 cm de comprimento) exigia um certo
espaço nas linhas, uma separação que permitisse a esgrima individual ou o arremesso
do dardo, sem que houvesse o perigo de atingir o companheiro situado à frente ou
atrás365. Políbio (Hist. 18.28-30) atribui para cada legionário um espaço de «pelo
menos» três pés, isto é, quase um metro, ao qual cabe somar o lugar ocupado pelo
próprio soldado, outros três pés, perfazendo seis ao todo. Observemos o trecho
polibiano:
«Também os romanos ocupam com as suas armas um espaço de três pés quadrados. Mas,
como no seu modo de lutar, cada um se move separadamente, porque o escudo protege o corpo,
girando sempre para prevenir um possível ferimento, e o legionário romano em combate porfia

364
F. Quesada Sanz, «El legionario romano en epoca de las Guerras Punicas…», p. 185.
365
N. Sekunda, Republican Roman Army 200-104 BC, Oxford, 1996, p. 19, A. K. Goldsworthy, The Roman Army at
War, p. 179.

141
com a espada, que fere com a ponta e o fio [da lâmina], é notório que se precisará de uma ordem
mais solta e um espaço de, pelo menos, três pés entre cada um dos homens na mesma fila
colateral e longitudinal, se quiserem cumprir satisafatoriamente a sua missão. A conclusão é que
cada legionário se irá opor a dois soldados da primeira fila da falange».
Consequentemente, numa falange helenística, os homens estavam em ordem unida,
ocupando cada um três pés de frente (1 m); na legião, por seu turno, a separação
chegada, no mínimo, ao dobro. Refira-se que o manual de Eliano atribui à falange uma
frente normal, em combate e em plena carga (11.2, 11.4), 366 de dois côvados (uns 3 pés =
1 m), reduzindo para metade numa posição defensiva (synaspismos). Vegécio, pelo
contrário, escrevendo muitos anos depois mas provavelmente inspirando-se numa
fonte muito antiga, uma vez que cita os hastati, os principes e os triarii (Ep. de rei mil.
3.14.15), indica 3 pés de frente para cada legionário e 7 (uns 2 m) de profundidade para
manejar o pilum. No entanto, talvez Vegécio tenha lido ou interpretado mal a sua fonte,
e que os 3 pés por legionário correspondessem ao intervalo entre cada um, como diz
Políbio, o que aumentaria para 6 pés (1,8 m) a frente ocupada por cada soldado em
combate. Em qualquer dos casos, a frente atribuída a cada legionário é ampla, tanto em
Políbio como em Vegécio, quando cotejada, por exemplo, com as frentes preenchidas
por soldados armados de mosquetes no tempo napoleónico: cerca de 55-70 cm de
frente por cada homem (22 polegadas no exército britânico, 26 no francês e 27 no
russo) e um intervalo de 30-60 cm entre as linhas 367.
Consideramos razoável sugerir, desenvolvendo e modificando um pouco a
argumentação de J. Lendon368, a ideia de que os manípulos em contenda não se
encontrariam dispostos em rectângulos lineares 369 (ao modo dos syntagmata da
falange helenística), cuja eficácia radicava na coesão da sua formação, apresentando
um conjunto eriçado com pontas de sarissas370. Acreditamos, servindo-nos da
terminologia gráfica de Lendon, que se agrupariam em blobs371, nuvens relativamente
densas de legionários que se reuniam, de maneira fluida, à volta dos seus estandartes
(daí a sua importância, e que cada unidade tivesse o seu: Políbio, Hist. 6.24.4-6),
estendendo-se e contraindo-se ligeiramente, como uma amiba, mas sem jamais
olvidarem a sua pertença a cada unidade.
Nesta situação, embora na altura do desdobramento inicial cada manípulo deixasse
um intervalo com os dos seus flancos, quando se ia combater a linha convertia-se num
conjunto quase contínuo, tendo a capacidade de abrir e fechar espaços com bastante
facilidade, em vez de procurar manter uma formação rígida em fileiras e linhas, e apta a

366
Devine, 1989, p. 48.
367
Nafzinger, 1996, p. 22.
368
Soldiers and Ghosts, p. 179, figura.
369
Como os apresentados por J. Warry (p. 112) e P. Connolly, 1989, p. 128 e 141.
370
P. Connolly, 1988, pp. 76-78.
371
Conforme o autor referiu num debate que teve lugar na II International Conference on Hellenistic Warfare, Valência,
Outubro de 2005.

142
recolocar-se rapidamente nos intervalos da segunda linha – que até aí permanecera em
reserva, com uma formação mais rigorosa -, podendo assim «dissolver-se» nas ditas
amibas, ao ocupar o lugar das primeiras. As distâncias envolvidas são pequenas e não
suscitam problemas neste modelo, na medida em que, ao não haver necessidade de
manter um alinhamento extremamento rígido, os movimentos se processariam em
segundos. Não sabemos qual a profundidade com que se formariam as centúrias no
século III a. C.: possivelmente variava consoante a ocasião, se tivermos em conta o que
Políbio escreveu sobre Canas (Hist. 3.113). Normalmente, a profundidade seria de 3,4
ou 6 linhas372. No último caso, se os manípulos formassem com uma frente de duas das
suas centúrias, ocupariam uma linha em ordem de marcha na razão de três pés por
cada homem, menos de 20 m, deixando um intervalo de 20 m em relação ao manípulo
posicionado ao seu lado; ao transitar-se para a ordem de batalha, que englobaria cerca
de seis pés para cada soldado, as tropas dos extremos precisariam de se deslocar
lateralmente apenas 10 m em cada lado, para assim se enlaçarem com os manípulos
dos flancos. Caso se formasse com uma centúria atrás de outra, a frente do manípulo –
imaginando uma profundidade de 6 homens por centúria – cifrar-se-ia apenas nuns 10
m, com os espaços correspondentes entre os manípulos.
Se, como defendeu A. K. Goldsworthy373, a profundidade habitual consistisse somente
em três linhas em lugar das seis, os intervalos atingiriam, quando muito, 20 ou 40 m,
de acordo com a disposição inicial das centúrias; seja como for, tratava-se de pequenas
distâncias para contrair ou expandir uma formação, onde a rigidez das linhas e fileiras
não se afigurava propriamente essencial374. Neste modelo conceptual, a posição dos
estandartes de cada unidade táctica desempenhava um papel decisivo, funcionando
como «centro» de cada uma das densas «nuvens» de legionários, daí que se perceba
bem a enorme importância que eles possuíam na legião romana, bem como a função
dos centuriões (verdadeiros oficiais subalternos de «companhia», mais do que sub-
oficiais), essencial para manter a coesão numa aparente desordem. Quando H.
Delbrück refutou a possibilidade de os manípulos de hastati se «estirarem» para
preencher os intervalos, antes de se produzir o choque com as forças inimigas, o erudito
alemão justificou o seu ponto de vista dizendo que os soldados não poderiam (nem
teriam tempo) para se preocupar em adoptar um novo intervalo de linhas e fileiras na
fase imediatamente precedente ao combate. Mas isto deveu-se ao facto de Delbrück
continuar a pensar em rígidos rectângulos alinhados por fileiras, ao jeito dos batalhões
prussianos do século XVIII, e não numa «nuvem» densa mas muito elástica de
soldados.
372
A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p. 179ss.
373
Ibidem, p. 179ss.
374
F. Quesada Sanz, «El legionario en epoca de las Guerras Punicas…», p. 187.

143
O modelo aqui desenvolvido e proposto será mais plausível do que os demais, na
medida em que tem em conta as peculiaridades do armamento legionário, demonstra
flexibilidade e permite explicar melhor como a legião manipular funcionaria realmente,
desde que se aceite, igualmente, que o combate não se decidia usualmente numa ou em
diversas arremetidas decisivas, significando ele um fenómeno mais prolongado,
vacilante, irregular e, até, indeciso do que até há pouco se supunha 375.
Apesar de subscrevermos muitas das ideias de J. Lendon, a explicação de carácter
psicológico que este oferece, a fim de perceber não o «como» mas o «porquê» do
sistema manipular, não nos parece inteiramente convincente: na sua opinião, tal
dispositivo basear-se-ia na típica agressividade dos legionários romanos (reflectida no
seu gosto pelo combate singular 376), visto que este sistema estaria mais conforme à sua
maneira de actuar do que a formação em falange377.

375
Ibidem, p. 187.
376
S. Oakley, 1985. A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, p.264ss.
377
Soldiers and Ghosts, p. 185ss.

144
CAPÍTULO III: O exército romano durante as Guerras
Civis do final da República

Na segunda metade do século II a. C., o exército romano debateu-se com múltiplas


dificuldades nos diferentes teatros de operações em que esteve envolvido na Península
Ibérica, em Africa, nos Balcãs ou mesmo em Itália. Durante largo tempo, os
historiadores modernos entenderam que essas contrariedades se deveram a uma
substancial diminuição do número de cidadãos mobilizáveis, o que teria conduzido
Gaio Mário a arrolar os proletarii, alternativamente chamados capite censi, isto é
«cabeças contadas»378. Contudo, ultimamente, alguns estudiosos matizaram esta
interpretação, assim como se relativizou o papel de Mário neste processo, embora não
pondo em causa o relevante papel desempenhado por ele em reformas introduzidas no
exército romano.

III.1. O exército acessível aos proletarii379

De acordo com as investigações produzidas nos últimos anos, da vitória na batalha de


Pidna, em 168 a. C., ao começo da Guerra Social em 91 a. C. 380, o número de legiões
criadas anualmente manteve-se, em geral, inferior aos efectivos mobilizados durante o
período precedente, em que Roma defrontara Aníbal e, depois, Antíoco III, entre 191 e
189 a. C.: contra o rei selêucida, formaram-se 12 a 13 legiões. À excepção da Terceira
Guerra Púnica (149-146) e das invasões dos Cimbri/Cimbros e dos Teutones/Teutões
(entre 105 e 101), nunca existiram mais de 10 legiões em campanha. Mesmo tendo o

378
Com efeito, em 107 a. C., Mário aceitou voluntários procedentes de classes que não eram elegíveis para o serviço
militar, devido aos seus baixos rendimentos. Mas, na realidade, os capite censi já eram esporadicamente admitidos
desde os anos 130 a. C. (J.-M. Carrié, «Recrutement militaire romain», in J. Leclant [ed.], Dictionnaire de l’Antiquité, p.
1870). A expressão capite censi reporta-se ao facto de eles serem apenas arrolados como números nos censos, por não
possuírem património assinalável. Um dos méritos que coube a Mário foi o de acabar por abrir as portas do
recrutamento ao voluntariado, assim suprimindo os derradeiros vestígios do exército censitário.
379
L. De Ligt, «Roman Manpower Resources and the Proletarianization of the Roman Army in the Second Century BC»,
in L. de Blois e E. Lo Cascio (eds.), The Impact of the Roman Army (200 BC- AD 476), pp. 3-20.
380
Não cabe nos nossos propósitos analisar a rivalidade conflitual que opôs Gaio Mário a Lúcio Cornélio Sula, pelo que
remetemos para a leitura de uma obra recente: G. C. Sampson, The Collapse of Rome, Marius, Sulla & the 1st Civil War
(91-70 BC), Barnsley, South Yorkshire, 2013.

145
número dos adsidui/assidui conhecido uma certa diminuição na segunda metade do
século II a. C., isto não comprometeu seriamente, ao que se julga, o esforço bélico
romano.
A teoria de uma eventual redução do número de cidadãos mobilizáveis assenta na
interpretação de cifras do recenseamento que os autores antigos transmitiram, em
primeiro lugar por Tito Lívio, cujo testemunho nos chegou sob uma forma abreviada ou
fragmentária a partir de 167 a. C. Após um pico atingido em 164-163 a. C., tais números
indicam a seguir uma certa descida, mas mantêm-se todavia superiores aos do período
anterior. É verdade que todos os cidadãos eram recenseados, incluindo os proletarii, e
que esta estabilidade relativa das cifras do census poderia ocultar um aumento da
proporção dos proletarii isentos do serviço militar no seio do corpo cívico.
Porém, contrariamente às opiniões de Emilio Gabba 381 e Peter A. Brunt382, John W.
Rich383 não acredita que as mudanças ocorridas nas estruturas agrárias italianas, após a
Segunda Guerra Púnica, tenham efectivamente levado a uma redução drástica do
número dos adsidui, que se manteve acima de 200 000. Embora não restem dúvidas
quanto às transformações sofridas na agricultura em Itália neste período, o
desenvolvimento de grandes domínios fundiários (os latifundia), empregando
abundante mão-de-obra servil, não fez desaparecer completamente o pequeno
campesinato livre, que continuou a servir nas fileiras das legiões, designadamente no
Centro da península.
Com efeito, J. W. Rich defendeu que o valor do património fundiário requerido para se
ficar inscrito na última classe censitária não se afigurava muito elevado, pelo que não é
preciso supor uma diminuição do nível do censo exigido para aceder à mesma durante
o século II a. C. Este abaixamento hipotético – numa ou em várias etapas - é, aliás,
muito difícil de apreender nas fontes antigas 384. É também possível que os censores se
recusassem, muitas vezes, a desclassificar os camponeses livres empobrecidos que,
deste modo, preservavam o seu estatuto de mobilizáveis.
No que respeita à legislação agrária dos Gracos 385, ela não teve por objectivo imediato
aumentar o número dos adsidui, já que as parcelas de terra distribuídas permaneceram
no ager publicus, não sendo, então, tidas em conta pelos censores, ao avaliarem o
património fundiário dos cidadãos mobilizáveis. A referida legislação buscou antes

381
E. Gabba, «Le origini dell’esercito professionale in Roma: I proletari e la riforma di Mario», Athenaeum XXVII
(1949), pp. 173-209; artigo que foi reeditado numa colectânea de estudos do mesmo autor: cf. Republican Rome. The
Army and Allies, Oxford, 1976, pp. 5-8.
382
P. A. Brunt, «The Army and the land in the Roman revolution» JRS 52 (1962), pp. 69-86.
383
J. W. Rich, «The supposed Roman manpower shortage in the later second century BC.», Historia, 32 (1983), pp. 53-
57, 156-157.
384
A. Goldsworthy também referiu haver dificuldades para se saber «qual seria a proporção da população de cidadãos
que se teria conservado na condição de não elegível para o serviço militar», a despeito de «sucessivas diminuições da
dimensão mínima da propriedade para habilitar ao serviço militar»: cf. Generais romanos, p. 154.
385
Sobre a lei da terra de Tibério Graco: Y. Shochat, Recruitement and the Programme of Tib. Gracchus, Bruxelas, 1980.

146
incentivar a demografia italiana, ao permitir que os cidadãos mais pobres tivessem
mais filhos, com o propósito de evitar uma desproporção demasiado forte entre os
efectivos das populações servil, liberta e de origem modesta. Neste caso, os efeitos da
legislação parecem ter sido apenas indirectos.
Os cidadãos que se alistaram como voluntários para o exército de Mário eram
homens sem terras e, caso aceitemos as conclusões enunciadas por N. Rosenstein, eles
tinham chegado a tal situação, não em resultado de um longo serviço militar
ultramarino ou por causa de disputas com latifúndios explorados por escravos, mas
simplesmente por não haver terra disponível para eles. Até Tibério Graco se apercebeu
deste facto, quando a comissão encarregada de implementar a sua lex agraria
constatou restar pouquíssima terra para os soldados. Consequentemente, os recrutas
de Mário estariam motivados pela esperança de ser recompensados na altura do seu
licenciamento, assim se convertendo em agricultores independentes. E, efectivamente,
não terão ficado desapontados386.
Neste contexto, como compreender a decisão tomada pelo cônsul Caio Mário de
arrolar os proletarii no supplementum que ele comandou para combater contra
Jugurta, na Numídia? À primeira vista, daria a impressão que este homem, detentor,
havia pouco, da magistratura suprema, pretenderia, acima de tudo, consolidar a sua
popularidade, ao aceitar todos - proletarii ou não - os que se apresentassem no
arrolamento, convencidos de que o cônsul os conduziria à vitória e atraídos pela
perspectiva dos despojos que poderiam advir dessa campanha militar no Norte de
África. Contudo, cumpre relativizar o impacto militar imediato deste recrutamento de
proletarii, dado que se revelou pontual e dizia respeito apenas a um conjunto de tropas
de efectivos limitados.
Imaginando que nessa altura Mário tenha arrolado um número de homens superior
ao que decretado pelo Senado, tal supplementum não terá ultrapassado os 5 000, isto é,
uma só legião. Foi necessário esperar mais algum tempo para se verem novamente
proletarii recrutados. Pondo de parte Mário, os magistrados e os promagistrados terão
decerto hesitado em tomar tal medida, desaprovada pelo Senado, e à qual os tribunos
da plebe podiam opor o seu direito de veto, caso recrutas mais reticentes a eles
apelassem. Até no ponto mais forte da ameaça dos Cimbros e Teutões, entre 105 e 101
a. C., as fontes não mencionam o recurso aos proletarii. É certo que esta guerra

386
Os veteranos de Mário, tanto na Guerra Númida (107-105 a. C.), como no conflito contra os Germanos (105-101 a. C.),
receberam lotes de terreno, a maior parte destes no Norte de África e na Itália Setentrional. Então, pode-se afirmar que,
de 107 antes da nossa era em diante, os indivíduos que se alistavam no exército alimentavam a forte expectativa de que
os seus generais lhes oferecessem recompensas financeiras no fim de cada campanha. Para além dos despojos que as
tropas podiam ganhar numa guerra, a antecipação de benefícios tangíveis no momento da desmobilização passou a
tornar-se na principal motivação para ingressar nas fileiras, o que transformou o soldado romano basicamente num
mercenário. Dentro em breve, surgiria outra consequência lógica: os legionários compreenderam que o seu futuro
dependia dos seus comandantes, os únicos capazes de prover à subsistência dos seus homens, facto que se encontra na
raiz dos exércitos profissionais e privados. Cf. Rosenstein, Rome at War, pp. 167-169.

147
defensiva oferecia menos possibilidades para a obtenção de despojos, suscitando uma
nítida diminuição dos alistamentos voluntários.

III.2. As repercussões da Guerra Social

A Guerra Social387(91-89 a. C.) significou uma ruptura muito mais determinante para
a organização militar romana do que a admissão pontual de proletarii por Mário no
supplementum que partiu para África em 107 a. C. As duas facções afrontadas
mobilizaram efectivos que excederam provavelmente os que foram reunidos durante a
Segunda Guerra Púnica: terão servido nas fileiras 300 000 italianos. Roma arrolou os
libertos, adstritos à defesa das costas itálicas e, talvez, também os proletarii. Este
aumento acentuado dos efectivos conduziu, então, ao que se julga, ao abandono dos
procedimentos tradicionais inerentes ao dilectus.
Numa primeira fase, a principal modificação foi a de não ter mais em conta a
qualificação censitária dos recrutas. É certo que na falta de informes de recenseamento
no período entre 86-85 e 70-69 a. C., devido às guerras civis entre os partidários de
Mário e os de Sula, não foi possível encontrar qualquer tabula iuniorum que fornecesse
dados fiáveis ao longo de uma quinzena de anos. Os velites, recrutados entre os mais
jovens e mais pobres adsidui/assidui, não aparecem mais atestados após o fim do
século II a. C388. A guerra civil entre Júlio César e Pompeio e, depois, os conflitos do
período triunviral provocaram mais interrupções nos recenseamentos e conduziram a
recrutamentos maciços incluindo também proletarii, desta vez mesmo não voluntários.
Ora, no final da Guerra Social, no seguimento da concessão da cidadania romana a
todos os italianos livres que residissem a sul do Pó, os efectivos cívicos subiram de 395
000, em 115-114 a. C., para 463 000, em 86-85 a. C. Nesta data, os novos cidadãos não
puderam ser recenseados em Roma, pelo que tiveram de aguardar pelo recenseamento
de 70-69, altura em que eles afluíram de toda a Itália para a Urbs, enumerando os
censores 910 000 cidadãos.

387
Para esta matéria: C. Nicolet, Roma y la conquista del mundo mediterráneo 264-27 a. de J. C., pp. 188-216
388
De facto, os velites surgem mencionados pela última vez em fontes literárias durante a campanha de Metelo, em 109
a. C.; a cavalaria, composta por cidadãos romanos, desapareceu aproximadamente na mesma altura. Mas julgamos
precipitado pressupor, como o fez A. Goldsworthy, que doravante as legiões deixariam de ter infantaria ligeira e
cavalaria; este autor sustenta ainda que «Todos os legionários passaram a ser efectivos de infantaria pesada, equipados
uniformemente com capacete, cota de malha ou loriga de placas, scutum, espada e pilum»: Generais romanos, p. 154.
Parece-nos uma generalização excessiva e artificial, até porque o equipamento dos soldados romanos foi bastante mais
heterogéneo do que geralmente se pensa.

148
Perante o aumento do corpo cívico, foi necessário descentralizar as operações de
recenseamento e recrutamento389. Prova-o a Tábua de Heracleia (CIL XII 593), que
precisa as excepções às cláusulas sobre a idade mínima de acesso às magistraturas (30
anos) - favorecendo os candidatos que tivessem servido, pelo menos, seis anos na
infantaria legionária, ou três na cavalaria legionária – bem como nos elucida sobre as
novas medidas para recensear os cidadãos deste município lucaniano, provavelmente
no tempo de Júlio César.
Nos sessenta dias após o anúncio do início do census em Roma, o principal
magistrado de cada município e de cada colónia teria de proceder, no local, ao
recenseamento dos cidadãos romanos segundo as normas fixadas na Urbs. Os dados
deste censo foram, portanto, conservados nos registos locais. Mas uma cópia devia ser
entregue em Roma, no prazo de sessenta dias, antes do fim das operações do censo, a
fim de que na mesma fossem transcritos e arquivados todos os elementos informativos
dos recenseamentos locais. Em muitos casos, a inovação traduziu-se no facto de as
cidades romanas normalizarem, decalcando o modelo de Roma, os procedimentos que
teriam de aplicar para estabelecer a sua formula togatorum. Doravante, os Italianos,
que outrora haviam servido como aliados, passaram a ser admitidos nas legiões.
No recrutamento, a descentralização ganhou mais visibilidade com a aparição de
verdadeiros «sargentos-recrutadores», os conquisitores390, enviados para diversos
sectores de Itália, onde mobilizariam os mancebos. Cabe então presumir que, desde
este momento histórico, existiria uma divisão do território itálico em circunscrições de
arrolamento. A criação de tais estruturas administrativas tornava inútil a deslocação
dos italianos mobilizáveis até Roma, porque a partir de então podiam ser recrutados
nas suas cidades de origem.
O recrutamento adquiriu uma dimensão mais rural, o que não causa estranheza, já
que os camponeses eram considerados mais disciplinados e robustos do que os
citadinos, bem como um âmbito mais local, na medida em que se efectuavam as levas
numa ou em várias regiões concretas. Assim, Pompeio mobilizou homens no Picenum,
onde o seu pai estabelecera sólidos laços clientelares, enquanto Júlio César obteve a
maioria dos legionários na sua província da Gália Cisalpina, e Crasso, por seu lado,
recrutou os homens para a sua campanha pártica entre os Lucanianos (Plínio-o-Antigo,
Nat. Hist. 2.147). O exército imperial herdou estas inovações tardo-republicanas.
A descentralização do dilectus estendeu-se mesmo a certas províncias, nestas se
arrolando os supplementa e até legiões inteiras ao longo do derradeiro século da
República. Diversos académicos interrogaram-se sobre a natureza da legião dita

389
E. Lo Cascio, «Recruitment and the size of the Roman population from the third to the first century BCE», in W.
Scheidel (ed.), Debating Roman Demography, Leiden, 2001, pp. 111-138.
390
C. Wolff, «À propos des conquisitores», Latomus 68 (2009), pp. 1050-1052.

149
Vernacula, que se atesta na Hispânia Ulterior, entre 49 e 45 a. C. (César, Bell. Civ.
2.20.4; Bell. Alex. 53.4-5, e 57; Bell. Hisp. 12.1, e 10.2.4-5). As interpretações mais
recentes privilegiam a hipótese de se tratar, pela primeira vez, de uma legião formada
apenas pelos cidadãos romanos que se encontravam estabelecidos na Península Ibérica.
Eles já haviam contribuído, aliás, para os supplementa: a inovação radicou no
recrutamento in loco de todos os efectivos da sétima legião de Pompeio presentes na
Hispânia. As necessidades bélicas, nomeadamente da guerra civil, implicaram até o
recrutamento de peregrini nas legiões.
Tal foi o caso da célebre legião Alaudae, formação atípica criada e equipada na Gália a
expensas de Júlio César, durante o Inverno de 52-51 a. C. (Suetónio, Júlio César, 24).
Os «Pompeianos», entre 49 e 45 a. C., os «Cesaricidas» em 43-42 e, depois ainda, os
«Antonianos», terão recorrido a idênticos procedimentos quando se acharam privados
de recrutarem tropas em Itália. Certos Orientais ou Africanos, indivíduos livres ou
libertos, receberam, ademais, a cidadania romana ao mesmo tempo em que foram
arrolados (César, Bell. Civ. 3.102-103; Bell. Afr. 36.1).

III.3. As reivindicações dos veteranos

Qual terá sido o impacto da abertura das legiões aos proletarii e aos Italianos na
composição ideológica do exército romano? Afirmou-se frequentemente que estes
soldados, recrutados entre as camadas populacionais mais pobres, se mostraram mais
ávidos pela obtenção de despojos, tendo combatido menos para defender as suas
próprias terras do que para as ganhar. Na medida em que muitos legionários eram, sem
dúvida, já no fim do século II a. C., camponeses indigentes que haviam conservado o
estatuto de adsiduus, cabe relativizar a hipótese de uma mudança radical de atitude por
parte dos soldados a partir do século I a. C.
Por outro lado, as fontes aparentam testemunhar um comportamento mais violento
dos militares desde meados do século II antes da nossa era, em Cartago, Corinto ou,
ainda, na Península Ibérica. No entanto, urge tomar em consideração que os autores
antigos, muitas vezes, pertencentes a famílias senatoriais e equestres, manifestavam
geralmente um certo desprezo pelos simples soldados de extracção social mais humilde,
tendendo a atribuir-lhes os piores excessos.
Foi neste período que o termo veteranus apareceu na literatura latina (e.g., Salústio,
Catilina, 59; Júlio César, B.Gall. I.24). Ele designava então um soldado experiente, que
serviu nas armas durante uma série de anos consecutivos e que almejava usufruir de

150
uma recompensa por todo esse esforço. Por seu turno, nesta altura, começou-se a medir
o tempo de serviço das tropas mais pelo número de anos do que pelo número de
campanhas. Assim, estes soldados que se mantiveram nas fileiras podiam já ser
considerados como profissionais. A sua desmobilização exigia, portanto, medidas que
facilitassem a reinserção dos veterani na sociedade civil.
Para os legionários, a distribuição de terras cedo foi a solução mais apropriada. O
primeiro caso conhecido atesta-se em 201 a. C., a favor de veteranos das legiões que
guerrearam na Hispânia e em Africa (Lívio, Ab Urb. cond. 31.4.1-3). Estas distribuições
de lotes fundiários confirmavam, aliás, uma tendência espontânea dos veteranos
licenciados em estabelecer-se nos sítios onde haviam servido: foi desta maneira que se
fundou a colónia de Italica na Hispânia Ulterior, em proveito dos soldados feridos de
Cipião-o-Africano em 206 a. C.
Os estudos de J. C. Mann391, L. Keppie392 e C. Moatti393 deram a conhecer as etapas da
repartição de terras pelos veteranos: desde logo, uma lei agrária votada pelos comitia
estipulava as terras em questão, as modalidades da distribuição, o número e os poderes
dos comissários (curatores) e dos técnicos responsáveis pela sua aplicação e pela
delimitação dos lotes. Estas operações tanto podiam assumir a forma de concessões
viritanas, quando beneficiavam cidadãos a título individual, como de deduções
coloniais quando se destinassem à fundação de cidades. Foi sobretudo desde o século I
a.C. que a distribuição de terras acompanhou sistematicamente as desmobilizações.
Veleio Patérculo (História romana, 1.15.5) salienta que as únicas colónias criadas neste
período se destinaram aos veteranos. Os de Mário, que haviam combatido Jugurta,
puderam assim instalar-se em África; os de Sula, ascendendo a 120 000 homens,
receberam terras em Itália depois das proscrições; quanto aos de Pompeio, totalizando
50 000 homens em 59 a. C., viram-se estabelecidos à volta do Mediterrâneo: Península
Ibérica, Ásia Menor, Creta e Macedónia.
A eclosão do conflito contra Pompeio, a seguir à Guerra das Gálias, fez com que o caso
dos veteranos de Júlio César diferisse, em certa medida, os quais não terão
ultrapassado 25 000-30 000. Alguns fixaram-se no Latium, na Campânia, no Picenum
e na Etrúria, enquanto outros ficaram na Gália Transalpina (Arelate/Arles, Béziers,
Narbo/Narbonne) e até em Cartago, que foi novamente fundada por César. Mas o
processo ainda estava inacabado por altura do assassinato do dictator, como salienta
Apiano de Alexandria (Guerras Civis, 2.17.120), que evoca os numerosos veterani à
espera de terras que estiveram reunidos em Roma nos Idos de Março de 44 a. C.

391
Legionary Recruitment and Veteran Settlement during the Principate, Londres, 1983.
392
Colonization and Veteran Settlement in Italy, 47-14 BC, Papers of the British School at Rome, 51, Londres,
1983;IDEM, Legions and Veterans. Roman Army Papers 1971-2000, Mavors Roman Army Researches, 12, Estugarda,
2000.
393
Archives et partage de la terre dans le monde romain (IIe siècle avant- Ier siècle après J. C.), Roma, 1993.

151
Após a batalha de Filipos (Philippi), devia haver uns 50 000 veteranos à espera de
receberem o seu quinhão. Para satisfazerem as suas exigências, os triúnviros
efectuaram expropriações nas 18 cidades mais prósperas de Itália. O descontentamento
ocasionado por tais confiscações provocou conflitos por toda a península, conhecidos
como a Guerra de Perúsia, em 41-40 a. C. Com efeito, registaram-se as mais
significativas transferências de propriedades que a antiga Itália alguma vez conheceu.
Nas províncias, todavia, a fixação dos legionários veteranos contribuiu para a difusão
da civilização romana, sobretudo quando se fundavam novas cidades, que se pretendia
constituírem verdadeiras amostras da romanidade.
Mas o exército romano contava igualmente - e cada vez mais – com auxiliares não
cidadãos. Estes eram recrutados entre os peregrini nas províncias, mesmo fora da área
de influência directa de Roma, depois de os aliados itálicos passarem a ser admitidos
nas legiões. De facto, ao longo da Guerra das Gálias, Júlio César não hesitou em arrolar
auxiliares gauleses e germanos, comandados pelos seus respectivos chefes ou por
prefeitos romanos da ordem equestre. Ora a Guerra Social fez com que os Romanos
tivessem consciência da necessidade de recompensar o apoio militar prestado pelos
auxiliares através de privilégios jurídicos, a fim de evitarem a eclosão de manifestações
violentas de desagrado dos últimos.
Data precisamente da Guerra Social o primeiro documento preservado que concede
colectivamente a cidadania romana a auxiliares não romanos: o «Bronze/Aes de
Asculum» (ILS 8888), relativo a trinta cavaleiros auxiliares da Hispânia que serviram
sob as ordens de Cneu Pompeio Estrabão. No texto da inscrição, a concessão da
cidadania romana precede a menção às demais recompensas militares, uma das quais
consistindo numa dupla ração de trigo. Havia ainda outras vantagens que se ajuntavam
ao direito de cidade: foi assim que o navarca Seleucos de Rhosos (na fronteira entre a
Síria e a Cilícia) recebeu de Octávio, além da cidadania romana, uma imunidade fiscal,
isenção de liturgia e de serviço militar na sua cidade-natal, bem como a escolha da sua
jurisdição em caso de processo, benefícios que se estendiam também para os seus
descendentes, em virtude da coragem que Seleucos evidenciara na refrega de Filipos ou
na de Nauloco (IGLS III, 1, 1950, 718).
Afora a cidadania romana, alguns auxiliares de Roma receberam o título de «amigo
do povo romano», como sucedeu a Asklepiades de Klazomenes, em 78 a. C. (AE 1948,
64). Tal epíteto, que recompensava a participação dos auxiliares em acções navais,
durante a Guerra Social ou aquando da marcha de Sula sobre Roma, garantia-lhes um
direito de embaixada diante do Senado romano, podendo também fazerem anular
eventuais medidas tomadas a seu desfavor nas suas cidades de origem (quando destas

152
se encontrassem ausentes ao serviço de Roma) e uma imunidade fiscal retroactiva para
eles e os seus descendentes.
Na origem da concessão da civitas Romana e de outros privilégios jurídicos, estava
geralmente uma lei autorizando um magistrado ou um promagistrado a recompensar
os auxiliares sob o seu comando. No tempo do Triunvirato, os privilégios outorgados
aos veteranos tinham por base uma lei Munatia Aemilia, votada em 42 a. C. Foi ao ter
em conta a última que Octávio promulgou, entre 40 e 37 a. C., um édito conferindo
numerosas vantagens a determinados veteranos e às suas famílias, do qual temos
conhecimento graças ao teor de um papiro latino (ChLA X, 416).

III.4. Formações e unidades

A guerra travada na Numídia, tal como a relatou Salústio, oferece uma imagem
curiosa sobre o período de transição durante o qual o exército romano ainda estava
muitas vezes organizado numa formação manipular. Porém, Metelo e, após 107 a. C.,
Gaio Mário, fizeram uso ocasional de coortes de tropas étnicas aliadas (Lígures:
Salústio, B.Iug.77.4, 88.6, 93.2, 100.2; Pelignianos – Salústio, Bell. Iug.105.2), bem
como de coortes legionárias (ibidem, 51.3 [Metelo], 56.3-4, 94.3, 99.1 e 100.4 [Mário]).
Além disso, é no conflito contra Jugurta que encontramos a última referência aos
velites, que desapareceram com a adopção definitiva do sistema coortal (Salústio,
B.Iug. 46.7). Também vale a pena notar que foi durante a batalha de Muthul que se
observa a derradeira menção à formação manipular (Salústio, B.Iug.. 49.6, com
Metelo).
Na realidade, as coortes, enquanto formações de combate, permaneceram, em certa
medida, uma excepção ao longo de quase todo o século II a. C., afirmando-se o sistema
manipular a regra. E, no entanto, os Romanos defrontaram mais inimigos praticando a
«guerrilha» (como os Scordisci e os Lígures) ou, então, maciços assaltos frontais,
designadamente dos Gauleses e dos Germanos, para os quais as coortes estariam, na
realidade, mais adequadas. Por fim, ao fazer face aos Cimbri e aos Teutones, Mário
optou por organizar as suas legiões de acordo com o modelo coortal e, juntamente com
outras reformas que introduziu, ele tornou o sistema das coortes na nova formação-
padrão das forças militares romanas, generalizando a utilização de uma formação mais
fechada394. Depois de Mário, todas as legiões passaram a ser compostas por coortes.
394
Sobre as reformas militares de Gaio Mário e a função política do exército: H. Aigner, «Gedanken zu sogennanten
Heersreform des Marius», in Kritisch und vergleishende Studien zur Alten Geschichte, Innsbruck, 1974; idem, Die
Soldaten als Machtfaktor in der ausgehenden römischen Republik, Innsbruck, 1974; Michael C. Gambino, The Military
Reforms of Gaius Marius in their Social, Economic, and Political Context, tese para a obtenção do grau académico de
MA, East Carolina University, August, 2015, pp. 101-123 («Chapter VI: Marian Military Reforms»).

153
Assim, nos últimos dez anos do século II a. C., a legião de 30 manípulos foi substituída
pela legião de 10 coortes: cada uma destas compreendia 3 manípulos, cada qual, por
sua vez, com 2 centúrias; uma centúria, por seu turno, compunha-se de 80 homens, e
estava sob o comando de um centurião. Embora as fontes antigas não especifiquem a
questão, uma coorte certamente tinha um comandante, pois que de outra forma, ela
facilmente se limitaria a uma massa de soldados desorganizados. É muito provável que
o centurião «sénior» (pilus prior) assumisse tal mando, exercendo a sua autoridade
sobre os restantes cinco centuriões. Uma coorte ascendia a um efectivo oscilando entre
os 480 e os 600 homens.
No campo de batalha, as coortes, consoante a topografia do local ou o tamanho e a
formação de combate do inimigo, podiam ser distribuídas numa só linha (disposição
adoptada por César em África, B. Afr. 13.2), em duas (como Crasso na Aquitânia, César,
B.Gall. 3.24.1) ou em quatro (quadruplex acies), mas a formação em três linhas (triplex
acies) era a mais comum (um sistema 4-3-3).
Nas coortes, cessou de existir distinção entre idade, riqueza e equipamento militar.
Esta nova ordem não incluía unidades de infantaria ligeira. A coesão e a uniformidade
significaram os marcos definidores do sistema coortal. Afora fazer parte de uma legião,
de uma coorte e de uma centúria, um legionário era membro de um grupo de oito
soldados, que tomavam as suas refeições em conjunto e dormiam na mesma tenda
(contubernium). Ao viverem juntos, partilhando as adversidades, as expectativas e os
momentos mais exaltantes durante as campanhas, estes indivíduos desenvolviam entre
si fortes laços de amizade e de solidariedade. Ao lutarem, eles mostrar-se-iam desejosos
de não desapontar os seus camaradas, procurando, acima de tudo, apoiá-los e protegê-
los.
Se bem que não possamos atribuir a Mário a criação da coorte, o certo é que a
organização que ele estabeleceu no exército nos anos 104-103 a. C., enquanto esteve à
espera das tribos germânicas, numa zona situada no actual Sul de França, contribuiu
sobremaneira para aperfeiçoar o sistema. Mário melhorou a mobilidade e a
independência de movimentos da legião, ao livrar-se das catervas de civis que
tradicionalmente acompanhavam os exércitos romanos: escravos que transportavam os
equipamentos dos soldados, mercadores de escravos e outros comerciantes (lixae) em
busca de lucro e prostitutas.
Mário, que desprezava estes enxames de gente não combatente, ainda que não tenha
logrado desembaraçar-se de todos estes «parasitas», retirou do exército aqueles que
carregavam o equipamento militar, incumbindo os legionários de cuidarem das suas
próprias armas e de tudo aquilo que era preciso para as campanhas; ademais, Mário
reorganizou o trem das bagagens (com animais de carga ou carroças se o terreno das

154
operações o permitisse), que passou a pertencer às legiões e a encontrar-se sob a
supervisão de escravos denominados calones. Se não houvesse a possibilidade de
utilizar o trem de bagagens, então cada soldado teria de transportar às costas as suas
armas, as rações de comida, utensílios de cozinha e apetrechos necessários para montar
acampamentos. As tropas assemelhavam-se a bestas de tiro, pelo que depressa
ganharam o epíteto popular de «mulas de Mário» 395. Posto isto, com Mário, a legião
adquiriu uma mobilidade, uma autonomia e uma capacidade de prontidão operacional
que antes jamais possuíra (Frontino, Strat. 4.1.7).
Acresce que este general teve o cuidado de supervisionar estreitamente todas as
actividades militares em campanha, chegando a comer a mesma ração dos simples
soldados e vivendo em condições quase iguais. Era seu costume inspeccionar
pessoalmente as sentinelas de guarda aos acampamentos, não por considerar que os
seus oficiais fossem incapazes de o fazer de modo adequado, mas para que as suas
tropas reparassem que Mário não estava a repousar enquanto elas se encontravam em
serviço. Também interpelava directamente os seus homens, independentemente do seu
grau hierárquico, fosse para criticar e punir, fosse para elogiar ou conceder
recompensas. Assim, ganhou o respeito das tropas, mostrando-se um comandante
simultaneamente duro e justo (Salústio, B. Iug. 87-88. 100).
Mário também se preocupou com o nível da instrução militar ministrada aos seus
soldados. Às marchas diárias com equipamento completo e à construção (e posterior
desmantelamento) dos acampamentos, Mário acrescentou exercícios e combates
simulados com armas, com base no modelo adoptado nas escolas gladiatórias, método
de treino implementado no exército por P. Rutílio Rufo, cônsul em 105 a. C. (Valério
Máximo, 2.3.2), a fim de melhorar as possibilidades de sobrevivência individuais 396.
Por último, ao fazer da águia (aquila) o estandarte para todas as legiões, Mário
aumentou a coesão dos exércitos e forneceu aos soldados um símbolo que expressava o
vínculo dos mesmos a um corpo que tudo abrangia, uma instituição para a qual a
lealdade dos militares se devia direcionar. As reformas instauradas por Mário
melhoraram, portanto, a capacidade de combate dos legionários romanos. A derrota
esmagadora infligida aos Ambrones e aos Teutões, em Aquae Sextiae (102 a. C.) e a
vitória sobre os Cimbros em Vercellae (101 a. C.) puseram bem à prova o exército
mariano. Ulteriormente, no século I antes da nossa era, generais como Sila, Lúculo,
Pompeio e César viriam a confirmar a excelência da metodologia de combate e a

395
M. C. Gambino, The Military Reforms of Gaius Marius…, pp. 121-123. No entanto, subsistem dúvidas se Mário
introduziu realmente a prática de cada soldado transportar o seu equipamento e pertences, ou se apenas generalizou a
mesma.
396
G. Brizzi, Il Guerriero, l’oplita, il legionario – Gli eserciti nel mondo antico, p. 91.

155
superioridade do sistema coortal, a formação que se manteria ao longo de toda a época
imperial397.

III.5. A aparição dos generais «aventureiros» e carismáticos

As modalidades de atribuição de recompensas aos veteranos põem bem em evidência


o papel que a partir de então desempenharam os titulares dos grandes comandos
militares. De todos os imperatores da República, Júlio César é, indiscutivelmente, o
que melhor conhecemos, por meio dos testemunhos da Guerra das Gálias e da Guerra
civil. Importa realçar esta desproporção nas nossas fontes, quando se tenta avaliar as
transformações que o exército romano conheceu sob o comando de César e de outros
generais do século I a. C. É caso para perguntarmos até que ponto as relações que o
conquistador das Gálias manteve com os seus soldados foram excepcionais ou
comparáveis às de outros comandantes-chefes. Na opinião de C. Meier 398, a
importância da disciplina no exército romano não impedia que as tropas extravasassem
espontaneamente os seus sentimentos, numa sociedade que não tinha um controlo das
emoções idêntico às normas de comportamento hodiernas.
Ante a manifestação da agressividade ou do medo dos soldados, o chefe devia reagir
simultaneamente utilizando a palavra e o gesto. Ora César, pela sua formação retórica e
pela sua endurance física, parece ter conseguido ter um verdadeiro ascendente sobre os
oficiais e os soldados do seu exército. Neste sentido, compreende-se então o papel
fulcral desempenhado pelos discursos proferidos antes ou depois dos combates,
aspecto não há muito explorado por J.-M. David 399. Ao estudar os elementos da
popularidade cesariana, Z. Yavetz400 salientou a sua levitas, que, neste contexto, se deve
verter por «flexibilidade», deixando de parte outros sentidos. A levitas representava a
capacidade que um indivíduo tinha ao dirigir-se a um auditório, dizendo-lhe aquilo que
o último desejava ouvir, e agir em função do que o mesmo esperava. Júlio César era
capaz de falar aos tribunos e centuriões, chamando-os pelos seus nomes. Geralmente
usada em sentido perjorativo, enquanto sinónimo de demagogia, a levitas opunha-se à
gravitas, que definia um comportamento que se atinha a princípios intangíveis,
397
Para um aprofundamento sobre as mudanças operadas na qualidade e no desempenho do exército romano após as
reformas de Mário, consultem-se: J. Harmand, L’armée et le soldat à Rome de 107 à 50 avant notre ère, Paris, 1967, pp.
8-20; A. Goldsworthy, The Roman Army at War, 100 BC-AD 200, Oxford, 1996, pp. 12-38; J. Warry, Warfare in the
Classical World, Nova Iorque, 1980, pp. 130-138; L. Keppie, The Making of the Roman Army. From Republic to
Empire, pp. 57-79.
398
César, tradução para francês de J. Festhauser, Paris, 1989.
399
Assunto que abordou no seu livro La République romaine de la Deuxième Guerre Punique à la bataille d’Actium
(218-31), Paris, 2000.
400
Z. Yavetz, Plebs and Princeps, Londres, 1969, pp. 44-58.

156
qualidade, por excelência, dos optimates, que só reconheciam os senadores como
interlocutores privilegiados.
No decurso de uma campanha, a levitas ia para além das palavras: ao participar tanto
no treino como na porfia, por vezes mesmo na primeira linha, César podia exigir muito
das suas tropas.Não resta a menor dúvida que esta atitude lhe valeu a simpatia da plebe
urbana, que também ganhou a sua confiança. Yann Le Bohec, na sua obra dedicada
Cèsar chef de guerre: Cèsar stratège et tacticien (Lanrai, 2001), sugeriu, que o
relacionamento entre o general e os soldados no exército de César teria sido mais
próximo dos que actualmente existem no seio do Tsahal, em Israel, ou do que
aconteceu, por exemplo, nos exércitos britânico e francês do século XX. De facto, é
verdade que a evolução do recrutamento desenvolveu um sentimento crescente de
pertença e de solidariedade no seio das legiões, o que César encorajou na Gália e de que
se aproveitou ao enfrentar os Pompeienses.
Mas nem todos os imperatores do último século da República revelaram a mesma
levitas. A este respeito, Lúcio Licínio Lúculo representa um «contra-modelo», ao
manifestar o mesmo tipo de gravitas em todas as circunstâncias: com base em Plutarco
(Vida de Lúculo, 36.16-17), ele terá até suscitado a hostilidade das suas tropas, devido
ao distanciamento que revelou para com elas durante as suas campanhas contra
Mitridates VI Eupator no Oriente, entre 74 e 68 a. C. No entanto, Lúculo comandava 5
legiões e cerca de 2 000 cavaleiros num teatro de operações muito longe de Itália, e que
se estendia ao longo de 1 200 km de leste para oeste. Pelo contrário, na Gália Júlio
César nunca se afastou mais de 800 km da província da Transalpina e chefiou as suas
legiões, em número de 4 a 12. Além disso, estas viram-se acompanhadas por
contingentes de cavalaria duas vezes maiores do que os de Lúculo, aos quais cabe
adicionar os auxiliares germanos e gauleses. Consequentemente, os soldados de Lúculo
estavam sujeitos a uma prova bem mais dura que os de César.

Quanto a Crasso, exemplifica um comandante-chefe a quem faltou mérito em termos


de logística, treino e de informações, ainda que as suas competências tenham sido
recentemente reavaliadas por Giusto Traina401. Plutarco (Vida de Crasso, 17) critica-o
por haver negligenciado o cômputo, a passagem em revista e o treino das suas tropas
quando estas se encontravam aquarteladas na Síria, durante o Inverno de 54-53 a. C.
Também não terá ligado aos conselhos do rei da Arménia, Artavasdes, aliado de Roma,
que sugeriu que ele fosse ao encontro dos Partos passando pelo Norte, em vez de
avançar pelo deserto sírio, zona favorável para as manobras da excelente cavalaria
parta. Este desconhecimento do terreno saldou-se na pesadíssima derrota sofrida em
Carras (Carrhae), em 53 a. C.
401
Carrhes, 9 juin 53 avant J.-C.. Anatomie d’une défaite (tradução de G. Marino), Paris, 2011.

157
César, pelo contrário, preocupou-se muito com a recolha de informações sobre as
regiões gaulesas que teve de percorrer, solicitando ajuda aos povos aliados ou
interrogando prisioneiros. Ele evidenciou as suas qualidades mavórticas na sua obra
Commentarii de Bello Gallico, que contém muitos dados de grande utilidade para os
historiadores, mas é, acima de tudo, um texto propagandístico de glorificação pessoal.
Por outro lado, Pompeio gozava também de elevada reputação enquanto organizador e
administrador, o que demonstrou cabalmente no Oriente. Mas, como sublinhou C.
Meier, César conseguiu vencer adversários mais difíceis de subjugar do que os
anteriormente defrontados por Pompeio e, até, por Alexandre-o-Grande.
Efectivamente, a Guerra das Gálias não envolveu apenas um soberano inimigo que
bastasse derrotar para depois se conquistar e ocupar o seu reino: o exército romano
teve que fazer face a múltiplos poderes locais ao sabor de coligações militares
flutuantes. Certamente que se poderia objectar tais argumentos, ao afirmar que
Alexandre-o-Grande lutou igualmente contra inimigos comparáveis nas satrapias do
Império Aqueménida, e que as cisões entre os seus antagonistas ajudaram César nos
seus propósitos. Os detentores do imperium podiam, assim, destacar-se por uma maior
ou menor mestria da estratégia e das tácticas, se entendermos a primeira como a arte
de ganhar as guerras e a segundas como a arte de ganhar batalhas.

III.4.1. O imperator e os seus oficiais

O ascendente dos comandantes-chefes sobre os soldados também assentava em bases


institucionais e jurídicas. No século I a. C., certos generais não eram mais simples
magistrados ou promagistrados: foram-lhes conferidos poderes excepcionais no quadro
de uma lei votada pelos comícios após as deliberações do Senado. Assim, Pompeio
beneficiou em vários momentos destas disposições. Em 67 a. C., o tribuno da plebe
Aulo Gabínio propôs confiar a guerra contra os piratas ao detentor de um imperium
com a duração de três anos, operando em todas as costas mediterrânicas e estendendo-
se até 50 milhas no interior da terra firme (75 km), compreendendo portanto a própria
Urbs. Ademais, o imperator teria ao seu dispor cerca de 200 navios, 120 000 homens
de infantaria e 50 000 de cavalaria; receberia igualmente o direito de nomear quinze
legados entre os antigos pretores, com uma soma de 30 000 denários que, se
necessário, poderia completar ao retirar mais numerário do aerarium. Todos
perceberam que este comando extraordinário se destinava a Pompeio. Em 66, o tribuno
da plebe Caio Manílio (Caius Manilius) propôs que se acrescentassem, sem limites de

158
duração, as províncias da Ásia-Cilícia e da Bitínia-Ponto aos territórios sobre os quais
já se exercia o imperium de Pompeio, para que este pudesse enfrentar Mitridates IV,
substituindo assim Lúculo.
Pela primeira vez que se saiba, os legados de um imperator - cujo número chegou por
fim a 23 – foram designados por ele e não pelo Senado. Cada um dos legados via-se
adstrito a um sector geográfico concreto em missão de vigilância, enquanto Pompeio
marchou rumo aos principais teatros de operações. É curioso verificar que alguns
legados não aceitaram de bom grado ficarem subordinados a Pompeio: veja-se, por
exemplo, o caso de Quinto Cecílio Metelo Crético (Quintus Caecilius Metellus Creticus),
que se recusou a obedecer à ordem de se levantar o cerco a Hierapitna, em Creta
(Plutarco, Vida de Pompeio, 29). Uma tal concentração de poderes de comando nas
mãos de um só homem ainda não se tornara corrente nos hábitos políticos de então.
Em 59 a. C., a lex Vatinia atribuiu a Júlio César o direito de nomear os legados, com
vista às acções bélicas que ele iria conduzir na sua província.
Em virtude dos acordos celebrados em Luca com César e Crasso em 56 a. C., Pompeio
obteve a governação das províncias de Hispânia. No entanto, o último permaneceu na
Urbs, fora do pomerium, para conservar o seu imperium, e exerceu o comando sobre as
guarnições ibéricas por meio de legados, mesmo quando se tornou cônsul único em 52
a. C. Em certa medida, este modus operandi prefigurava o comando por Augusto das
tropas das suas províncias através de legados (Plutarco, Vida de Pompeio, 52-54).
Os legados também participavam nas decisões junto do comandante-chefe: tinham
lugar nos conselhos de guerra (consilia) convocados pelo último. Mas não eram os
únicos. Com efeito, muito se discutiu sobre a eventual admissão dos centuriões nestes
casos. Estariam eles presentes? Aparentemente, nos três derradeiros séculos da
República, atesta-se a presença de centuriões, ainda que apenas captemos os exemplos
cesarianos. Apesar de tudo, uma coisa se afigura garantida: no último século antes da
nossa era, definiram-se as etapas da carreira de centurião numa série de graus
hierarquizados. De facto, até ao século II a. C., de um ano para outro, os centuriões
reconvocados não eram reintegrados no último posto (ordo) que haviam ocupado antes
da sua desmobilização, mas no grau mais baixo da hierarquia. Os protestos de antigos
primipilos chamados novamente às fileiras por ficarem num posto inferior, aquando do
desencadear da guerra contra Perseu da Macedónia em 171 a. C. (episódio conhecido
através do referido discurso de Espúrio Ligustino) revelam que tal prática era cada vez
mais mal aceite neste momento histórico. A partir do século I antes da nossa era, como
dissemos, estabeleceu-se uma verdadeira carreira contínua para os centuriões, que iam
progredindo, transitando de uma coorte para outra, até atingirem o primipilato 402.
402
J. Harmand, L’armée et le soldat à Rome de 107 a 50 avant nôtre ère, p.332; C. Nicolet, Les structures de l’Italie
romaine, Paris, 1991, p. 318.

159
Todos os centuriões se distinguiam visualmente dos soldados ao cingir um elmo cujo
penacho, a crista transversa, ia de uma orelha à outra, e estarem providos de um cepo
de vinha, a vitis, símbolo da sua autoridade e dos seus poderes disciplinares 403. Na sua
maioria, consistiam em soldados saídos directamente das fileiras, provenientes do
campesinato italiano. Alguns, todavia, pertenciam a famílias de notáveis das cidades da
península; mas os casos de centuriões de ordem equestre, como Públio Valério Flaco
(Publius Valerius Flaccus), citado por César (B. Civ. 3.53.1) parecem ter representado
uma excepção durante os últimos cem anos da República.
Numeradas de uma a dez, obedecendo a uma ordem hierárquica decrescente, as 10
coortes de uma legião comportavam, cada uma, três manípulos chamados hastati,
principes e pilani (o mesmo que triarii), que obedeciam igualmente a uma ordem
crescente de dignidade. Um manípulo tinha duas centúrias, que se diferenciavam
hierarquicamente sob as denominações de ordo posterior e ordo prior. Quanto aos seis
centuriões de uma coorte404, eram sempre designados de acordo com uma ordem
hierárquica ascendente, da seguinte maneira: hastatus posterior, hastatus prior,
princeps posterior, princeps prior, pilus posterior, pilus prior. Numa legião, o pilus
prior da primeira coorte, também chamado primus pilus, representava, assim, o
primeiro centurião da unidade, e o hastatus posterior da décima o último, embora
desconheçamos em larga medida como eram as regras de promoção 405 de uma coorte
para outra.
Em contrapartida, ao acederem à primeira coorte de uma legião, os centuriões
recebiam o título de primi ordines, um soldo superior e, sem dúvida também, o direito
de participarem no consilium com os oficiais superiores. De facto, a longevidade das
suas carreiras conferia-lhes uma experiência preciosa para o alto comando, cujos
titulares, em geral, tinham passado muito menos tempo nas fileiras. Alguns desses
primi ordines foram promovidos à ordem de cavaleiros romanos. Sula e César ousaram
até fazer ingressar centuriões no Senado, mas tais promoções revelaram-se raras e
pontuais

III.5. A amplitude dos despojos e o aumento dos soldos

Os diferentes modos de actuação de Lúculo e de Júlio César reflectem-se igualmente


nas modalidades de repartição dos bens arrebatados em guerra. Os soldados do
403
M. Durry, «Note sur la ténue des centurions (la crista transversa)», Revue Archéologique 27 (1928), pp. 303-308.
404
G.-C. Picard e H. Bonniec, «Du nombre et des titres des centurions légionnaires, Revue Philologique, (1937), pp. 112-
124; M. P. Speidel, «The Centurions’ Titles», Epig. Stud. 13 (1983), pp. 43-62.
405
Consulte-se o estudo já antigo, mas válido em diversos aspectos, de M. Radin, «The promotion of centurions in
Caesar’s army», Classical Journal 10 (1914-1915), pp. 300-311.

160
primeiro terão ficado particularmente exasperados ao verem as caravanas de camelos
transportarem as riquezas do Oriente rumo aos portos do Mediterrâneo, enquanto eles
próprios duvidavam de algum dia virem a lucrar com um magro quinhão que o
procônsul lhes deixasse (Plutarco, Vida de Lúculo, 34). Na altura em que rendeu
Lúculo, em 66 a. C., Pompeio admoestou-o pela sua avidez (Veleio Patérculo, História
romana, II, 32; Plutarco, Vida de Pompeio, 31). Contudo, a soma entregue por Lúculo a
cada um dos seus legionários no término das suas campanhas ascendeu a 950 denários.
Os despojos das guerras do século I a. C. atingiram proporções bem consideráveis:
Tigranes pagou 36 milhões de denários a Pompeio e 6000 aos seus oficiais, ao passo
que a pilhagem da Gália resultou em dezenas de milhão de denários para César.
Pompeio, distribuiu 1500 denários a cada um dos seus legionários, depois da sua
vitória sobre Mitridates, e César entre 5 000 e 6 000, por ocasião do seu triunfo.
Compreende-se, portanto, que o último tenha conseguido proceder a um aumento do
soldo dos legionários, como nos conta Suetónio (César, 26.3):
«No que respeita às legiões, ele duplicou os seus soldos para todo o sempre/legionibus stipendium in
perpetuum duplicavit».
A subida remuneratória406 teve lugar provavelmente no fim da Guerra das Gálias.
Com efeito, se bem que a composição das biografias de Suetónio não obedeça a uma
lógica cronológica, o conjunto dos capítulos 26 e 28 da vida de Caesar é concernente às
suas actividades na Gália, já terminada a conquista. Porém, devemos relativizar tal
aumento, já que terá sido aplicado possivelmente com base no denário reajustado em
16 asses. Na realidade, não assinalamos qualquer outra subida do montante do soldo
antes do reinado de Domiciano, por volta do ano 83 d. C. (Suetónio, Domiciano, 7):
«Ele acrescentou igualmente ao soldo das tropas um quarto pagamento de três moedas de ouro por
soldado»
Estas moedas de ouro - os aurei - valiam, cada uma, 25 denários desde o reinado de
Nero (57-68 d. C.). Sob a égide de Domiciano, ¼ do soldo anual ascendia a 75 denários,
isto é, um montante total de 300 denários por ano. Consequentemente, antes deste
aumento de 25%, um legionário romano recebia 225 denários por ano. Ora
anteriormente, em 14 d. C., os motins que deflagraram na Panónia foram descritos
assim por Tácito (Ann. 1.17.4):
«O serviço em si mesmo era penoso, sem proveito: 10 asses por dia, eis o preço em que se estimava uma
alma e um corpo […]».
Nessa ocasião, os soldados avançaram com reivindicações incluindo cifras (Tácito,
Ann. 1.17.5):
«[…] o único remédio era entrar em serviço apenas em condições fixas: um denário por dia como soldo».

Estas duas passagens dos Anais de Tácito demonstram que, por essa altura, o soldo
não era mais pago com base num denário de 10 asses, já que 10 asses por dia

406
M. P. Speidel, «Roman Army Pay Scales», JRS 82 (1992), p. 88, «Table I».

161
correspondiam a 3 600 asses por ano valendo, então, 225 denários 407, isto é, 16 asses
por um denário. De outra maneira a reivindicação de 1 denário por dia não faria
qualquer sentido. Ao aumentar o soldo dos legionários 408, Júlio César fez com que eles
certamente lucrassem com os ganhos derivados da conquista das Gálias e teve em conta
a evolução do recrutamento. Mas César procurava também que os soldados aceitassem
uma mudança de padrão monetário, o que amputava 20% dos rendimentos dos
mesmos.
Ao interpretarmos as cifras de Políbio, e tomando em consideração esta alteração do
padrão, constatamos que a subida do montante decidida por César não representaria
forçosamente o dobro do anteriormente existente. O próprio verbo duplicare pode ter o
sentido de aumentar muito, sem contudo significar «duplicar» 409. Se cotejarmos este
soldo do legionário reavaliado por César com o valor de alguns salários coetâneos que
se conhecem, mencionados por Cícero, verificamos que um um trabalhador manual
civil recebia 12 asses por dia, ou seja, mais do que um soldado.
De facto, é difícil falar numa autêntica duplicação do montante do soldo, na medida
em que certas mudanças introduzidas nas modalidades de pagamento, a partir do
tempo de Políbio, nos impedem de realizar juízos comparativos. Mário começou a
proceder a um triplo pagamento anual em vez de entregar todo o dinheiro devido aos
legionários no fim de uma campanha. A correspondência epistolar de Cícero informa-
nos, assim, que à data da sua chegada à Cilícia, em 51 antes da nossa era, as tropas que
estavam sob o seu comando já haviam recebido o montante dos seus soldos para um
período que ia até 15 de Julho do ano seguinte (Ad Atticus, 5.14.1).
Assim, o enriquecimento gerado pela crescente amplitude dos despojos permanecia
desigualmente repartido. Um tribuno militar podia receber uma parte dos despojos
cem vezes maior do que a do simples legionário. Quando findou a campanha contra os
Bituriges, em 51 a. C., Júlio César prometeu 200 sestércios a cada soldado e 1000 a
cada centurião. A concessão de poderes militares extraordinários a alguns indivíduos –
Sula, Pompeio, César e Crasso – favoreceu uma concentração muito grande dos lucros
de guerra suas mãos. Este facto possibilitava que eles também controlassem poderosas
redes clientelares (à escala de uma região italiana, de uma província ou, até, de um
reino aliado), pela sua importância em nada comparáveis às clientelas da maioria dos
outros senadores, cuja margem de manobra se encontrava cada vez mais reduzida.
Posto isto, as guerras no estrangeiro serviram para alimentar os conflitos civis
protagonizadas por estes imperatores que disputavam a conquista de um poder único.

407
D. Rathbone, «Warfare and the State», in p. Sabin, H. van Wees e M. Whitby (eds.), The Cambridge History of Greek
and Roman Warfare: Volume II, p. 159.
408
R. Alston, «Roman military pay from Caesar to Diocletian», JRS 84 (1994), pp. 113-115.
409
P. Cosme, L’armée romaine, pp. 61-62.

162
Os despojos obtidos após a batalha de Pidna permitiram suspender a percepção do
tributum em 167 a. C., os da conquista do Egipto provocaram, a partir de 29 a. C., uma
clara diminuição do valor da prata e uma forte inflação do preço da terra (Suetónio,
Augusto, 41.1; Díon Cássio, Hist. romana, 51.21, 5).

III.6. Golpes de Estado e motins: o papel político dos soldados 410

Não obstante a má reputação que os autores antigos deram aos soldados do século I
antes da nossa era, aparentemente não não foram as reivindicações dos últimos que
estiveram na origem das guerras civis, mas antes o choque das ambições dos
imperatores (que concentraram em si mesmos enormes poderes e riquezas) que
assestou o golpe de misericórdia nas instituições republicanas. Cumpre advertir
igualmente para a relativa raridade da eclosão de motins antes do fim da Segunda
Guerra Púnica. Até à morte de César, as causas dessas revoltas relacionaram-se com
razões basicamente militares, protestando os soldados contra as suas condições de
serviço, como aconteceu em Sucro, na Península Ibérica, em 206 a. C. (Lívio, Ab Urb.
cond. 28.24-29), ou na Dalmácia, em 177 a. C. (ibidem, 41.10-11).
Plutarco, nas biografias de Sula (23-25) e Lúculo (3.7 e 34-36), evocou igualmente o
caso das duas legiões recrutadas em Itália logo após a Guerra Social pelos partidários
de Mário para irem combater no Oriente Sula e Mitridates: encorajados pelo legado
Caio Flávio Fímbria (Caius Flavius Fimbria)411, os legionários (que se tornaram
conhecidos como «Fimbrianos») mataram o cônsul marianista Lúcio Valério Flaco
(Lucius Valerius Flaccus) antes de desertar e se pôr ao serviço de Sila, que os deixou
em guarnição nas cidades da Ásia, onde cometeram as piores exacções. Não tendo
Lúculo conseguido reduzi-los à obediência, Pompeio resolveu desmobilizar alguns
destes legionários, que se tornaram incontroláveis. Se bem que o caso dos
«Fimbrianos»412 não se deva utilizar para estabelecer generalizações, os autores antigos
depressa imputaram os saques e as desgraças das guerras civis à brutalidade da
soldadesca. Isto começou a manifestar-se na Urbs, a partir de 101-100 a. C., quando os
veteranos de Mário intervieram para fazer votar pela força a lei agrária Appuleia. Mas,
no imaginário colectivo, reteve-se sobretudo a data de 88 a. C., altura em que Sila
410
Sobre este tópico: W. S. Messer, «Mutiny in the Roman Army. The Republic», Classical Philology 15 (1920), pp. 158-
175; L. de Blois, «Army and society in the late Republic: Professionalism and the role of the militar middle cadre», in G.
Alföldy, B. Dobson e W. Eck (eds.), Kaiser, Heer und Gesellschaft in der Römischen Kaiserzeit, Estugarda, 2000, pp. 11-
31,
411
Vertente amplamente dissecada por L. de Blois: The Roman army and politics in the first century B.C., Amesterdão,
1987; IDEM, «Army and General in the Late Roman Republic», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army,
pp. 172-173.
412
Veja-se, a este respeito, C. Wolff, «Les légions de Fimbria», Latomus 72 (2013), pp. 338-349.

163
marchou sobre Roma e franqueou o pomerium, à cabeça de seis legiões mobilizadas
contra Mitridates, das quais se pretendia retirar-lhe o comando em proveito de Mário.
Conquanto existissem laços cada vez mais fortes a unir os exércitos aos seus chefes, os
generais que tentaram apropriar-se do poder pela força tiveram sempre que se
justificar diante dos seus soldados. Em vez de corresponderem a verdadeiros exércitos
«privados», como não há muito vários estudiosos sustentaram irreflectidamente, os
legionários continuaram a ser cidadãos atentos aos argumentos defendidos pelo
magistrado ou promagistrado que eles tinham contribuído para eleger. Como
testemunhos, dispomos dos numerosos discursos que lhes foram dirigidos por Sula,
César, Octávio e Marco António, nos momentos em que cada um deles defrontou o
partido adverso. E certo que é possível rebater tal facto alegando que estes apelos ao
sentido cívico dos soldados dissimulariam motivações bem menos nobres; no entanto, é
curioso constatar que o mesmo ainda era invocado. Assim, Octávio teve o cuidado de
justificar a sua última contenda contra Marco António, ao declarar guerra (de acordo
com os ritos tradicionais) à única rainha do Egipto, Cleópatra VII, em nome da defesa
de Itália.
Porém, a partir da segunda metade do século I a. C. esboçou-se uma inflexão: com
dois anos de intervalo, Júlio César viu-se confrontado com dois graves motins: o
primeiro em Placentia (actual Piacenza), no fim de 49 a. C., antes da travessia do
Adriático, e o segundo na própria Roma, no Campo de Marte, no fim de 47 a. C. 413, na
véspera do embarque das tropas para Africa. Estas atitudes revelam as reticências do
seu exército em prosseguir com uma guerra civil extenuante, em que não se podia
ganhar quaisquer proventos, na falta de despojos.
A seguir, ao longo de todo o período triunviral, as sedições multiplicaram-se, ao ponto
de incitar, esporadicamente, o alto comando a infligir a dizimação (decimatio) entre os
soldados descontentes (Apiano, Guerras civis, 3.43). Os legionários que se insurgiram
em 47 a. C. não aceitaram ser tratados como quirites (cidadãos) pelo seu chefe,
reivindicando o título de soldados (Suetónio, Caesar, 70).
O exército converteu-se numa força política bem ciente dos seus interesses e disposta
a defendê-los contra os civis de cada facção. Em várias ocasiões depois do assassinato
de César, os seus antigos soldados e veteranos impuseram, assim, espontaneamente aos
seus herdeiros a vontade de que se reconciliassem: foi o que sucedeu no fim do assédio
de Perusia e defronte de Brindisium, em 40 a. C414. A derrota de Marco António colocou
Octávio à cabeça de umas sessenta legiões à espera de receberem terras e dinheiro.

413
S. G. Chrisanthos, «Caesar and the mutiny of 47 BC», JRS 91 (2001), pp. 63-75.
414
Para uma rigorosa análise sobre o papel político do exército no período entre a morte de César e o Segundo
Triunvirato, consulte-se H. Botermann, Die Soldaten und die römische Politik in der Zeit von Caesars Tod bis zur
Begründung der Zweiten Triumvirats, Munique, 1968.

164
Ao reportar-se ao motim no Campo de Marte, Apiano (Guerras civis, 2.13, 92-93)
escreveu que Júlio César mandou dispor «uma legião de soldados que António tinha
previsto para a guarda da Roma, à volta da sua casa e nas portas da Cidade, por temer
as pilhagens». O autor alexandrino referiu-se ainda (Guerras civis, 2.17, 118-119) ao
«exército que Lépido comandou na Urbs», na altura do assassinato de César,
precisando que se compunha por uma só legião acantonada na ilha tiberina, e que o
futuro triúnviro se apressou a transferi-lo para o Campo de Marte, «a fim de ter mais
facilmente sob controlo, para executar as ordens de António». Posto isto, Apiano sugere
que, desde meados do século I a. C., a manutenção da ordem numa cidade com a
envergadura de Roma requeria a presença de tropas. Estas vaticinavam, em certa
medida, a guarnição que Augusto iria estabelecer progressivamente na Urbs, que
desempenharia um papel político muitas vezes determinante.

III.7. Equipamento militar e tácticas. A ordem de batalha

Quais foram as incidências das mutações do recrutamento no equipamento dos


soldados? Diversas fontes arqueológicas e iconográficas elucidam-nos quanto à
evolução do armamento. O altar de Domício Aenobarbo (actualmente no Museu do
Louvre) deve o seu nome a quem o encomendou, Cnaeus Domitius Ahenobarbus,
cônsul em 122 a. C.; o monumento foi concebido pelo arquitecto Hermodoros de
Salamina, situando-se originalmente no templo de Marte (o deus aparece representado
com o traje de oficial), no Campo de Marte, o baixo-relevo do monumento evoca um
census: o equipamento dos militares figurados na cena (um legionário cingindo um
elmo do tipo «Montefortino» e os outros três do género «Etrusco-Coríntio», todos
exibindo grandes penachos de pêlo de cavalo fixados num orifício no topo dos elmos; a
protegerem o corpo, envergam cotas de malha 415 e estão munidos de escudos
rectangulares, oblongos, com as extremidades arredondadas) patenteia uma certa
evolução; podemos comparar as esculturas bidimensionais do altar de D. Aenobarbo
com a estátua chamada «Guerreiro de Vauchères»416 (o local onde foi descoberta, no

415
Para reproduções fotográficas do relevo (actualmente no Louvre) e a sua descrição, vejam-se, entre outros: P.
Connolly, The Roman Army, Londres, 1975, pp. 34-35; L. Keppie, The Making of the Roman Army, p. 84, est. 3; M. C.
Bishop a J. C. N. Coulston, Roman Military Equipment, p. 48, figs. 1-6; R. D’Amato e G. Sumner, Arms and Armour of
the Imperial Roman Soldier: From Marius to Commodus, Londres, 2009, fig. 14, p. 27. Nesta composição escultórica
bidimensional representou-se também um oficial – que usa uma pesada túnica por baixo de uma couraça, com dois
saiotes sobrepostos, feitos de pregas (pteryges). Possui ainda grevas e ostenta um casco do tipo etrusco-coríntio, tendo
um cinturão, preso à frente, com pontas entrelaçadas do outro lado, símbolo do seu elevado estatuto.
416
Provavelmente, esta escultura de vulto redondo retrata um aristocrata gaulês. Se nos cingirmos ao equipamento de
origem romana que exibe, é de supor que se trata de um oficial de tropas auxiliares pertencente ao exército de César: cf.
A. Tondeur e S. Lemoine, «Les auxilia gallo-romains sous le Haut-Empire», Champs de Bataille, nº 33 (avril-mai 2010),
p. 87 (fotografia).

165
actual département dos Alpes da Alta Provença), que deve remontar a finais do século I
a. C.
Importa cotejar estas representações com algumas descobertas de armas autênticas,
como o escudo de madeira (com 128 cm de comprimento por 63 de largura) achado em
Kasr el Harit, no Faium 417 (Egipto), ou as compridas espadas exumadas em Delos, no
Norte de África e no Sul de França. As armas encontradas no sítio onde outrora se
situava Alésia418 são particularmente numerosas, aproximadamente seiscentas, mas a
sua identificação levanta problemas: de facto, não é fácil distinguir neste conjunto as
armas romanas das gaulesas419. Neste ponto, ressalvemos que o armamento de uns e
outros na Guerra das Gálias parece ter-se caracterizado pela existência de semelhanças
muito mais fortes do que anteriormente se supusera420.
Desde finais do século II a. C., registou-se uma tendência para a diminuição dos
custos de produção de elmos e para a sua estandardização, cuja concepção se viu
simplificada. O tradicional modelo cónico, feito em ferro e provido de um botão no
topo, chamado «Montefortino» foi substituído por outro, de calote lisa. No último, há
dois tipos - denominados de também de acordo com os sítios em que se acharam pela
primeira vez -, o casco Mannheim, mais pesado, e o Coolus, de qualidade inferior421, de
factura medíocre: o primeiro equipou talvez os legionários, e o outro, os auxiliares. No
entanto, os anteriores elmos cónicos (com um orifício no cimo para se inserir um
penacho) continuaram a ser utilizados, provavelmente pelos oficiais.

417
M. Bishop e J. Coulston, Roman Military Equipment, pp. 58-59, fig. 28 (1 a, b, c e 2); R. d’Amato e G. Sumner, Arms
and Armour of the Imperial Roman Soldier, pp. 25-26, fig. 13.
418
A localização exacta da Alésia gaulesa fez correr rios de tinta e ainda continua, pontualmente, a suscitar discussões
entre arqueólogos e historiadores franceses. Em meados do século XIX, ficou oficialmente estabelecido que se tratava do
Mont-Auxois, junto da localidade de Alise Sainte-Reine, no Borgonha (Côte d’Or). O principal responsável por esta
atribuição foi Napoleão III, que promoveu entusiasticamente escavações nessa área (que até escreveu uma biografia de
Júlio César), onde se exumaram muitas peças de equipamento militar. Mas não tardou a que diversas vozes se
insurgissem contra o que consideraram ser «a impostura de Alésia», e propuseram outros sítios mais conformes ao
relato cesariano contido nos Commentarii de Bello Gallico. A maior objecção quese colocou relativamente ao Mont-
Auxois foi de ordem topográfica, já que o local parecia demasiado pequeno e não coincidente com a descrição feita por
Júlio Cesar. Com maior ou menor solidez argumentativa, avançaram-se com perto de umas trinta atribuições
alternativas, tendo por base derivações toponímicas (Alés, Alaise, Aloise, Alièze). Esta abundância de nomes idênticos
deve-se ao facto de que, a nível etimológico, o termo «alesia» se reportar genetricamente a uma falésia (falaise). Nos
últimos anos, certos arquéologos tenderam a localizar Alésia na região do Jura (Franche-Comté), mais especificamente
no oppidum de Chaux-des-Crotenay. Contudo, sobre esta matéria, ainda não se gerou consenso, embora a maioria dos
estudiosos aceite a identificação com o Mont-Auxois e Alise Sainte-Reine. Isto porque, além de se ter descoberto uma
quantidade não negligenciável de artefactos bélicos na zona, cabe não interpretar literalmente a visão transmitida por
César, que na sua narrativa exagerou as dimensões das obras do assédio romano em Alésia: com efeito tais defesas não
eram tão extensas ou completas como ele afirmou. A este respeito, consulte-se K. Gilliver, Caesar’s Gallic Wars 58-50
BC, Oxford, 2002, p. 61.
419
M. Feugère, Les armes des Romains de la Repúblique à l’Antiquité Tardive, p. 81; IDEM, «Le légionaire de Jules
César», in Vercingétorix et Alésia, catálogo de exposição, Saint-Germain-en-Laye, 1994, pp. 187-188.
420
S. Sievers, «Les armes de Alésia», in Vercingétorix et Alésia, pp. 270-287; M. Feugère, «L’équipement militaire
d’époque républicaine en Gaule», JRMES 5 (1994), p. 17 (o autor alerta para a dificuldade da distinção entre as armas
célticas ou germânicas e as romanas, «souvent délicate, voire impossible»).
421
Em França, descobriu-se um considerável número de elmos dos tipos Mannheim e Coolus (ou mistos): na região de
Aisne (Variscourt, Lusigny, na zona do Haute-Garonne (Vieille-Toulouse), no Alto-Marne (Breuvannes), em Marne,
Vadenay, no Ródano (Belleville, St.Foy-lès-Lyon, etc. Para um inventário destas peças, bem como de outros elementos
do equipamento militar romano, cf.M. Feugère, «L’équipement militaire d’époque républicaine en Gaule», pp. 16-19.
Veja-se também R. Cowan, Roman Legionary 58 BC-AD 69, Oxford, 2003, p. 41.No começo do periodo augustano, ou
mesmo ainda durante a conquista cesariana da Gália, as tropas romanas passaram a utilizar outros dois géneros de
elmos, denominados «Gálicos Imperiais», correspondentes aos tipos «Port» e «Agen», produzidos em ferro.

166
No tempo de Mário, os legionários ainda protegeriam o peito com uma placa metálica
quadrangular que só cobria parte do busto, ao passo que os auxiliares adoptariam
usualmente uma lorica squamata, couraça composta por fiadas de escamas metálicas
cozidas umas às outras e sobrepostas a um tecido.
Porém, a partir do século I a. C., muitos legionários começaram a envergar cotas de
malha de concepção originariamente gaulesa: esta protecção, formada por uns 30 000
anéis de ferro, medindo 3 a 9 mm de diâmetro e 1 a 2 mm de espessura, esta lorica
hamata oferecia uma melhor defesa face aos golpes de espada, permitindo ao mesmo
tempo uma razoável liberdade de movimentos ao seu portador, graças às filas de anéis
cerradas mas, ainda assim, flexíveis. Mas a lorica hamata tinha desvantagens: o tempo
de fabrico (estimado numas duzentas horas) tornava-a dispendiosa e o seu peso (9-12
kg, contra 6-8 para a lorica squamata) podia representar um estorvo. Identificaram-se
cotas de malha no dito «Guerreiro de Vachères» e no baixo-relevo do altar de D.
Aenobarbo. No último, o oficial que simboliza o deus Marte exibe uma couraça
chamada «musculada», por reproduzir a musculatura do tórax.
Quanto aos pila, ainda hoje é frequente vermos escrito em vários livros 422 e artigos,
que no tempo de Mário, eles eram ligados à haste de madeira por dois cravos,
revelando-se, assim, do tipo com espigão, similares aos pesados dardos descobertos em
Numância. Em Alésia, identificou-se um objecto bastante deteriorado que, em
princípio, segundo alguns, teria pertencido a tal género. Segundo as fontes literárias
antigas, Mário teria entendido que a longa haste de ferro característica desta espécie de
pilum nem sempre era flexível no momento em que chocava contra o alvo, e que o
inimigo lograva reutilizá-lo contra os Romanos: consequentemente, ele resolveu
remover um dos cravos, mandando colocar uma cavilha de madeira que se estilhaçava
aquando do impacto. Mais tarde, Júlio César aperfeiçoaria este sistema, ao deixar o
metal da ponta da lança por temperar, o que tornaria o projéctil inutilizável pelo
antagonista, ficando cravado no seu escudo sem lograr tirá-lo.
Na realidade, isto corresponde um dos mitos mais correntemente associados ao
pilum: que fora concebido para que a sua ponta de ferro se dobrasse ao chocar contra
os escudos do inimigo, assim impedindo a sua reutilização, por um lado, e
embaraçando as defesas dos soldados adversos. A verdade é que nenhum texto clássico
diz tal coisa423. Plutarco (Vida de Mário, 25) conta como se tratando de uma novidade o
facto de Mário ordenar, antes da luta contra os Teutões (102 a. C.), que se substituísse
um dos cravos do ponto de união entre o cabo de madeira da haste e comprida ponta de
ferro do pilum, para que, com o impacto, a espiga de madeira se partisse, ficando

422
Por exemplo, R. D’Amato e G. Sumner, Arms and Armour of the Imperial Roman Soldier, p. 6.
423
P. Connolly, «The pilum from Marius to Nero: A reconsideration of its development and function», Exercitus 3.5
(2005), pp. 103-112.

167
presas as duas partes constitutivas do pilum por um único rebite; assim, a componente
metálica, deixou de perfurar um escudo, manter-se-ia agarrada ao mesmo, ao passo
que a haste de madeira se arrastaria pelo solo, ao rodar sobre um só cravo de ferro. A
arma ficaria, desta maneira, inutilizável, mas só momentaneamente; depois da batalha,
nas oficinas legionárias, seria fácil substituir o rebite de madeira partido e restituir a
função original do pilum, isto se a «vareta» metálica não se tivesse dobrado.
Bem diferente era buscar que o próprio metal se dobrasse, o que Plutarco nunca
referiu. Por outro lado, a medida de Mário foi tão peculiar e inovadora que mereceu
uma menção relativamente detalhada, o que parece indicar que, antes dele, o pilum
geralmente não se partiria da maneira que acima descrevemos. Com efeito, o que
Políbio nos conta, reportando-se a finais do século III ou à primeira metade do século I
a. C., é precisamente o contrário: os Romanos tinham muitas precauções para evitar
que as duas partes do pilum nunca se deprendessem:
«A sua inserção e o seu uso ficam tão assegurados pelo facto de estar atado até ao meio da hasta e fixado
por uma tal quantidade de cravos que, em combate, antes que ceda a juntura e se rompa o ferro, embora
este tenha, na sua base, por onde se implanta na madeira, uma grossura de dedo e meio; tal é o cuidado
que os Romanos mostram nesta inserção» (Hist. 6.23.11).

O mesmo afirma Vegécio (Epitoma de rei militaris, 1.20), que, apesar de haver escrito
já num período muito tardio, consultou por vezes fontes bastante antigas. Interpreta-se
amiúde erradamente uma passagem de Políbio (Hist. 6.22.4), onde, ao aludir ao dardo
ligeiro empregue pelos velites (e não o pilum), diz efectivamente que «…esta ponta é
tão afilada e aguçada que, ao primeiro choque, se torce, e o inimigo não pode lançá-la;
se não fosse isto, o dardo serviria os dois exércitos». Que a costume de recuperar
dardos arrojados era habitual queda demonstrado pelas fontes (Lívio, Ab Urb. cond.
10.29.6). A este respeito, lembremos o trecho de Lívio (ibidem, 22.38.4) em que se
evoca o juramento proferido pelos legionários imeditamente antes de se ferir a batalha
de Canas: «… comprometeram-se entre si, sob juramento … a não fugir, fosse por se
gerar pânico ou por medo, nem a abandonar as fileiras, excepto para recolher ou
resgatar armas arrojadiças [tela], ou para ferir um inimigo ou socorrer um camarada».
A outra fonte habitualmente citada para o «pilum dobrado», Júlio César (B. Gall.
1.24) tão pouco diz que os ferros se dobrassem, nem sequer décadas após a suposta
reforma de Mário, por volta de 50 a. C.: na sua narração, os pila atravessam vários
escudos gauleses ao mesmo tempo, fixando-os entre si. Mas para isto, era essencial que
o ferro não se torcesse com o impacto, mas que penetrasse com «limpeza» vários
escudos. Se a parte metálica da haste do pilum se dobrasse, cravando-se apenas no
escudo, perderia a sua função primordial, perfeitamente documentada, a de trespassar
um escudo e ferir o corpo que o mesmo deveria proteger. É também incerto que César
mandasse que a ponta metálica do pilum se produzisse em ferro maleável, por

168
temperar, a fim de que mais facilmente se dobrasse. Como bem salientou L. Keppie 424,
trata-se de uma inferência que se transformou em dado adquirido, aceite e exposta em
muitas obras, mas não surge explicitamente citada nas fontes antigas.
Por outro lado, a maior parte das armas romanas, incluindo as espadas, era de ferro
maleável, sem carburação intencional425, o que fazia com que as que tivessem pior
qualidade de fabrico se torcessem com certa facilidade, não por tal se pretender, mas
acidentalmente. Além disso, os pila republicanos romanos que foram descobertos,
datando de uma fase anterior a Mário (em Numância e outros sítios arqueológicos 426),
bem como os do tempo de Sertório, em La Almonia (Valência) 427 e em «La Caridad» 428 -
todos possuem dois cravos de ferro sólido, pelo que Plutarco não interpretou mal a sua
informação - , sugerem que a reforma de Mário não se generalizou. Ainda que alguns
pila recuperados em contextos funerários ibéricos se apresentem dobrados por motivos
rituais, praticamente todos os que se encontraram em locais correspondentes a antigos
acampamentos ou a palcos de batalha costumam mostrar-se quase rectos ou, então,
algo encurvados devido à voragem temporal e à própria pressão exercida pela terra,
mas não com o género de curvatura que pudesse resultar de um impacto contra um
objecto duro.
Por fim, as reconstituições e testes da «arqueologia experimental», sobretudo os que
efectuou Marcus Junkelmann429, demonstraram que o pilum atravessa na perfeição
tábuas de madeira até 3 cm de espessura, ou 2 cm de contraplacado, sem sofrer
qualquer alteração formal. O que tornava difícil extraír um pilum, uma vez tendo
perfurado um escudo, relacionava-se com a configuração da sua ponta metálica
piramidal, mais grossa do que a haste. De facto, ao penetrar no escudo, a madeira, pelas
suas propriedades plásticas, tendia-se a ficar porosa, afigurando-se tarefa espinhosa
retirar a ponta através do mesmo orifício que havia provocado, a não ser que
eventualmente se tombasse o escudo solo e ela se arrancasse na vertical.
O pilum consistia, então, num dardo com grande poder de penetração, tendo, em
média, 2,1 m de comprimento e um alcance máximo de 30 m, mas só era
verdadeiramente eficaz a partir dos 15 m. Se o dardo fosse lançado a 5 m de distância,
trespassaria igualmente o homem que estava atrás do escudo.

424
The Making of the Roman Army, pp. 101-102, n. 19.
425
A. Williams, The metallurgy of body armour in the Ancient World», in 2nd International Conference on Hellenistic
Warfare, Valência, 2005.
426
M. Luik, Die funde aus dem Römischen Lagern um Numantia im Römisch-Germanischen Zentralmuseum; P.
Connolly, «Pilum, Gladius and Pugio in the Late Republic», in M. Feugère (ed.), L’équipement militaire et l’armement
de la République, pp. 41-57.
427
A. Ribera Lacomba, «La primera evidencia arqueológica de la destrucción de Valentia por Pompeyo», Journal of
Roman Archaeology 8 (1995), pp. 19-40; P. Connolly, «The pilum from Marius to Nero…»,, fig. 2.
428
J. Vicente, M. P. Punter e B. Ezquerra, «La catapulta tardo-republicana y outro equipamiento militar de ‘La Caridada’
(Caminreal, Teruel)», in M. Feugére 8ed.), L’équipement militaire et l’armement…, pp. 167-199.
429
Die Legionen des Augustus, Mainz, Phillip von Zabern Verlag, 1986, p. 186ss, taf. 51a. Observe-se, também, o artigo
de P. Connolly, «The pilum from Marius to Nero…», p. 106.

169
***

O armamento de um soldado pesaria 15-20 kg, afora as sarcinae (a «mochila» de


campanha). Mário, como vimos, aumentou ainda mais o seu peso, com vista a reduzir o
desenvolvimento do trem (impedimenta), isto é, dos comboios que transportavam as
tendas, as máquinas de guerra, diversos outros apetrechos, bem como grande parte dos
víveres e das forragens (Frontino, Strat. 4.1.7; Plutarco, Vida de Mário, 13). Com efeito,
atrás referimos que o legionário levava consigo todo um conjunto de utensílios quando
partia em campanha: duas estacas (que em zonas pouco arborizadas serviam para
formar a paliçada que rodeava o acampamento), uma espécie de alvião (dolabra), que
tinha uma ponte de gume horizontal (picareta) e outra vertical (que funcionava como
um machado), uma pá-enxada, um sacho para levantar os torrões de relva, uma
pequena foice, uma serra e um cesto para o transporte de entulho; rações para três dias,
pelo menos (numa rede), uma mó manual de pedra (talvez partilhada por um
contubernium, isto é, uma secção de oito homens) para moer o grão, uma marmita e
uma caçarola de bronze (patera) para o rancho, uma correia de couro, uma corrente,
uma trouxa, com o saio, as roupas de muda, o indispensável para se barbear, um estojo
de «primeiros socorros» e, por fim, uma forquilha (furca) em T, para alancar com tudo
isto, que rondaria uns 40 kg.
Antes de travar batalha, o general consultava os auspícios, e se estes fossem
desfavoráveis, podia até adiar a contenda. Em seguida, falava às tropas: nesta arenga,
lembrava-lhes o seu valor, as suas tradições militares, assim como talvez aproveitasse
para sublinhar a fraqueza ou as deficiências do inimigo e, ainda, a possibilidade do
espólio430. Neste aspecto, Júlio César, como outros bons generais, revelou-se um
psicólogo sagaz, que sabia adaptar admiravelmente os seus discursos à mentalidade dos
seus homens431.
Em combate, se, em teoria, importava agir de acordo com vários princípios ético-
morais, na prática quase todos os ardis se afiguravam válidos: os Romanos provocavam
o antagonista, ora escondendo os seus verdadeiros efectivos, ora fingindo uma retirada
ou até uma derrota. Por vezes, simulavam ataques ou outras diversões, além de
logicamente tentarem desmoralizar o adversário, fazendo-o o crer na existência de
efectivos superiores. Numa batalha, os soldados principiavam por entrechocar as suas
armas, causando grande clamor, para simultaneamente aumentarem o seu ardor

430
Para os discursos pronunciados antes de uma batalha: M. Hansen, «The Battle Exhortation in Ancient
Historiography: Fact or Fiction», Historia 42 (1993), pp. 161-180
431
Quanto ao papel de um comandante antes e durante uma batalha, veja-se A. Goldsworthy, The Roman Army at War,
pp. 131-163.

170
combativo e intimidar o adversário, enquanto arqueiros e fundibulários tentavam
romper as fileiras inimigas.
A formação habitual de combate 432 era a já referida triplex acies, isto é, em três linhas:
cada legião desdobrada apresentava, na primeira linha, quatro coortes separadas entre
si por uma distância igual à sua largura; seguiam-se outras três coortes, dispostas em
segunda linha, atrás de cada um destes intervalos; as três últimas coortes ficavam de
reserva, na terceira linha. Esta disposição permitia manobras relativamente fáceis; a
segunda linha, ao avançar, podia colocar-se ao nível da primeira, formando uma frente
contínua; alternativamente, a primeira linha podia recuar, sem ver-se obrigada a
misturar-se nas fileiras da segunda. Em certas ocasiões, os Romanos recorriam à
duplex acies, ou formação em duas linhas, e até à quadruplex acies (embora muito
raramente) baseada no mesmo princípio que a triplex acies.
Em geral, as legiões formavam o centro da ordem de batalha, colocando-se a
infantaria ligeira e a cavalaria nas alas. Quando uma legião (ou um corpo do exército)
era atacada a descoberto por uma força muito superior, sem que houvesse
acampamento onde se refugiar, adoptava a formação em orbis ou círculo: as unidades
desdobravam-se, ficando juntas em redondo, para não exporem o flanco ou a
retaguarda, como muito mais tarde aconteceria, nos quadrados de infantaria da Europa
do século XVIII.
Um prélio começava frequentemente por meio de escaramuças de infantaria ligeira
auxiliar ou de cavalaria, com o claro intento de «tactear» as posições e a determinação
do inimigo433. Logo que este ficasse à distância de uns 15-10 m (ou menos), os Romanos
arremessavam os seus dardos e atacavam-no com o gládio, antes que ele tivesse tempo
de se recompor. Pouco depois, a batalha assumia a forma de múltiplos combates
individuais, um momento em que a mestria no manuseamento do gládio, que servia
principalmente para assestar estocadas, significava um elemento muitas vezes decisivo.
Mas o escudo também exercia uma função ofensiva, estando dotado de uma
proeminência metálica na sua face exterior, que correspondia ao sítio onde a mão
esquerda do soldado ficava na face interior: este umbo, sem dúvida de origem
germânica, permitia desviar a trajectória das flechas e lanças inimigas, empregando-se
igualmente para exercer movimentos de percussão contra o adversário. Por vezes, era
preciso romper ou penetrar na formação inimiga, efectuando uma carga em cunha
(cuneus), conduzida por alguns bravos, secundados por fileiras cada vez maiores.

432
Sobre as tácticas e as formações de combate: R. Cowan, Roman Battle Tactics 109 BC- AD 313, Oxford, 2007, pp. 23-
41
433
E. Abranson, Roman Legionaries at the Time of Julius Caesar, Londres, 1979, pp. 40-41; A. Goldsworthy, The
Roman Army at War, pp. 171-247 (para uma minuciosa análise sobre a natureza das batalhas neste período); R. Cowan,
Roman Legionary 58 BC-AD 69, pp. 51-56.

171
Quando saíam vitoriosos, os Romanos, à semelhança dos Gregos, erigiam um
tropaeum/troféu (Tácito, Ann. 2.18, 22), depois de inumarem os seus homens. O troféu
consista geralmente numa espécie de «manequim» armado (uma árvore ou uma
simples vara), instalado sobre uma pilha de armas e despojos arrebatados aos vencidos.
Em circunstâncias extremas, os corpos e as cabeças dos antagonistas tombados em
combate podiam utilizar-se para «adornar» tais troféus, como aconteceu depois de as
tropas de Júlio César derrotaram as forças de Pompeio perto de Munda:
«Os escudos e os pila arrebatados dos braços do inimigo foram colocados para servirem como uma
paliçada, os corpos como uma plataforma. No topo, empaladas nas pontas de espadas estavam cabeças
humanas» (César, B. Hisp. 32).

Os efectivos envolvidos em refregas dificilmente ultrapassariam os 25 000, já que os


meios de comunicação empregues nos campos de batalha não permitiam, em absoluto,
uma adequada coordenação das manobras e evoluções englobando um maior número
de tropas. O alto comando recorria sempre a sinais visuais e sonoros. Refira-se que os
enfrentamentos entre exércitos romanos durante as guerras civis, ao utilizarem
equipamentos e meios de comunicação similares, contribuíam certamente para semear
a confusão entre os combatentes. A atestar tal facto dispomos das descrições da batalha
de Filipos, em que Cássio se suicidou ao pensar que estava tudo perdido, quando, na
realidade, Bruto até se encontrava em vantagem perante o inimigo (Plutarco, Vida de
Bruto, 41-43; Apiano, Guerras civis, 4.109-113; Díon Cássio, História romana, 47.43-
49).
Percebe-se por que razão Júlio César utilizou mensageiros durante a Guerra de África:
eles comunicavam as suas instruções escritas, a fim de o imperator melhor controlar as
suas tropas em campo de batalha. Note-se, aliás, que os «papéis» que César terá
mantido ao abrigo da água, quando teve de se deslocar a nado por ocasião da
sublevação de Alexandria, serviriam talvez para esse objectivo (Plutarco, Vida de César,
49; Suetónio, César, 64; Díon Cássio, Hist. romana, 42.40).
No entanto, as batalhas campais significavam ocorrências relativamente raras no
âmbito do fenómeno bélico. Os soldados passavam a maior parte do seu tempo em
marcha, nos seus acampamentos, em deveres de guarnição e em treino. Face ao
inimigo, em geral, os legionários não avançavam de imediato para uma peleja de
grandes dimensões em campo aberto, preferindo envolver-se em escaramuças,
reagindo a incursões inesperadas ou, então, participando em expedições punitivas, em
resposta a raides adversos. Efectivamente, as tropas romanas empreendiam manobras
e evoluções tácticas que, amiúde, não terminavam em confrontos directos, fosse porque
às vezes falhavam os objectivos a atingir, pelo facto de o inimigo conseguir evitar

172
emboscadas ou, ainda, porque o êxito de um estratagema simplesmente forçava o
adversário a capitular sem sequer porfiar.
Na realidade, os legionários romanos praticavam mais a guerra de assédio e de
desgaste do que enfrentavam o inimigo nos campos de batalha. Repare-se que até é
comum dizer-se que os Romanos ganharam as suas guerras mais com pás do que com
gládios. Qualquer pessoa que tenha lido os Commentarii de Bello Gallico de César
verificou, decerto, a importância fundamental assumida pelas operações de cerco, tanto
durante a Guerra das Gálias, como no decurso da Guerra Civil. Os soldados de César
passaram grande parte das suas campanhas a sitiarem cidadelas e fortificações, ou a
tentar imobilizar os oponentes, obrigando-os a entrincheirar-se.
Posto isto, quanto às batalhas em si mesmas, é uma ilusão acreditar num só modelo
operatório, por outras palavras, na existência de um conjunto de regras que se
aplicassem uniformemente a uma chamada «arte da guerra romana» 434. Aliás, como
poderia ser de outra forma? Os factores topográficos e climáticos jamais eram
inteiramente previsíveis, além de que os respectivos tamanhos dos exércitos em
campanha, as capacidades combativas dos soldados em ambas as forças beligerantes e
as distintas tácticas adoptadas pelos adversários (a «lista» encontra-se longe de estar
completa), tornam falaciosa a convicção de haver um «modelo» sistematicamente
empregue pelos generais romanos. No período aqui em causa, o exército romano
combateu em modalidades de «contra-guerrilha», suprimiu revoltas de escravos,
moveu perseguição a piratas e, claro, interveio activamente nas guerras civis. Os
conflitos contra inimigos estrangeiros nunca foram comparáveis e compeliram os
Romanos a lidar com desafios que exigiram defrontar diferentes modalidades de luta
por parte dos seus inimigos.
As estratégias e as tácticas utilizadas pelos adversários de Roma pautavam-se por
distintas maneiras de fazer a guerra: Jugurta na Numídia, Mitridates ou Tigranes no
Oriente, os Partos ao longo do Eufrates, as tribos célticas na Gália, os Germanos tanto
na Germânia como durante os seus movimentos migratórios através do Reno, os
Bretões, os Hispanos, para apenas mencionarmos alguns, eram povos e sociedades
diferentes que empregavam variegadas formas de combate. Isto, todavia, não quer
dizer que os generais e os soldados romanos não actuassem segundo certos princípios
gerais de confronto. Atrás aludimos às suas formações (o sistema coortal), às suas
armas e ao seu treino.
Em condições ideais, deles se esperava que se comportassem do seguinte modo, como
referimos: os legionários, defronte do inimigo, ficariam dispostos em três linhas
(embora, conforme vimos, também pudessem usar duas, ou mesmo só uma,

434
P. Cagniart, «The Late Republican Army (146-30 BC)», pp. 92-94.

173
dependendo de considerações de ordem numérica e topográfica), estando as suas alas
protegidas por contingentes de cavalaria, por obstáculos naturais ou por fortificações
construídas pelo homem. Dada a ordem para a investida, os legionários começariam a
marchar lentamente, rumo às linhas inimigas, até atingirem uma distância a partir da
qual podiam arremessar eficazmente os dardos. Era só nesta altura que eles correriam,
efectuando «descargas» ou «salvas» de pila e emitindo brados de guerra. Se o
antagonista não tivesse batido em retirada, os Romanos desembainhariam os gládios e
entrariam no corpo a corpo. Na maior parte das ocasiões, tais cargas, realizadas com
disciplina e férrea determinação, faziam esmorecer o ânimo do inimigo, e se isto
sucedesse os oponentes em debandada eram massacrados pela cavalaria e pela
infantaria romanas. Mas se o inimigo resistisse e se mantivesse firmemente no campo
de batalha, o desfecho só poderia resolver-se mediante a habilidade combativa e pela
coragem dos legionários, bem como pela liderança enérgica dos centuriões e pelo
talento do general, ao mudar as posições das coortes para os locais em que elas se
afiguravam necessárias ou no recurso às reservas no momento mais oportuno.
Basicamente é desta forma que muitos historiadores modernos continuam ainda a
descrever uma batalha, cujo tipo de cenário se encontra plasmado, efectivamente, em
alguns relatos antigos. O maior problema surgia quando uma contenda não se decidia
rapidamente, isto é, naqueles poucos minutos em que um soldado de infantaria
conseguia reunir todas as condições físicas para guerrear. Este aspecto constituiu a
questão-chave colocada por P. Sabin, a qual o autor explicou por meio do conceito de
«sporadic close combat»,435 vendo os choques produzidos pela infantaria romana
«como um afastamento natural pontuado por investidas periódicas e localizadas de
combate corpo a corpo». A interpretação preconizada por Sabin é, talvez, a melhor
tentativa explicativa quanto ao que acontecia no campo de batalha, quando as refregas
se livravam ao longo de várias horas.
Para concluir, insistamos no ponto de não haver «modelos» nas batalhas travadas
pelos Romanos. Nos primeiros seis livros dos Commentarii de Bello Gallico
(abrangendo o espaço temporal entre 58 e 52 a. C.), deparamos com as descrições de
sete batalhas campais: (1) contra os Helveti, em 58 a. C. (1.24-26); 2) contra Ariovisto,
no mesmo ano (1.51-52); 3) contra os Belgae, em 57 a. C. (2.8-11); 4) contra os Nervii e
os seus aliados, no mesmo ano (2.19-28); (5) contra as tribos germânicas dos Tencteri e
dos Usipetes, em 56 a. C. (4.7-15); 6) duas batalhas, sob o comando de Labieno, contra
os Treveri, em 53 (6.7-8); 7) contra os Parisii, em 52 (7.57-62). Em nenhuma destas
batalhas se adoptou um modelo operatório comum, todas dependeram das
circunstâncias, que foram sempre específicas. As últimas também podiam ser criadas

435
«The face of the Roman Battle», JRS 90 (2000), pp. 1-17

174
pelos próprios generais, que pretendessem impedir que o inimigo adivinhasse a sua
estratégia e as suas tácticas: Apiano refere, citando César: «…a coisa mais poderosa na
guerra é o elemento-surpresa» (B. Civ. 2.53). Esta asserção afigura-se válida para todos
os conflitos em que participaram os Romanos e, até, para todas as guerras na história
mundial.

III.8. A numeração das legiões436

Mário concorreu para reforçar o espírito de corpo dos legionários e a própria


identidade religiosa das legiões ao atribuir a cada uma delas a águia como emblema, em
104 a. C., de acordo com Plínio-o-Antigo (Nat. Hist. 10, 16). No entanto, os símbolos
animalistas até aí usados não desapareceram: com efeito, em moedas cunhadas ao
longo do século I a. C., encontram-se representações de lobos, cavalos ou javalis ao lado
da águia. O touro437, signo do zodíaco de Vénus, foi adoptado pelas legiões formadas
por César, enquanto o capricórnio, signo do zodíaco de Octávio, se exibiu nas legiões
augustanas438. Quanto ao golfinho e a Neptuno, a sua presença em fontes iconográficas
indica amiúde uma vitória naval.
Vários indícios sugerem que a numeração das legiões teve a sua origem exército
cesariano439. Quando Júlio César chegou à Gália, em 58 a. C., as legiões que estavam
acantonadas nas províncias Cisalpina e Transalpina foram numeradas: VII, VIII, IX e
X. Segundo o teor de uma inscrição, ILS 2224, uma das legiões que operava na Cilícia
ostentava, por essa altura, o número XVIII. As legiões VII, VIII e IX encontravam-se
em Aquileia, ao passo que a X se acharia possivelmente estacionada em Narbo
(Narbonne). César constituiu então duas legiões, numeradas XI e XII. Na Primavera de
57 a. C., o procônsul criou ainda outras duas legiões na Cisalpina, que receberam os
números XIII e XIV (Cícero, Sobre as Províncias consulares, 28; Para Balbo, 61). Mas,
durante o Inverno de 54-53 a. C., a legião XIV foi aniquilada pelos Eburones (César, B.
Gall. 5.37).
A partir do fim de 53 a. C., apareceram duas novas legiões, a XIV e a XV. A este
respeito, cumpre ressalvar que em 9 d.C., Augusto não reutilizou os números das

436
G. Webster, The Roman Imperial Army, 3ª edição, Londres, 1985, pp. 103-109; L. Keppie, The Making of the Roman
Army. From Republic to Empire, Londres, 2ª edição, 1998, pp. 115-125.
437
A. von Domazeswski, «Die Thierbild der Signa», Archaölogische Epigraphische Mitteilungen aus Österreich-
Ungarn, XV (1892), pp. 182-193; idem, Die Fahnen im Römischen Heere, Viena, 1885.
438
K. Kraft, «Zum Capricorn auf den Münzen des Augustus», Jahrbuch für Numismatik und Geldgeschichte XVII
(1967), pp. 17-27; E. J. Dwyer, «Augustus and the Capricorn», Röm. Mitt. LXXX (1973), pp. 59-67.
439
J. Harmand, L’armée et le soldat à Rome de 107 à 50 av. J.C., pp. 231-234.

175
legiões de Varão (Varus), que desapareceram em Teutoburgo (Alemanha), as XVII,
XVIII e XIX. Os seus sucessores o mesmo fizeram, o que tende a provar que a
numeração terá sofrido, entretanto, uma mudança de significado.
César também pediu «emprestada» a Pompeio uma legião, a I, porque esta fora
criada em 55 a. C., em virtude os poderes consulares do último. Ademais, Pompeio
tinha formado outras três, e Crasso partiu para guerrear os Partos com oito legiões, mas
das quais desconhecemos os seus números. A legião cedida a César sugere que os
números I a IV estariam, sem dúvida, reservados para as legiões criadas e comandadas
pelos cônsules. Na Primavera ou no Verão de 52 antes da nossa era, outra legião
recrutada por César recebeu o número VI, talvez por este ficar «vago» após a derrota de
Crasso em Carras, em 53 a. C. No fim do mesmo ano, uma milícia autóctone, com 22
coortes arroladas na Transalpina, com vista a defender a fronteira setentrional desta
província, formou possivelmente o núcleo inicial da V legião Alaudae.
Em 50 a. C., César enviou a Iª legião (a cedida por Pompeio) e a sua XVª para Itália,
sob o pretexto de que se destinariam a proteger as províncias orientais contra os Partos.
Em nove anos, o número de legiões colocadas sob o comando de César passou de
quatro para doze: realizavam campanhas no Verão e ficavam nos aquartelamentos de
Inverno quando as condições climatéricas já não fossem apropriadas para operações
bélicas. Procedia-se à desmobilização dos soldados que houvessem cumprido o tempo
de serviço regulamentar, bem como à leva de recrutas, obtidos principalmente na Gália
Cisalpina. Cada legião assim constituída parece ter conservado o número que era o seu,
no momento da sua criação. Após a travessia do Rubicão 440 em Janeiro de 49 a. C.,
César recrutou no espaço de alguns meses 80 000 homens, chegando a assumir o
controlo de certas unidades que se encontravam em curso de formação para Pompeio.
Desde Agosto de 49, atestam-se as legiões exibindo os números XXVIII (AE 1924, 55),
XXIX (AE 1931, 95) e XXX (ILS 2232).
Em pleno exercício dos seus poderes consulares, César, no ano 48 a. C., criou quatro
legiões suplementares, numeradas de I a IV. O seu exército passou, pois, a ser
composto por legiões provavelmente numeradas de maneira ininterrupta de I a
XXXIII. A seguir à batalha de Farsália, os cidadãos arrolados por Pompeio que estavam
nas fileiras para além do tempo normal de serviço foram incorporados no exército de
César. Todavia, não foi o número de legiões criadas por César que representou uma
verdadeira inovação. Roma, de facto, já havia mobilizado efectivos bem consideráveis
no tempo da Guerra de Aníbal e da conquista da Península Ibérica, no início do século
II a. C. Devido à lex Gabiniana de 67 a. C., Pompeio terá ficado à cabeça de vinte

440
Veja-se A. Goldsworthy, «Part II: Caesar’s Civil War 49-44 BC», in C. M. Gilliver, A. Goldsworthy e M. Whitby, Rome
at War. Caesar and his Legacy, Oxford, 2005, pp. 119-121. Para mais dados sobre a Guerra que opôs César a Pompeio
(incluindo descrições objectivas de batalhas como Farsália ou Munda, cf. ibidem, pp. 123-155.

176
legiões para combater a pirataria. No exército cesariano, destaca-se sobretudo a
tendência para a manutenção do número original. É certo que para César, tal
manutenção não se prolongaria por muito tempo depois de uma campanha. Mas certas
legiões surgem também citadas várias vezes com o mesmo número em diferentes
conflitos armados, haja em vista a célebre Vª legião Alaudae (Cícero, Ad Fam. 10.33;
Ad Att. 16.8; B. Afr. I, 5, 47, 60, 80, 84; B. Hisp. 30).
Se a preservação da numeração inicial não parece já estabelecida, não deixa de se
verificar uma tendência neste sentido, confirmada por alguns testemunhos epigráficos
(por exemplo, CIL X.4786, respeitante à VIIª legião). Cabe ver em Júlio César, como
sustentou J. Harmand, um pioneiro? Há que ter em conta a desproporção da nossa
documentação, que faculta dados sobretudo a respeito do seu exército. É possível que
os mesmos usos também estivessem em prática nas forças de Pompeio, e sempre que
uma campanha militar se prolongasse num mesmo teatro de operações, mas o facto é
que carecemos de evidências para várias destas suposições. Na inscrição CIL III 6541a,
faz-se menção a uma IIIª legião de Pompeio.
César não foi o criador do exército permanente do Alto-Império (embora haja autores
que defendam tal ideia), na medida em que as legiões que ele comandou na Gália foram
dissolvidas no fim da sua luta contra os acólitos de Pompeio. César não se afastou dos
costumes habituais ao licenciar primeiro as suas legiões mais antigas, numeradas de VI
a XIV, entre 47 e 44 a. C., e ao manter operacionais as que recrutou em 49-48. Depois
da sua vitória em Munda, César planeou uma ofensiva contra os Partos, empregando as
tropas que recrutou no começo da guerra civil: consistiam, essencialmente, nas legiões
numeradas de II a IV, visto que foram constituídas em virtude dos poderes consulares
de César em 48 a. C., numa legião chamada Martia, cujo número desconhecemos, nas
legiões XXXV (formada por antigos soldados de Pompeio, em guarnição na
Macedónia), XXVII (que ficara no Egipto em 47 a. C.), e nas XXXVI e XXXVII
(igualmente composta por tropas pertencentes ao seu rival, de guarnição na Síria). Nos
Idos de Março de 44 a. C., na altura do assassinato de César, o seu exército
compreendia 37 legiões.
O prestígio de César e das suas legiões era tal que, após os Idos de Março de 44 a. C.,
Marco António e Octávio pretenderam reconstituir as suas legiões, conservando o seu
número, o seu eventual cognome e apelando aos veteranos, que temiam não receber as
suas gratificações. Foi este fenómeno crucial que esteve na génese da atribuição de um
número permanente a cada legião, como defendeu L. Keppie. Octávio partiu, assim,
para a Campânia, a fim de persuadir mais de 3000 veterani das legiões VII e VIII a
reingressarem nas fileiras. As legiões IV e Martia também se lhe reuniram, ao passo
que a Vª Alaudae, a IIª e a XXXVª legiões estavam sob as ordens de Marco António na

177
Gália Cisalpina. Lépido, procônsul da Transalpina e da Hispânia Citerior, havia
reformado as VIª e Xª legiões. Reformar as legiões de César significava também um
meio para que cada triúnviro buscasse tornar-se um herdeiro legítimo do dictator
defunto. Assim, a numeração das novas legiões criadas veio completar a das antigas
unidades cesarianas.
O exército de Bruto e Cássio era composto maioritariamente pelas guarnições do
Oriente, que César havia estabelecido após a batalha de Farsália: tratava-se das
XXVIIª, XXXVIª, XXXVIIª e, sem dúvida, das XXXIª e XXXIIIª legiões. A seguir à
refrega de Filipos, das tropas derrotadas, 14 0000 soldados foram incorporados no
exército dos triúnviros (Apiano, Guerras civis 4.135), limitando, doravante, a onze
legiões após a desmobilização dos veteranos de César. Os que foram novamente
convocados em 44 a. C. viram-se licenciados, assim como os arrolados em 49-48 a. C., e
que já haviam cumprido o seu tempo de serviço.
Seria lógico que as onze legiões mantidas após Filipos voltassem a ser numeradas a
partir de um novo algarismo I. No entanto, a numeração cesariana foi preservada
basicamente por motivos políticos – cada triúnviro tentou perpetuar a memória das
legiões cesarianas, mesmo a seguir ao licenciamento definitivo dos derradeiros
veteranos de César. As denominações cesarianas ganharam um forte valor simbólico,
em razão do carácter muito peculiar da sua última guerra civil; cada campo em
presença reivindicava efectivamente um mesmo legado político, o que antes jamais
sucedera.
Conhecemos os números das legiões envolvidas no cerco de Perusia (actual Perúgia)
graças à descoberta de bolas de chumbo utilizadas por fundibulários, nas quais se
gravaram os primeiros441: foram elas as legiões IIIª, VIª, XIª, XIIª Victrix, VIIIª e
XIXª. Octávio completou em seguida a sua própria série numérica de legiões: além das
três legiões que trouxe de Filipos, ele dispunha de várias legiões arroladas entre 45 e 42
a. C., nomeadamente as cinco da série consular de Pansa em 43, como a IIIª Sabina, a
IIIIª Sorana e a Vª Urbana. Ao actuar desta maneira, Octávio não teve peias em
duplicar certos números já em uso no exército de Marco António, na medida em que ele
não buscava mostrar-se como um continuador do último: tal foi o caso das legiões X
Fretensis, XII Victrix ou das XVII e XVIII. Posto isto, a conjuntura após os Idos de
Março de 44 a. C. esteve na base da manutenção ou da «ressurreição» da numeração
cesariana, enquanto as fases subsequentes a Filipos e à Guerra de Perusia engendraram
a dupla numeração de certas unidades.
Não há dúvida que neste período proliferaram os títulos e os cognomes das legiões,
certamente por causa das duplicações. A Xª legião Fretensis deveu, assim, o seu

441
ILLRP 1106-1118; E. Zangemeister, Ephemeris Epigraphica, IV, 1885, pp. 52-78.

178
cognome ao Estreito da Sicília (Fretum Siculum), onde se defrontaram Octávio e Sexto
Pompeio em 38-36 a. C. No acampamento de Marco António, no contexto da guerra
pártica do triúnviro, encontravam-se as legiões III Gallica (Tácito, Hist. 3.24; Plutarco,
Vida de Marco António, 42) e a VI Ferrata, como testemunha uma moeda de Lúcio
Vero, cunhada para celebrar o bicentenário desta campanha em 166 d. C 442.
Sabemos quais eram os números e os cognomina das legiões de Marco António graças
às moedas cunhadas no fim da década de 30 a. C., destinadas aos soldados que
pelejaram na batalha de Actium: consistem, na sua maior parte, em denários de prata e
alguns aurei, nos quais se representou uma galé no anverso e uma águia legionária no
reverso, entre dois emblemas. O epíteto Antiqua para uma XIIª legião indica
provavelmente uma origem cesariana, ao passo que Classica, para uma XVIIª legião
sugere actividades bélicas navais, e a Lybica para uma XVIIIª legião uma primeira
campanha no Norte de África ou ao largo da sua linha costeira 443.
Depois de vencer as forças coligadas de Marco António e de Cleópatra na contenda
naval perto do promontório de Actium (Ácio), em 31 a. C., Octaviano (nome que
adoptou, deixando de parte Octávio, na qualidade de herdeiro e sucessor legítimo de
César) ficou à frente de cerca de sessenta legiões. Destas licenciou mais de metade,
conservando, numa primeira fase, 26 ou 27 legiões, e depois elevando-se o total a 28 444,
associando as suas unidades às que haviam servido Marco António, sem modificar a
numeração delas. Assim, muitas das legiões augustanas já estavam operacionais antes
da batalha de Actium, e até da morte de Júlio César. Algumas utilizaram, portanto, o
mesmo número e para as diferenciar foi necessário que exibissem um cognome
diferente, haja em vista as legiões III, uma das quais esteve sob as ordens de Octávio e
recebeu o epíteto de Augusta, outra que passou do exército de Lépido para o de Marco
António – que manteve o seu título de Cyrenaica - e, por fim, a chefiada por Marco
António, com o nome de Gallica.
Octaviano (intitulado Augustus pelo Senado em 27 a. C., tornando-se o primeiro
imperador de Roma) resolveu preservar as denominações do exército de César 445, de
molde a destacar-se como um reunificador. O cognome Gemina446 foi então atribuído
para identificar as novas legiões resultantes da fusão de duas unidades anteriores:
observe-se o caso da Xª legião Gemina, herdeira da Xª Equestris de 58 a. C., que
partira com Marco António após a batalha de Filipos, cujo cognomen não se conservou
442
E. H. Mattingly et al (eds.), Coins of the Roman Empire in the British Museum, vol. IV, Londres, 1940, p. 456, nº
500.
443
H. Cohen, Monnaies imperiales, I, p. 41; M. H. Crawford, Roman Republican Coinage, Cambridge, 1974, p. 529, 552.
444
A este respeito, veja-se A. K. Goldsworthy, Augusto. De Revolucionário a Imperador de Roma, Lisboa, A Esfera dos
Livros, 2016, pp. 253-255. Refira-se que em 29 a. C., existiam 120 000 veteranos estabelecidos em colónias, número que
equivaleria aos efectivos máximos de 24 legiões.
445
R. Cowan, «Augustan legionaries: Defining features of the Roman army», Ancient Warfare, Special Issue (2009), p.
35; E. G. Hardy, «Augustus and his Legionaries», CQ xvi (1920), pp. 187-194.
446
E. B. Birley, «A Note on the Title “Gemina”», JRS 18 (1928), pp. 56-60.

179
a seguir a Actium possivelmente devido a um motim, o que conduziu a incorporação de
recrutas ou de novos soldados extraídos das legiões de Octávio (Suetónio, Augusto, 24).
No conjunto das legiões imperiais, o número mais alto foi o da XXIIª, empregue por
uma legião Deiotariana (assim chamada por derivar de Deiotaro, o rei da Galácia que
enviou tropas de reforço a Pompeio e, depois, a César): numa primeira fase ao serviço
de Marco António, ela só veio a ser integrada no exército imperial no ano 25 da nossa
era, depois da anexação da Galácia por Roma.
Com o objectivo de melhor gerir os efectivos destas legiões, que adquiriram uma
relativa permanência, segundo Apiano, encetou-se a criação de funções administrativas
no seio de cada uma delas, para facilitar o processo contabilístico dos anos de
campanhas, o pagamento dos soldos ou ainda a distribuição de gratificações e de lotes
de terra (Guerras civis, 5.46). Noutra passagem, alusiva a um motim contra Marco
António em 44 a. C., o autor alexandrino faz referência à existência de verdadeiros
arquivos individuais para cada soldado, comparáveis às actuais «cadernetas» militares
(ibidem, 3.43). A redacção destes documentos implicou o desenvolvimento de uma
administração militar específica, no início talvez levada a cabo pelos assistentes dos
questores nos exércitos, e depois por soldados que tinham dado mostras das suas
competências ou que se tinham especializado em tais tarefas.

***
A Guerra Social contribuiu, mais do que as medidas implementadas por Mário, para o
abandono dos critérios censitários nos procedimentos respeitantes ao recrutamento.
Neste período atribulado, os problemas conduziram ao arrolamento de cidadãos
romanos que viviam nas províncias, bem como de peregrini. Em geral, a repartição de
parcelas de terras e de dinheiro acompanharam então o licenciamento dos soldados,
além de se conceder a cidadania romana aos peregrini desmobilizados.
Os exércitos estabeleceram, também, relações cada vez mais estreitas com os seus
comandantes, mas os primeiros só começaram a assumir autênticas iniciativas políticas
a partir do fim das guerras civis. As inovações militares que se assinalam neste
momento histórico têm sido amiúde atribuídas a Júlio César, mas isto pode não
corresponder à verdade, uma vez que dispomos de mais documentação sobre o seu
exército do que os dos seus concorrentes e rivais, facto que talvez conduza a
extrapolações erradas.

180
CAPÍTULO IV: O exército da Pax Romana (séculos I-II d. C.)

A evolução do recrutamento no último século a.C. já contribuíra para tornar o


exército romano permanente de facto, senão mesmo de direito 447. Mas este processo
faseado culminou sob o Principado de Augusto (27 a. C-14 d. C.). Até ao reinado de
Adriano (117-138), os sucessores do primeiro princeps tomaram uma série de medidas
que estruturaram ainda mais o exército do Alto-Império 448. Ele caracterizou-se por uma
hierarquia de corpos de tropas cujo recrutamento e comando reproduziam o modelo
que regia a própria sociedade romana. Este exército foi o instrumento das derradeiras
conquistas territoriais do Império e, gradualmente, ficou estacionado em guarnições
permanentes ao longo das suas fronteiras 449.
Porém, antes da análise das medidas tomadas pelos imperadores no âmbito militar,
detenhamo-nos um pouco sobre o significado da pax romana. Já nos últimos tempos
da República, Roma sentiu a necessidade de tornar aceitável, no plano teórico a génese
do próprio império, pelo que veio a recorrer mais decididamente, com tal finalidade em
mente, ao conceito de pax, que se tornou uma premissa para justificar, fosse a defesa
dos aliados (Cícero, De re publica, 3.23.35: noster autem populus sociis defendendis
terrarum iam omnium potitos est), fosse a presença de fortalezas nas províncias,
enquanto protecção de uma paz que, de outro modo, desapareceria no meio de fricções
e conflitos internos ou, então, seria suplantada por invasores externos (Cícero, Ad
Quintum fratrem, 1.1.34) e, ainda, fosse, como última consequência, a arrecadação do
tributo para manter as guarnições. Os desenvolvimentos naturais desta lógica eram
bem perigosos. Ao ver-se acusado (talvez com segundas intenções políticas, na verdade)
de negligenciar sistematicamente as normas elementares do ius gentium na Guerra das
Gálias, Júlio César replicou, legitimando essa operação com base no último e equívoco
conceito, que se assinala nos escritos de Cícero, associado à noção de domínio. Na
argumentação esgrimida por César, findas as actividades bélicas, o território gaulês
conhecia uma paz que devia entender-se como a única possível, a pax romana: os que
447
Tomando em consideração o século I da nossa era no seu conjunto, não podemos deixar de sublinhar a obra
prodigiosa realizada no tempo de Augusto; os seus sucessores, durante um longo período, vieram a aperfeiçoar e
consolidar o que já fora criado, transformando, segundo as palavras de P. Le Roux, «o exército experimental» num
«exército permanente»: cf. L’armée romaine et l’organisation des provinces ibériques d’Auguste à l’invasion de 409,
Bordéus, 1982, p. 83, 127.
448
J. Harmand, «Les Origines de l’armée impériale», Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt, II.1 (1972), pp. 132-
188.
449
V. A. Maxfield, «Pre-Flavian forts and their garrisons», Britannia 17 (1986), pp. 59-72.

181
resistiram e se opuseram às condições ditadas pela República foram pacati, ou seja,
«pacificados», «dominados» por uma força que, na paz imposta por seu intermédio,
encontrou a própria justificação.
Mas foi Augusto quem deu o passo definitivo. Na sua concepção cósmica, para a paz
ser efectiva tinha de se revelar absoluta450; a acepção do termo a que Augusto se refere é
completamente particular. Numa implicação óbvia do imperialismo romano, em que se
encarava cada realidade como res romana ou res nullius451, a paz justa só podia
corresponder à pax romana, conforme às regras ditadas por Roma ao mundo 452. Um
pressuposto que encontra, aliás, a sua fonte na orgulhosa justificativa de Virgílio sobre
o império de Roma: tu regere imperio populus, Romane, memento/ […] pacisque
imponere morem/parcere subiectis et debellare superbus (Eneida, VI, 851ss.).
Se, como afirmou W. Haase 453, é verdade que, para Virgílio, nos superbi se
reconheçam os agressores de todo o o género e nos subiecti aqueles que, pelo contrário,
evitavam colocar-se em posição antagónica, nos confrontos travados por Roma, não
deixa também de ser verdade que a perspectiva se pode simplesmente inverter. Assim,
percebe-se que o poder romano considerava como agressores, pelo menos
potencialmente, todos os que não lhes fossem subiecti.Neste momento culminante do
imperialismo romano, a paz era vista indubitavelmente como fruto exclusivo de uma
guerra que, mais tarde, seria sarcasticamente recordada por Tácito (An.1.10, 4).
A autoridade de Augusto, ao medir forças com a aristocracia, adveio principalmente
do facto de ele haver imposto garantias de estabilidade aos impulsos «revolucionários»
das camadas inferiores da sociedade, das tropas e de uma parte, pelo menos, do mundo
provincial. De acordo com as palavras de Tácito, foi somente por isso que, como
discordantes patriae remedium (An. 1.9), omnem potentiam ad unum conferri pacis
interfuit (Hist, 1.11), se resignou a confiar nele e nos seus sucessores o comando
supremo das forças armadas de Roma. Tal comando era garantido pela concessão

450
Em 11 de Janeiro de 29 a. C., as portas do templo de Jano Quirino (Ianus Quirinus) foram solenemente fechadas e
celebrou-se o vetusto rito do Augurium Salutis. As duas cerimónias requeriam uma condição: que houvesse paz em todo
o império romano. As portas do referido templo permaneceram encerradas por mais de dois anos, e o herdeiro de Júlio
César teve o cuidado de que ninguém compreendesse mal todo este simbolismo. Pela primeira vez em séculos, o mundo
romano encontrava-se oficialmente numa situação de paz universal. O que se afigura verdadeiramente significativo é
que a tradição exigia, então, que os soldados-cidadãos fossem dispensados. Mas, embora se tivesse desmobilizado um
elevado número de legiões, perto de metade delas manteve-se em serviço (em breve as legiões ascenderiam a 28),
vendo-se distribuídas per provincias: Suetónio, Aug. 17.3; 49.1; Díon Cássio, Hist. rom. 51, 4, 1-5, 1; Orósio, Advers. Pag.
6.19.14; G. Wesch-Klein, «Alen und Legionen in der Frühzeit des Prinzipats», in Die römische Okkupation nördlich der
Alpen zur Zeit des Augustus. Kolloquium Bergkamen 1989, Münster, 1991, pp. 205-216. Ao mandar encerrar
simultaneamente as portas de Jano Quirino e posicionar as legiões no mundo provincial, o Imperator Caesar admitia
publicamente que iria conservar, contra a tradição, um exército profissional e permanente, mesmo em tempo de paz.
Não obstante o longo período de mudanças contínuas e profundas que afectaram o sistema militar romano, em especial
desde a Segunda Guerra Púnica, o 11 de Janeiro de 29 a.C. pode considerar-se como marcando a data do aniversário
simbólico do novo exército imperial romano, e de um novo tipo de soldado romano.
451
G. Alföldy, «The moral barrier on Rhine and Danube», in E. Birley (ed.), The Congress of Roman Frontier Studies
1949, Durham, 1992, p. 5.
452
Sobre o conceito da pax e a importância que assumiu na construção ideológica augustana, veja-se G. Brizzi, Storia di
Roma, I: Dalle origini ad Azio, Bolonha, 1997, p. 438ss.
453
«”Si vis pacem para bellum”, Zu beurteilung militärscher in der römischen Kaiserzeit», in J. Fitz (ed.), Limes. Akten
des XI. Internationalen Limeskongresses (Székesfehérvar, 30-8-6.9.1976), Budapeste, 1977, p. 742.

182
exclusiva de um imperium proconsulare, de um poder militar que, pelas suas enormes
dimensões, se definiu como maius et infinitum. Além de assegurar a Augusto o controlo
sobre todas as unidades militares do império e sobre as zonas não pacatae (em risco,
que, em teoria, necessitariam da presença de tropas legionárias), este poder estendia-se
formalmente até à capital454.

IV.1. Os criadores do exército romano imperial

IV.1.1. Os alicerces augustanos455

Ao contrário do que se fez durante a República, Octaviano decidiu conservar a frota


de guerra que Agripa havia formado para ele desde as campanhas contra Sexto
Pompeio na Sicília, em 36 a. C. Nos anos subsequentes, as operações que conduziu na
Dalmácia permitiram-lhe enriquecer esta frota de navios chamados «liburnos» por
causa do nome da região onde foram construídos: mais pequenos mas com superior
mobilidade do que os de Cleópatra e de Marco António, tiveram uma brilhante
prestação na batalha de Actium. Após esta vitória, Octaviano mandou-os para Forum
Iulii (actual Fréjus, França), talvez com o intento de empreender campanhas navais
rumo à Península Ibérica e à Britânia. Não sabemos exactamente em que data a
marinha imperial foi redisposta junto às costas italianas: em Miseno (Misenum), no
mar Tirreno, e em Ravena (Ravenna), no Adriático. No entanto, em Forum Iulii
permaneceu uma esquadra. Mas o problema mais urgente continuava a ser o dos
legionários veteranos.
Em Setembro de 31 a. C., pouco depois de Actium, Octaviano desmobilizou mais de
metade das cerca de sessenta legiões à cabeça das quais ele se achou a seguir à defecção
de uma parte do exército de Marco António. Com efeito, as finanças públicas romanas
não conseguiam suportar os custos de efectivos militares tão numerosos. Ademais, os
motins que ocorreram no período triunviral revelaram a ameaça política que as tropas
454
E. S. Gruen: «Augustus and the ideology of war and peace», in R. Winkes (ed.), The Age of Augustus. Proceedings of
an Interdisciplinary Conference held at Brown University April 30-May 2, 1982, 1985, pp. 51-72; «The imperial policy
of Augustus», in K. Raafklaub e M. Toher (eds.), Between Republic and Empire. Interpretations of Augustus and his
Principate, Berkeley/Los Angeles/ Londres, 1990, pp. 395-416.
455
K. Raaflaub, «The political significance of Augustus militar reforms», in W. S. Hanson e L. J. Keppie (eds.), Roman
Frontier Studies 1979, Oxford, 1980, pp. 1005-1026; IDEM, «Die Militärreformen des Augustus und die politische
Problematik des frühen Prinzipats», in G. Binder (org.), Saeculum Augustus, vol. I, Darmstadt, 1987, pp. 246-307; A.
Everett, Augustus: The Life of Rome’s First Emperor, Nova Iorque, 2006, capítulos I e II; N. Fields, The Roman Army
of the Principate 27 BC-AD 117, Oxford, 2009, pp. 4-5; C. Gilliver, «The Augustan Reform and the Structure of the
Imperial Army», in P. Erdkamp (ed.), A Companion to the Roman Army, pp. 183-188; A. Momigliano, «I problem delle
istituzioni military di Augusto», in Studi in occasione del bimillenario augusteo, Roma, 1938, pp. 195-215; E. Cavaignac,
«Les effectifs de l’armée d’Auguste», REL, XXX (1952), pp. 285-296. No final do reinado de Augusto, o serviço militar
no exército imperial converteu-se numa autêntica profissão e num emprego definido por um novo conjunto de
condições fixas: Suetónio, Aug. 49.2. Cf. Tácito, An. 1.17; M. A. Speidel, Heer und Herrschaft im Römischen Reich der
Hohen Kaiserzeit, Estugarda, 2009, p. 22ss. Não exageramos se dissermos que as reformas militares augustanas foram
radicais e «revolucionárias», balizando uma verdadeira mudança nos desenvolvimentos rumo a um exército
permanente, os quais já haviam começada durante o período tardo-republicano: R. E. Smith, Service in the Post-
Marian Roman Army, Manchester, 1958, pp. 70-74.

183
poderiam representar456. Prudentemente, o filho adoptivo e herdeiro de César actuou
por etapas: principiou por licenciar sem gratificações os veteranos de Marco António e
uma parte dos seus em Itália, enquanto a manutenção do resto do exército operacional
se via garantida pelas perspectivas de pilhagens e despojos no Egipto.
No entanto, durante o Inverno que precedeu esta última campanha contra o seu ex-
colega do triunvirato, ele teve de regressar à península itálica, a fim de apaziguar o
descontentamento dos soldados desmobilizados: distribuiu-lhes dinheiro e terras para
aqueles que o haviam servido em todas as suas campanhas. Depois da tomada de
Alexandria, os despojos obtidos na conquista do reino lágida forneceram a Octaviano os
recursos para financiar novamente o licenciamento de tropas, com vista a fixar o
número de legiões em 28. Os efectivos legionários mantiveram-se inalterados sob o seu
Principado até ao ano 9 d. C., altura em que diminuíram para 25, no seguimento da
perda das XVIIª, XVIIIª e XIXª legiões comandadas pelo legado da Germânia, Públio
Quintílio Varão (Varus), que foram estrondosamente derrotadas numa emboscada
montada por Armínio, no saltus Teutoburgensis (Kalkriese, Alemanha457).
Apesar de sofrerem uma redução tão drástica nos seus efectivos (20 000 homens), as
legiões continuavam a ser uma arma perigosa nas mãos daqueles que as lideravam.
Efectivamente, os procônsules das províncias com fortes guarnições podiam tentar
competir com o filho adoptivo do divino Júlio. Afinal, o procônsul da Macedónia,
Marco Licínio Crasso, neto do infortunado vencido em Carras, não reivindicara a honra
dos ricos despojos aquando do seu triunfo sobre os Bastarnos, cujo rei ele havia
assassinado com as próprias mãos? Em Julho de 27 a. C., Augusto conseguiu evitar que
o triunfador não dedicasse as armas do antagonista derrotado no templo de Júpiter
Feretrius, no Capitólio [encaixe Cowan].
Entretanto, em Janeiro do mesmo ano, efectuou-se a partilha das províncias romanas
entre o Senado e o princeps. Este aceitou, então, assumir a governação das províncias
da Gália, Hispânia e da Síria, mediante um imperium consular com a duração de dez
anos, ao passo que as restantes eram administradas por promagistrados, em
conformidade com os tradicionais princípios republicanos.
Esta repartição esteve na origem da distinção que os historiadores modernos fizeram
entre províncias «imperiais» e as «senatoriais» (também chamadas províncias do povo
456
Além disso, a primeira solução posta em prática pelo poder romano para resolver o espinhoso problema dos soldados
desmobilizados, a da distribuição de terras aos veterani, encontrou oposição nas classes superiores, que não viam com
bons olhos a entrega a militares de lotes fundiários, os quais julgavam pertencer-lhes por direito. Em 41 a. C., uma liga
de aristocratas romanos protestou contra a repartição de terrenos em solo itálico por mais de 50 000 veteranos; esta
sublevação contra o então triúnviro Octávio é conhecida pelo nome de «Guerra Civil Fluviana»; P. Cosme, Auguste,
Paris, Perrin, 2005, p. 57.
457
W. Schlüter, «The Battle of the Teutoburg Forest», in J. D. Wilson e R. J. A. Wilson (eds.), Roman Germany: Studies
in Cultural Interaction, Journal of Roman Archaeology Supplementary Series no. 32, pp. 125-159; A. Murdoch,
«Arminius’ masterstroke. The campaign of AD 9», Ancient Warfare, Special Issue (2009), pp. 52-61; do mesmo autor,
consulte-se a obra, subordinada ao mesmo tema, Rome´s Greatest Defeat. Massacre in the Teutoburg Forest, Londres,
2008; P. Wells, The Battle that Stopped Rome: Augustus, Arminius, and the Slaughter of the Legions in the Teutoburg
Forest, Londres, 2005.

184
romano). As atribuídas a Augusto albergavam as guarnições mais importantes: ao todo,
nelas haveria uma vintena de legiões, pelo menos. Nos anos subsequentes, o princeps
cedeu determinadas províncias suas ao Senado. Claro que Augusto não poderia
assegurar sozinho a governação provincial, a que cabe acrescentar o Egipto, regido por
um estatuto particular depois da sua conquista. O país nilótico foi confiado a um
membro da ordem equestre, portador do título de praefectus, a fim de prevenir a
eventualidade de um senador demasiado ambicioso não utilizar esta província tão
próspera como trampolim para ganhar o poder supremo.
Tal como Pompeio havia governado as províncias hispânicas a partir de Roma entre
54 e 49 a. C., Augusto exerceu o controlo das suas províncias e o comando das tropas
nelas estacionadas por meio de legados. Numa primeira fase, ele escolheu os últimos
entre os antigos pretores, já que ainda desconfiava dos ex-cônsules, habituados a
governar vastas províncias e a chefiar exércitos sob os seus próprios auspícios.
Gradualmente, as províncias consulares vieram a ser distribuídas aos legados
pretorianos enviados para aquelas que possuíssem só uma legião; para as que tinham
várias legiões, mandaram-se legados consulares. Neste caso, cada uma das legiões
ficava sob as ordens de um legado pretoriano. No Egipto, substituíram-se os legados
por prefeitos equestres.
O conjunto destas medidas militares e institucionais serviu para que Augusto se
mantivesse ao abrigo de atitudes hostis por parte dos procônsules que ainda
conservavam o comando de tropas - os da Ilíria (Illyricum), da Macedónia e de África.
Os dois primeiros viram-se progressivamente privados da chefia das legiões através da
criação das províncias imperiais da Panónia e da Mésia (Moesia).
Augusto também se preocupou com a sua própria segurança em Roma, que se
convertera numa cidade com aproximadamente 1 milhão de habitantes, e que havia
conhecido violentos tumultos depois da morte de Júlio César. A partir de 44 a. C.,
Octávio e Marco António tiveram uma guarda de corpo formada essencialmente por
veteranos de César e, depois, por soldados que continuaram nas fileiras a seguir à
batalha de Filipos. Isto inseria-se na tradição dos magistrados investidos do imperium
que, desde o século II a. C., eram acompanhados por tais escoltas armadas. Não tardou
a que fossem designadas como coortes pretorianas e, com este nome atravessariam a
história do Império romano até princípios do século IV d. C. Segundo uma hipótese
aventada não há muito, Augusto teria criado, desde 27-26 a. C., doze coortes de 500
homens (quingenariae) cada uma, três delas patrulhando Roma e montando guarda no
Palatino (onde residia o princeps), enquanto as demais estavam acantonadas nas
imediações da Urbs.

185
Todos estes soldados foram retirados da guarda pessoal dos triúnviros, a qual ainda
não se desmobilizara. Mais tarde, as coortes numeradas de X a XII adquiriram a
denominação de coortes urbanas, encontrando-se incumbidas de realizar tarefas
sobretudo no âmbito do policiamento. Procurando não ocasionar o antagonismo do
Senado, Augusto hesitou bastante tempo antes de nomear homens da ordem equestre
como comandantes dos pretorianos; quanto às três coortes urbanas, estiveram
primeiramente sob as ordens do prefeito da Cidade, pertencente à ordo senatorial. Com
efeito, o princeps esperou até 2 a. C. para, finalmente, nomear os primeiros dois
prefeitos do pretório – Quinto Ostório Escápula (Quintus Ostorius Scapula) e Públio
Sálvio Aper (Publius Salvius Aper) – na altura do banimento da sua filha Júlia.
Mas a benevolência dos Romanos em relação ao poder imperial supunha que os
habitantes da Urbs se sentissem, eles próprios, protegidos de duas ameaças
permanentes: a miséria e os incêndios. A luta contra os últimos representava um
verdadeiro jogo político, de que Augusto tomou plena consciência em 23 a. C., quando
um edil ambicioso, E. Rufo (Egnatius Rufus), adquiriu enorme popularidade ao
formar, com os seus próprios escravos, um corpo de bombeiros, no intento de melhor
proteger os Romanos das chamas. No ano seguinte, Augusto aumentou o número dos
escravos públicos encarregados de combater os fogos, além de adicionar outros
seiscentos que lhe pertenciam. No entanto, foi preciso que Roma fosse, uma vez mais,
pasto de chamas para que ele criasse, em 6 d. C., um corpo de sete coortes de 500
vigiles cada, especialmente adstrito ao policiamento nocturno e à prevenção de
incêndios. Os vigiles eram recrutados entre os libertos, para não parecerem uma nova
tropa de soldados a tempo inteiro, ocupando a Cidade e comandados por um prefeito
equestre. Assim, aquilo a que habitualmente se rotula de «guarnição de Roma»
resultou de uma sucessão de decisões empíricas que Augusto tomou ao longo do seu
principado.
Em 5 de Julho de 13 a. C., um dia após o seu regresso da Península Ibérica, Augusto
proferiu um discurso no Senado consagrado aos assuntos militares: anunciou a criação
oficial de um exército permanente e profissional, fixando em doze o número de anos de
serviço nas coortes pretorianas, em 16 (acrescidos de mais quatro em reserva) nas
legiões e nas coortes urbanae, e em 25 nas tropas auxiliares e da frota 458. Durante este
período, os soldados não gozavam do direito de se casarem, já que se considerava a vida
conjugal incompatível com o ofício das armas. A «proibição matrimonial» trata-se,
quiçá, do aspecto mais controverso da vida militar, tanto para os soldados na
Antiguidade, como para os historiadores hodiernos. Augusto promulgou duas leis cujo
teor parece contrastante: por um lado, a Lex Papia Poppaea incentivava a formação de
458
A. K. Goldsworthy, Augusto, pp. 353-354. Díon Cássio situou a introdução da nova regulamentação para o exército
em 13 a. C.

186
famílias e a procriação; por outro, uma lei ou decreto de que desconhecemos o nome
interditava os soldados de se casarem 459, impedindo-os, assim, de constituír uma
família legítima. Esta justaposição de medidas manifesta dois objectivos contrapostos,
relacionados com a organização da comunidade romana no tempo augustano.
No início e em meados da época republicana, o exército se alimentava das famílias e
os militares serviam apenas por um período não muito longo. O ideal do «soldado-
camponês» estava enraizado na prática e na lenda: o agricultor que abandonava a sua
casa, a família e os campos para servir a comunidade, por vezes em zonas distantes,
depois regressando de novo ao arado. No decurso do século III a. C., este fenómeno
transformou-se mais num mito do que uma realidade, sendo cada vez menos os
mancebos das áreas rurais que se alistavam e serviam no exército para, pouco depois,
tornarem a casa. Pelo contrário, eles achavam-se crescentemente ligados aos seus
generais e às recompensas que poderiam receber após as batalhas e as grandes
campanhas.
Culminando nas guerras civis entre Pompeio e Júlio César, e de Octávio contra Marco
António, os soldados passaram a representar mais uma ruptura face à comunidade
cívica do que a sua pedra angular. Perante esta situação, Augusto deu-se conta que teria
de controlar o exército, a fim de impedir que continuasse a ser uma força ameaçadora,
que, todavia, o havia guindado ao poder supremo: ele actuou a nível organizativo,
controlando pessoalmente ou através de subordinados seus de confiança, o
recrutamento, o desdobramento e os mandos de quase todas as legiões aboletadas nas
províncias460. Ora isto levou à eliminação da capacidade de outros levantarem um
exército contra o princeps.
Augusto teve igualmente que lidar com as expectativas dos soldados quanto às
recompensas que almejavam auferir graças às promessas de gratificações dos seus
comandantes, como incentivo para o serviço militar durante os conflitos intestinos dos
primeiros quinze anos do seu mandato. Depois de desmobilizar elevado número de
tropas, pagando-lhes com numerário e lotes de terra, Augusto constatou que a nova
comunidade que tinha previsto não se podia dar ao luxo, política ou financeiramente,
de continuar a aceitar o facto de os soldados a chantagearem, no intuito de obterem
avultadas, dispendiosas e imprevisíveis recompensas.
A solução de Augusto rompia com o modelo do «soldado-camponês» e estabeleceu
uma nítida separação da «família militar» da família civil, enquanto base do
recrutamento, da organização e da fidelidade do futuro exército 461. Embora escrevendo

459
C. M. Gilliver, «The Augustan Reform and the Imperial Army», p. 187, 197 (nota 3).
460
A. Lintott, The Romans in the Age of Augustus, Oxford/Malden, MA, Wiley-Blackwell, 2010, pp. 159-165.
461
R. C. Knapp. Los Olvidados de Roma. Prostitutas, forajidos, esclavos, gladiadores y gente corriente, Barcelona,
2011, cap. 6 - «Una vida en armas: los soldados», p. 254-255.

187
no século II, Artemidoro de Daldis mostra o que estava a suceder sob a égide do
primeiro imperador de Roma, na sua interpretação do sonho «empreender a carreira
de soldado»:
«Alistar-se como soldado ou servir no exército augura a morte para os que padecem de alguma espécie de
enfermidade, pois um homem que se alista muda completamente de vida. Deixa de ser um indivíduo que
toma as suas próprias decisões e entra numa nova vida, deixando para trás a anterior» ( Oneirocritica,
2.31).
Na realidade, a Lex Papia Poppaea e as reformas militares concebidas por Augusto
apontavam na mesma direcção: recriar ou criar uma unidade básica de vida e
responsabilidade, tanto na esfera civil como na militar. Este exército emergente tinha
tudo aquilo que faltava ao que Augusto conhecera na sua juventude. Criar unidades
deixou de ser um processo que afectava as famílias civis por causa das conscrições. O
tempo de serviço militar, estipulado entre os vinte e os 25 anos, significava que só era
necessário recrutar cerca de 7 500 novos soldados anualmente entre os cidadãos de
Roma. Os homens recrutados só deviam fidelidade a Augusto, fosse directamente ou
por meio dos seus representantes. Assim, fixou-se um sistema de recompensas que
incluía as vias de promoção hierárquica, o pagamento regular dos soldos e a isenção de
certas tarefas (corveias), terminando com a predisposição para as gratificações e as
expectativas por estas geradas462.
No que respeita ao dever militar, o compromisso geral via-se assegurado, ao apartar
os soldados das expectativas civis e estimulando-os a que recorressem aos seus
camaradas, em busca de apoio e relações sociais, em vez de o fazerem em relação às
famílias civis. Frequentemente, eram afastados das suas terras-natais, dos seus
agregados familiares, permanecendo longe durante muitos anos, não raramente ao
longo do resto das suas vidas. A prova mais clara do êxito deste processo capta-se no
elevado número de dedicatórias funerárias de uns milites para outros. Eis dois
exemplos:
«Aqui jaz Gaius Iulius Reburrus, soldado da legio VII Gemina Fortunata, nado em Segisama Brasaca,
depois de ter vivido 54 anos e servido [no exército] durante 24. Licinius Rufus, soldado da mesma legião,
dedica-lhe esta lápide» (CIL II 4157; Tarraco/Tarragona, Espanha);
«Em memória de Aurelius Vitalis, soldado da legio III Flavia, o qual serviu durante sete dos 25 anos que
viveu. Flavius Proculus, participante na incursão germânica, soldado da referida legião, e Vitalis, herdeiro
em segundo grau, erigiram este monumento em honra do seu excelente camarada» (CIL XIII 6104 = ILS
2310, Speyer, Alemanha).
Estes epitáfios diferem muito das dedicatórias familiares que predominavam no
mundo civil. Os soldados formavam, entre eles, uma «família», pelo que era preciso,
aos olhos de Augusto, proibir o conubium (casamento)463. Para criar tal «família
462
Sobre os direitos legais dos soldados, veja-se B. J. Campbell, The Emperor and the Roman Army, Oxford, 1984, cap.
4.
463
Sobre o casamento, o sexo e a vida familiar entre os soldados, consultem-se: B. J. Campbell, «The marriage of soldiers
under the empire», JRS 68 (1978), pp. 153-166; S. E. Phang, The Marriage of Roman Soldiers (13 BC-AD 235): Law
and Family in the Imperial Army, Leiden, 2001; W. Scheidel, «Marriage, Families, and Survival», in P. Erdkamp (ed.),
A Companion to the Roman Army, pp. 417-434. Segundo A. K. Goldsworthy, «A razão de ser da medida seria, sem
dúvida, a relutância em alimentar famílias ou pagar a viúvas e órfãos, bem como o desejo de manter as legiões
suficientemente móveis para poderem estar prontas para serem transferidas de uma ponta à outra do Império» (cf.
Augusto, pp. 455-456. Não se sabe se a proibição estabelecida por Augusto quanto ao conubium ocorreu no ãmbito das
reformas militares mais abrangentes implementadas em 13 a. C. ou 6 d. C. «Dependendo da data da reforma, alguns

188
militar», era indispensável cortar pela raiz a base da família civil, isto é, a procriação e,
com esta, a projecção futura enquanto unidade da dita família civil. Do mesmo modo
que os filhos e a transmissão de uma herança constituíam a razão de ser da família civil,
a abstenção de procriar era a chave para a continuidade da «família militar». Com
efeito, só neutralizando a possibilidade de ter filhos de maneira legítima é que se podia
dar a ruptura da conexão do soldado com a orientação da família civil, garantindo
assim que ele se centraria na «família militar». Vivendo vários séculos depois do
reinado augustano, Tertuliano salientou que o celibato afastava o homem da sociedade
e criava outra dentro da mesma, no caso do autor a cristã, e no de Roma, a militar.
Claro que a abstenção de se procriar, juntamente com o objectivo radical da criação
de uma «sociedade militar»464, não tinha a ver com o sexo, as mulheres ou os filhos em
sentido lato. Os soldados dispunham sempre da liberdade para terem contactos sexuais
e de se juntarem a mulheres, já que nenhuma norma o interditava. A proibição
introduzida por Augusto referia-se especificamente à formação de famílias legítimas: o
que se pretendia era que tais relações se mantivessem externas às vidas dos milites.
Mas a significativa diminuição das guerras em grande escala após Augusto acarretou
como consequência as legiões se converterem gradualmente em forças aquarteladas.
A «bênção» que pressupunha a ausência de mulheres e filhos na peripatética vida
militar acabou por se tornar numa «maldição», à medida que as legiões passaram a
ficar aboletadas em bases militares, logo se tornando mais sedentárias. Ademais, o
gradual afrouxamento do rigor impositivo das normas contra a procriação –
autorização para se gozar dos direitos de um homem casado (sob Cláudio), a
possibilidade de exarar disposições testamentárias e sucessórias que permitiam aos
soldados instituir como herdeiros filhos ilegítimos (sob a dinastia Flávia, bem como nos
principados de Trajano e de Adriano) – que teve por corolário a autorização, durante o
reinado de Septímio Severo, para os soldados poderem viver com as suas mulheres,
quando não estivessem de serviço (no entanto, este imperador não aboliu a proibição
do conubium, como durante largo tempo se pensou; recentemente a descobriu-se um
diploma militar que prova tal facto), mostrou-se conforme à acrescida imobilidade das
legiões e à criação de acampamentos e fortes de carácter permanente.
O sistema que propugnava uma «sociedade militar» à parte acabou por ruir. No
século III da nossa era, já tinham desaparecido os vestígios dos objectivos augustanos
de eliminar a aparição de senhores da guerra por meio do estabelecimento de uma
família militar que se pautasse por uma fidelidade exclusiva ao pater familias militum.

soldados poderiam estar ainda a servir acompanhados das respectivas esposas, já que teriam casado antes da proibição.
Outros ignoraram-na simplesmente, forjando relações e criando famílias apesar de ser ilegal – uma realidade a que as
autoridades fechavam de facto os olhos» (ibidem, p. 456).
464
R. MacMullen, «The legion as society», Historia 33 (1984), pp. 440-456.

189
Com o tempo, a experiência ensaiada por Augusto veio a estatelar-se «de encontro às
rochas da natureza humana»465.
Como dissemos, Augusto também regulamentou os procedimentos aplicados na
desmobilização, estipulando um prémio ou gratificação para os soldados que tivessem
cumprido o seu tempo de serviço (Díon Cássio, História rom. 54.25). Com esta medida,
ele tencionava pôr termo aos contínuos pedidos de parcelas de terra que haviam
agitado o último século da República. Desde então, o termo veteranus correspondeu a
um estatuto juridicamente definido, atribuído ao soldado desmobilizado, que tinha um
determinado número de direitos e privilégios.Desta maneira, Augusto julgava satisfazer
tanto o exército que o ajudara a subir ao poder, como os proprietários fundiários
italianos (outra base de apoio essencial do regime), que não deviam mais recear ver-se
expropriados em proveito das tropas. Numa primeira etapa, a imensa fortuna de
Augusto serviu para conciliar estas duas exigências, ao instaurar-se um prémio
(praemium) de reforma para os veteranos do pretório, das legiões e das coortes
urbanae466. Como as superfícies disponíveis tendiam a diminuir, o pagamento desta
espécie de «pensão» funcionaria como substituto da atribuição de lotes de terrenos
que, todavia, ainda se atesta até ao reinado de Vespasiano, em Itália, e até ao de
Adriano noutras regiões.
A ideia do praemium que Augusto introduziu não foi motivada pelo desejo de
instaurar uma segurança social que garantisse aos soldados meios de subsistência
depois dos anos passados nas fileiras: significou antes uma «estratégia de controlo
político». Suetónio diz que a medida visava impedir que os veterani realizassem um
golpe de estado, como antes já havia acontecido 467. O próprio imperador terá descrito o
interesse do praemium ao Senado, no sentido de que servia para manter os soldados
numa situação em que não poderiam, sob o pretexto da pobreza, «desejar seja o que for
que pertence aos demais … e que não se sintam tentados a mal agir» 468.
No ano 6 d. C., Augusto necessitou de novas fontes de financiamento para prosseguir
com o pagamento do prémio aos veteranos. De facto, uma sublevação generalizada na
Ilíria (Illyricum) ameaçou a fronteira nordeste de Itália, o que obrigou Augusto a
prolongar a duração do serviço militar até aos 16 anos para os pretorianos e até aos 20
para os legionários. Estas medidas provocaram descontentamento entre os soldados,

465
R. C. Knapp. Los Olvidados de Roma, p. 257.
466
Assim, primeiro ainda como triúnviro e depois como imperador, Augusto entregou 12 000 sestércios como prémio de
licenciamento aos simples legionários e, aos soldados da guarda pretoriana, 20 000: S. Phang, Roman Military Service:
Ideologies of Discipline in the Late Republic and Early Principate, Cambridge, 2008, p. 163. Eram montantes
certamente substanciais, que permitiam aos veteranos usufruir de um final de vida confortável (um ano de salário de um
legionário valia, ao tempo, cerca de 1 000 sestércios (P. Southern, The Roman Army: A Social and Institutional History,
p. 167)
467
Augusto, 4.4. S. de Valeriola, «Clin d’oeil historique: La retraite des légionnaires romains», Université Catholique de
Louvain (2014-2015), pp. 1-2 (http://sites.uclouvain.be/chairepensions/).
468
Díon Cássio, Hist. romana, 53.10.

190
pelo que o princeps procurou então oferecer provavelmente uma compensação aos
veteranos, subindo o montante do seu prémio de licenciamento. Mas o seu património
não lhe permitia fazer face, sozinho, às despesas com tais gratificações. Augusto
começou por solicitar ao Senado que lhe propusesse soluções para o problema. Na falta
de respostas, ele criou em 6 d. C., um tesouro militar 469 (o aerarium militare, objecto
de comentários mais alargados noutro capítulo), em que depositou 170 milhões de
sestércios, comprometendo-se a proceder, a seguir, a outros pagamentos, voltando a
apelar aos senadores. Porém, Augusto não aceitou qualquer das suas propostas e
recusou, igualmente, os donativos de particulares que poderiam desenvolver perigosas
relações clientelares com o exército. Augusto asseverou ter encontrado nos arquivos de
Júlio César o projecto de um imposto de 5% sobre as heranças dos cidadãos romanos
(vicesima hereditatum et legatorum); o imposto veio a ser implementado, incidindo
sobre as heranças a partir de certo montante (100 000 sestércios?), quando destinadas
a pessoas não vinculadas por parentesco directo com o defunto. Como as heranças de
pai para filho estavam isentas do mesmo, esta medida tinha a vantagem de incentivar,
indirectamente, o aumento da natalidade (Díon Cássio, Hist. rom. 55.25; Suetónio,
Augusto, 49).
Mas o aerarium militare foi alimentado por outros impostos, igualmente novos, além
da vicesima hereditarium: a centesima rerum venalium, que consistia na cobrança de
1% sobre as vendas feitas em leilões; a vicesima quinta venalium mancipiorum, que
retirava 4% dos lucros do comércio dos escravos; e, por último, a vicesima libertatis,
5% sobre os encetamentos dos servi. Embora os Romanos mais ricos não encarassem
de bom grado estas novas medidas fiscais, achavam-nas todavia preferíveis à política de
distribuição de terras aos veteranos470.

III.1.2. A obra dos Júlio-Cláudios471

A avassaladora derrota de Varo, em 9 d. C., na Floresta de Teutoburgo, na emboscada


e subsequente batalha campal que os Romanos rotularam de Clades Variana, já havia
manifestado, da pior forma possível, a oposição que podiam suscitar as levas de
auxiliares entre povos recentemente conquistados. De facto, o «príncipe» querusco
Armínio, após obter a cidadania romana, o estatuto equestre e o comando dos

469
D. Shotter, Augustus Caesar, Londres/Nova Iorque, Routledge, 1991, p. 50.
470
S. Phang, Roman Military Service…, p. 164.
471
Y. Le Bohec, L’armée romaine, pp. 197-198; D. B. Campbell, The Rise of Imperial Rome, AD 14-193, Oxford, 2013, pp.
31-44.

191
auxiliares germanos, decidiu montar uma armadilha mortal ao legado que vinha à
cabeça das XVIIª, XVIIIª e XIXª legiões472.
Ao ascender ao trono imperial, Tibério deparou com o descontentamento das legiões
acantonadas na Panónia e no Reno. O impacto das reforma das instituições militares
concebida por Augusto em relação às condições de serviço culminou em violentos
tumultos em 14 d. C473. Efectivamente, quando Augusto faleceu, os cidadãos que lhe
tinham prestado juramento de fidelidade, no recrutamento, podiam considerar-se
desvinculados do compromisso assumido, atitude que se coadunava com as tradições
republicanas. Estes legionários sairam particularmente desgastados dos últimos
conflitos do Principado e esperavam do novo imperador, que anteriormente os
comandara, melhorar a sua sorte. As reivindicações das tropas incidiram na duração do
tempo de serviço – alguns homens terão ficado nas fileiras durante trinta anos -, no
montante do soldo, na disciplina e nos moldes em que se processava o licenciamento
(Tácito, Ann. 1.17).
A partir daí, a concessão de lotes de terra, cada vez mais distantes de Itália, não
interessavam aos veteranos, bem como o prolongamento do tempo de serviço, que os
impedia de se dedicarem à agricultura. Os motins expressavam também o rancor destes
soldados face aos seus camaradas da guarnição de Roma, que beneficiavam de um
serviço menos penoso e de remunerações mais elevadas. Tibério 474 enviou o seu filho à
Panónia e o seu sobrinho Germânico à Germânia. O último cedeu perante certas
reivindicações, ao desmobilizar os legionários que contavam com vinte anos de serviço
e ao limitar as obrigações militares dos que já tivessem cumprido dezasseis. O
imperador e o Senado confirmaram estas concessões, mas no ano seguinte resolveram
revogá-las.
Calígula, por seu lado, acabou por retirar todas as consequências da partilha das
províncias operada entre Augusto e o Senado, em 27 a. C., ao privar o último procônsul
de África, que ainda conservava uma legião, do comando das tropas (39 d. C.) 475. A
legio III Augusta foi então colocada sob as ordens de um legado de Augusto pro
praetor, escolhido pelo imperador entre os senadores com estatuto pretoriano. Tácito
(Hist. 4.48) e Díon Cássio (Hist.rom. 59.20.7) explicaram esta decisão com base na
psicologia de Calígula, que alimentava fortes suspeições por senadores demasiado
poderosos. Na medida em que o legado exercia legalmente a sua autoridade num

472
Além da bibliografia anteriormente citada, leia-se a descrição de A. K. Goldsworthy sobre a Clades Variana: Augusto,
pp. 451-461.
473
J. J. Wilkes, «A Note on the Mutiny of the Pannonian Legions in A.D. 14», CQ LVI (1963), pp. 268-271.
474
D. Shotter, Tiberius Caesar, 2ª edição, Londres/Nova Iorque, 2004, pp. 23-24.
475
A. A. Barrett, Caligula. The Corruption of Power, Londres/Nova Iorque, Routledge, 2001, pp. 115-123; B. Rankov,
«Military Forces», The Cambridge History of Greek and Roman Warfare, Vol. II: Rome from the Late Republic to the
Late Empire, Cambridge, 2007, p. 37.

192
distrito militar, aludiu-se igualmente à vontade imperial de preparar uma expansão
territorial nessa região.
Cláudio tomou medidas em prol dos auxiliares. Inicialmente, o comando destes foi
confiado a chefes da mesma origem étnica, admitidos na ordem equestre, os quais
davam, por vezes, os seus nomes às unidades que comandavam. Os batavos Caius
Iulius Civilis, que se rebelou em 69-70, e Flavius Cerialis (citado nas tabuinhas de
Vindolanda), estariam provavelmente entre os últimos. As carreiras destes oficiais
equestres foram regulamentadas pelo sucessor de Calígula (Suetónio, Cláudio, 25)476: a
primeira etapa consistia na chefia de uma coorte auxiliar quingenaria, com o posto de
prefeito, a segunda no comando de uma ala de cavalaria quingenaria, ainda mantendo
a patente de prefeito. A terceira fase implicava a passagem para uma legião e pela
atribuição do posto de tribuno angusticlavo (tribunus angusticlavus), durante um ano
ou seis meses, ou pelo comando de uma coorte auxiliar milliar (de cidadãos
romanos477).
Cláudio deu um verdadeiro rosto ao serviço militar equestre imperial, ao criar a série
das três militiae: a prefeitura de coorte (unidade contando com 500 homens), seguida
do tribunato de legião ou do tribunato de uma coorte milliaria (1000 homens) e,
depois, a prefeitura de uma ala de cavalaria (unidade com 500 homens), dos seis
tribunos que uma legião englobava, o primeiro pertencente à ordem senatorial, os
restantes cinco à equestre. Realcemos que Cláudio preferiu uma hierarquia que
conferisse acrescido valor ao tribunato legionário, isto é, ao comando sobre os cidadãos
romanos; mas foi somente durante o seu principado que se observa a sequência
prefeitura de coorte-prefeitura de ala-tribunato legionário. Depois deste reinado,
abandonou-se o sistema e restabeleceu-se a proeminência da prefeitura de ala 478.
O número de postos ocupados por oficiais equestres jamais terá excedido os 450.
Consequentemente, alguns cavaleiros romanos, desejosos de exercer um comando
militar, optavam, às vezes, por abraçarem a carreira das armas mediante o posto de
centurião ex equite romano. Outros, por seu turno, contentavam-se com um tribunato
legionário com a duração de seis meses (sexmentris), em lugar de um ano. Os
comandos das tropas auxiliares não se viam limitados no tempo. Em certos casos, um
oficial equestre podia exercer também vários comandos sucessivos dependendo da
mesma milícia. Foi igualmente a Cláudio que os auxiliares e seus filhos deveram a
concessão da cidadania romana, depois de servirem ao longo de 25 anos. Observa-se

476
H. Devijver, «Suétone, Claude 25 et les milices équestres», Anc. Soc., I (1970), pp. 69-81; idem, «The Career of M.
Porcius Narbonensis: new evidence for the reorganization of the Militia Equestres by the Emperor Claudius», Anc. Soc.
III (1972), pp. 165-191.
477
M. P. Speidel, «Citizen Cohorts in the Roman Imperial Army», T. American Phil. Ass. 106 (1976), pp. 339-348.
478
S. Demougin, «Milices équestres», in J. Leclant (dir.), Dictionnaire de l’Antiquité, Paris, 2005, p. 1419.

193
esta recompensa em abundantes testemunhos epigráficos, sob a forma de diplomas
militares.

V.1.3. A regulamentação imperial militar de Domiciano a Adriano

Possivelmente em 83 d. C., Domiciano aumentou o montante anual dos soldos para


1200 sestertii (400 sestércios entregues em quatro meses; anteriormente, sob Augusto,
a soma ascendia a 900, isto é, 300 sestércios pagos em três tranches, perfazendo um
total de 900)479. Após os conturbados anos de 68-69, que mostraram bem o peso
político do exército, o poder imperial não podia ignorar mais uma reivindicação
expressa pelos soldados já desde a morte de Augusto.
Adriano (177-138 d. C.) é o imperador que muitos historiadores consideram como o
que deixou mais marcas na organização militar romana depois de Augusto. Na
realidade, ele já tinha acumulado uma longa experiência militar antes de ascender ao
trono (CIL III 550; ILS 308): afinal não fora três vezes tribuno militar, legado da legio I
Minervia, legado da Panónia Inferior e da Síria, além de membro do estado-maior de
Trajano? Quando se tornou imperador, multiplicou os périplos de inspecção das
guarnições imperiais. No âmbito da estratégia, renunciou à política expansionista do
seu predecessor. Adriano terá criado um novo tipo de corpo de tropas, a que os
estudiosos modernos chamam numerus («tropa» em latim): tratava-se de unidades
recrutadas nas zonas periféricas do império, cujos soldados preservavam o seu
armamento e as suas tácticas ancestrais.
Relativamente à cadeia do comando militar, o imperador agiu no sentido de que
determinados oficiais equestres com mérito tivessem a possibilidade de prolongarem as
suas carreiras por meio de uma quarta militia, ficando à cabeça de uma ala militar com
o posto de prefeitos. O discurso (de que subsistiram fragmentos epigráficos) que
Adriano proferiu no acampamento de Lambaesis480 (Lambese, Líbia), aquando da sua
viagem a África em 128 d. C., demonstra o seu interesse pelo exercitatio, isso é, um
treino regular dos soldados. Foi, aliás, no seu reinado que a Disciplina se converteu
numa deusa, para a qual se ergueram altares nas fortalezas: esta noção ultrapassava a
simples obediência às ordens e abrangia todos os aspectos da formação e do ofício
militares.
Diversos especialistas têm debatido a questão se Adriano promulgou uma verdadeira
legislação militar, através da compilação das constituições imperiais, regulamentos e
discursos anteriores (Díon Cássio, Hist. romana, 49.9; Vegécio, Epit. rei mil. I, 8 e 27).
Vegécio evoca a reutilização de uma constituição augustana relativa às marchas que as
tropas de infantaria e de cavalaria deveriam efectuar. De acordo com a História
Augusta (Adriano,10.7-8), cuja biografia de Adriano é bastante fiável (contrariamente
a diversas obras desta obra), o imperador parece ter-se preocupado também em
melhorar a condição militar, ao evitar, por exemplo, que os soldados se mantivessem
nas fileiras para além do tempo regulamentar. Isto fora um dos principais motivos para
o descontentamento das tropas, no decurso dos motins de 14 d. C.
Mas sustentar que Adriano foi o verdadeiro precursor de um desenvolvimento
acrescido da cavalaria e de uma nova disposição da legião romana em falange (ou seja,

479
B. W. Jones, The Emperor Domitian, Londres/Nova Iorque, 1992, p. 131. As tropas romanas recebiam, antes do
reinado de Domiciano, o soldo repartido em três fracções (stipendia), no primeiro dia de Janeiro, em Maio e Setembro.
Com Domiciano, passou a haver um quartum stipendium, correspondente a 3 aurei: M. A. Speidel, «Roman Army Pay
Scales», p. 92; J. Jahn, «Zur Entwiclung römischer Soldzahlungen von Augustus bis auf Diokletian», Studien zu den
Fundmünzen der Antike 2 (1984), pp. 53-55; B.J. Campbell, The Roman Army 31 BC-AD 337. A Sourcebook, Londres,
2ª edição, 1996, pp.20-23.
480
M. A. Levi, «Le iscrizioni di Lambaesis e l’esercito di Adriano», RAL 9.5 (1994), pp. 711-723. Abordaremos este
assunto mais detidamente no Capítulo VII.

194
mais compacta), parece-nos uma teoria mais assente em conjecturas do que em dados
concretos. Esta baseia-se parcialmente numa passagem de Arriano de Nicomédia,
amigo íntimo do imperador e legado da Capadócia entre 131 e 137 d. C, que descreve, na
sua Ordem de marcha [Ectaxis] contra os Alanos, uma formação de infantaria
concebida para suportar a uma carga de cavalaria couraçada, a propósito da XVª legião
Apollinaris de Satala e de uma vexillatio da XIIª legião Fulminata de Melitene.

V.2. Corpos de tropas hierarquizados

A guarnição de Roma481

Sejano, prefeito do pretório de Tibério, introduziu as coortes pretorianas 482 em Roma,


instalando-las num acampamento no planalto dos Esquílios, a nordeste do centro da
Cidade, em 23 d. C., o complexo Castra Praetoria483, que acolheu também as cohortes
urbanae484. Ainda se julgou necessário aboletar as tropas fora do pomerium, prova de
que a proibição tradicional continuava a desempenhar um papel relevante na
organização do espaço urbano. Entre as casernas e a Muralha Serviana, criou-se um
espaço suplementar, o campus, destinado aos exercícios militares dos pretorianos.
Os pretorianos constituíam a «elite da elite»485, formando a guarda imperial: estavam
repartidos por nove coortes, numeradas de I a IX, cada uma tendo cerca de 500
soldados (daí a sua designação de quingenárias), mais alguns cavaleiros. Estas coortes
foram criadas em 27 ou 26ª. C., e o seu comandante, o prefeito do pretório, instituído
em 2 a. C. No entanto, o emblema dos pretorianos, o escorpião, só apareceu no tempo
de Tibério. Antes de 47, formaram-se três coortes pretorianas suplementares. Em 69,
Vitélio, durante a guerra civil, subiu o seu número para 16, cada uma ascendendo, pelo
menos em teoria, a 1000 homens. Pouco depois, Vespasiano, como bom gestor que era,
reduzia-se para 9 unidades, cada com 500 homens. Mais tarde, Domiciano criou uma
décima coorte pretoriana. Elas estavam sob as ordens do prefeito (ou prefeitos) do
pretório, cada uma enquadrada por um tribuno e 6 centuriões. Destes, o que tinha o
posto mais elevado, o centurião do pretório, era o trecenarius, por comandar também
trezentos speculatores486 («batedores»), que serviam como guardas de corpo do
princeps. Embora não seja garantido, o portador do grau de princeps castrorum, devia
exercer a função de imediato do trecenarius. Quando se tornou imperador, Septímio
Severo puniu a indisciplina dos pretorianos, substituindo-os por soldados procedentes
das suas legiões da Panónia. Por fim, no início do século IV, depois de fazerem a pior
escolha numa guerra civil, Constantino I resolveu dissolver, em 312, as coortes
pretorianas.
Imediatamente abaixo do pretório encontravam-se as três coortes urbanas, cada uma
igualmente com 500 urbaniciani: criadas em 13 a. C., elas foram numeradas no
481
Sobre esta matéria em geral: G. Webster, The Roman Imperial Army, pp. 96-102; Y. Le Bohec, L’armée romaine, 2ª
edição revista e aumentada, Paris, 1998, pp. 20-24; B. Rankov, «Military Forces», The Cambridge History of Greek and
Roman Warfare, Vol. II, pp. 43-50.
482
As monografias «clássicas» sobre a Guarda Pretoriana são as de M. Durry, Les Cohortes Prétoriennes, 2ª edição, 1968
(publicada pela primeira vez em 1938), e de A. Passerini, Le coorti pretorie, Roma, 1939. Remetemos, todavia, para
estudos mais recentes e actualizados, com documentação adicional: B. Rankov, The Praetorian Guard, Londres, 1994;
M. Jallet-Huant, La Garde Prétorienne dans la Rome Antique, Paris, 2009; S. Bingham, The Praetorian Guard. A
History of Rome’s Elite Special Forces, Londres/Nova Iorque, 2013 (trata-se da publicação do texto da tese que a autora
apresentou para a obtenção do grau académico de PhD). Para o recrutamento dos pretorianos, veja-se, ainda, J. Šašel,
«Zur Rekrutierung der Präetorianer», Historia XXI (1972), pp. 474-480. Para uma visão mais sintética, consulte-se R.
Cowan, Roman Guardsman 62 BC-AD 324, Oxford, 2014, pp. 28-31.
483
A superfície do acampamento que a guarda pretoriana veio a ocupar, a partir de 23 d.C., com cerca de 18 ha, impede
que lhes atribuemos 1000 homens por cada coorte, ao contrário do que sustentaram alguns estudiosos.
484
O melhor estudo sobre as coortes urbanas ainda continua a ser o de H. Freis, Die Cohortes Urbanae, Epigraphische
Studien 2, Colónia/Graz, 1967.
485
Y. Le Bohec, La guerre romaine, p. 36.
486
R. Cowan, Roman Guardsman, pp. 32-33.

195
seguimento das precedentes, de X a XII; posteriormente, instituiram-se e instalaram-se
mais duas unidades, uma em Lugdunum e outra em Cartago. As três primeiras
passaram a quatro de 41 a 47, a sete, sob Cláudio, e diminuidas para quatro por Vitélio,
em 69, mas tornando-se miliárias. Foi possivelmente Vespasiano que as reconduziu á
categoria de quingenárias. Em finais do século II, Septímio Severo terá alegadamente
aumentado o seu efectivo para 1500 homens por unidade, mas diversos especialistas
modernos consideram isto pouco plausível. Servindo de guarda da Urbs, ou melhor,
como uma espécie de força policial municipal, os urbaniciani ficaram sob as ordens do
prefeito de Roma no século I, mas no decurso do século II passaram a estar debaixo da
alçada do prefeito do pretório. Cada coorte tinha como comandante um tribuno
coadjuvado por seis centuriões, tal como as coortes pretorianas (com as quais
partilharam o acampamento até 270, ano em que os urbaniciani receberam a sua
própria caserna, no Campo de Marte).
A localização topográfica dos acantonamentos dos corpos de tropas pretorianas e
urbanas sugere que o poder imperial tentou situá-los fora do coração da Cidade e do
pomerium. Aos pretorianos e aos urbaniciani (recrutados entre gente simples de
Itália), vieram a juntar-se cerca de 500 cavaleiros ligados pessoalmente a Augusto,
como antes o haviam sido em relação a Júlio César: os Germani corporis custodes487
(guardas de corpo germanos), também qualificados de Batavi. Esta guarda imperial a
cavalo ficou primeiramente aboletada no Trastevere, durante o período Júlio-Cláudio.
Licenciada por Augusto depois da derrota de Varão na Germânia, voltou a ser formada
antes da morte do primeiro princeps, e depois novamente dissolvida por Galba em 68
d. C.
Trajano criou uma nova guarda, recorrendo a auxiliares que serviram nas fronteiras do
Império, tornando-se conhecidos pela designação de equites singulares Augusti488:
estes cavaleiros foram instalados em duas casernas sucessivas, localizadas perto do
actual bairro de Latrão, a sudeste de Roma; até 138 d. C., devem ter cumprido 27 a 29
anos de serviço, depois diminuindo para 27. Encontravam repartidos por turmae, cada
uma comandada por um decurião, o primeiro dos quais tinha o posto de princeps. No
topo da hierarquia, estava um tribuno (mais tarde dois, a partir de Septímio Severo),
subordinado, por sua vez, aos prefeitos do pretório.
Por sua vez, desde o início, cada coorte de vigiles489 foi aboletada numa caserna afecta
à vigilância das regiões urbanas (em número de sete coortes, na razão de uma em cada
duas das catorze regiones em que Augusto dividira a Cidade), todas elas possuindo
vários excubitoria (sing. excobitorium, posto de guarda), a fim de garantir um controlo
mais eficaz do espaço citadino. Os vigiles apresentavam-se equipados de lamparinas e
archotes (para fazerem as rondas nocturnas), bem como de escadas, cifões e baldes,
elementos imprescindíveis para a extinção de incêndios.Dispunham, ainda, de
machados e artilharia para desmantelarem edifícios, quando havia o perigo da
propagação das chamas. Cada coorte de vigiles era enquadrada por um tribuno, um
centurião com o título de princeps e por seis outros centuriões que, em geral,
correspondiam a ex-soldados do pretório, amiúde chamados a seguir para liderarem
uma centúria de urbaniciani e, por fim, outra de pretorianos.
Ao todo, os efectivos da guarnição de Roma ascenderiam a cerca de 7 000 homens,
pelo menos, sob o Principado de Augusto, a 12 500 durante o reinado de Cláudio, a
aproximadamente 13 000-20 000 no de Trajano, vindo a subir ainda mais no tempo de
487
Consultem-se: H. Bellen, Die Germanische Leibwache der römische Kaiser des jülisch-claudischen Hauses,
Wiesbaden, 1981; M. P. Speidel, «Germani corporis custodes», Germania 62 (1984), pp. 31-45; idem, Riding for
Caesar: The Roman Emperor’s Horse Guards, Cambridge, Mass, 1994, pp. 12-31.
488
M. P. Speidel, Die “Equites Singulares Augusti”. Begleittrupe der römischen Kaiser des zweiten und dritten
Jahrhunderts, Bona, 1965; idem, Die Denkmäler der Kaiserreiter (“Equites Singulares Augusti”), Bona, 1993.
489
Apesar de antiga e datada em certos aspectos, ainda se reveste de utilidade a monografia de P. K. Baillie-Reynolds,
The Vigiles of Imperial Rome, Oxford, 1926. Para um estudo mais recente e bem documentado, veja-se R. Sablayrolles,
Libertinus miles. Les cohortes de vigiles, Roma, 1996. O último autor salientou que a função primeira dos vigiles
radicava na prevenção dos fogos, pelo que patrulhavam as ruas de Roma, à noite, centrando a sua atenção sobre os sítios
mais atreitos a tornarem-se pasto de chamas. Além disto, os vigiles, nessas rondas nocturnas, efectuavam também
detenções de marginais. Conduziam os criminosos até à presença do prefeito. Assim, à semelhança do prefeito do
pretório e o da Cidade, o prefeito dos vigiles tornou-se, de igual modo, um dos principais juízes da capital.

196
Marco Aurélio – 15 000 ou 20 000. Assim, era em Roma que se concentrava o maior
número de tropas em todo o Império.
Uma presença militar tão forte conduziu a que a guarnição de Roma tivesse claro peso
decisório na transmissão do próprio poder imperial, a tal ponto que a aclamação de um
novo princeps pela guarda pretoriana se converteu numa etapa obrigatória da sua
investidura. Desde o principado de Tibério, o prefeito do pretório Sejano, adquiriu
tamanho poder que o sucessor imediato de Augusto teve de recorrer ao prefeito dos
vigiles, Laco, e às suas coortes para eliminar a ameaça representada por Sejano em 31
d. C. (Díon Cássio, Hist. rom. 58.12.7). Os pretorianos, como é sabido, vieram a
desempenhar um papel decisivo pouco mais tarde, no assassinato de Calígula e na
ascensão ao poder de Cláudio, em 41 d. C. (Díon Cássio, Hist. rom.,59.29; Suetónio,
Cláudio, 10), de Nero em 54 (Tácito, Ann. 12.68-69) e de Otão, em 68 (Tácito, Hist.
1.36)490.
No dia 31 de Dezembro de 192, Cómodo sucumbiu, vítima de uma conjura em que
esteve envolvido Leto (Laetus), o prefeito do pretório (Díon Cássio, Hist. rom. 72.22;
Herodiano, História, I, 16-17; História Augusta, Cómodo, 17). Não admira então que os
imperadores cumulassem de favores a guarnição, além de tentarem evitar, por outro
lado, que se concentrasse demasiado poder no comando da mesma. Se o prefeito do
pretório acabou por acumular, no século II, o comando das coortes pretorianas e
urbanae, bem como o dos equites singulares Augusti, o certo é que ele jamais exerceu
autoridade sobre os vigiles. Enquanto corpo de elite, os pretorianos beneficiavam de
um soldo anual superior ao dos legionários – possivelmente 750 denários em lugar dos
225 auferidos à data da morte de Augusto – e de um tempo de serviço fixado em 16
anos em vez de 20. Quanto aos urbaniciani, serviam o mesmo número de anos do que
os legionários, mas auferiam de um soldo mais alto, cifrando-se em 375 denários anuais
em 14 d. C. Além disso, a partir de 65 d. C., os pretorianos receberam de Nero rações
gratuitas de trigo como recompensa pela sua lealdade durante a conspiração
maquinada por Pisão (Tácito, Ann. 15.72; Suetónio, Nero, 10). Os vigiles, por seu lado,
recebiam em princípio só uns 200 denários por ano no período augustano, durando o
seu serviço entre os 14 e os 16 anos; no entanto, ao fim de três anos em funções, viam-
se integrados na plebe frumentaria: tratava-se de um dos raros privilégios que tinha o
corpo das tropas subalternas. Mais tarde, os seus soldos foram alinhados com os
recebidos pelos auxilia.
Assim, era expectável que desde cedo se gerasse um clima de tensão entre as tropas da
Cidade e os exércitos estacionados junto das fronteiras: desde a morte de Augusto, os
legionários amotinados da Panónia e da Germânia manifestaram o seu rancor contra os
soldados privilegiados que compunham a guarnição de Roma. O conflito civil de 68-69
acentuou ainda mais esta oposição quando Vitélio e, a seguir, Vespasiano entraram em
Roma à frente das suas tropas. Para satisfazer as legiões da Germânia que o ajudaram a
subir ao poder, Vitélio aumentou o número de coortes pretorianas para dezasseis, e os
efectivos de cada uma delas subiu para 1000 homens, com o intuito de nelas inserir os
seus legionários mais fiéis. Todavia, depois Vespasiano revogou provavelmente estas
medidas.
Mas deixando de parte a crise do chamado «ano dos quatro imperadores» (69 d. C. 491),
o remanescente do exército encontrava-se, ainda assim, representado em Roma: com
efeito, realizavam-se trocas com regularidade, por forma a atenuar a animosidade dos
exércitos provinciais relativamente à guarnição da capital e, também, para contribuir
para um adequado funcionamento da administração: por um lado, os pretorianos
podiam continuar as suas carreiras nas legiões enquanto centuriões. Certos equites
singulares Augusti até chegaram a ser promovidos a decuriões nas alas da cavalaria

490
J. L. Kerr, The Role and Character of the Praetorian Guard and the Praetorian Prefecture until the Accession of
Vespasian, tese para obtenção do PhD, Glasgow, Universidade de Glasgow, 1991, pp. 41-140. M. Jallet-Huant, «Quel fut
le rôle politique des Prétoriens dans la nomination et l’élimination des empereurs?», Les Mondes Antiques, 2 (janvier-
février 2007), pp. 42-49.
491
Dois estudos sobre este ano atribulado e violento: K. Wellesley, The Year of the Four Emperors, 3ª edição, Londres,
2000, e P. Cosme, L’année des quatre empereurs, Paris, 2012.

197
auxiliar, ao passo que os decuriões desta guarda de corpo reuniam todas as
possibilidades de se tornarem centuriões legionários. Por outro lado, cada coorte de
vigiles estava sob as ordens de um tribuno, que correspondia a um antigo primus pilus
de uma legião, o qual podia prosseguir a carreira depois entre os urbaniciani e os
pretorianos. Havia também primipili chamados a Roma, talvez para servirem como
conselheiros do estado-maior, mas ainda estão por apurar as funções concretas deste
numerus primipilarium.
Na capital, existiam também destacamentos de marinheiros: os pertencentes à frota de
Misenum, encontravam-se aquartelados no Castra Misenatium, decerto construído no
período dos Flávios e situado numa das encostas do Mons Oppius, nas proximidades do
Amphitheatrum Flavium (popularmente conhecido como Coliseu) e da principal
«escola» gladiatória, o Ludus Magnus; quanto ao contingente da classis de Ravenna,
estava no Castra Ravennatium, que talvez se localizasse na região transtiberina 492. A
partir da inauguração do anfiteatro por Tito em 80 d. C., esses soldados tinham como
incumbência desfraldar e recolher o velum, o toldo gigante que se utilizava no Coliseu,
para proteger os espectadores da luz do sol, no Verão (ou da chuva), durante os
espectáculos aí organizados; além disso, também desempenhariam o papel de correios.
Numa caserna localizada no Monte Célio (Caelius) havia soldados destacados das
legiões provinciais, que nas fontes epigráficas aparecem referidos como peregrini e
frumentarii493: actuavam sobretudo como mensageiros, levando a cabo missões mais
ou menos secretas a mando do imperador. De acordo com hipóteses recentemente
aventadas, eles eram designados como frumentarii pelo facto de beneficiarem de
rações gratuitas de trigo, e a de peregrini porque os soldados que estavam em regime
de permanência em Roma, bem como os seus habitantes os rotulavam de
«provinciais», mesmo se fossem cidadãos romanos. Criaram-se ainda (como atrás
dissemos) novas cohortes urbanae, que se enviaram para ficar alojadas em Lugdunum
e Cartago, afora as aboletadas em Puteoli (actual Pozzuoli) e Óstia. Além disso, estas
duas cidades ainda acolheram, cada uma, uma coorte de vigiles.

As legiões494

As legiões destinavam-se exclusivamente aos cidadãos romanos. Por vezes, acontecia


que a cidadania romana era concedida no momento do alistamento. Mas neste caso,
exigia-se que o soldado tivesse noções elementares de latim, para que conseguisse
compreender as ordens. Uma legião representava um corpo militar cujos efectivos
variavam entre 5 200 e 6 000 homens, distribuídos em 10 coortes com seis centúrias
492
E. M. Steinby, Lexicon topographicum urbis romanae 1, Roma, 1993, pp. 246-254.
493
Sobre os frumentarii: J. C. Mann, «The organization of frumentarii», ZPE 74 (1988), pp. 149-150; B. Rankov,
«Frumentarii, the Castra Peregrina and the provincial officia», ZPE 79 (1990), pp. 176-182; M. Clauss,
Untersuchungen zu den principales des römischen Heeres von Augustus bis Diokletian. Cornicularii, Speculatores,
Frumentarii, pp. 82-113.
494
Um dos estudos mais completos sobre as legiões é o antigo livro de H. M. D. Parker, The Roman Legions, 2ª edição,
Chicago, 1980. Para uma exposição pormenorizada sobre as legiões a nível individual, consultem-se: E. Ritterling,
«Legio», in RE, vol. 12.2, cols. 1186-1829; A . Passerini, «Legio», Diz. Ep. IV, 1949-1950, pp. 549-624. Observem-se,
também, G. Webster, The Roman Imperial Army, pp. 102-130; Y. Le Bohec, L’armée romaine, p. 24ss; J. Roth, «The
Size and Organisation of the Roman Imperial Legion», Historia, 43 (1994), pp. 346-362. Outra obra para a qual cabe
remeter o leitor é a de J. González, Historia de las legiones romanas, 2 vols., Madrid, 2001; aconselhamos, igualmente,
a leitura de vários artigos de reputados especialistas sobre as legiões imperiais: Y. Le Bohec (ed.), Les Légions de Rome
sous le Haut-Empire: Actes du Congrès Internationale de Lyon, Collection du Centre d’Études Romaines et Gallo-
Romaines de l’Université Jean Moulin-Lyon III, nº 20, Lyon, 2000. O livro mais recente sobre o assunto é o de N.
Pollard e J. Berry, The Complete Roman Legions, Londres, 2015.

198
cada. Em tempo de paz, as legiões nem sempre estavam completas, por razões
económicos. Uma centúria compreendia 80 homens (Pseudo-Higino, De munitionibus
castrorum, 1) e duas centúrias formavam um manípulo.
Cabe indagar que papel táctico os manípulos ainda desempenhariam depois da criação
das coortes. Na sua maioria, os legionários pertenciam à arma de infantaria, mas cada
legião englobava um contingente de 120 cavaleiros (Flávio Josefo, Bell. Iud. III, 6, 2). O
número de soldados das centúrias da primeira coorte viu-se sem dúvida duplicado no
fim do século I ou no começo do II d. C.: possuíam, então, 160 homens, em vez de 80
(Pseudo-Higino, De mun. Castr.).
De acordo com S. S. Frere 495 e L. Keppie496, esta particularidade remontaria ao reinado
de Vespasiano, que terá recolocado na primeira coorte os veteranos que se mantiveram
nas fileiras já depois do seu licenciamento. Permanecendo no exército para além do
tempo de serviço legal, com a designação de evocatus, alguns deles haviam protestado
veementemente em relação às suas condições de vida no decurso dos motins de 14 d. C.
Até aí, estes «reservistas» formavam um destacamento com 500 homens, segundo L.
Keppie497, reunidos em torno de um estandarte, o vexillum veteranorum (Tácito, Ann.
1.39; 2.21), e estavam dispensados de obrigações que os restantes legionários teriam de
cumprir. Assim, o papel deles seria apenas defensivo. Antes de desaparecer, este género
de destacamento estaria sob o comando de um centurião com o grau de triarius ordo
ou, então, por um curator.
Cada legião era comandada por um legado 498, tratando-se de um senador com estatuto
pretoriano indigitado pelo imperador. Tinha a coadjuvá-lo um tribuno laticlavo, um
jovem membro da ordo senatorial que prestava serviço militar durante um ano (ou às
vezes seis meses), ocupando o lugar de segundo oficial da legião, antes de encetar o seu
cursus honorum. O termo laticlavo – laticlavus - aludia à larga faixa de cor púrpura
que exibia na sua túnica. Junto do legado e do tribuno laticlavo, estavam um prefeito de
campo, antigo primus pilus - ou seja, que ficou à frente da primeira centúria da
primeira coorte - promovido à ordem equestre, encarregado da administração do
acampamento, e cinco tribunos angusticlavos que efectuavam a sua segunda milícia
equestre. Estes já haviam adquirido experiência no comando de tropas auxiliares e
deviam o seu título a uma faixa púrpura mais delgada que a dos tribunos saídos da
classe senatorial.
Desde o principado augustano, os legionários eram, como se disse, profissionais que
tinham de servir ininterruptamente durante vinte anos. Do fisco imperial recebiam um
soldo anual apreciável que se viu elevado por Domiciano a 1200 sestertii. No término
do seu serviço, em caso de honesta missio, isto é de um licenciamento honroso
(retirando-se das fileiras sem terem incorrido em faltas graves), auferiam de um prémio
de reforma pago pelo aerarium militare. No tempo augustano ascendia a 12000
sestércios (os pretorianos recebiam bastante mais, 20 000), o que representava mais de
treze anos de soldo.
Cada centúria estava sob as ordens de um oficial subalterno, o centurião 499 que, como
vimos, geralmente correspondia a um indivíduo que iniciara a sua carreira como
simples soldado raso, ou então, por vezes, um equestre romano que desta maneira
principiava o seu cursus militar. Todos os centuriões de uma legião estavam
hierarquicamente classificados de acordo com o número da sua coorte. O primus pilus,
à cabeça da primeira centúria da primeira coorte, situava-se no topo desta hierarquia,
tendo assento no estado-maior do legado. Porém, ainda hoje se discute qual seria o
número exacto de centuriões em cada legião, bem como as regras da sua promoção. Se,
por um lado, o princípio da duplicação dos efectivos da primeira coorte parece um dado
495
S. Frere, «Hyginus and the first cohort», Britannia 11 (1980), pp. 51-60.
496
The Making of the Roman Army, p. 149.
497
«Vexilla Veteranorum», PBSR, XLI (1973), pp. 8-17.
498
Para a hierarquia e a estrutura do comando no exército imperial romano, veja-se B. Isaac, «Hierarchy and Command
Structure in the Roman Army», in Y. Le Bohec (ed.), La Hiérarchie (Rangordnung) de l’armée romaine, Paris, 1994,
pp. 23-31.
499
Sobre os títulos dos centuriões, consulte-se M. Speidel, «The Centurions’ Titles» Epig. Stud. 13 (1983), pp. 43-62.

199
adquirido, por outro, há dúvidas e incertezas quanto ao número de centúrias que a
compunham. Durante largo tempo, os estudiosos, baseando-se em Vegécio (Epit. rei
mil. II, 8) e nos vestígios arqueológicos da fortaleza legionária de Inchtuthil, 500
(Perthshire, na Escócia), sustentaram que a primeira coorte compreendia apenas cinco
centúrias501.
Mas novas interpretações e descobertas puseram em causa tal interpretação. Por um
lado, as cifras apontadas por Vegécio carecem de fiabilidade e as cinco habitações que
se atribuíram aos centuriões da Iª coorte não incluíam provavelmente a residência do
primus pilus, que podia estar alojado com os tribunos no scannum tribunorum; por
outro lado, um papiro egípcio de 150 (PSI 1026) menciona uma centúria comandada
por dois primipilares, e uma inscrição de Lambaesis, no Norte de África, datada de 162
d. C. (CIL VIII 18065; ILS 2452) fornece uma lista de 62 (em lugar de 59) centuriões da
IIIª legião Augusta, na qual a Iª coorte contava com sete (em vez de cinco), dois sendo
primipilares.
Por último, as escavações no aquartelamento de Inverno da legio II Parthica, em
Apamea502, na Síria, trouxeram à tona estelas funerárias mencionando o posto de
centurião pilus posterior na Iª coorte (AE 1993, 1588), anteriormente jamais atestado.
Contudo, podemos estar diante de uma inovação introduzida no período severiano, que
consistiria em inserir todas as coortes de uma legião no mesmo modelo. Para os
primeiros dois séculos da nossa era, caberia por vezes acrescentar ainda aos 59
centuriões habituais o triarius ordo, antes da integração dos veteranos nas fileiras da Iª
coorte, e os centuriões que comandavam a cavalaria legionária, que, a partir de meados
do século I d. C., se viram repartidos pelo conjunto das centúrias, como realçou David
J. Breeze503.
Os efectivos legionários variaram relativamente pouco sob o Império, visto que o
número de legiões passou de 25, nos reinados de Augusto e Tibério (Tácito, Ann. 4.5)
para 30 no de Trajano e 33 sob a égide de Septímio Severo. A criação de novas legiões
era uma operação onerosa e, usualmente, esteve ligada a projectos de extensão
territorial, como aconteceu em relação às XV e XXII Primigeniae no momento da
conquista da Britânia, a I Italica sob Nero, a I Minervia no principado de Domiciano, a
XXX Ulpia Victrix e a II Traiana, ou ainda, no tempo de Septímio Severo, a I, II e III
Parthicae, duas delas se destinando às novas províncias da Mesopotâmia. As
dissoluções das unidades, mais raras, explicam-se por desastres irreparáveis, como as
mencionadas três legiões de Varão (XVII, XVIII e XIX, cujos numerais jamais foram
reatribuídos), ou a IX Hispania e a XXII Deiotariana, ao longo do século II, ou então
por casos de revoltas ou acasos das guerras civis (nomeadamente as legiões suprimidas
na Germânia por Vespasiano).
A continuidade dos efectivos viu-se reforçada por uma notável estabilidade das
guarnições. Os principais acampamentos (que logo se transformaram em fortalezas),
como Castra Vetera e Mogontiacum na Germânia, Carnuntum na Panónia, Oescus e
Novae na Mésia, remontam ao período Júlio-Cláudio, e muitos outros datam dos
Flávios ou do reinado de Trajano. As últimas grandes movimentações legionárias
tiveram lugar justamente sob Domiciano e Trajano, quando a principal força do
exército romano passou da Germânia para as províncias danubianas (uma dezena de
legiões, isto é, 1/3 do total). Mais tarde, registaram-se apenas mudanças modestas,
guardando as legiões geralmente as mesmas regiões, pelo menos até à ruptura ocorrida
em meados do século III. Instaladas junto à própria fronteira ou ligeiramente recuadas,
as legiões passaram a estar incumbidas da vigilância de um sector do limes, que se
organizou entre finais do século I e começos do século II. Ainda que o essencial das
guarnições se compusesse de tropas auxiliares, as legiões para aí destacaram pequenos
500
L. F. Pitts e J. K. St. Joseph, Inchtuthil: The Roman Legionary Fortress, Londres, 1985.
501
Como L. Keppie, entre outros (cf. The Making of the Roman Army, p. 148, e a planimetria mapa do forte, fig. 47). F.
Bérard, «Légion Romaine», in J. Leclant (ed.), Dictionnaire de l’Antiquité, p. 1242.
502
J.-C. Bally e W. van Regen: Apamée de Syrie. Quartiers d’hiver de la IIe légion Parthique. Monument funéraires de
la nécropole militaire, Bruxelas, 1993.
503
«The Organization of the legion: The first cohort and the Equites Legionis», JRS 59 (1969), pp. 50-55.

200
contingentes, especialistas e técnicos diversos, forças de policiamento ou de recolha de
informações (designadamente os beneficiarii), oficiais e suboficiais, em particular os
centuriões, que assumiam o comando de pequenas formações étnicas, ou forças
provisórias concebidas para missões pontuais.
Com as legiões fixadas nas suas guarnições, o sistema da vexillatio tornou-se habitual,
empregando-se de maneira quase generalizada, tanto envolvendo contingentes
reduzidos encarregados de tarefas logísticas (que os académicos alemães rotularam de
Arbeitvexillationen, em regra confiadas a centuriões), como forças maiores organizadas
para grandes expedições (Kriegvexillationen, comandadas por um praepositus, que
podia ser um legado, um tribuno ou um antigo primus pilus). Se, por um lado, as
expedições no início do Império ainda foram realizadas com unidades completas –
desde as oito legiões de Germânico em 16-17, até às consideráveis forças que Trajano
utilizou nas campanhas da Dácia -, por outro, as difíceis guerras danubianas de Marco
Aurélio e de Cómodo, bem como as campanhas severianas, fizeram-se por meio de
vexilações, sobre as quais abundantes fontes epigráficas dão a conhecer muitos dos
seus comandantes.
A crise da segunda metade do século III traduziu-se em mudanças significativas, como
a substituição dos legados senatoriais pelos prefeitos equestres, o aumento do número
das legiões (que subiram de 34 para 66 sob Diocleciano, voltando a duplicar no século
IV) e a sua divisão em diversas guarnições como se atesta pela Notitia Dignitatum. No
entanto, estes fenómenos continuam a ser mal conhecidos, assim como o efectivo de
cada nova legião; actualmente, a maioria dos especialistas vê nos 1000 homens
tradicionalmente aceites um número demasiado pequeno sobretudo para o período
tetrárquico. Em todo o caso, a legião permaneceu, até ao tempo de Constantino I, uma
das forças essenciais de Roma, tanto nas tropas da fronteira (limitanei ou riparienses)
como igualmente no exército de campanha (comitatenses e palatinae), em que a
infantaria era sempre constituída por vexillationes destacadas a partir das legiões,
mesmo numa altura em que os auxiliares e as novas unidades de cavalaria gozassem,
doravante, de um prestígio pelo menos equivalente. Nesta alínea, contentámo-nos em
oferecer uma visão de conjunto sobre as legiões. Mais à frente, esmiuçaremos várias
destas evoluções e mudanças.

Cavalaria legionária

Como referimos, cada legião dispunha, em princípio, de 120 soldados montados


(equites legionis)504. No entanto, só uma fonte, Flávio Josefo, atesta este número:
quando o escritor (e ex-militar) escreveu a sua descrição do exército romano na Judeia,
sob a égide de Vespasiano e de Tito, a cavalaria legionária totalizava 120 homens. Na
ausência de qualquer outro testemunho, muitos estudiosos depreenderam, baseados
em Josefo, que o mesmo número se aplicaria a todas as legiões dos primeiros dois
séculos da nossa era. Por motivos de ordem administrativa, os equites legionis viam-se
afectados a diferentes centúrias legionárias, o que dá a impressão de que todos eles
receberam instrução como infantes aquando da recruta e, depois de afectos à cavalaria,
permaneceriam, ainda assim, com os seus nomes exarados nos registos das suas
centúrias originais. A documentação epigráfica mostra que os cavaleiros eram
comandados por centuriões, tal como as restantes tropas, e não por decuriões, que
consistiam nos chefes de todas as outras unidades de cavalaria. Uma inscrição
menciona um optio equitum, que serviu na quinta centúria da sétima coorte da legio III
Augusta (CIL VIII, 2568, 18), e uma lápide de Lincoln (Inglaterra) informa-nos que o

504
K. R. Dixon e P. Southern, The Roman Cavalry, from the First to the Third Century AD, Londres, 1992.

201
cavaleiro Quintus Cornelius esteve sob as ordens do centurião Cassius Martialis. Não
temos maneira de apurar se os equites residiriam nas casernas das centúrias nas quais
inicialmente foram incorporados, ou se (embora figurando nos registos das centúrias)
estariam alojados juntos num determinado lugar dentro de uma fortaleza legionária.
Afora Flávio Josefo, não dispomos de mais fontes antigas que nos esclareçam quanto
aos efectivos da cavalaria legionária até meados do século III: durante o reinado de
Galieno, como oportunamente pormenorizaremos, quando o Império corria o sério
risco de se desintegrar, o número dos equites legionis aumentou grandemente,
passando para 726 cavaleiros: esta cifra colhe-se na obra de Vegécio, que afirma haver
66 soldados de cavalaria em cada coorte e 132 na primeira coorte (Epitoma rei
militaris, II, 6).
Quanto às funções da cavalaria legionária, jamais surgem explicitamente estabelecidas
na documentação, em qualquer fase da sua existência. Alguns sugeriram que estes
soldados eram mensageiros montados, mas parece que eles treinavam em conjunto
enquanto unidade e praticavam os mesmos exercícios que a cavalaria vulgar, utilizando
as mesmas armas. Quando Adriano discursou às suas tropas depois dos seus exercícios
militares em Lambaesis, na Numídia, o imperador enalteceu os equites legionis pela
destreza evidenciada no arremesso de dardos, actividade que levaram a cabo
envergando as couraças legionárias (CIL VIII 18042; ILS 2487; 9133-9135).
Embora saibamos que a cavalaria legionária actuava como um todo coeso e se
apresentava agrupada na ordem de marcha, desconhecemos se havia um oficial a
comandar os equites. De acordo com certos autores, ele poderia corresponder a um
centurião, mas para outros seria um optio, ao basearem-se na inscrição acima citada
(CIL VIII 2568). No século III, quando o imperador Galieno necessitou de forças
armadas dotadas de grande mobilidade e velocidade para acudirem a ameaças em
várias frentes distintas, ele, alegadamente, terá reunido todos os tipos de cavalaria,
tanto das unidades auxiliares como das legiões, criando uma espécie de «exército
montado» sob o mando de Auréolo (teoria, porém, que ultimamente tem sido posta em
causa). Vegécio, por seu turno, diz-nos que a cavalaria legionária do Baixo-Império
estava dividida em turmae e era comandada por decuriões.

«Engenheiros», «artilheiros» e outros especialistas 505

No exército imperial romano, não havia, como afirmámos, um corpo autónomo de


engenharia ou de artilharia. Assim, os «engenheiros» e «artilheiros», bem como outros
militares especialistas, encontravam-se registados enquanto membros de centúrias
individuais. Os homens que exerciam funções específicas recebiam a designação
colectiva como immunes (sobre os quais mais diremos na numa das alíneas do capítulo
VII), soldados dispensados de certos deveres, como o da participação em turnos de
guarda ou em corveias, além de outras tarefas como a limpeza de latrinas. Os immunes
atestam-se em meados do século II, mas o conceito remonta, provavelmente, a tempos
mais recuados. Não havia pagamento de remunerações adicionais para os especialistas
e, no tocante ao étimo immunis, não significava um posto mas antes um conjunto de
militares que tinha autorização para se dedicar a tarefas específicas.
O jurista Tarrutieno Paterno compilou uma lista dos immunes das legiões (Digesta,
50.6.7), muito possivelmente quando foi nomeado prefeito do pretório, no reinado de
Marco Aurélio. A lista parece não obedecer a uma ordem concreta, mas constatamos
505
Sobre este aspecto: R. MacMullen, «Roman imperial building in the provinces, HSCPh 64 (1959), pp. 207-235; idem,
Soldier and Civilian in the Later Roman Empire, Harvard, 1967, pp. 23-48; B. J. Campbell, The Roman Army…A
Sourcebook, §§ «Soldiers as builders and engineers», pp. 120-127 (com documentação aduzida); P. Southern: The
Roman Army, pp. 102-105.

202
que ela inclui o pessoal que efectuava actividades de engenharia, aqueles que
fabricavam armas e outras peças do equipamento militar, soldados que trabalhavam na
administração (mantendo actualizados os registos das unidades), outros que se
achavam afectos aos hospitais e eram assistentes de médicos, além dos que tratavam
dos animais pertencentes a uma legião.
Entre os que constam como ligados à engenharia, Tarrutieno alude aos metatores e aos
militares que supervisionavam o escavamento de valas ou fossos e a demarcação de um
recinto, necessários quando se montavam acampamentos ou para a escolha dos sítios
para a construção de fortes, além daqueles que estavam envolvidos em obras
edificatórias e no transporte de materiais (fazedores de telhados, pedreiros,
carpinteiros e marceneiros, trabalhadores de metal e vidro, canalizadores, construtores
de condutas de água, ferreiros, etc). Especificamente associados ao fabrico e reparação
de armas e equipamentos, havia homens que manufacturavam arcos, flechas e espadas,
e outros especializados na feitura de instrumentos musicais, como as trombetas.
As actividades edificatórias ocupavam um significativo lugar na vida laboral do
legionário. Com efeito, eram habitualmente os soldados que construíam estradas e
pontes (além dos fortes e fortalezas nas diversas províncias), participando também na
abertura de canais, obras de alargamento de rios e, até, na abertura de minas. Tácito
(Ann. 11.20) conta que um comandante chamado Curtius Rufus empregou soldados
para escavar uma mina de prata no território da tribo dos Mattiaci (zona actualmente
situada entre Mainz/Mogúncia e Wiesbaden, na Alemanha). Curtius recebeu honras
triunfais (ornamenta triumphalia) pelas suas proezas na Germânia; as suas tropas
escreveram ao imperador, sugerindo, não sem ironia, que o princeps deveria ter
concedido um triunfo ao dito comandante antes de partir em campanha, de maneira
que, ao haver já obtido uma recompensa, se mostrasse menos ansioso por alcançar a
glória e não obrigasse os seus homens a trabalharem tão arduamente.
As estradas assumiam especial importância para o estabelecimento de uma boa rede de
comunicações e para as movimentações das tropas; as legiões construíram milhares de
milhas de estradas por todo o Império. Muitas das informações sobre quem realizou
tais obras procedem de legendas gravadas em marcos miliares e de outras fontes
epigráficas: num marco (ILS 5834) da província da Arábia faz-se referência ao
calcetamento de uma estrada que foi construída pelos soldados do governador
provincial Gaius Claudius Severus, durante o reinado de Trajano506. Ao contrário ao
que por vezes se supõe, a pavimentação das estradas constituiu um desenvolvimento
relativamente tardio, não se evidenciando em todas as províncias; no caso citado, o
simples facto de se realçar a obra viária mostra que se tratou de um empreendimento
invulgar e útil. Por seu lado, os legionários da III Flavia e da VII Claudia construíram a
estrada de Trajano ao longo do Danúbio, para o efeito chegando a remover parte de um
desfiladeiro. Noutro palco geográfico, na Síria, encontrou-se uma inscrição perto do rio
Orontes, documentando a construção de uma via por quatro legiões, a III Gallica, a IV
Scythica, a VI Ferrata e a XVI Flavia. A epigrafia testemunha, igualmente, a presença
de soldados pertencentes a vinte unidades auxiliares, as quais raramente aparecem em
inscrições alusivas a obras edificatórias507.
Passemos à artilharia508. Os Romanos utilizavam diversos tipos de peças (algumas
herdadas dos Gregos), descritas de diferentes maneiras nas fontes, como as ballistae,
os scorpiones, catapultae, onagri e as carroballistae, categorizadas sob a designação
genérica de tormenta, como se assinala na narrativa da Guerra das Gálias, de Júlio
César. As ballistae eram uma espécie de grandes béstas montadas, que lançavam
projécteis deslizando através de uma ranhura: tanto podiam disparar flechas com
pontas de ferro quadrangular como dardos e enormes lanças concebidas para o
desmantelamento de muralhas (pila muralis). À excepção, talvez, dos modelos de
506
J. B. Campbell, The Roman Army […] A Sourcebook, doc. nº 198.
507
D. van Berchem, «Une inscription flavienne du musée d’Antioche», Museum Helveticum 40 (1983), pp. 185-196.
508
Estudos globais: O. Lendle, Schildröten. Antike Kriegmaschinen in poliorketischen Texten, Wiesbaden, 1975; D.
Baatz, Bauten und Katapulte des römischen Heeres, Estugarda, 1994; D. B. Campbell, Greek and Roman Artillery 399
BC-AD 363, Oxford, 2003, pp. 22-43.

203
menores dimensões, a propulsão não resultava da elasticidade de um arco, mas antes
da súbita distorção de dois feixes de fibras torcidas, nos quais estavam encaixados os
braços do aparelho, que, por sua vez, se viam esticados por meio de alavancas de
linguetas.
Os scorpiones509eram pequenas balistas que lançavam, essencialmente, pesados
dardos, as catapultae, fundas mecânicas, arremessavam bolas de pedra de peso
variável, podendo atingir mais de 40 kg; assemelhavam-se às ballistae, providas de
uma ranhura para o lançamento, a menos que fossem construídas segundo o princípio
das manganelas, com uma alavanca propulsora rematada por uma «colher», onde se
colocava o projéctil. Quanto aos onagri510 (sing. onager, «onagro»), seriam pequenas
catapultas deste género. Por fim, as carroballistae comportavam engenhos de guerra
de maiores dimensões (manuballistae, cheiroballistrae511), mais potentes e facilmente
transportáveis do que as ballistae, montadas sobre rodas e puxadas por animais de
carga. Em princípio, cada centúria dispunha de uma peça, mantida por alguns dos seus
soldados. Utilizava-se a artilharia na defesa dos acampamentos, dos entricheiramentos,
e, naturalmente, nos cercos. O peso e a lentidão do tiro conduziam a que, por norma,
ela não fosse utilizada nas batalhas em terreno descoberto, embora saibamos que Júlio
César se tenha servido de peças ligeiras em tais circunstâncias. Algumas delas até
podiam ser montadas na proa das galés.
Para os assédios, havia muitos tipos de engenhos 512, geralmente construídos no local.
Os mais imponentes eram as torres de assalto (turres ambulatoriae), por vezes com
uma altura superior a 30 m, montadas sobre rodas ou cilindros, feitas de madeira e
cobertas por couro espesso ou placas de ferro, para as proteger dos projécteis
incendiários dos sitiados. Os aparelhos mais modestos eram os plutei, simples guarda-
fogos de vime, ocasionalmente munidos de rodas, que serviam para proteger os
legionários enquanto trabalhavam. As vineae, por seu turno, correspondiam a cabanas
de uns 5 m de comprimento, 2 de largura e 2, 5 de altura, cujo tecto, de tábuas
revestidas de vime e couro, se destinavam à protecção contra projécteis inimigos: os
seus lados podiam ser abertos ou resguardado da mesma maneira, mas as extremidades
eram sempre abertas; várias vineae encostadas umas às outras formavam uma galeria
protegida, que permitia a aproximação das defesas do adversário (algumas estando
montadas sobre rodas). Havia ainda os musculi, parecidos com as vineae, só que mais
compridos, baixos e estreitos, que também serviam para formar galerias.
As testudines eram outro género de vineae, muito sólidas, montadas sobre rodas, com
a parte frontal blindada, estando geralmente armadas de um aríete: este, que também
podia ser suspenso do piso inferior de uma torre de assalto, compunha-se de uma
massa de ferro fixada num tronco maciço, por sua vez envolto em cordas e couro, a fim
de não estalar sob o efeito de choques repetidos. No equipamento de cerco existiam
igualmente ganchos com grandes cabos (falces murallis) para abrir brechas nas
muralhas, e escadas (scalae) para trepar ao assalto.
No seu capítulo sobre as máquinas, o arquitecto Vitrúvio (De Arch. X, 10-13) dedicou
uma breve secção sobre a artilharia e os engenhos de cerco, oferecendo descrições de
como construí-los e apontando as dimensões de cada parcela dos aparelhos,
dependendo do comprimento das setas ou do peso das pedras lançadas. Flávio Josefo,
por seu lado, faculta elementos informativos sobre o emprego da artilharia nos assédios
que se efectuaram na Guerra Judaica, sob o comando de Vespasiano, e já no Baixo-
Império, Amiano Marcelino relata o cerco de Amida. Vegécio discute a utilização da
artilharia nas legiões (Epitoma rei militaris, 4.25). Estes dados, conjugados com os
achados arqueológicos de vários elementos de peças de artilharia no mundo romano,

509
No singular scorpio. A. Wilkins, «Scorpio and cheiroballistrae», Journal of Roman Military Equipment Studies 11
(2000), pp. 77-101.
510
V. G. Hart e M. J. T. Lewis, «Mechanics of the onager», Journal of Engineering Mathematics 20 (1986), pp. 345-365.
511
A. Wilkins, «Reconstructing the cheiroballistra», Journal of Roman Military Equipment Studies 6 (1995), pp. 5-60.
512
Sobre as máquinas de cerco e a poliocértica: D. B. Campbell, Greek and Roman Siege Machinery 399 BC-AD 363,
Oxford, 2003, pp. 34-43; idem, Siege Warfare in the Roman World 14 BC-AD 378, Oxford, 2005.

204
permitem aos historiadores actuais proceder a reconstituições no âmbito da
arqueologia experimental, algumas das quais funcionaram eficazmente.
Sabemos menos a respeito dos soldados que manobravam estes engenhos. Os
«artilheiros» aparecem especificamente referidos na lista dos immunes de Tarrutieno,
mas carecemos de pormenores quanto ao seu número e à maneira como estariam
organizados. Vegécio indica que onze homens de cada centúria eram empregues no
funcionamento das carroballistae, que disparava grandes flechas. E. W. Marsden 513
observa que na Coluna de Trajano apenas se representaram dois homens a manejarem
uma máquina de lançamento de setas, quando não há dúvidas de que existiriam outros
soldados encarregados de cuidar dos animais e da carriagem empregues no transporte
das peças.
Provavelmente, os indivíduos que fabricavam e mantinham em condições os engenhos
de artilharia seriam designados como architecti, mencionados como immunes na lista
de Tarrutieno. As oficinas (fabricae) dos acampamentos e fortes legionários teriam
meios para produzir e consertar facilmente as peças de artilharia, contando com a
imprescindível ajuda dos ballistari, sob a supervisão do praefectus fabrum e do
praefectus castrorum. Uma estela funerária descoberta em Roma evoca a carreira de
um architectus legionário, Gaius Vedennius Moderatus (ILS 2034), que viveu durante
o século I d. C.: ele começou o serviço militar na XVIª legião Gallica, na Germânia
Inferior, e depois foi transferido para a Guarda Pretoriana; logo a seguir à sua
desmobilização, pediram-lhe que continuasse a trabalhar no arsenal imperial, devido
ao seu talento como «arcitect[us] (sic)».

Auxilia e numeri514

Desde a República, o exército romano dispôs, como vimos, de contingentes fornecidos


pelos povos aliados que consistiam em unidades de cavaleiros (técnica de combate mal
dominada pelos Romanos), como os mauri, de infantaria ligeira ou de combatentes
especializados, haja em vista os archeiros cretenses ou os fundibulários das Baleares.
Depois da concessão da cidadania a todos os homens livres de Itália em 89 a. C., esses
contingentes passaram a ser recrutados fora da península, cujos habitantes podiam
doravante ingressar nas legiões. A utilização das tropas qualificadas de auxilia
desenvolveu-se sob o Principado, nomeadamente na cavalaria 515, que arrolou
numerosos Batavos e Gauleses, a tal ponto que o exército imperial se serviu também de
unidades étnicas sem uma especialidade definida. As últimas tiveram por incumbência
a vigilância das regiões de onde eram oriundos ou, então, a exercer a mesma função
num sector geográfico distante, de modo a facilitar a pacificação. Foi o que aconteceu
com os cavaleiros mauritanos na província de África, chefiados por Lúsio Quieto
(Lusius Quietus), que desempenharam um papel determinante no corpo expedicionário
de Trajano durante as Guerras Dácicas.
As alas (alae)516 englobavam 16 turmae de 30 cavaleiros cada, enquadradas por um
duplicarius e por um decurião. As coortes517 possuíam 6 centúrias de soldados de
513
Deste autor, vejam-se as obras, Greek and Roman Artillery. Historical Development, Oxford, 1969 (para a artilharia
romana e a sua eficácia, cf. pp. 86-98, 164-168), e Greek and Roman Artillery. Technical Treatises, Oxford, 1971.
514
Sobre os auxilia: G. L. Cheesman, The Auxilia of the Roman Imperial Army, Oxford, 1914 (apesar de antiga, é obra
que ainda contém muitos dados profícuos); P. A. Holder, Studies in the auxilia of the Roman Army from Augustus to
Trajan, British Archaeological Reports, International Series, 70, 1980; B. D. Saddington, The Development of the
Roman Auxiliary Forces from Caesar to Vespasian, 49 BC-AD 79, Harare, 1982. Quanto aos numeri, cf. P. Southern,
«The Numeri of the Roman Imperial army», Britannia 20 (1989), pp. 81-140.
515
Para mais informações sobre a cavalaria auxiliar: N. Fields, Roman Auxiliary Cavalryman AD 14-193, Oxford, 2006,
pp. 8-11.
516
J. Spaul, Ala: the Auxiliary Cavalry Units of the Pre-Diocletianic Imperial Roman Army, Andover, 1994.
517
IDEM, Cohors. The Evidence for and a Short History of the Auxiliary Infantry Units of the Imperial Roman Army,
Oxford, 2000.

205
infantaria (cada com 80 homens: cohors peditata), totalizando 480, como nas legiões.
Havia também coortes mistas, chamadas «montadas» (cohortes equitatae), que
associavam às 6 centúrias de 80 infantes cada 4 turmae de 30 cavaleiros, totalizando
um efectivo de aproximadamente 600 homens (ou 500, se as centúrias tivessem apenas
60 homens).
A partir dos Flávios, atestam-se também as coortes milliares, cujos efectivos, como se
infere, representavam cerca do dobro das precedentes (quingenariae). As alas
milliares tinham 24 turmae com 30 cavaleiros cada (= 740 homens, em vez de 1000,
número teórico que obrigaria a pressupor a existência de turmae com 42 cavaleiros)), e
as coortes milliares 10 centúrias com 80 homens de infantaria, e as coortes milliares
«montadas», juntamente com 10 centúrias de infantes, 8 turmae de cavalaria.Tratava-
se de unidades de elite: o exército romano só dispunha de uma dezena ao mesmo
tempo, na razão de uma, no máximo, por cada província518.
O comando das unidades auxiliares foi inicialmente confiado a notáveis indígenas que,
por vezes, davam os seus nomes às mesmas (alae Gallorum, Atectorigiana, Indiana519),
mas depressa passou para os oficiais romanos, tribunos, primipili ou mesmo centuriões
e, pouco depois, reservou-se para os membros da ordem equestre; além disso, elas
tinham um número e um nome que indicava o povo em que tinham sido recrutadas
originalmente520. Esta nomenclatura podia ser completada por um epíteto relativo ao
imperador criador da unidade em questão (e.g. Ulpia para Trajano), por adjectivos
evocando uma qualidade caracterizadora da mesma (piedosa, fiel), pela explicitação de
uma determinada especialização militar (archeiros, etc.) ou, ainda, da província de
guarnição.
Depois de vários ensaios, a carreira das milicias equestres adquiriu a sua forma
definitiva durante o reinado de Cláudio, começando, primeiramente, com uma
prefeitura de coorte auxiliar, a seguir um tribunato legionário angusticlavo ou um
tribunato de coorte miliária (ou de cidadãos romanos) e, por fim, a prefeitura de uma
ala de cavalaria521. A partir do tempo de Adriano, o comando de uma ala miliar veio a
acrescentar-se como uma quarta milícia para coroar as carreiras mais brilhantes.
Quanto aos oficiais subalternos, centuriões e decuriões, consistiam habitualmente em
antigos principales das legiões ou do pretório.
Com base nos diplomas militares que se preservaram, sabemos que as tropas auxiliares
eram numeradas de acordo com cada província, diferentemente das legiões, e pela série
de unidades recrutadas (por exemplo, conta-ser mais de meia dúzia de cohortes I
Thracum). Assim, não é possível determinar o número total de unidades dos auxilia no
Império com base nessa numeração. Apesar de tudo, houve quem calculasse os seus
efectivos, sugerindo que ascenderiam a cerca de 125 000 homens sob o principado de
Tibério. De facto, segundo Tácito (Ann. 4.5), deveriam equivaler, grosso modo, aos das
legiões e da guarnição de Roma. No fim do século I, supõe-se que terão subido para uns
150 000 homens e, na viragem do século II para o III, cifrando-se entre os 200 000 e
220 000. Este aumento explica-se sobretudo pelo facto de os auxiliares terem a tarefa
essencial da guarda das fronteiras.
Desde a dinastia dos Flávios, assiste-se ao desenvolvimento de unidades de choque,
haja em vista as coortes de Batavos ou de Bretões que estiveram envolvidas nas
campanhas danubianas de Domiciano e Trajano. De facto, o papel dos auxilia não se
cingiu à protecção do limes: note-se que a decisiva batalha de Mons Graupius522 (na
Caledónia, actual Escócia) foi ganha por um corpo de 8 000 soldados auxiliares (4
coortes de Batavos e 2 de Tungrianos), permanecendo as legiões em reserva (Tácito,
Agricola, 35-36). Por seu turno, nas guerras contra os Dácios, os auxilia contaram-se

518
E. Birley, «Alae and cohorts milliariae», in Corolla memoriae Erich Swobodae dedicatae, Graz, 1966, pp. 54-67.
519
Unidade que serviu pela primeira vez sob as ordens de Iulius Indus.
520
E. Birley, «Alae named after their commanders», Anc.Soc. IX (1978), pp. 257-274; M. A. Speidel, «Auxiliary units
named after their commanders: four new cases from Egypt», Aegyptus 62 1982, pp. 101-108.
521
F. Bérard, «Auxiliaires (Rome), in J. Leclant (ed.), Dictionnaire de l’Antiquité, p. 295.
522
Noutro capítulo estudaremos diversos aspectos sobre esta refrega.

206
entre as primeiras unidades miliárias e formaram, a par das legiões, o corpo de batalha
do exército romano: nos relevos da Coluna de Trajano, salta bem à vista a participação
activa das tropas auxiliares. Este fenómeno ainda é mais evidente na cavalaria, de que
as legiões se achavam quase desprovidas. Ao lado das alas quingenárias, ilustraram-se
as famosas alas miliárias (como a I Ulpia contariorum e a I Flavia Britannica, na
Panónia, ou a Petriana na Britânia), o contingente referido de mauri de L. Quietus, e
vexillationes provinciais, como o numerus equitum Illyricorum, que interveio na Dácia
e se tornou uma unidade autónoma.
Além das cohortes voluntariorum e das cohortes ingenuorum, formadas no decurso
das campanhas germânicas do fim do Principado de Augusto, as unidades auxiliares
foram-se abrindo paulatinamente a cidadãos romanos que se sentissem atraídos por
um serviço militar considerado menos difícil do que nas legiões, ou que não
satisfizessem os critérios exigidos para ingressarem nas últimas. Esta integração
progressiva dos auxilia no exército romano levou, no reinado de Adriano, à aparição de
novos contingentes étnicos denominados numeri523 (que também ainda se designavam
como nationes), cujo estatuto se revelava menos favorável, mas que conservavam os
seus métodos tradicionais de combate. Consistiam em tropas milliares, comandadas
por tribunos, ou quingenariae, sob as ordens de prefeitos.
As unidades auxiliares também levavam a cabo, no interior do império, tarefas mais
civis, de manutenção da ordem e de apoio das administrações provinciais. Mesmo que
não sejam todas conhecidas, havia em cada uma das províncias, ditas inermes, um
contingente militar, frequentemente de auxiliares, como na Ásia a cohors I Raetorum,
que fornecia officiales ao procurador provincial (AE 1981, 845; 1988, 1023). Tais
responsabilidades, que implicavam um certo grau de instrução dos soldados, mostram
que no século II os auxiliares realizavam, juntamente com os legionários, a maior parte
das missões confiadas ao exército romano, incluindo a própria guarda pessoal do
imperador, composta pelos equites singulares.

Os destacamentos

Em caso de necessidade, um general podia formar um ou vários destacamentos,


extraídos de uma ou mais legiões, de unidades de auxilia ou, ainda, de uma frota
(56524). Conforme vimos, a tais contingentes dava-se o nome de vexillationes, palavra
que deriva de vexillum/«estandarte», o qual os identificava (vexillatio, por sua vez,
procde de velum/«vela», «tecido»). Uma vexillatio servia para efectuar três géneros de
missões: participar em operações bélicas (totalizando 1000 ou 2 000 homens em
função das circunstâncias (58525)), em obras edificatórias ou ocupar um acampamento
ou um posto avançado. Consoante os efectivos, o comando podia confiar-se a um oficial
senatorial ou equestre, a um prefeito de acampamento ou a um antigo primus pilus, no
século I. No século II, a chefia passou a ser exercida por um legado ou um tribuno, um
praepositus ou um prefeito.
Depois do reinado de Marco Aurélio, uma vexillatio estava subordinada a um dux,
superior de vários praepositi. Como mais à frente pormenorizaremos, o recurso a este
tipo de unidade desenvolveu-se fortemente ao longo do século III. Salientemos que o
termo vexillarius possui duas acepções: pode reportar-se a qualquer membro de uma
vexillatio (59)526 ou, então, ao próprio portador do vexillum (60)527.

523
Para além do artigo de P. Southern citado numa das precedentes notas de rodapé, remetemos igualmente para outro,
mais antigo, de J. C. Mann, «A note on the Numeri», Hermes 82 (1954), pp. 501-506.
524

525

526

527

207
Na província de África identificou-se um caso invulgar, atestando-se numeri collati
(61). Estas unidades, idênticas às vexillationes, compunham-se de soldados extraídos
de diversas guarnições e reunidos sem um vexillum.

Forças suplentes

Numa situação de guerra, o poder central podia utilizar forças que Y. Le Bohec rotulou
de «supletivas»528, as quais frequentemente foram olvidadas pelos historiadores. Desde
as etapas iniciais do seu expansionismo, Roma constituiu protectorados governados
por príncipes ou reizetes, que, em alturas de conflitos armados, enviavam reforços:
estas tropas tinham o estatuto jurídico de socii. Juba II e depois o seu filho, Ptolomeu,
apoiaram os legionários contra o rebelde africano Tacfarinas (63) 529. Pisão, por seu
turno, utilizou estes aliados num projecto de guerra civil (64) 530. Os soberanos do
Oriente, principalmente árabes, ajudaram Vespasiano e Tito contra os Judeus (já neste
tempo os Judeus e os Árabes se odiavam, como escreveu, aliás, Flávio Josefo (65) 531).
Porém, a partir do começo do século II, tais protectorados, ao serem progressivamente
absorvidos, um após outro, acabaram por deixar de desempenhar um papel
significativo.
Por outro lado, a existência de milícias locais, dependendo das cidades, foi admitida
por vários historiadores, depois contestada e, a seguir, novamente aceite. De acordo
com o balanço actual, julga-se que elas serviriam mais para combater os bandoleiros e
salteadores do que os inimigos externos (66)532. Os estudiosos têm manifestado
opiniões divergentes quanto ao papel militar desempenhado pelos iuvenes, uma
espécie de associações ou «clubes» que integravam os filhos dos notáveis, que
promoviam a prática de desportos violentos e cultos cívicos (67) 533. Alguns escritores
antigos atribuiram-lhes um papel-chave, como, por exemplo, o autor anónimo da
História Augusta: ele escreveu que os iuvenes – quibus Africa tuenda comissa est-
eram responsáveis pela segurança de África (68) 534. Com efeito, eles podiam intervir em
face de uma ataque de um inimigo inesperado. Em 60, aquando da rebelião dos Iceni
liderados pela rainha Boudicca, a iuventus de Camulodunum representou a única força
de defesa da cidades contra os Bretões insurrectos (69) 535. Durante a guerra civil de 69,
temos notícia de iuvenes gauleses envolvidos contra os sublevados Boii de Marice
(70)536. No mesmo ano, outros combateram, aparentemente, no Nórico (71) 537.
No reinado de Marco Aurélio, os jovens de Thespias partiram numa expedição ao
serviço do imperador (72)538. Mas, na verdade, contra tropas profissionais, estes filhos
de gente rica não valiam grande coisa: por exemplo, os mobilizados nos Alpes
Marítimos para repelir os soldados de Otão e Vitélio foram logo desbaratados no
primeiro choque (73)539. Em 238, os iuvenes de África viram-se também rapidamente
eliminados por legionários (74)540, Por volta de 300, ainda, os jovens de Saldae (Bejaia,
528
La guerre romaine, p. 48.
529

530

531

532

533

534

535

536

537

538

539

540

208
ex-Bougie, Argélia) conseguiram afastar da muralha urbana misteriosos atacantes,
talvez montanheses Mauri (75)541.

A marinha de guerra imperial542

As origens das frotas imperiais foram, em muitos aspectos, semelhantes às das legiões
e dos auxilia. Na parte final das guerras civis, a luta contra Sexto Pompeio e a batalha
de Actium vieram a revelar a importância política do controlo das vias marítimas do
Mediterrâneo e, em especial, das águas em torno da península itálica. Após a vitória
definitiva sobre os seus adversários, o ainda só Octaviano viu-se, de repente, com 700
navios nas suas mãos. Muitas das unidades navais de Marco António ficaram
literalmente reduzidas a cinzas, mas o resto das mesmas foi enviado, como dissemos no
começo do presente capítulo, para Forum Iulii/Fréjus, na costa meridional da Gália,
onde se manteve uma esquadra até ao reinado de Nero. No entanto, as principais frotas
de Roma estacionaram em Misenum, na Baía de Nápoles, parcialmente para escoltar os
comboios de transporte de cereais provenientes do Egipto, e em Ravenna, no Adrático.
Estas bases foram escolhidas por usufruírem de portos grandes e seguros, e não tanto
por razões estratégicas, mas havia também contingentes da classis Misenatium ao
longo da costa ocidental de Itália, em Óstia, Puteoli (Pozzuoli) e Centumcellae. O
Mediterrâneo converteu-se num «lago» romano, sendo conhecido como mare nostrum
(se bem que a designação oficial nos mapas fosse a de Mare Internum), e a ameaça
maior radicava mais nos conflitos civis ou na pirataria do que nos antagonistas
externos. O que mais interessava ao imperador era manter tais frotas operacionais,
prontas a intervir quando necessário. Na realidade elas não foram precisas para
nenhum conflito de grande envergadura, pelo menos até às guerras civis de começos do
século IV.
Assim, a marinha serviu sobretudo para o transporte da família imperial e das tropas
em campanha. A este respeito, é sintomático o facto de existir, como anteriormente
referimos, um substancial destacamento de marinheiros de Misenum em Roma, que
participava na organização de espectáculos encenando batalhas navais (naumachiae;
Tácito, Ann. 12.56; Suetónio, Cláudio, 12.6) e manobrava, a partir de 80 d.C., o
gigantesco toldo montado no topo do Anfiteatro Flávio (Hist. Augusta/SHA, Cómodo,
15.6).
Os marinheiros (nautae) e soldados (milites classiarii)543 a bordo das frotas consistiam,
normalmente, tal como sucedia com os auxilia, em indivíduos sem a cidadania romana.
Integravam ex-escravos e egípcios544, que estavam impedidos de ingressar na maior
parte dos outros ramos das forças armadas romanas. As fontes epigráficas mostram
que os homens pertencentes à Classis Misenatum foram recrutados sobretudo nas
541

542
Sobre as forças navais romanas durante a época imperial, a monografia de C. G Starr, The Roman Imperial Navy, 31
BC-AD 324 (Ithaca, 1941, conhecendo uma 3ª edição em Chicago, 1993) continua a ser incontornável, ainda que se
revele desactualizada em alguns aspectos. Merecem igualmente referência os seguintes estudos, mais recentes e
documentados: D. Kienast, Untersuchungen zu den Kriegsflotten der römischen Kaiserzeit, Bona, 1966; H. D. L.
Viereck, Die römische Flotte. Classis Romana, Herford, 1975; M. Reddé, Mare Nostrum. Les infrastructures, le
dispositif et l’histoire de la marine militaire sous l’empire romain, Roma, 1986; J. Spaul, Classes Imperii Romani,
Andover, 2002; R. D’Amato e G. Sumner, Imperial Roman Naval Forces 31 BC-AD 500, Oxford, 2009. Para uma visão
genérica mais breve: B. Rankov, «Fleets of the early Roman empire, 31 BC-AD 324», in R. Gariner e J. S. Morrison
(eds.), The Age of the Galley, Londres, 1995, pp. 78-85; D.B. Saddington, «Classes. The Evolution of the Roman
Imperial Fleets», in P. Erdkamp (ed.), A Companion of the Roman Army, pp. 201-216.
543
Nas fontes antigas, utilizam-se também, de maneira intercambiável, os tradicionais termos gregos, reportando-se os
autores romanos aos oplitai fortemente armados, aos epibatai, aos nautai e aos eretai, os remadores.
544
Colhem-se provas em fontes papirológicas de recrutas egípcios incorporados na marinha até ao século IV d. C.: R.
Palme, «Die römische Armee von Diokletian bis Valentinian I: Die papyrologische Evidenz», in Y. Le Bohec e C. Wolff
(eds.), L’armée romaine de Dioclètien à Valentinien Ier, p. 113.

209
províncias orientais, em particular no Egipto, ao passo que os da classis Ravennatum
procediam maioritariamente das províncias danubianas.
Havia também várias frotas provinciais: a Classis Alexandrina, sediada em Alexandria,
no Egipto, no tempo augustano, constituía provavelmente um legado da guerra contra
Marco António e Cleópatra; as equipagens compunham-se igualmente de Egípcios, mas
só os que usufruíssem da cidadania alexandrina e romana (embora diversos autóctones
tenham servido nas frotas italianas). O papel desempenhado pela Classis Alexandrina
consistia, decerto, em garantir protecção aos navios que, da foz do Nilo, partiam em
direcção a Roma carregados de cereais, se bem que a frota também operasse noutras
missões ao longo do rio, esporadicamente. Existia também a Classis Syriaca, no século
I d. C., que vigiava e defendia a linha costeira da Síria e da Judeia. Depois de 44 d. C., as
frotas Alexandrina e Syriaca destacaram vários navios para Cesareia (actual
Cherchell), a capital da Mauretania Caesariensis, no Mediterrâneo Ocidental.
Quanto às demais flotilhas 545 provinciais, encontravam-se todas baseadas junto das
fronteiras setentrionais, tendo a sua génese em finais do século I a. C. e no começo de I
da nossa era. Várias delas eram fluviais, em vez de marítimas, incluindo a Classis
Germanica546, no Reno, cuja base se localizava em Colonia Agrippinensis (Colónia), a
Classis Pannonica, no Médio Danúbio, sediada em Sigidunum (perto da actual
Belgrado), e a Classis Moesiaca, no Baixo Danúbio, cujo centro operacional se situava
perto do delta do Danúbio. As tarefas destas frotas prendiam-se basicamente com o
transporte de soldados e provisões, ainda que, por vezes, estivessem envolvidas em
operações bélicas que se desenrolavam próximo dos rios. No mar Negro, a marinha dos
reis do Ponto viu-se reorganizada, recebendo a denominação de Classis Pontica,
estacionada na costa norte da Ásia Menor e na Crimeia 547. Adicionalmente, na Britânia
estabeleceu-se uma frota, a Classis Britannica548, quando a ilha foi invadida em 43 d.
C., funcionando a partir das bases de Dover e Boulogne.
O tipo de galé de maior importância nas frotas era a trirreme, que compreendia três
níveis de remadores (remiges) e uma tripulação de aproximadamente 200 homens,
embora as flotilhas fluviais possuíssem mais birremes (de menor tamanho) e
embarcações com apenas uma só bancada. As duas principais frotas dispunham de
algumass quadrirremes (com duas bancadas e igual número de homens por cada remo)
e quinquerremes (três níveis com um ou dois homens por cada remo).
A frota de Misenum tinha uma «galé-capitânia», a Ops/«Riqueza» (CIL 10 3560,
3611), provida de três bancadas de remadoras (na razão de dois homens por cada
remo). Temos conhecimento da existência de 88 navios na classis Misenum: um
hexarreme, um quinquerreme, dez quadrirremes, 52 trirremes e quinze naves mais
pequenas (liburnae). Quanto à frota de Ravenna, sabemos os nomes de dois
quinquerremes, seis quadrirremes, 23 trirremes e quatro liburnae, o que nos leva supor
que teria cerca de metade do tamanho da frota de Misenum.
Os marinheiros549 serviam ao longo de 26 anos (subindo para 28 no século III) e,
aquando do seu licenciamento, recebiam a cidadania romana. Apresentavam-se
organizados de maneira similar aos auxilia; nas inscrições, verifica-se que vários deles
se intitulam de milites e, aparentemente, uma distinção nítida entre os remadores e as
tropas a bordo, que poderíamos qualificar de «fuzileiros». Com base na documentação
antiga, entre os efectivos encontramos menções aos habituais immunes, bem como ao
tesserarii, suboptiones, optiones, signiferi e vexillarii. Contudo, havia principales
especificamente náuticos - os celeustae ou pausarii (encarregados de transmitir a
cadência de voga aos remeiros), os proretae, «oficiais de proa» e os gubernatores,
«timoneiros».
545
Por vezes, tratava-se apenas de esquadras.
546
H. C. Konen, Classis Germanica. Die römische Rheinflotte im 1.-3. Jahrhundert n. Chr., St. Katharinen, 2000.
547
Sobre as flotilhas do Baixo Danúbio e do mar Negro, veja-se O. Bounegru e M. Zahariade, Les forces navales du Bas
Danube et de la Mer Noire, Oxford, 1996.
548
D. J. P. Mason, Roman Britain and Roman Navy, Stroud, 2003.
549
M. Reddé, «Les marins», in G. Alföldy, B. Dobson e W. Eck (eds.), Kaiser, Heer und Gesellschaft in der Römischen
Kaiserzeit, pp. 179-189.

210
Ao comandante de um navio chamava-se trierarchus e os das esquadras navarchii
(designações tomadas de empréstimo da língua grega); destes, o mais graduado era o
navarchus princeps. Estes postos equiparavam-se, em certa medida, aos centuriões, o
que se confirma através do facto de alguns dos seus titulares se referirem a si próprios
enquanto tais, se bem que vários estudiosos acreditem que os centuriones das frotas
deveriam corresponder somente aos oficiais das tropas de guarnição 550. Uma frota tinha
como seu chefe supremo um praefectus equestre, situado hierarquicamente acima dos
militia equestris, coadjuvado por procuratores. Muitos dos últimos, sob a égide de
Cláudio e de Nero, ainda eram libertos (antigos escravos alforriados dos imperadores) e
alguns vieram a comandar até frotas.
A participação activa das frotas de Misenum e de Ravenna, durante a Guerra Civil de
68-69, conduziu a que se reconhecesse oficialmente a sua relevância: Vespasiano
concedeu às duas o título honorífico de praetoria e, a partir de então, viram-se
confiadas a prefeitos da ordem equestre que ocupavam um escalão abaixo do prefeito
dos vigiles e das outras grandes prefeituras. Em 79 d. C., o prefeito da frota de
Misenum foi o conhecido escritor Plínio-o-Antigo, que veio a perecer quando conduziu
os seus navios ao longo da Baía de Nápoles, ao tentar salvar alguns amigos da trágica
erupção do Vesúvio; este episódio foi narrado, aliás, numa carta (Ep. 6.16), pelo seu
sobrinho homónimo, Plínio-o-Moço.

CAPÍTULO VI: Guerra e estratégia (fim da República- século II d. C.).


O desenvolvimento do limes na época imperial

550
E. Sander, «Zur Rangordnung des römischen Heeres: Die Flotten», Historia 6 (1957), pp. 347-357.

211
No presente capítulo, rastrearemos as modalidades ou tipos de guerra que o exército
romano adoptou durante os últimos tempos da República e ao longo do Principado.
Sempre que possível, teremos em conta o contexto em que esses conflitos ocorreram, a
sua frequência, a duração, o seu valor (decisivo ou não), bem como os resultados. Antes
de mais, convém não esquecermos que qualquer conflito envolve, pelo menos, dois
lados, o que B. Isaac realçou no seguinte trecho: «São necessários dois partidos para
travar uma guerra, e ambos têm motivos. Enquanto a guerra estiver a desenrolar-se, os
objectivos dos dois lados irão mudar em função dos desenvolvimentos no campo de
combate, e o que quer que seja atingido poderá ser completamente diferente do que
fora planeado. Nem tão quanto é necessariamente verdade que existe um consenso em
cada um dos lados, no que respeita às metas e métodos. Tudo isto pode parecer um
lugar-comum. No entanto, é algo frequentemente ignorado pelos historiadores do
Principado»551.
Efectivamente, os Romanos não travaram a guerra num vácuo, mas contra oponentes
que possuíam as suas próprias razões para lutar e expectativas de como deveria
decorrer o conflito e qual seria o seu desfecho (os exércitos romanos pelejavam
sobretudo contra povos estrangeiros). A cultura e as práticas militares dos antagonistas
de Roma assumiram tanta importância em dar forma a cada conflito como o
comportamento do exército romano. Assim, afigura-se crucial estudar as primeiras,
embora quase todos os testemunhos disponíveis consistam em narrativas gregas e
romanas, as quais encerram distorções deliberadas, equívocos culturais e erros
flagrantes.
B. Isaac também realçou uma verdade fundamental, ao dizer que as finalidades das
guerras tendem a mudar amiúde e não podem, em caso algum, ser claras ou
universalmente aceites até por aqueles que lutam do mesmo lado. Quanto maior for a
magnitude e a duração de um conflito, o mais provável é que os objectivos dos
beligerantes se alterem. O desfecho pode não corresponder ao previsto por cada um dos
lados, o que muitas vezes origina novos problemas ou fontes de conflito.
Outra ressalva se impõe fazer. Urge não introduzir excessiva rigidez na análise que se
faça do fenómeno bélico, seja em que período for. Até os planos supostamente racionais
das nações modernas tiveram de se modificar grandemente em virtude de factores
como a pressão política, as rivalidades pessoais, objectivos confusos, o acaso e a
incompetência, entre outros. Não devemos ficar supreendidos ao observarmos
elementos semelhantes nas guerras de Roma, e cabe recorrer à prudência na
extrapolação de conclusões gerais a partir de incidentes particulares.
Na realidade, esta discussão da guerra praticada por Roma, e da utilização, pelo Estado
romano, do seu poder militar, insere-se num debate ainda mais amplo sobre a própria
natureza da sociedade romana. Nos últimos anos, diversos estudiosos interrogaram-se
até que ponto o sistema romano se deve realmente entender em termos hodiernos e
racionais. Frequentemente, os imperadores romanos têm sido descritos como figuras
quase passivas, reagindo a um apelo ou a um problema, mais do que perseguindo, de
modo activo, políticas conscientes e consistentes. Quanto à máquina burocrática
existente para administrar as províncias a nível local ou num âmbito mais alargado,
certos investigadores encararam-na como primitiva e ineficaz, por vezes mesmo como
praticamente simbólica. Analogamente, a economia do império foi entendida por
alguns como pouco sofisticada, impondo limites severos sobre o crescimento e a
prosperidade. Todavia, afirma-se incontestável o êxito de Roma, ao criar e manter um
tão vasto império, que perdurou por muitos séculos e exerceu uma profunda influência
na história posterior. Muitos académicos têm colocado a questão se este império foi
construído graças à força das instituições romanas ou, apesar das deficiências das
últimas. Ora, no coração deste debate há que situar o desempenho, o papel e a
551
The Limits of Empire, 1992, p. 3.

212
capacidade do exército profissional que foi, aparentemente, a instituição romana mais
sofisticada e moderna552.

Considerações preliminares sobre a estratégia

Consagramos boa parte deste capítulo à estratégia ou aos factores de ordem prática,
como o serviço de informações, as comunicações e a logística, que impõem limites
sobre a mesma. A estratégia abrange todos os planos, decisões e acções tomadas antes e
durante uma campanha, para se atingirem os objectivos de um exército. Os
comentadores modernos inventaram outra expressão, «grande estratégia», para
definirem o nível mais elevado da tomada das decisões, onde os líderes do Estado têm
em conta as preocupações políticas e militares para desenvolverem os seus interesses a
longo-prazo. Isto pouco se relaciona com o desenrolar de uma determinada guerra, e
nada tem a ver com campanhas específicas, mas como os conflitos individuais estão
conjugados com a diplomacia e a política, a fim de se atingirem as ambições de um
Estado no domínio dos negócios estrangeiros.
As definições destes termos e expressões, muito empregues em estudos estratégicos
contemporâneos, partem do pressuposto da existência de muitas instituições do
estado-nação actual que não conhecem paralelos nos tempos romanos. Note-se que em
latim, nem em grego, não há um vocábulo que signifique exactamente o mesmo que
«estratégia», e muito menos um equivalente a «grande estratégia». Consequentemente,
torna-se importante averiguar até que ponto é apropriado aplicar tais palavras para a
época romana.
É verdade que em certos aspectos a guerra não mudou ao longo da história humana.
Os guerreiros ou soldados têm de comer e beber para actuarem eficazmente. Ordens ou
planos, mesmo que rudimentares, necessitam de ser transmitidos ao grupo, se este
participar numa iniciativa que exija coordenação de esforços. Também existem limites
para a velocidade com que homens e animais se movimentam e nesta vertente a
geografia pode acarretar grandes restrições, uma vez que, por exemplo, apenas se
podem atravessar ou transpor rios e cadeias montanhosas em determinados pontos.
Estes são problemas básicos, incontornáveis, em qualquer género de operação militar,
desde a conquista das Gálias por Júlio César até às campanhas massivamente maiores e
mais complexas das guerras mundiais do século XX, ou até em raides envolvendo uma
dúzia (ou pouco mais) de guerreiros, como efectuaram os índios Apaches na década de
80 do século XIX, ou pelas tribos da «Idade da Pedra» estudadas por antropólogos e
etnólogos na Papua-Nova Guiné ou na Amazónia 553.
A tecnologia – com assinaláveis progressos nos transportes, comunicações e na
produção de material – pode ter alterado a maneira de lidar com tais problemas, mas
não chegou a resolvê-los totalmente. Porém, apesar de as dificuldades enfrentadas
pelos exércitos se terem mantido extraordinariamente consistentes ao longo da
história, as suas tentativas para as solucionar diferiram enormente no decurso do
tempo e de cultura para cultura. As guerras variaram imensamente na amplitude, no
tipo e na intensidade dos confrontos, nas suas motivações originais e nas suas
derradeiras consequências. O que faz sentido, a nível militar, para a guerra, real ou
hipotética, entre estados modernos providos de grandes exércitos, sofisticados,
profissionais ou constituídos por conscritos, combatendo dentro do contexto de

552
Millar, 1977; B. Isaac, 1992, pp. 5-6. Para uma visão da burocracia romana como uma máquina ineficaz, veja-se
Garnsey e Saller, 1987, pp. 20-40; para uma abordagem espelhando um ponto de vista oposto, ao centrar-se
principalmente na administração militar, consulte-se N. B. Rankov, 1999, pp. 15-34.
553
Veja-se, entre outros, Gardner e Heider, 1974. J. Keegan (1993) sublinhou a questão das influências culturais sobre os
métodos de fazer a guerra.

213
fronteiras nacionais claramente delimitadas, e sob o escrutínio do Direito Internacional
e da própria opinião pública, não teria necessariamente relevância para conflitos
opondo povos tribais vagamente organizados, ou entre Roma e os seus inimigos.
Afigura-se provavelmente inevitável estabelecer analogias com conflitos mais recentes
quando estuda a guerra praticada pelos Romanos, uma vez que há significativas
lacunas nas informações recolhidas nas fontes primárias. De facto, sobreviveram
poucos relatos detalhados para muitas das guerras que tiveram lugar nos séculos II e
III a. C., e para todo o Principado não se preservou uma narrativa de uma conflagração
contra povos fora do império comparável, no quer toca a pormenores, com a obra de
César, os Commentarii de Bello Gallico. Efectivamente, há escassos dados nas fontes
literárias antigas que ajudem a compreender bem a grande quantidade de documentos
arqueológicos e epigráficos relacionados com a presença do exército junto às fronteiras
do império. Não admira, pois, que isto tenha engendrado interpretações radicalmente
diferentes sobre as finalidades destas fronteiras e como estas funcionariam. Embora
algumas leituras comparativas com outras épocas sejam úteis, estes cotejos devem
fazer-se com extrema precaução, para que estes exercícios não ganhem precedência
sobre as fontes primárias.
A atenção dos investigadores centrou-se nos níveis mais altos e na polémica questão se
os imperadores romanos teriam verdadeira capacidade para conceber uma «grande
estratégia» para a defesa do império. Por enquanto, nesta matéria ainda não se reuniu
um amplo consenso, razão pela qual o debate continua bem aceso. Em contrapartida,
produziu-se um número bem menor de tratabalhos sobre a estratégia utilizada pelos
exércitos romanos em campanha. Muitas pesquisas incidiram em decisões estratégicas
particulares tomadas por ocasião de uma campanha específica, mas geralmente
incluindo comparações aleatórias com outras operações romanas 554.
Na medida em que cada estratégia é única, ditada pelas circunstâncias peculiares dos
acontecimentos e pelo grau de conhecimento acerca dos mesmos que possuíam aqueles
que tomavam a decisão (factores sobre os quais geralmente dispomos de informações
diminutas, vagas e imprecisas), justifica-se que se aborde cada escolha isoldadamente.
Contudo, ainda que cada situação militar possa traduzir um problema peculiar, os
comandantes, a título individual, da mesma sociedade, que ingressaram nas fileiras
mediante o mesmo processo de selecção (independentemente de qual tenha sido),
inclinar-se-iam a buscar soluções de maneiras similares. Assim, vamos explorar os
princípios em comum que estão subjacentes ao comportamento de um exército em
campanha.
Curiosamente, registaram-se poucas tentativas de examinar a estratégia desta forma.
Tal não se deveu à falta de evidências, na medida em que as descrições de guerras
figuram proeminentemente nos escritos de muitos historiadores gregos e romanos.
Parece-nos apropriado começar pelo nível da estratégia de campanha, antes de
transitar para a discussão das controversas mas fracamente documentadas questões
relativas à «grande estratégia» e à defesa fronteiriça. Talvez sirva, igualmente, para se
compreender alguns dos problemas suscitados pelo debate quanto a estes níveis mais
elevados de actividade e planeamento militares, se os perspectivarmos à luz da
actuação do exército romano em campanha.

No final do século II e durante o século I a. C. o processo mediante o qual o exército


romano evoluiu de uma milícia de cidadãos para uma força profissional já havia
terminado. No passado, alguns exércitos romanos evidenciaram fortes índices de
disciplina e moral, especialmente as legiões que permaneceram operacionais por uma
década ou mais tempo, no decurso das campanhas constantes da Segunda Guerra
Púnica e da fase imediatamente subsequente. Tais legiões provaram ser capazes de
efectuar manobras tácticas relativamente complexas, logrando derrotar os soldados
profissionais de Cartago e do mundo helenístico. Porém, como atrás realçámos, sempre
que um destes exércitos era desmobilizado, perdiam-se, em larga medida, o seu
554
Por exemplo: Maxfield, 1986, pp. 60, 70-71; 1989ª, pp. 24-25; Hanson, 1987, 128.

214
conhecimento e experiência colectivos. Embora os soldados e os oficiais possam ter
voltado ao serviço militar, não o faziam nas mesmas unidades e com os mesmos
comandantes. Assim, sempre que se formava um novo exército na época republicana, o
treino e a preparação das legiões para o combate teria de começar de novo.
Ora, a crescente permanência das legiões, fenómeno confirmado por fim por Augusto,
mudou esta situação, possibilitando que muita da experiência acumulada pelos
efectivos fosse transmitida para sucessivas gerações de recrutas. Mas isto não significa
que todas as legiões sob o Principado se mantivessem permanentemente no pico da
eficiência, na medida em que para o efeito era necessária vasta e exitosa experiência na
participação em campanhas. A este respeito, podemos destacar a asserção de Hirtius,
de que em 51 a. C. a legio XI estava a servir na sua oitava campanha, mas ainda não
havia chegado à qualidade das legiões veteranas (César, B. Gall. VIII.8). Isto sucedia
apesar de a referida legião ter combatido na maior parte das operações militares de
César nas Gálias, período que se caracterizou, de longe, por muitos mais confrontos dos
que em que o exército do Principado veio a intervir. No âmbito literário, o ideal do bom
comandante continuou a ser o de um homem que não arriscaria a chefiar os seus
homens numa pugna antes que eles tivessem passado por um rigoroso e intensivo
regime de treino555.
Porém, não resta a menor dúvida que a qualidade média de cada legião profissional de
finais da República e do Principado era superior à das unidades arroladas em períodos
mais recuados, de acordo com o sistema da milícia. Mais significativamente ainda, o
exército profissional exibia um altíssimo grau de engenho, tanto nas suas obras
edificatórias como um índice muito acrescido na capacidade de tomar de assalto
fortificações556. Era uma consequência directa da maior continuidade de pessoal no seio
das legiões profissionais e da inclusão de oficiais e soldados especializados, treinados
como engenheiros, artífices e artilheiros, bem como a própria vontade dos legionários
em servirem como força de trabalho.
Com a criação de unidades regulares de auxilia durante a primeira metade do século I
da nossa era, tornou-se claramente mais previsível a qualidade dos soldados não
cidadãos a servirem no exército. Estas tropas não só forneciam uma proporção bem
considerável dos efectivos do exército, como também o dotavam de uma arma de
cavalaria disciplinada, afora archeiros, fundibulários e outros géneros de infantaria
ligeira. Assim, a maior parte dos exércitos de campanha romanos consistiam em forças
bem equilibradas e muito flexíveis.
Neste período, nenhum inimigo estrangeiro de Roma possuía forças numericamente
comparáveis de soldados profissionais bem treinados. Os Partos e os Persas Sassânidas
(os reinos independentes com mais poder em contacto directo com o Império) tinham
exércitos compostos a partir de uma mescla de soldados mantidos em regime de
permanência na casa real e de contingentes fornecidos por «sub-reis» e nobres, daqui
resultando massas heterogéneas de guerreiros habitualmente providos de uma
cavalaria de grande qualidade, mas carecendo de uma infantaria eficiente. Se bem que,
neste ponto, os Sassânidas se revelassem melhores do que os Partos, nenhum deles
conseguia rivalizar com a capacidade e o talento dos Romanos em conquistarem
posições fortificadas. Noutras paragens, os «filhos de Marte» lidaram com povos cuja
organização social era bem mais frouxa. A maior parte dos povos tribais dos
«exércitos» da Europa consistiam em pequenos bandos de guerreiros mantidos por
chefes individuais, juntamente com um número muito maior de elementos livres das
tribos capazes de se equiparem à sua própria custa, lutando em grupos familiares ou
clânicos.
Na maior parte destas sociedades, o poder de um líder media-se pela quantidade de
guerreiros que conseguia manter à sua volta. Alguns deles, como Ariovisto, Marobodus
e Arminius, na Germânia, ou Burebista e Decébalo na Dácia, reuniram bandos
englobando milhares de guerreiros, mas o mais usual era que tais grupos se cifrassem,
555
R. Davies, 1989, pp. 71-90.
556
E. Luttwak, 1976, pp. 40-41.

215
no máximo, em várias centenas. Subsistem escassos indícios de que estes guerreiros
semi-profissionais praticassem algo mais do que a destreza militar individual. Os
«exércitos» tribais eram muitas vezes grandes, mas invariavelmente desajeitados e
descoordenados nas suas movimentações. Afora escassas excepções, eles não tinham
capacidade para se aprovisionarem numa campanha de longa duração, pelo que se
viam forçados a dispersar ou a passar fome se não obtivessem um resultado satisfatório
no espaço de algumas semanas. Quanto às forças compostas por populações sublevadas
nas províncias romanas, elas variavam enormemente: se a rebelião ocorressse durante
os primeiros anos de ocupação, os insurrectos podiam estar bem organizados e
pelejarem segundo as tradições auctótones; nas províncias que já se encontrassem
ocupadas há mais tempo, as populações tornavam-se, em maior ou menor grau,
desmilitarizadas, o que dificultava sobremaneira os revoltosos na tarefa de organizarem
forças numericamente grandes, bem equipadas e eficientes, mesmo que incluíssem
pequenos contingentes de indivíduos altamente motivados 557.
Em múltiplos aspectos, o exército romano era claramente superior a qualquer dos
antagonistas que enfrentou no período em questão, facto que se manifestava sobretudo
em acções militares de larga escala, em que a disciplina, a instrução militar, o comando
e o controlo se tornavam mais importantes, e na guerra de assédio. Isto conferiu ao
exército romano o que E. Luttwak definiu como «dominação de escalada» sobre os
adversários558. Se razoavelmente adestrados, aprovisionados e competentemente
comandados, o que usualmente, mas nem sempre, era o caso, os Romanos reuniam
possibilidades de vencer uma campanha, em tudo excepto em termos iguais. Generais
como Lúculo, Pompeio e César mostraram que legiões bem comandadas podiam
derrotar numerosos inimigos com bastante à vontade. Qualquer análise sobre as
guerras de Roma contra oponentes estrangeiros no espaço temporal em apreço deve ter
em conta a acentuada inferioridade técnica e táctica dos últimos relativamente ao
exército romano. Acresce que os comandantes romanos possuíam uma auto-confiança
que por vezes raiava a temeridade ou a imprudência.

Passemos às vertentes ligadas à geografia, tanto política como física. Não há provas de
que os Romanos tenham travado uma guerra simplesmente para controlarem
território559. As guerras desencadeavam-se sempre contra um oponente humano, uma
entidade sóciopolítica como uma tribo, um reino, uma cidade-estado ou uma aliança
formada por várias destas unidades. Não se podiam ignorar as barreiras físicas e um
terreno difícil, mas a geografia política era o factor mais importante que determinava
onde iriam combater os exércitos romanos. Muitas das fronteiras entre tais unidades
políticas afiguram-se actualmente muito complexas de discernir, e torna-se impossível
identificar a fronteira entre o território de duas tribos apenas com base nos dados
facultados pela arqueologia, apesar de muitas vezes se terem feito tentativas neste
sentido, recorrendo os investigadores a moedas ou vários tipos de cerâmica. Em todo o
caso, provávelmente tais realidades raramente seriam componentes estáticas. As
relações e a possível hierarquia existentes no seio de alguns dos grupos nomeados, por
exemplo, as tribos gaulesas e germânicas também não se deslindam a partir das fontes
antigas que se conservaram, além de que os próprios Romanos deveriam ter uma noção
bastante vaga sobre essas divisões. Acresce que as referidas fronteiras flutuavam em

557
Para uma descrição pormenorizada dos exércitos gauleses, germânicos e partos: A. K. Goldsworthy, The Roman
Army at War, pp. 39-75; Kennedy, 1996, pp. 67-90, 83-84. Grande parte da abordagem feita por Elton sobre os
Bárbaros ocidentais na Antiguidade Tardia também é relevante e válida para os tempos anteriores: cf. 1996 b, pp. 45-88.
558
Luttwak, 1976, p. 42.
559
Citemos outra passagem de B. Isaac (The Limits of Empire, p. 395): «Mais importante ainda, não pode restar
qualquer dúvida de que o foco do imperialismo romano tendia a ser étnico, mais do que territorial ou geográfico. Os
Romanos conquistaram povos, não terras. Isto fica claro pela terminologia utilizada em numerosas fontes. Os Romanos
falavam de Imperium Populi Romani, o poder do povo romano, não de Imperium Romanum num sentido geográfico. A
literatura latina fala invariavelmente da guerra contra um povo ou o seu rei».

216
função do poder dos chefes individuais 560. Ora foi neste ambiente que ocorreram as
guerras do período aqui em foco.
Ao estudar uma campanha, o historiador moderno procura, instintivamente, traçar o
seu percurso e etapas num mapa. Este método é profícuo, na medida em que nenhum
exército pode ignorar as características concretas do terreno em que se movimenta,
mas afirma-se igualmente uma tarefa decepcionante. Lembremos que os mapas
detalhados e rigorosos constituem uma inovação bastante recente e mesmo nos dias de
hoje existem largas parcelas do mundo que permanecem mal cobertas. Até ao século
XIX, muitos exércitos tiveram de elaborar os seus próprios mapas antes ou durante as
campanhas, o que se traduziu numa importante função de desenvolvimento do pessoal
militar.
Certamente que os Romanos necessitavam de obter informações topográficas da área
onde iria ter lugar uma campanha, embora eles não tenham reunido estes dados em
mapas elaborados á maneira moderna. A maior parte dos elementos informativos que o
exército precisava teria de ser reunida por patrulhas que, por vezes, incluíam oficiais
superiores e até o próprio comandante das forças armadas. As patrulhas não se cingiam
a explorar o terreno, visto que também interrogavam os habitantes da zona em causa e,
ocasionalmente, utilizavam guias auctótones. Depois, quase todo este conjunto de
informes era descrito em palavras, em vez de o transpor e representar numa espécie de
diagrama561.
A quantidade de informações geográficas à disposição dos comandantes romanos antes
de uma campanha variava consideravelmente em função das circunstâncias: uma
província, logo no interior do império, seria inevitavelme nte mais bem conhecida do
que o território não administrado por Roma. Ainda assim, há indícios de que se
mantinham apenas registos completos das estradas oficiais romanas, ao passo que as
outras vias, se bem que estabelecidas, se apontariam de maneira vaga. As guarnições
estacionadas na área estariam presumivelmente aptas a oferecer dados específicos
sobre tais caminhos562. Muitas dos informes obtidos relacionar-se-iam com os meios de
comunicação que davam acesso às principais localidades, através das quais um exército
marchava. Isto manifestava-se claramente no comportamento de uma força em
campanha, na medida em que havia uma grande propensão em seguir os mesmos
itinerários utilizados por tropas romanas que já tivessem operado nessa zona.
Em termos arqueológicos, a Alemanha e a Inglaterra oferecem muitos exemplos
palpáveis de sucessivos acampamentos de marcha construídos nos mesmos sítios, daí
que os exércitos romanos, por vezes décadas volvidas, optavam não só por marchar
pela mesma via, como também paravam nos mesmos intervalos, acampando quase nos
mesmos locais. Os factores que tornavam determinado um lugar apropriado para um
acampamento temporário erigido no decurso de uma operação bélica anterior podiam
ainda ser evidentes numa campanha posterior. Esta tendência reforça a imagem de um
exército que se centrava em vias concretas com um objectivo em mente 563.

Exame das modalidades bélicas: sistematização da tipologia dos conflitos


560
Elton, 1996 b, pp. 30-44. Para algumas tentativas de captar fronteiras tribais com base em artefactos da cultura
material, cf. G. Webster, 1993, pp. 41-75, Todd, 1999, pp. 29-42.
561
Sobre este assunto, veja-se Betrand, 1997, pp. 107-122. Aconselhamos também uma obra de C. Nicolet (autor que
muito contribuiu para estimular o debate sobre os mapas no mundo antigo: 1991.
562
B. Isaac, 1996.
563
Hanson, 1987, pp. 121-127.

217
É quase desnecessário dizer que os Romanos lutavam sempre pela vitória, mas as
causas das guerras, a nível individual, contribuíram muito para moldar o seu curso.
Cada conflito tinha, alegadamente, um motivo e um objectivo distintos, mesmo que
este facto não fosse consensualmente aceite. A questão de até que ponto a sociedade
romana, sobretudo sob a República, necessitou de participar numa constante sucessão
de guerras para conferir glória e riqueza à sua aristocracia, ou fornecer à economia
fornadas de prisioneiros (parte dos quais se convertiam em mão-de-obra servil), é
assunto que não nos cabe aqui desenvolver. Interessa-nos mais como é que o exército
romano fazia a guerra. Talvez seja conveniente agrupar as guerras contra inimigos
estrangeiros neste período em quatro grupos básicos, baseando-nos no modelo
classificatório preconizado por A. K. Goldsworthy:
Guerras de conquista. Implicavam um ataque contra um povo independente, fosse
um reino ou um estado. Em certos casos, a vitória romana resultava na criação de uma
nova província permanente, para administrar o território conquistado, mas era
igualmente possível que o inimigo derrotado ficasse reduzido à condição de cliente ou
aliado. Em ambas as situações o antagonista subjugado via-se incorporado no império.
O objectivo primacial de um exército de conquista era conseguir e manter o controlo
sobre o povo invadido. Os melhores meios para atingir esta meta dependiam da
organização social e política do inimigo. Se este dispusesse de uma força armada em
campanha, então a sua derrota numa batalha campal (ou ocasionalmente numa série
de recontros), depressa poderia conduzir à sua rendição. Estas derrotas mostravam
incontestavelmente que os Romanos eram mais fortes.
Todas as tribos da Gallia Belgica que estiveram presentes no Sambre, em 57 a. C.,
capitularam no rescaldo de uma refrega. Noutras fases das campanhas gaulesas, a
derrota de um «exército» tribal, tanto na Gália, como na Britânia ou Germânia,
obrigava muitas vezes a tribo a tentar negociar um acordo (B. Gall. II, 28, 3.27). No
caso dos Veneti, a sua marinha, mais do que o seu «exército» representava a principal
fonte de orgulho marcial da tribo, e só quando esta se envolveu em combate e foi
destruída é que a campanha terminou (B. Gall. 3.9, 3.12, 3.14-16). Assim, ganhar uma
batalha em campo aberto assegurava uma vitória célere e decisiva. Como vimos, os
exércitos romanos gozavam de muitas vantagens sobre os seus oponentes neste género
de porfia. Porém, tal não significa que um general romano procurasse livrar batalha em
todas as situações. No início da sua campanha do ano 57, Júlio César decidiu não
enfrentar as hostes concentradas das tribos da Belgica, não obstante ambos os lados
permanecerem bastante próximos um do outro durante algum tempo: nenhum dos
exércitos mostrou vontade de abandonar a sua posição para investir e, deste modo,
poder ficar em desvantagem (B. Gall. 2.7-8). De facto, as batalhas implicavam quase
sempre uma boa dose de risco, e um bom comandante demarcava-se por saber travá-
las apenas nas circunstâncias mais favoráveis e quando existiam perspectivas de
ganhos tangíveis564.
Recuando mais no tempo, em 134 a. C. Cipião Emiliano negou-se a ferir batalha com os
Numantinos, mesmo beneficiando de uma tremenda superioridade numérica de
efectivos (Apiano, Hisp. 87, 90-92). A precaução deste célebre general explica-se pelo
conjunto de recentes e humilhantes derrotas dos Romanos infligidas pelos Celtiberos.
Consequentemente, o moral dos soldados situava-se num dos seus níveis mais baixos e,
neste altura, o êxito numa contenda dependia, acima de tudo, do estado anímico das
tropas. Ao evitar um choque campal, Cipião resolveu montar assédio a Numância e
levar os sitiados à submissão. A rendição final de Numância pôs termo à guerra.
Tanto antes como depois da refrega junto ao Sambre, César venceu várias tribos da
Belgica ao assaltar os seus oppida mais importantes (B. Gall. 2.12-13, 2.29-33). A
564
B. Gall. 7.52.53. Para mais detalhes, A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War, pp. 204-206.

218
tomada da cidade mais emblemática de um povo, especialmente se ela tivesse um forte
significado político ou religioso, conduzia muitas vezes à capitulação. Em princípios do
século II d. C., Trajano parece ter feito da capital dácia de Sarmizegetusa o seu
principal alvo, nas duas primeiras guerras na Dácia: o cerco da cidadela avulta nos
relevos da Coluna de Trajano; em 102, a ameaça directa que pairava sobre a capital
compeliu Decébalo a buscar a paz; em 106, a conquista da mesma, para além de uma
série de derrotas e a perda de muitas praças-fortes, fez com que o rei dácio, em
desespero de causa, cometesse suicídio565.
Um inimigo que se negasse a ferir batalha podia ver-se forçado a fazê-lo por causa do
perigo que corriam as suas praças-fortes: tanto Metelo como Mário fixaram como alvos
as localidades amuralhadas da Numídia de Jugurta, acabando por tomá-las uma a uma,
o que obrigou o soberano a travar combate566.
O exército profissional romano revelou grande proficência na guerra de assédio e, não
raramente, aceitava sofrer pesadas baixas num assalto directo. Mesmo assim, o êxito
jamais era garantido e o cerco de qualquer posição fortificada de razoáveis dimensões
traduzia-se numa operação que demorava consíderavel espaço de tempo. Manter um
elevado número de tropas concentradas num local suscitava, inevitavelmente,
problemas de aprovisionamento, que aumentavam ainda mais quando o clima, a
estação do ano ou as condições locais reduziam a quantidade de comida, água,
forragens e madeira obtidas na zona. As extensas linhas de abastecimento que
suportavam um exército sitiante ofereciam, ademais, alvos tentadores para forças
inimigas que se caracterizassem pela sua mobilidade. Note-se, a propósito, que a
expedição contra os Partos conduzida por Marco António redundou num fracasso
depois de se registarem ataques sobre as suas linhas de abastecimento; numa das
investidas, o adversário logrou destruir o trem de campanha que reunia a maior parte
dos engenhos de assédio romanos567.
Usualmente, um povo politicamente unido podia ver-se obrigado a claudicar a seguir à
derrota da sua principal força militar (fosse exército ou marinha) ou à perda dos seus
centros mais importantes. Comunidades com uma organização sóciopolítica menos
estruturada raramente tinham alvos tão evidentes. Quando o inimigo estava repartido
por muitas cidades ou aldeias semi-independentes, ou em pequenas subdivisões de
tribos maiores, então havia que derrotar cada uma destas componentes em separado.
Estes conflitos desenrolavam-se numa escala menor, dividindo-se o exército romano
em destacamentos mais pequenos para conquistar cada assentamento ou vencer os
seus guerreiros em batalha.
A reconquista da Judeia, que se seguiu ao êxito inicial das sublevações contra Nero e
Adriano, exigiu, em cada um dos casos, a captura de elevado número de cidadelas e
aldeias fortificadas (Díon Cássio, Hist. rom. 69.12.3-13.3). Este género de conflito podia
ser árduo, mas se o exército romano dispusesse de recursos e determinação para
completar a tarefa, o seu sucesso estaria praticamente garantido.
Em 56 a. C., o primeiro ataque de César contra os Menapii e os Morini de pouco serviu
quando os membros das tribos se recusaram bater-se num confronto campal e se
esconderam nas florestas e pântanos, só reaparecendo para fazer uma emboscada aos
Romanos. César mandou talar os seus campos, incendiar umas quantas aldeias e
quintas, mas depois resolveu retirar-se com as tropas para os aquartelamentos de
Inverno, apesar de as tribos ainda não se terem rendido (B. Gall. 3.28). No ano
seguinte, alguns dos Morini enviaram representantes para obter a paz. Contudo, eles
rapidamente romperam a trégua, arremetendo contra um grupo isolado de 300
romanos, cujos navios se tinham afastado mais da costa do que o resto da frota que
regressava da Britânia. A cavalaria partiu em socorro desse contingente e, nos dias
subsequentes, César ordenou a Labieno que avançasse com duas legiões contra a tribo:

565
Díon Cássio, Hist. rom. 68.9.4-7, 14.3; Xifilino, 8.3; Lepper e Frere, 1988, pp. 304-307.
566
Salústio, B. Iug. 56. Algo de idêntico ocorreu amiúde nas campanhas contra a Pártia – por exemplo, Díon Cássio, Hist.
rom. 40.13.1, 40.16.3, 40.20.3; Tácito, An. 13.37.41.
567
Plutarco, Vida de Marco António, 38. Cf. Díon Cássio, Hist. rom. 68.31.1-32.1.

219
os Morini depressa se renderam, escrevendo César que as zonas pantanosas se
achavam mais secas nesse ano e ofereciam um fraco abrigo. Entretanto, outra coluna
romana marchou de encontro aos Menapii e, uma vez mais, devastou o seu território
mas não conseguiu que a tribo se submetesse (B. Gall. 4.36.38). No Inverno de 54-53 a.
C., uma legião ficou estacionada para vigiar os Morini e, a dada altura, César tornou a
tribo tributária do seu aliado Commius, o Atrebatiano (B. Gall. 5.24, 7.76). Quando
César voltou a atacar os Menapii em 53, os Gauleses bateram em retirada com as suas
famílias e bens para zonas arborizadas e pantanosas dificilmente acessíveis. Mas, desta
vez, os Romanos construiram calçadas ao longo dos pântanos e, ao distribuirem-se em
três colunas deslocando-se velozmente, destruiram quintas e aldeias, além de
arrebatarem cabeças de gado e capturarem muita gente. Em face de tudo isto, a tribo
acabou por buscar a paz (B. Gall. 6.5-6).
A fraca estrutura sociopolítica de alguns povos tribais, que usualmente tinham
múltiplos pequenos chefes mas não uma clara autoridade central, e a independência de
muitos guerreiros parecem ter desconcertado os Romanos. Na Hispânia, em 152 a. C.,
Cláudio Marcelo aceitou a rendição dos Nerobriges e exigiu-lhes, em troca, que
fornecessem 100 cavaleiros. No entanto, pouco depois, a sua coluna sofreu uma
acometida de alguns guerreiros desta tribo. Mais tarde, quando o número acordado de
auxiliares chegou, Marcelo mandou acorrentá-los, não obstante eles afirmarem que os
homens que armaram a emboscada não tinham conhecimento do tratado celebrado.
Pode ter havido traição, mas ainda mais provável seria o facto de os elementos da tribo
não perceberem por que razão os Romanos os culpabilizaram pelo comportamento
agressivo dos seus parentes étnicos que, tal como eles, eram guerreiros livres (Apiano,
Hisp. 9.48).
A invasão da Britânia, durante o reinado de Cláudio, conheceu confrontos de todos os
tipos e proporções atrás mencionados. Inicialmente, o alvo principal consistiu na forte
confederação tribal organizada em torno dos Catuvellauni e dos Trinovantes, chefiada
por Caratacus e Togodumnus. Os Bretões possuíam forças consideráveis e desejavam
ardentemente porfiar contra os invasores romanos. Mas a demora no desencadear da
expedição veio a dispersar das hostes britânicas, pelo que Caratacus, em primeiro logo,
e depois o seu irmão, à cabeça de reduzidos contingentes de guerreiros, acabaram por
ser vencidos em separado. Quando voltaram a mobilizar os seus homens, os líderes
bretões resolveram, novamente, livrar batalha na defesa de um rio, possivelmente o
Medway, onde sofreram mais uma derrota, após uma encarnecida pugna que se
arrastou por dois dias. Pouco mais tarde, os Romanos forçaram a passagem do Tamisa
e, no combate que se seguiu, pereceu Togodumnus.
Por motivos de ordem política, o exército romano interrompeu as operações, e o seu
comandante, Aulo Plautio pediu a ajuda do próprio imperador. A seguir à chegada de
Cláudio, os Romanos venceram mais uma vez os Bretões e tomaram o principal
oppidum de Camulodunum. Em resultado destas primeiras derrotas, registaram-se
defecções entre os dependentes dos Catuvellauni, principalmente uma parte dos
Dobunni, o que marcou o colapso da sua confederação, na medida em que muitos
chefes se renderam formalmente ao imperador (Díon Cássio, Hist. rom. 60.19-22.2).
A partir de então, o exército invasor repartiu-se em destacamentos para continuar a
conquista. Pelo menos um dos comandantes dos legionários, o futuro princeps
Vespasiano, parece ter gozado de substancial liberade de iniciativa nas acções
empreendidas no Sudoeste da Britânia. A acreditarmos em Suetónio (Vespasiano, 4),
ele venceu duas tribos, uma delas correspondendo à dos Durotriges, participou
exitosamente em 20 refregas, tomou 20 oppida e conquistou ainda a ilha de Wight.
Aparentemente, os Durotriges careciam de uma sólida autoridade central, daí que o
poder se encontrasse disperso pelas mãos dos chefes de numerosos fortes situados no
topo de colinas que pontilhavam o seu território. O grande número de contendas e
cercos em que esteve envolvida uma força não maior do que uma única legião (II
Augusta) e os seus auxiliares indica que muitas destas operações seriam de reduzida

220
escala. Uma coisa é certa – estas campanhas demonstraram a indiscutível capacidade
de adaptabilidade ao teatro dos conflitos e um altíssimo nível de eficácia 568.
Guerras de supressão de revoltas. Consistiam na derrota de um povo, reino,
estado ou seguidores de um líder (ou líderes) no interior do império. Uma vitória
romana significava o restabelecimento do controlo sobre a região e a respectiva
população. Ao deflagrar uma sublevação, a iniciativa cabia inevitavelmente aos
insurrectos. Então, a prioridade máxima estabelecida pelos comandantes romanos que
tentavam jugular uma rebelião radicava em assumir o controlo dos acontecimentos e
definir o curso da campanha.
Em 48 e em 60 d. C., anos em que os Iceni se rebelaram, os Romanos reagiram, em
ambas as ocasiões, ao contra-atacarem de imediato utilizando as forças que tinham
disponíveis (Tácito, Anais, 12.32, 14.31-39). Igualmente rápida foi a reacção de César
ante a revolta dos Eburones e Nervii, no Inverno de 54-53 a. C. Com apenas duas
legiões desfalcadas e alguma cavalaria, o general romano 569 avançou para socorrer a
guarnição sitiada de Quinto Cícero. A pequena coluna dispunha de escassos
mantimentos, apenas recolhendo, a custo, mais alguns víveres na paisagem invernosa,
não reunindo condições para realizar uma campanha de longa duração. Mas César
conseguiu atrair os Nervii para um confronto, neutralizando-os e assim levantando o
cerco sobre o acampamento de Cícero (B. Gall. 5.24-52)570. Durante a Guerra das
Gálias, outras insurreições conduziram igualmente a reacções igualmente firmes e
imediatas por parte dos Romanos: em 52 e 51 a. C., César efectuou uma série de contra-
ataques fulminantes contra tribos rebeldes, muitas vezes sem beneficiar de grandes
meios de aprovisionamento (B. Gall. 7, 6.13, 8.3-13).
Quando eclodia uma rebelião, qualquer êxito que os sublevados atingissem podia
encorajar outros a juntarem-se-lhes: os Nervii apenas se revoltaram em 54 a. C., depois
de os Eburones terem atacado e vencido Sabino e Cota (Cotta). Até a inacção por parte
dos Romanos era passível de se interpretar como amostra de fraqueza, concorrendo
para a disseminação de uma revolta. Neste sentido, uma resposta pronta e resoluta das
forças romanas que se localizassem mais perto do foco sedicioso transmitia uma
mensagem de força e auto-confiança que, esporadicamente, era suficiente para
aterrorizar a oposição. Na Judeia, em 4 a. C., o governador da Síria, Públio Q. Varão
logrou reprimir os incidentes que ocorreram a seguir ao falecimento de Herodes-o-
Grande, por meio de uma rápida e intimidatória exibição de poderio militar. Porém,
uma reacção também agressiva conduzida pelo mesmo homem, face a rumores de uma
revolta na Germânia em 9 d. C. culminou, como vimos, num enorme desaire.
Analogamente, em 66, o envio de um exército apressadamente mobilizado para a
Judeia, procedente da Síria, falhou o objectivo do esmagamento da sublevação em
Jerusalém, e até provocou outra, ainda que menos espectacular, desastre para as armas
romanas (Flávio Josefo, Bell. Iud. II.39-79, Díon Cássio, Hist. rom. 56.18-22).
Posto isto, os comandantes que lidavam com sublevações teriam de levar em linha de
conta a necessidade de uma acção imediata, mas avaliando e ponderando os riscos de
sujeitarem forças numericamente pequenas e indevidamente preparadas a derrotas, o
que, a acontecer, mais motivaria o inimigo. Os bons generais tentavam, se possível,
reunir grandes efectivos e de elevada qualidade. Tanto Júlio César, em 54 a. C., como
Suetónio Paulino, em 60 d. C., mandaram mensageiros para convocar mais legiões.
Mas não aparecendo estas, e não havendo perspectivas de reforços iminentes, ambos os
comandantes agiram com as tropas que já tinham sob as suas ordens. Estas rebeliões
tiveram lugar quando a conquista de uma província ainda não terminara, daí os
Romanos manterem forças de certa envergadura no teatro de operações.Quanto às
províncias ocupadas há bastante tempo, não subsistem elementos que indiquem que as
suas tropas de guarnição se encontrassem permanentemente preparadas para a guerra.
568
Maxfield, 1986, pp. 70-71; 1989 a, pp. 24-25.
569
César tentou obter uma terceira legião, mas apoiou a decisão do seu comandante em manter as suas tropas no local, já
que havia o perigo de a revolta se propagar a essa região.
570
Para uma descrição mais detalhada sobre esta campanha, veja-se A. K. Goldsworthy, The Roman Army at War,
pp.79-84.

221
As unidades do exército forneciam destacamentos para uma multiplicidade de tarefas e
missões, alguns por vezes mal treinados e com poucos efectivos. Era, também,
extremamente difícil arranjar de repente as provisões e o transporte necessários para
manterem um exército numa longa campanha. Vários dos reveses atrás citados
aconteceram principalmente porque as colunas romanas não estavam preparadas para
participar numa verdadeira campanha. Assim, se uma destas forças deparasse com viva
resistência por parte do inimigo era quase certo que sofreria uma derrota. No entanto,
esperar pela formação e envio de um exército mais poderoso só valeria a pena se,
efectivamente, houvesse garantias de reforços e recursos. Se isto não sucedesse, a
maioria dos comandantes resolvia investir, como dissemos, com os seus homens.
Em 26 d. C., ao circularem rumores que as tropas auxiliares trácias não iriam mais
integrar unidades étnicas e seriam enviadas para o estrangeiro, algumas tribos
insurgiram-se: o romano Popeus Sabino (Poppeos Sabinus) procurou retardar o
inimigo, fingindo querer negociar. Quando, os reforços esperados (uma legião e
contingentes de auxilia) chegaram da Mésia, Sabino tomou uma atitude ofensiva:
conquistaram-se diversas posições fortificadas e travaram-se alguns recontros. Por fim,
quando a principal força trácia se recusou a travar batalha, Sabino começou a assediar
o seu forte alcandorado numa colina: só uns quantos elementos tribais conseguiram
escapar do cerco romano, e a revolta findou no momento em que os restantes
sublevados se renderam (Tácito, Ann. 4.46-51). Neste caso, Sabino adiou a acção até
que dispusesse de adequados meios, visto que sabia que estes já vinham a caminho.
Por seu lado, durante a revolta de Bar Kochba, Júlio Severo mostrou-se relutante em
defrontar os insurrectos em campo aberto, optando por conduzir uma guerra feita de
incursões e emboscadas, ganhando muitos combates de pequena escala e centrando-se
na conquista das praças-fortes adversas (Díon Cássio, Hist. rom. 69.13.1-14.3)571.
Se bem que o exército romano gozasse de claras vantagens na prossecução das formas
mais intensivas de combate, isto não quer dizer que as forças romanas tentassem
porfiar sempre da mesma maneira. Os «filhos de Marte» adaptavam-se a lutar contra
di