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Mestrado Integrado em Medicina Veterinária

Ciências Veterinárias

Dissertação de Mestrado

Acupunctura em neurologia veterinária de animais de companhia

Cristina dos Santos Rosa Caetano

Orientador:
Professor Doutor Artur Severo Proença Varejão

Co-orientador:
Dr. Fernando Américo de Oliveira Ribeiro Couto

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO


VILA REAL, 2011
Mestrado Integrado em Medicina Veterinária
Ciências Veterinárias

Dissertação de Mestrado

Acupunctura em neurologia veterinária de animais de companhia

Cristina dos Santos Rosa Caetano

Orientador:
Professor Doutor Artur Severo Proença Varejão

Co-orientador:
Dr. Fernando Américo de Oliveira Ribeiro Couto

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO


VILA REAL, 2011
"L'art de la médecine consiste à distraire le malade pendant que la nature le guérit."
Voltaire
Resumo

A acupunctura é uma forma de terapia baseada na Medicina Tradicional Chinesa, que consiste
na introdução de agulhas finas na pele, desencadeando uma cascata de efeitos fisiológicos
locais, regionais ou sistémicos. Apesar de ser amplamente usada no controlo da dor e na
fisioterapia, ainda é pouco usada como único método de tratamento.
Nesta dissertação são abordados cinco casos clínicos de cães tratados com acupunctura,
diagnosticados com polirradiculoneurite idiopática, espondilomielopatia cervical caudal, hérnia
discal, luxação vertebral e síndrome de cauda equina.
Todos os animais recuperaram parcial ou totalmente. No cão com polirradiculoneurite
idiopática, apesar de ter havido uma melhoria temporária, o resultado foi insatisfatório. A
ineficácia da acupunctura neste caso seria previsível de acordo com a literatura consultada.
Apesar da casuística reduzida e heterogénea, concluiu-se que a acupunctura pode ser eficaz
como tratamento de doenças neurológicas, especialmente nas que provocam compressão da
medula espinhal e como alternativa à descompressão cirúrgica.

Abstract

Acupuncture is a type of therapy based on Traditional Chinese Medicine. It consists of inserting


fine needles through the skin, triggering a cascade of local, regional and sistemic physiological
effects. Despite being widely used for pain control and physical therapy, it is still fairly used as
the sole treatment.
In this essay, we addressed five clinical cases of dogs treated with acupuncture. The dogs were
diagnosed with idiopathic polyrradiculoneuritis, caudal cervical spondylomielopathy,
intravertebral disc herniation, vertebral luxation and cauda equina syndrome.
All animals recovered parcially or completely. In one dog, with idiopathic polyrradiculoneuritis,
although there was a temporary recovery, the results were unsatisfying. The ineffectiveness of
acupuncture in this case was predictible according to the literature.
Even though the casuistry was small and heterogeneous, we conclude that acupuncture can be
an effective treatement for neurological diseases, especially in those causing spinal cord
compression and as an alternative to surgical decompression.

v
Índice Geral

Resumo ............................................................................................................................................................ v
Abstract ............................................................................................................................................................ vi
Índice Geral ...................................................................................................................................................... vii
Índice de Figuras .............................................................................................................................................. x
Índice de Quadros ............................................................................................................................................ xi
Lista de Siglas e Abreviaturas .......................................................................................................................... xii
Código alfabético dos meridianos .................................................................................................................... xii
Agradecimentos ............................................................................................................................................... xiii

INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................. 1

REVISÃO DA LITERATURA CIENTÍFICA ....................................................................................................... 3


1. História da acupunctura ............................................................................................................................... 3
1.1. História da acupunctura veterinária ................................................................................................ 4
2. Princípios da Medicina Tradicional Chinesa ................................................................................................ 7
2.1. Yin e Yang ....................................................................................................................................... 7
2.2. Cinco Fases ou Cinco Movimentos ................................................................................................ 8
2.3. Substâncias básicas ....................................................................................................................... 9
2.4. Órgãos Zang Fu .............................................................................................................................. 10
2.5. Acupontos ....................................................................................................................................... 11
2.6. Meridianos ...................................................................................................................................... 14
2.7. Deqi ................................................................................................................................................. 14
2.8. Nomenclatura .................................................................................................................................. 15
2.9. Causas de doença .......................................................................................................................... 15
2.10. Exame físico de Medicina Veterinária Tradicional Chinesa .......................................................... 16
3. Formas de acupunctura ............................................................................................................................... 18
3.1. Acupunctura com agulha seca ........................................................................................................ 18
3.2. Moxabustão .................................................................................................................................... 19
3.3. Aquapunctura e farmacopunctura ................................................................................................... 20
3.4. Pneumoacupunctura ....................................................................................................................... 20
3.5. Acupressão ..................................................................................................................................... 21
3.6. Implantes ........................................................................................................................................ 21
3.7. Auriculopunctura ............................................................................................................................. 22
3.8. Ventosa de vácuo ........................................................................................................................... 22
3.9. Hemoacupunctura ........................................................................................................................... 23
3.10. Electroacupunctura ....................................................................................................................... 23
3.11. Laser ............................................................................................................................................. 24
3.12. Outros métodos de estimulação .................................................................................................. 24

vii
4. Efeitos e mecanismos de acção da acupunctura ......................................................................................... 25
4.1. Efeitos locais ................................................................................................................................... 25
4.2. Efeitos gerais e sistémicos ............................................................................................................. 26
4.3. Mecanismo somato-visceral ........................................................................................................... 27
4.4. Efeito anti-inflamatório .................................................................................................................... 29
4.5. Analgesia ........................................................................................................................................ 29
5. Utilização da acupunctura veterinária na prática clínica .............................................................................. 32
5.1. Acupunctura em neurologia veterinária .......................................................................................... 34
5.1.1. Doença vascular cerebral .................................................................................................. 34
5.1.2. Epilepsia ............................................................................................................................ 35
5.1.3. Paralisia ............................................................................................................................. 36
5.1.3.1. Paralisia como sequela da esgana ......................................................................... 37
5.1.4. Doenças do disco intervertebral e da medula espinhal ..................................................... 37
5.1.5. Regeneração nervosa periférica ........................................................................................ 39
5.1.6. Outras doenças neurológicas ............................................................................................ 40
5.2. Referenciação de casos clínicos para tratamento com acupunctura ............................................. 42

MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................................................... 43

CASOS CLÍNICOS ........................................................................................................................................... 44


1. Apresentação dos casos clínicos ................................................................................................................. 44
1.1. Caso clínico nº 1 ............................................................................................................................. 44
1.2. Caso clínico nº 2 ............................................................................................................................. 47
1.3. Caso clínico nº 3 ............................................................................................................................. 49
1.4. Caso clínico nº 4 ............................................................................................................................. 51
1.5. Caso clínico nº 5 ............................................................................................................................. 51
2. Discussão dos casos clínicos ...................................................................................................................... 52
2.1. Caso clínico nº 1 ............................................................................................................................. 52
2.2. Caso clínico nº 2 ............................................................................................................................. 57
2.3. Caso clínico nº 3 ............................................................................................................................. 63
2.4. Caso clínico nº 4 ............................................................................................................................. 71
2.5. Caso clínico nº 5 ............................................................................................................................. 75

CONCLUSÕES ................................................................................................................................................ 82

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................. 85

ANEXOS .......................................................................................................................................................... 95
Anexo I. Artigo editorial publicado no jornal The Lancet, a 9 de Novembro de 1823, intitulado
Acupuncturation ............................................................................................................................................... 95
Anexo II. Lista dos médicos veterinários ocidentais pioneiros na acupunctura veterinária e suas áreas de
investigação ..................................................................................................................................................... 97
Anexo III. Características Yang e Yin .............................................................................................................. 98
Anexo IV. Características segundo a teoria das Cinco Fases ........................................................................ 99

viii
Anexo V. Classificação dos animais segundo a teoria das Cinco Fases ....................................................... 100
Anexo VI. Funções dos órgãos Zang Fu ........................................................................................................ 102
Anexo VII. Trajecto dos doze meridianos regulares e dos dois meridianos extraordinários principais .......... 104
Anexo VIII. Ficha de exame de Medicina Veterinária Tradicional Chinesa ..................................................... 105
Anexo IX. Ficha de tratamento de acupunctura .............................................................................................. 112
Anexo X. Exame da língua na MVTC .............................................................................................................. 113
Anexo XI. Exame do pulso na MVTC .............................................................................................................. 114
Anexo XII. Reacções locais desencadeadas pela acupunctura e seus mediadores ...................................... 115
Anexo XIII. Interacções fisiológicas desencadeadas pela estimulação com agulha ....................................... 116
Anexo XIV. Localização dos principais acupontos utilizados nos casos clínicos ........................................... 117
Anexo XV. Plano de tratamento do caso clínico nº 1 ...................................................................................... 123
Anexo XVI. Plano de tratamento do caso clínico nº 2 ..................................................................................... 127
Anexo XVII. Plano de tratamento do caso clínico nº 3 .................................................................................... 130
Anexo XVIII. Plano de tratamento do caso clínico nº 4 ................................................................................... 133
Anexo XIX. Plano de tratamento do caso clínico nº 5 ..................................................................................... 135

ix
Índice de Figuras

Figura 1. Símbolo Tai Ji que representa as interrelações entre Yin e Yang ................................................... 7
Figura 2. Equilíbrio e desequilíbrio entre Yin e Yang ..................................................................................... 8
Figura 3. Ciclo Sheng ou de promoção .......................................................................................................... 9
Figura 4. Ciclo Ke ou de inibição ................................................................................................................... 9
Figura 5. Diagrama das medidas em cun no cão e no homem ..................................................................... 13
Figura 6. Agulhas de acupunctura esterilizadas descartáveis de aço inoxidável .......................................... 19
Figura 7. Cilindro de moxa para moxabustão indirecta .................................................................................. 19
Figura 8. Moxabustão indirecta ...................................................................................................................... 19
Figura 9. Sedação por farmacopunctura com acepromazina no ponto Yin Tang .......................................... 20
Figura 10. Aspecto radiográfico dos implantes de ouro para tratamento de displasia da anca .................... 21
Figura 11. Materiais disponíveis comercialmente para a prática de auriculoterapia ...................................... 22
Figura 12. Aparelho de electroacupunctura portátil, com regulação da intensidade, frequência, modo e
tipo de corrente ............................................................................................................................................... 23
Figura 13. Ligação do aparelho de electroacupunctura à agulha através de pinça de crocodilo .................. 23
Figura 14. Dispositivo portátil de emissão laser com três modos .................................................................. 24
Figura 15. Modelo de integração víscero-somática ....................................................................................... 28
Figura 16. Circuitos centrais envolvidos na mediação da analgesia por acupunctura através do sistema
endógeno de opióides ..................................................................................................................................... 31
Figura 17. Contenção com açaime durante as sessões de acupunctura ...................................................... 46
Figura 18. Aspecto da língua ......................................................................................................................... 48
Figura 19. Palpação dos pontos Shu na região paravertebral ....................................................................... 48
Figura 20. Pormenor do exame mielográfico na projecção ventrodorsal ....................................................... 50
Figura 21. Pormenor do exame mielográfico na projecção lateral ................................................................. 50
Figura 22. Pormenor do exame radiográfico na projecção lateral ................................................................. 52
Figura 23. Pormenor do exame radiográfico na projecção ventrodorsal ....................................................... 52
Figura 24. Possíveis efeitos da electroacupunctura no tratamento do traumatismo da medula espinhal ..... 79
Figura 25. Aspecto da língua nos padrões de doença mais frequentes ........................................................ 113
Figura 26. Avaliação do pulso por palpação digital da artéria femoral .......................................................... 114
Figura 27. Interacções fisiológicas desencadeadas pela acupunctura .......................................................... 116
Figura 28. Medição de cun na extremidade do membro torácico .................................................................. 117
Figura 29. Vista dorsal da coluna vertebral .................................................................................................... 117
Figura 30. Vista dorsal da coluna vertebral .................................................................................................... 118
Figura 31. Vista lateral de corpo inteiro ........................................................................................................ 118
Figura 32. Pormenor da região nasal ............................................................................................................. 119
Figura 33. Pormenor da região anal .............................................................................................................. 119
Figura 34. Região umbilical no abdómen ventral ........................................................................................... 119
Figura 35. Face lateral do membro torácico esquerdo .................................................................................. 120
Figura 36. Face medial do membro torácico esquerdo .................................................................................. 120
Figura 37. Face lateral do membro pélvico direito ......................................................................................... 121
Figura 38. Face lateral do membro pélvico direito ......................................................................................... 121
Figura 39. Superfície plantar do membro pélvico .......................................................................................... 122
Figura 40. Face medial do membro pélvico esquerdo ................................................................................... 122

x
Índice de Quadros

Quadro 1. Código alfabético dos doze meridianos regulares e dos dois meridianos extraordinários
principais, segundo a nomenclatura internacional da OMS ............................................................................ 15
Quadro 2. Influência dos fármacos na resposta à acupunctura ..................................................................... 26
Quadro 3. Conteúdo de uma cápsula de NEURO® (ANIMO Complexe) ...................................................... 45
Quadro 4. Escala de classificação neurológica nas DDIV e terapias alternativa .......................................... 67
Quadro 5. Áreas de investigação dos primeiros acupuncturistas veterinários ocidentais ............................. 97
Quadro 6. Comparação das características Yang e Yin ................................................................................ 98
Quadro 7. Características segundo a teoria das Cinco Fases ....................................................................... 99
Quadro 8. Função dos órgãos Zang na fisiologia da MTC ........................................................................... 102
Quadro 9. Função dos órgãos Fu na fisiologia da MTC ............................................................................... 103
Quadro 10. Alterações do aspecto da língua e respectiva interpretação pela MVTC ................................... 113
Quadro 11. Características do pulso e sua interpretação pela MVTC ........................................................... 114
Quadro 12. Reacções locais desencadeadas pela acupunctura e mediadores envolvidos .......................... 115
Quadro 13. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso
clínico nº 1 ...................................................................................................................................................... 124
Quadro 14. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 1 ........................ 125
Quadro 15. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso
clínico nº 2 ...................................................................................................................................................... 127
Quadro 16. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 2 ........................ 128
Quadro 17. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso
clínico nº 3 ...................................................................................................................................................... 131
Quadro 18. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 3 ........................ 131
Quadro 19. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso
clínico nº 4 ...................................................................................................................................................... 133
Quadro 20. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 4 ........................ 133
Quadro 21. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso
clínico nº 5 ...................................................................................................................................................... 135
Quadro 22. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 5 ........................ 135

xi
Lista de Siglas e Abreviaturas

ACTH Hormona adrenocorticotrófica mV Milivolt


AVC Acidente vascular cerebral MVCA Medicina veterinária complementar e
CGRP Péptido relacionado com o gene da alternativa
calcitonina MVTC Medicina veterinária tradicional chinesa
COPD Doença pulmonar obstructiva crónica mW Miliwatt
COX-2 Ciclooxigenase-2 NAVA National Association of Veterinary
DDIV Doença de disco intervertebral Acupuncture
EA Electroacupunctura NGF Factor de crescimento neural
GABA Acido gama-aminobutírico nm Nanómetro
GBS Síndrome de Landry-Guillain-Barré NT Neurotrofina
HLC Hormona libertadora da corticotrofina OMS Organização Mundial de Saúde
Hz Hertz PGE2 Prostaglandina E2
IL Interleucina RM Ressonância Magnética
iNOS Enzima óxido nítrico sintase induzida SNA Sistema nervoso autónomo
IV Intervertebral SNC Sistema nervoso central
IVAS International Veterinary Acupuncture Society SNP Sistema nervoso periférico
Kg Quilograma SSMP Succinato sódico de metilprednisolona
ON Óxido nítrico TC Tomografia axial computadorizada
ME Medula espinhal TENS Neuroestimulação eléctrica transcutânea
mg Miligrama TGF-! Factor beta de transformação do
mm Milímetro crescimento
MMM Miosite dos músculos mastigadores TNF Factor de necrose tumoral
MP Membro pélvico TrK Receptor tropomiosina cinase
MT Membro torácico VIP Péptido intestinal vasoactivo
MTC Medicina tradicional chinesa

Código alfabético dos meridianos

BL Bexiga LR Fígado
CV Vaso da Concepção LU Pulmão
GB Vesícula Biliar PC Pericárdio
GV Vaso Governador SI Intestino Delgado
HT Coração SP Baço
KI Rim ST Estômago
LI Intestino Grosso TE Triplo Aquecedor

xii
Agradecimentos

Ao Professor Doutor Artur Varejão pelo privilégio de ter aceite ser o Orientador desta
dissertação. Agradeço o seu apoio, os conhecimentos, a simpatia e a confiança que depositou
nesta minha aventura pelo mundo desconhecido da acupunctura.

Ao Dr. Fernando Couto, pela disponibilidade em me receber e em partilhar comigo a sua vasta
experiência e conhecimento na área da Medicina Veterinária Tradicional Chinesa. Agradeço a
simpatia, a amizade, a informação que disponibilizou e todo o conhecimento que, como diz um
provérbio chinês, "lhe roubei".

À Dra. Isabel Leite e à Dra. Ana Paula Domingues por me terem recebido na clínica Oficina dos
Animais, pela disponibilidade, apoio e pela simpatia. Agradeço a amizade, a confiança, os
conhecimentos que me transmitiram e acima de tudo a possibilidade que me proporcionaram
de adquirir uma experiência prática riquíssima.

À Júlia e à Milena pela enorme simpatia e amizade. Agradeço a ajuda e a boa disposição com
que tornaram a minha passagem pela clínica uma experiência tão agradável.

À Dra. Ana Neves e à Dra. Susana Sampaio, por me terem recebido na clínica Cliniczoo.
Agradeço a simpatia e a disponibilidade.

Aos meus amigos por me aturarem ao longo destes anos, sempre com amizade, boa
disposição e palavras sábias e menos sábias.

Aos meus pais, por tudo! Agradeço o apoio incondicional que sempre me deram, os valores
que me transmitiram, o incentivo, a ajuda, os mimos e os sonhos que me permitiram realizar.
Agradeço ao meu mano, que mesmo a quilómetros de distância, ajudou a construir a pessoa
em que me tornei.

Ao Tobias, por ter sido um modelo exemplar de cão rafeiro, velhote e gordo.

A todos, Muito Obrigada!

xiii
INTRODUÇÃO

A escolha deste tema para dissertação, justifica-se por se considerar que a acupunctura pode
ser uma boa alternativa à Medicina Veterinária convencional.
A acupunctura é uma forma de terapia reflexa, na qual o estímulo de um ponto de acupunctura
pela introdução de agulhas finas, produz efeitos fisiológicos locais, regionais ou sistémicos. Em
Medicina Veterinária, a acupunctura tem sido amplamente utilizada no alívio da dor crónica,
reabilitação motora e na redução da atrofia muscular como complemento à fisioterapia. Em
Neurologia, a sua utilização está descrita no tratamento de diversos tipos de paresia e
paralisia, doença do disco intervertebral, traumatismo medular, síndrome de Wobbler, síndrome
da cauda equina, epilepsia e sequelas da esgana. Está também indicada no tratamento de
distúrbios de comportamento, como alternativa ao uso de sedativos e de tranquilizantes.
Com frequência, as principais limitações ao tratamento convencional, principalmente ao
tratamento cirúrgico, são os custos associados e a possibilidade de falha do tratamento ou
mesmo de agravamento do estado clínico. A paralisia e a incontinência urinária e/ou fecal são
sinais clínicos frequentes em certas doenças neurológicas e estes sintomas têm grande
impacto no proprietário, de tal modo que muitos optam pela eutanásia dos animais. Um bom
profissional proporá ao proprietário todos os meios possíveis para tratar o seu animal. Para tal
é essencial que o clínico conheça as opções de tratamento disponíveis, e no caso concreto da
acupunctura, que conheça as possíveis indicações e as limitações desta terapia.
A aplicação de acupunctura por um profissional treinado não tem contra-indicações e é pouco
provável que cause efeitos adversos. Na medicina humana os relatos de complicações com
acupunctura são extremamente raros e a incidência de efeitos adversos é substancialmente
inferior à relatada por utilização de fármacos ou outros procedimentos aprovados para as
mesmas doenças.
Na elaboração desta dissertação foi feito o acompanhamento e análise retrospectiva de vários
animais com doenças neurológicas tratados com acupunctura. Foi analisado o processo de
tratamento por acupunctura e a resposta ao mesmo foi comparada com a resposta esperada
aos tratamentos convencionais. Teve como principal objectivo a análise crítica da utilidade da
acupunctura na prática clínica de neurologia veterinária, como alternativa ou como
complemento terapêutico. São levemente abordados os princípios fundamentais da Medicina
Tradicional Chinesa de modo a enquadrar a acupunctura e apresentados os mecanismos de
acção e os efeitos fisiológicos desencadeados pela acupunctura cientificamente comprovados.
É feita uma abordagem sucinta à aplicação da acupunctura em medicina veterinária e mais
pormenorizada à sua utilização em neurologia veterinária de animais de companhia.
O estágio curricular do qual resultou esta dissertação consistiu no acompanhamento da
actividade de um médico veterinário acupuncturista que desenvolve a sua actividade nos

1
distritos de Aveiro e Coimbra. Com ele dei os primeiros passos na Medicina Veterinária
Tradicional Chinesa, tendo aprendido os conceitos básicos, as particularidades do exame e os
princípios de diagnóstico e tratamento empregues nesta modalidade. Nesse contexto, aprendi
as técnicas usadas em acupunctura veterinária, os tipos de acupontos, a sua localização e os
métodos de estimulação. Acompanhei as consultas de MVTC, as sessões de tratamento de
acupunctura e a evolução do estado clínico dos animais tratados. Assisti ao uso de técnicas de
acupunctura com agulha seca, electroacupunctura, laser, moxabustão, farmacopunctura e
administração de fitoterapia e tive a oportunidade de aplicar, sob supervisão, algumas destas
técnicas em cães.
Como o estágio decorreu numa clínica veterinária de pequenos animais, a Clínica Veterinária
Oficina dos Animais em Mira, acompanhei e participei activamente nas actividades normais de
uma clínica veterinária, nomeadamente nas consultas, vacinações, tratamentos, partos e
eutanásias, assim como nos cuidados de higiene, enfermagem, alimentação e tratamento dos
animais internados. Acompanhei e participei na realização dos diversos tipos de exames
complementares e efectuei tarefas como a preparação e administração de vacinas e fármacos,
colocação de micro-chips, colocação de catéteres endovenosos e algaliações. Acompanhei e
auxiliei cirurgias de diversas especialidades, desde a preparação pré-cirúrgica do doente e do
material cirúrgico, à anestesia e analgesia, monitorização e participação activa na cirurgia
propriamente dita. As cirurgias realizadas foram maioritariamente ovariohisterectomias,
orquiectomias, laparotomias, remoção de tumores, mastectomias, cesarianas e cirurgias de
ortopedia (principalmente resolução de fracturas de ossos longos). Tive também a
oportunidade de realizar, sob supervisão, orquiectomias de felinos e ovariohisterectomias de
felinos e canídeos.

2
REVISÃO DA LITERATURA CIENTÍFICA

1. História da Acupunctura

A origem da acupunctura não é consensual. Os documentos históricos sugerem que a


acupunctura e os outros métodos de estimulação semelhantes se desenvolveram por todo o
mundo, em diferentes culturas e sem cruzamento cultural (Lindley e Cummings, 2006).
Independentemente da sua verdadeira origem, foi na China que esta técnica terapêutica foi
incorporada num sistema complexo de medicina, formalizada e descrita detalhadamente. O
sistema de sincretismo adoptado pelos chineses evitou a formação de ramos divergentes
segundo diferentes crenças ou práticas. Nesse contexto, ideias e técnicas provenientes da
Índia, como a teoria das Cinco Fases, foram incorporadas nas teorias da Medicina Tradicional
Chinesa (MTC) e o sistema difundiu-se a outras culturas (Lindley e Cummings, 2006).
Na literatura chinesa há referências à utilização de pedras polidas e afiadas (Bian Shi), no
período Neolítico, para puncionar certas partes do corpo (Jaggar e Robinson, 2001), e foram
descobertas agulhas feitas de osso em túmulos neolíticos (Baldry, 2005). No entanto, pensa-se
que estes objectos eram utilizados apenas para abrir e drenar abcessos, e não numa forma
primitiva de acupunctura como foi especulado (Jaggar e Robinson, 2001).
A prática de acupunctura na China aparece ligada ao Taoísmo ou Daoísmo (300 a.C.), vertente
filosófica e religiosa que substituiu a crença de que as doenças eram provocadas por
demónios, trazendo uma visão mais antropocêntrica sobre as doenças e a interacção
Homem-Universo (VanderPloeg e Yi, 2009). O "pai" do Taoísmo, Laotse (circa 500 a.C.)
descreveu a natureza essencial do Tao como uma força abstracta responsável pela criação,
mudança e desenvolvimento de todas as coisas na Natureza. O Tao reúne a polaridade entre
Yin e Yang, conceitos com origem na filosofia do Naturalismo, que representam a dualidade
fundamental existente no mundo natural (Lindley e Cummings, 2006).
A acupunctura foi formalmente reconhecida como prática terapêutica no primeiro texto de
medicina chinesa, "Nei Jing" (O Livro do Imperador Amarelo), datado de 305-204 a.C. (Ma,
1992). Em 259 d.C., foi publicado o "Zhen Jiu Jia Jing" (Clássico de Acupunctura), que continha
o nome e a função de cada ponto de acupunctura (Kayne, 2009). Com o desenvolvimento da
metalurgia, as agulhas de pedra, osso, espinha de peixe e bambu, foram sendo substituídas
por agulhas de metal (bronze, ferro, ouro e prata) de formas variadas, o que permitiu
desenvolver os métodos de acupunctura, potenciar o seu efeito terapêutico e ampliar o
espectro de utilizações (Ma, 1992).
Na Europa, foram os missionários Jesuítas que, no século XVI, introduziram estas práticas
terapêuticas trazidas da China e criaram o termo acupunctura. Willem Ten Rhijne, médico na
Companhia da Índia, foi o primeiro médico ocidental a descrever a acupunctura em 1680,

3
depois de testemunhar tratamentos realizados no Japão (White et al., 2008).
Na primeira metade do século XIX aumentou o interesse nesta terapia, principalmente nos EUA
e Inglaterra e surgiram várias publicações na literatura científica, incluindo um artigo editorial no
The Lancet em 1823 (Anexo I). Berlioz, em 1816, desenvolveu ensaios clínicos em acupunctura
e publicou alguns artigos sobre o tema (White et al., 2008). Em 1863 foi publicado o livro "A
Medicina na China" em Paris, por Pierre Dabry, que incluía uma secção sobre acupunctura
veterinária (Rogers, 1991).
George Soulier de Morant (1878-1955), um diplomata francês que passou vários anos na
China, foi responsável pela reintrodução da acupunctura em França. Ele influenciou
profundamente o estilo de acupunctura ocidental, tendo sido o primeiro a traduzir os textos
chineses sobre acupunctura e publicado a partir de 1939 uma série de tratados sobre o tema
(White et al., 2008). A sua terminologia é ainda hoje utilizada, ainda que com alguma polémica
na escolha dos termos adoptados na tradução (Cassidy, 2002).
Nos EUA, a acupunctura tornou-se extremamente popular depois da visita do Presidente Nixon
à China, em 1972, quando um dos jornalistas na comitiva foi tratado com acupunctura no pós-
operatório de uma apendicectomia. O relato da sua experiência suscitou o interesse da
comunidade médica americana (Ceniceros e Brown, 1998). A subsequente publicidade
internacional dada à medicina chinesa, incluindo à acupunctura, despoletou o interesse dos
clínicos e investigadores ocidentais nesta técnica terapêutica.

1.1. História da acupunctura veterinária

Na China, a domesticação de animais data do século XVI a XVII a.C., época em que os
praticantes de medicina tratavam pessoas e animais (Lindley e Cummings, 2006). Os primeiros
tratamentos estavam a cargo dos "sacerdotes de cavalos", que se julgava terem poderes
curativos por apaziguarem os espíritos maléficos que causavam doenças (Klide e Kung, 1977).
O primeiro médico veterinário de que há registo foi Chao Fu, durante o Império de Mu Huang
(947 a 928 a.C.), considerado um perito em doenças dos animais e uma lenda nos livros
clássicos de história e da medicina veterinária (Rogers, 1991). A abordagem distinta à medicina
veterinária surge com a publicação da "Norma de Medicina Veterinária" de Bai-Le (650 a.C.) e
desde então as duas áreas de medicina seguiriam vias separadas (Lindley e Cummings, 2006).
A publicação dos livros "Nei Jing" e "Nan Ching" (Tratado dos Conceitos Difíceis), viria a
influenciar não só a MTC, mas também a medicina veterinária. Pensa-se que estas
publicações, assim como alguns textos sobre doenças dos animais, tenham sido utilizadas
pelos sacerdotes dos cavalos. Nos séculos seguintes houve uma ampla publicação de textos
sobre veterinária e foi formalizada a educação veterinária (Rogers, 1991).
Durante a Dinastia Sung (960 a 1279 d.C.), foi criado o Gabinete de Colecção e Edição, uma

4
entidade governamental responsável pela revisão e correcção dos livros antigos de medicina
publicados até à data. Este governo foi o primeiro a formalizar o armazenamento de fármacos,
que eram fornecidos aos veterinários por funcionários do estado (Klide e Kung, 1977).
Nos anos seguintes, a publicação de textos sobre equinos, bovinos, camelídeos, suínos,
nutrição e lavoura tornou-se frequente. No entanto, apesar de existirem várias escolas ao estilo
ocidental, não existia ainda uma formação nacional de médicos veterinários (Rogers, 1991).
A Escola de Medicina Veterinária de Shangai, privada, surgiu em 1917 e foi pioneira na
educação veterinária formal (Rogers, 1991). Só em 1947 foram fundados os departamentos de
medicina veterinária nas escolas públicas de agricultura, marcando o início da medicina
veterinária moderna na China (Klide e Kung, 1977).
Em 1955 foram reeditados os clássicos sobre equinos e bovinos com terminologia médica
moderna, incluindo o livro "Hsing Yue Ma Ching" (Novo tratado de cavalos e bovinos) por Kim
Chung-Tze, baseado no antigo Tratado do Cavalo. No ano seguinte seriam fundados dois
jornais de veterinária, o "Chung-kuo Shou-i-hsueh Tsa-chih" (Jornal Chinês de Medicina
Veterinária) e o "Hsu-mu Shou-i" (Pastores e Medicina Veterinária) (Klide e Kung, 1977).
Três anos depois, a Academia Chinesa de Agricultura patrocinou a primeira Conferência
Nacional de Investigação de Medicina Veterinária Chinesa em Lanchow. Esta iniciativa foi
marcada pela fundação do Instituto de Investigação de Medicina Veterinária Chinesa
(Lanchow) e pela nomeação de um comité responsável pela revisão dos clássicos de
veterinária chineses, japoneses e coreanos. Este foi um período de padronização e de
modificação da prática de medicina veterinária. Os métodos antigos foram reunidos, editados,
aplicados e a sua eficácia foi avaliada. Os métodos com bons resultados eram então usados na
prática clínica e nas escolas de Medicina Veterinária dos Institutos de Agricultura. Aos
estudantes, eram leccionados os métodos chineses e ocidentais (Klide e Kung, 1977).
Entre 1958 e 1972 houve um grande aumento de ensaios clínicos e experimentais sobre a
acupunctura e os seus mecanismos e investigação de novas aplicações desta técnica. Neste
contexto, a acupunctura foi utilizada em analgesia pela primeira vez em 1958 em humanos e,
em 1969, em burros e cavalos (Rogers, 1991).
Em 1972 o Instituto de Medicina Veterinária de Lanchow publicou o "Shou-i Shou-chai" (Manual
de Medicina Veterinária), que combinava os métodos de Medicina Veterinária Tradicional
Chinesa e os ocidentais. Este livro viria a tornar-se o manual de referência para os estudantes
de Medicina Veterinária na China (Klide e Kung, 1977).
Após os trabalhos de Soulier de Morant no início do século XX, alguns veterinários começaram
a utilizar acupunctura durante as décadas de 30 e 40 em França, Alemanha e Áustria, mas
pouco foi publicado acerca dos seus resultados. Na década de 50 surgiram os pioneiros da
acupunctura veterinária no ocidente: Kothbauer (Áustria), Milin (França), Westermayer
(Alemanha) e nos EUA: Altman, Bressler, Cain, Jaggar, Klide, Grady Young, cujas principais
5
áreas de investigação podem ser consultadas no Anexo II. Em 1954 foi publicada a primeira
tese ocidental sobre acupunctura veterinária, por Benard na Escola de Veterinária de Alfort
(Paris) (Rogers, 1991). Na década de 70, foram publicados uma série de ensaios básicos e
clínicos em acupunctura veterinária, desenvolvidos por clínicos, alunos de pós-graduação e
docentes de universidades europeias e americanas (Klide e Kung, 1977).
Nos EUA a acupunctura veterinária foi liderada por duas grandes associações, ambas
fundadas em 1974. Os bons resultados clínicos obtidos no Projecto de Investigação em
Acupunctura Veterinária na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) em 1973,
contribuíram para a fundação da National Association of Veterinary Acupuncture (NAVA). No
mesmo ano seria fundada a International Veterinary Acupuncture Society (IVAS). Devido à
dificuldade de gerir duas organizações de uma especialidade minoritária, muitos membros da
NAVA juntaram-se à IVAS e a NAVA foi extinta (Rogers, 1991).
Actualmente a IVAS é a maior organização de acupunctura veterinária fora do Oriente, com
membros e contactos informais em 38 países. Os seus objectivos incluem a integração plena
da acupunctura nas ciências veterinárias e a padronização da formação internacional. A
associação ministra cursos básicos, nos países que o solicitem, que incluem um exame final
para acreditação pela IVAS como acupuncturistas veterinários. Apenas os médicos veterinários
ou os estudantes finalistas podem frequentar estes cursos e realizar o exame final.
Em Portugal, a acupunctura é abrangida pela Lei do enquadramento base das terapêuticas não
convencionais (Lei 45/2003, de 22 de Agosto), que estabelece o enquadramento da actividade
e do exercício dos profissionais que aplicam as terapêuticas não convencionais, tal como
definidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No entanto, a lei ainda não foi aplicada e
continuam por definir os parâmetros de creditação, formação e certificação dos profissionais,
assim como a regulamentação do exercício da actividade. Esta lei não especifica os critérios de
regulamentação para a acupunctura veterinária. Nos países da União Europeia com legislação
e regulamentação da acupunctura veterinária, esta é considerada um acto exclusivamente
médico-veterinário. Nos restantes países, a creditação pela IVAS, apesar de ser uma opção
pessoal, contribui para a credibilidade dos profissionais que praticam acupunctura veterinária.

2. Princípios da Medicina Tradicional Chinesa

Acupunctura é a introdução de agulhas finas na pele, em pontos específicos da superfície


corporal. O termo deriva do latim acus (agulha) e pungere (picar). Após a colocação das
agulhas, estas são manipuladas de modo a reequilibrar as energias vitais do organismo
(VanderPloeg e Yi, 2009). Esta prática ancestral é uma componente importante da MTC.
O livro de referência da MTC, "Nei Jing", refere que para dominar a medicina, é preciso
dominar o uso de metáforas, pois estas aplicam-se tanto à medicina como ao corpo (Wynn e

6
Marsden, 2003). A MTC baseia-se em filosofias, lógicas e crenças de uma civilização diferente
da ocidental, com uma percepção de saúde e de doença completamente distinta. A sua base
teórica e de diagnóstico não pode ser explicada em termos de fisiologia e anatomia ocidentais,
o que dificulta a aceitação por parte dos médicos com formação técnica ocidental. Tal como a
medicina ocidental, ela envolve uma série de práticas com o propósito de curar a doença e
manter a saúde e o bem-estar, que na MTC representam uma intervenção energética
destinada a restabelecer a harmonia e o equilíbrio de cada paciente (Kayne, 2009).

2.1. Yin e Yang

A teoria de Yin e Yang é um enquadramento conceptual que permite interpretar todos os


fenómenos complementares e inseparáveis. Yin e Yang representam dois fenómenos de
natureza oposta e também dois aspectos diferentes e opostos presentes no mesmo fenómeno.
Na MTC, considera-se que tudo no Universo pode ser comparado segundo as suas
propriedades Yin ou Yang (Anexo III). A natureza Yin ou Yang de qualquer fenómeno é relativa,
pois o Yin pode transformar-se em Yang e vice-versa, e tudo pode ser dividido infinitamente
nos seus aspectos Yin ou Yang (Chonghuo et al., 1988). O símbolo Tai Ji (Figura 1) é usado
tradicionalmente para representar as inter-relações entre Yin e Yang (Xie e Preast, 2002).

!Oposição: todas as coisas na Natureza têm dois aspectos


e podem ser divididas em Yin (negro) ou Yang (branco).
! Relatividade: nada é absolutamente Yin e absolutamente
Yang. Por exemplo, uma noite de Verão é o Yin no Yang
(círculo negro no fundo branco) e um dia de Inverno é o
Yang no Yin (círculo branco no fundo negro).
! Interdependência: nenhum pólo existe sozinho, ou seja,
um conceito não existe sem o outro. Representada pela
divisão do símbolo em duas metades que parecem
encaixar uma na outra.
! Interconsumo e intertransfomação: Yin e Yang controlam-
se mutuamente mantendo o equilíbrio. Enquanto um lado
aumenta de tamanho, o lado oposto diminui formando um
círculo perfeito. Os dois lados fundem-se formando um
ciclo contínuo em que cada metade se vai transformando
na oposta.

Figura 1. Símbolo Tai Ji que representa as inter-relações entre Yin e Yang (Adaptado de Xie e Preast, 2002).

Em condições normais, Yin e Yang existem no organismo num equilíbrio, de modo que as
actividades fisiológicas sejam normais. A MTC considera que a doença é um estado de
desarmonia resultante do desequilíbrio entre Yin e Yang, provocado pelo aumento (Excesso)
ou pela diminuição (Deficiência) de uma das partes (Figura 2).

7
A C

Excesso de Yin Deficiência de Yin

Yin Yang
B D
Equilíbrio: Yin = Yang

Excesso de Yang Deficiência de Yang

Figura 2. Equilíbrio e desequilíbrio entre Yin e Yang. Existe um desequilíbrio quando um dos componentes
se encontra dentro dos limites normais e o outro está aumentado (Excesso) ou diminuído (Deficiência).

Na Figura 2 pode observar-se que há um predomínio de Yin em A e em D. No primeiro, o Yang


encontra-se dentro dos limites normais e existe um excesso (absoluto) de Yin. Para repôr o
equilíbrio é necessário sedar o Yin, reduzindo a sua influência sobre o Yang. No segundo,
apesar do predomínio de Yin, este encontra-se dentro dos limites normais (é um excesso
relativo) e o Yang está diminuído. Neste caso, o tratamento consistirá na tonificação do Yang.

2.2. Cinco Fases ou Cinco Movimentos

Enquanto o conceito de dualidade definido por Yin e Yang é útil para compreender processos
polares, a introdução do sistema das Cinco Fases ou Cinco Movimentos permite classificar
processos que cursam por fases. Pensa-se que a teoria das Cinco Fases tenha tido origem na
Índia. Com a difusão do Budismo (entre 100 a.C. e 600 d.C.) pode ter chegado à China e sido
incorporada nas teorias da MTC (Lindley e Cummings, 2006).
O sistema de Cinco Fases é utilizado para descrever a natureza dos órgãos Zang Fu, as
inter-relações entre órgãos e a relação do animal com o mundo natural. Da mesma forma, é
usado para classificar e agrupar uma série de características na MTC (Anexo IV). Por exemplo,
a cada Fase corresponde um orifício corporal que constitui a abertura de um órgão Zang Fu e
um tecido que manifesta o estado funcional do órgão correspondente.
As Cinco Fases são: madeira, fogo, terra, metal e água, representando o ciclo da vida. A teoria
das Cinco Fases explica, por analogia, as funções fisiológicas dos órgãos internos segundo
dois ciclos: promoção (ciclo Sheng) e inibição (ciclo Ke), representados respectivamente na
Figura 3 e na Figura 4. No ciclo de promoção cada fase promove, alimenta e gera a fase
seguinte numa ordem circular. Neste ciclo, a fase que promove chama-se "mãe" e a fase
seguinte chama-se "filho". O ciclo de inibição tem uma forma alternada em que, cada fase inibe
a seguinte não consecutiva, formando um pentagrama. Neste ciclo a fase inibitória é o "avô" e

8
a fase inibida é o "neto". Em conjunto, os ciclos de promoção e inibição formam um sistema de
feedback que mantém os órgãos em funcionamento no nível adequado, evitando que algum se
torne excessivo ou deficiente (Xie e Preast, 2002).
Os princípios das Cinco Fases podem ser aplicados na classificação dos animais quanto às
suas características individuais. Esta classificação permite associar a fisionomia e a
personalidade do animal à predisposição a determinadas doenças e desequilíbrios (Xie e
Preast, 2002). A classificação dos animais segundo a teoria das Cinco Fases pode ser
consultada no Anexo V.

Figura 3. Ciclo Sheng ou de promoção. Figura 4. Ciclo Ke ou de inibição.

2.3. Substâncias básicas

O Qi, Xue, Jing, Shen e Jin Ye constituem as substâncias fundamentais do organismo na MTC.
Elas são a base para as actividades fisiológicas dos órgãos Zang Fu (órgãos internos), tecidos
e meridianos. O termo substância é relativo, pois não implica necessariamente matéria ou
energia e frequentemente representa uma forma intermédia. As cinco substâncias são
formadas e armazenadas nos órgãos Zang Fu e transportadas, especialmente via Jing Luo
(sistema de meridianos), para todos os tecidos do organismo (Ross, 1985).
O conceito de Jing é traduzido como Essência, que é herdada dos progenitores e determina a
constituição e a vitalidade do indivíduo (à semelhança do ADN), sendo responsável pelo
crescimento, desenvolvimento, reprodução, produção de medula óssea e promoção do Qi do
Rim. Shen é a Mente ou Espírito, governado pelo Coração. O Shen é responsável pela
consciência, saúde mental e emocional e o seu desequilíbrio pode traduzir-se em insónias,
alterações do comportamento ou distúrbios psiquiátricos. Na MTC, o Xue ou Sangue é mais do
que um sistema de transporte. Xue e Qi são duas substâncias complementares e

9
interdependentes, uma mais Yang (Qi) e outra mais Yin (Xue). O Qi é indispensável na
produção e no transporte do Xue e por sua vez, o Xue nutre os órgãos que produzem o Qi
(Kayne, 2009; Limehouse e Taylor-Limehouse, 2001). Jin Ye representa os fluidos corporais,
que podem ser divididos em Jin e em Ye. Jin são os fluidos externos, aquosos e pouco densos
como a saliva, suor e lágrimas. Ye são os fluidos mais densos que circulam no interior do
organismo como as secreções gástricas e o líquido sinovial. O Jin Ye é essencial na
manutenção do Qi saudável, tendo como função a nutrição e a lubrificação (Kayne, 2009).
O Qi [tchi], é geralmente traduzido como energia ou força vital, mas pode ter vários significados
consoante o contexto: energia, vapor, gás ou fôlego (Cassidy, 2002). Os chineses consideram
que o Qi é omnipresente na Natureza e aparente em todas as coisas, sob a forma de vida e de
movimento (Lindley e Cummings, 2006). Na MTC, o organismo é a expressão do equilíbrio
dinâmico de duas componentes: energia e substância, ou Qi e Xue (Cassidy, 2002). O Qi é
inato (ou hereditário) e adquirido, através da comida e da respiração. Ele acumula-se nos
órgãos e flui pelo organismo através de canais ou meridianos segundo um padrão específico,
regulando as funções vitais e nutrindo os órgãos. Quando o seu fluxo é perturbado por agentes
patogénicos, a doença instala-se. A estimulação de determinados pontos nos meridianos
permite influenciar o fluxo do Qi e exercer portanto um efeito terapêutico sobre o organismo
(Lindley e Cummings, 2006).

2.4. Órgãos Zang Fu

Na MTC existem doze órgãos internos principais, os órgãos Zang Fu, emparelhados dois a dois
formando uma equipa que desempenha uma função vital. O seu objectivo é receber ar, comida
e bebida do ambiente externo e transformá-los nas Substâncias e em produtos de excreção.
Os Zang Fu, são responsáveis por manter uma interacção harmoniosa entre o organismo e o
ambiente externo.
Enquanto na medicina ocidental o termo órgão designa uma estrutura anatómica, na MTC o
termo refere-se a um conjunto de funções desempenhadas por uma entidade sem estrutura
física definida. Nas publicações traduzidas do chinês, a nomenclatura dos órgãos Zang Fu é
igual à dos órgãos da medicina ocidental mas sem correspondência directa, o que pode
suscitar alguma confusão. O órgão San Jiao ou Triplo Aquecedor, representa um conceito
puramente fisiológico sem qualquer estrutura física associada e sem correspondência na
medicina ocidental. Para distinguir os conceitos orientais dos ocidentais, a maioria dos autores
opta pelo nome em Pinyin (chinês romanizado) ou pelo nome traduzido escrito com maiúscula
(Ross, 1985), sistema que foi adoptado neste trabalho.
Cada par funcional é composto por um órgão Zang e um órgão Fu. Os órgãos Zang são mais
calmos e portanto mais Yin. São órgãos geralmente maciços, mais internos e sem

10
comunicação com o exterior (Wynn e Marsden, 2003). Os órgãos Fu são os mais activos e
portanto mais Yang, responsáveis pelo "trabalho sujo". Geralmente são órgãos ocos, que
interagem directamente com o ambiente, movendo materiais para e pelo interior do organismo
e excretando materiais para o exterior (Ross, 1985).
Do ponto de vista ocidental considera-se que os órgãos Fu contêm músculo liso e portanto
estão sujeitos a condições espásticas como cólicas. Têm como função a absorção de
nutrientes e eliminação de produtos. Os órgãos Zang processam as substâncias nutritivas
absorvidas e armazenam os produtos de metabolismo (Limehouse e Taylor-Limehouse, 2001).
As funções dos órgãos Zang Fu são descritas no Anexo VI.

2.5. Acupontos

Na acupunctura chinesa, um acuponto diz-se Shu Xue, sendo que Shu significa passagem ou
comunicação e Xue significa orifício ou saída. Um acuponto pode ser definido como um orifício
na pele que comunica com um ou mais órgãos internos, através de um meridiano ou seu
colateral. O tamanho dos acupontos pode variar de 1 mm a 25 mm, dependendo da sua
localização e do tamanho do animal (Limehouse e Taylor-Limehouse, 2001).
Cada acuponto tem uma localização única, desencadeia um efeito fisiológico (Xie e Preast,
2007) e comunica com um dos órgãos Zang Fu, reflectindo o estado desse órgão (Hwang e
Egerbacher, 2001). Quando um órgão sofre alterações fisiopatológicas, um ou mais dos
acupontos relacionados podem tornar-se sensíveis, mudar de cor ou tornar-se mais firmes. Se
estes pontos forem tratados por MTC (acupunctura ou outros métodos), o efeito chegará
rapidamente até ao órgão-alvo, através dos respectivos meridianos. Esta perspectiva
assemelha-se aos conceitos ocidentais de reflexo víscero-somático e somato-vísceral, assim
como a relação ponto-gatilho (trigger-point) com a dor miofascial e vísceral (Hwang e
Egerbacher, 2001).
Os vários tipos de acupontos podem ter efeitos locais, efeitos à distância ou ainda efeitos
sistémicos. Todos os acupontos tem um efeito local na área adjacente. Os pontos dolorosos,
endurecidos e sensíveis, que não pertencem a um meridiano, são os pontos Ah-Shi e também
podem ser usados como acupontos locais (Ahn et al., 2009).
Os acupontos actuam sobre as desarmonias do meridiano a que pertencem, do meridiano par
e do órgão Zang Fu e nos tecidos e órgãos sensoriais correspondentes. Os pontos localizados
nas extremidades, distalmente à articulação do joelho e do cotovelo, têm influência nas regiões
proximais (cabeça, pescoço e face). São chamados os Cinco pontos Shu que são sedados ou
tonificados segundo a teoria das Cinco Fases. Alguns acupontos têm também efeitos
específicos que podem ser usados como tratamento sintomático de náusea, vómito, diarreia,
obstipação, soluços e febre entre outros (Ahn et al., 2009).

11
A caracterização dos acupontos, em termos histológicos e fisiológicos, tem sido alvo de estudo
para compreender os possíveis mecanismos de acção da acupunctura. Há uma relação íntima
entre a localização dos acupontos e os receptores envolvidos. Uma agulha inserida num ponto
na pele, estimula receptores sensoriais de tacto e de pressão, mas se inserida mais
profundamente estimulará as fibras musculares nessa região. Um ponto numa articulação irá
estimular os receptores de pressão e/ou do órgão tendinoso de Golgi. Estima-se que 70 a 80%
dos pontos de acupunctura sejam pontos-gatilho, e que a maioria dos acupontos são também
pontos motores musculares (Cab!oglu et al., 2006).
Nos estudos morfológicos, observou-se uma alta densidade de troncos nervosos, terminações
nervosas e redes vasculares no tecido subcutâneo, nos pontos de acupunctura ou próximo
destes. Outros estudos relatam uma elevada concentração de folículos pilosos e de papilas
dérmicas ricas em ansas capilares e uma escassez de núcleos na derme. Há também uma
relação íntima entre os pontos de acupunctura e a vasculatura. Na maioria dos acupontos
existem ansas capilares com invólucro simpático e, sob os acupontos, existem vasos
sanguíneos (normalmente veias). Pensa-se que a inervação simpática dos vasos sanguíneos
poderá contribuir na sensação de Deqi e na sequência de reacções à aplicação das agulhas
(Hwang e Egerbacher, 2001).
Os acupontos são frequentemente descritos como tendo características eléctricas distintas:
elevada condutância, capacitância e potencial eléctrico, e uma baixa impedância e resistência
(Ahn e Martinsen, 2007). No entanto, nem todos os pontos com estas características
correspondem a pontos de acupunctura descritos. De um modo geral, os autores descrevem a
existência de zonas e bandas estreitas com baixa resistência dérmica, semelhantes a
meridianos, que se estendem pelo eixo longo dos membros torácicos e pélvicos. A baixa
resistência dérmica pode dever-se a um aumento local da permeabilidade capilar resultante da
alteração patológica do órgão Zang Fu correspondente, ou pode resultar de um reflexo
simpático (Hwang e Egerbacher, 2001). Com base nestas propriedades eléctricas, foram
desenvolvidos aparelhos de localização e análise, úteis no diagnóstico de desarmonias. No
entanto, a caracterização eléctrica dos acupontos apresenta vários problemas técnicos
frequentemente desvalorizados: capacidade de polarização dos eléctrodos e sua geometria,
presença de glândulas sudoríparas e meio de contacto, entre outros. Estas variáveis interferem
nos resultados finais e constituem um obstáculo à reprodução de resultados em estudos
subsequentes. Por este motivo, Ahn e Martinsen (2007), consideram que a utilidade e validade
dos aparelhos de electrodiagnóstico comercializados é bastante dúbia.
Em acupunctura veterinária podem usar-se os pontos descritos na literatura tradicional
(acupontos clássicos) ou os pontos transpostos a partir do modelo humano (acupontos
transpostos). A literatura tradicional contém apenas a descrição e localização dos acupontos
em equinos, bovinos e suínos, porque a acupunctura veterinária era utilizada essencialmente
12
nas espécies de interesse pecuário. Com a difusão da acupunctura veterinária na sociedade
moderna ocidental, aumentou o interesse da sua utilização nos animais de companhia (cães,
gatos e aves). Como estas espécies não eram alvo de estudo, muitos dos acupontos nelas
utilizados foram transpostos do modelo humano, equino e bovino (Chrisman e Xie, 2007).
Para localizar os pontos de acupunctura, usam-se referências anatómicas. Como o tamanho
dos animais é muito variável, não podem ser usadas medidas absolutas. Por isso, usa-se o cun
[tsun], uma unidade de medida relativa, proporcional à estatura de cada indivíduo. Por
exemplo, a distância entre o bordo cranial e o bordo caudal da escápula é sempre de 3 cun,
independentemente de se tratar de um cão de raça miniatura ou de raça gigante (Figura 5).
Nos animais, um cun, equivale ao comprimento da primeira vértebra caudal ou à largura da
última costela (Xie e Preast, 2007). No entanto, o comprimento da primeira vértebra caudal só
pode ser determinado por imagiologia e a última costela pode ser difícil de palpar em animais
obesos. Na prática, usa-se frequentemente as referências anatómicas da medicina humana, na
acupunctura de animais de companhia. Nesse caso, a largura dos quatro dedos do animal, ao
nível das articulações interfalangianas proximais, corresponde a 3 cun. Para localizar os
acupontos das regiões craniais do corpo, a medição é feita nos dedos da extremidade torácica
e para localizar os acupontos das regiões caudais, a medição é feita na extremidade pélvica.

Figura 5. Diagrama das medidas em cun no cão e no homem (Adaptado de Xie e Preast, 2007; OMS, 2009).

13
2.6. Meridianos

Os meridianos constituem a base da acupunctura pois são as vias através das quais o Qi e o
Xue circulam pelo organismo. Não são estruturas físicas, mas a sua existência e distribuição foi
já demonstrada por medição dos potenciais neuroeléctricos. O sistema de meridianos une
todas as regiões do organismo, ligando os órgãos internos às regiões mais externas e
mantendo o equilíbrio (Limehouse e Taylor-Limehouse, 2001).
O sistema de meridianos ou Jing Luo, é formado por uma série de meridianos distintos:
regulares, extraordinários, colaterais e divergentes. Os meridianos mais importantes são os
doze meridianos regulares, cada um correspondendo a um órgão Zang Fu. Estes meridianos
são pares, simétricos e bilaterais. Os meridianos extraordinários são oito, ímpares, e não se
ligam directamente aos órgãos Zang Fu. Destes, dois são meridianos principais, uma vez que
são formados por acupontos únicos que não correspondem a nenhum dos meridianos
regulares. Estes dois meridianos percorrem o organismo longitudinalmente pela linha média,
ventralmente (meridiano do Vaso da Concepção) e dorsalmente (meridiano do Vaso
Governador). Existem ainda meridianos colaterais e meridianos divergentes, com pontos
comuns aos meridianos regulares e que são utilizados em condições específicas (Xie e Preast,
2007). O trajecto dos meridianos regulares e dos meridianos extraordinários principais pode ser
consultado no Anexo VII.

2.7. Deqi

A inserção de uma agulha de acupunctura provoca uma sensação invulgar conhecida como
Deqi que significa chegada do Qi. O Deqi é descrito subjectivamente como uma sensação de
dormência, formigueiro, lassidão ou tumefacção que emana do acuponto e se prolonga pelo
meridiano. Nos animais, o Deqi é evidenciado pela contracção do músculo e da pele e por
respostas comportamentais como a vocalização e a evasão. O manipulador sente o Deqi como
se o músculo agarrasse a agulha, o que pode resultar de um reflexo de estiramento à
introdução da agulha. Os acupuncturistas consideram que a sensação de Deqi é fundamental
para se conseguir os efeitos terapêuticos da acupunctura (Hwang e Egerbacher, 2001).
O Deqi ou sensação propagada ao longo do meridiano, é um fenómeno vastamente
investigado. A componente aferente da sensação de Deqi, está a cargo das fibras sensoriais
mais finas (A-! do grupo III) e grossas (A-" do grupo II), tal como o efeito analgésico da
acupunctura. A injecção de anestésicos locais anula completamente esta sensação (Hwang e
Egerbacher, 2001). Sendo uma sensação subjectiva pode estar associado ao sistema nervoso
central (SNC) e corresponder a uma excitação expansiva que ocorre no córtex sensorial.
Porém, esta teoria não explica o facto de ser acompanhado por reacções na pele, vasos
sanguíneos e nervos (Wang, Ayati e Zhang, 2010).
14
2.8. Nomenclatura

A OMS aprovou uma nomenclatura para meridianos e acupontos de modo a padronizar as


publicações sobre acupunctura e facilitar a comunicação entre colegas. Esta nomenclatura
contém quatro elementos. O meridiano pode ser designado pelo caractere Han que representa
o nome original, pelo nome em Pinyin segundo a pronúncia padrão usada na China ou pelo
nome em inglês (traduzido do caractere Han), (Quadro 1).
O nome do acuponto é composto por um código alfanumérico no qual as letras são a
abreviação do nome do meridiano, em inglês, e a numeração é atribuída ao longo do trajecto
de cada meridiano. Por exemplo, o 36º acuponto no meridiano do Estômago representa-se por
ST36. O código alfanumérico dos pontos extra, contém o prefixo EX (extra), um código
alfabético para a região anatómica (cabeça e pescoço HN, toráx e abdómen CA, zona lombar
B, membro anterior UE, membro posterior LE) e a numeração é atribuída em direcção dorsal a
ventral (na cabeça, pescoço e tronco), proximal a distal (membros) e de medial para lateral. Por
exemplo, um acuponto extra na cabeça representa-se EX-HN7 (OMS, 1991).

Quadro 1. Código alfabético dos doze meridianos regulares e dos dois meridianos
extraordinários principais, segundo a nomenclatura internacional da OMS (1991).

Meridiano Código Meridiano Código

Pulmão LU Intestino grosso LI


Estômago ST Baço ou Baço-Pâncreas SP
Coração HT Intestino delgado SI
Bexiga BL Rim KI
Pericárdio PC Triplo aquecedor TE
Vesícula biliar GB Fígado LR
Vaso governador GV Vaso da concepção CV

2.9. Causas de doença

Na MTC, a doença é um estado de desarmonia ou desequilíbrio, no qual o organismo é


incapaz de repôr o equilíbrio e o Wei Qi (Qi defensivo) é incapaz de combater a invasão por
agentes patogénicos. A desarmonia resulta do desequilíbrio entre Yin e Yang, entre os órgãos
Zang Fu ou da perturbação do fluxo do Qi, e manifesta-se por um conjunto de sinais clínicos
que correspondem a um padrão de doença (ou síndrome de MTC) (Chonghuo et al., 1988).
As causas de doença são divididas em três categorias: agentes internos, externos e mistos.
Enquanto na medicina ocidental as causas endógenas representam doenças genéticas, na
MTC representam as emoções. As emoções são respostas normais do indivíduo ao ambiente e
fazem parte da sua saúde mental. Quando estas respostas se tornam habituais, exageradas ou
inadequadas podem ter efeitos deletérios no fluxo de Qi. Os sete agentes internos ou

15
emocionais são: alegria, ira, melancolia, ansiedade, medo, tristeza e susto. Nos animais, a
avaliação do estado emocional pode ser difícil e depende da cooperação do proprietário mas,
frequentemente, as alterações são óbvias por exemplo, quando surgem comportamentos
estereotipados (Cassidy, 2002). O conceito de agentes externos deriva das alterações
climáticas capazes de provocar stress no indivíduo e inclui: Vento, Frio, Calor, Humidade,
Secura e Fogo. Em condições normais, o organismo é capaz de se adaptar a estas alterações.
Quando os agentes externos se manifestam de forma exagerada ou sobre um indivíduo
debilitado, podem ultrapassar as barreiras de defesa e penetrar no organismo provocando
doença (Chonghuo et al., 1988). Os factores patogénicos mistos ou intermédios não são
internos nem externos. Nesta categoria inserem-se diversas causas de doença como
traumatismo, toxinas, venenos, parasitas, doenças genéticas e estilos de vida inadequados
(Cassidy, 2002). Existem também os factores patogénicos epidémicos ou pestilências
epidémicas que, dependendo do autor, são incluídos nos factores patogénicos mistos ou
constituem uma classe independente. Os factores epidémicos são responsáveis pelas doenças
infecciosas graves que são contagiosas e de evolução aguda (Chonghuo et al., 1988).

2.10. Exame físico de Medicina Veterinária Tradicional Chinesa

O exame de MVTC consiste em: anamnese, observação, auscultação, olfacção, palpação,


exame da língua e exame do pulso. As duas últimas fases são fundamentais para a
identificação do padrão de doença ou da síndrome presente. De qualquer modo, o
acupuncturista veterinário não deve descurar a medicina convencional e deve, obviamente,
usar os meios de diagnóstico modernos à disposição, reunindo o máximo de informação
possível para determinar qual o tratamento mais indicado (Broadfoot et al., 2008). No Anexo
VIII é apresentada uma ficha de exame físico que combina os parâmetros do exame de MVTC
e os do exame de medicina veterinária.
O acupuncturista deve avaliar todos os factores que fazem os sinais clínicos melhorar ou
piorar: impacto do clima, actividades da vida normal e a hora do dia (Wynn e Marsden, 2003) e
questionar o proprietário quanto à atitude e comportamento do animal. Por exemplo, se procura
locais quentes ou frescos e se ingere mais água do que o habitual (Casasola, 1999). Tal como
na Medicina Veterinária, a história médica é importante no diagnóstico de MVTC, pois a doença
presente pode reflectir a progressão de uma dinâmica energética que não foi tratada, ou ter a
mesma dinâmica presente em doenças anteriores. O aparecimento de sinais clínicos associado
à administração de fármacos ou vacinas, sugere normalmente o agravamento de uma condição
latente ou de uma tendência para doença no organismo. Esta tendência geralmente tem a
mesma natureza que o fármaco. Portanto, fármacos que arrefecem (como antibióticos) podem
agravar tendências para o Frio, ou vacinas podem desencadear um episódio de Calor Tóxico

16
pois os organismos infecciosos são considerados toxinas ambientais (Wynn e Marsden, 2003).
A observação consiste na avaliação das características físicas que incluem o aspecto da pele,
pelagem, compleição física e corrimentos nasais, oculares, brônquicas ou dos ouvidos, assim
como a vitalidade do animal ou seja a atitude, resposta a estímulos e vivacidade do olhar. A
localização das lesões cutâneas e das alterações na pelagem é especialmente importante
quando se distribuem ao longo de um meridiano. O aspecto dos corrimentos é característico de
certas perturbações internas e a compleição física pode ser indicativa de afecções subjacentes,
como a perda ou ganho súbito de peso (Wynn e Marsden, 2003; Schwartz, 2001).
A auscultação é realizada sem estetoscópio, para avaliar as características do latido ou do
miar, a tosse e os sons respiratórios. Um latido forte, especialmente num animal que vocaliza
frequentemente, pode indicar um padrão de Excesso. Pelo contrário, um latido ou um miar
fraco podem indicar um padrão de Deficiência (Casasola, 1999).
A cada órgão Zang Fu está associado um determinado odor e a sua classificação pode ajudar
na identificação da área ou órgão problemático (Schwartz, 2001). De um modo geral os odores
fétidos indicam padrões de Calor e Excesso. Quando as fezes e a urina são inodoras estão
presentes padrões de Frio ou Deficiência (Casasola, 1999).
O exame de MVTC deve incluir a palpação da superfície corporal, músculos e massas
anormais, à semelhança do exame ocidental (Broadfoot et al., 2008). Deve pesquisar-se
tumefacções quentes, frias, dolorosas, áreas ulceradas, massas duras e massas brandas
pouco definidas (Schwartz, 2001). A palpação deve também incluir os acupontos diagnósticos
Shu e Mu, que se relacionam com cada um dos órgãos Zang Fu reflectindo o seu estado. Os
pontos Shu ou pontos de associação pertencem ao meridiano da Bexiga e localizam-se no
bordo dos músculos longissimus thoracis e iliocostalis (Xie e Preast, 2007). Estes pontos
devem ser palpados com pressão leve a moderada (Schwartz, 2001). Os pontos Mu ou pontos
de alarme situam-se na região lateral e ventral e pertencem a vários meridianos (Xie e Preast,
2007). Nestes pontos, uma leve pressão é geralmente suficiente para suscitar uma resposta. A
sensibilidade à palpação dos acupontos pode reflectir um desequilíbrio do órgão Zang Fu ou do
meridiano correspondente. O animal manifesta-a rosnando, ganindo, voltando a cabeça para
morder, sentando-se ou simplesmente pela reacção de enrugamento da pele (Schwartz, 2001).
O aspecto da língua é um indicador dos efeitos cumulativos de Qi, Xue, Yin e Yang nos tecidos
e tem alta prioridade na interpretação dos sinais físicos e comportamentais (Wynn e Marsden,
2003). A língua deve ser avaliada quanto à cor, forma, movimento, revestimento, humidade e
características particulares (Wen, 1985). Uma língua normal é rosa e viva, ligeiramente húmida,
preenche o chão da boca, tem bordos afiados semelhantes aos de um fígado ou baço saudável
e geralmente não possui saburra, apenas uma espuma persistente (Wynn e Marsden, 2003). A
interpretação dos vários parâmetros do exame da língua pode ser consultada no Anexo X.
Na MVTC o pulso é usado para avaliar o sistema cardiovascular mas também para avaliar o
17
estado geral do animal (Broadfoot et al., 2008). Nos animais de companhia o pulso é palpado
na artéria femoral e nos animais de grande porte é avaliado na artéria carótida (Xie e Liu,
2001). O pulso é classificado segundo uma série de parâmetros: profundidade, tensão, força,
diâmetro, taxa e ritmo (Anexo XI). A profundidade do pulso depende da pressão necessária
para sentir a intensidade máxima da pulsação e indica a localização da energia Yang e do Qi
indiferenciado. A tensão do pulso depende da facilidade com que a pulsação e a parede do
vaso desaparecem sob pressão digital e representa a facilidade com que o Qi flui no
organismo. A força com que a pulsação bate nos dedos equivale à pressão do pulso e
representa a quantidade de Qi. O diâmetro, é a área de superfície ocupada na ponta dos dedos
e varia consoante a quantidade de Xue ou de Yin do organismo. A avaliação da taxa de pulso é
feita por contagem das pulsações sentidas. O ritmo de pulso depende da rapidez das
pulsações e da existência de pausas esporádicas ou regulares (Wynn e Marsden, 2003).

3. Formas de acupunctura

3.1. Acupunctura com agulha seca

A definição clássica de acupunctura refere-se à acupunctura com agulha seca, na qual se


introduzem agulhas filiformes (Figura 6) na superfície corporal. Esta é a forma mais comum de
acupunctura veterinária. As agulhas utilizadas têm comprimento e diâmetro adequado à
espécie animal, porte, constituição e padrão de doença (Ferguson, 2007). Em pequenos
animais usam-se agulhas de 28 a 34 gauge. O ângulo e a profundidade da inserção varia com
a localização anatómica, idade, porte e estado de saúde do doente. Dependendo do padrão de
doença, as agulhas podem ser manipuladas devagar ou depressa e rodadas em sentido
horário ou anti-horário, de modo a tonificar ou sedar os acupontos (Cantwell, 2010).
O número de acupontos estimulados numa sessão de tratamento é muito variável. Podem
usar-se até 60 pontos, por exemplo no tratamento de febre alta aguda, ou usar apenas um, por
exemplo na diarreia. Em medicina veterinária geralmente usa-se um número moderado, 5 a 19
acupontos por sessão. Os tratamentos duram 10 a 30 minutos mas, em certas situações, pode
ser necessário reter as agulhas durante algumas horas ou adoptar um método de estimulação
permanente (implantes). Alguns acupontos são muito sensíveis (nos pés, olhos e nariz) e só
devem ser estimulados por alguns segundos ou minutos (Ferguson, 2007).
A frequência das sessões de tratamento dependerá da natureza e gravidade da doença e da
evolução do paciente. Na maioria dos casos usam-se tratamentos semanais ou até cada quatro
semanas, num total de 3 a 7 sessões. Em animais com doença aguda ou grave, internados ou
sob cuidados especiais, pode aumentar-se a frequência do tratamento. Por exemplo, num
cavalo com laminite grave pode tratar-se a cada 12 horas para alívio da dor. Após resolução

18
dos sinais clínicos pode ser recomendável uma re-avaliação aos 6 a 12 meses para afinar o
organismo e re-equilibrar o Yin e o Yang (Ferguson, 2007).

Figura 6. Agulhas de acupunctura esterilizadas descartáveis de aço inoxidável. Estas agulhas têm guia (tubo de
plástico) que facilita a sua colocação. São indicadas para acupunctura com agulha seca e para electroacupunctura.

3.2. Moxabustão

A moxabustão consiste no aquecimento dos acupontos queimando ervas (Artemisia vulgaris ou


Artemisia sinensis) na pele ou acima da pele. O objectivo é introduzir calor no organismo de
modo a corrigir o equilíbrio Yang-Yin e a promover a circulação do Qi e do Xue (Cassidy, 2002).
Geralmente chama-se moxa ao preparado de ervas secas e prontas a queimar, seja na forma
de cones ou de cilindros enrolados semelhantes a charutos (Figura 7).

Figura 7. Cilindro de moxa para moxabustão indirecta. Figura 8. Moxabustão indirecta.

19
A moxabustão pode ser directa, quando os cones de moxa são queimados directamente sobre
a pele ou indirecta utilizado-se cilindros de moxa acesos e mantidos a 2 ou 3 cm acima da pele
sobre o ponto de acupunctura (Figura 8). A moxabustão indirecta é mais usada em veterinária
pois é mais prática e menos traumática. É aplicada durante 3 a 15 minutos, movendo a moxa
em círculos ou na vertical, até que a pele fique vermelha no ponto estimulado (Altman, 2001).

3.3. Aquapunctura e farmacopunctura

Aquapunctura é a injecção de soluções em pontos de acupunctura. É uma forma fácil e rápida


de estimular os pontos. O estímulo dura o tempo necessário para que a solução injectada seja
absorvida. A aquapunctura evita a contenção do animal durante um período longo, utiliza
soluções que estão usualmente disponíveis em qualquer clínica e é facilmente aceite pelo
proprietário (Altman, 2001). A farmacoacupuntura é a injecção de fármacos em determinados
acupontos, em doses muito inferiores às usadas normalmente, mas com o objectivo de obter
um efeito equipotente. Por exemplo, a injecção de um décimo da dose normal de
acepromazina, é eficaz na sedação (Figura 9) (Cantwell, 2010).
As soluções a injectar podem ser água destilada,
soluções electrolíticas (solução salina a 0.9%),
vitaminas (principalmente B12 e C), antibióticos,
extractos de plantas (desde que aprovados no
país), anestésicos locais, analgésicos e anti-
inflamatórios esteróides ou não-esteróides. Em
animais de companhia utilizam-se agulhas
hipodérmicas de 25 gauge e dependendo do
tamanho do paciente e do local da injecção,
aplicam-se 0.25 ml a 2 ml em cada acuponto Figura 9. Sedação por farmacopunctura com
acepromazina no ponto Yin Tang.
(Altman, 2001). Por exemplo, num cão com 15 kg a
20 kg de peso pode injectar-se 1 ml de solução de vitamina B12, num ponto localizado numa
massa muscular grande, com agulha de 25 a 27 gauge (Ferguson, 2007).
Outra forma de aquapunctura é a injecção de sangue do próprio animal. É usada em doenças
autoimunes ou inflamatórias, e geralmente aplicada em pontos de acção local, como por
exemplo o BL1 para tratar a queratoconjuntivite seca. O sangue é retirado de um grande vaso
e injectado sem aditivos (em menos de um minuto) num acuponto à escolha (Ferguson, 2007).

3.4. Pneumoacupunctura

Pneumoacupunctura é uma técnica semelhante à aquapunctura, na qual é injectado ar em


acupontos ou em áreas específicas de maior dimensão. A técnica é mais usada em grandes
20
animais, especialmente equinos, pois são injectados volumes relativamente grandes de ar
(100 ml no tecido subcutâneo). O procedimento requer cuidados para evitar embolismo gasoso
e o animal tratado deve ser mantido em repouso alguns dias, para que o ar se difunda sem
causar pressão sobre os vasos e nervos circundantes. Este método é utilizado para tonificação,
em padrões de Deficiência como paresia do nervo supraescapular (Ferguson, 2007).

3.5. Acupressão

Acupressão é a aplicação de pressão na superfície corporal, num padrão geral (massagem) ou


em pontos específicos. É provavelmente uma das formas mais antigas de estimulação de
pontos de acupunctura e pode ser feita com os dedos, polegares e cotovelos (Kayne, 2009). A
acupressão não é muito utilizada em medicina veterinária, mas pode instruir-se os proprietários
para massajar pontos específicos, de modo a ampliar em casa o efeito dos tratamentos de
acupunctura, nomeadamente para alívio da dor e espasmos musculares (Altman, 2001).

3.6. Implantes

A aplicação de implantes de vários materiais permite uma estimulação de longa duração. Pode
usar-se catgut, aço inoxidável ou material de sutura, mas é mais frequente utilizar-se contas
esterilizadas de ouro, aço ou prata. A colocação dos implantes requer anestesia geral e a
preparação normal de uma intervenção cirúrgica invasiva. Coloca-se uma agulha hipodérmica
de 14 gauge nos pontos de acupunctura seleccionados e através do lúmen da agulha
introduzem-se as contas metálicas até aos tecidos profundos. Faz-se passar um estilete
através da agulha, que mantém as contas no sítio, enquanto a agulha hipodérmica é retirada,
seguida do estilete (Altman, 2001).
Os implantes são utilizados para tratar dor crónica provocada por artrite coxofemoral (Figura
10), eliminação inapropriada e epilepsia (Altman, 2001).
Pensa-se que o mecanismo de acção
dos implantes de ouro seja, em parte,
anti-inflamatório. A cianida, libertada das
células inflamatórias, forma complexos
com o ouro formando aurocianida. Este
composto inibe as enzimas lisossomais
das células inflamatórias e inibe o
processamento de antigénio. A
actividade de ligação do factor
!-B-nuclear e a activação da interleucina
Figura 10. Aspecto radiográfico dos implantes de ouro
!-B-cinase são suprimidas, reduzindo a para tratamento de displasia da anca (Couto, 2010).

21
produção das citocinas pró-inflamatórias (Cantwell, 2010). No entanto, esta hipótese não
explica o efeito dos implantes compostos por outros materiais.
Os implantes de metal podem interferir com as técnicas de imagiologia magnética,
nomeadamente Imagem por Ressonância Magnética (RM) e Tomografia Axial Computorizada
(TC), facto que deve ser comunicado ao proprietário e aos colegas médicos veterinários
(Ferguson, 2007).

3.7. Auriculopunctura

A auriculopunctura ou auriculoterapia é uma subdivisão da acupunctura, na qual são usados os


pontos no pavilhão auricular, para fins diagnósticos e terapêuticos. Nesta modalidade, muito
usada em medicina humana, considera-se que a orelha é um microssistema onde estão
representados todos os órgãos e funções (Still, 2001). Em Medicina Veterinária, como a forma
e tamanho das orelhas é muito variável (entre espécies e entre raças) não há consenso quanto
à localização exacta dos acupontos. No entanto, à semelhança da acupunctura corporal,
considera-se que os pontos sensíveis devem ser tratados e podem reflectir o estado do órgão
ou da região correspondente (Ferguson, 2007).
Em humanos, a inserção de agulhas nos pontos do pavilhão auricular pode ser dolorosa e
provavelmente nos animais também (Still, 2001). Por este motivo, as agulhas inseridas são
deixadas no local sem manipulação ou usa-se acupressão. Para esse efeito existem agulhas
próprias (micro-agulhas de pressão e agulhas semi-permanentes) e apetrechos de diferentes
materiais (ímans, sementes e contas de ouro, prata ou aço), que são mantidos no local com
adesivo durante vários dias, até serem retirados ou se soltarem (Figura 11).

Figura 11. Materiais disponíveis comercialmente para a prática de auriculoterapia. Da esquerda para a
direita: micro-agulha de pressão, agulhas semi-permanentes, semente de Vaccaria com adesivo e ímans.

3.8. Ventosa de vácuo

Esta técnica consiste na aplicação de pressão negativa nos pontos de acupunctura. É


frequentemente utilizada em humanos, mas raramente em animais de companhia, pois requer
tricotomia dos pontos a tratar. Utilizam-se taças de vidro com válvulas de borracha para criar
vácuo, ou taças normais nas quais se introduz álcool, que se acende. A taça é aplicada
firmemente sobre um ponto e à medida que o oxigénio no interior é consumido, forma-se vácuo
de modo que a pressão negativa puxe a pele e o tecido subjacente (Altman, 2001).

22
3.9. Hemoacupunctura

A hemoacupunctura envolve a utilização de agulha afiada tradicional ou uma agulha


hipodérmica com bisel, utilizada para puncionar vasos sanguíneos de modo a causar
intencionalmente o sangramento. Ao contrário dos antigos métodos de sangria, na
hemoacupunctura o objectivo é retirar apenas uma pequena quantidade de sangue, dentro dos
limites seguros de perdas de sangue. Num gato de 5 kg pode retirar-se uma a duas gotas da
veia marginal da orelha. Num garanhão de 500 kg pode retirar-se 50 a 100 ml da veia safena
medial. Este método é aplicado em pontos específicos e indicado em desarmonias de
estagnação de Xue, Calor de Xue e Excesso de Calor em animais robustos (Ferguson, 2007).

3.10. Electroacupunctura

A electroacupunctura (EA) consiste na passagem de corrente eléctrica através de pontos de


acupunctura. Geralmente acopla-se aparelhos electrónicos (Figura 12) a agulhas já inseridas
nos acupontos (Figura 13). A EA foi desenvolvida na China na década de 30, do Séc. XX, e a
técnica foi melhorada na década de 50 com a investigação da analgesia por acupunctura. Nos
anos 70 tornou-se mais popular e actualmente é usada amplamente no tratamento da dor,
doenças e na indução de analgesia para procedimentos cirúrgicos.

Figura 12. Aparelho de electroacupunctura portátil, com Figura 13. Ligação do aparelho de
regulação da intensidade, frequência, modo e tipo de corrente. electroacupunctura à agulha através de
pinça de crocodilo.

A EA tem vantagens relativamente à acupunctura com agulha seca. Permite que o


acupuncturista realize outras tarefas enquanto as agulhas estão colocadas e produz um nível
maior e mais contínuo de estimulação. Isto é particularmente útil na analgesia cirúrgica que
requer um período de indução de 30 a 40 minutos. Para além disso, a quantidade e qualidade

23
da estimulação é mais exacta, uniforme e objectiva, e pode ser medida e regulada consoante a
amplitude e frequência da corrente. Este método é especialmente vantajoso nos ensaios de
investigação ao permitir o registo exacto dos parâmetros de estimulação e a possibilidade de
replicação da experiência, o que não acontece na manipulação manual (Altman, 2001).

3.11. Laser

Na laserterapia utilizam-se dispositivos de emissão de laser ou de neon-hélio, de baixa


potência (5 mW a 30 mW), que operam a comprimentos de onda de 630 nm a 670 nm para
estimular acupontos (Figura 14). A laserterapia tem-se revelado promotora da cicatrização, com
efeitos anti-inflamatórios e analgésicos (Ferguson, 2007).
A luz laser é altamente coerente e refracta imediatamente nos tecidos vivos. Isto significa que
um feixe de luz laser é refractado nos primeiros 1 mm a 15 mm de tecido e portanto é mais
eficaz no tratamento de acupontos superficiais em áreas de pele fina. Os acupuncturistas de
aves consideram o laser extremamente útil uma vez que é rápido de aplicar, não é invasivo, é
indolor e a pele das aves geralmente é muito fina. As desvantagens são a limitação no
tratamento de grandes áreas, especialmente em grandes animais e a falta de dados acerca
dos parâmetros óptimos de emissão para cada efeito (Ferguson, 2007).

Figura 14. Dispositivo portátil de emissão laser com três modos: regeneração, analgesia e relaxamento
muscular e sua aplicação na articulação do cotovelo para alívio da dor articular.

3.12. Outros métodos de estimulação

Há outras formas de estimulação dos acupontos, menos usadas em medicina veterinária. Pode
usar-se o frio (com gelo ou compostos químicos), os ultra-sons (sonopunctura), a luz
infra-vermelha (estimulação por calor), luz ultra-violeta (reacções químicas a nível celular) e
24
dispositivos magnéticos (magnetoterapia) entre outros. A maioria dos acupuncturistas
complementa a acupunctura com fitoterapia, utilizando ervas chinesas segundos os princípios
da MVTC e as suas propriedades de aquecimento, arrefecimento, tonificação e sedação,
consoante o padrão de desarmonia presente.

4. Efeitos e mecanismos de acção da acupunctura

4.1. Efeitos locais

A acupunctura é uma forma de contra-irritação, na qual o processo de inserção das agulhas


provoca microtraumatismo dos tecidos desencadeando uma reacção local, que resulta num
aumento do fluxo sanguíneo, um aumento da capacidade da resposta imune, relaxamento
muscular e relaxamento dos tecidos (Clemmons, 2007). As reacções locais desencadeadas
pela acupunctura decorrem numa sequência temporal, com o envolvimento de uma série de
mediadores (Anexo XII).
No ponto de estimulação da agulha, os mastócitos e as células circundantes segregam
bradicinina, histamina, heparina, hormona adrenocorticotrópica (ACTH), serotonina e proteases
diversas. Estas secreções provocam vasodilatação, aumento local da permeabilidade e
reacção local (Cabio!lu e Cetin, 2008).
O efeito vasodilatador da inserção das agulhas pode ser provocado pela libertação do péptido
relacionado com o gene da calcitonina (CGRP), por estimulação das fibras A" ou C. Nos
tecidos periféricos o CGRP é geralmente pró-inflamatório, mas em baixas doses tem uma
potente acção anti-inflamatória. A substância P provavelmente regula a libertação de CGRP
das terminações nervosas e a sua actividade vasodilatadora através da acção de proteases
dos mastócitos. Nos vasos sanguíneos, o CGRP afecta directa ou indirectamente a
vasodilatação e o extravasamento, pela via de estimulação de óxido nítrico (ON), péptido
intestinal vasoactivo (VIP) e bradicinina. A vasodilatação (retardada) induzida pela bradicinina é
dependente da ciclooxigenase 2 (COX-2), enquanto a prostaglandina PGE2 potencia a
bradicinina e induz dor (Zijlstra et al., 2003). Após vasodilatação, a formação de edema,
migração de leucócitos e a secreção de citocinas pelos mastócitos (TNF, IL-1 e IL-6) estimulam
o hipotálamo a segregar hormona libertadora da corticotrofina (HLC). Através do eixo
hipotálamo-hipófise-adrenal, é dada a ordem de reparação e regulação da inflamação. A
libertação de HLC pelo hipotálamo provoca libertação de ACTH pela hipófise, desencadeando
a libertação de glucocorticóides pela glândula adrenal. A HLC induz a libertação de
corticosteróides e de citocinas anti-inflamatórias (IL-2, IL-4, IL-10 e TGF-#) pelos leucócitos. Os
macrófagos activados, linfócitos, fibroblastos e células endoteliais segregam factores de
estimulação de colónias e citocinas (TNF e IL-1) (Cabio!lu e Cetin, 2008).

25
4.2. Efeitos gerais e sistémicos

A bioquímica da acupunctura é semelhante à dos métodos de neuroestimulação eléctrica


transcutânea (TENS) e envolve uma interacção complexa dos compostos opióides endógenos
com a substância P, acetilcolina, serotonina, norepinefrina e ácido gama-aminobutírico (GABA),
entre outros. Tanto o TENS como a acupunctura estimulam as terminações nervosas, alterando
assim as vias segmentar e supra-segmentar espinhal. Isto leva a alterações no tronco cerebral
e nas regiões corticais, afectando eventualmente todo o eixo neural (Clemmons, 2007).
Devido à neuroquímica envolvida na acupunctura, há uma série de compostos farmacêuticos
que podem alterar os seus efeitos (Quadro 2). Portanto, é importante conhecer os tratamentos
farmacológicos efectuados, para determinar a eficácia da acupunctura (Clemmons, 2007).

Quadro 2. Influência dos fármacos na resposta à acupunctura (Clemmons, 2007).

Diminui a eficácia da acupunctura Aumenta a eficácia da acupunctura

" Propanolol " Substância P

" Diazepam " Histamina

" Teofilina " GMP cíclico

" Drogas #-adrenérgicas " Drogas $-adrenérgicas

" Atropina " Eserina ou Fisostigmina

Os efeitos analgésicos da acupunctura, especialmente no sistema músculo-esquelético, têm


sido alvo de extensa pesquisa, mas o estudo dos seus efeitos sistémicos ou sobre órgãos
internos não foi tão aprofundado. As principais alterações fisiológicas desencadeadas pela
aplicação de acupunctura estão resumidas em esquema no Anexo XIII.
Uma das utilizações da acupunctura mais estudadas é a prevenção da náusea e do vómito.
Apesar de extremamente eficaz na prática clínica em humanos, ainda não está claro se o efeito
anti-emético da acupunctura em PC6 se deve à estimulação da motilidade gástrica e/ou à
inibição do centro do vómito. No ensaio realizado por Tatewaki et al. (2005), a aplicação de EA
(10 Hz) em PC6 diminuiu significativamente os episódios de vómito e as contracções
peristálticas retrógradas em cães. Este efeito foi inibido pela naloxona (mas não pela naloxona
metiodida), o que indica que possa ser mediado pela via central opióide.
A estimulação por EA tem efeito terapêutico nas alterações funcionais do tracto gastrointestinal,
provavelmente por activação dos reflexos somato-autónomos. Quando aplicada na região
abdominal e no tórax caudal, a acupunctura inibe a motilidade gástrica, mas a sua aplicação
nos membros aumenta essa motilidade (Fukazawa et al., 2009). A estimulação do ramo
auricular do nervo vago com auriculopunctura aumenta o tónus do músculo liso do estômago e
suprime o apetite (Cab!oglu et al., 2006). O aumento do esvaziamento gástrico ocorre por
activação dos receptores de glutamato no núcleo dorsal motor do nervo vago. A motilidade do

26
cólon distal é acelerada por activação dos nervos pélvicos e dos receptores muscarínicos no
cólon distal (via colinérgica) (Fukazawa et al., 2009).
A acupunctura diminui a secreção ácida gástrica após a refeição possivelmente por aumento
da !-endorfina. Pensa-se que a !-endorfina, que tem actividade lipofílica, esteja também
implicada no efeito da acupunctura sobre o metabolismo. A estimulação do acuponto CV12 por
EA aumentou os níveis de !-endorfina e causou hipoglicemia em ratos diabéticos,
provavelmente por aumento da insulina no plasma (Cab"oglu et al., 2006).
A acupunctura pode influenciar o sistema cardiovascular por excitação das fibras III e IV
somáticas aferentes, desencadeando respostas autonómicas reflexas. A região ventrolateral
rostral da medula espinhal tem um papel fundamental na modulação destes efeitos em certas
condições patofisiológicas, como hipertensão, hipotensão, arritmia e doença coronária. Esta
modulação parece ocorrer por libertação de GABA e opióides endógenos (encefalina e
!-endorfina) e por inibição da libertação de glutamato. A produção de ON com EA parece
também estar envolvida nos efeitos cardiovasculares ao inibir o núcleo gracile, inibindo o
reflexo somato-simpático (Fukazawa et al., 2009).
A acupunctura é eficaz na activação do sistema de coagulação e na hemostase, ao diminuir
significativamente o tempo de tromboplastina parcial activada e os tempos TI (20 min após
aplicação) e TIII (6 horas após aplicação) em cães (Hayashi e Matera, 2005).
A estimulação dos pontos LI4, LR3 e GB37 reduz a pressão intra-ocular, podendo ser útil no
glaucoma ou hipertensão ocular. Nos ensaios realizados com pacientes humanos, esta
diminuição foi associada à redução da pressão sanguínea, aumento de endorfinas e diminuição
da taxa de produção do humor aquoso por diminuição dos níveis de norepinefrina e dopamina,
mas pensa-se que poderão estar envolvidos outros factores (Kim et al., 2005).
A acupunctura pode também alterar a libertação da hormona de crescimento por estimulação
da via opióide, estimular a libertação de prolactina, oxitocina e hormona luteinizante e regular a
função da tiróide (Steiss, 2001).
Após acupunctura, há um aumento de encefalinas no plasma e no SNC e um aumento de
serotonina. As encefalinas estão implicadas no comportamento e têm efeito antidepressivo,
anticonvulsivo e ansiolítico. A serotonina é responsável pela sensação de bem-estar, felicidade,
apetite sexual e pelo equilíbrio psicomotor (Cab"oglu et al., 2006). Portanto, a acupunctura
pode ser usada no tratamento da depressão e da ansiedade (Cabio#lu e Cetin, 2008).

4.3. Mecanismo somato-visceral

Um ponto-gatilho é um ponto na pele, que quando estimulado, provoca dor numa área
adjacente ou numa área distante. Os acupontos Ah-shi assemelham-se aos pontos-gatilho. São
acupontos inespecíficos, sensíveis, que reflectem a dor ou alteração de uma parte do corpo, e

27
podem ser tratados com acupunctura para alívio dessa dor (Steiss, 2001).
As vísceras possuem poucos nociceptores que se projectam directamente no SNC, mas
parecem recrutar neurónios cutâneos nociceptivos aferentes, de modo a ampliar o sinal de
alerta que chega ao cérebro. Estas fibras são recrutadas por despolarização das terminações
pré-sinápticas na ME, por isso os sinais são enviados ao cérebro em direcção anterógrada e à
periferia em direcção retrógrada. A informação que chega ao cérebro é idêntica à que teria
origem nos nociceptores cutâneos, motivo pelo qual o cérebro localiza a dor visceral como
tendo origem em locais periféricos. Os sinais que chegam à pele activam a libertação de
vasodilatadores e péptidos nociceptivos dos colaterais de axónios periféricos, o que explica a
sensibilidade e a dor que se instala nos pontos Ah-shi (Figura 15) (Cassidy, 2002).

Pele R1

R2 1
4
I1
2

Vaso Medula espinhal Víscera


sanguíneo

Vaso
sanguíneo
Agulha de
acupunctura
R2

I1 R1
2
Pele Víscera
B Medula espinhal

Figura 15. Modelo de integração víscero-somática. A - Mecanismo víscero-somático - O ramo 1


do neurónio sensitivo visceral transmite o sinal de dor ao neurónio espinhal de retransmissão (R1),
mas não o suficiente para o activar. O ramo 2 faz sinapse com o interneurónio espinhal (I1) que por
sua vez estabelece sinapse com a terminação de um neurónio sensorial somático. Isto desencadeia
um sinal antidrómico que se propaga para a pele e ao chegar ao ramo colateral (3) inverte a direcção
regressando à medula espinhal. A convergência de informação somática e visceral é suficiente para
activar o neurónio R1 que envia um sinal nociceptivo ao mesencéfalo e córtex somatosensorial. Aqui,
o sinal é percebido como tendo origem maioritariamente num local periférico. Simultaneamente, o sinal
antidrómico propaga-se para a pele e através de outro ramo colateral (4) desencadeia a libertação de
péptidos vasodilatadores e nociceptivos. B - Mecanismo somato-vísceral - Um ramo do neurónio
sensorial (1), em resposta à acupunctura, faz sinapse no interneurónio espinhal (I1) desencadeando
indirectamente um sinal antidrómico no neurónio sensorial visceral (2). Isto provoca a libertação de
péptidos pelos ramos colaterais do neurónio visceral promovendo a vasodilatação, relaxamento do
músculo liso e outras respostas de cura (Adaptado de Cassidy, 2002).

28
Esta hipótese de recrutamento baseia-se na descoberta de que os neurónios espinhais que
recebem informação dolorosa da pele, também respondem a estímulos nociceptivos viscerais.
Se o mesmo suceder em direcção contrária, os mecanismos de acupunctura poderão estimular
a via víscero-somática. Assim, enviando sinais neurológicos da periferia para um órgão interno
disfuncional, podem desencadear-se reacções locais de cura, como vasodilatação e
imunomodulação (Cassidy, 2002).

4.4. Efeito anti-inflamatório

O cérebro e o sistema imunitário formam uma rede bidireccional através das vias neural e
humoral (Kavoussi e Ross, 2007). A informação inflamatória é transmitida através de nervos
sensoriais ao hipotálamo, onde os sinais de alerta são processados, resultando um output
anti-inflamatório através do Sistema Nervoso Autónomo (SNA) (Cho et al., 2006).
Pensa-se que acção anti-inflamatória da acupunctura tenha origem parassimpática, e de facto,
as secções dos meridianos do Estômago e do Baço conhecidas por gerar estímulos
parassimpáticos, quase correspondem às vias do nervo vago nas vísceras supra e
sub-diafragmáticas. O output vagal, não só controla o ritmo cardíaco e a actividade digestiva e
hormonal, como também desempenha um papel na homeostase e na imunoregulação
sistémica, pela chamada via anti-inflamatória colinérgica. A acetilcolina vagal liga-se aos
receptores !-7-nicotínicos no sistema fagocítico mononuclear, inibindo a síntese de citocinas
pró-inflamatórias, mas não a síntese das anti-inflamatórias. Esta hipótese é sustentada pela
observação, em animais de experimentação, de que a estimulação directa do nervo vago
eferente pode inibir a síntese do factor de necrose tumoral, inibir a resposta inflamatória e de
tumefação e deprimir a activação dos macrófagos (Kavoussi e Ross, 2007; Cho et al., 2006).
A via colinérgica pode estar também implicada nos mecanismos da auriculopunctura envolvidos
no desmame de opiáceos, assim como os efeitos anti-piréticos da acupunctura, que se pensa
serem mediados pela regulação para baixo de duas citocinas específicas (IL-6 e IL-1")
(Kavoussi e Ross, 2007).

4.5. Analgesia

Em 1965, Melzac e Wall sugeriram que a estimulação de misturas de nervos sensitivos


resultaria na transmissão da informação proprioceptiva que chega à medula espinhal, antes da
informação de dor ser recebida, devido à diferença das respectivas velocidades de condução
nervosa. A informação proprioceptiva, por inibição pré-sináptica, bloqueia a transmissão da
informação dolorosa ao nível local. Na acupunctura, é possível que as fibras A# e as fibras
proprioceptivas tipo II sejam as responsáveis pela analgesia local, em vez das grandes fibras
1-a e 1-b proprioceptivas que têm sido associadas aos efeitos da TENS (Clemmons, 2007).
29
Os dados sugerem que os impulsos provenientes dos acupontos ascendem principalmente
pelo funículo ventrolateral que é também a via espinhal de transmissão da dor e da sensação
de temperatura. Os sinais de dor e da acupunctura convergem no corno dorsal da medula
espinhal e no tálamo medial (no núcleo parafascicular) onde ocorre a integração dos dois tipos
de impulsos. Por exemplo, os axónios de neurónios do núcleo caudado e do núcleo magno da
rafe projectam-se para os neurónios sensitivos do núcleo parafascicular. A actividade dos
neurónios do núcleo caudado e do núcleo magno da rafe, suscitada por EA, inibe
significativamente as respostas nociceptivas no núcleo parafascicular, resultando num efeito
analgésico (Zhao, 2008).
No processamento da analgesia por acupunctura estão envolvidas uma série de estruturas
cerebrais, a maioria das quais integra o sistema inibitório descendente endógeno do SNC. Este
sistema consiste em várias regiões, como a medula rostral ventromedial (principalmente o
núcleo magno da rafe), substância cinzenta periaqueductal, locus coeruleus e núcleo arqueado.
Estas estruturas formam circuitos nervosos complexos, cuja interacção na analgesia por
acupunctura se resume no esquema da Figura 16. Todos eles estão envolvidos na mediação
da analgesia, excepto a habénula e o locus coeruleus que a contrariam (Zhao, 2008).
Na analgesia por acupunctura estão também implicadas uma série de moléculas: péptidos
opióides, colecistoquinina, glutamato, serotonina e noradrenalina. Destas, os péptidos opióides
e seus receptores desempenham o papel principal. A colecistoquinina antagoniza a analgesia
por acupunctura tal como acontece na analgesia com morfina (Zhao, 2008).
Os indícios sugerem que a analgesia induzida por EA pode ser mediada por estruturas
cerebrais diferentes (com receptores opióides diferentes), dependendo da frequência de
estimulação. A EA a baixa frequência (2 Hz) provoca analgesia por libertação de metencefalina
(Cabio!lu e Cetin, 2008), mas também de endomorfina e "-endorfina. Esta analgesia é anulada
se houver lesão do núcleo arqueado (Zhao, 2008). A frequências superiores (100 Hz) a EA
estimula a libertação de A-dinorfina, mas não de encefalina (Cabio!lu e Cetin, 2008), e
desaparece quando são provocadas lesões no núcleo parabraquial (Zhao, 2008). A
estimulação a frequência intermédias (15 Hz) parece provocar a libertação de todos estes
péptidos opióides e activar simultaneamente os três tipos de receptores opióides envolvidos (µ,
#, $). Esta activação suscita um efeito analgésico sinérgico, que também pode ser obtido por
estimulação alternada de baixa e de alta frequência (Zhao, 2008). A frequências de 200 Hz, os
efeitos segmentares são influenciados pelos neurónios descendentes serotonérgicos, que
podem ser bloqueados por antagonistas da serotonina. Este controlo diferencial da analgesia
segmentar, dependendo da frequência do estímulo, explica em parte a variação de resultados
obtidos nas pesquisas sobre o controlo segmentar da dor (Clemmons, 2007).

30
Figura 16. Circuitos centrais envolvidos na mediação da analgesia por
acupunctura através do sistema endógeno de opióides (Adaptado de Steiss, 2001).

A aplicação de EA pode aliviar a dor durante semanas a três anos, em cerca de 58% dos
indivíduos. Este efeito de longa duração poderá estar relacionado com o sistema inibitório
descendente endógeno e a inibição espinhal contínua de estímulos dolorosos, por acção da
serotonina e da metencefalina (Cabio!lu e Cetin, 2008).
Apesar da acupunctura possuir acção analgésica, não está provado que possua qualquer efeito
anestésico. Quando usada em cirurgia, o grau de analgesia obtido parece não ser satisfatório
na maioria dos casos, mas em combinação com fármacos adjuvantes pode ser melhorado
(Zhao, 2008). O sucesso da analgesia durante a cirurgia parece também ser muito influenciado
pelo temperamento do animal. Na maioria dos ensaios, os melhores resultados foram obtidos
em ruminantes e os piores em animais nervosos ou assustados. Nestas situações poderá
usar-se a sedação química em combinação com acupunctura (Gülanber, 2008).
A maioria das pesquisas em analgesia por EA foram realizadas em laboratório, em animais ou

31
indivíduos com dor aguda iatrogénica. A extrapolação das descobertas para a dor crónica
músculo-esquelética ou outras afecções expontâneas é especulativa e a resposta à
estimulação provavelmente dependerá do estado funcional da rede moduladora da dor e das
alterações que a estimulação possa produzir nessa rede (Steiss, 2001).

5. Utilização da acupunctura veterinária na prática clínica

No ocidente a acupunctura tem sido usada em clínica de grandes e pequenos animais nas
últimas 3 décadas. O seu valor terapêutico tem sido confirmado nos últimos anos e um número
crescente de veterinários desejam integra-la na sua prática clínica. Actualmente os tratamentos
de acupunctura veterinária resultam da combinação de técnicas médicas modernas com as
teorias de MVTC de modo a melhorar os resultados (Chan et al., 2001).
Em todo o caso, antes de tentar a terapia com acupunctura, o médico veterinário deverá
examinar o animal detalhadamente e avaliar se a acupunctura estará ou não indicada (Chan et
al., 2001). Sem um diagnóstico adequado, alguns tratamentos estarão condenados ao
fracasso, levando ao agravamento do estado do animal e à falta de confiança do proprietário
(Kline, 2002). Por exemplo, a acupunctura é eficaz em doenças funcionais do aparelho
reprodutor de grandes animais, mas poucas ou nenhumas hipóteses de sucesso em doenças
congénitas graves, infecções e neoplasias do tracto reprodutivo (Chan et al., 2001). Nesses
casos pode ser usada como complemento aos tratamentos convencionais, tirando partido da
sua acção imunomoduladora, para activar o sistema imunitário, aumentar a resistência a
infecções ou potenciar a imunidade celular em processos tumorais (Cabio!lu e Cetin, 2008).

Em animais de companhia, a acupunctura está indicada nas condições enumeradas abaixo.


! problemas músculo-esqueléticos: artrite, doenças do disco intervertebral, espondilite ou
espondilose, displasia da anca, distensão dos ligamentos, espasmo muscular,
osteocondrose dissecante;
! dermatologia: granuloma por lambedura e dermatite crónica;
! doenças respiratórias: asma felina, doenças respiratórias crónicas;
! doenças do aparelho gastrointestinal: diarreia, obstipação, incontinência fecal,
problemas gastrointestinais crónicos;
! algumas doenças do sistema reprodutor;
! neurologia: paralisia, paresia, epilepsia, mielopatia degenerativa, lesões traumáticas do
sistema nervoso e dor neuropática;
! aparelho urinário: incontinência urinária e insuficiência renal crónica;
! outras doenças: distúrbios provocados por stress (eliminação inapropriada), doenças
imunes ou auto-imunes, condições dolorosas e emergências (por exemplo reanimação).

32
Em grandes animais, a acupunctura está indicada em:
! problemas músculo-esqueléticos: dor torácica, lombar e sacral aguda ou crónica,
síndrome da vaca caída, claudicação, doença navicular, laminite, tendinite, sesamoidite,
abcessos do casco, espasmo muscular e mioglobinúria paralítica;
! dermatologia: dermatite alérgica;
! doenças respiratórias: doença aérea inflamatória, hemorragia pulmonar induzida por
exercício, COPD, broncoespasmo, rinite, sinusite, pneumonia, enfisema pulmonar;
! doenças gastrointestinais: cólica intratável cirurgicamente, diarreia, obstipação, prolapso
rectal, indigestão, hepatite, cetonúria, alterações na motilidade ruminal;
! problemas reprodutivos: anestro, quisto ovárico, infertilidade, mastite, falha na dilatação
da cérvix, distócia, prolapso uterino, retenção placentária, transferência de embriões,
anomalias espermáticas e doença testicular;
! neurologia: paralisia dos nervos periféricos (do nervo facial e radial) e dos membros
posteriores, síndrome de Wobbler e quadros convulsivos;
! problemas urinários: nefrite, doença renal;
! outras doenças: fadiga pós-viral, distúrbios de comportamento (cribbing, medo,
ansiedade e nervosismo), no adestramento, doença cardíaca.

Em aves, as afecções que respondem bem ao tratamento com acupunctura incluem:


! aparelho locomotor: paresia, asa caída, tendinite, rigidez da asa ou da pata;
! infecções crónicas: foliculite, sinusite e pododermatite ulcerativa (bumblefoot);
! problemas reprodutivos: falha na postura (retenção do ovo), infecção crónica do saco
vitelino, prolapso cloacal;
! neurologia e distúrbios de comportamento: epilepsia, featherpicking e comportamento
estereotipado.

Apesar de existirem poucas publicações sobre o tema, está também descrito o uso de
acupunctura em animais exóticos (Koski, 2011):
! paresia dos membros posteriores: em quelónios, lagartos e aves, secundária a
traumatismo, desuso ou estado gravídico prolongado;
! problemas músculo-esqueléticos: doença articular degenerativa (em porquinhos-da-
índia, secundária a escorbuto crónico), osteoartrite, espondilose lombar em lagomorfos
geriátricos;
! doenças do aparelho gastrointestinal: diarreia e vómito em furões, íleo em lagomorfos,
porquinhos-da-índia, chinchilas, quelónios e lagartos;
! aparelho urinário: incontinência urinária não associada a infecção bacteriana ou
cálculos vesicais, em lagomorfos e roedores geriátricos;

33
! doenças dermatológicas crónicas: feridas de cicatrização lenta e prurido (todas as
espécies.

De um modo geral a acupunctura é usada nos problemas músculo-esqueléticos,


dermatológicos, reprodutivos, nervosos, respiratórios, falhas na imunidade e em doenças de
medicina interna como doença cardíaca ou renal. Para além das indicações citadas, estão
publicados relatos sobre a utilização de acupunctura com sucesso numa série de outras
doenças. Os tratamentos regulares com acupunctura podem ser usados em animais de
competição para manter a forma física e fortalecer músculos e tendões (IVAS, 2011; ABVA,
2011; Gülanber, 2008).

5.1. Acupunctura em neurologia veterinária

A Medicina Veterinária Complementar e Alternativa (MVCA) tem sido útil no tratamento de


animais geriátricos com alto risco anestésico, lesão neurológica não tratável com cirurgia e
animais com défices neurológicos refractários ao tratamento convencional. Se usada de forma
sábia e integrativa a MVCA pode também ser uma boa terapia adjuvante do tratamento
convencional (Kline, 2002).

5.1.1. Doença vascular cerebral

A doença vascular com envolvimento cerebral pode ser observada em animais com doença
cardiovascular ou doença metabólica e de um modo geral o SNC é a porção mais afectada do
sistema nervoso. As terapias alternativas são usadas para acelerar a recuperação e melhorar a
qualidade de vida do animal. Nestas situações, o tratamento com acupunctura tem como
principais objectivos o aumento da perfusão sanguínea da região afectada e o alivío do stresse
e ansiedade. Em termos de MVTC os princípios de tratamento consistem em acalmar o Fígado,
eliminar o Vento e Fleuma, limpar os sentidos e nutrir o Yin (Kline, 2002).
Num estudo publicado por Joaquim et al. (2008) foram tratados com sucesso quatro cães com
acidente vascular cerebral (AVC), com recurso a acupunctura e eventualmente EA,
moxabustão e hemopunctura.
A doença vascular de origem traumática também responde bem à acupunctura veterinária,
observando-se uma diminuição dos níveis de fibrinogénio, produtos de degradação da fibrina e
triglicéridos séricos. Nestes casos, a eficácia da acupunctura é melhorada quando associada a
fisioterapia e eventualmente à administração de suplementos para o SNC (Kline, 2002).
Em humanos, a acupunctura melhorou o tempo de recuperação nos indivíduos com sinais
clínicos agudos que foram submetidos a 20 sessões de tratamento. O National Institute of
Health reconheceu em 1997 que a acupunctura pode ser um complemento útil na reabilitação

34
após AVC em humanos. No entanto, esta hipótese ainda não foi devidamente confirmada em
ensaios clínicos rigorosos (Lee et al., 2007).

5.1.2. Epilepsia

A epilepsia canina representa cerca de 14% das doenças neurológicas em cães e em 80% dos
casos é diagnosticada como epilepsia idiopática. Na MVTC a epilepsia é considerada uma
síndrome de Vento interno que invade o meridiano do Fígado, por elevação do Yang do Fígado
(Kline, 2002). Os tratamentos antoconvulsivos têm como objectivo reduzir os sinais clínicos,
diminuindo a frequência dos ataques epilépticos, para prevenir as alterações plásticas
permanentes no SNC. No entanto, 20% a 40% dos cães epilépticos são refractários ao
tratamento com fenobarbital e cerca de 40% também resistem ao tratamento com brometo de
potássio (Goiz-Marquez et al., 2009).
A aplicação de acupunctura no tratamento da epilepsia idiopática é algo controversa quer em
humanos quer em animais. A acupunctura com agulha seca tem sido usada no controlo dos
ataques, mas a aplicação de EA pode exacerba-los. Em cães, a colocação de implantes de
ouro no calvarium pode revelar-se útil, tal como a auriculopunctura nos pontos Shen Men
(Kline, 2002). Em modelos animais, confirmou-se que os opióides endógenos, serotonina e
ácido gama-butírico estão implicados nos mecanismos de supressão de ataques epilépticos
por acupuncutura (Lee et al., 2007).
A colocação de implantes de ouro é usada geralmente como último recurso, em animais
refractários ou medicados com doses elevadas de anticonvulsivos. Como os implantes não são
eficazes em todos os animais, antes da sua colocação deve testar-se a eficácia da acupunctura
com agulha seca nesse animal (Ferguson, 2007). O número de tratamentos necessários para
avaliar a eficácia da acupunctura dependerá do padrão inicial dos ataques epilépticos (Lindley
e Cummings, 2006).
No estudo desenvolvido por Goiz-Marquez et al. (2009), em 15 cães com epilepsia idiopática, a
colocação de implantes de ouro (2 mm a 3 mm de fio de ouro) diminuiu significativamente a
frequência e a gravidade dos ataques em 38.7% e 33.4%, em 12 e 10 cães respectivamente.
No exame electroencefalográfico não foram observadas diferenças significativas quanto à
potência relativa e quanto à coerência intra-hemisférica antes e depois do tratamento
(Goiz-Marquez et al., 2009).
A Cochrane Collaboration publicou uma revisão de 16 ensaios controlados, sobre a utilização
de acupunctura na epilepsia humana, num total de 1486 pacientes. Comparada com a
administração de fenitoína ou de valproato, a acupunctura parece actuar melhor ao reduzir a
frequência dos ataques em 25 a 75%. Comparada com o valproato, a acupunctura é mais
eficaz na diminuição da falta de concentração e na melhoria da qualidade de vida e da

35
pontuação da epilepsia. Resultados semelhantes mas muito heterogéneos, foram obtidos em
ensaios com implantes de catgut. Contudo, de um modo geral os ensaios incluídos tinham alto
grau de enviesamento e o tempo de acompanhamento foi curto, o que levou a Comissão de
Revisão a considerar que até à data não existem provas concretas quanto à eficácia e à
segurança da acupunctura como tratamento da epilepsia humana (Cheuk e Wong, 2011).

5.1.3. Paralisia

A acupunctura é utilizada frequentemente, com sucesso, no tratamento de doenças músculo-


esqueléticas e paralisias em cães, sendo considerada um método eficaz neste domínio. Porém,
como as causas de paralisia são múltiplas e complicadas, é sabido que em alguns casos não
há resposta ao tratamento (por exemplo: tumor vertebral, fractura, doença genética grave,
parasitismo). Por este motivo, o médico veterinário deve sempre determinar a etiologia da
doença antes de tentar o tratamento com acupunctura (Chan et al., 2001).
A selecção de acupontos para tratar animais com paralisia ou claudicação depende da etiologia
e do exame clínico. Com frequência, tanto a claudicação como a paralisia envolvem algum
grau de lesão vertebral e por isso são seleccionados os acupontos localizados ao longo da
coluna vertebral (meridianos BL e GV) para o tratamento, podendo ser adicionados acupontos
de outros meridianos. Para tratar lesões da região cervical e dos membros anteriores
recomenda-se a utilização dos pontos BL10, BL11, GB20, GB21, LI11, LI15, SI3 e SI9. Na
paralisia com origem na região toraco-lombar usam-se os pontos Baihui, BL23, BL26, BL34,
GB30, GB34 e ST36. A combinação BL62 e SI3 também é clássica no tratamento de
problemas da coluna vertebral (Chan et al., 2001).
No estudo retrospectivo publicado por Gülanber (2008), é relatada a utilização de EA como
tratamento de paralisia dos nervos radial, facial ou ciático. Todos os animais foram tratados
com EA de 20 Hz a 30 Hz durante 30 a 35 minutos, em sessões trissemanais ou em dias
alternados. O autor não refere qual a duração total dos tratamentos. Em quatro cães com
paralisa do nervo radial, três dos quais de origem traumática, a aplicação de EA e de outras
formas de acupunctura não provocou qualquer melhoria do ponto de vista clínico. Na opinião
do proprietário de um dos animais houve uma ligeira melhoria dos sintomas, mas sem
alterações clinicamente relevantes. Segundo o autor, o fracasso da EA nestes animais pode
dever-se a uma lesão completa do nervo (neurotmese) ou a uma falta de regularidade nos
tratamentos. Em quatro animais com paralisia do nervo ciático, a aplicação de EA produziu
resultados variáveis. Observou-se a resolução completa dos sinais clínicos em dois dos
animais (cão e gato), melhoria clínica num dos cães e não houve qualquer alteração no outro
cão (Gülanber, 2008).
No mesmo estudo, a aplicação de EA num equino com paralisia do nervo facial permitiu a

36
resolução completa dos sinais (Gülanber, 2008). A resolução da paralisia facial com
acupunctura foi também relatada com sucesso por Joaquim et al. (2008) em cinco cães.

5.1.3.1. Paralisia como sequela de esgana

A acupunctura tem sido usada com sucesso para tratar os distúrbios neurológicos que
permanecem como sequela da esgana. O tema tem sido extensamente estudado no Brasil,
país onde os animais infectados são frequentemente eutanasiados, principalmente quando há
paralisia (Wynn et al, 2001).
Um estudo aleatório avaliou o efeito da acupunctura em 52 cães com paralisia dos membros
posteriores como sequela de esgana. A acupunctura foi aplicada em 18 animais e comparada
com a ausência de tratamento, em 17 animais e com o tratamento convencional que incluía
antibióticos, corticosteróides, complexos vitamínicos e eventualmente outros fármacos, em 17
animais. Os animais tratados com acupunctura foram sujeitos, durante um mês, a sessões
semanais com agulha seca nos pontos BL10, BL12, BL23, GB20, GB30, GB34 e ST36. Foi
considerada a recuperação total quando os animais recuperaram a actividade ambulatória e
não subsistiram outras complicações como incontinência urinária e fecal. Dos animais tratados,
9 recuperaram totalmente com acupunctura, 1 com o tratamento convencional e nenhum sem
tratamento. Todos os animais que receberam acupunctura sobreviveram, assim como 14 dos
tratados convencionalmente e 12 dos animais não tratados. Os resultados indicam que a
acupunctura pode ser eficaz no tratamento dos distúrbios neurológicos associados à esgana,
em cães (Wynn et al, 2001).

5.1.4. Doenças do disco intervertebral e da medula espinhal

As terapias complementares ou alternativas num paciente com doença do disco intervertebral


têm maior utilidade quando é estabelecido um diagnóstico definitivo ou quando o tratamento
cirúrgico não é uma opção por questões ligadas ao paciente (idade avançada, doença
subjacente). Estas terapias podem ainda ser usadas no período pós-cirúrgico para aliviar a dor
provocada pela manipulação de tecidos ósseos e tecidos moles, para promover o suprimento
regional de sangue à área afectada e para melhorar a força muscular (Kline, 2002).
Nos estudos desenvolvidos acerca da utilização de acupunctura em animais com hérnias
discais, os resultados são de um modo geral favoráveis ao uso de acupunctura. Das doenças
neurológicas tratadas por acupunctura, as hérnias discais parecem ser os casos com maior
taxa de sucesso e à semelhança do tratamento convencional, o prognóstico é mais favorável
quando está preservada a sensibilidade à dor profunda (Joaquim et al., 2008).
Segundo a revisão publicada por Janssens, citada por Hayashi e Matera (2005), os tratamentos
semanais ou bissemanais com acupunctura foram eficazes em 69% dos cães com doença do
37
disco intervertebral cervical. Alguns dos animais responderam logo após a primeira sessão
enquanto outros precisaram de seis sessões de acupunctura. Em média, o tempo de
recuperação dos animais tratados foi de duas semanas e a taxa de recidiva de 37% no período
de acompanhamento que variou entre quatro meses e oito anos (Hayashi e Matera, 2005).
Nas doenças do disco intervertebral toraco-lombares, Janssens (2002) considera que 90% dos
cães classificados com doença de grau I, podem recuperar totalmente com duas a três sessões
de acupunctura, num período de uma a duas semanas. Nos animais de grau II a taxa de
recuperação é semelhante, mas serão necessários três a quatro tratamentos ao longo de três
semanas. Dos cães com doença de grau III, cerca de 80% recuperam com cinco a seis
tratamentos num período de seis semanas. Dos restantes 20%, alguns poderão recuperar
parcialmente (por exemplo sem recuperar o controlo da micção), mas cerca de 10% não
demonstram qualquer melhoria. Nos animais com pior prognóstico, doença de grau IV, menos
de 25% recuperam totalmente com dez ou mais sessões de acupunctura realizadas durante
três a seis meses. Nestes casos, o tratamento com acupunctura terá apenas metade da
eficácia do tratamento cirúrgico (descompressivo) desde que realizado nas primeiras horas
após o aparecimento dos sinais clínicos. Segundo o autor, 10 % a 25 % dos animais com
doença do disco intervertebral toraco-lombar tratados com acupunctura, poderão recidivar nos
oito anos seguintes (Janssens, 2002). A combinação de EA em corrente alternada (3 Hz e
100 Hz) e corticosteróides (prednisona) também é vantajosa nestes casos, podendo reduzir
para metade o tempo de recuperação da actividade ambulatória. Os resultados são melhores
nos animais com sensibilidade à dor profunda (Hayashi et al., 2007). A aplicação conjunta de
acupunctura com agulha seca, EA em corrente alternada (2 Hz e 15 Hz) e prednisona aumenta
a taxa de recuperação da locomoção, diminui o tempo até à actividade ambulatória e até ao
desaparecimento da dor e diminui significativamente a taxa de recidiva (Han et al., 2010).
Em lesões experimentais da ME, provocadas por compressão de 25% do seu diâmetro após
laminectomia, o tratamento com corticosteróides ou com acupunctura obteve resultados muito
semelhantes em cães. Porém, a combinação de EA e corticosteróides foi vantajosa, acelerando
significativamente a recuperação da propriocepção e do reflexo extensor (Yang et al., 2003).
A resolução cirúrgica das hérnias discais tem pior prognóstico quando é realizada depois de 48
horas após a lesão. Nesses casos, em que há défices neurológicos graves que persistem há
mais de 48 horas (paraparesia ou paralisia), a aplicação de EA pode ser mais eficaz do que a
descompressão cirúrgica, na recuperação da actividade ambulatória e na melhoria dos défices
neurológicos, incluindo a sensibilidade à dor profunda. Curiosamente, a combinação de EA e
cirurgia descompressiva parece ter uma eficácia intermédia (Joaquim et al., 2010).
Está também descrita a utilização de acupunctura no tratamento da síndrome de Wobbler em
cães. Num estudo realizado por Sumano, citado por Habacher et al. (2006), observou-se uma
maior taxa de cura no grupo sujeito a EA (85 %) comparado com o grupo sujeito a tratamento
38
convencional. No entanto, este estudo não apresentou qualquer análise estatística intergrupos
e foi pouco rigoroso (Habacher et al., 2006).
A estimulação com agulha seca ou outros métodos pode ser também eficaz no traumatismo
medular. Como relatado por Joaquim et al. (2008), estas formas de terapia permitiram melhoria
do controlo neuromuscular e actividade ambulatória em 10 cães com traumatismo medular.

5.1.5. Regeneração nervosa periférica

Os estudos in vitro revelaram que após estimulação eléctrica, os axónios em regeneração


alongam-se em direcção ao cátodo, principalmente quando é aplicada uma corrente contínua
de baixa potência. A EA é um método simples de aplicar indirectamente a corrente eléctrica nos
tecidos mais profundos, causando danos teciduais mínimos e, se aplicada correctamente, pode
acelerar a regeneração dos nervos periféricos (Inoue et al., 2003).
Esta hipótese foi testada in vivo em ratos cujo nervo ciático foi esmagado ao nível da coxa.
Neste estudo foi avaliado o efeito da EA com corrente directa na velocidade de regeneração
dos nervos periféricos. A colocação do ânodo proximalmente à lesão e do cátodo distalmente
acelerou a regeneração nervosa e potenciou o contacto funcional da terminação nervosa com a
placa motora. A colocação dos eléctrodos em posição inversa provocou um atraso na
regeneração, em comparação com o grupo controlo. Na aplicação deste método, falta ainda
determinar os parâmetros óptimos para a estimulação eléctrica incluindo o local, frequência e
intensidade da corrente e a duração do estímulo (Inoue et al., 2003).
Num ensaio semelhante realizado em cães, foi provocada a desmielinização do nervo ciático
por injecção de etanol a 70 %. A lesão do nervo ciático provocou défices na sensibilidade à dor
superficial e na propriocepção, alteração dos reflexos e défices na sustentação do peso
ipsilateralmente à lesão. O tratamento com EA (2 V, 20 Hz) foi aplicado durante 20 minutos, nos
pontos GV5 (ânodo) e ST36 (cátodo) e a acupunctura com agulha seca foi aplicada durante 20
minutos nos acupontos GV20, GB30 e GB32. Comparada com o grupo controlo que não
recebeu qualquer tratamento, a recuperação no grupo sujeito a acupunctura foi melhor em
27 % para os reflexos extensores e em 54,9 % na sustentação do peso (Wynn et al., 2001).
Desconhece-se a frequência dos tratamentos e a sua duração total.
Nos últimos anos tem sido investigada a possibilidade de usar acupunctura na modulação das
neurotrofinas (NT) em modelos animais de doenças neurológicas e neurodegenerativas. As NT
são uma família de proteínas responsável pelo crescimento e sobrevivência dos neurónios
durante o desenvolvimento, pela manutenção e função dos neurónios adultos e pela
regeneração dos axónios após lesão no SNC e Sistema Nevoso Periférico (SNP). A sua acção
biológica depende da ligação selectiva a receptores específicos, os receptores tropomiosina
cinase (TrK) (Manni et al., 2010).

39
O interesse nas possibilidades terapêuticas das NT teve início nas últimas duas décadas, com
as pesquisas sobre o papel do factor de crescimento neural (NGF) no tratamento de doenças
neurodegenerativas centrais e periféricas, neuropatias periféricas e mais recentemente,
distúrbios epiteliais de origem neurotrófica como os que actuam nas úlceras corneais,
diabéticas e de pressão e nas vasculopatias. Apesar dos resultados promissores nos primeiros
ensaios pré-clínicos e clínicos, verificou-se que a administração de NGF provoca efeitos
secundários na maioria dos indivíduos como perda de peso, dor e hiperalgesia, especialmente
após libertação sistémica. No entanto, a EA reduz a resposta de hiperalgesia associada à
administração de NGF (Manni et al., 2010).
A EA é capaz de modular a actividade do SNA ao induzir uma depressão de longa duração no
ramo simpático, o que é associado a uma regulação periférica para baixo do NGF nos órgãos.
Os primeiros dados sobre a correlação entre o NGF e a acupunctura, resultaram de ensaios
com ratos com ovário poliquístico induzido por valerato de estradiol. Os tratamentos com EA
nesses animais contrariaram o aumento dos níveis de NGF ováricos e baixaram-nos para
níveis controlo, mas não afectaram os níveis hipotalâmicos (Manni et al., 2010).
A acupunctura parece ter também uma acção modulatória nas estruturas do SNP e na
plasticidade da ME mediada pelas NT. Em gatos submetidos a rizotomia dorsal, a EA aumentou
o mRNA-NGF e o número de neurónios com receptores TrKA (receptores para o NGF),
indicando um envolvimento da neurotrofina na plasticidade espinhal induzida por EA após
lesão. Num ensaio semelhante, a EA de alta frequência aumentou significativamente o número
de neurónios responsivos ao Factor Neurotrófico Derivado do Cérebro e à NT3. Em ratos com
secção da ME, o tratamento com EA foi associado a um aumento dos níveis de NT3,
aumentando o número de células estaminais sobreviventes e a sua distância de migração em
direcção ao tecido caudal. Um trabalho posterior demonstrou que a EA de frequência mista
(alternando corrente densa e dispersa de 2 Hz e 60 Hz), promoveu a sobrevivência e a
diferenciação das células estaminais enxertadas, o aumento da NT3 espinhal, paralelamente à
recuperação funcional de ratos com secção da ME (Manni et al., 2010).
A utilização da acupunctura como suporte ao uso farmacológico de NT, especialmente com
NGF, poderá melhorar a sua utilização pelos tecidos responsivos, reduzir as doses
farmacológicas e evitar os efeitos secundários associados. O desenvolvimento de protocolos
de tratamento com acupunctura com o objectivo de modular as NT endógenas poderia mesmo
constituir uma alternativa à administração directa de NT (Manni et al., 2010).

5.1.6. Outras doenças neurológicas

A utilização de MVCA no tratamento da meningite e encefalite é essencialmente paliativa. Na


maioria dos casos o objectivo do tratamento é o alívio da dor associada à inflamação, a

40
regulação do sistema imunitário e a redução da dose de corticosteróides. Segundo Kline,
(2002), a acupunctura pode ser eficaz nestes casos, especialmente na meningoencefalomielite
granulomatosa cervical e na meningite supurativa estéril, para aliviar a dor cervical. De
qualquer modo, deve ser utilizada em conjunto com os tratamentos convencionais.
O uso de acupunctura no tratamento da disfunção cognitiva canina está pouco estudada. A
acupunctura poderá eventualmente ser útil para estimular a função imunitária e em termos de
MVTC, estimular o fluxo de Qi e o Jing do Rim. (Kline, 2002).
Na disfunção cognitiva humana (Doença de Alzheimer), a acupunctura tem sido extensamente
estudada, mas até à data não há provas concretas de que possa ter efeitos benéficos na
melhoria da função cognitiva, quando comparada com o tratamento farmacológico (Kline,
2002). Num estudo com doentes com Alzheimer, a aplicação bissemanal de acupunctura
durante 3 meses, melhorou os níveis de ansiedade e de depressão, medidos na escala de
Speilberger e Cornell respectivamente e estabilizou a função cognitiva durante o período de
tratamento. Noutro estudo, melhorou significativamente as medições de orientação verbal,
coordenação motora e função cognitiva. Estes estudos, com amostras pequenas e não
controlados sugerem bons resultados com acupunctura, mas é necessário provas mais
concretas (Lee et al., 2007).
Actualmente desconhece-se a eficácia da acupunctura no tratamento da mielopatia
degenerativa ou no atraso da progressão desta doença. Porém, parece ser útil quando a
doença degenerativa articular é um factor agravante. Nesses casos, a acupunctura pode aliviar
a dor, fortalecer os músculos e tendões e melhorar a função imunitária (Kline, 2002).
No estudo retrospectivo publicado por Gülanber (2008), quatro cães com suspeita de
mielopatia degenerativa com graus diferentes de fraqueza e incontinência foram tratados com
acupunctura ou EA (20 Hz a 30 Hz). Destes, dois cães tratados com EA melhoraram
sintomaticamente na opinião do proprietário, mas sem melhoria clínica do ponto vista
médico-veterinário. No outro caso tratado com EA não houve qualquer alteração. No animal
tratado apenas com agulha seca, a paralisia nos quatro membros desapareceu totalmente
após duas sessões (Gülanber, 2008). Porém, é possível que o diagnóstico de mielopatia
degenerativa neste animal não estivesse correcto, pois a recuperação foi total e extremamente
rápida. Recorde-se que o diagnóstico definitivo só pode ser estabelecido na necrópsia, por
análise histopatológica da medula espinhal e das raízes nervosas, e que o diagnóstico
antemortem é meramente presuntivo e estabelecido por exclusão das doenças que integram a
lista de diagnósticos diferenciais, o que obriga à realização de exames complementares
(Coates e Wininger, 2010).
O tratamento convencional de embolismo fibrocartilaginoso resume-se a fisioterapia e o
prognóstico depende da localização da lesão. As terapias alternativas incluem a utilização de
electroacupunctura, ultra-sons e fisioterapia intensa, suplementos e fitoterapia (Kline, 2002).
41
A miosite dos músculos mastigadores (MMM) caracteriza-se por uma inflamação
imuno-mediada das fibras musculares tipo M2 que afecta os músculos da mastigação. O
tratamento convencional consiste na administração de corticosteróides em doses
imunossupressoras. A utilização da acupunctura na MMM está descrita e pensa-se que a EA
possa ser mais eficaz do que a agulha seca. Apesar do uso concomitante de esteróides e
acupunctura poder diminuir a eficácia da acupunctura, Kline (2002) considera que esta questão
deve ser mantida em debate (Kline, 2002).

5.2. Referenciação de casos clínicos para tratamento com acupunctura

A OMS classificou as doenças e sintomas em categorias, segundo os resultados obtidos com


acupunctura, em ensaios clínicos controlados publicados na literatura recente. Esta
classificação divide-se em quatro categorias: 1. comprovado como sendo um tratamento eficaz;
2. demonstrado o efeito terapêutico mas requer mais provas; 3. publicados efeitos terapêuticos
em apenas alguns ensaios controlados individuais, mas em que vale a pena tentar acupunctura
porque o tratamento convencional é difícil; 4. pode tentar-se acupunctura, desde que o
acupuncturista tenha conhecimentos médicos modernos especiais e equipamento de
monitorização adequado (OMS, 2003).
A classificação da OMS é um bom indicador da eficácia da acupunctura que pode ser adaptada
para a medicina veterinária e pode ser consultada no endereço electrónico da organização, em
http://apps.who.int/medicinedocs/pdf/s4926e/s4926e.pdf.
A partir do modelo humano apresentado por Adams e seus colaboradores, Wynn e Wolpe
(2005) propõem um modelo de considerações éticas a ponderar quando de coloca a hipótese
de terapias alternativas para um paciente veterinário. Os autores recomendam que seja feita
uma primeira avaliação da gravidade e intensidade da doença e uma avaliação do potencial de
cura com o tratamento baseado na evidência. Assim, os tratamentos (convencional e
alternativo) devem ser comparados quanto à invasividade e toxicidade. Deverá também ser
avaliada a qualidade e a legitimidade das provas relativas à eficácia e à segurança da terapia
alternativa. Finalmente, a utilização ética de uma MVCA depende da capacidade do proprietário
compreender e aceitar todos os aspectos da terapia alternativa, incluindo os riscos e os custos
associados (Wynn e Wolpe, 2005).

42
MATERIAL E MÉTODOS

Os casos clínicos incluídos nesta dissertação foram examinados em diversas clínicas


veterinárias dos distritos de Aveiro e Coimbra, e posteriormente referidos para consulta de
Medicina Veterinária Tradicional Chinesa para averiguar a viabilidade do tratamento com
acupunctura. Todos os animais foram tratados com acupunctura pelo Dr. Fernando Couto,
médico veterinário e acupuncturista veterinário.
Dois dos casos clínicos foram acompanhados in situ no decorrer do estágio curricular. Devido à
reduzida casuística foram também analisados retrospectivamente três casos clínicos, a partir
da informação documentada cedida pelo Dr. Fernando Couto. A selecção destes teve como
critérios: a disponibilidade de informação quanto aos exames físico, neurológico e
complementares; o diagnóstico de doença neurológica; a existência de registos do plano de
tratamento e da avaliação final quanto à recuperação do animal.
Foram incluídos cinco canídeos de diversas raças: cruzado de Podengo, Dobermann Pinscher,
Pastor de Berna, São Bernardo e raça indeterminada. Os animais tinham idade compreendida
entre os 2 anos e os 10 anos, sendo que 80% dos animais tinham idade igual ou superior a 8
anos. Quatro dos animais eram fêmeas e apenas um macho. Em 80% dos animais o motivo da
consulta veterinária foi o aparecimento súbito de paresia/paralisia e em 20% o aparecimento de
ataxia acentuada e progressiva. Todos foram diagnosticados com doença neurológica,
provocada por lesões compressivas da medula espinhal (em 80% dos casos) ou por doença
degenerativa das raízes nervosas de origem idiopática (20% dos casos).
Os animais foram tratados com acupunctura como alternativa ao tratamento cirúrgico (60%) ou
porque o tratamento farmacológico foi ineficaz do ponto de vista clínico e insatisfatório do ponto
de vista do proprietário (40%).
A selecção dos acupontos e técnicas de acupunctura utilizadas variou entre animais e entre
sessões de tratamento do mesmo animal, uma vez que dependem da resposta do animal aos
tratamentos e da sua evolução clínica. A localização anatómica do conjunto de pontos de
acupunctura utilizados nos tratamentos está representada no Anexo XIV num animal modelo.

43
CASOS CLÍNICOS

1. Apresentação dos casos clínicos

1.1. Caso clínico nº 1

Identificação do animal
Canídeo 2 anos
Cruzado de Podengo 7 kg
Fêmea ovariohisterectomizada Pêlo de arame branco

O animal do caso clínico nº 1 foi observado em duas ocasiões distintas, com um quadro clínico
idêntico. O primeiro episódio de doença ocorreu em Abril de 2009, tendo a cadela sido
observada em domicílio por ter perdido força nos membros posteriores e deixado de andar. Os
sinais começaram por uma paresia flácida dos membros pélvicos (MP), que no espaço de um
semana progrediu para os membros torácicos (MT) e finalmente para os músculos do pescoço
e da cabeça. O animal deixou de se alimentar voluntariamente e não conseguia suportar o
peso da cabeça. Foi proposto um plano de tratamento com uma associação de sulfametoxazol
e trimetoprima e com prednisolona, mas não houve melhoria dos sinais clínicos. Desconhece-
se qual o diagnóstico estabelecido pelo médico veterinário.
Quando o animal foi trazido à consulta na clínica, cinco dias depois do início dos sinais clínicos,
estava já tetraparético. No exame físico observou-se que o animal fazia retenção urinária, a
urina era escura e tinha sobrepeso. À data da consulta eram-lhe aplicadas gotas nos ouvidos
para alívio do prurido. Os restantes parâmetros do exame físico eram normais. No exame
neurológico verificou-se que o animal manifestava hiperestesia. Os reflexos triccipital e
biccipital estavam ausentes bilateralmente. Os reflexos patelar e tibial cranial estavam ausentes
no MP esquerdo e diminuídos no direito. O reflexo do tronco cutâneo estava diminuído no lado
esquerdo e normal no lado direito. Não foram avaliadas as reacções posturais, uma vez que o
animal não suportava o seu peso. A avaliação dos nervos cranianos e restante exame
neurológico estava normal. Como exames complementares realizou-se uma tira reactiva de
urina e radiografia da região cervical. Verificou-se a existência de hematúria e proteinúria, que
foi atribuída à retenção urinária. Na radiografia detectaram-se áreas de espondilose, na região
cervical aparentemente sem importância clínica. Mediante as informações recolhidas foi
estabelecido um diagnóstico presuntivo de polirradiculoneurite idiopática. Foi recomendada a
administração de NEURO® (ANIMO-Complexe) em cápsulas, um produto de nutrição
ortomolecular cuja composição é descrita no Quadro 3. Como o tratamento da
44
polirradiculoneurite idiopática se resume a fisioterapia, o animal foi referido para consulta de
Medicina Veterinária Tradicional Chinesa (MVTC).

Quadro 3. Conteúdo de uma cápsula de NEURO® (ANIMO-Complexe).

! Cálcio Quelato 100 mg


! Proteínas de Lactoserum 90 mg
! Magnésio Quelato 20 mg
! Lítio Quelato 6 mg
! Manganês Quelato 3,5 mg
! Amido de arroz qbp 320 mg

Ao exame de MVTC o animal apresentava a língua roxa escura, sem saburra, sem rachaduras
ou marcas. Tinha o focinho seco (deficiência de Yin) e fazia retenção urinária (síndrome de
Calor ou de estagnação). Não manifestava sensibilidade à palpação dos pontos Shu e o pulso
era profundo mas fácil de palpar, mais rápido e superficial após a sessão de acupunctura. O
quadro clínico e o exame de MVTC eram compatíveis com uma síndrome Wei. Foi proposto um
plano de tratamento de acupunctura com agulha seca, electroacupunctura, laser e fitoterapia
chinesa. Os tratamentos foram realizados três vezes por semana, durante dois meses. O plano
de tratamento e os acupontos utilizados com maior frequência estão descritos no Anexo XV. O
esvaziamento manual da bexiga era fácil, e realizado sempre que o animal era trazido para
tratamento. Uma semana após o início dos sintomas, o animal já conseguia a mover a cabeça
e passado duas semanas urinava voluntariamente. O animal começou por recuperar o
movimento do tronco e à terceira semana arrastava-se sem movimentar os membros. A
melhoria dos sinais neurológicos ocorreu na mesma ordem com que apareceram, tendo
recuperado primeiro o movimento dos MP e mais tarde dos MT. A recuperação total, com
actividade ambulatória, presença de reflexos espinhais e reacções posturais normais, demorou
dois meses desde o início do tratamento com acupunctura.
A cadela foi novamente trazida à consulta em Novembro de 2010 com uma recidiva. Tinha
aparecido paralisada dos MP e o proprietário reconheceu os sintomas. No exame físico
constatou-se que o animal tinha retenção fecal e urinária. Apresentava paralisia dos MP, mas
preservava o movimento nos MT. O animal continuava com sobrepeso (7.4 kg) e o restante
exame físico estava normal. Duas semanas antes, tinha sido realizada a vacinação anti-rábica
com Rabigen® Mono (Virbac). No exame neurológico, todos os reflexos espinhais estavam
presentes mas diminuídos, especialmente o reflexo patelar direito. Estavam ausentes o reflexo
perineal e o posicionamento proprioceptivo dos quatro membros. Os nervos cranianos estavam
normais tal como o reflexo cutâneo do tronco. O animal apresentava hiperestesia. As reacções
posturais não foram avaliadas porque o animal não suportava o seu peso. Havia hipotonia da

45
musculatura abdominal e torácica e uma ligeira hipotonia e fraqueza muscular nos membros,
sem atrofia muscular. Três dias após o aparecimento de paralisia dos MP, houve progressão
para os MT. Foi estabelecido o diagnóstico presuntivo de polirradiculoneurite idiopática, recidiva
do primeiro episódio ou possivelmente associada à vacinação anti-rábica. O animal foi
imediatamente referido para consulta de MVTC, apresentando-se com um pulso profundo,
relativamente fraco, rápido e difícil de palpar. A língua era rosa escura. O sinais eram
compatíveis com uma síndrome Wei. Instituiu-se um plano de tratamento com acupunctura com
agulha seca, laser, electroacupunctura e fitoterapia chinesa. O animal queixava-se muito na
inserção das agulhas, por isso as sessões de tratamento eram realizadas com contenção
manual e açaime (Figura 17).
No final de cada sessão de acupunctura era
realizada fisioterapia nos membros, pois em
casa o animal tornava-se agressivo e gania
quando o proprietário tentava fazer fisioterapia.
O plano de tratamento proposto consistiu em
três sessões semanais de acupunctura durante
duas semanas, seguido de duas sessões
semanais durante dois meses. Findo esse
período, face a melhoria dos sinais clínicos, a
frequência das sessões foi diminuindo Figura 17. Contenção com açaime durante as
sessões de acupunctura. Providencia segurança
gradualmente até uma sessão mensal. Cinco para o acupuncturista e evita que os animais
arranquem ou ingiram as agulhas.
dias após o aparecimento dos sinais, o animal
recuperou o controlo dos esfíncteres e a capacidade de urinar e defecar voluntariamente.
Como a cadela ficava muito agitada durante a noite, a proprietária, enfermeira, administrava
2,5 mg de diazepam em comprimido. Recomendou-se a substituição do diazepam por uma
infusão de valeriana. Duas semanas depois do início dos sinais clínicos o animal já se tentava
levantar, no entanto, notava-se já alguma atrofia muscular e continuava sem propriocepção.
Começou por recuperar o movimento dos MP, assim como um aumento do tónus e força
musculares, cerca de um mês depois do início dos sinais. Dois meses após o início do
tratamento (21ª sessão de acupunctura) o animal era capaz de se manter em estação e dar
alguns passos. Nesta altura os reflexos espinhais, tónus e força muscular eram normais nos
MP, mas ligeiramente diminuídos nos MT. A reacção de posicionamento proprioceptivo foi
inconstante ao longo do tratamento. Geralmente era positiva nos MT e ausente nos MP, mas
em algumas consultas era cruzada (positiva no MT esquerdo e no MP direito). O animal
recuperou a actividade ambulatória no final de Janeiro de 2011, apesar de se cansar
rapidamente, provavelmente devido à atrofia muscular. Inicialmente tinha alguma ataxia nos
MP que foi desaparecendo nos dias seguintes. Apesar de correr e caminhar normalmente, o
46
animal continuava sem posicionamento proprioceptivo nos MP. Na consulta de
acompanhamento realizada um mês depois, o animal havia recuperado a propriocepção nos
quatro membros e foi considerado totalmente recuperado.
À data de conclusão deste trabalho, a cadela voltaria à consulta com uma nova recidiva,
apresentando um quadro clínico semelhante, aparentemente sem qualquer factor
desencadeante. A proprietária recusou o tratamento e optou pela eutanásia.

1.2. Caso clínico nº 2

Identificação do animal
Canídeo 10 anos
Dobermann pinscher 30 kg
Fêmea inteira Pelagem característica

Em Outubro de 2009 a proprietária notou que a cadela mantinha a cabeça baixa e não a
levantava. Já se tinha apercebido que por vezes o fazia, mas agora era mais acentuado. A
proprietária é médica veterinária e administrou meloxicam durante 3 dias. Os sinais clínicos
melhoraram temporariamente, mas o estado clínico do animal foi-se agravando até Dezembro
do mesmo ano, com ataxia progressiva e défices de propriocepção, tendo sido referido para
consulta de Neurologia noutro hospital veterinário. Este animal tinha dermatite crónica por
Malassezia desde jovem, com seborreia. Pouco antes do aparecimento dos sinais clínicos teve
otohematoma associado a Malassezia e torção de estômago resolvida cirurgicamente. No
exame físico, o estado mental, a postura e o tónus muscular eram normais, sem atrofia
muscular. O animal tinha ataxia evidente nos quatro membros, mais grave nos MP. O animal
era alimentado com dieta comercial e os dentes estavam em bom estado, mas já tinha sido
sujeito a uma destartarização. No exame neurológico detectaram-se défices no posicionamento
proprioceptivo, flexão do pescoço e rigidez cervical. O exame dos nervos cranianos não
revelou qualquer alteração e a sensibilidade à dor estava presente. Foram realizados exames
complementares de imagiologia: radiografia e mielografia. No exame radiográfico observou-se
uma estenose do canal vertebral cervical e alterações degenerativas nas superfícies
articulares. Na mielografia detectaram-se vários locais de compressão extradural, sendo o mais
grave no espaço intervertebral (IV) C6-C7. Com base nas informações recolhidas e nos
resultados dos exames neurológico e mielográfico foi estabelecido um diagnóstico de
espondilomielopatia cervical caudal ou síndrome de Wobbler. Iniciou-se de imediato um
tratamento farmacológico com 0,33mg/kg BID de prednisolona. Com a administração de
prednisolona a sintomatologia melhorou inicialmente, mas no decorrer do tratamento, a ataxia
47
tornou a piorar. Simultaneamente surgiram outros sinais, prováveis efeitos secundários da
terapia com corticosteróides: apetite voraz, alterações digestivas (flatulência e timpanismo) e
alterações do temperamento (prostração, depressão). Por este motivo, a proprietária decidiu
fazer o desmame de prednisolona, o que exacerbou a ataxia. Nessa altura, Fevereiro de 2010,
a proprietária recorreu à consulta de MVTC.
No exame de MVTC o animal apresentava a língua engelhada, húmida, púrpura e com marcas
de dentes (Figura 18). O pulso era tenso, em corda, superficial e fácil de palpar. O animal
manifestava sensibilidade à palpação dos pontos Shu, típico de um padrão de Deficiência
(Figura 19). O aspecto da língua, características do pulso e a sensibilidade dos pontos Shu
eram compatíveis com uma síndrome Bi cervical.

Figura 18. Aspecto da língua: húmida, engelhada e Figura 19. Palpação dos pontos Shu na região
com marcas dos dentes nos bordos linguais. A língua paravertebral. Nos padrões de Deficiência, a
deve ser examinada quando o animal a exterioriza palpação destes pontos faz com que o animal se
voluntariamente, mas por vezes é necessário forçar a sente ou se deite e nos padrões de Excesso a
abertura da boca para a avaliar o seu aspecto. palpação provoca dor aguda com vocalização.

Iniciou-se o tratamento com acupunctura, com sessões trissemanais e foi-se reduzindo


gradualmente a dose de prednisolona. O plano de tratamento e os acupontos utilizados com
maior frequência são descritos no Anexo XVI. Possivelmente pelo desmame de
corticosteróides ter sido demasiado rápido a ataxia agravou-se novamente. Foi então retomado
o tratamento farmacológico com 1 mg/kg de prednisolona dividido em duas tomas diárias e
acompanhado de sessões bissemanais de acupunctura. Uma vez estabilizados os sinais
clínicos tentou-se novamente o desmame de prednisolona, mais lentamente. Desde Junho de
2010 a cadela passou a ser tratada unicamente com acupunctura. Actualmente é tratada com

48
sessões semanais e os sinais clínicos estabilizaram. É realizado exame neurológico
regularmente para avaliar a evolução clínica. Continua com uma ligeira ataxia nos MP,
imperceptível nos MT. Geralmente os reflexos espinhais estão normais, mas por vezes o
reflexo patelar está diminuído no MP esquerdo com défice no seu posicionamento
proprioceptivo. Quando o intervalo entre sessões ultrapassa os 10 dias há geralmente um
agravamento dos sinais. Desde que começou o tratamento com acupunctura, o intervalo entre
cios diminuiu de seis para quatro meses e sempre que entra cio parece haver um ligeiro
agravamento da ataxia. Entretanto foi avaliada a função da tiróide: T4 total = 1,00 (1,3 - 2,9) e
TSH = 0,14 (0 - 0,5). Ambas apresentavam valores baixos, ainda que nos limites normais.

1.3. Caso clínico nº 3

Identificação do animal
Canídeo 9 anos
Pastor de Berna Pelagem característica
Fêmea inteira

A 20 de Maio de 2008 foi observada em domicílio uma cadela com paralisia súbita dos
membros pélvicos. No exame físico, o animal estava alerta e apresentava sinais de retenção
urinária. O exame dos nervos cranianos e do reflexo cutâneo do tronco estava normal, assim
como o tónus muscular. Havia paraparesia dos MP, que se cruzavam e ausência de
propriocepção e de posicionamento táctil. O reflexo patelar direito estava normal e o esquerdo
aumentado. A sensibilidade à dor profunda estava diminuída. O animal manifestava dor na
região epaxial toraco-lombar nas últimas vértebras torácicas e nas duas primeiras lombares.
A cadela foi internada na clínica veterinária para realização de exames complementares
(ecografia, radiografia e mielografia). Foi realizado exame ecográfico para avaliar a bexiga
urinária, mas não se detectou qualquer alteração neste órgão. No entanto, observaram-se
vários quistos ováricos e uma massa abdominal na região uterina compatível com piómetra.
No exame mielográfico observou-se uma zona de compressão medular, compatível com hérnia
discal lombar em L1-L2, visível na projecção ventrodorsal (Figura 20) e na projecção lateral
(Figura 21). Face às informações recolhidas no exame físico, exame neurológico e exames
complementares, foi estabelecido o diagnóstico presuntivo de piómetra e de hérnia discal
lombar em L1-L2.
Devido à suspeita de piómetra e à presença de quistos ováricos, foi aconselhada a
ovariohisterectomia e laparotomia exploratória para descartar a existência de tumor. Durante a
cirurgia foi realizada a exerése do pólo cranial da bexiga (cistectomia), devido a necrose e

49
hemorragia da parede da bexiga. A cadela permaneceu internada no período pós-cirúrgico,
tendo sido administrado um tratamento farmacológico com tramadol (2,5 mg/kg IV BID, 3 dias)
para analgesia e antibioterapia com ampicilina durante três dias (40 mg/kg IV, TID), e depois
com amoxicilina e ácido clavulânico (12,5 mg/kg PO, BID) durante 7 dias. A cadela foi algaliada
e realizaram-se lavagens diárias da bexiga com solução fisiológica.

Figura 20. Pormenor do exame mielográfico na Figura 21. Pormenor do exame mielográfico na
projecção ventrodorsal. No espaço IV L1-L2 pode projecção lateral. No espaço IV L1-L2 pode
observar-se a interrupção das colunas de contraste observar-se o desvio dorsal da coluna de contraste
(seta vermelha) e compará-lo com o aspecto normal ventral e a interrupção das colunas de contraste
do espaço IV adjacente T13-L1 (seta verde). (seta vermelha).

O proprietário recusou a intervenção cirúrgica para resolução da hérnia lombar e optou pelo
tratamento com acupunctura. No exame de MVTC, o animal apresentava a língua púrpura e o
pulso facilmente perceptível, tenso e um pouco em corda. Foi diagnosticada uma obstrução e
estagnação de Qi e Xue nos meridianos, causando fraqueza muscular, paresia e paralisia. O
plano de tratamento de MVTC adoptado é apresentado no Anexo XVII. Uma semana após
ovariohisterectomia foi cessada a antibioterapia e retirada a algália. O animal estava bem
disposto, comia e bebia normalmente e a urina e as fezes tinham aparência normal. Continuou-
se com o tratamento de MVTC e fisioterapia para retardar a atrofia muscular por desuso e
manter a mobilidade articular. O proprietário foi instruído para realizar fisioterapia diária em
casa. O animal foi melhorando gradualmente com sessões de acupunctura duas vezes por
semana e a partir de 9 de Junho começou a dar alguns passos. Um mês após o aparecimento
dos sinais clínicos o animal recuperou a propriocepção do MP esquerdo e duas semanas mais
tarde do membro direito. As sessões de acupunctura passaram a realizar-se semanalmente.
Em Agosto, dois meses e meio após o aparecimento dos sintomas, o animal recuperou
totalmente a actividade ambulatória. A marcha era praticamente normal, ocasionalmente com
supinação do MP direito. No final de Agosto foi terminado o tratamento com acupunctura. Dois
meses após o fim do tratamento foi realizada uma consulta de reavaliação. O animal estava
recuperado mas a ataxia dos MP permanecia.

50
1.4. Caso clínico nº 4

Identificação do animal
Canídeo 10 anos
São Bernardo Pelagem característica
Fêmea

A cadela do caso clínico nº 4 foi trazida à consulta porque apareceu paralisada repentinamente
dos membros posteriores. No exame físico, o animal tinha paralisia dos MP e manifestava
alguma dor na flexão da cauda. De resto, o exame físico estava normal. Em exame neurológico
observou-se paraplégia aguda dos MP, ausência de reflexos patelares, de propriocepção e de
sensibilidade à dor profunda nos MP. O reflexo perineal estava presente, o animal movimentava
a cauda e tinha controlo da bexiga. Foi realizado exame radiográfico no qual se observou a
existência de espondilose entre o sacro e a última vértebra lombar. Por motivos económicos
não foram realizados mais exames complementares. Face aos resultados do exame físico e
neurológico e às alterações radiográficas detectadas, foi estabelecido o diagnóstico presuntivo
de síndrome de cauda equina. Ao exame de MVTC, o animal tinha um pulso tenso e profundo
tendo sido diagnosticado com uma estagnação de Qi ou de Xue e deficiência do Yang do Rim.
Foram realizadas quatro sessões de acupunctura, durante duas semanas, que incluíam
acupunctura com agulha seca e electroacupunctura, nos acupontos descritos no Anexo XVIII.
Após a segunda sessão de tratamento o animal já se tentava levantar e tinha recuperado os
reflexos dos MP. As sessões de acupunctura não continuaram por dificuldades económicas do
proprietário. Na última sessão de tratamento o animal era capaz de se levantar sozinho e de
caminhar, apesar de manifestar défices no posicionamento proprioceptivo.

1.5. Caso clínico nº 5

Identificação do animal
Canídeo 8 anos
Raça indefinida 30 kg
Macho

Em Março de 2009, foi trazido à consulta um cão que havia sido atropelado. No exame físico
apresentava paraparésia, retenção urinária e uma deformação na região toraco-lombar que era
quente à palpação. No exame neurológico a avaliação dos nervos cranianos estava normal.

51
Nos MP havia hiperreflexia do patelar e défices nas reacções posturais. A sensibilidade à dor
profunda estava presente. Foram realizadas radiografias da região toraco-lombar, nas quais se
observou um deslocamento vertebral com estreitamento do espaço intervertebral, quer em
projecção lateral (Figura 22) quer em projecção ventrodorsal (Figura 23).

Figura 22. Pormenor do exame radiográfico na projecção lateral. Figura 23. Pormenor do exame
Comparada com T13, a vértebra L1 parece deslocada em direcção radiográfico na projecção ventrodorsal.
ventral e há diminuição do espaço intervertebral T13-L1. Comparada com T13, a vértebra L1
parece deslocada lateralmente para a
esquerda e há uma diminuição do espaço
intervertebral T13-L1.

Os sinais clínicos e radiológicos eram compatíveis com uma luxação na articulação vertebral
T13-L1. O animal foi algaliado e foi administrado meloxicam durante dois dias. A proprietária
recusou o tratamento cirúrgico e optou pelo tratamento com acupunctura. Foi feita
electroacupunctura desde o primeiro dia, entre BL18 e BL25 e acupunctura com agulha seca
em ST36 e GB34. O plano de tratamento implementado e os acupontos utilizados estão
descritos no Anexo XIX. A proprietária aprendeu a algaliar o cão, enquanto foi necessário.
Cinco dias após o início do tratamento o animal recuperou o controlo a micção. Depois da
segunda sessão de acupunctura deixou de manifestar dor na região da lesão, que se foi
tornando menos quente à palpação. No final da segunda semana o animal era capaz de se
levantar. Recuperou o posicionamento proprioceptivo ao fim de um mês num dos membros e
ao fim de dois meses no outro membro.

2. Discussão dos casos clínicos

2.1. Discussão do caso clínico nº 1

No caso clínico nº 1, os sinais de hipotonia, hiporreflexia e paresia/paralisia eram típicos de


uma síndrome neuropática ou doença do neurónio motor inferior. Os sinais bilaterais e
simétricos, que surgiram inicialmente nos MP, sugeriam uma polineuropatia generalizada. A

52
suspeita de polirradiculoneurite aguda baseou-se no desenvolvimento rápido da paresia dos
MP, progressiva e ascendente, que em menos de 72 horas afectava os MT. A
polirradiculoneurite é uma doença inflamatória que afecta maioritariamente as raízes nervosas
ventrais, mas também as raízes dorsais e os nervos periféricos. Num estudo citado por Braund
(2003), os nervos espinhais e raízes lombo-sagradas parecem ser mais afectados, o que pode
explicar porque é que os sinais clínicos surgem preferencialmente nos MP e ascendem aos MT.
Quando é presente à consulta um animal com episódios de fraqueza ou de colapso, a
avaliação da história clínica e a realização de um exame físico e exame neurológico completos
permitirá determinar se a fraqueza generalizada resulta de uma doença neuromuscular ou de
uma doença sistémica (Platt e Garosi, 2004). No exame físico o animal estava bem disposto,
alerta e apresentava apenas retenção urinária e sinais de paresia e paralisia. O facto de não
existirem sinais clínicos de relevo, permitiu descartar a hipótese de doença sistémica,
metabólica ou cárdio-respiratória. A análise de urina com tira reactiva revelou proteinúria e
hematúria/hemoglobinúria. Neste animal, a presença deste elementos na urina foi atribuída à
retenção urinária. Não se considerou necessário realizar a análise da urina, porque não havia
indícios de obstrução ou de doença subjacente do tracto urinário. Os tratamentos de
acupunctura eram realizados na clínica em dias alternados, portanto o estado geral do animal
era avaliado regularmente, não se tendo deteriorado no curso da doença. O esvaziamento
manual da bexiga era fácil e com pouca resistência ao fluxo de urina. De um modo geral, na
polirradiculoneurite, a defecação, micção e mobilidade da cauda são normais, porque as raízes
sagradas (S1 a S3) e caudais são menos afectadas. Neste caso, havia envolvimento das raízes
nervosas sagradas, pois o reflexo perineal, a micção e a defecação voluntária estavam
ausentes. Os segmentos sagrados dão origem aos nervos responsáveis pelo reflexo perineal
(nervo pudendo) e pela inervação dos músculos esqueléticos do esfíncter uretral externo (nervo
pudendo) (Lorenz et al. 2011) e do esfíncter anal externo (plexo sacral e ramo caudal do nervo
pudendo) (Lahunta e Glass, 2009). Nas doenças do neurónio motor inferior, quando os
segmentos sagrados ou o nervo pélvico estão afectados, a bexiga é grande, está distendida e
é facilmente esvaziada manualmente (Ettinger e Feldman, 2010). O facto de o animal recuperar
o controlo dos esfíncteres numa semana, sem melhoria dos restantes sintomas, pode dever-se
a um menor envolvimento das raízes nervosas sagradas.
No exame neurológico verificou-se que o animal apresentava hiperestesia e nas sessões de
tratamento o animal queixava-se muito na inserção das agulhas. O reflexo do tronco cutâneo
estava diminuído no lado esquerdo e normal no lado direito. Na polirradiculoneurite as
respostas cerebrais a estímulos dolorosos são normais ou exageradas e por vezes há
hiperestesia difusa nas extremidades ou ao longo da coluna vertebral (Lorenz et al., 2011). Esta
hiperestesia pode resultar da natureza inflamatória da doença (Dewey, 2005) e é comum em
doenças que cursam com inflamação e edema das raízes nervosas dos nervos espinhais. Os
53
reflexos espinhais estavam ausentes nos MT, no MP esquerdo e diminuídos no MP direito. Na
recidiva todos os reflexos espinhais estavam presentes mas diminuídos. A diminuição ou
ausência dos reflexos espinhais é reflexo do grau de lesão axonal e mielínica (Dewey, 2005). A
polirradiculoneurite caracteriza-se pela desmielinização e degenerescência segmentar das
bainhas de mielina e dos axónios (Braund, 2003), lesões que impedem a transmissão normal
dos impulsos dos cornos ventrais da medula espinhal e das fibras nervosas motoras, às fibras
musculares (Lorenz et al., 2011). Quando se avaliou o posicionamento proprioceptivo, havia
défices evidentes e atrasos no reposicionamento das extremidades. A propriocepção foi
inconstante no curso da doença e quando a cadela recuperou a actividade ambulatória,
permaneciam os défices proprioceptivos nos MP. Geralmente, na polirradiculoneurite, as
reacções posturais são normais, nos animais em que ainda há capacidade motora suficiente
para efectuar a resposta do membro (Dewey, 2005). No entanto, as fibras nervosas sensitivas
aferentes, que acompanham o trajecto dos neurónios motores inferiores nos nervos periféricos,
podem também estar afectadas, provocando um atraso nas reacções posturais (Ettinger e
Feldman, 2010). A actividade ambulatória no final do tratamento comprova que existia
capacidade motora para realizar a resposta postural, portanto os défices proprioceptivos
dever-se-ão a um comprometimento das fibras sensitivas. Os pares cranianos estavam normais
e de facto, é raro estarem alterados nas polirradiculoneurites. A proprietária referiu que a
cadela passou a ladrar menos que o habitual e com um tom diferente. No decorrer do
tratamento, a cadela recuperou a voz normal e voltou a ladrar mais. A alteração ou perda de
voz ocorre em algumas doenças neuromusculares, como as polineuropatias, quando está
afectado o nervo laríngeo recorrente (Ettinger e Feldman, 2010), como seria neste caso.
Perante o quadro clínico, os diagnósticos diferenciais incluíam: paralisia da carraça, botulismo
e miastenia gravis fulminante, uma vez que, segundo Lorenz et al. (2011), estas doenças das
junções neuromusculares mimetizam os sinais clínicos da fase inicial da polirradiculoneurite.
Este animal era desparasitado externamente com regularidade e não foi encontrada nenhuma
carraça no exame físico. Para além disso, na paralisia da carraça não há hiperestesia e a
recuperação ocorre sem tratamento em 24 a 48 horas após remoção do parasita. O botulismo
também seria muito improvável neste caso. O animal era alimentado com dieta comercial, não
tinha acesso a carcaças ou restos de comida putrefacta e quando acedia ao exterior era
acompanhado pelo proprietário. Também não se observou qualquer alteração da motilidade
esofágica, lingual ou faríngea, como é frequente no botulismo. Quanto à possibilidade de um
episódio de miastenia gravis fulminante, não se observaram sinais clínicos de megaesófago,
episódios de regurgitação frequente ou dificuldade respiratória (Lorenz et al., 2011).
Neste caso não foram realizados exames adicionais para comprovar o diagnóstico. O
doseamento da creatinina quinase pode ser útil para descartar miopatias, pois uma elevação
persistente desta enzima é indicativa de lesão muscular recente e activa. No entanto, o
54
aumento da creatinina quinase pode estar associado ao exercício, decúbito prolongado,
traumatismo muscular ou anorexia nos gatos (Platt e Garosi, 2004). Quando se analisa o
líquido cefalorraquidiano, colhido no espaço subaracnóide lombar, pode detectar-se um
aumento de proteínas e contagem celular normal, mas estas alterações não são específicas da
polirradiculoneurite. O diagnóstico definitivo é estabelecido por electromiografia e por estudos
da velocidade de condução nervosa (Hariharan et al., 2011). Os testes de electrodiagnóstico
permitem localizar com exactidão a lesão no nervo periférico (na raiz nervosa, no axónio, na
terminação axonal ou na junção neuromuscular) e também determinar o local ideal para
realizar as biópsia de nervo (Granger et al., 2008). As alterações eléctricas são evidentes
quando os exames são realizados 5 a 7 dias após a lesão do axónio motor. A electromiografia
permite detectar quais os músculos afectados pela desinervação e a medição dos potenciais
evocados detecta a integridade da transmissão neuromuscular (LeCouteur, 2005). Os estudos
de condução nervosa evidenciam a diminuição na velocidade de condução dos estímulos nos
segmentos afectados (Hariharan et al., 2011), provocada pela perda de integridade da bainha
de mielina (Granger et al., 2008). Nesses casos, como a electromiografia requer a introdução
de agulhas na musculatura, deve ser realizada apenas num dos lados do animal, preservando
o lado contralateral para a biópsia (Platt e Garosi, 2004). Nas biópsias de nervos pode
observar-se um infiltrado de plasmócitos, macrófagos e linfócitos nas raízes nervosas, menos
pronunciado nos segmentos periféricos, e necrose axonal com brotamento de novos axónios.
As características histopatológicas mais importantes são as lesões de desmielinização e
remielinização que podem originar proliferações em camadas concêntricas semelhantes a uma
cebola (Faissler et al., 2010). No entanto, as biópsias de nervos são frequentemente
inespecíficas, quando a inflamação não-purulenta se limita às raízes nervosas ventrais
(Lahunta e Glass, 2009).
Neste caso clínico, a polirradiculoneurite foi considerada idiopática porque não foi identificada a
causa da doença, entre as possíveis etiologias descritas na literatura. A recidiva poderá estar
associada à vacinação anti-rábica, mas há poucos relatos de polirradiculoneurite pós-vacinal. A
polirradiculoneurite idiopática tem distribuição mundial, afecta maioritariamente animais adultos
e também está descrita em gatos (rara). A doença é esporádica, mas pode ter uma incidência
superior ao que a literatura sugere, pois na forma moderada não há paralisia flácida e os
animais mantêm a actividade ambulatória (Braund, 2003). A possibilidade de uma paralisia do
Coonhound foi descartada porque o animal não teve contacto com guaxinins e não esteve fora
do país. O guaxinim é originário do continente americano e não existe em Portugal, apesar de
existirem exemplares em liberdade na Europa Central. Normalmente a etiologia da
polirradiculoneurite é desconhecida, mas por vezes há uma episódio recente de doença ou de
vacinação. Julga-se que um agente infeccioso ou um antigénio que penetre no hospedeiro
susceptível, possa desencadear o processo auto-imune que danifica as células de Schwann,
55
provocando neurite desmielinizante (Hariharan et al., 2011). Alguns autores sugerem que os
clostrídeos intestinais possam constituir a fonte do antigénio. Estes antigénios externos serão
semelhantes às proteínas que formam parte das raízes nervosas ventrais e dos nervos motores
e, um ataque imunomediado a estas estruturas com invasão por células inflamatórias,
desencadeia os sinais clínicos (Platt, 2009). Se a desmielinização é uma consequência da
reacção inflamatória ou secundária à degenerescência axonal permanece controverso (Faissler
et al., 2010).
Além da fisioterapia, não existe tratamento específico para a polirradiculoneurite e a
administração de corticosteróides parece não ser benéfica. Em humanos com síndrome de
Landry-Guillain-Barré (GBS), a forma humana da doença, a plasmaferése tem-se revelado
eficaz. Esta terapia tem sido usada com sucesso em cães com outras doenças imunomediadas
e poderá ser benéfica nestes casos (Lorenz et al. 2011). Segundo Cuddon (2008), pode
tentar-se o tratamento médico com doses elevadas de imunoglobulinas via endovenosa (1g/kg
SID durante 2 dias consecutivos ou 0.4g/kg SID durante 4 ou 5 dias). Porém, este tratamento é
muito dispendioso, e apesar de descrito para a paralisia do Coonhound, não se conhece a sua
eficácia na polirradiculoneurite idiopática.
O tratamento de suporte da polirradiculoneurite consiste em cuidados de enfermagem, para
prevenir úlceras de decúbito, minimizar a atrofia e as contracturas musculares, prevenir
infecções do tracto urinário, pneumonias e eventualmente suporte da função respiratória
(Lorenz et al. 2011). Esta cadela não comia ou bebia voluntariamente, por isso foi necessária a
alimentação e abeberação forçada com comida caseira à base de canjas. Nos primeiros cinco
dias foi necessário esvaziar manualmente a bexiga e promover a defecação com estimulação
rectal (facilmente conseguida pela proprietária em casa). Como a cadela se movia arrastando o
tronco, vivia dentro de casa e não permanecia muito tempo na mesma posição, não foram
necessário cuidados especiais para prevenir as úlceras de decúbito. Na segunda semana após
o início da paralisia já se notava alguma atrofia muscular. Neste caso, a realização de
fisioterapia no final das sessões de tratamento teve como objectivo minimizar a atrofia muscular
e manter a mobilidade das articulações dos membros. Nas síndromes neuropáticas, a atrofia
muscular tem origem neurogénica e surge rapidamente, sendo evidente uma a duas semanas
após o início dos sintomas. No caso clínico nº1, a utilização de electroacupunctura (EA) de alta
frequência provoca contracção muscular, combatendo a atrofia muscular e promove a
regeneração dos nervos periféricos. No primeiro episódio de doença, os músculos cervicais
estavam afectados e o animal não conseguia suportar a cabeça, o que não aconteceu na
recidiva. A terapia laser com densidade energética ultra baixa (0.15mW/cm2), a comprimentos
de onda entre 633 nm e 670 nm, tem-se provado eficaz na redução do edema e da hiperalgesia
na inflamação aguda e crónica (Baratto et al., 2011). Como a polirradiculoneurite é uma doença
inflamatória, a aplicação precoce de acupunctura e laser na recidiva poderá ter limitado a
56
progressão da doença. A estimulação com laser também pode promover a cicatrização e a
regeneração nervosa, uma vez que a sua aplicação em culturas de células nervosas estimula o
alongamento induzido por NGF das neurites e protege as células contra o stress oxidativo
(Baratto et al., 2011). Do ponto de vista da MVTC, a polirradiculoneurite é uma síndrome Wei,
caracterizada pela acumulação de Calor Húmido no interior. Como resultado desta acumulação
podem surgir padrões de vazio (deficiência) como a Deficiência de Qi do Baço e a Deficiência
de Yang do Baço. Nestes casos, o tratamento incidirá na tonificação do Qi e do Yang do Baço
(Hopwood e Donnellan, 2010).
A utilização da acupunctura no tratamento de polirradiculoneurite idiopática e de paralisia do
Coonhound está descrita, mas não há trabalhos publicados sobre o tema, tal como acontece
no tratamento da GBS em humanos. A opinião geral é de que a acupunctura é útil na GBS na
fase de reabilitação física, na analgesia e no controlo da ansiedade associadas à doença
(Hopwood e Donnellan, 2010). Porém, não se sabe qual o seu potencial no tratamento da
doença propriamente dita.
No caso clínico nº 1, o prognóstico de recuperação total do animal era bom, tanto no primeiro
episódio de doença como na recidiva. Desde que não haja paralisia dos músculos respiratórios
que exija ventilação de suporte, o prognóstico de polirradiculoneurite é favorável (Faissler et al.,
2010). A recuperação demorou dois meses a dois meses e meio, mas por vezes demora mais
de 4 meses quando há atrofia muscular grave. Alguns animais, como a cadela deste caso
clínico, parecem ser particularmente susceptíveis a recidivas. Nestes animais, quando os
episódios de polirradiculoneurite estão associados à administração de vacinas, a isenção da
vacinação anti-rábica deve ser tida em consideração.

2.2. Discussão do caso clínico nº 2

No caso clínico nº 2, a flexão do pescoço e a ataxia foram os primeiros sinais clínicos


manifestados. Os animais com dor cervical adoptam esta postura mantendo o nariz próximo do
chão e o dorso arqueado, têm rigidez cervical, são relutantes à manipulação do pescoço
(extensão e flexão) e podem ter espasmos musculares e dor à palpação (Braund, 2003). Foi
administrado meloxicam, um anti-inflamatório não esteróide, com acção analgésica e
antipirética, que reduziu temporariamente a sintomatologia ao aliviar a dor e a inflamação
cervical. A ataxia é um sinal inespecífico que não permite localizar a lesão, podendo ter várias
etiologias. Porém, a presença de dor localizada sugeria uma lesão na região cervical e o
agravamento progressivo do estado clínico, num intervalo de tempo relativamente longo,
apontava para uma doença neoplásica ou degenerativa.
No exame físico, o animal apresentava seborreia nos flancos provocada pela infecção por
Malassezia, mas a dermatite não poderia explicar a sintomatologia. O estado mental e o tónus

57
muscular eram normais, sem atrofia muscular. O exame dos nervos cranianos não revelou
qualquer alteração e a sensibilidade à dor estava presente. O animal tinha ataxia grave nos
quatro membros, compatível com uma síndrome cervical (C1-C5) e possivelmente cervico-
torácica (C6-T2). Normalmente, quando a lesão se localiza na região cervical, as alterações da
marcha afectam os quatro membros. Quando a lesão é caudal à intumescência cervical (caudal
a T2), os MP são mais afectados (Tipold et al., 2010). No exame neurológico detectou-se
défices proprioceptivos mais evidentes nos MP. Nas lesões compressivas dorsais e laterais da
porção cervical da medula espinhal, os sinais neurológicos podem ser mais graves nos MP,
possivelmente porque as suas vias proprioceptivas ascendentes têm um trajecto mais
superficial na medula espinhal (Braund, 2003).
Perante o quadro clínico, as principais doenças a incluir no diagnóstico diferencial incluíam:
neoplasia espinhal, doença do disco intervertebral, traumatismo, discoespondilite, osteomielite,
meningite ou meningomielite, quistos sinoviais ou subaracnóides, mielopatia fibrocartilaginosa
embólica, polineuropatias e polimiopatias. As doenças ortopédicas seriam descartadas neste
caso por não causarem ataxia proprioceptiva (Costa, 2010). Com frequência, a identificação do
animal quanto à raça, idade e sexo, pode dar algumas pistas quanto à doença subjacente,
principalmente em animais de raça pura. Numa fêmea Dobermann com 10 anos de idade,
existe predisposição racial para uma série de doenças neurológicas que incluem: doença do
disco intervertebral, má-formação vertebral e síndrome de Wobbler, tumor cerebral primário e
polineuropatia distal (Dancing Dobermann Disease) (Gough e Thomas, 2004). Face à
identificação do animal, sintomatologia e os possíveis diagnósticos diferenciais, suspeitou-se
de síndrome de Wobbler ou espondilomielopatia cervical caudal.
Neste animal foram realizadas radiografias simples e mielografia. No exame radiográfico
observou-se uma estenose do canal vertebral cervical e alterações degenerativas nas
superfícies articulares. Na mielografia detectou-se a existência de vários locais de compressão
provocados pela hipertrofia dos ligamentos. No espaço intervertebral C6-C7 observou-se uma
compressão mais grave provocada pela protusão do anel fibroso do disco IV. Não é possível
afirmar quais os ligamentos que estariam hipertrofiados, uma vez que a mielografia foi perdida
e a ficha clínica não contém informação detalhada sobre o exame mielográfico. O exame
radiográfico com várias projecções permite suspeitar de uma síndrome de Wobbler, mas
sempre que possível, deve realizar-se exame de imagem de secção por TC ou RM (Lorenz et
al., 2011). Como as técnicas de imagem mais avançadas não estão disponíveis na maioria das
clínicas veterinárias, a mielografia é a técnica de eleição para diagnóstico definitivo de
síndrome de Wobbler, ao evidenciar os vários tipos de compressão extradural da medula
espinhal: dorsal por hipertrofia do ligamento amarelo, ventral por protusão ou hipertrofia do anel
fibroso, lateral por má-formação das superfícies articulares e compressão por estenose do
canal vertebral ou instabilidade associada ao tombamento vertebral. O exame mielográfico
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permite ainda detectar lesões compressivas múltiplas e é essencial para estabelecer um
prognóstico (Braund, 2003). Quando o tratamento cirúrgico é uma opção, devem ser realizadas
várias mielografias ou imagens de secção transversal com o pescoço em várias posições
(flexão, extensão, tracção) de modo a detectar compressões dinâmicas. Estes exames em
série devem ser realizados com precaução, mas podem revelar compressões que não são
evidentes na postura normal (Costa, 2010). A RM permite avaliar o parênquima medular e
identificar com exactidão o local, gravidade e natureza da compressão da medula espinhal
(Costa, 2010). No entanto, como a imagem obtida tem alta definição, podem detectar-se
alterações clinicamente irrelevantes às quais se atribui demasiado significado. De facto, no
estudo desenvolvido por De Decker et al. (2010), foram avaliados 37 animais clinicamente
normais, tendo sido detectadas alterações em 46% dos animais, que incluíam degeneração do
disco IV, compressão da medula espinhal (ventral e dorsal) e anomalias do corpo vertebral. A
associação da RM com técnicas de estimulação magnética transcraniana, que permitem avaliar
a integridade funcional e a velocidade de condução das vias descendentes de transmissão
motora da medula espinhal, permitirá distinguir se as alterações detectadas por RM são
clinicamente relevantes (De Decker et al., 2011).
As observações do exame mielográfico permitiram confirmar a suspeita de espondilomielopatia
cervical caudal ou síndrome de Wobbler. O termo espondilomielopatia cervical caudal abrange
um vasto leque de anomalias vertebrais e dos tecidos moles que causam doença com
patogenias distintas. A forma que afecta tipicamente o Dobermann pinscher difere das
restantes raças e parece estar associada à estenose congénita do canal vertebral e à
assimetria dos corpos vertebrais da quinta, sexta e sétima vértebras cervicais (Costa, 2010).
Esta má-formação vertebral tende a provocar má-articulação e instabilidade da coluna vertebral
e, como consequência, os tecidos moles que sustêm e reforçam as articulações vertebrais
proliferam, resultando na hipertrofia dos ligamentos amarelos, do ligamento longitudinal dorsal
e da região dorsal do anel fibroso do disco intervertebral. A hipertrofia dos ligamentos provoca
compressões na medula espinhal ao nível das articulações vertebrais e a hipertrofia do anel
fibroso do disco IV provoca frequentemente a protusão do disco IV (hérnia discal tipo II)
(Lorenz et al., 2011). A presença de hérnia discal é uma característica comum nesta doença,
como acontece neste caso clínico, motivo pelo qual alguns autores utilizam o termo síndrome
de Wobbler associado ao disco IV.
Este animal tem níveis baixos de T4, que podem corresponder a uma diminuição não
específica ou a hipotiroidismo secundário. O hipotiroidismo é muito frequente em cães com
síndrome de Wobbler (Costa, 2010) e está associado a uma série de distúrbios
neuromusculares (Dixon, 2004). Neste caso, os valores baixos de T4 podem contribuir para um
agravamento do quadro clínico e para a persistência da infecção por Malassezia, uma vez que
as hormonas da tiróide estão envolvidas na resposta imunitária humoral e celular (Dixon, 2004).
59
Uma vez estabelecido o diagnóstico definitivo, optou-se pelo tratamento conservativo, com
administração de prednisolona, um glucocorticóide de acção intermédia. O tratamento do
síndrome de Wobbler pode ser médico ou cirúrgico. O tratamento médico é conservativo e
consiste na restrição da actividade física por confinamento em jaula durante pelo menos dois
meses (Costa, 2009). O regresso à actividade normal deve ser gradual, ao longo de quatro a
seis semanas e acompanhado de fisioterapia. Nos animais com doenças crónicas da medula
espinhal, a fisioterapia tem como objectivo a melhoria da amplitude de movimentos, a redução
da atrofia muscular e o restabelecimento da função neuromuscular. Quando há perda da
actividade motora voluntária, perda de força muscular ou défices proprioceptivos que
impossibilitam a marcha, o programa de fisioterapia deve incluir exercícios passivos e reflexos
que incluem: exercícios de amplitude de movimentos, alongamentos e estimulação dos reflexos
extensores e patelares. Os exercícios activos destinam-se aos animais com movimento
voluntário dos membros, ainda que parcial, para melhorar a força muscular, o equilíbrio
neuromuscular e a coordenação. Os exercícios activos incluem: sentar-levantar, marcha
assistida, marcha com resistência, natação e exercícios de balanço e coordenação (Olby et al.,
2005). Quando necessário, o tratamento conservativo pode ser complementado com fármacos
anti-inflamatórios (De Decker et al., 2008). A maioria dos animais responde bem à terapia oral
com corticosteróides no período inicial, mas não há diferenças significativas entre os animais
tratados com ou sem corticosteróides (Lorenz et al., 2011). Os corticosteróides melhoram a
função neurológica nas compressões crónicas da medula espinhal, ao diminuir o edema
vasogénico, e possivelmente pela acção protectora à toxicidade do glutamato e redução da
apoptose dos neurónios e oligodendrócitos. No entanto, o seu uso prolongado está associado a
efeitos adversos graves (Costa, 2010), como se viria a constatar durante o tratamento, com o
aparecimento de alterações digestivas, de apetite e de temperamento (Broothe e Mealey, no
prelo). Como a lesão primária não é tratada, seria de esperar um agravamento dos sinais
clínicos na maioria dos casos sujeitos ao tratamento conservativo. No entanto, este parece
melhorar o estado neurológico em 54% dos cães ou pelo menos estabilizar os sinais clínicos
em 27% (Costa et al., 2008).
O tratamento cirúrgico consiste na estabilização da coluna vertebral e descompressão da
medula espinhal. O procedimento a usar dependerá do local e tipo de compressão e da
existência de compressões múltiplas e dinâmicas (Braund, 2003). A localização da lesão, ao
longo da coluna vertebral cervical influencia a tomada de decisão porque as diferentes regiões
do pescoço têm propriedades biomecânicas distintas. A porção mais cranial tem maior
mobilidade lateral e a porção mais caudal tem maior mobilidade de rotação axial (Johnson et
al., 2011). As técnicas de descompressão incluem a fenestração ventral (quando há protusão
do disco IV) e a laminectomia dorsal (nas compressões dorsais e dorsolaterais). A
laminectomia dorsal consiste na remoção das apófises espinhosas e de parte da lâmina das
60
vértebras afectadas (Jeffery, 1995), podendo ser modificada para maior exposição do canal
vertebral, por remoção das apófises articulares e dos pedículos vertebrais (Fossum et al.,
2007). Na porção caudal da coluna vertebral cervical, o acesso cirúrgico dorsal é um processo
moroso, especialmente nos animais de raças grandes devido à grande musculatura epaxial.
Com o acesso dorsal existe também maior risco de hemorragia devido ao elevado número de
vasos de grande calibre e à alta incidência de doenças da coagulação em determinadas raças
como o Dobermann pinscher (Jeffery, 1995). Apesar de associada a uma alta taxa de
morbilidade no período pós-cirúrgico, a laminectomia dorsal permite obter bons resultados
(Costa et al., 2008). A fenestração é realizada por acesso ventral e consiste na remoção de
uma porção do annulus ventral, de modo a aceder ao interior do disco intervertebral e remover
o material nuclear. Contudo, durante a cirurgia pode haver saída de mais material do disco IV
agravando a compressão, e haver colapso do espaço intervertebral provocando a protusão do
annulus dorsal (Jeffery, 1995). Isto justifica que a fenestração seja a técnica cirúrgica com pior
taxa de sucesso, de apenas 33% (Costa et al., 2008). Quando a compressão da medula
espinhal é aliviada pela tracção da coluna vertebral, usam-se técnicas de distracção-fusão com
recurso a parafusos colocados entre os corpos vertebrais, enxertos ósseos, afastadores
metálicos, polimetilmetacrilato, implantes ancorados por polimetilmetacrilato e mais
recentemente fixação por placas (Costa, 2010). No entanto, a maioria dos implantes
disponíveis são demasiado rígidos para permitir os movimentos intervertebrais normais
(Agnello et al., 2010). Cerca de 20% dos animais submetidos a técnicas de distracção têm
complicações a longo prazo, pois a estabilização das vértebras faz com que sejam aplicadas
forças anormais nos segmentos adjacentes, causando um efeito dominó (Costa, 2010). Para
ultrapassar a questão da falta de mobilidade, mas assegurando uma estabilização adequada,
tem sido desenvolvida uma técnica de artroplastia com substituição do disco intervertebral
degenerado por uma prótese de titânio. A prótese é formada por duas peças unidas por
encaixe esférico, que permite até 30° de mobilidade da coluna vertebral. É uma técnica
relativamente fácil de executar, não requer material especializado, a prótese não necessita de
fixação e podem colocar-se várias próteses quando há compressões múltiplas (Adamo, 2011).
Como em qualquer intervenção cirúrgica, há uma série de possíveis complicações na aplicação
das técnicas de descompressão e de distracção-fusão: falha no implante e colapso do espaço
IV, penetração dos implantes no canal vertebral, falha na fusão e agravamento dos défices
neurológicos (Lorenz et al., 2011; Braund, 2003). Comparada com os implantes metálicos, a
utilização de polimetilmetacrilato está associada a uma maior incidência de complicações
pós-cirúrgicas porque o material tem menor ductilidade, gera calor, liberta monómeros de
metilmetacrilato na corrente sanguínea e pode causar reacções de hipersensibilidade (Agnello
et al., 2010). Na artroplastia pode ocorrer subsidência das placas terminais com afundamento
da prótese no tecido ósseo, fissura do corpo vertebral na colocação da prótese, fibrose,
61
ossificação ou anquilose com diminuição da mobilidade intervertebral e migração da prótese
(Adamo, 2011). À excepção da fenestração e da artroplastia (ainda em desenvolvimento), todas
as técnicas cirúrgicas têm uma taxa de sucesso de 70 a 80% com melhoria dos sinais clínicos.
No estudo desenvolvido por Costa et al. (2008), a avaliação dos resultados obtidos com
tratamento cirúrgico e com tratamento médico não revelou diferenças significativas quanto ao
resultado do tratamento (melhoria ou agravamento) e quanto ao tempo de sobrevida.
Neste animal, o prognóstico era favorável a reservado, uma vez que mantinha a actividade
ambulatória mas possuía compressões múltiplas. Nos animais com perda da actividade
ambulatória o prognóstico é reservado a desfavorável quando existem vários locais de lesão
(Braund, 2003). A existência de danos irreparáveis na medula espinhal agrava
significativamente o prognóstico (Lorenz et al., 2011). Como a síndrome de Wobbler é uma
doença crónica, os danos na medula espinhal acumulam-se gradualmente, o que permite
alguma compensação funcional pelo animal. Isto significa que, por vezes, os sinais clínicos só
se tornam evidentes quando já existem lesões irreparáveis na medula espinhal. De facto, a
análise histopatológica das lesões compressivas crónicas pode revelar lesões significativas na
substância cinzenta, resultantes da compressão da vasculatura espinhal e das contusões
sucessivas provocadas pelos tecidos hipertrofiados à medida que a coluna vertebral se
movimenta (Olby et al., 2005). O prognóstico piora se existir falha na descompressão ou
estabilização, desenvolvimento de compressão em locais adjacentes à lesão inicial e
complicações pós-cirúrgicas pela dificuldade na reabilitação de cães grandes recumbentes
(Lorenz et al., 2011).
Com o tratamento farmacológico, houve uma melhoria temporária dos sinais clínicos mas a
ataxia voltou a piorar e surgiram efeitos secundários graves. Na tentativa de desmame da
prednisolona a sintomatologia agravou-se ainda mais e a proprietária recorreu à consulta de
MVTC. Da perspectiva da MVTC, este animal tem uma síndrome Bi cervical que se caracteriza
pela estagnação de Xue ou de Qi na região do pescoço (Kline et al., 2001). A síndrome Bi pode
ter diversas causas: traumática, invasão por patogéneos externos (Vento, Humidade, Frio) e
imobilização prolongada. Os animais com deficiência de Jing do Rim têm predisposição a esta
síndrome. Todos os meridianos Yang atravessam a região cervical e, por isso, todos podem
estar envolvidos nesta síndrome. O tratamento com acupunctura consiste em mobilizar o Qi,
tonificar e activar o Xue e aliviar a estagnação (Xie e Preast, 2007). Normalmente usam-se os
acupontos locais da região paravertebral, cranialmente e caudalmente à lesão, à semelhança
dos usados no tratamento de hérnias discais (Kline et al., 2001). Na síndrome de Wobbler
podem usar-se os acupontos indicados para síndromes Bi da região cervical (GB20, GB21,
BL10, SI16) e da coluna vertebral (pontos Hua-tuo-jia-ji na área da lesão e GV14, GV5, GV4,
GV3, Bai-hui). Os pontos Hua-tuo-jia-ji localizam-se a 0.5 cun dos processos espinhosos de
cada vértebra entre T1 e L7 e estão indicados no alívio da dor torácica, lombar e nas doenças
62
do disco intervertebral (Xie e Preast, 2007). Usam-se também acupontos distais para mover o
Xue e o Qi, eliminar o Vento e fortalecer os tendões e ligamentos (Kline et al., 2001). Os
tratamentos podem ser complementados com fitoterapia chinesa (Xie e Preast, 2007).
O estudo realizado por Sumano et al. (2000) alega que a electroacupunctura é mais eficaz no
tratamento do síndrome de Wobbler do que os métodos ortodoxos (tratamento médico ou
cirúrgico). No grupo sujeito a acupunctura a taxa de recuperação foi de 85%, contra 20% no
grupo tratado convencionalmente. Porém, o caso relatado por Joaquim et al. (2008), revelou-se
não responsivo ao tratamento com acupunctura, possivelmente devido à gravidade da lesão.
Segundo Scott (2001), os resultados publicados por Sumano devem ser interpretados
cuidadosamente, pois o ensaio clínico apresentava várias falhas: não foi estabelecido
diagnóstico definitivo em todos os animais incluídos, a amostra era heterogénea pois os
animais padeciam de formas distintas de síndrome de Wobbler (idade e patogenia variada) e
os tratamentos não foram consistentes, já que alguns animais foram tratados com cirurgia e
posteriormente com EA ou tratamento convencional. Os animais com síndrome de Wobbler
associado a doença do disco IV poderão ser mais responsivos aos tratamentos com
acupunctura, pois segundo Joaquim et al. (2008), as hérnias discais constituem uma das
doenças neurológicas que melhor responde a este tipo de tratamento, excepto em alguns
animais com perda da percepção de dor profunda. Hayashi et al. (2007) relataram o sucesso
no tratamento de um cão com múltiplas hérnias discais cervicais. O animal, com tetraparesia e
sensibilidade à dor profunda recuperou a actividade ambulatória em 15 dias, com 10 sessões
de tratamento e sem recidivas nos 6 meses seguintes.
A eficácia da acupunctura no caso clínico nº 2, prende-se com a sua acção anti-inflamatória,
tendo substituído os corticosteróides e melhorado significativamente o quadro clínico e a
qualidade de vida. Apesar da doença parecer ter estabilizado, ainda persiste uma ligeira ataxia
nos MP que se agrava sempre que a cadela está em estro ou sujeita a condições de stresse.
Seria interessante investigar se as variações hormonais durante o ciclo éstrico podem
influenciar o quadro clínico dos animais com síndrome de Wobbler, pois não existem
publicações sobre este tema. Num animal jovem, a ovariohisterectomia seria uma opção a
considerar, mas não é prioritária neste animal de idade avançada e de uma raça com
predisposição a cardiomiopatia dilatada, o que acresce o risco anestésico.

2.3. Discussão do caso clínico nº 3

A cadela do caso clínico nº 3 foi observada em domicílio devido a paresia aguda dos membros
pélvicos. O aparecimento súbito de paresia ou paralisia dos posteriores, pode ter etiologias
diversas. Apesar da paresia/paralisia aguda ser sugestiva de um problema neurológico de
origem vascular ou traumática, os problemas ortopédicos podem mimetizar uma doença da

63
medula espinhal e não devem ser descurados no exame clínico (Parent, 2010).
Quando foi examinada, a cadela fazia retenção urinária. Como já foi discutido anteriormente, a
retenção urinária pode surgir quando há envolvimento das raízes nervosas sagradas. As lesões
da medula espinhal craniais aos segmentos sagrados podem resultar numa hipertonia da
musculatura esquelética do esfíncter uretral externo, provocando retenção urinária e
dificultando o esvaziamento manual da bexiga (Braund, 2003). Os reflexos dos MT e dos
nervos cranianos estavam intactos e não havia alterações evidentes do estado mental ou da
postura. O tónus muscular estava normal, não havia atrofia muscular e não se detectou à
palpação qualquer alteração do aparelho músculo-esquelético. A possibilidade de uma fractura
na região posterior teria de ser descartada ou comprovada por exame radiográfico, mas
suspeitava-se de uma lesão medular toraco-lombar ou lombo-sagrada. O animal estava
paraparético e sem propriocepção nos MP. Recorde-se que num animal com polineuropatia
motora, a falha do reposicionamento do membro deve-se a um problema do neurónio motor e
não a uma perda da propriocepção propriamente dita (Parent, 2010). Neste caso, como
estavam presentes os reflexos espinhais, a perda de propriocepção dever-se-ia à lesão das
fibras nervosas mielinizadas ascendentes que transmitem a propriocepção. Estas fibras são
muito susceptíveis a lesão por terem grande calibre e um trajecto superficial na substância
branca da medula espinhal (Sharp e Wheeler, 2005). O reflexo patelar direito estava normal e o
esquerdo aumentado. Frequentemente os reflexos espinhais dos MP aparecem aumentados
nas síndromes toraco-lombares e a sua avaliação pode induzir clónus (espasmos nos quais a
fase de contracção e de relaxamento muscular alternam em sucessão rápida). A avaliação do
reflexo extensor também pode produzir a flexão prolongada e repetitiva do membro testado,
sem que haja repetição do estímulo (Braund, 2003).
O reflexo cutâneo do tronco estava normal, mas quando há lesão medular pode estar
aumentado na região da lesão e diminuído caudalmente, tal como a sensibilidade cutânea ao
longo da medula espinhal. A sensibilidade à dor profunda estava presente mas diminuída. As
fibras de transmissão da dor, mielínicas e amielínicas, têm pequeno calibre, são mais
resistentes a pressão e percorrem a medula espinhal numa posição mais profunda, nos tractos
espinotalâmicos e proprioespinhais ascendentes. Portanto, a perda de sensibilidade à dor
profunda indica que há uma lesão medular grave que afecta a medula espinhal na grande
maioria do seu diâmetro e por esse motivo é usada como indicador de pior prognóstico. O
animal manifestava dor na região epaxial toraco-lombar, um sinal clínico frequente em cães
com doença do disco intervertebral toraco-lombar. Nas hérnias discais a dor resulta das lesões
do anel fibroso do disco IV e do ligamento longitudinal dorsal, combinadas com a irritação das
meninges e das raízes nervosas (Sharp e Wheeler, 2005).
As causas mais comuns de lesão aguda da medula espinhal em cães são as hérnias discais,
embolismo fibrocartilaginoso e traumatismo (Olby, 2010). A maioria das doenças da medula
64
espinhal afectam a região T3-L3 (Sharp e Wheeler, 2005) e as mais frequentes nestes
segmentos são: doença do disco intervertebral (extrusão ou protusão), mielopatia degenerativa,
traumatismo medular, neoplasia e mielopatia fibrocartilaginosa embólica. Porém, normalmente
não há dor na mielopatia degenerativa, nem na mielopatia fibrocartilaginosa embólica após 12
a 24 horas (Costa e Moore, 2010). Apesar de todas estas doenças serem incluídas na lista de
diagnósticos diferenciais deste caso, as hérnias discais são a lesão mais comum entre T3 e L3
em cães com mais de um ano de idade (Sharp e Wheeler, 2005). O Pastor de Berna tem
predisposição racial a algumas doenças que podem afectar a marcha e provocar paresia
posterior. Esta raça é susceptível a uma forma grave e precoce de poliartrite e meningite e
também a hipomielinização do SNC (possivelmente hereditária, com sinais clínicos às 2-8
semanas de idade) (Gough e Thomas, 2004), mas estas doenças seriam pouco prováveis
numa cadela com 9 anos de idade.
Foram realizados exames complementares: ecografia, radiografia e mielografia. No exame
ecográfico observaram-se vários quistos ováricos e uma massa abdominal na região do útero
compatível com piómetra. O tratamento de eleição de piómetra é a ovariohisterectomia, já que
é o único método que a trata definitivamente. A cirurgia deve ser realizada o mais rapidamente
possível e deve instituir-se antibioterapia. Este foi o tratamento adoptado para esta cadela,
complementado com a administração de ampicilina e amoxicilina+ácido clavulânico.
Excepcionalmente pode optar-se pelo tratamento farmacológico com prostaglandinas, quando
o risco anestésico é muito elevado, em animais geriátricos ou em fêmeas com elevado
potencial reprodutivo que o proprietário queira usar em criação. Em condições muito ligeiras,
com cérvix aberta, pode tratar-se com antibióticos, mas a doença será recorrente no ciclo
éstrico seguinte e provavelmente mais grave (Harvey, 2004). No exame radiográfico não se
detectou qualquer ponto de fractura ou qualquer alteração das articulações coxo-femorais. No
entanto, observou-se um estreitamento do espaço intervertebral L1-L2 sugerindo a existência
de hérnia discal na região lombar cranial. O diagnóstico das hérnias discais é estabelecido por
radiografia lateral e ventrodorsal sob anestesia geral. Apesar do exame radiográfico ser
bastante exacto na localização da lesão, deve ser complementado com mielografia
(especialmente antes da descompressão cirúrgica), pois não providencia informações
suficientes quanto à lateralização da extrusão, extensão e grau de compressão da medula
espinhal ou presença de outras lesões (Brisson, 2010). A observação da mineralização do
disco IV nas radiografias sugere degenerescência do disco IV mas não confirma que haja
herniação. As alterações radiográficas compatíveis com hérnia discal incluem: diminuição do
espaço IV ou aspecto de cunha, diminuição do orifício IV ou aumento da sua opacidade,
estreitamento das superfícies articulares, presença de material mineralizado no canal vertebral
e fenómeno de vácuo (Brisson, 2010). O fenómeno de vácuo é a acumulação de gás no
espaço criado nas superfícies articulares das articulações sinoviais ou nos espaços
65
intervertebrais. As fissuras dos discos IV degenerados enchem-se de gás, essencialmente de
azoto originado a partir do fluido extracelular envolvente. A extensão da coluna vertebral pode
provocar a pressão negativa necessária para atrair o gás (Schwarz et al., 2000). O
estreitamento do espaço IV é o sinal radiográfico considerado mais útil, mas é pouco sensível e
tem pouco valor preditivo. O fenómeno de vácuo é raro, mas tem elevada precisão na
identificação do disco IV herniado (Brisson, 2010). Realizada a mielografia, confirmou-se a
existência de uma zona de interrupção das colunas de contraste ao nível do espaço
intervertebral L1-L2, compatível com hérnia discal lombar. Cerca de 85% das hérnias discais
ocorrem em T11-T12 e L2-L3 e aproximadamente 50% afectam os discos intervertebrais T12-
T13 e T13-L1 (Sharp e Wheeler, 2005). A mielografia é o exame imagiológico padrão para
diagnóstico de extrusão do disco IV em cães. A injecção do meio de contraste no espaço IV
T13-L1 é mais segura do que a injecção na cisterna magna e permite localizar as hérnias
toraco-lombares com exactidão. A observação de uma atenuação, estreitamento ou desvio da
coluna de contraste é diagnóstica de hérnia do disco IV, mas é necessário realizar projecções
ventrodorsais ou oblíquas para determinar a lateralização do material extruso e orientar a
abordagem cirúrgica (Brisson, 2010). A análise do líquido cefalorraquidiano, antes da
mielografia, permite descartar a existência de meningite. Nos casos de extrusão do disco IV, a
sua análise pode revelar pleiocitose e aumento do teor em proteínas, resultantes da resposta
imuno-mediada (Sharp e Wheeler, 2005). A imagiologia com TC contrastado e RM é não-
invasiva e permite uma exactidão de diagnóstico e localização da lesão próximas de 100%. No
entanto, não estão disponíveis na maioria das clínicas veterinárias e têm custos elevados.
As hérnias discais podem ser classificadas segundo os sinais clínicos, em hérnias de grau 1 (a
dor é o único sinal clínico) a grau 5 (paraplegia com perda de percepção da dor profunda)
(Sharp e Wheeler, 2005). Na cadela do caso clínico nº 3, a classificação era de grau 3, já que
estava paraparética, sem actividade ambulatória e possuía sensibilidade à dor profunda, ainda
que diminuída. A classificação das hérnias discais ajuda na tomada de decisão quanto ao
tratamento. O tratamento conservativo não está indicado nos animais com perda de
sensibilidade à dor profunda, mas quando a perda ocorreu há mais de 48 horas, o prognóstico
é significativamente pior mesmo com o tratamento cirúrgico. Frank e Xie (2011) propuseram
uma modificação da escala de classificação para integrar as terapias alternativas (Quadro 4).
Para hérnias discais de grau 4 ou 5 os autores consideram que o melhor resultado será uma
combinação de MVTC e tratamento cirúrgico.
O tratamento conservativo da hérnia discal toraco-lombar consiste na restrição da actividade
física durante seis semanas, fisioterapia e tratamento farmacológico com fármacos
anti-inflamatórios, relaxantes musculares e analgésicos. O confinamento em jaula previne o
agravamento da extrusão e reduz o risco de traumatismo medular resultante da falta de
coordenação (Brisson, 2010).
66
Quadro 4. Escala de classificação neurológica nas DDIV e terapias alternativas (Adaptado de Frank e Xie, 2011).

Grau Sinais clínicos Terapia recomendada

0 ! Normal

1 ! Dor e hiperestesia ! Acupunctura, fitoterapia

! Ataxia, paresia, diminuição da propriocepção,


2 com actividade ambulatória
! Acupunctura, fitoterapia, plano de exercícios

! Paresia grave, sem propriocepção e sem ! Acupunctura com ou sem cirurgia, fitoterapia,
3 actividade ambulatória. fisioterapia de reabilitação
! Paralisia, diminuição ou ausência de controlo da ! Acupunctura e cirurgia, fitoterapia, fisioterapia de
4 bexiga, percepção da dor profunda preservada. reabilitação
! Paralisia, incontinência urinária e fecal, sem ! Cirurgia, MVTC (acupunctura e fitoterapia) e
5 percepção da dor profunda. fisioterapia de reabilitação

O plano de reabilitação a adoptar dependerá da velocidade da lesão, geralmente aguda nas


hérnias de Hansen tipo I (extrusão) e crónica nas hérnias de Hansen tipo II (protusão), o que
nem sempre é fácil de determinar. O plano de fisioterapia recomendado nas lesões agudas da
medula espinhal é semelhante ao plano de reabilitação das lesões crónicas, discutido no caso
clínico nº 2, devendo incluir exercícios passivos e reflexos na fase inicial e exercícios activos
quando o animal já controla o movimento dos membros. Nas lesões agudas da medula
espinhal, a fisioterapia tem como principal objectivo a maximização da recuperação funcional
pelos tecidos nervosos intactos. O tipo de tecido nervoso danificado depende do tipo de lesão,
influencia a recuperação expectável e deve ser tido em consideração no delineamento do
programa de reabilitação. As contusões causam maiores danos na substância cinzenta, com
morte dos corpos celulares e as compressões afectam maioritariamente a substância branca,
provocando danos nas bainhas de mielina, deformação dos canais iónicos, obstrução do fluxo
sanguíneo e finalmente a destruição dos axónios. Nas hérnias discais agudas, há compressão
e contusão da medula espinhal em grau variável, provocando lesões na substância cinzenta e
na substância branca (Olby et al., 2005).
Dos fármacos utilizados, os anti-inflamatórios não esteróides e a metilprednisolona estão
associados a uma menor taxa de recidiva, comparados com outros corticosteróides. A
administração de analgésicos e anti-inflamatórios deve ser omitida sempre que possível, de
modo a obrigar o animal a permanecer imobilizado. Com tratamento conservativo de hérnia
discal toraco-lombar, a taxa de sucesso varia entre 50% e 100% mas cerca de 30% a 50% dos
animais recidivam nos 36 meses seguintes (Brisson, 2010). A descompressão cirúrgica da
medula espinhal, com remoção do material extruso, é a modalidade de tratamento mais aceite,
já que permite o restabelecimento da hemodinâmica normal da medula espinhal ao contrário da
descompressão simples. As técnicas cirúrgicas a usar são variadas: laminectomia dorsal,
hemilaminectomia, minihemilaminectomia, pediculectomia extensa ou parcial e corpectomia
(Brisson, 2010). Na região toraco-lombar, a hemilaminectomia é a técnica cirúrgica mais
67
utilizada, consistindo na remoção dos processos articulares das duas vértebras adjacentes e
de parte dos pedículos do arco vertebral, expondo a região dorsolateral da medula espinhal.
Esta abordagem cirúrgica permite o acesso à região lateral e ventral do canal vertebral sem
manipulação da medula espinhal, o que facilita a remoção de todo o material extruso
(descomprimindo totalmente a medula) e permite aceder ao disco IV para fenestração adicional
(Jeffery, 1995). Comparada com a laminectomia dorsal, proporciona uma melhor
descompressão por remoção do material do disco, melhor recuperação neurológica
pós-cirúrgica, menor risco de formação de membrana de laminectomia. No entanto, há um
maior risco de provocar hemorragia do seio venoso e pensa-se que a remoção das apófises
articulares possa aumentar a instabilidade da coluna vertebral (Brisson, 2010). A
minihemilaminectomia e a pediculectomia consistem na remoção de parte do pedículo e são
usadas frequentemente em simultâneo. Na minihemilaminectomia, a janela cirúrgica é feita ao
nível do orifício intervertebral e na pediculectomia, a janela cirúrgica é realizada a meio do
corpo vertebral, entre a apófise articular cranial e a apófise articular caudal. Nesta técnicas, a
quantidade de osso removido é mínima, diminuindo a duração da cirurgia e a morbilidade, mas
só permitem o acesso à região ventral do canal vertebral (Sharp e Wheeler, 2005). A
corpectomia é a intervenção cirúrgica menos invasiva, porque a manipulação da medula
espinhal é mínima e não há agravamento clínico temporário associado às outras técnicas
cirúrgicas. Actualmente, as técnicas de fenestração e de durotomia não são recomendadas
(Brisson, 2010).
O proprietário da cadela recusou a intervenção cirúrgica e optou pelo tratamento com
acupunctura. Do ponto de vista da MVTC, as doenças do disco intervertebral são síndromes Bi
ósseas, que correspondem a um estadio crónico da síndrome Bi, com envolvimento dos ossos
incluindo a coluna vertebral. As síndromes Bi resultam da obstrução e estagnação de Qi e Xue
nos meridianos, causando fraqueza muscular, paresia e paralisia. Nos tratamentos com
acupunctura usam-se acupontos locais, craniais e caudais à lesão. Como pontos locais pode
usar-se os acupontos do meridiano da Bexiga que atravessa toda a região paravertebral (1.5
cun lateralmente ao bordo caudal dos processos espinhosos) ou podem usar-se os pontos
clássicos Hua-tuo-jia-ji, entre o meridiano da Bexiga e o meridiano do Vaso Governador (que
passa na linha média). Nas síndromes Bi ósseas podem usar-se também os pontos BL54,
BL35, BL36 nas obstruções a nível do membro pélvico e da região caudal e os pontos GV14,
GV5, GV4, GV3 e Bai-hui quando o local de obstrução se localiza ao longo da coluna vertebral
(Xie e Preast, 2007).
O uso combinado de acupunctura e electroacupunctura com corticosteróides tem-se revelado
eficaz no tratamento das hérnias discais toraco-lombares. Em cães com sensibilidade à dor
profunda, a combinação de acupunctura, EA e prednisolona tem-se revelado mais eficaz no
tempo de recuperação da actividade ambulatória, alívio da dor e prevenção de recidivas, do
68
que o tratamento com prednisolona por si só (Han et al., 2010; Hayashi et al., 2007). Da
mesma forma, o ensaio experimental desenvolvido por Yang et al. (2003) comprovou que a
associação de corticosteróides e electroacupunctura tem melhores resultados no tratamento de
lesões lombares da medula espinhal do que a acupunctura ou os corticosteróides
isoladamente. Neste ensaio, o tratamento combinado permitiu uma diminuição significativa do
tempo de recuperação da propriocepção (menos 11 a 13 dias) e do reflexo extensor (menos 7 a
8 dias). No estudo realizado por Hayashi et al. (2007), apesar de não existirem diferenças
estatisticamente significativas nos animais com hérnia discal de grau 5, metade dos animais
tratados com acupunctura recuperaram a percepção da dor profunda e a pontuação da sua
função neurológica foi consideravelmente superior no final do tratamento. O tratamento com
acupunctura está também descrito num gato com vários locais de compressão medular
provocada por múltiplas hérnias discais entre T2-T6 e L2-L5. O animal foi tratado inicialmente
com prednisolona, mas na ausência de resposta ao tratamento foi referido para acupunctura.
Com 4 meses de tratamento, usando várias modalidade de acupunctura (agulha seca, EA,
escalpe e tui-ná) o animal recuperou a actividade ambulatória e a propriocepção (Choi e Hill,
2009). Nos animais com défices neurológicos graves, há mais de 48 horas, provocados por
hérnia discal toraco-lombar, o tratamento com electroacupunctura revelou-se mais eficaz na
recuperação da actividade ambulatória e na melhoria da função neurológica, do que a
descompressão cirúrgica combinada ou não com acupunctura (Joaquim et al., 2010).
Os possíveis indicadores de prognóstico para as hérnias discais toracolombares têm sido
extensamente estudados, entre os quais a gravidade e duração dos sinais clínicos, local de
extrusão, grau de compressão e inflamação medular, intensidade do parênquima medular em
RM, número de mielografias, uso de corticosteróides e duração da anestesia (Srugo et al.,
2011). No entanto, a presença da sensibilidade à dor profunda ainda é o indicador de
prognóstico mais fiável nas lesões medulares (Brisson, 2010). A taxa de recuperação com
descompressão cirúrgica, nos animais não-ambulatórios com sensibilidade à dor profunda, é
de 86% a 96% nas raças pequenas ou condrodistróficas (geralmente hérnia discal tipo I,
extrusão). Nas raças grandes não-condrodistróficas, a taxa de recuperação é de 78% a 85%
nas hérnias tipo I e de apenas 22% a 52% nas hérnias discais tipo II (protusão). Nos animais
com perda da percepção de dor profunda, a taxa de recuperação com cirurgia pode variar de
0% a 76%. Destes animais, 41% permanecem com incontinência fecal e 32% com
incontinência urinária, facto que deve ser comunicado ao proprietário antes da tomada de
decisão quanto ao tratamento. Nos animais com perda de sensibilidade à dor profunda, há
mais de 48 horas, o prognóstico é desfavorável independentemente do método de tratamento
usado (conservativo ou cirúrgico) (Brisson, 2010). Face ao desfecho imprevisível do tratamento
dos animais sem percepção da dor profunda, Srugo et al. (2011) propuseram que a análise do
líquido cefalorraquidiano possa auxiliar no prognóstico dos animais sem actividade ambulatória
69
com DDIV toraco-lombar. Segundos os autores, o tempo de recuperação da actividade
ambulatória está positivamente relacionado com a contagem total de células nucleadas, a
percentagem de macrófagos e com o rácio macrófagos/monócitos no líquido cefalorraquidiano.
Também a concentração de proteína básica de mielina (MBP), que aumenta no parênquima e
no líquido cefalorraquidiano quando há desmielinização, poderá ter valor prognóstico pois
parece directamente correlacionada com a gravidade da lesão primária e inversamente
correlacionada com a recuperação funcional a longo prazo. No entanto, no estudo
desenvolvido por Levine et al. (2010) apesar da concentração de MBP ser significativamente
superior nos animais que não viriam a recuperar a actividade ambulatória, não foi
significativamente diferente da concentração dos animais controlo. Segundo os autores, o
doseamento desta proteína poderá constituir um indicador de prognóstico a longo prazo, desde
que usado como complemento a outros indicadores de prognóstico (Levine et al., 2010). Neste
animal, o prognóstico era reservado a favorável, uma vez que persistia alguma percepção da
dor profunda mas a existência de doença concorrente (piómetra) com necessidade de
intervenção cirúrgica piorava o prognóstico. De facto, a anestesia geral está frequentemente
associada a um agravamento dos sinais neurológicos, quando a coluna vertebral não é
suportada de modo adequado na manipulação do animal inconsciente (Jeffery, 2010). Para
além disso, a anestesia geral constitui um dos factores de risco para o aparecimento de
pneumonia, principalmente quando é necessário mais do que uma anestesia ou quando
associada a tetraparesia, lesões na região cervical e vómito ou regurgitação (Java et al., 2009).
Nas lesões medulares, entende-se como recuperação a capacidade de controlar a micção, a
defecação e a actividade ambulatória sem suporte (Sharp e Wheeler, 2005). O animal
recuperou o controlo da micção após duas sessões de acupunctura e a actividade ambulatória
após seis sessões (três semanas). Na maioria dos animais tratados conservativamente nota-se
alguma melhoria a partir da 2ª semana de repouso. Nos animais tratados cirurgicamente, o
retorno à actividade ambulatória ocorre em 6.7 dias a 12.9 dias mas em alguns casos pode
demorar até 4 semanas. Esta cadela recuperou totalmente em dois meses e meio de
tratamento, com sessões de acupunctura bissemanais e semanais. A eficácia da acupunctura
no tratamento das doenças do disco intervertebral pode estar relacionada com a modulação da
resposta imune e inflamatória da medula espinhal, pois a inflamação parece ser mais
importante no desenvolvimento dos sinais neurológicos do que a compressão propriamente
dita. A estimulação eléctrica de baixa frequência está indicada nos pacientes com doença
crónica e paralisia e pensa-se que possa reduzir a degenerescência do disco IV quando
associada à restrição da actividade física. Por outro lado, a electroestimulação de alta
frequência, está indicada nos pacientes com doença aguda e dor e julga-se que possa
prejudicar a regeneração do disco IV (Joaquim et al., 2010). No entanto, a alternância de
frequências altas e baixas permite obter uma acção sinérgica que, segundo a literatura, está
70
associada a melhores resultados clínicos.
No final do tratamento e na consulta de reavaliação dois meses mais tarde, a cadela mantinha
uma ligeira ataxia dos MP, o que acontece em 13% dos cães recuperados, segundo Brisson
(2010). Neste caso, segundo a literatura, o uso combinado de acupunctura e corticosteróides
poderia ter acelerado a recuperação.

2.4. Discussão do caso clínico nº 4

No caso clínico nº 4, foi usada acupunctura no tratamento de uma cadela São Bernardo com
síndrome de cauda equina. A cadela foi trazida à consulta com paralisia aguda dos MP, mas
preservava o controlo da micção e movia a cauda. Aparentemente tratava-se de um problema
localizado nos MP, de origem músculo-esquelética ou neurológica. O São Bernardo tem
predisposição racial a uma série de doenças que podem provocar claudicação dos MP e que
devem ser consideradas nestes casos: displasia da anca, ruptura do ligamento cruzado cranial,
tumor ósseo primário especialmente osteossarcoma, luxação lateral da patela e polineuropatia
distal (Gough e Thomas, 2004).
No exame neurológico, as alterações limitavam-se aos MP e incluíam paralisia, ausência de
reflexos espinhais, de propriocepção e de percepção da dor profunda. O reflexo perineal era
normal e o animal manifestava dor na flexão da cauda. Como já referido, os défices
proprioceptivos devem ser interpretados cuidadosamente. Neste caso, como não existiam
reflexos espinhais, a perda de propriocepção era compatível com uma doença do neurónio
motor inferior, por exemplo polineuropatia motora, que impossibilitasse o reposicionamento do
membro (Parent, 2010). No entanto, este facto não permitia descartar a possibilidade de existir
também uma falha nas vias de transmissão da propriocepção. A presença do reflexo perineal e
do controlo da micção indiciam que os segmentos S1 a S3 estavam intactos, sem
comprometimento do nervo pélvico, pudendo e nervos sagrados, responsáveis pela inervação
dos esfíncteres uretral e anal e pelo reflexo perineal. O movimento da cauda, com tónus
normal, indicava que os nervos coccígeos estavam intactos. A insensibilidade dos MP, sem
afectar a cauda, levaria a supor que a lesão neurológica fosse extramedular, afectando o nervo
femoral e o nervo ciático no seu trajecto exterior ao canal vertebral ou na região da cauda
equina. Os défices neurológicos não eram compatíveis com uma doença do aparelho músculo-
esquelético e, das doenças a que o São Bernardo está predisposto, apenas a polineuropatia
distal poderia causar as alterações observadas. Este quadro neurológico era compatível com
uma síndrome neuropática (polineuropatia pois os sinais eram bilaterais e simétricos) ou com
uma síndrome lombo-sagrada. Ambas se caracterizam por hiporreflexia ou arreflexia nos MP e
podem causar défices proprioceptivos. Nesta cadela, a arreflexia nos MP sugeria uma lesão
entre os segmentos L4 e S1, o que explicaria também a ausência de respostas posturais e de

71
percepção da dor profunda. As lesões da região lombo-sagrada são frequentes em cães de
raças grandes (Costa e Moore, 2010) e ocorrem maioritariamente na união do sacro com a
última vértebra lombar (Parent, 2010), local de maior movimento da coluna vertebral lombar
(Sharp e Wheeler, 2005). As principais doenças que afectam esta região e que devem ser
incluídas no diagnóstico diferencial são: estenose degenerativa lombo-sagrada (síndrome de
cauda equina), discoespondilite, neoplasia e quistos sinoviais extradurais. Estas doenças
podem cursar com dor, paraparesia e défices proprioceptivos mas, nos animais ambulantes,
não há ataxia proprioceptiva porque a medula espinhal não é afectada (Costa e Moore, 2010).
Face ao quadro clínico e às características do animal (raça gigante, 10 anos), suspeitou-se de
síndrome de cauda equina e decidiu-se realizar um exame radiográfico para confirmar o
diagnóstico. Tal como acontece na região cervical nas síndromes de Wobbler, a mobilidade
anormal na união lombo-sagrada pode levar a alterações degenerativas que diminuem a
amplitude de movimento e causam compressão das estruturas nervosas no canal vertebral ou
nos orifícios intervertebrais (Sharp e Wheeler, 2005). Na compressão da cauda equina ou das
raízes nervosas L7 podem estar combinadas várias anomalias que incluem: estenose do canal
vertebral, hérnia discal (geralmente Hansen tipo II), subluxação ventral de S1, osteofitose,
espessamento dos processos articulares, anomalias vertebrais congénitas (vértebras de
transição ou extra), fibrose epidural, proliferação de tecidos moles (geralmente da cápsula
articular ou do ligamento interarcuado), comprometimento vascular dos nervos espinhais,
osteocondrose sacral, instabilidade e mau alinhamento das vértebras L7 e S1 (Sharp e
Wheeler, 2005; Meij e Bergknut, 2010). A anatomia da região lombo-sagrada é distinta das
restantes regiões da medula espinhal. Na maioria dos cães, a medula espinhal termina ao nível
da 6ª vértebra lombar no cone medular mas a aracnóide e a dura-máter prolongam-se até à 1ª
vértebra sagrada contendo a cauda equina. Esta estrutura é composta pelas raízes nervosas
que dão origem aos nervos ciático, pudendo, pélvico e nervos coccígeos (Tipold et al., 2010).
Por esse motivo, lesões que ocorram a níveis ligeiramente diferentes da medula espinhal
lombo-sagrada ou das raízes nervosas, podem ter sintomatologias muito distintas. Alguns
animais apresentam-se paréticos ou paralisados, com hiporreflexia e hipotonia mas mantendo
o controlo dos esfíncteres anal e uretral. Noutros, o único sinal clínico é a incontinência urinária
e/ou fecal e eventualmente fraqueza moderada dos MP (Braund, 2003). Apesar dos sinais
clínicos da síndrome de cauda equina serem muito variáveis, a presença de dor na região
lombo-sagrada é o sinal chave para o diagnóstico clínico, presente em mais de 90% dos cães
afectados (Lorenz et al. 2011).
Na radiografia observou-se uma área de espondilose entre a última vértebra lombar e o sacro,
que poderia provocar uma compressão das raízes nervosas ao nível do orifício intervertebral.
Nos exames radiográficos, a projecção lateral é a mais útil, permitindo observar uma série de
alterações compatíveis com síndrome da cauda equina: diminuição do espaço IV, esclerose
72
das facetas vertebrais, alongamento da lâmina sacral para a abertura caudal de L7, subluxação
de S1, fenómeno de vácuo e espondilose ventral. A radiografia permite ainda excluir algumas
doenças como as neoplasias com envolvimento ósseo, luxações traumáticas e
discoespondilite. A utilidade da mielografia (meio de contraste no espaço sub-aracnóide) é
limitada pela extensão do saco dural na união lombo-sagrada. No entanto, a injecção do meio
de contraste no espaço epidural pode evidenciar o estreitamento, obstrução ou desvio das
linhas de contraste, especialmente nos estudos dinâmicos (Meij e Bergknut, 2010). Com TC
pode detectar-se outras alterações como a perda de gordura epidural, aumento da opacidade
dos tecidos moles no orifício IV, abaulamento e protusão do disco IV, estenose do canal
vertebral, espessamento dos processos articulares e hipertrofia dos ligamentos e cápsulas
articulares. A utilização de meio de contraste intravenoso pode evidenciar as compressões
laterais e ventrais que, sem contraste, se confundiriam com os nervos adjacentes. A utilidade
da TC contrastada nesta região pode ser limitada, porque o meio de contraste provoca
artefactos que dificultam a interpretação das imagens (Costa e Samii, 2010). A RM permite
obter imagens de maior detalhe e visualizar a degenerescência do disco IV, o saco dural e o
deslocamento das raízes nervosas (Meij e Bergknut, 2010). No entanto, o grau de compressão
da cauda equina observada por este método não tem correlação com os sinais clínicos ou com
a gravidade da doença (Mayhew et al., 2002), e o aspecto nas imagens por RM ou TC parece
não estar correlacionado com as alterações observadas na cirurgia ou com o resultado do
tratamento (Costa e Samii, 2010). Não obstante, quando a compressão nervosa ocorre à saída
do canal vertebral, por estenose do orifício intervertebral, só poderá ser diagnosticada por TC
ou RM (Lang e Seiler, 2010). A electromiografia pode ser útil para determinar a distribuição da
desinervação e localizar a lesão quanto às raízes nervosas afectadas (Lorenz et al. 2011)
O tratamento recomendado na síndrome de cauda equina é conservativo ou cirúrgico. O
tratamento conservativo consiste na administração de anti-inflamatórios não esteróides,
alteração do padrão de exercício e perda de peso. A administração sistémica de
corticosteróides não é recomendada, pois a administração de anti-inflamatórios não esteróides
providencia o mesmo resultado com menos efeitos secundários. No entanto, está descrito o
tratamento com acetato de metilprednisolona via epidural. O plano de tratamento consiste em
três injecções nos dias 1, 14 e 42, na dose 1mg/kg. Este tratamento não está indicado nos
animais com défices proprioceptivos nos MP ou com incontinência urinária e/ou fecal e pode
provocar efeitos adversos, diminuir a resposta imunitária e exacerbar uma discoespondilite não
diagnosticada (Meij e Bergknut, 2010). Cerca de 79% dos animais melhoram com as injecções
epidurais de corticosteróides e 53% recuperam totalmente (Lorenz et al. 2011).
Nos animais com défices neurológicos ou não responsivos ao tratamento conservativo,
recomenda-se o tratamento cirúrgico, para descomprimir a cauda equina e libertar as raízes
nervosas. A técnica cirúrgica de eleição é a laminectomia dorsal simples ou complementada
73
com discectomia e nucleotomia (por fenestração dorsal), foraminotomia, facetectomia e fixação
(nas subluxações ventrais de S1). O tratamento cirúrgico deve ser acompanhado de terapia
analgésica, restrição de exercício no período pós-cirúrgico e antibioterapia quando necessário
(Meij e Bergknut, 2010).
O proprietário recorreu à consulta de MVTC na qual foi estabelecido o diagnóstico de
estagnação de Qi e Xue e Deficiência do Yang do Rim. A síndrome de cauda equina
corresponde, na MVTC, a uma obstrução dolorosa causada pela estagnação e obstrução de Qi
e Xue nos meridianos da Bexiga e da Vesícula Biliar que acompanham o trajecto da medula
espinhal e do nervo ciático. Esta estagnação é considerada um padrão de Excesso, pois a dor
aumenta com a palpação da área afectada. No seu tratamento utilizam-se acupontos
distribuídos ao longo dos meridianos da Bexiga, Vesícula Biliar e Vaso Governador, com o
objectivo de promover o fluxo de Qi e tonificar a circulação de Xue e deste modo aliviar a dor
(Kline et al, 2001). A Deficiência de Yang do Rim é típica de animais mais velhos e
manifesta-se por dificuldades em levantar, em caminhar e claudicação dos MP. Neste padrão
de Deficiência utilizam-se acupontos que tonificam o Yang do Rim, por exemplo o ponto
Bai-hui, que está também indicado nas paresias e paralisias dos MP, dor e doença do disco
intervertebral lombo-sagrada e dor da articulação coxo-femoral (Xie e Preast, 2007). No
tratamento deste animal realizaram-se sessões bissemanais durante duas semanas. Foram
estimulados com agulha seca os pontos principais de influência dos MP, da articulação
coxo-femoral e dos tendões e ligamentos (Bai-hui, BL40, BL54 e GB34), assim como os pontos
indicados no alívio da dor (Bai-hui, ST36 e GB34). Foram também usados pontos locais sobre
a musculatura dos MP para reduzir a atrofia muscular. A combinação dos acupontos BL22 e
BL35 para electroacupunctura permite que a corrente eléctrica atravesse toda a região
paravertebral lombo-sagrada, desde L1 até à base da cauda, estimulando as estruturas que
formam a cauda equina e as raízes nervosas.
À semelhança do que foi discutido nos casos clínicos anteriores, os efeitos da acupunctura no
tratamento da síndrome de cauda equina dependem provavelmente da sua acção anti-
inflamatória local, da regulação do fluxo sanguíneo espinhal e da capacidade de acelerar a
regeneração nervosa. Os nervos da cauda equina têm uma estrutura típica de nervos
periféricos (Sharp e Wheeler, 2005) e a EA mostrou ser eficaz na promoção da regeneração
dos nervos periféricos (Inoue et al., 2003). A literatura sobre este tema é escassa, mesmo em
medicina humana e na maioria dos casos refere-se ao tratamento sintomático da dor e da
incontinência urinária neurogénica associada. Apesar de fornecer pouca informação sobre o
caso, Trowe (2008), relatou o tratamento de um cão Pastor Suíço com gonartrose na
articulação do joelho e síndrome de cauda equina. O animal foi tratado com acupunctura com
agulha seca (sessão semanal) e condroprotectores, tendo recuperado em seis semanas. Após
a recuperação foram colocados implantes de modo a provocar uma estimulação contínua dos
74
acupontos chave (Trowe, 2008). Nos animais com síndrome de cauda equina, com ou sem
espondilose, os implantes de ouro devem ser colocados em acupontos pertencentes ao
meridiano da Bexiga e do Vaso Governador (Durkes, 2001). Em humanos com estenose do
canal vertebral lombar, a aplicação de EA no nervo pudendo melhorou significativamente a dor
da região lombo-sagrada e dos MP, a disestesia dos MP e a distância da actividade
ambulatória contínua, em oito sessões semanais. Todos os pacientes tinham sido previamente
tratados com agulha seca, durante oito semanas, com resultados insatisfatórios (menos de
20% de melhoria dos sintomas), mas com EA obtiveram-se resultados claramente superiores
(Inoue et al., 2008). Em doentes com lumbalgia e dor ciática de etiologias distintas, o uso de EA
num máximo de 12 sessões foi eficaz no alívio da dor. Os doentes com estenose do canal
medular foram tratados com sessões bissemanais e, em média, foram necessárias mais
sessões para o alívio dos sintomas (15.4). Segundo os autores, a necessidade de mais
sessões de EA pode dever-se ao facto de se tratar de um processo crónico e de a idade média
dos pacientes ser superior (Teggiachi e Horacio, 2008).
No presente caso clínico, com duas sessões de acupunctura o animal tinha recuperado os
reflexos espinhais nos MP e já se tentava levantar. Após a quarta sessão o animal era capaz
de se levantar sem ajuda e tinha recuperado a actividade ambulatória, apesar de persistirem os
défices proprioceptivos nos MP. Para avaliar a evolução do quadro clínico e tentar obter uma
recuperação total, deveria ter-se prosseguido com as sessões de acupunctura, o que não foi
possível por motivos económicos. De qualquer modo, considera-se que as expectativas do
proprietário terão sido atingidas, já que na maioria dos animais paralisados o principal objectivo
do tratamento, do ponto de vista do proprietário, é a recuperação da actividade ambulatória. Na
maioria dos casos o prognóstico é favorável, pois a cauda equina tem a capacidade de
recuperar rapidamente (Tipold et al., 2010), principalmente quando existe apenas claudicação e
défices neurológicos ligeiros (Sharp e Wheeler, 2005). Nos animais submetidos a
descompressão cirúrgica, o prognóstico é favorável e cerca de 75% recuperam totalmente,
excepto quando a incontinência urinária e/ou fecal persiste há mais de seis semanas antes da
cirurgia (Rytz, 2010).

2.5. Discussão do caso clínico nº 5

No caso clínico nº 5, o motivo da consulta foi um episódio de atropelamento. Nos animais


atropelados, antes de tentar determinar a extensão das lesões é necessário estabilizar o
paciente segundo o sistema ABC (vias aéreas, respiração, circulação) (Silverstein e Hopper,
2009). Nestes casos, por vezes é necessário abreviar o exame físico e neurológico, para evitar
que a manipulação do animal exacerbe as lesões (Lorenz et al., 2011). Neste caso não havia
comprometimento das funções vitais e os sinais clínicos estabilizaram. Quando o quadro clínico

75
do animal acidentado se agrava progressivamente deve suspeitar-se de hemorragia ou de uma
mobilidade excessiva dos ossos no local da lesão (Silverstein e Hopper, 2009).
No exame físico, a região toraco-lombar estava deformada e quente à palpação. A deformação
e o calor eram consistentes com uma resposta inflamatória local, possivelmente devido a
fractura ou luxação vertebral. O animal aparentava ter retenção urinária e paraparesia. A
retenção urinária sugere uma hipertonia do esfíncter uretral externo, compatível com uma lesão
medular cranial às raízes nervosas sagradas (S1-S3). Neste caso, a paraparesia podia ter
origem músculo-esquelética, neurológica ou ambas. A interpretação do exame neurológico do
doente atropelado deve ser cautelosa, uma vez que os animais examinados pouco tempo após
o traumatismo medular podem ter choque espinhal, o que interfere na localização correcta da
lesão neurológica. O choque espinhal caracteriza-se por uma diminuição profunda dos reflexos
espinhais caudalmente à lesão, apesar dos arcos reflexos permanecerem fisicamente intactos.
Nos cães, o choque espinhal é temporário mas pode durar 12 a 24 horas (Silverstein e
Hopper, 2009). O fenómeno de Schiff-Sherrington está associado a lesões da medula espinhal
entre os segmentos T2 e L4 e caracteriza-se por uma hipertonia dos músculos extensores dos
MT e paralisia flácida dos MP, porém, a avaliação dos reflexos espinhais, marcha e respostas
posturais nos membros revela-se normal (Lorenz et al., 2011). No exame neurológico a
avaliação dos nervos cranianos estava normal, assim como a dos reflexos espinhais nos MT.
Nos dois MP havia hiperreflexia do patelar e défices nas reacções posturais. Como já foi
discutido no caso clínico nº 3, as fibras nervosas ascendentes que transmitem a propriocepção
têm um trajecto superficial na medula espinhal, o que as torna particularmente susceptíveis a
lesão quando há compressão medular (Sharp e Wheeler, 2005). Nas doenças do neurónio
motor superior, a hiperreflexia é geralmente acompanhada de hipertonia, o que não acontecia
neste caso. Portanto, seria ideal distinguir se se tratava de uma verdadeira hiperreflexia do
patelar ou de uma pseudohiperreflexia que ocorre quando há lesão do nervo ciático. Em
condições normais, os músculos inervados pelo nervo ciático contrariam a extensão exagerada
da articulação do joelho quando se induz o reflexo patelar. A pseudohiperreflexia resulta da
diminuição do tónus desses músculos quando a função do nervo ciático está diminuída. Nestas
condições, o reflexo flexor está diminuído ou ausente mas, uma lesão moderada, pode
provocar apenas perda de propriocepção (como acontecia neste caso) sem sinais evidentes de
disfunção motora do nervo (Sharp e Wheeler, 2005). A sensibilidade à dor profunda estava
presente, o que melhora o prognóstico de uma possível lesão medular, pois indicava que a
lesão não seria suficientemente extensa de modo a afectar a maioria do diâmetro da medula
espinhal. Face à suspeita de traumatismo medular e para pesquisar fracturas ósseas,
vertebrais ou do esqueleto apendicular, não detectadas no exame físico, foi realizado exame
radiográfico da região toraco-lombar. Num animal atropelado seria ideal realizar radiografias de
todo o esqueleto e exame ecográfico para avaliar a integridade dos órgãos abdominais. Porém,
76
não foram realizados porque não existiam indícios de lesões para além da região toraco-lombar
e o exame físico não levantou suspeitas do envolvimento dos órgãos internos. No exame
radiográfico observou-se um deslocamento vertebral, com estreitamento do espaço
intervertebral, compatível com luxação na articulação T13-L1. As fracturas e luxações são mais
frequentes nas junções entre segmentos vertebrais móveis e estáveis (atlanto-occipital,
cervico-torácica, toraco-lombar e lombo-sagrada). A gravidade da lesão depende da
velocidade, grau e duração da força compressiva ou distractiva (Braund, 2003). Na união
toraco-lombar, as consequências neurológicas podem ser desastrosas devido ao diâmetro
relativamente pequeno do canal vertebral relativamente ao diâmetro da medula espinhal (Sharp
e Wheeler, 2005). Nos traumatismos medulares, os défices neurológicos resultam da lesão
primária que corresponde à lesão mecânica das vias nervosas e das lesões secundárias que
se desenvolvem nas horas seguintes (Braund, 2003). Para além da lesão traumática inicial, a
persistência de uma compressão da medula ou das raízes nervosas provoca desmielinização,
lesão axonal progressiva e destruição dos neurónios e axónios (Jeffery, 2010). As lesões
secundárias estão relacionadas com a cascata de reacções fisiológicas que se desencadeia
após a lesão primária e que inclui: isquémia, hipóxia, edema e uma série de alterações
bioquímicas e metabólicas que resultam na destruição das membranas, morte celular e
disfunções neurológicas graves que podem ser permanentes (Braund, 2003). A inflamação é
uma das respostas secundárias que exacerba a patogenia dos traumatismos da medula
espinhal ao induzir a apoptose dos neurónios e dos oligodendrócitos. As células da micróglia
(células imunitárias do SNC), desempenham um papel fulcral na indução da resposta
inflamatória ao expressar mediadores inflamatórios como as citocinas próinflamatórias, COX-2,
enzima óxido nítrico sintase induzida (iNOS), pro-NGF e espécies reactivas de oxigénio,
contribuindo para os processos neurodegenerativos após a lesão primária (Choi et al., 2010).
O plano de tratamento dos animais com traumatismo medular deve incluir a administração de
succinato sódico de metilprednisolona (SSMP) nas primeiras 8 horas e tratamento cirúrgico o
mais rápido possível (Braund, 2003), de modo a preservar a função do tecido neural
sobrevivente. O SSMP em doses elevadas inibe a libertação dos radicais livres responsáveis
pela peroxidação lipídica (Schmökel, 2010) e deve ser administrada uma dose inicial de 30
mg/kg em bólus IV. A dose de manutenção pode ser administrada em infusão contínua (5.4
mg/kg/hora durante 24 horas) ou em bólus (15 mg/kg IV, duas horas e seis horas após a dose
inicial) (Tipold et al., 2010). Se a dose inicial for administrada nas 3 a 8 horas após o
traumatismo, a dose de manutenção deve prolongar-se até 48 horas (Braund, 2003). No
entanto, a administração de SSMP não tem utilidade depois das primeiras 8 horas (Tipold et al.,
2010) e parece mesmo agravar as lesões na medula espinhal em humanos. Pode
administrar-se profilacticamente protectores da mucosa intestinal, anti-ácidos ou antagonistas
H2, para prevenir as hemorragias e úlceras gástricas associadas à administração de
77
corticosteróides. Têm sido desenvolvidas outras drogas neuroprotectoras como a hormona
libertadora da tirotropina, 21-aminoesteróides, opióides k-agonistas e gangliosídeos GM1, mas
a sua eficácia ainda não foi testada em ensaios clínicos (Braund, 2003). Neste caso não foi
iniciada a corticoterapia, supostamente por já terem decorrido mais de oito horas desde o
atropelamento. Em vez disso, o animal foi medicado com um anti-inflamatório não esteróide
com acção analgésica (meloxicam) durante dois dias e algaliado. O tratamento cirúrgico dos
traumatismos da medula espinhal tem como objectivo a descompressão da medula espinhal,
redução vertebral e estabilização interna com recurso a cavilhas de Steinman,
polimetilmetacrilato (PMMA) ou polipropileno revestido (Braund, 2003). As técnicas mais
frequentes para resolução de fracturas ou luxações na união toraco-lombar incluem a
colocação de fixadores externos (placas) nos corpos vertebrais, cavilhas e cerclages
segmentares ou cavilhas e PMMA. A última é a mais usada, porque é uma técnica flexível,
aplicável a qualquer vértebra com corpos vertebrais acessíveis e o PMMA proporciona uma
fixação adequada (Jeffery, 2010). A intervenção cirúrgica é urgente quando há sinais de
deterioração do quadro neurológico associada à compressão medular por fragmentos ósseos
ou dos discos IV, hematoma ou luxação não reduzida. A escolha da técnica cirúrgica depende
da localização da lesão, tamanho do doente e experiência do cirurgião. Os animais com
paresia mas sem indícios de lesão da coluna vertebral podem ser tratados conservativamente
com confinamento em jaula durante 4 a 6 semanas e estabilização externa por bandagem,
gesso (Braund, 2003) ou tala (Sharp e Wheeler, 2005). A escolha do tratamento depende da
instabilidade, que é avaliada pelo método das 3 colunas. A coluna vertebral é composta por 3
colunas que se prolongam em toda a sua extensão. Se duas ou mais colunas estão afectadas
considera-se que há instabilidade e deve ser aplicado o tratamento cirúrgico. Porém, este
método de avaliação tem limitações, pois a imagem radiográfica não reflecte a amplitude de
movimentos do segmento afectado, nem a extensão da deslocação vertebral na altura do
traumatismo (Jeffery, 2010). Independentemente do tratamento usado, os animais com luxação
vertebral devem ser confinados em jaula e devem ser tomados os cuidados necessários para
minimizar as complicações provocadas pelo decúbito prolongado: pneumonias, úlceras de
decúbito, infecções urinárias, queimaduras por urina, má higiene, desidratação e atrofia
muscular (Braund, 2003; Jeffery, 2010). Os animais submetidos a estabilização cirúrgica devem
ser integrados num plano de reabilitação apropriado às lesões agudas da medula espinhal,
semelhante ao descrito para o caso clínico nº 3. Nos animais tratados conservativamente, a
instabilidade da coluna vertebral pode complicar a recuperação quando provoca repetidamente
contusão e compressão da medula espinhal com agravamento da lesão inicial. Nestes casos, o
fisioterapeuta deve estar atento à possibilidade de provocar danos adicionais, mesmo com
estabilização externa, se o plano de fisioterapia for inadequado (Olby et al., 2005). Nos animais
submetidos a cirurgia, a reabilitação é mais simples porque a estabilização do local de lesão
78
permite uma manipulação mais vigorosa sem causar dor. Em ambos os casos é necessário,
com frequência, administrar analgésicos, sejam anti-inflamatórios não esteróides ou drogas
mais potentes como opióides (Jeffery, 2010).
A proprietária recusou o tratamento cirúrgico e optou pelo tratamento com acupunctura.
Nas lesões da medula espinhal, a EA pode diminuir a resposta inflamatória, influenciando a
evolução das lesões secundárias e os mecanismos de reparação medular (Figura 24).

Figura 24. Possíveis efeitos da electroacupunctura no tratamento do traumatismo da medula espinhal


(Adaptado de Dorsher e McIntosh, 2011).

Neste animal, a colocação dos eléctrodos nos pontos BL18 e BL25 provocou a passagem de
corrente eléctrica na região paravertebral entre T10 e L5, atravessando o local da luxação.
Segundo Braund (2003), a aplicação de campos eléctricos com polaridade alternada a cada 15
minutos (de 0.5 a 0.6 mV/mm), pode melhorar a recuperação das lesões medulares agudas
que ocorrem espontaneamente em cães. O gradiente oscilatório eléctrico extracelular altera a
densidade e a orientação dos astrócitos na medula lesada. Os astrócitos são o principal
constituinte da cicatriz que se forma em resposta à lesão medular. A EA em modo alternado
constitui uma forma de estimulação eléctrica semelhante. Ao contrário do que acontece nas
hérnias discais, a aplicação de electroacupunctura de alta frequência, com libertação de
dinorfinas, nas lesões agudas da medula espinhal pode ser contraproducente (Dorsher e

79
McIntosh, 2011). As dinorfinas podem ter efeitos neuroprotectores ou pró-apoptóticos sobre os
neurónios da medula espinhal e células da glia, dependendo da distribuição dos receptores !-
opióides e da quantidade de dinorfina libertada. Os níveis excessivos de dinorfinas nas lesões
agudas da medula espinhal contribuem, provavelmente, para a hiperalgesia e para a toxicidade
excitatória dos neurónios e células da glia. Porém, nas lesões medulares crónicas, a libertação
de dinorfinas em concentrações fisiológicas normais provocada pela EA, terá um efeito
analgésico e neuroprotector sobre as células da medula espinhal (Dorsher e McIntosh, 2011).
Do ponto de vista da MVTC, o traumatismo medular afecta o meridiano do Vaso Governador
(GV) que passa na linha média dorsal. Este meridiano rege a função do Qi Yang, é o local de
união de todos os meridianos Yang e controla o cérebro e a medula espinhal. As lesões que
afectam o Qi Yang impedem o fluxo suave do Qi e do Xue, prejudicando os tendões, ossos e
músculos. Secundária à estagnação de Xue, há estagnação de Qi que resulta numa dor aguda,
sangramento, entorpecimento, formigueiro, parestesia e perda de sensibilidade. O tratamento
consiste na remoção da estagnação de Qi e Xue, de modo a estimular e regular o seu fluxo
normal (Kline et al, 2001). Dependendo do local da lesão, há vários acupontos sugeridos na
literatura. Neste caso, foram usados os pontos indicados para lesões toraco-lombares, paresia,
paralisia, dor e fortalecimento de tendões e ligamentos. Adicionalmente poderiam usar-se os
pontos do meridiano GV e o ponto de influência das medulas (GB39) (Xie e Preast, 2007). A
utilização de acupunctura neste animal foi empregue essencialmente como tratamento anti-
inflamatório, pois diminui a inflamação espinhal local, o edema, a vasodilatação e a libertação
de cininas e histamina. Este efeito anti-inflamatório pode resultar na diminuição da compressão
da medula espinhal e da hipoxemia, no alívio da dor e na redução do tecido cicatricial formado
(Yang et al., 2003). No ensaio desenvolvido por Choi et al. (2010), com ratos submetidos a
contusão da medula espinhal após laminectomia, a acupunctura nos pontos GV26 e GB34
diminuiu a perda de neurónios motores no corno ventral e a apoptose de neurónios e
oligodendrócitos. Esta redução da apoptose deveu-se à diminuição dos níveis de caspase-3
clivada (activada), número de oligodendrócitos caspase-3 positivos, da activação do p38MAPK,
da produção de pro-NGF e da proporção de células da micróglia activadas. Simultaneamente,
observou-se uma diminuição significativa da expressão dos mediadores inflamatórios: TNF-",
IL-#, IL-6, COX-2 e iNOS, assim como dos níveis de COX-2 e iNOS. A acupunctura diminui
também a expressão da metaloproteinase da matriz MMP-9. Esta enzima facilita a formação da
cicatriz glial e modula a inflamação e a permeabilidade vascular anormal, limitando a reparação
da medula espinhal. A longo prazo, a acupunctura reduziu a perda de axónios e o volume total
da cavidade formada no local da lesão. Nos animais tratados com acupunctura obtiveram-se
melhores pontuações na escala BBB (Basso, Beatie e Bresnahan), teste de locomoção sobre
rede, teste do plano inclinado e na análise da pegada (coordenação dos membros), o que se
traduz numa melhor recuperação funcional (Choi et al., 2010). Portanto, o controlo da resposta
80
inflamatória na medula espinhal por acupunctura limita a extensão das lesões secundárias, ao
reduzir a activação das células da micróglia e os mecanismos que promovem a apoptose
neuronal e oligodendrítica.
O prognóstico de traumatismo medular é sempre reservado e depende de vários factores: grau
e localização da lesão, estabilidade da técnica de fixação e percepção da dor profunda. Neste
caso, o prognóstico era favorável com tratamento médico e/ou cirúrgico pois existia
sensibilidade à dor profunda e localizava-se na região toraco-lombar (não afectava a
intumescência lombo-sagrada e a inervação dos MP e da bexiga).
Os animais com perda da percepção da dor profunda e deslocamento vertebral significativo
não recuperam a função motora voluntária mesmo com reabilitação e fisioterapia prolongada.
No entanto, alguns poderão desenvolver o "andar medular" um fenómeno descrito em gatos e
roedores com secção total da medula espinhal. Nestes animais, os membros pélvicos
desenvolvem movimentos reflexos, descoordenados e toscos, sem recuperar a percepção da
dor profunda (Olby et al., 2005). Pensa-se que o andar medular resulte da capacidade da
medula espinhal, através do gerador de padrão central, gerar um padrão de locomoção (com
capacidade de sustentação do peso corporal), sem necessidade de controlo supraespinhal.
Para activar e modular este circuito nervoso, é necessária fisioterapia com treino locomotor (por
exemplo em passadeira) ou outra forma de estimulação (farmacológica ou estimulação
epidural) (Edgerton e Roy, 2009). Nos cães com andar medular pensa-se que possam existir
axónios intactos no local da lesão, já que é frequente estes animais terem movimento
voluntário da cauda (por exemplo quando vêem o proprietário) (Olby et al., 2005).
O animal recuperou o controlo da micção cinco dias após a lesão e depois da segunda sessão
de acupunctura não manifestava dor local. Na segunda semana de tratamento, com quatro
sessões de acupunctura, era capaz de se levantar, mas demorou bastante a recuperar a
propriocepção em ambos os MP (dois meses). A recuperação dos animais com traumatismo
medular ocorre na ordem inversa da progressão dos sinais neurológicos: recuperação da
função sensorial (por exemplo da sensibilidade à dor), recuperação da função motora e
recuperação da propriocepção. Muitos animais recuperam a actividade ambulatória mas
permanecem com défices proprioceptivos. Três semanas após a lesão, a maioria dos cães e
gatos já terá recuperado as funções mas por vezes não há melhorias evidentes. O atraso na
recuperação não implica que o animal não venha a recuperar totalmente, por isso é importante
advertir o proprietário para que o animal não seja eutanasiado prematuramente (Jefferey,
2010). Neste animal, o tratamento por acupunctura durou seis meses, com recuperação total
de todas as funções.

81
CONCLUSÕES

Considera-se que os principais objectivos desta dissertação foram cumpridos, apesar da


casuística incluir apenas cinco cães. A pequena casuística deveu-se essencialmente ao facto
de, no decorrer do estágio, cuja duração é limitada, terem sido presentes à consulta poucos
animais com doença neurológica e ao facto de poucos proprietários terem optado pelo
tratamento com acupunctura. Nos casos mais graves, por exemplo traumatismos medulares
por atropelamento, os animais morreram nas primeiras horas ou foram eutanasiados a pedido
do proprietário e nos restantes optou-se pelo tratamento convencional. Por esse motivo, para
além dos dois casos clínicos acompanhados durante o estágio, foi também feita a análise
retrospectiva de três casos clínicos anteriores. Dos casos clínicos abordados, os principais
motivos para a indicação do tratamento com acupunctura foram a recusa do tratamento
cirúrgico e a fraca resposta dos animais ao tratamento farmacológico.
A maioria dos casos clínicos descritos referem-se a animais com doença neurológica
provocada por compressão da medula espinhal em várias localizações da coluna vertebral.
Estes animais eram de raças grandes (pura ou indeterminada) e tinham idade igual ou superior
a oito anos. Os resultados do tratamento com acupunctura foram todos positivos e os animais
recuperaram total ou parcialmente. O tempo de recuperação foi semelhante ao tempo de
recuperação expectável com os tratamentos convencionais (cirúrgico ou conservativo).
Relativamente ao animal com espondilomielopatia cervical caudal, o seu estado clínico
deteriorou-se quando esteve sujeito a stress ou quando o intervalo de tempo entre sessões de
acupunctura foi prolongado. Pensa-se que este animal não se manteria estável sem qualquer
tipo tratamento e que necessitaria de uma administração crónica de corticosteróides se fosse
tratado farmacologicamente. Este é um caso típico no qual a acupunctura deve ser tida em
consideração, uma vez que não apresenta quaisquer contra-indicações ou efeitos secundários.
Infelizmente os trabalhos publicados sobre a aplicação de acupunctura na espondilomielopatia
cervical caudal são ainda escassos.
No caso do animal com síndrome de cauda equina, a duração do tratamento ficou aquém do
que seria desejável e subsistiram alguns défices neurológicos, apesar do proprietário
considerar que o animal estava recuperado. A acção do médico veterinário tem,
frequentemente, de ser ajustada às limitações económicas impostas pelos proprietários,
limitando neste caso o processo de diagnóstico e a duração do tratamento. A síndrome de
cauda equina pode manifestar-se por um conjunto extenso e variável de sinais clínicos e este
animal apresentava um quadro clínico peculiar "paralisia e arreflexia dos membros pélvicos,
com movimento e sensibilidade na cauda". A impossibilidade de realizar exames
complementares não permitiu confirmar a existência de estenose lombo-sagrada degenerativa
nem descartar a existência de outras lesões que pudessem explicar o quadro clínico. Apesar

82
de tudo, o animal recuperou a actividade ambulatória em apenas duas semanas.
Dependendo da etiologia das compressões medulares, os sinais clínicos podem surgir
gradualmente. Por esse motivo, grande parte dos animais é presente à consulta depois das 48
horas após a lesão inicial, o que limita as hipóteses de sucesso do tratamento cirúrgico. Para
além disso, os custos associados à intervenção cirúrgica, a possibilidade de agravamento dos
sinais clínicos e a possibilidade de falha na descompressão cirúrgica, levam a que muitos
proprietários optem pelo tratamento conservativo. Neste contexto, a acupunctura parece ser
eficaz nas lesões compressivas da medula espinhal e as hérnias discais estão descritas como
uma das doenças neurológicas em que existe melhor resposta aos tratamentos. Parece ser
também eficaz no controlo das lesões secundárias à compressão da medula espinhal.
Excepção aos bons resultados obtidos foi o caso clínico de polirradiculoneurite idiopática, que
apesar da recuperação recidivou duas vezes e acabou por ser eutanasiado. Este desfecho,
deverá ser considerado um fracasso. Actualmente, não existe um tratamento satisfatório da
doença além de fisioterapia e, à semelhança do que acontece na síndrome de Guillain-Barré, a
eficácia da acupunctura não está comprovada. Como a maioria dos animais afectados
recuperam naturalmente num período de dois meses sem receber tratamento, a recuperação
deste animal não pode ser atribuída à acupunctura. Não obstante, a acupunctura pode ser útil
como complemento à fisioterapia e pode contribuir no atraso da progressão da doença, o que
se julga ter acontecido neste caso clínico aquando da primeira recidiva. Torna-se necessário
aprofundar a investigação sobre a polirradiculoneurite idiopática, independentemente de
beneficiar da investigação sobre a síndrome de Guillain-Barré, pela sua semelhança com esta
doença humana. Uma vez esclarecida a fisiopatologia, e quiçá a etiologia da doença, talvez os
tratamentos com acupunctura possam ser reajustados de modo a aumentar a sua eficácia.
A acupunctura veterinária ainda está pouco divulgada junto dos médicos veterinários e dos
proprietários. A maioria destes aceita facilmente o tratamento por indicação do médico
veterinário, especialmente quando ele próprio tenha sido tratado com acupunctura ou outras
terapias alternativas. De um modo geral os animais toleram bem a manipulação e a introdução
das agulhas e as sessões de tratamento decorrem sem problemas e sem necessidade de
contenção. No entanto, nos animais mais agressivos, ansiosos ou hiperestésicos recomenda-
se a utilização de contenção por questões de segurança.
Nos cursos de medicina veterinária ministrados em Portugal, raramente são abordadas as
terapias alternativas. Portanto, a informação relativamente a estas técnicas depende, na
maioria dos casos, do interesse pessoal em frequentar formações e pós-graduações sobre o
tema. Nesse contexto, a Ordem dos Médicos Veterinários pode e deve tomar a iniciativa de
organizar sessões de esclarecimento ou acções de formação.
Em Portugal, a acupunctura veterinária é abrangida pela legislação geral sobre a acupunctura
humana. Nesse aspecto, a Ordem dos Médicos Veterinários deve, à semelhança de outros
83
países europeus, intervir na regulamentação desta actividade para que esta seja considerada
um acto médico-veterinário. Deve igualmente regular a formação profissional em acupunctura
veterinária (por exemplo em parceria com a IVAS), salvaguardando a qualidade e a segurança
dos serviços prestados.
De um modo geral, considera-se que o balanço, nos casos apresentados, foi favorável à
utilização de acupunctura em cães com doenças neurológicas. Os bons resultados obtidos
estão em conformidade com os trabalhos publicados quer na área da investigação quer nos
relatos de casos clínicos.
Contudo, há ainda grandes passos a dar na área da investigação, relativamente aos efeitos da
acupunctura a longo prazo e às taxas de recidiva, efeitos fisiológicos, influência nos
mecanismos de reparação, entre outros.

84
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94
ANEXO I

ANEXO I. Artigo editorial publicado no jornal The Lancet, a 9 de Novembro de


1823, intitulado Acupuncturation.

95
ANEXO I

96
ANEXO II

ANEXO II. Lista dos médicos veterinários ocidentais pioneiros na acupunctura


veterinária e suas áreas de investigação.

Quadro 5. Áreas de investigação dos primeiros acupuncturistas veterinários ocidentais (Rogers, 1991; Klide e
Kung, 1977).

Oswald Kothbauer Vários trabalhos em acupunctura de bovinos: experiências de provocação


(Áustria) clássica para localização dos pontos reflexos dos órgãos internos; primeiro
veterinário europeu a usar analgesia por acupunctura em cirurgia do teto e
cesariana (1973); publicação de um manual de acupunctura bovina.
Juntamente com Kuussaari e Westermayer, usou acupunctura para
redução de prolapsos uterinos, em distócias e casos de infertilidade em
vacas. Presidente da IVAS em 1987-1988.

Jacques Milin Impulsionador da acupunctura na clínica de pequenos animais: localização


(França) de acupontos em cães; validação dos métodos de transposição de
acupontos; publicação de artigos sobre a aplicação em doenças
reumatológicas, ortopédicas e ginecológicas. Presidente da Associação
Francesa de Acupunctura Veterinária (AVAF) durante vários anos.

Luc Janssens Estudos em cães sobre a localização dos acupontos e as aplicações da


(Bélgica) acupunctura em reumatologia, doenças do disco intervertebral, artroses,
pontos-gatilho e reanimação.

Roland Muxeneder Efeitos clínicos do laser na cicatrização de feridas, eczema e edema em


(Áustria) equinos.

M. Schupbach Aplicação da termografia de infravermelhos em porcas para detecção dos


(Suíça) pontos para o útero e confirmação dos efeitos da sua estimulação.

Jan Still Detecção de acupontos auriculares em cães e sua aplicação clínica em


(Ex-Checoslováquia) pequenos animais.

Erwin Westermayer Estudos clínicos em acupunctura de bovinos, especialmente em doenças


(Alemanha) metabólicas e reprodutivas. Publicação de dois manuais de acupunctura.

Yann Ching Hwang Estudos sobre o tratamento da diarreia dos leitões com acupunctura.
(EUA) Co!edição do manual de acupuntura veterinária da FAO com Yu Chuan
(1990).

Alan Klide Responsável pela primeira tradução de textos tradicionais de acupunctura


(EUA) veterinária para inglês. Estudo da farmacopunctura e laser em acupontos,
na dor lombar em equinos.

Bruce Pomeranz Publicação do primeiro ensaio experimental (1977) sobre o envolvimento


(Canadá) das endorfinas/encefalinas na analgesia por acupunctura.

Hector Sumano Trabalhos sobre a acupunctura e a electroestimulação em cães na


(México) cicatrização de feridas e queimaduras, infertilidade em vacas, analgesia,
epilepsia e poliartrite de psitacídeos.

Sheila White Introdução do curso de medicinas alternativas na Escola Veterinária de


(Austrália) Murdoch. Autoria do manual de electroacupunctura e de mapas anatómicos
de acupontos, em equinos.

97
ANEXO III

ANEXO III. Características Yang e Yin.

Quadro 6. Comparação das características Yang e Yin (Adaptado de Xie e Preast, 2002).

Parâmetro Yang Yin

Fase do dia Dia Noite


Corpo celeste Sol Lua
Luz Claridade Escuridão
Posição Movimento ou actividade Imobilidade ou repouso
Temperatura Calor Frio
Estação do ano Verão Inverno
Cor Vermelho (luz) Azul (escuro)
Peso Leve Pesado
Catalisador Fogo Água
Velocidade Rápido Lento
Elementos O, K, P Na, Ca
Construção Exterior/ Topo Interior/ Fundo
Vibração Onda curta Onda longa
Género Macho Fêmea
Biologia Vegetal Animal
Alimento Verduras Cereais
Nervo Simpático Parassimpático
Nascimento/morte Nascimento Morte
Condição física Saúde Doença
Atitude Activo / positivo / excitado Brando / negativo / deprimido
Tendência Expansão Contracção
Direcção Ascensão / em frente / para fora Descida / para trás / para dentro
Estrutura Tempo Espaço
Aptidão Força Fraqueza
Espaço Céu Terra
Forma Redondo Plano
Ponto cardeal Este / Sul Oeste / Norte
Corpo Dorso Abdómen
Qi/Sangue Qi Sangue
Sabor Pungente ou amargo Salgado ou doce
Fu: Intestino Grosso, Intestino
Zang: Pulmão, Rim, Fígado, Baço,
Órgãos Delgado, Bexiga, Vesícula Biliar,
Coração, Pericárdio
Estômago, Triplo Aquecedor

98
ANEXO IV

ANEXO IV. Características segundo a teoria das Cinco Fases.

Quadro 7. Características segundo a teoria das Cinco Fases (Adaptado de Xie e Preast, 2002).

Madeira Fogo Terra Metal Água

Final de Verão
Estação Primavera Verão Outono Inverno
(Estio)

Clima Vento Calor Humidade Secura Frio

Direcção Este Sul Centro Oeste Norte

Cor Verde Vermelho Amarelo Branco Cinza / Preto

Sabor Azedo Amargo Doce Picante Salgado

Som Grito Riso Canto Choro Gemido

Ira Alegria Preocupação Tristeza Medo


Emoção
Irritação Medo Ansiedade Melancolia Terror

Cultivo Germinação Crescimento Transformação Colheita Armazenamento

Coração
Zang Fígado Baço Pulmão Rim
Pericárdio
Intestino delgado
Fu Vesícula Biliar Estômago Intestino grosso Bexiga
Triplo Aquecedor

Orifício Olhos Língua Boca Nariz Ouvidos

Sentido Visão Fala Paladar Olfacto Audição

Tendões Pele
Tecido Sistema vascular Músculos Ossos
Ligamentos Pelagem

Função Purificação Circulação Digestão Respiração Excreção

Pelagem da
Exterior Unhas Compleição Lábios Poros
cabeça

Secreção Lágrimas Suor Saliva Secreção nasal Urina

Acção Espasmo Mania Cuspir Tosse Tremor


corporal Birra Depressão Vómito Chiar Calafrio

Odor Ranço Queimado Adocicado Pútrido Nauseabundo

Manter em
Fraqueza Visão Marcha Sentar Deitar
estação
Parte da Média (entre o
Bordos laterais Ápice Corpo Raiz
língua ápice e o corpo)

99
ANEXO V

ANEXO V. Classificação dos animais segundo a teoria das Cinco Fases


(Adaptado de Xie e Preast, 2002).

Madeira
Personalidade Características físicas Predisposição a doença

Comportamento ou atitude Corpo esguio, alto ou baixo Hipertensão


dominante
Rápido, movimentos rápidos Olhos grandes Enfarte
Gosta de correr e mover-se Pulso em corda Alergia
Impaciente Performance: boa mas variável Depressão (estagnação de Fígado)
Irrita-se facilmente Cascos e tendões fortes e Histeria
saudáveis
Alerta, responde rapidamente a Rápido na corrida, movimentos Neurose
estímulos rápidos e ágeis
Adapta-se bem a situações de Bom tipo para corrida de Tempo de vida relativamente curto
mudança competição
Forma ideias rapidamente, mas
muda facilmente de ideia
Intolerante a ideias diferentes

Fogo
Personalidade Características físicas Predisposição a doença
Facilmente excitado Corpo forte Doença cardiovascular
Extrovertido Cabeça pequena Dor no peito
Adora ser amado Olhos pequenos mas brilhantes Arteriosclerose
Tende a ser o centro das atenções Vasos sanguíneos proeminentes Enfarte
Muito social Pulso rápido ou cheio Ansiedade por separação
Difícil de acalmar Corre rápido mas cansa-se Inquietação
facilmente
Mente afiada Bom para corrida de curta distância Morte súbita
Inventor, concebe boas ideias Tempo de vida muito curto
Persuasivo, capaz de inspirar os
outros
Persegue as ambições
agressivamente
Atitude arrogante
Exagerado

100
ANEXO V

Terra
Personalidade Características físicas Predisposição a doença
Honesto e gentil Corpo pequeno mas robusto Problemas gastrointestinais
crónicos, diarreia, cólica
Cuida dos outros (boa mãe) Musculatura proeminente Edema
Generoso, modesto e humilde Cabeça grande Obesidade
Descontraído Pelagem castanha na cabeça Tempo de vida longo
Facilmente satisfeito Lábios grossos e nariz grande
Mantém-se à parte do mundo Pulso lento
Responde lentamente a estímulos
Bom trabalhador, mas um pouco
lento

Metal
Personalidade Características físicas Predisposição a doença
Sagaz e perspicaz Testa larga Problemas respiratórios, tosse,
asma, congestão nasal
Mente aberta Nariz grande e largo Diabetes
Bom organizador Peito largo Obstipação
Líder num grupo Boa pelagem Tempo de vida longo
Cumpre as regras
Justo
Mantém-se à parte
Confiante e consistente
Altivo ou vaidoso

Água
Personalidade Características físicas Predisposição a doença
Introvertido Magro, médio porte Edema
Disposto a viver sozinho Pelagem negra na cabeça Infertilidade
Medroso Olhos grandes, fundos e orelhas Dor lombar
grandes
Morde por medo Intolerante ao frio, prefere áreas Infecção urinária
quentes
Calmo, bom observador Pulso profundo Diarreia de madrugada
Capaz de planear Não é o tipo de garanhão desejável Depressão
Muito consistente, mas lento a Tempo de vida muito longo
fazer alguma coisa
Quando mau é sinistro ou insidioso

101
ANEXO VI

ANEXO VI. Funções dos órgãos Zang Fu.

Quadro 8. Função dos órgãos Zang na fisiologia da MTC (Ross, 1985; Wynn e Marsden, 2003).

Órgão Zang (Yin) Função

! Governa o Qi e a respiração.
! Controla a descensão de Qi e a dispersão de fluidos pelo organismo.
Pulmão
! Regula a passagem de água.
! Abre-se no nariz e manifesta-se na pelagem.
! Conhecido como Baço/Pâncreas.
! Governa a transformação e o transporte ou seja, a absorção e
distribuição dos alimentos para formar Qi.
Baço
! Controla o Xue, músculos, membros, a subida do Qi e sustém os
órgãos.
! Abre-se na boca e manifesta-se nos lábios.
! Governa o Xue e a circulação.
! Controla os vasos sanguíneos.
Coração
! Aloja o Shen (Mente).
! Abre-se na língua e manifesta-se na face.
! Responsável pelo fluxo livre de Qi.
! Armazena o Xue e regula a sua distribuição pelos tecidos.
Fígado ! Controla os tendões e ligamentos.
! Abre-se nos olhos e manifesta-se nas unhas.
! É influenciado pelo estado emocional.
! Também governa o Xue.
Pericárdio
! Protege o Coração dos agentes patogénicos.
! Responsável pelo crescimento, desenvolvimento e reprodução.
! Armazena o Jing ou Essência (a base de todo o Yin e Yang no
organismo).
! Desempenha um papel importante no metabolismo da água.
Rim ! Produz as medulas (medula óssea, encéfalo e medula espinhal) e
controla os ossos.
! Juntamente com o Pulmão coordena a respiração.
! Controla o ânus e a uretra, abre-se nas orelhas e manifesta-se no
cabelo.

102
ANEXO VI

ANEXO VI. Funções dos órgãos Zang Fu.

Quadro 9. Função dos órgãos Fu na fisiologia da MTC (Ross, 1985; Wynn e Marsden, 2003).

Órgão Fu (Yang) Função


! Controla a primeira fase da digestão (secrecções e processos
mecânicos).
Estômago
! Par Yang do Baço.
! Origina os fluidos corporais.
! Controla a recepção, transformação e separação das componentes
puras e úteis da ingesta, dos desperdícios impuros.
Intestino Delgado
! Envia os fluidos puros extraídos do lúmen directamente para a bexiga
para processamento final.
! Controla a etapa final de transformação dos alimentos e a separação
Intestino Grosso final das substâncias em puras e impuras.
! É o par Yang do Pulmão.
! Par Yang do Fígado, protege-o e armazena a bílis.
Vesícula Biliar
! Influencia a fluidez de movimento dos membros.
! Armazenamento dos fluidos de excreção (urina).
! Absorção de fluidos úteis.
Bexiga
! Transformação final de fluidos em Qi.
! É o par Yang do Rim.
! Conceito exclusivamente funcional.
! Considerado uma espécie de eixo interno para o movimento e
Triplo Aquecedor distribuição de Qi e de fluidos.
! Complementa o Rim no aquecimento do organismo.

103
ANEXO VII

ANEXO VII. Trajecto dos doze meridianos regulares e dos dois meridianos
extraordinários principais (Adaptado de Fuchino, 2010).

Meridiano do Fígado (LR)


Meridiano do Rim (KI)
Meridiano do Pulmão (LU)
Meridiano da Vesícula Biliar (GB) Meridiano do Vaso da Concepção (CV)

Meridiano do Vaso da Governação (GV)


Meridiano da Bexiga (BL)

Meridiano do Pericárdio (PC)


Meridiano do Intestino Delgado (SI)
Meridiano do Coração (HT)

Meridiano do Intestino Grosso (LI) Meridiano do Estômago (ST)


Meridiano do Triplo Aquecedor (TE) Meridiano do Baço (SP)

104
ANEXO VIII

ANEXO VIII. Ficha de exame de Medicina Veterinária Tradicional Chinesa

Identificação

Data: Região:

Nome do Paciente: Espécie:

Raça: Cor:

Idade: Peso: Sexo: M F

Proprietário:
Endereço:

Cidade: Telefone:

Anamnese
Queixa principal

Medicações Administradas

Problemas oculares (secreções, cor, textura, visão)

Problemas de ouvido (secreções, cor, textura, odor, audição)

Tratos Respiratórios Superior e Inferior (secreções, espirro)

Respiração: Ruidosa Pesada Seca


Húmida Sibilos Roncos

Tosse: Seca Húmida Forte Fraca Entrecortada


Estação do ano/tempo:

105
ANEXO VIII

Trato Gastrointestinal (BP, E, F, R)

Boca (dentes, gengiva, salivação)

Apetite (±, quantidade por vez)

Prefere: doce salgado

Sede: Muita Pouca Normal

Vómito (Qi rebelde)

Bílis = Fígado
Comida = estagnação / Fígado invadindo Estômago
Muco = estagnação de fleuma = Qi de BP/Yang, Yang de R
Imediatamente após ingestão = calor no E, Fígado
Bebendo = Yang BP, Qi

Estômago: Humidade Frio (BP, F, E) Presença de gás, eructação


Fezes: Normais Soltas Diarreia Endurecidas Obstipação
Muco Sangue Dor: Forte = calor
Cor
Presença de comida não digerida? (BP QI, deficiência de Yang) Sim Não

Alimentação

Coração (condição de Qi e Shen)


Circulação, Nível de Energia, Disposição

Rim / Bexiga
Urina

Doenças e análises bioquímicas

Cistite: Retenção = calor, estagnação Sangue = calor


Cristais = calor húmido

Micção (frequência, quantidade)


Incontinência? Sim Não
Quando? (Yang de R, deficiência de Qi)

106
ANEXO VIII

Problemas Reprodutivos
Castração: Sim Não
Ciclo da fêmea: Parte ovulatória = Rim Sangramento = Baço/Pâncreas Cio = Fígado
Secreção vaginal? Sim Não
Macho: Líbido = Rim/Fígado Contagem espermática = Yang de Rim / Triplo Aquecedor
Problemas genitais (Fígado)

Problemas Osteomusculares
Local de claudicação (dor, rigidez)

Primeira vez?

Melhor quando em repouso ou movimento?


Atrofia Fractura Espasmo

Síndrome Bi (piora ou melhora com)


Frio Calor
Repouso Movimento
Alimentação Pressão
Humidade/fixa Humidade/Calor Frio-dolorosa Vento-migratória

Problemas Neurológicos
Convulsões

Tempo de ocorrência / recorrência

Alteração de comportamento

Geral
Yin Yang Excesso Deficiência Frio Calor
Síndrome de 5 fases
Superfície dura / macia

Temperatura quente / fria

Característica da voz, frequência

Descrição da personalidade

Alegre Triste Agressivo Carinhoso Medroso


Raivoso Submisso Doce Teimoso Engraçado

107
ANEXO VIII

Exame Físico

Olhos: secreção, transparência (F / R)

Ouvidos: secreção, odor, temperatura (F / BP / R)

Audição (R / ID)

Boca

Respiração = odor

Sangramento gengival = Fogo no E e distúrbio de Qi

Cálculo = R / E

Dentes fracos = R / Yang


Feridas ou úlceras = Fogo no E / Calor no Xue / fraqueza de Qi / Calor Húmido

Boca seca = deficiência de Yin

Saliva pegajosa = começo de fleuma e calor


Excesso de saliva = distribuição de água em desequilíbrio com BP

Língua
Cor Revestimento

Rachaduras Marcas

Observações e conclusões

Focinho Secreção / aquoso / espesso

Odor = Calor no Pulmão

Seco = condição de Yin deficiente

Pulmões
Seco = deficiência de Yin de P Húmido = humidade / deficiência de Yang de R
Respiração superficial = Qi de P / Yang de R DPOC = Qi de P
Respiração ruidosa = excesso / estagnação

108
ANEXO VIII

Coração
Murmúrios = deficiência de Yin do C / Xue / deficiência de Yang

Linfonodos
Wei Qi = avaliar os meridianos

Aumentados / endurecidos = Estagnação / Fígado

Abdómen

Tensão = estagnação de F, F/BP Flacidez = BP fraco


Fluido = fraqueza de Qi ou de Yang de BP / Yang de R + órgão contribuinte

Sensibilidade nos ponto de associação

Excesso Deficiência

Exame de membros e coluna

Calor Frio Dor Fleuma

Meridiano(s)?

Melhora com: Repouso Movimento

Neurológico

Anomalias

Reflexos:
Gastrocnémio - E D Patelar - E D Tibial cranial - E D
Flexor MP - E D Extensor cruzado MP - E D

Tríceps - E D Bíceps - E D Ext. Carpo-Radial - E D


Flexor MT - E D Extensor cruzado MT - E D

Perineal - Cutâneo do tronco

Propriocepção MT - E D MP - E D Dor superficial Dor profunda

Sensibilidade

0= ausente 1 = diminuído 2 = normal 3 = aumentado

109
ANEXO VIII

Pêlo
Seco = deficiência de P / Yin de R / Xue Oleoso = humidade

Quebradiço = deficiência de Qi

Lesões de pele

Crostas = Calor com/sem Humidade Exsudação = Calor Húmido


Sangramento = ++ Calor / Deficiência de Qi Prurido = Vento / F
Exsudação inodora = Humidade Odor = Calor

Pulso (femoral) - qualidades gerais


Fraco / fino = deficiência
Largo / forte = excesso de calor com/sem estagnação de F
Rápido = deficiência de Yin
Superficial = desequilíbrio de Yin e Qi ou luta de Wei Qi
Profundo = deficiência de Yang
Largo / mole = deficiência Qi de BP ou de Yang
Tenso / corda = estagnação de F

Quadro geral
Excesso Deficiência Qi Xue Yin
Frio Calor Síndrome das 5 fases

Exames complementares
Radiografia

Ecografia

Outros

110
ANEXO VIII

Diagnóstico
Ocidental

MVTC

Princípio de tratamento

Selecção de pontos:
Zang Fu:

Cinco Fases:

Fitoterapia:

Perfil do paciente de acordo com as Cinco Fases:

111
ANEXO IX

ANEXO IX. Ficha de tratamento de acupunctura

Data de Tratamento Veterinário Responsável


Hora

Pontos de Diagnóstico

Pontos de Tratamento

Acupunctura Electroacupunctura Moxabustão Laser


Farmacopunctura Fitoterapia Homeopatia

Evolução / comentários

MP D MP E MT D MT E
Patelar Biccipital
Tibial cranial Tricipital
Gastrocnémio Ext. radial carpo
Flexor Flexor
Extensor cruzado Extensor cruzado
Propriocepção Propriocepção
Perineal Cutâneo do tronco D E

Nervos cranianos
I II III IV V VI
D
E
VII VIII IX X XI XII
D
E

112
ANEXO X

ANEXO X. Exame da língua na MVTC

Quadro 10. Alterações do aspecto da língua e respectiva interpretação pela MVTC.

Característica Alteração
! Vermelha: Calor causado por Excesso ou Deficiência.
! Pálida: deficiência de Xue, Qi, ou Yang.
Cor
! Lavanda ou malva: estagnação. Quanto mais escura maior a estagnação.
! Roxa: estagnação que passou do nível do Qi para o nível do Xue.
! Depressões ou marcas dos dentes, língua tumefacta com bordos
arredondados grandes ou flácidos: acumulação de Humidade.
Forma
! Língua anormalmente pequena geralmente com outros sinais de atrofia dos
tecidos: Deficiência de Yin ou de Yang.
Revestimento ! Saburra: acumulação de Fleuma no organismo.
! Muito húmida ou com fios de saliva: Humidade.
Humidade
! Seca e rugosa: Deficiência de Yin.
! Úlceras focais: Calor no Coração.
Outras ! Pontos roxos e escuros ou com aparência de veias: estase de Xue.
características ! Lesões ao longo dos lados: envolvimento do Fígado.
! Lesões na ponta: envolvimento do Coração.

NORMAL DEFICIÊNCIA CALOR HUMIDADE ESTAGNAÇÃO


DE QI DE XUE
língua pálida, com língua vermelha com língua tumefacta língua roxa com
pontos vermelhos, saburra rala amarela com saburra pontos escuros ou
saburra rala branca e branca gordurosa negros
marcas de dentes

ESTAGNAÇÃO CALOR DEFICIÊNCIA DEFICIÊNCIA DEFICIÊNCIA


DE QI HÚMIDO DE YANG DE YIN DE XUE
ápice lingual língua vermelha língua pálida e língua vermelha com língua pálida com
vermelho e saburra com saburra tumefacta com saburra rachaduras e pouca ou pouca ou
rala branca amarela gordurosa espessa branca nenhuma saburra nenhuma saburra

Figura 25. Aspecto da língua nos padrões de doença mais frequentes (Adaptado de AcuMedic Ltd, 2008).

113
ANEXO XI

ANEXO XI. Exame do pulso na MVTC.

Quadro 11. Características do pulso e sua interpretação pela MVTC.

Característica Alteração

Tensão ! Em corda (tensão da parede do vaso aumentada e pulsação forte): estase.


! Fraco: Deficiência de Qi.
Força
! Escorregadio: Frio provocado pela Deficiência de Yang.
Diâmetro ! Fino: Deficiência de Xue ou de Yin, acumulação de Humidade nos tecidos.
! Profundo ou afundado: Qi e Yang estao a ser conservados ou não podem ser
mobilizados do local onde estão armazenados no Jiao Inferior.
Profundidade
! Flutuante: Qi ou Yang à superficie. É mais frequente em animais com
Deficiência de Yin mas também está associado a Deficiência de Baço.
! Rápido: Excesso ou Deficiência de Calor.
Taxa
! Lento: Frio provocado pela Deficiência de Yang.
! Variável: Estase de Xue.
! Saltitante: Excesso grave de Calor ou exuberância do Yang.
Ritmo
! Intermitente: níveis criticamente baixos de Qi indiferenciado, que provocam
paragens ocasionais do Coração.

Figura 26. Avaliação do pulso por palpação digital da artéria femoral (Wynn e Marsden, 2003).

114
ANEXO XII

ANEXO XII. Reacções locais desencadeadas pela acupunctura e seus


mediadores.

Quadro 12. Reacções locais desencadeadas pela acupunctura e mediadores envolvidos (Kendall, 1989).

Mediadores Função
1. Vasodilatação
! Permeabilidade vascular: saída de células imunitárias, complemento,
! Histamina, prostaglandinas E1 e
anticorpos e reagentes dependentes do factor XIIa, contracção da
E2, leucotrienos e bradicinina
musculatura lisa e broncoespasmo.
! Cinina protease ! Amplificação da fase vasoactiva.
! Estimula o GMPc e portanto a libertação de histamina, heparina e
! Acetilcolina
SRS!A.
2. Excitação nociceptiva
! Bradicinina B2 ! Excita as fibras A" e C (com substância P).
! Libertação de substância P pelos axónios colaterais, nos capilares e
! Fibras C1 (com substância P)
vasoconstrição.
3. Quimiotaxia
! Calicreína, bradicinina, LT B4, ! Basófilos: amplificação da fase vasoactiva; eosinófilos: arilsulfatase B e
ECF!A, NCF-A, prostaglandina D2, histaminase; neutrófilos: libertação de enzimas lisossomais; monócitos:
prostaciclina, C3, C4, C5 fagocitose; linfócitos: produção de anticorpos e linfocinas.
4. Solubilidade
! Plasmina ! Activação de C3, C4, C5 e lise da fibrina.
! Heparina ! Inibe a produção de trombina.
! Prostaciclina ! Desagregação das plaquetas.
! Enzimas lisossomais, C9 ! Remoção dos produtos da lesão provocada pela agulha.
5. Reparação tecidual
! Factor de activação das plaquetas ! Broncoconstrição, agregação e desgranulação das plaquetas.
! Adenosina difosfato ! Agregação e desgranulação das plaquetas.
! Tromboxanos A2 ! Agregação plaquetária.
! Serotonina ! Vasoconstrição.
! Trombina ! Conversão do fibrinogénio em fibrina para formar coágulos.
6. Inactivação
! Plasmina ! Degradação do factor de Hageman XIIa.
! Arilsulfatase B ! Inactivação da SRS-A (LT, C, D, E).
! Histaminase ! Inactivação da histamina.
! Endoglucoronidase ! Degradação da heparina e do sulfato de heparina.
! Estimula o AMPc que inibe a libertação de histamina, heparina e
! Epinefrina, PGE, histamina
SRS!A.
! Histamina ! Estimula a medula da adrenal para produzir epinefrina.
! Corticosteróides ! Inibe a formação de ácido araquidónico.

115
ANEXO XIII

ANEXO XIII. Interacções fisiológicas desencadeadas pela estimulação com


agulha.

Figura 27. Interacções fisiológicas desencadeadas pela acupunctura (Adaptado de Kendall, 1989). ECF-A: Factor
quimiotático esosinofílico da anafilaxia; NCF-A: Factor quimiotático neutrofílico da anafilaxia; PAG: Substância
cinzenta periaqueductal; SRS-A: Substância de reacção lenta da anafilaxia; ACTH: Hormona adrenocorticotrófica.
116
ANEXO XIV

ANEXO XIV. Localização dos principais acupontos utilizados nos casos clínicos.

3 cun

Figura 28. Medição de cun na extremidade do membro torácico. Três cun


equivale aproximadamente à largura dos quatro dígitos ao nível das
articulações interfalangianas proximais.

Bai-hui
(GV 20)
BL 10

GV 14

BL 13

Nota: o ponto Bai-hui corresponde


ao ponto mais elevado do corpo, que
nos humanos se localiza no topo da
cabeça. Nos animais, devido à sua
postura quadrúpede, considera-se
que existem dois acupontos deste
tipo. O GV 20 é referido como o
Bai-hui humano e localiza-se na
BL 17 a BL 25 cabeça entre a ponta das orelhas,
ao nível do canal auditivo. O
segundo denomina-se por Bai-hui
animal e localiza-se sobre a linha
média entre L7 e S1.
GV 4

BL 35
Bai-hui

Figura 29. Vista dorsal da coluna vertebral.

117
ANEXO XIV

Pontos Hua-tuo-jia-ji. Localizam-se 0,5 cun


lateralmente aos processos espinhosos de
cada vértebra, desde T1 a L7.

Pontos Hua-tuo-jia-ji

Figura 30. Vista dorsal da coluna vertebral.

BL 54
BL 35

GB 30

GB 24

Figura 31. Vista lateral de corpo inteiro.

118
ANEXO XIV

GV 26

Figura 32. Pormenor da região nasal.

GV 1

GV 1. Localiza-se sobre a linha média,


entre o ânus e a região ventral da
cauda. O meridiano continua sobre a
linha média dorsal.
CV 1. Localiza-se sobre a linha média,
entre o ânus e a raiz do escroto ou a
vulva. O meridiano continua sobre a CV 1
linha média ventral.

Figura 33. Pormenor da região anal.

umbigo

CV 4

Figura 34. Região umbilical no abdómen ventral.

119
ANEXO XIV

LI 11

LI 10

TE 5

SI 3

Figura 35. Face lateral do membro torácico esquerdo.

LU 5

LU 7 Baxie

LI 4

Figura 36. Face medial do membro torácico esquerdo. Os pontos Baxie localizam-se
na membrana interdigital, entre os 2º, 3º e 4º dígitos da extremidade torácica. Os
pontos Bafeng têm a mesma localização na extremidade pélvica.
120
ANEXO XIV

GB 33

GB 34

BL 39

ST 36

GB 39

Figura 37. Face lateral do membro pélvico direito.

BL 40

BL 40. Agulha inserida


perpendicular no centro
da fossa poplítea.
BL 60
Wei Jian. O acuponto
localiza-se na ponta da BL 62
cauda.

Wei Jian

BL 67

Figura 38. Face lateral do membro pélvico direito.

121
ANEXO XIV

Ponto KI 1. A agulha é inserida sob


a almofadinha plantar central, entre
o 3º e o 4º metatarso.
KI 1

Figura 39. Superfície plantar do membro pélvico.

SP 10

SP 9

KI 7 SP 6

KI 6
KI 3

LR 3

Figura 40. Face medial do membro pélvico esquerdo.

122
ANEXO XV

Anexo XV. Plano de tratamento do caso clínico nº 1

Tratamento do caso clínico nº 1

! As sessões de acupunctura foram realizadas três vezes por semana durante duas
semanas e depois passaram a realizar-se duas vezes por semana durante dois meses.
Findo esse período, e face à melhoria dos sinais clínicos, o intervalo entre sessões foi
aumentando gradualmente (a cada sessão), passando a uma semana, duas semanas e
finalmente um mês de intervalo entre sessões.
! No tratamento foi utilizada a estimulação com agulha seca, electroacupunctura e laser.
! O tratamento de acupunctura foi complementado com várias fórmulas de fitoterapia.

Fitoterapia

Bu Zhong Yi Qi Wan - Fórmula composta por uma mistura de ervas que inclui: Astragalus,
Glycyrrhiza, Ginseng, Angelica, Citrus, Cimicifuga, Bupleurum e Atractylodes. A mistura é
utilizada para elevar o Yang do Baço (tratando prolapsos) e reabastecer o Qi no Jiao
intermédio. Está indicada no tratamento de prolapsos provocados por deficiência de Qi,
caracterizados por perda de apetite, lassitude, fezes moles e preferência por líquidos quentes.
Está também indicada no tratamento de prolapso rectal ou uterino, diarreia prolongada,
disenteria, língua pálida tumefacta e com saburra branca, pulso fraco e profundo.

Tao Hong Si Wu Wan - Fórmula composta por uma mistura de ervas que inclui: Ligusticum,
Angelica, Paeonia, Rehmannia, Persica e Carthamus. Esta fórmula exerce acção sobre o Xue,
nutrindo-o, fortalecendo-o e dissipando a estagnação de Xue. Está indicada no tratamento da
Deficiência de Xue com estagnação moderada, o que provoca estros irregulares, com
corrimento sanguinolento escuro, abundante e persistente, com ou sem coágulos. Está
também indicada na deficiência de Xue associada a traumatismos.

Ba Zhen Wan - Fórmula que contém Angelica, Ligusticum, Paeonia, Rehmannia, Gingseng,
Atractylodes, Poria e Glycyrrhiza. Esta fórmula nutre o Xue e tonifica o Qi. Está indicada na
deficiência de Qi e Xue, caracterizada por letargia, respiração superficial, pele seca, perda de
apetite, língua pálida e pulso fraco.

Ginkgo - Fórmula preparada a partir das sementes de Ginkgo biloba. Em termos de MVTC é
uma erva neutra, doce, amarga, adstringente e ligeiramente tóxica. É usada para fortalecer o

123
ANEXO XV

Pulmão e aliviar a asma, expelir a Fleuma e cessar o espirro, eliminar a Humidade e cessar as
descargas ou corrimentos.

Dang Gui Pian - Fórmula preparada a partir das raízes de Angelicae sinensis. Em termos de
MVTC é uma erva quente, doce e picante que nutre, reabastece e fortalece o Xue, alivia a dor,
humedece os intestinos e regula o aparelho reprodutor feminino.

Electroacupunctura

Quadro 13. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso clínico nº 1.

Eléctrodos Localização Região


Na região dorsolateral da coluna vertebral
cervical, na depressão imediatamente caudal às
BL10
asas do atlas (na união C1-C2), 1.5 cun lateral à A corrente eléctrica atravessa toda a
BL10 - BL13 linha média. região cervical até ao espaço
Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5 intervertebral T3-T4.
BL13 cun lateralmente ao bordo caudal do processo
espinhoso da vértebra T3.
Craniolateral no membro pélvico, 0.5 cun lateral A corrente eléctrica atravessa a
ST36
à crista da tíbia, sobre o músculo tibial cranial. região imediatamente distal à
ST36 - BL40
articulação do joelho, desde a face
BL40 No centro da fossa poplítea. cranial até à face caudal do membro.

Craniolateral no membro pélvico, 0.5 cun lateral


ST36 A corrente eléctrica atravessa a
à crista da tíbia, sobre o músculo tibial cranial.
ST36 - GB30 articulação do joelho e a musculatura
Na depressão muscular a meia distância entre o lateral da coxa.
GB30
grande trocânter e a tuberosidade isquiática.
Craniolateral no membro pélvico, 0.5 cun lateral
ST36
à crista da tíbia, sobre o músculo tibial cranial. A corrente eléctrica atravessa uma
ST36 - GB34 Lateral no membro pélvico, logo abaixo do pequena área imediatamente distal à
GB34 joelho, na depressão cranial e distal à cabeça articulação do joelho.
do fíbula.
Lateral no membro pélvico, logo abaixo do
GB34 joelho, na depressão cranial e distal à cabeça A corrente eléctrica atravessa o
do fíbula. membro pélvico desde a região
GB34 - R1
imediatamente distal à articulação do
Entre o 3º e 4º metatarsos, sob a almofadinha joelho, até à extremidade.
R1
plantar central.
Lateral no membro torácico, 3 cun proximal aos
TE5 ossos do carpo, no espaço interósseo entre o
rádio e o ulna. A corrente eléctrica atravessa a
musculatura cranio-lateral do braço,
TE5 - LI11 Lateral no membro torácico, na terminação desde a região proximal ao carpo, até
lateral do sulco cubital, a meia distância entre o à articulação do cotovelo.
LI11
epicôndilo lateral do úmero e o tendão biccipital
com a articulação do cotovelo em flexão.

124
ANEXO XV

Acupunctura com agulha seca e laser

Quadro 14. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 1. Os pontos foram
estimulados com agulha seca (A), electroacupunctura (EA) e laser (L).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos


Ponto He da Terra, ponto horário, ponto mestre do abdómen e do
tracto gastrointestinal. Tónico geral do Qi (ponto “3 milhas”), náusea,
ST 36 A, EA vómito, dor de estômago, úlcera gástrica, estase alimentar, fraqueza
generalizada, obstipação, diarreia, dor do joelho, fraqueza do
membro pélvico.
Ponto de intersecção dos meridianos GB e BL. Osteoartrite da
GB 30 EA articulação coxo-femoral, paresia ou paralisia do membro pélvico,
dor dos músculos glúteos.
Ponto He da Terra, ponto de influência dos tendões e ligamentos.
Estagnação de Qi do Estômago e Fígado, hipertensão, vómito,
34 A, EA doença hepática e da vesícula biliar, doenças dos tendões e
ligamentos, claudicação do membro pélvico, fraqueza, paresia ou
paralisia, alívio da dor em geral.
Ponto de influência das medulas. Doenças neurológicas, doenças
hematopoiéticas, dor cervical, DDIV, paresia ou paralisia dos
39 L
membros pélvicos, dor torácica, faringite, doenças anais e perianais,
colecistite.
Vento-Frio, congestão e descarga nasal, doença febril, dor cervical,
BL 10 EA
DDIV, epilepsia, dor do ombro.
Ponto Back-Shu do Pulmão. Tosse, dispneia, pneumonia, bronquite,
13 EA congestão nasal, deficiência de Yin, febre baixa, Vento-Calor, Vento-
Frio.
Ponto Back-Shu do Baço. Deficiência de Baço, Humidade, doenças
20 A, EA digestivas e pancreáticas, vómito, diarreia aquosa ou sanguinolenta,
edema, anemia, DDIV toraco-lombar, icterícia.
Ponto Back-Shu do Rim. Deficiência de Yin e de Qi do Rim, doença
renal, incontinência urinária, impotência, edema, disfunção auditiva,
23 A, L
DDIV toracolombar, fraqueza dos membros pélvicos, osteoartrite da
articulação coxo-femoral.
Ponto He da Terra e ponto mestre das articulações coxo-femorais e
da região lombar caudal. Disúria, incontinência urinária, DDIV toraco-
40 A, EA
lombar, doença da articulação coxo-femoral, doenças auto-imunes,
vómito, diarreia, paresia ou paralisia dos membros pélvicos.
Ponto Jing do Fogo. Epistaxis, DDIV, dor cervical, dor toraco-lombar,
60 A
dor do curvilhão, epilepsia, distócia, hipertensão.
Ponto Luo do meridiano GV, ponto de intersecção com os meridianos
GV 1 L GB e KI. Diarreia, obstipação, distúrbios perianais, prolapso rectal,
paresia ou paralisia do esfíncter anal, epilepsia, infertilidade.
Ponto de intersecção de todos os meridianos Yang. Limpar o Calor,
14 A deficiência de Yin, febre, tosse, dispneia, dor cervical, DDIV,
dermatite, epilepsia, imunodeficiência.
Ponto de intersecção dos meridianos GV e BL, ponto de sedação,
20 A distúrbios do Shen (mente), epilepsia, distúrbios do sono, prolapso
anal.

125
ANEXO XV
Quadro 14. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 1 (continuação). Os
pontos foram estimulados com agulha seca (A), electroacupunctura (EA) e laser (L).
Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos
Ponto mestre da face e da boca, ponto Yuan. Descarga e congestão
nasal, epistaxis, paralisia facial, problemas dentários, faringite,
LI 4 A
tendinite, febre, imunodeficiência, lúpus, doenças de pele
imunomediadas, síndromes dolorosas.
Ponto “3 milhas” do membro torácico. Deficiência de Qi,
imunodeficiência, Vento-Calor, prurido, regulação imunitária, diarreia,
10 A dor abdominal, claudicação e paralisia ou paresia dos membros
torácicos, dor do cotovelo, dor de dentes, gengivite, estomatite,
fraqueza dos membros pélvicos, fraqueza generalizada.
Ponto He da Terra, ponto mãe (tonificação) nos padrões de
deficiência. Vento-Calor, doenças imunomediadas, faringite, dor de
11 A, EA dentes, uveíte, febre, hipertensão, epilepsia, dor abdominal, vómito,
diarreia, obstipação, dor do cotovelo, paresia ou paralisia do membro
torácico, prurido.
Ponto mestre do abdómen caudal e do tracto urogenital, ponto de
intersecção dos meridianos SP, LR e KI, contra-indicado na
gestação. Tonificar o Yin e o Sangue, diarreia, descargas genitais,
BP 6 A
indução do parto, infertilidade, paresia ou paralisia dos membros
pélvicos, impotência, ciclo éstrico irregular, hérnia, incontinência
urinária, distúrbios do sono, deficiência de Yin.
Ponto He da Água. Deficiência de Yin, padrões de Humidade,
9 A edema, diarreia, icterícia, disúria ou incontinência urinária, dor e
osteoartrite do joelho.
Mar do Sangue. Deficiência, Calor ou estagnação de Sangue, Calor
10 A tóxico, febre, prurido, ciclo éstrico irregular, paresia ou paralisia do
membro pélvico.
Ponto Luo do meridiano TE e de confluência do meridiano Yang-wei.
Deficiência de Wei Qi, claudicação dos membros torácicos, paresia
TE 5 EA
ou paralisia, febre, conjuntivite, otite, dor cervical, DDIV, dor do
carpo.
Ponto de intersecção dos meridianos CV, GV e Chong, infertilidade,
CV 1 L
disúria, epilepsia, prolapso uterino.
Ponto de alarme do Intestino Grosso e de intersecção de todos os
meridianos Yin. Deficiência de Qi ou Yang do Rim, disúria, retenção
4 A
ou incontinência urinária, infertilidade, dor abdominal, diarreia,
fraqueza generalizada.
Ponto Jing da Madeira, ponto filho (sedação) para padrões de
KI 1 EA excesso. Coma, status epilepticus, golpe de calor, faringite,
obstipação, disfonia, disúria, incontinência urinária.
Ponto Jing do Metal, ponto mãe (tonificação) nos padrões de
7 A deficiência. Diarreia, edema, paresia ou paralisia dos membros
pélvicos.
Deficiência de Yang, paresia ou paralisia dos membros pélvicos, dor
Pontos
Bai-hui A e DDIV lumbossacral, dor da articulação coxo-femoral, dor
extra
abdominal, diarreia.
Limpar o Calor, choque de calor, choque, dor abdominal, paralisia da
Wei Jian A
cauda, fraqueza dos membros pélvicos.
Dormência, espamos e contracturas dos dígitos dos membros
Baxie A
torácicos.
Dormência, espamos e contracturas dos dígitos dos membros
Bafeng A
pélvicos.

126
ANEXO XVI

Anexo XVI. Plano de tratamento do caso clínico nº 2

Tratamento do caso clínico nº 2

! Nos primeiros meses, durante o período de desmame dos corticosteróides, as sessões


de acupunctura foram trissemanais ou bissemanais.
! Findo o desmame de corticosteróides e uma vez estabilizados os sinais clínicos, as
sessões passaram a realizar-se semanalmente ou com um intervalo máximo de 10 dias.
! Neste animal, as sessões de tratamento consistiram na estimulação com agulha seca,
moxabustão indirecta e electroacupunctura.
! O tratamento de acupunctura foi complementado com a fórmula Qiang Huo (fitoterapia).

Fitoterapia

Qiang Huo - Fórmula composta por raízes e caules de Notopterygium incisium e


Notopterygium forbesii. Na MVTC esta erva possui propriedades de aquecimento, é picante,
amarga e aromática. Está indicada em distúrbios dos meridianos da Bexiga e do Rim, para
limpar a superfície e dissipar o Frio, dissipiar o Vento Húmido, aliviar a dor e guiar o Qi nos
meridianos do Intestino Delgado, Bexiga e Vaso Governador.

Electroacupunctura

Quadro 15. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso clínico nº 2.

Eléctrodos Localização Região


Na região dorsolateral da coluna vertebral
cervical, na depressão imediatamente caudal
BL10
às asas do atlas (na união C1-C2), 1.5 cun A corrente eléctrica atravessa toda
BL10 - BL13 lateral à linha média. a região paravertebral cervical até
Na região dorsolateral da coluna vertebral, ao espaço intervertebral T3-T4.
BL13 1.5 cun lateralmente ao bordo caudal do
processo espinhoso da vértebra T3.

127
ANEXO XVI

Acupunctura com agulha seca e moxabustão

Quadro 16. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 2. Os pontos foram
estimulados com agulha seca (A), moxabustão (M) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos

Ponto Back-Shu do Baço. Deficiência de Baço, Humidade,


BL 20 A doenças digestivas e pancreáticas, vómito, diarreia aquosa ou
sanguinolenta, edema, anemia, DDIV toraco-lombar, icterícia.

Ponto Back-Shu do Rim. Deficiência de Yin e de Qi do Rim,


doença renal, incontinência urinária, impotência, edema, disfunção
23 A, M
auditiva, DDIV toraco-lombar, fraqueza dos membros pélvicos,
osteoartrite da articulação coxo-femoral.

Ponto He da Terra e ponto mestre das articulações coxo-femorais


e da região lombar caudal. Disúria, incontinência urinária, DDIV
40 A toraco-lombar, doença da articulação coxo-femoral, doenças auto-
imunes, vómito, diarreia, paresia ou paralisia dos membros
pélvicos.

Ponto Jing do Fogo. Epistaxis, DDIV, dor cervical, dor toraco-


60 A
lombar, dor do jarrete, epilepsia, distócia, hipertensão.
Ponto de confluência do meridiano extraordinário Yang-qiao.
62 A Ataxia e fraqueza dos quatro membros, distúrbios do sono, doença
ocular.
Ponto Jing do Metal, ponto mãe (tonificação) nos padrões de
67 A deficiência. Congestão e descarga nasal, epistaxis, doença ocular,
distócia.

Padrões de Vento-Frio, congestão e descargas nasais, condições


10 EA
febris, dor cervical, DDIV, epilepsia, dor do ombro.

Ponto Back-Shu do Pulmão. Tosse, dispneia, pneumonia,


13 EA bronquite, congestão nasal, deficiência de Yin, febre baixa, Vento-
Calor e Vento-Frio.

Ponto Shu da Madeira, ponto mãe (tonificação) nos padrões de


SI 3 A deficiência, ponto de confluência do meridiano GV. Dor cervical,
DDIV, dor toraco-lombar, dor do ombro, faringite, epilepsia, mania.

Ponto Shu da Terra e ponto Yuan. Estagnação de Qi do Fígado,


doença hepática ou da vesícula biliar, doença gastrointestinal,
LR 3 A
doença urogenital, ciclo éstrico irregular, paresia ou paralisia dos
membros pélvicos, condições dolorosas.

Ponto Shu da Terra e ponto Yuan. Doença renal, disúria, diabetes


mellitus, ciclo éstrico irregular, infertilidade, impotência, faringite,
KI 3 A, M
dispneia, dor de dentes, DDIV toraco-lombar, otite, disfunção
auditiva.

Ponto de confluência do meridiano extraordinário Yin-qiao.


6 A, M Deficiência de Yin, disúria, obstipação, epilepsia, faringite, ciclo
éstrico irregular, distúrbios do sono.

Ponto Jing do Metal, ponto mãe (tonificação) nos padrões de


7 A, M deficiência. Diarreia, edema, paresia ou paralisia dos membros
pélvicos.

128
ANEXO XVI

Quadro 16. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 2 (continuação). Os
pontos foram estimulados com agulha seca (A), moxabustão (M) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos

Hemorragia interna, hematúria, fezes sanguinolentas, hemorragia


GV 4 A, M
durante a castração ou ovariohisterectomia, DDIV.

Ponto de intersecção de todos os meridianos Yang. Limpar o


14 M Calor, deficiência de Yin, febre, tosse, dispneia, dor cervical, DDIV,
dermatite, epilepsia, imunodeficiência.

Ponto de intersecção dos meridianos GV, LI e ST. Emergências,


26 A choque, colapso, coma, mania, paralisia facial, DDIV cervical e
toraco-lombar.

Ponto Luo do meridiano TE e de confluência do meridiano Yang-


Wei. Deficiência de Wei Qi, claudicação dos membros torácicos,
TE 5 A
paresia ou paralisia, febre, conjuntivite, otite, dor cervical, DDIV,
dor do carpo.
Ponto “3 milhas” do membro torácico. Deficiência de Qi,
imunodeficiência, Vento-Calor, prurido, regulação imunitária,
diarreia, dor abdominal, claudicação e paralisia ou paresia dos
LI 10 A
membros torácicos, dor do cotovelo, dor de dentes, gengivite,
estomatite, fraqueza dos membros pélvicos, fraqueza
generalizada.
Ponto He da Terra, ponto mãe (tonificação) nos padrões de
deficiência. Vento-Calor, doenças imunomediadas, faringite, dor de
11 A dentes, uveíte, febre, hipertensão, epilepsia, dor abdominal,
vómito, diarreia, obstipação, dor do cotovelo, paresia ou paralisia
do membro torácico, prurido.

Ponto He da Água, ponto filho (sedação) nos padrões de Excesso.


Excesso de Calor no Pulmão, tosse aguda, dispneia, disfonia,
LU 5 A
febre alta, dor torácica, faringite, dor do ombro ou cotovelo,
diarreia, alergia, dermatite, doenças imunomediadas.

Ponto mestre da cabeça e do pescoço, ponto Luo do Pulmão e


ponto de confluência com o meridiano CV. Tosse, dispneia,
7 A
insuficiência cardíaca congestiva, lúpus, dor cervical, DDIV,
paralisia facial.

Deficiência de Yang, paresia ou paralisia dos membros pélvicos,


Pontos
Bai-hui A dor e DDIV lombo-sagrada, dor da articulação coxo-femoral, dor
extra
abdominal, diarreia.

Limpar o Calor, choque de calor, choque, dor abdominal, paralisia


Wei Jian A
da cauda, fraqueza dos membros pélvicos.

129
ANEXO XVII

Anexo XVII. Plano de tratamento do caso clínico nº 3

Tratamento do caso clínico nº 3

! As sessões de acupunctura foram realizadas diariamente durante duas semanas,


depois passaram a bissemanais durante um mês e finalmente semanais durante dois
meses.
! Neste animal, as sessões de tratamento consistiram na estimulação com agulha seca,
moxabustão indirecta e electroacupunctura.
! O tratamento de acupunctura foi complementado com várias fórmulas de fitoterapia.

Fitoterapia

Du Huo Ji Sheng Tang - Fórmula composta por uma mistura de ervas, cujos ingredientes
principais são Angelica e Loranthus. A fórmula contém também: Eucommia, Achyranthes,
Gentiana, Cinnamomum, Ginseng, Ligusticum, Paeonia, Rehmannia, Poria, Glycyrrhiza,
Asarum e Ledebouriella. Esta mistura é usada para eliminar o Vento Húmido, aliviar a
Estagnação e a dor e para tonificar o Fígado, Rim, Qi e Xue. Está indicada nas síndromes Bi
crónicas ou na dor reumatóide dos membros provocada por Deficiências do Fígado e do Rim
agravadas pela invasão de Vento-Frio-Humidade.

Huang Qi Dong Qing Pian - Fórmula composta principalmente por raízes de Astragalus
membranaceus e pelo fruto de Ligustrum lucidi. Contém também: Codonopsitis, Paeoniae,
Atractylodis, Poriae, Scrophulariae, Eleutherococcus, Schisandrae, Citri, Glycyrrhizae,
Ganoderma, Epimedium e Cinnamomum. Em termos de MVTC é uma erva quente e doce,
usada para nutrir o Qi, o Xue e o Rim, elevar o Yang para fortalecer o Baço, tonificar o Wei Qi
(Qi defensivo), estabilizar o Exterior, controlar a sudação, limpar as toxinas e o pús, promover a
reparação e cicatrização e promover a circulação da água para reduzir os edemas.

130
ANEXO XVII

Electroacupunctura

! Aplicada em modo denso-disperso, durante 30 minutos, em frequência alternada: alta


(100 Hz) e baixa (5 Hz).

Quadro 17. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso clínico nº 3.

Eléctrodos Localização Região


Entre o 3º e 4º metatarsos, sob a almofadinha A corrente eléctrica atravessa a
R1
plantar central. porção distal do membro pélvico,
R1 - BL40
desde o nível da articulação do
BL40 No centro da fossa poplítea. joelho até à extremidade.
Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5 cun
BL17 lateralmente ao bordo caudal do processo A corrente eléctrica atravessa a
espinhoso da vértebra T7. musculatura paravertebral da
BL17 - BL24
Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5 cun região toraco-lombar, entre T7 e
BL24 lateralmente ao bordo caudal do processo L4.
espinhoso da vértebra L4.

Acupunctura com agulha seca e moxabustão

Quadro 18. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 3. Os pontos foram
estimulados com agulha seca (A), moxabustão (M) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos


Ponto Jing da Madeira, ponto filho (sedação) para padrões de
KI 1 EA excesso. Coma, status epilepticus, golpe de calor, faringite,
obstipação, disfonia, disúria, incontinência urinária.
Ponto Shu da Terra e ponto Yuan. Doença renal, disúria, diabetes
3 A mellitus, ciclo éstrico irregular, infertilidade, impotência, faringite,
dispneia, dor de dentes, DDIV toraco-lombar, otite, disfunção auditiva.
Ponto de confluência do meridiano extraordinário Yin-qiao.
6 A Deficiência de Yin, disúria, obstipação, epilepsia, faringite, ciclo
éstrico irregular, distúrbios do sono.
Ponto Jing do Metal, ponto mãe (tonificação) nos padrões de
7 A deficiência. Diarreia, edema, paresia ou paralisia dos membros
pélvicos.
Hemorragia interna, hematúria, fezes sanguinolentas, hemorragia
GV 4 A
durante a castração ou ovariohisterectomia, DDIV.
Ponto He da Terra, ponto horário, ponto mestre do abdómen e do
tracto gastrointestinal. Tónico geral do Qi (ponto “3milhas”), náusea,
ST 36 A vómito, dor de estômago, úlcera gástrica, estase alimentar, fraqueza
generalizada, obstipação, diarreia, dor do joelho, fraqueza do
membro pélvico.

131
ANEXO XVII

Quadro 18. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 3 (continuação). Os
pontos foram estimulados com agulha seca (A), moxabustão (M) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos


Ponto de influência do Sangue, ponto Back-Shu para o diafragma.
BL 17 EA, M Deficiência de Yin ou de Sangue, vómito, regurgitação, náusea,
tosse, dispneia, febre baixa.
Ponto Back-Shu da Vesícula biliar. Doença hepática ou da vesícula
19 A, M biliar, subida do Yang do Fígado, estagnação de Qi do Fígado, febre
baixa, DDIV toraco-lombar.
Ponto Back-Shu do Baço. Deficiência de Baço, Humidade, doenças
20 A, M digestivas e pancreáticas, vómito, diarreia aquosa ou sanguinolenta,
edema, anemia, DDIV toraco-lombar, icterícia.
Ponto Back-Shu do Estômago. Doença gastrointestinal ou
21 A, M pancreática, perda de apetite, diarreia, náusea, vómito, obstipação,
dor abdominal, fraqueza generalizada.
Ponto Back-Shu do Triplo Aquecedor. Edema, vómito, diarreia, DDIV
22 A, M toraco-lombar, dor abdominal, doenças endócrinas, massas
intrabdominais.
Ponto Back-Shu do Rim. Deficiência de Yin e de Qi do Rim, doença
renal, incontinência urinária, impotência, edema, disfunção auditiva,
23 A, M
DDIV toraco-lombar, fraqueza dos membros pélvicos, osteoartrite da
articulação coxo-femoral.
Mar do Qi. Deficiência de Qi, DDIV toraco-lombar, dor abdominal,
24 EA, M
doença uterina, diarreia, hemorragia.
Ponto He da Terra e ponto mestre das articulações coxo-femorais e
da região lombar caudal. Disúria, incontinência urinária, DDIV toraco-
40 EA
lombar, doença da articulação coxo-femoral, doenças auto-imunes,
vómito, diarreia, paresia ou paralisia dos membros pélvicos.
Pontos Hua Tuo
A Dor lombar e torácica, DDIV.
Extra Jiagi
Deficiência de Yang, paresia ou paralisia dos membros pélvicos, dor e
Bai-hui A DDIV lombo-sagrada, dor da articulação coxo-femoral, dor abdominal,
diarreia.
Limpar o Calor, choque de calor, choque, dor abdominal, paralisia da
Wei Jian A
cauda, fraqueza dos membros pélvicos.

132
ANEXO XVIII

Anexo XVIII. Plano de tratamento do caso clínico nº 4

Tratamento do caso clínico nº 4

! As sessões de acupunctura foram bissemanais, num total de quatro sessões de


tratamento (duas semanas).
! Neste animal, as sessões de tratamento consistiram na estimulação com agulha seca e
com electroacupunctura.

Electroacupunctura

Quadro 19. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso clínico nº 4.

Eléctrodos Localização Região


Craniolateral no membro pélvico, 0.5 cun lateral
ST 36
à crista da tíbia, sobre o músculo tibial cranial. A corrente eléctrica atravessa a
ST36 - GB34 Lateral no membro pélvico, logo abaixo do porção proximal da tíbia, logo
GB 34 joelho, na depressão cranial e distal à cabeça abaixo da articulação do joelho.
do fíbula.
Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5
BL22 cun lateralmente ao bordo caudal do processo
espinhoso da vértebra L1. A corrente eléctrica atravessa
toda a região paravertebral
BL22 - BL35 Na depressão lateral à base da cauda, lombar, desde L1 até à base da
imediatamente lateral a BL30 (no espaço cauda.
BL35
sacrocaudal, entre S3 e Cc1), 1.5 cun lateral à
linha média.

Acupunctura com agulha seca

Quadro 20. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 4. Os pontos foram
estimulados com agulha seca (A) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos


Ponto Jing da Madeira, ponto filho (sedação) para padrões de excesso.
KI 1 A Coma, status epilepticus, golpe de calor, faringite, obstipação, disfonia,
disúria, incontinência urinária.
Ponto Shu da Terra e ponto Yuan. Doença renal, disúria, diabetes
3 A mellitus, ciclo éstrico irregular, infertilidade, impotência, faringite,
dispneia, dor de dentes, DDIV toraco-lombar, otite, disfunção auditiva.

133
ANEXO XVIII

Quadro 20. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 4 (continuação). Os
pontos foram estimulados com agulha seca (A) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos


Ponto Back-Shu do Triplo Aquecedor. Edema, vómito, diarreia, DDIV
BL 22 EA toraco-lombar, dor abdominal, doenças endócrinas, massas
intrabdominais.
Diarreia sanguinolenta, hematúria, prurido perianal, dor sacrocaudal,
35 EA
paralisia da cauda.

Ponto He inferior do meridiano do TE. Incontinência urinária, disúria,


39 A
edema, dor do curvilhão, DDIV toraco-lombar.
Ponto He da Terra e ponto mestre das articulações coxo-femorais e da
região lombar caudal. Disúria, incontinência urinária, DDIV toraco-
40 A
lombar, doença da articulação coxo-femoral, doenças auto-imunes,
vómito, diarreia, paresia ou paralisia dos membros pélvicos.
Ponto mestre para os membros pélvicos. Dor e osteoartrite da
54 A articulação coxo-femoral, paresia ou paralisia dos membros pélvicos,
claudicação e atrfoia muscular, distúrbios perianais, disúria.
Ponto Jing do Fogo. Epistaxis, DDIV, dor cervical, dor toraco-lombar,
60 A
dor do curvilhão, epilepsia, distócia, hipertensão.

GB 33 A Dor do joelho, osteoartrite e outros distúrbios da articulação do joelho.


Ponto He da Terra, ponto de influência dos tendões e ligamentos.
Estagnação de Qi do Estômago e Fígado, hipertensão, vómito, doença
34 EA hepática e da vesícula biliar, doenças dos tendões e ligamentos,
claudicação do membro pélvico, fraqueza, paresia ou paralisia, alívio
da dor em geral.
Ponto He da Terra, ponto horário, ponto mestre do abdómen e do
tracto gastrointestinal. Tónico geral do Qi (ponto “3 milhas”), náusea,
ST 36 EA vómito, dor de estômago, úlcera gástrica, estase alimentar, fraqueza
generalizada, obstipação, diarreia, dor do joelho, fraqueza do membro
pélvico.
Deficiência de Yang, paresia ou paralisia dos membros pélvicos, dor e
Pontos
Bai-hui A DDIV lombo-sagrada, dor da articulação coxo-femoral, dor abdominal,
extra
diarreia.

134
ANEXO XIX

Anexo XIX. Plano de tratamento do caso clínico nº 5

Tratamento do caso clínico nº 5

! Realizaram-se sessões de acupunctura bissemanais durante um mês e depois


semanais durante dois meses. Após o retorno à actividade ambulatória e a recuperação
da propriocepção, realizaram-se tratamentos quinzenais durante um mês e depois
mensais durante três meses.
! O tratamento consistiu na estimulação com agulha seca e electroacupunctura.

Electroacupunctura

Quadro 21. Localização da colocação dos eléctrodos de electroacupunctura no tratamento do caso clínico nº 5.

Eléctrodos Localização Região


Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5
BL18 cun lateralmente ao bordo caudal do processo
espinhoso da vértebra T10. A corrente eléctrica atravessa a região
BL18 - BL25 paravertebral toraco-lombar, entre T10
Na região dorsolateral da coluna vertebral, 1.5 e L5.
BL25 cun lateralmente ao bordo caudal do processo
espinhoso da vértebra L5

Acupunctura com agulha seca

Quadro 22. Acupontos utilizados com maior frequência no tratamento do caso clínico nº 5. Os pontos foram
estimulados com agulha seca (A) e electroacupunctura (EA).

Meridiano Ponto Estimulação Indicações e efeitos

Ponto Back-Shu do Fígado. Doenças hepáticas e da vesícula biliar,


BL 18 EA doença ocular, hipertensão, epilepsia, irritabilidade, DDIV toraco-
lombar.
Ponto Back-Shu do Intestino Grosso. Diarreia, obstipação, dor
25 EA
abdominal, DDIV toraco-lombar, dor lombar.
Ponto He da Terra, ponto horário, ponto mestre do abdómen e do
tracto gastrointestinal. Tónico geral do Qi (ponto “3 milhas”), náusea,
ST 36 A vómito, dor de estômago, úlcera gástrica, estase alimentar, fraqueza
generalizada, obstipação, diarreia, dor do joelho, fraqueza do membro
pélvico.
Ponto He da Terra, ponto de influência dos tendões e ligamentos.
Estagnação de Qi do Estômago e Fígado, hipertensão, vómito,
GB 34 A doença hepática e da vesícula biliar, doenças dos tendões e
ligamentos, claudicação do membro pélvico, fraqueza, paresia ou
paralisia, alívio da dor em geral.

135

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