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MULHER NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA: SUA IMPORTÂNCIA NAS

ESFERAS JURÍDICO-SOCIAL DAS CIDADES-ESTADO DE ATENAS E


ESPARTA.

Resumo: Esta obra tem por objetivo estudar o papel das mulheres gregas nas esferas
sócio-
jurídica em Atenas e Esparta. Sinalizamos as seguintes hipóteses: no campo jurídico
houve
uma significativa mudança no tratamento dado à mulher, na equiparação dos direitos
civis e
nas medidas protetivas. Já no campo sócio-cultural observa-se a contínua luta rumo
ao
respeito e reconhecimento da sua contribuição na construção do desenvolvimento
econômico
e estabelecimento da sua função. A partir de pesquisas bibliográficas e
documentais,
priorizar-se-á aqui, o método lógico dedutivo.

Palavras-chave: história; direito; mulher; sociedade.

1. Introdução

O presente trabalho tem por objetivos resumir o papel das mulheres gregas
nas esferas
sócio-jurídica na Grécia Antiga especificamente nas cidades-estado de Atenas e
Esparta, tendo em vista que de modo paradigmático
elas eram de certa forma, desprovidas de direitos políticos e jurídicos e
encontravam-se
plenamente submetidas socialmente. Em Atenas, a atuação da mulher era bem limitada:
educada para ser dócil e reservadas ao mundo doméstico, a sua subserviência era
transferida
do pai para o marido após o matrimônio. Em Esparta, a situação era um pouco
diferente, as
mulheres recebiam educação igual as dos homens, participavam inclusive de torneios
e
atividades esportivas, a fim de fortalecer o seu corpo para gerar filhos saudáveis
e vigorosos;
elas assim como os homens, iam aos quartéis ao sete anos de idade para serem
educadas e
treinadas para a guerra.
A condição de subserviência da mulher grega nas cidades-estados de Atenas
e Esparta
limitava-as à execução de atividades domésticas (mesmo quando se lhe era permitido
fazer/participar de atividades no exterior dos limites domésticos), com o objetivo
de deixar
claro o seu papel de co-partícipe no processo de construção social, impondo-lhes o
silêncio, a
obediência, ou , como no caso das espartanas, preparando-as para serem meras
reprodutoras
de guerreiros. Reduzindo, dessa forma, a mulher à condição de executora de tarefas
menores e
menos valorizadas socialmente, limitando seus direitos civis. Tal situação de
desigualdade
entre homens e mulheres na Grécia antiga nos faz refletir sobre as heranças sócio-
jurídicas
legadas à mulher contemporânea a partir da análise comparativa do papel da mulher
nas
esferas jurídico-social atuais e daquela época.

2. Um pouco de História

A História da Grécia, para fins didáticos, costuma ser dividida em


períodos. Sendo
eles: Período Pré-Homérico (séc. XX – XII a.C.), caracterizado pela formação dos
Reinos
independentes, a divisão em camadas sociais; Período Homérico (séc. XII – VIII
a.C.), assim
chamado por serem os poemas de Homero – Ilíada e Odisséia – os únicos registros
escritos,
também conhecido como “Idade das Trevas”, esse período foi marcado pela invasão dos
povos dórios que não dominavam a escrita e pouco se produziu em termos de
conhecimento,
traz ainda como característica as comunidades gentílicas. O Período Arcaico (séc.
VIII – VI
a.C.) marcado pela colonização de vários povos, dentre eles os fenícios, que
contribuíram com
a escrita fonética, o alfabeto que foi acrescido de vogais pelos gregos; Período
Clássico (séc.
V e IV a.C.) qualificado como a Grécia das Cidades – as póleis ou a polis – eram
entidades
independentes, Estados juridicamente soberanos e autônomos, havia um centro
político, social
e religioso, uma área rural com pequenas aldeias, fortalezas e portos (nas situadas
à beira-
mar). Das centenas de cidades-estado gregas as que mais se destacaram foram Esparta
e
Atenas, foco deste estudo.
Esparta é um modelo oligárquico de cidade grega, situada na península do
Peloponeso,
essa cidade-estado surgiu a partir do sinecismo de tribos dórias; foi a primeira a
incorporar os
resultados sociais das operações de guerra dos hoplitas. Apresentava como principal
característica um militarismo acentuado onde os cidadãos-soldados formavam a classe
dominante: os esparciatas ou espartanos que detinham poder político, religioso e
militar. Os
periecos chamados povos da periferia eram os estrangeiros, comerciantes e artesãos,
compunham uma população livre, mas sem direitos políticos e eram submetidos à
autoridade
dos espartanos. E, os hilotas, que eram servos do Estado, sem direitos políticos e
oprimidos
pelos espartanos.
Atenas, principal opositora de Esparta, cidade-estado modelo de
democracia,
desenvolveu-se na região da Ática e foi povoada pelos Aqueus, Eólios e Jônios.
Inicialmente
era oligárquica e o controle político concentrava-se nas mãos dos Eupátridas, os
bem nascidos
(aristocracia rural). O aumento do comércio redefine classes sociais: geomores e
demiurgos,
metecos e escravos. No campo da política, os tiranos provocaram várias reformas
políticas
para atenuar conflitos, tais como as de Drácon (621 a.C) leis escritas (severas);
Sólon (594
a.C) propôs o fim da escravidão por dívidas, divisão censitária da sociedade.
Clístenes (510
a.C), pai da democracia, revisando as leis de Sólon, modificando-as num sentido
democrático,
instituiu o ostracismo – afastamento temporário da cidade – A estabilidade social e
o
progresso. As mulheres, metecos e escravos não possuíam direitos. Cidadãos eram
apenas os
homens, adultos, filhos de pai e mãe atenienses, nascidos em Atenas.

3. Sobre a Mulher

Historicamente, as relações travadas entre homens e mulheres têm


resultado
consequências nos diversos planos da sociedade. Primitivamente eles eram iguais,
mas com o
advento da propriedade privada, os homens que assumiam papéis relevantes para a
sociedade
– administradores e executores – passaram a assumir o monopólio da política; ao que
Soares5
aponta como início das desigualdades jurídico-sociais. O regime patriarcal
apresenta um forte
caráter privatístico da educação feminina evidente no: confinamento ao lar, severas
prescrições, e desfavorecimento em relação ao homem, controlado pelo mecanismo da
violência que por vezes se manifesta fisicamente, noutras vezes de maneira
simbólica,
conforme Bourdieu6. Tal regime, durante séculos relegou à mulher a função do lar,
por ser
considerada atividade menor, não contribuindo diretamente para o crescimento sócio-
econômico e, exatamente por isso, limitava uma maior participação das decisões.
Passando da condição de escrava à posição de companheira, a mulher vem
paulatinamente alcançando uma ascensão social. O Progresso da mulher em direção à
liberdade aponta o caminho para progresso social: “(...) o progresso social e as
transformações
periódicas ocorrem em virtude do progresso da mulher em direção à liberdade, isto
é, a
extensão dos direitos daquela constitui a base geral de todo progresso social.”
(FOURIER in
SOARES, 1978, p. 10). As conquistas de direitos bem como a luta pela liberdade são
frutos
do espírito de luta da mulher, embora a lei em muitos momentos históricos tenha
colocado os
sexos em condição de desigualdade jurídica.
No plano religioso, na Grécia Antiga, uma mulher nunca poderia ser chefe
de um
culto, que sempre necessitava de um chefe homem. O cristianismo, quando passou a
ser a
religião do Estado, nada alterou a condição da mulher, expressando o interesse das
classes
dominantes, coadunando com o posicionamento de conservação da ideia da mulher como
sendo inferior e devedora de obediência ao marido.
Para o Direito Greco-romano, a mulher devia passar por várias fases de
sujeição.
Quando pequena, sujeita-se ao pai, na mocidade ao marido, na viuvez aos filhos ou
parentes
dos marido e ainda havia alguns casos em que o marido poderia inclusive escolher-
lhe um
segundo marido ao aproximar-se da morte. Em suma, nunca devia governar-se. Na vida
civil,
esta vinculava-se sempre a um tutor para exercer os atos a ela nunca permitidos.
Por fim, na contemporaneidade, com o advento do capitalismo e da formação
de uma
sociedade de consumo, a mulher serve de objeto para vender todo tipo de produto. Os
padrões
morais capitalistas rotulam alguns tipos: Homens Espertos, Mulheres Vadias, Homem
Ambicioso (sustentam o luxo de Mulheres Lânguidas e Fúteis). A capacidade
intelectiva da
mulher, ainda nesse contexto, é tratada preconceituosamente, como se estas fossem
inabilitadas para o campo da ciência e de todos os postos de poder é transformada
em anedota
a que se lança em empreendimentos científico-intelectuais.

4. As Mulheres de Atenas

Atenas, berço da Democracia ocidental, reservava às mulheres um papel


pouco
democrático. A começar pela educação doméstica em que estavam inseridas, onde o
patriarca
da família decidia seu destino no momento em que escolhia seu marido, normalmente
sem
relações afetivas e mais pelo desejo de estar à família diante de um “bom negócio”.
A jovem
mulher era educada pelas mulheres mais velhas, mãe, avós e criadas, as quais lhe
ensinavam a
tecer e cozinhar; aprendia um pouco de música e também de leitura, que iriam ser
fundamentais na vida que teriam de dedicação a futura família patriarcal.
Quando Aristóteles escreve “Política” 7 - a ciência da felicidade humana
– tem como
meta descobrir inicialmente a maneira de viver que leva à felicidade humana e, para
tanto,
dispõe da certeza de Hesíodo quando ele disse: “primeiro a casa, uma mulher e um
boi no
arado”, pois o boi é o escravo do pobre e a casa a comunidade das necessidades
diárias onde
a mulher realiza as tarefas, ou mesmo quando apóia suas idéias para governabilidade
de uma
cidade-estado nos dizeres de Homero: “(...) cada um dita a lei aos filhos e às
esposas (...)”, e
reafirma a posição da mulher ateniense quando observa que “(...) a moderação de uma
mulher e a de um homem não são idênticas, nem sua coragem e sentimento de justiça,
como
pensava Sócrates; uma é a coragem de comando, a outra de obediência, e o mesmo
acontecem com outras qualidades” 8. Portanto, como podemos observar, o papel da
mulher
na sociedade ateniense era de puro adestramento; reservada ao afazeres doméstico e
educada
para ser dócil.
Poucas diferenças em relação à mulher foram observadas nas camadas
sociais que
compunham a sociedade ateniense. Elas eram desprezadas pelos seus maridos, lhes
restando
apenas a função de procriar com o intuito de manter o patrimônio familiar, bem como
a
função de cuidar dos pais na velhice. Nas questões políticas, mesmo após a reforma,
a mulher
continuava sendo considerada inapta para tais assuntos. Mesmo com
vida baseada na
submissão ao marido não se tem relatos de insubordinação, a não ser o sentimento de
resignação diante de tanto desprezo.
Entretanto, aparecem durante o período clássico da Grécia peças
teatrais, entre elas a
obra cômica de Aristófanes, em que apresenta na ficção a figura de Lisístrata,
ateniense que
chefiara uma greve de sexo para por fim a uma guerra que durara 20 anos e, para
tanto,
contava com a adesão das mulheres das cidades gregas de Esparta, de Beocia e de
Coríntio,
para por fim a tais hostilidades. Outra peça teatral, desta vez com autoria de
Sófoles,
apropriada de saberes jurídicos para exemplificar o Direito Natural, traz como
heroína a
figura de Antígona, filha incestuosa de Édipo (que matara seu pai para casar-se com
sua mãe),
que invoca regras transcendentais para justificar a sua posição desafiadora diante
da
concepção da norma positivista9.
Observamos, portanto, que mesmo diante de tais ficções em que a mulher
aparece
agindo como sujeito ativo e não mero objeto passivo, a lição ao final de cada
espetáculo trazia
mais a forma de como a mulher não deveria se comportar e manter a estrutura daquela
sociedade onde o papel da mulher subordinada é uma das marcas que contempla o
passado
Grego e mais especificamente de Atenas.

5. Em Esparta

Esparta localizada na península do Peloponeso, foi fundada pelos Dórios,


no século IX
a.C. Para manter seus domínios, a aristocracia de origem dória montou uma estrutura
militar
forte.
A educação Espartana concentrava-se nas mãos do Estado, e era de
responsabilidade
obrigatória do governo, recebia um nome técnico agogê. Tinha como escopo
locupletar, a
nação de soldados bravos e invencíveis.
Antes de nascer, já o futuro cidadão tomba sob o impiedoso controle
estatal. As moças
eram submetidas a exercícios físicos com uma finalidade eugênica: deveriam ser mães
robustas, vigorosas e dotadas de qualidade viris.10
O modelo de ensino objetivava formar patriotas, visando a intervenção na
guerra e a
manutenção da segurança da cidade-estado, os treinamentos físicos eram constantes,
os jovens
praticavam sempre atividades tais como saltos, corrida, natação, lançamento de
disco e dardo.
Nos treinamento de batalha as meninas se dedicavam ao arco e flecha, enquanto os
meninos
se especializavam em combate corporal, como também em táticas de defesa e ataque.
As mulheres recebiam educação corporal igual à dos homens participavam
inclusive
de torneios e atividades esportivas. A finalidade era fortalecer o seu corpo para
gerar filhos
saudáveis e vigorosos. Baseava-se na prática de exercícios ao ar livre, com a
música e a dança. Elas, assim como os homens, iam aos quartéis aos sete anos de
idade para serem
educadas e treinadas para a guerra, mas, não ficavam alojadas, após os treinos
diários
retornavam para casa, onde recebiam aulas de educação sexual da própria mãe, e
quando
atingiam a chamada menarca (primeira menstruação), começavam a receber aulas
práticas de
sexo, para gerarem bons cidadãos para o estado. E tinham uma educação mais avançada
que a
dos homens, já que seriam elas que trabalhariam e cuidariam da casa enquanto seus
maridos
estivessem nos campos de batalha servindo ao exército.

7. Conclusões

No período clássico da história grega, a mulher assumiu um papel diverso nos


planos
sócio-jurídico das cidades-estado de Atenas e Esparta. Nesta última, ela
participava
ativamente do movimento propulsor da sociedade, o militarismo, muito embora fosse
com a
finalidade de tornar-se casulo saudável para a procriação de indivíduos perfeitos
para o Estado
espartano. Naquela, a função social da mulher era considerada inexistente, visto
que não
possuía direitos, não participava das decisões políticas, não haviam ascendido à
condição de
cidadã. Na cidade-estado berço da democracia, eram submissas, obedientes, pacatas,
e
constantemente humilhadas.