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2 A volta ao mundo da nobreza

Capa – Maria Antonieta com a rosa, quadro de Vigée Le Brun


aplicado a foto dos aposentos da rainha em Versalhes.

Projeto gráfico e capa:


Luis Guillermo Arroyave

Impressão e acabamento:
Artpress Indústria Gráfica e Editora Ltda.

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Entrei numa enrascada

S em afastar-me de casa, eu acabara de fazer durante as férias uma deliciosa viagem a um


mundo maravilhoso. Nunca fui entusiasta de viagens, que me fazem unir o incômodo
dos deslocamentos às muitas surpresas e situações desagradáveis nos locais escolhidos; e
até me fazem sentir saudades do meu travesseiro. Ir lá para quê, se estou bem aqui?
Mas aquela foi uma viagem especial, sem nenhum desses inconvenientes. Estavam à
minha espera na biblioteca vários livros narrando episódios do passado. De um outro mun-
do, do qual as pessoas não fazem hoje a menor idéia. Os personagens eram reis, rainhas,
nobres e aristocratas; e também muitos plebeus, mas gente cujo caráter não encontra similar
nos dias atuais. Cada um procurando superar o outro em requintes de cortesia e amabilidade
com este plebeu estrangeiro desajeitado, que deglutira na escola e ao longo da vida os pre-
conceitos de alguns pensadores tendenciosos e políticos invejosos, cujo objetivo na vida
parece ter sido denegrir sempre os saudáveis costumes e instituições de outrora, pois sen-
tem-se mais à vontade neste mundo vulgar, decadente e sem honra.
Se os reis e nobres do passado tivessem deixado más recordações na memória dos po-
vos, até hoje a idéia de monarquia teria conotações ruins e seria muito impopular. Mas,
como deixaram boas recordações, é o contrário que acontece. De fato, o bom senso popular
sempre associa a monarquia com as idéias de beleza e de excelência. Quando algo é muito
belo ou é o mais excelente no seu gênero, diz-se que é o rei ou o príncipe daquele gênero: o
leão é o rei dos animais, a rosa é a rainha das flores, há o rei do futebol, da voz, do palco.
Precisamente por isso é que nomes monárquicos são correntemente usados na propaganda
comercial de todos os níveis, desde os prédios de luxo que têm nomes de palácios europeus
até os incontáveis reis do pequeno comércio (do caldo-de-cana, dos tapetes, dos parafusos,
da tesoura, etc.).8:191
Eu voltara das férias, após a minha viagem literária, imbuído desses saudáveis conceitos
de excelência, honra, dignidade, nobreza, mas aguardava-me uma colisão frontal. Proposi-
talmente não digo um balde de água fria, pois não consigo esfriar-me em relação ao que eu
vira durante a minha viagem. Na primeira aula do semestre, meu professor de História
enunciou o tema: a Revolução Francesa. Eu podia facilmente imaginar o que sairia dali, pois
a literatura, as escolas, a mídia e as trompas da propaganda não cessam de enaltecer a Revo-
lução Francesa como um marco da liberdade, do progresso e da quebra de preconceitos.
Mas eu acabara de regressar da minha viagem ao mundo anterior a essa catástrofe histórica
que se convencionou denominar Revolução Francesa, e sabia que as coisas eram bem dife-
rentes da preleção que me esperava. Tive de ouvi-la em silêncio, porém comparando-a com
o panorama que a minha viagem exibira aos meus olhos. Transmito o que disse o meu
professor:
— Havia apenas dois grupos de pessoas no Antigo Regime: os privilegiados e o povo;
este arcava com os impostos e outras obrigações para garantir os privilégios da nobreza e do
clero.17:62 A maioria dos nobres e dos altos representantes da Igreja Católica possuía grandes
extensões de terras, que eram trabalhadas pelos camponeses; viviam no campo e gozavam
de privilégios como a isenção de impostos e a prestação de serviços por parte dos campone-
4 A volta ao mundo da nobreza

ses. Um outro grupo vivia na corte, estabelecida em torno do rei absolutista: atuavam como
conselheiros ou altos funcionários reais, e em troca recebiam vantagens do Estado; passa-
vam grande parte do seu tempo em festas e cerimônias luxuosas. Enfim, nos dois casos
tratava-se de um pequeno grupo de privilegiados que dominava a sociedade francesa e vivia
do trabalho dos outros grupos.99:136 Ao contrário da maioria dos franceses, os nobres e o alto
clero (bispos, abades) pareciam bastante satisfeitos. Moravam em palácios luxuosos, farta-
vam-se de boa comida e bebida, levavam uma vida calma e cheia de prazeres. Não trabalha-
vam nem se preocupavam com a economia. Viviam à custa dos tributos feudais pagos pelos
camponeses. Os nobres e a Igreja quase não pagavam impostos. Mas centenas de nobres
recebiam gordas pensões do Estado. Ou seja, o povo francês arcava com os impostos para
que o rei sustentasse o alto padrão de vida dos nobres da corte.77:76
Diversamente da nobreza e do clero, o Terceiro Estado abrigava várias classes sociais,
inclusive camponeses e sans-culottes, além da própria burguesia enriquecida. Todos des-
prezados pela nobreza e pelo alto clero.17:62 O Terceiro Estado era esmagado pelos impostos
que sustentavam o clero e a nobreza, os dois Estados privilegiados da sociedade france-
sa.12:84 O camponês e a camponesa carregavam às costas os membros da nobreza e do cle-
ro.99:136 Os trabalhadores rurais viviam oprimidos por todo tipo de obrigações e impostos, e
impedidos de obter maiores vantagens em suas atividades.12:85 Entre os que não tinham
interesse em mudanças estava a nobreza, que correspondia a mais ou menos 1,5% da popu-
lação. O restante da população francesa, que correspondia a mais de 90% do total, era
prejudicada pelo regime absolutista. Sustentava a monarquia e a nobreza da corte com os
impostos e não tinha o direito de participar das decisões, pois todo o poder se centralizava
nas mãos do rei, Luís XVI.104:73
Na assembléia dos Estados Gerais, cada um dos três Estados (clero, nobreza e povo)
tinha direito a um voto. Assim, apesar de representar mais de noventa por cento da popula-
ção, o Terceiro Estado possuía apenas um voto.99:139 A nobreza, ao invés de se abrir e de se
modernizar em direção ao capitalismo, como na Inglaterra, cristalizou-se, fechou-se,
encastelou-se, cortando qualquer possibilidade de composição com a burguesia ascenden-
te.16:127 A radicalização das posições da nobreza do Antigo Regime, procurando reforçar seu
poder durante a crise econômica da segunda metade do século XVIII, foi uma das causas
imediatas da Revolução de 1789.16:128 Aos aristocratas não importava a questão nacional.
Essencial para a aristocracia francesa eram suas relações com outras casas da nobreza euro-
péia, a que se ligava através de políticas de casamento. O “partido nacional” era muito
indefinido, não correspondendo à noção moderna de partido.16:136
A miséria e a fome tomavam conta da população enquanto a nobreza, que contava com
cerca de quatrocentos mil privilegiados, se negava a admitir qualquer mudança.20:182 Os
sans-culottes se perguntavam: por que viver na penúria, enquanto os nobres levam uma vida
tão rica?77:76 A massa popular foi à rua sobretudo porque estava pressionada pela fome.16:126
Os franceses, pressionados pela fome, colocaram por terra séculos de opressão e exploração
aristocrática.66:14 A Revolução Francesa pôs fim a dezoito séculos de opressão.41:83 Pôs abai-
xo a aristocracia que vivia dos privilégios feudais, destruindo a base social que sustentava o
Estado absolutista encarnado na figura de Luís XVI. Mobilizou as massas populares urba-
nas esfomeadas, a pequena burguesia radical, os pequenos produtores independentes, e so-
bretudo os camponeses ainda imersos na servidão.16:122
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O uvi tudo isso constrangido, mas em respeitoso silêncio. Ponha-se agora no meu lugar,
e imagine quanto me indignavam as afirmações do professor, pois a minha viagem me
havia mostrado um mundo muito diferente, onde eu encontrara lealdade, harmonia, hones-
tidade, em flagrante contradição com opressão, exploração e injustiça a que se referia o
professor. Se eu não tinha autoridade para contestar tudo aquilo, pelo menos sentia-me en-
corajado a lançar algumas dúvidas, com as quais forçaria tanto o professor quanto os meus
colegas a questionar o que a gigantesca propaganda revolucionária vem sustentando há
mais de dois séculos. Levantei-me e pedi permissão para uma pergunta:
— Professor, as afirmações que o senhor acaba de fazer sobre a nobreza mostram um quadro
deprimente e revoltante. Se tudo isso é verdade, de fato nós temos que odiar esse passado de
opressão e dar graças a Deus por terem os revolucionários demolido essa estrutura iníqua. Mas
não consigo conciliar esse quadro com uma realidade muito profunda que se encontra na nossa
língua. Quando alguém se refere a nobre, nobreza, nobilitar, nobilitante, o conceito é altamente
elogioso. Quando digo que alguém praticou uma ação nobre, ou agiu com nobreza, estou fazen-
do um elogio. Quando se afirma que o ouro é um metal nobre, nem mesmo um insensato irá
entender que seja desprezível, vulgar ou sem valor. Se os nobres agiam como o senhor descre-
veu, a população se colocaria em estado de constante revolta, e teria permanecido na linguagem
corrente esse conceito negativo, não o conceito enaltecedor que hoje existe. A memória popular
conservou, apesar da propaganda em contrário, gratas recordações dos tempos monárquicos.8:14
A figura do rei, tal como permaneceu na memória dos povos, evoca sentimentos dos mais no-
bres e elevados.8:118 Existe portanto, na memória dos povos, uma imagem muito boa da nobreza.
O senhor poderia explicar-me o motivo dessa contradição?

A reação do professor foi de total surpresa. Depois de vacilar um pouco, como um náu-
frago à procura de uma tábua de salvação, ele resolveu transferir as responsabilidades:
— Meu caro Leon Beaugeste, o seu questionamento me parece baseado em coisas
imponderáveis, difíceis de avaliar. O que eu disse é o que se pode encontrar em livros de
História, e quem escreve a História deve saber o que está afirmando. Essa tal memória dos
povos, que eu até agora desconhecia, parece coisa de filósofo, com a qual ou sem a qual o
mundo caminha tal e qual.
— Mas existe de fato uma estratificação das experiências milenares da humanidade, que
se transmite quase sem variações de uma geração para outra. E é sempre bom pedir aos
termos da língua os ensinamentos que eles possam dar, quando se trata de analisar os fatos
e os costumes ao longo da História. Uma instituição explica-se às vezes pela palavra que a
designa.89:306 Além do que eu já falei sobre nobre, nobreza, etc., outros elementos do mundo
antigo têm conotações boas, que todas as pessoas entendem do mesmo modo. Por exemplo:
cavalheiro, fidalguia, cortesia, cruzada, cristão. Quando eu digo que a ação de uma pessoa
não foi cristã, qualquer um entende que se trata de uma ação má; ignóbil é o contrário de
nobre; vilão era quem morava na vila, fora do castelo da nobreza, e o conceito se opõe
também ao de nobre; lacaio era simplesmente um servidor que acompanhava o seu senhor
em viagens, mas hoje adquiriu o sentido de sabujo, bajulador; bastardo é o filho ilegítimo, e
a conotação é sempre negativa; o carrasco exercia uma profissão como qualquer outra, mas
a palavra tem na língua atual um sentido pejorativo; bárbaro era simplesmente quem estava
fora do mundo romano e a ele opunha resistência armada; mas, se eu digo que alguém agiu
como bárbaro, significa que praticou violências inomináveis, semelhantes às que os bárba-
6 A volta ao mundo da nobreza

ros faziam; larápio vem de Lucius Antonius Rufus Apius, um desonesto cobrador de impos-
tos da Roma antiga, que assinava L.A.R.Apius. E ainda muitas outras palavras se aplicavam
a certas pessoas, coisas, profissões ou atitudes, mas ficaram associadas ao comportamento
negativo que tiveram: impostor, agiota, judas, calabar, víbora. No lado oposto, o senhor
pode notar que até os deputados fazem questão de se tratar como nobre deputado.

T alvez eu tenha me excedido um pouco, pois nesse momento os meus colegas caíram na
gargalhada. Perfeita manifestação da memória coletiva. A essas alturas o professor os-
cilava como barata tonta, e depois de cessada a gargalhada geral ele fincou pé no argumento
de autoridade:
— Muito interessante tudo o que você explicou, Beaugeste. Mas o fato concreto é que os
livros afirmam o que eu disse. O que você sustenta são apenas hipóteses etéreas, baseadas num
conceito também etéreo, que é impossível dimensionar. O que eu conheço sobre nobres e
nobreza é o que afirmei, sempre baseado nos livros, e os livros se baseiam em fatos. Se você
tem fatos para comprovar que a nobreza era boa e praticava atos meritórios, nada melhor do
que trazê-los aqui para serem analisados por nós. Vou até combinar uma coisa com você.
Daqui a três meses haverá as provas finais, e você terá de apresentar o seu Trabalho de Conclu-
são de Curso. O tema do seu vai ser este: Fatos que falam a favor da nobreza. Até o fim do ano
você cuidará de providenciar esses fatos. Se eles comprovarem o que você disse, sua nota será
máxima. Aliás, acho que a memória coletiva aqui na sala conhece muito bem o significado de
nota máxima. Caso contrário, ou você responderá direitinho às questões que eu apresentar, ou
sua nota será mínima, e a memória coletiva sabe bem o que isso significa.

E foi assim que eu entrei numa enrascada. Nos dias que já se passaram, o que consegui
foram alguns fatos muito bonitos, encontrados durante a minha viagem literária ao passa-
do. Alguns colegas prestimosos resolveram colaborar comigo, e já me apresentaram alguns
fatos ou textos muito bons. No conjunto, são bastante significativos, mas decididamente insu-
ficientes. Apelar para os livros, seria um trabalho insano. Além disso eu nem disponho mais
dos 90 dias, e ainda tenho de dar conta das outras matérias. Aí um colega se lembrou de que a
Internet é “onisciente”, e provavelmente encontraremos nela o que queremos. Poderíamos
fazer pesquisas com os recursos habituais de palavras-chave, etc. Mas surgiria outro proble-
ma, que é o volume enorme de informações. Eu teria de ler todas elas e peneirar, até conseguir
o que me interessa. Fiquei com o receio de não terminar o trabalho dentro do prazo. Conversa
vai, conversa vem, acabou aparecendo uma boa idéia de um colega:
— Da mesma forma que nós estamos ajudando você a encontrar os fatos que interes-
sam, certamente muitos dos usuários da Internet conhecem outros fatos. Se você conseguir
encontrar essas pessoas, sem dúvida elas se disporão a ajudá-lo. E essas pessoas podem ser
encontradas através de um blog.

F oi isso que me levou, caro internauta, a criar este blog à procura de amigos voluntários
que se disponham a ajudar-me. Vou começar incluindo amanhã alguns fatos e textos que
já temos, e serão suficientes para lhe dar uma idéia aproximada do que preciso encontrar.
Por favor, ajude-me a sair dessa enrascada. Sem dúvida, este será um gesto nobre.
1 — Nostalgia de um mundo com a doçura de viver 7

1º dia

A s minhas leituras durante as férias ha-


viam sido quase todas sobre a rainha
Maria Antonieta, provavelmente a soberana
que a ameaçasse de um insulto. Porém a era
da Cavalaria passou. Sucedeu-a a dos sofistas,
economistas e calculistas, e a glória da Euro-
mais caluniada da História.54:274 Desde os pri- pa está extinta para sempre.
meiros sintomas de uma revolução em mar- Nunca, nunca mais contemplaremos aque-
cha, ela era o alvo de acusações caluniosas: la generosa lealdade para com a categoria e o
gastava quantias exorbitantes, era leviana e sexo frágil, aquela ufana submissão, aquela
infiel ao marido Luís XVI. O caudal de acu- obediência dignificada, aquela subordinação
sações gratuitas ia se avolumando. Livretos do coração, que até na própria servidão manti-
satíricos, cançonetas, epítetos desprestigiantes, nha vivo o espírito de uma liberdade enaltecida.
tudo tinha livre curso com a complacência A inapreciável graça da vida, a pronta defesa
ou conivência da polícia. Mas a realidade era das nações, o cultivo de sentimentos varonis e
muito diferente. O escritor e filósofo inglês de empreendimentos heróicos, tudo isso desa-
Edmund Burke narra os dois encontros que pareceu. Desapareceu aquela sensibilidade de
teve com ela: princípios, aquela castidade da honra, que sen-
 tia uma mácula como uma ferida, que inspira-
Faz já dezesseis ou dezessete anos que va a coragem ao mesmo tempo que mitigava a
vi a Rainha de França, em Versalhes, quan- ferocidade, que nobilitava tudo aquilo que to-
do era ainda a jovem esposa do futuro rei. cava, e sob a qual o próprio vício, perdendo
Sem dúvida, nunca tinha descido a este mun- tudo o que tem de grosseiro, perdia a metade
do – que ela mal parecia tocar – uma visão da sua maldade.29:89
mais deleitável. Vi-a precisamente despon-
tar no horizonte, adornando e animando a
elevada esfera na qual começava a mover-
se, cintilando como a estrela matutina, cheia
D iante de depoimentos como este, creio
que se entenderá facilmente o motivo
da minha intervenção naquela aula fatídica:
de vida, esplendor e alegria. eu estava de fato defendendo a honra e a me-
Oh! que revolução! E que coração preci- mória de Maria Antonieta. Sem ser nobre,
saria ter eu para contemplar, sem emoção, tal sem ter ao meu alcance uma espada, eu es-
ascensão e tal queda! Não podia sequer so- grimia com os falseadores da História e pro-
nhar – quando ela inspirava não só a venera- curava convencer a todos do que eu agora
ção, mas também um amor entusiástico, dis- sabia. Não apenas a impressão pessoal de
tante e cheio de respeito – que alguma vez ela um pensador e escritor como Burke, mas
se veria obrigada a levar, escondido no seu seio, fatos, muitos fatos que me deixaram enle-
o pungente antídoto contra o opróbrio. Não vado, agradecido àquela rainha simplesmen-
podia imaginar que viveria para ver semelhan- te por ter existido. Neste primeiro dia, quero
tes desgraças abaterem-se sobre ela numa na- compartilhar com os amigos alguns desses
ção de homens galhardos, numa nação de ho- fatos, além de outros sobre personagens no-
mens honrados e de cavalheiros. Supus que bres, fornecidos pelos meus colegas.
dez mil espadas teriam saltado para fora das 
suas bainhas para vingar tão somente um olhar No dia 13 de janeiro de 1775, Maria
8 A volta ao mundo da nobreza

Antonieta assistiu em Paris à ópera Iphigénie jardim no meio da multidão de visitantes, mas
en Aulide, de Gluck. No segundo ato, um a gestante manifestou sinais de cansaço. O
coral se inicia com o verso “Cantai, celebrai estudante procurou um banco para ela sen-
vossa rainha”. O cantor Achille o substituiu tar-se. Estavam todos ocupados, mas de re-
por “Cantemos, celebremos nossa rainha”. pente ele viu um de mármore, onde estavam
Nesse momento todo o público se levantou apenas duas senhoras, e cabia mais uma.
e prorrompeu em prolongados aplausos, que Correu para lá e tomou posse do lugar vago
emocionaram a rainha até às lágrimas.59:107 ao lado delas, reservando-o para a gestante.
 Mas uma das senhoras era a própria rainha
Maria Antonieta assistiu a uma das apre- Maria Antonieta. Ao percebê-lo, o estudante
sentações da ópera-cômica “Pedro, o Grande”, levantou-se confuso, desculpou-se e justifi-
da qual Grétry compusera a música. Quando cou a intromissão. A rainha o acolheu com
ela apareceu em seu camarote, os assistentes benignidade:
aclamaram de pé suas três reverências. Depois — Pois vá logo buscá-la, que o lugar fica
de sentar-se, ela passeou o olhar pela sala e reservado para ela.
descobriu numa frisa a filha de Grétry, sua afi- Quando a gestante ia sentar-se, a rainha
lhada, cujo nome era Antonieta em sua home- chamou um criado e ordenou:
nagem. Retirando a luva, depositou sobre a — Vá ao meu quarto e traga uma almo-
ponta dos dedos um beijo, e o fez voar com fada para esta senhora.
um sopro para sua afilhada. Esta infração en- E explicou:
cantadora da etiqueta desencadeou uma tem- — Este banco de mármore é muito frio
pestade de aplausos, de lágrimas, que inter- para a senhora neste estado, que exige mui-
rompeu durante quase um quarto de hora a tos cuidados.
orquestra e os cantores.41:85 Em seguida se estabeleceu uma longa e
 amável conversa entre mãe e futura mãe.41:84
A rainha Maria Antonieta participava de 
todas as cerimônias da corte, mas preferia a Como mãe carinhosa, a rainha Maria
vida doméstica e simples. Ao invés do gran- Antonieta comprava presentes para os filhos
de teatro de Versalhes, preferia assistir com nas festas de fim de ano. Num ano de inver-
gosto às representações teatrais no pequeno no rigoroso, quando a população sofria pri-
teatro da cidade. Tinha ali uma frisa junto ao vações de toda ordem, ela encomendou de
palco, e freqüentemente comparecia acom- Paris os melhores brinquedos, bonecas e jo-
panhada da princesa de Lamballe. Numa cena gos que estavam à venda, e os colocou numa
da peça Os ceifadores, os personagens almo- sala para os filhos. Reuniu-os para apreciá-
çam uma sopa de repolhos. A rainha gostou los, e depois explicou:
tanto do cheiro da sopa, que pediu autoriza- — Meus filhinhos, eu queria dar-lhes
ção para participar da refeição, o que lhe foi bonitos presentes de Natal, e por isso os en-
concedido. Daí em diante, sempre que era re- comendei para que escolhessem. Mas quero
presentada a peça, havia na mesa um lugar propor uma coisa melhor. Há muitos pobres
reservado para a rainha.27:2:393 que estão sofrendo por causa do inverno, e
 se tornariam muito menos infelizes se pu-
Um estudante de Tours visitou Versalhes, déssemos dar-lhes algum dinheiro. Vocês
que era aberto a toda a população, em com- não querem aliviar o sofrimento deles, dei-
panhia de uma parenta grávida. Percorreram xando de receber este ano os seus presentes
deslumbrados o palácio e caminhavam pelo e dando-lhes o dinheiro equivalente?
1 — Nostalgia de um mundo com a doçura de viver 9

Os brinquedos foram todos devolvidos, pouco, pois ele também estará no local aon-
mas a rainha teve ainda o cuidado de inde- de vamos.
nizar o vendedor pelas despesas de trans- — E como farei para saber quem é o rei?
porte que tivera.15:184 — Muito fácil. Nesse local, todos os
homens estarão de chapéu na mão, e só o rei

A ntes daquela minha viagem literária, eu


estava muito longe de imaginar que Ma-
ria Antonieta fosse o que transparece nos
o terá na cabeça.
Quando o rei se aproximou do grupo,
todos se descobriram, e ele perguntou ao
fatos acima. Não sei como alguém conse- camponês:
guiria conciliar este último relato histórico — Agora o senhor já sabe quem é o rei?
– e há muitos outros – com a calúnia de que — Bem, só nós dois estamos com o cha-
os gastos enormes dela eram responsáveis péu na cabeça. Portanto, ou sois vós ou sou
pelo déficit das finanças francesas, a ponto eu.109:1753
de os revolucionários a alcunharem de
Madame Déficit.17:147 Gastando dinheiro da From: Valdeiglesias
sua dotação pessoal ou do rei, isso pouco Beaugeste, minha família é originária da
influía nas contas do governo. Espanha, e ouvi em casa muitos relatos so-
Muitos outros fatos vieram confirmar bre a vida dos reis e dos Grandes de
essa nova impressão, e eu os irei incluindo à Espanha. Vou colocá-los à sua disposição, à
medida que este blog for tomando corpo. medida que conseguir desencravá-los da
Agora vamos aos fatos fornecidos por meus memória.
colegas. Quando discutíamos sobre o modo 
de conseguir o que o professor exigiu, ficou Filipe II da Espanha foi surpreendido na
combinado que os meus colegas usariam estrada por uma forte e prolongada chuva,
pseudônimos. Foram escolhidos um tanto que o obrigou a pedir hospedagem na casa
arbitrariamente, geralmente ligados a nobres do lavrador Pedro Carrasco. Satisfeito com
famosos. Alguns deles estão vinculados ao o tratamento que lhe foi dado, mas que custa-
país de origem dos seus ancestrais. ra muitos incômodos ao lavrador, no dia se-
guinte ele disse:
From: Richelieu — Pedro, pela boa acolhida que me fi-
Beaugeste, conheço um fato da França zeste, percebo que tens amor ao teu rei. E
indicando a afabilidade com que os monar- estou disposto a conceder-te a graça que me
cas tratavam os súditos. peças.
 — Senhor, um homem como eu não tem
Durante uma caçada, o rei francês outra ambição nem outra esperança além de
Henrique IV distanciou-se do grupo. Encon- que a colheita seja boa. Se isso está ao al-
trando um camponês, e sem se identificar, cance de Vossa Majestade, então eu a quero.
pediu-lhe que o conduzisse a um determina- — Os reis não podem tornar a colheita
do local de encontro dos caçadores. O cam- boa ou má, conforme queiram, pois isso não
ponês se dispôs a acompanhá-lo, e no cami- depende deles.
nho manifestou o grande desejo que tinha — Então não se preocupe Vossa Majes-
de conhecer o rei. tade, que vou pedir essa graça a Deus.
— O senhor nunca o viu? — Mas, nas coisas que dependem dos
— Nunca. homens, não tens nada a pedir? Riquezas,
— Bem, então eu o mostrarei daqui a honras, casamentos para as filhas?
10 A volta ao mundo da nobreza

— De honras, senhor, não necessito além teando violentamente os cavalos, que não con-
das que me dá a minha consciência tranqüila. seguiam fazer o movimento adequado para
Riqueza, tenho a que me basta. Quanto às mi- desencalhar a carroça. O rei perguntou:
nhas filhas, eu as casarei eu mesmo, e creio — Por que maltratas assim esses pobres
que serão muito felizes. animais?
— Bem, mas não pedirás nada para ti? — Ora, se sois mais tarimbado que eu,
— Senhor, pedirei a Deus que não seja- podeis tomar este chicote e desencalhar a car-
mos novamente obrigados a encontrar-nos roça.
nesta terra, como hoje, mas que nos encontre- O rei tomou o lugar do carreteiro e tentou
mos no Céu.10:225 fazer o serviço, mas o movimento que conse-
 guiu dar à carroça acabou por virá-la. O carre-
Apresentou-se a Filipe II um soldado que teiro se pôs a praguejar e amaldiçoar o impru-
servira longamente no exército, e pediu: dente, que ponderou:
— Senhor, eu servi no exército de Vossa — Ora, meu amigo, o mal está feito. Ago-
Majestade durante toda a vida, e agora vejo- ra só nos resta consertar o erro. Mas nós va-
me na contingência de ir para a reserva sem mos ajudar.
ter o suficiente para comer. E tanto ele como o príncipe se puseram a
O rei concedeu-lhe uma pensão adequa- descarregar, empurrar, recarregar. Nesse mo-
da, mas alguns meses depois o soldado se apre- mento chegaram algumas pessoas que reco-
sentou para novo pedido. O rei contestou: nheceram o rei, e o disseram em voz alta. O
— Então não foi suficiente a pensão que carreteiro, apavorado com a informação, saiu
lhe concedi há poucos meses? correndo para esconder-se. Logo o monarca
— Sim, Majestade. Concedestes uma pen- mandou buscá-lo, e perguntou:
são que me basta para comer. Mas eu me es- — Por que fugiste? Nós não te ajudamos
queci de pedir uma pensão para beber. bastante, e não somos bons trabalhadores?
O sisudo Filipe II quase se permitiu rir do Toma isto, para consolar-te.
pedido, e concedeu um aumento de pensão ao E colocou algumas moedas nas mãos do
soldado.19:3:121 carreteiro. Em seguida voltaram os dois ao
palácio, com a roupa e os sapatos sujos de bar-
From: Chateaubriand ro, mas rindo-se a valer.27:1:576
Sempre me interessei pela literatura fran-
cesa, Beaugeste, por isso adotei como pseu- From: Schwartzenberg
dônimo o nome de um grande escritor fran- Beaugeste, tenho sangue alemão e admi-
cês, que era também de família nobre. Nessas ro muito as boas coisas que a Alemanha pro-
minhas andanças pela literatura, interessava- duziu. Acho que meu acervo de fatos poderá
me muito conhecer o papel dos vários perso- ser-lhe útil.
nagens históricos que apareciam nos livros, e 
com isso adquiri um bom conhecimento so- Em visita a uma escola de aldeia alemã,
bre eles. Creio que isso será útil ao seu traba- Frederico II recebeu um buquê de flores en-
lho, e começo hoje relatando um episódio tregue por uma menina, agradeceu e resolveu
distensivo. fazer-lhe um exame oral.
 — A que reino pertencem estas flores?
Um dia Luís XVI saiu de Versalhes com o — Ao reino vegetal.
príncipe de la Paix, ambos usando trajes co- Frederico deu-lhe uma moeda, e acrescen-
muns. Logo encontraram um carreteiro chico- tou outra pergunta:
1 — Nostalgia de um mundo com a doçura de viver 11

— E esta moeda, a que reino pertence? ficar no anfitrião, rei Guilherme I, o cavalhei-
— Ao reino mineral. ro que resolvera a sua pendência com o
— Parabéns! E eu, a que reino pertenço? cocheiro. Ele se aproximou e disse:
A resposta que deveria ser dada – ao reino — Agora a senhora entende por que devo
animal – pareceu pouco respeitosa à criança, e ser econômico: o dinheiro que eu gasto é dos
ela achou uma saída: meus súditos.
— Ao reino de Deus. — E estou entendendo também por que
Sorrindo, o soberano comentou: aquele vosso súdito tremia tanto.32:6914
— Aceito a tua resposta como uma mani-
festação do teu bom coração.32:5175 From: Chesterfield
 Quando era ainda príncipe de Gales, um
A escritora francesa Olimpia Andouard dia Eduardo VII caminhava sozinho por uma
viajava em carruagem de aluguel na Alema- estrada rural, e alcançou uma velhinha carre-
nha. Quando desceu, entregou ao cocheiro uma gando com cuidado uma cesta. Puxou conver-
moeda cujo valor ela julgava suficiente. O sa, enquanto andava ao seu lado, e perguntou:
cocheiro devolveu-a, falando alemão e gesti- — O que a senhora carrega nesta cesta?
culando furiosamente. Ela não falava a língua — Estou voltando do mercado e levo para
alemã e não sabia como resolver o assunto. casa os ovos que não consegui vender.
Nesse momento saía de uma casa próxima um — Ovos?! Mas eu estou interessado em
senhor distinto, que se aproximou e disse em ovos frescos. Se a senhora me ceder os seus,
francês: darei em troca um retrato da minha mãe.
— Vejo que a senhora não fala nossa lín- — Meu filho, que queres que eu faça com
gua. o retrato da tua mãe?
— Muito sonora, como podeis ver. — Quem sabe!...
— Seja como for, está claro que seria útil Chegaram à cabana da velhinha, e o prín-
conhecê-la. Mas não se preocupe, que eu re- cipe lhe deu então uma moeda de ouro onde
solverei o assunto. Quanto tempo durou a via- estava cunhado o perfil da rainha. Só então ela
gem? entendeu quem era o seu companheiro de es-
Obteve do cocheiro o valor que ele espe- trada.32:4682
rava receber, transmitiu-o à escritora e esta
efetuou o pagamento, mas notou que o infeliz From: Kaunitz
tremia dos pés à cabeça. O cavalheiro pergun- Alemanha e Áustria, além de países vizi-
tou-lhe ainda: nhos, têm origem étnica, cultural e histórica
— Quanto a senhora pretende dar de gra- muito próximas. Mas é bom conduzir inde-
tificação? pendentemente os dois países, portanto pro-
— Duas libras. ponho-me a cuidar da Áustria alegre e dan-
— Duas é demais. Basta uma, e não se çante, deixando ao Schwartzenberg a parte
deve desperdiçar dinheiro. maior do mundo germânico.
— O senhor está me parecendo um tanto 
avarento. Tendo ao colo o filho que se tornaria o
— Não avarento, mas econômico. imperador José II, a imperatriz Maria Tere-
Os dois se despediram, depois dos agra- sa passeava a pé pelas ruas de Viena e en-
decimentos e demonstrações de simpatia. À controu uma mulher pobre com o filho ao
noite a francesa estava entre os convidados de colo. A criança estava muito magra, e a im-
um banquete na corte, e espantou-se ao identi- peratriz penalizada deu à mãe uma moeda.
12 A volta ao mundo da nobreza

— O que poderei fazer com uma moeda rico quanto um rei, mas tendes a aparência de
de ouro, senhora? Meu filho caminha para a bondoso, e eu não teria em relação ao senhor
morte porque lhe falta o leite, pois o meu seio o medo que tenho dos tenentes do Royal-
secou. Lorraine.
A imperatriz tomou a criança nos braços e — Muito bem, Javotte! Já que você tem
lhe ofereceu o próprio seio, só devolvendo-a de mim essa boa impressão, pergunto-lhe o
depois de estar saciada.32:9268 que posso fazer por você.
 — Ora, senhor... Eu não sei...
Maria Teresa acompanhava pessoalmente — Não sabe? Pense em alguma coisa.
a construção do palácio de Schönbrunn. Um Ela se pôs a sorrir com um sorriso encan-
dia encontrou um bando de meninos que brin- tador, e disse:
cavam de modo perigoso, escalando o muro — Ah, eu o sei muito bem, mas...
com o risco de cair e fraturar até mesmo o pes- — Você quer que a ajude?
coço. Mandou chamar o chefe dos garotos e — É bem isso, se puderdes.
ordenou que lhe aplicassem alguns açoites. — Acho que já estou entendendo. Então
Muitos anos depois, quando assistiu a um con- responda-me francamente: você está noiva e
certo em sua homenagem, foi-lhe apresentado quer se casar?
o maestro e compositor Joseph Haydn. A face da jovem enrubesceu, e ela confir-
— Mas eu já vos conheço. Onde será que mou:
vos vi? — Isso é bem verdade, senhor.
— Majestade, a vossa lembrança está re- — Como se chama o seu noivo?
lacionada com uns açoites que mandastes apli- — Bastien Raulé, para vos servir.
car-me. — Qual a profissão dele?
— Ah, bem! Lembro-me daqueles açoi- — Talhador de pedras, senhor. É um bom
tes. Mas era só para impedir-vos de quebrar o emprego, mas bastante cansativo, e o deixa
pescoço. E podeis ver agora que agi bem.32:9269 todo empoeirado.
— E por que vocês não se casam?
From: Orloff — Chegastes à grande dificuldade, senhor,
Quando viajava incógnito pela França sob pois nos falta o dinheiro. Ele não é rico e eu
o pseudônimo de Conde do Norte, o grão-du- tenho um salário de dez escudos por ano.
que Paulo, que se tornaria depois o czar Paulo — Então é só por isso que não se casam?
I, foi atendido numa hospedaria por uma jo- — Apenas por isso, senhor. Até que ele
vem bela e inteligente. A esposa do grão-du- gostaria muito, e eu também.
que perguntou à jovem: — Ele é um rapaz bonito?
— Qual é o teu nome, minha querida? — Ah, quanto a isso, senhor, eu posso as-
— Madame, eu me chamo Jeanne, mas as segurar. Quando ele está bem lavado e bem
pessoas me conhecem por Javotte (faladeira), vestido, é mais belo que qualquer oficial do
porque acham que eu falo muito. Royal-Lorraine.
— Ah, então você gosta de conversar! Não — E quanto lhes falta para poderem ca-
quer conversar um pouco conosco? sar?
— Com prazer, se a senhora o deseja. — Muito dinheiro, senhor, mais do que
— Você não é tímida? – perguntou o grão- poderíeis dispor neste momento.
duque. — Quanto seria isso?
— Não tenho acanhamento em relação ao — Ainda precisamos de... cem escudos,
senhor. Sei que sois um grande príncipe, tão senhor.
1 — Nostalgia de um mundo com a doçura de viver 13

Querendo deixar à esposa o prazer da ge- fisionomia, totalmente deslocada naquele


nerosidade, o grão-duque lhe fez um sinal, e meio. Percebi o vosso acanhamento ao rece-
ela chamou: ber aquela esmola, e tive compaixão.
— Venha cá, Javotte, e estenda o seu aven- — Então foi o senhor que, para poupar-
tal. me a vergonha de ser confundida com aqueles
Tendo a jovem obedecido, ela abriu a bol- miseráveis, levava a sopa aonde eu estava, e
sa e colocou cem escudos de ouro no avental. ainda me pedia mil perdões por ter de limitar-
A alegria e o espanto foram tão grandes, que se a um socorro tão medíocre. O senhor me
ela exclamou: salvou a vida, dando-me aquele alimento, mas
— Meu Deus! Será que estou sonhando?! também compadecendo-se de mim por ver-
Sem se preocupar com as moedas, que me obrigada a mendigar publicamente.
caíram ao chão, ela se ajoelhou e tomou a fím- Em seguida ela lhe deu uma quantia de
bria do vestido da grã-duquesa, osculando-o que dispunha no momento, prometendo
com lágrimas nos olhos. No dia seguinte, com renová-la em outras ocasiões.58:1:338
o noivo endomingado, ela o apresentou ao ca-
sal, manifestando a mais sincera e comovida
gratidão.27:1:148 C aro amigo, você tinha idéia de que os
nobres agiam dessa maneira? Eu não ti-
nha a menor noção disso. Portanto, acho que
From: Montmorency você também gostará das coisas que ainda te-
Conheço alguns fatos sobre os dois sécu- nho a dizer, e talvez até queira colaborar co-
los que antecederam a Revolução Francesa, e migo na obtenção de outras.
os relatarei à medida que conseguir reencontrá- O bem é difusivo por si mesmo. Era atra-
los nos meus papéis. vés dessas relações cordiais que os grandes
 acabavam por conhecer misérias anônimas,
Depois de tornar-se viúvo, Luís XIV ca- porque a miséria torna isolado e desconheci-
sou-se secretamente, em 1686, com a dama do aquele sobre o qual ela se abate. Freqüen-
da corte Mme. de Maintenon. Quando crian- temente, pelas mãos delicadas da esposa e das
ça, embora fosse de família nobre, ela levara filhas, era dado aos grandes aliviar tantas do-
uma vida de muitas privações em conseqüên- res que de outra maneira teriam ficado sem
cia de uma reação armada de membros da no- remédio.89:247
breza contra o Trono, conhecida como Fronda. Para completar este primeiro dia, vou
Num dia em que se encontrava na antecâmara transcrever dois textos que me foram forneci-
dos seus aposentos em Versalhes, apresentou- dos por outro colega.
se um homem idoso que a abordou com res- 
peitosa ousadia: O carinho cheio de dignidade e respeito,
— Eu vi a senhora quarenta anos atrás, e que os súditos devotavam à família real,
suponho que não seríeis capaz de reconhecer- transparecia também no relacionamento entre
me. Mas não podeis ter-me esquecido com- a nobreza rural e os camponeses. A grandeza
pletamente. Certamente vos lembrais de que, dos senhores da terra não humilhava, mas
quando retornastes das Ilhas, todas as quintas- elevava aqueles que trabalhavam no campo.
feiras comparecíeis à porta dos jesuítas de La O fato de esses nobres provincianos residi-
Rochelle. Eu era encarregado de distribuir a rem próximo a seus auxiliares dava ensejo a
sopa aos pobres, e notei uma criança que viria manifestações recíprocas de solicitude e ab-
a ser a senhora, diferente daquela multidão de negação. O nobre Talleyrand, que teve pa-
mendigos. Notei a nobreza da vossa pel nefasto na Revolução Francesa, narra nas
14 A volta ao mundo da nobreza

suas Memórias os anos da infância passados acompanhá-la todos os domingos à missa pa-
junto à sua avó, Mme. de Chalais: roquial, desempenhando cada um funções que
a alta polidez enobrecia. Bem junto do
Mme. de Chalais era uma pessoa muito genuflexório de minha avó ficava a pequena
distinta. Seu espírito, sua linguagem, a nobre- cadeira que me destinavam.
za de suas maneiras, o som de sua voz, tinham Terminada a missa, todos nos dirigíamos
um grande encanto. Mantinha aquilo que ain- para uma ampla sala do castelo, chamada
da se chamava o espírito de Mortemart (era butique. Muito limpamente, e bem dispostos
esse o nome de sua família). em pequenas prateleiras, aí estavam os vidros
O tempo que passei em Chalais causou-me contendo ungüentos diversos, cujas receitas a
profunda impressão. O respeito devido à digni- velha residência conservava desde tempos
dade era a pauta que regrava, nessas províncias imemoriais. Todos os anos eram renovados,
distantes da capital, as relações dos antigos gran- pela solicitude do boticário e o desvelo do pá-
des senhores, ainda residentes em seus caste- roco do lugar. Havia também garrafas de elixir,
los, com a nobreza de uma ordem inferior e com xaropes e caixas contendo outros medicamen-
os habitantes de suas terras. A pessoa mais im- tos. Os armários guardavam provisão consi-
portante da província ter-se-ia por aviltada se derável de chumaços, grande número de rolos
não fosse polida e benfazeja. Seus distintos vi- de ligaduras de dimensões diversas, prepara-
zinhos considerariam faltar a si mesmos, se não das com velha roupa branca muito fina.
tivessem pelos seus antigos nomes de família Na sala que precedia a butique, esperavam
uma consideração e um respeito que, expressos reunidos todos os doentes que vinham procu-
com liberdades decentes, não eram senão uma rar socorros. Nós passávamos por eles e os
homenagem do coração. Sempre que os cam- saudávamos. Mademoiselle Saunier, a mais
poneses viam seus senhores, era para receber antiga camareira de minha avó, fazia-os en-
deles socorros e palavras encorajadoras e trar um após outro. Minha avó os recebia numa
consoladoras. poltrona de veludo, tendo diante de si uma
Alguns velhos senhores, terminada sua mesa negra de velha laca. Por direito, eu me
carreira de corte, sentiam prazer em retirar-se colocava junto à poltrona da princesa.
para as províncias que tinham contemplado a Duas irmãs de caridade indagavam de cada
grandeza de sua família. Aí, de volta aos seus enfermo suas moléstias ou suas feridas, em
domínios, gozavam de uma autoridade de afei- seguida diziam quais os ungüentos que podi-
ção, aumentada e aureolada pelas tradições da am curá-los ou aliviá-los. Então minha avó
província e pela recordação daquilo que tinham designava o lugar em que eles se encontravam,
sido seus antepassados. Dessa espécie de con- e um dos gentis-homens que a acompanhara à
sideração jorrava uma certa importância so- missa ia buscá-los. Outro trazia a gaveta com
bre aqueles que mais proximamente se senti- as ataduras. Eu pegava um maço, passava-o a
am objeto de seus favores. minha avó, e ela mesma cortava as bandas e
Chalais era um dos castelos daquele tem- as compressas de que necessitava.
po saudoso e querido. Muitos gentis-homens Os doentes levavam para casa ervas para
de velha estirpe formavam aí, para minha avó, chá, vinho, remédios e alguns outros confor-
uma espécie de corte. Nessa pequena corte os tos, dos quais o mais tocante eram as bondo-
hábitos de deferência se conjugavam com os sas palavras da boa dama, que os socorria em
sentimentos mais elevados. Os senhores de suas necessidades e se apiedava de seus sofri-
Benac, de Verteuil, de Gourville, d’Absac, de mentos. Os melhores remédios receitados por
Chauveron, de Chamillart, tinham gosto em médicos de grande fama, ainda que distribuí-
1 — Nostalgia de um mundo com a doçura de viver 15

dos também gratuitamente, não conseguiriam aquela elegância e urbanidade que constituí-
reunir tantos indigentes. Sobretudo, não lhes am a verdadeira escola do bom gosto e da gra-
proporcionariam tão grande bem, pois faltar- ça. Um grande interesse animava constante-
lhes-iam os eficazes efeitos morais que facili- mente os salões, mas era sempre a mesma coi-
tam a cura do povo: a obsequiosidade, o res- sa que se discutia. Eu procurava em vão, nas
peito, a fé e a gratidão. conversas, aquela variedade, aquela jovialida-
As lembranças do que vi e ouvi nesses de, aquela tolerância mútua, aquela amável
primeiros albores de minha vida são para mim leveza que as tornava antes tão atraentes.76:194
de uma doçura extrema. Repetiam-me cada
dia: ‘Desde sempre o vosso nome é objeto de
veneração nesta terra’. Outro dizia-me afetuo-
samente: ‘Nossa família sempre esteve ligada
A ssim, meus caros amigos, podemos
apresentar como conclusão deste pri-
meiro dia que os reis e nobres, de modo ge-
a alguém de vossa casa. A terra que nós te- ral, não eram os monstros que imagina a
mos, foi de vosso avô que a recebemos. Foi nossa cabeça impregnada de igualitarismo.
ele quem construiu a nossa igreja. A cruz de Que nobres tenham cometido erros, é assunto
minha mãe foi presente de Madame. As boas indiscutível. E quem não os comete, nobres
estirpes não degeneram’. ou não? Portanto, minha intenção não é ino-
Foi em Chalais, junto de minha avó, que centar ninguém, pois sei que alguns dos per-
sorvi todos os bons sentimentos... elevação sonagens dos fatos citados – e certamente
sem orgulho... respeito... ternura sem familia- ocorrerá o mesmo em muitos dos que ainda
ridade... afeto... porque há uma herança de sen- virão – tiveram ação decididamente censu-
timentos que cresce de geração em geração.107:8 rável. Para quem se limita às falácias da His-
Não conhece a doçura de viver, quem não tória tendenciosa e mal contada, a existên-
viveu na França antes de 1789.52:43 cia desses maus exemplos é tomada como
pretexto para condenar todos os nobres ou

N o segundo texto, o conde Luís-Filipe


de Ségur descreve o que encontrou quan-
do voltou da Rússia, onde permanecera cinco
para invalidar o que de bom eles fizeram.
A vida no Antigo Regime era muito
agradável, num pleno entendimento e har-
anos como embaixador. Paris estava em plena monia entre as classes de modo geral, con-
efervescência revolucionária, em outubro de trariando a idéia que se tem hoje, difundida
1789. Comparando a situação de então com a pelos artífices e adoradores da Revolução
que deixara ao partir, escreveu: Francesa. Em meio à abundância de bens
Ao rever a sociedade que fizera o encanto materiais, o nosso mundo atual é muito po-
da minha juventude, encontrei-a com mais vi- bre de um bem fundamental que fazia a ri-
vacidade, mais animada que outrora. Era difí- queza e felicidade daquele mundo antigo.
cil deparar com a indolência e o tédio. No en- Perambula-se hoje de prazer em prazer, mas
tanto, não se via mais aquela doçura de viver, permanece no fundo da alma a

Nostalgia de um mundo
com a doçura de viver
16 A volta ao mundo da nobreza

2º dia

From: Joinville ma: Todos os dias ele dava de comer a gran-


Amigo Beaugeste, acessei ontem o seu de número de pobres, em sua própria casa,
blog, e quero que me considere um colabo- e várias vezes eu vi que ele mesmo lhes cor-
rador de primeira hora, pois já me disponho tava o pão e lhes dava de beber. Seria erro
a fornecer-lhe os dados que conheço. E não acreditar que estes eram traços limitados em
são poucos. Acontece que eu sempre achei particular à magnífica bondade de São Luís.
estranha a idéia que a maioria das pessoas Roberto o piedoso, entre outros, agia da
tem, de que os nobres levavam uma vida iso- mesma forma. Foi uma tradição, entre nos-
lada do resto da população, não se mistura- sos antigos reis, a de se mostrarem acolhe-
vam com os de baixa categoria. Isso não dores e beneficentes, sobretudo em relação
combinava com o conceito que tenho de aos pequenos e humildes.50:35
nobreza. Se fosse como dizem ou pensam 
as pessoas, isso equivaleria às antigas cas- Contrariamente ao que muitos imagi-
tas do mundo pagão, ou seja, a caridade cristã nam, desde a Idade Média os reis sempre
teria passado longe deles. E não podia ser tiveram íntimo contato com seus povos.8:71
verdade, porque sei que a influência cristã a Os embaixadores venezianos do século XVI
partir da Idade Média foi enorme, atingindo constatam, nos seus célebres despachos, que
não só o povo simples, mas a sociedade de na França nenhuma pessoa era excluída da
um modo geral. Por isso comecei a procurar presença do rei, e as pessoas da classe mais
os elementos que me permitiriam afirmar o baixa penetravam ousadamente em seu sa-
contrário. E já encontrei muita coisa, que irei lão íntimo. O rei comia diante de seus súdi-
colocando à sua disposição. Vou começar tos, em família, e cada um podia entrar na
relatando alguns fatos indicativos de quanto sala durante a refeição. O próprio Luís XIV
os reis e nobres eram acessíveis ao povo. afirmou: Se há um caráter singular nesta
 monarquia, é o acesso livre e fácil dos súdi-
São Luís IX, que governou a França de tos ao príncipe.50:37
1226 a 1270, tinha o costume de sentar-se às 
tardes à sombra do carvalho de Vincennes, para Locatelle escreveu em 1665: “Fui ao
atender os pedidos que as pessoas do povo lhe Louvre, onde caminhei com toda liberdade.
queriam fazer. Qualquer camponês ou artesão Transpondo os diversos corpos da guarda,
podia aproximar-se do rei sem intermediári- cheguei àquela porta que se abre – as mais
os, e podia obter imediato atendimento a al- das vezes pelo próprio rei – quando alguém
gum pedido que fizesse. Muitos séculos de- nela toca. Basta tocar de leve, e logo se é
pois, o rei Luís XIV não desdenhava de rece- introduzido. O rei quer que os súditos en-
ber pessoalmente em certos dias, nos jardins trem livremente”.50:37
de Versalhes, quaisquer pessoas do povo que 
desejassem recorrer diretamente a ele.8:71 Em Versalhes, andava-se pelo palácio
 como numa feira. Tudo permanecia aberto
São Luís tratava seus súditos com intei- para qualquer um, e a única condição era a
ra familiaridade. O senescal Joinville afir- obrigatoriedade de portar uma espada, que
2 — Os reis estavam ao alcance do povo 17

podia ser alugada por pouco dinheiro. Luís 


XV, entrando certa ocasião no seu quarto, Na época de Fernando VII, uma das
deparou com um senhor muito perplexo. grandes distrações populares era quando o
Após ter-se perdido no dédalo de corredo- rei voltava do passeio. O povo tinha então
res, abrira uma porta qualquer. Sem encon- permissão para aproximar-se do soberano
trar nenhum oficial que lhe barrasse o cami- espanhol, indo até a chamada meseta de los
nho, vira-se nos aposentos reais. Pode-se leones, e podia mesmo conversar com ele e
imaginar a surpresa do rei e a confusão do beijar-lhe a mão. Alguns aproveitavam para
visitante, que por honestidade queria a todo fazer-lhe um pedido, que o rei ouvia com
custo ser revistado. Um rapaz que trabalha- atenção.109:2859
va no palácio reconheceu-o como cozinhei-
ro de um seu amigo, e o qualificou como o From: Montmorency
primeiro homem do mundo num boeuf à Beaugeste, o que eu tenho lido confirma
l’écarlate. O rei lhe deu cinqüenta luíses, inteiramente o que afirmou o Joinville. Era
para compensá-lo do susto.41:50 até mais fácil falar com o rei do que com os
 ministros. Dou-lhe alguns exemplos.
Um clérigo inglês percorreu livremente 
todas as galerias e salões de Versalhes e pre- Depois de vários meses de tratativas com
senciou as cerimônias abertas ao público, os ministros de Filipe II sobre um negócio
embora estivesse vestido de modo inadequa- importante, um aragonês resolveu expor seu
do. Mas ele meteu na cabeça que devia tam- assunto diretamente ao rei, que lhe disse:
bém assistir ao jantar do rei. Um mestre de — Lamento, mas o que o senhor pede é
cerimônias o interpelou: impossível.
— O senhor não pode entrar assim, com — Fico imensamente agradecido a Vos-
o colete vestido pelo avesso. sa Majestade por essa resposta favorável.
O clérigo acertou a posição do colete. — Espero que o senhor tenha entendido
— Mas a casaca está desabotoada. bem as minhas palavras: é impossível aten-
O inglês corrigiu a falha. der o seu pedido.
— Isso ainda não basta, pois o chapéu — É exatamente por isso que estou agra-
que o senhor usa é redondo. decendo. Os vossos ministros me disseram
Ele achatou o chapéu e o colocou debai- palavras vãs durante meses, fazendo-me per-
xo do braço. der tempo e dinheiro. Vossa Majestade re-
— O senhor é tão engenhoso para solveu-me o problema com apenas duas pa-
metamorfosear a toalete, que não farei mais lavras.19:3:182
objeções. 
E o clérigo assistiu tranqüilamente ao Outro fato semelhante. Um cavalheiro
jantar do rei.41:49 pediu ao rei francês Luís XI um favor, mas
 lhe foi recusado. Em vez de entristecer-se,
Luís XV tinha a habilidade de cortar com ele começou a dar demonstrações de con-
um só golpe do seu garfo a casca de um ovo. tentamento, rindo-se e esfregando as mãos.
Aos domingos, quando era permitido a qual- O rei lhe fez a observação:
quer visitante do palácio assistir à refeição — Parece-me que o senhor entendeu mal.
do rei, muitos se distraíam com essa minúcia, Eu estou recusando o que me foi pedido.
ao invés de prestar atenção na grande figura — Entendi exatamente como uma recu-
que ele representava.27:2:414 sa, e estou muito contente por isso.
18 A volta ao mundo da nobreza

— Agora sou eu que não estou enten- igreja de Nossa Senhora da Glória. Quando
dendo. cheguei, o templo já estava cheio de fiéis.
— Considero um grande favor a recusa As poltronas reservadas para a corte eram
clara e imediata que Vossa Majestade me fez. as únicas ainda desocupadas. Diante da igre-
Isso vai me poupar muito tempo de espera e ja, na plataforma de onde se domina a vista
muitos passos, ambos inúteis, que eu teria do golfo, amontoava-se uma multidão de
se Vossa Majestade me desse alguma espe- diversas cores. Do branco mais puro ao ne-
rança. gro mais escuro, todas as tonalidades da pele
O rei gostou da explicação, e acabou humana ali se achavam representadas.
concedendo o favor pedido.32:8582 O sol poente dourava com seus últimos
 raios esse vasto lençol de rochedos fantásti-
Um casal apresentou um requerimento cos, todo esse conjunto de céu e mar, de gra-
a Frederico II. Depois de lê-lo, o monarca nito e vegetação, que faz da baía do Rio uma
prussiano orientou: das maravilhas do mundo. Os sinos todos
— Vocês devem apresentar este reque- dobram, soltam-se foguetes, e os petardos
rimento à câmara. se juntam com seu barulho ensurdecedor. É
— Já o apresentamos, senhor. a corte que se aproxima.
— Neste caso, não posso fazer mais Guiado pelo acaso, penetrei por uma
nada. porta entreaberta num pequeno jardim dan-
Tomando a mulher pelo braço, e come- do para a plataforma, onde o proprietário e
çando a retirar-se, o homem disse a ela: sua família receberam o desconhecido com
— Vamos embora. Está claro que ele hospitalidade verdadeiramente brasileira. Foi
combinou isso com a câmara. dali que pude lançar o olhar em profundida-
O rei deu uma gargalhada e resolveu de e ver o Imperador dando o braço à Impe-
atendê-los.19:4:19 ratriz, acompanhado da Princesa Imperial e
do Conde d’Eu, subir a pé a rampa muito

A gradeço ao Joinville e ao Montmorency


os fatos interessantes e ilustrativos. Eu
também conheço muitos outros semelhan-
inclinada que conduz à igreja. Uma multi-
dão compacta de povo os cercava. Nenhu-
ma ala militar, nenhum policial. Dom Pedro
tes no Brasil. encontrava-se no seio de sua grande famí-
 lia, e ali se sentia bem. Espetáculo admirá-
Após a sua viagem ao Brasil, o Conde vel que me impressionou vivamente, porque
Alexandre Hübner, diplomata austríaco, pu- recordava-me cenas semelhantes do meu
blicou no “Le Figaro”, em 18/10/1882, um país.72:16
artigo sob forma de carta dirigida ao povo 
brasileiro, no qual diz: Todo o mundo, sem exceção, podia ser
Oriunda de duas das mais ilustres e mais facilmente admitido à presença de D. Pedro
antigas famílias reinantes, a dinastia que vejo II, não se precisando para isso nem de ves-
à vossa frente identifica-se convosco nos tuário apropriado, nem de bilhete especial,
bons e nos maus dias. Aliando a simplicida- nem de qualquer declaração ou outra forma-
de à dignidade, pode servir de modelo ao lidade, e muito menos de empenhos de polí-
mais suntuoso como ao mais humilde lar. ticos ou de gente do paço. Bastava apresen-
Um fato, sobretudo, me impressionou. tar-se em palácio, declinar o nome, que era
A 15 de agosto, a festa da Virgem foi cele- lançado num grande livro, e penetrar naque-
brada com a pompa tradicional, na antiga las salas abertas a todos. Benjamim Mossé
2 — Os reis estavam ao alcance do povo 19

afirma: Cada um pode apresentar-se como — Soldados, haverá uns vinte. Mas ne-
quiser, de casaca, de uniforme, de blusa, de nhum se ocupa de quem entra nem de
roupa de trabalho; nem por isso deixa de ser quem sai.
recebido por Sua Majestade. O mais humil- Aimard narrou desta forma a entrevista:
de negro, em chinelos ou pés descalços, pode Entrei no palácio, subi uma larga esca-
falar ao soberano.72:19 daria atapetada, no alto da qual encontrei
 uma pessoa que imaginei ser um porteiro,
Escragnolle Dória, conhecido historia- mas que era um camarista. Perguntei-lhe
dor e escritor, confirma: Era só chegar e es- onde estava o Imperador, e ele me indicou:
perar a sua vez, certo de ser atendido. Cada — Em frente, na segunda porta à es-
qual trazia o seu interesse e dava o seu re- querda.
cado sem vexame, na sua gramática. O Im- Atravessei um imenso salão, que pare-
perador costumava referir-se a essas audi- cia estreito por causa de seu extenso com-
ências públicas como ‘receber a minha fa- primento. Estava deserto, completamente
mília brasileira’. Certa vez, falava ao Im- sem móveis, não tendo nem mesmo um ban-
perador uma mulher de cor, já idosa, cabe- co. Em compensação, as paredes se acha-
ça nua, mãos trêmulas, xale aos ombros, vam cobertas de quadros, dos quais quase
vestido de chita, sapatos e meias usados. todos me pareceram de bons mestres e de
Aproximou-se acanhada, dirigiu-se ao so- várias escolas. Alguns deles chamaram mi-
berano, e no perturbado da exposição dei- nha atenção, parecendo-me de grande valor.
xou cair papéis, sem dúvida de apoio à Fiquei de tal modo absorvido por essas te-
modestíssima pretensão. Apanhou-os o las, que esqueci por muito tempo o que ti-
Imperador, restituiu-os e continuou a ouvir nha ido fazer ali. Duas pessoas que saíam,
por muito tempo, despedindo a suplicante conversando em voz alta, chamaram-me à
com um sorriso de bondade e gesto de enco- realidade. Abri a porta que o desconhecido
rajamento, ficando a segurar os documentos me tinha indicado, e achei-me noutro salão,
que ela lhe confiara.72:19 este muito bem mobiliado, no qual se via
 uma meia dúzia de capuchinhos comoda-
O romancista Gustavo Aimard, que vi- mente sentados, todos cochichando uns com
sitou o Brasil três vezes, escreveu sobre nos- os outros. Atravessei uma galeria bastante
so País o livro Brésil Nouveau. Estava no estreita, mas muito longa, cheia de gente. O
Rio havia oito dias, em 1881, quando seu Imperador se encontrava no fim da galeria.
amigo Sohier lhe sugeriu que fosse ao Palá- Reconheci-o logo pela sua elevada estatura,
cio da Boa Vista visitar o Imperador. Per- pela barba loura entremeada de fios de pra-
guntou então qual seria a etiqueta. O amigo ta, e pela fisionomia sorridente.72:20
riu-se, e lhe deu a explicação: 
— Nos sábados, as audiências imperiais O conde d’Ursel, secretário da legação bel-
são públicas, e duram de duas às cinco da ga no Brasil, aqui desembarcou em 9 de de-
tarde. Os candidatos a um encontro com o zembro de 1873. Narra a visita a D. Pedro II:
soberano entram no palácio, sobem ao se- Estava o palácio imperial aberto a todo
gundo andar, atravessam uma longa galeria o mundo, e os veadores do soberano acolhi-
e entram na sala das audiências, sem nin- am os visitantes com a maior cordialidade.
guém para lhes embargar os passos. Ao limiar daquele palácio, sentia-se que o
— Então não há soldados, funcionários dono da casa a todos recebia benévola e bon-
e guardas? dosamente. Era sábado, dia de audiência
20 A volta ao mundo da nobreza

pública, por assim dizer, pois toda e qual- constantemente abertas a todos os brasilei-
quer pessoa era admitida a falar a D. Pedro ros. O Imperador apareceu no extremo da
II. Na extremidade da longa galeria avistei galeria, e o preto levantou-se. Seria o pri-
o Imperador vestido de preto, parando em meiro a falar ao soberano, e ninguém se lem-
frente a pessoa por pessoa, estendendo brou de lhe disputar a precedência. O Impe-
freqüentemente a mão e ouvindo o rador lhe perguntou:
interlocutor, sempre com visível atenção. — Então, como está? Que é que temos?
Nada mais impressionante do que o espetá- — Estou bom, sim senhor. E vosmecê?
culo ao mesmo tempo simples e comovedor Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário
que eu tinha diante dos olhos. Havia pesso- na guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com
as de modesta posição, vestidas pobremen- um braço ferido por bala. Curei-me, e conti-
te, esperando a vez para, sem intermediário nuei até o fim de tudo. Depois voltei e caí no
algum, submeter ao soberano a sua petição. meu ofício de empalhador. Há um ano adoeci
O Imperador, com benevolência e dignida- do fígado, e o Dr. Miranda, na Santa Casa, me
de, deixa chegarem-se a ele todos dentre os fez uma operação. Nunca mais tive saúde.
seus súditos que têm uma reclamação a fa- Agora, não posso mais trabalhar no ofício, e
zer ou um favor a pedir. É voz corrente que não tenho vintém para comprar farinha. Na
esta prática excelente serve por vezes de freio secretaria do Império há falta de servente, e eu
salutar aos funcionários que se deixam le- fui falar com o ministro. Mas o ministro não
var a arbitrariedades.72:21 fala com toda a gente. Estão lá uns mulatinhos
 pernósticos, que me dizem sempre: “Você es-
O conselheiro Nuno de Andrade descre- pere”. Eu espero, sim senhor; e depois os
veu uma audiência do Imperador: mulatinhos me mandam embora, porque o
Às cinco horas em ponto desci do tílburi, ministro não recebe mais ninguém. Já três ve-
junto à portinha baixa onde uma sentinela zes isso me aconteceu. Então fiquei zangado e
cochilava. Não se pedia licença para entrar. pensei assim: vou falar ao Imperador, que é
Tomei a escada da direita, e fui ter a um lon- nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora,
go salão retangular quase sem móveis, com pois, eu queria que vosmecê me desse um
grandes quadros nas paredes. O Freire, cria- bilhetinho para o ministro...
do da casa e meu conhecido, disse-me: O Imperador chamou o general Miranda
— O Imperador não tarda. Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe
Cerca de quinze pessoas esperavam D. algumas palavras. Voltando ao preto, expri-
Pedro II, e entre elas um preto vestido de miu-se assim:
brim pardo, sem gravata, com uns grandes — Vá com Deus. Fico sendo seu procu-
sapatos muito bem engraxados. Depreendia- rador, e tratarei do seu negócio.
se do lustro do calçado que o preto cuidara — Mas eu tinha vontade de mostrar
de parecer asseado; como era idoso, a inten- àqueles mulatinhos pacholas...
ção traduzia certa altivez nativa. Tinha ido a — Não tem nada a mostrar. Vá para sua
pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se casa e espere.
no chão da galeria. O Pederneiras, com sua Alguns dias depois, contou-me o gene-
barba branca, chegou-se a mim, indicou o ral Miranda Reis que o Imperador mandara
preto e disse filosoficamente: alojar o antigo voluntário numa casinha da
— Ainda querem mais liberdade nesta Quinta, e ordenara ao comendador João Ba-
terra... tista que lhe suprisse a mensalidade de 40
Instintivamente olhamos para as portas, mil réis, pedindo desculpas de não poder dar
2 — Os reis estavam ao alcance do povo 21

mais. E o João Batista, honrado mineiro, pro- E jogou o cigarro ao chão. Logo depois,
digiosamente econômico, amofinava-se com dois policiais lhe deram ordem de prisão e o
as freqüentíssimas decisões desta espécie, conduziram à cadeia. Ao ser interrogado,
sustentando em voz fraca e lacrimosa que, perguntaram-lhe:
das quatro operações, o sábio Imperador só — Por que conversaste com o czar na
conhecia a de dividir.72:22 rua? Não sabes que é proibido?
— Czar?! Que czar?! Não conversei com
From: Orloff nenhum czar.
Beaugeste, acho muito bonita a acessi- Percebendo que de fato o rapaz não sa-
bilidade dos reis, que os fatos de hoje de- bia com quem estivera conversando, eles o
monstram. Mas isso precisa de um limite, consideraram inocente e se dispunham a
pois as atividades deles certamente seriam liberá-lo, mas foram antes relatar a Nicolau
prejudicadas se pudessem ser abordados por o que sucedera. Ele mandou que trouxessem
qualquer um a qualquer hora. Até dentro de o rapaz à sua presença, pediu-lhe desculpas
uma simples família existem tais limites, e se ofereceu para ajudá-lo no que fosse pos-
sejam explícitos ou implícitos. Vou apresen- sível. O rapaz se limitou a pedir:
tar um exemplo de limitação explícita que — Majestade, há um favor que podeis
havia na Rússia. fazer-me: se me encontrardes novamente na
 rua, agora que vos conheço, peço que não
De volta ao palácio real, o czar Nicolau I me dirijais a palavra.32:10682
viu um rapaz diante da porta, fumando um
cigarro. Aproximou-se e disse:
— Percebe-se que o senhor não é daqui,
pois não sabe que em São Petersburgo é proi-
O episódio narrado pelo Orloff reflete
apenas uma limitação, necessária em
assuntos dessa natureza. Mas o conjunto
bido fumar nas ruas. desses exemplos mostra que as coisas se
— De fato, sou francês e não conhecia passavam de modo muito diferente do que
esta norma. Agradeço-vos, “general”, pela nos foi ensinado. Podemos afirmar com toda
advertência. a segurança que

Os reis estavam ao
alcance do povo
22 A volta ao mundo da nobreza

3º dia

C aros amigos, várias mensagens que re-


cebi indicam que o assunto de ontem
despertou muito o interesse e a admiração,
am de que a corte da França fosse suntuosa,
ou que o palácio de Versalhes fosse o mais
admirado do mundo. Para a corte francesa,
tanto dos colaboradores que já se apresenta- o esplendor era indispensável. E não era a
ram quanto de outros novos que vão se in- vaidade dos príncipes, mas a vaidade do
corporando. E me foram enviados mais fa- povo que o tornava necessário. Um burguês
tos na mesma linha, que incluo no dia de parisiense comentou de modo muito sério
hoje. Um estudioso da família na época do com um inglês:
Antigo Regime francês definiu muito bem o — O que é feito do vosso rei? Ele está
amor do povo aos seus reis, nos textos abai- mal acomodado, dá até pena... Veja o nos-
xo que me foram enviados pelo Delassus, so... Não é soberbo este palácio? Tendes um
um novo colaborador. semelhante para mostrar? Que grandeza e
 que brilho! Nossos príncipes de sangue têm
O amor e afeição dos franceses pela pes- uma corte mais brilhante do que a do vosso
soa dos seus reis era parte essencial e rei da Inglaterra.
marcante do caráter nacional. A palavra roi Dessa maneira o povinho se glorificava
provocava no espírito dos franceses idéias com a magnificência dos seus reis.41:81
de beneficência, de reconhecimento e de 
amor, ao mesmo tempo que as de poder, Os males dos quais as pessoas reclama-
grandeza e felicidade. Os franceses acorri- vam, ninguém pensava em atribuí-los à rea-
am em multidão a Versalhes, nos domingos leza ou ao rei. Em todos os registros, os fran-
e dias de festa, olhando seu rei com uma ceses demonstravam um ardente realismo,
avidez sempre nova, e o olhavam pela vigé- um ardente devotamento à pessoa de Luís
sima vez com tanto prazer como na primei- XVI. Sobretudo nos registros do primeiro
ra. Eles o viam como seu amigo, protetor e grau, ou das paróquias, era um grito de con-
benfeitor. Diz o general Marmont: Antes da fiança, de amor, de gratidão: Nosso bom rei!
Revolução, tinha-se pela pessoa do rei um O rei nosso pai! – eis como se exprimem os
sentimento difícil de definir, um sentimento operários e os camponeses. A nobreza e o
de devotamento com caráter quase religio- clero, menos acanhadamente entusiastas, se
so. A palavra roi tinha ainda uma magia e mostravam também realistas.50:39
um poder em nada alterados. Esse amor se
tornava uma espécie de culto.50:38

O povo francês sentia-se vaidoso em
N ão posso deixar de acrescentar alguma
coisa sobre a minha inesquecível Ma-
ria Antonieta.
obedecer aos seus reis, em comparação dos 
quais todos os demais monarcas da Europa Em carta à sua mãe, imperatriz Maria
ou da Ásia não passavam de reis de provín- Teresa, a futura rainha da França narrou a
cia. Orgulhava-se do incontestável prestígio sua entrada juntamente com o delfim (futu-
dessa augusta família, à qual estavam liga- ro Luís XVI) em Paris: “Quanto às honras,
dos seus destinos. Não pouco se envaideci- recebemos todas as que se possam imagi-
3 — A figura do rei desperta o respeito e a veneração do povo 23

nar. Mas o que mais me tocou foi a ternura e sem velhos amigos. Não poderiam faltar as
a solicitude dessa pobre gente, que estava inúmeras cançonetas, uma das quais fez
enlevada de alegria por nos ver. Quando fo- muito sucesso e foi mesmo repetida em ou-
mos passear nas Tulherias, havia uma mul- tras ocasiões pelo próprio rei:
tidão tão grande, que ficamos quase uma
hora sem poder avançar nem recuar. O del- Não receeis, caro papai,
fim e eu recomendamos com insistência aos Que aumente vossa família;
guardas que não maltratassem ninguém, o Dela cuidará o bom Deus.
que produziu muito bom efeito. Houve tan- Qual formigueiro cheio em Versalhes,
ta ordem nesse percurso, que ninguém se De Bourbons haja centenas
feriu, apesar do grande número dos que nos Com pão e sucesso para todos.15:150
acompanharam. Na volta, subimos a um ter- 
raço e aí ficamos meia hora. Não consigo Entre os que afluíram a Versalhes a fim
transmitir, mamãe, o arrebatamento de ale- de manifestar ao rei e à rainha o contenta-
gria e afeto que nos foram manifestados. mento dos franceses pela existência de um
Antes de nos retirarmos, saudamos o povo herdeiro sucessor do trono, Maria Antonieta
com as mãos, e todos gostaram muito. Como recebeu três representantes da grande comi-
é bom, na nossa condição, conquistar a ami- tiva de mulheres parisienses de vida fácil.
zade de um povo por tão pouco! Nada exis- Uma delas externou o sentimento de todas:
te tão precioso. Eu o senti, e disso jamais — Madame, há muito tempo nós vos
me esquecerei”.86:249 amamos, mas não ousávamos dizê-lo. Pre-
 cisamos de todo o vosso respeito para não
A rainha Maria Antonieta passeava a abusar da permissão que agora nos concedeis
cavalo no Bois de Boulogne e encontrou Luís para manifestá-lo.59:179
XVI, que havia dispensado a guarda e cami- 
nhava acompanhado por um grupo de curi- Em meio aos sofrimentos e apreensões
osos. Apeou do cavalo, o rei correu para ela dos anos que vão da queda da Bastilha à exe-
e a abraçou, beijando-a na fronte. A multi- cução do rei e da rainha, os insultos e agres-
dão aplaudiu comovida, e então o rei com- sões dos revolucionários eram parcialmente
pletou sua demonstração de carinho depon- compensados por muitas demonstrações de
do-lhe um ósculo em ambas as faces. O en- fidelidade e devotamento. Em Saint-Cloud,
tusiasmo da multidão chegou ao auge, e se numa tarde em que não havia a guarda a
fez ouvir em todo o bosque.41:86 postos e o palácio estava quase vazio, a rai-
 nha trabalhava nos seus aposentos quando
Por ocasião do nascimento do delfim – ouviu um murmúrio de muitas vozes no pá-
primeiro filho do rei Luís XVI e Maria tio diante das suas janelas fechadas. Abriu-
Antonieta, com direito à sucessão – toda a as e viu um grupo de umas cinqüenta pesso-
França comemorou o evento com alegria as, composto de algumas mulheres com tra-
esfuziante. Sucessivas delegações de todas jes de camponesas locais, velhos cavaleiros
as classes, de todas as corporações de ofí- de São Luís, jovens cavaleiros de Malta e
cio, de todas as regiões do país se apresenta- alguns eclesiásticos. Cumprimentou-os ama-
vam em Versalhes para felicitar o casal real velmente, e eles lhe disseram:
e dar as boas vindas ao herdeiro do trono. — Tende coragem, senhora. Os bons
Nas ruas, desconhecidos se cumprimenta- franceses sofrem por vós e convosco. Re-
vam e se abraçavam alegres, como se fos- zam também por vós, e o Céu nos atenderá.
24 A volta ao mundo da nobreza

Nós vos amamos e vos respeitamos, e vene- população estava furiosa apenas por ter-se
ramos nosso bom rei. deixado manipular pelos líderes revolucio-
Com lágrimas nos olhos, a rainha agra- nários, convencendo-se das calúnias que es-
deceu e se despediu, recomendando-lhes que tes divulgavam. Atrás de uma grande mesa,
tivessem prudência.15:273 e cercada por seus filhos e pessoas de confi-
 ança, Maria Antonieta foi insultada por uma
No dia seguinte ao retorno da família real jacobina das mais furiosas. A rainha lhe per-
francesa de Versalhes a Paris, algumas das guntou:
mulheres que participaram das atrocidades — Já me havíeis visto antes?
desse dia se reuniram diante da janela dos — Não.
aposentos da rainha nas Tulherias e grita- — Eu já vos fiz pessoalmente algum
ram: mal?
— Queremos ver a rainha! — Não, mas fazeis mal à nação.
Ela se apresentou, e uma das mulheres — Isso é o que outros vos disseram, mas
que agia como líder do grupo assumiu um fostes enganados. Sou esposa do rei da Fran-
papel como o de conselheira, dizendo: ça e mãe do delfim. Sou francesa, e jamais
— É necessário que a senhora se afaste voltarei ao país onde nasci, portanto só po-
de todos esses cortesãos que desencaminham derei ser feliz ou infeliz na França. E eu era
os reis. E também é preciso amar o povo feliz quando o povo me amava.
desta cidade. A megera jacobina começou a chorar, e
— Mas eu já vos amava enquanto morei disse:
em Versalhes, e agora continuarei a amar- — Isso aconteceu porque eu não vos
vos morando entre vós. conhecia. Mas agora vejo que sois boa.15:336
— Sim, mas no dia 14 de julho queríeis
sitiar e bombardear a cidade; e no dia 6 de
outubro pretendíeis fugir para a fronteira.
— Isso é o que vos disseram, e infeliz-
A Revolução Francesa executou na gui-
lhotina o rei e a rainha, dizimou grande
parte da nobreza francesa e instalou a repú-
mente acreditastes. Os que espalham essas blica, seguindo-se o império ditatorial de
falsidades são os mesmos que promovem a Napoleão até 1814. Depois das gloriosas
infelicidade do povo e a do melhor dos reis. batalhas de Napoleão, que subverteram toda
Uma delas disse alguma coisa em ale- a ordem na Europa, o povo ansiava pela volta
mão, como para insultá-la com o epíteto de da monarquia. Restaurada esta, o conde de
“a austríaca”, que os revolucionários usa- Provence assumiu com o nome de Luís
vam, e a rainha prontamente a interrompeu: XVIII. Impossibilitado pela gota, foi repre-
— Eu não entendo o que falais. Agora sentado no desfile pelo seu irmão, conde de
sou tão francesa quanto vós, e até esqueci a Artois. O historiador Georges Bordonove
minha língua materna. narra a recepção calorosa feita na ocasião:
Prolongados aplausos se seguiram a esta 
resposta, e depois uma delas pediu-lhe como O conde de Artois fez a sua entrada so-
lembrança a fita que prendia os seus cabe- lene em Paris, no dia 10 de abril de 1814.
los. Foi-lhes entregue, e logo repartida entre Não havia nas casas janelas suficientes para
elas com alegria.15:251 conter a multidão entusiasmada, que ficara
 rouca de tanto gritar. O tempo estava esplên-
O assalto dos amotinados às Tulherias dido. O sol de abril iluminava aquela profu-
forneceu exemplos de como essa parte da são de bandeiras brancas, flores, fisionomias
3 — A figura do rei desperta o respeito e a veneração do povo 25

risonhas. Crianças e jovens agarravam-se às Te Deum. Os acontecimentos tinham-se pre-


grades; outros valentes, empoleirados nos cipitado de tal maneira, que não houve tem-
telhados, agitavam chapéus. Tambores soa- po de decorar a catedral. Viu-se que ele se
vam. Os cavalos caracolavam sobre as cal- ajoelhava e rezava com fervor. Agradecia à
çadas. De todos os lados fundiam-se, espon- Providência por lhe ter concedido a alegria
taneamente, os brados de: Vive le Roi! Vive de ter reconduzido a França ao trono dos
Monsieur! Quanto mais próximo do centro lises.89:318
de Paris, maior a alegria, o entusiasmo trans-
formava-se em delírio. Monsieur era real- From: Kaunitz
mente um belo homem! Conservava um tal Conheço um episódio semelhante a este,
porte apesar dos seus 57 anos! Envergava que mostra o apreço dos austríacos pelo seu
tão bem o seu uniforme azul com ornatos e imperador, mesmo depois de uma grande
dragonas de prata! Montava com tanta ele- derrota militar. Após a batalha de Wagram,
gância o magnífico cavalo branco que lhe em 1809, as tropas napoleônicas permane-
fora oferecido! Tinha um olhar tão altivo, e ceram em Viena durante vários meses. De-
ao mesmo tempo tão cheio de bondade! Res- pois que se retiraram, o imperador Francis-
pondia às aclamações com tanta graça! Ha- co I voltou à capital e foi recebido carinho-
via tanto tempo que não se via um verdadei- samente pela população. O historiador João
ro príncipe, encantador e cavalheiresco! Batista Weiss narra a recepção que lhe foi
Assim avançava ele em direção a Notre- feita:
Dame. Monsieur deixava a multidão aproxi- 
mar-se, tocar-lhe as botas, os estribos, o pes- A 26 de novembro as tropas austríacas
coço do seu cavalo. Esta ousadia agradava. retornaram a Viena; no dia 27 chegou o im-
Os marechais do Império seguiam-no: alguns perador às 4 da tarde. Já desde a madrugada,
tinham-se apresentado a ele com a cocarda milhares e milhares de pessoas se dirigiram a
tricolor; outros não ocultavam a sua hostili- Simmering, para receber o amado imperador.
dade; todos estavam ansiosos por conservar Toda Viena estava de pé, comprimidos uns
o seu posto. Monsieur cumprimentou-os. contra os outros, aguardando como filhos que
Pouco a pouco eles deixaram-se conquistar esperam o seu amado pai. Finalmente, às 4
pela euforia geral. A movimentação e as ex- horas ele se apresentou, sem nenhuma guar-
clamações alegres daquela multidão os des- da, numa caleche aberta e com uniforme do
concertavam. Não compreendiam por que os seu regimento de hussardos, tendo ao seu lado
parisienses entusiasmavam-se a tal ponto por o mordomo-mor conde de Wrbna. A terra e o
esse príncipe, um desconhecido para eles até ar pareciam tremer com os clamores de júbi-
à véspera. Uma misteriosa centelha havia ele- lo: ‘Bem-vindo seja o nosso pai!’. Os lenços
trizado os corações. Fora Monsieur que a não paravam de acenar.
acendera. Ele tinha o dom de agradar, de se- O Burgomestre dirigiu-lhe umas pala-
duzir tanto as multidões quanto os indivídu- vras:
os; hoje diríamos: um carisma. Ele era con- — Amado príncipe: quando um povo em
forme à imagem que se fazia de um príncipe: luta contra o infortúnio, sofrendo de mil ma-
havia simplicidade no seu comportamento, e neiras, só pensa nas penas do seu príncipe, o
também esse à vontade supremo que não se amor repousa sobre o mais profundo sentimen-
aprende, pois se herda. to, firme e imperecível. Nós somos esse povo.
Com dificuldade abriu-se caminho para Quando os nossos filhos caíam na luta san-
ele até Notre-Dame, onde estava previsto um grenta, quando balas incandescentes des-
26 A volta ao mundo da nobreza

truíam as nossas casas, quando os alicerces tou-se no primeiro banco e pôs de lado o
de Viena estremeciam com o ribombo das ba- chapéu. Um dos cadetes, para ter uma lem-
talhas, pensávamos em ti. Príncipe e pai, pen- brança do monarca, conseguiu tirar às es-
sávamos então em ti com silencioso amor. Pois condidas uma pena do chapéu. Mas outros
não quiseste essa guerra. Só a fatalidade da viram e lhe fizeram sinais, cada um indican-
época a impôs. Quiseste o melhor. O autor das do que também queria uma. Quando o cha-
nossas penas não foste tu. Sabemos que nos péu já estava em condições deploráveis, es-
amas; sabemos que a nossa ventura é a tua corregou e caiu ao chão. Ouvindo o ruído,
sagrada e firme vontade. Amiúde sentimos as Francisco José se voltou, viu o cadete com
bênçãos da tua paternal bondade, marcaste o uma pena na mão, e perguntou:
teu regresso com novos benefícios. Sê pois, — O que queres com essa pena?
príncipe paternal, saudado com amor imutá- — Guardá-la como recordação. Mas to-
vel no meio de nós. dos os meus companheiros também querem
É verdade que o mau resultado da guer- uma.
ra privou-te duma parte dos teus súditos. Mas — Ora, rapazes, assim não tenho alter-
esquece a dor das tuas perdas na íntima união nativa senão deixar-vos todo o meu chapéu.
dos teus leais. Não o número, mas apenas a Entregou o chapéu, depois voltou-se para
vontade firme e constante, o amor que tudo o professor e disse:
une, são os apoios sagrados do trono, e to- — Agora, senhor capitão, preciso recor-
dos estamos animados deste espírito. Que- rer ao empréstimo do seu chapéu.32:5838
remos suprir o que perdeste. Queremos ser
dignos da nossa pátria, pois nenhum austrí- From: Borghese
aco abandona o seu príncipe quando dela se Beaugeste, estou acompanhando o seu
trata. Ainda que os muros que rodeiam o teu blog, e tudo me parece muito interessante,
palácio caiam em ruínas, o mais firme cas- inteiramente fora do que se ouve por aí so-
telo são os corações do teu povo.89:317 bre a nobreza antiga. Tenho ascendentes ita-
lianos, e vou narrar alguns fatos da Itália,
Os reis tinham o desejo de manter con- que meus pais me contavam. E você verá
tato freqüente com seus súditos, o que os que confirmam o que precisa ser comprova-
levava muitas vezes a contrariar os próprios do para o seu professor.
conselheiros e auxiliares. 
 Enquanto Vitório Emanuel II caminha-
Caminhando por entre a multidão nas va no alto de uma montanha, viram-no dois
ruas de Nantes, José II observou que a guar- camponeses, e um sugeriu:
da afastava rudemente as pessoas para que — Aquele é o rei. Vamos nos esconder
ele passasse. Pediu então ao comandante da atrás daquela árvore e observá-lo, pois nun-
guarda: ca o vi de perto.
— É melhor fazer isso suavemente, se- O rei ouvira a proposta, aproximou-se e
nhor. Um homem não precisa de tanto espa- disse:
ço para andar.27:2:341 — Podem olhar-me bem, sem medo.
 Agora vocês já sabem que sou um homem
O imperador austríaco Francisco José como qualquer outro. E para se lembrarem
compareceu de surpresa à academia militar bem do meu rosto, fiquem com estas moe-
de Wieder-Neustadt, e quis assistir à aula de das, onde ele está gravado.1:268
História que daria o capitão Ebersberg. Sen- 
3 — A figura do rei desperta o respeito e a veneração do povo 27

Vitório Emanuel II encontrou um cam- — A rainha?! Que estúpido sou eu, por
ponês andando descalço e carregando os sa- não ter reconhecido a rainha. Quem mais
patos na mão. poderia ser uma senhora tão bela e gen-
— Por que não calças os sapatos? til?32:9202
— Porque assim eles se gastam.
— E a tua pele, não se gasta também? From: Escovedo
— Sim, mas ela volta. Não posso deixar passar a oportunida-
O rei deu uma gargalhada e perguntou: de, que já venho esperando desde o primei-
— Como te chamas? ro dia do seu blog, para apresentar alguns
— Alberto. fatos muito significativos do contato amis-
— Tens o nome do meu pai, e eu quero toso dos reis espanhóis com o seu povo. Vou
proteger os teus pés. Toma este dinheiro para limitar-me hoje a apenas três, mas ainda te-
pagar os sapatos.1:266 nho muitos outros que irei apresentando com
 o tempo.
Em visita oficial a Lucca, Vitório Ema- 
nuel II sempre perguntava a quem o cum- Numa cidade de Aragão havia o costu-
primentava: me de eleger, durante a Epifania, um rei para
— Qual a tua profissão? presidir às festas e aos banquetes. Passando
Apresentou-se o proprietário de uma Carlos V pela cidade numa dessas ocasiões,
hospedagem famosa da cidade, chamada O o rei escolhido o procurou, e disse em tom
Universo. Ao lhe ser feita a pergunta, res- de brincadeira:
pondeu: — Senhor, hoje eu também sou rei.
— Majestade, sou o dono do Universo. No mesmo tom, o imperador respondeu:
— Caramba! E eu sou apenas o rei da — Meu caro, escolheste uma profissão
Itália!32:14948 muito ruim. Basta ver-me.32:2434
 
Em 1888 a rainha Margarida de Sabóia Em 1845, a rainha Isabel II visitou a
visitou Forlimpopoli a convite do prefeito. vila de Mendaro, nas Vascongadas. Os ha-
Quando subia a escada da prefeitura, encon- bitantes prepararam os saborosos biscoitos
trou um ancião ex-combatente que descia e que ali se produzem, e pediram ao sacris-
cumprimentou-a. Perguntou-lhe: tão do lugar, mais versado na gramática es-
— Onde o senhor esteve? panhola, que os oferecesse à rainha. Diante
— Senhora, estive na prefeitura para dela, o sacristão se desincumbiu dizendo o
entregar à rainha um pedido de condecora- seguinte:
ção. — Senhora nossa rainha, Mendaro não
— Em quais feitos de armas se baseia o tem melhores do que estes. Comei-os, com
pedido? vossa mãe e vossa irmã, lembrando que os
Ele os contou com demonstrações de damos de coração.109:504
orgulho, e a rainha prometeu: 
— Recomendarei o pedido à rainha. Em 1908, durante o governo de Maura,
— A senhora a conhece? o rei Afonso XIII declarou que pretendia ir
— Um pouco. a Barcelona, onde a situação era particular-
Quando chegou embaixo, foi quase su- mente grave. Alguns conselheiros lhe expu-
focado pela multidão querendo saber o que seram o risco que havia, e este proclamou,
lhe tinha dito a rainha. peremptoriamente:
28 A volta ao mundo da nobreza

— Senhores, quero que saibam que sou o to o ministro se preparava. Um soldado pu-
rei de toda a Espanha. No dia em que me ins- xou conversa, e estiveram trocando idéias até
pire temor a idéia de visitar uma parte qual- chegar o ministro. Ao entrar, este logo reco-
quer do meu reino, serei suficientemente hon- nheceu na sala o rei e foi pedir-lhe desculpas
rado para abdicar imediatamente.109:2821 pela falta de experiência dos seus funcionári-
os. E o soldado, aturdido, também foi des-
From: Heródoto culpar-se pela excessiva familiaridade com
Sou historiador, meu caro Beaugeste, e que o tratara:
conheço muitos fatos como os que você pe- — Perdoai, senhor. Eu vos havia tomado
diu, especialmente do mundo antigo, e irei for- por um homem.
necendo-os à medida que se encaixarem nos — Nada há de mau nisso. Afinal, um rei é
que você já vai coletando. Desculpe a falta de o que mais se parece com um homem.10:213
modéstia na escolha do pseudônimo, que afi- 
nal é o nome do “pai da História”. Estou bem No dia em que deveria receber o prêmio
longe disso, mas posso dar-lhe uma contribui- Nobel de literatura, Pirandello chegou um pou-
ção valiosa com os dados que tenho. Parece- co atrasado à cerimônia na Casa de Concertos
me que os outros colaboradores têm mencio- de Estocolmo. Andando pelos amplos corre-
nado fatos sobre reis e nobres da civilização dores do edifício, não sabia como se orientar,
cristã, desde a Idade Média, mas também no e abordou um senhor que lhe pareceu militar
mundo antigo a disposição geralmente era a de alta patente. Perguntou-lhe onde ficava a
mesma, embora se tratasse de pagãos. Eis um sala de recepção, e o desconhecido lhe disse
fato do mundo romano. amavelmente que também se dirigia para lá.
 Foram juntos até perto da porta de entrada, e
César foi aconselhado por amigos a ter então o escritor perguntou com quem tivera a
mais cuidado com a própria segurança, evi- honra de falar.
tando andar sozinho no meio do povo. Res- — Meu nome? Sou o rei Gustavo.
pondeu: Pirandello declinou o seu nome, e o rei,
— Quem vive com o temor da morte, sen- ainda mais amavelmente, respondeu:
te-se torturado a cada instante. Eu prefiro mor- — Foi uma satisfação poder conhecê-lo
rer uma vez só.30:157 antes da cerimônia. Pode entrar, porque já
está na hora. Eu precisarei esperar, já que o
From: Egmont protocolo exige que seja o último a entrar
Beaugeste, meus pais são originários da no salão.81:248
Bélgica, e por isso me interessei sempre pelos 
fatos ligados àquela região e vizinhanças, in- O rei Oscar II da Suécia visitava uma ci-
clusive os países nórdicos. Do que foi dito dade do interior, e lhe foi preparada uma festi-
ontem e está sendo acrescentado hoje sobre a va recepção, com todas as ruas engalanadas.
facilidade de contato do povo com os seus reis, Na fachada de um grande edifício fora colo-
conheço muitos exemplos. Aí vão alguns. cada uma faixa com os dizeres “Sede bem-
 vindo, Senhor”. Quando passou por ali, per-
O rei Carlos XII da Suécia levantou-se guntou:
muito cedo e foi à casa de um dos ministros, — Que edifício é aquele?
para conferenciar com ele. Sem identificar- — A prisão municipal.
se, teve de permanecer bom tempo na sala de O rei deu uma boa gargalhada, e comen-
espera, junto com as outras pessoas, enquan- tou:
3 — A figura do rei desperta o respeito e a veneração do povo 29

— Aprecio muito a saudação. Mas boas não o impedia de tratá-lo sempre com bene-
vindas a uma prisão, parece-me cordial de- volência.
mais...109:563 
Diferente dos seus antecessores, Catarina

V eja no próximo fato a naturalidade com


que se tratam um juiz de aldeia e o aus-
tero imperador alemão.
II gostava que se falasse do povo russo com
grande admiração. Um dia Narischkine a in-
terpelou:
 — Majestade, quando eu era jovem, fala-
Viajando incógnito pelo interior da va-se da Rússia como a última das nações, e
Hungria, o cáiser Guilherme I encontrou na os russos eram tratados como animais selva-
vizinhança de Toeplitz um juiz húngaro cami- gens, bárbaros. De algum tempo para cá, afir-
nhando tranqüilamente pela estrada, fumando ma-se que somos o primeiro povo do mundo.
seu cachimbo. No seu conhecido estilo de sub- Antes éramos os últimos, agora somos os pri-
oficial alsaciano, que só os soldados prussianos meiros. Gostaria que Vossa Majestade me in-
sabem apreciar, interpelou o juiz: formasse em que momento estivemos em pa-
— Quem és tu, meu rapaz? ridade com os outros.32:2701
— Juiz da comarca. 
— Estás contente com a tua posição? Durante uma revista às suas tropas, um
— Sem dúvida. oficial fez notar a Frederico II a grande multi-
— Muito bem, eu te felicito. dão que lhe tirava o chapéu quando ele passa-
Quando o cáiser ia se afastando, o juiz va, e observou:
devolveu a pergunta: — Gostaria de saber como é que essa gente
— Quem és tu, meu rapaz? toda se mantém.
— Sou o rei da Prússia. — Vivem de enganar-se uns aos outros, e
— Estás contente com a tua posição? todos de enganar-me.109:1566
— Sem dúvida.
— Muito bem, eu te felicito.
E prosseguiu tranqüilamente a sua cami-
nhada.27:2:415
E mbora variando muito de um país para
outro, em decorrência das marcantes di-
ferenças psicológicas e culturais entre as vári-
as nações, era sempre cordial e ameno o trato

N em sempre o conceito do rei sobre o


seu povo era muito lisonjeiro, o que
dos reis com o seu povo. E uma constante nun-
ca se desmente:

A figura do rei desperta o respeito


e a veneração do povo
30 A volta ao mundo da nobreza

4º dia

P rezados amigos, a idéia que geralmente


se tem é que os nobres se isolavam, não
se misturavam com gente de baixa condição,
suas aspirações e diversões, seu modo de ser
na Igreja, na corporação ou no lar, e também
as circunstâncias concretas da vida popular e
e só se interessavam pelos imensos privilégi- as necessidades dos desvalidos. Tudo isto cons-
os que desfrutavam. No entanto, basta exami- tituía um circuito de inter-relações entre mai-
nar a vida dos autênticos fazendeiros e as rela- or e menor.89:246
ções com seus colonos, nos antigos tempos do Nos países dotados de uma reta aristo-
Brasil, para se concluir que as coisas não eram cracia, tanto quanto possível as relações eram
assim, pois o sistema de vida que levavam era pessoais. A influência do maior sobre o me-
baseado no da Europa. Os nobres eram, na nor, como a do menor sobre o maior, exer-
maioria dos casos, grandes proprietários de cia-se em razão de uma relação de afeto cris-
terras que as administravam pessoalmente. Só tão estabelecida de parte a parte. Afeto que
se afastavam durante algum tempo, para par- trazia consigo, como efeito, a dedicação e a
ticipar de guerras ou para trabalhos específi- confiança mútuas. E que resultava até numa
cos na corte. Isto é afirmado por grandes estu- sociedade de fato, dos domésticos com os
diosos do assunto, como nos textos seguintes patrões. Algo como um protoplasma forma-
enviados por um colega. do em torno do núcleo. Basta ler o que di-
 zem os verdadeiros moralistas católicos so-
Pela ordem natural das coisas, é próprio bre a sociedade heril, para ter uma noção
à nobreza formar com o povo um todo orgâ- exata desse tipo de relação.89:247
nico, como cabeça e corpo. E é característi- A nobreza francesa deveu sua grandeza
co da nobreza uma tendência a evitar uma àquilo que fez a grandeza das aristocracias
diferenciação vital, procurando integrar-se antigas: o devotamento das classes dirigen-
no grande conjunto social.89:142 Os fatos pe- tes às classes dirigidas, a vinculação das clas-
quenos e grandes estão em flagrante contra- ses dirigidas às classes dirigentes, a união
dição com o que ensinam os manuais de dos esforços para o maior bem de todos.50:77
História, isto é, que os poderosos do Antigo Antes da Revolução Francesa, os campo-
Regime, os nobres e os senhores, mostra- neses, os nobres e os burgueses conviviam em
vam-se sempre soberbos, arrogantes, pre- perfeita camaradagem, e a divisão entre as clas-
tensiosos e vaidosos; duros para com os hu- ses da sociedade era muito menos marcante
mildes curvados sob o peso dos trabalhos do que hoje. A ternura do povo em relação aos
da gleba e submetidos aos caprichos desses seus senhores era acrescida de uma confiança
senhores impiedosos.41:51 recíproca, que se manifestava de ambas as
As relações de trabalho, pelo simples efeito partes em todas as ocasiões. Os soberanos não
da caridade cristã, tendiam sempre a extrava- receavam misturar-se com o povo; pelo con-
sar do mero âmbito profissional para o âmbito trário, procuravam-no sempre, certos de
pessoal. Nas longas convivências de trabalho, encontrá-lo sempre respeitoso e acolhedor.41:83
os nobres inspiravam e orientavam os que lhes
estavam abaixo, e a seu modo o mesmo fazi-
am estes em relação aos nobres: informavam E sse relacionamento amistoso era gene-
ralizado, como afirmam historiadores e
4 — As relações dos nobres com o povo eram cordiais e de ajuda mútua 31

sociólogos idôneos. Alguns fatos que me fo- Condé com Charlotte de Rohan-Soubise; e
ram fornecidos sobre a França não deixam relatou que, depois de terem dançado durante
margem a dúvida. toda a noite, resolveram dar um passeio mati-
 nal pelos arredores. Cerca de quinze jovens
Numa conversa com seu senhor, um co- nobres, inclusive os recém-casados, foram até
lono francês dizia: Vanves, e lá encontraram um cortejo que se
— No mês passado completaram-se tre- dirigia à igreja para as núpcias de um casal de
zentos e quarenta e sete anos desde que jovens do local. Todos se incorporaram ao gru-
estamos convosco. po, assistiram ao casamento na igreja, e de-
O senhor respondeu: pois foram participar da festa na casa da noi-
— Nós estávamos aqui bem antes disso. va, como todos os demais convidados.41:83
Não sei ao certo quanto tempo, mas são mais 
de seiscentos anos.50:108 Chegou ao conhecimento do duque de
 Montausier que um surto de peste atingira a
A afabilidade generalizada entre nobres e cidade de Rouen, da qual era governador.
plebeus, antes da Revolução, se reflete bem Ele decidiu partir imediatamente para lá, e
no episódio de três estudantes de Nancy. Em quando começaram a surgir os conselhos em
maio de 1787, tendo ido a pé da Lorena a Pa- sentido contrário, inclusive da própria espo-
ris, eles não tinham na grande cidade nenhum sa, argumentou:
conhecido, mas entraram com facilidade nos — A meu ver, a obrigação dos governa-
palácios dos príncipes. No palácio do conde dores de residir junto ao seu povo é tão pre-
de Artois, em Bagatelle, foram introduzidos mente quanto a dos bispos. Mesmo que ela
até no próprio quarto de dormir. No palácio não seja estrita em qualquer circunstância,
Bourbon, onde morava o príncipe de Condé, pelo menos o é por ocasião de calamidades
após terem percorrido todas as galerias, o ze- públicas.
lador que os acompanhava comunicou-lhes Em seguida viajou para Rouen e cerrou
que, caso quisessem visitar os apartamentos as portas da cidade, tomando todas as provi-
particulares, deveriam escrever ao príncipe dências para deter e evitar a propagação da
pedindo autorização. Não se fizeram de roga- peste, que foi cedendo e se extinguiu ao fim
dos, e assim procedendo obtiveram um bilhe- de dois meses.58:2:8
te do príncipe concedendo-lhes a autorização 
solicitada. Em Chantilly, passearam por toda Quando velho e retirado em São
parte. Quando estavam a ponto de deixar esse Graciano, o marechal Catinat visitava as ca-
local de delícias, um oficial de Sua Alteza su- sas das pessoas humildes. Com freqüência
geriu-lhes que aproveitassem uma das carrua- abria os armários à procura de pão. Não en-
gens do príncipe, que estava saindo naquele contrando, perguntava:
instante para Paris. E os três turistas voltaram — Não tendes pão?
em companhia de duas damas da corte, numa Se a resposta era negativa, dizia ao seu
carruagem com as armas do príncipe de servidor:
Condé.41:48 — Vicente, vai comprar pão para eles.
 Como não era rico, ele o fazia à custa de
Os nobres, mesmo os de mais alta estirpe, cortes nas próprias despesas. Quando mor-
participavam das festas de casamento dos cam- reu, os camponeses e operários lamentavam:
poneses e outros súditos.37:2:108 O duque de Croy — Como faremos agora, sem o nosso
assistiu à festa de casamento do príncipe de bom pai? Ele muitas vezes se resignava a
32 A volta ao mundo da nobreza

comer o pão velho, para que pudéssemos ter 


pão de boa qualidade.32:2720 Passeando pelo campo, lord Abigdon
 encontrou um camponês que a muito custo
Durante a Revolução Francesa, cantava- segurava um bezerro pelos chifres com as
se muito uma canção que dizia: “Quando tí- duas mãos. Aproximou-se e perguntou:
nhamos um só rei, não havia miséria; agora, — O senhor me reconhece?
com mil e duzentos reis (os deputados da — Sim senhor, lord Abigdon.
Assembléia), há falta de tudo nesta terra”. — E não lhe parece que já devia ter tira-
Era a paródia de uma canção composta por do o chapéu?
Madame Thévenet, do séquito da irmã do — É isso o que eu gostaria de fazer,
rei Luís XVI, Madame Elisabeth. A origem milord, e o farei se o senhor tiver a bondade
da canção é a seguinte. Para fornecer leite de segurar para mim este bezerro, que já me
no castelo de sua propriedade, Mme. escapou três vezes.1:200
Elisabeth havia encomendado da Suíça qua- 
tro excelentes novilhas, que foram acompa- Um potentado argentino burguês visitou
nhadas pela jovem Maria a fim de cuidar na Espanha o duque de Veragua, descendente
delas. Porém Maria havia deixado na Suíça de Cristóvão Colombo. Encontrou-o em sua
o seu noivo Jacques, por isso vivia calada e fazenda, conversando tranqüilamente com
triste. Tomando conhecimento desse moti- seus camponeses. Quando estiveram a sós,
vo, Mme. Thévenet compôs a canção manifestou-lhe:
“Jacques, quando eu estava junto de ti”. En- — Confesso que me surpreende ver o
sinou-a à moça, que se pôs a cantá-la com senhor conversar diretamente com seus cria-
freqüência. Ouvindo-a, Mme. Elisabeth se dos.
informou e descobriu que a canção narrava — Por quê?! Será que vocês da América
a realidade pessoal de Maria, e mandou tra- inventaram algum aparelho para isso?109:2246
zer da Suíça também o noivo.27:1:166 
O rei belga Alberto I se interessava

O mesmo acontecia em outros países. Ve-


jamos alguns exemplos.

muito pelas dificuldades dos operários.
Com freqüência visitava oficinas e fábri-
cas, conversava com os chefes de serviço
O imperador Carlos V passeava com tra- e procurava informar-se sobre seus proble-
jes comuns em Viena e viu um camponês mas. A um francês que fora procurá-lo,
carregando um leitãozinho, que grunhia a advertiu:
plenos pulmões. Interpelou-o: — Devem ter dito ao senhor que sou um
— Então não sabes como se faz para si- rei comunista.
lenciar um leitão? Diante dos protestos do francês, ele
— Não, senhor, e agradeceria se pudes- acrescentou:
se ensinar-me. — Dizem por aí que sou um rei esquer-
— Deves segurar o leitão pelas patas tra- dista, mas não sou nem de esquerda nem de
seiras e mantê-lo de cabeça para baixo. direita. Tenho, sim, muito empenho em de-
Feito como lhe foi ensinado, o leitão fender meus operários belgas contra os ca-
parou de grunhir, como por encanto. E o pitalistas internacionais.32:81
camponês agradeceu ao desconhecido:
— Vejo que o senhor trabalhou nisso
mais do que eu.32:2425 E ra tão cordial e amigável o contato dos
nobres com os seus servidores, que
4 — As relações dos nobres com o povo eram cordiais e de ajuda mútua 33

freqüentemente se valiam da experiência dos. Achou que lhe era devida uma indeni-
destes para aprimorar as suas atividades. zação, mas decidiu usar para isso um artifí-
 cio. Começou logo a gritar:
A imperatriz Catarina II afirmou: — Milagre! Milagre!
— Aprende-se mais numa conversa com Um oficial o interpelou:
trabalhadores ignorantes, sobre aquilo que — O que você quer dizer com isso, ho-
eles fazem, do que com esses que se consi- mem?
deram sábios mas não vão além de teorias, e O lavrador continuou gritando:
que não se envergonham de responder com — Milagre! Milagre!
afirmações ridículas sobre coisas das quais Chegando o fato ao conhecimento do rei,
não têm nenhum conhecimento positivo.76:164 este mandou comparecer à sua presença o
 lavrador, e lhe perguntou o motivo dos seus
Frederico II resolveu cultivar um terre- gritos.
no de acordo com as Geórgicas de Virgílio, — Um milagre, Senhor. Eu havia seme-
com o livro a tiracolo. O camponês que o ado trigo nesta terra, e o que nasceu foram
acompanhava estranhou o modo como ele soldados suíços.
semeava, podava, revolvia a terra, etc. Ele O rei gostou da iniciativa do lavrador e
explicou: mandou indenizá-lo.109:315
— É assim que está escrito aqui no li- 
vro. A autoridade dos nobres russos sobre os
— Quer dizer que o livro foi escrito por camponeses era ilimitada, mas de modo geral
uma besta. exercida com muita moderação. Isso gerava
Narrando depois o episódio, ele acres- uma grande fidelidade aos senhores, que se
centava: demonstrava das maneiras mais imprevistas.
— Virgílio era um grande poeta, mas um O conde Schouwaloff se endividara, e para
péssimo agricultor.32:5183 pagar a dívida decidira vender uma de suas
propriedades. Uma manhã ele acordou com

C om essa mentalidade e esses costumes,


a ajuda mútua era corriqueira e levada
com muito empenho por ambas as partes.
grande vozerio provocado por uma multidão
reunida no pátio do castelo. Levantou-se e
perguntou do que se tratava. Um representan-
Nenhuma sociedade pode subsistir sem a as- te explicou:
sistência mútua, sem o socorro dos grandes — Ficamos sabendo que precisais vender
aos pequenos e os serviços dos pequenos aos esta vossa propriedade, para acertar vossos
grandes. E é incontestável que, para a eficá- negócios. Mas nós estamos tranqüilos e con-
cia da assistência mútua, para que ela possa tentes sob a vossa autoridade, e não queremos
fazer reinar a paz e a prosperidade na socie- perder um senhor tão bom. Por isso nos
dade, não deve ser ocasional, mas constan- quotizamos para trazer-vos o dinheiro de que
te, e para ser constante ela deve ser organi- precisais, e vos pedimos que o aceiteis.76:149
zada socialmente.50:60 
 Enquanto esteve prisioneira na
O rei Luís XV foi passar em revista suas Conciergerie, antes de ser guilhotinada,
tropas, perfiladas numa planície em que um Maria Antonieta manifestou a Mme.
lavrador havia recentemente plantado trigo. Richard, mulher do carcereiro, que muito lhe
O lavrador foi também ver a cena, e encon- agradaria comer um melão. Ela foi ao mer-
trou sua plantação destroçada pelos solda- cado e pediu a uma vendedora sua amiga:
34 A volta ao mundo da nobreza

— Estou precisando de um excelente entre ricos e pobres, o antagonismo social


melão. se manifestou com grande violência. Taine
— Adivinho que seja para nossa infeliz registrou este fato em várias partes de seus
rainha. Leve este, é o melhor que tenho. escritos.50:74
— Qual o preço?
— Guarde o seu dinheiro, e diga à rai-
nha que muitas de nós estamos sofrendo jun-
to com ela.59:465
O utro fator que contribuiu para esse
distanciamento foi o absolutismo real,
inspirado por doutrinas revolucionárias pre-
viamente disseminadas, que levou os reis de

N as vésperas da Revolução Francesa esse


quadro de harmonia e ajuda mútua es-
tava bastante alterado, mas muito longe do
vários países a centralizar em suas mãos a
administração, exigindo para isso grandes
somas de dinheiro e abundante pessoal qua-
grau apresentado pelos propagandistas da lificado.
Revolução. Historiadores idôneos ressaltam 
esse aspecto. Mas, ao ressaltá-lo, reconhe- Com maior ou menor afã, os diversos
cem também que isso era resultado de deca- monarcas no fim do século XVIII tendiam
dência em relação aos costumes tradicionais para a realização em si mesmos do modelo
aos quais o povo se acostumara. absolutista. Esse tipo de monarca causava
 ao observador um primeiro impacto
Alguns membros da nobreza abandona- admirativo pela sua onipotência, a qual en-
ram o campo para ir perder-se na corte dos tretanto pairava tão-só na superfície da situ-
reis, gastando em prazeres e luxo o dinheiro ação. Pois tal aparência de poder ilimitado
que o trabalho dos cultivadores lhes propor- não fazia senão velar a impotência profunda
cionava. 50:77 Segundo Tocqueville, o em que se colocavam os reis absolutos pelo
absenteísmo físico conduziu os senhores a um seu próprio isolamento.89:120 Cada vez mais
absenteísmo de coração. Quando o nobre re- desligados de nexos vitais com todos os cor-
aparecia junto aos seus, mostrava ares e sen- pos intermediários que constituíam a nação,
timentos como os que o administrador tinha esses monarcas absolutos já não tinham os
na sua ausência. Não via mais os arrendatári- seus apoios naturais, ou os tinham debilita-
os senão como devedores, dos quais exigia dos pelo estado de asfixia crescente em que
com rigor o que lhe era devido por lei ou pelo o seu próprio absolutismo os punha.89:121
costume. Daí os sentimentos de rancor e ódio. Incapaz assim de se manter de pé, de
Por outro lado, por efeito desse mesmo andar e de lutar com o apoio dos seus ele-
absenteísmo faltava a direção geral, e as ter- mentos constitutivos naturais, que são os
ras caíam em um deplorável abandono.50:73 grupos intermediários, a monarquia absolu-
Em todos os lugares onde os proprietá- ta era obrigada a apoiar-se em redes de bu-
rios fundiários haviam mantido o contato rocracias cada vez maiores. Esses organis-
com os colonos, o antagonismo das classes mos burocráticos eram as pesadas muletas,
não se manifestou. É o que atestam os acon- reluzentes mas frágeis, dessa realeza de fins
tecimentos do Poitou, Anjou, Vandéia, do século XVIII. O funcionalismo, quanto
Bretanha e Normandia.50:74 maior, tanto mais é pesado. E quanto mais
Nos lugares onde os senhores adminis- pesado, tanto mais onera aqueles mesmos
traram seus bens por meio de intendentes – que, para estarem de pé e andarem, são obri-
e, por conseguinte, eram quase desconheci- gados a carregá-lo. Assim, a realeza absolu-
dos de seus colonos – perdeu-se o contato ta e burocrática foi devorando ao longo dos
4 — As relações dos nobres com o povo eram cordiais e de ajuda mútua 35

tempos o Estado paterno, familiar e orgâni- Richelieu por ter demolido os seus castelos
co.89:121 feudais, nem ao Rei Sol o seu absolutismo
altivo”.89:120
From: Chanteclair
Preciso comentar algo sobre isso,
Beaugeste. Sou colecionador de frases espi-
rituosas, e tenho uma sobre o peso
Q uem lê textos como alguns dos citados,
pode pensar que a revolução veio para
libertar a classe trabalhadora de um iníquo
exorbitante dessa burocracia: Como todo estado de exploração do homem pelo ho-
mundo quer viver à custa do governo, o go- mem. Os ideólogos e propagandistas da re-
verno acaba vivendo à custa de todo mun- volução procuram transmitir essa impressão
do.101 Observe que isso se aplica muito bem falsa. Mas a situação geral não melhorou
aos nossos dias, pois o contribuinte pode ser após os desmandos da Revolução, nem os
visto como um cidadão que trabalha para o ideólogos revolucionários pretendiam de
governo sem prestar concurso.14 fato melhorá-la, como se constata nos pró-
ximos textos.

E xemplo típico de uma nobreza que re-


sistiu a esta influência demolidora da
monarquia absoluta foi a da Vandéia, na
Na França do século XVIII, a teoria da
separação dos poderes significava a restrição
França, região que se tornou depois um dos dos poderes do rei. Mas Montesquieu, da mes-
focos de resistência à Revolução Francesa. ma forma que Voltaire, possuía uma atitude
Para se entender bem o espírito dessas reti- de desprezo pelo povo, que ele classificava de
cências da nobreza vandeana ao absolutis- “ralé”. Assim, defendeu o liberalismo políti-
mo real (contra o qual os revolucionários de co, mas estava muito longe de ser um demo-
1789 discorreram tão furiosa e prolixamen- crata na acepção plena do termo.71:107
te), é preciso ter em vista que o trono não Voltaire adotava uma posição de extre-
teve mais ardorosos defensores do que ela, mo desprezo para com as camadas mais po-
nem os revolucionários encontraram mais bres da população, julgava-as merecedoras
heróicos e altaneiros opositores.89:120 de sua sorte devido à sua “ignorância” e
Comenta o insigne historiador Georges “grosseria”, defendendo de forma completa
Bordonove: “A nobreza vandeana formava os interesses da rica burguesia da França.
uma casta, não encerrada em recordações, Com exceção de d’Alembert e Rousseau,
mas animada pelo seu próprio dinamismo. todos os grandes filósofos da época tinham
A existência de Versalhes não a debilitou, por característica a manifestação de despre-
nem física nem moralmente. Salvo exceções, zo pelas camadas mais humildes.71:106
a influência das idéias novas, o pensamento Um historiador recente do campesinato
dos filósofos e dos discursos dos verbosos da Borgonha descreveu a penetração dos
expositores de doutrina do ‘século das lu- capitais vindos da cidade para investir no
zes’ deixavam-na indiferente. Pelo contrá- campo, durante o século XVIII, como uma
rio, a sua tendência era para a recordação do verdadeira “ofensiva capitalista”, que des-
papel que desempenhou em épocas passa- truiu a velha comunidade das aldeias e des-
das, do seu poder e da sua fartura, da sua feriu um golpe mortal no antigo senhorio.
antiga grandeza e da preeminência do Poitou. Os camponeses lamentavam-se de que os
Ela sofria, sem dúvida, com a regressão da bons velhos senhores tivessem vendido suas
nobreza em proveito do poder centralizador propriedades a burgueses indiferentes aos
do Estado. Nunca perdoou inteiramente a interesses da população rural.4:63 Uma aris-
36 A volta ao mundo da nobreza

tocracia menos nobre substituiu outra mais cia, fez também leis para suprimir essa coe-
nobre, uma vez que os povos nunca ficam são e essa permanência.50:108 Procurou subs-
sem aristocracia.50:62 tituir quanto possível as relações de traba-
 lho pela burocracia. Ou seja, pelos birôs de
Durante a Revolução Francesa, pergun- estatísticas e informações, e pelos sempre
taram a Sieyès a sua opinião sobre a supres- ativos serviços de informação policiais.89:246
são dos títulos nobiliárquicos. Ele respon-
deu:
— Não é preciso destruir a aristocracia,
e sim os aristocratas.32:13517
P arece-me que podemos vislumbrar hoje
sobre as relações entre os nobres e o
povo, com base nos textos apresentados, uma
 imagem bastante correta e condizente com
O Estado que surgiu da Revolução Fran- a realidade. Bem ao contrário dos slogans
cesa, que roubou à família sua independên- revolucionários,

As relações dos nobres com o povo


eram cordiais e de ajuda mútua
5 — A alma nobre tem a virtude da magnanimidade 37

5º dia

C aros amigos, quero pedir-lhes descul-


pas por não ter identificado ontem os co-
laboradores que forneceram alguns dos fatos
— Bem, amigo. Então fique com o meu
relógio, e assim poderá saber a hora em que
morrerá por mim.109:2828
e textos citados. Foram os seguintes: Richelieu, 
Valdeiglesias, Chesterfield, Escovedo, O geômetra Maupertuis acompanhou
Egmont, Orloff, Falkenstein, Joinville. Esses Frederico II na batalha de Molwitz contra o
ótimos textos permitiram-nos fazer uma incur- imperador austríaco. Foi preso pelos hus-
são em terreno específico da nobreza, que con- sardos, despojado dos bens que tinha consi-
siste em tratar os inferiores de modo elevado e go e enviado prisioneiro a Viena. Conhecen-
digno, sem no entanto rebaixar-se. Dar ao ser- do sua fama, o imperador quis vê-lo, e du-
viçal mais do que lhe é devido, recompensar rante a conversa perguntou:
generosamente um benefício recebido, dar — Dentre os bens que os meus hussardos
mais do que nos foi pedido, perdoar – são ati- lhe tomaram, havia algum que fosse especi-
tudes que podem ser encontradas até em pes- almente caro?
soas de condição muito humilde, embora na- — Majestade, os bens não eram valio-
turalmente sejam esperadas em maior número sos, mas um relógio da marca Greham me
de quem tem abundância de meios para isso. era muito útil para minhas observações as-
Entre os nobres isso era o habitual, conforme tronômicas.
veremos ainda nos exemplos que já recebi, e O imperador possuía um relógio dessa
que selecionei para hoje. marca, porém adornado com diamantes.
Mandou buscá-lo e o entregou a Maupertuis,
From: Schwartzenberg dizendo:
Embora considerado excessivamente — Os hussardos quiseram fazer-vos um
econômico, o rei Frederico II sabia reconhe- agrado, e me entregaram o relógio para que
cer as necessidades dos seus servidores e fosse devolvido. Aqui está ele.58:3:381
recompensá-los pelos seus méritos. Um cabo
da sua guarda não tinha relógio, mas usava From: Joinville
uma corrente de ouro bem visível, em cuja Estou aqui de novo, para ressaltar que
extremidade colocara em vez de relógio uma uma das características da magnanimidade
bala de fuzil, e a mantinha dentro do bolso. é dar em abundância, às vezes mais do que
Informado disso, ou presumindo-o, o sobe- se pede. Eis um exemplo.
rano abordou o cabo: 
— O senhor deve ser bastante econômi- Num ano em que faltava vinho para os
co, para ter podido comprar um relógio. O doentes pobres do hospital de Paris, o dire-
meu marca seis horas. E o seu? tor procurou S. Luís IX a fim de conseguir
Mostrando o “relógio”, o guarda respon- a verba, declarando que bastariam cem li-
deu: bras. O rei chamou o tesoureiro e mandou
— Senhor, o meu não marca nem cinco dar-lhe mil libras. O diretor objetou que
nem seis, mas recorda-me a cada instante que talvez ele houvesse entendido mal, mas o
devo lutar pelo meu rei. rei repetiu:
38 A volta ao mundo da nobreza

— Dai aos pobres do hospital de Paris O filho de Luís XV, pai do futuro Luís
mil libras.78:187 XVI, matou acidentalmente durante uma
caçada o seu escudeiro. Empenhou-se em
From: Saint Simon assegurar a situação financeira da viúva e
Beaugeste, andei estudando a corte de filhos. A viúva estava grávida, e quando nas-
Versalhes, e pretendo fornecer-lhe alguns ceu esse filho póstumo, ele decidiu também
dados sobre a vida de Luís XIV e Luís XV, sustentá-lo. Alguém o advertiu:
principalmente. Envio hoje os primeiros, e — Isso não é costume, senhor.
aos poucos irei acrescentando outros. — Também não é costume um escudei-
 ro do delfim morrer pelas mãos do seu se-
O célebre arlequim Dominique, durante nhor.27:2:447
um almoço de Luís XIV, olhava com muita
atenção um assado de perdiz. Percebendo- From: Montmorency
o, o rei disse a um servo: Beaugeste, uma das constantes preocu-
— Ofereça aquele prato a Dominique. pações e atenções dos reis e nobres era com
O arlequim entendeu que se tratava do o bem estar dos seus súditos e servidores.
recipiente, que de fato era o objeto da sua Dou-lhe alguns exemplos.
admiração, e perguntou espantado: 
— Como, Senhor?! Também a perdiz? Entrando numa igreja para rezar, Luís XI
Como o prato era de ouro maciço, com encontrou na entrada um sacerdote, que lhe
essa pergunta o arlequim ganhou o assado e expôs a sua situação:
o prato de ouro.1:609 — Já estive no cárcere por causa de dí-
 vidas, e agora querem prender-me novamen-
Em 1783, Montgolfier se preparava para te pelo mesmo motivo. Não tenho como pa-
o vôo experimental do seu balão, e preten- gar, e vos peço que tenhais piedade de mim.
dia colocar animais na naveta. O artesão que — O senhor escolheu bem a hora ade-
com ele trabalhava insistia em fazer pesso- quada para o pedido. Como poderei deixar
almente essa viagem, mas Montgolfier a jul- de atender, se estou entrando aqui para pe-
gava arriscada demais, e não queria expor a dir a Deus que tenha piedade de mim? Darei
tal perigo uma vida humana. Afinal o vôo se o dinheiro de que precisais.32:8583
fez com segurança e o balão pousou a pou- 
cos quilômetros de Versalhes. Luís XVI quis Um funcionário do palácio de Francis-
que os três animais permanecessem no par- co I reclamava:
que do palácio até a morte. Madame de — Corro o risco de morrer pobre, pois
Lamballe, dama da corte, percebeu então que há muito o rei não me faz nenhum benefí-
havia um homem chorando, e foi perguntar- cio.
lhe o motivo. Sabendo do comentário, o rei francês
— Senhora, bem que eu tinha razão. mandou chamá-lo:
Agora esses três animais vão ter tudo do bom — Soube que andou reclamando de
e do melhor; e eu, o pobre artífice que cons- mim, mas acho que lhe falta é sorte. Vamos
truiu esse balão, não receberei nenhuma re- ver: aqui estão duas bolsas cheias, uma de
compensa. ouro e outra de chumbo. Escolha uma das
Impressionada, Madame de Lamballe duas.
entregou-lhe algumas moedas de ouro.1:148 E a bolsa escolhida era a de chumbo.
 — Viu como eu tinha razão? Mas, para
5 — A alma nobre tem a virtude da magnanimidade 39

consolá-lo, dou-lhe também a outra bol- Como se tratava de uma das jóias da coroa,
sa.33:2631 não podia ser alienada, mas o Conselho de-
 cidiu manter a esmola feita pelo rei e dar ao
Um oficial perdeu numa batalha dois pobre o valor da cruz em dinheiro.109:583
magníficos cavalos, e não conseguia substi- 
tuí-los devido à sua situação financeira. O Um mercador português pretendia ven-
marechal de Turenne chamou-o e deu-lhe de der ao rei Filipe IV um diamante de grande
presente dois cavalos, mas advertiu: beleza, mas este não se entusiasmou, apesar
— Peço-lhe não contar isso a ninguém. dos comentários embevecidos dos cortesãos.
Se outros ficarem sabendo, muitos virão O rei perguntou:
pedir-me que lhes faça o mesmo, e não terei — Quanto o senhor pagou pelo diamante?
condições para atendê-los.32:14403 — Setenta mil ducados, senhor.
— Mas em que o senhor pensava, quan-

M ais alguns exemplos confirmam esse


desprendimento dos nobres em rela-
ção aos súditos. Foram fornecidos por
do pagou tanto?!
— Senhor, eu pensava que há no mundo
um rei Filipe IV...
Kaunitz e Escovedo. Em atenção à agudeza de espírito, o rei
 acabou comprando o diamante.32:5394
Um oficial pobre pediu ao imperador
José II um subsídio que lhe possibilitasse From: Valdeiglesias
manter a família, e foi-lhe prometido: Tenho aqui dois exemplos de como o
— Só disponho de vinte moedas de ouro. Gran Capitán Gonzalo de Córdoba recom-
Elas lhe bastam? pensava com liberalidade os seus soldados.
Um cortesão ali presente, sem ser a isso 
convidado, avaliou: Depois das suas retumbantes vitórias na
— É demais, senhor! Basta a metade Itália, Gonzalo de Córdoba se pôs a distri-
disso. buir livremente entre os seus comandados
— Bem... E o senhor tem aí a quantia de as cidades, fortalezas, terras e títulos de no-
que falou? breza. Embora satisfeito com as vitórias, o
O cortesão mostrou-a ao imperador, que rei Fernando reclamou:
se dirigiu então ao oficial: — Gonzalo conquistou para mim um
— Agradeça ao amigo aqui presente, que reino, mas reparte-o antes que me chegue às
se dispôs generosamente a acrescentar dez mãos?109:594
moedas às minhas vinte.32:6522 
 Em 1512, quando foi ordenado ao espa-
O rei Carlos II da Espanha tinha dezesseis nhol Gonzalo de Córdoba que licenciasse o
anos. Na Sexta-feira Santa, quando percorria seu exército da Itália, ele dissimulou cuida-
a Via-sacra, deu a um pobre uma cruz de bri- dosamente a revolta que isso lhe provocava,
lhantes que usava. Pouco depois os membros e mandou que se distribuísse a todos os seus
do séquito perceberam a falta da cruz e apre- comandados uma grande soma em dinheiro.
goaram que havia sido roubada. Logo o pobre Alguém lhe censurou essa prodigalidade, e
se apressou a mostrá-la, e disse: ele explicou:
— Aqui está a cruz. Foi Sua Majestade — Não se deve fechar nunca a mão. Não
quem me deu. existe modo melhor para usufruir os bens
O rei confirmou as palavras do pobre. do que dando-os.110:278
40 A volta ao mundo da nobreza

P ode-se encontrar magnanimidade até na


guerra, apesar de ser a vitória contra o
inimigo o que nela se deseja. Este assunto
As tropas do imperador Conrado III si-
tiaram Weinsberg, e estava próxima a rendi-
ção. Algumas mulheres compareceram ante
de guerra foi detidamente estudado pelo o imperador e pediram permissão para to-
amigo Clausewitz, que colabora a partir de das as mulheres abandonarem a cidade le-
hoje dentro da sua especialidade, e nos for- vando consigo o que pudessem carregar.
neceu os fatos seguintes. Concedida a permissão, pouco depois as
 mulheres apareceram carregando nas costas
As tropas alemãs, em retirada após uma os maridos, filhos e irmãos. O imperador se
derrota, faziam massacres e crueldades con- emocionou e perdoou toda a população.1:166
tra todos os franceses que encontravam, tanto
militares quanto civis. As tropas do general From: Contrappunto
francês Favert encontraram um grupo de Beaugeste, sou novo na sua turma, e
soldados alemães feridos que tinham sido acho que posso contribuir com fatos de um
abandonados à própria sorte. Um oficial gênero um tanto diferente. Não são contrá-
francês propôs que fossem vingadas nesses rios ao seu objetivo, mas mostram outros
feridos alemães as atrocidades de que eles aspectos da realidade, que oferecem um
próprios eram vítimas, mas Favert discor- contraste com os exemplos bonitos e até
dou peremptoriamente: comoventes que você vem colecionando.
— O vosso conselho corresponde ao de Veja os dois que vou narrar, e entenderá o
bárbaros como os nossos inimigos. que pretendo mostrar.
Vinguemo-nos de maneira mais nobre, dig- 
na de nossa nação civilizada. O riquíssimo conde de Romanones nun-
E deu ordem a que os soldados france- ca levava dinheiro consigo. Viajando certa
ses cuidassem dos feridos, dando-lhes ainda vez de trem para uma campanha eleitoral,
a alimentação de que pudessem dispor. Os foi recebido em várias estações por bandas
feridos que se curaram passaram quase to- de música. Chamou o redator de um diário,
dos ao exército de Favert, pois não queriam que o acompanhava, e disse:
retornar ao meio de quem os havia abando- — Encarregue-se de dar a esses músi-
nado e sacrificado.32:5008 cos uma gratificação.
 Ao fazer o acerto de contas em Madri, o
O rei Afonso V de Aragão havia sitiado conde achou exorbitante a quantia que o re-
Gaeta, defendida pelo exército de Francisco dator havia pago aos músicos. Chamou-o, e
Spínola. Quando este considerou inadiável disse:
a rendição, mandou que saíssem da cidade — Vamos ver, homem de Deus, como é
todas as pessoas não combatentes. Afonso que o senhor explica essas contas.
V teve a generosidade de acolhê-las no acam- — Senhor conde, eu entreguei a cada
pamento e socorrê-las com todo o necessá- músico tal quantia.
rio. Alguns do exército murmuraram, e ele — O senhor quer dizer que entregou essa
lhes disse: quantia a cada banda de música, não é?
— Não vim aqui lutar contra mulheres e — Não, senhor, a cada músico. Porque
crianças, e sim contra pessoas capazes de não era eu quem a estava dando, e sim o con-
defender-se. Prefiro não ganhar a batalha a de de Romanones, um dos homens mais ri-
provocar a morte de tantos inocentes.109:2222 cos da Espanha.
 — E o senhor acredita que o conde esta-
5 — A alma nobre tem a virtude da magnanimidade 41

ria hoje tão rico como dizem, se saísse por queimou nele o recibo que lhe fora dado em
aí dando gratificações como essa?109:1232 garantia do empréstimo, e disse:
 — Senhor, depois de ter-me dado a hon-
O neto do duque de Buckingham era ra de participar da minha mesa, vossa dívi-
muito econômico, e explicou a um amigo: da não existe mais.109:1516
— Tenho verdadeiro pavor de morrer
pobre como um rato de igreja.
— Mas eu tenho medo é de que o se-
nhor viva do modo como receia morrer.32:2010
C aros amigos, acho que hoje caminha-
mos bastante. Além de conseguir novos
colaboradores, os fatos estão formando um con-
junto bem adequado à realidade que eu imagi-

A magnanimidade pode ser também pra-


ticada por plebeus. Pode haver mérito
sem elevação, mas não há elevação sem al-
nava, mas não conseguia comprovar. Pelo que
vimos, pode-se constatar que a felicidade é um
bem que se multiplica ao ser dividido.13 Vamos
gum mérito.64:400 Veja este fato enviado pelo continuar pesquisando, e já estou certo de que
Kaunitz. poderei apresentar ao meu professor um qua-
 dro surpreendente. Será que ele sabia, por
O rico comerciante Jean Daens fez ao exemplo, que predominavam entre os nobres
imperador Carlos V um vultoso emprésti- exemplos de virtudes como a magnanimida-
mo. Após um banquete que ofereceu ao de? Os fatos de hoje estão de acordo com o
monarca, mandou acender o fogo na lareira, que eu disse a ele, e comprovam que

A alma nobre tem a virtude


da magnanimidade
42 A volta ao mundo da nobreza

6º dia

From: Leopoldina comoventes ocorridos com nosso imperador


Caro Beaugeste, tomei conhecimento D. Pedro II, e mais um em que se nota a mag-
hoje do seu blog, e tinha a intenção de cola- nanimidade de um ministro de D. Pedro I.
borar com alguns fatos que conheço. Mas 
estou com uma dúvida. Acontece que todos Numa viagem ao interior de Minas, D.
os nomes de colaboradores que vi até agora Pedro II observou que no meio de uma mul-
são masculinos, e tenho o receio de que seu tidão compacta uma negra fazia grande es-
blog seja uma espécie de Clube do Bolinha, forço para se aproximar, mas as pessoas à
que não aceita mulheres. Você já informou sua volta procuravam impedi-la. Compade-
que os nomes dos seus colegas, e suponho cido, ordenou que a deixassem aproximar-
que também o seu, são pseudônimos, mas o se, e ela se apresentou:
meu é mesmo Leopoldina. Orgulho-me deste — Meu senhor, eu sou Eva, uma escra-
nome, que tenho em homenagem à nossa va fugida, e venho pedir a Vossa Majestade
primeira imperatriz, esposa de D. Pedro I e a minha liberdade.
mãe de D. Pedro II, pois a ela o Brasil muito O imperador mandou tomar as notas
deve. Peço-lhe o favor de esclarecer se pos- necessárias, prometeu dar-lhe a liberdade
so participar; e se for aceita, logo passarei a quando regressasse, e efetivamente entregou
fornecer-lhe munição para a sua prova final. à cativa o documento de alforria. Algum tem-
po depois, indo a uma das janelas do palácio

P erdão, Leopoldina, se lhe dei a impres-


são de não aceitar colaboração de mu-
lheres. Evidentemente elas são todas bem
de São Cristóvão, no Rio, viu um guarda ten-
tando impedir que uma preta velha entrasse.
Sua memória prodigiosa reconheceu imedi-
vindas. Entre os meus colegas que estão co- atamente a ex-escrava de Minas, e ele orde-
laborando, seis são homens e duas são mu- nou:
lheres. Os pseudônimos que adotaram são — Entre aqui, Eva!
todos nomes de famílias nobres de alguns A preta precipitou-se porta adentro, e
países. Embora pareçam nomes masculinos, entregou ao seu protetor um saco de abaca-
devido ao fato de se identificarem com eles xis, colhidos na roça que plantara depois de
alguns homens nobres famosos, aplicavam- liberta.57
se também às mulheres da mesma família. 
Aliás, uma das minhas colegas, que se identi- Quando D. Pedro II voltou ao Brasil em
ficou como Chateaubriand, está noiva de 1877, grandes festejos tinham sido planeja-
Montmorency. Será um casamento de duas dos para a sua chegada. Mas a satisfação de
famílias francesas muito importantes. Por retornar ao lar foi diminuída pelas más notí-
favor, sinta-se à vontade para enviar o mate- cias do Ceará, onde a fome grassava após
rial disponível, e desde já lhe agradeço. prolongada seca. Ele cancelou as celebrações
oficiais, dizendo que os fundos reservados
From: Leopoldina para esse fim deviam ser empregados no tra-
Estou encantada com a possibilidade de balho de alívio aos flagelados. Apesar dos
participar. Vou contar-lhe dois fatos grandes gastos que tivera na viagem, desti-
6 — Desprendimento e perdão manifestam nobreza de alma 43

nou parte da sua dotação para a mesma fina- leprosos, dos quais um voltou para agrade-
lidade. Durante uma reunião do gabinete, o cer. Vou acrescentar dois belos exemplos da
ministro da Fazenda informou: minha Maria Antonieta.
— Majestade, não temos mais condições 
de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro Até o fim do século XVIII havia na Fran-
no Tesouro. ça o costume chamado ceinture de la reine,
Ele baixou a cabeça durante alguns ins- um imposto que revertia em benefício da
tantes, e depois disse com firmeza: nova rainha por ocasião da morte do rei.
— Se não há mais dinheiro, vamos ven- Quando Maria Antonieta soube que esse
der as jóias da coroa. Não quero que um só imposto onerava principalmente as classes
cearense morra de fome por falta de recur- mais pobres, pediu a Luís XVI que o supri-
sos.72:74 misse. Esse ato generoso agradou ao rei e a
 toda a nação.1:177
José Bernardino de Almeida Sodré era 
ministro da Fazenda em 1828. Seu colega A delicadeza de sentimentos da rainha
da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o Maria Antonieta se manifestou a propósito
pagamento das despesas de transporte e ou- de um tolo chamado Castelnaux, que se de-
tras, de alguns operários que D. Pedro I man- clarava apaixonado por ela e não perdia oca-
dara engajar na Alemanha. Recusado esse sião de postar-se para vê-la nos locais onde
pagamento, o imperador mandou chamar o sua presença era esperada. A fim de evitar
ministro e o interpelou sobre o assunto. situações embaraçosas que poderiam ser cri-
Sodré respondeu: adas por um espécime do gênero, ela desig-
— Senhor, no orçamento vigente não nou um advogado habilidoso para entrar em
tenho verba que autorize essa despesa. Por- contato com esse desequilibrado e convencê-
tanto ela é ilegal, e não a posso pagar. lo a mudar-se para o interior. Durante a en-
— Mandei engajar esses homens, e que- trevista ele concordou, mas poucas horas
ro que as despesas sejam pagas. depois voltou atrás, dizendo que não podia
— E sê-lo-ão, Senhor, já que Vossa Ma- deixar de ver a rainha tanto quanto lhe fosse
jestade o quer. possível. Ao ser informada desse retroces-
Dias depois, indagado pelo monarca so- so, ela comentou:
bre o cumprimento da sua ordem, o minis- — Ah, meu Deus! Está bem, então ele
tro informou: continuará me importunando, mas não o pri-
— Em face da lei, o Tesouro Nacional vem por isso da ventura de ser livre.15:174
não podia pagar a esses engajados. Porém a
ordem de Vossa Majestade tinha de ser cum- From: Valdeiglesias
prida. Caro Beaugeste, na Espanha, terra natal
— E então? dos meus avós, essa virtude da magnanimi-
— Paguei-os do meu bolso particu- dade era muito cultivada. Não é à toa que os
lar.72:149 nobres de lá eram denominados Grandes de
Espanha. Dou-lhe alguns exemplos.

M uito bonito o gesto de D. Pedro II em
favor da Eva. Durante quase toda a
vida ele trabalhou pela libertação dos escra-
Filipe II precisava com urgência ir de
Madri ao Escorial, e ordenou ao cocheiro que
vos. Mas muito comovente também é a gra- fosse o mais depressa possível. Usando os
tidão da Eva. Faz lembrar a parábola dos dez recursos habituais da classe, o cocheiro chi-
44 A volta ao mundo da nobreza

coteava as mulas e praguejava, repetindo Logo depois de terminada a entrevista, a


freqüentemente: rainha recebeu um cheque de quarenta mil
— Mulas do diabo! pesetas, acompanhado da seguinte mensa-
Dentro da carruagem, Filipe ouvia e ria. gem assinada pela marquesa: “Senhora,
Quando chegaram ao destino, desceu e per- como é seguro que a festa projetada produ-
guntou: zirá largamente as quarenta mil pesetas cal-
— De quem são essas mulas? culadas, e os pobres feridos não podem
— Ora, senhor, eu repeti algumas vezes aguardar, permito-me remeter a Vossa Ma-
que elas são do diabo. jestade, a título de adiantamento, o cheque
— Bem, então é melhor ficares com elas, anexo”.109:1231
pois não quero na minha cavalariça animais
que pertencem a um dono como esse.32:5389 From: Montmorency
 Beaugeste, a magnanimidade pode mani-
Passando por Badajoz, Filipe II visitou festar-se de muitas maneiras. Na família da
o pintor Morales. Sabendo das dificuldades qual estou usando o pseudônimo, encontro três
financeiras dele, mandou conceder-lhe uma fatos que mostram o desprendimento em rela-
pensão de duzentos ducados, e disse: ção ao dinheiro.
— Assim tens o teu almoço garantido. 
— Muito obrigado, Majestade. Agora só Numa mesa de jogo, o almirante Mont-
me falta resolver o problema do jantar. morency colocou três mil libras sobre a mesa,
O monarca gostou da insinuação, e man- como aposta. Um dos presentes comentou:
dou dobrar a pensão.32:9982 — Eis aí uma bela quantia, que faria a for-
 tuna de um homem de bem.
Filipe II estava em Flandres e necessi- Tendo ganho a partida, ele pegou a quan-
tava urgentemente de dinheiro para despe- tia inicial duplicada e entregou-a a quem fize-
sas de guerra. Dissimulando suas cartas, que ra o comentário, dizendo:
no entanto eram melhores, o nobre Ruy — Preferi que a vossa fortuna fosse mai-
32:9951
Gómez perdeu para ele vinte mil escudos or.
numa partida.27:1:265 
O almirante Montmorency passeava com
Neste próximo relato, um dos personagens um amigo, e surgiu na conversa a dúvida se o
é o que inspirou o meu pseudônimo. dinheiro traz ou não a felicidade. Próximo de-
 les havia quatro camponeses trabalhando, e ele
Durante as guerras coloniais do século propôs:
XIX, os feridos que chegavam à Espanha — Vamos resolver o assunto com aqueles
superavam em muito a capacidade dos hos- camponeses.
pitais. Preocupada, a rainha regente Maria Aproximaram-se, e ele perguntou se eram
Cristina consultou o marquês de Valde- felizes. Três responderam que sim, explican-
iglesias, que sugeriu levantar fundos para a do cada um que tinha um pedaço de terra sufi-
construção de hospitais por meio de uma ciente para manter a própria família. A situa-
festa promovida pela marquesa de ção do quarto era diferente:
Esquilache. Chamada a palácio, a marque- — Para a minha felicidade, falta apenas
sa concordou. Foram na ocasião estabeleci- poder comprar um pedaço de terra que me
dos os planos, devendo resultar da festa do- pertencia, mas tive de vender para pagar dí-
ações no montante de trinta mil pesetas. vidas.
6 — Desprendimento e perdão manifestam nobreza de alma 45

— Se é só isso, terás o teu pedaço de terra. — Os Filipes futuros não podem ofen-
E mandou que o terreno fosse comprado der-se, pois ainda não nasceram. Os passa-
para o camponês.32:9950 dos também não, pois nada ouviram nem
 conhecem o agressor. Sobrei eu, o Filipe pre-
O almirante Montmorency presenteou sente. Não tenho nenhum motivo para de-
com uma bolsa de ouro o seu sobrinho duque fender os outros Filipes, e da minha parte
d’Enghien, que se tornaria o grande Condé. prefiro perdoá-lo. Colocai-o em liberdade,
Algum tempo depois, perguntou-lhe: pois trata-se de um homem corajoso, e vede
— O que fizeste daquele dinheiro? se podeis resolver logo o assunto dele. Es-
— A bolsa ainda está aqui comigo, intacta. tou certo de que a impaciência dele se deve
Montmorency pediu a bolsa, lançou-a para a falta de dinheiro, mas deste mal eu tam-
fora pela janela, e disse: bém posso queixar-me.32:5380
— Este é o uso que um príncipe deve fa- 
zer do dinheiro, e esta é a conta em que deve Maximiliano I da Áustria constatou que
tê-lo.32:9949 um dos seus servidores lhe roubara mil florins.
Chamou-o e perguntou-lhe, genericamente:

O s fatos provenientes da Áustria são mui-


to concludentes nesse sentido. Eis um
bom exemplo enviado pelo Kaunitz.
— Se alguém viesse a roubar-me mil
florins, que punição achas que deveria ser-lhe
aplicada?
 Julgando que não havia sido identificado
Frederico III da Áustria ofereceu uma cesta ele próprio como o ladrão, o servidor respon-
de frutas e uma bolsa com moedas de ouro ao deu, com desfaçatez:
seu filho Maximiliano. Ele os dividiu entre os — Acho que ele merece ser enforcado.
meninos seus amigos, e o pai lhe fez notar: Batendo-lhe no ombro, Maximiliano con-
— Vejo que serás um esbanjador. temporizou:
— Meu pai, não quero ser rei do ouro, e — Não, não! Ainda precisamos dos teus
sim daqueles que o possuem.32:9427 serviços.32:9428


E stes fatos comprovam que certas virtu-


des, só os ricos as podem praticar.95 Uma
delas é a magnanimidade ao dispor do dinhei-
Frederico II olhava através de uma janela
do palácio, e notou que um dos criados retira-
va às escondidas uma tabaqueira que estava
ro ou de outros bens materiais. Mas pode ser sobre a mesa. Deixou que ele o fizesse, depois
praticada tanto por pobres quanto por ricos voltou-se e perguntou:
quando se trata, por exemplo, do perdão. O — Essa tabaqueira te agrada?
próximo fato me foi entregue pelo Assustado, o criado emudeceu.
Valdeiglesias; e os outros pelo Falkenstein, — Diga-me: gosta da tabaqueira?
mais um colega que passou a colaborar. — Sim, Majestade.
 — Bem, neste caso é melhor levá-la, por-
Irritado com a demora dos juízes em jul- que é muito pequena para dois.1:238
gar uma causa em que estava interessado, um 
espanhol imprudente vociferou publicamente Um vigário de aldeia fez um sermão con-
contra todos os Filipes passados, presentes e tra o rei Herodes, mas muita gente entendeu
futuros. Foi aprisionado, e quando o assunto que se referia ao rei da Prússia Frederico II.
chegou ao conhecimento de Filipe II, este riu Este chamou o vigário a Potsdam. Para
e comentou: recebê-lo, ele e o secretário se vestiram de
46 A volta ao mundo da nobreza

padres, pois queriam dar a impressão de que From: Richelieu


eram membros da Inquisição. Caro Beaugeste, conheço alguns fatos
— O senhor pregou contra Herodes? bem interessantes sobre o perdão. Aí vão
— Sim, senhor. eles.
— A qual dos dois se referia: Herodes I 
ou Herodes II? As senhoras Beaujeu e Briconnet tinham
— Eu não sabia que existiram dois se utilizado do prestígio junto a Luís XI para
Herodes. prejudicar o duque de Orleans. Quando este
— Maldito! Como ousa pregar contra se tornou o rei Luís XII, alguns lhe sugeri-
uma pessoa que nem conhece?! Desta vez o ram que se vingasse. Ele se recusou:
perdoamos, mas não caia de novo nesse — Seria indigno de um rei de França
erro.33:2287 vingar-se das ofensas feitas ao duque de
 Orleans.32:8586
Frederico II não era dos homens mais ge- 
nerosos do mundo. Um coronel insistia em Alguém queria convencer Luís XII a
obter dele um posto, alegando que a família confiscar os bens de um burguês, que se de-
morria de fome com o salário que recebia. A clarara seu adversário antes de ele tornar-se
petição era devolvida sempre com simples pro- rei da França. O monarca não autorizou, e
messas. Afinal, o coronel publicou anonima- esclareceu:
mente um violento libelo contra ele. Frederico — Eu não era ainda rei quando ele se
estipulou uma recompensa de alto valor para opôs a mim. Sendo agora rei, sou também o
quem lhe apontasse o autor. Então o coronel pai de todos, inclusive dele. Devo portanto
se apresentou em palácio: perdoá-lo e defendê-lo.32:8588
— Sou o autor do escrito, e Vossa Ma- 
jestade pode condenar-me à morte. Mas Quando subiu ao trono da França, Luís
morrerei tranqüilo se destinardes à minha XII recebeu a relação de todos os servidores
pobre família a recompensa prometida. e assinalou com uma cruz aqueles que havi-
— Está bem! A sua mulher receberá a am sido seus adversários. Julgando-se arru-
soma. Mas o senhor se apresentará ao co- inados, eles se preparavam para exilar-se,
mandante da fortaleza de Spandau, onde es- mas o rei chamou-os à sua presença:
perará as minhas ordens como prisioneiro. — Estais enganados. Esta cruz é como a
Alguns dias depois, o coronel se torna- de Jesus, e indica apenas o meu perdão.32:8587
va comandante da fortaleza de Spandau.33:2279 
 O poeta inglês John Milton fora adver-
Durante a Guerra dos Sete Anos, foi pre- sário político de Carlos I, e no fim da vida
so um desertor prussiano e levado a Fre- tornou-se cego, passando a levar uma vida
derico II. retirada e miserável. Foi visitá-lo o duque
— Então o senhor queria abandonar-me? de York, futuro Jaime II, que ao voltar a pa-
Por quê? lácio comentou com seu irmão Carlos II:
— Senhor, os vossos negócios andavam — Um traidor como aquele merecia bem
tão mal, que julguei prudente abandoná-los. a pena de morte.
— Bem, então dê-me um crédito de con- Carlos II respondeu:
fiança até amanhã. Tentarei mais uma bata- — Ele já está bastante castigado. É po-
lha, e se a coisa não correr bem, desertare- bre, velho e cego. Tirar-lhe a vida seria
mos juntos.45 favorecê-lo.110:105
6 — Desprendimento e perdão manifestam nobreza de alma 47

A té uma criança como o filho de Maria


Antonieta – que se tornaria Luís XVII
e morreu na prisão com cerca de dez anos –
— Pequeno Capeto, se os realistas te li-
bertassem e te colocassem no trono, o que
farias?
pode aprender a virtude do perdão, que mui- — Eu te perdoaria.33:4087
tas vezes só se adquire em casa.

Após a execução de Luís XVI, o delfim foi
violentamente separado da rainha Maria
D esapego em relação ao dinheiro, per-
dão, apoio aos menos favorecidos,
tudo isso reflete nobreza de alma. Virtude
Antonieta para ser “educado” pelo sapateiro Si- que pode ser praticada por grandes e pe-
mão, que agiu como verdadeiro carrasco de acor- quenos, mas de modo geral o exemplo de-
do com as ordens dos revolucionários jacobinos. las vem dos mais poderosos. Em ambos os
Numa das “aulas”, Simão perguntou: casos,

Desprendimento e perdão
manifestam nobreza de alma
48 A volta ao mundo da nobreza

7º dia

From: Geoffrin From: Geoffrin


Salão Beaugeste! Isso mesmo: Salão Tudo bem, Beaugeste. Mas considero
Beaugeste! Nada de blog. Ontem eu tomei minha obrigação, agora que pertenço ao seu
conhecimento do seu trabalho, Beaugeste, e grupo, fornecer algumas informações sobre
me interessei logo em ajudá-lo, pois conhe- esses salões. E começo por citar fatos rela-
ço alguns fatos que atendem ao seu objeti- cionados com Mme. Geoffrin.
vo. E quero também conhecer os fatos que 
os seus amigos já estão apresentando e ain- Mme. Geoffrin manteve em Paris, no
da deverão apresentar. Mas fiquei intrigada: reinado de Luís XV, um dos salões literários
“Parece-me que conheço algo como o que mais famosos e mais bem freqüentados, onde
ele está fazendo...”. Custei a dar pela coisa, se reuniam para conversar pessoas impor-
mas agora já tenho certeza. Embora virtual, tantes por ela escolhidas.33:3095 Seu marido,
trata-se de um verdadeiro salão de conver- François Geoffrin, era o rico administrador
sa, como aqueles que houve por toda parte da Companhia Saint-Gobain, e a apoiava
antes e um tanto depois da Revolução Fran- nessas atividades culturais. Sempre que po-
cesa, especialmente em Paris, onde eram dia, ele comparecia às reuniões, embora sem
cerca de trinta. Lá as pessoas se reuniam para participar ativamente das conversas e dis-
trocar idéias, transmitir informações, apri- cussões. Um freqüentador do salão pergun-
morar a cultura. Era um centro de ativida- tou a Mme. Geoffrin:
des culturais, entretenimento e difusão de — O que é feito daquele senhor idoso
idéias, e os revolucionários se utilizaram que ficava sentado à cabeceira da mesa e
muito desse recurso para os seus objetivos. nunca dizia nada?
Reunindo agora tantas pessoas para “con- — Ele morreu. Era o meu marido.108
versar” em bases virtuais, você está abrindo 
um verdadeiro salão. E a finalidade desse Ela sabia conduzir a conversa de modo
salão, temos de reconhecer, é muito boa. Por a que cada um pudesse expor livremente suas
isso eu proponho que não se fale mais em opiniões. O seu brilho era tanto maior quan-
blog, e sim no Salão Beaugeste. A propósi- to mais fazia brilhar os seus amigos. Até
to, meu pseudônimo é uma homenagem à mesmo os freqüentadores cuja conversa era
anfitriã de um dos mais famosos salões. pouco atraente, quando sua língua era puxa-
da por ela, sabiam tornar agradável o que

A miga Geoffrin, você me assustou. Sem


dúvida tem razão, pois conheço tam-
bém alguma coisa sobre os salões. Mas não
diziam. Um desses, Bernardin de Saint-
Pierre, quando foi elogiado pelo que havia
dito, reconheceu:
havia pensado nesse aspecto da minha pro- — Sou apenas um instrumento que a Sra.
cura por fatos, cujo objetivo é atender à exi- Geoffrin soube tocar bem.32:6321
gência do meu professor. Vou pedir aos de- 
mais colaboradores que se manifestem so- Nessa época a conversa era cultivada
bre a sua proposta, e logo lhes darei conhe- como uma arte; uma boa conversa era mais
cimento do resultado. procurada que um bom partido; uma pala-
7 — Nos salões de conversa a sociedade se requintava 49

vra espirituosa fazia perdoar um mau jan- dos seus belos quadros, pagando quatro mil
tar.108 O dom superior da conversa é uma francos. De passagem por Paris, dois nobres
questão de índole e de tato, de requinte inte- russos interessaram-se em comprar os qua-
lectual ou mesmo de cultura geral, muito dros. Embora não pensasse em vendê-los,
mais que de instrução. Os maiores admira- disse que poderia atender ao interesse deles
dores de Mme. Geoffrin, e que mais apreci- se recebesse uma boa oferta. Quando ofere-
avam a arte superior com que ela sabia diri- ceram cinqüenta mil francos, ela aceitou
gir uma conversa, estão de acordo em reco- imediatamente. Depois de descontar o que
nhecer que o grau de instrução dela era me- lhe custaram os quadros, ela entregou todo
díocre. Os espíritos mais equilibrados e ju- o dinheiro à viúva de Van Loo, cujas difi-
diciosos da época declararam que Mme. culdades financeiras ela conhecia.32:6335
Sainte-Amaranthe, muito pouco letrada, ti- 
nha como Mme. du Deffand a arte de fazer Geoffrin ostentava publicamente ceticis-
ressaltar o espírito dos outros.83 mo, abundante nos freqüentadores do seu
 salão, mas era religiosa às escondidas. A
E parece que Geoffrin não era das mais doença que a levou à morte resultou da sua
belas parisienses. Quando o pintor Greuze participação na procissão durante um dia de
soube que ela havia feito algumas ironias inverno. Para os amigos iluministas que a
sobre ele, ameaçou: reprovavam, procurava manter a nota livre-
— É bom ela não me provocar. Do con- pensadora:
trário, sou capaz de vingar-me pintando o — Ora, amigos, a gente acaba morren-
retrato dela.33:3095 do por causa de alguma tolice.32:6336
 
Mme. Geoffrin era objeto da admiração A filha de Mme. Geoffrin, marquesa de
dos soberanos europeus, mas não o consegui- la Ferté-Imbault, tinha também um salão
ra à custa de adulações. Quando soube do as- muito conceituado, cujos freqüentadores as-
sassinato do czar Pedro III, cuja autoria sumiam convicções opostas à dos
Catarina II procurava ocultar por meio de um iluministas. Quando Mme. Geoffrin agoni-
manifesto, ela escreveu-lhe uma carta relatan- zava, a filha procurou manter afastados da
do o mau efeito que esse manifesto produzira casa os filósofos ateus que a freqüentavam,
na França. A czarina desconversou: para evitar que influíssem negativamente nas
— Ai de mim! Aquele memorial não foi suas disposições para uma morte cristã.
escrito para a França, e sim para um povo ao Quando d’Alembert conseguiu entrar, la-
qual se deve dizer aquilo em que é necessá- mentou-se por esse tratamento, e ela justifi-
rio acreditar.32:6334 cou a atitude da filha:
 — É preciso ter paciência. Minha filha
Um dos freqüentadores do salão de Mme. é como um Godofredo de Bouillon, que luta
Geoffrin era Estanislau Poniatowski. Quando para defender meu túmulo contra os infi-
tornou-se rei da Polônia, convidou-a a visitá- éis.32:6337
lo em Varsóvia. E levou sua gentileza ao pon-
to de preparar-lhe no palácio um apartamento
em tudo igual ao dela em Paris.32:6333

O s dados que você apresenta sobre a sua
homônima são de fato muito interes-
santes, amiga Geoffrin. Eu também já li al-
O pintor Van Loo era outro freqüentador guma coisa sobre os salões literários ou de
do salão. Quando morreu, ela arrematou dois conversa, e sempre encontrei a afirmação de
50 A volta ao mundo da nobreza

que os freqüentadores eram exímios na arte rências, das benignidades, do saber viver; por
de conversar. todos os requintes e aprimoramentos desse
Além do prazer da conversa, havia o de espírito de sociedade, que um livro da épo-
imitar a corte ou cópias da corte. O salão ca compara e identifica com o espírito de
reunia um grupo hierarquizado de homens e caridade.30
mulheres presidido por uma pessoa – o an- Nos salões se formava e se constituía
fitrião ou anfitriã, a quem todos rendiam essa França tão ufana de si mesma, de graça
homenagem – que representava em ponto tão consumada, de elegância tão exímia – a
menor o monarca. A arte da conduta em tal França polida do século XVIII. Um mundo
meio não consistia exclusivamente na con- social que até 1789 se projetaria acima de
versa, mas supunha antes de tudo a distri- toda a Europa, como a pátria do bom gosto
buição fácil, segura, delicada, dos matizes de todos os países, como o modelo dos cos-
de respeito devidos à diversidade dos méri- tumes.26
tos e dos níveis sociais. E o prazer do amor- Nessa época brilhante que foi o Antigo
próprio atendido dessa forma, numa socie- Regime, a conversa era o predomínio do es-
dade eminentemente hierárquica, era pelo pírito de corte, o requinte do savoir plaire,
menos tão apreciado quanto a permuta e acei- do savoir vivre, a recreação por excelência.
tação mútua das idéias.48 Finura, graça, limpidez, rapidez, ligeireza,
A arte da conversa foi levada ao seu apo- arte de esconder o pensamento ou a malícia
geu na França no século XVIII. Nunca se sob o véu transparente dos subentendidos,
conversou tanto, nunca se conversou tão palavras que iam além do que exprimiam,
bem.14 Em nenhum país, em nenhum sécu- gracejos, réplicas – eis algumas das rutilantes
lo, a vida chegou a tornar-se tão agradável, preciosidades que faiscavam à luz das ve-
por força de uma arte social tão perfeita. Paris las, antes de caírem magnificamente, prin-
era a escola da Europa. Uma escola de urba- cipescamente, como fitas de seda, nos tape-
nidade, na qual jovens da Rússia, Alemanha tes finos daqueles salões aristocráticos.21
e Inglaterra iam se educar. Lord Chesterfield Madame d’Oberkirch descreveu o am-
não se cansava de repeti-lo em cartas a seu biente dos salões: Para quem fosse despro-
filho, estimulando-o a freqüentar os salões vido de espírito, de elegância, de sabedoria
parisienses, que o limpariam de sua “ferru- do mundo, do gosto pelas anedotas e pelas
gem de Cambridge”. Quem os conhecia, ja- mil bagatelas que compõem as notícias, era
mais os abandonava; ou, quando era obriga- inútil pensar em ser admitido a essas reuni-
do a fazê-lo, lamentava-o sempre.21 ões plenas de encanto, únicas onde existia a
Baseava-se nos salões a grande institui- verdadeira conversação. Saboreava-se uma
ção do tempo, única que permaneceu forte verdadeira mousse sobre assuntos os mais
até a Revolução, única que manteve, em diversos. Depois que se evanescia, dela nada
meio ao descrédito de todas as leis morais, a restava; mas para quem a saboreou, tudo o
autoridade de uma regra. Neles se baseava a mais parecia insípido.14
denominada companhia perfeitamente boa, Entre os elementos que constituíam a
isto é, um tipo de associação dos dois sexos, doçura de viver, no Antigo Regime, ocupa-
cujo objetivo era distinguir-se da má com- va lugar de destaque aquele modo distinto
panhia, das sociedades vulgares, das socie- de proceder ou de falar, conhecido como
dades provincianas; pela perfeição dos mei- polidez. Esta qualidade típica do francês de
os de agradar, pela delicadeza da amabilida- então se encontrava difundida por todas as
de, pela cortesia do trato, pela arte das defe- classes sociais, e se baseava numa espécie
7 — Nos salões de conversa a sociedade se requintava 51

de necessidade inata de devotamento, abne- formam sem cessar, em diferentes pontos da


gação e dom de si mesmo. A polidez é uma sociedade, centros de instrução a partir dos
arte engenhosa e encantadora, que penetra quais os erros e verdades raciocinados con-
todos os pormenores da palavra e da ação quistam por contigüidade até os confins da
para transformá-las em graça; e que impõe cidade, onde se estabelecem como artigos
ao homem, não o servilismo e a mentira, mas de fé”.43
respeito e preocupação com os outros, per- 
mitindo-lhe, em contrapartida, extrair da Quando a capital foi transferida de Tu-
sociedade humana toda a alegria que ela rim para Florença, havia a esse propósito
pode proporcionar.21 uma desavença muito grande entre a aristo-
 cracia do Piemonte e a da Toscana. A prin-
Madame de Maintenon tinha uma con- cesa Margarida de Sabóia se empenhou em
versa muito agradável, e sabia entreter seus reaproximá-las, e convidava representantes
convidados contando histórias atraentes. de ambas para o seu salão. Vitório Emanuel
Num dia em que sua casa se enchera de visi- II ficou entusiasmado com os bons resulta-
tas, o cozinheiro deixou queimar o assado. dos, e um dia beijou-lhe as mãos, dizendo:
Enquanto ela mantinha a todos pendentes das — Eu unifiquei politicamente a Itália,
suas palavras, o criado se aproximou e lhe mas quem moralmente a unificou fostes
disse ao ouvido: vós.32:9199
— Madame, se a senhora contar mais 
uma história, terei tempo de preparar outro A esposa do primeiro-ministro inglês
assado.27:2:217 William Gladstone conversava com visitas,
e o assunto encaminhou-se para a onisciên-

A influência desses salões na sociedade


era muito grande, pois neles se discuti-
am teses de interesse para as nações, e logo
cia de Deus. Para encerrar a discussão, um
dos presentes afirmou:
— Só há Um que conhece todas as coi-
elas se tornavam integrantes da opinião pú- sas.
blica, pois os próprios participantes se in- Com um sorriso, a Sra. Gladstone retru-
cumbiam de difundi-las nos seus círculos cou:
particulares e nos outros salões de que tam- — Isso mesmo! E o William estará aqui
bém participavam. Expondo com vivacida- dentro de alguns minutos.30:1584
de e clareza as suas idéias, uma pessoa aca-
ba influindo nas outras, que passam a aceitá- From: Contrappunto
las sem relutância. Beaugeste, não discuto a importância, a
A transformação de uma opinião indivi- utilidade e o requinte dos salões, mas havia
dual em opinião social, coletiva, deveu-se à neles gente com objetivos inconfessáveis.
eloqüência pública na Antiguidade e na Ida- Embora pessoalmente muito espirituosos,
de Média, e deve-se à mídia em nossos dias; eles se utilizavam desses centros de difusão
mas em todos os tempos, e antes de qual- da cultura para disseminar suas falsas idéi-
quer outra coisa, às conversas privadas.48 as. Vou relatar o que encontrei a respeito de
Diderot escreveu: “A opinião, esse corpo em um deles.
movimento dotado de toda a força para o 
bem ou para o mal, na sua origem é apenas Voltaire era freqüentador assíduo dos
o efeito de um pequeno número de pessoas salões, nos quais multiplicava suas calúnias
que falam depois de haver pensado, e que contra a Igreja. A Sra. Du Deffand o elogiou
52 A volta ao mundo da nobreza

no seu salão, e para reduzir a importância não deveria ter falado de jurisprudência sem
das obras que ele produzira, alguém argu- saber, mas no resto ele era muito sábio.
mentou: — Em Teologia posso afirmar, como te-
— Afinal, ele não inventou muita coisa. ólogo, que ele era uma nulidade, mas certa-
— Como?! Ele inventou muito, sim. In- mente era um gênio nos outros assuntos.
ventou toda a história.1:335 — Não na Matemática, que conheço
 bem, mas facilmente admito os conhecimen-
A veracidade histórica dos escritos de tos dele em outras matérias.
Voltaire é bem mais do que duvidosa. O his- — Sempre pensei que a História fosse a
toriador Velly perguntou-lhe: única ciência que ele não conhecia, pois nem
— O senhor afirmou que os cruzados, eu nem qualquer dos meus colegas o leva a
logo depois da conquista de Jerusalém, rea- sério.
lizaram um baile com as mulheres infiéis. Quando um poeta ia emitir a sua opi-
Em qual documento histórico o senhor en- nião, Duclos resolveu mudar de assunto. E
controu essa afirmação? todos continuaram persuadidos dos conhe-
— Em nenhum. Como os franceses são cimentos enciclopédicos de Voltaire.33:7129
muito galantes, concluí que as coisas não
poderiam ter sido de outro modo.33:7122

Na casa de Duclos, várias pessoas teci-
P odemos ficar hoje por aqui, mas estou
certo de que este assunto voltará à baila.
Há muito o que dizer sobre o modo como
am loas ao saber enciclopédico de Voltaire. funcionavam esses salões e sobre a influên-
— Como jurisconsulto, eu acho que ele cia que eles exerceram, pois

Nos salões de conversa a


sociedade se requintava
8 — A arte da conversa a serviço da verdade histórica 53

8º dia

A s respostas dos amigos e colegas sobre


a proposta da Geoffrin foram unânimes,
e de agora em diante falaremos de Salão
tom à conversa, ensinava a louvar sem ênfase
mas sem insipidez, a responder a um elogio
sem o desdenhar nem aceitar, a destacar ou-
Beaugeste, que substitui blog. É menos mo- trem sem parecer protegê-lo. Entrava e fazia
derno, porém mais de acordo com o assunto entrar, aqueles que ela reunia, nessas mil finu-
de que estamos tratando. Já que passamos a ras da palavra, do gesto, do pensamento e do
constituir um salão, é muito útil conhecer- próprio coração. Jamais permitia que uma dis-
mos algumas das regras que eram seguidas cussão chegasse à altercação, velava tudo com
nos salões. E apresentou-se um novo cola- ligeireza e, apoiando-se tão só no que toca ao
borador, Morellet, que me enviou várias con- espírito, impedia a maledicência de degenerar
siderações sobre a arte de conversar. Pelo em pura maldade. Proporcionava a modéstia,
que pude perceber, é algo muito diferente a reserva, a bondade, a indulgência, a doçura e
de bate-papo, jogar conversa fora, passa- nobreza de sentimentos, o esquecimento do
tempo. Havia método na conversa, que era egoísmo. Ou pelo menos impunha de tudo isso
utilizada para trocar idéias, transmitir infor- as formas, exigia as aparências, mostrava que
mações, formar uma mentalidade. Vamos ao aspecto isso tinha, lembrava os próprios deve-
que nos ensina o Morellet. res.26
A conversa é uma das artes mais impor-
A conversa é uma característica dos tantes da vida humana.14 Passar a vida sem
melhores períodos de civilização e cultura conversar, sem ouvir, é fazer como um via-
geral. É um prazer comum a todas as épo- jante que viaja sem olhar nada.83 Conversan-
cas, nos povos civilizados ou que pretendem do bem, tornamos agradável o nosso conví-
sê-lo.83 Os antigos encontravam a razão de vio e atraente o ambiente onde estamos.
ser de sua vida em um convívio dos espíri- Embora pareça uma atividade supérflua, a
tos, e por isso aprimoravam muito a conver- ela se aplica aquela oração proposta por um
sa, que se tornou uma verdadeira arte. A con- escritor: Senhor, dai-me o supérfluo, que de
cepção que havia antigamente é que se de- bom grado abrirei mão do essencial.14
via trabalhar durante o dia, para à noite estar A conversa é o agente mais poderoso da
sossegado, conversar e tratar de assuntos imitação, da propagação dos sentimentos,
variados.14 idéias e modos de ação. Um discurso atra-
A boa companhia não foi, no século ente e aplaudido, freqüentemente não é tão
XVIII, somente a guardiã da urbanidade. sugestivo, porque todos sabem que é feito
Mais do que isso, ela sustentou todas as leis com essa intenção. Os interlocutores agem
que derivam do bom gosto. Exerceu ainda uns sobre os outros de perto, pelo timbre de
uma influência moral, pondo em circulação voz, pelo olhar, pela fisionomia, pelos pas-
certas virtudes nos costumes e na vida práti- ses magnéticos dos gestos, e não somente
ca, fazendo as almas conservarem altivez, pelas palavras. As conversas telefônicas, em
preservando a nobreza nas consciências.26 que não existem esses elementos de interes-
Aparência e usos, modos e etiqueta exte- se, são caracteristicamente aborrecidas quan-
rior, a boa companhia os fixava. Ela dava o do o assunto não é puramente utilitário.48
54 A volta ao mundo da nobreza

As pessoas que sabem conversar têm Na conversa, como na música, lentidão é


uma enorme vantagem na vida. Não há arte sinônimo de tristeza.7 Deve-se apreciar sobre-
de viver sem arte de conversar.14 Para a mai- tudo a conversa ágil e esvoaçante, que num
oria das pessoas, uma conversa interessante instante passeia sobre vinte assuntos diferen-
é e deve ser um real descanso, um derivati- tes: bosquejos sobre pessoas, anedotas sobre
vo agradável para as obrigações profissio- políticos, os bastidores da política e do mun-
nais, uma ocupação cômoda e repousante. É do, exemplos de pedantismo e intolerância,
um verdadeiro prazer, uma distração encan- além da troca de elogios requintada, perpétua,
tadora.83 tão agradável que deleita até mesmo quando
A conversa vive da ligação das idéias. O falsa; e, melhor ainda, aquela habilidade para
espírito progride caminhando de uma idéia insinuar com meias palavras uma aprovação,
a outra, de duas idéias admitidas a uma hi- por uma formulação picante, uma imagem
pótese terceira, pois tudo na natureza e no nova. Em suma, o bom gosto em todas as coi-
pensamento humano se relaciona pela pro- sas, que é um dos prazeres requintados.83
ximidade.7 Há maus conversadores que sal- A essência da arte de conversar consiste
tam de um ponto a outro no mesmo assunto, em entreter, ao mesmo tempo instruindo e
de um argumento a outro antes de discutir a alimentando. O primeiro objetivo, que não
solidez do primeiro, e sempre sem ter bem é o mais importante, é entreter. Mais impor-
definidos os termos.83 tante é a troca de idéias, por duas ou mais
Numa alternação agradável entre silên- pessoas, sobre assuntos vários, com o obje-
cio e troca de idéias, de impressões, de re- tivo de aprimoramento cultural e intelectu-
cordações, passeia-se através de vários as- al. Enquanto se sente na alma o desejo de
suntos, como se pode passear por um jardim expandir algo, tem-se também a vontade de
onde se encontram flores variadas, animais receber algo.14
interessantes, pássaros multicoloridos. Como A arte da conversa facilita as relações,
num jardim bem cuidado e cultivado, é as- possibilitando criá-las, ampliá-las, e sobre-
sim que deve desenrolar-se uma conversa.14 tudo dar-lhes um estilo agradável, cômodo,
Ágil e sinuosa, ela é como o vôo de um pás- que incita a multiplicá-las.83 As visitas são
saro: passa com vivacidade de uma idéia a uma arte que mereceria um estudo
outra, animada pelo ímpeto da presença aprofundado. É todo um relacionamento
alheia.24 cortês, que amaina as durezas da solidão e
A conversa é bem diferente do ensino, enriquece a convivência.22
não é tão compacta. Ela dá vontade de pen- O afã de ser amável e atencioso com-
sar mais, de comunicar mais, de fazer esse porta a idéia de que, quando se é anfitrião,
intercâmbio mental respirado, tonificante e deve-se ter o prazer de praticar sacrifícios
verdadeiramente humano. O próprio da boa para agradar o próximo. Assim eram os an-
conversa é ser variada. Como uma salada de tigos costumes, e é preciso reconhecer que
frutas, que ninguém imagina numa bandeja eram sábios. A causa de tal procedimento
grande, separadas as frutas por vários seto- talvez estivesse na idéia, por todos admiti-
res. O excelente da conversa é quando cada da, de que quando se hospeda alguém, con-
colherada traz um sabor diferente, uma sur- vém enfrentar com alegria as dificuldades
presa diferente. Tem-se a sensação da varie- que se tem para acolhê-lo. Não se conside-
dade dentro da continuidade do pensamen- rava digna uma acolhida se ela não ocasio-
to, e a variedade consola da monotonia da nasse algum incômodo ou sacrifício, e não
continuidade.14 exigisse certa abnegação.21
8 — A arte da conversa a serviço da verdade histórica 55

 las pelo melhor lado e lhes põe os ornamentos


Um grande de Espanha recebeu em seu que lhes convêm; penetra no gosto dos outros
palácio o rei Filipe II e a rainha, destinando- e tira-lhes do pensamento o que é inútil, ou o
lhes aposentos ricamente ornados com ta- que pode desagradar. Um espírito reto, fácil,
peçarias valiosíssimas. Quando o casal real sutil, sabe evitar e transpor todas as dificulda-
partiu, todas essas peças foram imediatamen- des; dobra-se com facilidade ao que quer; sabe
te lançadas ao fogo, pois o nobre não consi- conhecer e seguir o espírito e o humor daque-
derava digno serem usadas por quaisquer les com quem tem trato, e no interesse destes
outros personagens.27:1:501 avança e estabelece os seus. Vê todas as coi-
sas como devem ser vistas, dá-lhes o valor que
As conversas fluíam naturalmente, dan- merecem, sabe voltá-las do lado que mais lhe
do a impressão de que tudo era espontâneo, aproveita, atém-se com firmeza a seus pensa-
pensado na hora e transmitido sem maiores mentos, porque lhes conhece toda a força e a
preocupações com a veracidade ou com a razão.69:129
profundidade do que se afirmava. Mas ha- O anfitrião não deve querer brilhar, pois
via método em tudo isso, e é sabido que bons isso desperta ciúmes. Não deve tomar sem-
improvisadores são os que se preparam pre a dianteira na conversa, ao menos na
longamente para improvisar.14 aparência. Deve nutrir a conversa sem
Numa conversa, ou mesmo numa discus- dominá-la, pois para dirigir um coro não é
são, as pessoas representavam verdadeiros necessário participar dele.83 Como um ma-
modelos da arte de sustentar idéias. O rigor do estro, deve saber pensar sobre o conjunto e
método era velado pela mais perfeita naturali- extrair de cada conviva o máximo dos seus
dade. Mesmo em meio às maiores divergênci- talentos, mas sem permitir que a vivacidade
as, os interlocutores mantinham polidez de degenere em paixão, que o arrebatamento da
palavra, clareza de espírito e calma, que desa- afirmação atinja o desacordo proclamado, o
parecem hoje diante da menor contradição. monólogo furioso.7
Quem apresentava uma réplica a uma tese ex- 
posta, começava por resumir com extrema O príncipe de Condé costumava reunir
cortesia a opinião do outro. Em seguida, dan- literatos e comprazia-se em ouvir e discutir
do às suas próprias idéias uma ordem rigoro- as obras deles. De modo geral os seus co-
sa, respondia numa linguagem clara e simples. mentários eram judiciosos, feitos com graça
Num encadeamento maravilhoso, os pensa- e afabilidade. Quando acontecia tomar uma
mentos encontravam toda a sua força.21 posição inadequada, irritava-se e era peri-
Se bem que alguns espíritos superficiais goso contradizê-lo. Numa ocasião em que
não compreendam tal necessidade, é indis- Boileau sustentou uma posição contrária, a
pensável que a conversa tenha ordem e mé- irritação dele foi tão grande, que Boileau
todo. A pessoa deve se aplicar a expor as resolveu calar-se. E depois comentou com
idéias de modo concatenado. A recomenda- um amigo:
ção parece banal, mas é necessário começar — De agora em diante, tomarei sem-
pelo começo, prosseguir pelo meio e termi- pre a posição do príncipe... quando ele esti-
nar pelo fim; no entanto muitas pessoas são ver errado.1:6
incapazes de segui-la enquanto conversam.83
Um belo espírito pensa sempre O anfitrião deve saber escutar e fazer que
nobremente; produz com facilidade coisas cla- escutem aqueles que ele se esmera em fazer
ras, agradáveis e naturais; faz as pessoas vê- falar.83 Uma pessoa experiente na arte de con-
56 A volta ao mundo da nobreza

versar tem a atenção voltada constantemente são muito menos preparadas para isso do que
para aqueles com quem conversa. Ora tem de antigamente. É raro encontrar famílias em que
moderar alguém excessivamente loquaz, ora uma tradição requintada de relacionamento
deve dirigir-se aos que estão em uma zona de humano se tenha perpetuado por várias gera-
atonia, para despertá-los e inseri-los no curso ções.83 Existe a constatação de que simples-
da conversa.14 Quem exagera do lado do si- mente não se sabe mais conversar, pois a con-
lêncio é indesejável, mas o defeito inverso tam- versa é uma série de imoralidades ou de
bém não deve ser estimulado.7 casinhos completamente sem importância. Não
A escolha dos temas deve ser feita com é raro dois ou três ficarem mudos juntos. Não
cuidado. Devem-se tomar como temas de se tem o que dizer, então fica-se mudo.14
conversa assuntos de interesse coletivo, e não Nosso mundo moderno apresenta ainda
apenas os que estão de acordo com a pró- outros empecilhos à arte de conversar. Vários
pria apetência natural e momentânea. A pes- elementos perturbadores intervieram para mo-
soa que tem a arte de conversar não levanta dificar as formas tradicionais de conversa, e
temas que não interessam. Mas, se percebe até mesmo para, em muitos casos, fazê-la de-
que o outro os levanta, entende que ele gos- saparecer dos ambientes em que reinava.14 Há
ta, e aí se trata de alimentar com isso a con- atualmente comportamentos radicalmente des-
versa e tirar dela o proveito possível.14 truidores da conversa: ligar a televisão duran-
 te as refeições; tornar-se surdo ao ambiente por
Maria Antonieta perguntou a Chamfort: meio de um mp3 player; falar com um ausen-
— Como consegue o senhor agradar a te através do celular, enquanto se emudecem
tanta gente? os presentes que têm direito de interlocutores.7
— É muito simples, Majestade. Quando O baralho é o instrumento dos que não sabem
queremos agradar, em sociedade, temos de conversar, é a escola do silêncio.83
resignar-nos a aprender o que já sabemos por Há pessoas que não perdoam nos outros
meio das pessoas que não o sabem.32:2929 o assumirem a primeira posição na conver-
 sa. Usam toda a energia e todos os recursos
Depois de conversarem durante uma para cortá-la ou desviá-la, mesmo que seja
hora com um interlocutor cacete, o Pe. para futilidades, a fim de tomar o coman-
Morellet perguntou a Mme. Geoffrin: do.83 É perigoso querer dominar a conversa
— A senhora não está extenuada? ou falar demasiadamente do mesmo assun-
— Não, porque eu o fiz falar de si mes- to.69 Os monopolizadores da conversa têm o
mo, e ao falar de si a pessoa sempre o faz dom de matá-la.83
com algum atrativo.7 
Um experiente conversador usava esse Discutindo na Academia Francesa sobre
mesmo critério: um ponto de literatura, o Sr. Danchet discor-
— Quando quero reter alguém, conver- dou de Voltaire, e foi por ele tratado injuriosa-
so a respeito dele. Quando quero que se vá mente. O educado e discreto Fontenelle não
embora, falo a meu respeito.14 pôde impedir-se de censurá-lo:
— Senhor Voltaire, justificais bem a re-
Não podemos esquecer que hoje há inú- pugnância que sempre tivemos em admitir-
meros empecilhos ao êxito das conversas em vos entre nós.58:3:300
salões ou em outros ambientes sociais. Um
deles é a falta de preparação. Atualmente as Aos olhos dos economistas, desfrutar um
pessoas que participam em conversas sociais mesmo filão de conversa deve ser a mais
8 — A arte da conversa a serviço da verdade histórica 57

improdutiva das futilidades. Para eles, con- participação solícita de todos. Mesmo não
versar é perda de tempo, pois toda a vida tendo no momento alguma contribuição im-
social deve convergir para a produção a todo portante a apresentar, nossos amigos podem
custo, e a conversa só tem o direito de ser fazer perguntas, pedir esclarecimentos, apre-
tolerada como meio de troca. Mas uma so- sentar objeções, comentar fatos ou afirma-
ciedade em que se realizasse esse ideal, em ções. E desse modo iremos ampliando nos-
que só se conversasse para fechar negócio, sos conhecimentos sobre um assunto que
aliança, compra, venda, teria de fato algo de tanto nos está atraindo.
social? A refeição silenciosa, um lanche en- Tudo indica que caminhamos para con-
tre duas atividades comerciais, uma vida ata- solidar um conjunto de princípios e de fatos
refada e muda – esta perspectiva é recusá- capazes de comunicar a respeito da nobreza
vel, quando se pensa na necessidade essen- uma imagem radicalmente contrária à que
cial que temos de nos compreendermos me- nos é apresentada pela historiografia super-
lhor uns aos outros, e que a satisfação dessa ficial modelada pelos revolucionários. Atra-
necessidade é o fruto mais alto e saboroso vés de um salão como o nosso, podemos
da civilização.43 perfeitamente mudar essa mentalidade
distorcida, fornecendo os elementos para

P arece-me que todos esses conceitos ex-


postos pelo Morellet nos dão ótimas ori-
entações sobre o modo como podemos con-
uma visão correta e historicamente verda-
deira do que foi o Antigo Regime. Pois está
claro que nosso trabalho não ficará confina-
duzir este nosso salão. Na medida em que do entre as “quatro paredes” deste nosso sa-
os aplicarmos, nosso convívio se tornará tão lão virtual. Difundindo-o, estaremos colo-
agradável quanto possível. Isso incentiva a cando

A arte da conversa a serviço


da verdade histórica
58 A volta ao mundo da nobreza

9º dia

N unca uma sociedade foi mais refinada,


mais elegante, mais brilhante, mais fas-
cinante do que a alta sociedade francesa do
Alguns nobres acabaram por concordar
em freqüentar a corte de Napoleão, onde
havia profusão de bebidas e outros atrativos.
século XVIII. Os mais variados prazeres do Logo que as recepções terminavam, muitos
espírito, uma intensa cultura intelectual, uma se reuniam em casa de um deles, todos tor-
arte finíssima de agradar, uma requintada de- nados pobres pela espoliação que sofreram,
licadeza de maneiras e de linguagem, era o e aí conversavam de fato, de acordo com os
que dominava aquela sociedade.89:99 costumes que conheciam muito bem. Não
Alguns episódios que já nos foram rela- era raro o anfitrião ter apenas leite para ofe-
tados mostram um contraste flagrante entre recer-lhes como bebida, mas eles preferiam
o que havia antes da Revolução Francesa e isso a uma corte com a qual não tinham a
o que surgiu depois dela, seja em conseqüên- menor consonância.14
cia da subida de Napoleão, seja pelo desa- 
parecimento ou empobrecimento da nobre- A duquesa de Chevreuse se opunha te-
za tradicional. São muito significativos al- nazmente à corte espúria de Napoleão, e re-
guns fatos em que a finura e requinte da no- cusava-se a freqüentá-la. Napoleão encarre-
breza contrasta com os hábitos de caserna gou Talleyrand de dobrá-la, e ela afinal con-
de Napoleão e da nobreza espúria que ele cordou em ser dama de companhia da impe-
criou. Vamos apresentá-los do modo como ratriz Maria Luísa. Nessa condição, compa-
me foram enviados pela Chateaubriand e receu a uma festa vestida de branco, com
pelo Contrappunto. numerosas pedras preciosas. Ao cumpri-
 mentá-la, Napoleão se impressionou com as
Os reis, que haviam nascido em palácio jóias.
e sabiam como eram pesadas as exigências — Oh! Oh! Que belas pedras! São todas
de representação inerentes à sua função, sa- verdadeiras?
biam também deixar à vontade os que os Com estudada indiferença, ela respon-
cercavam, especialmente nos momentos em deu:
que a etiqueta era dispensável. Bem diferente — Não tive tempo de conferir, Senhor.
era a atitude de monarcas adventícios como Mas também, como era para vir aqui, qual-
Napoleão, que se queixou a Talleyrand: quer uma serviria.68
— Eu reuni em Fontainebleau meio 
mundo, regulamentei todas as distrações, Durante um baile nas Tulherias, Napo-
mas só vejo caras compridas, com semblan- leão disse à duquesa de Chevreuse:
te cansado e triste. — É estranho como a senhora tem os
— Acontece que os prazeres não se co- cabelos avermelhados e duros.
mandam ao ritmo de tambor. Tanto aqui — É possível. Mas é a primeira vez que
como no exército, Vossa Majestade assume ouço isso de um cavalheiro.33:4923
o mesmo tom de comando: ordinário, mar- 
che!41:23 Napoleão perguntou à duquesa de
 Fleurs:
9 — A vida social dos nobres era voltada ao bem comum 59

— A senhora continua gostando de ho- Compareceu no dia combinado e man-


mens? teve-se calado todo o tempo, o que deixou a
— Sim, especialmente quando são edu- senhora muito incomodada. Mas uma meni-
cados.109:1519 na se aproximou do duque, olhou-o bem de
 perto, e gritou:
Madame de Staël comentou muito judi- — Mamãe, o duque está morto!
ciosamente, numa reunião social, a posição Grande movimento e grande preocupa-
dos vários partidos políticos depois do Ter- ção no salão. Depois de desfeito o engano
ror. Todos elogiaram os comentários, exceto da criança, a mãe a repreendeu:
o general Bonaparte. — De onde você foi tirar que o duque
— O senhor não pensa como eu? está morto?
— Não sei. Não prestei atenção no que — Ora, mamãe, o duque cheira mal e
disse, pois não acho adequado as mulheres não fala. E a senhora me disse que estes são
se intrometerem na política. sinais de que alguém está morto.32:12488
— É verdade, General. Mas o senhor 
deve concordar que, num país onde se corta Victor Hugo e Alexandre Dumas (pai)
a cabeça das mulheres, é natural que elas estavam em Londres e foram convidados
queiram saber a causa.109:1425 para um jantar pelo duque Descazes. Eram
 também convidados lord Palmerston e es-
A condessa de Castiglione tinha atitu- posa, que só puderam chegar quando todos
des impertinentes que irritavam a corte de já estavam à mesa, o que levou os anfitriões
Napoleão III, outro adventício. Algumas à impossibilidade momentânea, e depois ao
vezes, fazia coincidir a sua chegada a uma esquecimento, de apresentar-lhes os dois
recepção com o momento em que o sobera- escritores convidados. De acordo com a rí-
no se retirava. Este a repreendia: gida etiqueta britânica, as pessoas só podi-
— Chegastes tarde, senhora. am dirigir a palavra àqueles a quem haviam
E ela replicava: sido apresentadas, e portanto não era possí-
— É Vossa Majestade que está se reti- vel haver trocas de palavras entre eles. Ter-
rando muito cedo.109:2786 minada a refeição, e por recomendação de
Palmerston, foi deixada uma cadeira vazia
From: Chesterfield entre Hugo e Dumas, que não conseguiam
Nas recepções, bailes e festas, há nor- entender o motivo daquela esquisitice. Quan-
mas de polidez que devem ser respeitadas. do já ia alta a noite, lord Palmerston man-
Como algumas pessoas nem sempre têm essa dou que sua mulher se sentasse na referida
preocupação, surgem com freqüência situa- cadeira, e logo lhe perguntou:
ções embaraçosas. — Senhora, que horas são?
 — Meia-noite e três quartos.
Em visita a uma pequena cidade, o du- — Ótimo! Deveis então lembrar-vos,
que de Roquelaure esteve nas casas de todas para toda a vida, de que hoje, à meia-noite e
as pessoas gradas, mas esqueceu-se de uma três quartos, tivestes a honra de estar senta-
senhora. Ela fez chegar ao duque a sua insa- da entre os dois grandes escritores Victor
tisfação, e ele prometeu que faria a visita. Hugo e Alexandre Dumas.
Mas não lhe agradou ser constrangido dessa Virou-se, sem despedir-se dos dois, e
forma, e ameaçou: retiraram-se.32:10967
— Está bem, irei, mas não falarei nada. 
60 A volta ao mundo da nobreza

O duque de Argyle ocupava um cama- E recebeu a resposta:


rote no teatro, e notou que vinha entrando — Desconheço os seus hábitos, mas es-
um cavaleiro calçado de botas e esporas. Ele pero que sejam menos maus do que a sua
se levantou, fez uma grande reverência e educação.30:31
agradeceu ao estranho. Sem saber o motivo, 
este perguntou: O duque de Orleans convidou Boileau
— Por que o senhor me agradece? para almoçar, num dia de abstinência de car-
— Por não ter trazido o seu cavalo cá ne, mas só foram servidos pratos com car-
para dentro.30:721 ne. Ele os ia recusando um a um, e o duque
lhe recomendou:
From: Richelieu — Vai ser necessário o senhor comer
Os banquetes são um capítulo à parte, como os outros, pois não foram preparados
na vida social. De modo geral são promovi- pratos de acordo com a abstinência.
dos em homenagem a alguém, e as normas — Basta baterdes o pé, Alteza, para que
de bom convívio têm suas exigências, nem os peixes saltem da terra.58:2:161
sempre fáceis de cumprir. Um escritor resu- 
miu tais dificuldades numa frase lapidar: A vivacidade das crianças não costuma
Num banquete, o mais difícil de digerir é o deixá-las à vontade nos jantares de cerimô-
pé da mesa que nos coube.101 nia. O marechal de Duras, para manifestar a
 um filho que não estava contente com ele,
Num banquete, o governador da Índia ameaçou:
estava no topo da mesa, os fidalgos na ex- — Se continuares com isso, eu te farei
tremidade oposta, e os cavaleiros no meio. jantar com o rei.
Observando que as iguarias seguiam de uma A ameaça era pesada, pois o filho acha-
extremidade para a outra, de acordo com a ra insuportáveis dois jantares que tivera com
precedência, um cavaleiro comentou; o rei em Marly.27:1:327
— In medio est virtus, mas não na mesa
do governador.62:731 From: Morellet
 As festas e bailes de cerimônia, muitas
Bernard Shaw era vegetariano. Durante vezes promovidos para facilitar a atividade
um jantar foi-lhe servido um prato especial diplomática, são palco adequado para
de aspecto pouco atraente, que consistia numa tratativas informais, aproximações delicadas,
mistura de verduras e legumes picados mis- troca de informações importantes. Tudo isso
turados com óleos vegetais. Sir James Barrie, pode parecer inútil, mas muitos passos de-
seu vizinho na mesa, perguntou: cisivos são dados nessas ocasiões. Nem sem-
— Diga-me uma coisa, Shaw: isso aí é o pre as pessoas entendem isso. O príncipe de
que você vai comer, ou é o que você já co- Ligne, a propósito da conferência realizada
meu?30:18 em Viena após a derrota de Napoleão, co-
 mentou: O Congresso de Viena dança bem,
Lady Randolph enviou a Bernard Shaw mas não anda.108
um convite para almoçar em casa dela. O 
vegetariano e misantropo Shaw telegrafou: O conde Luís-Filipe de Ségur estava em
— Definitivamente, não. O que fiz eu, trajes normais num baile de fantasias no
para provocar um ataque assim aos meus Opéra, em companhia de uma dama de alta
hábitos tão conhecidos? estirpe que usava máscara. Aproximou-se
9 — A vida social dos nobres era voltada ao bem comum 61

alguém fantasiado de dominó, sem nenhu- — Não vou fazer nada disso. Crillon não
ma cerimônia tomou o braço da dama e co- se inclina nem recua. Jamais!27:2:219
meçou a afastar-se com ela. Ségur manifes- 
tou logo ao desconhecido sua surpresa, ele O rei francês Carlos VII, cuja principal
respondeu no mesmo tom e lhe segredou ao glória foi ter sido ajudado por Santa Joana
ouvido: d’Arc, levava uma vida frívola. Durante uma
— Não façamos escândalo por isso, e das faustosas festas que organizou, apesar
eu lhe darei satisfação depois. da triste situação do país, comentou com o
— Isso me deixa em desvantagem, pois general Poton de Xaintrailles:
sabeis quem sou e não sei quem sois. Qual o — Que acha o senhor de tudo isso? Não
vosso nome? lhe parece magnífico?
— Não é necessário revelá-lo. Ireis ama- — Soberbo! Não se pode perder um rei-
nhã ao baile da rainha? no de maneira mais divertida.109:2681
— Sim, irei.
— Nós nos encontraremos lá. From: Chanteclair
E se afastou de braços dados com a Os dois últimos fatos fazem-me lembrar
dama, cuja atitude demonstrava saber de princípios enunciados por dois escritores:
quem se tratava. Na noite seguinte, depois Qualquer que seja o assunto da conversa, um
que o salão estava repleto e ninguém se apre- velho soldado falará sempre de guerra;24 Os
sentara para a justificativa que ele esperava, que são capazes de ganhar a guerra não sa-
as portas se abriram e entrou toda a família bem fazer a paz, e os que fazem a paz não
real. Caminhou na direção dele o conde de sabem ganhar a guerra.69
Provence (futuro Luís XVIII), que lhe reve-
lou:
— Quero dar-vos uma satisfação pelo
que se passou no baile de ontem. Dou-vos
V ou incluir aqui um fato interessante que
me foi enviado pelo Escovedo.

razão e vos deixo a escolha das armas, des- Toda a nobreza espanhola se preparava
de um alfinete até um canhão, a menos que com grande esmero para o suntuoso baile de
prefirais ganhar o título de meu irmão de fantasias no palácio do duque Fernán Núñez,
armas e a minha amizade.76:47 em 25 de fevereiro de 1884, ao qual compare-
 ceriam também o rei Afonso XII e a rainha
O regente duque de Orleans combinou Maria Cristina. O rei mandara preparar com
com o cardeal Dubois que, para comparecer absoluto segredo o seu magnífico traje. Na
incógnito em um baile, este o trataria com véspera, despachando com Cánovas, presiden-
familiaridade. Em certa altura a familiarida- te do Conselho de Ministros, perguntou-lhe:
de estabelecida entre os dois chegou ao ponto — Suponho que o senhor irá também ao
de o cardeal chutar o traseiro do duque, que palácio de Fernán Núñez.
resolveu intervir: — Sim, Majestade, e comigo irão todos
— Meu amigo, estais me disfarçando os ministros.
demais.27:1:302 — Então o senhor ficaria surpreso com
 o traje que vou usar. Ninguém o conhece,
O nobre gascão Crillon contratou um mas para o senhor eu não quero manter se-
professor de dança, mas logo desistiu quan- gredos.
do ele começou a explicar os passos: Avan- — Muito obrigado, mas eu sei qual o
çar... inclinar... recuar... traje que Vossa Majestade vai usar.
62 A volta ao mundo da nobreza

— Como?! Os únicos que sabem são as


pessoas que o estão confeccionando, e não
acredito que tenham cometido alguma indis-
P rezado Montmorency, sou muito cioso
de atribuir o mérito a quem o tem, e o
agradecimento a quem o merece. Divulgar
crição. os nomes dos colaboradores parece-me uma
— O presidente do Conselho tem a obri- obrigação, mas de fato a sua sugestão
gação de saber tudo o que se refere ao rei. agilizaria um pouco. Submeto-a então aos
Por isso eu sei que Vossa Majestade usará demais, e se não houver votos contrários eu
nesta noite o uniforme de gala de Capitão passarei a adotá-la. Mas quero abrir uma
General do Exército, com o colar do Tosão exceção, que é a seguinte. Sempre que al-
de Ouro e a faixa da Ordem de São Fernando, gum colaborador fizer um comentário sobre
pois este é o traje prescrito para o rei nas os fatos que enviou, ou ainda sobre os que
grandes solenidades. outros enviaram, a transcrição incluirá o seu
Sem se dar por achado, Afonso XII res- pseudônimo ou nome.
pondeu imediatamente: Embora um tanto desencontrados, os
— Pois o senhor acertou. Este é o traje fatos de hoje abordam aspectos importan-
que mandei preparar.109:2101 tes da atividade social. E tornam patente que
ela existe não apenas para o prazer, mas
From: Montmorency pode desempenhar papéis de máxima im-
Caro colega Beaugeste, tenho notado que portância, inclusive envolvendo o futuro de
você está sendo muito escrupuloso em atri- nações. Daqui se pode depreender a gran-
buir sempre os fatos aos respectivos colabo- de utilidade da vida aparentemente frívola
radores. Mas parece-me que você pode sim- das cortes, muito criticada por quem julga
plificar isso. Afinal de contas, quase todos tais festas de acordo com o seu próprio ho-
estamos usando pseudônimos, e tanto faz que rizonte limitado. De tal modo a vida priva-
eles sejam ou não citados, pois ninguém vai da de reis e nobres associava o interesse
de fato identificar os nomes reais de quem particular com o bem comum dos seus sú-
os utiliza. Bastaria você mencionar o novo ditos, que até as atividades dedicadas ao
colaborador no dia em que ele começar a prazer eram instrumentos colocados a ser-
fornecer os fatos. Parece-me que isso pode viço da nação. Pois as pessoas de horizon-
agilizar o seu trabalho. tes amplos sabem que

A vida social dos nobres


era voltada ao bem comum
63

10º dia

A maioria das pessoas imagina que nos


palácios todos viviam permanentemen-
te em festas suntuosas e banquetes, de acor-
que nos diga o que manda a etiqueta quando
a rainha cai de um burro.109:1296

do com uma etiqueta estrita e acachapante. Quando a família real francesa era prisi-
O palácio de Versalhes, por exemplo, foi oneira no Templo, um dia a princesa
construído por Luís XIV para cenário das Elisabeth começou a cantar, e Maria
pompas reais. No entanto, logo que conse- Antonieta perguntou-lhe:
guiam escapulir das cerimônias narradas por — Achais que é o caso de cantar, na si-
escritores como Saint Simon, Dangeau e tuação em que nos encontramos?
Luynes, os cortesãos se enfurnavam nos seus — Tudo depende da letra com que se
aposentos, onde viviam no mais despreocu- canta a música.32:9270
pado à vontade.41:7 
 Volney marcara uma audiência com Luís
O quarto de dormir do rei, em Versalhes, XVIII, e quando se apresentou no horário
talvez fosse o mais soberbo do mundo, uma combinado, o rei mandou-o esperar, pois
espécie de templo ou santuário onde tudo estava ocupado. Depois de uma hora, quan-
era nobre, rico, imponente, majestoso, regi- do entrou, encontrou o rei com uma vassou-
do por uma etiqueta estrita. Quem hoje o ra na mão, e este lhe explicou:
admira, dificilmente consegue imaginar Luís — Eu estava ocupado em caçar o gato
XV deixando de madrugada o leito a fim de da Sra. Maupas, que todos os dias vem rou-
avivar o fogo da lareira, com as pernas nuas bar-me parte do meu desjejum.32:8791
e usando um robe de chambre de seda bran- 
ca, agachado diante da chaminé, remexendo Um francês muito feio, originário do
as achas de lenha e soprando as brasas. Tudo Auvergne, apresentou-se em Versalhes para
isso para não incomodar os criados. E expli- um pedido a Luís XIV. Roquelaure, que tam-
cava: bém era muito feio, julgou-se no dever de
— É preciso deixar descansar essa po- recomendá-lo pessoalmente ao rei:
bre gente, afinal eu os perturbo demais.41:8 — Senhor, eu devo a este homem um
 favor muito grande.
A rainha Maria Antonieta era objeto da O rei concedeu o que o homem solicita-
constante vigilância da duquesa de Noailles, ra, e depois perguntou a Roquelaure:
profunda conhecedora da etiqueta da corte, — Gostaria de saber qual o favor que o
que a orientava sobre o que podia ou não senhor deve àquele homem.
fazer. Por isso ela a chamava Madame — Ah, Senhor! Se ele não existisse, eu
l’Étiquette. Um dia a rainha fazia uma ex- seria o homem mais feio do vosso reino.19:3:133
cursão campestre montada num burro, que
se assustou e lançou-a ao chão. Vários acom-
panhantes correram para ajudá-la a levan-
tar-se, mas ela recusou, dizendo:
E ntre marido e mulher, numa corte de eti-
queta rígida como Versalhes, é difícil
imaginar cenas íntimas como as que ocor-
— Chamem Madame l’Étiquette, para rem em qualquer família. Mas elas existi-
64 A volta ao mundo da nobreza

am, e até muito numerosas, quando as oca- E os que vou narrar hoje referem-se exata-
siões não eram de protocolo. mente à vida íntima nas cortes.
 
Luís XV trabalhava no seu gabinete. A rainha Vitória tinha veneração pelo
Apresentou-se diante dele uma freira, depois esposo Alberto, mas isso não impedia que
de ter passado por toda a triagem de guardas freqüentemente discutisse com ele. Um dia
e oficiais, e lhe disse: em que ela o ofendeu, o príncipe consorte,
— Majestade, venho pedir vossa aten- sem nada dizer, retirou-se para o seu apo-
ção para uma necessidade premente do meu sento, fechando-o a chave. Indignada, a rai-
convento. nha correu até lá e bateu com violência na
Descreveu a situação em detalhes, con- porta.
seguindo atrair a atenção do rei, que ao final — Quem é?
prometeu as providências necessárias. A frei- — A rainha da Inglaterra!
ra se despediu, e enquanto se afastava deu A porta continuou fechada. Nova batida
uma sonora gargalhada. Julgando-a louca, o violenta.
rei ordenou: — Quem é?
— Prendam essa mulher, mas tenham — A rainha da Inglaterra!
cuidado! Silêncio ainda. Com lágrimas nos olhos,
Diante dessa ordem, a freira redobrou as a rainha bateu novamente na porta, mas desta
gargalhadas, e afinal revelou: vez de leve.
— De fato, ninguém mais reconhece a — Quem é?
rainha neste palácio.27:1:301 — Tua mulher, Alberto!
 Logo a porta se abriu, e os dois se re-
Comparando seus gostos com os de Luís conciliaram.81:289
XVI, a rainha Maria Antonieta explicou: 
— Minhas preferências não combinam Quando viajava, o rei inglês Jorge V es-
muito com as do rei. Ele gosta de caçadas e crevia diariamente à rainha sua esposa. Du-
do trabalho de ferreiro. Mas eu não consigo rante uma viagem, perguntou ao seu secre-
imaginar-me nas funções de Vulcano, o deus tário:
do fogo, nem de Diana, a caçadora.30:737 — Suponho que o senhor também es-
 creva à sua mulher.
Fazendo grandes esforços para ocultar a — Claro, Majestade. Uma vez por se-
satisfação que tinha com a primeira gravi- mana.
dez, a rainha Maria Antonieta disse ao rei — Só isso?! Mas eu escrevo diariamen-
Luís XVI: te.
— Senhor, sinto-me obrigada a queixar- — Acontece que Vossa Majestade não
me de um dos vossos súditos, tão ousado que precisa pagar o selo.32:6443
se permite dar-me pontapés no ventre.110:405 
Foi recomendado ao duque de
From: Grenville Marlborough que tomasse um remédio de
É a primeira vez que compareço ao seu sabor desagradável, mas ele se opunha ale-
salão, Beaugeste. Conheço alguns fatos da gando que não estava convencido de que lhe
Inglaterra, país de origem dos meus pais, e faria bem. Sua esposa replicou:
pretendo apresentá-los para o seu uso e para — Como!? Quero ser enforcada, se o
o conhecimento dos outros colaboradores. remédio não lhe fizer bem.
10 — Fora dos compromissos oficiais, reis e nobres preferem a vida simples 65

— Agora, sim! Vou tomar o remédio, 


pois de uma forma ou de outra saio ganhan- Henrique IV estava brincando na inti-
do.32:9312 midade do lar com o filho, que seria depois
Luís XIII. Andava de quatro em torno da
From: Fleming sala, com o menino às costas, quando en-
Amigo Beaugeste, parece-me que todo trou um embaixador. Sem se mover dessa
o pessoal do seu salão é gente jovem. Eu já posição, perguntou:
passei dos sessenta, mas quero também me — Já fostes pai, Senhor Embaixador?
enturmar, como dizem os jovens. Como — Eu o sou, Majestade.
médico, venho anotando fatos relativos ao — Bem, então posso continuar.109:2415
exercício da minha profissão, e posso passá- 
los a você. Vou selecionar os que se referem Frederico II estava trabalhando no es-
a membros da nobreza, e os irei incluindo critório, enquanto o seu neto brincava com
quando as circunstâncias o indicarem. uma bola. Por duas vezes a bola caiu sobre a
 mesa, perturbando-lhe o trabalho. Na terceira
O Dr. Pousse comparecia diariamente a vez, o rei pegou a bola e fechou-a numa ga-
Versalhes para medicar o delfim, pai do fu- veta. O menino pediu a devolução, insistiu,
turo Luís XVI. Notava sempre no quarto do mas ele não se comoveu. Por fim, o neto se
doente a presença de uma jovem senhora que colocou diante do avô, empinou a cabeça e
tomava corretamente todas as providências exigiu:
prescritas para o restabelecimento. E reco- — Bem, Majestade, o senhor vai ou não
mendou aos assistentes: vai me restituir a bola?
— Deveis seguir tudo o que aquela se- — Agora, sim! Você é um rapaz valen-
nhora ordenar, pois ela compreende muito te, e com gente assim ninguém vai nos reto-
bem o que deve ser feito. mar a Silésia.33:2302
Dirigindo-se a ela, perguntou: 
— Qual o vosso nome, senhora? O alfaiate do rei inglês encontrou numa
— Maria Josefina de Saxônia. ante-sala do palácio uma criança. Era o prín-
Era a própria delfina, esposa do doente. cipe de Gales, neto de Eduardo VII e futuro
Admirado, o médico comentou: Eduardo VIII, que o convidou a passar à sala
— Quando eu encontrar algumas daque- contígua. Receando ser indiscreto ao acom-
las parisienses preciosas, que se recusam a panhar uma criança, objetou que deveria es-
entrar no quarto dos pacientes, vou mandá- perar alguém que conhecesse melhor o pro-
las freqüentar esta escola.32:9255 tocolo. O príncipe esclareceu:
— Mas não há ninguém ali, só o

O relacionamento dos pais com os filhos


tem momentos em que o maior precisa
descer ao nível do menor. Seja para tornar
vovozinho.109:2218

O rei Afonso XIII preferia que a mãe o
mais compreensível uma norma, seja sim- chamasse Bube (significando criança, em
plesmente para demonstrar afeto ou provo- alemão), em vez de Majestade. Achando que
car prazer aos filhos. Isso que acontece em com isso fosse agradá-lo, um cortesão o cha-
qualquer família tem seu similar nas famíli- mou Bube na presença de outros, e foi re-
as nobres. Um novo colaborador, que se preendido:
identifica como Ivanhoé, relatou os fatos — Para minha mãe, sou Bube. Para ti,
seguintes. sou o rei.109:2819
66 A volta ao mundo da nobreza

E ngana-se quem acha que os nobres tra-


tavam os inferiores com arrogância, or-
gulhosos da sua superioridade. Montemor,
— Não estou dormindo, Dom Diego.
— Vossa Majestade não, mas eu estou.
E saiu para os seus aposentos.10:224
um novo colaborador, enviou alguns fatos 
que mostram exatamente o contrário. Leopoldo II disse ao cerimoniário da
 corte:
O duque de Orleans foi visitar seu ami- — Preciso do meu sobretudo.
go, o pintor Roqueplan. Como estava vesti- — Vou trazê-lo já. Mas gostaria de lem-
do de modo simples, o mordomo não o re- brar que Vossa Majestade, na linguagem da
conheceu, e depois de indicar-lhe o cami- corte, deveria dizer: precisamos do nosso
nho para o ateliê, dois pisos acima, resolveu sobretudo.
pedir-lhe um favor: O rei não comentou nada, mas alguns
— Como o Sr. vai mesmo subir, poderia dias depois disse ao mesmo cerimoniário:
por favor entregar-lhe esta roupa que acabo — Hoje estamos com uma fortíssima dor
de receber do alfaiate? de dentes.
— Com prazer. — Eu não, Majestade.
Sem se incomodar, o duque desempe- — Ah, então as dores são só minhas, e
nhou o papel de criado... de um mor- as comodidades são nossas?1:203
domo.27:2:77 
 O general Osório conversava com D.
Numa noite fria de dezembro, disse Fi- Pedro II num salão do palácio de São Cris-
lipe II a dom Diego de Córdoba: tóvão, e fumava continuamente. Disse-lhe o
— Está muito frio, e não sei como em- imperador:
pregarei a noite. — Sr. Osório, o senhor tem dois gran-
— Deite-se Vossa Majestade, pois não des vícios: o charuto e a política. Por que
há nada mais quente no inverno e mais fres- não fica com um só e abandona a política?
co no verão do que a cama. — Majestade, prefiro deixar de fu-
— Boa idéia. Venha então preparar-me mar.34:327
para dormir.
Concluídos os preparativos, o rei deu ao
seu auxiliar um livro, para que fosse lido em
voz alta, e deitou-se. Depois de algum tem-
O s fatos de hoje mostram alguns aspec-
tos pouco conhecidos da nobreza. Es-
cravos do protocolo e da etiqueta quando em
po, voltou-se para a parede. Dom Diego público, devido às exigências do cargo, eles
achou que ele estivesse dormindo, e saiu de têm na vida íntima o mesmo comportamen-
mansinho. Percebendo-o, Filipe II disse: to de qualquer súdito, pois

Fora dos compromissos oficiais,


reis e nobres preferem a vida simples
10 — Fora dos compromissos oficiais, reis e nobres preferem a vida simples 67

11º dia

C aros amigos, parece-me que o assunto


conversa continua despertando o inte-
resse de muitos dos colaboradores. É com-
guntou, na presença de Mme. de Maintenon:
— Por que a Comédie Française é me-
nos freqüentada do que antigamente?
preensível, especialmente depois que o nos- — Entre outras razões, porque na falta
so blog inicial se transformou em salão. Tan- de boas peças novas só se apresentam as
to nos salões como em qualquer outro am- antigas. Como as de Scarron, que não valem
biente, o trato social deve se requintar e ten- nada e desagradam a todo mundo.
der para a perfeição. Há assuntos e atitudes Chocada por ouvir essa referência de-
a evitar, formas de cortesia ou respeito das preciativa ao seu primeiro marido, na pre-
quais não se pode prescindir, comentários sença do sucessor, Mme. de Maintenon
que só ficariam bem em outro ambiente. enrubesceu. Isso foi logo percebido pelo rei,
Atendendo a algumas dessas normas bási- cujo silêncio deixou claro a Racine o erro
cas, já se tem meio caminho andado para um que cometera. Depois de alguns momentos
convívio agradável. desse silêncio embaraçoso, Luís XIV se des-
pediu alegando ter de prosseguir seu traba-
From: Saint Simon lho. Tal foi o desgosto de Racine por essa
A grande referência para a excelência no distração, que conservou até o fim da vida
trato social, tanto na vida oficial quanto na uma tristeza inconsolável.58:1:348
vida privada, foi Luís XIV. Eis dois exem-
plos das relações dele com Racine. From: Morellet
 Beaugeste, você mencionou assuntos a
Racine era um grande poeta, mas nada evitar no convívio social, e eu tenho anota-
entendia da vida de corte, embora se esfor- do fatos sobre um deles – a idade. É uma
çasse por parecer bom cortesão. Um dia em constatação universalmente conhecida que
que ele caminhava pelo parque de Versalhes as mulheres (também os homens, em núme-
ao lado de Cavoye, Luís XIV os viu e co- ro muito maior do que se pensa) não gostam
mentou: de revelar a própria idade. Cabe portanto ao
— Ali vão dois homens que vejo juntos cavalheiro não abordar este assunto delica-
com freqüência. Suponho que o motivo seja do. É bom lembrar: o único segredo que uma
o seguinte: ao lado de Racine, Cavoye se mulher guarda tenazmente é a sua idade;
sente culto; e Racine, ao lado de Cavoye, se cavalheiro é um homem que se lembra da
sente cortesão.58:2:187 data de aniversário de uma dama, mas se
 esquece da data de nascimento; uma mulher
Madame de Maintenon, antes de casar- só começa a mostrar a própria idade quando
se secretamente com Luís XIV, tornara-se a começa a escondê-la; envelhecer é o único
viúva do poeta Scarron, considerado medí- meio de viver muito tempo.14 Mas vamos aos
ocre pelos bons escritores da época, entre fatos.
estes Racine. Num dia em que Racine com- 
pareceu a Versalhes, convidado para conver- No reinado de Luís XV os cabriolets
sarem sobre assuntos literários, o rei lhe per- entraram em moda, e simultaneamente tor-
68 A volta ao mundo da nobreza

nou-se de bom tom as mulheres dirigirem Um príncipe a quem incumbe cuidar do bem
os próprios veículos, dispensando os cria- estar de vinte e cinco milhões de súditos não
dos que antes eram responsáveis por essa pode divertir-se com a aflição de um deles.27:1:22
tarefa. Mas logo começaram a se multiplicar 
os acidentes provocados por mãos Luís XV interpelou Crébillon sobre a
inexperientes, de fato não nascidas para isso. idade:
Preocupado, o rei mandou chamar o marquês — Senhor Crébillon, já sois bem idoso:
d’Argenson para incumbi-lo de resolver o tendes oitenta e cinco anos.
problema de segurança. — Majestade, esta idade não é a minha,
— Senhor, poderei de bom grado cuidar e sim a do meu batismo.58:3:263
de aumentar a segurança. Mas se Vossa Ma- 
jestade quiser, tenho meios de eliminar com- Conversando com o conde de
pletamente os acidentes. Grammont, Luís XIV perguntou:
— Se o senhor pode fazê-lo, eu quero! — O senhor tem oitenta anos, não é ver-
— Então, podeis deixar por minha conta. dade?
No dia seguinte foi publicada uma or- — Oh, Majestade! Não vos cansais de
dem autorizando a dirigir os próprios presentear-me. Agora, por exemplo, acabais
cabriolets apenas as mulheres que dessem de conceder-me dois anos a mais.33:3072
garantias de maturidade, ou então que já ti- 
vessem trinta anos completos. O efeito foi Luís XIV perguntou ao bispo de Senlis
imediato.27:1:23 a idade do conde de Grammont, que estava
 presente.
O marechal de Créqui ocultava cuida- — Senhor, tenho noventa e dois anos, e
dosamente a própria idade. Sendo testemu- o conde deve ter mais ou menos isso, por-
nha de Richelieu quando este foi recebido que estudamos juntos.
como conselheiro honorário no parlamento, Logo foi contestado pelo conde:
precisou revelá-la. Na saída, comentou com — Monsenhor de Senlis se engana, por-
o cardeal: que nem ele nem eu jamais estudamos.10:230
— Monsenhor, hoje eu vos prestei um
serviço à custa do maior sacrifício, revelan- From: Borghese
do a minha idade.27:1:21 Beaugeste, entre as formas de cortesia e
 respeito no trato social, uma praticamente
Luís XV perguntou a idade ao nobre não existe mais, pois deixou de existir o cha-
Landsmath, que não gostava de revelá-la, e péu como exigência da indumentária mas-
por isso esquivou-se de responder. Alguns culina habitual. Tirar o chapéu diante de se-
dias depois o rei retirou do bolso um papel e nhoras e de pessoas hierarquicamente supe-
começou a lê-lo em voz alta diante da corte riores era um dever, mas também em outras
e do nobre: circunstâncias isso era necessário. Estamos
— Em tal dia do mês tal, do ano de 1680 colecionando fatos de um mundo bem anti-
e tantos, foi batizado por nós, cura de tal go, portanto não me parece descabido citar
paróquia, o filho do Senhor... alguns referentes ao uso do chapéu.
— O que é isso, Majestade? Será o meu 
certificado de batismo? Filipe II era ainda criança, e estava sen-
— Exatamente, Senhor Landsmath. do vestido por seu criado quando entrou o
— Escondei isso bem depressa, Senhor. cardeal Tavera com a cabeça descoberta. Ins-
11 — Manifestações de cortesia e respeito amenizam e enobrecem o convívio social 69

truído pelo criado a autorizar que o cardeal entrou com ele na mão, como manda a etique-
se cobrisse, ele primeiro cobriu-se com o ta, mas notou que o rei estava rindo.
próprio gorro, e depois disse: — Posso saber por que Vossa Majesta-
— Agora podeis cobrir-vos, Sr. carde- de está rindo?
al.110:470 — Diga-me uma coisa. O seu chapéu é
 o que está na cabeça ou o que está na mão?
Quando Eduardo VII era príncipe de — Tendes razão, Majestade. Tanto mais
Gales, foi visitar a atriz Sarah Bernhardt no que dois chapéus são absolutamente exces-
seu camarim do Théatre Français, depois de sivos para quem não tem cabeça.1:574
uma peça. Como ele não retirou o chapéu, a 
atriz o advertiu espirituosamente: O rei Afonso XIII visitava um povoado
— Alteza, usa-se manter na cabeça a industrial, acompanhado do prefeito local.
coroa, mas não o chapéu.32:1283 Devido ao calor, levava o chapéu na mão.
 Quando iam entrar numa fábrica de proprie-
Carlos III da Espanha recebeu a visita dade do prefeito, ao notar este que o rei es-
de um administrador de aldeia, no momento tava sem o chapéu, disse:
em que atirava aos seus gansos os grãos de — Cubra-se, Majestade.
milho que estavam dentro do chapéu. Não Compreendendo o alcance do convite, e
percebendo do que se tratava, e julgando que sabendo que estava entrando na proprieda-
fosse uma cortesia do rei tirando-lhe o cha- de do outro, Afonso XIII disse:
péu, disse: — Com a sua permissão, senhor prefei-
— Cubra-se Vossa Majestade, que sou to.109:775
um simples aldeão. 
— Diga-me logo o que o traz aqui, pois Quando o imperador Carlos V renunciou
este cumprimento não é para ti, e sim para em favor do seu filho Filipe II, percebeu logo
os meus gansos.10:222 que todas as honras que antes lhe eram pres-
 tadas deviam-se ao seu cargo, e não à sua
Carlos III recebeu em audiência um se- pessoa. Muitas vezes chegavam a faltar-lhe
nhor que se apresentava na corte pela pri- até os recursos para pagar aos seus servido-
meira vez. De tal maneira este se sentiu em- res. Um dia ele encontrou um seu antigo
baraçado pela presença do soberano, que se bufão e tirou o chapéu para cumprimentá-
esqueceu de tirar o chapéu. Apesar disso o lo. Sensibilizado, o bufão disse:
rei o atendeu com cortesia. Terminada a au- — Majestade, sois muito bom, a ponto
diência, e notando que não tinha o chapéu de tirar o chapéu diante de um pobre homem
na mão, dirigiu-se para apanhar um outro que como eu.
estava perto. Sorrindo, o rei lhe disse: — Não, meu amigo. Eu o faço porque
— Não, não... Pelo menos, deixe aí o agora não tenho nada mais para dar-te, a não
meu.109:426 ser este pequeno sinal de cortesia.32:2452

Em Nápoles, o tenor Lablache foi chama-
do à corte. Enquanto esperava na antecâmara,
foi-lhe permitido manter o chapéu na cabeça.
H á situações, tanto adversas quanto fa-
voráveis, em que se torna vantajoso
abordar um assunto sob a forma de analogi-
Quando foi convidado a entrar, esqueceu-se as ou metáforas. Isso pode deixar mais clara
de que o seu chapéu já estava na cabeça, apa- uma idéia, incluir um elogio ou velar a ru-
nhou às pressas o primeiro que encontrou, e deza de uma afirmação.
70 A volta ao mundo da nobreza

 — Ah, não liguem para isso! Suvaroff é


Um simples frade franciscano fez com como um tambor, que só faz barulho quan-
desenvoltura uma pregação ante um auditó- do é batido.33:2305
rio de pessoas importantes, entre as quais 
estava o cardeal Richelieu com sua púrpura Disraeli, político inglês de grandes do-
cardinalícia. Terminada a pregação, o car- tes oratórios, e sua esposa Mary-Ann, eram
deal foi congratular-se com ele. hóspedes de Lord Hardinge, herói de mui-
— Como conseguiu falar com tanta pre- tas batalhas. O quarto do casal era contíguo
sença de espírito e sem intimidar-se? ao do anfitrião. Durante o café da manhã,
— Bem, Eminência. Precisei ensaiar a Mary-Ann comentou:
pregação, e o fiz diante de uma plantação de — Lord Hardinge, eu me considero a
repolhos. Lá pelo meio havia um repolho mais feliz das mulheres. Esta noite eu dormi
roxo, de modo que eu me habituei à presen- ao lado do maior orador e do maior guerrei-
ça da vossa púrpura.33:5716 ro destes tempos.6
 
Frederico II, além da sua familiaridade Quando a família real estava prisioneira
com canhões, gostava de música e tocava no Templo e severamente vigiada, os revo-
bem a flauta. Tocando na presença do céle- lucionários descobriram numa das celas um
bre músico italiano Porpora, este fez ao rei cofre de ferro que consideraram suspeito,
prussiano os merecidos elogios. E Frederico dando origem a inquéritos e boatos sem con-
disse, aliviado: ta. Num dia em que os prisioneiros janta-
— Confesso que tive medo de tocar di- vam sob vigilância constante, o delfim viu
ante do senhor. sobre a mesa um biscoito, interessou-se por
— Bem, Majestade, isto me alegra, pois ele e disse a Maria Antonieta:
significa que não tenho aparência de ca- — Eis ali um belo biscoito. Conheço um
nhão.32:11718 cofre onde, se a senhora permitir, eu o colo-
 carei na mais completa segurança.
O cozinheiro de Frederico II elaborou Preocupada com a referência ao cofre,
um prato que lhe agradou muito. Pedia-lhe que os guardas poderiam considerar com-
sempre que o repetisse, e comentou: prometedora, a rainha relanceou o olhar por
— Noel, se você inventar um outro prato todo o recinto, à procura de algum cofre,
como este, receio cometer o pecado de gula, e enquanto os revolucionários acompanhavam
com isso cairemos ambos no fogo do inferno. atentamente todos os movimentos, temendo
O cozinheiro, que constantemente lida- uma conspiração. A rainha disse afinal:
va com o fogo e sabia que aquele rei — Meu filho, não estou vendo o cofre
prussiano não recuava diante do fogo inimi- do qual me falais.
go, achou ali um meio de lisonjeá-lo: Apontando para a própria boca, o del-
— Não vos preocupeis, Majestade, pois fim disse:
nem o senhor nem eu temos medo do — Aqui está a porta dele.27:1:412
fogo.32:5183

Apesar de ter sido derrotado na Suíça,
Suvaroff fez um discurso bombástico aos
R ecebi três outros fatos pondo em desta-
que recursos relativos ao bom convívio.

seus soldados. Ao saber disso, Frederico II O general Osório ocupava a pasta da Guer-
comentou: ra. Em um dos despachos coletivos do minis-
11 — Manifestações de cortesia e respeito amenizam e enobrecem o convívio social 71

tério, D. Pedro II, minado pelas moléstias e — Como vai a marechala?


pela idade, começou a cochilar e adormeceu Imaginando que o rei lhe perguntara so-
na presença dos seus ministros. Estes se entre- bre a doença, respondeu:
olharam, numa consulta silenciosa. Que fazer, — Aquela velhaca! Atormentou-me a
em tal situação? Irem-se embora? Seria uma noite inteira...83
desconsideração. Chamá-lo? Seria um desres-
peito. Osório teve uma idéia. Desafivelou o
cinturão e, como se fosse inadvertidamente,
deixou cair a espada ao chão, provocando con-
A migos, vamos encerrar hoje por aqui.
Para a nossa tertúlia de amanhã, gosta-
ria de sugerir que nos sejam enviados textos
siderável barulho. Despertando, o monarca que digam algo sobre a justiça dos reis. Já
logo se deu conta do que era, e brincou: vimos que os reis eram sempre acessíveis
— Certamente, Sr. General, a sua espa- aos súditos em tudo o que se referisse à jus-
da não caía assim na guerra do Paraguai. tiça. Nos tempos primitivos, cabia ao rei o
— Absolutamente, Majestade. Mesmo exercício da própria justiça, que aos poucos
porque, no Paraguai, não se dormia!102 foi sendo transferido para uma estrutura do
 Estado adequada a esse objetivo, embora
O escritor italiano Pedro Metastasio, coubesse ao rei referendar ou não o que ti-
depois de vinte anos residindo em Viena, não vesse sido decidido sobre pena de morte e
falava o alemão. A imperatriz Maria Teresa outras, podendo até mesmo indultar o cri-
o repreendeu: minoso. Se os amigos tiverem fatos sobre
— Como pode ser isso, Sr. Metastasio? esse assunto, peço-lhes o favor de enviá-los,
Vinte anos aqui, e ainda não falais nossa lín- pois trata-se de matéria importante para ca-
gua. racterizar o procedimento dos nobres.
— Majestade, é fácil explicar. Eu pre- Sobre o assunto de que tratamos hoje,
tendo ir ao Paraíso, quando morrer, e lá se acho muito útil terem sido apresentados to-
fala italiano. Estarei portanto em casa. Cabe dos esses fatos, pois representam exemplos
aos pecadores aprender o alemão. concretos do modo como as pessoas se tra-
— Sendo assim, como eu falo bem a tavam em ambientes da nobreza. Esses re-
vossa língua, deve haver lá um lugarzinho quintes podem ser usados ainda hoje, desde
para mim, e ambos estaremos em casa.32:9623 que haja sempre o intuito de agradar, de não
 ferir, de transmitir informações valiosas, de
O marechal de Grammont era muito sur- não se ater sempre a mesquinharias. A ele-
do, e sofria de gota. O rei Luís XIV lhe per- vação de espírito no trato social é um ele-
guntou sobre sua esposa: mento decisivo para o bom convívio, pois

Manifestações de cortesia e respeito


amenizam e enobrecem o convívio social
72 A volta ao mundo da nobreza

12º dia

P rezados amigos, a afluência de fatos so-


bre a justiça dos reis foi maior do que eu
esperava, e temos hoje abundante material
diretamente ao rei. Bastava chegar perto do
cortejo real e gritar: Justiça, Senhor! Ouvin-
do esse brado, o rei não deixava de parar e
para conversarmos. Os exemplos de acessi- atender no mesmo local, na mesma hora, e a
bilidade aos reis para o efeito de obter justi- pessoa se retirava satisfeita.8:71
ça são numerosos. Apresentarei inicialmen- 
te alguns que já me haviam chegado, em se- O rei de Nápoles Carlos I de Anjou con-
guida darei a cada colaborador a oportuni- cedia diariamente audiência aos seus súdi-
dade para relatar outros. Mas quero lembrar tos que pediam justiça, na presença dos seus
também que todos podem participar ativa- ministros. Para evitar que a guarda impedis-
mente, acrescentando esclarecimentos como se a entrada de algum interessado, mandara
também contestações ou objeções. colocar do lado de fora uma corda que, quan-
 do puxada, fazia acionar uma campainha
Henrique IV definiu muito bem um dos dentro da sala. Um dia um cavalo ali parado
resultados mais significativos que se obtêm foi se coçar, esfregando o corpo contra o
quando impera a justiça. Um embaixador muro, e acabou acionando a campainha. O
turco mostrou-se impressionado com a po- rei ordenou:
lícia pouco numerosa na França, e o rei fran- — Abra e entre!
cês explicou-lhe: Ante a demora, alguém olhou pela jane-
— Onde reina a justiça, a força policial la e esclareceu:
quase não é necessária.32:4858 — Mas é apenas o cavalo do conde
 Capece.
Quando Conrado II se dirigia em corte- — Não importa. A justiça deve ser feita
jo à catedral, para ser coroado imperador, inclusive para os animais. Chamem o
três cavalheiros pararam diante dele e se ajo- Capece!32:2411
elharam aos seus pés, pedindo que lhes fos-
se feita justiça. Ele mandou parar o cortejo e From: Joinville
ficou durante muito tempo ouvindo o relato Quando se trata de justiça dos reis, a
dos postulantes. Prometeu-lhes solucionar o França tem em São Luís IX um exemplo
caso, e diante dos prelados que lamentavam magnífico, que foi uma referência e inspira-
aquele atraso, explicou: ção para todos os demais.
— Não vos parece que, para um rei, a 
melhor sagração consiste em fazer justiça aos O primeiro e mais importante princípio
seus súditos? Como poderia começar melhor durante o governo de S. Luís IX foi a justiça.
o meu reinado?32:3489 Ele deixou escritos para seu filho e sucessor
 os seguintes ensinamentos: “Caro filho, se vi-
Os reis de Portugal faziam sempre ques- eres a reinar, faze o que estiver ao teu alcance
tão de honra de atender pessoalmente os pe- para adquirir o que convém a um rei, isto é,
didos do povo. Qualquer pessoa que se jul- que sejas tão justo que não te afastes em nada
gasse lesada em algum direito podia apelar da justiça, por nenhum motivo que possa sur-
12 — A justiça era atribuição e objetivo constante dos reis 73

gir. Se um pobre estiver em demanda contra queixar-se do seu irmão Carlos de Anjou,
um rico, sustenta o pobre mais que o rico, até ao qual haviam emprestado dinheiro e ven-
que possas conhecer a verdade; e quando a dido mercadorias, mas não haviam sido re-
conheceres, faze-a prevalecer. Se acontecer que embolsados. Expondo o assunto ao irmão, e
alguém entre em demanda contra ti, sustenta a notando que ele pretendia abster-se de pa-
causa dele ante o teu conselho, a fim de não gar, o rei o ameaçou de deserdá-lo dos bens
parecer que estejas apegado à tua causa, até a que tinha direito, se não o fizesse, e logo
que afinal conheças a verdade. Sem isso, os foi atendido.78:174
membros do teu conselho poderão recear pro- 
nunciar-se contra ti, o que não podes desejar. Três jovens do condado de Flandres fo-
Se chegar ao teu conhecimento que possuis ram encontrados em companhia do abade de
alguma coisa injustamente, seja do teu tempo, Saint-Nicolas, portando arco e flechas, porém
seja do tempo dos teus predecessores, é ne- sem cães e sem nenhum outro instrumento
cessário restituí-la imediatamente, por maior usado para caçadas. A caça era proibida na re-
que seja o seu valor”.78:172 gião, por isso os três foram aprisionados e en-
 forcados por ordem do conde Enguerrand de
Em 1247, antes de partir para a cruzada, Coucy, um dos nobres mais poderosos do rei-
S. Luís IX mandou fazer em todo o reino da no. O abade apresentou queixa, juntamente
França um levantamento das suas proprie- com várias mulheres parentes dos três senten-
dades, a fim de saber se alguma delas havia ciados. São Luís IX mandou prender o conde
sido adquirida injustamente desde o tempo Enguerrand e o fez comparecer diante da cor-
de seu avô. Equipes de funcionários qualifi- te reunida e da mais respeitável nobreza. De-
cados percorreram a França e encontraram pois de ouvidas as testemunhas, e como recur-
muitas irregularidades, pois em períodos de so para se livrar da pena, o acusado declarou
guerra anteriores os funcionários reais agi- que recusava os depoimentos – cujo resultado
am como se fosse em país conquistado, le- considerava desfavorável à sua honra e à da
sando e prejudicando inúmeros súditos. Foi sua família – mas estava disposto a bater-se
feita então toda a reparação necessária, e esse em duelo singular com o defensor da outra
episódio de magnanimidade e justiça reper- parte. O rei contra-argumentou:
cutiu ao longo dos séculos.78:173 — Nas causas em que figuram pessoas
 pobres, membros do clero ou pessoas dig-
O conde Carlos de Anjou emitiu contra nas de compaixão, não se pode recorrer a
um vassalo uma sentença de prisão conside- esse tipo de decisão, pois tais pessoas não
rada injusta. O vassalo apelou ao rei S. Luís encontrariam facilmente quem combatesse
IX, irmão do conde, que o mandou compa- por elas contra os barões do reino. Este era
recer à sua presença, repreendeu-o vivamen- o procedimento usado por meu avô Filipe
te pela sentença injusta, e disse: Augusto, portanto não estou introduzindo
— Não penseis que, por ser irmão do rei, nada de novo contra o acusado.
este vos apoiará ao cometerdes injustiças. Em seguida mandou prender no Louvre
Mandou então libertar o vassalo e lhe o conde Enguerrand, recusando-se a aten-
indicou conselheiros de confiança, que aca- der qualquer súplica pela sua libertação.78:198
baram por inocentá-lo.78:166
 From: Chamillart
Estando S. Luís IX em Paris, alguns bur- Beaugeste, é a primeira vez que me apre-
gueses e comerciantes o procuraram para sento, embora esteja seguindo o seu blog (ou
74 A volta ao mundo da nobreza

melhor, freqüentando agora o seu salão) des- nheiro no serviço do rei, da pátria ou dos
de o início. Interesso-me especialmente pelo parentes, eu admitiria que a punição não fos-
assunto de hoje, pois sou estudante de di- se corporal. Mas ele fez essas dívidas em
reito. Conheço alguns fatos sobre a pena de benefício do seu corpo, e portanto deve pa-
morte, que devem interessar a você e aos gar com o corpo.
demais participantes, e vou fornecê-los a Em seguida mandou-o para a prisão.35:36
partir de hoje. Quando se tratava de execu- 
tar uma sentença de morte, emitida depois Uma mulher nobre do Pontoise come-
de um processo regular, geralmente os reis tia adultério, e conseguiu que seu cúmpli-
mandavam que se cumprisse a decisão, pois ce assassinasse o próprio marido.
sabiam que homens não são enforcados por- Conduzida a julgamento, ela confessou o
que roubaram cavalos, mas para que cava- crime e manifestou vivo arrependimento,
los não sejam mais roubados.25 mas foi condenada à morte. Confiadas no
 arrependimento que a culpada demonstra-
Um nobre insistia com Henrique IV para va, muitas pessoas de alta posição, inclusi-
perdoar um seu sobrinho, condenado à morte ve a rainha Margarida, intervieram junto a
por um crime bárbaro. O rei respondeu: S. Luís IX para conseguir o perdão. O rei
— Não posso conceder-vos o perdão que consultou então Mons. Simon de Nesle,
me pedis, embora me fosse agradável homem sábio e prudente, que lhe afirmou
concedê-lo, se pudesse. Fazeis bem em agir ser bom para exemplo dos povos a execu-
como bom tio, e eu como rei justo. Com- ção pública do criminoso; e se o arrepen-
preendo e desculpo a vossa súplica. Mas dimento é sincero, não há o risco de perder
peço-vos que façais o mesmo, e que a alma. Depois disso, contrariando todas
compreendais a minha recusa.32:4887 as súplicas em favor da criminosa, o rei
 determinou que ela fosse executada em pra-
O poderoso senhor Tarlat mandara as- ça pública.78:201
sassinar Jean Desmaret. A avó do crimino-
so compareceu diante de Francisco I, ajoe- From: Nun’Álvares
lhou-se e disse: Caro Beaugeste, estás a fazer uma cole-
— Senhor, venho pedir-vos justiça. tânea supimpa, mas não podes esquecer o
O rei francês ajudou-a a levantar-se, e meu caro Portugal. Hoje já apareceu uma
replicou: declaração sobre a acessibilidade dos nos-
— Não é necessário ajoelhar-se para sos reis, o que era de muita verdade. Cá se
pedir justiça. Isso se compreenderia se fos- tem coisa boa a dizer, e mandar-te-ei o que
se para pedir clemência, mas a justiça é uma tenho. Por hoje, só três fatos.
obrigação do rei, e vós também a tereis. 
E mandou executar o criminoso.32:5778 Uma senhora pediu uma audiência com
 o rei D. João III de Portugal e a obteve, ape-
Um cavalheiro havia dissipado todo seu sar da hora avançada da noite. E apresen-
patrimônio em jogos e diversões, e estava tou-lhe o problema:
incapacitado de pagar suas inúmeras dívi- — Majestade, se o meu marido me ti-
das. Consultado o rei Afonso de Aragão so- vesse matado, ao me flagrar em adultério,
bre a punição a ser-lhe aplicada, este sen- vós o perdoaríeis?
tenciou: — Sim, eu o perdoaria se comprovado
— Se ele houvesse consumido tanto di- o fato.
12 — A justiça era atribuição e objetivo constante dos reis 75

— Então estamos de acordo, Majesta- um vilão que o injuriasse. Sabendo todos


de, pois fui informada de que o meu mari- que a parte mais sensível do corpo de um
do estava cometendo adultério na casa de burguês é o bolso, um deles sugeriu:
uma mulher, e me dirigi para lá junto com — O melhor é agarrá-lo, rasgar-lhe a
dois escravos, aos quais prometi a liberda- bolsa e tomar todo o dinheiro que ele ti-
de se me ajudassem. Surpreendi o casal em ver.62:800
flagrante e os matei com este punhal. Que-
ro agora de vós, senhor, o mesmo perdão From: Clausewitz
que daríeis ao meu marido na situação Os crimes de guerra são hoje em dia sub-
oposta. metidos à corte marcial. Mas a maioria dos
Admirado com a atitude firme da mu- monarcas tinha poder absoluto de decisão
lher, o rei lhe concedeu o perdão e provi- nesses casos, e freqüentemente a punição era
denciou o sepultamento dos adúlteros.27:2:456 a morte.
 
Um fidalgo português era acusado de Durante a guerra da Silésia, Frederico
ter matado outro, e o corregedor Filipe II proibira que à noite se acendesse qual-
Antunes foi incumbido pelo rei D. João III quer luz nas barracas. Circulando pelo acam-
de empenhar-se para prendê-lo. Chegando pamento, viu uma barraca iluminada, entrou,
o corregedor de surpresa à casa do fidalgo, e ali estava um capitão escrevendo.
este conseguiu fugir escondendo-se no te- — O que está fazendo?
lhado. Depois de outras tentativas igual- Já de joelhos, o capitão respondeu:
mente frustradas, o fidalgo resolveu usar — Escrevo à minha mãe, para consolá-
de uma artimanha. Enviou ao corregedor la pela minha ausência.
um seu criado jovem, que se queixou de — Pois bem, pegue a carta e acrescente
ter sido espancado pelo patrão, e por isso o que vou ditar.
queria entregá-lo. Levado o criado à pre- E ditou:
sença do rei, este aprovou a idéia e prome- — Amanhã serei fuzilado.33:2313
teu recompensá-lo. Diversas vezes o cria- 
do foi avisar ao corregedor onde poderia Fazendo a ronda noturna de uma mura-
ser encontrado o patrão, mas sempre as lha fortificada, Carlos V encontrou uma sen-
buscas eram frustradas pela fuga. Depois tinela dormindo. Jogou-a do alto da mura-
de alguns meses o corregedor desconfiou lha e ocupou o seu lugar até o momento em
da cumplicidade do criado e decidiu que a sentinela seria substituída.27:2:373
prendê-lo e açoitá-lo. Ao comunicar a sua 
decisão ao rei, este ponderou: O imperador José II da Áustria conde-
— Sabeis que é necessário, para aplicar nou quatro desertores, mas a sentença de
os açoites, proclamar publicamente o moti- morte deveria recair sobre apenas um deles,
vo da punição. Neste caso, ela terá de ser a a ser definido pelo menor número de pon-
seguinte: “Porque enganou a el-rei e ao tos no jogo de dados. Três deles lançaram
corregedor da corte”. Para honra minha e os dados, mas o quarto se recusou. O mo-
vossa, portanto, parece-me que devemos narca perguntou-lhe:
mandar soltá-lo.62:63 — Qual o motivo dessa recusa?
 — Porque o jogo de azar é proibido.
Diante do rei D. João III, discutia-se qual A resposta agradou ao imperador, que
a vingança que um fidalgo deveria infligir a perdoou todos eles.32:6521
76 A volta ao mundo da nobreza

From: Orloff foram ao palácio os emissários, Nicolau per-


Beaugeste, o modo de cumprir as sen- guntou:
tenças de morte variava muito: Cutelo, fo- — O que foi que ele disse depois do in-
gueira, fuzilamento, forca, e durante a Re- cidente?
volução Francesa apareceu a guilhotina. Te- — Que na Rússia não se faz direito nem
nho alguns relatos sobre o modo como se uma corda.
fazia justiça na Rússia. — Pois então provem-lhe o contrário.1:342
 
O czar Paulo I estava descontente com O czar Nicolau I, vestido como campo-
um regimento da guarda. Numa manhã, ao nês, foi caminhando até uma cidade próxi-
passar esse regimento em revista, ele deu as ma. Forçado a pernoitar por ali, bateu de
seguintes vozes de comando, como se fos- porta em porta, pedindo hospedagem por
sem de rotina: aquela noite, mas todos recusaram, exceto
— Formar em uma coluna! um camponês cuja mulher dera à luz uma
— Meia-volta, volver! criança naquela noite. De manhã, ao se des-
— Para a Sibéria, marche! pedir, prometeu trazer um padrinho para a
A muito custo o comandante do regi- criança. No dia seguinte, compareceu em
mento conseguiu reverter a ordem, quando trajes reais, com grande séquito, fez batizar
o regimento já estava a meio caminho.27:1:3 o menino e deixou-lhe um rico presente. E
 deu ordem para que pusessem fogo em to-
No início da primavera, quando come- das as casas onde lhe haviam recusado hos-
ça o degelo do rio Neva, a travessia torna- pedagem.32:10679
se extremamente perigosa. Nicolau I viu pela
janela uma pequena multidão observando From: Contrappunto
um homem que saltava de um bloco de gelo Essa não! Isso está sendo apresentado
para outro, rumo à outra margem. Mandou como procedimento positivo?! Como é que
um soldado verificar o que estava aconte- um monarca pode agir desse modo, se os
cendo, e ele voltou com a informação de que súditos que lhe negaram hospedagem nem
o homem ganharia vinte e cinco rublos numa sequer suspeitavam ser ele o czar? E se eles
aposta, se conseguisse atravessar o rio. não tivessem de fato condições para ofere-
Nicolau ordenou: cer uma hospedagem digna?
— Dêem-lhe vinte e cinco chibatadas.
Um homem que arrisca a vida por uma quan-
tia dessas é capaz de tudo por dinheiro.27:1:315

B em, meu caro Contrappunto, isso repug-
na também aos meus sentimentos hu-
manitários. Mas não se esqueça de que na
No início do reino de Nicolau I, vários antiga Rússia o czar era autocrata, o senhor
conspiradores foram condenados à forca, da lei, e dele emanava o poder. É claro que
sendo o primeiro deles o poeta Relieff. Du- hoje em dia isso não seria admitido num país
rante o enforcamento, o laço escorregou e o civilizado. Mas note que naquela época de
condenado caiu ao chão, vivo. Levantou-se governo autocrático isso era aceito pela so-
e disse: ciedade, e acabava servindo de exemplo para
— Não se faz nada direito na Rússia, os outros a fim de não caírem no mesmo
nem ao menos uma corda. erro – no caso, recusar hospedagem. Pode-
Nesses casos, era costume pedir ao so- se discutir se esse é o método mais demo-
berano o perdão para o condenado. Quando crático ou mais justo para convencer o povo
12 — A justiça era atribuição e objetivo constante dos reis 77

a ser hospitaleiro, mas não se pode negar 


que é eficiente. Quando um conselheiro de Estado con-
sultou o rei Filipe II sobre o pleito de um
From: Valdeiglesias súdito, ele o orientou:
Gostei da sua explicação, Beaugeste. Os — Lembre ao Conselho que, em caso
demais amigos não devem esquecer que, de dúvida, sempre contra mim.110:200
salvo algumas exceções sempre censuráveis, 
era preocupação constante dos reis e nobres Estando em Évora o rei D. Afonso V,
aplicar a justiça, ainda que contra eles pró- teve notícia de que alguns moradores de
prios. Posso dar-lhes alguns exemplos. Elvas mataram um corregedor, sendo a re-
 volta tão grande que toda a população da
Um membro da corte de Carlos V pediu cidade estava alvoroçada, a maior parte dela
para um amigo uma concessão que seria con- envolvida no delito. Pôs-se então à frente
trária à justiça. Sendo informado de que ha- de alguns fidalgos, e dirigiram-se todos a
veria uma recompensa de trinta mil ducados cavalo para o local. Quando souberam da
se fosse conseguida a concessão, o impera- vinda de el-rei, puseram-se todos os habi-
dor mandou entregar ao solicitante essa tantes em procissão ao seu encontro. Ven-
quantia, e lhe disse: do-os dessa maneira, o rei perguntou-lhes:
— Dando-vos esse dinheiro, não me tor- — Sabeis aonde ides?
narei menos rico. Mas se eu concedesse o Um deles, em nome de todo o povo, dis-
que me pedistes, eu me tornaria menos jus- se:
to.35:39 — Sim, sabemos, Senhor. Vimos diante
 de Vossa Majestade, que é nosso rei e se-
Um cavalheiro havia obtido de Carlos nhor, pedir misericórdia para nós e para nos-
V a promessa de uma concessão. Posterior- sas mulheres e filhos.
mente, ao lhe ser cobrado o cumprimento Lançaram-se todos por terra, e o rei se
da promessa, o imperador argumentou: comoveu, decidindo perdoar a ofensa e pu-
— O senhor já observou quanto é nir apenas os principais responsáveis.62:578
imoderado e injusto o pedido que me faz? 
— Senhor, quando fiz o pedido, O conde de Leicester intercedia junto a
poderíeis negá-lo. Porém, tendo dado vossa Isabel I da Inglaterra a favor de Maria Stuart.
palavra, não podeis agora voltar atrás sem — Pensai, senhora, que a infâmia desta
grande vergonha. execução recairá sobre vós. Será um ultraje
— Se não posso evitar uma das duas si- feito a todas as coroas.
tuações censuráveis, prefiro envergonhar-me — Como posso então livrar-me dela?
a consentir numa injustiça.35:39 — Fazendo-a morrer com decência.
 — E o que significa morrer com decên-
Em outra ocasião, depois que havia as- cia?
sinado um documento concedendo um pri- — Vossa Majestade poderia mandar a
vilégio, o imperador Carlos V foi advertido ela um farmacêutico, em vez de mandar um
de que aquilo constituía uma injustiça. Man- carrasco.1:129
dou trazer de volta o documento, rasgou-o e
declarou: From: Chamillart
— Prefiro rasgar minha assinatura a ras- Os fatos apresentados pelo Orloff fize-
gar a minha alma.110:126 ram-me lembrar alguns episódios envol-
78 A volta ao mundo da nobreza

vendo o modo de executar a pena do con- dinheiro que levava. Grande esforço empre-
denado. A variedade aumenta aí significa- gou o rapaz, mas a queixosa defendeu-se
tivamente, mas você verá que sempre ten- valentemente, não consentindo que a bolsa
diam a proporcionar adequadamente a jus- lhe fosse tomada. O rei havia ordenado a
tiça. alguns de seus guardas que fossem testemu-
 nhar a cena e trouxessem de volta os prota-
Um sacerdote de Sevilha cometeu um gonistas. Quando teve novamente a moça
assassinato e foi condenado a não celebrar diante do seu trono, ainda mantendo agar-
a missa durante um ano. Um filho do assas- rada contra o peito a bolsa preciosa, disse-
sinado, que era sapateiro como o pai, foi re- lhe o soberano:
clamar ao rei D. Pedro contra aquela sen- — Devolve a esse moço os cem florins
tença que considerava leniente. O rei per- que te deu, pois só foste violentada porque
guntou-lhe: assim o quiseste. Se tivesses posto na defe-
— És capaz de executar a justiça pelas sa de tua honra tanto empenho quanto na
tuas próprias mãos? defesa do teu dinheiro, nada terias agora a
— É claro, senhor. queixar.81:75
— Pois então vais proceder do seguinte 
modo. O imperador austríaco José II era livre-
E deu-lhe as instruções de como deve- pensador, e declarou publicamente que qual-
ria agir. Alguns dias depois, durante uma quer pessoa podia ter a religião que enten-
procissão, o sapateiro se aproximou do sa- desse. Alguns camponeses afirmaram em li-
cerdote com um punhal e o matou, sendo vros de registros que eram deístas, e por isso
imediatamente aprisionado e levado à pre- ele mandou administrar-lhes certo número
sença do rei, que lhe perguntou: de açoites. Aos que estranharam essa ordem,
— Por que mataste o sacerdote? respondeu:
— Porque matou o meu pai, e não foi — Determinei o castigo, não porque es-
feita a justiça que pedi. ses indivíduos sejam deístas, mas porque
O juiz eclesiástico, que estava presente, dizem ser uma coisa cujo significado não
protestou: entendem.92:166
— Foi feita justiça, e muito bem feita.
— Qual a punição que lhe foi aplicada? From: Henri Sanson
— Foi proibido de celebrar a missa du- Beaugeste, não leve muito em conside-
rante um ano. ração o meu pseudônimo, que é o nome de
— Pois então soltem esse homem que é um conhecido carrasco da época da Revo-
sapateiro, e eu o proíbo de fazer sapatos du- lução Francesa. Estou freqüentando há al-
rante um ano.109:1917 guns dias o seu salão, e pretendo colaborar
 enviando alguns fatos relativos à especiali-
Uma jovem francesa foi reclamar a dade do Sanson, que até escreveu um livro
Carlos VII que fora violentada por determi- de memórias sobre o trabalho que execu-
nado rapaz. O rei fez comparecer o culpa- tou. Lembre-se de que o carrasco exercia
do, condenando-o a entregar à queixosa a uma profissão, e era encarregado de execu-
soma de cem florins de ouro. Recebendo o tar a sentença de morte. Era uma obrigação
dinheiro, a moça se foi, satisfeita, enquanto profissional, embora eu, como sou bonzi-
o rei conservava o acusado a seu lado. Dis- nho, não a ache nada agradável. Nem sei
se-lhe depois que a seguisse e lhe tomasse o como alguém pode se dedicar a ela com tanta
12 — A justiça era atribuição e objetivo constante dos reis 79

tranqüilidade. Pior do que isso, só a profis- — Agi mal em relação ao senhor, que
são de juiz de futebol, que entra em campo tinha razão em recusar a sentença que eu
sabendo que vai ser vaiado e xingado de to- solicitara. Por isso quero que agora o senhor
dos os nomes possíveis e imagináveis. Pe- me retribua as chibatadas que lhe dei. E lem-
las duas torcidas. De fato o carrasco age pelo bre-se de bater com força.32:10989
bem da nação, cumprindo ordens superio- 
res sobre sentenças que alguém tem de exe- Dom Pedro de Ribera era vice-rei de
cutar. Conheço alguns fatos em que senten- Nápoles e perdoou um homem que havia
ças foram revogadas, pois era também uma sido condenado à morte. Este voltou a co-
preocupação dos monarcas não cometer in- meter outro homicídio, e então D. Pedro sen-
justiças e reparar as que outros cometessem. tenciou:
Acho melhor começar por essas, pois não — O primeiro homicídio foi cometido
quero ter diante dos demais participantes por ele. O segundo, por mim.109:1769
uma imagem negativa. 
 Sayão Lobato, ministro da Justiça do
O pintor espanhol Francisco Herrera não Brasil em 1871, solicitou a assinatura da
conseguia manter a família com o que ga- princesa Isabel para uma sentença de morte
nhava na pintura, e começou a trabalhar tam- contra um escravo que matara o senhor. Para
bém como escultor. Colegas invejosos o de- movê-la a assinar, estudou um discurso. E
nunciaram como falsário de moedas, e foi desfechou-o na sessão do despacho, contan-
emitida contra ele uma ordem de prisão. do o episódio de D. Maria I, a louca, que se
Advertido a tempo, ele fugiu para Sevilha e vira em situação semelhante. À mãe do con-
se refugiou no convento dos jesuítas. Em denado, que lhe implorava a vida do réu, D.
agradecimento, pintou na capela A apoteo- Maria I dissera: “A minha bondade e o meu
se de Santo Hermenegildo. Quando passou coração de mulher perdoariam, mas a mi-
por lá, o rei Filipe IV admirou muito a obra nha cabeça de rainha manda condená-lo”.
e quis conhecer o autor. Depois de ouvir a Depois dessa narrativa, o ministro julgou ter
sua história, disse: vencido a obstinação da princesa. Mas ela
— Mestre, quando se tem o vosso gê- sorriu, e muito simples, muito ligeira, ex-
nio, é impossível tornar-se criminoso. Man- clamou:
darei anular o vosso processo.32:7248 — Mas, Sr. Sayão, minha tataravó era
 maluca!...
O czar Paulo I encaminhou a um juiz E não assinou.81:169
um processo referente a um seu protegido,
acompanhado de uma recomendação espe-
cial. O juiz devolveu o processo, alegando
que não poderia despachá-lo com a senten-
O Chamillart enviou mais um exemplo
da preocupação dos monarcas em ob-
ter a justiça.
ça desejada. O monarca encaminhou-o a 
outro juiz, com recomendação semelhante, Um francês rico usou de violência con-
e ocorreu nova devolução. Irritado, mandou tra um oficial de justiça, quebrando-lhe o
chamar o juiz, repreendeu-o e chegou a dar- braço. Quando soube disso, Luís XII man-
lhe algumas chibatadas. Passado o acesso dou enfaixar o próprio braço e se apresen-
de fúria, releu o processo e concluiu que os tou aos juízes, que se espantaram e pergun-
juízes tinham razão. Mandou chamar o se- taram o que havia acontecido. Ele expli-
gundo juiz, e disse: cou:
80 A volta ao mundo da nobreza

— A pessoa tal fez violência ao meu


oficial de justiça, que estava a meu servi-
ço e cumpria ordens em meu nome. Ao
P rezados amigos, gostei das intervenções
de todos os participantes. Mas o nosso tem-
po já está se esgotando, e temos de deixar al-
lhe ser quebrado o braço, o atingido fui gumas informações para amanhã. Pretendo
eu. Exijo por isso que me seja feita justi- explorar bem este assunto que fala tanto sobre
ça. 32:8589 a atuação dos nobres, pois já sabemos que

A justiça era atribuição


e objetivo constante dos reis
81

13º dia

D entre os relatos remanescentes do as-


sunto de ontem, há alguns ótimos para
mostrar como era levada com seriedade a
Após uma partida em que o rei D. Sebas-
tião disputava com um fidalgo, surgiu a dúvi-
da sobre qual tinha sido o vencedor. O sobera-
emissão de sentenças, tanto pelos nobres no português consultou dois fidalgos que pre-
quanto pelos juízes. De modo geral não os senciaram a disputa, mas nenhum deles quis
intimidavam nem o risco, nem a situação se comprometer, e indicaram como árbitro D.
pessoal, nem a autoridade da pessoa contra João Coutinho, que ali estava e era muito bom
quem era exercida a justiça. jogador. Este argumentou:
 — Senhor, Vossa Majestade perdeu, e
Luís XIV jogara uma partida de gamão os dois fidalgos o sabem tão bem quanto eu.
com um dos nobres da corte, e surgiu a dú- Mas viram em Vossa Majestade tão grande
vida sobre quem fora o vencedor. Interroga- desejo de ganhar, que acharam melhor jogar
dos os outros que acompanharam a partida, a responsabilidade da decisão nas minhas
ninguém quis opinar. Pediu-se então a opi- costas.62:820
nião do marechal de Grammont, que estava 
no outro extremo da sala e não assistira à O marechal de Turenne caminhava in-
partida. Ele sentenciou sem vacilar: cógnito por uma rua de Paris, e deparou com
— Majestade, é evidente que vós dois jogadores de bola discutindo sobre um
perdestes. lance duvidoso. Não o conheciam, e pedi-
— Como podeis saber que perdi, se es- ram-lhe que definisse quem era o vencedor.
táveis longe e não vistes a partida? Pacientemente, com a bengala mediu as dis-
— Senhor, se tivésseis o menor vestígio tâncias e deu ganho de causa a um dos
de razão, todos esses senhores não vacilari- contendores. O outro não concordou e lhe
am um só instante em reconhecê-lo.109:2791 lançou algumas injúrias. Ele se dispunha a
 fazer novamente a medida, pois poderia ter-
O cardeal Mazarino jogava baralho com se enganado, mas nesse momento se apre-
um cortesão, e surgiu uma discussão sobre sentaram quatro oficiais, que o cumprimen-
quem vencera a partida. Nesse momento taram com os títulos adequados. O jogador
entrou o poeta Isaac Benserade. Ele não pre- agressivo se ajoelhou para pedir perdão, mas
senciara a partida, mas tomou logo a inicia- Turenne levantou-o e limitou-se a dizer:
tiva de declarar: — Meu amigo, o senhor se enganou,
— Eminência, lamento, mas o perdedor achando que eu quisesse prejudicá-lo.27:2:101
é o senhor.
— E como podeis saber que não tenho
razão, se nem sequer sabeis os termos do N ão era raro o nobre trabalhar para a vi-
tória da parte que disputava com ele.
problema? 
— Pelo silêncio de todos os presentes. Num processo contra o duque de
Se tivésseis razão, eles gritariam pelo me- Orleans, a parte contrária se encontrava em
nos tão alto quanto o senhor.32:1129 sérias dificuldades financeiras. Ao tomar
 conhecimento disso, o duque decidiu forne-
82 A volta ao mundo da nobreza

cer-lhe o dinheiro necessário para custear o Um conselho de testemunhas reunira-se


processo. Tendo a sentença sido contrária a em Évora, na presença do rei D. João II, para
ele, procurou a outra parte e a felicitou, di- julgar o duque de Bragança. Eis o relato do
zendo que dessa forma fora poupado de co- episódio, na linguagem da época:
meter uma injustiça.58:3:408 Foi o processo contra o duque acabado
 em vinte e dois dias, e nenhuma diligência
Nomeado preceptor do duque de Fronsac para que ele cumprisse foi necessário fazer-
pelo duque de Richelieu, o Pe. d’Aubignac se fora da corte. E para final determinação
adquiriu o direito a uma pensão vitalícia de dele, foram por mandado d’el-rei juntos para
quatro mil libras. Quando faleceu Richelieu, juízes alguns fidalgos e cavalheiros do rei-
seu herdeiro recusou-se a manter a pensão. no, homens sem suspeita, que com os letra-
Num requerimento a ele dirigido, o Pe. dos foram ao todo vinte e um juízes. E tanto
d’Aubignac expôs os seus motivos e a situ- que o feito foi concluso, os juízes foram to-
ação precária em que se encontrava, mas dos juntos em uma sala dentro do aposento
estabelecia como único juiz para o caso o d’el-rei, armada de panos da história, eqüi-
próprio ex-discípulo. Comovido, este res- dade e justiça do imperador Trajano. Onde
pondeu: se pôs uma grande mesa, aparelhada como
— Caro d’Aubignac, o juiz que nomeastes cumpria para o auto: era que de uma parte, e
condenou-me ao pagamento da pensão. Só me da outra, os juízes estavam todos assenta-
resta submeter-me e pagar-vos.32:3343 dos, e no tope dela el-rei. E junto com ele o
 duque, assentado em uma cadeira, a quem
Um francês foi aprisionado por ter dani- el-rei, em chegando a ele e em se despedin-
ficado um retrato de Luís XIII. Verificou-se do, guardou inteiramente sua cortesia e ce-
depois que o quadro atingido era de rimônia. O qual veio ali duas vezes, em que
Richelieu, e não do rei. Comunicado o fato viu ler o feito, e pelos procuradores, de uma
ao cardeal, foi-lhe pedido que determinasse parte e de outra, disputar em grande perfei-
a punição a ser aplicada ao prisioneiro, e ção os merecimentos do processo. E à terça-
Richelieu decidiu: feira, em que publicamente se haviam de
— Ponham-no em liberdade. O que de- reperguntar as testemunhas em pessoa do
veríamos fazer é agradecer-lhe por ter des- duque, el-rei o mandou chamar, e ele se es-
carregado sua raiva no retrato, e não no ori- cusou, e não quis ir, dizendo ao emissário,
ginal.35:14 que o foi chamar, estas palavras:
— Dizei a el-rei, meu senhor, que me
From: Fuas Roupinho confessei e comunguei hoje, e que agora es-
Beaugeste, eu estava a esperar episódi- tou com o padre Paulo, meu confessor, fa-
os sobre o meu Portugal, e vejo com prazer lando em coisas da minha alma e do outro
que outros participantes já apresentaram al- mundo, e que essas para as quais ele me cha-
guns. Estou a colecionar fatos que me fo- ma são do corpo e deste mundo. De seu rei-
ram contados como tradição de família, e vou nado, de que ele é juiz, que as julgue e de-
colocá-los à sua disposição com este pseu- termine como quiser, porque a ida da minha
dônimo um pouco estranho, que é o nome pessoa não é necessária.81:115
de um personagem da história do meu país. 
Apresento-lhe quatro que cabem no tema de Dom Constantino de Bragança foi go-
hoje. vernador da Índia durante três anos. Sendo
 alguns rapazes julgados pelo pecado de ho-
13 — Nobreza, guardiã da justiça verdadeira 83

mossexualidade, alguns fidalgos quiseram vel ao rei, em última instância, mas Cristó-
interceder junto a ele em favor de um deles, vão Esteves, vedor da Fazenda, recusou-se
filho de um homem muito rico que contri- a assinar. Chamado à presença do rei, ele
buíra para as despesas da guerra. Ele res- explicou sua atitude:
pondeu: — Senhor, como vosso procurador, te-
— Eu não vim à Índia para vender a jus- nho obrigação de alegar em vosso favor to-
tiça por rogos nem por dinheiro. Pereça a das as razões e leis de que me posso valer, e
Índia, e não a justiça. em boa consciência não posso assinar sen-
O pai do referido jovem tentou protelar tença injusta que vos seja favorável. Assi-
a execução da sentença, na expectativa da nando-a, aprovaria como sendo justo o que
chegada de outro personagem importante, foi julgado.
em cuja interferência confiava para obter o Em seguida, alegou tantas leis e opiniões
perdão para o filho. Sabendo disso, D. de doutores em favor da outra parte, que con-
Constantino exigiu pressa no despacho do venceu e constrangeu os desembargadores a
assunto, e alguns fidalgos objetaram: revogar a sentença que tinham dado. O rei aca-
— Por que tanta pressa, se o tempo não tou a decisão, e daí em diante o juiz Cristóvão
foge? Esteves tornou-se homem de sua inteira con-
— Senhores, quero fazer justiça com a fiança.62:521
pressa com que Deus a fez nas cinco cida-
des infames que Ele queimou.62:737 From: Chamillart
Vou narrar quatro fatos, o primeiro dos
Os dois próximos fatos mostram que os quais ocorrido com o juiz do qual tomei o
reis ficavam satisfeitos quando a justiça era meu pseudônimo. Todos mostram a probi-
feita contra eles mesmos. dade com que se procurava exercer o cargo
 de juiz, ainda que com risco ou prejuízo pró-
O rei D. Manuel de Portugal tinha com prio.
João Gonçalves da Câmara uma demanda 
vultosa, que seria julgada por nove Num processo no valor de vinte mil li-
desembargadores. Desejando favorecer um bras, o presidente do Tribunal de Justiça,
deles, para que votasse a seu favor, o rei o Chamillart, sentenciou a favor de uma das
colocou em posição superior à que lhe cabia partes. Recebendo ele em audiência a parte
de acordo com a antiguidade no cargo. Mas perdedora, esta alegou que havia sido igno-
o desembargador, ao dar o seu voto, apre- rado um documento decisivo a seu favor.
sentou todas as razões pelas quais votava Chamillart contestou que não havia visto no
contra as pretensões do rei. No dia seguinte processo esse documento, mas a parte
o rei mandou chamá-lo, e disse: perdedora afirmou tê-lo anexado. Foram
— Fiquei muito contente de vos ver on- verificar, e de fato o documento lá estava,
tem votar tão livremente, e de entender que confirmando-lhe plenamente o direito.
sois tão inteiro na justiça. É de homens como Chamillart o reconheceu:
o senhor que eu devo me servir, e terei disso — Tendes razão, mas o documento me
lembrança no que se refere à vossa carreira.62:33 era desconhecido, embora eu não saiba como
 possa ter-me escapado. Como fostes preju-
Dom João III estava em demanda con- dicado por minha culpa, cabe a mim pagar-
tra um homem, envolvendo certa soma em vos. Voltai aqui dentro de três dias.
dinheiro. A sentença dos juízes foi favorá- Foi necessário vender muitos bens e ain-
84 A volta ao mundo da nobreza

da tomar empréstimo, mas o credor foi re- o imperador passou a designar esse juiz para
embolsado no dia combinado.58:2:64 cargos cada vez mais importantes.10:232

O conselheiro Faluere confiou o exame From: Egmont
de um processo a um relator menos escru- Beaugeste, o fato que vou narrar mostra
puloso que ele próprio, e emitiu sua senten- bem como os nobres e o povo tinham um
ça baseado nas conclusões do relator. Alguns conceito exato da justiça.
meses depois, tomou conhecimento de que 
sua sentença despojara uma família inteira Hans van Olden Barneveldt teve papel
dos seus únicos bens. Empenhou todos os preponderante na história da Holanda, e foi
meios para localizar a família, e entregou- acusado de traição por Maurício de Nassau,
lhe com seus próprios recursos a quantia sendo executado injustamente. Um dos fi-
perdida em decorrência do erro judicial que lhos, que conspirava para vingar a morte do
involuntariamente cometera.58:3:395 pai, foi preso e também condenado à morte.
 A mãe dirigiu-se a Maurício de Nassau para
A duquesa de La Ferté compareceu di- pedir clemência, e este comentou:
ante do Sr. Harlai, presidente do parlamento — É estranho que venha pedir para o fi-
de Paris, a fim de pedir seu interesse num lho o perdão que não pediu para o marido.
importante processo em que estava envolvi- — Meu marido estava inocente, e para
da. Ela era feia, e o juiz tinha um semblante os inocentes não se pede perdão. Se vim
preocupado quando a recebeu, o que a fez pedi-lo para meu filho, é porque ele, perante
supor que sua causa estivesse perdida. Saiu a lei, está culpado.81:37
descontente, e passou a referir-se ao juiz
como velho macaco. Ele tomou conhecimen- From: Richelieu
to disso, mas nenhum ressentimento pôde De modo geral, os criminosos procuram
alterar seu julgamento, cuja sentença foi fa- atenuar a gravidade dos próprios crimes, nos
vorável à duquesa. Quando ela o procurou casos pouco freqüentes em que se reconhe-
para apresentar seus agradecimentos, ele cem culpados. Muitas vezes conseguem evi-
comentou: tar ou reduzir a sentença, mas nem sempre.
— Não deveis surpreender-vos pelo que 
fiz, Senhora: os velhos macacos gostam de O duque de Osuna costumava visitar as
agradar as macacas.27:2:59 galés no dia de Reis e libertar alguns senten-
 ciados. Perguntava a cada um qual o crime
Numa viagem de Bruxelas a Amberes, que o havia levado àquele lugar, e todos se
o cavalo do imperador Carlos V matou uma declaravam injustiçados, atenuando a gravi-
ovelha. Tendo sido negada a indenização dade dos próprios crimes. Mas um declarou
pedida pelo pastor, este recorreu a um tri- com franqueza os horríveis delitos que co-
bunal, cujo juiz acatou a ação. Por isso foi metera, e o duque ordenou imediatamente:
o juiz repreendido por amigos, mas respon- — Tirem logo daí esse criminoso, para
deu: evitar que ele perverta tantos inocentes.104:3106
— Nos negócios deste tribunal, desco- Fato semelhante é narrado a propósito
nheço tudo o que não diga respeito à justiça. de Frederico Guilherme I.30:293
Se mil vezes vierem acusar o imperador, mil 
vezes os ouvirei. Voltaire escreveu uma sátira contra um
Tomando conhecimento dessa resposta, nobre, e quando este o encontrou, deu-lhe
13 — Nobreza, guardiã da justiça verdadeira 85

umas merecidas bengaladas. Voltaire foi re- 


clamar com o duque de Orleans. Um banqueiro inglês foi conduzido ao tri-
— O senhor tem de fazer-me justiça. bunal de justiça, acusado de uma conspiração
— O que ele fez com o senhor já é a para seqüestrar o rei Jaime III e levá-lo para
justiça. Ou o senhor acha que merece mais Filadélfia. Argumentou em sua defesa:
algumas bengaladas?30:2601 — Senhores, eu bem sei o que um rei
 pode fazer com um banqueiro, mas ignoro o
Contra o regente duque de Orleans, que um banqueiro pode fazer com um
Voltaire escreveu a sátira Puero regnante, e rei.27:2:338
por isso teve de passar merecida temporada 
na Bastilha. Algum tempo depois o regente São Tomás Morus, chanceler da Ingla-
resolveu indultá-lo. Voltaire compareceu à terra, era de uma integridade a toda prova.
sua presença para agradecer, e foi aconse- Visando obter o seu apoio num processo, um
lhado: senhor enviou a ele dois jarros de grande
— Se o senhor agir com prudência de valor. Ele encheu os jarros com o melhor
agora em diante, eu o tomarei sob os meus vinho que tinha na adega e devolveu-os pelo
cuidados. mesmo portador, com o recado:
O cínico filósofo ponderou: — Diga ao seu patrão que pode dispor
— Fico muitíssimo agradecido. Mas su- inteiramente da minha adega.1:127
plico a Vossa Alteza que não se encarregue
do meu alojamento.1:470 From: Contrappunto
Amigos, acho que estou ficando muito mal
From: Chesterfield visto neste salão. Afinal, as minhas interven-
Vou relatar alguns exemplos de probi- ções contrariam de alguma forma o objetivo
dade, como também do valor que se dava ao do Beaugeste. Mas não se esqueçam de que o
homem que a tinha. contraste acaba ajudando a destacar ainda mais
 o valor dos personagens que agiram bem. Es-
Ao conferir a Lamoignon o cargo de pre- tou achando tão proveitosas essas reuniões, que
sidente do parlamento de Paris, Luís XIV vou arriscar-me a continuar na minha posição.
lhe disse: Vejam este exemplo.
— Se eu conhecesse outro súdito mais 
digno e honesto que o senhor, eu o teria pre- O duque d’Enghien, exilado em Ettenheim
ferido.27:1:232 próximo da fronteira da Alemanha com a Fran-
 ça, foi aprisionado por soldados de Napoleão.
O advogado Linguet instruiu Mme. de Acusado de traição que não havia cometido,
Béthune numa causa contra o marechal de foi julgado e condenado sumariamente por um
Broglie, conseguindo uma vitória extraordi- tribunal suspeito. Seu fuzilamento na manhã
nária. Quando se encontrou com o advoga- seguinte, 21 de março de 1804, deixou indig-
do, o marechal o advertiu: nada a nobreza francesa. Talleyrand fez o se-
— Senhor Linguet, fazei Mme. de guinte comentário:
Béthune falar hoje como deve, e não como — É mais que um crime, é um erro.53:163
lhe tendes sugerido. Do contrário o senhor Napoleão havia procurado aproximar-se
terá de se haver comigo. da nobreza para um governo de conciliação.
— Marechal, os franceses aprenderam Quando soube do fuzilamento, Chateaubriand
com o senhor a não temer o inimigo.27:2:320 percebeu que Napoleão não era o que procu-
86 A volta ao mundo da nobreza

rava parecer, e imediatamente enviou a entre senhores e servidores, entre reis e


Talleyrand seu pedido de demissão do cargo vassalos. Bem ao contrário da revolta de uns
que exercia em Vaud. Era uma atitude corajo- contra outros, que a revolução afirma e apre-
sa, e depois ele esclareceu: senta como motivo para a luta de classes e a
— Aquele acontecimento mudou o cur- substituição das várias monarquias por re-
so da minha vida, como também o da vida gimes republicanos. Além dos exemplos que
de Napoleão.32:2960 já foram apresentados, tenho muitos outros
no mesmo sentido. Por isso sugiro que seja

D evemos ficar hoje por aqui. Temos vis-


to exemplos de que havia uma harmo-
nia muito grande entre nobres e plebeus,
este o assunto da próxima reunião deste sa-
lão. Com o que vimos ontem e hoje, pode-
mos entender um pouco mais o papel da

Nobreza, guardiã da justiça verdadeira


87

14º dia

C aros amigos, talvez já tenham notado


que os fatos estão sendo enviados de duas
maneiras diferentes. Alguns vêm durante o
corpos menores; e assim gradualmente, até
chegar ao simples indivíduo. Percebe-se cla-
ramente o caráter gradativo e hierárquico dos
tempo em que permanecemos on line, muitas vários corpos que intermedeiam entre o sim-
vezes acompanhados de comentários de quem ples indivíduo e o mais alto governo do Esta-
os enviou. Outros me chegam fora do expedi- do.89:110
ente e ficam acumulados para posterior inclu- O tecido social é constituído por toda
são. No primeiro caso eles são geralmente ade- uma abundante contextura de indivíduos, de
quados ao assunto que está sendo discutido, e famílias e de sociedades intermediárias. Sob
os próprios participantes escolhem o momen- certo prisma, a sociedade é um conjunto de
to oportuno para incluí-los e eventualmente hierarquias de diversas índoles e naturezas
comentá-los, como se faz num salão de con- que coexistem, se entreajudam e se entrela-
versa. Quanto aos outros, como são de nature- çam, acima das quais paira apenas, na esfe-
zas muito diversas, ficaria dispersivo se os in- ra temporal, a majestade da sociedade per-
cluíssemos à força apesar de não se adequa- feita, que é a do Estado.89:111
rem ao assunto do dia. Devo esclarecer que A ordem social, para existir, tem como
eles estão sendo guardados numa espécie de condição que a cada classe seja reconhecido
baú, para serem aproveitados oportunamente. o direito àquilo que lhe cabe para subsistir
E eu os incluirei após conseguir agrupá-los em com dignidade. E que cada uma, respeitada
blocos de assuntos. nos seus direitos específicos, se ache habili-
Vários dos participantes já enviaram fa- tada a cumprir os deveres que lhe compe-
tos muito bonitos sobre a harmonia entre as tem para o bem comum.89:26
classes, que predominou no Antigo Regime. Num povo digno de tal nome, o cidadão
Vou incluir hoje os fatos que já recebi sobre sente em si mesmo a consciência da sua per-
este assunto, transcrevendo também os co- sonalidade, dos seus deveres, dos seus direi-
mentários que os acompanharam. É claro que tos, da sua liberdade conjugada com o respei-
todos os participantes poderão também to à liberdade e dignidade do próximo. Todas
acrescentar fatos, fazer objeções, apresentar as desigualdades que não decorrem do arbí-
esclarecimentos. trio, mas da própria natureza das coisas, não
Antes de iniciar a transcrição, quero são obstáculo à existência e ao predomínio de
transmitir-lhes os conceitos fornecidos por um autêntico espírito de comunidade e
um novo colaborador, que adota o pseudô- fraternidade. Longe de ferir de qualquer ma-
nimo de Camerlengo. Ele está seguindo a neira a igualdade civil, elas conferem-lhe o seu
carreira eclesiástica, e conhece muito bem a legítimo significado; ou seja, que perante o
posição dos Papas sobre esse assunto, e tam- Estado cada qual tenha o direito de viver
bém sobre outros. Eis o que ele me comuni- honradamente a própria vida pessoal, na posi-
cou ontem: ção e nas condições em que os desígnios e dis-
posições da Providência o colocaram.89:50
Uma nação se constitui de um conjunto No Antigo Regime a sociedade consti-
de corpos, que por sua vez se constituem de tuía-se de três classes – o clero, a nobreza e
88 A volta ao mundo da nobreza

o povo – cada qual com encargos, privilégi- reavam entre si, S. Luís IX ouviu de alguns
os e honras especiais. Além desta divisão conselheiros que ele devia deixá-los guerre-
tripartida, existia uma nítida distinção entre ar, pois com isso empobreceriam, e só teri-
governantes e governados, inerente a todo o am condições de voltar-se contra ele depois
grupo social. Participavam entretanto do que se enriquecessem novamente. Ele os
governo não só o rei, mas também o clero, a contestou, dizendo:
nobreza e o povo, cada qual ao seu modo e — O que me aconselhais não é bom, pois
na sua medida.89:53 se esses príncipes perceberem que eu os dei-
O papel natural do monarca é o de pro- xo guerrear, concluirão que o faço por mal-
mover e conservar as legítimas elites, mas dade, e logo se unirão contra mim. Além de
ao mesmo tempo o de proteger os desvali- conseguir dois inimigos reunidos e mutua-
dos contra as prepotências eventuais das eli- mente fortalecidos, atrairei a cólera de Deus,
tes, a fim de manter o equilíbrio social. Há que disse: “Benditos sejam todos os pacífi-
nisto uma atitude de verdadeiro desvelo pelo cos”.
povo, considerado como um todo harmôni- Da atitude que o rei havia tomado, re-
co. E também um repúdio ao princípio mar- sultou que os dois príncipes se tornaram seus
xista da luta de classes.8:156 amigos, obedecendo-lhe em todas as suas
decisões.78:218

O Camerlengo me permitirá agora pas-
sar aos exemplos concretos. Os primei-
ros me foram enviados pelo Joinville, que
O rei S. Luís IX desejava muito que o
senescal Joinville o acompanhasse novamen-
acrescentou o seguinte esclarecimento: te na cruzada, mas este relutava, e explicou-
Quando vigorava na Europa o regime feu- lhe o motivo:
dal, cada feudo detinha alto grau de inde- — Enquanto eu estive fora, vossos sol-
pendência em relação ao poder central do dados maltrataram e empobreceram o meu
monarca. Daí surgiam muitas rivalidades pessoal. Quero permanecer aqui para cum-
entre os feudos, e às vezes do feudo contra o prir a vontade de Deus, defendendo-os e aju-
poder central. O monarca procurava pacifi- dando-os. Se eu for, acontecerá isso nova-
car essas divergências, pois era seu dever mente, e estaria atraindo assim a cólera de
zelar pela harmonia dentro do reino. Deus, que me deu o exemplo oferecendo a
 vida para salvar o seu povo.78:58
São Luís IX procurava evitar a guerra 
contra cristãos, só fazendo-a depois de es- Quando S. Luís IX fazia a fortificação
gotados todos os recursos pacíficos para a de Cesaréia, perguntou ao senescal Joinville:
solução das pendências. Recomendou por — O vosso compromisso termina na
escrito ao seu filho a mesma atitude: “Caro Páscoa, mas eu queria saber quanto quereis
filho, eu te recomendo que evites, dentro de para prorrogá-lo por mais um ano.
toda a medida do possível, mover guerra — Majestade, não quero dinheiro para
contra cristãos. Se te causarem algum preju- permanecer ao vosso serviço. Em vez disso,
ízo, tenta vários recursos para encontrar um vou propor-vos um acordo. Vós vos enfu-
meio que te permita recuperar teu direito sem receis toda vez que vos pedimos alguma coi-
ser obrigado a recorrer à guerra”.78:207 sa. A minha proposta é que durante todo este
 ano não vos enfureçais quando eu pedir al-
Depois de conseguir reconciliar dois guma coisa. Mas se negardes, eu também
nobres da Borgonha e da Lorena que guer- não poderei enfurecer-me.
14 — A harmonia de classes mantém-se pela caridade cristã 89

O rei deu uma boa gargalhada, aceitou a No interrogatório de Maria Antonieta


proposta, e depois comentou que Joinville pelo tribunal revolucionário, perguntaram-
era o mais rico de todo o acampamento.78:9 lhe:
 — É verdade que fostes a instigadora
Tendo o rei Filipe IV reunido os repre- principal da traição de Luís Capeto, e que
sentantes dos reinos de Aragão e Catalunha, ele quis fugir da França por vossos conse-
a assembléia estava ameaçada de fracassar, lhos, talvez por vossa perseguição, para se
porque cada grupo exigia que a própria lín- colocar à frente dos furiosos que queriam
gua fosse adotada como oficial durante esse dilacerar a pátria?
evento. Como engenhosa forma de concili- — Meu esposo nunca quis fugir da Fran-
ação, decidiu-se que as perguntas fossem ça. Eu o acompanhei sempre, mas se ele
feitas em catalão, e as respostas em quisesse sair do seu país, eu teria utilizado
aragonês.27:1:233 todos os meios para dissuadi-lo. Não era essa
a sua intenção.

V amos prosseguir com mais algumas


considerações do Camerlengo.
— Qual era então o objetivo da viagem
conhecida como de Varennes?
— Ele queria readquirir a liberdade, que
Se a Igreja se interessa pela questão so- não podia usufruir aqui, e tentar obter de lá
cial, não é porque ame só o operariado. Ela a conciliação de todos os partidos, para a
não é um partido trabalhista fundado para felicidade e a paz da França.59:476
proteger uma só classe. Mais do que às di- 
versas classes, ela ama a justiça e a carida- Nos últimos anos de vida, o conde Luís-
de, que se empenha em fazer reinar entre os Filipe de Ségur levava a tolerância aos ex-
homens. E por isto ama todas as classes so- tremos do exagero, e era por isso censurado
ciais, inclusive a nobreza, tão combatida pela por amigos. Em carta a Vivant-Denon, ele
demagogia igualitária.89:26 se explica: “Que quereis? Nunca se tem cer-
O católico deve desejar a mútua harmo- teza do que deve ser feito neste mundo, e há
nia e a paz entre as classes. E não a luta crô- tantos pequenos argumentos, pequenas in-
nica entre elas, máxime quando esta luta visa clinações, pequenas paixões, pequenos pra-
o estabelecimento de uma igualdade com- zeres, pequenos sofrimentos que nos pressi-
pleta e radical.89:49 Para o cristão, as desigual- onam ora para um lado ora para outro. Se-
dades sociais fundem-se numa grande famí- gundo a geometria, a linha reta é a mais cur-
lia humana. Portanto, as relações entre clas- ta; mas segundo os moralistas e os políticos,
ses e categorias desiguais devem permane- ela é certamente a mais rara”.76:38
cer governadas por uma justiça honesta e 
equânime. Ao mesmo tempo, devem estar Depois de abdicar em favor do seu filho
animadas pelo respeito e pela afeição mú- Filipe II e se recolher ao mosteiro de Yuste,
tua, de modo que, embora sem suprimir as o imperador Carlos V passou uma parte do
desigualdades, diminuam as distâncias en- tempo livre tentando acertar dois relógios
tre elas e temperem os contrastes.89:77 que ali havia. Acabou desistindo, e
confidenciou a um seu assistente:

I sso aconteceu em todas as épocas em que


prevaleceu a influência da civilização
cristã.
— Tentei forçar a razão e a consciência
de milhares de pessoas para caberem num
modelo, e agora nem consigo colocar dois
 relógios de acordo entre si.30:1989
90 A volta ao mundo da nobreza

A harmonia entre governantes e gover-


nados era um objetivo permanente dos
monarcas e nobres, e disso não faltam exem-
tou à rainha Vitória um decreto para ser as-
sinado. Ao tomar conhecimento do conteú-
do, ela se recusou:
plos. — Sou a rainha, e não o assino.
 — E eu sou o povo inglês. Assinai, Ma-
Antes de subir ao trono, Luís XII soube jestade.
que um parente seu havia maltratado um Diante dessa firmeza respeitosa, a rai-
camponês. Mandou então que passassem a nha assinou.32:6568
não lhe servir pão. Ao saber que ele recla-
mara desse tratamento, mandou chamá-lo e From: Camerlengo
perguntou: Fatos como os que já foram citados re-
— Qual o alimento mais necessário ao presentam o resultado de um longo trabalho
homem? da Igreja junto a governantes e governados,
— O pão, senhor. a fim de convencer cada um a cumprir a sua
— Por que então o senhor é insensato a parte das obrigações referentes à sociedade.
ponto de maltratar quem trabalha para pro- A Igreja foi modelando as relações huma-
duzir e lhe fornecer o pão?27:2:24 nas, de modo a permitir cada vez maior li-
 berdade a par de um fortalecimento cada vez
Alguns cortesãos propuseram a maior da autoridade. E o fortalecimento da
Henrique IV, como meio de livrar-se dos seus autoridade não se dava por um acréscimo
inimigos, julgá-los e condená-los à morte. dos poderes discricionários de que os reis
Ele replicou: gozavam, mas por uma ação da Igreja junto
— Não farei isso. O único modo verda- aos reis no sentido de lembrar-lhes continu-
deiro de eliminar os inimigos é transformá- amente os seus deveres de ministros de Deus
los em amigos.32:4860 na esfera temporal, e junto aos súditos no
 sentido de recomendar-lhes a submissão e a
O imperador Sigismundo, tendo liberta- obediência às autoridades constituídas. Sem
do e posto a seu serviço alguns prisioneiros, subverter as estruturas da sociedade, prega-
os conselheiros lhe disseram que os inimi- va a verdadeira dignidade de todos os filhos
gos devem ser exterminados. Ele respondeu: de Deus. Uma dignidade que respeita as hi-
— Eu os extermino tornando-os amigos. erarquias e faz amar os superiores como re-
Cada inimigo que se torna amigo é um ini- presentantes de Deus, e ao mesmo tempo
migo a menos.109:3128 mostra aos superiores seus graves deveres
 em relação àqueles que lhes estão sujei-
A política de Metternich, o principal tos.8:113
articulador político da Áustria na primeira
metade do século XIX, tinha como objetivo
o equilíbrio europeu, para o qual eram peri-
gosas as revoluções, pois sabe-se que revo-
O s reis e nobres procuravam conhecer
sempre os desejos e as reclamações dos
súditos, atendendo-os na medida do possí-
lução é uma idéia que encontrou armas. Ele vel e das conveniências.
comentou: 
— Perigo por perigo, prefiro uma guer- Alguém entregou a Frederico II um fo-
ra a uma revolução.32:9639 lheto contendo um forte libelo contra ele.
 Depois de lê-lo com atenção, chamou um
O primeiro-ministro Gladstone apresen- editor e disse:
14 — A harmonia de classes mantém-se pela caridade cristã 91

— Leve este folheto e imprima-o. Será nidade o convívio entre o nobre e os mem-
um bom negócio para o senhor.33:2309 bros das outras classes sociais, com os quais
 ele tenha trato em razão da sua profissão ou
Passando diante de um muro onde um das suas atividades. Este cavalheirismo man-
grupo de alemães lia um pasquim contra ele, tém distintas entre si as classes, sem confu-
Frederico II mandou que alguém fosse lá e são ou desordem, sem nivelamentos iguali-
o pusesse mais baixo, para que todos pudes- tários. Pelo contrário, torna amistosas as re-
sem lê-lo com mais facilidade. Perguntan- lações entre elas.89:89 E os exemplos seguin-
do-lhe alguém por que fazia isso, ele ponde- tes demonstram muito bem a preocupação
rou: dos nobres nesse sentido.
—Eu deixo o meu povo dizer o que quer, 
e ele me deixa fazer o que mais me agrada. Na primeira vez que o delfim de Luís
Desse modo estamos todos de acordo.109:3227 XIV saiu de Versalhes a cavalo, na compa-
 nhia do preceptor duque de Montausier, per-
O rei Afonso impôs tributos pesados ao guntou o que eram algumas choupanas que
reino de Nápoles, e dele se queixavam tanto viu no caminho, e lhe foi dito que eram as
plebeus quanto nobres. Quando alguém lhe casas onde moram os camponeses. Habitua-
relatou o que dele se falava, respondeu: do ao tamanho e aos esplendores de
— Se eles suportam o que eu faço, pos- Versalhes, o príncipe achou aquilo impossí-
so bem suportar o que dizem.1:199 vel, e então o preceptor o convidou a apear
 do cavalo e entrar numa das choupanas, onde
Alguns franceses publicaram sátiras con- lhe disse:
tra Luís XII, e os cortesãos pediram-lhe que — É neste recinto miserável que vivem
os punisse. o pai, a mãe e os filhos que trabalham para
— Nada disso! Esses aí me fazem justi- pagar o ouro que adorna os vossos palácios
ça, pois me consideram digno de ouvir a e custear as despesas da vossa mesa.58:2:11
verdade.32:8600 
 O duque de Borgonha adotava os seguin-
Um letrado falou atrevidamente contra tes princípios: 1 - Os reis são feitos para o
Filipe II. Quando o fato chegou ao seu co- povo, e não o povo para os reis; 2 - Devem
nhecimento, o rei mandou que o mantives- punir com justiça, pois são os guardiões das
sem em liberdade, argumentando: leis; 3 - Devem recompensar os serviços,
— Deve ser louco quem fala mal de al- pois trata-se de dívidas; 4 - Não devem con-
guém que não conhece, com quem nunca ceder pensões, pois isso só se faz à custa do
falou, e que não lhe fez mal nenhum. povo.58:1:182
Alguém insistiu em que fosse aplicado 
um castigo exemplar, mas o rei confirmou: Falava-se diante do duque de Borgonha
— Soltem-no. Os príncipes de quem sobre as imensas riquezas que havia deixa-
menos se queixa são aqueles que dão aos do o cardeal Mazarino ao morrer. O duque
súditos liberdade para queixar-se.109:613 de Beauvilliers comentou:
— O cardeal, no leito de morte, encon-
From: Camerlengo trou o segredo para tranqüilizar a própria
O cavalheirismo aristocrático, longe de consciência, conseguindo que o rei lhe fi-
constituir um fator de divisão, é na realida- zesse uma doação geral.
de elemento de união, que penetra de ame- O duque de Borgonha acrescentou:
92 A volta ao mundo da nobreza

— Seria necessário o povo confirmar Assembléia Nacional estava reunida em


essa doação, cujo espólio lhe pertence.58:1:183 Versalhes, e Mirabeau informou aos depu-
tados:
From: Contrappunto — Encerrem a sessão. Quarenta mil
Aqui estou novamente com os meus fa- amotinados estão a caminho de Versalhes,
tos divergentes. Divergentes até certo pon- vindos de Paris.
to, pois confirmam pelo contraste o que hoje O presidente da Assembléia, Jean
se discutiu neste salão. Monnier, replicou:
 — Razão a mais para que a Assembléia
Durante um almoço na residência do Pe. permaneça reunida.
Rothelin, nobre e membro da Academia — Podem matar-nos a todos!
Francesa, Voltaire defendia com loquacida- — Se nos matassem a todos, sem exce-
de suas teses igualitárias. O sacerdote só ção, é provável que as coisas melhoras-
conseguiu interrompê-lo na hora da sobre- sem.109:2389
mesa, e então recomendou:
— Senhor Voltaire, terei prazer em
recebê-lo outras vezes, mas recomendo que
tratemos de outros assuntos. Onde estaría-
O que se nota em muitos dos fatos que
vimos hoje é que os nobres não se li-
mitavam a pagar aos seus trabalhadores um
mos nós – o senhor, eu e nossos servidores – salário, como ocorre hoje, mas preocupa-
se eles seguissem o seu pensamento?58:3:299 vam-se muito pelo bem estar deles e das suas
 famílias. Eram relações pessoais e familia-
No dia 5 de outubro de 1789 a popula- res, muito mais do que financeiras, porque
ção parisiense amotinou-se, marchando em baseadas na caridade cristã. Disso resulta-
direção a Versalhes com o objetivo de for- vam vínculos profundos, raramente rivali-
çar a família real a mudar-se para Paris. A dades, pois

A harmonia de classes mantém-se


pela caridade cristã
93

15º dia

P rezados amigos, nos exemplos e concei-


tos expostos ontem, conseguimos vis-
lumbrar algo da harmonia de classes que pre-
da boa movimentação social, essas relações
não eram apenas de indivíduo a indivíduo, mas
entre família e família. Relações de simpatia,
dominava nos tempos antigos. O Camer- benevolência e ajuda, que procediam de cima
lengo acrescentou alguns esclarecimentos para baixo; de gratidão, afeto e admiração, que
sobre um aspecto particular dessa harmonia, se evolavam de baixo para cima.89:247
que trata da relação entre patrões e empre- Exemplos típicos desta aristocrática bon-
gados. Os termos de antigamente não eram dade de trato encontram-se em muitas famíli-
bem patrões e empregados, mas vamos as nobres, que sabem ser eximiamente bondo-
entendê-los assim, para simplificar. sas para com os seus subordinados sem con-
sentir de modo algum que seja negada ou avil-
From: Camerlengo tada a sua natural superioridade. Os maiores
Animados pelo espírito de luta de classes, dentre os nobres são atentos e solícitos em
muitos imaginam existir uma relação inevita- conservar para com os seus domésticos, e para
velmente conflituosa entre o nobre e o pobre.89:1 com todos os que os circundam, um compor-
Afirmam erroneamente que qualquer superi- tamento consentâneo com a sua categoria, mas
oridade elimina do trato social a cordialidade, destituído de qualquer presunção. Predispos-
a suavidade, a amenidade cristã. Para esses, tos à benevolência e cortesia nas palavras e
qualquer superioridade desperta sentimentos nas maneiras, demonstram a nobreza dos seus
de humilhação, pesar e dor naqueles sobre corações vendo esses homens como irmãos e
quem ela se exerce. Pelo contrário, a verdade cristãos, unidos a eles em Cristo pelos víncu-
fundamental é que, para o cristão, as desigual- los da caridade. Nos palácios ancestrais, entre
dades sociais fundem-se numa grande família os grandes e os humildes, essa caridade con-
humana. Portanto, as relações entre classes e forta, sustém, alegra e dulcifica a vida, máxi-
categorias desiguais devem permanecer gover- me nas horas de dor e de tristeza, que nunca
nadas por uma justiça honesta e equânime, ao faltam.89:77
mesmo tempo animadas pelo respeito e pela
afeição mútua. Embora sem suprimir as desi- From: Delassus
gualdades, assim diminuem as distâncias e Conheço alguns exemplos que confir-
temperam-se os contrastes.89:77 mam isso.
No contato vivo entre os nobres e seus 
serviçais, não ficavam abarcados apenas o que O rei Carlos III trabalhava em seu escri-
as modernas legislações de trabalho chamam tório, chamou um auxiliar e ninguém aten-
– fria, seca e funcionalmente – empregadores deu. Levantou-se, foi à ante-sala e viu o pa-
e empregados. Através dos seus servidores jem sentado, dormindo a sono solto. Ia
domésticos e profissionais, os de categoria acordá-lo, quando viu ao seu lado uma carta
mais elevada acabavam por conhecer as famí- que havia sido lida recentemente, e a curio-
lias dos seus subordinados, como estes conhe- sidade o decidiu a lê-la. Dizia o seguinte:
ciam as famílias daqueles. Em grau maior ou “Querido filho, desde que estás em palácio,
menor, conforme a orgânica espontaneidade pela recomendação desse grande senhor, tu
94 A volta ao mundo da nobreza

me tens socorrido com parte da ajuda que 


ele te dá. Tuas pobres irmãs e eu saímos da Seis semanas antes da sua morte, o du-
espantosa miséria em que nos deixaste, e que de Berry, ao entrar na floresta de Saint-
temos pão para comer e roupas para nos ves- Germain, disse ao guarda:
tirmos. Agradeço-te pela bondade do teu — Deves querer-me muito mal, não é?
coração, e te abençôo como meu filho que- — Eu, senhor!?
rido”. Sensibilizado, o rei colocou num em- — Sim. Eu me lembro de que não con-
brulho algumas moedas de ouro e o introdu- segui bom resultado numa caçada, e por isso
ziu com muito cuidado no bolso do pajem. te disse palavras ofensivas. Portanto, quero
Depois o chamou em voz alta. Ao ver diante que me dês tua mão.
de si o rei, atrapalhou-se e não conseguia O guarda estendeu a mão. O duque a to-
desculpar-se. O rei sorriu e perguntou: mou, depôs nela algumas moedas de ouro e
— O que é isso que faz saliência no teu acrescentou:
bolso? — Eu te conheço bem, e sei que tens
O pajem tirou do bolso o embrulho com três filhos.27:1:454
as moedas, espantou-se, caiu de joelhos di-
ante do rei e disse: E veja como a atitude dos nobres em re-
— Senhor, deve haver alguém querendo lação aos seus servidores era diferente da que
prejudicar-me, porque este dinheiro não é têm os capitalistas de hoje, cujos emprega-
meu, e não sei quem o pôs no meu bolso. dos vão para o olho da rua ante o menor es-
Mas eu juro que sou inocente. boço de crise econômica.
— E quem pode pensar em prejudicar- 
te? Não tens uma mãe e umas irmãs a quem Por medida de economia, os ministros
socorrer? Por que não há de ser Deus quem do rei Afonso VI de Castela apresentaram-
te envia esse dinheiro, não para prejudicar- lhe duas listas de servidores: a dos que eram
te, mas para que possas melhor manifestar necessários e a dos que poderiam ser dis-
teu bom coração? pensados. Mas o rei decidiu:
Compreendendo o sucedido, o pajem — Não dispensarei ninguém. Dos neces-
agradeceu muito a generosidade do sobera- sários, eu preciso; e os que não são necessá-
no.10:218 rios precisam de mim.32:233
 
O barão de Besenval tinha um velho ser- Sarrau, administrador do marechal de
vidor ao qual era muito afeiçoado, e lhe dava Biron, apresentou-lhe uma lista dos servi-
sempre incumbências leves que não exigis- dores que poderiam ser dispensados sem
sem esforço. Num dia em que o ancião que- prejuízo para o andamento da casa, a fim de
brou um vaso de grande valor, e pretendia fazer economia. Depois de examinar a lista,
por isso deixar o serviço, Besenval tentou o marechal argumentou:
de toda forma impedi-lo. Como nenhum — É bem verdade que eu poderia passar
outro argumento o convencia a ficar, deu a sem eles, mas também é verdade que eles
última cartada, que foi vitoriosa: não podem passar sem mim.
— Se não é possível permanecermos E não dispensou nenhum dos servidores.55
juntos nesta casa, cabe a mim sair, porque
és aqui o mais antigo. Portanto eu deixo con- From: Egmont
tigo a chave da casa, e amanhã vou morar Vou contar-lhe um fato pitoresco da mi-
em outro lugar.32:1350 nha área de pesquisa.
15 — Os nobres tratam seus servidores com bondade 95

 From: Leopoldina
Leopoldo II da Bélgica comentou com No Brasil, exemplos de relações amis-
um príncipe inglês: tosas como os que estão sendo citados hoje
— Acho necessário os reis terem grande são numerosos. Vou transcrever dois.
criadagem. Eu, por exemplo, tenho quatro 
criados só para cuidarem do meu cachimbo. Em 1886, visitando D. Pedro II a provín-
— Quatro?! Mas o que faz todo esse cia de São Paulo, e vendo numa cadeia um
pessoal? escravo condenado injustamente, disse-lhe:
— Um me traz o cachimbo; o segundo — Espere, meu preto, tenha paciência,
coloca dentro dele o fumo; o terceiro o acen- que vou tratar já da sua liberdade.
de. Voltou-se então para o presidente da
— E o quarto? Câmara Municipal, que o acompanhava, e
— Ora, o quarto o fuma, porque eu de- ordenou:
testo o fumo.32:8311 — Faça um requerimento em nome des-
se infeliz, dizendo que tem a quantia neces-

M aria Antonieta, que os revolucionários


apresentavam como “arrogante e or-
gulhosa”, era bem o contrário disso. Quan-
sária para a sua alforria.
Vendo que o vereador continuava a
acompanhá-lo, exigiu:
do ainda delfina, sua dama de companhia — Tenho pressa, e não quero sair daqui
Mme. de Mailly perdeu o filho, e ela deseja- sem ver isso feito.
va consolá-la visitando-a em Paris. Mani- E mandou o mordomo remeter ao pos-
festou às irmãs de Luís XV esse desejo, e suidor daquele escravo a quantia necessária
elas explicaram: para libertá-lo.34:398
— Isso é uma coisa que aqui não se faz. 
Obtida a permissão do esposo, ela se di- O barão de Cotegipe era líder da banca-
rigiu ao rei, que acedeu: da escravagista no Congresso Nacional, e
— Minha filha, embora não estejamos combateu até o último momento a aprova-
acostumados com essas visitas assim distan- ção da lei de libertação dos escravos, que se
tes, podeis muito bem fazer aquilo que man- tornou a Lei áurea. No entanto era um bom
da o vosso bom coração em favor dessa po- senhor de escravos e os tratava bem. Tinha
bre mulher.59:88 um menino escravo, que usava para recados
 e outros pequenos serviços. Num dia em que
O duque de Duras conhecia o gosto da estava na carruagem e começou a chover,
futura rainha Maria Antonieta pela dança, e chamou o menino:
lhe propôs que se promovessem bailes du- — Zezinho, venha cá para dentro, senão
rante a permanência da família real em vai pegar um resfriado.14
Fontainebleau no outono de 1771. Ela res-
pondeu:
— Isto me agradaria muito, mas será im-
possível sem aumentar as despesas. Neste caso
D a parte dos serviçais, a retribuição era
no mínimo à altura, e muitas vezes
ocorriam atos de generosidade inteiramente
eu prefiro renunciar a esses prazeres, pois es- alheios ao que estipula qualquer CLT, base-
tou tendo dificuldades para efetuar o pagamen- ados na gratidão e no afeto.
to do meu pessoal de serviço. Não seria justo 
aumentar despesas com meus divertimentos O duque de Choiseul caiu em desgraça
enquanto eles sofrem privações.59:58 na corte de Luís XVI, e a renda reduzida o
96 A volta ao mundo da nobreza

obrigava a dispensar muitos empregados. Nova tentativa, com o mesmo resulta-


Um deles o procurou e ofereceu: do. Ao iniciar a terceira tentativa, resolveu
— Senhor duque, soube que vos transferir a responsabilidade:
tornastes pobre. Não sou rico, mas consegui — Sire... Eis aí Soulaigre.
poupar algum dinheiro durante os trinta anos Recebendo tão inopinadamente a batata
ao vosso serviço. Venho entregá-lo a vós, quente, Soulaigre começou:
pois não sei o que fazer dele.32:3051 — Sire...
 Mas também embatucou, e resolveu de-
Tendo caído em desgraça, o duque de volver o fardo:
Choiseul teria de dispensar seu famoso — Sire... Eis aí Bazire.
mordomo Lesueur. Mas este era de tal modo O rei sorriu e respondeu:
afeiçoado ao patrão, que propôs: — Senhores, sei o motivo que vos traz à
— Senhor, vejo a necessidade em que minha presença, e vou atender-vos. Fiquei
estais de dispensar-me, pois não tendes mais muito satisfeito com a maneira como
condições para manter grande número de desempenhastes a função de emissários.27:2:166
serviçais. Mas, como é certo que precisareis 
de um cozinheiro, quero pedir-vos a prefe- Luís XV havia ordenado colocar quaren-
rência para esse cargo.32:3051 ta garrafas de vinho na carruagem em que
 viajasse. Passava o tempo, e nunca essa pro-
Quando o marechal Catinat decidiu dis- visão era utilizada. Mas o vinho foi sendo
pensar alguns servidores, por faltar o dinhei- consumido, e quando ele se lembrou de pe-
ro para pagar-lhes o salário, eles implora- dir uma das garrafas, foi-lhe dito:
ram para ficar, sem nenhum salário, pois não — Senhor, não há mais garrafas de vi-
queriam abandoná-lo.32:2718 nho.
— Como!? E onde estão as quarenta

N as relações entre nobres e seus servi-


çais, surgem por vezes situações em-
baraçosas, que logo se resolvem devido ao
garrafas?
— Todas foram bebidas, senhor.
— Bem, bem... Então, de agora em di-
afeto mútuo. ante, ponham quarenta e uma garrafas.109:2597
 
Dois criados de quarto de Luís XIV, O conde de Grammont surpreendeu dois
Bazire e Soulaigre, foram escolhidos por de seus criados brigando, e quis saber o
uma grande comitiva da cidade onde nasce- motivo. Depois de muita insistência, eles
ram, como porta-vozes na ocasião em que confessaram:
deveriam fazer ao rei um pedido. Mas uma — Nós vos roubamos cinco luíses de
coisa era tratar com o rei na intimidade, e ouro, e cada um de nós julga que deve ficar
outra muito diferente era arcar com o peso com a maior parte, que são três.
de uma representação oficial e pública, ain- — Ora, vocês são mesmo uns patifes
da mais quando se tratava do Rei Sol e de para estar brigando por tão pouco. Tomem
uma comitiva de sumidades do “centro do mais este, e assim cada um fica com
mundo”. Bazire deveria ser o primeiro a fa- três.58:2:382
lar, mas numa primeira tentativa não conse- 
guiu ir além do tratamento que sempre dava O czar Paulo I tinha sempre consigo uma
ao rei: tabaqueira de ouro incrustada de diamantes,
— Sire... que muitos consideravam quase tão sagrada
15 — Os nobres tratam seus servidores com bondade 97

quanto o cetro. O camareiro Kapioff apos- — Olá, senhor! Não maltrate assim o
tou com outros três que conseguiria fazer uso pessoal do marechal de Turenne!
do rapé daquela tabaqueira. Numa manhã em Apavorado, ao saber de quem se trata-
que o czar já acordara mas ainda estava no va, o jovem foi até a portinhola da carrua-
leito, ele se aproximou, introduziu a mão no gem pedir perdão ao marechal, que não co-
criado-mudo, abriu a tabaqueira e retirou um nhecia. Surpreso por encontrá-lo sorridente,
pouco de rapé, que introduziu no nariz. Es- desculpou-se e ouviu o comentário compla-
tupefato, Paulo I perguntou: cente:
— Que estás fazendo, patife? — De fato o senhor sabe muito bem
— Eu, senhor?! Nada de mais. Aconte- como castigar meus empregados. Quando
ce que estou de guarda há oito horas, e o fizerem alguma tolice, eu os enviarei ao se-
sono ameaça tomar conta de mim. Pensei que nhor, e pode estar certo de que isso ocorre
um pouco de tabaco poderia manter-me acor- com freqüência.27:2:100
dado, e preferi violar uma regra de etiqueta 
a faltar ao meu dever. Isabel II viajaria de trem de Badajoz para
Com uma boa gargalhada, o czar deci- Portugal, e marcou a saída para as seis da
diu: manhã. Chegou pontualmente, mas teve de
— Não seja por isso, meu caro rapaz. esperar durante uma hora. Depois de inicia-
Mas está claro que essa tabaqueira não bas- da a viagem, ela explicou a Narváez:
ta para nós dois, e acho melhor ela ficar só — Agora compreendes por que muitas
contigo. Leva-a como presente.32:10992 vezes chego atrasada. Dou tempo para que,
 quando eu chegar, tudo já esteja prepara-
O marechal de Turenne tinha como criado do.109:2945
de quarto um granadeiro muito forte, que
freqüentemente brigava com outro criado cha-
mado Stefan. Um dia, quando Turenne olhava
pela janela, o granadeiro viu-o por trás e o con-
O perdão dos nobres ao mau procedimen-
to dos servidores era muito comum, até
mesmo nos casos de grande incômodo que
fundiu com Stefan. Aproximou-se e deu-lhe os atingira.
um violento soco nas costas. Quando o mare- 
chal se voltou e ele o reconheceu, caiu de joe- Depois de atender as audiências do dia,
lhos e pediu perdão, alegando: S. Luís IX voltou aos seus aposentos e não
— Senhor, pensei que fosse o Stefan. encontrou nenhum dos criados, cuja função
— Bem, se fosse o Stefan você não de- exigia estar ali sempre pelo menos um deles
veria ter batido com tanta força.30:2278 à disposição. Quando o fato chegou ao co-
 nhecimento dos criados, eles foram toma-
Numa rua de Paris, o marechal de dos de pavor e resolveram pedir a interces-
Turenne aguardava dentro da sua carruagem são de Frei Pierre para obterem o perdão.
que o cocheiro conseguisse transpor um obs- Frei Pierre explicou então ao rei que eles não
táculo para prosseguir seu caminho. Irritado tinham coragem de se apresentar novamen-
com a demora, o jovem dono de outra carru- te diante dele sem a certeza de obterem o
agem desceu e começou a lançar sobre o perdão. O rei mandou chamá-los, e disse
cocheiro uma catadupa de ameaças, maldi- apenas:
ções e impropérios. Enquanto o marechal — Venham, venham. Estais tristes por-
observava tranqüilamente a cena, um comer- que agistes mal. Eu vos perdôo, mas cuidem
ciante gritou, como advertência: para que isso não se repita.78:85
98 A volta ao mundo da nobreza

 
Num dia em que S. Luís IX estava reco- Um criado de quarto entregou a Luís
lhido ao leito, em conseqüência de uma do- XIV, durante o inverno, uma camisa fria para
ença que lhe tornava as pernas vermelhas e vestir. Sem queixar-se, ele disse:
doloridas, um velho criado que servira ao — Durante o verão, entregue-a bem
rei Filipe Augusto quis examinar as pernas aquecida.27:2:193
a fim de oferecer os cuidados prescritos.
Enquanto observava com a ajuda de uma From: Joinville
vela acesa, caiu sobre a perna dolorida uma Devemos também ter presente que as
gota de vela derretida, provocando dor agu- negligências dos empregados merecem re-
da. O rei disse apenas: preensão ou punição adequada, como neste
— Ah, Jean! Por muito menos o meu avô fato da vida de S. Luís IX.
o teria dispensado.78:88 
 Quando partiu do castelo de Hyères, S.
Guilherme I da Prússia foi de carruagem Luís IX teve de descer a pé, pois a encosta
à ópera, e o cocheiro deveria manter-se a era muito íngreme. Mas foi obrigado a pros-
postos, esperando-o. O espetáculo não lhe seguir a pé além do necessário, pois seu ca-
agradou, e ele resolveu sair logo depois de valo demorava. Quando o cavalo chegou
iniciado. O cocheiro não estava onde devia, com grande atraso, trazido pelo escudeiro
e foram encontrá-lo num bar da vizinhança. Ponce, este foi severamente repreendido.
Quando ele se apresentou esbaforido, o mo- Joinville interveio a favor do escudeiro, ale-
narca o tranqüilizou: gando que ele servira ao seu pai e ao seu
— Não se preocupe. Tantas vezes eu o avô, mas o rei esclareceu:
fiz esperar, que pelo menos uma vez não — Senescal, ele não nos serviu. Fomos
haverá mal em ser eu a esperá-lo.32:6920 nós que servimos a ele, suportando-o no
 nosso serviço apesar das suas más qualida-
Luís XIV deveria sair por um portão do des. O rei Filipe, meu avô, me disse que de-
palácio, e o porteiro foi avisado de que de- vemos recompensar nossos servidores, uns
veria estar lá para abri-lo. Quando o rei che- mais e outros menos, de acordo com a qua-
gou, o porteiro não estava a postos e foi ne- lidade de serviço que prestam. Disse tam-
cessário esperá-lo. Daí a pouco ele chegou bém que ninguém conseguirá ser bom
correndo, e ouviu do acompanhante uma tor- governante se não souber ousadamente dar
rente de injúrias. Tranqüilamente, o rei pon- ou duramente recusar. Há poucas pessoas
derou: que zelam pela honra e o bem dos seus se-
— Por que o repreendes? O senhor não nhores, e muitos só pensam em conseguir
percebe que ele já está suficientemente afli- para si os bens de outros, seja de modo líci-
to por me ter feito esperar?27:2:193 to ou ilícito.78:70

Quando um criado lavava os pés de Luís
XIV, outro que segurava a vela deixou cair
nos pés do soberano algumas gotas de vela
É claro que o superior não pode conceder
o perdão em todos os casos, especial-
mente os de incúria ou maldade deliberada.
derretida, provocando dor aguda. Calma- E o modo de punir ou de perdoar varia am-
mente ele advertiu: plamente, em função do arrependimento ou
— Seria talvez igualmente inadequado da gravidade da falta.
deixá-la cair no chão.27:2:193 
15 — Os nobres tratam seus servidores com bondade 99

O cardeal de Richelieu tinha um secretá- — Saia da minha casa imediatamente.


rio jovem chamado Cherré, que ficava à sua Quem serve ao seu senhor por dinheiro, e
disposição para anotar a qualquer hora da noi- não por carinho, não é digno de permanecer
te o que ele ditasse. Numa investigação feita na casa dele.109:804
na Bastilha, um emissário do cardeal encon- 
trou cartas de Cherré a um amigo que lá esta- A escocesa Marguérite Lambrun, disfar-
va prisioneiro, nas quais se desculpava: “Não çada em trajes masculinos, levava duas pis-
posso ir visitá-lo, pois vivemos aqui na mais tolas a fim de matar a rainha inglesa Isabel I
estranha escravidão possível. Temos de lidar com uma, e depois matar-se com a outra.
com o maior tirano que já houve”. O cardeal Foi detida quando caminhava para executar
mandou chamar o secretário e o interrogou: seu projeto, e levada à presença de Isabel.
— Cherré, quais eram as suas posses Interrogada, explicou-se:
quando começou a trabalhar para mim? — Durante muitos anos estive a serviço
— Posses?! Nenhuma, senhor. da rainha Maria Stuart, que mandastes matar
— Então anote isso aí. E agora, o que injustamente. Meu marido morreu de des-
você tem? gosto por causa disso, e entendi que meu
Depois de pensar, ele relacionou e ano- dever era vingá-la por meio da vossa morte.
tou os vários bens que possuía. O cardeal — Pensaste que cumprias um dever, as-
prosseguiu: sassinando-me. E o que pensas que devo fa-
— Mas você se esqueceu de mencionar zer contigo?
cinqüenta mil libras. — Perguntais isso como rainha ou como
— Senhor, eu não tenho essa quantia. juiz?
— Mas terá, pois vou cuidar disso. — Pergunto-o como rainha.
Então o cardeal entregou-lhe as cartas, e — Neste caso, deveis perdoar-me.
depois de lidas, prosseguiu: — E que segurança me dás de que não
— Está claro agora que você é um men- abusarás da minha generosidade, e de que
tiroso. Desapareça da minha frente e nunca não atentarás novamente contra a minha
mais permita que eu o veja.106:96 vida?
 — Senhora, a generosidade que tanto
Durante a guerra, o chefe político de calcula não tem nada de generosidade.
Sevilha, Javier de Cavestany, teve de passar Ordenai que me julguem.
três dias fora de casa, num momento em que Voltando-se para os cortesãos, a rainha
sua mulher estava para dar à luz. Depois do disse:
parto ela escreveu uma carta ao marido, para — Sou rainha há trinta anos, e ninguém
narrar que tudo correra bem e ela já se en- me deu uma lição como esta.
contrava a salvo com o filho. Mas nenhum Em seguida, contrariando os seus con-
dos criados quis arriscar-se a levar a carta, selheiros, a rainha a perdoou.109:1486
pois ainda havia tiroteio nas ruas. Um deles
se ofereceu para a tarefa em troca de uma
moeda de ouro, que lhe foi prometida.
— Você a receberá quando trouxer a res-
H á até casos em que o empregado pode
ter que decidir entre cumprir uma or-
dem ou sua contra-ordem.
posta do meu marido. 
Quando retornou, cobrou logo o seu pa- Frederico II deu ordem a um servo para
gamento. A senhora atirou-lhe a moeda na acordá-lo e fazê-lo levantar-se todas as ma-
cara, e disse: nhãs no mesmo horário. Um dia ele queria
100 A volta ao mundo da nobreza

permanecer deitado, e disse ao servo: cientes, e podemos escolher para amanhã ou-
— Deixe-me dormir. Hoje é um caso tro tema. Já recebi vários fatos que mostram
excepcional, porque não dormi durante a uma característica muito marcante nas rela-
noite e preciso de algum repouso. ções entre os reis e os súditos. De tal modo
— Ora, sei muito bem com quem estou os súditos tinham confiança no seu rei, que
tratando. Se eu vos deixar dormir, amanhã o consideravam “pai do povo”. Se conseguir-
estarei no olho da rua.33:2291 mos mais alguns fatos sobre isso, creio que
teremos amanhã uma tertúlia muito agradá-

P arece-me que os exemplos relativos ao


nosso assunto de ontem e hoje são sufi-
vel. E podemos encerrar a de hoje com a con-
clusão de que

Os nobres tratam seus servidores com bondade


101

16º dia

E scolhemos para hoje um assunto que per-


mite agrupar fatos provindos de várias
fontes, a maioria abordando um aspecto es-
cumprir inteiramente em benefício dos que
vo-la devem”.50:72
Bourdaloue lembrava aos senhores da
sencial no relacionamento entre os súditos e época os seus deveres, com estas palavras:
o seu soberano, que é tido e respeitado por “Aristóteles, o príncipe dos filósofos, não
eles como “pai do povo”. Não se tratava de tinha nenhum dos princípios do cristianis-
um título forçado, mas correspondia ao que mo, no entanto compreendia este dever quan-
todos sentiam no fundo da alma. do dizia que os reis, no seu alto grau de ele-
Para governar homens, é preciso antes vação que nos faz olhá-los como divindades
de tudo obter-lhes a admiração, a confiança na Terra, são apenas homens feitos para os
e o afeto. A esse resultado não se chega sem outros homens, e não é para si mesmos que
uma profunda consonância de princípios, de eles são reis, mas para seus povos”.50:72
anelos, de rejeições, sem um corpo de cultu- Um verdadeiro gentil-homem jamais re-
ra e de tradições comuns a governados e corre a empreendimentos que causem dano ao
governantes.89:135 A aristocracia social tem bem comum e prejuízo às pessoas de condi-
uma função a exercer direta e imediatamen- ção modesta. Seu ponto de honra é estar do
te junto ao povo. Mas, pela lei natural, exer- lado dos pequenos, dos fracos, do povo, dos
cerá sempre uma função política junto ao que exercem um ofício honesto e ganham o
poder. Participará do poder em benefício do pão com o suor do seu rosto. Uma elite assim
povo.89:248 cumpre seu dever religioso e cristão, servindo
Ninguém pode elevar-se nas honras do nobremente a Deus e ao país.89:90
mundo, ainda que pelas vias direitas e legí- 
timas, senão com o objetivo de se aplicar, Henrique IV ouviu de alguns cortesãos
de se interessar, de se consagrar e de se de- conselhos que o levariam a atitudes despóti-
votar ao bem daqueles que a Providência fez cas. Mas ele se opôs, com a seguinte justifi-
depender dele. Um homem revestido de uma cativa:
dignidade é uma pessoa destinada e escolhi- — A primeira lei de um rei consiste em
da por Deus para o serviço de certo número obedecer a todas as leis. Todo rei tem acima
de pessoas, às quais ele deve seus cuidados. de si dois soberanos: Deus e a lei.32:4862
Um particular que assume um cargo, por esse 
mesmo fato não está mais agindo para si, São Tomás de Aquino afirmou: “Quem
mas para o bem público. Um superior, um rege uma casa não se chama rei, mas pai de
professor, só detém a autoridade porque deve família, se bem que tenha certa semelhança
ser útil a um grupo de pessoas, e sem essa com o rei; daí que se chame às vezes aos
autoridade ele não o poderia ser. São reis pais dos povos”.89:111 Os soberanos e os
Bernardo de Claraval escreveu a um monar- príncipes tinham muito presente essa carac-
ca: “Estais em lugar de mando, e é justo que terística.
sejais obedecido. Mas lembrai-vos de que 
essa obediência vos é devida a título onero- Quando o duque de Borgonha (filho de
so, e que sois prevaricador se não a fazeis Luís XIV) tinha 7 anos, o duque de
102 A volta ao mundo da nobreza

Montausier lhe perguntou diante do quadro mente, de modo sensato, o que para um prín-
genealógico dos reis da França: cipe vale mais do que ser dotado de espírito.
— Dentre os títulos desses reis, qual Embora confie pouco em suas próprias lu-
escolheríeis? zes, ele é quem mais deveria ser consultado
— O de pai do povo.58:1:173 em todo o seu Conselho”.37:2:245
 
Um cortesão contou a Leopoldo da Após a invasão das Tulherias por amoti-
Lorena um benefício que um soberano eu- nados, em julho de 1792, Luís XVI fez a se-
ropeu acabara de conceder aos seus súditos. guinte proclamação: “O rei somente opôs às
Ele comentou: ameaças e aos insultos dos sediciosos a sua
— Isso era o que precisava mesmo ser consciência e o seu amor ao bem público.
feito. Eu renunciaria à minha coroa no dia Ignora qual o fim a que se pretende chegar,
em que me considerasse incapaz de fazer o mas tem necessidade de dizer à nação france-
bem aos meus súditos.32:8287 sa que a violência, qualquer que seja o exces-
 so a que se queira levá-la, não lhe arrancará
Frederico II entrou com seu exército na jamais um consentimento para o que acredita
Silésia. Mandou seu embaixador em Viena ser contrário ao interesse público. Sem arre-
propor a Maria Teresa a paz em troca de ce- pendimento, expõe sua tranqüilidade e sua
der-lhe aquela região, e recebeu a altiva res- segurança; sacrifica mesmo, sem relutância,
posta: direitos que todos os homens têm, e que a lei
— Enquanto permanecer um único ho- devia fazer respeitar em sua casa como em
mem dele no meu território, preferirei mor- casa de todos os cidadãos. Como represen-
rer a tratar com ele. tante hereditário da nação francesa, o rei tem
Depois de conquistar outras praças, deveres severos a cumprir. Mas, se pode fa-
Frederico voltou a fazer-lhe a proposta e zer o sacrifício de sua comodidade, não fará
obteve nova recusa: o sacrifício de seu dever”.51:219
— Eu defendo os meus súditos, não os 
vendo.32:9272 Malesherbes foi comunicar a Luís XVI
 sua condenação à morte. O rei estava senta-
O rei Henrique de Castela costumava do com a cabeça entre as mãos, levantou-se
dizer que temia mais a insatisfação do seu e disse:
povo do que as armas dos inimigos.35:41 — Estou há várias horas procurando na
 minha memória algo que, durante todo meu
Na vida de Luís XVI, foi essa uma preo- reinado, os meus súditos tenham verdadeira
cupação constante. Henrique da Prússia, ir- razão para lamentar que eu tenha feito. E eu
mão de Frederico II, registrou sua impres- vos juro, Malesherbes, com toda a sinceri-
são sobre ele após ser recebido em Versalhes: dade do meu coração, como homem que está
“Eu o imaginava muito diferente do que é, e para comparecer diante de Deus, que sem-
ele me surpreendeu. Tinham-me dito que a pre procurei a felicidade do meu povo e nun-
educação dele fora negligenciada, que ele ca aprovei nada que lhe fosse contrário.32:8764
pouco sabia e era pouco dotado de espírito. 
Espantou-me, ao conversar com ele, notar Subindo ao patíbulo no dia 21 de janei-
que conhece muito bem a História e a Geo- ro de 1793, Luís XVI fez um gesto imperio-
grafia e tem idéias muito justas sobre políti- so com as mãos, fazendo cessar o rufar dos
ca. O bem estar do seu povo o ocupa inteira- tambores, e disse:
16 — Nas monarquias, o rei é o pai do povo 103

— Franceses, morro inocente! Perdôo Era um último argumento ao qual recor-


aos autores da minha morte e peço a Deus riam, pois de fato o objetivo não era melho-
que o meu sangue não caia sobre a França. rar a situação deles, mas conseguir o seu
Pretendia continuar, mas o jacobino embarque. No entanto ele respondeu:
Santerre o interrompeu: — Conde de Anjou, se eu sou um peso
— Eu vos trouxe aqui para morrer, não para vós, desembaraçai-vos de mim. Mas eu
para discursar. jamais me desembaraçarei do meu povo.78:154
E mandou reiniciar o toque de tambo- 
res.32:8767 Ao seu filho mais velho, que deveria
sucedê-lo mas morreu antes do pai, S. Luís

A atitude mais comum era os reis e no-


bres se sacrificarem pelos súditos. Não
apenas nas guerras, onde arriscavam suas
IX deu o seguinte conselho:
— Meu filho, peço que te faças amar por
todo o povo do teu reino; pois prefiro que
vidas por serem os principais combatentes, venha um escocês para governar bem e leal-
mas também em situações específicas em mente o povo, do que tu o governares
que assumiam riscos pessoais em benefício mal.78:28
do povo.

O talento militar de Henrique IV foi qua-
se sempre exercido em guerras civis. Preo-
U ma das principais preocupações dos so-
beranos era manter a confiança dos sú-
ditos.
cupado com isso, ele repetia: 
— Não posso me alegrar, vendo meus Conversando com Carlos II da Inglater-
súditos que morrem no campo de batalha. ra, Gourville expôs o que considerava os
Mesmo quando venço, sou também derrota- deveres de um rei:
do.27:2:451 — Majestade, um rei da Inglaterra que
Este é um aspecto das guerras que é pre- queira ser o homem de confiança do seu povo
ciso levar em consideração: a sensação de é o maior rei do mundo. Mas se isso não lhe
vitória ou de derrota. O marechal Foch, co- basta, e quiser ser algo mais, não será nem
mandante da Primeira Guerra Mundial, afir- uma coisa nem outra.32:2459
mou: Batalha ganha é aquela na qual não nos 
sentimos derrotados.14 Quando o rei de Portugal D. João III ca-
 sou-se em Castela, o imperador Carlos V
Quando o exército de S. Luís IX na Ter- pediu que lhe fossem devolvidos uns
ra Santa estava em retirada, ele determinou revoltosos espanhóis que se haviam refugi-
que embarcassem primeiro nos navios todos ado em Portugal. Reunido o Conselho, to-
os doentes e os não combatentes, e ele mes- dos concordaram em que fosse atendido, mas
mo não embarcou. Vários cavaleiros pedi- o rei decidiu:
ram-lhe que embarcasse, mas ele se opôs — Não queira Deus que eu assine coisa
terminantemente. Em nome dos outros no- a que os portugueses fiquem sujeitos.62:1420
bres, seu irmão Carlos de Anjou insistiu: 
— Majestade, fazeis mal em não aceitar Antes da batalha de Malplaquet, Luís
o bom conselho que vossos amigos vos de- XIV chamou o marechal duque de Villars e
ram. Se permanecerdes em terra, a retirada lhe disse:
das tropas será retardada, e isso poderá sig- — Estamos na alternativa de vencer ou
nificar a nossa perda. perecer. É necessário terminar por um golpe
104 A volta ao mundo da nobreza

estrondoso, por isso deveis ir atrás do inimi- 


go e guerreá-lo. Por ocasião da viagem de D. Pedro II
— Mas, senhor, este é o vosso último aos Estados Unidos, havia na Universidade
exército. Lehigh alguns estudantes brasileiros, que
— Não importa. Não exijo que derroteis ficaram encantados em vê-lo. A propósito
o inimigo, mas quero que o ataqueis. Se per- do encontro com esses estudantes, o jornal
dermos a batalha, vós me escrevereis, mas North American comentou: “Os jovens se
só a mim. Então eu percorrerei Paris a cava- aglomeraram em torno dele, como filhos em
lo, de um extremo a outro, com a vossa car- torno de um pai, e ele parecia um pai tratan-
ta nas mãos. Conheço bem os franceses, e do com seus filhos”.72:16
logo colocarei à vossa disposição quatrocen- 
tos mil homens. Eu me amortalharei com eles No jornal Figaro, o jornalista Gaston
sob os escombros da monarquia.58:1:85 Calmette escrevera que Dom Pedro II se
parecia com o escritor Arsène Houssaye,
From: Leopoldina velho conhecido do soberano. Dias depois,
Beaugeste, temos no Brasil muitos encontrando-se com Houssaye, Dom Pedro
exemplos dessa preocupação do monarca conduziu-o risonhamente para diante de um
com o bem estar do seu povo, ao qual ele espelho, dizendo:
tratava como filhos. — Vejamos se de fato nos parecemos.
 — Talvez, mas numa coisa não nos pa-
A força de direção que emanava de D. recemos: é que eu, de vez em quando, gos-
Pedro II provinha menos de ser ele o mo- taria de ser Dom Pedro II, e jamais gostaríeis
narca do que de ser um brasileiro arquetípico de ser Arsène Houssaye.
pelo qual nosso povo se sentia compreendi- — Quem sabe? Todo homem traz sua
do e amado paternalmente, dirigindo o País coroa de espinhos. Faríamos, contudo, uma
com um senso psicológico todo paterno. troca inútil, pois não usaríamos a coroa do
Sentia-se que o imperador via em cada bra- homem feliz.
sileiro um filho, e a imensa maioria dos bra- — E Vossa Majestade já encontrou al-
sileiros via nele um pai. Se houve no Brasil gum homem feliz?
uma monarquia bem sucedida, é porque foi — Sim! Eu mesmo, quando meu povo
praticada conforme esse enquadramento psi- está contente!72:24
cológico e afetivo.8:60 
 O dia do regresso de D. Pedro II ao Bra-
Chamou a atenção do jornalista norte- sil, depois da sua viagem aos Estados Uni-
americano James O’Kelly, do New York dos e à Europa, foi de gala nacional. A emo-
Herald, o cunho familiar da monarquia brasi- ção com que o acolheram assumia antes o
leira e a enorme popularidade de que gozava o tom carinhoso de uma família que revê o
imperador. Ele escreveu: “Os brasileiros com- chefe estremecido do que o de uma nação
portam-se para com seu imperador como uma que recebe o seu soberano.72:16
grande e feliz família para com seu bem-ama- 
do pai”.67:15 Ao relatar o embarque do impera- Com a proclamação da República, a
dor para os Estados Unidos, observou: “Não princesa Isabel perdeu o trono. Ao passar
era um chefe despedindo-se cerimoniosamente pela sala onde assinara a Lei áurea, bateu
da nação que governa, era antes um casal ado- com energia na mesa que usara para o ato,
rado despedindo-se da família”.72:16 e disse:
16 — Nas monarquias, o rei é o pai do povo 105

— Se tudo o que está acontecendo pro- conheceis a alma do soldado. Mas eu cresci
vém do decreto que assinei, não me arrepen- no campo de batalha, e um homem como eu
do um só momento. Ainda hoje o assina- não faz caso da vida de um milhão de ho-
ria!34:214 mens. O meu trono pode desmoronar, mas
antes disso eu sepultarei o mundo sob as suas
From: Contrappunto ruínas.32:10395
Mas não vamos esquecer que havia gente
fazendo exatamente o contrário. Veja este
exemplo.

N os exemplos de hoje, excetuando o des-
se imperador-ditador que foi Napoleão,
fica evidente a preocupação dos monarcas
Metternich teve uma longa audiência com o bem estar do seu povo, da mesma for-
com Napoleão em Dresden, e demonstrou ma que um pai se preocupa com o bem estar
conhecer os pontos fracos do adversário: dos seus filhos, até mesmo em prejuízo do
— Em tempos normais, o exército é uma seu bem estar pessoal. A Revolução odeia
parte mínima da população. No entanto tudo o que é a extensão ou a analogia das
colocastes a nação inteira em armas. Obser- relações pai-filho em outros campos. Qual-
vei vossos soldados, e vi que todos são ain- quer resquício dessa analogia, a Revolução
da rapazes. Quando tiverdes consumido tam- detesta e procura eliminar. Mas esta é uma
bém essa classe de rapazes, quem tereis ain- analogia viva, da qual não se tem o direito
da para convocar? Pensais que a nação está de abrir mão, porque onde existem analogi-
convencida de que lhe sois necessário, mas as vivas é preciso que elas se reflitam na re-
a afirmação contrária também é verdadeira. alidade.14 Bem ao contrário do que se vê nas
Irritado, Napoleão avaliou: repúblicas impostas pela Revolução France-
— Não sois militar, e por isso não sa e similares,

Nas monarquias, o rei é o pai do povo


106 A volta ao mundo da nobreza

17º dia

C aros amigos, o regime feudal foi insti-


tuído como um contrato baseado na con-
fiança mútua: de um lado os ricos e podero-
não lhe era possível montar a cavalo sem
dores insuportáveis. Por isso retirou-se para
suas terras em Guyenne. Quando tomou co-
sos, que se comprometiam a dar proteção aos nhecimento das dificuldades de Henrique IV,
trabalhadores; de outro os trabalhadores e suas e da necessidade que tinha de todos os súdi-
famílias, que se comprometiam a garantir com tos que lhe fossem fiéis, mandou amputar a
seu trabalho a produção e aumento dos bens perna, vendeu parte dos seus bens e se apre-
necessários à vida. Mão e contramão, tudo sentou ao rei, a quem prestou grandes servi-
feito com base na confiança, na amizade, na ços na batalha de Ivry e em outras ocasiões.
benquerença mútua. Nada de luta de classes, Morreu de desgosto logo após o assassinato
inveja, revolta, cada pessoa e cada grupo pro- de Henrique IV.27:1:321
curando dar de si o melhor para o bem co- 
mum. Tanto nas relações de vassalagem quan- Durante os anos difíceis do reinado de
to nos contatos sociais ou pessoais, o conví- Henrique IV, quando lhe faltavam recursos
vio baseado na confiança e amizade perma- para sustentar a guerra civil, o bosque de Rosny
neceu, mesmo depois de praticamente extin- fora vendido por Sully por trinta mil francos,
to o regime feudal. Alguns exemplos desse a fim de fornecer ao rei o dinheiro necessário.
convívio vão ser expostos hoje pelos amigos O imperador José II, quando viajava de carru-
que os encontraram. agem para Versalhes, adormeceu e só acordou
depois de ter passado pelo bosque de Rosny.
From: Richelieu Lembrando-se daquele gesto honroso de Sully,
Beaugeste, a amizade e os interesses ele mandou o cocheiro retornar, a fim de me-
comuns geravam dedicação inquebrantável dir bem o tamanho do sacrifício que ele custa-
entre suseranos e vassalos, dando ocasião a ra a esse nobre.19:4:43
atos de heroísmo e de sacrifício que perpe- 
tuavam ainda mais esses vínculos. O Quando o duque de la Vrillière perdeu a
governante poderoso também tinha as suas mão num acidente de caçada, Luís XV lhe
horas amargas. Por vezes os seus inimigos escreveu: “Perdeste apenas uma mão, mas
cercavam-no, ameaçavam-no, agrediam-no, em mim encontrarás duas ao teu servi-
ora física ora politicamente. E a mais firme ço”.58:3:118
muralha dessa grandeza que subitamente 
cambaleava eram as incontáveis dedicações Luís XV acertava com o tesoureiro as des-
que se erguiam desinteressadamente para pesas referentes à Casa Real, e instruiu-o a in-
protegê-lo, por vezes até com risco de cluir na lista um oficial de sua confiança.
vida.89:247 Tenho sobre isso alguns exemplos — A que título Vossa Majestade deseja
muito significativos. incluí-lo?
 — A título de meu amigo.58:3:128
Dominique de Vie era vice-almirante e 
foi gravemente ferido na perna direita em Quando faleceu Louvois, o seu cargo na
1586. Embora convenientemente medicado, Secretaria de Estado normalmente seria con-
17 — Onde há nobreza de alma, a proteção e o benefício geram confiança mútua 107

fiado ao seu herdeiro. Luís XIV o ofereceu o rei se mostrou muito satisfeito por não ter
a Chamlay, mas este argumentou: ele dissimulado a sua origem humilde, pois
— Se Vossa Majestade faz questão de notara que o pai era homem pobre e estava
não substituí-lo pelo filho, eu vos suplico pobremente vestido. Disse-lhe então:
que escolhais outro, pois não posso reves- — O senhor pode ficar e agasalhar o
tir-me com a mortalha do pai, que era meu hóspede. E diga-lhe que me faça uma visita
amigo e benfeitor.58:2:392 antes de voltar à sua terra.
 Na ocasião da visita que pedira, o rei
Um velho oficial francês pediu a Luís destinou-lhe uma renda anual para sua ma-
XIV que o mantivesse a seu serviço, em vez nutenção.62:34
de aposentá-lo. 
— Mas o senhor já está muito idoso. O príncipe D. João, filho de D. João III,
— Senhor, eu só tenho três anos mais costumava presentear três dos seus escudei-
do que Vossa Majestade, e ainda espero ser- ros, que eram africanos pobres. Um dia,
vir-vos durante uns vinte anos.1:37 quando passeavam pelo campo, um conde
viu os três escudeiros que se aproximavam,
From: Fuas Roupinho e queixou-se ao príncipe:
Tenho alguns relatos da história de Por- — Esses escudeiros são importunos.
tugal que confirmam essa confiança mútua. — Importunos sim, conde, mas são po-
 bres.62:105
Tendo falecido D. João III, e sendo re-
gente a rainha Da. Catarina na menoridade From: Delassus
de D. Sebastião, ela pediu ao cavalheiro Gil A confiança mútua estendia-se a toda a
Eanes da Costa que se tornasse vedor da fa- família, o que justificava o abrandamento de
zenda do rei. Ele se recusou, alegando algu- punições, e até mesmo o perdão, em aten-
mas razões. A rainha não quis aceitá-las e ção à gratidão devida aos antecedentes fa-
insistiu, ante o que ele ponderou: miliares.
— Aceitarei, Senhora, pois Vossa Alte- 
za demonstra que isso vos daria prazer. Mas Filipe V deu ordens severas para a proi-
estabeleço uma condição: farei primeiro um bição do contrabando na Espanha, ameaçan-
inventário dos meus bens e de quanto Sua do o contraventor com a pena de morte. O
Majestade possui, para que em todo o tem- filho de um nobre contrariou essa proibição,
po se possa ver que eu não poderia tirar a e além disso reagiu à ordem de prisão que
minha fortuna da dele.62:920 lhe deu a polícia. A notícia chegou ao rei
 antes que o pai do rapaz tomasse dela co-
O rei D. Manuel de Portugal saía uma nhecimento. O rei mandou chamar o pai e
tarde do mosteiro de Belém, quando se se- perguntou-lhe:
parou da comitiva o corregedor Álvaro — Minhas ordens são para condenar à
Fernandes para falar a um homem e lhe bei- morte quem praticar o contrabando. Achais
jar a mão. Vendo isso, o rei retardou a mar- que devo cumprir de fato essa ameaça?
cha até que o corregedor o alcançasse. Per- — Sim, Majestade. As ordens foram cla-
guntou-lhe aonde fora, e lhe foi explicado ras, e quem as transgredir deve ser condena-
que seu pai chegara do Algarve e o esperava do à morte.
ali perto. Pediu que o rei lhe perdoasse por — O senhor afirma isso, mas não sabe
ter ido logo, afastando-se da comitiva. Mas de quem se trata. Se o culpado fosse o vosso
108 A volta ao mundo da nobreza

próprio filho, achais que ele deve ser execu- bres ou entre famílias, por diversos motivos,
tado? mas os antecedentes de lealdade demonstra-
— Ainda que fosse o meu filho, ou eu dos por ambas as partes contribuíam para a
mesmo, minha opinião seria a mesma. solução pacífica de tais pendências.
— Bem, trata-se realmente do vosso fi- 
lho. Mas julgastes como o faria um rei, e eu O procedimento do conde d’Harcourt em
vos peço permissão para julgar como se fosse relação ao príncipe de Condé não fora de
o pai. molde a deixá-lo satisfeito. No entanto,
E perdoou o rapaz, sob a condição de quando o conde foi derrotado na batalha de
não pisar em solo espanhol durante alguns Lérida depois de muitas vitórias, o príncipe
anos.32:5397 foi o único a defendê-lo diante do conselho:
 — Por melhor que seja o general, não se
O conde de Charolais voltava de uma ca- pode considerá-lo invencível.58:1:146
çada à noite, e viu na porta de uma casa um 
burguês com o barrete de dormir. Resolveu O príncipe de Condé se irritou com o
testar a própria pontaria, atirou no barrete e conde de Palluau, mas logo se arrependeu e
jogou-o ao chão. Feita uma queixa ao duque aproveitou a primeira ocasião para se recom-
de Orleans, no dia seguinte o conde foi cha- por com ele. Quando recebeu de um criado
mado ao palácio e ameaçado de severa puni- o casaco, aproximou-se do conde e disse:
ção. Resolveu pedir clemência ao rei por in- — Peço-vos o favor de abotoar o meu
termédio do duque, que depois o informou: casaco.
— A clemência do rei só vos foi conce- — Vejo bem que a intenção é reconcili-
dida em atenção aos méritos da vossa famí- ar-vos comigo, e concordo. Sejamos bons
lia. Mas o rei a concederá com muito prazer amigos.58:1:147
a qualquer um que fizer ao senhor a mesma 
ofensa.1:7 Dom Diego de Paredes encontrava-se na
 câmara do rei, e ouviu de dois fidalgos co-
Dom Duarte de Meneses tinha sido go- mentários desabonadores sobre Gonzalo de
vernador na Índia no tempo de D. João III, e Córdoba, o Grande Capitão. Embora suas
fora preso devido a delitos pelos quais estava relações com ele não fossem das mais cor-
sendo julgado. As 25 folhas do processo con- diais, colocou sua luva sobre a mesa, levan-
tendo as acusações foram entregues a Cristó- tou a voz e lançou o desafio:
vão Esteves, desembargador do Paço, para que — Quem se atreva a dizer que o Grande
fizesse a inquirição do réu. Concluída esta, o Capitão não é o melhor vassalo e o de me-
desembargador foi visitado pelo conde do Pra- lhores feitos que o rei tem, recolha esta luva.
do, amigo de D. Duarte, que temia pela con- Ninguém ousou fazê-lo. O rei apanhou
denação à morte e desejava saber as conclu- a luva e a devolveu a Paredes, dizendo-lhe
sões a que chegara. E obteve a resposta: que tinha razão no que dissera.109:188
— Nem ele nem nenhum outro será exe-
cutado por meu voto. Porque nunca me pare- From: Saint Simon
cerá justo que um fidalgo de tanta marca e de Muito longe de pensar egoisticamente
tanto serviço morra por aqueles delitos, ainda nas próprias vantagens, os nobres cuidavam
que todos venham a ser comprovados.35:518 para estendê-las aos subalternos, preocupan-
do-se sempre com o bem estar dos que de-
Muitas vezes havia rivalidades entre no- les dependiam.
17 — Onde há nobreza de alma, a proteção e o benefício geram confiança mútua 109

 do em Fresnes por ordem do regente duque


O duque de Montausier dirigiu uma car- de Orleans. Recebia freqüentemente a visita
ta ao delfim de Luís XIV, quando este con- do cunhado conde d’Ormesson, mas também
quistou Philipsbourg em 1688: “Não vos de outros nobres. Num dia em que o regente
felicito pela conquista de Philipsbourg, pois precisava consultar d’Aguesseau sobre um
tínheis um bom exército, bombas, canhões assunto importante, perguntou a um grupo
e o general Vauban. Não o faço também pela de nobres:
vossa bravura, que é uma característica he- — Quem dos senhores poderá levar uma
reditária da vossa família. Mas alegro-me mensagem minha a d’Aguesseau?
convosco pela vossa generosidade, Com receio de revelar ligações com uma
enaltecendo os serviços de outros em detri- pessoa que caíra em desgraça, ninguém se
mento dos vossos. É sobre isto que insisto manifestou, exceto o conde d’Ormesson:
em cumprimentar-vos”.58:2:18 — Partirei hoje para Fresnes depois da
 reunião do Conselho, e posso incumbir-me
Quando as tropas de Turenne tomaram disso.
o forte de Solré, no Hainaut, os primeiros O regente percebeu os olhares de censu-
soldados que o invadiram encontraram uma ra dos outros a essa imprudência, e afirmou:
bela mulher e a retiveram, como sua parte — Senhor d’Ormesson, prefiro muito
no saque. Simulando acreditar que eles a mais essa nobre franqueza do que uma falsa
haviam detido apenas para evitar que fosse prudência e a dissimulação.58:3:43
desonrada pelos outros soldados, elogiou 
muito a conduta dos seus subordinados. Ao Apesar de o Sr. de la Trémouille ter caí-
devolvê-la ao marido, comentou: do em desgraça diante do rei e ser obrigado
— Deveis à discrição dos meus solda- a exilar-se da corte, d’Aubigné continuava a
dos a honra da vossa esposa.58:1:264 demonstrar-lhe sua amizade. Henrique IV o
censurou por isso, e ele respondeu:
From: Chamillart — Majestade, o Sr. de la Trémouille já é
Um milenar provérbio afirma que o ami- muito infeliz por ter perdido as graças do
go certo se conhece na hora incerta; e os seu soberano. Não acho que eu deva
nobres o punham em prática. abandoná-lo nesse momento em que mais
 precisa da minha amizade.27:1:35
Apesar da horrível situação em que se 
encontrava na prisão do Templo, Maria No tempo em que era simples conselhei-
Antonieta se preocupava com a de todos que ro, Chamillart aceitara a proposta do seu
dela dependiam. Tendo que separar-se de riquíssimo amigo Dreux, de realizarem no
Mme. de Lamballe, ela recomendou a Mme. futuro o casamento de dois filhos de ambos,
de Tourzel: que ainda estavam no berço. Só o fez após
— Se não tivermos a felicidade de nos muita insistência, pois seu amigo era muito
tornarmos a ver, cuidai bem de Mme. de mais rico, e por isso ele considerava essa
Lamballe. Em todas as ocasiões importan- união desigual. Quando chegou a época ade-
tes, peço que tomeis a palavra, evitando sem- quada para o casamento, Chamillart adqui-
pre que ela seja obrigada a responder a es- rira fortuna invejável e se havia tornado
sas perguntas capciosas e embaraçantes.59:423 membro da corte de Luís XIV. Por honesti-
 dade, Dreux propôs ao amigo que se desfi-
O chanceler d’Aguesseau estava exila- zesse o compromisso, tendo em vista que a
110 A volta ao mundo da nobreza

filha deste poderia desposar com facilidade O cônego Mulot era amigo do cardeal
algum nobre muito bem situado. Apesar da Richelieu, e tinha liberdade de dizer-lhe
insistência e dos argumentos consistentes, tudo o que pensasse. Muitos o tratavam
Chamillart manteve a palavra, e os dois fi- como se fosse o capelão do cardeal, mas
lhos se casaram com o consentimento do isso o desagradava. Sabendo disso,
rei.37:1:52 Richelieu resolveu provocá-lo. Num dia em
que ele entrou no salão, o cardeal entregou-
From: Chateaubriand lhe uma carta, dizendo que a recebera. Es-
Amizades comprovadas pelos fatos e tava endereçada a “Dom Mulot, Capelão de
solidificadas com o tempo abrem as portas Sua Eminência o Cardeal Richelieu”. Mulot
para certas liberdades, como podemos cons- explodiu:
tatar nos próximos fatos. — Estúpido! Estúpido quem escreveu
 esta carta!
O príncipe de Ligne e os condes de Ségur — Um momento. O senhor precisa an-
e Cobentzel, quando viajavam com Catarina tes saber quem escreveu a carta. E se fosse
II para a Criméia, foram atingidos por uma eu, ainda o senhor diria que sou estúpido?
febre intermitente. O príncipe insistiu com — Quanto a isso, Eminência, esta carta
os dois condes para que providenciassem não seria vossa primeira estupidez.32:12146
logo um tratamento, e disse que daria o 
exemplo submetendo-se a uma sangria. Os Lord Chesterfield precisava do voto de
dois fizeram o tratamento usado na época, e um lord seu amigo no parlamento. Esse lord
alguns dias depois se encontraram os três em tinha como vaidade ser um bom conhecedor
presença da imperatriz, que elogiou o aspec- de assuntos médicos. Chesterfield foi visitá-
to do príncipe: lo, e disse:
— Estais com muito boa aparência hoje. — O meu coração está batendo descom-
Eu vos imaginava indisposto, conforme me passadamente, e me parece que vou precisar
disse o meu médico. de uma sangria. Como o senhor tem uma mão
— Não, Majestade. As minhas doenças tarimbada, não quer fazer-me esse favor?
duram pouco, pois tenho um remédio muito Terminado o procedimento, Chesterfield
especial para elas. Quando adoeço, chamo perguntou:
meus dois amigos. Faço sangrar Cobentzel, — O senhor pretende comparecer ama-
dou um purgante ao Ségur, e minha doença nhã à Câmara dos Lords?
acaba.76:165 — Não pretendia, pois de fato não co-
 nheço o assunto do qual se tratará.
O conde d’Orsay e Clésinger eram es- Chesterfield lhe explicou detalha-
cultores e amigos. Clésinger perguntou ao damente o assunto, naturalmente procuran-
conde, que o visitava: do convencê-lo da sua própria posição. No
— Por que não me visita com mais fre- dia seguinte, obtida a aprovação da sua pro-
qüência? posta, comentou:
— Se eu viesse muito aqui, iriam dizer — Ninguém verteu o próprio sangue
que sou eu quem faz as suas estátuas. como eu, pelo bem do país.32:3021
— Bem, então vou passar a freqüentar
mais a sua casa, e quero ver se alguém se atre- From: Brentano
ve a dizer que eu faço as suas estátuas.109:1862 Amigo Beaugeste, encontrar este seu blog
 foi uma agradável surpresa para mim. Eu acha-
17 — Onde há nobreza de alma, a proteção e o benefício geram confiança mútua 111

va que as pessoas não se interessam mais por tenho estudado, e os enviarei logo que possí-
este assunto, que para muitos é uma velharia vel. Talvez ainda hoje, se der tempo.
sem nenhuma aplicação na realidade atual.
Vejo que é o contrário, pois já se incorpora-
ram mais de vinte ao seu grupo de pesquisa-
dores dos fatos sobre a nobreza. Considere-
Ó tima idéia, Brentano, e desde já agra-
deço a contribuição que você gentil-
mente nos oferece. Estou mesmo convenci-
me também um deles. Sou historiador, e dedi- do de que precisamos conhecer bem esse
quei-me longamente a estudar o período da período da História, pois nele a nobreza se
História conhecido como Idade Média. Hoje formou e se estabeleceu em função de situa-
tenho um conhecimento pormenorizado do ções concretas que existiam. Muitos dos pre-
modo como se formou e evoluiu a nobreza, conceitos contra a nobreza devem-se ao des-
essa instituição sobre a qual você e os seus conhecimento desses fatos e também à
colaboradores estão pesquisando. Foi exata- distorção mal intencionada que muitos
mente nesse período que se estabeleceu o re- ideólogos fizeram das informações sobre
gime monárquico em bases cristãs, o qual a esse período histórico. Incluirei a sua con-
partir da Revolução Francesa passou a ser de- tribuição logo que a receber. E a nossa reu-
nominado Antigo Regime. Se você estiver de nião de hoje pode ser encerrada com este
acordo, vou selecionar alguns dos textos que comentário:

Onde há nobreza de alma, a proteção


e o benefício geram confiança mútua
112 A volta ao mundo da nobreza

18º dia

A migos, comentamos ontem alguma coi-


sa sobre a origem do feudalismo, fun-
dado na confiança mútua entre senhores e
de Média e a “anarquia feudal”. Veremos que
a coisa é bem diferente do que afirma esse
tipo de História superficial e falseada.
vassalos. Foi uma referência rápida e des-
pretensiosa, mas acabou atraindo a atenção O grandioso império carolíngio foi re-
de um novo colaborador, especialista na his- duzido a escombros, quando se lançaram
tória do Antigo Regime. Ele estudou a fun- contra ele novas e devastadoras incursões de
do o período que vai das invasões bárbaras bárbaros – normandos, húngaros, sarracenos.
até a Revolução Francesa, e pode esclare- Não podendo as populações resistir a tantas
cer-nos sobre a história desse milênio, a que calamidades com o mero recurso ao já mui-
mais nos interessa. to debilitado poder central dos reis, volta-
Eu gostaria de ressaltar que as normas ram-se naturalmente para os respectivos pro-
para o bom andamento da conversa em um prietários de terras, à procura de quem as
salão prevêem que ela não seja monopoliza- comandasse e as governasse em tão calami-
da por um dos participantes. La Roche- tosa circunstância. Acedendo ao pedido, os
foucauld afirmou que o segredo de agradar, proprietários construíram fortificações para
numa conversa, consiste em não explicar de- si e para os seus.89:111
masiado as coisas. Mas, em casos muito es- Na França, desde a época merovíngia,
peciais, a superioridade marcante de uma pes- vê-se um certo número de pequenos propri-
soa pode beneficiar os interlocutores, que lhe etários, chamados vassi, recomendarem-se
pedem esclarecimentos e precisões sobre al- a homens mais poderosos e mais ricos, cha-
gum ponto que ela conhece bem.83 Parece- mados seniores. Ao seu senior, que lhe doa-
me que é exatamente este o nosso caso, tanto va terras, o vassus prometia assistência e fi-
mais que estamos falando sobre a nobreza, delidade. Em meados do século IX o movi-
mas ainda não nos preocupamos em conhe- mento se precipitou, e uma multidão de fa-
cer como ela surgiu e como se instalou em mílias suplicava à família senhorial que as
tantos países, com ampla aceitação de toda a tomasse sob sua proteção: Defendei-nos,
sociedade. O novo colaborador Brentano se defendei a terra que possuímos e a que nos
dispôs a abordar esses pontos, como também ireis conceder, e nós vos prestaremos todos
a responder perguntas, objeções e pedidos de os serviços de fiéis vassalos.50:56
esclarecimentos. Na sua época de maior desenvolvimen-
to e esplendor, o feudalismo compreendia o
From: Brentano exercício de atributos de soberania, pelos
Atendo com prazer ao convite do proprietários de terra, dentro de uma hierar-
Beaugeste, cuja “enrascada” parece que vai quia de suserania e vassalagem que culmi-
aos poucos se desfazendo. Tudo o que se nava na autoridade real. Toda essa organiza-
refere a feudalismo, monarquia, Antigo ção assentava sobre a reciprocidade das obri-
Regime, é assunto pouco conhecido atual- gações entre vassalo e suserano. Entre um e
mente. Em especial devido à legenda negra outro, a lei era o contrato bilateral. O vassalo
que os revolucionários criaram sobre a Ida- obrigava-se a pagar o tributo ao barão e a
18 — As elites tradicionais promovem o autêntico progresso da nação 113

acompanhá-lo na guerra; o barão obrigava- regional abarcava assim os diversos bens


se a garantir a ordem, a defender a vida, os comuns mais estritamente locais. Era, por
bens e a família do vassalo, e não raras ve- isso mesmo, mais alto e mais nobre.89:116
zes a sustentá-lo nos momentos de calami- As rédeas do mando desse bem comum
dade. Era o poder público real, concreto, regional iam ter normalmente às mãos de
palpável, encarnado.8:121 algum senhor de mais amplos domínios,
O espírito do tempo, profundamente cris- mais poderoso, mais representativo da re-
tão, incluía paternalmente não só os famili- gião inteira, e assim mais capaz de lhe
ares, mas a chamada sociedade heril forma- aglutinar as várias partes, reunindo-as num
da pelos empregados domésticos, trabalha- só todo sem prejuízo das respectivas auto-
dores manuais e respectivas famílias, que nomias. Tudo isto para efeitos de guerra
habitavam as terras do proprietário. Para to- como para as atividades inerentes à paz. To-
dos havia guarida, alimento, assistência re- cava assim a esse senhor regional uma situ-
ligiosa e comando militar nessas fortifica- ação com um conjunto de direitos e deveres
ções, as quais, com o tempo, se foram trans- intrinsecamente mais nobres. Ele próprio era
formando nos altaneiros castelos senhoriais uma miniatura do rei na região, como o sim-
de que restam hoje tantos exemplares. No ples senhor-proprietário o era na localidade
recinto desses castelos cabiam por vezes até mais restrita.89:116
os bens móveis e o gado, que cada família O senhor feudal – senhor-proprietário
de camponeses conseguia subtrair assim à nobre, de cujo direito de propriedade parti-
ganância dos invasores.89:111 cipava um grande número de trabalhadores
O proprietário, colocado pela força das manuais – ficava devendo ao seu respectivo
circunstâncias em missão mais elevada do senhor uma vassalagem análoga, se bem que
que a da mera produção fundiária – isto é, a não idêntica, à que esse senhor prestava ao
de certa tutela da salus publica, na guerra rei. No topo da hierarquia social ia-se for-
como na paz – assim se achava investido de mando desse modo uma hierarquia
poderes normalmente governamentais de nobiliárquica.89:116
extensão local. Desse modo, ascendia ele a
uma condição mais alta, na qual lhe cabia From: Joinville
ser uma espécie de miniatura do rei. A sua Permita-me pedir-lhe um esclarecimen-
missão era intrinsecamente participativa na to sobre o seguinte. Essa estrutura em que
nobreza da própria missão régia. A figura do os senhores locais eram dotados de tantos
proprietário-senhor nobre nascia assim da poderes e tanta autonomia – a ponto de tor-
espontânea realidade dos fatos.89:113 nar tão diferentes de uma região para outra
A própria estrutura que assim se organi- os costumes, artes etc. – poderia diminuir a
zava, associada às dificuldades de comuni- importância de um monarca, que representa
cação, acabou gerando uma grande varieda- a unidade nacional. E esses senhores meno-
de de costumes, modos de ser e de trabalhar. res podiam rebelar-se contra o monarca, pro-
Afinidades psicológicas decorrentes dos vocando um esfacelamento do reino. Ocor-
mais variados fatores contribuíram também reu isso na prática?
para caracterizar as regiões: a tradição de
lutas conduzidas em comum, às vezes por From: Brentano
muito tempo, contra um adversário externo; Muito oportuna a sua pergunta, e ela me
as semelhanças de linguagem, de costumes, possibilita esclarecer que nada disso existia
de expressões artísticas, etc. O bem comum à margem ou contra o rei, símbolo supremo
114 A volta ao mundo da nobreza

do povo e do país. Pelo contrário, existia prietário residente e benfeitor, promotor vo-
abaixo do monarca, sob a sua égide tutelar e luntário de todos os empreendimentos úteis,
sob o seu poder supremo, para conservar em tutor obrigatório dos pobres, administrador
seu favor esse grande todo orgânico de regi- e juiz gratuito da região, deputado sem re-
ões e de localidades autônomas, que era en- muneração junto ao rei. Isto é, condutor e
tão uma nação.89:116 promotor, como antigamente, mas de acor-
Esse imenso processo de fixação, de de- do com um padrão novo adequado às cir-
finição e de organização não se operou sem cunstâncias.50:71
que aparecessem reivindicações excessivas Na reação militar, o proprietário rural e
da parte dos que representavam justas auto- os seus familiares eram os primeiros com-
nomias ou promoviam necessárias batentes. O dever deles era comandar, estar
rearticulações. Isso acontecia em nível local na vanguarda, na perigosa direção das ofen-
e depois regional, seguido de um não menor sivas mais arriscadas, das defensivas mais
processo de rearticulação unificadora e obstinadas. À condição de proprietário so-
centralizadora nacional. E tudo isso condu- mou-se assim a de chefe militar e de herói.
zia, em geral, a guerras feudais que eram por Essa missão, a um tempo privada e nobre,
vezes longas e entrelaçadas com conflitos comportou uma ampliação paulatina quan-
internacionais.89:116 do as circunstâncias – mais desafogadas de
Mesmo nas épocas em que o esfacela- apreensões e perigos externos – iam permi-
mento de fato do poder real fora levado mais tindo à Europa cristã conhecer mais longos
longe, jamais se contestou o princípio períodos de paz. E por muito tempo não ces-
monárquico unitário. Jamais cessou de exis- sou de ampliar-se.89:113
tir na Idade Média uma nostalgia da unida- Nas novas circunstâncias, os homens
de régia – e até, em muitos lugares, da uni- puderam ir estendendo as suas vistas, as suas
dade imperial carolíngia, abarcativa de toda cogitações e as suas atividades a campos
a Cristandade. Assim, os reis foram recupe- gradualmente mais vastos. Constituíram-se
rando os seus meios de exercer um poder então regiões modeladas freqüentemente por
efetivamente abrangente de todo o reino, fatores locais diversos, como as caracterís-
representativo do bem comum deste; e à ticas geográficas, as necessidades militares,
medida que o recuperavam, o foram exer- os intercâmbios de interesse, o afluxo de
cendo.89:116 multidões de peregrinos a santuários com
muita atração, até em zonas distantes; como

B rentano, eu também gostaria de um es-


clarecimento. Os senhores feudais, que
eram os proprietários maiores ou menores,
ainda o afluxo de estudantes a universida-
des de grande renome, e o de comerciantes
a feiras mais reputadas.89:113
tinham a incumbência de defender seu terri- Num Estado monárquico com algo de
tório e o seu pessoal contra os diversos ini- aristocrático e algo de democrático,
migos que se apresentassem. Por isso pu- visualizado por S. Tomás, a nobreza partici-
nham em risco a própria vida, e eram os se- pa do poder real, da mesma forma que a es-
nhores da guerra. A atividade deles se limi- posa participa do poder do esposo dentro do
tava a isso? lar. Por uma ação moderadora, própria ao
instinto materno, cabia a ela fazer chegar ao
From: Brentano pai – no caso concreto, ao rei – o conheci-
O historiador Taine definiu com estas mento emocionado desta ou daquela neces-
palavras o papel da nobreza: O senhor é pro- sidade dos filhos, ou seja, dos pobres, dos
18 — As elites tradicionais promovem o autêntico progresso da nação 115

pequenos, dos desvalidos que se achavam za são obrigados a reconhecer que o verda-
no âmbito da influência benfazeja de um deiro nobre não é um extravagante que ela-
solar nobre. E cabia a ela obter também o borou por conta própria as convicções e o
remédio correspondente, dado pelo pai com estilo de vida que o caracterizam. Tudo isto
o coração tornado benévolo. Assim como à procede de uma fonte imensamente mais
mãe cabe abrir o coração dos filhos a esta alta, de uma inspiração imensamente mais
ou àquela ordem do pai, à nobreza cabia dis- universal, que é o ensinamento tradicional
por o ânimo das categorias subordinadas a da Igreja Católica.89:32 Os que discutem a
um filial acatamento dos decretos do mo- favor e contra a nobreza têm alguma noção
narca.89:248 intuitiva e difusa do que a nobreza proclama
A aristocracia, colocada entre a autori- ser, em vista da sua essência, da sua razão
dade suprema – ou seja, o monarca no seu constitutiva e da sua fidelidade à Civiliza-
sentido filosófico (mando de um) e o povo – ção Cristã.89:34
é elemento de moderação, de ponderação, Nobre é alguém que faz parte da nobre-
de continuidade e de união. Nessa perspec- za. Mas essa participação implica em que o
tiva, a monarquia sem aristocracia facilmente nobre corresponda a um determinado tipo
conduz ao absolutismo; povo sem aristocra- psicológico e moral que modela o homem
cia não é povo, é massa; a aristocracia de- todo. Por maiores que tenham sido as trans-
fende a monarquia e a modera; a aristocra- formações dessa classe ao longo dos sécu-
cia é a cabeça do povo, a sua educadora, los, ou as variedades que ela apresentou nas
orientadora das suas energias; a aristocracia nações em que existiu, a nobreza acabava
sem povo é oligarquia, ou seja, privilégio sendo sempre una. Um magnata húngaro era
odioso duma casta na sociedade.89:248 diferente de um grande de Espanha, um du-
que e par de França era diferente de um du-
From: Chateaubriand que do Reino Unido, da Itália, da Alemanha
Pelo que entendi, a nobreza era formada ou de Portugal; mas aos olhos do público
pelos proprietários de terras, maiores ou um nobre era sempre um nobre, um conde
menores, com algumas obrigações específi- sempre um conde, um barão sempre um ba-
cas em relação ao bem comum. Mas pode- rão, um fidalgo ou gentil-homem sempre fi-
se afirmar que eles cumpriram sempre exem- dalgo ou gentil-homem.89:136
plarmente essas obrigações? Quais os prin- Na Idade Média a nobreza constituía
cípios morais que orientavam a sua ação uma classe social com funções específicas
enquanto nobres? dentro do Estado, às quais estavam ligadas
determinadas honrarias, bem como encargos
From: Brentano correspondentes. No decurso dos Tempos
A sua pergunta tem todo cabimento e se Modernos esta situação foi perdendo gradu-
compreende facilmente, pois a bibliografia almente a sua consistência, relevo e colori-
contrária à nobreza é muito mais abundante do. Mesmo antes da Revolução Francesa, a
e fácil de encontrar do que a existente a fa- distinção entre nobreza e plebe era conside-
vor dela. Isto explica, pelo menos em parte, ravelmente menos marcante do que na Ida-
que os propugnadores da nobreza sejam de Média. Ao longo das revoluções iguali-
freqüentemente menos informados sobre a tárias do século XIX a situação da nobreza
matéria. Por isso mostram-se mais insegu- sofreu sucessivas mutilações.89:40
ros e tímidos do que os seus contendores.89:34 No gênero elites, a nobreza é uma espé-
Mas os adversários obstinados da nobre- cie. Há elites que o são por participarem das
116 A volta ao mundo da nobreza

funções e dos traços específicos da nobreza; From: Brentano


e outras há que desempenham funções di- Amigo Arcoverde, houve muitos casos,
versas no corpo social, mas que não deixam especialmente na América hispânica, em que
de ter por isso uma dignidade peculiar. Há chefes indígenas tornaram-se nobres, com
elites que não são nobiliárquicas nem here- direito pleno de freqüentar as cortes euro-
ditárias pela própria natureza. A condição de péias. Mas as revoluções igualitárias, que se
professor universitário, por exemplo, incor- seguiram à Revolução Francesa em quase
pora os seus titulares, em plena justiça, ao todos os países, acabaram por extinguir e
que se pode chamar a elite de uma nação. O proibir os títulos de nobreza. Hoje este é o
mesmo ocorre com a condição de militar, principal impedimento para que um grupo,
diplomata e outras congêneres.89:28 pessoa, família ou instituição com ativida-
des específicas da nobreza receba o título
From: Chesterfield correspondente.
Brentano, com base no que você afir- Vários ramos da atividade humana não
mou, parece-me que a condição de nobre não constituem hoje privilégio da nobreza. Po-
se limitava aos antigos proprietários de rém, não poucos são os membros de antigas
feudos. Havia também membros da elite que, famílias nobres que a eles se dedicam, e nin-
por algum motivo, acabavam tornando-se guém conclui que esses nobres decaem por
membros da nobreza. É isso mesmo? isso da sua condição. Pelo contrário, o exer-
cício dessas atividades dá facilmente oca-
From: Brentano sião a que o nobre marque nelas a sua atua-
É bem isso. Com o tempo, especialmen- ção com a excelência dos predicados espe-
te a partir de fins da Idade Média, ao lado da cíficos da nobreza.89:28
nobreza por excelência – guerreira, senhori- As elites que propulsionam a vida econô-
al e rural – foram-se constituindo nobrezas mica de uma nação, na indústria e no comér-
também autênticas, mas de brilho menor. cio, são de uma utilidade e importância evi-
Exemplos não faltam nos diversos países dente. Mas o objetivo imediato e específico
europeus.89:145 Ela se dividia em nobreza de dessas profissões é o enriquecimento de quem
sangue, composta por nobres de origem feu- as exerce. Enriquecendo-se a si mesmos, por
dal; aristocrática (palaciana, cortesã e pro- uma conseqüência colateral enriquecem a na-
vincial); e nobreza de toga, composta por ção. Isto não basta para dotar de algum caráter
pessoas provenientes da burguesia, que ob- de nobreza esses profissionais. É indispensá-
tiveram o título de nobreza por compra ou vel um especial devotamento ao bem comum,
por mérito.20:183 para conferir algum luzimento nobiliárquico a
uma elite. Quando as circunstâncias proporci-
From: Arcoverde onam a industriais ou comerciantes a ocasião
Brentano, é a primeira vez que participo de prestar ao bem comum serviços notáveis,
deste salão. Meu bisavô era cacique de uma com sacrifício relevante de interesses pesso-
tribo brasileira, e como tal exercia pelo menos ais legítimos, esse luzimento também refulge
algumas funções que você apresentou como em quantos tenham desenvolvido, com a cor-
sendo características da nobreza. Não sei por respondente elevação de espírito, a sua ativi-
que ninguém me considera nobre, nem vou dade comercial ou industrial.89:28
esquentar a cabeça por isso. Mas o que eu quero O exemplo de certas instituições privadas,
saber é se atualmente ainda existe a possibili- como é o caso de uma universidade, ajuda a
dade de alguém se tornar nobre. formar uma compreensão inteira do que seja o
18 — As elites tradicionais promovem o autêntico progresso da nação 117

bem comum regional ou nacional. A própria


excelência delas aproxima-as desse mesmo
bem comum, recebendo daí uma certa nobre-
B rentano, agradecemos os seus esclare-
cimentos, que nos foram muito úteis es-
pecialmente para definir com exatidão como
za, que não se confunde com a mera e aliás surgiu a nobreza e como ela historicamente
indiscutível dignidade das instituições inte- se constituiu. Uma novidade é que eu não
grantes do setor exclusivamente privado.89:106 sabia da existência entre nós de pretenden-
Há elites tradicionais fundadas, já nos seus tes a algum título de nobreza, como parece
primórdios, em capacidades e virtudes cuja dar a entender o novato Arcoverde. Mas, se
transmissibilidade é patente através da conti- de fato a dedicação ao bem comum é um
nuidade genética ou do ambiente e educação dos elementos que caracterizam a persona-
familiares. Essa transmissibilidade pode ma- lidade de um nobre, devo concluir que não
nifestar os seus efeitos, e se constituem assim estamos muito longe disso. Afinal, todos
famílias, ou até vastos conjuntos de famílias, estamos aqui procurando fatos e esclareci-
que de geração em geração se destacam pelos mentos doutrinários úteis ao estudo da no-
seus assinalados serviços ao bem comum. breza. De início a finalidade era colecioná-
Quando isso acontece, surge uma elite tradici- los para me possibilitar sair da minha enras-
onal, que associa à condição de elite o valioso cada. E o interesse dos amigos em ajudar-
predicado de ser tradicional. Muitas vezes, só me, sem ter em mira nenhuma recompensa
não se constitui como classe formalmente no- de qualquer natureza, já constitui um ato de
bre porque a legislação de vários países, influ- nobreza.
enciada pelas doutrinas da Revolução France- Vejo com prazer que o assunto está to-
sa, veda ao poder público a outorga de títulos mando proporções muito mais amplas, e
de nobreza.89:30 posso perfeitamente compreender que isso
Os ensinamentos pontifícios sobre a no- ocorra à medida que se multiplicam os exem-
breza são em larga medida aplicáveis a es- plos edificantes dos nobres. O estudo desse
sas elites tradicionais, por força da analogia assunto não pode se limitar aos poucos dias
das situações. Embora portadoras de autên- que me restam para apresentar os fatos ao
ticas e elevadas tradições familiares, não são meu professor, e já estou entrevendo a pos-
adornadas por um título de nobreza, mas in- sibilidade de prorrogarmos de algum modo
cumbe a elas, nos respectivos países, uma o nosso contato. À medida que vamos avan-
nobre missão a favor do bem comum e da çando, vou também pensar num modo de
Civilização Cristã. O mesmo se pode dizer fazer isso. Por enquanto, podemos apresen-
das elites não tradicionais, na medida em que tar uma conclusão baseada nos ensinamentos
se vão tornando tradicionais.89:30 do Brentano:

As elites tradicionais promovem


o autêntico progresso da nação
118 A volta ao mundo da nobreza

19º dia

U m ponto que me chamou a atenção on-


tem é que, segundo as informações do
Brentano, os nobres têm a missão de dedi-
From: Demaistre
O exercício da autoridade exige do seu
titular uma clara e firme noção da finalidade
car-se ao bem comum, muito mais do que às e do bem comum do grupo sobre o qual ela
suas atividades privadas. Não foi, aliás, a se exerce, bem como o lúcido conhecimen-
primeira vez que surgiram aqui referências to dos meios e técnicas de ação para conse-
ao bem comum associadas ao caráter da no- guir esse bem. É imprescindível existir um
breza. Acho que valeria a pena procurarmos consenso profundo e estável entre o deten-
fatos que mostrem essa dedicação dos no- tor do poder e os seus subordinados, sobre
bres e aristocratas ao bem comum, pois a as metas que ele tem em vista atingir e os
classe dos que encaram o bem público mais métodos que prefere. E deve haver da parte
que o próprio foi sempre chamada aristocra- dos subordinados uma séria confiança na sua
cia, a classe dos melhores, aristoi. A deno- capacidade de empregar acertadamente es-
minação é tão honrosa quanto justa, mas a ses métodos e de atingir essas metas, tudo
Revolução transformou num objeto de hor- com vistas a alcançar o bem comum.89:104 O
ror tanto a palavra como o conceito que ela bem comum não consiste no que é bom para
exprime.50:179 uma pessoa ou grupo, e sim para a generali-
Já recebi muitos fatos que ressaltam esse dade das pessoas. Como ele é de ordem mais
aspecto da nobreza, e os acrescentarei durante elevada que o mero bem de cada indivíduo,
o dia. O meu ponto de referência é sempre é também mais nobre.89:105
Maria Antonieta, e começo apresentando tre- O bem comum abrange, sem os absor-
cho de uma carta dirigida a ela pela mãe, a ver nem comprimir, todos os bens subordi-
imperatriz Maria Teresa, logo após Luís XVI nados. O fato de englobá-los traz consigo,
ascender ao trono: “As nossas monarquias pre- para o Estado, uma supremacia de missão,
cisam apenas de repouso, para pôr em ordem de poder, e portanto de intrínseca dignida-
os seus negócios. Se continuarmos estreita- de, que a palavra majestade adequadamente
mente unidos, ninguém perturbará nosso tra- exprime. O normal de uma nação é consti-
balho e a Europa permanecerá calma e feliz. tuir uma sociedade inteira e perfeita, e por-
Deves ocupar-te de coisas sérias, para que a tanto soberana e majestática, qualquer que
feliz estréia do casal real se conserve e torne a seja a sua forma de governo. Este poder
ambos felizes, fazendo ao mesmo tempo a fe- majestático é, por sua vez, supremamente
licidade do povo”.105:75 nobre. O próprio fato de ser soberano – ou
A dedicação ao bem e à felicidade do seja, supremo – confere-lhe uma nobreza
povo é uma nota distintiva da nobreza, e natural intrínseca, superior à nobreza dos
constitui mesmo sua finalidade específica. corpos intermediários entre o indivíduo e o
O novo colaborador Demaistre, estudante de Estado.89:107
sociologia, enviou-me alguns textos A função do nobre era dedicar-se aos seus
explicativos da nobreza como promotora e súditos, muitas vezes até o sacrifício. Enquan-
orientadora do bem comum. Transcrevo-os to os particulares cuidavam dos próprios inte-
a seguir. resses, por todos velava um homem que tinha
19 — Dedicar-se ao bem comum é uma atribuição da nobreza 119

por missão cuidar do bem comum, não ape- cia do embaixador e dos marinheiros ingle-
nas do seu bem individual.8:194 A verdadeira ses. Chegando a uma das janelas da frente,
fidalguia faz resplandecer nas relações sociais D. Pedro bradou:
uma humildade cheia de grandeza, uma cari- — Calma, calma, senhores! Eu sou pri-
dade livre de qualquer egoísmo, de qualquer meiro que tudo brasileiro, e como tal, mais
procura do próprio interesse.89:93 do que ninguém, estou empenhado em man-
ter ilesas a dignidade e a honra da Nação.
From: Leopoldina Assim como confio no entusiasmo do meu
Beaugeste, temos no Brasil exemplos povo, confie o povo em mim e no meu Go-
desse interesse e dedicação do monarca e dos verno, que vai proceder como as circunstân-
nobres ao bem comum, e vou enumerar so- cias requerem, mas de modo que não seja
bre isso alguns fatos. ultrajado o nome de brasileiros, do qual to-
 dos nos ufanamos. Onde sucumbirem a hon-
A preocupação do nosso imperador D. ra e a soberania da Nação, eu sucumbirei com
Pedro II com o bem comum nacional era elas. Confiem no meu Governo, e fiquem
constante. Respondendo ao conselheiro José certos de que sem honra não quero ser im-
Antonio Saraiva, ele afirmou: perador!
— O senhor sabe, melhor que ninguém, O Brasil rompeu relações diplomáticas
que eu nunca fui embaraço à vontade da com a Inglaterra e a questão foi arbitrada pelo
Nação, expressamente manifestada. rei da Bélgica, que nos deu plena razão.34:408
— Sei que o patriotismo de Vossa Ma- 
jestade é tal que atende somente ao interes- Em 1882, agravara-se estranhamente um
se da Nação, sem consultar a qualquer outra incidente com a Argentina, em torno da ques-
consideração. tão das Missões. Vozes surdas, nos dois pa-
— Agradeço a todos que pensam assim, íses, exigiam a guerra. O ex-presidente ar-
porque me fazem justiça.72:141 gentino Nicolao Avellaneda veio em missão
 diplomática ao Brasil, sendo recebido por D.
Em dezembro de 1862, o plenipotenciá- Pedro II. Ao final da conversa, o diplomata
rio inglês no Rio de Janeiro praticou uma insistiu:
série de violências, fazendo aprisionar diver- — O necessário é a paz. Não a paz des-
sos navios mercantes brasileiros. Christie confiada da Europa, mas paz sincera.
alegava para isso o fútil motivo da prisão — Leve ao seu país esta promessa mi-
em terra de alguns marinheiros ingleses nha. Enquanto eu for vivo, não consentirei
embriagados, e o não acatamento à sua re- na guerra. Necessitamos salvar meio conti-
clamação relativa a um navio inglês naufra- nente. E salvaremos.
gado nas costas do Rio Grande do Sul. Na No dia seguinte a tempestade desvane-
baía de Guanabara, os marinheiros das naus ceu-se. Bastara o encontro de dois ho-
britânicas ali fundeadas mostravam a boca mens.72:107
dos seus canhões aos passageiros das barcas 
de Niterói, com gestos insultuosos. Não po- Em 1886, ao visitar as obras do Museu
dendo conter a sua justa indignação, o povo do Ipiranga, em São Paulo, o imperador
dirigiu-se em massa ao Paço da Cidade, onde mandou a carruagem seguir pelo caminho
o imperador se achava reunido com o Con- histórico que percorrera o seu pai D. Pedro
selho de Estado. Milhares de vozes pediram I, antes de proclamar a independência. Che-
que não tardassem as represálias à insolên- gando ao local, comentou:
120 A volta ao mundo da nobreza

— Esta é a verdadeira arquitetura ade- próprio dinheiro para o resgate, e me incum-


quada a um monumento desta ordem. birei pessoalmente do resgate de todos. So-
E perguntou ao conselheiro Ramalho: mente negociarei a minha libertação junta-
— Ainda vive alguém do tempo da In- mente com a de todos os que vieram comi-
dependência? go.78:156
— Há em Campinas um velho, chama- 
do João Cintra, que fez parte da comitiva do São Luís IX retornava da cruzada, e o
augusto pai de Vossa Majestade. fundo do navio em que viajava chocou-se.
Dias depois, quando chegou a Campi- Todos temeram o naufrágio, e ele mandou
nas, foi logo indagando onde morava o ve- chamar os peritos em construção e reparo
lho Cintra, cuja casa era fora da cidade. E de navios. Perguntou-lhes se o navio pode-
seguiu para lá, acompanhado apenas de um ria prosseguir a viagem, e todos o aconse-
jornalista e do seu velho negro Rafael. En- lharam a que se transferisse para outra em-
controu João Cintra falando a meia voz, num barcação. O rei deu-lhes então uma ordem:
grupo de velhos. Depois dos cumprimentos, — Quero que me informem, em nome
perguntou: da honra, se abandonaríeis este navio se ele
— Que história estava aí contando? Con- fosse vosso.
tinue, eu também quero ouvir. Quem é ve- — Não o abandonaríamos, Majestade,
lho sempre sabe muitas histórias. pois preferimos submeter-nos ao risco de
Não sabendo o que lhe haveria de dizer, naufragar, a fim de salvar navio tão valioso.
o rude velhinho perguntou: — Por que então me aconselhastes a
— Por que é que o Senhor não se muda transferir-me para outro navio?
para cá? Será por ser carioca? — A situação não é a mesma, senhor.
— Eu não sei o que é ser carioca, Pois nenhum dinheiro pode pagar o valor da
paulista, gaúcho, mineiro ou pernambucano. vossa pessoa, da vossa esposa e dos vossos
Só sei que sou brasileiro.72:126 filhos que aqui estão. Por isso vos
desaconselhamos esse risco.
From: Joinville — Senhores, agradeço o vosso conse-
Conheço dois exemplos da vida de S. lho. No entanto a minha decisão toma em
Luís IX, que também mostram essa dedica- conta que, se eu abandonar este navio, umas
ção e até sacrifício pessoal para conseguir o quinhentas pessoas terão de permanecer em
bem comum. Chipre durante não se sabe quanto tempo.
 Prefiro colocar-me nas mãos de Deus a cau-
Quando ele foi feito prisioneiro na Terra sar tanto dano aos que estão comigo.78:160
Santa, os sarracenos exigiram um resgate
vultoso. Alguns outros cavaleiros que dis- From: Brentano
punham de bens começaram a entrar em en- Beaugeste, essa dedicação dos nobres ao
tendimentos com os inimigos para pagarem bem comum era altamente dispendiosa, ao
o próprio resgate. Quando soube disso, per- contrário do que geralmente se pensa.
cebeu que desse modo continuariam prisio- O fato de a antiga nobreza abster-se sis-
neiros aqueles que não dispunham do neces- tematicamente do comércio e da indústria é
sário para serem resgatados. Chamou então atribuído a sentimentos de vaidade e orgu-
os nobres cavaleiros e lhes disse: lho. A verdade não é essa. A nobreza foi proi-
— Deixai que eu sozinho faça essa ne- bida de exercer o comércio e a indústria a
gociação. Não quero que ninguém utilize seu pedido da burguesia, que fazia valer energi-
19 — Dedicar-se ao bem comum é uma atribuição da nobreza 121

camente seus próprios direitos e privilégios, 


ficando assim com a melhor parte. A bur- Devido à campanha que muitos nobres
guesia não queria nenhuma concorrência. faziam contra o empreendimento de Cristó-
Defendia seu monopólio, e em troca conce- vão Colombo, que resultaria no descobri-
dia à nobreza a isenção de alguns impostos, mento da América, o navegador desanima-
os graus militares e os cargos na corte. As- va, e manifestou aos amigos que pretendia
sim o Terceiro Estado detinha a parte mais afastar-se da Espanha. Estes intercederam
vantajosa, e não tinha fundamento a recla- junto à rainha Isabel, que o convocou a pa-
mação de estar excluído dos graus milita- lácio. Examinou novamente o projeto, deci-
res, dos postos diplomáticos e das altas fun- diu protegê-lo, e disse ao rei D. Fernando,
ções na corte.37:1:135 Por sua altivez e perícia que também vacilava:
no uso das armas, os nobres faziam frutifi- — Não precisais expor o tesouro do vos-
car e progredir a agricultura, por dispensa- so reino de Aragão. Tomarei a empresa sob
rem os seus trabalhadores do ônus da guer- a responsabilidade da coroa de Castela, e se
ra.37:1:122 os recursos não forem suficientes, empenha-
Excluída a nobreza de todas as carrei- rei minhas jóias para completar o necessá-
ras, a sua própria condição lhe aumentava rio.109:1
os meios de dissipar a fortuna, sem lhe ofe- 
recer os de adquiri-la. Por toda parte ela se Dona Sancha, esposa de D. Fernando I
precipitava numa pobreza extrema. 37:1:135 de Castela, empenhou ou vendeu suas jóias,
Cada campanha representava para o seu co- constituindo um exército numeroso. Com ele
mandante a venda de terras, que eram com- venceu os exércitos sarracenos e ampliou
pradas por algum camponês. É por isso que seus domínios.109:3
no início da Revolução a nobreza estava
quase arruinada, e que já havia quatro mi- From: Kaunitz
lhões de camponeses proprietários.50:181 Tenho dois exemplos da Áustria. No pri-
Nos três exemplos da Espanha, que vou meiro pode-se perceber que, embora dedi-
transcrever, pode-se notar que, até mesmo cando-se também à vida privada, um sobe-
quando defende os seus interesses pessoais rano tem a mente sempre voltada para o bem
ou de família, o nobre está defendendo o bem da nação; no outro, um ministro ignora riva-
comum e o interesse público. lidades pessoais em benefício da pátria.
 
No dia em que renunciou ao trono espa- A imperatriz Maria Teresa da Áustria en-
nhol em favor do seu filho Filipe II, o impe- viuvou com a idade de 48 anos, e muitos pen-
rador Carlos V, depois de historiar diante de saram que ela poderia casar-se novamente.
toda a corte uma vida na qual se empenhara Não faltavam pretendentes, e três dos seus
em tantas batalhas, declarou: ministros, que se julgavam candidatos natu-
— Preservei o que me pertencia por di- rais, estabeleceram entre si o pacto de tenta-
reito. Meu reinado foi uma seqüência de rem ocupar o espaço vago; e logo que um
combates, mas não os empreendi por uma deles conseguisse êxito, os outros dois desis-
ambição desordenada de comandar muitos tiriam, continuando amigos como sempre. O
reinos, e sim para defender a vós e aos vos- pacto chegou ao conhecimento da imperatriz,
sos bens. Se alguém tem o direito de quei- que depois da reunião normal do Conselho
xar-se por haver sofrido, eu vos asseguro que dirigiu o assunto de modo a poder abordar o
foi sem o meu conhecimento.28:19 que lhe interessava, e ao final declarou:
122 A volta ao mundo da nobreza

— Durante toda a minha vida, pretendo embora fosse inferior a ele na hierarquia
manter-me imune às fraquezas do coração. militar, e expôs ao cáiser os motivos da der-
Se algum dia um sentimento imperioso ame- rota, com todos os pormenores. E concluiu:
açar desviar-me desses princípios, só o ad- — Onde já se viu um general que ataca
mitirei quando se tratar de um homem o inimigo exatamente no ponto mais forte?
desvinculado de toda ambição, distante dos O cáiser ficou tão impressionado com
assuntos de Estado e inteiramente voltado os argumentos, que nomeou Hindenburg
às doçuras da vida privada. Mas se isso vier chefe supremo do exército, apesar da sua
a ocorrer em relação a um homem investido antipatia pessoal.32:7261
de cargo importante, ele perderá seu lugar e
seu crédito no momento mesmo em que esse From: Richelieu
sentimento se explicitar. Beaugeste, o conceito da unidade
Os três continuaram amigos, mas a re- monárquica não é o de unanimidade políti-
núncia às suas pretensões foi imediata.15:146 ca, é o da harmonia do conjunto nacional.9:50
 Vou dar-lhe dois exemplos a propósito do
O ministro Kaunitz propôs à imperatriz grande homem de Estado que serviu de ins-
Maria Teresa o nome de um seu inimigo pes- piração para o meu pseudônimo.
soal para ocupar o cargo de ministro da Guer- 
ra. A imperatriz demonstrou surpresa, e ele Em visita à França, diante da grande es-
explicou: tátua em homenagem a Richelieu, o czar
— É meu inimigo, mas amigo do Esta- Pedro o Grande se entusiasmou, subiu ao
do.32:7667 pedestal e abraçou a estátua. E disse, diri-
gindo-se ao cardeal representado no monu-
From: Clausewitz mento:
Beaugeste, dentro da minha especialida- — Grande ministro, eu te daria a meta-
de, que é o assunto guerra, há muitos exem- de do meu império, se me ensinasses a go-
plos que comprovam essa dedicação dos no- vernar a outra.
bres ao bem comum. Já li fatos relativos à Um nobre ali presente, que não compar-
guerra, nos dias anteriores, o que não espan- tilhava essa admiração pelo ambicioso mi-
ta, pois a guerra era uma responsabilidade dos nistro, comentou:
nobres, enquanto os outros cuidavam dos pró- — Se ele tivesse dado essa metade, logo
prios interesses. Quando entrava em cena o estaria sem a outra metade para gover-
bem comum, o soberano não levava em con- nar.58:3:318
sideração as preferências pessoais, e sim a Esse comentário de um invejoso não in-
competência dos seus auxiliares para obte- valida o gesto de abnegação do czar. Ele só
rem êxito na sua missão. Semelhante ao exem- fez explicitar seu principal objetivo, que era
plo aí do Kaunitz, conheço um do cáiser. governar bem o país.
 
Guilherme II tinha antipatia pelo gene- Quanto a Richelieu, ele tinha também em
ral Hindenburg, a qual aumentava depois de vista o bem da França. No seu leito de mor-
cada vitória que ele conseguia. Sendo o ma- te, recebeu a visita do vigário de Santo
rechal Falkenhein derrotado em Verdun, cha- Eustáquio, que veio ministrar-lhe a extrema-
mou-o para uma audiência juntamente com unção, e recomendou ao sacerdote:
Hindenburg. Quando o marechal quis tomar — Tratai-me como ao último dos vos-
a palavra, Hindenburg mandou-o calar-se, sos paroquianos.
19 — Dedicar-se ao bem comum é uma atribuição da nobreza 123

O sacerdote orientou o poderoso cardeal: quando se tem verdadeiro amor ao próximo


— É preciso perdoar aos vossos inimi- e se deseja razoavelmente o bem e o provei-
gos. to de todos.89:73
— Meus únicos inimigos foram os ini- Os que dispõem de mais tempo e de mei-
migos da França.51:106 os mais abundantes devem ser os mais assídu-
os e mais solícitos em servir. Esses meios não

O Demaistre ofereceu ainda outros co-


mentários interessantes:
são somente as riquezas, mas todos os dotes
de inteligência, cultura, educação, conheci-
mento, autoridade. Dons que não são conce-
Sendo o trono vitalício e hereditário, o rei didos a alguns privilegiados da sorte para a
paira naturalmente acima das injunções dos sua exclusiva vantagem, ou para criar uma ir-
interesses políticos ou particulares de qualquer remediável desigualdade entre irmãos, mas
ordem, e seu interesse pessoal se confunde para o bem de toda a comunidade social. Em
inteiramente com o da nação. Assim, não ca- tudo o que for serviço do próximo, da socie-
bem desconfianças em relação aos intuitos que dade, da Igreja, de Deus, os nobres devem ser
o movam no exercício da suprema magistra- sempre os primeiros. Nisto consiste o verda-
tura do país.8:53 Para o rei, governar bem está deiro ponto de honra, e com ele se compreen-
de acordo até com o seu egoísmo, pois a sua de a mais nobre precedência.89:89
vida privada e a sua vida pública não seguem Com os encargos impostos à nobreza pe-
caminhos divergentes. O rei e a nação existem las novas condições dos tempos, a operosidade
um para o outro, e juntos salvam-se ou per- teria sido o título mais sólido e digno para as-
dem-se. E assim, mesmo sem o querer, realiza segurar aos nobres a permanência entre os di-
o bem público até quando procura o bem par- rigentes da sociedade. As desigualdades soci-
ticular. Esta é a base mais sólida e segura para ais, ao mesmo tempo que davam realce à no-
um bom governo. Sendo inteligente, sábio, breza, prescreviam-lhe deveres específicos
idealista, abnegado, por acréscimo o príncipe para o serviço do bem comum. Das classes
fará grandes bens. No pior dos casos, ainda mais elevadas podiam descer para o povo gran-
que seja unicamente egoísta, não fará grandes des vantagens ou graves danos.89:60
males.64:88 O povo era a classe votada de modo par-
ticular ao trabalho produtivo. Eram privilé-

O Camerlengo, que se dedica ao estudo


de documentos pontifícios, confirma
também que a dedicação ao bem comum era a
gios seus ter na guerra uma participação
muito menor do que a da nobreza, e tinha
quase sempre a exclusividade no exercício
norma entre as pessoas que assumiam respon- das profissões mais rendosas, como o co-
sabilidades. E os resultados foram excelentes, mércio e a indústria. Os seus membros não
como se conclui do texto que ele enviou. tinham normalmente para com o Estado
qualquer obrigação especial. Trabalhavam
A sociedade humana deveria ser seme- para o bem comum apenas na medida em
lhante a uma máquina bem ordenada, cujas que cada qual favorecia os seus legítimos
partes concorrem todas para um funciona- interesses pessoais e familiares.89:58
mento harmônico conjunto. Cada qual tem
a sua função, cada qual deve empenhar-se
num maior progresso do organismo social.
Deve-se procurar o aperfeiçoamento, de
O acanhamento de horizontes, que
corresponde ao contrário dos requisi-
tos para se ascender à condição de nobre,
acordo com as próprias forças e virtudes, fica muito bem definido nesta frase: Quan-
124 A volta ao mundo da nobreza

do um dedo aponta para a lua, os tolos olham trouxesse vantagem. Sinceramente, eu sou
para o dedo.101 Veja o exemplo seguinte. vil, profundamente vil, e vos dou a minha
 palavra de honra de que não hesitarei em
Durante o período de Terror da Revolu- cometer o que o mundo qualifica de ação
ção Francesa, um habitante do interior da indigna.32:10401
França foi visitado por um amigo vindo de 
Paris, e perguntou-lhe: O exemplo seguinte confirma bem o que
— Como estão as coisas por lá? ele disse. Quando conquistou e ocupou uma
— É terrível! Estão cortando cabeças aos cidade austríaca, o clero implorou-lhe que
milhares. tomasse sob sua proteção as estátuas dos
— Pobre de mim! O que vai ser da mi- doze apóstolos, padroeiros da matriz.
nha profissão de chapeleiro?!30:2064 — Elas são de madeira?
— Não, são de prata.
Este fato – que, aliás, não envolve pro- — De prata?! Então vou fazer melhor
cedimento de um nobre – caberia muito do que protegê-las. Cristo mandou que os
bem como colaboração do Contrappunto, apóstolos andassem pelo mundo inteiro. E
cujos relatos se referem a gente fazendo o eu os farei andar.
que não devia. Os dois últimos que recebi No dia seguinte, mandou remover as es-
dele sobre Napoleão – a quem considera seu tátuas e fundi-las, transformando-as em
inimigo pessoal, como tudo me faz crer – moedas.32:10188
falam por si. 
 Um exemplo de Cromwell é também
Depois da derrota de Leipzig, Napoleão muito significativo. Ele estava no seu leito
voltou a Paris e mandou chamar Talleyrand, de morte, e dizia aos que iam visitá-lo:
que lhe perguntou: — Não temam, pois não morrerei. Deus
— Vossa Majestade não tinha rompido me fez saber que ainda não chegou a minha
relações comigo? Por que mandou chamar- hora.
me? A um amigo íntimo, explicou:
— O passado é passado. Vejamos o que — Se eu não morrer, passarei por profe-
fazer no presente. ta. E se morrer, que me importa que me to-
— Parece-me que Vossa Majestade deve mem como impostor?32:3707
conseguir um pretexto para chamar de volta
as tropas francesas da Espanha. Ainda sois
suficientemente forte para esse ato não ser
atribuído a uma vilania.
O s exemplos e comentários de hoje mos-
tram o que significa dedicar-se ao bem
comum, o que não tem nada a ver com a
— Uma vilania?! E que me importa isso? atuação das aves de rapina que vemos a toda
Não temeria cometer uma vilania, se me hora. E ficou claro também que

Dedicar-se ao bem comum


é uma atribuição da nobreza
125

20º dia

From: Escovedo resignaram a tratá-la como rainha, apesar de


Beaugeste, hoje eu descobri uma infor- o fazer a própria rainha inglesa. Lilino achou
mação curiosa. Todos conhecem a expres- um meio espirituoso de vingar-se. Durante
são sangue azul, para designar que uma pes- um banquete, a certa altura afirmou:
soa é nobre. Eu achava que o motivo seria o — No entanto, corre nas minhas veias
pequeno número de pessoas nessa condição, sangue de um nobre inglês.
o que significaria ser ela tão rara como o — Algum casamento desigual?
sangue azul. Acontece que o sangue huma- — Não é bem isso. Na segunda vez que
no de cor azul não é propriamente raro, mas o vosso célebre explorador James Cook
de fato não existe. A explicação que encon- aportou na nossa ilha, quem o comeu foi um
trei, e que parece pelo menos verossímil, meu bisavô.32:14892
afirma que é originária da Espanha. Após a
invasão da Península Ibérica pelos árabes,
de pele escura, começaram os casamentos
mistos entre as pessoas de baixa condição
I sto nos conduz a um assunto importante e
mal conhecido, que gera muitas idéias fal-
sas a respeito da nobreza. Trata-se de defi-
social, nascendo descendentes com pele de nir o que é necessário para uma pessoa ou
cor intermediária. Veias como as do dorso família atingir a condição de nobre. Em pri-
das mãos de pessoas de cor branca, vistas meiro lugar, devemos deixar claro que a no-
através da pele, adquirem uma coloração breza não constitui uma casta, como existia
azulada; mas, nos que têm a pele escura, a em certos povos pagãos antigos, à qual ne-
cor azul é encoberta pela cor escura da pele. nhuma pessoa podia ascender. Pelo contrá-
Por isso a expressão de sangue azul passou rio, havia uma grande permeabilidade, de tal
a designar as pessoas que não se modo que os inferiores podiam subir, como
miscigenaram, praticamente limitadas à no- também os nobres podiam perder essa con-
breza.109:2247 dição. Os costumes regulavam a subida e a
descida; e não bastava, por exemplo, a pes-

R ealmente interessante a explicação do


Escovedo. Aliás, deve-se também
acrescentar que a cor da pele não é fator de-
soa declarar-se nobre para de fato ser nobre.
O primeiro requisito era um reconhecimen-
to mais ou menos unânime entre os amigos
cisivo para uma pessoa ser considerada no- e conhecidos, além de ser acatada e reco-
bre. Conhecemos casos de chefes indígenas nhecida como igual pelos nobres, e depois
sul-americanos ou de outras procedências ser referendada essa condição pelo sobera-
que tinham direito ao tratamento como no- no, ao qual cabia o direito de confirmar ou
bres nas cortes da Europa. Vou transcrever não. Isso podia fazer-se com base em feitos
um exemplo enviado pelo Chesterfield, no pessoais importantes, em uma longa tradi-
qual isso fica claro. ção de serviços prestados ao bem comum,
 em qualidades eminentes dentro de um ramo
A jovem rainha Lilino Kalani, do Havaí, de atividades, etc.
foi visitar a rainha Vitória em Londres. Como A aristocracia fundiária era recrutada
ela era uma nativa, as damas da corte não se continuamente entre as famílias que se dis-
126 A volta ao mundo da nobreza

tinguiam por meio de longas tradições de tra- de poucos oficiais. Pretendia almoçar em
balho e de virtudes, até atingir a generosidade casa do prefeito, que no entanto estava au-
de alma que faz a nobreza. Como a única fon- sente. A esposa deste, um tanto perturbada,
te de riqueza era a cultura, toda família rica só confidenciou-lhe:
o era por ter enobrecido seus sentimentos, atra- — Senhor, em toda a cidade só encon-
vés de longa prática das virtudes familiares, e trei um peru para vos servir, mas o dono dele
daí elas poderem ser nobilitadas. Tratava-se é um artesão que só consente em cedê-lo se
de uma família antiga, respeitável, uma boa puder comer a sua parte.
família, segundo a terminologia de então. Para — Ora, madame, que ele venha então.
tanto ela tivera de educar cada vez melhor uma Logo depois chegou o artesão endomin-
longa série de gerações, sem que houvesse fa- gado, com o seu peru, e começou a divertir
lha em nenhum dos elos da corrente, porque o rei e os oficiais contando os casinhos pito-
então seria necessário recomeçar tudo. Os sé- rescos da sociedade local. Era muito bom
culos vinham pousar como florões sobre a conversador, e prosseguiu agradando a to-
coroa, e era a mão do tempo que avançava para dos durante o almoço. Quando os comen-
consagrá-la.50 sais se levantaram, ele também o fez, ajoe-
 lhou-se depois diante do rei, e disse:
O magistrado Jeannin foi enviado como — Perdão, Majestade, mas este dia é o
embaixador à corte espanhola. Os grandes mais belo da minha vida. Combati ao vosso
de Espanha não gostaram de receber um lado em Arques e pretendia divertir-vos um
embaixador sem título de nobreza, e duran- pouco. Mas se eu declarasse que vos reco-
te a audiência o rei lhe perguntou: nheci, não me seria possível fazê-lo como
— Senhor embaixador, sois de família fiz. A glória do meu rei me é muito cara, e
nobre? lamento que venha a ser empanada por ter
— Sem dúvida, Majestade, consideran- Vossa Majestade permanecido à mesa com
do-se que Adão era nobre. um plebeu como eu. Só vejo um meio de
— De quem sois filho? evitar que isso aconteça.
— Das minhas ações. — E que meio é esse?
As respostas agradaram ao rei, que pas- — Que eu deixe de ser plebeu, e nesse
sou a tratá-lo com toda a deferência.32:7581 caso Vossa Majestade me concederia cartas
 de nobreza.
Satisfeito com o trabalho de Le Nôtre — A ti?!
nos jardins de Versalhes, em 1675 Luís XIV — Por que não, Majestade? Embora ar-
concedeu-lhe cartas de nobreza e o cordão tesão, sou francês e tenho um coração que
de São Miguel. Quando se tratou de esco- vos é dedicado como qualquer outro.
lher o escudo, o genial paisagista disse: — Muito bem, amigo. Mas qual será o
— Majestade, já tenho minhas armas, teu brasão?
que são três escadas em caracol coroadas por — O meu peru. Ele me possibilitou uma
um repolho. Mas não posso agora esquecer grande honra neste dia.
a minha estimada enxada, pois a ela devo — Está bem, seu velhaco. Será um peru
todas as bondades com que Vossa Majesta- num espeto.27:1:152
de me honra.58:2:286 
 O duque d’Aumont era preguiçoso. O
Para a batalha de Ivry, Henrique IV via- marechal de Richelieu, vendo-o barbado,
jou incógnito para Alençon, acompanhado recomendou:
20 — A nobilitação era baseada em méritos pessoais e de família 127

— Meu caro d’Aumont, Deus te fez no- 


bre, o rei te fez duque e par de França, a Na cidade de Ponta Grossa, por ocasião
duquesa de Orleans te fez cordon bleu, eu de sua viagem ao Paraná, foi D. Pedro II re-
te fiz cavaleiro da Ordem de São Luís. Vê cebido por um cidadão que o cativou por sua
se fazes alguma coisa por ti mesmo: ao me- hospedagem fidalga, embora despida das
nos a barba.32:12181 exigências protocolares. Após o almoço, no
dia da partida, o anfitrião disse:

D e modo geral, os critérios para a no-


bilitação de uma pessoa pelo monarca
eram rigorosos, pesando a favor os méritos e
— Senhor Imperador, eu podia ter feito
mais alguma coisa. Podia ter matado mais
uma vitela, mais um peru, mas preferi assi-
ações pessoais em prol do bem comum. E ha- nalar por outro modo a vossa passagem por
via também nobres cujo procedimento era in- esta terra e a honra de vir a esta vossa casa.
suficiente para manter os títulos que herdaram. Libertei todos os meus escravos, que são
 mais de setenta, e peço a Vossa Majestade o
Quando o general Chevert ainda estava nos favor de lhes entregar as cartas de alforria.
primeiros degraus da hierarquia militar, seus Essas palavras tão simples quanto elo-
parentes nobres não lhe davam importância. qüentes emocionaram profundamente o
Depois que se tornou general, no entanto, a monarca, que agradeceu o gesto de beneme-
situação mudou, e até pessoas que não tinham rência do digno paranaense. Por ocasião das
com ele nenhum grau de parentesco procura- graças, o ministro levou ao imperador o de-
vam apresentar-se como sendo da família. Um creto fazendo-o oficial da Ordem da Rosa.
desses o procurou, e quando se apresentou Ao lhe ser apresentado o decreto para assi-
como parente, o general lhe perguntou: nar, disse ao ministro do Império:
— O senhor então é nobre? — Isto é pouco para esse benemérito.
— Claro! Sou da mais antiga nobreza. Faça-o barão!
— Bem, nesse caso não podemos ser — Mas, Majestade, ele é quase analfa-
parentes, pois sou plebeu de nascimento. Sou beto!
o primeiro e único aristocrata da família.32:3021 — Não será o primeiro. E este é muito
 digno. Mande-me o decreto fazendo-o Ba-
O general Chevert teve uma forte dis- rão dos Campos Gerais.34:407
cussão com o duque de Lorge, que não esta- 
va com a razão do seu lado e quis valer-se Em Capão d’Anta, no Paraná, foi adqui-
da sua condição de nobre: rida pelo Ministério da Agricultura uma
— Parece-me, general, que o senhor es- gleba para a instalação de colonos russo-ale-
quece a grande distância que há entre nós. mães, vindos do Volga. As terras eram im-
— Nada disso, senhor duque! E vos di- próprias para qualquer cultura, e haviam sido
rei que julgo conhecer melhor do que vós vendidas por um potentado político local. De
em que consiste essa distância: se eu tivesse tal qualidade eram as terras, que foram aban-
nascido duque, seria hoje marechal de Fran- donadas em poucos dias pelos próprios co-
ça; e se tivésseis nascido plebeu como eu, lonos, que passaram a mendigar pelas estra-
ainda seríeis barbeiro do regimento.32:3032 das. A notícia chegou à corte, causando a
mais penosa impressão ao monarca. Por de-

T emos no Brasil muitos exemplos de


nobilitação, entre os quais estes de D.
Pedro II, enviados pela Leopoldina.
sejo expresso de D. Pedro II, toda a comiti-
va em visita ao Paraná foi com ele ao local.
Na presença do próprio vendedor, mandou
128 A volta ao mundo da nobreza

um soldado revolver a terra com a espada, e — Não, mas se disserdes que descendeis
disse: de Catão (outro nome semelhante, de côn-
— Isto não dá nem capim. Isto é casca- sul romano conhecido por sua honestidade
lho, não é terra. No Volga esses pobres ho- e austeridade), ninguém ousará pô-lo em
mens tinham terras muito melhores. Não dúvida.32:2714
precisavam vir para tão longe. 
Um dos amigos do vendedor ousou re- Havia na região francesa de Auvergne
torquir: uma família Pinon, de lenhadores que
— Foram os próprios colonos que pedi- comprovadamente descendiam de lenhado-
ram estas terras. Muita gente os aconselhou res da época de Carlos Magno.33:1:82 Eram
a que não viessem para cá, mas eles insisti- muito respeitados, e o próprio Luís XIV
ram. mandava cumprimentos ao chefe da família
— Quem os aconselhou? Quem? no dia do aniversário. Quando pretendeu
— Gente do povo. conceder-lhe um título de nobreza, o rei
— O povo não fala alemão nem russo, e mandou consultá-lo, e obteve a resposta al-
conselho não se dá por intérpretes. tiva:
De volta à corte, ainda fez sentir o pro- — Agradeço a Sua Majestade, mas pre-
fundo descontentamento, na medida das suas firo ser o primeiro lenhador da França a tor-
limitações constitucionais. Como era de pra- nar-me o último dos seus barões.14
xe, o Ministério levava para a assinatura do
monarca as graças concedidas aos que mais
benefícios haviam prestado durante a via-
gem imperial. Ao ser apresentado um decre-
E m alguns países, como a vontade do so-
berano era lei, havia casos de nobilitação
bastante forçados e sem nenhuma base no
to transformando em barão o tal vendedor mérito. Eis alguns, contados pelo Orloff.
das terras, D. Pedro decidiu: 
— Vamos reformar isto. Não quero dar O czar Paulo I, para deixar Rostopchine
nenhum título a esse senhor. Prefiro agraci- embaraçado, perguntou:
ar a mãe dele. — Como é isso, Rostopchine? Os vos-
— Já é baronesa. sos antepassados não se fizeram nobres?
— Pois faço-a viscondessa. Mande-me — Majestade, o problema é que eles vi-
o decreto para que eu assine. Faço-o com eram da Tartária para Moscou no inverno.
prazer. Ao filho é que não.72:38 — E onde entra a estação nessa histó-
ria?

H á também casos de pessoas que recu-


sam o título de nobreza que lhes é ofe-
recido.
— Quando um senhor tártaro compare-
cia à corte pela primeira vez, o soberano pro-
curava agradá-lo, dando a possibilidade de
 escolher entre um casaco de peles e o título
O rei desejava conceder ao marechal de nobreza. Estava muito frio, e o meu
Catinat o cordon bleu, distintivo de nobreza, antepassado escolheu o casaco de pe-
mas ele recusou. La Rochefoucault insistia para les.32:12704
que o aceitasse, e ele argumentou: 
— Não sou nobre nem tenho antepassa- O czar Paulo I gostava de uma boa de-
dos ilustres. De quem quereis que eu me faça monstração de espírito. Havia rotulado como
descender? De Catilina, por causa da seme- regimento do “não sei” um grupo de solda-
lhança de nomes? dos aos quais costumava fazer perguntas
20 — A nobilitação era baseada em méritos pessoais e de família 129

estranhas, para as quais eles não consegui- der alguns esclarecimentos que me foram en-
am dar respostas. Encontrando um dos ofi- viados pelo Delassus.
ciais desse regimento, perguntou:
— O senhor é do regimento do “não A classe nobre formou-se como uma
sei”? participação subordinada no poder real. Es-
— Perdão, Majestade! Eu sei tudo. tava a cargo dela o bem comum de ordem
— Então diga-me: quantos pregos foram privada, que era a conservação e o incremen-
utilizados para pregar as tábuas da ponte de to da agricultura e da pecuária, das quais vi-
São Petersburgo? viam tanto nobres quanto plebeus. E tam-
— 53 977 112. bém estava a cargo dela o bem comum de
— Não está mal! E quantos peixes há ordem pública – decorrente da representa-
no Nieva, daqui até Cronstadt? ção do rei na zona – mais elevado, de natu-
— 642 801 432 379. reza mais universal, e por isso intrinsecamen-
— Tem certeza? te nobre. Por fim, tinha a nobreza alguma
— Se não tivesse, não o diria a Vossa participação no exercício do próprio poder
Majestade. Para conferir, é só contar. central do monarca, pois os nobres de cate-
— Muito bem! Estou satisfeito. Meus goria mais elevada eram, em vários casos,
oficiais devem saber tudo. conselheiros normais dos reis.89:113
— Vossa Majestade permite que eu faça A nobreza é uma classe que tem seu lu-
uma pergunta? gar marcado no governo do país. É o con-
— Pode fazer. junto das famílias cuja elevação de sentimen-
— O czar também sabe tudo? tos, e cuja situação adquirida por méritos
— Evidentemente. Pergunte o que qui- duradouros, são reconhecidos publicamen-
ser. te pela autoridade soberana que, contando
— Vossa Majestade quer se dignar dizer com o seu devotamento, utiliza-as no servi-
qual o meu nome? ço gratuito do país. Tal investidura é a
— Conde Balovski. nobilitação ou enobrecimento.50:180
— E qual é o meu posto? Se bem que a nobreza fosse o patrimônio
— Capitão da minha guarda. de algumas famílias, ela era o objetivo e o
— Obrigado, Senhor!81:237 termo dos esforços das famílias, que devi-
 am todas tender a enobrecer-se, isto é, a pas-
O marechal Suvaroff andava pelos cor- sar da condição privada à condição pública.
redores do palácio real com o conde Pois é razoável e até cristão passar de um
Kutaisov, um ex-servo que o czar decidira estado em que alguém só se ocupa em tra-
tornar nobre. Parou para cumprimentar e tro- balhar para si a um estado em que, desem-
car umas palavras com um servidor que en- baraçado dos esforços para adquirir uma for-
contraram. O conde manifestou-lhe depois tuna, que já se supõe constituída, o homem
a sua estranheza, e ele alfinetou: está destinado a servir aos outros servindo
— De fato ele é apenas um servidor, mas ao Estado.50:178
a benevolência do czar pode transformá-lo Taine afirmou que, graças à sua fortuna
em conde, por isso é bom tê-lo desde já como e à sua posição, o homem dessa classe está
amigo.32:13893 acima das necessidades e das tentações vul-
gares. Para fazer seu caminho, ele pode ser-

T endo em vista os exemplos que vimos,


parece-me agora mais fácil compreen-
vir gratuitamente, não precisa preocupar-se
com dinheiro para prover à família. Pode
130 A volta ao mundo da nobreza

seguir suas próprias convicções, resistir à conjunção de circunstâncias, uma mesma


opinião ruidosa e malsã, ser o servidor leal, linhagem de uma família não nobre pode
e não o adulador do público.50:183 exercer, ao longo de várias gerações, algu-
Nobres eram, na maior parte, os minis- ma destas atividades. Este próprio fato bem
tros de Estado, os embaixadores e os gene- pode ser tido como suficiente para elevar tal
rais, cargos indispensáveis para o exercício linhagem à condição de nobre.89:28
do governo supremo do país. O nexo entre Algo disso passou-se com a nobreza ve-
as altas funções públicas e a condição neziana, constituída habitualmente de comer-
nobiliárquica era tal que, mesmo quando ao ciantes. Como esta classe exerceu o gover-
bem comum convinha que pessoas da plebe no da Sereníssima República, e assim teve
fossem promovidas a essas funções, geral- em mãos o próprio bem comum daquele
mente acabavam por receber do rei títulos Estado e o elevou à condição de potência
nobiliárquicos que as elevavam à condição internacional, não causa surpresa que tais
de nobres, e muitas vezes também aos seus comerciantes tenham ascendido à condição
descendentes.89:113 de nobres. E isto de maneira tão efetiva e
Pode-se dizer que a nobreza continuou autêntica, que assumiram todo o alto tônus
a ser recrutada pelo exército, e que hoje em de cultura e maneiras da melhor nobreza
dia a grande maioria dos oficiais, mesmo sem militar e feudal.89:28
ter título, fazem parte da nobreza. Cada vez A partir do século XV, o enobrecimento
mais, algumas famílias se especializaram na pelo rei vinha constantemente dar coragem
profissão militar. No Antigo Regime, todas e esperança às classes intermediárias de atin-
essas famílias de há muito teriam sido gir a condição de nobres, por praticarem
nobilitadas, pois quatro gerações de oficiais ações virtuosas e árduas. Essa esperança faz
conferiam a nobreza de ofício, e quase sem- com que cada um se contente com sua situ-
pre o enobrecimento se produzia antes da ação e não procure conspirar contra os ou-
quarta geração, por feitos de guerra.50:181 tros, pois sabe que por meios honestos e lí-
Sendo a aristocracia elemento necessá- citos pode atingir tal posição, e se arriscaria
rio de uma sociedade bem constituída, pare- se quisesse atingi-la por outros meios. A fa-
ce natural, como princípio prático, que se cilidade para isso é tanta, que se vêem diari-
salvem as aristocracias históricas, as quais amente numerosas pessoas do povo subir por
normalmente conservam grandes virtudes; degraus até à nobreza.50:181
e que ao mesmo tempo se criem outras aris- Em Portugal a condição de intelectual abria
tocracias.89:250 as portas para a categoria nobre. Era nobre a
Quando o rei nobilita burgueses enrique- título pessoal e vitalício, se bem que não here-
cidos ou funcionários, o faz sempre enquanto ditário, todo aquele que se formava em Teolo-
senhores de alguma localidade, indicando gia, Filosofia, Direito, Medicina ou Matemá-
desse modo que a nobreza é uma função so- ticas na famosa Universidade de Coimbra. Mas
cial exercida em relação a um grupo deter- se, de pai a filho, três gerações de uma mesma
minado de habitantes do reino.50:182 família se diplomavam em Coimbra nessas
A meta imediata e específica da indús- matérias, passavam a ser nobres por via here-
tria e comércio é o enriquecimento de quem ditária todos os seus descendentes, ainda que
as exerce. Isto não basta para dotar esses estes não viessem a cursar, por sua vez, a refe-
profissionais de algum caráter de nobreza, rida Universidade.89:145
para o que é indispensável um especial É legítimo que no âmbito de alguns gru-
devotamento ao bem comum. Numa feliz pos se forme uma elite para-nobiliárquica,
20 — A nobilitação era baseada em méritos pessoais e de família 131

uma linhagem preponderante para-dinásti- soa ou família adquirir a condição de nobre.


ca, etc, fato que contribui também para dar Já recebi outros exemplos de nobilitação por
origem, nas sub-regiões e regiões rurais, à motivos diversos, e proponho que na reu-
formação de “dinastias” locais, de algum nião de amanhã eles sejam relatados para
modo análogas à família dotada de majesta- conhecimento de todos. Outros fatos que
de régia.89:110 surjam dentro deste mesmo tema poderão ser
incluídos, tanto no período on line quanto

N ossa reunião de hoje contribuiu para en-


tendermos os critérios para uma pes-
fora dele. Como fecho da reunião de hoje,
parece-me podermos afirmar que

A nobilitação era baseada


em méritos pessoais e de família
132 A volta ao mundo da nobreza

21º dia


C aros amigos, como vocês já sabem, o
nosso colaborador Clausewitz especia-
lizou-se no assunto guerra, e já me enviou
Com a vitória no Franche-Conté, o gran-
de Condé reconquistou as boas graças de
vários fatos dentro da sua especialidade. Uma Luís XIV, que perdera por ocasião da Fronda.
das vias para que alguém subisse à condição Em conversa com o duque d’Enghien, o rei
de nobre ou a merecesse eram os feitos mili- disse:
tares importantes ou decisivos, comprovan- — Sempre estimei o vosso pai, sem o
do seu heroísmo e sua dedicação em defesa amar. Mas agora eu o amo e estimo com
da pátria. Transcrevo alguns fatos que tive- confiança.58:1:36
ram essa característica, e peço-lhes que acres- 
centem sobre o assunto outros que conheçam. Um nobre que levara vida irregular na
 juventude estava ansioso por restabelecer a
O marechal de Biron se destacou no cer- confiança de Luís XIV. Na batalha de Mons,
co de Arras. Quando voltou a Paris, Henrique lutou bravamente ao lado do rei, que depois
IV lhe fez uma imponente recepção e o apre- lhe disse:
sentou à corte: — O senhor não estava contente comi-
— Senhores, este é o marechal de Biron, go, nem eu com o senhor. Esqueçamos o
que apresento com prazer aos meus amigos passado, e comecemos a partir de
e aos meus inimigos.27:1:36 Mons.27:2:178
 
Quando se preparava para viajar a Lyon Wifredo era vassalo do rei Carlos o Cal-
a fim de encontrar-se com Maria de Medici, vo, da França. Em 898, numa batalha em que
o rei Henrique IV pôs afetuosamente a mão o rei se encontrava em situação desespera-
sobre o ombro de Crillon, diante da corte dora, Wifredo avançou com seus cavaleiros
reunida, e disse: catalães contra o inimigo normando. Empe-
— Eis aqui, senhores, o primeiro capi- nhou-se com tanto ardor, que a batalha mu-
tão do mundo. dou de feição, levando os francos à vitória.
— Sire – replicou Crillon – eu seria o Wifredo foi ferido em combate e removido
segundo, pois o primeiro é Vossa Majesta- para uma tenda, onde foi visitá-lo o rei agra-
de.109:1120 decido, que o abraçou e lhe prometeu
 recompensá-lo com tudo o que desejasse. O
O marechal de Créqui foi derrotado na vassalo apenas pediu que lhe fosse outorga-
batalha de Consarbrück, e o príncipe de da uma insígnia. O rei molhou os quatro
Condé se empenhou em defendê-lo diante dedos da mão no sangue que ainda manava
de Luís XIV: da ferida, aplicou-os sobre o escudo de
— Majestade, acabais de conquistar um Wifredo e os fez descer de cima até embai-
dos maiores chefes militares que tenham xo, formando quatro faixas vermelhas. E
existido. Para atingir essa posição, só fal- disse:
tava ao marechal de Créqui perder uma ba- — Divisa que com sangue se ganha, com
talha.32:3337 sangue deve estar escrita.
21 — Os reis recompensam os súditos reconhecendo-lhes os méritos 133

Esta é a origem das armas da Cata- 


lunha.109:18 Aos dez anos de idade, D. João d’Áustria
era conhecido como Jerônimo, e ainda não

Q uando um monarca reconhece os méri-


tos de um súdito ou servidor, procura
homenageá-lo de alguma forma, conceden-
sabia que era filho do imperador Carlos V.
Comparecendo ante o pai no seu leito de
morte, este o segurou pelos ombros e per-
do-lhe títulos, honrarias ou até simples elo- guntou:
gios ou agradecimentos. Vejamos a este pro- — Então, Jerônimo, o que pretendes ser
pósito alguns fatos. quando cresceres?
 — Pretendo servir a Vossa Majestade,
Catarina se tornara esposa do czar Pedro como fez D. Luís, meu protetor.
o Grande, mas o irmão dela desconheceu o Voltando-se para D. Luís de Quijada, o
fato durante muito tempo. Quando soube, imperador disse:
compareceu ao palácio, onde identificou-se — Eis um discípulo que soube aprovei-
como um cavaleiro da Livônia, e foi recebi- tar bem as vossas lições, D. Luís. Eu vos
do por ela em companhia do czar. Ela o re- agradeço, e tendes direito ao meu reconhe-
conheceu e apresentou-o ao soberano sem cimento.28:42
ocultar sua emoção, mas este comentou: 
— Não vejo aí nada de extraordinário. Roger, autor da comédia O advogado,
Este cavaleiro é meu cunhado, e se tiver al- foi nomeado membro da Academia France-
gum mérito, pode-se fazer alguma coisa; se sa em 1817. Quando foi apresentado a Luís
não tiver, não se fará nada.27:2:183 XVIII, este comentou:
 — A sua nomeação foi defendida por um
Luís XIV passeava nos jardins de bom advogado.27:2:111
Versalhes com o arquiteto Mansard e o pai- 
sagista Le Nôtre, e elogiou uma obra em que O rei Luís XI ganhou dez mil escudos
ambos se esmeraram: de ouro, e disse aos cortesãos:
— É necessário reconhecer que — Não quero este dinheiro, e o darei
rivalizastes em acertos, pois tudo isto é ad- àquele de vós que me tiver prestado melho-
mirável. res serviços.
Mansard replicou: Começou então a disputa, cada um pro-
— Senhor, mais admirável ainda é ob- curando expor diante do rei tudo o que ha-
servar o maior rei da terra conversando em via feito para o bem da França. Depois que
termos de tal indulgência com o seu pedrei- todos haviam concluído, só restava em si-
ro e o seu jardineiro.109:761 lêncio o chanceler Pierre de Morvilliers. In-
 dagado pelo rei, ele disse:
Claude Perrault havia apresentado o seu — Majestade, os serviços que vos
projeto de reforma do Louvre, que recebeu prestei estavam todos incluídos nas minhas
muitas críticas, especialmente de Boileau. Luís obrigações, e portanto já foram remunera-
XIV resolveu submetê-lo a Bernini, para as dos.
correções necessárias, mas o arquiteto italia- — Bem, o senhor deve ser muito rico
no, depois de examinar o projeto, comentou: para recusar uma quantia como esta. Mas
— Quando se tem no próprio país artis- espero que não se oponha a que eu acres-
tas com este valor, não se pode procurar ou- cente às riquezas mais esta, que mandarei
tro fora.32:1299 entregar na sua residência.32:8574
134 A volta ao mundo da nobreza

T anto quanto possível, o reconhecimento


do rei e do povo por atos grandiosos em
benefício da pátria era feito publicamente,
deu ordem rigorosa para as sentinelas não
permitirem a entrada de nenhum homem a
cavalo pela ponte. Num dia em que voltava
em manifestações diversas, uma das quais especialmente apressado, dirigiu seu cavalo
era o canto solene do Te Deum. para a ponte. A sentinela gritou, tentando
 impedir que ele avançasse, mas não foi aten-
Após a vitória do marechal de dida. Nova tentativa, com igual resultado.
Luxemburgo em Marseille, foi cantado na O soldado avançou, e com a baioneta feriu
catedral de Notre Dame um Te Deum. Orna- gravemente o cavalo do marechal, obrigan-
va a igreja grande número de bandeiras con- do-o a seguir pelo caminho permitido. No
quistadas ao inimigo pelo marechal. Uma dia seguinte o soldado foi chamado à sua
multidão presente dificultava a entrada des- presença, e ele perguntou:
te, que era conduzido pela mão pelo prínci- — Não tens nada a reprovar na tua ati-
pe de Conti. Para abrir passagem, o príncipe tude?
dizia: — Nada, senhor.
— Senhores, deixai passar o tapeceiro — Muito bem. A partir de hoje estás pro-
de Notre Dame!27:2:113 movido.32:2628
 
Quando morreu o marechal de Saxe, al- Durante a campanha militar de 1674,
guém comentou com a rainha Maria Turenne mandou montar um acampamento
Leszczynska: próximo de Estrasburgo. Convencidos de
— Ele não será enterrado com as ceri- que seriam esperados ali os adversários ale-
mônias fúnebres da Igreja, porque era pro- mães, todos os soldados se empenharam na
testante. montagem, exceto um soldado de infanta-
— É uma pena que não se possa cantar ria, que descansava tranqüilamente. O ge-
o De profundis por um homem cujas vitóri- neral perguntou:
as fizeram cantar tantas vezes o Te — Por que não estás trabalhando como
Deum.33:3651 os outros?
 — Meu general, é porque não permane-
O marechal de Villars retornou a Paris ceremos aqui muito tempo.
depois da vitória de Demain, quando se re- Turenne se impressionou com a perspi-
presentava a ópera Armida. Uma persona- cácia do soldado, mandou que ele guardas-
gem da ópera o homenageou, coroando-o se segredo e o promoveu a tenente.58:1:267
com uma coroa de louros. O mesmo gesto 
se repetiu após a batalha de Fontenoy, mui- O capitão d’Orville, do corpo de grana-
to tempo depois, tendo sido o vitorioso ma- deiros, tentou durante quatro anos sua pro-
rechal de Saxe coroado pela sobrinha da moção a major. Era pobre, mas suportava
mesma atriz.58:2:72 em silêncio e comparecia com freqüência a
Versalhes procurando conseguir uma audi-

A promoção a postos militares mais ele-


vados pode ser um primeiro passo para
a nobilitação.
ência com o ministro da Guerra. A rainha
Maria Antonieta ficou sabendo da situação,
e encontrando d’Orville num corredor, per-
 guntou-lhe:
O marechal Vitorio de Castellane era — Sr. Capitão, parece-me que o seu pro-
comandante da praça forte de Perpignan e tetor junto ao ministro não deve gozar de
21 — Os reis recompensam os súditos reconhecendo-lhes os méritos 135

muito prestígio, pois não conseguiu uma quero perdê-lo e pretendo servir-me do se-
audiência em quatro anos. nhor mais vezes.27:2:113
— Senhora, não tenho nenhum protetor. 
— Bem, então vou tornar-me sua prote- O Sr. de Courcillon foi ferido na guerra,
tora, e verei se consigo alguma coisa. quando ainda muito jovem, e o rei lhe con-
No dia seguinte a promoção foi fei- cedeu a cruz de São Luís. Ao condecorá-lo,
ta.32:9229 disse:
 — Sr. de Courcillon, de bom grado vos
No fim de uma batalha renhida, concedo a cruz de São Luís, embora ainda
Frederico II perguntou aos seus oficiais: vos faltem muitos anos de serviço.
— Qual foi hoje o soldado que demons- — E me falta também uma perna, Ma-
trou maior coragem? jestade.27:1:136
— Vossa Majestade. 
— Enganam-se. Foi um tocador de Por ocasião de uma festa em homenagem
pífaro. Da primeira até a última carga ele não ao rei Luís XVIII, o compositor Boieldieu foi
parou de tocar, sempre no próprio foco da incumbido de compor uma música de circuns-
batalha. Passei ao lado dele umas vinte ve- tância. Depois da execução, o rei decidiu con-
zes, e sempre o encontrei no posto.33:2310 ceder-lhe a cruz de honra. Se bem que a dese-
jasse havia muito tempo, ao saber da notícia

P ode ser um primeiro passo para atingir a


nobreza, por exemplo, a concessão de
medalhas.
ele a recusou, dizendo que a música que apre-
sentara não merecia essa honraria. Ao saber
da recusa e do motivo, Luís XVIII se dirigiu
 logo a ele, e disse:
O delfim de Luís XV ainda era criança, — Senhor Boieldieu, aceite-a. Não a
e teve sua atenção atraída por uma cruz no concedi pelo que foi feito hoje, mas por todo
peito de um dos guardas. Examinou-a aten- o passado.
tamente e perguntou à duquesa de Ventadour, — Majestade, neste caso eu a aceito.32:1558
sua preceptora: 
— O que significa esta cruz? Lord Taylor enumerava numa roda as
— É uma distinção que o rei concede às honras e medalhas de várias ordens, que lhe
pessoas que o serviram bem. haviam sido concedidas pelas cortes da Eu-
Depois, todas as vezes que via uma cruz ropa. Um membro do parlamento pergun-
idêntica, ele comentava: tou:
— Ali está mais um que serviu bem ao — O senhor não mencionou o rei da
rei.58:3:139 Prússia. Terá sido porque não recebeu lá ne-
 nhuma ordem?
Durante o assalto a Quesnoi, Luís XI — O senhor se engana. Do rei da Prússia
observou o valor de Raul de Lannoi, que o eu recebi a ordem de sair do país.1:140
comandou ardorosamente através de uma
chuva de ferro e fogo. Depois da batalha o From: Heródoto
rei colocou no pescoço dele uma condeco- Beaugeste, quero lembrar que outra for-
ração com uma corrente de ouro, e disse: ma de manifestação consiste em erguer es-
— Por Deus, meu amigo! O senhor é tátuas. A este respeito, conheço um fato que
muito furioso durante um combate, por isso ressalta o desprendimento de um famoso
vou prendê-lo com esta corrente, pois não cônsul romano.
136 A volta ao mundo da nobreza

 to empenho tivestes em ascender, não vos


Quando Catão observou que se estavam devo nenhuma deferência.109:639
erguendo muitas estátuas em homenagem a
outros, comentou:
— Prefiro que as pessoas perguntem por
que não há uma estátua minha, em vez de
E m qualquer ramo de atividades, a inve-
ja e a maledicência podem constituir
obstáculo à promoção ou ao reconhecimen-
perguntarem por que foi erguida uma está- to de feitos importantes. Mas aqueles que
tua para mim.30:382 realmente merecem o título de nobres reco-
nhecem as virtudes dos outros e as admi-

H á também os que desejam algum bene-


fício sem o terem merecido.

ram, ao invés de invejá-las.

Turenne e Condé podiam disputar o pos-
Um eclesiástico cuja conduta não havia to de maior general de Luís XIV. Ao invés
sido sempre exemplar insistia com o duque disso, Condé confidenciou:
de Orleans que lhe concedesse uma abadia. — Se pudéssemos trocar de posição, eu
A fim de se livrar da insistência, o duque preferiria ser Turenne.32:3339
sentenciou: 
— Como o senhor deseja a qualquer cus- Quando Turenne morreu durante uma
to uma abadia, eu o aconselho a fundar uma. batalha, o príncipe de Condé lamentou-se:
Não vejo outro meio de o satisfazer.27:1:1 — Que pena eu não poder mais conver-
 sar alguns minutos com a alma do senhor
A família real e muitos nobres se exila- Turenne.58:1:154
ram em Gand. Após a derrota final de 
Napoleão e o retorno dos Bourbons, alguém Um homem indiscreto perguntou a
procurou Talleyrand a fim de obter um em- Turenne:
prego, alegando que permanecera com Luís — Como é que o senhor foi perder a
XVIII em Gand. batalha de Rhetel?
— Em Gand? O senhor tem certeza? O — Eu a perdi por culpa minha. Mas não
senhor realmente esteve lá ou só voltou? comete erros na guerra somente o homem
— Não estou entendendo. que não guerreia por muito tempo.58:1:276
— Muito simples. É que em Gand havia 
uns setecentos realistas. Mas, segundo os meus O marechal de Saxe elogiou um oficial
cálculos, já voltaram de lá uns quinze mil.33:10514 diante de outro que o invejava. Este replicou:
 — É um bravo, sim, mas provém de clas-
Luís XI convidava a participar das suas se muito baixa.
refeições não só os nobres, mas também os — Por Deus! Não o sabia, mas agora,
principais mercadores. Um tal Maître Jean além da minha estima, vejo que ele merece
se envaideceu por essa deferência, e pediu o meu respeito.32:9476
ao rei que lhe desse carta de nobreza. Ante a 
insistência, o rei concordou, mas nunca mais Um senhor de boa família, que servira
o convidou para sentar-se à sua mesa. Quei- durante 25 anos no exército de Luís XIV,
xou-se o novo nobre, e o rei explicou: decidiu servir na casa civil do rei, e para isso
— Quando éreis o primeiro de vossa adquiriu os direitos necessários. Mas foi
classe, havia motivo para distinguir-vos. impedido de ocupar seu lugar, por interfe-
Como agora sois o último da outra a que tan- rência de uma autoridade interna do palá-
21 — Os reis recompensam os súditos reconhecendo-lhes os méritos 137

cio. Postou-se então na sala da guarda, e por 


ocasião da passagem do rei, disse: Durante uma caçada, o rei D. João II de
— Senhor, fazei justiça a este velho mi- Portugal pediu que lhe servissem vinho, mas
litar, cuja idade o impede de combater, e por ao executar a ordem o pajem deixou cair a
isso quis terminar seus dias servindo na vossa taça. Os cavalheiros presentes começaram a
casa civil. rir, e o rei os interrompeu:
O rei ouviu toda a sua explicação, de- — Este deixou cair apenas a taça, mas
pois mandou que o acompanhasse até a sala nunca o vi deixar cair a lança da mão, como
de teatro, para onde ia. Mandou que se sen- já aconteceu a alguns dos senhores.35:37
tasse no lugar destinado à autoridade que se
lhe opusera, e disse:
— Senhor, ocupai por esta noite o lugar
destinado a quem vos ofendeu. E que esta
P ode ainda ocorrer que uma recompensa
tenha o destino errado. Nem preciso es-
clarecer que o próximo fato foi enviado pelo
minha demonstração de estima seja uma re- Contrappunto.
paração à ofensa que recebestes.27:2:302 
 Na França, o rei Gustavo III da Suécia
O general inglês Jacob Wolf gostava de recebeu congratulações por ter o cientista
beber. Ganhou muitas batalhas, mas tinha sueco Scheele descoberto o magnésio. Ele
na corte inimigos invejosos. Alguns resol- não tinha grande interesse pela ciência e não
veram propor ao rei Jorge II que ele fosse sabia do que se estava falando. Ao voltar para
destituído do comando, por causa da bebi- seu país, determinou que se procurasse des-
da. O rei perguntou: cobrir esse Scheele e lhe fosse concedido o
— Sabem qual a marca do whisky que título de conde. O primeiro-ministro man-
ele toma? dou investigar quem era o tal Scheele, e lhe
Foi-lhe dada a informação, e o rei con- veio a informação:
cluiu: — Scheele é um bom sujeito, tenente
— Vou mandar aos meus outros gene- de artilharia, bom de pontaria e muito bom
rais algumas caixas desse whisky.110:565 no bilhar.
 Recebeu o título, enquanto o cientista
Quando Carlos II da Inglaterra nomeou continuou completamente ignorado pela cor-
o general Wolf para comandar a expedição te.30:1116
contra Quebec, o duque de Newcastle dis-
cordou:
— Senhor, é muito perigosa essa nome-
ação, porque o general Wolf não é um ho-
A migos, a série de fatos de hoje mostra
que os monarcas estão sempre prontos
a reconhecer os méritos dos seus súditos, seja
mem, é um louco raivoso. por meio da nobilitação, da concessão de
— Afirmas que ele é raivoso? Então eu comendas e medalhas, da remuneração ou
quero que ele morda todos os meus outros até mesmo de simples elogios públicos. São
generais, para transmitir-lhes essa doença.1:223 belos exemplos de que

Os reis recompensam os súditos


reconhecendo-lhes os méritos
138 A volta ao mundo da nobreza

22º dia

C aros amigos, os nobres eram constante


objeto de justas honrarias e homena-
gens, que manifestavam o reconhecimento
cebido do rei o título de conde, por ter parti-
cipado como escudeiro no descobrimento da
Índia. Sendo ele governador, um criado do
pelos bons serviços prestados ao bem co- rei o importunou muito, deixando-o agasta-
mum por eles ou por seus antepassados. Por do a tal ponto que quis depreciá-lo, chaman-
isso os títulos de nobreza eram muito res- do-o de escudeiro. O criado respondeu-lhe:
peitados e também muito cobiçados. E o pro- — Senhor, é dos escudeiros que se fa-
tocolo das cortes era rigoroso na observân- zem os condes.62:703
cia das posições, formas de tratamento e pre- 
cedências, que não existiam apenas por ques- Martim Afonso de Souza era alcaide-
tões secundárias como a vaidade, mas para mor de Bragança, e para desempenhar esse
que fossem prestadas as homenagens devi- cargo tinha seiscentos mil reais de renda.
das aos cargos e às próprias pessoas que os Dispensou-o e tornou-se servidor do rei,
ocupavam. Muitas pessoas mal informadas que lhe perguntou o motivo de ter renunci-
pensam que os nobres eram arrogantes de- ado o cargo.
vido aos seus títulos. Porém a maioria não — Porque o duque de Bragança não pode
ficava a toda hora ostentando-os, mas tam- fazer mais que dar-me seiscentos mil reais
bém não admitiam rebaixamentos nas hon- de renda, e o rei pode fazer-me duque.62:823
ras a que tinham direito. Agrupei para hoje
alguns fatos dentre os que já recebi sobre
este assunto, apresentando tanto os aspectos
negativos quanto os positivos. Não vejo ne-
E mbora os membros de famílias nobres
procurem manter-se à altura dos ante-
passados aos quais devem a posição
cessidade de citar os colaboradores que os nobiliárquica, o grau de méritos não é exa-
enviaram, o que significaria incluir os no- tamente o mesmo, e pode ser objeto de com-
mes de quase todos. parações pouco lisonjeiras.
 
Decidido o casamento da princesa Durante um banquete com o rei de Por-
Adelaide de Sabóia com o duque de tugal, alguns nobres se gabavam dos ante-
Borgonha, selou-se a paz com a França. Mas passados ilustres, de cujas façanhas milita-
o casamento só se concretizaria depois, de- res advinha sua posição atual. O aventurei-
vido à idade, e surgiu a dúvida sobre o trata- ro Duarte Brandão ouviu tudo, e replicou:
mento que lhe seria dado em Versalhes: não — E eu sou Duarte Brandão, que por
poderia ser duquesa de Borgonha, pois ain- força das armas ganhei nobreza para mim e
da não se casara; nem princesa de Sabóia, meus descendentes, da mesma forma que os
que deixara de ser. Decidiu-se que ela seria vossos antepassados a ganharam para
chamada simplesmente la Princesse. E a ale- vós.62:658
gria do povo por essa aliança levou-o a 
chamá-la “princesa da paz”.58:2:372 Um nobre de antiga linhagem tratava
 com certo desprezo o marechal Lefèbvre.
O pai de D. Estêvão da Gama havia re- Este resolveu pôr as coisas às claras:
22 — Os títulos de nobreza definem posições na sociedade 139

— Senhor conde, o seu orgulho é só por — Havia algum caminho melhor? Eu era
causa dos antepassados. Mas é bom saber perseguido noite e dia por meus credores.
que eu me tornei um antepassado.33:3665 Tive de refugiar-me numa loja de comércio
 para não ser levado a um hospital.27:2:95
No dia 20 de fevereiro de 1861, foi con-
cedido no Palácio Real de Madri o título de
grandes de Espanha a algumas pessoas, en-
tre elas o general Prim, duque de Tetuán. Na
H á detentores de títulos de nobreza que
preferem não se referir à situação hu-
milde dos antepassados, como também aos
saudação de agradecimento, Prim disse: artifícios que eles próprios ou os antepassa-
— Em todos os tempos, os reis da dos usaram para conseguir os títulos. Já se
Espanha enobreceram seus homens de guer- afirmou que os que muito prezam sua no-
ra, e esta é a origem dos brasões que hoje breza nem sempre lhe prezam a origem.69:508
ostentam os descendentes dos Osunas, dos 
Abrantes, dos Medinacellis e tantos outros Lord Gladstone viu num antiquário um
capitães. belo quadro representando um nobre medi-
Ao felicitá-lo após a cerimônia, o suces- eval, e só não o comprou por achar excessi-
sor de Medinacelli disse: vo o preço. Poucos dias depois, viu o qua-
— Agora o senhor é igual a nós, gene- dro na casa de Lord Green, que lhe expli-
ral. cou:
— Igual ao seu avô.109:2236 — Este é um antepassado meu.
 — Ora essa! Por duas libras a mais, ele
O general ateniense Ificrates era filho de teria sido um antepassado meu.32:6559
sapateiro. Um seu oponente num processo, 
nobre descendente de Harmodius, referiu- Um pretendente a título de nobreza in-
se de modo insultante à origem do general, sistia com Disraeli para concedê-lo, mas
que replicou: havia diversos motivos para a negativa. Afi-
— A nobreza da minha família começa nal Disraeli conseguiu livrar-se do importu-
comigo, da mesma forma que a da sua ter- no com a seguinte proposta:
mina com o senhor.30:546 — Você sabe os motivos pelos quais eu
 não posso dar-lhe o título. Mas pode dizer
Alguns fidalgos estavam conversando, aos seus amigos que eu lhe ofereci o título,
à espera para falar com o rei D. João III. e o senhor o recusou. Isso é até melhor.30:622
Achando o momento oportuno, o camareiro- 
mor os interpelou: O aventureiro italiano Casanova compra-
— Senhores, ser fidalgo deve ser coisa ra um título de baixa nobreza, e fazia-se cha-
muito má, para vos dedicardes tanto a criticá- mar cavaleiro de Seingault. Quando foi apre-
los. Mas se é assim, por que trabalhais tanto sentado ao imperador José II, este o olhou
para tornar também fidalgos os vossos fi- de alto a baixo desdenhosamente, e disse:
lhos?62:758 — Senhor, eu desprezo aqueles que com-
 pram os títulos.
Tendo perdido a fortuna, o conde de — E aos que os vendem, Majestade?84:20
Lude, irmão de Luís XIII, casou-se com a 
rica filha de um comerciante. Aos que o cri- O czar Pedro o Grande, numa viagem
ticavam por esse casamento desigual, expli- como incógnito pela Europa, com freqüên-
cava: cia era reconhecido. Um cara-de-pau com
140 A volta ao mundo da nobreza

pretensões de ser nobre reconheceu-o, e lhe Amedeo de Sabóia, duque de Nemours,


apresentou uma árvore genealógica em que morto em duelo com o duque de Beaufort,
seu nome constava como parente da família seu cunhado. Carlo Amedeo foi pai de Marie
imperial russa. O czar levou a coisa em brin- de Nemours, que se casou com Carlo
cadeira, mas pediu: Emmanuele, duque de Sabóia, de cujo con-
— Meu caro primo, estou aqui como sórcio nasceu Vítor Amedeo, duque de
incógnito. Peço-lhe que faça o mesmo.32:11301 Sabóia, rei da Sardenha e pai de Maria
Adelaide de Sabóia, casada com Luís de

H á belos exemplos de nobres que não es-


condem sua origem humilde, e até in-
sistem nela. Com isso acabam acentuando o
França, duque de Borgonha”.
E concluiu:
— Do qual eu, senhores, tenho a honra
contraste entre o que são e o que poderiam de ser filho.81:200
ter sido. 
 A escritora Sofia Michault de La Valette
Luís XV não tolerava a empáfia dos Gay descendia da família Peretti, da qual
nobres ou pseudo-nobres. De vez em quan- nascera também o Papa Sixto V. Num dia
do, para chamá-los à razão, recordava a em que várias senhoras porfiavam por saber
origem humilde de alguns deles. Ao du- qual delas era de família mais nobre, Sofia
que de Richelieu, por exemplo, dizia que disse:
seu bisavô fora o flautista Vignerot. Aos — Eu tenho entre os meus antepassados
Villeroy, lembrava que descendiam de um indiretos um porqueiro.
vendedor de peixes do tempo de Francis- Estupefatas, as outras pediram que se
co I. Numa noite em que havia entristeci- explicasse.
do vários dos seus cortesãos com essas — Chamava-se Félix Peretti. Quando
franquezas, revelou: ocupou a cátedra de São Pedro, tomou o
— Consolai-vos no entanto comigo. Pois nome de Sixto.109:24
eu, embora sendo um perfeito cavalheiro, 
tive um antepassado que foi simples notário Quando Francisco I cumprimentou um
em Bourges. dos maiores eruditos do seu tempo, por ter
E leu então para eles um trecho da sua sido escolhido para ocupar o trono de São
árvore genealógica: Pedro, teve a curiosidade de perguntar-lhe
“No reinado de Luís XI, em 1470, havia se descendia de família nobre, e obteve a
em Bourges um notário que se chamava resposta:
Babou. Soube-se que o pai desse Babou era — Senhor, na arca de Noé havia três ir-
barbeiro, porém isso não está de todo com- mãos, e eu descendo de um deles, mas não
provado como o está a profissão de notário sei de qual.1:220
de Babou, que chegou a fazer fortuna e com- 
prou para seu filho Filibert Babou um lugar O bispo Esprit Fléchier era filho de um
de tesoureiro. Filibert chegou a ser maître fabricante de velas. Freqüentando ele a cor-
d’hôtel de Carlos VIII. Foi esse o pai de te de Luís XIV, alguns estranhavam que, de
Babou, Sr. de la Baudaisière, cuja filha foi origem tão humilde, tivesse chegado a tão
mãe de Gabrielle Destré, que teve como fi- alta posição. A um desses, que um dia mani-
lho natural César de Vendôme, casado em festou tal estranheza, ele respondeu:
1609 com a herdeira de Mercoeur e pai de — Não vejo nada de extraordinário nis-
Isabelle de Vendôme, casada com Carlo so. Se o senhor fosse filho de um fabricante
22 — Os títulos de nobreza definem posições na sociedade 141

de velas, acha então que continuaria fabri- festar seu caráter imperioso. Um dia, enco-
cando velas?109:23 lerizada, ela disse ao seu irmão Fernando:
 — Eu te ensinarei a respeitar-me como
Bernard Shaw tinha numerosos inimigos deves, pois chegará o dia em que serei rai-
na alta sociedade. Um desses perguntou-lhe: nha da Espanha, mas terás de contentar-te
— O seu pai não era um modesto alfaia- com o ducado de Parma.
te? — Neste caso, terei a honra de dizer que
— Era, sim. já dei uma bofetada na rainha da Espanha.
— Gostaria de saber por que o senhor E lhe aplicou uma tremenda bofeta-
não se tornou também alfaiate. da.109:2814
— Desculpe-me, mas o seu pai não era 
um perfeito cavalheiro? O conde de Morny ficou furioso com o
— Naturalmente! banqueiro Nathan Rothschild, devido a al-
— Eu gostaria de saber por que o se- gum negócio, e foi procurá-lo no escritório.
nhor também não é.109:33 Demonstrava tanta fúria, que o porteiro nem
sequer pensou em detê-lo. Entrou na sala,

O stentar um grande título de nobreza é


muito honroso. Porém alguns nobres
se envaidecem com isso, o que os leva a si-
onde Nathan lia alguns papéis, e expôs em
altos brados a sua queixa. Sem sequer tirar
os olhos dos papéis, Nathan cordialmente
tuações por vezes deprimentes. ofereceu:
 — Por favor, sente-se numa cadeira.
O duque de Candale era filho natural de Cada vez mais exaltado, o lord come-
Henrique IV, e se julgava por isso com o di- çou a desfiar sua antiga linhagem, a relação
reito ao título de príncipe. Num dia em que dos seus amigos influentes, e colocou sobre
ele se referia ao Senhor meu pai e à Senhora a mesa o cartão com o brasão da família.
minha mãe, o príncipe de Condé se irritou e Nathan olhou de relance para o cartão, e ra-
gritou para um oficial: pidamente:
— Senhor meu escudeiro, vá dizer ao — Então sente-se em duas cadeiras.39
senhor meu cocheiro para atrelar na carrua- 
gem os senhores meus cavalos.58:1:147 Um soldado desejava obter de La Fayette
 um posto, e apresentou como argumento os
Uma sobrinha do príncipe de Ligne gos- seus títulos de nobreza. Contrariando-lhe as
tava de ostentar nobreza, e só admitia na sua expectativas, La Fayette afirmou:
sociedade quem não tivesse sequer um quar- — Podes estar certo de que os teus títu-
to de sangue não nobre. Uma noite em que a los não serão obstáculo para a tua ascensão
lua estava em quarto crescente, ao entrar no na hierarquia militar.32:7802
palácio o príncipe correu à janela e fechou-a. 
— Por que fazeis isso? Um jovenzinho passeava pelo Bois de
— Estou impedindo a entrada da lua, que Boulogne com a cruz da Legião de Honra
não está com os seus quatro quartos em or- no peito. Um guarda achou aquilo estranho
dem.32:8367 num rapaz com aquela idade, e interpelou-
 o, apontando a condecoração:
Carlos IV, antes de se tornar rei da — O que é isto?
Espanha, havia contraído matrimônio com — A roseta da Legião de Honra.
Maria Luísa, e logo esta começou a mani- — És oficial dessa Ordem?
142 A volta ao mundo da nobreza

— Mais do que isso. extinção e proibição de uso dos títulos de


— Comendador? nobreza. Longe de mim apresentar essas
— Mais ainda. medidas como sensatas ou justas. Mas te-
— Grande oficial? nho visto em livros e filmes uma coisa que
— Ainda mais. me parece exagerada, e suponho que você e
— Grã-cruz, portanto? Mas pareces es- os demais participantes do seu salão tam-
tar zombando de mim, e vais ter de seguir- bém a viram. Nas recepções sociais de anti-
me até a chefatura de polícia. gamente, quando entrava um nobre num sa-
O jovem tirou do bolso o passaporte, lão, o cerimoniário proclamava em alta voz
onde constava a sua identidade: Manuel de o nome e os vários títulos de quem entrava.
Saxe-Coburgo, ex-rei de Portugal.32:9076 E esses títulos chegavam por vezes às deze-
nas. Você não acha isso um exagero?

E xistem nobres que de fato se julgam num


nível muito superior, rejeitando por isso
o convívio com pessoas humildes. Vejamos A os nossos ouvidos e aos nossos costu-
mes republicanos atuais, isso realmen-
alguns casos. te parece exagero. Mas observe que há uma
 finalidade prática muito importante nesse
Alguns cortesãos vienenses pretendiam protocolo. Quando alguém entrava num sa-
que o parque imperial fosse fechado ao pú- lão e eram proclamados os seus títulos, es-
blico, tornando-se de uso exclusivo dos no- tava sendo apresentado ao conjunto dos con-
bres. Quando foi apresentada ao imperador vivas, e todos ficavam sabendo de quem se
José II essa proposta, ele argumentou: tratava, mesmo que não o conhecessem pes-
— Acho isso muito estranho. Se eu qui- soalmente. Daí em diante poderiam abordá-
sesse ter junto a mim só as pessoas do meu lo e tratar de assuntos por vezes decisivos.
nível, teria de resignar-me a usar só a capela Para você notar como a situação atual é
imperial, onde estão os ossos dos meus an- uma decadência, veja o contraste que
tepassados.32:6530 Marcel Proust sentiu ao entrar num salão
 do Faubourg Saint-Germain. Depois de ter
O rei inglês Eduardo VII, quando ainda ouvido algumas dezenas de nomes sonoros
príncipe de Gales, visitou a África do Sul, e pomposos, foi apresentado apenas como
onde houve um grande baile em sua honra. Monsieur Marcel Proust. Isso diante de
Perguntando quais as damas que desejavam gente, aliás, muito inferior a ele em inteli-
dançar com ele, logo se apresentaram mui- gência. Se a essa altura ele já tivesse sido
tas, tanto brancas quanto negras. Assustada, reconhecido como o mais importante escri-
a governadora o advertiu: tor do seu tempo – ao qual não faltaram
— Senhor, tende em conta que nem to- grandes escritores – certamente haveria
das essas moças são da vossa classe. muitos títulos a serem proclamados. E se-
— Ah! E há alguém aqui que seja da riam justos, sem a menor dúvida. Isso não
minha classe?109:641 lhe aumentaria a inteligência nem o méri-
to, mas o deixaria mais à vontade naquele
From: Robespierre meio.
Beaugeste, você sabe que o meu homô- E creio que podemos encerrar nossa reu-
nimo mandou para a guilhotina grande par- nião de hoje, na qual houve apenas uma in-
te dos nobres das melhores famílias da Fran- tervenção de um novo colaborador. O que
ça, e também foi um dos responsáveis pela não significa, aliás, que não tenha havido
22 — Os títulos de nobreza definem posições na sociedade 143

colaboração dos vários participantes, pois os Tenho alguns fatos relacionados com os
comentários que apresentei foram a propó- nomes de nobres, porém não tanto vincula-
sito de fatos fornecidos por muitos deles. dos aos títulos, e me parece oportuno
Mas o que se deseja em um salão de conver- apresentá-los amanhã. Na perspectiva de que
sa como o nosso é que todos participem ati- os amigos forneçam e comentem mais fatos
vamente, contribuindo com fatos e também com essas características, resumo o que foi
com os comentários. visto hoje, afirmando que

Os títulos de nobreza definem


posições na sociedade
144 A volta ao mundo da nobreza

23º dia

From: Chateaubriand recordações, na história da Igreja e da socie-


Beaugeste, encontrei um texto interessan- dade civil trazem à memória figuras de gran-
te sobre o vínculo entre o nome da família e o des homens e fazem ecoar nas almas dos her-
dos seus domínios territoriais. deiros a voz admoestadora que lembra o de-
 ver de se mostrarem dignos deles.89:59 E de fato
Na Idade Média e no Antigo Regime, a eles eram cônscios da importância do nome
condição de nobre não podia ser equiparada que herdaram, timbrando em manter no mais
estritamente a uma profissão. Ela era, sob cer- alto nível o seu prestígio e a sua honra. Pode-
to ponto de vista, um ganha-pão; sob outro se comprovar esse orgulho da raça nos próxi-
ponto de vista, era muito mais do que isto. Em mos fatos.
conseqüência, ela marcava a fundo o nobre 
bem como toda a sua família, por meio da qual Acidentando-se a carruagem em que vi-
a condição nobiliárquica haveria de se trans- ajava pelo interior da França a esposa de um
mitir às gerações vindouras ao longo dos sé- banqueiro, ela foi forçada a pedir abrigo
culos. O título de nobreza incorporava-se ao numa casa à beira do caminho, modesta mas
nome da família, e por vezes o absorvia. O de uma família tradicional e muito respeita-
brasão de armas era o emblema da família. E a da. A casa exígua caberia inteira no vestíbu-
terra sobre a qual o nobre exercia o poder ti- lo da sua mansão, o terreno era menor que o
nha as mais das vezes o seu próprio nome, do seu jardim, e a banqueira perguntou, em
quando não se dava o contrário e ele incorpo- tom de desprezo:
rava ao seu título o nome da terra. Essa — Então essa é toda a sua fortuna?
simbiose entre homem, função e terra foi ex- — Eu acrescento a isso o bem que tenho a
pressa de modo tocante por Paul Claudel, em felicidade de praticar, e também o nome que
L’Otage, onde o personagem Coufontaine diz: meu marido tem a honra de portar.58:3:448
— Como a terra nos dá o seu nome, eu 
dou-lhe minha humanidade. Nela, não estamos Perguntaram à duquesa de Rohan, que es-
desprovidos de raízes; em mim, pela graça de tava grávida, para qual mês era esperado o
Deus, ela tem o seu fruto, o qual sou eu, o seu parto.
senhor. É por isso que, incorporando ao meu — Terei esta honra dentro de dois me-
109:22
nome o seu, precedido pelo de, sou por exce- ses.
lência o homem que porta o seu nome. Como Era a honra de dar à luz um Rohan.
uma pequena França, o meu feudo é o meu
reino; a terra, em mim e na minha linhagem, From: Valdeiglesias
torna-se gentil e nobre, como algo que não Os nomes de família tinham origens mui-
pode ser comprado.89:130 to variadas. Conheço dois exemplos muito in-
teressantes da minha Espanha.

M uito bonita essa referência poética à
simbiose entre os nomes dos nobres e
os dos seus domínios. Os nomes que desde
Em 1233, na batalha de Jerez, Diego Pérez
de Vargas havia quebrado sua lança e espada.
um longínquo passado ressoam altamente nas Apanhou então um galho de oliveira e avan-
23 — Os nobres zelam pelos méritos e o prestígio da própria família 145

çou com ele, brandindo-o ferozmente à direita Meireles de Vasconcelos queria falar-lhe, or-
e à esquerda, deixando imobilizados no chão denou ao camareiro:
todos os que atingia. O comandante Dom Alvar — Fernão Pereira pode entrar, mas deixe
Pérez de Castro, toda vez que o via derrubar os outros de fora.62:802
um inimigo, gritava:
— Isso mesmo, Diego! Machuca, Diego! From: Valdeiglesias
Machuca! Havia disso também na Espanha. Acho
Desde então, ele e os seus descendentes delicioso encontrar nomes como Dom Alfon-
receberam o nome de Machuca.109:20 so Rodríguez y Rodríguez. São duas famíli-
 as Rodríguez que se uniram em matrimônio,
Na batalha de La Sagra, em 1086, o rei mas cada uma delas faz questão de manter
Afonso VI de Castela foi ferido levemente, mas no herdeiro o próprio nome. E os dois exem-
o cavalo caiu morto. O rei corria grave risco, e plos a seguir mostram que lá algumas pesso-
nesse momento um cavaleiro desceu do cava- as não viam com bons olhos os exageros.
lo e o ofereceu ao monarca, que montou e pros- 
seguiu a luta. Mas o cavaleiro cortara com a Indo um fidalgo visitar D. Pedro de
própria espada um pequeno pedaço do manto Meneses, fez-se anunciar como D. Luiz
real. Após a vitória, o rei perguntou aos com- Fernandes Telo de Vasconcelos y Meneses. D.
batentes: Pedro então bradou:
— Quem me deu o seu cavalo? — Criados, tragam cadeiras para toda essa
— Eu, senhor – respondeu o cavaleiro gente!62:865
Tellez. 
— Qual a prova? Um cavaleiro espanhol bateu tarde da noite
— Este pedaço do vosso manto, que cor- na porta de uma hospedaria francesa, e quan-
tei com a minha espada. do afinal conseguiu acordar o hospedeiro, este
— Qual recompensa desejais? perguntou:
— Só peço o direito de usar o nome Jirón, — Quem está aí?
que identifica este pedaço de tecido e me lem- — Dom Juan-Pedro-Hernandes-Rodrí-
brará o serviço que tive a honra de prestar- guez de Villa Nova, conde de Malafaia, cava-
vos. leiro de Santiago e Alcântara.
Foi assim que se acrescentou um dos 86 — Senhor, sinto-me muito honrado, mas
nomes do duque de Osuna.27:2:177 não temos hospedagem para tantos no-
bres.27:1:541
From: Fuas Roupinho
Caramba! 86 nomes?! Mas isso parece um From: Leopoldina
formidável exagero. Alguns nomes pomposos, Na nobreza brasileira há também o cos-
vá lá, mas 86 nomes! Em Portugal as coisas tume de enfileirar nomes, que representam
não se passavam bem assim, e os nossos reis homenagem a ancestrais especialmente que-
eram mais modestos nesse aspecto. Veja este ridos, ou então a santos da sua devoção. Ge-
exemplo. ralmente os nomes eram simplificados no uso
 diário, e D. Pedro II, por exemplo, assinava
Dom João III não gostava que os fidalgos Pedro de Alcântara, embora o seu nome com-
fossem enfileirando sobrenomes aos nomes pleto contivesse 15 nomes. Há até um fato
próprios, como forma de valorizar-se. Rece- pitoresco da época em que ele era criança.
bendo a informação de que D. Fernão Pereira 
146 A volta ao mundo da nobreza

No dia em que D. Pedro I abdicou, e os ou pelo menos não nobre, procuram dar aos
brasileiros proclamaram Dom Pedro II impe- outros a impressão de uma nobreza que de fato
rador com a idade de 5 anos, o seu preceptor não possuem.
foi encontrá-lo em local distante alguns quilô- 
metros do Rio de Janeiro. Anunciou-lhe sole- O pianista von Kalkbrenner fazia muita
nemente que horas antes ele se transformara questão da partícula von no seu nome, por ser
em Majestade, e o conduziu de volta ao Rio. indicativa de família nobre. Comentou com um
No caminho, começou a chover. Dom Pedro amigo:
correu até o casebre mais próximo e bateu à — Sabe que a origem da minha família
porta com ansiedade, como faria qualquer remonta às cruzadas? Um dos meus ancestrais
monarca sem guarda-chuva. A voz trêmula de acompanhou o imperador Frederico Barbar-
uma velhinha perguntou lá de dentro: roxa.
— Quem é? Um tanto despeitado, o amigo perguntou
Ofegante, devido à corrida, o imperador ao pianista:
estreante proclamou compassadamente, um — Acompanhou... ao piano?27:2:251
por um, os seus quinze nomes:
— Abra logo, vovó! Eu sou Pedro, João, From: Rivarol
Carlos, Leopoldo, Salvador, Bibiano, Francis- Na França, em vez do von que usam os
co, Xavier, de Paula, Leocádio, Miguel, nobres alemães, os nobres usavam a partícula
Gabriel, Rafael, Gonzaga, de Alcântara. de, e eu conheço dois fatos da Revolução Fran-
— Minha Nossa Senhora! Como é que eu cesa envolvendo a supressão dos títulos de
vou arranjar lugar aqui para tanta gente?!72:11 nobreza, e portanto dessa forma de distinção.

From: Chesterfield Durante o interrogatório do Sr. Martain-
Há inconvenientes no uso de nomes tão ville, o presidente do tribunal revolucionário
extensos, como neste fato da história recente insinuava ser o acusado de família nobre, acres-
do Império Britânico. centando-lhe ao nome a partícula indicativa
 de nobreza: de Martainville. Isso significava
O duque de Windsor foi parado por um quase uma sentença de morte na guilhotina,
guarda de trânsito, por excesso de velocidade. durante aquele período do Terror. O acusado o
— O seu nome, por favor. interrompeu, dizendo:
— Edward Albert Christian George — Cidadão, estás aí para me encurtar (o
Andrew Patrick David... corpo), e não para me alongar (o nome).
O policial guardou o talão de multas e o O auditório gostou da alusão, e alguém
advertiu: propôs:
— Bem... Não deixe que eu o pegue de — Então é melhor que o alarguem (liber-
novo em flagrante.91:2050 tem)
Se ele estivesse em outro continente, tal- A proposta foi aceita, e o libertaram.27:2:357
vez a extensão do nome fosse considerada 
vantagem, por ter evitado a multa... Durante a fase de Terror da Revolução
Francesa, estavam proibidos todos os títulos
From: Schwartzenberg de nobreza. O visconde de Saint-René foi in-
Ninguém pode afirmar que esse costume terrogado:
existe somente por simples vaidade. Tanto é — Como te chamas?
assim, que muitas pessoas de classe humilde, — Visconde de Saint-René.
23 — Os nobres zelam pelos méritos e o prestígio da própria família 147

— Não há mais viscondes. se acha indisposta, pede-se ao público aceitar


— Chamo-me de Saint-René. como substituta a Senhora Chevalier.
— Não existe mais de. — Cidadã Chevalier!
— Chamo-me Saint-René. — Mas então, se devo dizer cidadã Jeanne
— Não há mais Saint (santo). e cidadã Chevalier, como é que se fica saben-
— Sou então René. do que a primeira é solteira e a segunda é ca-
— Não existe mais Re (rei). sada?109:3332
— Sou apenas né (nascido).
— E daqui a pouco estarás morto.32:12350

Havia também falsos nobres que se apo-


A migos, temos constatado e até destaca-
do, ao longo dessas nossas reuniões, que
o título de nobreza não ficava vinculado ape-
deravam indevidamente dessa partícula. nas à pessoa que o recebeu, mas geralmente
 se estendia a todos os seus descendentes di-
Observando que muitos franceses acres- retos. Isso permanecia na memória da famí-
centavam a partícula de ao próprio nome, dis- lia, constituindo um incentivo para que todos
simulando assim sua origem modesta, Ménage se tornassem dignos dos seus ancestrais ou
zombava deles: até conseguissem ampliar o alcance dessa dig-
— Conheço um advogado que nunca terá nidade. A importância da família na forma-
essa pretensão de se tornar nobre com base só ção das pessoas era incomparavelmente maior
no nome. Ele se chama Loyal (leal, que se tor- do que hoje em dia, e o empenho em conti-
naria desleal).19:4:86 nuar merecendo essa distinção levava todos
os descendentes a procurar progredir no mes-
E veja mais um exemplo das arbitrarieda- mo sentido. Por isso ela era considerada cé-
des da Revolução Francesa. lula-mater da sociedade. A moderna família
 minúscula representa dela apenas uma som-
Os princípios igualitários da Revolução bra, embora continue a ser considerada célu-
Francesa levaram alguns, “mais iguais do que la-mater.
os outros”, a estabelecer que todas as pessoas Há alguns dias o nosso colaborador
se tratassem indistintamente por cidadão e ci- Delassus me informou que tem estudado a
dadã. Um ator cômico, antes de iniciar uma importância da família na História, especial-
apresentação, precisou anunciar ao público que mente no período que corresponde ao apogeu
uma das comediantes não poderia apresentar- da civilização cristã até a Revolução France-
se, devido a uma indisposição. sa. E hoje ele me disse que já tem elementos
— Senhores... suficientes para transmitir aos demais amigos
Vozes exaltadas interromperam: informações muito valiosas. A não ser que haja
— Não há senhores! outra proposta melhor, pretendo apresentar na
— Pois bem, cidadãos: A senhorita reunião de amanhã os textos elucidativos do
Jeanne... Delassus.
— A cidadã Jeanne! Para encerrar nossa reunião de hoje, po-
— Bem... cidadãos, como a cidadã Jeanne demos concluir que

Os nobres zelam pelos méritos e o prestígio


da própria família
148 A volta ao mundo da nobreza

24º dia

From: Delassus relações de trabalho de diversas índoles, de


Atendendo ao pedido do Beaugeste, simples vizinhança, etc. Nas cidades da so-
devo apresentar alguns textos elucidativos ciedade medieval, e em parte nas do Antigo
sobre a importância da família ao longo da Regime, era normal que palácios, mansões
História. Na ordenação que fiz, procurei co- ou vivendas confortáveis tivessem como vi-
locar em primeiro lugar a influência da fa- zinhança habitações populares representati-
mília na sociedade. Mas quero lembrar a to- vas de um teor de vida menos elevado. Esta
dos que podem a qualquer momento inter- vizinhança de grandes com pequenos repe-
vir na minha exposição, seja para acrescen- tia ao seu modo a atmosfera do lar aristocrá-
tar algo ou para pedir ou fornecer esclareci- tico, constituindo assim um halo discreta-
mentos. mente luminoso de afetos e de dedicações
Lacordaire afirmou que a família é o em torno de cada família aristocrática.89:246
mais admirável dos governos.79 E o histori- Pela palavra família não se entendia so-
ador Funck-Brentano conclui: Nada na His- mente, como hoje, apenas o pai, a mãe e os
tória jamais negou a lei geral de que uma filhos, mas toda a linhagem dos ancestrais e
nação se governa de acordo com os princí- a dos descendentes que viriam.50:113 A famí-
pios constitutivos da família. Se assim o faz, lia do mundo antigo não se reduzia às pro-
ela floresce. A partir do dia em que se afasta porções da família moderna. Nas grandes
dessas tradições que a criaram, a ruína está sociedades a família desmembra-se e dimi-
próxima.50:46 Entre todas as entidades priva- nui, mas na ausência de qualquer outra soci-
das, nenhuma tem caráter tão básico para a edade ela estende-se, desenvolve-se, rami-
Nação e o Estado, nenhuma é fonte de vida fica-se sem se dividir. Muitos ramos mais
tão autêntica e borbulhante quanto a famí- novos ficam agrupados ao redor do ramo
lia.89:106 mais velho, junto do lar único e do túmulo
O amor começa por unir o esposo à es- comum.36:89 Na corporação, a relação mes-
posa, os pais aos filhos. Mas ao mesmo tem- tre-oficial-aprendiz repetia em larga medi-
po ele amplia o círculo de sua ação. Pelos da a abençoada atmosfera da família.89:247
casamentos que os filhos contraem, o paren-
tesco se estende e convida à afinidade, que From: Heródoto
não se contenta em unir as pessoas, mas as Delassus, pelo que você disse até agora,
próprias famílias. A chama sagrada da ami- a sua exposição abrange apenas o período
zade mostra seu primeiro ardor entre o ma- do cristianismo, ou seja, da alta e baixa Ida-
rido e a mulher, depois dos pais em relação de Média até mais ou menos a Revolução
aos filhos e dos irmãos entre si, em seguida Francesa. Você conhece algo sobre o que era
destes aos parentes mais próximos, e dos a família antes disso, no Império Romano e
mais próximos aos aliados.50:48 no mundo antigo de modo geral?
Era inerente à aristocracia que cada uma
das famílias reunisse em torno de si um con- From: Delassus
junto de outras famílias ou indivíduos de Eu pretendia mesmo entrar neste assun-
nível social menos elevado, a ela ligados por to agora. No mundo antigo, a necessidade
24 — A estrutura da sociedade deve ter como base a família 149

recíproca que o pobre tinha do rico, e o rico ou os diversos países de uma mesma área de
do pobre, criou os servos. Mas, nessa espé- civilização.89:109
cie de regime patriarcal, servos ou escravos O Estado, de um modo ou de outro, se
formavam um todo. O princípio da presta- originou de entidades pré-existentes, cuja
ção de serviço livre voluntário, podendo ces- “matéria-prima” era a família; pois esta dera
sar pelo capricho do servo, não se coaduna origem a grandes blocos familiares, que os
com um estado social em que a família viva gregos designavam como ghénos, e os ro-
isolada. Era necessário que por algum meio manos como gens. Estes últimos formaram
o servo se tornasse membro e parte integrante grandes blocos de tônus também ainda fa-
dela.40:89 miliar, mas cujas correlações genealógicas
O servo estava ligado à família por toda se perdiam na noite dos tempos e tendiam a
a vida, e mesmo para o tempo posterior à diluir-se na confusão: eram as fratrias entre
sua morte. O senhor não podia fazê-lo sair os gregos e as cúrias entre os romanos. Fustel
da baixa servidão e tratá-lo como homem de Coulanges acrescenta que a associação
livre. Mas o servo, por esse motivo, não continuou naturalmente a crescer, segundo
abandonava a família. Como estava vincu- o mesmo sistema. Muitas cúrias ou fratrias
lado à família pelo culto, não podia, sem agruparam-se e formaram uma tribo. A con-
impiedade, separar-se dela. Sob o nome de junção das tribos formou a cidade, ou me-
liberto ou de cliente, o servo continuava a lhor, a civitas. E com isto o Estado.89:108
reconhecer a autoridade do chefe ou patrono, A dificuldade realmente grande, para o
e as suas obrigações para com o senhor nun- historiador de nossos dias ávido de conhe-
ca cessavam. O servo não podia casar sem a cer a antiga gens, é que as informações a seu
autorização do senhor, e os filhos nascidos respeito são datadas do tempo em que a gens
do seu casamento deviam obediência ao já não era mais a sombra de si mesma.40:81 A
mesmo senhor. Formava-se assim, na inti- gens formava um corpo de constituição in-
midade da grande família, certo número de teiramente aristocrática. Graças a esta orga-
pequenas famílias clientes e subordina- nização interior, os patrícios de Roma e os
das.40:90 eupátridas de Atenas conseguiram tornar os
A clientela é vínculo sagrado formado seus privilégios muito duradouros. Estava
pela religião, nada havendo que possa tão prenhe de vida e enraizada nos costu-
rompê-lo. Quem fosse algum dia cliente de mes, que não se pôde fazê-la desaparecer
uma família, nunca mais podia dissociar-se inteiramente.40:80
dela. A clientela dos tempos primitivos não Primitivamente eram os cidadãos, che-
era uma relação voluntária e passageira en- fes de família, que se reuniam e tomavam
tre dois homens, mas hereditária. De pai a conjuntamente as decisões. Entendia-se que
filho, se era cliente por dever. Por tudo isso, cada família era representada por seu chefe,
a família dos tempos mais antigos, com o e que o conjunto dos chefes de família re-
seu ramo mais velho e os seus ramos mais presentava devidamente a polis, a comuni-
novos, seus servos e clientes, podia consti- dade política ou cidade. Uma vez que seria
tuir numeroso grupo humano.40:90 materialmente impossível todas as pessoas
Esse pequeno mundo diferencia-se de se reunirem para tomar as decisões de inte-
outros pequenos mundos congêneres, isto é, resse geral, entendia-se que elas deviam ser
das outras famílias, por notas características representadas. O critério de representação era
que lembram em modelo pequeno as dife- natural: sendo a sociedade composta de fa-
renças entre as regiões de um mesmo país, mílias, e sendo as famílias dirigidas pelos
150 A volta ao mundo da nobreza

respectivos chefes, uma reunião desses che- ciar-se uns dos outros, mas a família tende a
fes representaria a sociedade no seu conjun- penetrar em todos. Nenhum desses órgãos é
to.8:171 capacitado a exercer sobre a família uma
influência igual à que esta pode exercer so-
From: Taparelli bre os referidos órgãos, sejam eles quais fo-
Estou gostando da sua exposição, caro rem.89:107
Delassus. Sou estudante de sociologia, e O conjunto das famílias francesas foi
compareço hoje pela primeira vez. Gostei governado como uma família. O território
especialmente de saber que os representan- sobre o qual se exerciam essas diversas au-
tes do povo eram antigamente os chefes de toridades, quer se tratasse do chefe de famí-
família, e não esses políticos populistas de lia, do chefe de mesnada, do barão feudal
hoje, que não têm nenhuma raiz na alma do ou do rei, os documentos o denominam uni-
povo, porém se autodenominam represen- formemente pátria, isto é, o domínio do pai.
tantes do povo. Na origem, a pátria foi o território da famí-
lia, a terra do pai. A palavra estendeu-se ao
From: Delassus senhorio e ao reino inteiro, sendo o rei o pai
Eu estava me referindo ao mundo anti- do povo. O conjunto dos territórios sobre os
go, Taparelli, mas de fato isso perdurou até quais se exercia a autoridade do rei chama-
a Revolução Francesa, e foi minguando de- va-se, portanto, pátria.89:315
pois dela até desaparecer quase completa- O desenvolvimento extraordinário que
mente. Outrora se dizia que no lar, mesmo o tomou o governo da França – sobretudo a
mais modesto, o pai era rei dos filhos; e o partir do século XVI – e a organização da
rei era o pai dos pais.89:111 O Estado é uma vida de corte diminuíram a ação direta da
grande família composta de todas as famíli- família real sobre a França. Ela permaneceu
as. A família serve de fundamento à socie- no entanto considerável. Mesmo sob Luís
dade nacional, pois um povo, uma nação, XIV e sob Luís XVI, a França tinha a dirigi-
nada mais é que um conjunto de muitas fa- la uma família. Isso é tão verdade que
mílias.37:1:24 Napoleão não hesitou um instante em cami-
Em virtude da pujança da família patri- nhar por essa via. Ao subir, elevou consigo
arcal, em vez de o Estado invadir a área da todos os Bonapartes. Na Áustria, Alemanha,
família, a família tendia a assimilar-se ao Bélgica, Inglaterra e outros países, uma fa-
Estado. Quando a direção do Estado não mília presidia os destinos da nação, e era
cabia a uma família, acabava estendendo-se amada e respeitada como a primeira do país.
a um grupo de famílias, dando origem a uma Personificava suas tradições e suas glórias.
sociedade aristocrática.14 Sua prosperidade e a do país eram uma só.
Da mesma forma que a família bem Levava consigo as esperanças do futuro.
constituída é a verdadeira imagem da nação, Todos sabiam disso e viviam em paz.50:21
e o poder doméstico semelhante ao poder
do soberano, o direito de mando na família From: Tocqueville
é o verdadeiro modelo de governo da coisa Delassus, sou também estudante de so-
pública.37:1:24 Qual a relação da família com ciologia, e venho acompanhando o trabalho
os vários corpos situados na faixa interme- do Beaugeste há uns dez dias. Em uma das
diária entre o indivíduo e o Estado? A situa- reuniões deste salão, em que fez sua exposi-
ção dela perante tais órgãos é toda peculiar. ção o Brentano (creio que foi no 18º dia),
Os corpos intermediários tendem a diferen- ele falou sobre a origem do feudalismo, e
24 — A estrutura da sociedade deve ter como base a família 151

fiquei com a impressão de que a base de toda lia.37:1:220 Não se deve imaginar que fosse uma
aquela organização social era mesmo a fa- filiação abstrata, de origem distante, e que
mília. Você pode estender-se um pouco so- se mostrasse apenas por exterioridades e fór-
bre esse aspecto, que me parece muito im- mulas de respeito. A origem é direta, esta-
portante? belecida por fatos precisos, cujas conseqü-
ências se mantinham através dos séculos do
From: Delassus modo mais vivo.37:1:18
Com prazer, Tocqueville. Como estamos O governo monárquico nasceu com a
usando pseudônimos, pode ser até que seja- própria natureza, diretamente derivado da
mos colegas de faculdade sem o sabermos. primeira das autoridades, que é a paterna,
Podemos cuidar disso depois, mas agora vou na primeira das sociedades, que é a famili-
atender o seu pedido acrescentando algumas ar.8:83 É característico da monarquia haver no
informações ao que o Brentano já expôs. cume do Estado uma única pessoa, com fun-
O feudalismo foi constituído nos sécu- ções vitalícias e hereditárias. Mas não basta
los X e XI pelas famílias francesas, que trans- que haja no cume do Estado uma única pes-
formaram em instituições públicas as suas soa, para que esteja caracterizada a existên-
instituições privadas. Após a invasão dos cia de um regime autenticamente monár-
bárbaros, o Estado já não existia e a família quico. Na autêntica monarquia o povo, no
tomou-lhe o lugar. A vida social se restrin- seu conjunto, sente-se integrado numa imen-
giu às vizinhanças do lar, limitou-se aos sa família, fazendo o monarca as vezes de
muros da casa.37:1:12 pai. Sob a autoridade paternal dele todos vi-
Desde o século X a família se ampliou, vem, até os maus filhos.9:42
não se limitando ao pai, mãe, filho e servi- Essa modelagem do Estado e da Nação
dores domésticos. Antigamente a família à imagem da família é uma característica
francesa constituía um todo denso e homo- fundamental da verdadeira monarquia.9:42 A
gêneo, que se governava com inteira inde- autoridade do rei era quase a do pai de famí-
pendência em relação ao Estado, sob a auto- lia. O poder patriarcal e o poder real são, na
ridade absoluta de seu chefe natural, o pai, e sua origem, parentes muito próximos. É
na via das tradições e costumes legados por manifesto que o rei desempenha o papel de
seus ancestrais.50:106 O espírito de solidarie- um chefe de família patriarcal.50:34
dade, revigorado pelas necessidades da épo- Como a origem da autoridade real é o
ca, unia e mantinha fixados ao tronco os di- nascimento, toda a nação pode amar o prín-
versos membros da família, que continua- cipe como a família ama a criança nascida
vam a receber do pai ou do irmão mais ve- no seu seio. E assim, se de algum modo o
lho uma direção comum. Essa família am- rei é o pai do seu povo, também de algum
pliada incluía os parentes reunidos em torno modo é filho do seu povo. Só em monarquia
do chefe do ramo principal, os servidores e esta inter-relação é possível. Como os reis
também todos os que viviam em torno da não são criaturas da vontade de grupos, po-
família e em função dela.37:1:15 dem ser objeto do amor de todos.8:213
O poder real teve origem na autoridade O historiador Funck-Brentano esclare-
que exercia o barão feudal como pai de fa- ce: Nada é mais difícil para um espírito mo-
mília. O rei representava no reino a imagem derno do que compreender o que eram, na
do pai, e a autoridade do rei era de modo antiga França, a personalidade real e os sen-
geral a do pai de família. O princípio do po- timentos pelos quais os súditos lhe estavam
der real é familiar, o rei é o chefe da famí- unidos.50:41 Originariamente pai de família,
152 A volta ao mundo da nobreza

o rei morava na alma popular, vagamente e paternidade, no Céu como na terra, tira o
sem que ela disso se apercebesse, como o seu nome.89:111 Em muitos países, os reis eram
pai junto ao qual se vai procurar apoio e abri- realmente sagrados ou ungidos pela Igreja,
go. Para ele, ao longo dos séculos, voltaram- numa cerimônia própria. Entendia-se tam-
se instintivamente os olhares em caso de bém que os monarcas deviam agir na terra
desgraça ou necessidade. 50:42 Dizia-se enquanto representantes de Deus – É por
comumente que o rei era o pai de seus súdi- Mim que reinam os reis, diz a Escritura – e a
tos. Estas palavras correspondem a um sen- esse título mereciam respeito especial. A fun-
timento real e concreto, tanto da parte do ção real tinha analogia com a paternidade, o
soberano como da nação. Chamar o rei de que muito explicavelmente conferia ao mo-
pai do povo é menos um elogio do que uma narca uma respeitabilidade singular.8:194
definição. A nação tinha pelo rei, ao mesmo
tempo, a ternura que se tem por um pai e o From: Delassus
respeito que só se deve a Deus.50:41 Seus esclarecimentos são muito oportu-
Compete ao monarca estimular tudo o nos, Camerlengo. Pretendo acrescentar agora
que há de bom em seu povo; proteger os fra- alguns comentários sobre a decadência que
cos, os menos favorecidos; e corrigir o que houve na família durante e após a Revolu-
estiver errado e precise de correção. Essas ção Francesa.
três tarefas correspondem precisamente ao O sociólogo Le Play ressalta o papel da
dever de um pai na formação de seus filhos, família antes da Revolução Francesa: “As
e deve ser esse o papel do monarca.8:73 Mui- relações da família com o senhor se basei-
to significativo a este respeito é o que disse am ao mesmo tempo no respeito e na fami-
Henrique IV a um embaixador. Alguns anos liaridade que reinam entre os filhos e seu
depois do início do seu reinado, vendo o pai. Sua autoridade fornece ao camponês um
embaixador da Espanha espantado com a ponto de apoio para a conservação da pro-
prosperidade da França e a transformação priedade. O senhor exerce sua autoridade,
de Paris, explicou-lhe: “O pai de família não como o fazia o suserano da Idade Média, para
estava mais aqui, mas tudo volta a prosperar manter o regime da comunidade na família.
quando ele passa a cuidar dos seus fi- Ele a protege contra a usura. O senhor con-
lhos”.50:227 cede ajuda à família em todas as circunstân-
cias em que seus meios de existência se
From: Camerlengo acham comprometidos; por exemplo, em
Gostaria de ressaltar que não pode ser caso de incêndio, escassez, peste nos reba-
esquecido em tudo isso o papel importante nhos e doenças epidêmicas. E o senhor pode
da Igreja Católica. A aristocracia pagã ufa- contar com o trabalho dos camponeses para
nava-se exclusivamente da sua ilustre pro- o êxito do seu próprio empreendimento”.50:57
gênie, mas a nobreza cristã soma a este títu- Em fevereiro de 1774, o Parlamento de
lo outro ainda mais alto: o de exercer uma Provence ainda podia escrever ao rei: “Cada
função paternal junto das outras classes. A comuna entre nós é uma família que gover-
glória cristã das elites tradicionais está em na a si própria, que estabelece para si as leis,
servir à Igreja e ao bem comum.89:76 que zela pelos seus interesses. O prefeito do
Sobre o caráter sagrado da autoridade município age em relação a elas como um
paterna, ensinou S. Paulo: É por esta razão pai”.50:32
que eu dobro os joelhos diante do Pai de A partir do momento em que a Revolu-
Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda ção começou a corromper os costumes, a
24 — A estrutura da sociedade deve ter como base a família 153

demolição da família e da sua influência na é que os bravos combatentes portugueses são


sociedade foi apenas conseqüência. filhos, e não vassalos do seu rei.89:124
Jean Jacques Rousseau, doutor do Esta- Na república o povo escolhe o governante,
do revolucionário e evangelista da socieda- da mesma forma que as mulheres escolhem o
de moderna, tirou da pretensa bondade na- próprio marido. No entanto ninguém pode es-
tural do homem um sofisma que se encontra colher o próprio pai, e sabe-se que é menos
no Contrato Social: “As crianças permane- freqüente haver maus pais do que maus mari-
cem unidas ao pai apenas enquanto têm ne- dos. Maus pais são minoria, exceções. Maus
cessidade dele para manter-se. Tão logo essa maridos são bem mais freqüentes. Porque a
necessidade cessa, o vínculo natural se des- escolha humana sempre é mais falha do que a
faz. As crianças livres da obediência que escolha da natureza.8:207
deviam ao pai, e o pai livre dos cuidados
que devia ao filho, adquirem igualmente sua
independência. Se permanecem unidos, não
se trata mais de um fato natural, mas volun-
E ssa exposição do Delassus sobre a im
portância da família na organização e
direção da sociedade é muito esclarecedora,
tário, e a própria família só se mantém por e quero agradecer a ele o trabalho que teve
convenção”. Esses conceitos rebaixam o para expor tudo isso de modo claro e con-
homem ao nível dos animais. Entre eles, de vincente. Vou acrescentar três fatos extraí-
fato, o vínculo se dissolve quando cessa a dos do baú, comprovando que as pessoas
necessidade.50:108 davam muito mais importância às relações
Hoje a família só existe entre nós no seu internas da família do que a compromissos
estado elementar. Reconstituí-la é a obra fun- sociais e políticos, ou também ao próprio
damental, sem a qual toda tentativa de reno- conforto ou preferências.
vação permanecerá estéril. Jamais a socie- 
dade será regenerada se a família não o for Estando a família real francesa prisio-
desde o início. Nada há de sólido e durável neira nas Tulherias, houve várias propostas
que não seja natural, e o natural na política é de evasão. Uma delas, proveniente da prin-
a família. A família deve ser o ponto de par- cesa de Hesse-Darmstadt, queria libertar
tida de todas as instituições.50:103 apenas a rainha, que era a mais ameaçada.
O chefe de Estado em uma república Maria Antonieta respondeu:
aparece ao povo já como adulto, e é em vida — Não, princesa. Embora reconheça
que normalmente deixa o cargo. Gerado todo o valor do seu oferecimento, não posso
como chefe pela mecânica constitucional, e aceitar. Consagrei-me por toda a vida aos
por ela apeado do poder, não é conatural aos meus deveres e às pessoas queridas cujas
homens e à nação. A nação pode respeitá-lo, desventuras compartilho; e que, digam o que
obedecer-lhe, exaltá-lo, pode mesmo fazer disserem, merecem todo o interesse pela
dele objeto de paixão. O amor, porém, é de coragem com que suportam a sua sorte. Que
outra ordem.8:213 tudo isso que estamos fazendo e sofrendo
Por muito épicas e brilhantes que fossem possa um dia tornar felizes os nossos fi-
as recordações que uniam os franceses a lhos.105:350
Napoleão, não tinham a força de coesão dos 
vínculos familiares. Napoleão não poderia di- Na época em que os pais decidiam pelos
zer dos seus exércitos o que a rainha Isabel de filhos com quem estes se casariam – nisso
Castela afirmou do leal e aguerrido povo por- se repetia o que era o habitual em casamen-
tuguês: O segredo dessa lealdade e dedicação tos entre os nobres, por razões de Estado – o
154 A volta ao mundo da nobreza

casamento envolvia características de negó- 


cio entre famílias. Um conselheiro do parla- Cambacérès era o segundo homem em
mento de Dijon combinou com um amigo o importância no império de Napoleão. Um
casamento do seu filho com a filha deste; e dia ele encontrou Milleroye e o convidou:
o filho só tomou conhecimento através de — Amanhã almoçarás em minha casa.
comentários que ouviu na cidade. Decidiu — Não posso, pois já tenho outro con-
então apresentar-se no escritório do pai – a vite.
primeira vez que o fazia sem ser chamado – — Suponho então que seja do impera-
e perguntou: dor.
— Tenho ouvido dizer, meu pai, que o — Não, da minha mãe.109:1537
senhor revolveu casar-me com uma deter-
minada pessoa. Poderia informar-me o que
há de fundamento nesses rumores?
Surpreso diante dessa pergunta inespe-
P areceu-me muito proveitosa a reunião de
hoje, meus amigos. Conhecer a influên-
cia da família na correta organização da so-
rada, o conselheiro olhou com severidade ciedade é de máxima importância, e creio
para o filho e lhe ordenou: que ainda haverá muitas coisas a dizer sobre
— Vá tratar de negócios que sejam isso. Como conclusão do que vimos hoje,
seus.37:1:47 podemos afirmar que

A estrutura da sociedade
deve ter como base a família
155

25º dia

P rezados amigos, a boa colaboração do


Delassus sobre a família vai nos permi-
tir esclarecer um ponto importante nesse as-
nitude da sua verdade humana e sobrenatu-
ral.89:72
Não se nega à transmissão dos caracteres
sunto: De onde vem o título de nobreza? Pre- hereditários um substrato material, devido à
liminarmente, pode-se constatar facilmente união íntima da nossa alma com o nosso
que nobres são aqueles que pertencem a fa- corpo. Em larga medida as nossas próprias
mílias nobres. É claro que para isso houve atividades mais espirituais dependem do
um começo, ou seja, um antepassado que se nosso temperamento físico. Por isso a mo-
tornou nobre por algum motivo. Algo disso ral cristã lembra aos pais as grandes respon-
nós já discutimos alguns dias atrás. Vamos sabilidades que lhes cabem a esse respei-
agora transmitir informações adicionais que to.89:72
nos passou o Camerlengo, sobre a perma- O que mais vale é a herança espiritual,
nência das características de nobreza dentro transmitida por esses misteriosos liames da
de uma mesma família. E iremos intercalan- geração material, mas principalmente pela
do fatos à medida que o assunto o permita. ação permanente do ambiente privilegiado
que constitui a família: a lenta e profunda
A sociedade é um ente coletivo mais formação das almas, na atmosfera de um lar
durável que as famílias; e estas são mais rico de altas tradições; a mútua influência
duráveis que os indivíduos que as compõem entre os que moram numa mesma casa; os
nas várias gerações. O mais durável só tem benéficos efeitos que se prolongam para
a se beneficiar com a força propulsora da muito além dos anos da infância e da juven-
aristocracia, na medida em que a aristocra- tude. Ao termo de uma longa vida, as almas
cia tenha uma ação propulsora tão durável eleitas terão fundido em si mesmas os te-
quanto a própria sociedade. À tradição com- souros de uma preciosa hereditariedade com
pete assegurar a durabilidade, os rumos e as o contributo das suas próprias qualidades e
características dessa força propulsora. Dir- experiências.89:72
se-ia que as próprias virtudes e a própria É certamente reconhecido como verda-
perfeição tendem a tornar-se hereditári- deiro que a nobreza, a magnificência, a dig-
as.89:244 nidade, a virtude e a autoridade dos pais in-
Misteriosa é a hereditariedade, que faz duzem muito os filhos a manterem o zelo
passar através de uma estirpe um rico acer- por essas mesmas coisas. De onde se segue
vo de bens materiais e espirituais e mantém que os nobres, como por um instinto da na-
a continuidade de um mesmo tipo físico e tureza, são desejosos da honra, cultivam a
moral, perpetuando-os de geração em gera- magnanimidade, desprezam as vantagens de
ção e conservando de pai para filho a tradi- baixo preço, recusam tudo o que reputam
ção que une através dos séculos os mem- indigno da sua nobreza.89:288
bros de uma mesma família. Pode-se A solidariedade familiar surge do amor
distorcer a verdadeira natureza com teorias gerado pelos laços de sangue, da comunida-
materialistas, mas deve-se considerar esta de de vida e de perigos, da necessidade de
realidade, de tão grande importância na ple- proteção em comum sob a égide de um che-
156 A volta ao mundo da nobreza

fe. As dinastias só se formam onde tais fato- ciedade deve reconhecer-lhe os meios dos
res produziram o mesmo efeito, onde a ne- quais necessita para este supremo magisté-
cessidade de se colocarem de acordo para rio social.89:245 A estirpe tem um grande po-
garantir a vida atraiu as forças vizinhas e as der sobre os nossos desígnios, e até sobre as
fez contribuir para um grande desenvolvi- nossas próprias ações, seja pela afinidade das
mento de ação e de vida. As nações também paixões que muitas vezes herdamos dos nos-
não se fizeram de outro modo.50:102 sos ancestrais, seja pela memória que con-
Muitos consideram justo que mereça um servamos dos seus feitos.89:292
título nobiliárquico a pessoa que tenha pra-
ticado ações árduas e reveladoras de quali-
dades pessoais relevantes, especialmente
quando servem de exemplo a muitos e acar-
I nterrompo um pouco a sua exposição, caro
Camerlengo, para apresentar quatro fatos
históricos que estão aqui no meu baú, e que
retam importantes efeitos para o bem co- ilustram essas afirmações.
mum. Acham, no entanto, que não se justifi- 
ca a transmissão desses títulos nobiliárquicos O duque de Vendôme era bisneto de
à descendência de quem os recebeu, pois Henrique IV, rei francês de origem espanho-
muitas vezes os grandes homens têm filhos la. Depois que ele demonstrou no campo de
medianos, que não fazem jus aos merecimen- batalha o seu grande conhecimento da arte
tos dos seus maiores. Mas a aplicação de tal militar, o rei espanhol Filipe V lhe disse:
raciocínio veda a formação de famílias no- — Vosso pai não era dotado de gênio
bres e ignora a sua missão propulsora para o militar, e me surpreende que o sejais.
aperfeiçoamento contínuo de todo o corpo Aludindo a Henrique IV, seu antepassado
social. Esse aperfeiçoamento é um elemen- espanhol, ele respondeu:
to indispensável para a caminhada contínua — Senhor, os meus dons vêm de mais
de uma sociedade, de um país, rumo às for- longe.58:2:413
mas de perfeição desejadas pelos indivídu- 
os, porque amam a Deus que é a própria Quando Napoleão deu a Talleyrand o tí-
Perfeição.89:244 tulo de príncipe de Benevento, muitos co-
A nobreza da carne muito contribui para meçaram a chamá-lo de Alteza, e ele escla-
o verdadeiro reluzimento da alma e propor- receu:
ciona-lhe não pequenos benefícios. O esplen- — Por favor, chamem-me simplesmen-
dor do sangue, a virtude dos antepassados e te Sr. Talleyrand. Alteza! Sou menos do que
os feitos famosos predispõem de modo ma- isso, mas certamente muito mais.38
ravilhoso o varão nobre a marchar sobre as 
pegadas daqueles de quem ele descende. Luís XVIII, após a Restauração, convi-
Também a sua própria natureza é mais incli- dou Talleyrand para uma conversa particu-
nada ao bem e à virtude, pela conformidade lar.
do seu sangue com o dos seus progenitores, — Nossas famílias, Sr. Talleyrand, da-
pela transmissão do espírito deles, pela pe- tam da mesma época. Meus antepassados
rene memória que retém das suas virtudes, tiveram sobre os seus a única vantagem de
pela reta educação e formação proveniente ser mais hábeis. Se ao invés disso os seus
de varões ilustres.89:288 tivessem sido mais hábeis, hoje o senhor
Não há escola comparável ao lar de uma poderia dizer-me: Sente-se, Sr. Luís de
estirpe autêntica e cristãmente aristocrática. Bourbon, e tratemos de negócios. Sou eu
Quando sabe cumprir os seus deveres, a so- quem hoje lhe diz isso.33,38
25 — As características de nobreza se mantêm dentro da família 157

 um curtidor de peles em Autun. Quando o


Em 1771, a princesa de Conti disse ao príncipe de Mayenne foi visitá-lo na casa
marido: paterna, enquanto conversavam entrou o
— Eu posso fazer príncipes de sangue velho com sua roupa de trabalho, e foi apre-
sem vós, mas não podeis fazê-los sem sentado ao príncipe:
mim.1:29 — Este é o meu pai, o dono desta casa, e
é ele que vos recebe.
From: Camerlengo O príncipe o abraçou, e fez questão de
Mesmo quando têm origem modesta, que mantivesse à mesa o seu lugar de hon-
algumas pessoas podem desenvolver um ra.32:7580
profundo senso do bem comum, e a partir 
daí passam a tornar-se dignas de uma distin- O construtor mestre Butaca fora encar-
ção conferida pelo título de nobreza. A pro- regado pelo rei D. Manuel das obras do
priedade individual tende a fixar-se nas li- mosteiro de Nossa Senhora de Belém. Num
nhagens dos proprietários. A instituição da dia em que foi lá inspecionar o trabalho, de-
família conduz a isso com todas as suas for- teve-se longamente em alguns detalhes. O
ças, donde se terem constituído linhagens ou barão de Alvito lembrou-lhe que era neces-
até “dinastias” comerciais, industriais ou sário embarcar de volta, pois já era tarde e
publicitárias. Cada um desses agrupamen- se arriscavam a perder a maré. Mestre Butaca
tos familiares pode exercer sobre o curso dos disse então ao rei:
acontecimentos políticos um poder incom- — Senhor, se Vossa Majestade gosta da
paravelmente maior que o do simples elei- obra e deseja examiná-la, mandai ao barão
tor... embora todos os cidadãos sejam iguais que se vá. Porque podeis fazer quantos ba-
perante a lei.89:142 rões quiserdes, mas não podeis fazer um
Numa organização social aberta a tudo mestre Butaca.62:996
que a enriquece de verdadeiros valores, as 
famílias que progridem convertem-se pau- Com a morte do marechal Lefèbvre, a
latinamente numa classe aristocratizada, aca- sua despachada viúva Catherine Hubscher
bando por fundir-se gradual e suavemente levou ao Museu de Artilharia o bastão de
na aristocracia. Pela força dos costumes, marechal do marido, como doação. Agrade-
constituem ao lado da aristocracia já exis- cendo, o diretor do museu mostrou-se ad-
tente uma nova aristocracia com peculiari- mirado de que a família não quisesse con-
dades específicas. Os governantes devem servar uma lembrança tão preciosa.
proceder de maneira acolhedora em relação — Bem se vê que o senhor não conhece
a tais aprimoramentos da estrutura político- a minha família. Aquilo é gente muito capaz
social, auscultando os anseios que animam de se servir do bastão de marechal para que-
o rumo das sadias transformações sociais e brar nozes.81:185
as aspirações da sociedade orgânica.89:143 
Um soldado da guarda de Luís XII jul-

T enho também alguns exemplos que mos-


tram essa possibilidade de ascensão de
pessoas não nobres a posições de nobreza,
gou-se ofendido por um nobre, e o desafiou
para um duelo; mas este se recusou, alegan-
do que o soldado não era nobre. O rei fran-
muitas vezes com base no seu valor pessoal. cês queria evitar duelos, e mandou chamar
 os dois. Perguntou ao soldado:
O magistrado Pierre Jeannin era filho de — O senhor é nobre?
158 A volta ao mundo da nobreza

— Só sei que descendo de Noé, da mes- fácil um Montmorency tornar-se generalíssimo


ma forma que Vossa Majestade. do que hoje tornar-se coronel.
Voltando-se para o nobre, o rei disse: Tranqüilo, Ségur respondeu:
— Este homem não pode também duelar — Conheço a história da França, senhora,
com o senhor, pois é meu parente muito pró- e sei que os Montmorency sempre tiveram os
ximo, como acabamos de ver.32:8593 postos que mereciam.32:13330

From: Contrappunto O duque de York, notando seu pai Carlos
Cá estou eu novamente, na minha fun- II acompanhado apenas por duas pessoas,
ção de desmancha-prazeres. Acontece que manifestou sua preocupação por estar ele tão
temos de levar também em consideração a pouco protegido.
possibilidade de decadência dentro da famí- — Não se preocupe. Ninguém vai querer
lia. E é sempre possível surgir uma pessoa tirar a minha vida para tornar você rei.30:1981
ou ramo da família que desmerecem o título 
que receberam. O escritor Alfred de Vigny nasceu em
 1797, de família nobre empobrecida antes da
O general Junot, tornado nobre por Revolução Francesa. Tinha no entanto todo o
Napoleão, conversava com o duque Laval de direito ao título de conde. Durante uma tertú-
Montmorency, e lhe disse: lia familiar, falou diante de alguns admirado-
— Senhor duque, entre os nobres antigos res sobre a ruína em que a Revolução France-
e os recentes há uma notável diferença: vós sa precipitara sua família, pintando com rela-
sois os descendentes preguiçosos de antepas- tos sombrios a destruição dos castelos, o sa-
sados gloriosos, e nós somos os antepassados que aos palácios, as espoliações sem conta que
gloriosos dos nossos descendentes preguiço- os haviam lançado na miséria. Em certa altu-
sos.32:7630 ra, sua mãe o interrompeu:
 — O que você relatou sobre a Revolução
A Sra. de Fleury, da família Montmo- é verdadeiro, Alfred, mas você sabe muito bem
rency, pediu ao general de Ségur o posto de que em 1789 nós já éramos pobres.109:2663
coronel para o seu irmão, mas o pedido foi
recusado. Indignada, ela atacou:
— Portanto o meu irmão não é digno de
ser coronel? Se os Ségur existissem há duzen-
A qui ficamos por hoje. Apesar das exce-
ções mencionadas pelo Contrappunto,
pode-se tirar uma importante conclusão com
tos anos, saberíeis que naquela época era mais base nos textos apresentados:

As características de nobreza
se mantêm dentro da família
159

26º dia

H á um ponto muito importante a distin-


guir entre os costumes monárquicos e
republicanos, que é a educação específica
momento em que deva assumir o trono, pos-
sua uma bagagem de conhecimentos que lhe
dá maiores probabilidades de sair-se bem do
para a função de governar. Nas famílias prin- que um improvisado presidente da repúbli-
cipescas isso se faz por dever de ofício, e de ca.8:208
acordo com o objetivo de vida que compete
à criança desde o nascimento. Desta forma, From: Joinville
no regime monárquico não se escolhe para As cartas de S. Luís IX á sua filha Isabel
governante o mais apto, mas espera-se en- mostram essa preocupação do rei em que
contrar aptidão na pessoa que a natureza seus filhos adquiram as aptidões e costumes
designou. Prepara-se essa pessoa com todo necessários para desempenharem sua futura
o cuidado, para que a aptidão se desenvolva missão.
da melhor maneira possível.8:212 Já no siste- 
ma republicano o caminho está aberto para “Estimada filha, deves obedecer humil-
qualquer aventureiro. Alguém que a certa demente ao teu marido, ao teu pai e à tua
altura da vida tenha decidido que o melhor mãe, nas coisas que são de acordo com Deus.
para si mesmo é ser governante, para esse Deves atribuir a cada um deles aquilo que
efeito pode começar a angariar apoios dos lhes pertence, pelo amor que deves ter a eles;
poderosos e dos eleitores; nem sempre ba- e também por amor a Nosso Senhor Jesus
seados nas suas aptidões pessoais, mas mui- Cristo, que assim ordenou. Porém, quando
to freqüentemente na sua habilidade de agra- se trata de ofender a Deus, não deves obede-
dar ou iludir a muitos. cer a ninguém. Deves pôr toda a atenção em
Desde criança o príncipe é preparado te tornares perfeita em tudo que é bom, de
cuidadosamente para as funções que um dia tal modo que todos, quando virem ou ouvi-
deverá desempenhar. Seu pai escolhe a dedo rem falar de ti, possam tomar-te como exem-
os mestres e preceptores encarregados de lhe plo”.78:33
ministrar os conhecimentos necessários, e Mais adiante ele aconselha:
vigia meticulosamente sua educação e seu “Parece-me bom que não tenhas exces-
aproveitamento; os esforços e os progressos so de jóias e roupas, na situação em que es-
do pequeno príncipe são acompanhados pas- tás. Melhor me parece dá-las como esmola,
so a passo, com esperançoso interesse, pe- pelo menos aquelas que estão sobrando. Pa-
los cortesãos e por todo o povo; o rei seu pai rece-me também aconselhável não dispen-
o instrui pessoalmente nos princípios de sar muito tempo nem muito esforço para se
governo e nos segredos de Estado; desde embelezar e ataviar. Evita cometer excessos
muito jovem ele assiste aos despachos dos na toilette, preferindo nisso o menos ao
ministros com seu pai, presencia as sessões mais”.78:33
de Conselho de Estado e nelas toma parte 
ativa; substitui seu pai quando este, por qual- Séculos depois, uma orientação muito
quer motivo, fica temporariamente impedi- parecida foi transmitida pelo sucessor
do. Tudo isso faz com que o príncipe, no Henrique IV aos seus filhos e aos nobres de
160 A volta ao mundo da nobreza

modo geral, pois desejava que os nobres es- nos seus primeiros anos. Quanto a mim, es-
tivessem acostumados a viver cada um dos tarei isento de qualquer censura, pois a es-
seus próprios bens, e dessa forma gozassem colha que fiz deixa-me tranqüilo.
de muita largueza; que cuidassem das suas Depois dessas palavras do rei, Mon-
casas e beneficiassem suas terras. Assim os tausier se ajoelhou diante do príncipe, to-
aliviava de grandes e ruinosas despesas na mou-lhe as mãos e osculou-as, dizendo:
corte, devolvendo-os às províncias e ensi- — Senhor, recebei esta manifestação de
nando-lhes que o melhor capital que se pode todo o meu respeito e submissão. É a única
formar é o de uma boa administração. Sa- que será permitida, durante muitos anos, a
bendo que os nobres franceses se empenha- um homem que se tornará vosso pai e se-
vam em imitar o rei em tudo, ensinava-lhes nhor.58:2:10
por seu próprio exemplo a cercear os costu- 
mes supérfluos, vestindo-se habitualmente O duque de Montausier procurava incu-
com tecido cinzento, gibão de cetim ou de tir no delfim a necessidade de sempre agir
tafetá sem recortes, ornamentos e bordados. sensatamente e com paciência. Um dia o alu-
Elogiava os que se vestiam do mesmo modo no imaginou-se ofendido pelo duque, exal-
e se ria dos outros, dizendo que carregavam tou-se e ordenou, como quem se dispõe a
seus moinhos e bosques sobre os ombros.50:72 um duelo:
— Tragam minhas pistolas.
From: Saint Simon — Entreguem ao príncipe as suas pisto-
A escolha dos tutores e preceptores para las – confirmou ele aos criados.
os príncipes era muito cuidadosa, e disso eu Quando as pistolas lhe foram entregues,
posso fornecer alguns exemplos. o príncipe entendeu o erro que cometera,
 ajoelhou-se e pediu perdão.27:2:232
Luís XIV queria confiar a educação do 
delfim a Bossuet, bispo de Meaux, mas re- Maria Antonieta confiou a Mme. de
ceava algum conflito dele com o duque de Tourzel o cargo de governante do delfim, seu
Montausier, governador do palácio. Este ar- filho de quatro anos, e lhe forneceu por escrito
gumentou: uma análise lúcida destinada à sua orientação:
— Majestade, o importante não é que o “Meu filho tem quatro anos, sua saúde sem-
preceptor seja conveniente para mim, e sim pre foi boa. Como toda criança forte e de boa
para o príncipe. Além disso, podeis estar cer- saúde, ele é estouvado e suas cóleras são rápi-
to de que nunca exigirei nada contrário à dig- das e violentas. Mas é um bom menino, terno
nidade de um bispo.58:2:5 e carinhoso quando não se deixa levar pelo
 estouvamento. É de grande fidelidade quando
Quando apresentou ao delfim o duque promete algo, mas muito indiscreto. Repete
de Montausier como seu preceptor, Luís XIV desembaraçadamente o que ouviu dizer, e
disse: freqüentemente acrescenta a isso o que sua
— Este é o homem a quem confiei a tua imaginação lhe fez ver, embora sem a inten-
educação. Estou certo de que não poderia ção de mentir. É o seu maior defeito, do qual
fazer nada de melhor para ti e para o meu precisa ser corrigido”.59:264
reino. Se seguires as suas instruções e os seus
exemplos, serás como eu quero. Se não os From: Taparelli
aproveitares, terás menos desculpas que ou- Há uma grande variedade de métodos de
tros príncipes que recebem poucas atenções educação, em boa medida decorrentes de di-
26 — Os príncipes têm educação especializada para governa 161

ferenças de mentalidade entre uma nação e 


outra, entre um rei e outro, entre um preceptor Dom Luís de Quijada, tutor de D. João
e outro. Mas todos confluindo para um objeti- d’Áustria durante a infância, embarcou para
vo comum, que é tornar o príncipe o mais apto a corte espanhola em 1556, por determina-
possível para alcançar o progresso e o bem estar ção do novo rei Filipe II. Ao se despedir do
da nação. Vejamos alguns exemplos onde se seu pupilo, e notando-lhe lágrimas nos olhos,
manifestam essas diferenças. recomendou:
 — Guarda tuas lágrimas para o confes-
O preceptor Fénelon recorreu a um arti- sionário. Um cavalheiro chora somente de
fício para corrigir o defeito da cólera no seu joelhos, quando confessa os seus peca-
discípulo duque de Borgonha. Num dia em dos.28:35
que ele destratou um dos empregados, deu 
ordem a todos os outros de perguntar-lhe, O cardeal de Fleury assistia ao jantar do
sempre que o encontravam: delfim de Luís XV, e resolveu dar-lhe uma
— Vossa Alteza está doente? lição de moderação. Começou por enume-
Ele acabou convencendo-se de que real- rar os vários objetos do recinto, e para cada
mente estava doente, e foi convocado o mé- um acrescentava:
dico Fagon. Este o examinou detidamente, — Isto pertence ao rei; ou: aquilo veio
e depois perguntou: do rei; ou ainda: nada disso vos pertence.
— Por acaso o senhor cedeu à cólera? Irritado com tantas restrições, a criança
— O senhor adivinhou. Mas isso provo- replicou com vivacidade:
ca doença? — Está bem que tudo o mais pertença
— É claro que provoca. ao rei, mas pelo menos o meu coração e o
Em seguida enumerou todos os proble- meu pensamento me pertencem.58:3:142
mas que isso pode causar, chegando até à 
morte súbita. Prescreveu um regime adequa- Quando Luís XIII era criança, suou todo
do para os dias seguintes, e recomendou que o corpo ao correr nos jardins de Fontai-
em vez de se irritar ele permanecesse tran- nebleau. Um criado se aproximou para
qüilo, sem falar, e pensasse em outros as- limpá-lo, mas ele não queria permitir.
suntos.58:1:175 — Se eu não vos limpar, correis o risco
 de ficar doente.
Foi ensinado ao duque de Borgonha que — E quando eu estiver suado durante
ele devia aprender a controlar seus senti- uma batalha, quem é que vai limpar-
mentos, contendo as próprias lágrimas, que me?27:2:320
são um sinal de fraqueza inadequado a um 
homem. Num dia em que se lia a oração O delfim de Luís XI tinha pouca ape-
fúnebre pela sua falecida mãe, ele inclinou tência para o estudo, e a rainha-mãe reco-
a cabeça sobre a mesa, como se tivesse des- mendou ao preceptor que o tratasse com se-
falecido. Perceberam tratar-se de conse- veridade. Um dia ele teve mesmo de recor-
qüência do esforço que ele estava fazendo rer à punição física. Ao apresentar-se à mãe
para conter as lágrimas, e foi então mostra- no dia seguinte, logo após a reverência de
do outro aspecto que as lágrimas podem ter: praxe, reclamou:
naquele caso elas indicavam um bom sen- — Majestade, peço-vos menos reverên-
timento que ele tinha no coração, e não era cias e menos açoites.32:8607
mau derramá-las.58:1:175 
162 A volta ao mundo da nobreza

Carlos XII, quando criança, estava len- prejudiciais. E eu tenho alguns exemplos
do a vida de Alexandre Magno. Pergunta- sobre isso.
ram-lhe: 
— O que pensa desse rei? Quando ainda criança, perguntaram ao
— Que eu quero imitá-lo. filho de Napoleão, conhecido como rei de
— Mas ele só viveu trinta e dois anos. Roma, qual o presente que desejava na pas-
— Isso basta, quando se consegue con- sagem do Ano Novo. Se preferisse um palá-
quistar tantos reinos.1:162 cio, um navio, uma cidade, um exército, nada
 seria impossível a um pai considerado o dono
A princesa Isabel era ainda menina, e do mundo. O menino disse que desejava um
saiu a passeio com seu pai D. Pedro II. To- par de tamancos e a permissão de ir brincar
dos se curvavam diante da carruagem, e em na rua, junto com as crianças que via pela
dado momento a princesinha perguntou: janela brincando nas poças d’água resultan-
— Papai, toda essa gente constitui o tes da chuva.42:156
povo? 
— Sim, uma parte do povo. Napoleão III estava usando um método
— E algum dia esse povo me pertence- espartano para educar o filho Luís Napoleão,
rá? de cinco anos. Em Biarritz, ele deveria pu-
— Não, minha filha. Você é que perten- lar de cabeça para baixo no mar, e ficou apa-
cerá ao povo.34:212 vorado. O pai o repreendeu:
 — Uma pessoa que tem de enfrentar um
O rei Alberto I da Bélgica deu ao Sr. Plas, canhão sem pestanejar pode ter medo da
preceptor do seu filho, algumas instruções água?
sobre o modo como queria que ele fosse edu- — Bem, eu posso dar ordens a um ca-
cado: nhão, mas não ao mar.30:968
— Quero que lhe ensine coisas práticas. 
Detesto que outras pessoas me sirvam, no O infante Carlos – filho de Filipe V, que
entanto não sei resolver sozinho uma infini- depois se tornaria Carlos III – não gostava
dade de coisas. Por exemplo, o Sr. sabe acen- de estudar, e os preceptores foram queixar-
der o fogo numa lareira e mantê-lo aceso? se ao rei.
— Claro, senhor. — Então o infante não quer estudar?
— Pois bem, então ensine a ele como se — Não, senhor.
faz, e quando eu precisar acender a lareira, — Pois se não quer estudar... que não
recorrerei ao meu filho em vez de importu- estude.109:1085
nar um criado.32:82

From: Contrappunto
Ótimo! Afinal um rei sensato, que dese-
T ambém não exageremos do outro lado,
amigo Contrappunto. No seu último
exemplo, acho que o desleixo na educação po-
ja ensinar ao filho coisas práticas. Tudo o deria trazer graves e péssimas conseqüências.
que foi mostrado até agora é muito bonito,
mas você não acha que é exagerado? Crian- From: Joinville
ça precisa também de brincar, pois aprende Em dois exemplos da vida do impera-
enquanto brinca. Uma educação assim tão dor Carlos Magno, pode-se ver também a
rígida põe a criança numa espécie de camisa preocupação com a educação dos nobres e
de força, e pode até gerar distorções muito do povo.
26 — Os príncipes têm educação especializada para governa 163

 
O imperador Carlos Magno tinha muito Passeando um dia com a preceptora no
empenho em fundar escolas. Recomendava jardim de Bagatelle, o delfim correu para
insistentemente aos bispos que se dedicas- lançar-se de encontro a uma roseira. Alcan-
sem a isso nos respectivos territórios, e jus- çado em tempo, a preceptora o advertiu:
tificava: — Senhor, basta um único espinho des-
— É melhor fazer o bem do que conhecê- ta roseira para furar vosso olho e prejudicar
lo. No entanto, não se pode fazer o bem sem definitivamente a visão.
antes saber distinguir o que é o bem.32:2551 — Mas ensinaram-me que os caminhos
 espinhosos conduzem à glória.27:1:415
Carlos Magno instituiu uma escola no
seu palácio. Quando se informou sobre o From: Camerlengo
aproveitamento dos estudantes, notou que os Não se pode esquecer que a influência
filhos de nobres e ricos se aplicavam menos da mãe é enorme na educação da criança,
nos estudos do que os filhos dos pobres. especialmente nos primeiros anos de vida.
Chamou-os, e advertiu: Entre os nobres isso não era diferente. A
— Vós sois filhos de nobres do meu rei- autoridade corresponde ao marido, mas a
no, mas tendes dado pouca atenção às mi- mulher dentro da família é um elemento de
nhas ordens e ao vosso próprio interesse. moderação e de conselho, um elemento de
Para participar de jogos e diversões, tendes relação entre o pai e os filhos. Por ela as or-
descuidado dos estudos e dos deveres. Estais dens do pai se tornam eficazes junto aos fi-
confiando demais na vossa condição de no- lhos. Através dela chegam ao pai as necessi-
bres; mas, se não vos corrigirdes, não dades e os desejos dos filhos. São Tomás diz
recebereis mais nada de mim. Ao invés de que o pai governa os filhos com governo
dar-vos magníficos mosteiros e bispados, dá- despótico (no sentido clássico da palavra) e
los-ei aos vossos colegas pobres, que terão a mulher com governo político. Porque a
mais méritos do que vós.32:2552 mulher é conselheira e participa do poder
do pai. Por outro lado, de certa forma repre-
From: Chateaubriand senta a caridade dentro da família, é como a
Por vezes o discípulo entende mal uma personificação da misericórdia no lar. É ela
informação, e cabe ao preceptor esclarecer que deve estar mais atenta às necessidades
o engano. dos filhos e criados, e mais pronta a mover
 o pai a remediá-las.89:245
Observando seu filho profundamente 
absorto nos estudos, o rei Jorge V quis saber No dia da sua coroação, aos 28 anos, o
o que estava atraindo tanto a atenção do rei Frederico II da Prússia encontrou-se a sós
menino. Bateu-lhe no ombro e perguntou: com sua mãe, que pela primeira vez o cha-
— Você está estudando a respeito de mou de Majestade. Ele a interrompeu:
quem? — Chamai-me sempre filho, senhora.
— Sobre Pedro Warbeck. Este título é mais precioso para mim do que
— E quem foi ele? a dignidade real.109:1556
— Um sujeito que achava que fosse fi- 
lho de um rei. Mas não era verdade, pois o Quando jovem, Luís XIV ouviu de sua
livro só diz que era filho de pais respeitá- mãe, Ana d’Áustria, o seguinte conselho:
veis.30:1985 — Meu filho, procure tornar-se seme-
164 A volta ao mundo da nobreza

lhante ao seu avô, e não ao seu pai. Quando dindo-lhe esmola. Não tendo consigo o que
morreu seu avô Henrique IV, todos chora- dar, o príncipe português mandou-o levar
ram. Mas na morte do seu pai Luís XIII to- para si um burro que estava atado a um es-
dos riram.32:366 teio ali perto. Quando o pobre estava desa-
 tando o burro, chegou o dono e entraram em
A família real francesa foi forçada por discussão. O assunto acabou chegando ao
revolucionários arruaceiros a mudar-se de rei, que mandou devolver o burro ao dono e
Versalhes para as Tulherias, mas esse palá- entregar ao pobre, em dinheiro, a quantia
cio de Paris estava desabitado havia vários equivalente. Mandou depois chamar o prín-
anos, e causou em todos uma penosa impres- cipe à sua presença, e o advertiu:
são. O delfim, de seis anos, exclamou: — Tu és príncipe e serás rei, por isso nun-
— Aqui é tudo muito feio, mamãe! ca podes esquecer que a principal obrigação
Tristemente, a rainha Maria Antonieta do ofício de rei é dar a cada um o que é seu.
procurou tranqüilizá-lo: Em nenhuma hipótese podes dar o que for de
— Luís XIV dava-se bem aqui. Não de- outra pessoa. Vou castigar-te pelo que agora
vemos mostrar-nos mais exigentes do que fizeste, para que nunca te esqueças disso.
ele.53:95 E aplicou-lhe em seguida alguns açoi-
tes.62:25
From: Ségur 
Beaugeste, nesse assunto de educação eu Luís XIII, quando jovem, teve como pre-
tenho alguma coisa a dizer, pois sou profes- ceptor o marquês Pisani. Num dia em que
sora. E o meu pseudônimo foi tomado de iam juntos para a caça, encontraram um cam-
uma das melhores educadoras que a França ponês, que se ajoelhou em sinal de respeito.
já teve, a Condessa de Ségur. Eu gostaria de O menino não lhe deu a mínima atenção e
observar que a situação dos príncipes é bas- fez como se não o tivesse visto. O marquês
tante romantizada, e muitos têm a idéia o repreendeu violentamente, e acrescentou:
fantasiosa de que eles levavam uma vida sem — Não há ninguém menos qualificado
sacrifícios, dificuldades, repreensões e cas- do que esse homem, nem mais qualificado
tigos. Tenho alguns exemplos que mostram do que vós. Mas se ele não trabalhasse a ter-
exatamente o contrário. ra, não teríeis o que comer, apesar da vossa
 arrogância.32:8606
Na sua entrada solene em Anversa, o 
imperador Carlos V foi acompanhado por Durante a minoridade, Luís XIV recu-
seu filho adolescente, que depois o sucedeu sava-se a usar o cordon bleu, apesar da in-
como Filipe II. Foi recebido pelos magistra- sistência do seu preceptor, marechal de
dos da cidade, ante os quais fez a reverência Villeroi. Um dia o preceptor simulou tomar
de praxe, mas não foi imitado pelo filho, que como se fosse rei o tio dele, que usava o
nem sequer tirou o chapéu. Virou-se para ele, cordão azul, e chamou-o de Majestade. O
deu-lhe uma sonora bofetada, e explicou: menino logo reagiu:
— Isto é para que todos saibam que meu — O rei sou eu.
filho não aprendeu comigo esse tipo de com- — Se o Senhor fosse o rei, estaria com o
portamento.32:2427 cordão azul.
 O menino saiu correndo e logo voltou
Dom João III tinha 8 anos, e estava à com o cordão azul, que nunca mais deixou
janela quando se aproximou um pobre pe- de usar.27:1:256
26 — Os príncipes têm educação especializada para governa 165

 — Eu vos havia prometido não me en-


Quando criança, o delfim filho de Luís colerizar, e vos peço desculpas.58:3:143
XV notou que muitas pessoas lhe manifes- 
tavam submissão, mas outras ousavam Num teatrinho familiar, deviam partici-
contrariá-lo. E foi reclamar ao pai: par da peça a princesa de Metternich e o fi-
— O Sr. de Saint-Cyr é um homem que lho de Napoleão. Este, cansado de esperar a
não aceita argumentos. sua entrada em cena, foi para o fundo do
— Entendo bem que as tuas razões não palco e começou a se distrair batendo num
estejam sempre de acordo com as dele. Mas, tambor. Quando entrou em cena a princesa,
com o tempo, elas poderão se aproximar e ele redobrou as batidas. Então ela foi direta-
fazer as pazes.58:3:141 mente a ele, agarrou-o pelo braço, e enquanto
 o lançava para fora do palco, disse:
Enquanto jantava com uma de suas ir- — Se Vossa Alteza entende que, por ser
mãs, o delfim de Luís XV notou que ela se príncipe imperial, tem o direito de incomo-
serviu antes dele, e resolveu chamá-la às dar a todo mundo, está completamente en-
falas: ganado. Saia já, e fique sabendo que costu-
— Eu pensava, Madame, que quando mo castigar crianças mal-educadas, sobre-
estou presente as honras não lhe são devi- tudo quando são príncipes.109:1087
das, mas a mim. 
Ato contínuo, aplicou-lhe a punição fí- A educação do filho de Napoleão foi
sica que lhe pareceu adequada. A duquesa confiada à esposa do conde Montesquiou-
de Ventadour o repreendeu: Fezensac. Durante quase todo o dia, mui-
— Vejo que Vossa Alteza conhece me- tas pessoas ficavam diante da janela dos
lhor os direitos de nascimento do que os de- seus aposentos, nas Tulherias, na esperan-
veres da educação.58:3:142 ça de verem o filho do imperador. Num dia
 em que ele se mostrou irado, rebelde a to-
O conde de Châtillon manifestou ao del- das as ordens, a preceptora fechou imedia-
fim de Luís XV que era necessário reprimir tamente as janelas. Ele perguntou por que
sua vivacidade excessiva. A criança prome- as fechara.
teu: — Para esconder a sua cólera aos que o
— Quero esclarecer, senhor conde, que observam lá de fora. O que diriam essas pes-
renego todas as tolices que venha a cometer, soas, que um dia Vossa Alteza irá governar,
e vos peço que as tomeis como apenas o se o tivessem visto nesse estado? Acha que
vento que sopra. iriam querer obedecer-lhe, se o soubessem
Num dia em que ele se deixou levar pelo tão ruim?109:1086
mau humor, o conde lembrou-lhe: 
— Senhor, o vento está soprando bem Para corrigir o duque de Borgonha, que
forte. manifestava cólera quando criança, o seu
— Sim, senhor, e o trovão não está lon- preceptor Fénelon recorria a alguns artifíci-
ge! os. Num dia em que ele mexia nas ferramen-
Fingindo-se tomado pelo medo, o tas de um marceneiro que trabalhava no seu
conde levou as mãos às orelhas, cobrin- apartamento, esse operário, instruído pelo
do-as como se fosse para não ouvir o tro- preceptor, mandou que ele se retirasse. Não
vão. O príncipe sorriu, e logo correu para acostumado a esse tratamento, o príncipe se
abraçá-lo: irritou. Mas o operário gritou:
166 A volta ao mundo da nobreza

— Retirai-vos, senhor príncipe! Quan- — É preciso dispensá-lo o quanto antes.


do eu me enfureço, costumo quebrar per- — Eu o acho mais digno de piedade do
nas e braços de todos os que estão na mi- que de castigo. Vós o considerais o pior dos
nha frente. homens, porque se irritou com um menino
Apavorado, o menino foi queixar-se ao que lhe prejudicava o trabalho. O que dizer
preceptor, no cômodo vizinho: então de um príncipe que maltrata um ope-
— Puseram a trabalhar nos meus apo- rário quando este lhe presta serviços?58:1:173
sentos o pior homem que existe na face da
terra.
— Mas ele é um bom operário. O único
defeito dele é encolerizar-se.
P odemos encerrar por hoje nossa reunião,
cujos fatos confirmam uma informação
muito valiosa:

Os príncipes têm educação especializada


para governar
167

27º dia

O s resultados do processo educativo dos


príncipes dependem de muitos fatores,
exatamente como acontece com todas as pes-
escola se aprende a ler, escrever e contar,
além de outras coisas pouco úteis. Pouco
depois do período escolar, os jovens terão
soas. Muito mais importante do que a mera esquecido quase tudo o que deglutiram para
bagagem de conhecimentos, o príncipe des- passar nos exames. O aproveitamento será
de cedo se habitua, quase como uma segun- completamente outro, e para toda a vida, em
da natureza, a compreender a alta trans- relação ao que uma família inteligente e pon-
cendência de sua missão e de seus deveres derada lhes tiver feito compreender e assi-
em relação à pátria.8:209 Eis um exemplo do milar. A capacidade de julgar é uma quali-
modo como um príncipe pode ser educado dade primordial na vida, mas a instrução
para a sua futura missão no próprio ambien- fornecida pelos professores só contribui para
te doméstico. o seu desenvolvimento numa proporção ín-
 fima. Os pais, ao contrário, exercem uma
No castelo de Balmoral, a rainha Vitória ação decisiva para formá-la, expondo diari-
saiu a passeio com seu neto, o futuro rei Jor- amente, de maneira viva porque vivida, sua
ge V, e encontraram um homem que fazia opinião sobre as pessoas e as coisas. É uma
dançar um urso domesticado. O menino fi- lição de coisas, tão útil quanto interessante.
cou radiante, em seguida a rainha lhe deu A verdadeira educação é a familiar, pois a
uma moeda de ouro para que a entregasse lição dos exemplos vale mais que a dos con-
ao domador. Este recusou o dinheiro, mas selhos.83
pediu que a rainha lhe desse um certificado
em que constasse que o urso tivera a honra From: Chanteclair
de dançar diante de Sua Majestade a rainha Beaugeste, permita-me completar esses
da Inglaterra. sábios conceitos com esclarecimentos colhi-
— Mas eu não posso dar a um animal dos na minha coleção de frases: O melhor
um certificado dessa natureza. método de educação para uma criança é ar-
O príncipe interrompeu: ranjar-lhe uma boa mãe.101 Uma mulher leva
— Não vejo por que não, vovó. Um im- vinte anos para fazer de seu filho um ho-
perador romano fez de um cavalo um sena- mem, e outra leva vinte minutos para fazer
dor. dele um tolo.14
— Bem... Se você me der o nome desse
imperador, faço-lhe a vontade.
— Calígula!
E dali por diante o dono do urso pôde
T enho alguns exemplos que mostram o
cuidado com que Maria Antonieta se de-
dicava à educação do delfim.
exibir um certificado que lhe outorgava o 
título de domador oficial de ursos da rai- Por insistência de Maria Antonieta, o
nha.81:290 delfim de apenas quatro anos prometeu:
— Até o fim do ano eu aprenderei a ler.

I sso é muito diferente da educação


massificada de uma escola pública. Na
Será o presente de Ano Novo que darei à
senhora.
168 A volta ao mundo da nobreza

Logo depois perguntou ao preceptor, Pe. chão, mas aproximando-se sempre do pre-
d’Avaux: ceptor. Quando deparou com ele, tomou-lhe
— Preciso saber quanto tempo falta para a mão e disse:
o fim do ano. — Sou mais feliz que Diógenes. Encon-
— Falta pouco mais de um mês. trei um homem.27:1:416
— Então quero ter duas aulas por dia, 
pois prometi a mamãe que aprenderei a ler O regimento de Flandres foi prestar suas
até o fim do ano. homenagens a Mme. de Tourzel, em
No dia de Ano Novo, foi cumprimentar Versalhes, e o delfim, de apenas quatro anos,
a rainha levando nas mãos um livro aberto, pediu à rainha Maria Antonieta que lhe per-
e disse: mitisse ver a cerimônia.
— Aqui está o presente. Cumpri a mi- — Mas não saberás o que dizer a esses
nha promessa, e agora já sei ler.59:293 senhores.
 — Não vos preocupeis, mamãe, pois não
Enquanto estudava, o delfim de repente vou atrapalhar-me.
se pôs a assobiar. Ouvindo-o, Maria Anto- Logo que os oficiais entraram e se puse-
nieta o repreendeu, e ele explicou: ram em alinhamento, o delfim lhes disse:
— Mamãe, descobri agora que repeti — Senhores, estou encantado de vos ver,
hoje muito mal a minha lição, e estou vaian- mas lamento ser tão pequeno e não poder
do a mim mesmo.27:1:415 ver-vos todos.
 Dirigiu-se então a um oficial muito alto,
O preceptor do delfim era o Pe. d’Avaux, e pediu:
e durante a tentativa de fuga da família real — Senhor, levantai-me nos vossos bra-
para Varennes as lições haviam sido inter- ços, para que eu veja todos esses senhores.
rompidas. Ao retomá-las, depois de tantos Em seguida disse sorridente:
incidentes, começou dizendo: — Agora sim, senhores, eu me sinto ale-
— Na última lição havíamos estudado gre de estar entre vós.107a:38
os graus de comparação na linguagem, mas 
suponho que Vossa Alteza não se lembrará No dia 21 de junho de 1792, os agitado-
mais deles, não é? res mobilizaram o povo, como na véspera,
— Lembro-me muito bem. Quer ver? para invadir as Tulherias, onde se encontra-
Quando eu digo que o Pe. d’Avaux é um bom va a família real. Ao ouvir o vozerio, Maria
padre, uso um grau positivo. Quando digo Antonieta correu para junto do delfim. Quan-
que ele é melhor do que um outro padre, uso do a viu, o menino perguntou, tendo ainda
um comparativo. na memória o que ocorrera no dia anterior:
Olhando de soslaio para a rainha Maria — Mamãe, ainda é ontem?27:1:189
Antonieta, ali presente, acrescentou:
— E quando digo que a minha mãe é a From: Escovedo
melhor e a mais afetuosa das mães, uso um Até mesmo nas aulas o protocolo da cor-
superlativo.33:4086 te era seguido inflexivelmente, além de ou-
 tras exigências que variavam de uma corte
O filho de Maria Antonieta admirava para outra.
muito o seu preceptor Pe. d’Avaux. Depois 
de uma aula de História, ele acendeu um lam- Quando criança, o rei Afonso XIII sem-
pião e se pôs a procurar alguma coisa no pre dava aos seus professores a precedência,
27 — A educação dos nobres era cuidadosa e ministrada na família 169

e só se sentava quando estes já o haviam fei- gação no único que de fato interessava ao
to. O professor Vicente Santamaría de Pare- militar famoso que era seu pai.58:1:199
des achava excessivo esse protocolo, e um 
dia disse ao discípulo: O marechal duque de Villars escreveu à
— Senhor, o rei é sempre o rei. esposa:
— Aqui sou apenas um discípulo, e o — Devo comandar nos próximos dias
mestre sempre deve ser respeitado como uma importante batalha, e gostaria de ter meu
mestre.109:2820 filho aqui para presenciá-la.
 Parece que o filho não era tão entusiasta
A mãe de Afonso XIII, antes de ele su- da guerra, e deixou para viajar quando a ba-
bir ao trono, nunca lhe permitiu fumar mais talha já se havia concluído. O duque escre-
de dezesseis cigarros por dia. Durante as fes- veu então à mulher:
tas de coroação, um de seus ministros lhe — Eu lhe pedi que me enviasse o meu
perguntou: filho, e a senhora enviou o seu.109:2416
— Agora, que Vossa Majestade é rei com
toda a barba, qual será vosso primeiro ato? Por mais aplicados que sejam os instru-
— Vou encher quarenta vezes por dia a tores, é sempre possível não haver aprovei-
minha cigarreira.109:1460 tamento satisfatório. Porém, tendo em vista
que no caso dos príncipes trata-se de educa-
From: Ségur ção específica, ministrada por pessoas
Existe sempre a possibilidade de os pais especializadas e dedicadas integralmente a
se enganarem sobre as aptidões ou preferên- isso, o mais provável é que produza bons
cias dos filhos. resultados.8:209
 Não se deve esquecer que as crianças
O marechal de Turenne mostrara desde podem entender de modo diferente a instru-
a infância propensão para o serviço militar, ção que lhes é dada, por sua ainda limitada
mas a família tentava dissuadi-lo argumen- compreensão das coisas ou mesmo por es-
tando com a fraqueza da sua compleição fí- pertezas. Tenho exemplos de um e outro
sica. Quando tinha dez anos, decidiu fazer caso.
cessar essas alegações, demonstrando que 
não lhe faltava coragem e que a sua fraque- Quando tinha seis anos, a futura rainha
za não era empecilho. No final de uma tarde Vitória recebeu a visita de Lady Jane Ellice,
de inverno ele fugiu de casa em direção às levada pela avó, e as duas crianças da mes-
muralhas de Sedan sitiada, a fim de aí pas- ma idade puseram-se a brincar com muita
sar a noite. Quando se notou a sua falta, os familiaridade. Jane foi logo advertida sobre
familiares saíram a procurá-lo, e o precep- as normas de etiqueta, conforme as interpre-
tor o encontrou dormindo sobre a carreta de tava a princesa:
um canhão. A muito custo conseguiu levá- — A etiqueta proíbe que mechas nestes
lo de volta, e daí em diante cessaram as opo- brinquedos, que são meus. E eu posso cha-
sições à sua carreira militar.58:1:252 mar-te Jane, mas não podes chamar-me Vi-
 tória.109:2815
O filho do grande Condé nunca conse- 
guiu entender os princípios da guerra, ape- Quando criança, o duque do Maine fa-
sar dos esforços do pai para ensiná-los. Mui- zia muito barulho enquanto brincava no alo-
to dotado para outros assuntos, era uma ne- jamento do príncipe de Condé, marechal do
170 A volta ao mundo da nobreza

exército. Este reclamou, e ouviu a réplica — Agora não adianta. Era para dizer que
imediata: havia um bicho na salada, mas já o come-
— Eu faço muito menos barulho do que ram.84:188
o senhor, quando brinca com os solda- 
dos.19:4:78 Os senhores de Polastron e du Muy que-
 riam extinguir no delfim, filho de Luís XV,
O filho mais velho de La Villette tinha o costume de permanecer prolongadamente
nove anos e foi ferido durante a batalha de nas dependências destinadas ao seu vestuá-
Messina. Vendo o sangue que corria e suja- rio. Um dia, depois de muita insistência, eles
va a sua roupa, ele se limitou a comentar: quiseram tirá-lo de lá à força. Ele resistiu, e
— O que diria a minha preceptora, se ameaçaram chamar o senhor de Châtillon,
visse isto!27:1:261 governador do palácio.
 — Tanto melhor. Podeis chamá-lo, mas
Um neto da rainha Vitória era gastador, e eu afirmo que permanecerei aqui quanto eu
enviou-lhe uma carta na qual pedia adianta- quiser.
das 100 libras da sua mesada. A rainha res- Um deles foi chamar o governador, que
pondeu com uma carta onde repreendia seve- compareceu e logo ouviu do delfim a per-
ramente o neto, recomendando-lhe que fizes- gunta:
se economia e fosse mais diligente nas suas — Senhor de Châtillon, quem foi
incumbências, além de vários outros conse- Gaucher de Châtillon, cujas façanhas eu li
lhos, mas não enviou nenhum dinheiro. Pou- ontem, e me deram tanto prazer?
co depois ela recebeu uma carta de agradeci- — Foi um dos meus ancestrais, senhor.
mento: “Seguindo à risca os vossos conselhos, Em seguida começou a falar da sua
vendi a vossa carta por 100 libras”.30:536 genealogia, relatando os nomes, as qualifi-
cações e a história dos seus famosos ante-

T ranscreverei uma série de fatos relati-


vos ao procedimento das crianças, ar-
mazenados no meu baú por diversos cola-
passados. Quando terminou, o delfim agra-
deceu e disse, voltando-se para os seus dois
instrutores:
boradores. Eles têm em comum uma carac- — Eu não disse que permaneceria aqui
terística freqüente nas crianças, que é a de quanto tempo eu quisesse?27:2:173
usar subterfúgios para contrariar as ordens e 
instruções recebidas. Quando era rapazinho, o futuro rei
 Carlos X apostou com seus irmãos, os futu-
Quando Eduardo VII era ainda menino e ros Luís XVI e Luís XVIII, que ousaria apre-
príncipe de Gales, a sua vivacidade obrigava sentar-se ao avô, Luís XV, com o chapéu na
os preceptores a uma contínua vigilância. Na cabeça. Diante dos irmãos, dirigiu-se ao rei
mesa, queria falar sempre, violando a etique- sem tirar o chapéu, e perguntou:
ta. Num jantar de cerimônia o menino come- — Vovô, o senhor não acha que este cha-
çou a falar, e logo lhe impuseram silêncio: péu me fica bem?
— As crianças só falam na mesa quando — Sim, acho que está muito bem.
lhes dão licença! — Então, Majestade, peço a bondade de
Quando a conversa acabou, o preceptor confirmar isso para os meus irmãos, que dis-
voltou-se para o príncipe: cordam de mim e do senhor.32:2502
— Já pode falar. O que queria dizer há 
pouco? O duque de Borgonha confiava no seu
27 — A educação dos nobres era cuidadosa e ministrada na família 171

preceptor Fénelon, mas por vezes conside- 


rava pesadas as suas normas. E confi- Quando Luís XV era criança, foi-lhe
denciou-lhe: apresentado Mons. Coislin, bispo de Metz,
— Eu pensei em não aprender mais nada, e ele exclamou:
para que o rei meu pai vos julgasse um mau — Meu Deus, como ele é feio!
mestre. E me envergonho de mim mesmo Ao retirar-se, o bispo comentou:
por ter tido esse pensamento.58:1:177 — Eis aí um menino muito mal educa-
 do.27:2:42

Quando Mme. de Tourzel assumiu o car-


go de preceptora do delfim, ele resolveu
testá-la, para saber até que ponto ia a sua
firmeza. Com muita calma, ele se recusou a
O ra, meu caro Contrappunto. Isso é coi-
sa de criança, e ele deve ter sido seve-
ramente punido pela falta; pois foi consi-
fazer algo que ela mandara, e ameaçou: derado, quando rei, o homem mais fino e
— Se a senhora não fizer como eu que- educado do seu tempo. Mas deixemos es-
ro, eu vou gritar. As pessoas de fora vão ou- sas crianças de lado por hoje, e passemos a
vir-me, e nesse caso o que fará a senhora? programar o assunto para nossa tertúlia de
— Vou obrigar-vos a ir para a cama, e amanhã.
passarei a tratar-vos como doente. Todos já sabem que uma das funções
O delfim começou então a gritar, a ba- principais da nobreza era a guerra, cujo co-
ter os pés e a fazer um enorme barulho. mando e maior parte da execução compe-
Sem replicar, a preceptora mandou que tia quase só aos nobres. Era um sacrifício
fosse preparada a cama para ele, e que lhe em defesa da pátria, conduzindo muitas
trouxessem uma sopa destinada a doentes. vezes a um verdadeiro holocausto. Os no-
O espetáculo cessou imediatamente, e ele bres tomavam essa responsabilidade como
disse: um dever, e o desempenhavam com vistas
— Eu queria saber se poderia embirrar à honra e glória pessoais e da família. Hon-
com a senhora, mas vejo que não tenho re- ra e glória que muitas vezes significavam a
curso que não seja obedecer-vos. Perdoai- morte no campo de batalha. Já tenho alguns
me, e eu vos prometo que não farei mais fatos sobre o assunto, e proponho apresentá-
isso.107a:38 los amanhã, juntamente com outros que os
amigos certamente acrescentarão, bem
From: Contrappunto como os comentários que queiram fazer.
Aqui estou eu novamente, com o outro Como fecho desta reunião de hoje, pode-
lado da questão. Veja isto. mos afirmar que

A educação dos nobres era cuidadosa e


ministrada na família
172 A volta ao mundo da nobreza

28º dia

From: Antoinette as portas lhe foram fechadas, eis aí uma exis-


Beaugeste, você me fez perder uma noi- tência perdida”.26
te inteira de sono. Tomei conhecimento do 
seu salão ontem à noite, antes de me Um pai de família escreveu em 1807:
desconectar da Internet, e comecei a ler os “Encontrareis, meus filhos, uma seqüência
textos já incluídos. Mas não consegui parar, de ancestrais estimados, considerados, hon-
e daqui a pouco tenho de sair correndo para rados na sua região e por todos os seus
a Escola de Belas Artes. Talvez até nem con- concidadãos. Uma existência honesta, uma
siga tomar o meu café da manhã antes de fortuna mediana, mas uma reputação sem
sair. Minha consonância com o seu trabalho mancha, eis o capital que vem sendo trans-
foi completa desde o início, pois sou admi- mitido, durante quatrocentos anos, por onze
radora entusiasta de Maria Antonieta. Meu pais de família que jamais abandonaram o
nome é Antonia, e os colegas me chamam nome que receberam nem a terra em que
de Antoinette, exatamente devido a essa mi- nasceram”.50:113
nha admiração pela rainha Marie Antoinette. 
Conheço muitos fatos sobre ela, que ainda Havia na França antigamente o costume
não foram narrados nas reuniões do seu sa- de cortar durante um banquete a toalha de
lão, e vou enviar alguns quando voltar da mesa diante de alguém a quem se queria fa-
escola. Tenho de sair já. Até logo! zer uma afronta ou repreender por alguma
vilania. Entre os convivas do rei Carlos VI

I sso me agrada muito, Antoinette, e ficarei


grato se você puder completar as informa-
ções que já tenho sobre a nossa rainha. Os
estava Guillaume de Hainaut. Em dado mo-
mento um escudeiro se postou diante dele,
golpeou a toalha e disse:
fatos que você conhece poderão ser acres- — Um nobre desprovido de armas não é
centados nos próximos dias, à medida que digno de freqüentar a mesa do rei.
você os julgar oportunos. Surpreso, Guillaume argumentou:
O assunto de hoje, como anunciamos, é — Mas eu tenho comigo as minhas ar-
a honra e a glória, que os nobres procura- mas, da mesma forma que os outros.
vam atingir nas suas ações. Tenho sobre isso — Isso não é verdade. Sabeis que vosso
no baú alguns fatos muito significativos, e tio foi morto pelos frisões, e até o presente a
vou fazê-los preceder por um comentário dos morte dele permanece impune. Se possuís-
irmãos Goncourt: seis armas, de há muito ele já teria sido vin-
“A religião da honra é a última e mais gado.
desinteressada das religiões de uma aristo- Atingido por essa repreensão do rei,
cracia. Tudo o que se refere à honra, é ela Hainaut conseguiu recuperar a honra da fa-
que julga; tudo o que aí é deficiente – baixe- mília.27:1:21
za, vilanias, instintos ou vícios degradantes 
– é ela que pune com o rigor e o poder de Uma mulher ficara viúva com três filhos
uma opinião pública. Quando a boa compa- e tinha grande dificuldade em manter a fa-
nhia repele um homem, dizendo que todas mília com seu trabalho. Tendo circulado a
28 — Honra e glória são objetivos constantes da nobreza 173

notícia de uma alta recompensa pela denún-


cia e captura de um criminoso, os três ir-
mãos concordaram em que um deles seria
M eu caro Chesterfield, eu afirmei que
os nobres lutavam por honra e gló-
ria, mas não fiz exclusão de nenhum país,
apresentado pelos outros dois como autor do pois todos tinham a mesma mentalidade, o
crime, a fim de receber a recompensa e ali- mesmo espírito de sacrifício em favor do
viar a situação da mãe. Lançada a sorte e rei e da pátria. Essas respostas ferinas dos
escolhido o “culpado”, este foi entregue ao franceses fazem parte de um costume naci-
tribunal, julgado e condenado. Quando os onal, que eles chamam de esprit de répartie
outros dois foram levar o dinheiro para a (dom de réplica). E era também muito usa-
mãe, esta os repreendeu e afirmou: do entre os contendores, antes e durante
— Prefiro morrer de fome a manter mi- uma batalha, como parte dos desafios mú-
nha vida ao preço da desonra do vosso ir- tuos. Portanto, não vejo nesse relato nenhu-
mão. ma intenção de ofensa aos de outra nacio-
Tomando conhecimento do que se pas- nalidade. Já vimos exemplos edificantes dos
sara, o juiz informou ao rei, que recompen- nobres ingleses, franceses e de muitos ou-
sou a família por esse ato de honradez e amor tros países, e certamente ainda surgirão
filial.27:1:46 outros.

O entusiasmo dos parisienses pela volta From: Chesterfield
da monarquia legítima, após a derrota de Está muito bem assim, colega Beaugeste.
Napoleão, talvez tivesse a sua causa em que Mas agora vou aproveitar a oportunidade
eles participavam desse sentimento, então para enriquecer a sua coletânea com fatos
geral, explicitado genialmente por Talley- do mundo inglês sobre questões de honra.
rand nas palavras finais da carta que enviara 
ao futuro Carlos X: “Nous avons assez de Após a restauração de Carlos II no trono
gloire, Monseigneur, mais venez, venez nous inglês, o poeta John Milton poderia reaver
rendre l’honneur” (Temos glória demais, um cargo lucrativo que tivera antes de mili-
Monseigneur, mas vinde, vinde trazer-nos a tar a favor da revolução. Quando a mulher
honra).89:318 insistiu nesse sentido, ele argumentou:
 — Como mulher, é natural que queiras
O corsário francês Robert Surcouf foi possuir uma carruagem. Mas eu quero viver
acusado por um capitão inglês: e morrer como homem honrado.27:1:251
— Vocês, franceses, sempre entram em 
guerra por causa de dinheiro, enquanto nós, O conde de Suffolk foi derrotado em
ingleses, só lutamos por motivos de honra, Jargeau, e na fuga foi perseguido e alcança-
de glória. do por um soldado francês. De acordo com
— Talvez seja porque cada um luta por as normas da cavalaria, um cavaleiro só po-
aquilo que mais lhe falta.74 dia ser aprisionado por outro cavaleiro. O
conde perguntou:
From: Chesterfield — O senhor é de família nobre?
Um momento, Beaugeste. Esse exemplo — Sim, senhor.
me parece uma acusação injusta aos ingle- — O senhor pertence à cavalaria?
ses, na questão da honra. Os nobres ingleses — Não, senhor.
eram tão ciosos da honra e da glória quanto — Então eu o farei cavaleiro, para que o
os franceses. senhor possa prender-me.27:1:208
174 A volta ao mundo da nobreza

From: Clausewitz conquistado a ilha de Ré, o almirante Mont-


Beaugeste, o assunto honra se refere de morency pretendia ser nomeado governador
modo muito especial à guerra, portanto es- da ilha, mas o cargo foi confiado a De Toiras.
tou aí como peixe n’água. Vou fornecer-lhe Ao invés de invejá-lo, o almirante deu-lhe
alguns fatos edificantes sobre isso. de presente cem mil escudos em munições.
 A um amigo que censurava esse ato como
A situação do exército espanhol em tolice, replicou:
Garellano era muito grave, e os oficiais re- — Não vim aqui, fazer tudo o que fiz,
solveram propor a Gonzalo de Córdoba a por amor ao dinheiro. Só o fiz por amor à
retirada. Depois de ouvir todos os argumen- glória.32:9952
tos, que conhecia melhor do que ninguém, o
Gran Capitán respondeu: From: Joinville
— Senhores, o que mais convém ao ser- Dois fatos ocorridos durante as cruza-
viço do rei, e para obtermos a vitória, é per- das mostram o grande apreço que se tinha
manecer aqui. Entendam bem que prefiro a pela honra.
morte dando dois passos adiante a viver cem 
anos dando um passo atrás. Sitiados e reduzidos à inanição em
Nessa batalha, a vitória do exército es- Antioquia, muitos cruzados desertaram, vol-
panhol foi retumbante e completa.110:649 tando alguns para os seus países. O conde
 Etienne de Blois, quando voltou ao seu cas-
Em 1521 as tropas do cavaleiro Bayard telo, contou à esposa Adèle o infortúnio que
estavam sitiadas pelas de Carlos V em tiveram e a deserção. Foi repreendido por
Mezières. A um representante do exército ela de modo tão violento, que decidiu voltar
inimigo, que foi propor-lhe a rendição, ele à Terra Santa com a segunda expedição, em
respondeu: 1101, e nessa ocasião o atingiu a morte em
— Dizei a quem vos enviou que, antes batalha.94:79
de render a praça que o rei confiou à minha 
honra, farei com os corpos dos inimigos a A negociação para o resgate de S. Luís
única ponte pela qual me é permitido IX e do seu exército foi concluída com o
sair.109:1444 acordo para pagamento de quinhentas mil
 libras pela libertação de todo o seu pessoal.
Depois de perder para a Espanha o reino Quanto ao seu próprio resgate, não envol-
de Nápoles, Luís XII afirmou: veu dinheiro, e sim a devolução de Damieta
— Prefiro ter perdido o reino, que pode- aos sarracenos, pois a dignidade da sua pes-
rei reconquistar, a perder a honra, que ja- soa não permitia ser comprado a peso de
mais se recupera.27:1:543 ouro.78:156

Após a derrota na batalha de Pavia, o rei From: Saint Simon
francês Francisco I escreveu à regente du- Beaugeste, quero apresentar alguns fa-
quesa de Angoulême: “Para vos explicar a tos sobre questões de honra, mas antes vou
situação quanto ao resto do meu infortúnio, citar uma frase que me parece conter muita
direi que de todas as coisas só me restaram a verdade: O homem religioso teme cometer
honra e a vida, que estão salvas”.110:311 uma ação má; o homem de honra detesta
 cometê-la.25
Tendo derrotado a frota calvinista e re- 
28 — Honra e glória são objetivos constantes da nobreza 175

O duque de Mayenne escreveu ao con- ca de Napoleão, foi a Londres a fim de in-


de Thorigny uma carta, na qual tentava sistir em que um dos príncipes franceses ali
convencê-lo a aderir à Liga. Recebeu a se- exilados desembarcasse na França e se tor-
guinte resposta: “Eu pensava ser o único na nasse o chefe do movimento. Um nobre per-
França que se chama Thorigny. No entanto guntou-lhe:
deve haver outro, ao qual a vossa carta é — Quereis que um príncipe desembar-
dirigida, e a quem esperais convencer a sa- que na Bretanha, mas respondeis pela vida
crificar sua honra em troca das brilhantes dele?
ofertas que lhe fazeis, pois não posso acre- — Não, mas respondo pela sua hon-
ditar que me tenhais imaginado capaz dis- ra.32:2154
so”.27:2:54 
 Quando Luís XIV partiu para sitiar
Luís XIV preparou um edito para o par- Mons, Mme. de Maintenon perguntou ao
lamento da Borgonha, mas o presidente ministro Louvois:
Brûlat se opôs, por considerá-lo prejudicial — O senhor garante a vida do rei?
aos interesses da província. Irritado com essa — Não, Madame. Mas garanto-lhe a gló-
oposição, o rei mandou prendê-lo na torre ria.27:2:318
de Perpignan. Algum tempo depois, julgan- 
do que a oposição tivesse cessado, mandou Quando o imperador Maximiliano do
chamá-lo à corte e o interrogou a respeito, México foi derrotado em Querétaro, rendeu-
mas ouviu o seguinte comentário: se para evitar inútil derramamento de san-
— Senhor, eu ainda consigo ver daqui a gue, mediante três condições: que não fosse
torre de Perpignan.27:2:57 ultrajado; se houvesse fuzilamento dos pri-
 sioneiros, ele seria o primeiro; após o
Nas vésperas de uma batalha, o príncipe fuzilamento, seu cadáver não seria mutila-
de Condé pediu que seus oficiais lhe indi- do.109:5
cassem um soldado capaz de avaliar a situa-
ção do exército inimigo e trazer-lhe a infor- From: Ivanhoé
mação. Foi indicado um soldado cuja má Em todas as guerras, os dois lados se
aparência física não lhe agradou. Dispensou- constituem de inimigos que se odeiam por
o, e a missão foi atribuída a dois outros bem algum motivo, e que desejam derrotar e des-
apessoados. Estes fizeram um relato insufi- truir o oponente. Mas havia regras de cava-
ciente e inadequado, obrigando-o a convo- lheirismo a serem seguidas, substituídas hoje
car novamente o primeiro, que se desin- pelas da convenção de Genebra. Vejamos
cumbiu da missão inteiramente a contento. alguns exemplos.
Satisfeito, o general prometeu recompensá- 
lo com o que ele desejasse. Na batalha de Bremulo, em 1119, o rei
— Senhor, peço apenas o meu desliga- francês Luís VI combatia no cerne da luta,
mento do vosso exército. quando um soldado inglês tomou o cavalo
— Como?! Eu pretendia fazê-lo capitão! dele pelas rédeas e o declarou prisioneiro. O
— Senhor, vós me desprezastes, e eu não rei deu um violento golpe no soldado, en-
posso mais vos servir.27:2:77 quanto dizia:
 — Demente! Não sabes que no jogo de
Georges Cadoudal, um dos líderes da xadrez o rei não pode ser comido?109:2962
reação contra a Revolução Francesa na épo- 
176 A volta ao mundo da nobreza

O delfim de Luís XVI estava treinando — Coronel, fui injusto em relação ao


o manejo do fuzil, quando a preceptora Mme. senhor e o insultei. Lamento-o, pois reco-
de Tourzel o chamou para iniciarem o pas- nheço no senhor um homem honrado, e que-
seio habitual. O guarda que lhe dava as ins- ro oferecer uma reparação. Nesta fronteira
truções disse então: estrangeira, nós dois somos iguais, e ofere-
— Como o senhor agora vai sair, deve ço-lhe a escolha entre estas duas pistolas e
entregar-me o fuzil. estas duas espadas, para vossa vingança, se
Ele se recusou, e ante a intervenção de o senhor o desejar.
Mme. de Tourzel, explicou: Comovido, Seaton se ajoelhou diante do
— Se ele me tivesse dito para lhe dar o rei e suplicou-lhe a permissão para, daquele
fuzil, eu já o teria atendido. Mas ele pediu- momento em diante, viver e morrer no seu
me para lhe entregar o fuzil, e eu não posso serviço.27:2:302
consentir nessa rendição.27:1:416
E aqui está um belo exemplo do prínci-
From: Egmont pe de cujo nome tomei meu pseudônimo.
O apreço à honra permeava os comba- 
tentes, desde o mais alto cavaleiro até o sim- Na batalha de Gravelines, em 1558, o
ples soldado. Mesmo quando a grande dife- príncipe Egmont havia perdido seu cavalo e
rença hierárquica não permitia ao inferior parte das suas tropas, enquanto os gascões
exigir do superior uma reparação, de modo avançavam ameaçadoramente. A fim de re-
geral ela era prontamente obtida, pois am- animar e pôr ordem nas suas fileiras, ele gri-
bos a consideravam necessária. tou:
 — Somos vencedores! Os que têm amor
O rei Carlos XII da Suécia encontrava- à glória e à sua pátria, sigam-me!110:61
se um dia a cavalo diante do seu exército, e
foi abalroado por um oficial que não conse- From: Clausewitz
guira dominar seu próprio cavalo. Movido Ainda estamos tratando de questões de
pelo primeiro impulso, o rei bateu com seu honra e glória na guerra, e a minha coletâ-
bastão no cavalo do oficial. Este imediata- nea de fatos sobre o assunto não se esgotou.
mente apresentou-lhe uma pistola, e disse: Aí vão mais alguns.
— Senhor, tirai-me a vida, pois me 
tirastes a honra. A desproporção de forças, antes da ba-
— Amigo, esqueça a ofensa que acabo talha de Ivry, fazia parecer que o resultado
de fazer-lhe, pois me lembrarei de repará- seria desfavorável a Henrique IV. O coronel
la.10:222 Teodorico de Schönberg comandava um cor-
 po de cavalaria do exército, e ouvira seus
O rei Gustavo-Adolfo repreendeu o coro- soldados murmurarem contra o atraso no
nel escocês Seaton por uma falta, durante uma pagamento do soldo. Resolveu queixar-se ao
revista militar. Recusou suas justificativas, e rei francês, dizendo que isso poderia arrefe-
culminou por dar-lhe uma bofetada no rosto. cer o moral dos combatentes no momento
Seaton apresentou imediatamente sua demis- da luta que se avizinhava. Para não entrar
são e dirigiu-se à fronteira da Dinamarca, a em longas explicações sobre a falta de di-
cujo rei decidira oferecer seus serviços. Arre- nheiro, Henrique IV limitou-se a dizer:
pendido, Gustavo-Adolfo resolveu segui-lo, — Nenhum cavaleiro pede dinheiro em
alcançou-o próximo da fronteira e lhe disse: véspera de batalha.
28 — Honra e glória são objetivos constantes da nobreza 177

No dia seguinte ele se aproximou de servindo ao meu rei. Pena mereceis vós, que
Schönberg, e disse: levantais armas contra o vosso.32:690
— Senhor de Schönberg, ontem eu vos
ofendi. A batalha de hoje pode ser a última
da minha vida, e não quero deixar sob sus-
peita a honra de um cavaleiro. Conheço vos-
A s questões de honra impregnavam a so-
ciedade como um todo, não só o meio
militar. Vou transcrever alguns exemplos ex-
so valor e vosso mérito, e peço que me traídos do baú.
perdoeis e me abraceis. 
— Vossa Majestade certamente me ofen- Quando Luís XIII submeteu em 1631 a
deu. Mas hoje me mata, porque tanta honra cidade de Nancy, propôs ao pintor Callot que
me obriga a morrer ao vosso serviço.109:537 representasse a batalha, como já havia feito
 com a vitória de La Rochelle. Ele argumen-
Carlos de Bourbon havia se rebelado tou:
contra Francisco I, rei da França, passando — Majestade, peço que me dispenseis
a guerrear contra seu país como aliado do dessa tarefa, pois sou da Lorena, e não que-
imperador Carlos V. Embora reconhecendo ro fazer nada contra a honra do seu príncipe
o valor militar do seu aliado, os nobres es- e que contrarie o seu povo.
panhóis o consideravam traidor. Quando se — Atenderei o seu pedido, e felicito o
tratou de hospedar o nobre francês, o impe- duque da Lorena por ter súditos tão fiéis e
rador não conseguiu encontrar um único dedicados.27:2:193
nobre espanhol que se dispusesse a recebê- Quando alguns cortesãos o censuraram,
lo em seu palácio. Afinal, decidiu dar ordem dizendo ser necessário antes de tudo obede-
ao marquês de Villana para hospedá-lo, mas cer ao rei, Callot respondeu:
teve de ouvir a mais audaciosa manifesta- — Prefiro que me cortem a mão, com a
ção de honra e lealdade: qual ganho o necessário para viver, a fazer
— Majestade, nada posso negar ao meu qualquer coisa contra a minha honra.55
imperador. Mas declaro neste momento que, 
tão logo o Bourbon saia do meu palácio, eu José Bernardino Almeida Sodré fora
mesmo atearei fogo em todo ele, como se afastado do Ministério da Fazenda, por in-
faz com uma casa infectada. Porque um ho- compatibilidade com D. Pedro I. Em 1829 o
mem honrado nunca poderá resignar-se a imperador mandou chamá-lo e convidou:
viver onde serviu de abrigo a um pérfido trai- — Quero que faça parte do novo minis-
dor da sua pátria e do seu rei. tério. Pode escolher a pasta que lhe conve-
Na madrugada em que o Bourbon se nha.
despediu, imediatamente o marquês ateou — Não aceito, Majestade! Honra de
fogo ao seu palácio.32:2534 donzela e confiança de ministro só se per-
 dem uma vez.56
O cavaleiro Bayard estava ferido de 
morte, e apresentou-se diante dele o chefe O general Osório, durante a guerra do
adversário, condestável de Bourbon, que era Paraguai, foi procurado por um negociante
francês mas lutava contra a França. Demons- que pretendia vender cavalos ao Exército,
trando-se este penalizado pelo estado em que na maioria imprestáveis. Queria uma carta
o encontrava, Bayard se ergueu e replicou: do general, recomendando-o à comissão en-
— Senhor, não é o caso de ter pena de carregada das compras. Osório respondeu:
mim, pois morro como homem de bem e — Homem, você é entendido na maté-
178 A volta ao mundo da nobreza

ria, e não desconhece as exigências do go- dou então preparar outra edição, depuran-
verno. Se os seus cavalos são bons, para que do-a de todas as partes censuráveis, e ofere-
quer recomendações? ceu um exemplar dela ao cardeal. Como este
— Para evitar injustiças. não encontrou na obra as afirmações de que
— Então escreva você mesmo o que vou ouvira falar, admitiu sem restrições a entra-
ditar. da do pretendente, que com essa velhacaria
E ditou: abriu para si as portas da famosa institui-
— O portador vai conduzindo uma ca- ção.58:3:244
valhada, que pretende vender ao Estado
mediante o prévio exame da comissão de que E como você puniria uma instituição
V. Sas. são digníssimos membros. A primei- (não uma pessoa) que merece uma acusação
ra condição para a boa cavalaria é a veloci- drástica como a do Andrada, neste próximo
dade, e esta depende da excelência dos ca- fato?
valos. Portanto, seria escusado lembrar duas 
coisas: primeira, que os animais imprestáveis Martim Francisco de Andrada se empe-
que o portador levar devem ser recusados; nhara na propaganda de restauração da mo-
segunda, que V. Sas. devem ser rigorosos no narquia brasileira. Na Assembléia, ocupou
cumprimento das ordens do governo. Esta a tribuna fazendo violenta carga contra a re-
carta só tem por fim pedir que V. Sas. des- pública. Em certo momento do discurso, bra-
pachem com brevidade o portador. dou:
— Não, General. Esta carta não me ser- — A república tudo perdeu, menos a
ve. honra!
— Pois então dê-ma. A afirmação, insólita nos lábios de quem
Tomando a carta, rasgou-a e perguntou: a proferira, causou forte impressão. Mas ele
— Que queria de mim? Uma indignida- acrescentou logo:
de? Que idéia faz o senhor da honra alheia? — Ninguém perde o que nunca teve.34
Se não a tem, respeite a dos outros.65

From: Contrappunto
Agora eu quero saber o que deve ser fei-
D e fato, amigo Contrappunto, deveria ha-
ver uma punição para ambos. O Mon-
tesquieu, com a expulsão da Academia. Mas
to quando alguém comete uma vilania. Por não sei como punir uma instituição como a
exemplo, qual punição você daria ao república, a não ser com a volta à monar-
Montesquieu após ter ele cometido essa fal- quia. Não acho que seria uma má idéia, tan-
sidade que vou narrar. to mais que a honra parece ter sumido quase
 completamente do meio político. Mas isso
Quando Montesquieu pretendeu ser ad- nos levaria muito longe, e não se inclui nos
mitido à Academia Francesa, foi-lhe lembra- objetivos limitados da minha coletânea de
do que o cardeal de Fleury se oporia, tendo fatos sobre a nobreza. E para concluirmos
em vista o que ele escrevera no livro Cartas nossa reunião de hoje, creio que podemos
Persas sobre a Religião e o governo. Man- resumir os fatos afirmando que

Honra e glória são objetivos constantes


da nobreza
179

29º dia

A migos, um dos pontos de honra dos no-


bres era a lealdade. Lealdade ao rei, à
pátria, a Deus, aos amigos, e até mesmo aos
ra, no que eram imitados por pessoas de to-
das as classes. Citarei quatro exemplos, dos
quais o primeiro vem da Polônia, país dos
inimigos. Toda a sociedade considerava de- meus ancestrais.
sonrado quem traía a confiança e a amizade. 
São inúmeros na História os exemplos des- O imperador alemão Henrique V não
sa lealdade, que acabava por estender-se a conseguira submeter os poloneses por meio
toda a sociedade. O próprio contrato feudal de ameaças, e resolveu tentar o suborno.
entre suserano e vassalo era uma promessa Quando se apresentou em palácio uma em-
de lealdade e fidelidade, que quase nunca baixada de nobres poloneses, mandou tra-
era rompida. Vamos iniciar com dois exem- zer para a sala alguns sacos de ouro, e decla-
plos de lealdade a Deus, colhidos no baú. rou:
 — Este ouro está à vossa disposição.
Luís XIV recompensou Turenne com o Entendendo a intenção do monarca, um
cargo de Marechal Geral dos Exércitos, por dos embaixadores retirou do dedo um anel
seus serviços durante a Fronda e a guerra da de ouro, jogou-o dentro de um dos sacos e
Espanha. O cardeal Mazarino comunicou- disse:
lhe que era intenção do rei restabelecer em — Permita Vossa Majestade que eu
seu favor o cargo de condestável, e só não o acrescente mais este.32:4809
fazia devido ao obstáculo religioso, pois 
Turenne era calvinista. Como nessa época O general Luís de Bourbon, príncipe de
ele julgava melhor o calvinismo, nenhuma Condé, exilou-se logo depois da tomada da
oferta honorífica o fez mudar de religião. Bastilha e reuniu um exército de dez mil fran-
Muito depois, quando se convenceu da su- ceses, armando-o e alimentando-o à própria
perioridade da religião católica, nenhum ar- custa. Quando o dinheiro escasseou, recor-
gumento o fez manter-se calvinista.58:1:253 reu ao imperador da Áustria, que lhe propôs
 ajuda em troca da entrega da Alsácia à Áus-
Teodorico, rei dos ostrogodos, era here- tria. Revoltado, ele esbravejou:
ge ariano, mas tinha um ministro católico — Prefiro um exílio perpétuo, e até mes-
no qual depositava confiança. Para agradar mo servir à França sob um regime revoluci-
ao rei, este resolveu adotar a heresia ariana. onário, a aceitar o desmembramento da mi-
Quando soube disso, Teodorico mandou nha pátria.32:3355
decapitá-lo, e explicou: 
— Se esse homem não é fiel ao seu Deus, O barão Hyde de Neuville queria tomar
como será fiel a mim, que sou apenas ho- de assalto a carroça que conduziria Luís XVI
mem?109:1430 à guilhotina, confiado no apoio que espera-
va obter no povo que compareceria, mas o
From: Leszczynska próprio rei mandou-lhe ordem para não em-
É importante ressaltar a lealdade à pá- preender façanha tão audaciosa e arriscada.
tria. Os nobres faziam disso questão de hon- Procurou também conseguir a fuga de Ma-
180 A volta ao mundo da nobreza

ria Antonieta. Quando Napoleão se tornou entanto não tenho a menor idéia de quais
primeiro cônsul, Talleyrand obteve para ele sejam vossos planos de batalha, embora es-
um salvo-conduto e uma audiência com o teja certo de que foram muito bem estuda-
corso, durante a qual tentou convencê-lo a dos. Como poderei agir naquela hipótese, se
restaurar no trono os Bourbons. Mas o pri- não conheço os planos?
meiro cônsul foi taxativo: — Na sua opinião, qual dos dois coman-
— Dos Bourbons não se pode mais fa- dantes atacará primeiro?
lar. Cumpristes o vosso dever, e agora é pre- — Bonaparte, é o que suponho.
ciso cerrar fileiras em torno da glória. — Acontece que Bonaparte não me re-
— O nosso posto é em outro lugar. velou nada dos seus planos. Se a minha con-
— Recusais então vestir o uniforme de duta deve tomar como referência a dele,
Bonaparte? Afinal, o que quereis para fazer como poderia revelar-vos os meus planos?
cessar a guerra civil? A única certeza, Uxbridge, é que cumprire-
— Duas coisas: Luís XVIII reinando mos nosso dever para com a pátria, aconte-
sobre a França e Napoleão cobrindo-a de ça o que acontecer.27:1:509
glória.32:7442
 From: Chesterfield
Depois da vitória sobre Napoleão, o czar O rei era o símbolo vivo da pátria, mui-
Alexandre I, que admirava o marechal to mais do que um simples governante de
Lefèbvre, mandou chamá-lo. hoje. Muitas vezes morria uma família in-
— Finalmente! Há muito tempo eu de- teira de nobres em defesa do rei e da pátria.
sejava conhecê-lo. Há exemplos abundantes de lealdade ao rei,
— Sim, infelizmente. portanto à pátria, em todas as nações.
— Como?! Então o senhor não está con- 
tente em conhecer-me? O imperador José II viajou à França
— Majestade, vejo com admiração e com como particular, sob o nome suposto de con-
prazer um guerreiro jovem, que usa com mo- de de Falkenstein. Alguns ardorosos defen-
deração a vitória. Mas é com imensa dor que sores da revolução americana imaginaram
vejo um vencedor entrar na minha pátria.33:3662 que ele também adotasse a mesma posição.
Uma senhora que apoiava a luta das provín-
From: Clausewitz cias americanas contra a coroa britânica in-
Em matéria de guerra, a lealdade à pá- sistiu para que se manifestasse sobre o as-
tria é fundamental. Todo o esforço de guerra sunto, e ele respondeu secamente:
tem, em última análise, o objetivo de defen- — Madame, minha função é ser realis-
der a pátria. ta.27:2:254
 
Na véspera da batalha de Waterloo, Lord Quando foi condenado à forca e a ter seus
Uxbridge, chefe do estado-maior de Wel- membros expostos em cada uma das portas
lington, tinha uma grande preocupação, e a da cidade, o marquês de Montrose, fiel ao
expôs ao comandante: rei Carlos II da Inglaterra, replicou com
— Senhor, sei bem que na batalha de altaneria aos seus juízes:
amanhã não vos poupareis, mas existe o sé- — Gostaria que meus membros fossem
rio risco, como para todos nós, de serdes atin- em número suficiente para serem colocados
gido. Nesse caso, como chefe do vosso es- em todas as portas da Europa, como monu-
tado-maior, deverei assumir o comando. No mentos de fidelidade ao rei.19:4:13
29 — É ponto de honra para os nobres a lealdade ao rei e à pátria 181

 Portanto, recuso a vossa oferta. E agora vos


Condenado a ser decapitado, por sua fi- informo que nunca tive a intenção de passar
delidade ao príncipe Eduardo da Inglaterra, por esse caminho.58:1:262
Lord Deventeter pediu ao seu filho ainda cri- 
ança que subisse com ele ao cadafalso, e lhe Durante a campanha militar de 1673, um
recomendou: oficial do condado de la Mark ofereceu a
— Quero que te deixes cobrir com o meu Turenne quatrocentas mil libras, mas a cor-
sangue e aprendas a morrer por teu rei.19:4:13 te não poderia ser informada sobre isso. O
 príncipe respondeu:
O capitão de marinha inglês Hardy co- — Agradeço-vos muito. Mas várias ve-
mandava seu barco num serviço de guarda zes isso me foi oferecido, e nunca aceitei.
costeira, e foi informado de que um galeão Não creio que deva mudar de conduta na
espanhol carregado de ouro aportara em minha idade.58:1:263
Vigo. Afastando-se com o barco do local 
onde deveria manter-se, foi avisar o almi- A fim de escolher o local onde deve-
rante George Rooke. Aproveitando-se do ria colocar a artilharia que no dia seguin-
fator surpresa, este atacou o navio espanhol, te atacaria a cidade de Dreux, Henrique
derrotou-o e apossou-se do ouro que leva- IV saiu à noite acompanhado de quatro
va. Quando voltou a terra, mandou chamar oficiais e quatro soldados, e recomendou-
Hardy e lhe disse: lhes:
— Prestaste um grande serviço à pátria — Não façam nenhum ruído, e estejam
e à rainha, e a tua diligência trouxe à pátria preparados para matar algum sentinela se
novas glórias e novas riquezas. Mas aban- receberem ordem para isso.
donaste o posto que te foi confiado, e por Divididos em dois grupos, caminhavam
isso mereces a pena de morte. o mais silenciosamente que conseguiam. De
— Sr. Almirante, qual o marinheiro in- repente se ouviu a tosse de um soldado do
glês que pensa na própria vida, quando se grupo em que não estava o rei, e este mur-
trata de prestar um serviço à rainha e trazer murou:
glória e riqueza para a pátria? — Imprudente!
A explicação agradou ao almirante, que Prosseguiram a marcha, e mais adiante
perdoou Hardy e o promoveu a contra-almi- o mesmo soldado tossiu novamente. O rei
rante.32:7055 murmurou:
— Vai ser necessário matar esse tossidor,
From: Clausewitz para que o inimigo não nos mate a todos.
Os nobres eram exímios em conservar a Depois que encontraram o local adequa-
lealdade ao rei nas guerras, ainda que com do para a artilharia, reuniram-se todos, e o
prejuízo pessoal. rei os repreendeu:
 — Estivestes a ponto de pôr tudo a per-
Representantes de uma cidade alemã der. Quem de vós tossiu?
apresentaram-se a Turenne e ofereceram-lhe Ninguém se apresentou. Feita a conta-
cem mil escudos para que suas tropas não gem, verificou-se que faltava um soldado.
passassem pela cidade. O general respondeu: Procurando-o, encontraram o seu corpo com
— Se os interesses do meu rei exigirem um punhal cravado no ventre. Ele se matara
que eu use esse caminho, eu não me deixa- para não pôr novamente em risco a vida do
ria corromper pela quantia que me ofereceis. rei.10:223
182 A volta ao mundo da nobreza

Como se pode ver, desde os mais altos Filipe III, puseram a correr as autoridades e
comandantes até os mais humildes, a leal- tentaram coroar Diego de la Carrera, que era
dade ao rei era uma questão de honra para um dos líderes. Apesar da insistência, ele se
todos. recusou a aceitar a coroação, e os índios o
ameaçaram:
From: Montemor — Se não queres ser rei por bem, hás de
Na Espanha dos meus avós acontecia o sê-lo pela força.
mesmo. Aí vão quatro exemplos, aos quais E o espancaram com porretes até deixá-
acrescento um outro da França, com carac- lo estendido no chão, sem no entanto conse-
terísticas semelhantes. guir que aceitasse ser coroado. Filipe III o
 recompensou depois pela sua lealdade.109:1610
O imperador Carlos V confiara a D. Luís 
de Quijada a educação de D. João d’Áustria, Depois da batalha de Pavia, o rei fran-
seu filho ilegítimo, sob a condição do mais cês derrotado, Francisco I, ficou sob a cus-
absoluto sigilo sobre o seu nascimento. Nem tódia do nobre espanhol Hernando de
à própria esposa, Da. Madalena, ele contou Alarcón. Vários príncipes tentaram conven-
a verdade inteira, dizendo tratar-se do filho cê-lo a libertar o rei, oferecendo-lhe inclusi-
de um nobre importante, que lhe pedira para ve o comando do exército francês. Imper-
não ser identificado. Numa noite em que turbável, o nobre respondeu:
ocorreu um incêndio no castelo, D. Luís sal- — Adquiri estes cabelos brancos a ser-
tou do leito e correu imediatamente para so- viço do meu rei, e não quero manchá-los em
correr o pupilo, deixando a própria esposa troca de todo o ouro do mundo.110:369
para depois. Só muito mais tarde, após o re- 
conhecimento do meio-irmão por Filipe II, Os príncipes de Condé e Conti e o du-
D. Madalena entendeu quanta honra e leal- que de Longueville foram conduzidos como
dade havia nessa atitude estranha de D. prisioneiros ao castelo de Vincennes, numa
Luís.28:50 carruagem com escolta de cinqüenta cava-
 leiros. Tendo-se quebrado a carruagem, ha-
Em 1570, na batalha de Seron, uma bala via a oportunidade para uma evasão, desde
resvalou no capacete de D. João d’Áustria e que o comandante da guarda estivesse de
foi atingir D. Luís de Quijada, que fora seu acordo. Consultado, o Sr. de Comminges
tutor. Uma semana depois, no seu leito de respondeu:
morte, D. Luís confidenciou ao discípulo: — Senhor, sou vosso humilde servidor,
— Recebi do imperador a missão de vos mas quando se trata do serviço do rei, obe-
proteger. Aquela bala devia matar um de nós deço somente ao meu dever. Se o mundo
dois, e eu a recebi. Portanto, tudo fica bem inteiro vier tentar libertar-vos, prefiro apu-
assim.28:132 nhalar-vos a permitir vossa fuga.58:1:138

Os países que se formaram na América
hispânica após a independência foram cons-
tituídos logo em repúblicas, portanto não ti-
N em a própria família era considerada pe-
los nobres mais importante do que a sua
fidelidade ao rei.
veram monarquia. Antes da independência, 
no entanto, ali havia nobres espanhóis, que Durante o cerco de Perpignan, em 1475,
eram fiéis ao rei. Os índios de Quito se re- os franceses mandaram dizer ao cônsul da
belaram contra um imposto instituído por cidade, Juan Blanca, que executariam o fi-
29 — É ponto de honra para os nobres a lealdade ao rei e à pátria 183

lho que estava em seu poder, se ele não abris- não conseguia suportar muitos aborrecimen-
se as portas da cidade. Pelos emissários, ele tos inerentes ao cargo, e pediu licença ao
mandou a resposta: cardeal para transferi-lo a outra pessoa.
— Para mim, são mais caros a minha fé Quando soube disso, o infante D. Luiz o
e o serviço do meu rei do que o meu próprio chamou, pois gostava muito dele, e o repre-
sangue. Se quereis ser tão cruéis e desuma- endeu por não suportar defeitos no seu se-
nos, e vos faltarem armas para a execução, nhor, sendo que este é obrigado a suportar
eu vos darei as minhas, pois o amor ao meu defeitos nos seus servidores. João Álvares
filho nunca me fará esquecer a obrigação que respondeu:
tenho para com Deus, o rei e a pátria.109:1537 — Eminência, ao criado que suporta o
 seu senhor, paga-se com vinte mil reais. Mas
Dom Afonso Pérez de Gusmán era go- o que não o suporta e nem tem condições
vernador da cidade de Tarifa. Em 1294, com para suportá-lo, este é o que se dispõe a
a ajuda de muçulmanos, o infante Don Juan morrer pelo seu senhor.62:967
sitiou a cidade. Tendo aprisionado um filho 
do governador, que morava numa cidade Em conversa com D. João II e a rainha,
vizinha, aproximou-se com ele dos muros e um fidalgo mencionou que outro falava mal
ameaçou matá-lo ali, se não lhe fosse entre- do rei. Este se irritou muito, mas o fidalgo
gue a cidade. Dom Afonso respondeu: completou:
— Prefiro que mateis meu filho, e ainda — Senhor, os portugueses falam mal do
outros cinco se os tivesse, a entregar-vos a ci- seu rei, mas morrem por ele!62:588
dade que me foi confiada pelo rei meu senhor. 
O infante consumou o assassinato, de- Adão Nunes mantinha uma demanda
cepou a cabeça do morto e a lançou dentro com um fidalgo, e ambos falaram dela ao
dos muros da cidade.109:1943 rei. Abordando o assunto com Adão Nunes,
 o rei argumentou que o fidalgo afirmara ser
No reinado de Carlos IX da Suécia, fora mentira o que ele lhe dissera. Ele respon-
executado o pai de Baner. Durante uma ca- deu:
çada, o sucessor Gustavo-Adolfo ficou a sós — Senhor, se não falo a verdade, mandai
com Baner, desceu do cavalo e lhe disse: tirar-me a língua, pois isso merece quem
— Meu pai fez perecer o teu. Se queres mente ao seu rei.62:1309
vingar a morte dele, faze-o agora. Caso con- 
trário, quero que sejas para sempre meu ami- Um fidalgo português, ao tratar de ne-
go. gócios com D. João III, propôs:
Baner se lançou aos pés do rei e lhe ju- — Eu posso jurar sobre os evangelhos
rou fidelidade eterna.27:1:35 que é verdade o que vos digo.
— Não deveis jurar.
From: Fuas Roupinho — Por quê, Majestade?
Beaugeste, não te esqueças do meu Por- — Não julgo que tenhais necessidade de
tugal. Estive a vasculhar os meus alfarrábios, me jurar, tendo tanta obrigação de dizer-me
e encontrei alguns exemplos de lealdade ao a verdade.62:72
rei. Narrá-los-ei a seguir.

João Álvares Nogueira era um português
fidalgo da casa do cardeal D. Henrique, mas
M esmo no caso de guerras civis, a leal-
dade era fundamental, como neste
exemplo que nos forneceu o Grenville.
184 A volta ao mundo da nobreza

 — Salte!
A corte da Inglaterra tinha interesse em O soldado saltou imediatamente. Em
atrair um nobre para a sua causa, e enviou seguida o czar perguntou:
como emissário o Sr. Walpole. Depois de — O que achais disso? Tendes na Dina-
ouvir a proposta, esse nobre replicou: marca súditos assim?
— Senhor, permita que eu sirva o meu — Felizmente, não.27:2:230
jantar, antes de responder.
Foi-lhe servido então um ensopado fei- Há casos de traição revoltantes, como
to com picadinho de uma carne que sobrara este da Espanha.
do almoço. Terminada a refeição, ele disse: 
— Milord, o senhor acha que um homem Os espanhóis estavam sitiados pelos
que se contenta com uma refeição como esta mouros na África, em 1706, e o rei Filipe V
deixa-se conquistar com tanta facilidade? ordenou que o conde de Santa Cruz lhes le-
Diga ao rei o que acaba de ver, e é esta a vasse uma frota com recursos. Ao invés de
única resposta que tenho a dar.27:1:311 seguir para a África, ele a levou para a In-
glaterra, e em conseqüência os espanhóis
From: Contrappunto foram derrotados. Ao saber disso, um irmão
Acho que a lealdade deve ser bem en- do conde, que era arquidiácono em Córdo-
tendida, Beaugeste. Diga-me se você consi- ba, procurou na paróquia os registros de nas-
dera que um monarca tem o direito de exigir cimento do traidor, rasgou-os e amaldiçoou:
uma prova de lealdade como a destes dois — Que não reste nenhuma lembrança de
episódios. homem tão desprezível.27:2:435

Dom José I, rei de Portugal, comentava Há ainda casos de deslealdade e oportu-
com alguns nobres o poder que têm os reis nismo, como estes.
sobre os seus súditos. O marquês de 
Pontelena ousou dizer que esse poder tinha O rei Carlos I da Inglaterra, perseguido
limites. Mas o rei, não querendo admitir tais no parlamento, refugiou-se na Escócia, mas
restrições, advertiu: os escoceses o entregaram aos inimigos em
— Se eu ordenasse que vos lançásseis troca de dois milhões. Quando soube da tran-
ao mar, deveríeis executar a minha ordem sação, o monarca comentou:
sem a menor hesitação! — Ainda bem! Prefiro ficar com os que
Em vez de replicar, o conde foi se reti- me compram a ficar com os que me vende-
rando. ram.32:2455
— Aonde vai o senhor, assim tão zanga- 
do? Napoleão derrotado em Waterloo foi
— Aprender a nadar, Majestade.27:2:230 exilado para a ilha de Santa Helena. Luís
 XVIII, que assumira o trono após a restau-
O czar Pedro o Grande, em visita a Co- ração, concedeu audiência aos membros de
penhague, foi levado pelo rei Frederico IV uma academia literária de província. Estava
ao alto da famosa torre redonda. A fim de interessado em algumas obras da literatura
dar ao soberano dinamarquês um exemplo grega, e quis saber se entre eles havia algum
do seu sistema autocrático de governo, cha- especialista no assunto:
mou um dos soldados que o acompanhavam — Há entre vós algum helenista?
e ordenou: O orador do grupo não sabia o que são
29 — É ponto de honra para os nobres a lealdade ao rei e à pátria 185

helenistas, baseou-se numa suposição e res- esse seu inimigo pessoal. Mas fico satisfei-
pondeu: to em constatar que você a censura, ainda
— Helenistas?! Tínhamos alguns, mas quando feita ao corso.
a nossa academia os dispensou sumariamen- A maldade humana está sempre pronta
te. Talvez se encontrem hoje, em toda a pro- a se manifestar, e cumpre a cada um evitar
víncia, apenas uns três ou quatro que ainda que ela predomine. Observe que no exem-
se compadecem do prisioneiro de Santa He- plo espanhol há um desleal, mas o repúdio
lena.27:2:277 à deslealdade foi tão grande, que até o pró-
prio irmão o condenou.

B em, caro Contrappunto, eu imaginava


que você se alegraria com uma desleal-
dade que alguém praticasse contra Napoleão,
Nosso dia está terminando, e eu gosta-
ria de encerrar com uma conclusão que con-
sidero importante.

É ponto de honra para os nobres


a lealdade ao rei e à pátria
186 A volta ao mundo da nobreza

30º dia

D epois que encerramos a reunião de on-


tem, foram-me enviados outros exem-
plos de lealdade e confiança. Porém eles não
tava e os deixava, e começaram a gritar, de-
sesperados. Quando conseguiu voltar, Ma-
galhães disse:
se referem tanto ao rei e à pátria, mas ao re- — Deixei aqui minha palavra, e não po-
lacionamento entre pessoas. Vamos deria partir sem ela.
transcrevê-los, começando pela lealdade Graças à sua habilidade e à confiança que
entre superior e inferior. lhe devotavam, conseguiu ele salvar toda a
 tripulação.109:2226
Luís XIV fez a Turenne enormes elogi- 
os depois da campanha militar de 1673. E Guilherme III da Inglaterra queria sur-
comunicou-lhe que o marquês de Saint-Abre preender o exército francês num ataque, e
cessaria de servir sob o seu comando, pois pôs-se em marcha com seu exército sem
havia reprovado em relatório algumas das revelar o destino. Um coronel perguntou-lhe:
operações militares de Turenne. Este repli- — Posso saber aonde Vossa Majestade
cou: nos conduz?
— Por que não me falou ele pessoalmen- — Se eu o disser, saberás manter segre-
te sobre isso? Eu o teria ouvido com prazer, do?
e sem dúvida seus conselhos me teriam sido — Prometo não o dizer a ninguém.
úteis. — Ótimo! E agora permita-me seguir o
Em seguida conseguiu recompensas para seu exemplo, não contando meu segredo a
o marquês, além da promessa de que ele con- ninguém.32:6905
tinuaria sob seu comando.58:1:263 
 Quando Henrique IV dava instruções a
O navegador português Fernão de Ma- algumas pessoas para uma missão secreta,
galhães voltava para Portugal após a con- perguntaram-lhe sobre um ponto delicado.
quista de Goa, e seu navio naufragou. Todos — Os senhores são capazes de guardar
a bordo queriam ser os primeiros a dispor um segredo?
das chalupas de salvamento, e então ele or- — Certamente, Majestade!
denou: — Eu também.1:21
— Embarquem os fidalgos e os capitães.
Eu fico com os marinheiros. From: Antoinette
Isso acalmou os ânimos, e afinal todos Beaugeste, conheço um fato sobre o fi-
puderam desembarcar numa das ilhas lho de Maria Antonieta, demonstrando a le-
Malvinas. Depois disso os chefes decidiram aldade que se deve ter aos amigos.
que deviam embarcar novamente nas 
chalupas e sair à procura de socorro. Da Um menino que era companheiro de
chalupa em que dava suas ordens aos que brinquedo do delfim quebrou por descuido
partiriam, ele gritou aos marinheiros que fi- um vaso precioso. Quando os cacos foram
caram na ilha, afirmando que voltaria. Mas encontrados, o menino não estava presente
a maré deu-lhes a impressão de que se afas- e a culpa foi atribuída ao delfim. A punição,
30 — A lealdade dos nobres abrangia superiores, inferiores, amigos e até inimigos 187

cruel para uma criança, foi privá-lo por três a bater-se com ele caso não cumprisse o que
dias do costumeiro passeio, durante o qual prometera, perguntou:
teria à sua disposição muitos brinquedos. Ele — O senhor por acaso não esqueceu al-
se submeteu sem reclamar. Quando o culpa- guma coisa em Londres?
do voltou ao palácio, denunciou-se. Pergun- — Sim, senhor. Esqueci-me de despo-
taram ao delfim por que não alegara inocên- sar vossa irmã.
cia, e ele respondeu: E voltou a Londres para realizar o casa-
— Entre os meus deveres está o de acu- mento.58:2:381
sar alguém?27:1:515
From: Clausewitz
From: Geoffrin Beaugeste, os exemplos de lealdade pes-
Caro Beaugeste, estive desconectada da soal são numerosos em casos de guerra, e
Internet alguns dias, por motivo de doença, vou transcrever alguns.
mas aqui estou novamente para colaborar 
com o seu salão. Os exemplos seguintes re- O rei francês Henrique III aprisionou o
ferem-se também à fidelidade aos amigos. rei de Navarra, que viria a ser seu sucessor
 com o nome de Henrique IV. Este conseguiu
Um homem foi preso por ser culpado da fugir, e as suspeitas de cumplicidade recaí-
morte de outro. Como era muito pobre, o ram sobre o nobre Fervaques. Diante de al-
alcaide-mor permitiu-lhe que trabalhasse em guns membros da corte, o rei jurou que man-
liberdade para o próprio sustento, enquanto daria executar Fervaques, e advertiu os pre-
o seu caso não fosse julgado pela corte. Es- sentes que pagaria com a vida quem lhe con-
tava o réu trabalhando, quando recebeu a tasse a sua intenção. Conhecendo bem
notícia de sua condenação à forca. Ao invés Fervaques, Crillon considerava-o incapaz
de fugir, correu para falar com o alcaide-mor, dessa traição; e decidiu procurá-lo, recomen-
expondo-lhe o ocorrido. Este perguntou: dando que fugisse. Ao tomar conhecimento
— Por que não fugiste, em vez de vir da fuga, o rei intimou os mesmos nobres da
falar comigo? véspera a que se denunciasse o culpado de
— Para que o senhor não seja culpado tê-lo avisado. Crillon se adiantou e disse:
da minha fuga, pela liberdade que me deu. — Senhor, eu jamais seria delator, a não
— Foge então para Castela, e verei o que ser de mim mesmo. Sou eu aquele que deveis
consigo fazer. punir, pois eu me julgaria o assassino de
Comparecendo então à corte, o alcaide- Fervaques, se tivesse guardado o segredo que
mor expôs a D. João III todo o ocorrido, e lhe custaria a vida.
este sentenciou: Espantado, Henrique III permaneceu
— Se um homem de baixa condição so- mudo algum tempo, e depois disse:
cial tem tanta honradez, faço-lhe mercê da — Como só existe no mundo um Crillon,
vida.62:93 minha clemência a seu favor não se tornará
 um exemplo perigoso.27:1:512
O cavaleiro de Grammont, que depois 
se tornou conde, apaixonou-se em Londres Em Argel, o Sr. de Choiseul ia ser amar-
pela Srta. Hamilton e prometeu desposá-la. rado à boca de um canhão, para ser
Mas decidiu partir sem cumprir a promessa, supliciado, quando foi reconhecido por um
o que foi tomado como afronta pelo irmão soldado argelino que fora muito bem trata-
dela. Alcançando-o no caminho, e decidido do por ele quando era seu prisioneiro. O sol-
188 A volta ao mundo da nobreza

dado agradecido decidiu pedir ao seu chefe 


o perdão para Choiseul, explicando-lhe o O príncipe de Condé considerava que a
motivo, mas não foi atendido. Abraçou en- maior habilidade que se possa ter durante a
tão o prisioneiro e gritou ao soldado encar- vida consiste em agir com lealdade e hones-
regado de disparar o canhão: tidade. Quando lhe contaram um estratage-
— Atire! Se eu não posso salvar meu ma indigno usado por um general numa ba-
benfeitor, terei ao menos a consolação de talha, ele se fechou e disse:
morrer com ele. — A astúcia é um recurso das almas pe-
Diante disso, o chefe argelino concedeu quenas e débeis. Pode-se enganar facilmen-
a Choiseul o perdão.27:1:321 te quem está de boa fé. Mas, uma vez desco-
 berta a mentira, só resta a desonra e a vergo-
Gassion foi ferido na ponte de Cameretz, nha.32:3338
quando combatia ao lado do duque de Rohan. 
Não queria se separar do comandante, e este A conquista do forte de la Goleta, em
lhe perguntou: 1535, foi organizada e comandada por Carlos
— Mas o senhor consegue acompanhar- V. A resistência ao sítio foi intensa, e um
nos? mouro desertor foi levado à presença do
— Não vejo o que possa impedir-me. imperador, dizendo-lhe que poderia provo-
Afinal, as vossas retiradas não são assim tão car a morte do comandante por meio de ve-
rápidas.27:1:231 neno que colocaria no pão, pois era o seu
padeiro. Carlos V replicou imediatamente:

O
gos.
utro aspecto bonito da lealdade é que
ela pode e deve existir até entre inimi-
— Seria uma desonra para um príncipe
valer-se da traição e do veneno para vencer
um inimigo, que pretendo castigar com a
 ajuda de Deus e o valor dos meus solda-
O marechal de Villars havia oferecido dos.109:2225
um prêmio a quem lhe entregasse vivo ou 
morto o chefe dos revoltosos camisards. Para pôr fim à batalha de Bretigny, em
Depois de presenciar a execução de alguns 1360, o rei francês João II entregou aos in-
dos seus seguidores, esse chefe resolveu gleses como refém seu filho, o duque de
apresentar-se ao marechal: Anjou. Este foi mantido em liberdade sob
— É verdade que prometestes a recom- palavra, mas decidiu fugir para a França.
pensa de mil escudos a quem vos entregar o Quando tomou conhecimento da fuga, o rei
comandante dos revoltosos? decidiu ir pessoalmente para a Inglaterra, a
— Sim, é verdade. fim de substituir seu filho e reparar diante
— Então essa recompensa me é devida, dos inimigos essa conduta desleal. E decla-
pois eu sou quem procurais, e estou me entre- rou aos que tentavam impedi-lo:
gando. Os meus crimes me tornam indigno — Se a boa fé e a justiça fossem banidas
dessa recompensa, mas tenho tanta confiança deste mundo, seria necessário que encontras-
na clemência do rei e na vossa generosidade, sem guarida no coração e na palavra dos
que não tive receio de trazer-vos eu mesmo reis.109:2963
essa cabeça criminosa, da qual podeis dispor. 
O marechal lhe entregou na hora os mil Conta-se que o marechal de Turenne foi
escudos prometidos e concedeu anistia a ele assaltado nas proximidades de Paris por um
e aos oitenta outros revoltosos.58:2:74 bando de ladrões, que se apossaram de tudo
30 — A lealdade dos nobres abrangia superiores, inferiores, amigos e até inimigos 189

o que ele levava. Pediu no entanto que lhe 


permitissem manter consigo um diamante O rei D. João III atendeu em audiência
valioso e de grande estimação, e prometeu um empreiteiro, que lhe apresentou queixa
que pagaria o seu valor em dinheiro no dia em relação a um oficial seu, alegando que o
seguinte. Um dos ladrões teve a audácia de desservira em muitas coisas. E poderia
comparecer à sua casa para cobrar o valor prová-lo, pois o conhecia havia mais de vin-
prometido. Ele pagou e deixou que o ladrão te anos. O rei perguntou:
saísse de casa sem qualquer obstáculo. Quan- — E nesses vinte anos, por que nunca
do alguns amigos lhe objetaram a conduta, mo dissestes? Deveis ter tido agora algum
argumentou: desentendimento com ele, daí terdes vindo
— Um homem honrado nunca deve fal- reclamar. Podeis ir embora, que verei isso
tar à própria palavra, mesmo quando empe- devagar.
nhada a delinqüentes.109:539 Depois que o homem saiu, o monarca
português comentou:

D a mesma forma que os nobres se em-


penham em manter a fidelidade e a le-
aldade, o seu sentimento de honra abomina
— Este deve ser maior ladrão que o ou-
tro. E é costume deles, quando se desenten-
dem, dizer mal uns dos outros.62:90
toda ação de deslealdade. Sobre isso já re- 
cebi os seguintes fatos. O ambicioso abade de la Rivière, para
 elevar-se ao cardinalato, não vacilava em
Luís XV sabia avaliar o caráter dos seus trair ante personagens influentes aqueles que
cortesãos. Quando ordenou que o conde o haviam beneficiado, entre esses o duque
d’Argenson deixasse o ministério da Guer- Gastão de Orleans. Depois de destituí-lo, o
ra e se recolhesse às suas terras, aproximou- duque declarou:
se dele um cortesão que sempre se mostrara — O abade deve saber quanto eu valho,
ostensivamente admirador do ministro que pois já me vendeu várias vezes.27:2:435
agora caía em desgraça. O rei lhe comuni- 
cou a atitude que tomara, e o cortesão co- Napoleão III soube disfarçar suas inten-
mentou, esfregando as mãos em sinal de ale- ções, antes de assumir o governo da França.
gria: O escritor Saint-Beuve sentiu-se traído pelo
— Acabo de ver a carroça que conduzia amigo, cujas propostas havia apoiado, e de-
a bagagem dele! pois de uma tensa entrevista com o casal real,
Depois que ele se afastou, Luís XV co- comentou:
mentou com uma pessoa íntima, aludindo à — O lado monstruoso dos governantes
traição de São Pedro: é que conseguem ser pessoas inferiores a si
— E o galo cantou.37:1:287 mesmas.109:2816
 
Apresentou-se a Gustavo III da Suécia Um general inglês comandava uma ci-
um homem com a denúncia de que um cons- dade cercada pelos espanhóis, e convocou à
pirador tinha o projeto de atentar contra a sua presença alguns dos oficiais inimigos a
vida do rei. Conhecedor da inimizade entre fim de fazer a rendição. Não apenas não se
denunciador e denunciado, o rei disse: rendeu, mas mandou degolá-los. Apresen-
— Ide reconciliar-vos com o vosso ini- tou-se depois à rainha Isabel I. Esta lhe deu
migo, e poderei acreditar depois no que me algumas moedas de ouro e despediu-o, di-
contais.27:1:306 zendo:
190 A volta ao mundo da nobreza

— Este é o preço da vossa traição. Nun-


ca mais vos apresenteis diante de mim. Só
vos chamarei quando precisar de um trai-
D e fato, não se pode supor aí lealdade a
um simples cavalo. Por outro lado, o
comandante havia morrido e não cabia leal-
dor.32:4746 dade a ele, mas o novo comandante parecia
indeciso sobre o que fazer. Talvez se possa
From: Contrappunto dizer que era lealdade à França, embora ela
Beaugeste, conheço um fato que de- não apareça como protagonista no fato.
monstra algo de lealdade. Mas o curioso é Bem, amigos, há ainda alguns aspectos
que não consigo definir a quem essa lealda- da atuação dos nobres nas guerras, que pre-
de se refere. cisam ser devidamente entendidos. As guer-
 ras eram para eles ocasiões de verdadeiro
O marechal de Turenne, ao morrer no holocausto, pois se expunham constante-
campo de batalha, cavalgava um belo ca- mente a morrer em defesa da pátria. O
valo, muito conhecido e admirado pelos sol- heroísmo era exímio, e estou certo de que
dados. Sem o comandante, os oficiais fica- podemos colher disso exemplos edificantes.
ram momentaneamente indecisos quanto ao Proponho que os amigos me enviem os fa-
rumo a seguir. Os soldados então sugeri- tos que conhecem, comprovando essa
ram: heroicidade, e se eles forem em número su-
— Ponham na frente o cavalo do co- ficiente, poderemos relatá-los na próxima
mandante, e nós o seguiremos aonde ele reunião. Para finalizar a de hoje, podemos
for.27:1:208 afirmar que

A lealdade dos nobres abrangia superiores,


inferiores, amigos e até inimigos
191

31º dia

P rezados amigos, hoje temos um proble-


ma para resolver, referente a dúvida
surgida entre participantes das reuniões.
E é natural que apareçam do outro lado fa-
tos desabonadores sobre aqueles que eram
contrários aos nobres, seja por inveja, anta-
Mas, como o nosso salão tem vivido num gonismo ideológico ou qualquer outro mo-
clima de cordialidade, todos procurando con- tivo.
tribuir para a mesma finalidade, acho que
não será difícil transpormos esse obstáculo. From: Contrappunto
Acontece que eu recebi uma queixa de um Muito grato pelo seu esclarecimento,
novo participante sobre o nosso amigo Beaugeste. Se nós estamos interessados em
Contrappunto. Vejam como ele me expôs destacar os benefícios que a nobreza propor-
ontem o assunto. cionou ao longo da História, e que a leva-
ram a ter o bom conceito que você mencio-
From: Robespierre nou para o seu professor, é de se prever que
Beaugeste, tenho notado um fato curio- fatos negativos predominem naqueles que
so, que no entanto pode ser simples coinci- trabalharam contra a nobreza. Mas houve
dência. Tem-me chamado a atenção que o também nobres que agiram muito mal. Te-
colaborador Contrappunto apresenta fatos nho alguns fatos sobre a atuação de um de-
não exatamente elogiosos para a nobreza. les, Charles-Maurice de Talleyrand Périgord,
Mas, se você prestar atenção, verá que a de antiga nobreza francesa, que a História
grande maioria deles tem como protagonis- apresenta como um dos principais respon-
tas pessoas contrárias à monarquia ou à no- sáveis pela Constituição Civil do Clero e a
breza. Napoleão, Voltaire, os enciclopedistas ascensão de Napoleão, o que não é pouco
e demais revolucionários, e ainda republi- quando se consideram os efeitos funestos de
canos de tempos posteriores. As atitudes ambas. Vou relatar esses fatos, e você verá
censuráveis que ele apresenta são quase sem- que realmente ele agiu muito mal, embora
pre de gente desse nível. Você não acha que fosse nobre e de uma inteligência especial-
há aí um parti pris? mente bem dotada. Vou começar mostrando
o cinismo dele.

M uito interessante a observação do
Robespierre. Aliás, o seu pseudônimo
é inspirado num personagem que, se vier a
Terminada uma reunião social em casa
da duquesa de Laval, Talleyrand e o conde
aparecer em algum relato (e não duvido que de Montrond, ao se despedirem da anfitriã,
o Contrappunto já esteja pensando nisso), manifestaram-lhe o motivo da sua mútua
não será por nenhuma atitude elogiável. Es- amizade:
clareço que não me tinha chamado a aten- — Sou amigo de Montrond porque ele é
ção essa coincidência, mas devo concordar um homem de poucos escrúpulos.
que ela existe. Eu até compreendo que pos- — E eu sou amigo de Talleyrand porque
sa ser assim, pois o meu professor pediu fa- ele não tem nenhum escrúpulo.32:9977
tos que comprovem atitudes habitualmente 
boas por parte dos nobres, reis, rainhas, etc. Exasperado com as sucessivas atitudes
192 A volta ao mundo da nobreza

conspiratórias de Talleyrand, Napoleão apro- os seus colaboradores, e estou gostando do


veitou uma boa ocasião nas Tulherias para seu salão, que enriquece muito meus conhe-
lançar-lhe, na presença de muitos, uma cas- cimentos históricos além de apresentar fa-
cata de acusações e ofensas, na costumeira tos pitorescos e por vezes hilariantes. Rir é
linguagem de caserna. Talleyrand ouviu-as uma forma de aliviar tensões, e eu gosto de
com estudada impassibilidade. Cada vez dar umas boas risadas de vez em quando.
mais irritado, Napoleão lembrou: Mas eu me especializei numa forma de hu-
— E o senhor nem me contou que o du- mor não muito bem vista nos salões, que é o
que de São Carlos é amante da sua mulher. trocadilho. Faço questão de inseri-los na
— Ora, Sire, eu não pensei que essa no- conversa apenas quando são oportunos, sem
tícia pudesse interessar à glória de Vossa desviar o assunto do momento. Com isso eu
Majestade ou à minha. resolvo o problema que um escritor apon-
Desconcertado, e antes de se retirar, tou: Os que têm a mania do trocadilho não
Napoleão completou: imaginam quanto aborrecem os ouvintes,
— Saiba que, se estourar uma revolu- nem a má reputação que adquirem. Foge-se
ção, o senhor seria o primeiro a ser esmaga- deles como da peste, e eles destroem em tor-
do. no de si toda conversa. Parece que esse de-
Talleyrand permaneceu imóvel durante feito se inclui no número dos incuráveis.83
mais algum tempo, e enquanto o imperador Você julgará se minhas intervenções são
se afastava, mas ainda a uma distância sufi- descabidas, mas não resisto à tentação de
ciente para ouvi-lo, comentou: apresentar, de vez em quando, alguns troca-
— Que pena, senhores, que um tão gran- dilhos perpetrados por personagens históri-
de homem seja tão mal educado. cos. Começo por este, que também aborda
Narrando depois o episódio à viscon- os vícios de Talleyrand.
dessa de Laval, ela perguntou: 
— Então o senhor ouviu tudo isso e não Quando Talleyrand foi nomeado vice-
lhe atirou uma cadeira em cima? chanceler, Fouché comentou:
— Até pensei em fazer algo assim. Mas... — Só faltava a ele mais esse vice (vício
sou muito preguiçoso para isso.38 ou vice, em francês).32:5643

É difícil descobrir algum vício que ele
não tivesse. Fouché, chefe da polícia de
Napoleão, havia votado a favor da morte de
A cho pertinente o episódio que você con-
tou, Calembour, e quero incentivá-lo a
apresentar outros, pois certamente nossos
Luís XVI. Pretendia um cargo no governo amigos também gostam, como eu, de fatos
restaurado de Luís XVIII, e pediu a hilariantes. Voltando à atuação de Talleyrand
Talleyrand que o apresentasse ao rei. – da qual, aliás, você não nos desviou – ve-
Talleyrand era manco, e por isso caminhava jamos outros fatos que o Contrappunto ain-
então apoiado no ombro de Fouché. da tem.
Chateaubriand os viu e sentenciou: 
— Ali vai o vício apoiado no crime.32:5656 Durante os seus últimos anos de vida, o
príncipe Luís de Bourbon tinha momentos
From: Calembour de perda de lucidez. Num dia em que
Beaugeste, vou interromper a exposição Talleyrand se apresentou para visitá-lo, pen-
do Contrappunto para acrescentar um exem- sava-se que ele se recusaria a recebê-lo, de-
plo da vida de Talleyrand. Sou novo entre vido ao seu infame papel na Revolução Fran-
31 — As boas estirpes não degeneram 193

cesa. Pelo contrário, ele o recebeu com afa- — Neste caso, passarei para o outro
bilidade, pôs-lhe a mão no ombro e disse: lado.32:13941
— Meu caro, como estou contente em 
revê-lo! Sua visita me dá um grande prazer. Talleyrand entrava nos salões com seu
Assustei-me quando a anunciaram, julgan- ar frio e despreocupado, mancando e arras-
do que se tratasse daquele canalha do tando o pé. Na época do Consulado, desdo-
Périgord, que foi bispo de Autun e cometeu bramento da Revolução Francesa, ele decla-
tantas patifarias na sua vida imunda. Quan- rava ser cansativo referir-se ao triunvirato
to ao senhor, minha casa estará sempre aberta constituído pelo cidadão Primeiro Cônsul
para recebê-lo. (Napoleão), cidadão Segundo Cônsul
Talleyrand despediu-se o mais rápido (Cambacérès) e cidadão Terceiro Cônsul
que pôde, para não voltar nunca mais. Logo (Lebrun). Designava-os simplesmente e iro-
que ele se distanciou, o príncipe deu uma nicamente por Hic, Hæc, Hoc (este, esta, isto
boa gargalhada, e explicou: – masculino, feminino e neutro).83
— Aproveitei a minha conhecida condi- 
ção de insanidade mental para tripudiar so- Quando começou a conspirar para a que-
bre o terrível Talleyrand, que enganou e pre- da de Napoleão, Talleyrand dizia aos quatro
judicou tanta gente.32:3360 ventos:
 — O povo francês não sabe o que fazer
As traições e conspirações dele se suce- das conquistas territoriais de Napoleão, e está
diam. Uma das primeiras foi contra a Igreja satisfeito dentro das suas fronteiras naturais.
Católica, da qual era bispo de Autun. Foi o A alguns amigos, no entanto, acrescen-
principal articulador da Constituição Civil tava:
do Clero, que confiscou os bens eclesiásti- — O povo francês é civilizado, mas o
cos e colocou a hierarquia católica na de- seu soberano ainda não é.38
pendência do Estado. Essa traição já fora 
precedida de outras, e a ela se seguiram Conversava-se num grupo sobre a imen-
muitas. sa fortuna que Talleyrand adquiriu, por mei-
 os geralmente inconfessáveis. Um dos pre-
Em 1787, durante a assembléia dos no- sentes, aludindo às sucessivas conspirações
táveis, já se ouviam os estrépitos da Revo- que ele urdira para depor os mesmos que
lução Francesa, cujos principais artífices havia ajudado a subir, comentou:
eram então o duque de Orleans e Mirabeau. — Isso não é de estranhar, pois ele ven-
O partido da corte desejava o apoio de deu todos os que o compraram.27:2:435
Talleyrand, e o conde de Artois (irmão de 
Luís XVI) perguntou-lhe: Quando velho, e tendo participado de
— O que acha o senhor que se deve fa- conspirações para derrubar os governos aos
zer? quais servia, Talleyrand disse a um amigo:
— É necessário cortar duas cabeças, ape- — O queijo Brie é o rei dos queijos fran-
nas duas. Se não for feito isso, mais tarde ceses.
terão de ser cortadas muitas outras. E o amigo ponderou:
— E quais são essas duas cabeças? — Espero que o senhor tenha se manti-
— O duque de Orleans e Mirabeau. do fiel pelo menos a esse rei.14
— Penso exatamente o mesmo, mas o
meu irmão não consentirá. Enquanto homem público ocupando al-
194 A volta ao mundo da nobreza

tos postos, as suas intervenções eram de freqüência desafiava os poderosos, que se


modo geral sensatas, mas eivadas de velha- viam obrigados a ceder às suas exigências,
carias ou canalhices. e com isso aumentava ainda mais a sua in-
 fluência.
Roederer havia sido encarregado de pre- 
parar o texto da constituição para a repúbli- Quando voltou da Rússia, Napoleão o
ca cisalpina. Concluído o trabalho, procu- atacou brutalmente, acusando-o de traidor,
rou Talleyrand. e finalizou:
— Aqui estão dois textos de constitui- — Arrependo-me de não vos ter enfor-
ção. Um é curto e sintético. O outro é maior, cado como devia, antes de partir.
mais detalhado. Peço-lhe sugerir ao Primei- Tranqüilo, ele desafiou:
ro Cônsul Bonaparte adotar o menor, pois a — Mas ainda está em tempo.32:13978
meu ver uma constituição deve ser breve e 
clara. Talleyrand havia colaborado para a que-
— Nada disso! Para ser boa, uma cons- da do Diretório e ascensão de Napoleão.
tituição deve ser breve e obscura.38 Depois, conspirou para derrubar Napoleão.
 E estava diante de Luís XVIII, após a Res-
Napoleão havia mandado executar su- tauração, disputando um alto posto no novo
mariamente o duque d’Enghien, crime que governo. Luís XVIII lhe confidenciou:
revoltou os franceses, especialmente os no- — Admiro a influência que o senhor teve
bres, mas que havia sido secretamente apro- sobre tudo o que se passou na França nos
vado por Talleyrand. Após o fato consuma- últimos anos. Como é que o senhor conse-
do, alguns amigos de Talleyrand, sem saber guiu derrubar o Diretório, e mais recente-
da participação que nele tivera, sugeriram: mente o poderio colossal de Bonaparte?
— É necessário o senhor se manifestar Arriscando uma quase explícita amea-
publicamente em desacordo com essa infâ- ça, ele respondeu:
mia. — Sire, eu nada fiz nesse sentido. Mas
— Como?! Se Napoleão comete um de- há alguma coisa inexplicável em mim, que
lito, os senhores me aconselham a cometer traz a desgraça a todos os governos que me
uma tolice?38 desprezam.33:6509
 
Após a derrota de Napoleão e a Restau- Na Restauração, Luís XVIII concedera
ração dos Bourbons, Talleyrand examinava a Talleyrand funções importantes na corte, a
com Luís XVIII a nova carta constitucional. contragosto. Preferia que ele renunciasse,
— Majestade, vejo aqui uma omissão. retirando-se para o seu castelo de Valençay.
— Qual? Um dia, insinuou:
— Os honorários que receberão os de- — O senhor não pretende viajar para o
putados. interior, Sr. Talleyrand?
— Oh, são cargos honoríficos, por isso — Não, Sire. A menos que Vossa Ma-
eu entendo que as funções devem ser gratui- jestade pretenda viajar para Fontainebleau,
tas. pois nesse caso é meu dever acompanhar-
— Sim, compreendo. Mas gratuitas... vos.
gratuitas... Isso pode sair muito caro.109:2393 — Não é bem isso. Gostaria de saber se
o senhor não pretende viajar para as suas
Cônscio da sua força e prestígio, ele com terras.
31 — As boas estirpes não degeneram 195

— Não, Sire. Revolução Francesa, a propósito da Consti-


— Qual a distância de Paris a Valençay? tuição Civil do Clero, alguém perguntou a
— São apenas quatorze léguas menos Luís XVIII:
que de Paris a Gand. — Como é que o Sr. Talleyrand vai se
A ameaça era clara, pois durante os cem entender com o clero, para receber os sacra-
dias de Napoleão após o retorno da ilha de mentos?
Elba, Luís XVIII tivera de exilar-se em — Ora, não se preocupe. Ele sabe viver
Gand.33:6510 muito bem, para saber morrer.1:260

Algumas das suas frases mais conheci- Quando Talleyrand estava agonizante, o
das são lapidares, e os livros de História não rei Luís Filipe de Orleans foi visitá-lo. E
se cansam de citá-las. Eis uns poucos exem- perguntou:
plos. — Como vai?
 — Mal, muito mal, muito mal! Até pa-
A notícia da morte de Napoleão em Santa rece que estou no inferno!
Helena, em 1821, chegou ao conhecimento — Já?!10:220
de Talleyrand quando jantava na casa da Sra.
Crawford, juntamente com o duque de From: Rivarol
Wellington. A anfitriã exclamou: Amigo Contrappunto, já que você geral-
— Que acontecimento! mente apresenta os aspectos negativos dos
Com indiferença, ele corrigiu: personagens – neste caso do Talleyrand, eles
— Antigamente seria um acontecimen- são abundantes – vejo-me na obrigação de
to. Hoje é uma simples notícia.33:6514 mostrar aqui o outro lado, pois até num in-
 divíduo com essas características pode-se
Perguntaram a Talleyrand: encontrar algo positivo.
— Que opinião o senhor tem sobre o 
reinado de Luís Filipe? Os vícios de Talleyrand eram muito co-
— Minha opinião?! Eu tinha uma de nhecidos, e todos os comentavam. Mas no
manhã e outra ao meio-dia. Agora, à tarde, leito de morte ele exclamou:
não tenho nenhuma opinião.33:6515 — É verdade o que dizem: eu traí todos
 os partidos. Mas não traí a França!33:6543
Arsène Houssaye queria escrever um li- 
vro de História sobre a época de Napoleão, Alguns princípios de retidão o orienta-
e procurou Talleyrand a fim de obter alguns ram durante a vida. Por exemplo, em todas
esclarecimentos. Ouviu a seguinte explica- as conspirações das quais participou, sem-
ção: pre teve preocupação em salvar a integrida-
— Ora, meu jovem. Eu vivi a história de territorial da França. Exemplar nesse sen-
que queres escrever, mas não seria capaz de tido foi a sua atuação no Congresso de Vie-
narrar, sem o perigo de enganar-me, os de- na, em que os principais monarcas europeus
talhes do que vi em um único dia da minha se reuniram para traçar a nova geografia do
vida. Como queres narrar num livro tudo continente. Cada um queria obter as maio-
isso?32:14021 res vantagens territoriais possíveis, princi-
 palmente contra a França, país perdedor da
Talleyrand estava gravemente enfermo. guerra para os aliados, pois já era válido este
Lembrando a atuação anti-católica dele na princípio: amigos na guerra, inimigos ao re-
196 A volta ao mundo da nobreza

partir os despojos.14 Talleyrand era o repre- aliados em países isolados disputando entre
sentante da França derrotada. Na reunião de si os despojos. No final a integridade
abertura, com habilidade invejável, ele lan- territorial da França foi mantida, e a grande
çou a cisão entre os aliados, defendeu a le- nação vencedora no Congresso de Viena foi
gitimidade monárquica e a integridade exatamente a que havia sido derrotada na
territorial da França. Tudo isso baseado numa guerra.
simples palavra:
Senhores, tenho ouvido aqui repetidas
vezes a palavra aliados. Aliados... Aliados
contra quem? Não contra Napoleão, dester-
A migos, o Rivarol acabou fazendo o
contraponto do Contrappunto, e eu lhe
agradeço a sua intervenção. Nosso tempo
rado na Ilha de Elba. Não contra a França, está se esgotando, e hoje quase só falou o
pois a paz está feita. Não contra o rei da Fran- Contrappunto. Mas os esclarecimentos que
ça, que é a garantia de duração da paz. Se- ele apresentou foram muito interessantes, e
nhores, falemos francamente: se ainda há até me parece que não se precisa acrescen-
potências aliadas, eu estou aqui sobrando. tar mais nada.
No entanto, se eu não estivesse aqui, have-
ria uma falha essencial. Eu sou o único que From: Contrappunto
nada pede. Consideração, é tudo o que eu Um momento, Beaugeste. Gostaria de
quero para a França. Não peço nada, repito, sugerir que os amigos releiam o trecho das
mas ofereço-vos muito. A presença de um Memórias de Talleyrand, transcrito no pri-
ministro de Luís XVIII consagra aqui o prin- meiro dia, onde se pode ver algo da forma-
cípio sobre o qual repousa toda a ordem so- ção e dos exemplos próprios de uma família
cial. A primeira necessidade da Europa é nobre. Influências posteriores podem desvi-
banir para sempre a opinião de que pode ar a pessoa desse bom caminho, mas aí tra-
haver direitos baseados na simples conquis- ta-se de culpa pessoal, não do sistema. Mes-
ta, e fazer reviver o princípio sagrado da le- mo que haja desvios de conduta, sempre fica
gitimidade, do qual decorrem a ordem e a algo da educação recebida no seio da famí-
estabilidade. Se algumas potências privile- lia, e isso pode resultar em benefícios para o
giadas quisessem exercer sobre este Con- bem comum, como ocorreu com a França
gresso um poder ditatorial, devo dizer que, neste caso concreto. E já que hoje eu fui
cingindo-me aos termos do Tratado de Pa- quase o único a falar, peço-lhe permissão
ris, não poderia consentir em reconhecer para apresentar o fecho desta reunião. Ape-
nesta reunião qualquer poder supremo, e não sar do mau procedimento habitual do nosso
me ocuparia de nenhuma proposta vinda da personagem de hoje, acho natural que ele
sua parte.75 praticasse pelo menos algumas boas ações,
Com esse discurso simples, mas efici- de acordo com o que afirmou nas suas Me-
ente, ele transformou um grupo de países mórias:

As boas estirpes não degeneram


197

32º dia

P rezados amigos, como a reunião de on-


tem foi tomada pelo esclarecimento pe-
dido pelo Robespierre sobre a posição do
oficial. A idéia de que só à nobreza competia a
defesa nacional era rigorosamente aplicada, e
toda ocupação que pudesse impedi-la de exe-
Contrappunto, tivemos de transferir para cutar esse trabalho lhe era interdita. Não po-
hoje o assunto do holocausto dos nobres nas dia, sem perder a condição de nobre, dedicar-
guerras. Esse adiamento foi bom, porque se ao comércio e à indústria.50:181
houve mais tempo para os amigos pesqui- 
sarem o assunto proposto, e os fatos vieram O rei Umberto I repreendeu em Milão
em abundância. Creio até que alguns deve- um industrial que pertencia a família nobre:
rão ficar para a próxima reunião. Vamos co- — Para servir ao país de modo que seja
meçar com algumas noções sobre a partici- digno da própria família, um homem com a
pação da nobreza nas guerras, fornecidas sua linhagem deve dedicar-se ao exército, à
pelo Delassus. diplomacia.
— Majestade, eu não sirvo a ninguém.
Desde a Idade Média, na quase totalida- — Serve, sim. Serve ao próprio interes-
de dos países europeus, fazia-se uma distin- se.32:14527
ção muito nítida entre a grande massa da
população e os nobres, descendentes dos Quanto aos que se dedicam aos negóci-
antigos senhores feudais, geralmente possui- os, estão sempre atentos às oportunidades, e
dores de terras, e a quem, por direito de nas- sabem atuar em função dos próprios inte-
cimento, se reconheciam várias importantes resses até nas situações mais improváveis.
regalias. No século XVIII, embora não go- 
zassem do mesmo poderio de outros tempos No momento em que a batalha de
(pois a autoridade dos reis se tornara muito Waterloo chegava ao seu instante mais trá-
forte), na quase totalidade dos casos cabi- gico para os ingleses, Wellington descobriu
am-lhes os mais rendosos cargos públicos e de repente, ao seu lado, um homem a cava-
as posições de mando nos exércitos. Era ve- lo, vestido à paisana, e que parecia muito
dado a eles qualquer trabalho manual, qual- interessado em acompanhar o desenvolvi-
quer profissão, muito especialmente a práti- mento da ação.
ca do comércio. Segundo se entendia nessa — Quem é o senhor?
época, só a carreira das armas era compatí- — Meu nome é Jones, Excelência. Jones,
vel com a situação desses nobres.92:163 da casa Smith & Jenkins, quinquilharias,
ferros, metais.
Só a nobreza estava obrigada ao serviço — Com mil bombas! E o senhor pensa
militar, que prestava às suas próprias expensas. que este momento é próprio para fazer ne-
Os soldos, sempre muito pequenos, eram ape- gócios?
nas um complemento. Um nobre podia culti- — Não, Excelência. Mas disseram-me
var e fazer cultivar suas terras, mas só podia que provavelmente haveria combate aqui, e
fazer isso, porque devia manter-se durante toda eu vim ver. Comprei este cavalo e aqui es-
a vida à disposição do rei, como soldado ou tou, para assistir.
198 A volta ao mundo da nobreza

— Bom, já que está aqui, vai prestar um lar pelo bem comum. Por aí se percebe tam-
serviço à Inglaterra. bém que é inerente à nobreza a transmissão
Wellington escreveu apressadamente al- familiar, porque essas plenitudes se comu-
guma coisa numa folha e entregou-a ao Sr. nicam por família e se formam desde o ber-
Jones, dizendo: ço.14
— Leve esta ordem ao comandante da- Competia à nobreza a defesa do país
quele corpo do Exército que o senhor vê ali, contra as agressões externas, e também a
por trás daquele campanário. Mostre-lhe este defesa da ordem política e social.89:58 Para
anel, para provar ao general que sou eu quem ser o homem modelar posto no píncaro do
o manda. Depois, se quiser, pode voltar. feudo, tinha o senhor feudal de ser um herói
O ajudante de campo improvisado saiu cristão disposto a todos os holocaustos a fa-
a galope e não voltou mais. O marechal, en- vor do bem do seu rei e do seu povo, e o
tretanto, vendo o corpo do exército executar braço temporal armado em defesa da Fé e
o movimento ordenado, concluiu que o aju- da Cristandade, na guerra freqüente contra
dante Jones havia cumprido o seu dever. pagãos e hereges.89:132
Posteriormente, em Londres, anunciaram a A classe militar por excelência era a dos
Wellington a visita de um certo Jones. Ao senhores feudais, que vertiam o sangue em
entrar, Wellington reconheceu-o imediata- prol do bem comum espiritual e temporal,
mente. mais do que os seus conterrâneos. Este
— Como o senhor não voltou ao esta- holocausto colocava os nobres em situação
do-maior, pensei que tinha deixado os ossos análoga à dos mártires.89:166 Dificilmente se
em Waterloo. pode hoje avaliar em que proporção a no-
— Pouco faltou para isso, Excelência. breza rural derramou seu sangue nos cam-
Mataram-me o cavalo, que custara seis li- pos de batalha. No século XVII, não se con-
bras. seguiria encontrar uma única família de no-
— O senhor vem, então, pedir uma in- bres que não tivesse perdido algum de seus
denização. membros em guerras. Em alguns casos, uma
— Não se trata disso, Excelência. Mas mesma família chegou a perder doze ou tre-
agora eu sou sócio de Smith & Jenkins. Ven- ze irmãos.37:1:122
demos pás, picaretas, machados e utensílios 
de ferro... Numa ocasião de grandes feitos milita-
— Está bem, Sr. Jones. Vou indenizá-lo res dos nobres franceses, a princesa Maria
pela perda de sua montaria. Leszczynska, que se tornara rainha da Fran-
Dias depois a firma Jones, Smith & ça ao desposar Luís XV, perguntou ao con-
Jenkins recebia a patente de fornecedora do de de Tessé:
exército britânico.81:292 — E a vossa família, Sr. Tessé, também
se distinguiu na carreira das armas, não é?
Na ordem natural das coisas, aos que se — Sim, madame, nós todos morremos a
dedicam ao bem comum cabe o mando polí- serviço da pátria e dos nossos soberanos.
tico; e também a guerra, porque a guerra é a — Fico muito feliz em saber que o se-
direção do bem comum na emergência da nhor sobreviveu, para poder contar-me
crise. De algum ponto de vista, é a mais bela isso.27:1:125
e a mais nobre das atividades a favor do bem
comum. E é normal que o holocausto intei- Os cavaleiros sentiam até ao fundo da
ro seja pedido àquele que foi chamado a ze- alma o bonum e pulchrum desse holocausto,
32 — A vida dos nobres, um constante holocausto pelo bem comum 199

e nesse estado de espírito partiam para a sava a seguir essa orientação, preocupado
guerra, cercando de beleza as exterioridades com o efeito negativo que poderia causar na
da sua atividade militar.89:135 O heroísmo de tropa. Nesse momento chegou o marechal
que quase sempre os nobres davam mostras de Saxe, e o rei lhe expôs o assunto em deli-
era uma prova da integridade de alma com beração. O marechal reagiu indignado:
que aceitavam o seu holocausto. Em conse- — Qual o covarde que vos aconselha a
qüência, faziam jus a excepcionais privilé- agir assim? Se fosse antes da batalha, o meu
gios e honrarias. A elevação do combatente conselho seria esse, mas agora é tarde. Além
plebeu à nobreza – ou a promoção do com- disso a situação não é desesperadora.58:3:104
batente nobre a superior grau de nobreza – 
constituía recompensa justa e adequada ao O rei Alberto I da Bélgica, cujo país foi
valor militar.89:166 invadido pelos alemães apesar de todos os
tratados, combateu durante toda a Primeira

N o baú há alguns fatos mostrando o


holocausto dos próprios monarcas em
favor do bem comum.
Guerra Mundial. Num momento em que a
guerra parecia decidir-se a favor dos alemães,
a corte inglesa sugeriu a ele que deixasse a
 frente de batalha e se refugiasse na Inglater-
Concluídas as negociações com os ra. Ele respondeu imediatamente:
sarracenos para a libertação de todos os com- — Quarenta anos nunca foi e nem pode
batentes, os inimigos exigiram de S. Luís IX ser a idade regulamentar para a aposentado-
garantias, antes de libertá-los. Ele decidiu ria de um general belga.109:1020
então permanecer sozinho como refém, até
que fosse efetuado o pagamento. Assim ele
explicou aos seus cavaleiros a sua resolu-
ção:
D os príncipes e das próprias rainhas par-
tiam exemplos no mesmo sentido.

— Senhores, agradeço muito a todos que Na batalha de Fontenoy, quando solda-
me aconselharam a voltar para a França, dos franceses eram massacrados, o delfim
como também aos que me aconselharam a queria pôr-se à frente dos soldados, e de es-
ficar. A minha permanência aqui não repre- pada em punho gritava:
sentará perigo para o meu reino, pois a rai- — Marchemos, franceses! Vamos lutar
nha Branca de Castela, minha mãe, tem sú- pela honra da nação!
ditos suficientes para defendê-lo. Por outro Alguns o advertiram de que a vida dele
lado, os nobres que me aconselharam a per- era muito preciosa, mas ele replicou:
manecer dizem que a minha volta significa- — No dia de uma batalha, preciosa não
rá a perda do reino de Jerusalém, pois nin- é a minha vida, e sim a do general.27:1:262
guém quererá permanecer aqui depois que 
eu voltar. Por nenhum preço eu consentiria Durante o cerco de Barcelona em 1706,
em perder o reino de Jerusalém, pois minha o rei Filipe V deixou como regente sua jo-
vinda foi para mantê-lo e conquistá-lo. Por- vem esposa Maria Luísa de Sabóia. Quando
tanto, a minha decisão é aqui permane- comentaram diante desta a onipotência da
cer.78:157 sua vontade, ela replicou:
 — Não tenho vontade que seja contrária
Em Fontenoy, alguns oficiais aconselha- ao meu dever.109:3472
vam a Luís XV afastar-se do campo de bata- 
lha, para não se expor a riscos. Ele se recu- Eduardo VII conseguira que os norue-
200 A volta ao mundo da nobreza

gueses aceitassem como soberano o prínci- França, Espanha e Sardenha. Diante de


pe Carlos da Dinamarca, marido da sua fi- Pizzigitone, um oficial o advertiu de que se
lha Maud. A princesa não gostou de trocar a expunha a muitos perigos, e ele respondeu:
cômoda vida inglesa pela dos nórdicos, e — Teríeis razão, se eu fosse da vossa
escreveu ao pai relatando as suas preferên- idade. Mas depois dos meus 82 anos resta-
cias. Eduardo não admitia oposições na fa- me pouco a viver, e não devo poupar-me nas
mília, e respondeu à filha: “As princesas não ocasiões em que se me oferece uma morte
podem ter caprichos, apenas deveres”.32:4700 gloriosa.58:2:72

C omo explicou o Delassus, os cargos de
comando durante as guerras competi-
am aos nobres. E eles se expunham aos pe-
Com a saúde enfraquecida, o marechal
de Villars voltava para a França quando uma
doença mortal o reteve em Turim. O confes-
rigos como qualquer soldado, ocorrendo sor o advertiu:
muitas vezes a morte em combate. — Deus vos favoreceu muito. Levastes
 uma vida em que vos ocupáveis mais da gló-
Na batalha de Chiari, em 1701, o gene- ria que da salvação eterna. Deus poderia ter-
ral Villeroi atacara em vão as posições de- vos tirado a vida durante algum dos comba-
fendidas pelas tropas de Eugênio de Sabóia. tes em que vos expusestes tantas vezes, mas
Pretendia lançar novo ataque, quando um Ele a conservou até agora para vos dar o tem-
oficial lhe fez notar: po de arrependimento. Esta graça Ele não
— Senhor, sabeis que um novo ataque concede a todos. O marechal de Berwick,
significa morte inevitável. por exemplo, acaba de ser morto por uma
— Sei bem que a morte está diante de bala de canhão na trincheira de Philipsbourg.
nós, mas atrás de nós está a vergonha.1:48 — Então ele morreu assim!? Bem dizia
 eu que ele tinha mais sorte do que eu.
Em 1745 o marechal de Saxe esteve Pouco depois o velho marechal expi-
muito doente, e temia-se que viesse a fale- rou.58:2:73
cer. Apesar do seu estado, queria a todo cus- 
to prosseguir viagem a fim de chefiar o exér- Estando D. Afonso V de Portugal em
cito nos Países Baixos. Aos oficiais que se Ceuta, fez algumas entradas nas terras dos
opunham devido à sua saúde, ele replicou: mouros. Em uma delas, na serra de Bencufu,
— À guerra não se vai para viver, e sim foi atacado por inimigos muito numerosos e
para morrer.32:9480 decidiu retirar-se para passar a noite em
 Tetuão. Ao chegar, notou que suas tropas
Quando o exército do marechal de Villars estavam se retirando em desordem e sem
se preparava para empreender uma batalha orientação. Mandou então que D. Duarte de
perigosa e mortífera, os oficiais insistiram Meneses, conde de Viana e capitão de Alcá-
em que se revestisse de uma couraça. Ele cer, voltasse para organizar a retirada. Sa-
respondeu: bendo que nessa tarefa o esperava a morte,
— Não considero minha vida mais pre- ele disse ao rei:
ciosa que a daqueles bravos soldados.27:1:262 — Senhor, encomendo-vos minha mu-
 lher e meus filhos.
Luís XV declarou guerra à Casa d’Áustria A alguns fidalgos que lhe perguntaram
em 1734, e o marechal de Villars foi escolhido o motivo de estar retornando ao campo de
para comandar na Itália as tropas reunidas da batalha, ele explicou:
32 — A vida dos nobres, um constante holocausto pelo bem comum 201

— Volto para morrer, porque a isso me de Saint-Géran a comentar no seu leito de


manda el-rei, meu senhor. morte:
De fato, D. Duarte de Meneses morreu — Receio que eu não seja reconhecido
logo depois.62:568 no outro mundo. Há muito tempo não morre
 um marechal francês com a cabeça sobre os
O duque de Borgonha deveria coman- ombros.27:2:350
dar um exército na campanha de 1709. Quan-
do tudo estava preparado, o controlador ge- From: Clausewitz
ral afirmou diante do conselho que não dis- A morte estava constantemente diante
punha de verba para lhe entregar, prevendo dos nobres combatentes. Talvez pior do que
que faltaria ao seu exército até mesmo o ne- isso fossem as mutilações decorrentes de
cessário. Depois de rebater esses argumen- ferimentos de guerra.
tos, o duque acrescentou: 
— Se nos falta o dinheiro, irei sem ele. Turenne foi atingido na batalha de
Viverei como simples oficial, alimentando- Saltzbach por uma bala de canhão, que lhe
me como qualquer soldado, e ninguém re- tirou a vida. A mesma bala atingiu no braço
clamará das comodidades que faltarem, pois o tenente Saint-Hilaire. Quando o filho des-
todos verão que também eu mal tenho o ne- te se lamentava em prantos pela situação do
cessário.58:1:185 pai, Saint-Hilaire o repreendeu:
 — Não deves chorar por mim, mas por
Durante o combate de Ecblet, o duque este grande homem.58:1:276
de Borgonha desceu do cavalo para apla- 
car a sede, e lhe foi oferecido servir-se tam- Em 1746, durante uma batalha, a perna
bém de uma refeição. Mas ele a recusou, de um granadeiro do regimento de Orleans
dizendo: foi estraçalhada por um tiro de canhão.
— Não é o momento nem o lugar ade- Quando o marechal de Saxe o recomendou
quado para se servir uma refeição. aos cuidados dos seus companheiros, o
Em seguida retomou o combate. Logo granadeiro disse:
que ele se afastou do local, um tiro de ca- — Que vos importa a minha vida?
nhão destruiu a cadeira em que ele se senta- Ganhai a batalha!27:2:467
ria para a refeição, tirando a vida de alguns 
soldados.58:1:180 John Churchill, duque de Malborough
 até 1722, estava numa trincheira com seu
O visconde de Aubusson recebeu em sobrinho e outro cavaleiro, quando uma bala
1655 numa batalha um duro golpe na cabe- de canhão atingiu a cabeça deste último e
ça. Atendido por seus amigos, um deles ex- lhe fez saltar os miolos. Espantado, o sobri-
clamou, ante a extensão do ferimento: nho comentou:
— Podem-se ver até os miolos. — Não compreendo como um homem
Ele teve ânimo para dizer: que tinha tantas coisas dentro da cabeça não
— Pois então peguem um pouco deles e a protegia mais.109:2639
levem para o cardeal Mazarino, que já disse 
umas vinte vezes que não os tenho.109:1167 Um jovem oficial foi enviado à corte de
 Luís XIV com uma mensagem muito impor-
Sucessivas mortes de marechais fran- tante. Aproveitou-se da ocasião para pedir
ceses por decapitação levaram o marechal ao rei a comenda de São Luís.
202 A volta ao mundo da nobreza

— O senhor me parece muito jovem para de interesse do bem comum, chegando mui-
recebê-la. tas vezes ao sacrifício da própria vida. Como
— Majestade, devemos agir com rapi- os nobres se dedicavam à defesa armada, e a
dez, porque no nosso regimento de Orleans custeavam com seus próprios recursos, pode-
ninguém consegue viver muito tempo.33:4024 se dizer que, além dessas despesas, eles pa-
gavam o imposto do sangue. Era essa a con-

O s fatos citados são exemplos insignes


de coragem e dedicação a uma causa
duta habitual dos nobres, pelo que podemos
considerar

A vida dos nobres, um constante holocausto


pelo bem comum
203

33º dia


C aros amigos, como expliquei ontem,
acumularam-se no baú alguns fatos so-
bre o heroísmo na guerra, e ainda chegaram
O conde francês Carlos Hector d’Estaing
obteve nos mares várias vitórias sobre os
outros. Vejamos inicialmente exemplos de ingleses. Por ocasião da Revolução France-
heroísmo dos reis, e em seguida de nobres. sa, foi aprisionado devido a cartas que es-
 crevera à rainha Maria Antonieta. Diante do
Durante o cerco de Barcelona em 1706, tribunal revolucionário, cujo julgamento era
Filipe V quis examinar pessoalmente os tra- sumaríssimo, foi-lhe perguntado o nome, e
balhos que se faziam para atacar o castelo ele respondeu:
de Montjuich. Os generais procuraram — É bastante conhecido de todos os fran-
demovê-lo, mas ele argumentou: ceses. E quando cortardes a minha cabeça,
— Aonde sobem os soldados, bem pode podeis enviá-la aos ingleses, que também a
subir um rei. reconhecerão.109:2253
— Mas soldados há muitos, e o rei é 
apenas um. No combate de Ouessant, em 1778, o
— Haverá outro. Rei morto, rei pos- visconde de Marigny defendeu denodada-
to.109:2965 mente o navio César, do qual era comandan-
 te. Mortalmente ferido, e estendido no seu
Na batalha de Ivry, o exército de leito, foi informado de que havia fogo a bor-
Henrique IV estava em grande desvantagem do, e replicou:
numérica, e os soldados começaram a de- — Melhor. Assim os ingleses não se
bandar. O rei francês pôs-se diante dos fugi- apossarão do navio. Senhores, fechai a por-
tivos, e lhes bradou: ta e tratai de vos pordes a salvo.109:1540
— Voltai a cabeça, senhores, e pelo me- 
nos me vereis morrer, se não quereis com- Durante o combate em La Rochelle, o
bater! fogo se ateou no navio do duque de Guise.
Conseguiu reunir meio milhar de cava- La Rochefoucault foi até ele e comunicou:
leiros, que o seguiram e obtiveram a vitó- — Senhor, tudo está perdido!
ria.109:349 Imediatamente ele se virou para o piloto
 e ordenou:
Durante uma guerra de 1667, Luís XIV — Dê a volta. Dá no mesmo ser assado
se expunha aos perigos como um simples ou cozido.27:2:105
soldado. O duque de Charost o repreendeu 
por essa imprudência, e ele argumentou: No cerco de Girona, em 1711, o general
— Como!? Quereis impedir-me de fa- duque de Noailles foi visitar uma bateria, e
zer como meu ilustre predecessor Henrique um tiro de canhão do inimigo quase o atingiu.
IV, que muitos me propõem como exemplo? Perguntou então ao comandante da artilharia:
— Mas Henrique IV tinha de conquistar — O senhor ouviu essa música?
o reino, e para Vossa Majestade basta — Eu nunca presto atenção nas balas que
conservá-lo.33:4006 vêm, e sim nas que vão.27:2:357
204 A volta ao mundo da nobreza

 De fato, depois de encerrada a campa-


O exército francês comandado pelo prín- nha ele se afastou do serviço militar.76:77
cipe de Condé invadiu a Espanha atravessan- 
do o rio Bidassoa, em 1638. Tomou facilmen- O condestável de Bourbon foi mortal-
te algumas cidades, sitiando Fuenterrabía. mente ferido na batalha para a conquista de
Afluíram combatentes de toda a Espanha, e Roma. Alguns soldados que não o conheci-
ali se manteve uma resistência heróica e am viram-no estendido no chão e se dispu-
encarniçada. Afinal, valendo-se das condições nham a socorrê-lo. A fim de não os desani-
oferecidas pela chuva, os espanhóis atacaram mar com a notícia do seu ferimento, ele gri-
as trincheiras, dizimaram boa parte do exérci- tou:
to francês, muitos outros se afogaram ao ten- — Bourbon está lá na frente! Avan-
tar atingir a nado os navios, e outros fugiram. cem!27:2:86
Escrevendo à sua esposa, o almirante Enriquez 
de Cabrera assim narrou a batalha: “Como não Durante a batalha de Ulm, Napoleão es-
entendes nada de guerra, direi apenas que o tava ao lado de um granadeiro que foi ferido
campo inimigo se dividiu em quatro partes: gravemente, e apesar disso gritava:
uma fugiu, a outra matamos, prendemos a ou- — Avançar! Avançar!
tra, e a última se afogou. Fica com Deus, que Napoleão tirou seu capote e cobriu com
agora vou jantar em Fuenterrabía”.110:288 ele o granadeiro, dizendo:
 — Trata de devolvê-lo depois da bata-
O exército do barão de Besenval foi di- lha, que eu te darei a cruz da Legião de Hon-
zimado, e lhe foi dada ordem de retirar-se ra.
do campo de batalha com os poucos sobre- Antes de dar o último suspiro, o
viventes. Ele de fato se retirou, mas pouco granadeiro agradeceu:
depois um general o encontrou no centro da — Senhor, esta mortalha vale tanto quan-
refrega, e o interpelou: to a cruz.27:1:539
— Que fazeis aqui? A vossa parte está 
encerrada por hoje. Quando a frota espanhola bloqueava
— É verdade. Mas isso é como uma ópe- Marseille, o duque de Guise resolveu uma noite
ra: a gente se aborrece, mas quando o violi- fazer uma brincadeira com Crillon, conside-
no começa a tocar, fica-se.32:1351 rado “o bravo dos bravos” por Henrique IV.
 Dirigiu-se para os aposentos de Crillon, que já
Durante a Guerra dos Sete Anos, o con- se recolhera, e o despertou bruscamente, di-
de de Lauraguais comandava um regimento zendo que os espanhóis haviam conquistado
e se distinguiu por sua coragem e intrepi- os pontos estratégicos da cidade, e tudo estava
dez. Quando cessou o combate, reuniu seus perdido. Portanto, era necessário fugirem jun-
oficiais, elogiou-os e lhes perguntou: tos, se quisessem salvar-se. Ele replicou ime-
— Estais satisfeitos com a minha con- diatamente que preferia morrer lutando. Sal-
duta? tou do leito, vestiu-se rapidamente, empunhou
Todos responderam com uma aclamação a espada e saiu do quarto correndo. Nisso,
unânime, mas ele prosseguiu: ouviu uma gargalhada do duque de Guise, que
— Fico feliz em saber que estais con- lhe explicou tratar-se de uma brincadeira.
tentes com o vosso comandante, mas não me Crillon replicou:
agrada nem um pouco o trabalho que faze- — Jovem, nunca deves brincar com a
mos. Por isso vou abandoná-lo. sorte, e menos ainda com pôr à prova o co-
33 — Os nobres davam exemplos de heroísmo nas guerras 205

ração de um homem de bem. Se me tivesses seus soldados a confiança, a fim de manter-


visto desencorajado ao escutar-te – por Cris- lhes o moral. É habitual dirigirem aos co-
to! – eu teria de arrojar-te aos meus pés.109:514 mandados um discurso breve antes da bata-
 lha. Nessas arengas pode-se ver não só a
O duque de Lesdiguières era calvinista coragem do comandante, como também o
e combatia contra seu amigo Devins, gene- seu empenho em que todos demonstrem o
ral dos católicos. Mandou dizer ao amigo que seu valor no combate.
não o provocasse, do contrário ele o ataca- 
ria e derrotaria. E advertia que, como era bem O rei francês Filipe IV pretendia fazer
do seu conhecimento, ele não ameaçava em guerra aos flamengos, mas encontrava resis-
vão. Devins não se intimidou, e mandou-lhe tência entre seus conselheiros. Diante des-
a resposta: tes reunidos, ele se dirigiu a Gaucher de
— Que ele venha, então. Châtillon, que fora armado cavaleiro por S.
Conhecendo o valor do adversário, Luís IX, e perguntou:
Lesdiguières pôs seu exército em marcha, — Condestável, que pensais disso? De-
mas lentamente. Os generais pediram que ele vemos esperar situação mais propícia?
explicasse tanta prudência. — Senhor, quando há entusiasmo, o tem-
— Eu estou indo para a guerra, não para po é sempre bom.
uma caçada.32:8322 O rei abraçou o cavaleiro, e exclamou:
 — Senhores, quem me ama, siga-
Em 1298, Filipe IV aprisionou o conde de me!110:62
Flandres, Guy Dampierre, com a pretensão de 
anexar mais facilmente aos domínios france- Durante a batalha de Aljubarrota contra
ses o seu condado. Tomados de revolta, os os espanhóis, em 1385, o rei D. João I de
habitantes ergueram-se contra o rei da França. Portugal notou que os seus comandados re-
Subjugados a ferro e fogo, em 1302 os cuavam ante o avanço inimigo, e os adver-
flamengos se prepararam em segredo e mas- tiu:
sacraram todos os franceses. Filipe IV armou — Senhores, só existe esperança de vida
para a vingança o maior exército que a França na espada e no valor.110:63
até então havia posto em pé de guerra. Os ha- 
bitantes de Bruges, auxiliados pelos de Gand, Antes de começar a batalha de Rossbach
armaram-se para defender a pátria, juraram em 1757, Frederico II disse aos seus
vencer ou morrer, e declararam que seria para prussianos:
sempre desprezada a memória de quem — Tudo o que temos e podemos ter no
retornasse vencido. Na batalha de Contrai, mundo está pendente da espada que desem-
54.000 franceses foram derrotados por 25.000 bainhamos para combater.110:62
flamengos, colocando em luto praticamente 
todas as famílias francesas importantes. O rei O generalíssimo Dom João d’Áustria
francês armou outro exército e marchou pes- disse aos seus comandados, antes da bata-
soalmente contra eles, mas teve de lhes resti- lha de Lepanto:
tuir seu condado três anos depois, reconhecen- — Viemos aqui para morrer. Ou para
do-lhes a independência.81:129 vencer, se assim o Céu determinar. Não po-
demos dar aos inimigos o pretexto para per-

U m aspecto interessante das guerras é que


o comandante deve procurar incutir nos
guntarem: onde está o vosso Deus?110:60

206 A volta ao mundo da nobreza

O conde de La Rochejaquelein tinha vinte From: Contrappunto


anos quando se tornou chefe dos aldeãos de Agora cabe a mim dizer alguma coisa do
Boccage, sublevados contra a Revolução Fran- outro lado. Desta vez não é nada muito grave,
cesa após a morte de Luís XVI. Diante dos apenas duas manifestações de comandantes
seus comandados, ele os incitou com estas militares à procura de reconhecimento: uma
palavras, que passaram à História: discussão entre dois aliados, que podem ser
— Se eu venço, sigam-me; se retrocedo, vistos como fanfarrões; e um choramingo de
matem-me; se morro, vinguem-me!109:350 um marechal de muito valor.

From: Antoinette Louvois, ministro da Guerra de Luís XIV,
Beaugeste, nossa Maria Antonieta não par- disse ao general suíço Stuppa:
ticipou diretamente de nenhuma guerra, mas o — Se tivéssemos todo o ouro e prata que
espírito era o mesmo dos demais nobres. a França pagou à Suíça, poderíamos construir
 uma estrada de Paris a Basiléia.
La Fayette avisara que na noite de 13 de — E com o sangue suíço derramado em
abril de 1790 ocorreria um ataque noturno às favor da França, poderíamos construir um ca-
Tulherias. Quando ouviu dois tiros de fuzil, nal de Basiléia a Paris.1:23
Luís XVI correu aos aposentos de Maria 
Antonieta. Não a encontrando, foi para o quarto Conversando com amigos sobre heroísmo,
do delfim, onde ela estava abraçada com o fi- o marechal Catinat reclamou:
lho, e disse: — Creiam-me: é preciso ser um herói de
— Senhora, eu vos procurei porque esta- verdade, para sê-lo até mesmo para os própri-
va preocupado convosco. os servidores.32:2713
— Senhor, eu estava no meu posto.1:59 Catinat enunciou dessa forma um dito co-
 nhecido: Nenhum grande homem é suficien-
Alguns deputados que discutiam a consti- temente grande para o seu criado de quarto.
tuição temiam a influência de Maria Antonieta
sobre Luís XVI, e queriam neutralizá-la. De-
cidiram propor-lhe, por intermédio da duque-
sa de Luynes, que se ausentasse da França por
E sse comentário do Contrappunto me fez
lembrar um problema que pode ocorrer
com qualquer mortal: o medo. Já tenho alguns
algum tempo. Depois de ouvir a exposição da episódios sobre isso, e pretendo apresentá-los
duquesa, a rainha respondeu: amanhã. Como as guerras ao longo da Histó-
— Jamais abandonarei o rei e o meu filho. ria foram inúmeras, deve haver muita coisa
Se eu me considerasse o único alvo do ódio edificante a propósito delas, tanto sobre o medo
do povo, faria imediatamente o sacrifício da como sobre a coragem e outros aspectos ine-
minha própria vida. Mas o que eles querem é rentes à luta. Se vocês se lembrarem de fatos
derrubar o trono, e se eu abandonar o rei, esta- com essas características e os enviarem, darei
rei cometendo simplesmente um ato de covar- conhecimento deles aos demais amigos, jun-
dia, com o único objetivo de salvar minha pró- tamente com os que já tenho. Por hoje, pode-
pria vida.15:254 mos encerrar com esta conclusão:

Os nobres davam exemplos de heroísmo


nas guerras
207

34º dia

From: Antoinette — Viva o rei! Viva a nação!


Beaugeste amigo, você está tratando de Mas o objetivo era outro, e logo a
guerra, e eu não entendo nada de guerra. Mas vociferação foi mudada:
entendo de coragem, e nossa Maria — A rainha! Queremos a rainha no bal-
Antonieta deu muitos exemplos de coragem. cão!
Veja estes. Apesar de ser muito grande a probabi-
 lidade de um atentado contra a sua vida,
Quando em Versalhes se soube, no dia 5 Maria Antonieta tomou os filhos nos braços
de outubro de 1789, que uma multidão para e se apresentou no balcão. Foi aplaudida, mas
lá se deslocava com o pretexto de exigir o o manipulador particularizou a ameaça, e
pão, muitos aconselharam Luís XVI a fugir logo começaram a exigir:
com a família para o palácio de Rambouillet. — Sem as crianças! Sem as crianças!
O rei recusou a sugestão, e outros propuse- Era a única visada, e ela o sabia muito
ram a fuga pelo menos da rainha com os fi- bem. Apesar do risco, afastou-se um pouco,
lhos. A recusa dela foi peremptória: deixou os filhos dentro e voltou sozinha,
— Eu sei que eles vêm de Paris para expondo-se às injúrias e às balas. O que os
exigir a minha cabeça. Mas aprendi com manipuladores esperavam não se concreti-
minha mãe a não ter medo da morte, e a zou. A multidão se deixou vencer por tão
aguardarei com firmeza. Meu lugar é aqui, grande demonstração de coragem e pelo seu
ao lado do rei, portanto ficarei. Minha fuga porte majestoso, e prorrompeu em aplausos:
daria a eles pretexto para mais uma calúnia. — Viva a rainha! Viva a rainha!59:283,105:260
Dirão que, se eu fujo, é porque me conside-
ro culpada.59:279
 B elos exemplos de coragem. Acrescento
mais alguns tirados do baú.
Nesse dia um numeroso bando compos- 
to principalmente de mulheres parisienses de O nobre francês Bayard, conhecido
baixa categoria e má reputação dirigiu-se a como “cavaleiro sem medo e sem mácula”,
Versalhes com o pretexto de exigir alimen- odiava as armas de fogo, e afirmava:
to, dispostas a agredir o casal real. Na ma- — É uma verdadeira vergonha que um
nhã seguinte, muitos conseguiram penetrar homem corajoso seja exposto a morrer por
no palácio, e a custo foram contidos antes meio de uma máquina da qual não pode se
de alcançarem os aposentos da rainha. De- defender.32:686
pois, reunidos no pátio, exigiram que Luís 
XVI se apresentasse na sacada. A multidão O marechal de Broglie, em caso de mor-
era habilmente conduzida, e vociferava: te, seria substituído pelo general de Routhe,
— O rei! O rei! Queremos o rei! que ele julgava tolo e incompetente. Duran-
Orientado por La Fayette, o monarca se te uma batalha o marechal se expunha a sé-
apresentou e saudou o povo. Ao contrário rios perigos, que seus auxiliares considera-
do que os líderes esperavam, recebeu uma vam inúteis. A fim de evitar um desfecho
forte aclamação: funesto para essa situação, da qual ele não
208 A volta ao mundo da nobreza

queria retroceder, o oficial Jancourt conse- acorreram em seu auxílio, e os de Santarém


guiu êxito imediato, dizendo-lhe: voltaram sem o trigo. Queixando-se estes ao
— Senhor marechal, se fordes atingido, rei, ele mandou prender os delinqüentes, in-
quem comandará é o general de Routhe.27:2:266 clusive a mulher. Após conversar esta com a
 rainha Catarina, o rei mandou soltá-la.62:975
À procura sempre de mais vítimas, o 
populacho manobrado pelos líderes da Re- No Rio Grande do Sul, por ocasião dos
volução Francesa se reuniu diante da prefei- contatos com os governantes dos países ali-
tura, e aos gritos pedia a cabeça de um fun- ados Argentina e Uruguai, na guerra contra
cionário. Farto de ouvir essa gritaria, La o Paraguai, D. Pedro II despira-se prelimi-
Fayette chegou à janela e gritou: narmente das exterioridades de sua hierar-
— Se eu soubesse onde está esse cuja quia. Não era um rei entre burgueses, mas
cabeça estais pedindo, não o entregaria! um chefe de Estado que procurava colocar-
Os amotinados se voltaram contra ele: se no nível dos outros dois. Na realidade,
— La Fayette é um traidor! A cabeça de acentuava com isso a majestade que lhe é
La Fayette! natural. Só os príncipes, educados para o tro-
O general desceu as escadas do edifício, no, podem ser simples, familiares e agradá-
abriu a porta e perguntou: veis, sem que os demais ousem romper a
— Quem pede a minha cabeça? Não vos zona de respeito de que insensivelmente se
entregarei a cabeça de outro homem, mas a cercam. Silveira da Mota, secretário do al-
minha me pertence, e eu a ofereço. Quem mirante Tamandaré, afirmou:
quer vir cortá-la? — Confesso que nunca vira, na pessoa
Mais uma reviravolta no ânimo do do imperador, tanta força de sedução. Tudo o
populacho, que começou a gritar: que havia de simpático e nobre na sua
— Viva La Fayette! La Fayette é um fisionomia apresentava-se naquela época com
valente! Vivam os valentes!109:3167 o aspecto mais favorável. Parecia ser o mo-
 narca da coxilha, idealizado pela gauchada.
Num ano em que houve grande escas- Ele não teve sequer o seu batismo de fogo,
sez de trigo no reinado de D. João III, este mas a fleuma com que se aproximava ao al-
teve notícia de que apenas sobrara algum tri- cance do fuzil das trincheiras paraguaias foi
go em Torres Novas, no celeiro do senhor o bastante para que os circunstantes fizessem
da vila. A pedido dos vereadores de uma alta idéia da sua coragem.72:21
Santarém, o rei português enviou uma or-
dem para que o trigo lhes fosse entregue. O From: Clausewitz
povo murmurou, mas não teve coragem para Um valioso componente do esforço bé-
contradizer a ordem. A mulher de um mo- lico é a ousadia, muito comum nos mem-
leiro se protegeu com uma cota de malhas e bros da nobreza. Francis Bacon escreveu: Os
um capacete, pegou um chuço e se pôs dian- audazes não servem para os primeiros pos-
te da porta do celeiro. Quando chegaram os tos onde as coisas se resolvem; só servem
portadores da ordem, ela bradou: para executar, e esse ofício pertence a pos-
— Já que os homens desta vila querem tos mais secundários.110:76 Outro escritor afir-
todos morrer de fome, eu prefiro morrer aqui, mou: O bom senso nunca terá heróis.88 Como
combatendo contra uma tão grande injustiça! você está transcrevendo exemplos de cora-
E pôs-se a lutar com eles, brandindo sua gem, acho oportuno acrescentar alguns de
arma improvisada. Muitos homens da vila ousadia.
34 — A coragem dos nobres se manifestava nas guerras e na vida diária 209

 sadia deve complementar a força, e amea-


O rei francês Carlos VIII desembarcou ças oportunas feitas a um inimigo superior
em Florença com o seu exército, e exigia dos acabam obrigando-o a ceder coisas que não
florentinos grande soma em dinheiro, além se obteriam de outro modo.58:2:67
de condições humilhantes, para combater ao 
seu lado contra Nápoles. Como os magis- Depois de cumprirem a missão de pro-
trados de Florença resistiam, ele ameaçou: teger um comboio até Zamora, antes da ba-
— Farei então soar as trombetas! talha de Toro (1476), os espanhóis coman-
Pier Capponi, um dos magistrados, ras- dados por D. Álvaro de Mendoza retor-
gando o tratado cuja assinatura o rei exigia, navam, quando foram atacados pelos portu-
retrucou com altaneria: gueses. Ante a insistência dos seus coman-
— Fazei soar as vossas trombetas, que dados para revidarem o ataque, D. Álvaro
em seguida farei soar os nossos sinos. disse:
Esse ato audacioso assustou Carlos VIII, — Se tendes tão grande desejo de lutar,
e o fez supor que os florentinos tivessem um queira Deus que nunca se diga que o capitão
exército poderoso. Por isso decidiu abando- enfraqueceu o esforço dos seus soldados.
nar a cidade.32:2494 Preparai as armas e os corações, e voltemos
 a eles!110:63
O imperador José II deu ordem ao prín- 
cipe de Ligne para sair com um pequeno Dom Pedro de Eça tinha um irmão, D.
destacamento e fazer um reconhecimento no Diogo, que era ousado e temerário. Preten-
forte de Schabat. Voltou duas horas depois, dia refreá-lo, e armou com alguns amigos
e o imperador, já impaciente com a demora, uma cilada na qual estes se fariam passar por
indagou: castelhanos, com os quais estava em atritos
— Há duas horas eu vos dei ordem de a cidade fronteiriça de Moura. Os dois saí-
reconhecer o forte de Schabat. O que fizestes ram então a passear pelo campo, junto com
durante todo esse tempo? mais dois cavaleiros, rumo ao local da “ci-
— Eu o conquistei, senhor.32:8352 lada”. Quando viram os numerosos “caste-
 lhanos”, D. Pedro propôs que se retirassem,
Em 1703, o marechal duque de Villars pois o grupo era muito grande. O temerário
aproximou-se de Kentzingen à frente do seu irmão argumentou:
exército. Foram ao seu encontro alguns reli- — Parece-me, senhor, que devemos
giosos, que lhe levaram contribuições. Ele atacá-los antes que saibam quão poucos so-
os despediu, com ordem para a defesa da mos.62:592
cidade depor as armas, ameaçando-a de pas- 
sar toda a guarnição a fio de espada e incen- O duque de Bordeaux, exilado com
diar a cidade, se fosse disparado um único Carlos X em Goritz, convidou alguns jovens
tiro. Intimidado, o comandante acatou a or- para um passeio a cavalo e foi demonstran-
dem. Depois se descobriu que a cidade pos- do grande ousadia ao longo do trajeto. Che-
suía abundante artilharia e munição, superi- gando às margens do Reno, gritou para os
ores às do próprio Villars. Este comentou amigos:
com seus oficiais: — Do outro lado é a França! Passemos
— Reconheçam, senhores, que nos se- para lá!
ria muito difícil conquistar esta praça, se ela Chegando sozinho à outra margem,
não se tivesse rendido. Algumas vezes a ou- olhou para trás e notou que ninguém o se-
210 A volta ao mundo da nobreza

guira. Olhou em torno, descobriu uma pon- tributo anual que Ormuz lhe devia. Mandou
te próxima sobre o rio, e disse: encher uma grande bacia com lanças, espa-
— Que tolo que eu sou! Lá está uma das, granadas, balas e outros tipos de muni-
ponte, e é por ela que se deve passar. ções, e disse aos embaixadores:
Foi dele a glória de atravessar sozinho o — Levai este presente ao vosso sobera-
rio, e maior ainda a de encontrar uma ponte no, e dizei-lhe que este é o tributo que o rei
para os outros.27:2:254 de Portugal e os reis seus vassalos pagam
aos que os pedem.27:2:439
Muitas vezes os atos de ousadia se fa- 
zem apenas por meio de palavras. Porém, O exército de Luís XII precisava acam-
como as palavras podem se transformar em par, mas o rei francês foi informado de que
ação de ambos os lados, essa é também uma o único local adequado para isso já havia
demonstração de coragem. sido ocupado pelo exército inimigo. Um dos
 nobres perguntou:
Entre as lutas que Afonso V da Espanha — Majestade, onde acamparemos?
teve de enfrentar, conta-se a que lhe propôs — Sobre a barriga deles.27:2:113
Jean d’Anjou, quando avançou sobre Nápo- 
les com um exército. Bordada nos seus es- O coronel Leonardo Fernández Ruiz re-
tandartes, a divisa do exército era: Fuit cebeu um ferimento de granada, que o fez
missus cui nomen erat Johannes (foi envia- perder algumas costelas e usar um aparelho
do um que se chamava João), numa alusão ortopédico. Acompanhando o rei Afonso XII
ao nome do chefe, baseada no texto evangé- em uma excursão, este brincou com ele, sa-
lico sobre São João Batista. Nessa crítica bendo da dificuldade que tinha para manter-
situação, Afonso V deu ordem para que em se sobre o cavalo:
seus próprios estandartes fosse bordado ou- — Hoje temos que correr um pouco,
tro versículo do Evangelho, que era uma res- Dom Leonardo. Agarre-se bem, para que não
posta à altura: Ipse venit et non receperunt o vejamos no solo.
eum (Ele veio, mas não o receberam).81:21 — Não correrei, senhor, porque quero
 preservar a saúde e a vida para lances mais
Em 1538, Carlos V teve ferrenhas dis- úteis ao meu rei. Quanto a ver-me no solo, é
cussões com o condestável de Castela, Dom mais fácil Vossa Majestade ficar cego do que
Iñigo López de Velasco, sobre um imposto acontecer isso.109:1198
que pretendia impor. Durante uma delas, o 
imperador ameaçou jogá-lo para fora da ga- Depois de um acordo entre os cruzados de
leria onde discutiam. Godofredo de Bouillon e o imperador (basileus)
— Veja bem o que Vossa Majestade vai Aléxis Comneno, houve uma cerimônia na cor-
fazer, pois embora eu seja pequeno, tenho te, à qual compareceram os chefes cristãos e os
muito peso.109:1249 principais potentados de Constantinopla. Um
 dos chefes cruzados teve a audácia de sentar-se
Em 1507 os portugueses de Afonso de no trono, enquanto se desenvolvia a cerimônia,
Albuquerque conquistaram Ormuz, rica ci- e foi repreendido por outro nobre cruzado. Sus-
dade tributária da Pérsia, situada na entrada tentou os seus direitos, e depois Aléxis lhe per-
do Golfo Pérsico. Enquanto erguia sua forta- guntou quem era, de que país e os títulos que
leza no local, apresentou-se uma embaixada possuía. O orgulhoso francês respondeu com
do soberano da Pérsia, a fim de cobrar dele o um desafio:
34 — A coragem dos nobres se manifestava nas guerras e na vida diária 211

— Sou francês legítimo, e da nobreza. todos os combatentes como homens corajo-


Na região em que nasci existe um santuá- sos, que nunca têm medo. A História prova
rio diante do qual se põe, à espera de o contrário, e Alphonse Daudet afirmou:
contendor, quem desafia os outros para um Onde estaria o mérito, se os heróis nunca
combate singular. Permaneci nesse lugar tivessem medo?88 Transcrevo sobre isso al-
durante muito tempo, à espera de um va- guns exemplos encontrados no baú.
lente, mas não houve nenhum audacioso 
que se apresentasse.94:73 Antes da batalha de Ravena contra os
 venezianos, Gastão de Foix comentou:
Em 1793, como conseqüência do acor- — Se o meu corpo soubesse aonde o meu
do entre a Rússia e a Prússia para uma se- coração vai conduzi-lo daqui a pouco, cer-
gunda divisão da Polônia, estourou neste país tamente cairia ao chão, apavorado.33:2500
uma revolta da qual participou como um dos 
líderes o sapateiro Kilinski. Aprisionado, este Durante uma batalha, um capitão perce-
foi conduzido à presença do príncipe Nicolau beu que um seu colega tremia, e zombou do
Wasilievitch, diante do qual todos tremiam. medo que ele demonstrava. Mas ouviu uma
Mas Kilinski o encarou de frente, com mui- digna confirmação de coragem:
ta naturalidade. O príncipe lhe perguntou: — Se tivesses o medo que eu tenho, já
— Não sabes com quem estás falando? terias fugido.
Abriu então a capa do uniforme, para Ao saber dessa resposta, o imperador
mostrar as insígnias, e bradou: Carlos V condecorou o capitão.32:2449
— Olha e treme! 
Sem impressionar-se, Kilinski disse tran- Um soldado fanfarrão recebera a incum-
qüilamente: bência de atacar um posto junto com outro
— Estrelas?! Muitas mais eu vejo no céu, soldado. Notou que este demonstrava algum
senhor, e não tremo.109:1168 medo, e voltou para falar com Turenne:
— O soldado que o senhor me deu como
From: Calembour companheiro é capaz de fugir durante a ação,
Para os que não gostam de trocadilho, e até confessou que tem pouca coragem.
direi que até a coragem pode ser manifesta- Conhecendo bem a honradez do outro
da por meio deles. soldado, e sabendo que o medo não o faria
 retroceder, Turenne retrucou:
O imperador Carlos V discutia com um — Se não tivesses mais medo do que
oficial francês prisioneiro, e perguntou-lhe ele, já estarias bem adiante, ao lado dele.
em tom de ameaça: Volta logo para o ponto aonde te enviei, pois
— Quantas jornadas (dias) dista Paris do te arriscas a não chegar a tempo. O poltrão
local onde estamos? do qual reclamas pode muito bem roubar-te
Com altivez, o francês respondeu: a glória da ação que determinei.
— Se por jornada o senhor entende ba- E aconteceu exatamente como ele pre-
talha (outro sentido da mesma palavra), res- vira.58:1:268
pondo que são doze, mas receio que Vossa 
Majestade não passe da primeira.32:2443 Quando caminhava pelas ruas de um
bairro, Turenne ouviu dentro de uma taber-

O utro componente das guerras é o medo.


Tenho percebido que muitos imaginam
na um soldado comentar:
— O visconde seria um perfeito general
212 A volta ao mundo da nobreza

se tivesse tanto de bravura quanto tem de — Majestade, juro que não tremo assim
prudência. diante dos vossos inimigos.33:4001
Algum tempo depois ele chamou esse 
soldado para acompanhá-lo no reconhe- Durante uma batalha em 1677, Luís XIV
cimento das posições inimigas, e o levou se expôs demais aos perigos, e Boileau cha-
até o local onde estavam as trincheiras mou-lhe a atenção:
adversárias. Ante o perigo evidente, o sol- — Majestade, se estivésseis a três pas-
dado tremia apavorado. Turenne lhe dis- sos dali, a bala de canhão vos teria atingido.
se: — E o senhor, a quantos passos estava?
— Beba junto com seus companheiros, — A mais de cem.
mas não fale mal de um homem tão corajo- — E não teve medo?
so quanto o senhor.27:2:251 — Pelo contrário. Tive medo duplamen-
 te, por Vossa Majestade e principalmente por
Um oficial militar se apresentou diante mim.32:1590
de Luís XIV para pedir algum favor. Mas a
presença do rei o impressionou tanto, que
começou a tremer. V amos encerrar aqui nossa reunião de
hoje, concluindo apenas que

A coragem dos nobres se manifestava


nas guerras e na vida diária
213

35º dia

A nobreza de alma, os nobres a manifes-


tavam das mais diversas maneiras. As-
sumir riscos ou abnegar-se em favor dos ami-
— Que fazeis, amigos? Deixai-os acre-
ditar que sou a rainha, pois se eu morrer no
lugar dela, talvez ela possa ser salva.27:1:322
gos, por exemplo, era atitude habitual. A 
Antoinette enviou-me dois exemplos do gê- Numa batalha pela sucessão no Império
nero, relacionados com Maria Antonieta. O Austríaco, contra o rei da Boêmia, as tropas
outro foi enviado pelo Kaunitz. do imperador Rodolfo sofriam sede. Foi ar-
 rebatado a um camponês um recipiente de
Dois dias depois da tomada da Bastilha, cerveja destinado aos trabalhadores, e entre-
algumas pessoas da corte eram especialmen- gue ao imperador para que se servisse pri-
te visadas pelos revolucionários, entre elas meiro. Ele determinou:
os condes de Polignac. A fim de evitar que — Entregai-o aos meus soldados. Quem
esses amigos fossem atingidos, Maria tem sede são eles, não eu.19:4:60
Antonieta insistiu em que eles se afastassem
de Paris:
— Eu temo que aconteça o pior. Em
nome da nossa amizade, é necessário que
A abnegação em favor da pátria era tão
comum, que se pode tomá-la como uma
segunda natureza dos nobres.
partais. Ainda é tempo de fugirdes à fúria 
dos meus inimigos. Se eles vos atacam, de Durante a guerra que a França mantinha
fato querem atingir a mim, e não vos quero contra a Espanha na Itália, o exército impe-
vítimas da afeição que me tendes. rial espanhol recebeu reforços e se dispôs a
Chegando nesse momento, Luís XVI levantar o acampamento de Lodi para refor-
ajudou sua esposa a convencer os amigos: çar o exército em Pavia. Mas os mercenári-
— Meu cruel destino força-me a afastar os alemães se recusaram a movimentar-se, a
de mim as pessoas que amo ou estimo. Acabo menos que lhes fosse pago o soldo atrasado.
de dar ordem de partida ao conde de Artois, e Ante essa situação angustiosa, o marquês de
vos dou a mesma ordem. Compadecei-vos de Pescara reuniu os capitães espanhóis, comu-
mim, mas não percais tempo. Levai vossa fa- nicou-lhes a exigência e declarou-se sem
mília e contai sempre comigo.59:258 verba para atendê-la. Os capitães, apesar de
 também estarem com o soldo atrasado, ofe-
Durante a Revolução Francesa, uma receram de bom grado ao comandante tudo
multidão amotinada invadiu o palácio das o que tinham, declarando que, se necessá-
Tulherias e lançou-se sobre Luís XVI. Nes- rio, estavam dispostos até a vender as pró-
se momento a sua irmã Mme. Elisabeth con- prias roupas para obter alimento.109:4
seguiu desvencilhar-se dos que defendiam
Maria Antonieta e os filhos, correu para ele From: Orloff
e o abraçou. Quando os amotinados foram Beaugeste, sobre essa abnegação dos
atacá-la, os soldados a defenderam e disse- nobres, conheço alguns fatos na minha área
ram o seu nome, que era venerado pela mul- de interesse.
tidão. Ela então lamentou: 
214 A volta ao mundo da nobreza

Em 1711, o czar Pedro o Grande estava cidade. Depois de dar as últimas instruções
cercado por um exército muito mais nume- para o incêndio, montou a cavalo com o fi-
roso dos turcos nas margens do Pruth, e a lho, partiu para juntar-se ao exército e disse:
situação era desesperadora. Catarina I jun- — Dentro de meia hora Moscou estará
tou todas as suas jóias, montou a cavalo e em chamas.32:12707
percorreu as fileiras do exército, falando aos
militares nestes termos: From: Saint Simon
— A luta é impossível. Já não há víveres É certo que o mesmo acontecia em to-
nem munições, e logo nos tornaremos prisi- dos os outros países, e posso fornecer alguns
oneiros ou seremos mortos, se não formos exemplos da França.
obrigados a uma capitulação humilhante e 
vergonhosa. O único meio para ganharmos Era intenção de Luís XV comandar pes-
a vida e a honra consiste em reunir uma quan- soalmente as tropas francesas na Alsácia,
tidade tal de dinheiro e bens, que satisfaça a mas uma doença o prendeu ao leito e a bata-
cobiça dos chefes inimigos. Desde já, dou lha foi comandada pelo duque de Noailles.
todas as minhas economias e todas as mi- O conde d’Argenson se mantinha à cabecei-
nhas jóias. Espero que cada um de vós dê o ra do rei, que lhe pediu:
que puder. — Escreva de minha parte ao marechal
Entusiasmados, todos os que a ouviam de Noailles lembrando-lhe que, enquanto
aceitaram a proposta, e até o último soldado Luís XIII era conduzido ao túmulo, o prín-
entregou seus bens, possibilitando uma ren- cipe de Condé ganhou uma batalha.58:3:99
dição em condições muito vantajosas.109:6 
 O marechal duque de Villars se indispôs
Encontrava-se Rostopchine no castelo da com ministros e cortesãos de Luís XIV. Ao
família em Voronov, por ocasião da invasão se despedir do rei, para uma missão muito
da Rússia pelo exército de Napoleão. Quan- perigosa na Alemanha, declarou:
do as tropas se aproximaram, ele deu a cada — Senhor, deixo Vossa Majestade rode-
um dos servos uma tocha como a que ele ado por meus inimigos, enquanto vou ser
mesmo portava, e pôs fogo ao imóvel. Ter- rodeado pelos vossos.30:2027
minado o incêndio, afixou diante das ruínas
fumegantes um cartaz com a seguinte men-
sagem: “Franceses, levei oito anos de vida
embelezando esta casa de campo. No entan-
T odos os fatos citados denotam profunda
nobreza de alma, pois os interesses pes-
soais são colocados em segundo plano. Ou-
to eu mesmo a destruí com o fogo, para não tra característica de nobreza é reagir corajo-
cair nas vossas mãos”.32:12706 samente diante do infortúnio, quando se tra-
 ta do bem público. Sobre essa atitude de
Rostopchine era governador de Moscou alma, apresento dois fatos relatados pela
na época da invasão de Napoleão, e orde- Antoinette, e um pela Leopoldina.
nou que a cidade fosse evacuada por toda a 
população, que deveria levar consigo todos Na prisão do Templo, Maria Antonieta
os bens. Mas não permitiu que fosse retira- arrumava pessoalmente o leito dos filhos.
do do seu palácio nenhum dos valiosos qua- Num dia em que ela o fazia, Luís XVI lhe
dros, mobília e tesouro, pois queria que tudo disse:
perecesse no incêndio, a fim de deixar claro — Senhora, que trabalho esse a que se
o motivo patriótico do sacrifício imposto à obriga uma rainha da França! Se de Viena vos
35 — Os nobres mantêm o autocontrole diante de derrotas e vitórias 215

vissem... Quem poderia supor que, unindo- — Nunca! Nós não provocamos a guer-
vos ao meu destino, iríeis descer tão baixo. ra, não proporemos a paz! Se o sacrifício é
— Pergunto-vos se não entra na vossa enorme, maior seria a humilhação. Agora, é
conta o fato de eu ser a mulher do mais per- irmos até o fim. Eu partirei de novo para a
seguido dos homens. Desgraças como esta guerra, se for necessária a minha presença
são mais majestosas do que todas as gran- lá. Trocarei o trono por uma tenda de cam-
dezas.32:9252 panha. E quero ver se há algum brasileiro
 que não me acompanhe!72:110
Charrette de la Contrie, da pequena no-
breza da Bretanha, foi um dos chefes From: Henri Sanson
vandeanos que se insurgiram contra a Re- Diante da morte iminente, o normal é a
volução Francesa após a execução de Luís pessoa reagir com angústia, medo, apreen-
XVI. Promoveu articulações para conseguir são e outras demonstrações de incon-
que o conde de Artois, então exilado na In- formidade. Mas não era raro os nobres tra-
glaterra, desembarcasse nas costas da tarem o assunto com total indiferença, como
Bretanha, tornando-se o líder da insurreição se não fosse com eles. Como admiro esse
com grande possibilidade de galvanizar toda aspecto da alma humana, colecionei vários
a França. Tendo desistido do desembarque, exemplos em que se manifesta esse
o príncipe o comunicou a Charrette por meio autocontrole diante do carrasco que se apro-
de carta entregue por emissário de confian- xima.
ça. A fim de manifestar ao líder vandeano a 
sua estima, enviou também como presente Ao ser condenado à morte pelo tribunal
uma belíssima espada. Decepcionado, revolucionário, o duque de Lauzun se pôs a
Charrette comentou: rir. Depois disso comeu e dormiu tranqüila-
— Dizei ao príncipe que esta é a minha mente. Na manhã seguinte, antes da execu-
sentença de morte, pois a alternativa seria ção, comeu uma dúzia de ostras acompanha-
fugir, o que não farei. Morrerei empunhan- das de vinho. Quando se apresentou o car-
do esta espada. rasco, ainda estava se alimentando, e pediu:
Ao desembainhar a espada, chamou-lhe — Cidadão, permita que eu termine meu
a atenção uma frase gravada no punho: desjejum.
“Nunca cederei”. Então murmurou em voz Ofereceu ao carrasco um cálice de vi-
baixa: nho, e recomendou:
— Agiu bem o príncipe em desprender- — Bebe um pouco deste vinho. Deves
se de uma espada que para nada lhe ser- precisar de coragem para fazer o que fa-
ve.110:565 zes.1:181
 
Em momento de desânimo do seu Mi- Tendo sido feito prisioneiro, o eleitor de
nistério, durante a guerra do Paraguai, o pre- Saxe foi ameaçado de decapitação por Carlos
sidente do Conselho de Ministros consultou V, e respondeu:
D. Pedro II sobre a conveniência de se che- — Vossa Majestade pode fazer de mim
gar a um acordo com o tirano inimigo. O o que quiser, mas jamais me causará medo.
imperador, sempre delicado e tranqüilo, des- A notícia da sua execução imediata lhe
ta vez perdeu a calma. Ergueu-se indigna- foi transmitida quando jogava com o duque
do, bateu com o punho cerrado na mesa dos de Brunswick uma partida de xadrez. Tran-
despachos, e bradou: qüilo, sua reação foi:
216 A volta ao mundo da nobreza

— Vamos terminar nossa partida.27:1:261 


 Desfez-se em apenas três anos o casa-
No dia em que Carlos I da Inglaterra foi mento de Henrique VIII com Ana Bolena
executado, o frio era intenso. Por isso ele após repudiar a esposa legítima, o que dera
vestiu duas camisas, e explicou: origem ao cisma da igreja anglicana. “Ana
— Se eu tremer de frio, meus inimigos dos mil dias” foi condenada pelo rei ao patí-
dirão que tremi de medo.109:2076 bulo, e antes da execução dirigiu a ele uma
 carta em que dizia: “Sire, tivestes sempre o
O parlamento britânico condenou o con- cuidado de me elevar na vida. De simples
de de Montrose a ser decapitado. Depois de senhorita, me fizestes marquesa de
ouvir a sentença, voltou-se para os juízes e Pembroke, e de marquesa me fizestes rai-
desabafou: nha. Agora, de rainha me elevais ao grau de
— Enquanto a cabeça era minha, eu era mártir. Eu vos agradeço”.81:59
obrigado a penteá-la todas as manhãs. Ago- 
ra que é vossa, posso dispensar-me desse O duque de Broglie estava na prisão,
grande aborrecimento.32:9979 ouvindo a leitura de um poema, quando vie-
 ram avisá-lo de que daí a alguns minutos
São Tomás Morus foi condenado à de- teria de comparecer diante do tribunal revo-
capitação porque se opôs às arbitrariedades lucionário. Avisou então ao leitor:
de Henrique VIII e ao seu divórcio, com o — Não sei se poderei ouvi-lo até o final.
posterior casamento com Ana Bolena. No Mas prossiga, enquanto esperamos que ve-
dia em que seria executado, um barbeiro nham me buscar.27:2:357
perguntou-lhe: 
— Senhor, quereis que eu vos corte o Vou mostrar agora a reação de um perso-
cabelo? nagem histórico de outro gênero, diante da
— Meu amigo, devo informar-te que o morte. Depois de enviar implacavelmente
rei e eu temos um processo a respeito da para a guilhotina várias centenas de nobres,
minha cabeça, e não quero assumir nenhu- chegou a vez de ser guilhotinado o próprio
ma despesa com ela antes que o assunto es- facínora Robespierre. Na véspera, quando era
teja resolvido.32:10029 executada a ordem de prisão, ele recebera no
 queixo um tiro que fraturou sua mandíbula.
Quando se ajoelhou tranqüilamente no Na carroça que o transportava para a guilho-
cadafalso, para ser executado, São Tomás tina, ao lado de Henriot e de seu irmão semi-
Morus recolheu com cuidado a barba que mortos, jazia ele alquebrado, com o queixo
havia crescido enquanto estivera na prisão, envolto em tecido sujo de sangue, enquanto
e explicou ao carrasco: transcorria a última das suas dezessete horas
— Seria uma lástima que ela fosse cor- de agonia. Os soldados poupavam ao povo
tada, pois nunca fez mal a ninguém.109:2636 qualquer dúvida, apontando para ele as suas
— O senhor está querendo preservar a armas. Avançando do meio da multidão, uma
barba, quando toda a cabeça vai ser cortada? mulher se agarrou à carroça com uma mão, e
— Isso não tem tanta importância para brandindo a outra, proclamou uma vingativa
mim. Mas o senhor poderá dizer que execu- e terrível sentença:
tou fielmente a sua tarefa, pois a ordem real — Facínora! Tua morte me enche de ale-
manda cortar minha cabeça, e não a minha gria o coração! Vai para o inferno, com a
barba.27:2:353 maldição de todas as viúvas e mães!
35 — Os nobres mantêm o autocontrole diante de derrotas e vitórias 217

Estenderam-no ao chão no cadafalso, en- — O que estás fazendo? Por que não
quanto aguardava a sua vez. Quando o levan- continuas a escrever?
taram, abriu novamente os olhos e viu diante — Senhor, a bomba!...
de si a lâmina sangrenta. Sanson tirou-lhe o — Que bomba?! O que tem a ver a bom-
sobretudo e arrancou com força o curativo, ba com o que estou ditando?109:3073
deixando pendida a mandíbula e provocando 
um pavoroso e horrível grito de dor. Desceu a Durante a batalha de Rocoux, o sargen-
lâmina, e assim se encerrou a vida de um ho- to Vidal ofereceu ao príncipe de Mônaco o
mem; e com ela uma época: o Terror.14 seu braço, a fim de o conduzir ao depósito
de armas. Enquanto caminhavam, esse bra-
From: Chateaubriand ço do sargento recebeu um tiro e foi fratura-
Tenho dois exemplos, não propriamen- do. Dirigindo-se ao príncipe e oferecendo-
te de execuções, porém de tranqüilidade ante lhe o outro braço, limitou-se a dizer:
a morte iminente. — Tomai agora este, senhor, pois o ou-
 tro não vale mais nada.27:2:357
Próximo de exalar o seu último suspiro, 
a imperatriz Maria Teresa parecia adorme- Durante a insurreição de 20 de junho de
cida. Uma das damas deu essa informação a 1792, que invadiu as Tulherias, Luís XVI se
uma pessoa que perguntara como ela estava recusou a aceitar o que exigiam os sedicio-
passando, e logo a própria imperatriz escla- sos, por ser contra a constituição:
receu: — Sou guardião das prerrogativas do
— Não, não estou dormindo. Até que eu poder executivo, e não as entregarei à custa
teria bastante sono, se quisesse dormir. Mas de violência. Não é hora de deliberar, quan-
a morte se aproxima, e não quero que ela me do não se delibera livremente.
surpreenda durante o sono. Quero morrer Um granadeiro que estava ao seu lado
acordada.19:4:12 lhe disse, para tranqüilizá-lo:
 — Não tenhais medo, Majestade.
No leito de morte, a duquesa de — Um homem cuja consciência de nada
Borgonha ouviu uma de suas criadas lamen- o acusa não tem medo nem receia nada.
tar: Tomou em seguida o braço do grana-
— A vossa vida é muito preciosa à na- deiro, conduziu a mão dele ao lado esquer-
ção, para Deus querer privar-vos dela tão do do seu peito, e disse:
cedo. — Meu amigo, veja se o meu coração
— Princesa hoje, nada amanhã. E esque- está batendo mais rápido do que o nor-
cida dois dias depois.27:1:526 mal.107a:324,27:1:592

U ma das maneiras de manifestar cora-


gem é a impassibilidade diante do pe-
rigo ou de lesões pessoais.
O rei Afonso XIII da Espanha, junto com
o presidente francês, foi objeto de um aten-
tado em Paris em 1905. Diante do veículo
 perfurado por muitas balas, o rei comentou:
Com o exército sitiado em Stralsund, — Foi um atentado para assustar-me.
Carlos XII ditava uma carta a um secretário. Mas não tiveram êxito.109:3085
De repente explodiu uma bomba na casa ao
lado. Assustado, o secretário deixou cair a
pena. D iante do infortúnio, ou de notícias boas
ou más, o autocontrole pode levar a
218 A volta ao mundo da nobreza

pessoa a agir como se os atingidos fossem diferentes em relação a notícias que recebem.
apenas outras pessoas. Gostaria de saber qual delas você considera
 a mais sensata ou mais adequada.
O marechal de Lesdiguières, mesmo 
após as vitórias mais importantes, não mu- A notícia de uma importante vitória de
dava em nada o seu comportamento, man- D. João d’Áustria chegou ao Escorial quan-
tendo o semblante tranqüilo de sempre. De- do Filipe II acompanhava o canto de Véspe-
pois da vitória sobre o duque de Sabóia em ras com os monges. Devido à importância
Avalon, Labuisse comentou com ele: do acontecimento, o nobre Pedro Manuel,
— Vosso comportamento me desnorteia, do serviço do monarca, julgou seu dever
marechal. Acabais de conseguir uma das informá-lo logo. Aproximou-se e disse:
mais belas vitórias, e o vosso semblante está — Senhor, acaba de chegar o correio de
igual ao de ontem. D. João, com a notícia de uma grande vitó-
— Meu amigo, devemos agradecer a ria.
Deus por tudo e prosseguir fazendo bem as O rei permaneceu impassível. Fez ape-
coisas.27:2:103 nas um sinal com a mão, para que o oficial
 esperasse, e só depois de concluídas todas
Quando Louvois mandou suspender o as orações ele transmitiu a notícia aos mon-
cerco de Coni, foi levar a má notícia a Luís ges, mandando que fosse cantado o Te
XIV, mostrando-se triste e desesperado. O Deum.109:1697
rei o consolou: 
— Estais abatido por muito pouco, de- Nicolau II estava jogando tênis, e che-
vido aos acontecimentos recentes. Quanto a gou um mensageiro com um telegrama. Ti-
mim, que me lembro de ter visto as tropas nha duas bolas na mão esquerda e a raquete
espanholas em Paris, não me deixo abater na direita, pronto para dar um saque. Pegou
tão facilmente.58:1:58 o telegrama com a direita, aproximou-o dos
 olhos, e leu: “Esquadra russa aniquilada em
Encontrando o conde Luís-Filipe de Sushima. Quase todos os navios afundaram”.
Ségur, o conde de Lauraguais, com fisio- Guardou o telegrama no bolso e anunciou,
nomia radiante, comunicou-lhe: dando o saque:
— Meu amigo, sou agora o mais feliz — Trinta a quinze.30:1982
dos homens: estou completamente arruina- 
do! Concluído o tratado de Amiens em 1802,
— Deus meu! É uma estranha felicida- ansiosamente aguardado por Napoleão,
de essa, que tem levado muitos a se enforca- Talleyrand recebeu o documento contendo
rem. a informação, colocou-o no bolso e foi des-
— Tu te enganas, meu caro. Antes de pachar com o imperador sobre os outros as-
me arruinar, eu estava vergado ao peso dos suntos. Depois que terminaram tudo,
negócios, perseguido, oscilando entre o te- Talleyrand comunicou a boa notícia.
mor e a esperança. Agora sou independente, — Como?! Por que não me deu a notí-
tranqüilo, livre de todas as preocupações.76:77 cia antes?
— Se eu a tivesse dado, o senhor não
From: Contrappunto teria prestado atenção nos nossos assuntos.
Beaugeste, tenho aqui três fatos que Quando o senhor está contente, torna-se in-
mostram monarcas com reações inteiramente suportável.33:10506
35 — Os nobres mantêm o autocontrole diante de derrotas e vitórias 219

O ra, Contrappunto, isso está me parecen-


do uma cama-de-gato. Afinal de con-
tas, a atitude do Napoleão e a de Filipe II
de Wellington não gozava das boas graças
dos chefes militares franceses, por ele der-
rotados. Num dia em que foi recebido por
podem ser inteiramente explicadas por dife- Luís XVIII, os marechais franceses presen-
renças temperamentais. A sua inimizade pes- tes lhe viraram as costas ostensivamente. O
soal com Napoleão parece requerer de mim rei tentou amenizar a situação, mas o duque
algum pronunciamento mais violento, que disse com desprezo:
no entanto eu acharia forçado. Quanto à re- — Não é a primeira vez que vejo os
ação de Nicolau II, ela causa estranheza, pois marechais franceses pelas costas.109:1000
parece denotar insensibilidade em relação 
aos destinos do país e dos muitos súditos que O marechal de Luxembourg infligiu su-
pereceram naquela batalha naval. Mas deve- cessivamente ao príncipe de Orange derro-
se notar também que a interrupção da parti- tas nas batalhas de Fleurus, Lenze, Stein-
da não alteraria em nada o resultado da ba- kerque e Nerwinde. Um dia o príncipe co-
talha nem a situação dos súditos que morre- mentou:
ram. — Parece decidido que eu nunca derro-
tarei aquele corcunda.
From: Clausewitz Ao saber desse comentário, o marechal
Muito bem observado, Beaugeste. Tenho retrucou:
mais alguns fatos mostrando a altivez e o — Como ele sabe que sou corcunda, se
autocontrole diante do inimigo. nunca me viu pelas costas?58:2:360
 
O general que comandava as tropas de Os soldados flamengos estavam atraves-
Veneza contra Luís XII, na batalha de sando o rio Get. Os do duque de Alba queri-
Aignadel, foi aprisionado e conduzido ao am atacá-los nesse momento, mas o duque
campo dos franceses. Luís XII tentou de to- decidiu não atacar. Irado, um capitão atirou
das as formas suavizar a prisão desse gene- ao chão sua arma, e declarou:
ral, que no entanto mantinha uma irredutível — Está visto que o senhor não quer com-
atitude hostil de desprezo e altivez. Descon- bater nunca.
tente, o rei disse ao comandante da guarda: Tranqüilo, o duque respondeu:
— É melhor deixá-lo, do contrário vou — Assim deve ser: os soldados, pedin-
irritar-me e posso perder o autocontrole. Eu do para lutar sempre; e os generais, quando
o venci, e agora é necessário vencer a mim for conveniente.110:207
mesmo.27:2:451

Depois da vitória em Waterloo, o duque P arecem-me suficientes esses exemplos
para comprovar que

Os nobres mantêm o autocontrole


diante de derrotas e vitórias
220 A volta ao mundo da nobreza

36º dia

H oje temos um assunto que alguns cola-


boradores já enviaram em bloco, com
os respectivos comentários. O conjunto me
tes nos seus aposentos uma historieta que
deveria provocar risos, mas ao final não se
percebeu onde estava a graça, e não houve
parece muito interessante, pois mostra a de- risos. Logo depois o príncipe d’Armagnac
licadeza e sensibilidade de alma no relacio- se retirou, e o rei explicou aos outros:
namento social, que se pode encontrar espe- — O fato que contei pareceu-lhes insípi-
cialmente nas pessoas bem nascidas. Os bons do, e de fato o era. Mas o motivo é que, quan-
autores afirmam que uma das leis mais im- do comecei a contá-lo, percebi que um deta-
portantes da boa conversa é que nada seja lhe importante magoaria o príncipe d’Arma-
dito capaz de afligir ou desagradar qualquer gnac, e tive de suprimi-lo, pois não quero de-
dos presentes. Nada mais contrário ao dese- sagradar a ninguém. Como ele já se retirou,
jo dos que se reúnem, do que sair mal satis- vou contar agora o fato completo.27:1:93
feitos uns com os outros ou consigo mes- 
mos, ao se separarem.7 Quando se consegue O príncipe de Condé, vitorioso em mui-
discernir os assuntos a evitar, num determi- tas batalhas, ia saudar o rei Luís XIV, que o
nado ambiente familiar ou social, já se deu esperava no alto da escadaria. Sofria de gota,
um grande passo para tornar o relacionamen- e por isso andava devagar.
to agradável. Isto pressupõe que a pessoa não — Perdoai, Senhor, se vos faço esperar.
seja desses que gostam de brincar com o Minha gota...
fogo, e que se sentem felizes quando se — Com toda calma, primo. Quando se
mostram desagradáveis. Há territórios proi- vem carregado de tantas vitórias, não se pode
bidos, e por vezes a arte da conversa consis- andar depressa.109:848
te em calar-se no momento oportuno.83 Pas- 
sarei inicialmente a palavra à Geoffrin, que Após vários dias da sua lenta agonia,
contribuiu com o primeiro bloco. durante a qual os cortesãos se revezavam
para acompanhá-lo, Luís XIV disse:
From: Geoffrin — Cavalheiros, peço-vos desculpas por
Beaugeste, jamais alguém tornou tão uma morte tão demorada.30:1769
valiosas suas palavras, seus sorrisos e até
seus olhares como Luís XIV. Dava-se o mes- From: Leopoldina
mo com todas as atenções, as distinções e as Para que seja mantida sempre a cordia-
preferências que ele concedia nas devidas lidade e benquerença entre as pessoas, é ne-
proporções. Nunca lhe escapou algo que cessário cada um levar em consideração o
pudesse ser descortês para com alguém; e se que ele mesmo sentiria se estivesse na posi-
tinha que repreender, censurar ou corrigir, o ção do outro, para garantir-lhe uma situação
que era muito raro, fazia-o sempre com ar confortável. Conheço dois belos exemplos
de bondade, quase nunca com rispidez, e ja- do nosso imperador D. Pedro II.
mais com cólera.14 
 Na sua primeira viagem à Europa, esta-
Luís XIV contou aos cortesãos presen- va D. Pedro II em Rouen, cidade francesa
36 — O procedimento da nobreza amenizava as relações sociais 221

então ocupada pelas tropas alemãs. Conhe- os membros da comissão procuravam con-
cedor da sua presença, o general Treslov, versar com ela em alemão, interrompeu-os:
comandante da guarnição alemã de ocupa- — Senhores, não faleis alemão. A partir
ção, foi cumprimentá-lo, comunicando-lhe de hoje, a única língua que entendo é o fran-
que mandaria colocar à porta do hotel uma cês.109:1643
guarda de honra, e ordenaria que a banda 
militar alemã desse um concerto em sua ho- A rainha Vitória, da Inglaterra, despacha-
menagem. Agradecendo a intenção delica- va um dia com Lord Derby, que se achava
da do comandante, D. Pedro recusou a ho- muito enfermo. Notando-o, ela se desculpou:
menagem: — Causa-me muito pesar a etiqueta não
— Se eu estivesse na Alemanha, aceita- me permitir que lhe peça para sentar-se.109:1297
ria. Estou na França, entretanto, e não devo 
permitir que a música dos vencedores ve- Falando sobre a origem da confiança que
nha saudar-me em chão dos vencidos. conseguiu junto à rainha Vitória, Disraeli
O general prussiano inclinou-se, acatan- explicou:
do com admiração e respeito o gesto de de- — Gladstone fala com a rainha como se
licada sensibilidade. E o povo francês, sa- ela fosse um departamento do governo. Eu
bedor da recusa imperial, demonstrou sem- trato com ela sabendo que é uma mu-
pre para com Dom Pedro os mais vivos sen- lher.30:1990
timentos de simpatia.72:113 
 Quando ia subir a escada para o cadafal-
Descendo a pé por uma das alamedas so, São Tomás Morus, que estava muito en-
internas da sua quinta de São Cristóvão, em fraquecido pelos maus tratos recebidos na
companhia do secretário, D. Pedro II viu de prisão, pediu a um dos presentes que o aju-
longe alguns garotos trepados nos galhos das dasse a subir. E acrescentou:
árvores, para furtar frutas do pomar imperi- — Na hora de descer, não lhe darei esse
al. Sem dizer nada, deu meia-volta para to- incômodo.35:49
mar um outro caminho, bem mais longo.
— Esqueceu alguma coisa, meu senhor?
— Não. Vou dar volta por ali. Se eu pros-
seguisse por este lado, aqueles meninos fi-
É também muito expressivo o gesto de
sensibilidade de Henrique IV e o de um
oficial alemão nos fatos seguintes.
cariam amedrontados, poderiam jogar-se das 
árvores e machucar-se. É preferível andar- Henrique IV recebeu algumas acusações
mos um pouco mais.57 contra o seu ministro Sully, que compare-
ceu à sua presença e expôs o que de fato

O comentário da Leopoldina se aplica


também a um fato sobre Maria Anto-
nieta, enviado pela Antoinette, e a três ou-
acontecera, tranqüilizando o rei. Em segui-
da ia se ajoelhar para agradecer a compre-
ensão e despedir-se, mas foi impedido com
tros relatados pelo Grenville. esta cativante demonstração de delicadeza:
 — Não façais isso. Se vos vissem ajoe-
Quando Maria Antonieta viajou da Áus- lhado, pensariam que sois culpado, e que eu
tria para a França, a fim de desposar o futuro vos estaria perdoando.32:4855
rei Luís XVI, foi recebida por uma comissão 
de franceses em Estrasburgo, cidade france- Um destacamento de cavalaria alemã
sa situada próximo à fronteira alemã. Como dirigia-se à aldeia de Bouchot, na Bélgica,
222 A volta ao mundo da nobreza

por ocasião da Primeira Guerra Mundial, de a imperatriz do México, cunhada do im-


quando o comandante notou entre as árvo- perador Francisco José, nosso ilustre alia-
res um estranho castelo, exibindo em seu do. Os soldados alemães que por aqui pas-
torreão a bandeira austríaca. Aproximou-se, sarem não deverão bater à porta, nem en-
mandou bater e pediu ao porteiro o nome do trar”.81:76
proprietário daquele castelo, e que também
lhe explicasse por que tremulava ali a ban- From: Morellet
deira austríaca. É necessário nunca constranger os ami-
— Vive aqui Sua Majestade a impera- gos, seja quando lhes estamos prestando um
triz do México. favor, seja quando cometem algo reprová-
Julgando-se objeto de uma zombaria, vel.
exigiu uma explicação, que lhe veio ponde- 
rada e tranqüila: Turenne queria premiar um oficial de boa
— Sua Majestade, a imperatriz Carlota, família, mas pobre, sem ferir-lhe os brios.
é a viúva do arquiduque austríaco Maximi- Por falta de recursos, o oficial usava um dos
liano, imperador do México, irmão de Sua cavalos menos dotados em todo o exército.
Majestade Francisco José. Turenne convidou-o para jantar, e após a re-
Então toda a história se compôs: o casa- feição lhe disse:
mento de Maximiliano com Carlota, filha do — Tenho um pedido a fazer. Sei que o
rei Leopoldo da Bélgica; a sua feliz vida de acharás um tanto ousado, mas espero que não
casados; Napoleão III escolhendo o arqui- o recuses ao general. Como estou velho, e
duque para ocupar o trono do México; a co- mesmo um tanto adoentado, os cavalos mui-
roação, a corte esplendorosa, as tropas fran- to fogosos me cansam. O teu cavalo me pa-
cesas retirando-se logo depois; Carlota en- rece adequado para resolver esse problema,
tregue a uma peregrinação inútil pelas cor- e eu queria pedir o sacrifício de fazeres co-
tes européias, pedindo desesperadamente migo uma troca.
que lhe auxiliassem o esposo prisioneiro em Com uma profunda reverência, o oficial
Vera Cruz; a condenação à morte e o fuzi- se afastou e logo voltou para entregar o seu
lamento. O oficial alemão compreendeu en- cavalo. No dia seguinte, recebeu um dos
tão a resposta do lacaio, e pediu licença para mais belos cavalos do exército.58:1:275
cumprimentar a imperatriz. 
— Sua Majestade não recebe quem quer O rei Afonso V de Aragão foi visitar um
que seja. Enlouqueceu com a morte do es- joalheiro na companhia de alguns fidalgos.
poso, e há vinte e dois anos aqui vive, igno- Quando se retiravam, o joalheiro correu atrás
rante do que se passa lá fora, recordando deles, dizendo que um diamante que todos
apenas seu romance e esperando sempre que haviam visto sobre a mesa havia desapare-
Maximiliano volte. cido. O rei mandou então que todos voltas-
Abriu o portão de um jardim fechado e sem, e pediu que o joalheiro preparasse um
fez com que o oficial alemão visse, sem ser recipiente não transparente e o forrasse com
visto, uma velhinha vestida de luto, a passe- pó-de-serra. Depois mandou que cada acom-
ar apoiada no braço de uma aia também ido- panhante introduzisse no recipiente a mão
sa. As tropas continuaram seu caminho. Mas fechada e a retirasse aberta. Depois que to-
antes o comandante mandou afixar no portão dos o fizeram, lá estava o diamante junto com
do velho castelo um aviso: “Esta casa per- o pó-de-serra, e com isso se salvou também
tence à coroa belga. Nela vive Sua Majesta- a reputação de todos.109:2986
36 — O procedimento da nobreza amenizava as relações sociais 223

 lá se podem galgar os mesmos postos que


O duque Gastão de Orleans estava nos há no exército.
seus aposentos com um grupo de nobres, e Algum tempo depois o oficial rea-
percebeu-se que desaparecera da mesa um presentou o mesmo pedido e obteve a mes-
relógio carrilhão de ouro. Um dos presentes ma resposta. Numa terceira tentativa, argu-
propôs: mentou com o exemplo do filho do próprio
— É necessário fechar a porta e revistar ministro, a quem este concedera um regi-
todos os presentes. mento no exército depois de ter ele servido
O duque corrigiu: na gendarmeria. Deste vez a explicação foi
— Pelo contrário, senhores. Todos de- mais completa, mas igualmente polida:
vem sair imediatamente para que, quando — A saída do meu filho não constitui
fizer soar a hora, o carrilhão não denuncie uma perda para a gendarmeria. Mas seria
com quem ele está.106:30 uma perda irreparável a saída de um exce-
 lente oficial como o senhor.27:2:97
Quando os arruaceiros degolaram a 
princesa de Lamballe, muito amiga de Ma- Como todo soberano, S. Luís IX deseja-
ria Antonieta, e fizeram a sua cabeça desfi- va que seu primeiro filho fosse homem, para
lar pelas ruas de Paris espetada na ponta de tornar-se seu sucessor, mas nasceu uma
uma lança, tiveram a crueldade de apresentá- mulher. O bispo Guilherme de Paris foi in-
la diante da janela do aposento do Templo cumbido de transmitir-lhe a notícia um tan-
em que se encontrava a família real. Nesse to decepcionante, e o fez com refinada di-
momento, quando um guarda queria que Luís plomacia:
XVI se apresentasse ao povo na janela, ele — Majestade, tenho o prazer de anunci-
recusou-se. Depois que os revoltosos se dis- ar-vos que a coroa da França acaba de con-
persaram, alguém lhe perguntou: quistar um novo reino.
— Quem vos pressionou a aparecer di- — Como assim?
ante da janela? — Se Deus vos tivesse dado um herdei-
Sentindo a dificuldade em que colocaria ro, teríeis de presenteá-lo com um grande
o guarda, se o delatasse, respondeu: condado. Como vos nasceu uma filha,
— Não me lembro. Só sei o nome de ganhareis um reino quando ela se casar.32:8548
quem me impediu de fazê-lo.19:4:12 
Isabel de Farnese, esposa de Filipe V, não
From: Chateaubriand gostava de ver-se rodeada quase só de per-
Os nobres eram exímios no trato social, sonagens franceses. Por isso, um dia suge-
e sempre atentos a um dos seus requisitos, riu ao rei que mandasse todos os franceses
que consiste em amenizar nos outros o so- de volta à França. Sem lhe responder, ele
frimento provocado por fatos desagradáveis. deu ordem para que preparassem sua carru-
 agem para uma viagem. Quando ela lhe per-
Um oficial da polícia pediu ao ministro guntou o motivo daquela disposição repen-
da Guerra d’Argenson que o fizesse coman- tina para viajar, esclareceu:
dante de um regimento do Exército. Foi-lhe — Vou à França. Como devem voltar
negado polidamente o pedido, com a seguin- para lá todos os franceses, eu também terei
te explicação: de ir, pois sou francês.109:2897
— O rei decidiu não conceder postos no 
exército para os oficiais de gendarmeria, pois Quando fazia uma visita aos feridos de
224 A volta ao mundo da nobreza

guerra, Vitório Emanuel II notou um com — Só me lembro de que foi esse o dis-
os olhos vendados, e perguntou-lhe: curso do qual mais gostei.
— É grave o teu ferimento? — Fico satisfeito em saber que o meu
— Majestade, perdi os olhos. Não po- julgamento concorda com o vosso. Eu o
derei mais ver minha mãe. achei tão belo, que o guardei na memória, e
Comovido, o rei tirou do peito uma me- vou agora repeti-lo.
dalha, deu-a ao ferido e disse: E repetiu com ênfase todo o discurso,
— Coitado! Manda esta medalha à tua enquanto se enchiam de lágrimas os olhos
mãe, como lembrança tua e minha.32:14938 do chanceler.58:3:145
 
O conde André Hudik penetrou com seu A princesa Paulina de Metternich não era
exército em Berlim, contra Frederico II. bela, e bem o sabia, tanto que algumas ve-
Como lembrança, comprou uma dúzia de zes tomava a iniciativa de dizê-lo. Havia na
luvas femininas para a imperatriz Maria Te- época uma famosa atriz, que era muito feia,
resa da Áustria, mas por vingança o comer- e um dia a princesa perguntou a Sardou:
ciante prussiano vendeu todas as luvas para — O senhor conhece bem a atriz
a mão esquerda. Alguns dias depois de Delaporte, e eu gostaria de saber se eu me
recebê-las, a imperatriz o chamou e disse: pareço com ela.
— General, fiquei muito agradecida pelo Que alguém reconheça a própria feiúra,
presente, mas recomendaria que da próxima é uma coisa; alguém dizê-lo a essa pessoa, é
vez comprásseis luvas que eu possa usar.32:9271 outra muito diferente. E especialmente peri-
 goso quando se trata de uma mulher. Sardou
La Condamine era excessivamente cu- resolveu bem o dilema:
rioso. Um dia em que estava na casa do mi- — Senhora, as mulheres são todas um
nistro Choiseul, a esposa deste escrevia uma pouco parecidas umas com as outras. Mas
carta, e ele se aproximou por trás para lê-la. eu não saberia encontrar entre vós e a atriz
A senhora percebeu e continuou a escrever, outra semelhança especial além destas duas:
mas terminou com a seguinte frase: a juventude e a inteligência.32:9645
— Eu diria muito mais se o Sr. La 
Condamine não estivesse atrás de mim, para Rodolfo de Habsburgo, herdeiro do im-
ler o que escrevo. perador Francisco José, tinha afeição muito
— Ah, Madame! A senhora se engana. especial pela irmã Gisela. Quando ela se
Asseguro-vos que não li nada.45 casou, presenteou-a com um finíssimo esto-
jo de madeira vermelha contendo cem fo-

U ma das principais preocupações, em


todo contato social, consiste em causar
prazer aos outros.
lhas de papel de carta. Em cada uma das fo-
lhas estava escrito: “Caro Rodolfo, peço-te”.
E informou-lhe que, qualquer que fosse a
 situação em que viesse a encontrar-se, envi-
O delfim de Luís XV era dotado de boa asse a ele uma daquelas folhas, acrescentan-
memória, que usava sobretudo para reter os do nela o favor que dele desejasse, e seria
textos mais importantes. Quando criança, atendida imediatamente.32:12433
deixou muito sensibilizado o chanceler 
d’Aguesseau, a quem perguntou: Isabel de Orleans, condessa de Paris,
— Senhor chanceler, poderíeis repetir- guardava em relação a Assis Chateaubriand
me o vosso discurso de tal data? uma afeição muito especial, porque soube
36 — O procedimento da nobreza amenizava as relações sociais 225

conquistá-la com uma reminiscência. Rece- normando possuía outro, também muito
bendo-a em sua casa de São Paulo, condu- bom. Mandou que ele comparecesse à sua
ziu-a à biblioteca e tirou um livro da estan- presença e trouxesse o animal. Teve início
te. Entre suas páginas ele mostrou-lhe um então uma caçada à lebre, na qual o do rei
amor-perfeito seco. Deixou-a contemplá-lo teve desempenho inferior. Não conseguin-
um momento, e depois disse: do controlar-se ante a derrota, o rei deu uma
— Sabe que flor é esta? Foi você mes- chibatada no cavalheiro. No dia seguinte o
ma que a colheu, há muitos anos. Você era marechal de Retz mostrou-se muito triste
muito pequenina, e eu um rapaz recebido por durante o despertar do rei, que lhe pergun-
sua avó, a princesa Isabel, na casa de tou:
Boulogne. Estávamos no jardim, e sua avó — O que vos aconteceu, marechal?
lhe disse: “Vá colher uma flor, Bebelle, para — A verdade é que Vossa Majestade
este amigo que veio de tão longe, do meu perdeu o ponto primordial da vossa nobre-
querido Brasil”. A flor que você me trou- za.
xe... Bem... Ei-la!97 — Eu entendo, marechal. Estou errado,
 pois não sou eu mesmo mais que um cava-
Na Lorena, durante uma guerra, Luís lheiro. Mas vou dar a ele satisfação diante
XIII se hospedara na casa de um camponês. de todos.
Foi-lhe preparada uma sopa de perdiz com E de fato o fez. Logo em seguida che-
vegetais, cujo odor era delicioso. Ia ser ser- gou a notícia da vacância de um cargo de
vido, quando percebeu que o anfitrião não governo na região, e o marechal sugeriu:
tirava os olhos da sopa, tal era a boa impres- — Senhor, esse cargo deve ser ofereci-
são que ela lhe causara. Mandou então que do a ele.
os criados servissem em primeiro lugar o De bom grado o rei completou assim a
anfitrião.106:24 reparação do ato intempestivo que pratica-
ra.106:128

N em sempre é possível evitar que algu-


ma ofensa escape, no contato diário.
Mas as pessoas educadas procuram e encon- C omo seria diferente o mundo, se em so-
ciedade todos procurassem proceder
tram um meio de repará-la. como na maioria dos exemplos de hoje. Na
 época em que a nobreza era o exemplo que
Carlos IX tinha um excelente galgo, e todos procuravam seguir, isso se aproximou
foi informado de que um cavalheiro da perfeição. E se pode afirmar que

O procedimento da nobreza amenizava


as relações sociais
226 A volta ao mundo da nobreza

37º dia

From: Geoffrin do entraram dois jovens que não o conheci-


Beaugeste, nada é mais difícil de man- am. Julgando que sua visão do espetáculo
ter do que o propósito de ser sempre agradá- ficaria prejudicada, propuseram-lhe que tro-
vel ao interlocutor.69 Mas há encantadoras casse de lugar com eles. Sem responder, ele
doçuras no hábito de ser amável, e deve-se permaneceu tranqüilamente no lugar. Um
ter em vista que ele é contagioso. O homem deles, como vingança, empurrou para baixo
é feito de tal maneira que, quando está ale- as luvas que o marechal deixara na balaus-
gre e comunica sua alegria, ele dobra essa trada, o que provocou um clamor geral de
alegria. Quando está triste e comunica sua indignação na platéia. Um nobre que ali esta-
tristeza, ele distribui essa tristeza. Se va recolheu as luvas e foi respeitosamente
comprazemos a alguém, este nos deseja agra- entregá-las ao dono. Compreendendo só en-
dar, e aquilo que damos em amabilidade nos tão a grosseria e tolice que haviam cometi-
é devolvido em atenções. Com tais pessoas do, quiseram fugir, mas Turenne os chamou
se pode conversar, o que equivale a entreter e disse afetuosamente:
os outros entretendo-se a si mesmo.14 Estou — Fiquem, fiquem! Vamos nos arranjar
dizendo tudo isto porque selecionei alguns aqui, e haverá lugar para todos nós.27:2:100
exemplos dessa amabilidade, extraídos dos 
livros em que estudei os salões parisienses, A condessa de Rouen estava no leito de
e vou transcrevê-los para você. morte, e recebeu uma carta da amiga Mme.
 de Calais. Ditou à camareira a resposta:
Um jovem parisiense manifestou ao czar — A condessa de Rouen envia seus cum-
Alexandre I sua admiração pela amabilida- primentos a Mme. de Calais, mas pede des-
de com que tratava todas as pessoas, por mais culpas, pois está ocupada em morrer.30:1763
insignificantes que fossem, e ele replicou:
— Não há nada para admirar. Os reis são From: Leopoldina
feitos para isso.32:204 Aproveito para relatar mais um fato com-
 provando a grande amabilidade do nosso
Derrotado na batalha de Pavia, Francis- imperador.
co I foi levado à Espanha como prisioneiro, 
e pouco depois teve uma febre muito alta. Dom Pedro II costumava reunir os lite-
Carlos V foi ao encontro do rei francês pri- ratos e os professores do Colégio Pedro II,
sioneiro, abraçou-o e disse: para se entreterem em animadas palestras
— Não deveis considerar-vos meu pri- literárias em que eram lidas as produções
sioneiro, e sim meu irmão. Procurai curar- inéditas de qualquer dos presentes, às vezes
vos, e vereis que logo tudo se arranjará se- dele próprio. Numa dessas noites, em que o
gundo os vossos desejos, pois meu empe- programa tinha sido particularmente cansa-
nho é agradar-vos.32:2446 tivo, o barão Múcio Teixeira, para evitar
 cochilar, pegou um lápis e começou a esbo-
O marechal de Turenne ocupava no tea- çar a caricatura do monarca, mas de tal modo
tro a primeira fileira de um camarote, quan- que ele não pudesse ver do que se tratava.
37 — A amabilidade dos nobres era como uma segunda natureza