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ÍNDICE

Ave, Cristo!

PRIMEIRA PARTE CAPÍTULO 1 = Preparando caminhos CAPÍTULO 2 = Corações em luta CAPÍTULO 3 = Compromisso do coração CAPÍTULO 4 = Aventura de mulher CAPÍTULO 5 = Reencontro CAPÍTULO 6 = No caminho redentor CAPÍTULO 7 = Martírio e amor

SEGUNDA PARTE CAPÍTULO 1 = Provas e lutas CAPÍTULO 2 = Sonhos e aflições CAPÍTULO 3 = Almas em sombra CAPÍTULO 4 = Sacrifício CAPÍTULO 5 = Expiação CAPÍTULO 6 = Solidão e reajuste CAPÍTULO 7 = Fim de luta

Ave, Cristo!

Hoje, como outrora, na organização social em decadência, Jesus avança no mundo,

restaurando a esperança e a fraternidade, para que o santuário do amor seja reconstituído em seus legítimos fundamentos. Por mais se desenfreie a tormenta, Cristo pacifica. Por mais negreje a sombra, Cristo ilumina. Por mais se desmande a força, Cristo reina.

A obra do Senhor, porém, roga recursos na concretização da paz, pede combustível para a

luz e reclama boa vontade na orientação para o bem.

A idéia divina requisita braços humanos.

A bênção do Céu exige recipientes na Terra. O Espiritismo, que atualmente revive o apostolado redentor do Evangelho, em suas

tarefas de reconstrução, clama por almas valorosas no sacrifício de si mesmas para estender- se, vitorioso. Há chamamentos do Senhor em toda a parte. Enquanto a perturbação se alastra, envolvente, e enquanto a ignorância e o egoísmo conluiados erguem trincheiras de incompreensão e discórdia entre os homens, quebram-se as fronteiras do Além, para que as vozes inolvidáveis dos vivos da eternidade se expressem, consoladoras e convincentes, proclamando a imortalidade soberana e a necessidade do Divino Escultor em nossos corações, a fim de que possamos atingir a nossa fulgurante destinação na vida imperecível. Alinhando pois, as reminiscências deste livro, não -nos pro pomos romancear, fazer literatura de ficção, mas sim trazer aos nossos companheiros do Cristianismo redivivo, na seara espírita, breve página da história sublime dos pioneiros de nossa fé. Que o exemplo dos filhos do Evangelho, nos tempos pós-apostólicos, nos inspire hoje a simplicidade e o trabalho, a confiança e o amor, com que sabiam abdicar de si próprios, em serviço do Divino Mestre! que saibamos, quanto eles, transformar espinhos em flores e pedras em pães, nas tarefas que o Alto depositou em nossas mãos! Hoje, como ontem, Jesus prescinde das nossas guerrilhas de palavras, das nossas tempestades de opinião, do nosso fanatismo sectário e do nosso exibicionism-o nas obras de casca sedutora e miolo enfermiço.

O Excelso Benfeitor, acima de tudo, espera de nossa vida o coração, o caráter, a conduta,

a atitude, o exemplo e o serviço pessoal incessante, únicos recursos com que poderemos garantir a eficiência de nossa cooperação, em companhia dele, na edificação do Reino de Deus. Suplicando-lhe, assim, nos ampare o ideal renovador, nos caminhos de árdua ascensão que nos cabe trilhar, repetimos com os nossos veneráveis instrutores dos primeiros séculos da Boa Nova:

— Ave, Cristo! os que aspiram à glória de servir em teu nome te glorificam e saúdam!

EMMANUEL

Pedro Leopoldo, 18 de abril de 1953.

PRIMEIRA PARTE

1

Preparando caminhos

Quase duzentos anos de Cristianismo começavam a modificar a paisagem do mundo. De Nero aos Antoninos, todavia, as perseguições aos cristãos haviam recrudescido. Triunfantemente assentada sobre as sete colinas, Roma prosseguia ditando o destino dos

povos, à força das armas, alimentando a guerra contra os princípios do Nazareno, mas o Evangelho caminhava sempre, por todo o Império, construindo o espírito da Era Nova.

Se na organização terrestre a Humanidade se desdobrava em movimentação intensa, no

trabalho da transformação ideológica, o serviço nos planos superiores atingia culminâncias. Presididas pelos apóstolos do Divino Mestre, todos então na vida espiritual, as obras de soerguimento humano multiplicavam-se, em vários setores. Tornara Jesus ao sólio resplendente de sabedoria e de amor, de onde legisla para todas as

criaturas terrenas, mas os continuadores do seu ministério, entre os homens encarnados, qual enxame crescente de abelhas da renovação, prosseguiam ativos, preparando o solo dos corações para o Reino de Deus. Enquanto exércitos compactos de cristãos desapareciam nas fogueiras e nas cruzes, nos suplícios intermináveis ou nas mandíbulas das feras, templos de esperança se levantavam felizes, além das fronteiras de sombra, dentro dos quais falanges enormes de Espíritos convertidos ao Bem se ofereciam para a batalha de suor e sangue, em que, usando a vestimenta física, dariam testemunhos de fé e boa vontade, colaborando na expansão da Boa Nova, para a redenção da Terra. Assim é que, em formosa cidade espiritual, nas adjacências da Crosta Planetária, vamos encontrar grande assembléia de almas atraidas ao Roteiro Divino, escutando a exortação de iluminado orientador, que lhes falava, de coração posto nos lábios:

— Irmãos — dizia ele, envolvido em suaves irradiações de luz —, o Evangelho é código de paz e felicidade que precisamos substancializar dentro da própria vida!

O Sol que jorra bênçãos sobre o mundo incorpora-se à natureza, sustentando-a e

renovando-lhe as criações. A folha da árvore, o fruto nutriente, o cântico do ninho e a riqueza da colméia são dádivas do astro sublime, materializadas pelos princípios da Eterna Inteligência. Cristo é o Sol Espiritual dos nossos destinos. Urge, pois, associarmo-nos voluntàriamente aos ensinamentos dele, concretizando-lhes a essência em nossas atividades de cada dia. Não podemos esquecer, entretanto, que a mente do homem jaz petrificada na Terra, dormindo nas falsas concepções da vida celeste.

A política de dominação militar asfixiou as velhas tradições dos primitivos santuários. As

cortes romanas abafaram as vozes da filosofia grega, como os povos bárbaros enforcaram a revelação egípcia. Adensou-se o nevoeiro da estagnação e da morte entre as criaturas. As águias imperiais assentaram na cega idolatria de Júpiter a mentirosa religião da vaidade e do poder

E enquanto os deuses de pedra absorvem os favores da fortuna, alonga-se a miséria e a

ignorância do povo, reclamando o pronunciamento do Céu. Como se expressará, porém, a intervenção divina, sem a cooperação humana?

Sem a heróica renunciação dos que se consagram ao progresso e ao aprimoramento das almas, a educação não passará de letra morta. Imprescindível, portanto, é que saibamos escrever com o nosso próprio exemplo as páginas vivas do Cristianismo remissor.

O Mestre Crucificado é divino desafio.

Até agora, os conquistadores do mundo conseguiram avançar no carro purpúreo da

vitória, matando ou destruindo, valendo-se das legiões de guerreiros e lidadores cruéis. Jesus, no entanto, triunfou pelo sacrifício. César, atado às vicissitudes humanas, governa os assuntos referentes à carne em trânsito para a renovação. Cristo reina sobre a alma que nunca morre, aos poucos sublimando-a para a glória imperecível

O tribuno venerável fizera uma pausa, como que intencional, porque o clangor distante de

muitos lítuos reunidos se fazia ouvir, em pleno céu, dando a idéia de uma convocação para alguma batalha próxima. As centenas de entidades que se conchegavam umas às outras, no admirável recinto cuja abóbada deixava perceber a luz tremeluzente das estrelas remotas, entreolharam-se, ofegantes Todos os Espíritos, ali congregados, pareciam ansiosos pela oportunidade de servir. Alguns traziam no semblante expressões de saudade e dor, qual se estivessem ligados à batalha da Terra por feridas de aflição, somente curáveis com o retorno às angústias do passado. Mas, a expectação não durou muito. Superando as clarinadas, que ecoavam pela noite, a voz do pregador ressurgiu:

— Muitos de vós, amados irmãos, deixastes à retaguarda velhos compromissos de amor e

desejais voltar ao áspero trilho da carne, como quem afronta as labaredas de um incêndio para salvar afeições inesquecíveis. Entretanto, devotados agora à verdade divina, aprendestes a colocar os desígnios do Senhor acima dos próprios desejos. Entediados da ilusão, consultais a

realidade, buscando engrandecê-la, e a realidade aceita o vosso concurso decisivo para impor-

se no mundo. Não olvideis, todavia, que somente colaborareis na obra do Cristo, ajudando sem exigir e trabalhando sem apego aos resultados. Como o pavio da vela, que deve submeter-se e consumir-se a fim de que as trevas se desfaçam, sereis constrangidos ao sofrimento e à humilhação para que novos horizontes se abram ao entendimento das criaturas. Por muito tempo, ainda, o programa dos cristãos não se afastará das legendas do Apóstolo Paulo:

Em tudo (1) sereis atribulados, mas não aniquilados; perplexos, mas não desalentados;

perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruidos, trazendo sempre, por toda

a parte, a exemplificação do Senhor Jesus, no próprio corpo, para que a vida divina se

manifeste no mundo. E, assim, quantos renascerem nas sombras da matéria mais densa, estarão incessantemente entregues ao sacrifício, por amor à verdade, a fim de que a lição do Divino Mestre brilhe mais intensamente nos domínios da carne mortal.

O mentor explanou ainda, por vários minutos, quanto aos deveres que aguardavam os

legionários do Evangelho, entre os obstáculos do mundo, descendo,

(1) 2ª epístola aos Coríntios, capítulo 4, versículos 8 a 11. (Nota do Autor espiritual.)

por fim, da tribuna dourada para o cultivo da conversação fraterna. Vários amigos oscularam-lhe as mãos, comentando, com entusiasmo, os mapas de trabalho a que se prenderiam, de futuro.

Diminuíam os entendimentos e as rogativas de proteção, quando o pregador foi procurado por alguém com intimidade afetuosa.

— Varro! — exclamou ele, abraçando o recém-chegado e contendo a emoção.

Tratava-se de velho romano, de olhar percuciente e triste, cuja túnica muito alva, confundida com a roupagem brilhante do companheiro, assemelhava-se a uma nesga de

neblina apagada, de encontro a repentino clarão de aurora. No amplexo de ternura que permutavam, era bem de ver-se a reaproximação de dois

amigos que, por momentos, olvidavam a autoridade e a aflição de que eram portadores, para se transfundirem um no outro, depois de longa separação. Trocadas as primeiras impressões em que antigos eventos do pretérito foram recordados, Quinto Varro, o romano de fisionomia simpática e amargurada, explicou ao companheiro, então guindado a esfera superior, que pretendia voltar ao plano físico, em breve tempo.

O representante da Esfera Mais Alta ouviu-o com atenção e obtemperou, admirado:

— Mas, porquê? Conheço-te o acervo de serviços, não somente à causa da ordem, mas

igualmente à causa do amor. No mundo patrício, as tuas derradeiras romagens foram as do

homem correto até ao extremo sacrifício e os teus primeiros ensaios na edificação cristã foram dos mais dignos. Não seria aconselhável o prosseguimento de tua marcha, acima das inquietantes paisagens da carne?

O interlocutor fixou um gesto silencioso de súplica e aduziu:

Sei que conservas o poder de autorizar minha

volta. Sim, sem dúvida, os apelos de cima comovem-me a

No entanto — e a voz dele se fêz quase sumida pela

emotividade —, de todos os que ficaram para trás, tenho um filho do coração, perdido nas trevas, que eu desejaria Socorrer

definitivo, aos nossos da vanguarda

Anseio por reunir-me, em

— Clódio, abençoado amigo! peço-te!

— Taciano? — indagou o mentor, intrigado.

— Ele mesmo

E Varro prosseguiu, com encantadora humildade:

— Sonho conduzi-lo ao Cristo, com os meus próprios braços. Tenho implorado ao Senhor

semelhante graça, com todo o fervor de meu paternal carinho. Taciano é para mim o que a rosa significa para o arbusto espinhoso em que nasceu. Em minha indigência, ele é o meu

tesouro e, em minha fealdade, é a beleza de que desejava orgulhar-me. Daria tudo por dedicar-

Acariciá-lo, junto do coração, para orientar-lhe os passos na direção de

Jesus, é o Céu a que aspiro

me a ele, de novo

E,

como se quisesse sondar a impressão que causava no amigo, acrescentava:

Porventura estarei errado em minha aspiração?

O

velho orientador afagou-o, com visíveis demonstrações de piedade, passou a destra

pela fronte banhada de luz e falou:

— Não discuto os teus sentimentos, que sou constrangido a respeitar, mas tamanha renunciação?

Como se articulasse as próprias reminiscências para exprimir-se com segurança, fêz longa pausa, que ele próprio interrompeu, acentuando:

— Não acredito que Taciano esteja preparado. Vi-o, há alguns dias, no Templo de Vesta,

chefiando larga legião de inimigos da luz. Não me pareceu inclinado a qualquer serviço do Evangelho. Vagueia nos santuários das divindades olímpicas, promovendo arruaças contra o Cristianismo nascente e ainda se compraz nos festins dos circos, encontrando incentivo e alegria nas efusões de sangue. —Tenho acompanhado meu filho, nesse lamentável estado — concordou Quinto Varro, melancólico —, contudo, nos últimos dias, noto-o amargurado e aflito. Quem sabe estará Taciano à beira da grande renovação? Compreendo que ele tem sido recalcitrante no mal, consagrando-se, indefinidamente, às sensações inferiores que lhe impedem a percepção de mais altos horizontes da vida. Mas concluo, de mim para comigo, que algo deve ser feito quando temos necessidade do reajustamento daqueles a quem amamos

valeria

E talvez porque Clódio silenciasse, pensativo, o afetuoso pai voltou a dizer:

—Abnegado amigo, permite-me voltar —Estarás, todavia, consciente dos riscos da empresa? Ninguém salvará um náufrago sem

expor-se ao chicote das ondas. Para ajudar Taciano, mergulhar-te-ás nos perigos em que ele se encontra. —Sei disso — atalhou Varro, decidido, prosseguindo em tom de súplica —; auxilia-me a pretensão, em nome de nossa velha amizade. Procurarei servir ao Evangelho com todas as

minhas forças, aceitarei todos os sacrifícios, comerei o pão de fel embebido em suor e pranto; contudo, rogo permissão para convocar meu filho ao trabalho do Cristo, por todos os recursos

Certo, o caminho estará juncado de obstáculos, entretanto,

com o amparo do Senhor e com o auxílio dos amigos, conto vencer.

O respeitável mentor, francamente compadecido, como quem não desejava delongar-se

na conversação de ordem pessoal, indagou:

que estiverem ao meu alcance

— Quanto tempo consideras imprescindível ao cometimento?

— Ouso colocar a resposta em teu próprio critério.

— Pois bem — concluiu o companheiro generoso —, endosso-te a decisão,

confiantemente. Concedo-te vinte lustros para o trabalho a realizar. Creio que um século bastará. Determinaremos medidas para que sejas sustentado na nova roupagem de carne. Teus serviços à causa do Evangelho serão creditados em Esfera Superior e, quanto ao mérito ou

demérito de Taciano, à frente de tua renunciação, admito que o assunto será privativo de tua própria responsabilidade. Instado por amigos, na liquidação de outros problemas, Clódio lançou-lhe compassivo olhar e finalizou:

— Não te esqueças de que, pela oração, continuaremos juntos. Ainda mesmo sob o

pesado véu do esquecimento na luta física, ouviremos teus apelos, amparando-te com o nosso esforço assistencial. Vai em paz, quando quiseres, e que Jesus te abençoe. Varro dirigiu-lhe comovedoras palavras de reconhecimento, reafirmou as promessas que formulara e ausentou-se, cismarento, sem saber ao certo que estranhas emoções lhe povoavam a alma, entre raios de alegria e dardos de amargura.

Em esplêndido crepúsculo, enquanto o Sol, como um braseiro, tombava para os lados de Óstia, o Espírito de Quinto Varro, solitário e pensativo, chegou à Ponte Céstio, demorando-se na contemplação da corrente do Tibre, como que detido por obcecantes recordações. Brisas suaves deslizavam cantando, qual se fôssem ecos isolados de melodias ocultas no céu escampo. Roma engalanara-se para celebrar as vitórias de Séptimo Severo sobre os seus temíveis competidores. Pescênio Níger, depois de tríplice derrota, fôra colhido pelas forças imperiais e decapitado, às margens do Eufrates, e Albino, o escolhido das legiões da Bretanha, seria vencido nas Gálias, matando-se em desespero. Diversos dias de festa comemoravam a glória brilhante do imperador africano, mas, por solicitação dos augustais, o término das solenidades estava marcado para a noite próxima, no grande anfiteatro, com todas as pompas do triunfo. Mostrando fisionomia expectante e entristecida, Varro atravessou o pequeno território da ilha do Tibre e, ganhando o Templo da Fortuna, observou a multidão dos grupos esparsos de povo, a se adensarem na praça, em direção ao soberbo edifício. As liteiras de altos dignitários da Corte, cercadas de escravos, dispersavam pequenas assembléias de cantores e dançarinos. Bigas faustosas e carros adornados varavam por entre a turba, conduzindo tribunos jovens e damas patrícias de famílias tradicionais. Marinheiros e soldados querelavam com vendedores de refrigerantes e frutas, enquanto a onda popular crescia sempre. Gladiadores de corpo descomunal chegavam sorridentes, cortejados por jogadores inveterados da arena.

E, enquanto os sons de alaúdes e atabales se misturavam ao distante rugido das feras

enjauladas para o soberbo espetáculo, a glória de Severo e o suplício dos cristãos eram os temas preferidos de todas, as palestras. O viandante espiritual fitava não só a multidão ávida de prazeres, mas também as falanges bulhentas de entidades ignorantes ou perversas que dominavam nas sombrias comemorações. Varro tentou adiantar-se, revelando estar àprocura de alguém, mas a pesada atmosfera rei- nante obrigou-o a recuar. Contornou o famoso anfiteatro, palmilhou as vielas que se estreitavam entre o Célio e o Palatino, atravessou a Porta Capena e atingiu o campo, dirigindo-se para os sepulcros da Via Apia.

A noite clara descera sobre o casario romano.

Milhares de vozes entoavam cânticos de júbilo, à prateada claridade do luar em plenilúnio. Eram cristãos desencarnados, preparando-se para receber os companheiros de sacrifício. Os mártires supostamente mortos iam saudar os mártires que, nessa noite, iam morrer. Quinto Varro uniu-se ao extenso grupo e orou, fervorosamente, suplicando ao Alto forças para a difícil empresa a que pretendia consagrar-se. Preces e comentários santificantes foram ouvidos. Depois de algumas horas, a enorme assembléia espiritual deslocou-se no rumo do anfiteatro. Hinos de alegria elevaram-se às alturas. Não somente os mensageiros da Via Ápia alcançavam o anfiteatro em harmoniosas orações. Enviados do Monte Vaticano e trabalhadores espirituais dos grupos de pregação evangélica do Esquilino, da Via Nomentana e da Via Salária, incluindo representantes de outras regiões romanas, penetravam o tumultuário recinto como exércitos de luz. Introduzidos na arena para os derradeiros sacrifícios, os seguidores de Jesus igualmente cantavam. Aqui e ali, vísceras de feras mortas, de mistura com os corpos horrivelmente mutilados de gladiadores e bestiários vencidos, eram retirados à pressa por guardas de serviço. Alguns discípulos do Evangelho, notadamente os mais idosos, atados em postes de martírio recebiam setas envenenadas, incendiando-se-lhes depois os corpos, a fim de servirem como tochas na festiva exibição, enquanto outros, de mãos postas, se entregavam, inermes, aos golpes de panteras e de leões da Numídia. Quase todos os supliciados desprendiam-se da carne, no sublimado êxtase da fé, recolhidos carinhosamente pelos irmãos que os esperavam em cânticos de vitória. Quinto Varro, no entanto, em meio da claridade intensa com que as legiões espirituais haviam desintegrado as trevas, não se mostrava interessado na exaltação dos heróis.

Relanceava o olhar pelas arquibancadas repletas, até que, por fim, se deteve, com

evidentes sinais de angústia, em álacre conjunto de Espíritos turbulentos, em arrojadas libações. Ansiosamente, Varro abeirou-se de um jovem que desferia estrepitosas gargalhadas e, abraçando-o, com extremada ternura, sussurrava:

— Taciano, meu filho! meu filho!

O rapaz que se mergulhava na mais profunda corrente de sensações inferiores não viu o

benfeitor que o conchegava de encontro ao peito, mas, tomado de repentina inquietação, silenciou de imediato, abandonando o recinto, dominado por invencível amargura.

O jovem não identificava a presença do venerável amigo ao seu lado, contudo, abraçado

por ele, experimentou imensa aversão pela odiosa solenidade. Alheou-se dos companheiros e, sentindo fome de solidão, afastou-se, rápido, devorando ruas e praças.

Desejava pensar e reconsiderar, a sós, a senda por ele mesmo percorrida. Depois de longo trajeto, alcançou a Porta Pinciana, em busca de insulamento. Nos jardins

onde se venerava a memória de Esculápio, havia soberba estátua de Apolo, junto da qual, por vezes, gostava de meditar.

O corpo marmóreo da divindade olímpica levantava-se, magnífico, ostentando primorosa

taça numa das mãos, de bordos voltados para o solo, como se procurasse fecundar a terra- mãe. Num recipiente, aos pés do ídolo, fumegava o incenso ali colocado por mãos devotas e anônimas, embalsamando o sítio em aroma delicioso. Atormentado por insopitável angústia, Taciano chorava sem querer, rememorando as próprias experiências. Sabia-se fora do corpo físico, mas longe de encontrar as paisagens das narrações de Vergílio, cuja leitura lhe merecera especial atenção, vira-se incompreensivelmente atraí do para as bacanais da sociedade em decadência, sendo surpreendido, depois do túmulo, tão somente por si próprio, com a sua velha sede de sensações. Delirara em banquetes e jogos,

sorvera o prazer em todas as taças ao seu alcance, mas rendia-se ao tédio e ao arrependimento. Em que se resumia a vida? — perguntava a si mesmo, em solilóquio doloroso —onde se domiciliavam os deuses de sua antiga fé? Valeria a procura da felicidade, na temporária sa- tisfação dos sentidos humanos, depois da qual havia sempre larga dose de fel? Como localizar as antigas afeições no misterioso país da morte? por que razões vagueava preso ao reino doméstico, sem equilíbrio e sem rumo? Não seria mais justo, se possível, adquirir novo corpo e respirar entre os homens comuns? Suspirava por mais íntimo contacto com o plano da carne,

Oh! se pudesse olvidar os enigmas

em cuja penetração poderia esquecer a si mesmo

torturantes da existência, conchegando-se à matéria para dormir e refazer-se! — meditava. Conhecia amigos que, depois de longas súplicas ao Céu, haviam desaparecido na direção do renascimento. Não ignorava que o espírito imortal pode usar vários corpos, entre os homens; entretanto, não se sentia com a força precisa para dominar-se e oferecer às Divindades uma prece fundamentada no verdadeiro equilíbrio moral. Naquele instante, porém, sentia-se mais angustiado que de outras vezes. Saudade imensa e indefinível pungia-lhe o coração. Depois de chorar em silêncio, fixou o semblante impassível da estátua e suplicou:

Compadece-te de mim! Renova-me o

sentimento na pureza e na energia que encarnas para a nossa raça! Se possível, faze-me esquecer o que fui. Ampara-me e concede-me a graça de viver, de conformidade com o exemplo dos meus antepassados! Com as inexprimíveis reminiscências do seu antigo lar, Taciano, inclinado para o solo, lamentava-se, amarguradamente; mas, quando enxugou as lágrimas que lhe obscureciam a

visão e tornou a fitar a imagem do deus, não mais viu o ídolo primoroso e sim o Espírito de Quinto Varro, nimbado de intensa luz, a olhá-lo com enternecimento e tristeza.

O jovem quis recuar, transido de assombro, mas indefiníveis emoções subjugavam-lhe

agora todo o ser. Como que dobrado por forças misteriosas, ajoelhou-se ante a visita inesperada. Desejou falar, mas não conseguiu, assinalando estranha constrição nas cordas vocais. Pranto mais intenso jorrava-lhe dos olhos.

Identificou a personalidade do genitor e, esmagado por inexprimível emoção, notou que Varro caminhava para ele, de afetuoso olhar encimando triste sorriso.

— Grande Hélios! Deus de meus avós!

A entidade amorosa afagou-lhe a cabeça atormentada e falou:

Que o Supremo Senhor nos abençoe a senda de redenção. Deixa

que as lágrimas te lavem todos os escaninhos da alma! Milagrosa lixívia, o pranto purifica nossas chagas de vaidade e ilusão.

— Taciano, meu filho!

Não te julgues relegado ao abandono! Ainda mesmo quando as nossas preces se expandam ardentes, perante os ídolos sem alma, o coração augusto do Senhor as recolhe na misteriosa concha do seu amor infinito, apressando o socorro às nossas necessidades. Tem calma e confiança, filho meu! Voltaremos à experiência da carne para resgatar e reaprender. Nesse instante, Taciano, magnetizado pelo olhar paterno, tentou erguer-se para abraçá-lo

ou rojar-se até o chão, a fim de Oscular-lhe os pés; no entanto, como se estivesse imobilizado por laços invisíveis, não conseguiu articular qualquer movimento.

— Ouve-me! — prosseguiu Varro, compadecidamente - pedes o retorno à liça terrestre,

entediado de ti mesmo, e receberás semelhante concessão. Estaremos novamente reunidos, na cela corpórea do mundo físico — abençoada escola de nossa regeneração para a vida eterna, todavia, não mais na exaltação do orgulho e do poder. Nossos deuses de pedra estão mortos. Júpiter, com o seu carro de triunfo, passou para sempre. Em lugar dele, surge o Mestre da

Cruz, o escultor divino da perfeição espiritual imperecível, que nos toma por tutelados felizes do seu Coração. Outrora, acreditávamos que a púrpura romana sobre o sangue dos vencidos era o símbolo de nossa felicidade racial e admitíamos que os gênios celestes deviam permanecer submetidos aos nossos caprichosos impulsos. Hoje, porém, o Crísto nos orienta o passo por estradas diversas. A Humanidade é a nossa família e o mundo é o nosso Lar Maior, onde todos somos irmãos. Diante do Céu, não há escravos nem senhores e sim criaturas ligadas entre si pela mesma origem divina. Os cristãos que não compreendes agora são os alicerces da glória futura. Humilhados e escarnecidos, vilipendiados e mortos no sacrifício, representam a promessa de paz e sublimação para o mundo. Um dia, ninguém se lembrará do fausto de nossas mentirosas celebrações. A ventania que sopra dos montes gelados espalhará sobre o chão escuro a cinza de nossa miserável grandeza, então convertida em lamentação e pó. Mas a renúncia dos homens e das mulheres que hoje se deixam imolar por uma vida melhor estará cada vez mais santificada e mais viva, na fraternidade que reinará soberana! Talvez reparando a profunda surpresa do jovem que o escutava, trêmulo e abatido, Quinto Varro acentuou:

— Prepara-te como valoroso soldado do bem. Em breve tempo, regressaremos à escola

da carne. Serás para mim a estrela da manhã, indicando-me a chegada do Sol de cada dia. Certo, sofrimentos cruéis abater-se-ão sobre nós, qual ocorre aos servidores da verdade nesta noite de tormentosa flagelação. Indubitàvelmente, a dor espreitar-nos-á a existência, porque a

dor é o selo do aperfeiçoamento moral no mundo

o fel e o martírio, mas o pão da graça celeste entre os homens por muitos séculos ainda será

Conheceremos a separação e a desventura,

amassado no suor e nas aflições dos servidores da luz! Seguirei teus passos, à maneira do cão fiel, e espero que, unido ao meu coração, poderás repetir, mais tarde:

— Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!

O mensageiro fêz longa pausa, enquanto aves noturnas piavam, doloridamente, no arvoredo mergulhado nas sombras. Roma dormia, agora, em pesada quietação. Quinto Varro inclinou-se, carinhosamente apertou o filho de encontro ao peito e beijou- lhe a fronte. Nesse instante, porém, talvez porque sensações contraditórias lhe turvassem o campo íntimo, Taciano cerrou os olhos para interromper a corrente das lágrimas copiosas, mas, ao descerrá-los, de novo, observou que seu pai havia desaparecido.

A paisagem fizera-se inalterada. A estátua de Apolo brilhava, refletindo o luar esmaecido da madrugada.

Premido de angústia, Taciano alongou os braços para a noite que lhe pareceu, então, desolada e vazia, bradando, desesperado:

Meu pai! meu pai!

E

porque seus gritos se perdessem sem eco, no espaço imenso, cansado e abatido

estendeu-se na terra, soluçando Anos e anos se dobaram sobre estes acontecimentos

2

Corações em luta

Em sua vila adornada de rosas, no sopé do Aventino, para o lado do Tibre, Quinto Varro, jovem patrício romano, meditava Regressara ao templo doméstico, depois de longo trabalho na galera da frota comercial de Opílio Vetúrio, na qual desfrutava a distinção do comando, para ligeiro descanso no lar, e, depois do beijo carinhoso à esposa e ao filhinho, que se deliciavam brincando no triclínio, repousava agora, lendo algumas sentenças de Emilio Papiniano, em florido caramanchão do jardim. Roma atravessava, no ano 217, sob pesada atmosfera de crimes e inquietações, os últimos dias do imperador Marco Aurélio Antonino Bassiano, cognominado de Caracala (2). Desde a morte de Papiniano, cruelmente assassinado por ordem do César, desiludira-se o Império quanto ao novo dominador. Bassiano, longe de respeitar as tradições paternas, na esfera governamental, desmandara- se em vasta conspiração de tirania contra o direito, não só alimentando a perseguição contra os grupos nazarenos, mais humildes, mas também contra todos

(2) O governo de Caracala, conquanto fôsse um tanto benigno para os cristãos situados em posição favorável na vida pública, permitiu a perseguição metódica aos escravos e plebeus dedicados ao Evangelho, então considerados inimigos da ordem política e social. — (Nota do Autor espiritual.)

os cidadãos honrados que ousassem desaprovar-lhe a conduta. Encantado com os conceitos sábios do célebre jurisconsulto, Varro confrontava-os com os ensinamentos de Jesus, que detinha de memória, refletindo sobre as facilidades da conversão da cultura romana aos princípios do Cristianismo, desde que a boa vontade pudesse penetrar o espírito dos seus compatriotas. Descendente de importante família, cujas raízes remontavam à República, não obstante a grande pobreza de bens materiais em que se debatia, era apaixonado cultor dos ideais de liberdade que invadiam o mundo. Doíam-lhe na alma a ignorância e a miséria com que as classes privilegiadas mantinham a multidão e perdia-se em vastas cogitações para encontrar um ponto final aos milenários desequilíbrios da sociedade de sua pátria. Reconhecia-se incapaz de qualquer mensagem salvadora e eficiente ao poder administrativo. Não possuía ouro ou soldados com que pudesse impor as opiniões que lhe fervilhavam na cabeça, entretanto, não ignorava que um mundo novo se formava sobre as ruínas do velho. Milhares de homens e mulheres modificavam-se mentalmente sob a inspiração do espírito renovador. A autocracia do patriciado lutava, desesperadamente, contra a reforma religiosa, mas o pensamento do Cristo, como que pairava acima da Terra, conclamando as almas a descerrarem novo caminho ao progresso espiritual, ainda mesmo àcusta de suor e sangue no sacrifício. Abismado em reflexões, foi trazido à realidade pela esposa, Cíntia Júlia, que veio ter com ele, guardando nos braços o filhinho Taciano, com apenas um ano de idade, a sorrir, doce e terno, como se fôra um anjo arrebatado ao berço celeste. Cíntia revelava nos olhos escuros a chama da vivacidade feminil, deixando entrever, de imediato, a trama das paixões que lhe desbordavam da alma inquieta. Largo peplo de nevado linho realçava-lhe as formas de madona e menina, evocando o perfil brejeiro e lindo de alguma ninfa que se houvera repentinamente transformado em mulher, contrastando com a

severa expressão do marido, que parecia infinitamente distanciado da companheira pelas afinidades psíquicas. Quinto Varro, não obstante muito moço, trazia a máscara fisionômica do filósofo, habituado a permanente mergulho no oceano das idéias. No contentamento de uma cotovia palradora, Cíntia reportou-se à festa de Ülpia Sabina, a que comparecera na véspera, junto de Vetúrio, que lhe fôra desvelado parceiro. Deteve-se, entusiástica, na descrição dos bailados de invenção da própria dona da casa, que aproveitara a vocação de escravas jovens, tentando repetir para o esposo, com harmoniosa voz, alguns trechos da música simbólica. Varro sorria, condescendente, qual se fôra um pai austero e bondoso escutando as

infantilidades de uma filha, e pronunciava, de quando em quando, uma ou outra frase curta de compreensão e encorajamento. A certa altura da conversação, fixando a esposa, como quem pretendia tocar em assunto mais sério, observou:

— Sabes, querida, que hoje à noite será possível ouvir uma das vozes mais autorizadas do nosso movimento nas Gálias? E talvez porque a mulher silenciasse, pensativa, continuou:

— Refiro-me a Ápio Corvino, o velho pregador de Lião (3) que se despede dos cristãos

de

(3) No tempo da dominação de Roma, nas Gálias, o nome da cidade de Lião era Lugdunum. — (Nota do Autor espiritual.)

Roma. Na mocidade, foi contemporâneo de Átalo de Pérgamo, admirável herói entre os mártires gauleses. Corvino conta mais de setenta anos, mas, segundo as impressões gerais, é portador de um espírito juvenil. A jovem senhora esboçou largo gesto de enfado e murmurou:

— Porque nos preocuparmos tanto com esses homens? Francamente, da única vez que te acompanhei às catacumbas, voltei aflita e desanimada. Haverá qualquer senso prático nas divagações que ouvimos? Porque arrostar com os perigos de um culto ilegal para somente insistir em desvarios da imaginação? Com ironia e agressividade, prosseguia para o esposo triste:

— Acreditas possa eu conformar-me com a louca renunciação de mulheres, quais Sofrônia e Cornélia, que desceram do fausto patrício para a imundície dos cárceres, ombreando com escravas e lavadeiras? Desferiu rumorosa gargalhada e acrescentou:

— Faz alguns dias, quando ainda te encontravas em viagem na Aquitânia, Opílio e eu conversávamos na intimidade, quando Popéia Cilene veio ter conosco, pedindo esmolas para as famílias vitimadas nas últimas perseguições, e, vendo os meus jarros, instou comigo para abandonar o uso de cosméticos. Rimo-nos fartamente da sugestão. Para atendermos aos princípios de um homem que morreu na cruz dos malfeitores, vai para duzentos anos, precisaremos adotar a indigência e vaguear no mundo, como se fôssemos fantasmas? Nossos deuses não nos reservam um paraíso de mendigos discutidores. Nossos sacerdotes guardam dignidade e compostura. Após leve pausa, em que fitou o esposo sarcasticamente, aduziu:

— Aliás, devo dizer-te que tenho sacrificado a Esculápio, em teu favor. Temo por tua

saúde. Vetúrio é de parecer que os cristãos são dementes. Não observas quanta modificação transparece do teu procedimento para comigo, desde o início de tuas novas práticas? Depois de longas ausências da família, não regressas na posição do marido afetuoso de antes. Em vez de te reportares à nossa intimidade carinhosa, guardas o pensamento e a palavra em sucessos

do culto abominável. Há tempos, afirmava Sabina que a perigosa mística de Jerusalém

enfraquece os laços do amor que os numes domésticos nos legaram e dir-se-ia que esse Cristo

te domina por dentro, afastando-te de mim

Cíntia, agora, de semblante conturbado, enxugava o pranto nervoso, enquanto o filhinho sorria, ingênuo, em seu regaço.

— Grande tola! — obtemperou o marido, preocupado — poderás admitir que te possa

esquecer? onde reside o amor senão no santuário do coração? Quero-te como sempre. És tudo em minha vida

e a dependência em que vivemos? — clamou Cíntia, descoroçoada — a

pobreza é um espantalho. És empregado de Opílio e residimos numa casa que ele nos cede por

favor

tenhamos também navios e escravos, palácios e chácaras? Acaso não te sentes humilhado, ante a nossa posição de inferioridade? Quinto Varro estampou indisfarçável amargura no semblante calmo. Afagou a linda cabeleira da esposa e objetou, contrafeito:

— Porque motivo te agastares assim? não apreciarás a nossa riqueza de caráter? conviria

o favor da riqueza sobre a desgraça de tantos? como reter escravos, quando tentamos libertá-

los? estimarias ver-me em transações inconfessáveis, com a perda de nossa consciência reta? A esposa chorava, desagradàvelmente, mas, evidenciando o propósito de alterar o rumo da conversação, Varro acentuou:

— Esqueçamos as futilidades. Vamos! Ouviremos juntos a palavra de Corvino? Um carro nos conduzirá à noitinha Para voltarmos ao lar, morrendo de fadiga? — respondeu a mulher, derramando copiosas lágrimas. — Não! não irei! Estou farta. Que nos podem ensinar os gauleses bárbaros, cujas pitonisas lêem os augúrios nas vísceras, ainda quentes, de soldados mortos? O jovem esposo deixou transparecer nos olhos invencível tristeza e considerou:

— Crueldade nos gauleses? e nós? Com tantos séculos de cultura, afogamos mulheres

indefesas, na corrente viciada do Tibre, assassinamos crianças, crucificamos a mocidade e

Porque não te arrojares, tanto quanto meu primo, no campo dos negócios, para que

— Mas

desrespeitamos a velhice, sentenciando anciães veneráveis ao repasto das feras, simplesmente porque se consagram a ideais de fraternidade e trabalho com a dignificação da vida para todos. Jesus Varro ia fazer uma citação evangélica, recorrendo às palavras do Divino Mestre; Cíntia, porém, elevando o tom da voz, que se fêz mais áspera, gritou:

Lembra-te de que a nossa condição social é

miserável

favoreça. Estou doente, alquebrada

esperam o Céu entre discussões e piolhos! O moço patrício contemplou a companheira, compadecidamente, como se deplorasse, no

íntimo, a insensatez das palavras que pronunciava, e notando que o pequenino chorava a estender-lhe os braços, tentou acariciar a criança, observando:

— Porque tanta referência à pobreza? Nosso filhinhO não será, por si mesmo, um tesouro? Cíntia, contudo, arrebatou-o à ternura paterna e, recuando num salto precipitado, exclamou:

— Taciano jamais será cristão. É meu filho! Consagrei-o a Dindimene. A mãe dos deuses defendê-lo-á contra a bruxaria e a superstição. Em seguida, buscou o interior apressadamente, tangida por incomPreenSivel tortura moral. Quinto Varro não tornou à leitura. Perdido em profundas reflexões, debruçou-se no muro que separava o jardim da via

Não tenho a vocação da cruz! detesto os nazarenos, que

Foge à punição dos deuses, rendendo culto a César, para que a Fortuna nos

— Sempre o Cristo!

sempre o Cristo!

pública e demorou-se na contemplação de extenso bando de meninos, que se ocupavam num jogo infantil, lançando pedrinhas sobre as águas e, de pensamento centralizado em seu pequeno Taciano, sem saber definir os escuros pressentimentos que lhe envolviam o peito, reparou que estranha amargura lhe tomava o coração. No crepúsculo adiantado, sem conseguir reaviStar-se com a esposa, que se ocultara com

o filhinho na câmara do casal, tomou o carro de um amigo que o conduziu até à casa humilde

do venerável Lisipo de Alexandria, um grego ilustre, profundamente devotado ao Evangelho, que residia em desconfortável choupana, a desmantelar-se na estrada de óstia. Pequena assembléia de adeptos havia-se formado na sala simples. Com surpresa, foi informado de que as despedidas do grande cristão gaulês não se realizariam naquela noite e, sim, na seguinte. Corvino achava-se, desse modo, à disposição dos amigos para um entendimento familiar. Não havia, porém, outro assunto mais fascinante para o grupo que as reminiscências das perseguições de 177. Os tormentos dos cristãoS lioneses eram narrados minuciosamente pelo nobre visitante. Enquanto o círculo ouvia, extático, o ancião das Gálias recordava, com prodigiosa memória, os mínimos acontecimentos. Repetia os interrogatórios efetuados, incluindo as

respostas inspiradas dos mártires. Reportava-se às preces ardentes dos companheiros da Ásia

e da Frígia que, piedosamente, haviam socorrido as comunidades de Lião e Viena (4). Falava,

entusiasmado, da imensa caridade de Vétio Epágato, o abnegado senhor que renunciara à nobre posição que desfrutava, a fim de converter-se em advogado dos cristãos humildes. Inflamava-se-lhe o olhar, comentando a estranha coragem de Santo, o diácono de Viena, e o heroismo da débil escrava Blandina, cuja fé confundira o ânimo dos carrascos. Pintou a alegria de Potino, o chefe da Igreja de Lião, cruelmente ultrajado e espancado na rua, sem uma palavra de revolta, aos noventa anos de idade. Por fim, deteve-se com misteriosa alegria, aljofrada de lágrimas, nas aventuras e tormentos de Átalo de Pérgamo, que lhe fôra o iniciador na fé. Relacionava todos os pormenores dos suplícios a que se submetera o venerável amigo. Lembrava-se da dilação havida no processo, em razão da consulta do Propretor a Marco Aurélio, e demorava-se na descrição dos últimos sofrimentos do grande cristão, esmurrado, chicoteado, atado à cadeira de ferro incandescido, e finalmente degolado, em companhia de Alexandre, o devotado médico frigio que, em Lião, oferecera ao Senhor admirável testemunho de fé. A assembléia escutava, embevecida com as referências. Mas, porque o pregador teria trabalho intensivo na noite próxima, Lisipo mandou servir algumas tigelas de leite e fatias de

pão fresco e a conversação foi encerrada.

(4) Cidade da França, próxima de Lião. — (Nota do Autor espiritual.

De espírito edificado pelas narrativas do velho gaulês, Varro tornou a casa. Regressava mais cedo e um só pensamento lhe absorvia agora a mente: apaziguar a alma inquieta da companheira, propiciando-lhe calma e alegria, com a reafirmação da sua ternura e devotamento. Aproximou-se, devagarinho, no intuito de surpreendê-la, afetuoso. Atravessou o pequeno átrio, varou a porta semicerrada, mas, diante da sua câmara de repouso, estacou, intrigado. Ouviu vozes em diálogo aceso. Achava-se Opílio Vetúrio em seu quarto de dormir.

Tentou compreender a tempestade moral que lhe amarfanhava o destino. Não supunha o homem para quem trabalhava capaz de atrair-lhe a esposa a semelhante procedimento. Opílio era primo de Cíntia e sempre fôra recebido ali como irmão. Era dez anos mais velho que ele, Varro, e enviuvara, desde algum tempo. Heliodora, a esposa morta, fôra para Cíntia uma segunda mãe. Deixara dois filhinhos, Helena e Caiba, gêmeos infelizes, cujo nascimento ocasionara o falecimento da genitora, e que residiam com o pai, cercados de escravos devotadíssimos, em palacete magnífico, a ilustrar os brasões da família. Trabalhava para Vetúrio nas embarcações e morava numa vila que lhe pertencia. Achava-se lamentavelmente empenhado a ele, desde o casamento, por dívidas pesadas, que se propunha resgatar honestamente, com serviço pessoal, respeitável. Sentindo que a cabeça se lhe transformara num vulcão de perguntas, Varro pensava Por que razão se entregava assim a esposa à aventura menos digna? Não era ele um companheiro leal, extremamente dedicado à felicidade dela e do filhinho? Ausentava-se comumente de Roma, guardando-nos no coração. Se as tentações de ordem inferior lhe

assediavam o espírito, durante as viagens habituais, Cíntia e Taciano lhe eram a invariável

defesa

Como ceder às sugestões da maldade, quando se acreditava o arrimo único da mulher

e do anjinho que lhe povoavam a alma de santificadas aspirações? e porque Vetúrio lhe

conspurcava, assim, o lar? não se sentia na condição dum amigo convertido em devotado servidor? Quantas vezes, em portos distantes, era convidado ao ganho fácil e renunciava a qualquer vantagem econômica de procedência duvidosa, atento às responsabilidades que o ligavam ao primo de sua mulher! Em quantas ocasiões, constrangido pela gratidão, era

obrigado a esquecer possibilidades seguras de melhoria da sorte, simplesmente por notar em Opilio, não somente o patrono do seu pão material, mas também o companheiro, credor do seu mais amplo reconhecimento! Angustiado e abatido, considerava consigo mesmo, dentro do aflitivo minuto: Se Cíntia amava o primo, porque desposara a ele? Se ambos haviam recebido uma bênção do Céu, com

a chegada do filhinho, como repudiar os laços conjugais, se Taciano era a sua melhor esperança de homem de bem? Semi-alucinado, passou a refletir contra a própria argumentação. E se estivesse

prejulgando? e se Opílio Vetúrio ali estivesse em missão de auxílio, atendendo a solicitação da própria Cíntia? Era necessário, pois, acalmar a mente inquieta e ouvir com isenção de ânimo. Colocou a destra sobre o coração opresso e escutou:

— Nunca te habituarás aos devaneios de Varro dizia Vetúrio, senhor de si —, é inútil qualquer tentativa.

— Quem sabe? aventurou a prima, preocupada — espero deixará ele, algum dia, a odiosa convivência dos cristãos.

— Nunca! — exclamou o interlocutor, rindo-se, francamente — não há notícia de

pessoas que voltassem inteiramente à razão depois de ambientadas nessa praga. Ainda mesmo quando parecem trair os votos, com temor das autoridades, à frente de nossos deuses, voltam mais tarde ao encantamento. Tenho acompanhado vários processos de recuperação desses

loucos. Dir-se-ia sofrerem temível obsessão pelo sofrimento. Pancadas, cordas, feras, cruzes, fogueiras, degolamentos, tudo é pouco para diminuir a volúpia com que se entregam à dor.

— Realmente, estou farta

— suspirou a jovem senhora, baixando o tom de voz.

Evidenciando a segurança dos laços afetivos que já lhe prendiam o espírito à dona da casa, Opílio acentuou, decidido:

Ainda mesmo que Varro alterasse as próprias opiniões, não conseguirias modificar a

nossa posição. Pertencemo-nos mütuamente. Há seis meses és minha e que diferença faz? Sarcástico, observou:

— Acaso, teu marido disputa a mulher? acha-se demasiadamente interessado no reino

Não admito, sinceramente, esteja à altura de tua expectativa. Por Júpiter! Todos os

meus conhecidos que se renderam à mistificação nazarena, afastaram-se da vida. Varro falar-

te-á do paraíso dos judeus, repleto de patriarcas imundos, em vez de conversar contigo sobre os nossos jogos, e garanto que se desejares uma excursão alegre, mais que natural em teu gosto feminino, conduzir-te-á sem dúvida a algum cemitério isolado, exigindo que te regozijes ao lado de ossos podres Uma gargalhada irônica fechou-lhe a frase, mas notando, provavelmente, algum gesto inesperado na prima, prosseguiu:

— Além disso, precisas considerar que teu marido não passa de meu cliente (5).

dos anjos

Tem tudo e nada tem. Mas, por Serápis, não lhe vejo qualidades para cercá-lo de favores. Sabes que te amo, Cíntia! Não ignoras que te queria, em silêncio, desde o primeiro instante em que te reconheci, jovem e formosa. Nunca teria preferido Heliodora, se os serviços de César não me tivessem mantido na Acaia por tanto tempo! Quando te encontrei, enamorada de Varro, senti uma tormenta no coração. Fiz tudo por tua felicidade. Inclinei as simpatias de minha mulher, em teu favor, cerquei-te de mimos, ofereci-te uma residência digna de teus dotes, para que jamais te confundisses com as mulheres miseráveis, que a privação compele à velhice precoce e, por ti, suportei até mesmo o esposo que te acompanha, incapaz de compreender-te o coração! Que farás de mim, agora, viúvo e triste quanto estou? Nunca proporcionei a Heliodora, depois de reencontrar-te, senão a estima respeitosa de que se fazia credora pela virtude irrepreensível. Nossos escravos sabem que te pertenço. Mecênio, meu velho pajem, veio trazer-me a notícia de que os servos acreditavam Heliodora envenenada por mim, para que lhe tomasses o lugar! E, realmente, que mãe mais honrada e carinhosa poderia encontrar para meus filhos? Resolve, pois. Uma palavra tua bastará. —E meu esposo? — indagou Cíntia, com inexprimivel temor na voz. Houve um silêncio expressivo, dentro do qual Vetúrio parecia meditar, intencionalmente, expressando-se, logo após:

—Pretendo oferecer ao teu esposo a quitação de todos os débitos. Além disso, posso ampará-lo noutros setores da vida imperial. A distância de nós, conseguiria dar expansão aos próprios ideais.

(5) Pessoa pobre, entre os antigos romanos, que se valia dos favores de um amigo rico. — (Nota do autor espiritual.)

Temo por ele. As autoridades não perdoam. Daqueles cuja intimidade desfrutamos, vários têm sido presos, castigados ou mortos. Aulo Macrino e dois filhos foram encarcerados. Cláudia Sextina, por todos os títulos venerável, apareceu assassinada em sua chácara. Sofrônio Calvo teve os bens confiscados e foi apedrejado no fórum. Teu marido poderia dar vazão aos sentimentos dele onde quisesse, menos aqui. — Mas que seria feito de Taciano, se atingíssemos uma solução favorável? — Ora, ora — aventou o interlocutor, como um homem não habituado a ponderar obstáculos —, meus filhinhos estão na idade do teu. Cresceria ao lado de Helena e de Galba na melhor ambientação. Não podemos esquecer, igualmente, que a minha herdade, em Lião, necessita de alguém. Alésio e Pontimiana, meus administradores, sempre reclamam a presença de pelo menos um dos nossos familiares. Dentro de alguns anos, o pequenino Taciano poderia transferir-se para a Gália e assumir, em nossa propriedade, a posição que lhe compete. Viria a Roma, tanto quanto desejasse, e desenvolveria a personalidade em ambiente diverso, sem qualquer ligação com a influência paterna Nesse ponto da conversação, Varro não mais suportou. Sentindo que um vulcão de angústia lhe rebentava no peito, arrastou-se pelo corredor próximo, em busca do aposento onde o filhinho repousava, junto de Cirila, jovem escrava de

que Cíntia se fazia acompanhar. Ajoelhou-se, ante o berço adornado, e, ouvindo a abafada respiração do menino, deu campo largo às próprias emoções. Como um homem que se visse arremessado a fundo abismo, dum momento para outro, sem encontrar, de pronto, qualquer base firme para suster-se, não conseguiu, por alguns minutos, conciliar os próprios pensamentos. Recorreu à prece, a fim de apaziguar-se e, então, passou a refletir. Contemplou a fisionomia calma da criança, através do espesso véu das lágrimas, e indagou a si mesmo — para onde iria? como resolver o delicado problema criado pela mulher? Não desconhecia, agora, a crueldade de Opílio. Sabia-o detentor das atenções de César que, segundo a versão popular, lhe utilizara a cooperação no assassínio de Geta, pelo que

recebera enorme patrimônio de terras na Gália distante e, naquele momento, não duvidava de que ele houvesse facilitado a morte da abnegada Heliodora, movido de paixão por Cíntia. Considerou a situação vexatória a que fôra projetado e asilou o propósito de revide.

A inolvidável figura do Cristo, porém, assomou-lhe à imaginação superexcitada

Como harmonizar a vingança com os ensinamentos da Boa Nova, que ele mesmo difundia em suas viagens? como destacar o impositivo do perdão para os outros, sem

desculpar as falhas do próximo? O Mestre, cuja tutela buscara, havia esquecido os golpes de

todos os ofensores, aceitando a própria cruz

nome do Celeste Benfeitor. Todos demonstravam coragem, serenidade, confiança

o devotado pregador do Evangelho, na Via Salária, Hostílio Fúlvio, cujos dois filhinhos

haviam sido trucidados sob as patas de dois cavalos, conduzidos intencionalmente sobre eles por um tribuno embriagado. Ele mesmo, Varro, ajudara a recolher os despojos dos inocentes e vira que o pai, de joelhos, orara, chorando, agradecendo ao Senhor os sofrimentos com que ele e a família eram rudemente experimentados.

A aflição daquela hora não seria a mão de Deus que lhe exigia um testemunho de fé?

Mas não seria melhor perecer no anfiteatro ou ver Taciano devorado por animais ferozes que se confiarem ambos à vergonha da morte moral?

E, perguntava em pranto mudo: — como se portaria Jesus, se tivesse sido pai? Entregaria

uma criança inerme a um lobo terrível da floresta social, sem a mínima reação? Por si, não se notava com direito a qualquer exigência. Reconhecia-se na posição do

homem comum e, por isso mesmo, pecador, com a necessidade indisfarçável de adaptar-se à virtude. Não poderia reclamar devotamento à esposa, embora perdê-la lhe custasse imensa dor. No entanto, e o pequenino? Seria justo abandoná-lo à mercê do crime?

Ó Deus! — soluçava, intimamente — como lutar com um homem poderoso, quanto

Opílio Vetúrio, capaz de alterar as determinações do próprio César? Que a mulher amada o seguisse era uma ferida que a esponja do tempo, de certo, lhe absorveria no âmago da alma, contudo, como separar-se do filhinho, que era a sua razão de viver? Ergueu-se, maquinalmente, retirou o menino adormecido, dentre os panos de lã em que descansava, e asilou a tentação de fugir. Não seria, porém, indesculpável temeridade expor a criança à intempérie? E como situaria a companheira, no dia seguinte, à frente da vida social? Cíntia não havia pensado nele, pai carinhoso e amigo, mas poderia ele, discípulo dos ensinamentos de Jesus, votá-la ao desprezo de si mesma ou à desconsideração pública? Qual se estivesse amparado por estranha força invisível, repôs o pequenino no leito, e, depois de beijá-lo enternecidamente, inclinou-se demoradamente sobre ele e chorou, humilde, derramando copiosas lágrimas, como se vertesse o cálido rodo do próprio coração na preciosa flor de sua vida.

Vira muitos amigos presos e perseguidos, em

Conhecia

Logo após, certificando-se de que o diálogo continuava na câmara íntima, regressou à via pública, buscando ar renovado para o corpo enlanguescido Parou nas margens do Tibre, invocando à memória os padecimentos de todas as vítimas daquelas águas misteriosas e tranquilas, que deviam ocultar os gemidos de inúmeros injustiçados da Terra. A mudez do velho rio não representava uma inspiração para o campo agitado de sua alma? Os raros transeuntes e os carros retardatários não lhe notavam a presença. Dividindo o olhar entre o firmamento cintilante e as águas tranquilas, abismou-se em profundas indagações que ninguém poderia sondar Ao alvorecer, tornou a casa, apático e desorientado, e, cerrando-se num cubículo,

entregou-se a sono pesado e sem sonhos, do qual despertou ao sol avançado, pelos gritos dos escravos que transportavam material para construções próximas. Quinto Varro procedeu à higiene da manhã e, procurado por Cirila e a criança, afagou o filho, entre grave e afetuoso, recebendo um recado da mulher, anunciando-lhe que se ausentara, em companhia de amigas, para uma festividade religiosa no Palatino. Acabrunhado, afastou-se da residência na direção da via de Óstia. Desejava entender-se com alguém que lhe pudesse lenir a chaga íntima e, recordando a nobre figura de Corvino, propunha-se fazê-lo confidente de todas as mágoas que lhe fustigavam o coração. Recebido por Lisipo, este informou bondoso que o ancião se ausentara, atendendo a vários enfermos, acentuando, porém, que estaria ele à noite, na Via Ardeatina.

O anfitrião, todavia, observou tamanha palidez no visitante inesperado que o convidou a

sentar-se e a servir-se de um caldo reconfortante.

Varro aceitou, experimentando grande melhora espiritual. A paz do recinto singelo como que lhe acalmava o espírito desarvorado. Adivinhando-lhe os tormentos morais, o velhinho desenrolou diversas páginas consoladoras, que continham informações sobre o heroismo dos mártires, como que pretendendo cicatrizar-lhe as úlceras invisíveis.

O jovem ouviu, atento; leu compridos trechos das descrições e, alegando abatimento

físico, deixou-se ficar, junto de Lisipo, até mais tarde, quando ambos se dirigiram para os sepulcros num carro de velho amigo. Alcançaram os túmulos dentro da noite. Transpuseram a porta que um dos companheiros vigiava, atento, e desfilaram nas galerias, junto de numerosos irmãos que seguiam, conduzindo tochas, em conversações coroadas de esperança. Os cemitérios cristãos, em Roma, eram lugares de grande alegria. Inquietos e desalentados na vida de relação, com infinitas dificuldades para se comunicarem uns com os outros, dir-se-ia que ali, no lar dos mortos que as tradições patrícias habitualmente

respeitavam, os seguidores do Cristo encontravam o clima único, favorável à comunhão de

que viviam sedentos. Abraçavam-se aí, com indizível ternura fraterna, cantavam jubilosos, oravam com fervor

O Cristianismo de então não se limitava aos ritos sacerdotais. Era um rio de luz e fé,

banhando as almas, arrebanhando corações para a jornada divina do ideal superior. As lágrimas não surgiam na condição de gotas de fel incendiado, mas como pérolas de amor e reconhecimento, nas referências aos suplícios dos companheiros sacrificados. Aqui e ali, sepulturas róseas e brancas ostentavam dísticos afetuosos, que não lembravam qualquer idéia escura de morte. Só a bondade de Deus e a vida eterna mereciam exaltação. Varro relia com avidez as palavras que lhe eram familiares, buscando apoio moral para a resistência íntima de que se reconhecia necessitado. Não longe, a carinhosa amizade de alguém escrevera a saudação: — “Festo, Jesus te abençoe.” Adiante, grafara um pai devotado: — “Gláucia, querida filha, estamos juntos.”

Acolá, brilhava a inscrição “Crescêncio vive”, mais além, fulgurava outra, “Popéia glorificada”. Nunca sentira Varro tamanha paz nos túmulos. Reconhecendo-se na posição de um homem expulso do próprio lar, sentia agora na multidão anônima dos companheiros a sua própria família. Detinha-se nos semblantes desconhecidos, com mais simpatia e interesse, e pensava consigo mesmo que naquela fileira de criaturas, que ansiosamente buscavam os ensinamentos do Senhor, talvez existissem mais dolorosos dramas que o dele e chagas mais profundas a lhes sangrarem nos corações. Sustentava Lisipo no braço robusto, como se houvera reencontrado a alegria de ser útil a alguém e, pelos olhares felizes que permutavam entre si, pareciam ambos agradecer a influência de Jesus, que concedia ao velho afetuoso a graça de amparar-se num filho e ao moço infortunado a ventura de encontrar um pai a quem poderia servir. Em grande recinto iluminado, hinos de alegria precederam a palavra do pregador que,

assomando à tribuna, falou com indescritível beleza, acerca do Reino de Deus, encarecendo a necessidade de paciência e de esperança. Quando terminou a enternecedora alocução, Lisipo e Varro aproximaram-se para reconduzi-lo a casa. Um carro, além dos sepulcros, aguardava-os, solícito. E na intimidade doméstica, ante os dois velhinhos que o escutavam, surpresos, o moço patrício, pontilhando a narrativa de lágrimas, expôs o que sofria, nos recessos da vida particular, rogando a Corvino um bálsamo para as feridas que lhe oprimiam o coração.

O velho gaulês fê-lo sentar-se e, acariciando-lhe a cabeça, como se o fizesse a um

menino atormentado, indagou:

— Varro, aceitaste o Evangelho para que Jesus se transforme em teu servidor ou para que te convertas em servidor de Jesus?

— Oh! sem dúvida — suspirou o rapaz —, se a alguma coisa aspiro no mundo é ao

ingresso nas fileiras dos escravos do Senhor.

Então, meu filho, cogitemos dos desígnios do Cristo e olvidemos nossos desejos.

E,

fitando o céu pela janela humilde, deixando perceber que solicitava a inspiração do

Alto, acrescentou:

— Antes de tudo, não condenes tua mulher. Quem somos nós para sondar o coração do

próximo? poderíamos, acaso, torcer o sentimento de outra alma, usando a maldade e a violência? quem de nós estará irrepreensível para castigar?

— Todavia, como extinguir o mal, se não nos dispomos a combatê-lo? — ajuizou Varro, gravemente.

O ancião sorriu e considerou:

— Acreditas, porém, que possamos vencê-lo àforça de palavras bem feitas? Admites, porventura, que o Mestre haja descido das Alturas, simplesmente para falar? Jesus viveu as próprias lições, guerreando a sombra com a luz que irradiava de si mesmo, até ao derradeiro sacrifício. Achamo-nos num mundo envolvido em trevas e não possuimos outras tochas para clareá-lo, senão a nossa alma, que precisamos inflamar no verdadeiro amor. O Evangelho não é somente uma propaganda de idéias libertadoras. Acima de tudo, é a construção dum mundo novo pela edificação moral do novo homem. Até agora, a civilização tem mantido a mulher, nossa mãe e nossa irmã, no nivel de mercadoria vulgar. Durante milênios, dela fizemos nossa escrava, vendendo-a, explorando-a, apedrejando-a ou matando-a, sem que as leis nos considerem passíveis de julgamento. Mas, não será ela igualmente um ser humano? viverá indene de fraquezas iguais às nossas? porque conferir-lhe tratamento inferior àquele que dispensamos aos cavalos, se dela recebemos a bênção da vida? Em todas as fases do apostolado divino, Jesus dignificou-a, santificando-lhe a missão sublime. Recordando-lhe o ensinamento, será lícito repetir — quem de nós, em sã consciência, pode atirar a primeira

pedra.

E, fixando significativamente os dois ouvintes, acentuou:

— O Cristianismo, para redimir as criaturas, exige uma vanguarda de espíritos decididos a executar-lhe o plano de ação.

— No entanto — ponderou o jovem romano, algo tímido —, poderemos negar que Cíntia

esteja em erro?

— Meu filho, quem ateia fogo ao campo da própria vida, de certo seguirá sob as chamas

do incêndio. Compadece-te dos transviados! Não serão suficientemente infelizes por si mesmos?

— E meu filho? — perguntou Varro com a voz embargada de pranto.

— Compreendo-te a aflição.

E, vagueando o olhar lúcido pela sala estreita, Corvino pareceu mostrar um fragmento do próprio coração, acrescentando:

— Noutro tempo, bebi no mesmo cálice. Afastar-me dos filhinhos foi para mim a

visitação de terrível angústia. Peregrinei, dilacerado, como folha relegada ao remoinho do vento, mas acabei percebendo que os filhos são de Deus, antes de pousarem docemente em nossas mãos. Entendo-te o infortúnio. Morrer mil vezes, sob qualquer gênero de tortura, é padecimento menor que esse da separação de uma flor viva que desejaríamos reter ao tronco do nosso destino — Entretanto — comentou o patrício, amargurado —, não seria justo defender um inocente, reclamando para nós o direito de protegê-lo e educá-lo?

— Quem te ouviria, contudo, a voz, quando uma insignificante ordem imperial poderá

sufocar-te os gritos? E além do mais — aduziu o ancião, afetuosamente —, se estamos

interessados em servir ao Cristo, como impor a outrem o fel que a luta nos constrange a sorver? A esposa poderá não ter sido generosa para com o teu coração, mas provavelmente será abnegada mãe do pequenino. Não será, pois, mais aconselhável aguardar as de- terminações do Altíssimo, na graça do tempo? Detendo-se na dolorosa expressão fisionômica do pai desventurado, Corvino observou, depois de longa pausa:

— Não te submetas ao frio do desengano, anulando os próprios recursos. A dor pode ser

comparada a volumosa corrente de um rio, suscetível de conduzir-nos à felicidade na terra firme, ou de afogar-nos, quando não sabemos sobrenadar. Ouve-nos, O Evangelho não é apenas um trilho de acesso ao júbilo celestial, depois da morte. É uma luz para a nossa existência neste mundo mesmo, que devemos transformar em Reino de Deus. Não te recordas da visita de Nicodemos ao Divino Mestre, quando o Senhor asseverou convincente:

—“importa renascer de novo”? Ante o sinal afirmativo de Quinto Varro, o ancião continuou:

— Também sofri muito, quando, ainda jovem, me decidi ao trabalho da fé. Repudiado

por todos, fui compelido a distanciar-me das Gálias, onde nasci, demorando-me por dez anos consecutivos em Alexandria, onde renovei os meus conhecimentos. A igreja de lá permanece

aberta às mais amplas considerações, em torno do destino e do ser. As idéias de Pitágoras são ali mantidas num grande centro de estudos, com real proveito, e, depois de ouvir atenciosamente padres ilustres e adeptos mais esclarecidos, convenci-me de que renascemos muitas vezes, na Terra, O corpo é passageira vestidura de nossa alma que nunca morre. O túmulo é ressurreição. Tornaremos à carne, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, até que tenhamos alijado todas as impurezas do íntimo, como o metal nobre que tolera o cadinho purificador, até que arroje para longe dele a escória que o desfigura. Corvino fêz ligeiro intervalo, como a dar oportunidade à reflexão dos ouvintes, e prosseguiu:

— Jesus não falava simplesmente ao homem que passa, mas, acima de tudo, ao espírito

imperecível. Em certo passo dos seus sublimes ensinamentos, adverte: “melhor será entrares na vida aleijado que, tendo duas mãos, te aproveitares delas para a descida às regiões inferiores”. (6) Refere-se o Cristo ao mundo, como escola em que procuramos o nosso próprio burilamento. Cada qual de nós vem à Terra, com os problemas de que necessita. A provação é remédio salutar. A dificuldade é degrau na grande subida. Nossos antepassados, os druidas, ensinavam que nos achamos num mundo de viagens ou num campo de reiteradas experiências, a fim de que possamos alcançar, mais tarde, os astros da luz divina para sermos um com Deus, nosso Pai. Criamos o sofrimento, desacatando as Leis Universais e suportamo- lo para regressar à harmoniosa comunhão com elas. A justiça é perfeita. Ninguém chora sem necessidade. A pedra suporta a pressão do instrumento que a desgasta, a fim de brilhar, soberana. A fera é conduzida à prisão para domesticar-se, O homem luta e padece para aprender a reaprender, aperfeiçoando-se cada vez mais. A Terra não é o único teatro da vida. Não disse o próprio Senhor — a quem pretendemos servir — que “existem muitas moradas na Casa de Nosso Pai”? O trabalho é a escada

(6) Evangelho de Marcos, capítulo 9 versículo 43. (Nota do Autor espiritual.)

luminosa para outras esferas, onde nos reencontraremos, como pássaros que, depois de se

perderem uns dos outros, sob as rajadas do inverno, se reagrupam de novo ao sol abençoado da primavera Passando a mão pelos cabelos brancos, o velho acentuou:

Muitas vezes, a agonia me visitou a

Em torno de meus pés, a terra fria me solicita o corpo alquebrado, mas

dentro do meu coração a esperança é um sol que me abrasa, revelando em suas projeções

resplendentes o glorioso caminho do futuro

emos, felizes, no lar da eternidade, sem o pranto da separação ou da morte Ouvindo aquelas palavras, repletas de convicção e de ternura, o moço patrício aquietou o espírito atormentado. Mais alguns minutos de animadora conversação correram céleres e, algo refeito, dispôs- se a partir. Uma biga ligeira, por ele solicitada, esperava-o a reduzida distância. Quando o galope dos cavalos se fundiu no grande silêncio, à porta do templo doméstico, o jovem, mais tranquilo, notou que poucas estrelas ainda fulguravam pàlidamente, enquanto o firmamento se tingia de rubro. Alvorejava a manhã Varro, contemplando o formoso céu romano e pedindo a Jesus lhe conservasse a fé haurida no entendimento com o velho cristão gaulês, na estrada de Óstia, julgou encontrar

alma cheia de sonhos

— Tenho a cabeça tocada pela neve do desencanto

Somos eternos, Varro! Amanhã, reunir-nos-

naquela madrugada de surpreendente beleza o símbolo do novo dia que lhe marcava agora o destino.

3

Compromisso do coração

Dois dias sucederam-se uniformes para Quinto Varro que, apático e melancólico, ouvia no lar as queixas infindáveis da esposa, azorragando-lhe os princípios com o látego da crítica insidiosa e contundente. Embora as mágoas lhe oprimissem a alma, não deixou perceber qualquer sinal de desaprovação à conduta de Cíntia, que prosseguia ao lado de Vetúrio, entre excursões e. entendimentos. Recebendo, porém, a recomendação de partir na direção de um porto da Acaia, não conseguiu sopitar o anseio de renovação do qual se via possuído. Procurou Opílio, pessoalmente, e recebido por ele, com largas demonstrações de cavalheirismo, expôs o que desejava. Sentia-se necessitado de vida nova. Pretendia abandonar o tráfego marítimo e consagrar-se a tarefas diferentes, em Roma. Contudo, confessava, com desapontamento, os débitos que o retinham ao serviço na frota. Devia tão vasta soma ao chefe da organização que ignorava como encetar a mudança de caminho. Vetúrio, revelando grande surpresa, buscou disfarçar os verdadeiros pensamentos que lhe brotavam no raciocínio. Risonho e acolhedor, abeirou-se do visitante, afirmando, peremptório, que jamais o considerara empregado e sim companheiro de trabalho, que nada lhe ficava a dever. Declarou compreender-lhe a fadiga e justificou-lhe o propósito de reajustar-se na vida romana. Corado de vergonha, Varro recebeu dele a plena quitação de todas as dívidas. Opílio não só lhe fazia semelhante concessão, como também se colocava à disposição dele para qualquer novo empreendimento. Indagou delicadamente dos planos que já houvesse delineado para o futuro, mas o esposo de Cíntia, atônito com o fingimento do interlocutor, mal sabia responder, alinhando monossílabos que lhe denunciavam a insegurança. Despediram-se, cordialmente, prometendo Opílio acompanhar-lhe a trajetória, com carinho fraternal. Sentindo-se profundamente desajustado, Quinto Varro dirigiu-se ao Fórum, na perspectiva de encontrar alguém que lhe pudesse conseguir trabalho honrado; entretanto, a sociedade da época parecia dividir-se entre senhores poderosos e escravos misérrimos. Não havia lugar para quem quisesse viver de serviço enobrecedor. Os próprios libertos da cidade ausentavam-se para regiões distantes do Lácio, buscando renovação e independência. Efetuou variadas tentativas em vão. Ninguém desejava ocupar braços honestos com remuneração condigna. Alegava-se que os tempos corriam difíceis, salientava-se a retração dos negócios com a provável queda de Bassiano dum momento para outro. As insanidades governamentais tocavam a termo e os partidários de Macrino, o prefeito dos pretorianos, prometiam revolta. Vivia Roma sob regime de terror. Milhares de pessoas haviam sido mortas, em pouco mais de cinco anos, por assassinos livres que desfrutavam polpudas recompensas. O jovem patrício, algo desalentado, fixava a multidão que ia e vinha, na praça pública, indiferente aos problemas que lhe torturavam a alma, quando lhe apareceu Flávio Súbrio, velho soldado de duvidosa reputação, abrindo-lhe braços acolhedores. Homem maduro, mas ágil e manhoso, Súbrio fôra ferido em serviço do Estado, ao manter a ordem nas Gálias, razão por que, agora coxo, era utilizado por vários nobres em expedientes secretos. Longe de suspeitar estivesse ele atado aos interesses do perseguidor de sua família, Varro

correspondeu, afetuoso, ao gesto de fraternidade que lhe era oferecido. Aliás, aquela expressão prazenteira constituía-lhe valioso incentivo na posição de

incerteza em que se achava, O súbito aparecimento do antigo soldado poderia ser o início de alguma empresa feliz. A conversação foi encetada com êxito. Depois de cumprimentá-lo, o ex-legionário atacou o assunto que o trazia, acentuando:

— Filho de Júpiter, como agradecer aos deuses o favor de encontrar-te? Serápis

compadeceu-se de minha perna doente e guiou-me os passos. Comprometi-me a buscar-te, mas os tempos andam secos e um carro é privilégio de senadores. Felizmente, porém, não foi necessário moer os ossos na caminhada difícil. O moço patrício sorria, intrigado, e antes que pudesse ensaiar qualquer pergunta, Súbrio

relanceou o olhar astuto em torno, como se quisesse perscrutar o ambiente, e falou, baixando

a voz:

— Meu caro Varro, sei que te desvelas por nossos compatriotas perseguidos, os cristãos.

Francamente, por mim, não sei como separar-me dos numes domésticos e preferirei sempre uma festa de Apolo a qualquer reunião nos cemitérios, no entanto, estou convencido de que há muita gente boa no labirinto das catacumbas. Ignoro se frequentas o culto detestado, mas não desconheço a tua simpatia por ele. Com sinceridade, não posso atinar com a epidemia de sofrimento voluntário que presenciamos há tantos anos. Nesse ponto das considerações, ajeitou mentirosa expressão de tristeza na máscara facial

e prosseguiu:

- Apesar de minha indiferença para com O Cristianismo, aprendi com os nossos antepassados que devemos fazer o bem. Acredito haver soado o instante de prestares assinalado serviço à causa desprezada. Não compreendo a fé nazarena, responsável por tanta

flagelação e tanta morte, contudo, apiado-me das vítimas. Por isso, filho dileto de Júpiter, não menoscabes a missão que as circunstâncias te oferecem. Ante a muda ansiedade do interlocutor, acrescentou:

— O pretor Galo, advertido por Macrino, necessita do concurso de alguém para certo

serviço em Cartago. Admito que, se efetuado por ti, poderá transformar-se em precioso aviso aos cristãos da África. Varro, mais com o propósito de colocar-se em trabalho digno que com a idéia de erigir-se em salvador da comunidade, perguntou sobre a tarefa a executar. Mostrando entusiasmo bem estudado, Súbrio esclareceu que o alto dignitário chamava-o

a palácio para confiar-lhe delicado negócio.

O rapaz não vacilou.

Acompanhando o experiente lidador, procurou Galo, na própria residência, em vista do caráter confidencial que Súbrio imprimira à conversação.

O velho pretor, emoldurado nos mais arraigados costumes patrícios, recebeu-o,

amenizando o rigor da etiqueta, e foi, sem rodeios, ao assunto, depois das saudações usuais.

— Varro — iniciou ele, solene —, conheço-te a lealdade aos compromissos assumidos e

espero aceites importante incumbência. Nossas legiões proclamarão o novo imperador, em

breves dias, e não podemos prescindir dos patriotas irrepreensíveis para auxiliar-nos a obra de reajuste social.

O hábil político mordeu os lábios murchos, revelando ocultar as verdadeiras intenções

que o moviam, e continuou:

— Não sei se dispões de tempo adequado, de vez que não desconheço as obrigações que te prendem à frota de Vetúrio

O jovem apressou-se em notificar-lhe o desligamento dos serviços habituais.

Achava-se realmente na expectativa de encargos novos.

O pretor sorriu, triunfante, e prosseguiu:

— Se me fôsse possível a ausência de Roma, iria eu mesmo, entretanto

Diante da frase reticenciosa, Quinto Varro indagou em que lhe poderia ser útil, ao que o magistrado ajuntou:

— Cartago deveria estar reduzida a cinzas, conforme o sábio conselho do velho Catão,

mas, depois do feito brilhante de Emiliano, arrasando-a, Graco fêz a loucura de reconstruir aquele ninho de serpentes. Duvido haja outra província capaz de trazer-nos maiores aborrecimentos. Se é possível combater aqui a praga dos galileus, por lá o problema é cada vez mais complicado. Altos funcionários, damas patrícias, autoridades e homens de inteligência devotam-se ao Cristianismo, com tamanho desleixo por nossos princípios, que chegam a promover reuniões públicas para fortalecimento do proselitismo desenfreado. Não podemos, contudo, viver às cegas. Nossas providências não podem falhar. Mergulhando os olhos indagadores no rapaz, como a sondar-lhe os mais íntimos sentimentos, interrogou:

— Estás habilitado a conduzir determinada mensagem ao Procônsul?

— Perfeitamente informou Varro, decidido.

— Tenho uma relação de quinhentas pessoas que precisamos alijar da cidade. Não

obstante o edito de Bassiano, declarando cidadãos romanos todos os habitantes do mundo

provincial, que passaram a desfrutar, indebitamente, direitos iguais aos nossOS, concordamos na eliminação sumária de todos os portadores da mistificação nazarena. Os principais devem responder a processos antes de sentenciados à morte ou ao cárcere, as mulheres serão poupadas, segundo a classe a que pertençam, depois de advertência justa, e os plebeus serão circunscritos em serviço nas galeras imperiais.

O moço patrício, esforçou-se por disfarçar as penOsaS impressões de que se via

possuído, fazia sinaiS afirmativOs com a cabeça, entendendo, por fim, o que significava a insinuação de Flávio Súbrio. Aceitando o convite, conseguiria salvar muitos companheiros. Poderia penetrar Cartago,

com tempo bastante para informar os perseguidOs. Não lhe seria difícil. Teria consigo o nome de todos os implicados. Antes de falar ao Procônsul, comunicar-se-ia com a Igreja africana. Um mundo de possibilidades construtivas aflorava-lhe na imaginação. O próprio Corvino talvez pudesse orientá-lo na exeCUçãO do encargo em perspectiva.

— Podes viajar de hoje a dois dias? — trovejou a voz de Galo, irritado com a pausa que o moço imprimira à conversação.

— Ilustre pretor — respondeu Varro, polida-mente —, estou pronto.

Demonstrando despedi-lo com os gestos de enfado que lhe eram característicos, o magistrado concluiu:

— Seguirás na galera comerCial de Máximo Pratense, sob o comando de Hélcio Lúcio.

Amanhã à noite, entregar-te-ei a mensagem aqui mesmo e poderás combinar qualquer medida, referente à excursão, com Flávio Súbrio, que seguirá na mesma embarcação, como

assessor do capitão, em tarefas de ordem política junto a amigos do Prefeito, domiciliados na Numídia.

O entendimento terminara.

Em plena via pública, Varro, reconhecido, abraçou o ex-legionário, marcando um encontro no Fórum para o dia seguinte. Embora amargosos pressentimentos lhe ocupassem o coração, com respeito ao filhinho, o jovem estava satisfeito. Alcançara, conforme supunha, o trabalho desejado. Não se sentia inútil. Ao regressar de Cartago, certo não lhe faltariam oportunidades outras. A viagem conferir-lhe-ia meios de auxiliar os irmãos na fé, representando igualmente o primeiro degrau de acesso a responsabilidades maiores. Depois de rápida permanência no lar, dirigiu-se à via de Óstia, ansioso por entrar em comunhão com os velhos amigos.

Anunciou a Corvino e Lisipo a decisão de partir.

O ancião gaulês comentou os obstáculos que vinha encontrando, para sair de Roma e,

interpelado por Varro, quanto ao porto a que se destinaria, esclareceu que lhe cabia visitar a comunidade cristã de Cartago, antes de tornar a Lião, em definitivo.

O semblante do rapaz iluminou-se.

Porque não seguirem juntos? Tinha roteiro idêntico. Corvino vibrou de satisfação. O moço patrício expôs em ligeiras palavras o seu plano de comunicar-se com Flávio

Súbrio, quanto ao novo companheiro de viagem, guardando, porém, os reais objetivos da missão que o levava à África para entendimentos posteriores com Ápio Corvino, quando estivessem a sós, no mar.

No dia seguinte, quando apresentou o assunto ao velho soldado coxo, Súbrio acolheu a

idéia com indefinível sorriso, acrescentando, bem humorado:

— Como não? O viajante pode ser tomado àconta de um parente. Tens esse direito.

Varro aprestou-se para a excursão de acordo com o programa previsto. Comunicou à esposa a resolução de alterar os rumos do próprio destino, sendo ouvido

por Cíntia com especial atenção. E, depois de particular entrevista com o pretor, despediu-se dela e de Taciano, com o espírito afogado em dolorosa emotividade. Levando expressiva documentação, embarcou em Óstia, com a alma absorvida em angustiosas expectativas. Corvino reuniu-se a ele, agradecido. Com o amparo do jovem patrício e de Flávio Súbrio, que estranhamente se desvelava na instalação dele, dispunha-se a partilhar a câmara estreita, reservada a Quinto Varro, junto ao alojamento do capitão, na popa, mas estacou no estrado, que separava o aposento dos bancos dos remadores, parecendo admirar a soberba trirreme em que viajariam. Contemplava os mastros magníficos, contudo, alertado por Varro, satisfeito com a possibilidade de proporcionar-lhe o formoso espetáculo, o velhinho respondeu:

— Sim, observo a largueza do céu e do mar, batidos de sol; sinto as baforadas do vento

livre que parece cantar a glória divina da Natureza, mas penso nos escravos calejados nos remos.

O pregador ia continuar, no entanto, Subrio, que exercia inexplicável vigilância sobre

ele, percebeu o sentido evangélico do apontamento, mostrou maior preocupação no semblante carrancudo e dirigiu-se a Quinto Varro, exclamando:

Agasalhemos teu hóspede.

O

moço patrício, contrariado com a interferência, expressou o desejo de apresentá-lo a

Hélcio Lúcio, mas o assessor do comandante objetou, célere:

— Não, agora não. Hélcio está ocupado. Aguardemos um momento propício.

Corvino foi internado no beliche, com a sua reduzida bagagem, que se constituía de uma

túnica surrada, uma pele de cabra e uma bolsa com documentos. Para disfarçar a desagradável impressão deixada por Súbrio, em lhe cortando

abruptamente a palavra, o rapaz deixou-se ficar demoradamente junto do ancião, escolhendo aquele minuto para estudar, em companhia dele, o verdadeiro sentido de sua viagem.

Corvino escutou-o, com visível espanto.

Conhecia os patriarcas cartagineses e os adeptos mais destacados da importante Igreja africana. Varro deu-lhe a conhecer o nome das pessoas indicadas na relação do pretor, que o valoroso missionário identificou, em grande parte. Trocaram impressões quanto à época perigosa que vinham atravessando e assentaram providências, como velhos amigos, para os dias mais escuros do porvir, caso as tempestades políticas não fossem amainadas.

O ancião das Gálias falou detidamente sobre a igreja de Lião. Propunha-se, ali, consolidar o vasto movimento de assistência social, em nome do Cristo. Os prosélitos não admitiam a fé inoperante. A igreja, no parecer deles, devia enriquecer- se de obras práticas, à maneira de fonte incessante de serviços redentores. Recebiam, frequentemente, a visita de confrades da Ásia e da Frígia, dos quais obtinham instruções diretas para a materialização dos ideais evangélicos, e aceitavam a Boa Nova, não somente como senda de esperança para o Céu, mas também como plano de trabalho ativo no aperfeiçoamento do mundo. E assim, de consideração a consideração e de apontamento a apontamento, permaneceram, ambos, absortos e felizes, estruturando projetos e avivando a chama rósea dos sonhos. Quando o navio se pôs em movimento, Ápio Corvino sorriu para o companheiro, como se fõra uma criança viajando para uma festa. A princípio, ouviram as pancadas rítmicas dos martelos que controlavam a ginástica dos remadores, mas, em seguida, o vento começou a sibilar fortemente. Varro ausentou-se, prometendo buscar o amigo a fim de apresentá-lo ao capitão; mais tarde, entretanto, Corvino pediu-lhe fôsse adiada a visita para o dia seguinte, asseverando que pretendia orar e descansar. O jovem afastou-se na direção da proa, onde passou a entender-se com alguns marinheiros. Tentou avistar-se com o comandante, mas Hélcio Lúcio, em companhia de Flávio Súbrio e de mais dois patrícios destacados, trocava idéias com eles, em mesa distante, conversando animadamente. Anoitecera de todo. Temendo a obrigação de sorver bebidas fortes, Varro refugiara-se em si mesmo. Procurou a câmara em que se alojara, de modo a oferecer algum alimento ao velho companheiro, mas Corvino parecia dormir tranqüilamente. Vendo que Hélcio Lúcio e os amigos prosseguiam bebendo e jogando ruidosamente, a distância, o jovem patrício subiu à proa e buscou solitário recanto para dar largos vôos ao pensamento. Sentia sede de meditação e prece e suspirava por alguns minutos de silêncio, nos quais, a sós consigo, pudesse rememorar os sucessos dos últimos dias. Contemplou as águas que a ventania cantante encrespava e deixou que as rajadas refrescantes lhe acariciassem os cabelos soltos, com a idéia de que os balsâmicos fluídos da Natureza lhe adoçariam as inquietações da cabeça atormentada. Fascinado pela calma noturna, fitou a Lua crescente que se elevava no céu e vagueou o olhar pelas constelações faiscantes. Que misterioso poder comanda a existência dos homens! — pensava em solilóquio

triste.

Alguns dias antes, estava longe de supor-se na aventura de uma viagem como aquela. Acreditava-se num roteiro seguro de felicidade doméstica, amparado pelo mais amplo

respeito social. Entretanto, notava o destino em franca transformação. Onde estariam Cíntia e Taciano naquela hora? por que motivo a conduta da mulher lhe alterara daquele modo a vida? Sem a idéia do Cristo no coração, não contaria com maiores dificuldades para resolver os problemas que lhe atormentavam o íntimo, contudo, conhecera o Evangelho e não ignorava

os testemunhos que lhe cabia mobilizar. Se pudesse sobrepor-se à influência de Opílio

entanto, não seria lícito nutrir qualquer ilusão. Possuía parentes abastados em Roma que se in- cumbiriam da manutenção do filhinho, até que pudesse enfrentar as surpresas da sorte, com finanças mais firmes; todavia, na condição de adepto do Cristianismo, não seria justo impor à Cíntia o suplício moral de que se via objeto.

No

Detendo-se na visão da noite magnífica, orou fervorosamente, implorando a Jesus lhe aliviasse o espírito dilacerado. Lembrava amigos presos e perseguidos por amor à fé sublime a que se dedicavam, arrimando-se nos exemplos de humildade da qual se faziam padrão vivo, e rogava ao Benfeitor Celeste não lhe permitisse a queda em desesperos inúteis. Quanto tempo passou assim, consigo mesmo, na solidão? Varro não pensava nisso, até que alguém lhe bateu nos ombros, arrancando-lhe os ouvidos da assoviada melopeia do vento. Era Súbrio, que parecia conter a respiração. falando-lhe, desajeitado:

— Escolhido dos deuses, creio haver chegado o instante de nos entendermos francamente. Havia naquelas palavras algo estranho, cuja significação Varro buscou debalde. O coração bateu-lhe descompassado, no peito. Aquela fisionomia pálida do companheiro habitualmente tão cínico denunciava algum doloroso acontecimento, contudo, não se sentiu suficientemente corajoso para indagar. — Há muitos anos — prosseguiu o soldado —, recebi de teu pai um favor que jamais conseguirei esquecer. Salvou-me a vida na Ilíria e nunca pude ajudá-lo em parte alguma. Prometi, porém, à minha denegrida consciência o resgate dessa dívida e admito que hoje posso atender ao compromisso que o tempo não conseguiu apagar Mergulhando os olhos felinos no semblante torturado do rapaz, continuou:

— Acreditas que o pretor tenha solicitado a tua cooperação por julgar-te bastante maduro? admites que Hélcio Lúcio ceder-te-ia um lugar ao lado dos seus próprios

alojamentos, por achar-te simpático? Filho de Júpiter, sê mais avisado. Opílio Vetúrio tramou com eles a tua morte. O teu destaque social não lhe ensejava uma arbitrariedade em Roma, onde, aliás, espera conquistar-te a mulher. Lastimo-te a mocidade cercada de tão poderosos inimigos. Hélcio guarda instruções para atirar o teu cadáver, ainda hoje, ao seio das águas. Alguém foi indicado para roubar-te a vida. Para a sociedade romana, deves desaparecer, nesta noite, para sempre Escutando semelhantes palavras, Quinto Varro fêz-se lívido. Imaginou-se à frente dos derradeiros instantes no mundo. Quis falar, mas não conseguiu. Intensa emoção constringia-lhe a garganta. Observando a expressão indefinível do olhar de Súbrio, presumiu que o assessor do comando vinha exigir-lhe a vida. Porque a pausa se anunciasse mais longa, reuniu todas as forças que lhe restavam e perguntou:

- Que queres de mim?

Quero salvar-te — informou o soldado com ironia.

E,

depois de certificar-se da ausência de outros ouvidos na sombra, ajuntou:

Mas preciso salvar a mim também. Devo ajudar-te, sem esquecer-me

Segredando quase, acentuou:

— Uma vida, por vezes, pede outra. Esse velho que te acompanha é meu conhecido. É

um macróbio gaulês, fatigado de viver. Sei que arengou nas catacumbas, pedindo esmolas aos

parvos

Cartago. A peregrinação dele, porém, será mais longa. Deixei que embarcasse, em nossa

companhia, propositadamente. Era a única solução para o meu enigma. Como defender a tua cabeça sem comprometer a minha? Ápio Corvino

O moço patrício ouvia a confidência, trêmulo de pavor, mas, no instante em que o nome

do amigo era pronunciado, fêz um esforço supremo e inquiriu:

Certo, dominou-te com mágicas, no intuito de ganhar um prêmio de viagem a

— Que ousas insinuar?

Flávio Súbrio, entretanto, era demasiado frio para empolgar-se de compaixão. Embora

desapontado com o sofrimento moral que impunha ao interlocutor, sorriu mordaz e aclarou:

— Ápio Corvino morrerá em teu lugar.

— Não! isso não! — clamou Varro, sem forças para enxugar o suor da fronte.

Fêz menção de seguir até à popa, apressadamente, mas Súbrio deteve-o, murmurando:

— É tarde. Alguém já manejou um punhal.

Varro, qual se fôra ferido de morte, sentiu-se baquear. Reuniu, contudo, todas as energias que lhe restavam e ensaiou o impulso de arrojar-se

para a câmara em que se instalara; todavia, o assessor conteve-o, de um salto, advertindo:

— Cuidado! Hélcio pode observar-te. É possível que o ancião esteja morto, mas, se

pretendes ouvir-lhe qualquer adeus, segue, cautelosamente

amigos, por mais algum tempo, e procurar-te-ei no aposento, antes de conduzir Lúcio até lá. Nesse ponto da conversação, abandonou o companheiro à própria dor e afastou-se.

O moço, contendo o pranto que se lhe represava no peito, arrastou-se, a enlouquecer de

angústia, até ao alojamento, onde Corvino, amordaçado, mostrava larga rosa de sangue na cobertura de linho alvo.

Os olhos do ancião pareciam mais lúcidos. Cravou-os no amigo com a ternura de um pai,

a despedir-se de um filho querido, antes da longa viagem da morte.

— Quem foi o miserável que se atreveu? —perguntou Quinto Varro, libertando-lhe os

movimentos da boca amordaçada. Sustentando o tórax, com a destra rugosa, o velhinho esforçou-se e falou:

— Filho meu, porque encolerizar o coração, quando precisamos de paz? Acreditas, acaso,

que alguém nos possa ferir sem a permissão de Deus? Acalma-te. Temos poucos instantes de entendimento.

clamou o rapaz, soluçando, de joelhos, como se quisesse beber as palavras ainda firmes do ancião. — Eu sei, Varro, como te sentes — explicou Ápio, em voz sumida —, eu também

reconheci, de pronto, em teu devotamento, o filho espiritual que o mundo me negou

Não

chores. Quem te disse que a morte possa representar o fim? Muitos companheiros nossos já vi

sob a coroa da flagelação gloriosa. Todos partiram para o reino celeste, exaltando o Mestre da Cruz e, enquanto os anos me estragavam o corpo, muita vez indaguei por que razão vinha

Temia não merecer do Céu a graça de morrer em serviço, todavia, agora

sendo poupado

estou em paz. Tenho a felicidade do testemunho e, para cúmulo de minha alegria, tenho alguém que me ouve no limiar da vida nova

O velho fêz longo intervalo para recobrar as energias e Quinto Varro, acariciando-o, em

lágrimas abundantes, acrescentou:

Entreterei o comandante e os

— Mas, o senhor é tudo o que tenho agora! meu benfeitor, meu amigo, meu pai!

— Como é difícil resignar-me à injustiça! o senhor está morrendo em meu lugar

— Como podes crer assim, meu filho? A Lei Divina é feita de equilíbrios eternos. Não te revoltes, nem blasfemes. Deus dirige. Cabe-nos obedecer Após ligeira pausa, prosseguiu:

Despedaçou-se-me o coração,

— Eu era pouco mais velho que tu, quando Átalo se foi

quando o vi marchando para o sacrifício. Antes, porém, de entrar no anfiteatro, conversámos

no cárcere

Nas horas mais aflitivas do ministério e nos dias cinzentos de tristeza e indecisão, vejo-o e escuto-lhe a palavra, junto de mim. Quem poderia admitir no túmulo o marco da separação para sempre? não podemos olvidar que o próprio Mestre regressou do sepulcro para fortalecer os aprendizes. Varro abraçou-o, com mais ternura, e aduziu:

— O senhor tem fé e virtudes que estou longe de possuir. Doravante, sentir-me-ei sozinho, sozinho

Prometeu acompanhar-me os passos, depois da morte, e voltou a orientar-me.

— Onde situas a confiança em Deus? És moço. Os dias amadurecem a experiência.

Em Lião, muitos de

nossos irmãos relacionam-se com os mortos, que são simplesmente os vivos da eternidade.

Em muitas

ocasiões, nos martírios, tenho visto companheiros que nos precederam recebendo os que são

perseguidos até o sangue

para mim, não é senão o Espírito do Cristo em comunhão com os homens

Nesse instante, Corvino arquejou penosamente Fitou no amigo os olhos calmos, com mais insistência, e prosseguiu:

Mas não te esqueças da

imensa família humana. Por muitos séculos, ainda, os servidores de Jesus serão almas

desajustadas na Terra

Enquanto houver um gemido de dor no mundo ou uma nesga de sombra no espírito do povo,

Por agora, somos desprezados e escarnecidos, no caminho do

Pastor Celeste que nos legou o sacrifício por abençoada libertação e, amanhã, talvez, legiões de homens tombarão pelos princípios do Mestre, que, sendo tão simples em seus fundamentos, provocam o furor e a reação das trevas que ainda governam as nações

Morreremos e renasceremos na carne muitas vezes

da fraternidade e da verdadeira paz

vencermos a nós mesmos. Nunca odeies, filho meu! Bendize constantemente as mãos que te

ferirem. Desculpa os erros dos outros, com sinceridade e pleno olvido de todo mal. Ama e

Nossas afeições não

desaparecem. Quem exercita a compreensão do Evangelho acende lume no próprio coração

para clarear a senda dos entes queridos, na Terra ou além da morte

não se perderam

conquista de ti próprio!

que o desengano enferruja

Terra te possa dar

Deus no serviço aos semelhantes Em seguida, descansou por alguns momentos.

Com muita dificuldade, retirou de sob a túnica velha bolsa ensebada, que continha um punhado de moedas, e deu-a ao rapaz, solicitando:

— Varro, na igreja de Lião, existe um antigo pregador de nome Horácio Niger. É meu

Quando

possível, entrega-lhe as cartas de que sou mensageiro e, em meu nome, confia-lhe estes

recursos

asiladas na igreja O moço recebeu o depósito com respeitosa ternura. Logo após, com muito esforço, Corvino pediu-lhe abrisse alguma página cristã para a leitura em voz alta. Queria guardar um pensamento das Sagradas Anotações, antes de morrer. Quinto Varro atendeu com presteza. Retirou, ao acaso, uma folha gasta do pergaminho, num rolo de instruções, e, à claridade bruxuleante da tocha que ardia junto ao leito, repetiu as belas palavras de Simão Pedro ao aleijado da Porta Formosa: — Ouro e prata não tenho, mas o que tenho, isso te dou». (7)

Não te prendas a ilusões e nem exijas da Terra mais do que a

Só uma felicidade jamais termina — a felicidade do amor que honra a

até que possamos contemplar a vitória

nossa tarefa não terminará

Atende às instruções do Mestre e nova luz brilhará em tua alma

Em nossos ofícios, comunicam-se conosco e amparam-nos cada dia

Acredito, pois, que poderemos continuar sempre juntos

A Igreja,

— Sei que te vês relegado à solidão, sem parentes, sem lar

Nossos filhos e irmãos encontram-se dispersos em toda a parte

Contudo, é indispensável amar muito para, antes,

ajuda sempre, ainda mesmo os que te pareçam duros e ingratos

Tua mulher e teu filhinho Até lá, porém, luta na Não procures riquezas

Tornarás a encontrá-los em novo nível de amor

O mundo reclama servidores leais ao bem

companheiro de trabalho, a quem te peço apresentar minhas notícias e saudações

Dize-lhe que é tudo quanto pude recolher em Roma, em favor das nossas crianças,

(7) Atos dos Apóstolos, capítulo 3, versículo 6. — (Nota do Autor espiritual.)

Corvino fitou o companheiro, desenhando largo sorriso nos lábios descorados, como a dizer que oferecia naquela hora a Deus e aos homens o seu próprio coração.

Compridos instantes desdobraram-se pesados e aflitivos.

O rapaz julgou que o venerando amigo houvesse alcançado o derradeiro minuto, todavia,

o ancião, qual se despertasse de curta mas concentrada prece, falou ainda:

— Varro, se possível

O interpelado atendeu, de pronto.

Descerrou pequena abertura do interior da câmara, que funcionava à guisa de janela.

desejaria ver o céu, antes de morrer

O vento entrou, de imediato, em lufadas fortes e frescas, apagando a luz mortiça, mas o

luar, em prateado jorro, invadiu o recinto. Com inexcedível carinho, o rapaz tomou o velho ao colo, dando a idéia de satisfazer a uma criança doente, e conduziu-o à magnífica visão da noite. Ao doce clarão da Lua, o semblante de Ápio Corvino assemelhava-se a vivo retrato de

algum antigo profeta que surgisse, ali, de improviso, nimbado de esplendor. Seus olhos serenos e brilhantes devassaram o firmamento, onde multidões de estrelas faiscavam, sublimes Depois de um minuto de silenciosa expectativa, falou em voz apagada:

Como é linda a nossa verdadeira pátria!

E,

voltando-se com brandura para o moço em lágrimas, concluiu:

Eis a cidade de nosso Deus!

Nesse instante, contudo, o corpo do patriarca foi sacudido por uma onda de vida nova. Seu olhar, que empalidecera, devagarinho, voltou a possuir estranho brilho, como que reanimado por milagrosa força. Denunciando uma alegria desvairada, bradou:

Ó meu Deus, como é sublime o é Átalo e Maturo, Santo e

Pontimiana e Blandina

carro de ouro!

Alexandre

O ancião ensaiava o gesto de quem se dispunha a cair de joelhos, totalmente esquecido

da presença de Varro e da precariedade da própria condição física.

— continuava

dizendo, em voz arrastada.

O pranto escorria-lhe agora dos olhos inexplicavelmente revigorados, contudo, Varro,

cuidadosamente, reconduziu-o ao leito manchado de sangue. Novamente deitado, o velhinho calou-se. Todavia, aos raios do luar que iluminava a

câmara, o moço patrício viu-lhe o olhar, nas vascas da morte, coroado de indefiníveis fulgurações, parecendo fixar paisagens festivas, em santo deslumbramento. Com as mãos nas dele, notou que o agonizante lhe apertava a destra, a despedir-se.

A corrente sanguínea parecia contida pela força mental do moribundo, interessado em

satisfazer aos últimos deveres, mas, quando a tranquilidade se lhe estampou na fisionomia

engelhada e nobre, o sangue jorrou abundantemente da chaga aberta, encharcando o sudário de linho.

O rapaz notou que o fatigado coração do apóstolo parou devagar, à maneira de máquina

agindo sem violência. A respiração desapareceu, como a de um pássaro que adormece na morte. O corpo inteiriçou-se. Varro compreendeu que era o fim.

— Abriu-se o grande caminho!

É Átalo que vem!

Oh

!

Centenas de estrelas brilham !

Alcibíades e Pôntico

(8)

— Oh!

Senhor! quanta bondade!

não mereço!

sou indigno!

(8) O agonizante recebia a visita espiritual de alguns dos mártires cristãos de Lião, flagelados no ano de 177. — (Nota do Autor espiritual.)

Sentindo-se, então, vergastado por uma dor sem limites, abraçou-se ao cadáver, suplicando:

Não me abandones! De onde estiveres, protege-me os

— Corvino, meu amigo, meu pai!

passos. Não me deixes cair em tentação. Fortalece-me o ânimo fraco! Dá-me fé, paciência,

coragem

estrepitosamente, e Súbrio entrou com uma tocha, iluminando o quadro doloroso. Vendo o rapaz agarrado ao morto, sacudiu-O, violento, exclamando:

— Louco! que fazes? o tempo é precioso. Em breves minutos, Hélcio virá. É

indispensável que não te encontre. Embriaguei-o para salvar-te. Não poderá ver o semblante do morto. Afastou Quinto Varro, brutalmente, e envolveu o corpo agora inerte no grande lençol, que

foi amarrado, acima da cabeça hirta. Em seguida, dirigiu-se, de novo, ao rapaz, em voz baixa e enérgica

— A esquerda, encontrarás uma escada, esperando-te e, sob a escada, há um bote que eu

mesmo preparei. Foge nele. O vento levar-te-â para a costa. Mas, ouve! busca outras terras e muda de nome. A partir de hoje, para Roma e para a tua família, estás sepultado nas águas.

O moço quis reagir e enfrentar dignamente a situaçãO, contudo, lembrou que, se Corvino

lhe havia tomado o lugar na morte, cabia-lhe substitui-lo na vida, e, sentindo numa das mãos o peso da bolsa que o herói lhe havia confiado, silenciou, humilde, em lágrimas.

— Conduze contigo a bagagem do velho, mas deixa os teus documentos — avisou

Flávio Súbrio, decidido —; Opílio Vetúrio deve certificar-se de que desapareceste para sempre. Todavia, quando o jovem reunira nas mãos a herança do apóStolO, o bastãO de HélciO Lúcio tocou rudemente a porta. Súbrio arrastou Varro para trás de um armário de bordo e atendeu.

O comandante ébrio entrou, desferiu uma gargalhada seca, ao observar o fardo

ensanguentado, e falou:

Os soluços do jovem repetiam-se abafados, quando a porta foi escancarada,

— Muito bem, Súbrio! A tua eficiência é de pasmar. Tudo pronto?

— Perfeitamente — esclareceu o assessor, em atitude servil.

Cambaleando, Hélcio aplicou algumas bastonadas no cadáver e observou:

— Grande maroto, o nosso Opílio. Este pobretão de Varro poderia ter sido liquidado em qualquer viela de Roma. Porque semelhante homenagem, a de matá-lo no mar? Enfim,

compreendo. Um patrício decente nunca deve ferir a sensibilidade de uma bela mulher. Reclamou do auxiliar a documentação do morto e, em voz pitoresca, determinou:

— Dá comida aos peixes, ainda hoje, e não nos esqueçamos de esclarecer a nobre Cíntia

Júlia de que o marido, em missão de vigilância contra a praga nazarena, foi assassinado por escravos cristãos na galera Com uma risada sarcástica, acentuou:

— Vetúrio incumbir-se-á de dizer o resto

O comandante despediu-se e, instado por Súbrio, Varro lançou um derradeiro olhar nos despojos do amigo. Carregando consigo as lembranças dele, afastou-se em passos vacilantes, desceu a escada de serviço e instalou-se no bote minúsculo. Sozinho, na noite fria e clara, demorou-se longamente, no barco, pensando, pensando O vento, a silvar, parecia lamber-lhe o pranto, induzindo-o a marchar para a frente, mas o moço, pungido por amarga incerteza, no íntimo desejava arrojar-se ao mar e igualmente morrer. Corvino, porém, marcara-lhe o coração para o resto da vida, O sacrifício dele impunha- lhe valorosa coragem. Era necessário lutar. Para Cíntia e para o filhinho querido não mais existia, entretanto, havia um claro na igreja de Lião, que lhe competia preencher. Custasse o que custasse, alcançaria as Gálias com a resolução de devotar-se à grande causa. Confiando-se a Deus, o moço desamarrou o bote e, com uma e outra remada, rendeu-se à ventania.

Indiferente aos perigos da viagem, não experimentou qualquer temor da solidão sobre o abismo. Arrastado fortemente sobre as águas, deu em extensa praia ao amanhecer. Trocou de vestimenta, envergando a túnica surrada de Corvino e, resoluto, atirou o nobre traje patrício ao mar, deliberando volver ao mundo na feição de outro homem. Acolhido numa aldeia litorânea, onde conseguiu alimento, peregrinou até alcançar Tarracina, florescente cidade balneária do Lácio. Não teve dificuldade para identificar o domicilio de alguns companheiros de fé. Apesar do terror que espalhava na vida pública, o governo de Bassiano-Caracala deixava os cristãos em relativo repouso, embora a severa vigilância com que lhes seguia os movimentos. Declarando-se caminheiro do Evangelho em trânsito para as Gálias, Varro, fatigado e enfermo, encontrou socorro na residência de Dácio Acúrsio, piedoso varão que mantinha um albergue destinado a indigentes. Amparado por amigos anônimos, delirou três dias e três noites, em febre alta; todavia, a mocidade robusta venceu a moléstia que o absorvera, de assalto. Porque nada pudesse informar, a princípio, com referência a si próprio, e em face das mensagens que conduzia, da parte dos cristãos de Roma aos confrades lioneses, nas quais o portador era nomeado como sendo o irmão Corvino», por essa designação passou a ser tratado entre as suas novas relações. Animado de inspiração superior, ensinou a Boa Nova, pregando em lágrimas, e a comunidade de Tarracina, tangida nas fibras mais íntimas, não obstante desejasse retê-lo, auxiliou-o em sua viagem para as Gálias, onde o rapaz aportou, depois de inúmeras dificuldades e enormes privações. Findo certo período de permanência em Massília (9), chegou finalmente à cidade a que se destinava. Lião, pela sua admirável posição geográfica, desde a ocupação do procônsul Munácio Planco, tornara-se expressivo centro político administrativo do mundo gaulês. Para ela convergiam diversas estradas importantes, convertendo-se, por isso mesmo, em residência quase que obrigatória de numerosas personalidades representativas da nobreza romana. Vipsânio Agripa, o genro de Otávio, fortalecera-lhe a situação privilegiada, ampliando- lhe as vias de comunicação. Áulicos da corte de Cláudio haviam construído nela magníficos palácios. As ciências e as artes, o comércio e a indústria aí floresciam com imensa vitalidade. Dentro de seus muros, reuniam-se, anualmente, junto do famoso altar de Roma e Augusto, as grandes assembléias do «Concilium Calliarum», no qual cada cidade das três Gálias possuía o seu representante. As festas do primeiro dia de agosto, em memória do grande imperador Caio Júlio César Otaviano, eram aí celebradas com significativas solenidades. Numerosas embaixadas e milhares de estrangeiros aí se congregavam em cerimônias brilhantes, em que o juramento de fidelidade aos deuses e às autoridades se renovava, com jubilosas manifestações.

(9) Hoje, Marselha. — (Nota do Autor espiritual.)

A cidade, que fôra em outro tempo a metrópole dos segusiavos, desde a ocupação

imperial passara a viver sob o mais apurado gosto latino. Situada na confluência de dois rios,

o Ródano e o Saona, oferecia aos habitantes as melhores condições de conforto. Dominada

pela influência patrícia, mostrava ruas e parques bem cuidados, templos e monumentos de

grande beleza, teatros e balneários, além de vilas soberbas, a se destacarem do casario vulgar, como pequenos castelos encantadores, emoldurados em jardins e vinhedos, onde magistrados

e guerreiros, artistas e libertos ricos da capital do mundo se insulavam para gozar a vida. Ao tempo de Bassiano-Caracala, a quem servira de berço, Lião alcançara imenso

esplendor. O novo césar, por várias vezes, dispensara-lhe graças especiais. A corte aí se reunia, frequentemente, em jogos e comemorações. Contudo, apesar da proteção que o imperador concedia ao torrão pátrio, a cidade guardava, ainda, em 217, dolorosas e vivas reminiscências da matança de 202, determinada por Séptimo Severo. Anos depois do triunfo sobre o General Décio Clódio Séptimo Albino, o eleito das legiões da Bretanha, morto em 197, instigado por seus conselheiros, o vencedor de Pescênio Niger promulgou um edito de perseguição. Autoridades inescrupulosas, depois de senhorearem o patrimônio de todos os cidadãos contrários à política dominante, realizaram tremenda carnificina de cristãos, dentro da cidade de Lião e nas localidades vizinhas. Milhares de seguidores do Cristo haviam sido flagelados e conduzidos à morte. Por vários dias perdurou a perseguição, com assassínios em massa. Postes de martírio, espetáculos de feras, cruzes, machados, fogueiras, lapidações, chicotes

e punhais, sem nos reportarmos ás cenas de selvageria para com mulheres e crianças indefesas, foram postos em prática por tropas inconscientes. Durante a matança, Ireneu, o grande bispo e orientador da coletividade evangélica da cidade, foi torturado, com todos os requintes da violência perversa, até ao último suspiro. Nascido na Ásia Menor, fôra aprendiz de Policarpo, o abnegado e mui venerado sacerdote de

Esmirna, que, por sua vez, havia recebido a fé por intermédio do apóstolo João, o evangelista. A igreja de Lião, em razão disso, sentia-se depositária das mais vivas tradições do Evangelho. Possuía relíquias do filho de Zebedeu e de outros vultos do Cristianismo nascente, que lhe fortaleciam o ânimo na fé. Em seu círculo de profunda iluminação espiritual achava-

se quase intacto o espírito piedoso da comunidade de Jerusalém. Enquanto Roma fôra iniciada por batismos de sangue, ao tempo de Nero, a comunidade lionesa começara o serviço de evangelização em relativa calma. Emissários da Palestina, da Frígia, da Síria, da Acaia e do Egito visitavam-na, incessantemente. As epístolas enviadas da Ásia clareavam-lhe a marcha. Por esse motivo, era o centro de porfiados estudos teológicos, no campo das interpretações. Ireneu dedicara-se a minuciosas observações da Escritura. Manejando o grego e o latim com grande mestria, escreveu expressivos trabalhos, refutando os adversários da Boa Nova, preservando as tradições apostólicas e orientando os diversos serviços da edificação cristã. Mas a coletividade não se caracterizava tão sómente pelas realizações intelectuais. Fazendo do santuário consagrado a São João o centro dos seus trabalhos de ordem geral, a igreja primava pelas obras de assistência. Dificilmente, à distância de séculos, poderá alguém perceber, com exatidão, a sublimidade do Cristianismo primitivo. Experimentados pela dor, amavam-se os irmãos na fé, segundo os padrões do Senhor. Em toda a parte, a organização evangélica orava para servir e dar, em vez de orar para ser servida e receber. Os cristãos eram conhecidos pela capacidade de sacrifício pessoal, a bem de todos, pela boa vontade, pela humildade sincera, pela cooperação fraternal e pela diligência que empregavam no aperfeiçoamento de si mesmos. Amavam-se reciprocamente, estendendo os raios de sua abnegação afetiva por todos os núcleos da luta humana, jamais traindo a vocação de ajudar sem recompensa, ainda mesmo diante dos mais renitentes algozes. Ao invés de fomentarem discórdia e revolta, entre os companheiros jungidos à canga da escravidão, honravam no trabalho digno a melhor maneira de amparar-lhes a libertação. Sabiam apagar os pruridos do egoísmo para abrigarem, sob o próprio teto, os

remanescentes das perseguições. Inflamados de fé na imortalidade da alma, não receavam a morte. Os companheiros

martirizados partiam como soldados de Jesus, cujas famílias, na retaguarda, lhes cabia proteger e educar. Assim é que a comunidade de Lião guardava sob a sua custódia de amor centenas de velhos, enfermos, mutilados, mulheres, jovens e crianças.

A igreja de São João era, pois, acima de tudo, uma escola de fé e solidariedade,

irradiando-se em variados serviços assistenciais.

O culto reunia os adeptos para a prece em comum e para a extensão das práticas

apostólicas, mas os lares de fraternidade multiplicavam-se. como impositivo da obra espiritual em construção. Muitas organizações domésticas tomavam a si a guarda de órfãos e o cuidado para com os doentes; todavia, ainda assim, o número de necessitados era, invariàvelmente, muito grande.

A cidade fôra sempre um ponto de convergência para os estrangeiros. Perseguidos de

vários lugares batiam às portas da igreja, implorando socorro e asilo.

A autoridade da fé, expressa nos irmãos mais velhos e mais experientes, designava

diáconos para diversos setores de ação. Os serviços de amparo e educação à infância, de conforto aos velhinhos abandonados, de sustentação dos enfermos, de cura dos loucos, distribuíam-se em departamentos especiais, expandindo-se, assim, em moldes mais completos, a primitiva organização apostólica de Jerusalém, na qual as obras de amor do Cristo, junto aos paralíticos e cegos, leprosos e obsessos, encontraram a melhor continuidade. Todos os irmãos partilhavam o esforço da instituição entre o trabalho profissional que lhes determinava o dever ao lado da família e as atividades evangélicas que lhes assinalavam a obrigação de discípulos da Boa Nova, junto da Humanidade. Num crepúsculo de harmoniosa beleza, Quinto Varro, agora transformado em «irmão Corvino», chegou à sala acanhada e pobre destinada às pregações da igreja de São João, onde, segundo informações obtidas, encontraria Horácio Niger para o anelado entendimento. Num ângulo do recinto, um velho de longas barbas encanecidas, de rosto avelado e nobre, ouvia jovem senhora de amargurado semblante. Levantou-se, atencioso, para receber o recem-chegado, fê-lo sentar-se ao lado dele, no banco de pedra, e continuou a conversar com a dama, em tom paternal. Tratava-se de humilde viúva que procedia de Valença, implorando socorro. Ficara sem o marido na carnificina de 202. Desde então, morava com o genitor e um tio na localidade mencionada, mas, a contragosto, envolvera-se em grande infortúnio. Por negar-se aos caprichos de um soldado influente, vira os dois familiares, com os quais residia, assassinados

numa noite de angustiosa provação.

Disposta a resistir, mas totalmente desamparada, fugira dali, em busca de abrigo. Chorando, acentuava, triste:

Não temo o sacrifício por nosso Divino Mestre,

contudo, não concordo em render-me ao vício dos legionários. Conserva-me, por amor de Jesus, nos serviços da igreja

—Pai Horácio, não me abandones

O interpelado observou, atento:

— Sim, não me oponho. Entretanto, é preciso esclarecer que não possuímos serviço remunerado

— Não procuro compensações — disse a moça —, tenho necessidade de arrimo.

—Então — explicou o interlocutor, satisfeito —, cooperarás no galpão dos velhos enfermos. Realmente, perdeste o pai e o tio, no entanto, encontrarás muitos outros parentes, junto dos quais o Cristo te pede carinho e proteção.

A humilde senhora sorriu tranquila e retirou-se.

Chegou a vez de o peregrino romano entrar em contacto com o ancião. Varro, comedido e confiante, inteirou-o de todas as ocorrências havidas com Ápio

Corvino e com ele mesmo, desde o início do seu primeiro encontro com o inolvidável amigo apunhalado no mar. Horácio ouviu-lhe a narrativa, entre sereno e cortês, sem qualquer alarme, diante do noticiário constrangedor. Parecia calejado por dores maiores. Mesmo assim, quando o rapaz terminou a confissão, falou sobre o amigo morto, comovidamente:

— Grande Corvino!

Enxugando os olhos úmidos, acrescentou:

— Estará conosco em espírito. A morte não nos separa uns dos outros, na obra do Senhor.

Seja ele feliz entre os servidores glorificados. Foi fiel até ao fim.

Em seguida, reportou-se ao companheiro desaparecido, com imensa ternura. Ápio Corvino tomara a si o encargo de prover às necessidades das crianças mantidas pela igreja. Para esse fim, trabalhava em agricultura e jardinagem, além de viajar frequentemente, angariando recursos. Depois de 177, estivera largo tempo no Egito, onde adquirira valiosas experiências. Os meninos adoravam-no. A senectude não lhe subtraira o entusiasmo pelo trabalho. Cultivava o solo com alegre bando de rapazes, aos quais ministrava preciosos conhecimentos.

Assinalou, preocupado, a falta que a presença dele lhes faria, mas, ante o oferecimento de Varro para substitui-lo quanto lhe fôsse possível, Horácio alegrou-se intensamente, e acentuou:

— Bem lembrado. Aqui, na maioria dos casos, os colaboradores da igreja trabalham de

acordo com os desajustes espirituais de que são portadores. As perseguições constantemente

alimentadas provocam, entre nós, diversos tipos de luta e sofrimento. Sei que trazes o coração paterno mortificado de saudades. Trabalharás pelas crianças. Temos mais de trinta órfãos pequeninos. Conversarei com as autoridades. E, em voz mais baixa, rogou-lhe que a personalidade de Quinto Varro fôsse para sempre esquecida. Apresentá-lo-ia a todos como sendo o irmão Corvino, sucessor do venerável confrade. chamado ao Reino de Deus, e afiançava-lhe que tantas nuvens de dor pesavam sobre a alma cristã, formando dramas tristes a se desenrolarem na sombra, que ninguém se sentia com bastante curiosidade para qualquer indagação.

O acolhimento carinhoso reaquecia o coração do viajante fatigado, quando dois petizes,

de três e cinco anos, respectivamente, penetraram o recinto.

O

maior deles dirigiu-se ao ancião com os olhos interrogadores e perguntou:

Pai Horácio, é verdade que o vovô Corvino já veio?

O

patriarca afagou-lhe os cabelos encaracolados e informou:

— Não, meu filho. Nosso velho amigo viajou para o Céu, mas enviou-nos um irmão que lhe tomará o lugar.

Ergueu-se, abraçou as crianças e, sentando-as nos joelhos do recém-chegado, falou, bondoso:

—Vamos, meus filhos! abracem o companheiro abençoado que chega de longe. Os meninos, com a doçura ingênua da infância, enlaçaram o mensageiro.

O moço patrício tomou-os de encontro ao coração e acariciou-os, demoradamente;

contudo, somente o velho Niger conseguiu ver o pranto que lhe corria dos olhos. Quinto Varro havia passado. Os anos rolariam para a frente e o ministério do novo Corvino ia começar.

4

Aventura de mulher

O ano 233, desdobrava-se, célere, sobre o drama das nossas personagens. Em Roma, a família Vetúnio desfrutava todos os favores da riqueza, cercada de privilégios e de escravos. Opílio, na madureza bem nutrida, parecia feliz em contemplar a si mesmo, no destaque e no bem-estar da mulher e dos filhos, mas Cíntia, que o desposara, desde a imaginária morte de Varro, no mar, exibia consideráveis diferenças. Mais reservada, distanciara-se das paisagens festivas. Não se ausentava de casa, voluntàriamente, senão para desincumbir-se de votos religiosos, no louvor dos numes tutelares, aos quais oferecia a sua devoção. Afeiçoara-se a Helena e Caiba, os rebentos de Heliodora, com a mesma ternura que dedicava a Taciano, e recebia dos três análogos testemunhos de respeito e de amor. Semelhante comportamento da companheira querida cristalizara em Vetúrio a veneração e o carinho. Espreitava-lhe os menores desejos para executá-los como servo fiel. Não se afastava da cidade, sem a companhia dela; não se confiava a qualquer das suas realizações de homem prático, sem associar-lhe a aprovação aos empreendimentos, e, não obstante romano de sua época, com todos os delitos ocultos e vulgares numa sociedade em decadência, constituía para Cíntia um amigo leal, procurando entendê-la e auxiliá-la nos mais íntimos pensamentos. Entre os jovens, todavia, a situação era diversa. Helena, com a formosura grega dos dezessete anos, primava pelos prazeres da vida social, entregando-se, inveteradamente, aos jogos e distrações, sem qualquer apego a virtudes domésticas, e, enquanto Taciano se dedicava ao estudo, fascinado pelas tradições patrícias, quase que constantemente mergulhado na Filosofia e na História, Galba, que lhe detestava o ambiente espiritual, não fazia segredo da sua intimidade com tribunos mal-educados e proxenetas inconscientes. Não suportava a superioridade intelectual do irmão. Turbulento, rixoso, alterava-se por nugas, perdendo noites de sono, em companhia de criaturas menos dignas, apesar do esforço paternal para trazê-lo à respeitabilidade. Taciano, ao revés, aproveitava substanciosamente as oportunidades que a vida lhe ofertava. Embora menino e moço, trazia consigo a experiência de algumas viagens das mais valiosas. Conhecia vastas regiões da Itália e da África, além de não poucos lugares da Acaia. Falava o grego, com a mesma facilidade com que se expressava no idioma pátrio, e comungava com os livros, na fome de luz que assinala os homens inclinados à sabedoria. Prendia-se, de modo particular, aos assuntos da fé religiosa, com ardente e profundo fervor. Não admitia qualquer restrição aos deuses olímpicos. Para ele, as divindades familiares eram as únicas inteligências capazes de garantir a felicidade humana. Extremamente afeiçoado ao culto de Cíbele, a Magna Mater, visitava constantemente o templo da deusa no Palatino, aí descansando e meditando, horas e horas, buscando inspiração. Acreditava que Júpiter Máximo era o orientador invisível de todas as vitórias imperiais, e, conquanto ainda jovem, guardava idéias próprias nesse sentido, afirmando sempre que os romanos deviam oferecer-lhe sacrifícios em caráter obrigatório, ou morrer. Por isso mesmo, não obstante os dotes de espírito que lhe exornavam a personalidade, não conseguia afinar-se com os princípios do Cristianismo. O Evangelho, examinado por ele, de escantilhão, em conversa com Vetúrio ou com rapazes de sua idade, parecia-lhe um amontoado de ensinamentos incompreensíveis, destinados a sombrear o mundo, caso vencessem na esfera da filosofia e da religião. Perguntava a si mesmo por que motivo tantos homens e tantas mulheres caminhavam

para o martírio, como se a vida não fôsse uma dádiva dos deuses, digna de espalhar a ventura entre os mortais, e confrontava Apolo, o inspirador da fecundidade e da beleza, com Jesus Cristo, o crucificado, admitindo no movimento cristão simples loucura coletiva que o poder governamental devia coibir. Poderia um patrício pensava ele — amar um escravo como se fôsse a si mesmo? Seria justo perdoar aos inimigos, com pleno olvido da ofensa? Seria aconselhável dar sem retribuição? Como conciliar a fraternidade geral com a defesa da elite? Um magistrado romano poderia ombrear com um africano analfabeto e categorizá-lo à conta de irmão? Por que processos rogar o favor celeste para os adversários? Como aceitar um programa de bondade para com todos, quando os maus se multiplicavam, em toda a parte, exigindo as repressões da justiça? A própria natureza não constituía, por si, um campo de batalha perene, em que as ovelhas eram ovelhas e os lobos não passavam de lobos? De que modo aguardar

vitórias sociais e políticas, sob a orientação de um salvador que expirara na cruz? Os destinos da pátria estavam presididos por gÊnios tutelares, que lhe conferiam a púrpura do poder. Porque desprezá-los em troca dos loucos que morriam, miseràvelmente, nas prisões e nos circos? Em muitas ocasiões, enquanto Cíntia admirava a conversação brilhante do filho, Vetúlio ponderava a diferença que separava os dois rapazes, criados sob os mesmos princípios e tão distanciados moralmente um do outro, lastimando a condição de inferioridade em que se colocava Galba, o filho de sua esperança. Num dia quente, ao crepúscUlO, vamos encontrar nOSSOS conhecidOs num amplo terraço, em cordial aproximação. Cíntia, silencioSa, tecia delicado trabalho de lã, não longe de Helena, que se fazia acompanhada de Anacleta, a governanta que Opílio lhe escolhera, entre antigos laços de parentela da primeira esposa. Pouco mais velha que a filha de HeliodOra, Anacleta nascera em Cipro (Chipre) e, desde cedo, fôra cambiada para Roma, aos cuidados de Vetúrio, a pedido da genitora, antes de falecer. Órfã, a menina crescera sob a proteçãO de Cíntia, fazendo companhia à enteada, que lhe devotava profunda afeição. Transigente e bondosa, sabia acobertar todas as faltas de Helena, constituindo para ela não somente uma servidora leal, mas também um refúgio afetivo, em todas as circunstâncias. Enquanto as duas moças conversavam, algo apreensivaS, perto de Cíntia, que parecia exclusivamente interessada no trabalho do fio, em outro ângulo, Vetúrio e os rapazes entendiam-se animadamente.

A palestra versava sobre os problemas sociais, com visível entusiasmo de Taciano e

indisfarçável retraimento de Galba.

— Concordo em que a luta iniciada, há mais de cem anos — comentava Opílio —,

terminara naturalmente pela vitória do patriciado. Tenho grande confiança em Alexandre, reconhecido como protótipo de prudência e justiça.

— Contudo — observou TacianO, tocado de juvenil indignação —, o imperador tem a

família infestada de mulheres nazarenas. Pelo lado materno, está cercado de senhoras

dementadas, que não se envergonham de receber instruções religiosas de vagabundos da Ásia. A morte de Ulpiano, sem nenhuma providência disciplinar, lhe revela o caráter enfermiço. É fraco e indeciso. Pode ser um padrão de virtudes individuais, mas não mostra aptidão para comandar a nossa vida política. Sorriu, algo sarcástico, e anotou:

— Quando a cabeça é frágil, não vale o corpo forte.

— É provável que a razão esteja contigo —tornou Opílio bem humorado —, entretanto,

hás de convir que o governo não dorme. Não temos tido espetáculos punitivos, mas a perseguição metódica vem sendo levada a efeito, em moldes legais. A morte de Calisto, (10)

por exemplo

— Quem era Calisto senão um escravo fora da lei?

— Realmente — concordou Vetúrio —, não podemos comparar um servidor de

Carpóforo aos magistrados do Império.

— A perda de Ulpiano é irreparável

— Mas, que temos nós com a vida alheia? - atalhou Galba, enfadado. — Nunca hesitarei

entre um copo de vinho e uma discussão filosófica. Que nos adianta saber se o Olimpo está cheio de divindades ou se um louco morreu na cruz há duzentos anos?

— Não te expresses assim, meu filho! — disse Vetúrio, preocupado — não podemos olvidar os destinos do povo e da pátria em que nascemos.

O moço gargalhou, irreverente, e, tocando os ombros de Taciano, perguntou:

— Que farias, mano, se a coroa do imperador te buscasse a cabeça?

(10) Referência ao Papa Calisto. — (Nota do Autor espiritual.)

O rapaz percebeu o sarcasmo da interpelação, mas respondeu, firme:

— Se me fôsse confiada qualquer tarefa administrativa, não somente exterminaria o

Cristianismo, aniquilando-lhe os prosélitos, mas também todos os cidadãos relaxados e viciosos de que as nossas tradições se envergonham. Galba corou, buscando o olhar paterno, como pedindo reprovação para o filho de Cíntia, mas notando a firmeza com que Opílio, em silêncio, o censurava, pronunciou algumas interjeições desrespeitosas e afastou-se. A essa altura, Helena e Anacleta retiraram-se, de rosto sombrio, em direção ao jardim. Reparando que a jovem enxugava lágrimas, Taciano esqueceu-se dos problemas sociais que lhe escaldavam a cabeça e indagou do pai adotivo sobre as razões de semelhante transformação da irmã, habitualmente despreocupada, sendo então informado de que o jovem Emiliano Secundino, de quem a moça se aproximara com grande esperança de ligação afetiva, fôra assassinado em Nicomédia, segundo notícias chegadas por um correio de horas antes. Taciano comoveu-se. Conhecia o rapaz e admirava-lhe a inteligência. Como quem se valia da hora azada para

entendimento difícil, Vetúrio abeirou-se do enteado, com visível emoção, e falou-lhe, em voz baixa:

— Meu filho, os anos ensinam-nos, pouco a pouco, a necessidade de refletir. Gostaria de

ter em Galba um continuador seguro de meu trabalho, entretanto, sabes que teu irmão, até agora, não se decidiu pela responsabilidade. Apesar da verde juventude, é jogador e rixento contumaz. Tenho estudado com tua mãe os problemas de nossa família e admito que precisamos de tua cooperação nas Gálias, onde as nossas propriedades são importantes e

numerosas. Possuíamos, em Viena, um amigo prestimoso na pessoa de Lamprídio Treboniano,

mas Lamprídio morreu, há tempos. Alésio e Pontimiana, nossos fiéis servidores em Lião, es-

tão velhos e fatigados

Perguntam, incessantemente, por ti e aguardam-te a presença, a fim

de que sejas ali o meu representante legal. Opílio fêz ligeiro intervalo, verificando o efeito de suas palavras, e interrogou:

— Concordarias em seguir, ao encontro da preservação de nosso patrimônio provincial?

Nossa residência lionesa, a meu ver, é mais confortável que o nosso domicílio de Roma e a

cidade desfruta a estima das famílias mais representativas de nossa nobreza. Estou convencido de que farás valiosas relações e encontrarás grande estímulo no trabalho. Nossas terras produzem regularmente, mas não devemos relegá-las ao abandono.

O rapaz mostrou-se satisfeito e observou:

— Várias vezes minha mãe me tem falado sobre essa transferência. Estou pronto a obedecer. O senhor é meu pai.

Vetúrio sorriu, confortado, e aduziu:

Mas, não é tudo.

E,

fixando nele os olhos com insistência, interrogou:

pensaste em casar, meu filho?

O

moço riu-se, acanhado, e explicou:

Positivamente, os livros ainda me não permitiram qualquer excursão mental no

assunto. É difícil sair da intimidade com Minerva para ouvir qualquer conversação de Afrodite

O tutor achou graça e prosseguiu:

— Para todos nós, porém, chega invariávelmente o instante de madureza interior, que nos impele ao refúgio do lar. Após longa pausa, dando idéia da questão delicada que a sua palavra suscitaria, continuou:

—Ante a notícia da morte prematura de Emiliano, Cíntia está naturalmente aflita com a

mágoa de Helena, e, mãe devotada que é, depois de ouvi-la, instou comigo para permitir-lhe um passeio até Salamina, onde Anacleta possui vários parentes. Apolodoro, tio dela, segue para Cipro, na quinzena próxima, e tenho a intenção de entregar-lhe as meninas para uma excursão que, a nosso ver, lhes será extremamente proveitosa. Helena descansaria alguns meses das agitações de Roma, refazendo-se para abraçar mais sérios deveres. Como pai

interessado na segurança do futuro, tenho pensado

Diante do silêncio de Taciano, Opílio completou a exteriorização do propósito que o atormentava:

— Confesso alimentar a esperança de que teu casamento com ela se converta, mais tarde,

em realidade

esponsalícia deve obedecer às afinidades de sentimento, antes de tudo, e reconheço que o dinheiro não traz a ventura do amor; entretanto, nossa tranquilidade seria perfeita, se pudéssemos conservar nossas possibilidades financeiras e territoriais tão sólidas amanhã, quanto hoje. Não posso esperar que o nosso Galba nos compreenda as preocupações, à frente do porvir. Perdulário e indisciplinado, tudo nos diz que será para nós um companheiro difícil de

Não guardo a intenção de imppor-lhes meus desejos. Sei que a ligação

pensado

carregar As considerações de Vetúrio eram ditas num timbre tão particularmente enternecedor, que o moço sentiu incoercível emotividade a constringir-lhe o peito. Apertou as mãos do padrasto, com ternura, e respondeu:

— Meu pai, disponha de mim, como desejar. Seguirei para Lião, quando for de seu agrado e, quanto ao futuro, os deuses decidirão. A palestra prosseguiu carinhosa e íntima, evidenciando a segurança espiritual do filho de Quinto Varro. Mas, em gracioso caramanchão do pátio florido, a posição da filha de Heliodora

revelava-se diferente.

Abraçada à governanta, Helena chorava sob forte irritação, clamando em desespero:

— Anacleta, haverá infortúnio maior que o meu? o desastre aniquila-me a vida. Emiliano

E agora? que será feito de mim?

Sabes que a nossa união secreta devia ser

consagrada pelo matrimônio

A moça cipriota afagava-lhe os lindos cabelos, que dourada rede enfeitava, e dizia,

maternal:

— Acalma-te! o valor é qualidade para as grandes horas. Nem tudo está perdido. Já nos

Tio

Apolodoro está de viagem para a ilha. Conseguiremos a permissão de teu pai e seguiremos com ele. Lá, tudo será fácil. Esperaremos com relativo descanso aquilo que os deuses nos reservam. Tenho bons amigos em minha terra. Escravas fiéis auxiliar-nos-ão em segredo

entendemos com tua mãe, acerca das tuas necessidades de medicação e repouso

prometera falar a meu pai, tão logo voltasse da Bitinia

Estávamos comprometidos, faz mais de três meses

Ó deuses imortais, compadecei-vos de meu amargo destino!

Não temas.

A jovem, contudo, voluntariosa e rebelde, objetava, inquieta:

— Como suportar a expectativa de tantos meses? Concordo com a viagem como

expediente de último recurso

Emiliano não podia morrer

— Que sugeres então? — indagou Anacleta, aflita.

— Procuremos Orósio

— O feiticeiro?

Ele deve conhecer algum remédio que me liberte

— Sim, ele mesmo. Não posso entregar-me àmaternidade, com escândalo público. Meu pai nunca me perdoaria

A governanta, que lhe conhecia a luta Interior, tentou apaziguar-lhe a alma opressa.

A menina, porém, a recriminar-se, em pranto, só muito tarde se recolheu aos aposentos particulares, não conseguindo a bênção do sono. Noite inteira, suspirou e chorou, atribulada. Embora relutando, Anacleta conduziu-a, pela manhã, à residência de Orósio, um velho de vil aparência que se escondia em miserável casebre do Velabro.

Encarquilhado, entre pilhas de raízes e vasos diversos, transbordantes de tisanas de odor desagradável, recebeu as visitantes, procurando sorrir. Helena, que se ocultava com nome suposto, tentou explicar a razão que as trazia. Não era a primeira vez que o procurava, esclareceu, atenciosa. Em outra ocasião já lhe rogara socorro, com êxito, para certa amiga desamparada. Agora, pedia para si mesma. Achava-se doente, desesperançada, aflita. Desejava uma consulta aos poderes sobrenaturais.

O mago recolheu, cuidadosamente, as moedas que a moça lhe oferecia, por remuneração

antecipada, e sentou-se à frente de uma trípode, sobre a qual uma concha simbólica deixava escapar balsamizantes espirais de incenso. Orósio repetiu algumas fórmulas em idioma desconhecido para elas, estendeu as mãos descarnadas para a trípode e, de membros inteiriçados, cerrou os olhos, exclamando:

Mostra

larga ferida no peito!

anos, ao seu destino de mulher

Que lágrimas densas prendem essa alma ao lodo da Terra!

Fala de alguém que nascerá

Pede perdão pelo mal que lhe fêz, mas declara-se ligado, há muitos

— Sim!

Vejo um homem que se levanta do abismo!

Oh! foi assassinado!

Chora! quão amargosa é a dor que lhe explode no pranto!

Estende os braços e roga socorro para uma criança

Depois de ligeira pausa, inquiriu o velho em transe:

— Oh! sim, tão jovem e será mãe? Por todas as bênçãos que descem das Divindades, ele

suplica de joelhos para que a senhora lhe poupe mais uma dor

que tomará nova roupa na carne! Nesse ponto da estranha revelação, Orósio cobriu-se de tremenda palidez.

Não se desfaça do anjinho

Suor abundante corria-lhe da face.

Parecia escutar, atentamente, o fantasma, cuja presença Helena e Anacleta pressentiam, terrificadas. Findos alguns momentos de torturante expectação, o mago retomou a palavra e profetizou:

Senhora, não recuseis a maternidade !

Ninguém foge, impunemente, aos desígnios

do Céu!

A criança ser-lhe-á proteção e consolo, reajuste e arrimo

Mas, se for consumado o

seu propósito de desvencilhar-se dela

A voz de Orósio fêz-se rude e cavernosa, qual se fôsse mais diretamente influenciado

pela entidade que o assistia.

Ergueu-se animado de misterioso impulso e, dirigindo-se à filha de Vetúrio, afirmou:

— então, a senhora morrerá banhada em sangue, vencida pelo poder das trevas! Helena atirou-se aos braços de Anacleta, soluçando agitadamente.

Compreendeu que o Espírito de Emiliano interferia, ali, para acordar-lhe a consciência na

responsabilidade maternal, e, sentindo-se incapaz de prosseguir em contacto com a inesperada manifestação, gritou para a companheira:

— Não posso mais! Arrasta-me! Quero viajar, esquecer

Orósio caíra novamente em torpor, deixando perceber extremo interesse no colóquio com o invisível, mas ambas as moças, apavoradas, amparando-se uma à outra, afastaram-se à pressa buscando a viatura que as esperava, a distância. Helena, em vez de encontrar remédio que a libertasse do compromisso assumido, foi colhida por maior aflição. Tão intensa se lhe exteriorizou a melancolia em casa que o genitor, inquieto, tratou de organizar-lhe o roteiro no mar. Apolodoro, o amigo cipriota, foi chamado para entender-se com a família. Vetúrio e Cíntia, depois de lhe entregarem respeitável quantia, confiaram-lhe as meninas para o longo passeio. Embora garantidas por grandes economias particulares, as moças empreenderam a viagem sem alegria. Profunda tristeza velava-lhes os semblantes. Absortas na contemplação das águas calmas do Mediterrâneo, muitas vezes se encontraram em conversação, quanto ao futuro Em muitas ocasiões, Helena divagava em silêncio, perguntando a si mesma: — Seria lícito crer nas palavras que ouvira? Orósio era um bruxo. O miraculoso poder de que se

revestira, a fim de impressioná-la, derivava-se, certo, da influência de seres infernais, ou quem sabe? talvez que a visão de Emiliano não passasse de simples demência. Achava-se

jovem, no começo da vida. Sentia-se no direito de escolher o seu próprio caminho

Não seria

mais aconselhável desfazer-se da obrigação que lhe constituía escuro fardo? com que direito a alma do amante regressava do túmulo para impor-lhe tão pesado dever? Sob constantes vacilações, chegou à ilha, carinhosamente assistida por Anacleta e pelo velho tio. Salamina, a antiga capital, dantes linda e próspera, fôra destruída por uma tremenda revolução judaica, no Império de Trajano.

O êxodo da população era lento, mas progressivo. Diversas aldeiotas e fazendas

formavam-se nos arredores da cidade em decadência. Num desses burgos pequeninos, Apolodoro situara o ninho doméstico. Recebida com inequívocas provas de respeito e de estima, Helena, invariàvelmente amparada por Anacleta, adquiriu os serviços de encanecida escrava nubiana, Balbina, a quem prometeu libertação e retorno à pátria, logo se visse desobrigada do tratamento de saúde a que se propunha submeter. E, contra todos os protestos afetuosos do anfitrião, alugou uma vila confortável, em pleno campo, alegando a necessidade de ar puro e absoluto descanso.

Os dias corriam sobre os dias. Tomada de tédio e desesperação, a moça patrícia deliberou tentar algum método de fuga. Sutilmente conseguiu arrancar de Balbina algumas informações sobre as ervas que pretendia aplicar. A serva experiente, sem perceber suas intenções, ministrou-lhe os conhecimentos de que dispunha. E a própria Helena, sem qualquer notificação à governanta, preparou a beberagem, certa noite, e recolheu-se ao leito, para sorvê-la, antes do sono. Depositou a taça num móvel, ao alcance das mãos, e buscou refletir alguns momentos. Mergulhou-se em funda abstração, e, quando se esforçou mentalmente para tomar o prateado copo e beber-lhe o conteúdo, sentiu-se envolvida por estranho torpor. Consciente embora, como quem sonhava desperta, viu Emiliano pálido e abatido, junto dela. Colocava a destra sobre o tórax ferido, como na visão de Orósio, e, dirigindo-lhe a palavra, falou, triste:

Minha violenta separação do corpo foi

prova terrível. Não me recrimines! Daria tudo para permanecer e desposar-te, mas que

podemos fazer quando os Céus se pronunciam contra os nossos desejos? poderás imaginar o martírio de um homem, colocado além do túmulo, sem meios de amparar a mulher que ama?

Se pudesse, fugiria

sem detença. Emiliano era apenas uma sombra do atleta invejável que conhecera. Assemelhava-se a um fantasma que a Parca vestira de dor. Somente os olhos vivos e

fascinantes eram os mesmos. Fez menção de recuar e esconder-se, entretanto, sentiu-se como que chumbada ao solo e presa por laços imponderáveis ao amante redivivo. Mostrando o propósito de tranqüilizá-la, o recém-desencarnado aproximou-se com mais carinho e falou:

— Helena, perdoa e compadece-te de mim!

A moça, transitoriamente desligada do corpo físico, ouvia, aterrada

mortais

Não receies. A morte é ilusão. Um dia, estarás igualmente aqui, tal qual todos os Sei quão tempestuoso te parece o horizonte. Quase menina, foste surpreendida por

igualmente aqui, tal qual todos os Sei quão tempestuoso te parece o horizonte. Quase menina, foste

dolorosos problemas do coração

No íntimo, a jovem desejou saber porque tornava ele do mundo das sombras, amargurando-a. Não possuía já suficientes razões para apoquentar-se? E, pensando que o amante estivesse exonerado de todos os deveres morais, considerava, no imo da consciência: — porque insistirá Emiliano em acompanhar-me, quando se encontra livre? não fôra arrebatado da Terra à moradia da paz?

Deixando transparecer que lhe percebia as palavras inarticuladas, o inesperado visitante respondeu:

No entanto, sempre vale conhecer, mais cedo, a verdade

— Não creias seja o sepulcro uma passagem direta para o domicílio dos deuses

Vivemos longe da luz quando não cogitamos de acendê-la no próprio coração. Além da carne, em que nossa alma se agita, somos defrontados por nós mesmos. Os pensamentos que alimentamos são teias escuras que nos prendem à sombra ou às sendas de sublime esplendor,

impelindo-nos para a frente

favorecem-nos o avanço, conforme os sentimentos que a nossa memória lhes inspira. Não

Recebemos invariàvelmente,

segundo as nossas obras Nesse ponto da singular entrevista, Helena recordou-se mais nitidamente do enigma que a dilacerava Acaso Secundino voltava do sepulcro para lembrar-lhe as obrigações de que pretendia desvencilhar-se? Súbita aflição assomou-lhe à alma inquieta. Como alijar o fardo de angústia? Reconhecia-se entre o Espírito de Emiliano, a relembrar-lhe uma felicidade que não mais

lhe sorriria na Terra, e uma criança intrusa a ameaçar-lhe a existência.

suponhas haja impunidade nos tribunais da justiça divina!

Aqueles que deixamos para trás retardam nosso passo ou

No fundo, queria ser mãe e desenvolver no próprio coração os potenciais de ternura que lhe explodiam no peito, mas não nas circunstâncias em que se achava. Jamais sentira tão grande flagelação moral. Lágrimas ardentes escaldavam-lhe os olhos. Ajoelhou-se, desesperada, e gritou:

— Como me pedes compaixão, se sou mais desventurada? compreenderás, porventura, o

tormento da mulher sob o grilhão de compromissos que lhe deslustram a dignidade pessoal? sabes o que significa esperar um acontecimento desonroso, sem o braço que nos prometeu

segurança e carinho? Ah!

se assim não fôra, me levarias também

A convivência dos seres infernais deve ser mais

os mortos não conseguem penetrar o infortúnio dos vivos, porque,

benigna que o contacto dos homens cruéis! O desfigurado mensageiro acariciou-lhe a cabeleira sedosa e observou:

Não desprezes a coroa da maternidade. Se

aceitares a prova difícil, com submissão aos Divinos Desígnios, não nos separaremos. Juntos,

em espírito, prosseguiremos em busca da alegria imortal

Às vezes, nos

Não

recuses, pois, a determinação dos Céus! Guarda contigo a flor que desabrocha entre nós. O

perfume de suas pétalas alimentar-nos-á a comunhão nas esferas da beleza e da luz!.

E um dia reunir-nos-emos, de novo,

Suporta, com serenidade, os golpes

do destino que hoje nos fere. Não menoscabes o rebento do nosso amor

braços tenros de uma criança, encontramos a força que nos regenera e nos salva

- Não blasfemes! Venho para rogar-te valor

A jovem tentou prolongar o entendimento daquela hora inesquecível, contudo, talvez

porque expandisse a sensibilidade em desequilíbrio, a figura de Emiliano como que se fundia

em névoa esbranquiçada, afastando-se

afastando-se

Chamava-o, em alta voz, mas debalde.

Acordou a gesticular, no leito, bradando, desvairada:

— Emiliano!

Emiliano!

Um dos braços agitados derrubou, involuntàriamente, a taça próxima, entornando-lhe o conteúdo. Perdera-se a criminosa tisana.

Helena enxugou o pranto copioso e, porque não mais pudesse conciliar o sono, levantou- se e procurou o ar fresco da madrugada num terraço vizinho.

A visão do firmamento estrelado como que lhe suavizou o tormento Íntimo e as veludosas

virações que vinham do mar secaram-lhe os olhos úmidos, acalmando-lhe o coração. Mais reservada e mais abatida, esperou resignada a obra do tempo. Anacleta, leal e amiga, obteve indiretamente, em conversações reiteradas e supostamente sem importância, com Balbina, todos os informes imprescindíveis à assistência que devia

prestar-lhe e, depois de longas semanas, em que se manteve acamada, a moça patricia deu à luz uma pequenina. Assistida exclusivamente por Ãnacleta, que se desvelou pela tutelada na posição de verdadeira mãe, Helena contemplou a filhinha, com insopitáveis conflitos no coração. Não sabia se a odiava com violência ou se lhe queria com ternura.

A governanta fê-la notar a coincidência de a menina haver herdado certo sinal materno —

uma grande mancha negra no ombro esquerdo. Vestindo-a, carinhosamente, observou:

— Isso a tornará reconhecível em qualquer ocasião.

Não obstante fatigada, Helena respondeu resoluta:

- Não pretendo reencontrá-la.

— Entretanto — conjeturou a amiga —, o tempo corre atrás do tempo. Um dia, será

talvez possível a reaproximação. Custa-me pensar que nos desvencilharemos de uma

bonequinha como esta. Não surgirá um meio Helena, contudo, atalhou, firme:

— Ela deve desaparecer. É uma filha que não pedi e que não me cabia esperar.

Anacleta, desapontada, conchegou-a, de encontro ao coração, envolveu-a em panos de lã e, em seguida, apresentou-a ao angustiado olhar materno, acrescentando:

— É tua

Dá-lhe alguma lembrança. Pobre avezinha! Como se portará na ventania?

A moça, estranhamente dominada de pensamentos contraditórios, sufocou as lágrimas

nos olhos úmidos e, tomando de móvel próximo um belo camafeu, em que se via a imagem de Cíbele, admiràvelmente esculpida em marfim, adornou com ele o corpo da pequenina. Logo após, recomendou, decidida:

— Anacleta, organiza-lhe a viagem. É preciso despachá-la num cesto grande, sob qualquer árvore do campo. Evita confiá-la à porta de determinada pessoa, de vez que não pretendo estabelecer qualquer laço de ligação com o passado, que considero morto, a partir

deste instante.

— Helena!

— suspirou a moça, com o evidente intuito de aconselhar.

— Não interfiras — afirmou a jovem mãe —; quando o dia clarear, serei portadora de

novo destino. Não me fales mais nisso. Saberei recompensar-te. Dispõe de mim como quiseres.

Anacleta procurou ainda impor-se, mas a filha de Vetúrio, sem tergiversar, exclamou:

— Não discutas, Os deuses decidirão

Á sobrinha de Apolodoro cumpriu a ordem, choramingando, e, munindo-se de agasalho,

saiu conduzindo o pequeno fardo.

O dia estava prestes a alvorecer.

No horizonte, o Sol não tardaria em anunciar-se.

Anacleta foi visitada pela tentação de deixar a criança no limiar de alguma herdade, onde conseguisse acompanhar-lhe a evolução, indiretamente; todavia, embora não concordasse com

a atitude de Helena, vivia, por sua vez, na condição de subalternidade. Dependia da casa de

Opílio e muito particularmente da menina Vetúrio. Seguir a criança, ainda que de longe, seria atrair aflições sobre a própria cabeça. Não desejava abandonar o destaque social da casa de Cíntia. Era exageradamente feliz para perder com facilidade as vantagens de que se rodeava na vida. Contudo, cortava-lhe o coração a dor de abandonar a pequenina completamente à própria sorte. Seria justo entregar, daquele modo, um ser humano, à furna dos animais? que destino poderia esperar a inocentinha, em pleno matagal? Fitou o rosto miúdo, mal velado pela cobertura envolvente, e a compaixão intensificou- se-lhe ainda mais, em reconhecendo que a menina se deixava conduzir, sem chorar. Soprava o vento fresco, qual se fôra uma carícia do Céu.

A corajosa governanta havia caminhado aproximadamente três quilômetros, no rumo de

pequeno povoado próximo. Não poderia prolongar demasiado a excursão, sob pena de denunciar-se. Mas, como abandonar a, criança aos imprevistos da charneca? Não se conformava à idéia de perpetrar

semelhante crueldade. Guardá-la-ia num ângulo de caminho, até que pudesse sentir-se segura.

E, em preces, rogava aos numes de sua fé encaminhassem até ali alguém, cuja presença a

tranqüilizasse.

Preocupada, esperou.

E, quando a diurna claridade começou a espraiar-se, através dos lençóis de névoa, notou

que um homem, como quem cultivasse no campo a meditação matutina, apareceu ao longe, caminhando devagar

A moça ocultou-se, rápida, e a criança, pressentindo talvez o aparecimento de mãos

amigas, passou a vagir ruidosamente.

O passeante estugou o passo, abeirou-se dela e, ajoelhando-se, junto ao cesto, bradou:

— Grande Serápis! que vejo? um anjo, ó deuses!

um anjo sem ninguém!

Inclinou-se, cuidadoso, afagou a cabecinha nua e, erguendo os olhos para o alto,

exclamou:

— Divino Zeus! há quinze anos conduziste Li-via, minha única filha e consolo de minha

viuvez, para a glória de teu seio!

Louvado sejas! Doravante não serei mais sozinho Com extremada ternura, retirou a menina do berço improvisado e apertou-a, de encontro ao coração, sob as dobras da capa acolhedora em que se envolvia e retomou o caminho por onde viera. Os primeiros raios de ouro da manhã desvelaram a paisagem, parecendo que o Céu reafirmava a sua proteção à Terra e os pássaros começaram a cantar, melodiosamente, como

Hoje, que me sabes um peregrino sem apoio, ma restituis.

se agradecessem à Divina Providência a alegria de uma criança perdida. que havia encontrado

a bênção de um lar.

5

Reencontro

Ao término de 233, numa sala singela da igreja de São João, em Lião, pequena

assembléia de companheiros se instalara para o exame de assuntos urgentes, relacionados com

a obra do Evangelho.

Três homens de idade avançada, e um outro, em plena madureza, discutiam as necessidades do movimento cristão.

O Império vivia assolado por uma peste que procedia do Oriente, fazendo vítimas

inumeráveis.

Em Roma, a situação era das mais graves.

A epidemia penetrara as Gálias e a comunidade cristã, em Lião, mobilizava todos os

recursos para amenizar os problemas do povo.

O mais jovem integrante do conjunto era o Irmão Corvino, que advogava a causa dos

enfermos abandonados e infelizes.

— Se desprezamos o próximo — comentava ele, inflamado de confiança —, como

atender ao nosso mandato de caridade? Cristianismo é viver o espírito do Cristo em nós. Vemos no estudo das narrativas apostólicas que as legiões do Céu se apossam da Terra, em companhia do Senhor, transformando os homens em instrumentos da Infinita Bondade. Desde o primeiro contacto de Jesus com a Humanidade, observamos a manifestação do mundo espiritual, que busca nas criaturas pontos vivos de apoio para a obra de regeneração. Zacarias éprocurado pelo anjo Gabriel que lhe comunica a vinda de João Batista. Maria Santíssima é visitada pelo mesmo anjo, que lhe anuncia a chegada do Salvador. Um enviado celeste procura José da Galiléia, em sonho, para tranqüilizá-lo, quanto ao nascimento do Redentor. E, erguendo-se o Mestre Divino, entre os homens, não se limita a cumprir a Lei

Antiga, repetindo-lhe os preceitos com os lábios. Sai de si mesmo e coloca-se ao encontro das angústias do povo. Limpa os leprosos da estrada. Estende mãos amigas aos paralíticos e levanta-os. Restitui a visão aos cegos. Reergue Lázaro do sepulcro. Restaura doentes. Reintegra as mulheres transviadas na dignidade pessoal. Infunde aos homens novos princípios de fraternidade e perdão. Ainda na cruz, conversa amorosamente com dois malfeitores, procurando encaminhar-lhes as almas para o mais alto. E, depois dele, os apóstolos abnegados continuam-lhe a gloriosa tarefa do reerguimento humano, prosseguindo no ministério do es- clarecimento da alma e da cura do corpo, devotando-se ao Evangelho até ao derradeiro sacrifício.

— Compreendemos a sensatez da exposição —objetou o presbítero Galiano, velho gaulês

que se demorara por muito tempo, na Patagônia —, entretanto, é preciso escapar às arremetidas do tentador. Penso haver chegado o momento de cogitar da construção do nosso

retiro nas terras que possuímos na Aquitânia. Não podemos atingir o Céu sem a centralização de nossa alma na prece

— Como conseguiremos, porém, ajudar a Humanidade, simplesmente orando? —

ajuntou Corvino, seguro de si. — Temos companheiros admiráveis estacionados no deserto.

Organizam pousos solitários, desfiguram-se, atormentam-se e crêem auxiliar, por esse modo,

a obra de redenção humana. Mas se devêssemos procurar a tranquilidade própria, a fim de

servir ao Criador, por que motivo teria Jesus vindo até nós, partilhando conosco o pão da vida? Em que luta condecorar-se-áo soldado que desiste do combate? em que país haverá colheita valiosa para o lavrador que nada mais faz que contemplar a terra, a pretexto de amá- la? como semear o trigo, sem contacto com o solo? como plantar o bem, entre as criaturas, sem suportar o assédio da miséria e da ignorância? não podemos admitir salvação sem a intimidade daquele que salva com aquele que se encontra desviado ou perdido. Ante a pausa que se fêz espontânea, Galiano considerou:

— As tuas ponderações são mais que justas, mas não podemos concordar com o pecado e

nem permitir que as almas desprevenidas dele se aproximem.

— Os pagãos nos acusam de ladrões da alegria — acentuou Pafos, um diácono aureolado

de cabelos brancos —, acreditam que o Evangelho é um manto de tristeza asfixiando o mundo.

— E não falta quem veja na peste uma vingança das divindades olímpicas — informou

Ênio Pudens, excelente companheiro que o tempo encanecera —; muita gente volta a clamar contra nós, supondo sejamos os causadores da ira celeste. Valeriano, um amigo nosso que trabalha no Fórum, contou-me, particularmente, que entre as solicitações formuladas pelo

Concílio (11), na festa de Augusto, consta um apelo para que sejamos de novo flagelados. E afirmou que a execução de semelhante pedido vem tardando, porque o Imperador Alexandre Severo não está suficientemente seguro. Galiano sorriu e acrescentou:

— Mais um motivo para o insulamento dos que pretendem adorar a Deus, sem a perturbação dos homens

A frase reticenciosa ficara no ar, mas Corvino, tocado de profundo ardor pela causa do Evangelho, retomou a palavra, decidido:

— Veneráveis irmãos, admito não nos caiba o direito de interferir na resolução dos que buscam

(11) Assembléia gaulesa com direito de opinar diante da autoridade de César. — (Nota do Autor espiritual.)

a solidão, contudo, creio não devamos incentivar o movimento que podemos classificar por deserção. Estamos numa guerra de idéias. O primeiro legionário que tombou, em holocausto à libertação do espírito humano, foi o próprio Mestre, nosso Comandante Divino. Desde a cruz do Calvário, nossos companheiros, em vasta frente de valoroso testemunho, sofrem o martirológio da fé viva. Há quase duzentos anos somos pasto das feras e objeto desprezível nos divertimentos públicos. Homens e mulheres, velhos e crianças têm sido levados a arenas e cárceres, postes e fogueiras, revelando o heroismo da nossa confiança num mundo melhor. Não seria lícito trair-lhes a memória. Os adversários de nossa causa têm-nos como amargurados portadores da indiferença pela vida, mas é que ignoram a lição do Benfeitor Celeste que nos indicou no serviço da fraternidade a fonte do verdadeiro bem e da perfeita alegria. Urge, assim, não nos afastemos do trabalho e da luta. Há construções no plano do espírito, como existem no campo da matéria. A vitória do Cristianismo, com a livre manifestação do nosso pensamento, é obra que nos compete concretizar. Surgiu pequeno intervalo na conversação, que a palavra de Ênio interrompeu:

— No que se refere a serviço, nossa posição não é das melhores. Muitas famílias, pressentindo a perseguição, vêm dispensando os empregados cristãos. Ainda ontem as oficinas de Popônio demitiram dez companheiros nossos. — Mas temos o direito de esmolar para a igreja e a igreja precisa sustentá-los — observou Galiano, cuidadoso. Corvino, porém, obtemperou, firme:

Sim, temos o direito de esmolar. Esse, contudo, é também o direito do mendigo. Não nos cabe, segundo nos parece, olvidar a produção de benefícios para o mundo. Temos terra disponível, sob a responsabilidade de vários irmãos. O arado não mente. Os grãos respondem com fidelidade ao nosso esforço. Podemos trabalhar. Não devemos recorrer ao concurso alheio, senão em circunstâncias especiais. Não seria aconselhável manter a comunidade improdutiva. Cabeça vaga é furna de tentações. Creio em nossa possibilidade de auxiliar a todos, através do esforço bem dirigido. O serviço de cada dia é o recurso de que dispomos

para testemunhar o desempenho dos nossos deveres, diante dos que nos acompanham de

perto, e o trabalho espontâneo no bem é o meio que o Senhor colocou ao nosso alcance, a fim de que sirvamos à Humanidade, com ela crescendo para a Glória Divina.

O explicador ainda não havia terminado, quando a porta se entreabriu e um companheiro

anunciou:

— Irmão Corvino, a irmã Pontimiana roga-lhe a presença.

O presbítero pediu permissão aos confrades e retirou-se.

Na praça pobre de acesso ao templo, que mal começava a erguer-se, uma senhora respeitável esperava-o. Era a guardiã do palácio rural de Opílio Veturio. Embora contrariando o esposo, fizera-se amiga fiel da igreja, ouvindo Corvino, que lhe amparara a renovação espiritual, passo a passo. Não obstante idosa, Pontimiana revelava extrema agudeza nos olhos lúcidos, que sempre refletiam a cristalina bondade de sua alma. Tantas vezes auxiliada pelo presbítero, convertera-se em prestimosa irmã dêle, devotando-lhe estima sincera. Sorridente, saudou-o e foi logo informando:

—Taciano, o menino agora rapaz que o senhor conheceu em Roma, chegou hoje. Tratando-se de alguém cujo destino sempre lhe interessou, vim trazer-lhe a notícia. O semblante do religioso cobriu-se de extrema palidez. Enfim, reveria o filho bem-amado. Quase vinte anos haviam decorrido. Constantemente, procurava-o no rosto dos órfãos e achara-lhe o carinho no peito das crianças sem lar que o buscavam, trêmulas de frio. Em todas as preces ao Senhor, lembrava- lhe o nome, no imo dalma. Consoante as lições do apóstolo que lhe consolidara a fé, consagrara-se ao trabalho da terra. Distanciara-se dos conhecimentos náuticos, renunciara à vocação do comando, amaciara a voz e aprendera a obedecer. Tomando o velho Corvino por padrão renovador, dividia a existência entre o santuário e o serviço comum. Não se tornara famoso, em Lião, simplesmente pela abnegação com que se dedicava aos enfermos, curando- os e reanimando-os através da oração, mas também pela arraigada ternura com que se empenhava na proteção à infância. Habitava numa propriedade da igreja com trinta meninos, aos quais servia de mentor e de pai, seguido, de perto, pela cooperação de duas velhinhas. Quinto Varro, convertido em presbítero, encontrara nos pequeninos o alimento espiritual da alma saudosa. Apesar da prevenção reinante contra a igreja, a cidade respeitava-o. Os pobres e os infelizes rendiam-lhe rasgado preito de amor. Mas não era somente grande

no apostolado da fé. Agigantara-se em humildade, fazendo-se o jardineiro-chefe de cinco residências patrícias. Orientava os escravos com tanta mestria no preparo do solo e na educação das plantas, que conquistara, não apenas significativo salário, mas também admiração e preferência.

A casa senhorial de Vetúrio incluía-se entre as mansões aristocráticas cuidadas por ele.

Captara a confiança dos mordomos e a estima dos servos. Era na extensa propriedade um cooperador e um amigo. No fundo, Varro sabia que esse era o único recurso de rever Taciano e oferecer-lhe os braços paternais. Desvelara-se, por isso, na formação do parque, no meio do qual se levantava a casa de Opílio. Nenhum jardim, em Lião, se lhe igualava em beleza. Informado por Alésio e Pontimiana, que algumas vezes visitavam Roma, de que o filho era apaixonado por rosas rubras, com elas desenhou vastos canteiros, dando-lhes a figura

especial de um coração, marginado de flores, em cujo centro acolhedores bancos de mármore, entre repuxos amenos, convidavam à meditação e ao repouso. Trabalhara muito durante os dezessete anos que o distanciavam do lar, a fim de merecer o contentamento daquela hora. Fizera-se mais experiente, mais esclarecido. Mantivera longo contacto com os mestres do pensamento, em várias línguas. Sobrenadara a corrente de aflições do próprio destino e procurara vencer todos os percalços para comparecer, ainda que para sempre anônimo e irreconhecível, diante do filho incessantemente lembrado, com a dignidade do homem de bem. Como fazer face à surpresa daquela hora? Teria forças para abraçar Taciano, sem compro- meter-se? A voz de Pontimiana veio arrebatá-lo da obcecante reflexão:

— Irmão Corvino, o senhor sente-se mal, porventura?

Como que acordando de um sonho atormentado, o presbítero recompôs a fisionomia e respondeu, gentil:

— Desculpe, irmã. Estou bem.

— É que não disponho de muito tempo —tornou ela, preocupada. — O jovem Taciano chegou doente.

Doente?

Sim, tudo indica seja portador da peste maldita.

E,

ante o coração paterno, amargamente surpreendido, continuou:

Vim até aqui, não somente para o comunicado, mas também para rogar-lhe o

concurso. Atendendo às perguntas que lhe foram dirigidas, a empregada de Vetúrio esclareceu que o rapaz chegara com febre alta e vômitos frequentes, sofrendo inquietante angina que lhe impedia a deglutição. Os escravos que lhe formavam o séquito adiantavam que o moço parecia muito acabrunhado na viagem, piorando, entretanto, somente na véspera, horas antes de alcançarem a cidade. Ela e o marido haviam movimentado todas as providências. Taciano instalara-se no quarto confortável que, desde muito, o aguardava, e um médico de confiança fôra chamado. Não conhecia ainda os efeitos da inspeção, todavia, resolvera pedir-lhe ajuda imediata, em razão da experiência que ele, Corvino, adquirira nas tarefas assistenciais que

abraçara, junto dos pestosos. Sabia, de antemão, que a casa seria marcada por zona perigosa e que o esposo e ela não poderiam contar senão com servidores insipientes. Não podia esperar a contribuição de romanos prestigiosos. Os patrícios de nomeada, em maioria, estavam em vilas campestres, a longas distâncias, receosos de contágio.

O presbítero ouviu, de coração opresso, desejando colocar-se junto do filho, para o que

desse e viesse. Mas, atento às responsabilidades que o prendiam ao templo, prometeu visitar o

enfermo, tão logo se desincumbisse das obrigações mais urgentes. Com efeito, ao entardecer, fêz-se substituído no lar dos meninos e, à noitinha, dava entrada no aposento do filho. Amparado por Alésio, o jovem agitava-se em náuseas aflitivas. O rosto descarnado denunciava-lhe o abatimento.

Por mais que o mordomo apresentasse o religioso, Taciano, febril, não dava conta de si mesmo.

O olhar esgazeado passeava pelo quarto, vagueando inexpressivo.

Enquanto Corvino lhe acariciava a cabeça suarenta, o guardião informava:

— Há duas horas começou a delirar.

Realmente, findos alguns minutos de pesada expectação, o doente pousou no visitante os olhos empapuçados, alterando-se-lhes o brilho. Indisfarçável interesse se lhe estampou na máscara fisionômica. Contemplou demoradamente o presbítero, qual se houvesse

enlouquecido e, tentando afastar a delicada cobertura, bradou:

— Quem trouxe a informação da morte de meu pai? onde estão os escravos que o assassinaram? Malditos! Todos serão mortos

O benfeitor dos enfermos, colhido à queima-roupa por semelhantes palavras, recorreu à

prece para não trair-se.

Pálido e semi-aterrado, orava em silêncio, enquanto Taciano. como se entrevisse a realidade nos desvarios da febre, prosseguia gritando:

Conhecerei a verdade por

mim mesmo

Faremos um inquérito. Punirei os culpados. Como puderam esquecer tamanho

delito? Disse-me Opílio que há muitos crimes na sombra e que a justiça é incapaz de todos os

— Conduzamos a galera até Cartago!

Não posso recuar

reajustes

mas serei o vingador de meu pai

Quinto Varro sera reabilitado. Não perdoarei a

ninguém

Aniquilarei todos os patifes.

Preocupado talvez com a estranheza do irmão Corvino, o esposo de Pontimiana falou-lhe, reservado:

— O rapaz, fora de si, lembra-se do pai assassinado, faz muitos anos, por escravos nazarenos, na embarcação que o conduzia para a África, em missão punitiva.

E provavelmente porque o interlocutor apenas se manifestasse, através de monossílabos, acrescentou:

— Quinto Varro era o primeiro marido da patroa. Consta que viajava rumo a Cartago,

incumbido de providenciar o castigo de vários cristãos insubmissos, quando foi apunhalado por servidores irresponsáveis e inconscientes Arejou um dos lençóis que envolviam o paciente e prosseguiu:

— Pobre menino! Embora educado por Vetúrio qual se lhe fôra filho, revelou-se, desde

cedo, atormentado pela memória paterna. Em seguida, baixou o tom de voz e, abeirando-se, cuidadoso, do presbítero, observou, deixando-lhe perceber o constrangimento com que o recebia na intimidade:

— A morte de Varro acirrou na família, como é justo, o ódio ao Cristianismo. Taciano foi

criado pela genitora na extrema veneração às divindades. A senhora costuma dizer que preparou o filho para combater a mistificação gallleia e não oculta o propósito de fazê-lo

sustentáculo da munificência imperial. Respeito, assim, a sua cooperação, na qual Pontimiana deposita a maior confiança, contudo, sinto-me no dever de rogar-lhe cautela, a fim de que o rapaz não se sinta ofendido em seus princípios.

O abnegado irmão dos pobres não se surpreendeu com a observação.

Não obstante sentido, agradeceu a advertência. Que não faria para demorar-se, ali, junto ao doente que ansiava por asilar nos seus braços? Ocupou-se, carinhoso, em ministrar as beberagens indicadas pelo facultativo, esforçando-

se, com todos os recursos de que dispunha, na enfermagem completa. Taciano piorava sempre.

Noite alta, Alésio e a esposa se recolheram, recomendando a três escravos prestimosos se revezassem no trabalho noturno de assistência.

O irmão Corvino, porém, não arredou pé do leito.

Demorava-se o moço na fase culminante da febre insidiosa. A escarlatina complicada atingira o período de invasão. Por trinta horas consecutivas, o religioso, entre a força da fé e a abnegação do amor, acompanhou-o, com desvelada ternura, conquistando o reconhecimento de todos os circunstantes. No segundo dia, a erupção surgiu em manchas pequenas e vermelhas, começando no tórax, e, por várias semanas, o rapaz foi objeto de meticulosa atenção. Muitas vezes, velando-lhe o sono, em lágrimas, o presbítero afagava-o, paternalmente, e

sofria a tentação de revelar-se. Como, porém, abrir uma guerra de morte contra Cíntia? não esposara ele no Evangelho um novo modo de ser? que testemunho de lealdade ao Cristo poderia afirmar, semeando ódio e amargura no espírito do filho bem-amado? adiantaria a Taciano qualquer atitude, tendente a impor-lhe afeição? Em muitas ocasiões, orou, pedindo a Jesus o inspirasse, e vezes frequentes contemplou o velho Corvino, em sonho, aconselhando-o a extrema renúncia, qual se lhe trouxesse a resposta do Alto. Na posição de expositor da Boa Nova, achava-se ligado a milhares de pessoas, que lhe buscavam o exemplo e a palavra por respeitáveis diretrizes. Não podia, desse modo, hesitar. Grande era o amor pelo filho, no entanto, o amor sublime do Mestre era maior e devia conservá-lo digno, nas responsabilidades supremas. Quando o enfermo recuperou a lucidez, abraçou-o, reconhecidamente, nele identificando, não só o jardineiro chefe da casa, mas também o benfeitor inesquecível. Sentindo-se infinitamente atraído para aquele homem humilde que o visitava, perseverante, Taciano apreciava entreter-se com ele, por longas horas, em explanações sobre ciência e arte, cultura e filosofia. Ligavam-se nos mesmos temas e nas mesmas preferências. Discutiam Vergílio e Lucrécio, Lucano e Homero, Epicuro e Timeu de Locros, Sêneca e Papiniano, com análogos pontos de vista. Todavia, como se temessem perder a fascinante comunhão em que se mergulhavam, pareciam linhas paralelas em religião. Evitavam, sistemàticamente, qualquer comentário em matéria de fé. Amparado pelo amigo, o rapaz já conseguia efetuar vários passeios no parque enriquecido de suntuosa vegetação, e, ali, à sombra de vigorosos abetos ou entre giestas em

flor, entabulavam preciosas conversações, sorridentes e felizes, à maneira dos antigos helenos, que preferiam a permuta de avançados conhecimentos no santuário da Natureza. Certa feita, espicaçado pela curiosidade, Taciano indagou quanto às razões do seu insulamento na Gália, quando poderia ser, em Roma, festejado professor. Donde vinha e porque se condenara à obscuridade colonial? Relutante, Corvino confessou que nascera na metrópole dos Césares, mas apaixonara-se pelo serviço junto à comunidade gaulesa e vira-se preso por fortes laços do coração.

— Que trabalho, contudo, encarcerar-te-ia em Lião, a ponto de esquecer-te? — perguntou

o jovem com espontâneo carinho. — Admito que os herdeiros da glória patrícia não deviam abandonar a educação aos escravos. Um egípcio ou um judeu não podem produzir os pensamentos de que carecemos para a garantia da grandeza imperial.

— Sim, sem dúvida — concordou o amigo, bondoso —, entretanto, acredito que também

as províncias nos reclamam acurado interesse, O mundo está repleto de nossos legionários. Possuimos forças incoercíveis de civilização, em todas as frentes. Nossos imperadores podem ser proclamados em variadas zonas da Terra. Em razão disso, não podemos olvidar a necessidade de instrução, em todos os setores. E, sorrindo, acentuou:

— Por este motivo, converti-me em mestre-escola.

Taciano partilhou-lhe o bom humor. Nesse instante, uma idéia nasceu no cérebro de Varro. E se lhe trouxesse as crianças para uma Visita de amor? Não seria a maneira mais segura de tocar-lhe o coração para o despertamento evangélico? o rapaz poderia ignorar-lhe a condição para sempre, mas seria justo não convidá-lo para o banquete da luz divina? Quem adivinharia as vantagens de semelhante realização? Pela inteligência de que se mostrava

portador, o filho, naturalmente, impusera-se na família. Percebia-se logo que as opiniões dele se faziam respeitáveis. Apesar de extremamente jovem, era senhor das próprias convicções. Um cântico infantil conseguiria, decerto, sensibilizá-lo. Taciano provavelmente se inclinaria a estudar as lições de Jesus, se os meninos lhe alcançassem as cordas da alma Depois da reflexão de segundos, dirigiu-se ao convalescente, de olhos iluminados por secreta esperança, e indagou como receberia ele a saudação dos pequeninos de que se erigira guardião. O pupilo de Vetúrio não regateou encômios à idéia. Sentir-se-ia muito feliz com a homenagem, declarou. Sempre admitira que o futuro pertence à criança. A civilização romana, a seu ver, não podia descurar-se da preparação juvenil. No dia previamente marcado, o próprio Taciano, com o auxílio de Alésio e da mulher, organizou, na encantadora Praça das Rosas Rubras, deliciosa criação de Corvino, o ambiente festivo da recepção. Cestos de frutos e cântaros com abundante provisão de suco de uvas foram artisticamente espalhados entre os bancos de mármore. O corpo musical da herdade, constituído por escravos jovens, foi trazido à reunião. Garbosos moços, empunhando liras e alaúdes, tambores e sistros, improvisavam melodias alegres. Dividia-se a fazenda em duas correntes partidárias: a dos servidores cristãos, inflamados de júbilo e esperança, dirigidos pelo otimismo de Pontimiana, e a dos cooperadores, devotos dos deuses olímpicos, capitaneados por Alésio, que não enxergavam o acontecimento com bons olhos. De um lado, surgiam preces e sorrisos de fraternidade, mas de outro apareciam impropérios e rostos sombrios. Com a sabedoria do apóstolo e com a ingenuidade da criança, o irmão Corvino penetrou o recinto perfumado, conduzindo três dezenas de petizes, em singela apresentação. Orientados pelo mentor, chegaram cantando um hino simples, que exprimia caricioso voto de paz.

Companheiro, Companheiro! Na senda que te conduz, Que o Céu te conceda a vida As bênçãos da Eterna Luz! Companheiro, Companheiro! Recebe por saudação Nossas flores de alegria No vaso do coração

As vozes humildes assemelhavam-se a um coro de anjos que o bosque recebesse pelas asas do vento. Taciano acolheu, bondoso, a colmeia infantil. Dois bailarinos executaram números cômicos, enquanto a petizada se ria, feliz. Alguns jogos inocentes foram postos em prática. Seis meninos recitaram poesias de nobre delicadeza, através de monólogos e diálogos que encantaram a assembléia da qual constavam muitas dezenas de escravos em trajes festivos. Em certo momento, Taciano tomou a palavra, referindo-se aos ideais da pátria e da raça, no engrandecimento da Humanidade. Logo após, a merenda farta espalhou o contentamento culminante.

O prestimoso jardineiro que se fizera o afortunado credor de tantas atenções, trouxe ao

jovem patrício o menor da turma. Era Silvano, um menino de cinco anos apenas, filho de um

legionário que morrera no porto. A desditosa viúva, atacada pela peste, confiara-lhe o garoto, semanas antes. Taciano abraçou-o, com sincera ternura, dirigindo-lhe a palavra, carinhosamente.

O irmão Corvino declarou que lhe cabia providenciar o regresso das crianças e, por isso,

designava Silvano para dizer uma prece pela felicidade do anfitrião.

O

pequeno, submisso, trocando jubiloso olhar com o orientador, procurou o centro da

praça.

O

momento era de extrema expectativa.

Todos os circunstantes entreolharam-se, aflitos

O pupilo de Vetúrio acompanhava a cena, sorridente, certo de que seria lembrado numa

oração comum às Divindades.

O pequeno, de cabeça erguida ao Céu, como um soldadinho triunfante, começou a falar,

comovidamente:

— Jesus, nosso Divino Mestre !

Ajuda-nos

Nesse instante, porém, súbita palidez cobriu a face do moço patrício. A fisionomia,

dantes calma e educada, tornou-se-lhe irreconhecível. Feroz expressão eclipsou-lhe a alegria. Repentinamente convertido numa fera humana, rugindo cólera, clamou, terrível:

— Abaixo os nazarenos! abaixo os nazarenos!

Maldito Corvino!

Maldito Corvino!

que desgraça! quem se atreveu a introduzir cristãos em minha casa? Farei justiça, justiça! Acabarei com esta praga! Penosa surpresa dominou o recinto.

O paternal benfeitor aproximou-se dele e implorou:

— Piedade! Piedade!

Taciano, contudo, não viu as lágrimas que fulguravam nos olhos dele. Recuando, desesperado, respondeu em voz seca:

-

Piedade? Reparem o velho refrão dos imundos galileus!.

E

agitando um bastão de ponta metálica, rugia, estentórico:

Víboras do monturo, filhos das trevas,

para fora daqui! O jovem parecia possesso de demônios do crime, tal a máscara de indignação e perversidade que lhe surgira no rosto. Os pequerruchos tremiam imóveis. Entre eles e o filho encolerizado, o coração de Varro não sabia o que fazer. Muitos servidores do grupo de Alésio passaram a gargalhar ruidosamente. Taciano relanceou os olhos na assembléia e bradou para o capataz que conhecia como

sendo o mais ferrenho inimigo dos cristãos:

— Fora daqui! para fora daqui, gênios infernais!

-

Epípodo, traze o cão selvagem! Expulsemos a canalha! Aniquilemos os embusteiros!

O

escravo não hesitou. Atendeu, presto, e, em poucos instantes, aproximava-Se um cão

enorme a ladrar e a rosnar com fúria.

Os meninos debandaram aos gritos, dilacerando-se muitos deles na ramaria espinhosa das roseiras em flor.

O irmão Corvino, atônito, procurava acalmar os ânimos, entretanto, a fera alcançou o

caçula, abocanhando-lhe o corpo tenro. Aos gemidos de Silvano, a esposa de Alésio avançou, corajosa, e arrebatou a criança, contendo energicamente os movimentos do furioso mastim, que obedeceu em ganidos estridentes. Apressou-Se Varro a recolher o pequeno ferido que chorava a esvair-se em sangue. Aflito, tentava aliviá-lo, enquanto Taciano, desvairado, se dirigia ao interior doméstico,

repetindo:

— Todos pagarão!

Rufo, velho escravo da quinta, abeirou-se do presbítero, oferecendo-lhe os préstimos.

O religioso aceitou-lhe a cooperação, rogando-lhe reconduzisse os meninos ao lar, de

todos pagarão!

modo a ocupar-se de Silvano, como se fazia mister. Dispôs-se ao regresso, conchegando a inocente vítima, de encontro ao peito.

Caminhava, lentamente, no trecho isolado que ligava a residência de Vetúrio à cidade, absorto em escuros pressentimentos.

O menino, de tórax aberto, confrangia-lhe a alma. Em dado momento, parou de gritar,

embora a hemorragia prosseguisse, abundante.

O irmão Corvino percebeu-lhe a queda de forças e buscou repousar, sob vetusto carvalho,

a fim de ouvi-lo.

O pequerrucho fitou nele os olhos embaciados pela agonia

Varro, em pranto, inclinou-se, paternalmente. e perguntou, com carinho:

— Estás recordando Jesus, meu filho?

— Estou sim senhor

— respondeu em voz débil.

Mas, revelando-se muito distante das questões transcendentes da fé — flor humana sequiosa de ternura —, exclamou para o benfeitor:

Tenho frio

coração, como se desejasse aquecê-lo com o calor da própria alma. Tudo em vão. Silvano estava morto.

— Papai, abrace-me

Quinto Varro compreendeu. Estreitou-o contra o

O doloroso acontecimento traçava sombrios horizontes ao futuro da igreja.

Abatido e desencantado, o presbítero perguntava a si mesmo se não fôra precipitado na visita. Entretanto — refletia —, seria leviandade oferecer alguem o que possui de melhor, com pureza de sentimento? Guardava nos pequenos aprendizes do Evangelho a coroa do seu trabalho. Poderia ser acusado pela circunstância de tudo fazer por despertar um filho para a verdade? Como entender-se com Taciano, sem tanger-lhe as fibras mais íntimas? Restabelecido no equilíbrio físico, o jovem seria convocado à vida social intensa. Conhecer-lhe-ia o ministério. Seria constrangido a decidir-se. Não seria, pois, aconselhável

informá-lo, indiretamente, quanto às suas atividades cristãs? e que melhor maneira de fazê-lo, além daquela de apresentar-lhe os seus princípios numa demonstração prática de trabalho? Se

o filho não conseguisse ouvir qualquer referência à Boa Nova, através dos lábios de uma

criança, em prece, como suportaria qualquer alusão a Jesus, em discussões estéreis? Não podia ele, Varro, hesitar entre qualquer sentimento pessoal e o Evangelho. Seus deveres para com a Humanidade superavam-lhe as ligações consanguíneas. Embora reconhecesse semelhante verdade, entendia lícito operar, de algum modo, em favor do filho querido. Taciano, porém, mostrara-se impermeável e rígido.

Parecia muito distante de qualquer acesso àprópria justiça. Petrificara-se-lhe a mente no orgulho racial e na falsa cultura. Pela explosão de cólera a que se atirara, ao ouvir a simples enunciação do nome do Cristo, denunciara o antagonismo talvez irremediável que os separava Profundamente consternado, entregou-se ao refúgio da oração. Na comunidade evangélica ninguém comentou desfavoràvelmente os tristes sucessos que redundaram na morte da criança. O irmão Corvino era demasiadamente respeitado para provocar qualquer crítica desairosa à sua conduta. Nos ajuntamentos da cidade, contudo, o assunto crescia esfervilhante. As correntes de opinião nascidas em casa de Vetúrio distendiam-se, agora, por todos os lugares. Para a maioria dos espectadores, Taciano era apresentado na condição de um herói, empunhando o gládio vingador das divindades olímpicas, mas para o grupo simpatizante do Cristianismo surgia como símbolo terrível de novas perseguições.

Os cristãos comumente eram acusados de encantamentos vergonhosos e detestáveis e de

práticas de bruxaria, das quais o infanticídio fazia parte. E, por isso, não faltou quem visse na morte de Silvano alguma coisa relacionada com feitiçaria e operações mágicas. Quadros terríveis foram pintados pela imaginação do populacho exaltado e a viúva Mércia, mãe do menino morto, foi convocada à acusação. Nessa atmosfera asfixiante, o filho de Cíntia começou a receber a visita de romanos destacados, que lhe felicitavam o espírito reacionário e vigilante. Revigorado por semelhantes aplausos, sentia-se o rapaz habilitado para atuação de maior vulto.

O próprio questor Quirino Eustásio, velho patrício aposentado das lides políticas, mas

influente junto à Propretura da Gália Lugdunense, veio ter com ele para saudações em estilo pomposo. Dentre os assuntos tratados, não podia faltar o tema preferido. —Acredito que a mocidade romana não poderia enviar-nos à província mais digno embaixador — encareceu o cortesão, com o calculado timbre de voz das pessoas entregues à bajulice. — A deplorável doutrina dos judeus proscritos insinua-se assustadoramente, ameaçando-nos as tradições. Esta cidade vive cheia de anacoretas da Ásia, de profetas vagabundos, de pregadores e fantasmas. Domiciliado aqui, desde os bons tempos de nosso magnânimo imperador Séptimo Severo, que os deuses conservam em sua glória divina, posso afirmar a minha convicção de que o movimento não passa de loucura coletiva, capaz de arrastar-nos à perdição. —Sim, sem dúvida — observou o jovem satisfeito —, compete-nos recuperar o culto da

pátria. A nosso ver, grande conjugação de energias se faz indispensável, a fim de extinguirmos a quadrilha maléfica. Não compreendo em que poderia repousar a grandeza de uma doutrina, cujos prosélitos se mostram honrados com o cutelo na cerviz. Em Roma, tive conhecimento de muitos processos alusivos às repressões e espantei-me com o teor das respostas dessa gente infeliz. Repudiam os deuses com uma desfaçatez de assombrar. Creio que as autoridades deveriam promover um expurgo social, em grande estilo. O interlocutor, com o riso irônico de velho fauno, admiràvelmente apresentado, acentuou, malicioso:

—Em razão disso, rejubilamo-nos com a sua presença. Se a juventude patrícia não formular uma reação à altura de nossas necessidades, rumaremos para a decadência. A sua coragem na expulsão desse renitente Corvino é um desafogo para nós. Recebi a notícia, como justo regalo. Estou convencido de que a nossa fé se sente agora menos ofendida. Não vemos com bons olhos esse homem estranho, cuja procedência é ignorada de todos. Para mim, não passa de um aventureiro ou de um louco a perturbar-nos o caminho.

O enteado de Vetúrio, mordiscando-se de curiosidade, indagou com interesse:

— Não se sabe, assim, quem é ele? por que mistérios guarda consigo tamanha cultura a

estagnar-se em serviços de jardinagem?

O interlocutor piscou os olhos astutos e acrescentou:

— Quem sabe? insinuou-se no espírito popular com incrível desenvoltura. Há quem o

tome por santo, contudo, inclino-me a crer que não passe de algum feiticeiro, cercado de seres infernais. Trazia a aparência de um vagabundo quando surgiu aqui. Pouco a pouco, adquiriu a fama de curar pelas preces nazarenas, com imposição das mãos, e a primeira casa importante que lhe caiu nas garras foi a de Artêmio Cimbro, cuja filhinha, ao que dizem, sofria grandes perturbações mentais. Experimentado o tratamento de Corvino, parece que a menina se impressionou favoràvelmente, recuperando-se, então, qual se fôra um milagre. Daí para cá, fêz-se o jardineiro da nobre família, que o introduziu em residências outras. Da sua vida pro- fissional, é tudo quanto sei. Das atividades do mago, porém, muito teria a dizer se pudesse. Refere-se o vulgo a mil coisas. Se fôssem apenas os plebeus a se mostrarem maravilhados Entretanto, temos alguns patrícios ilustres enleados na rede. Dizem alguns que a palavra dele

está revestida de miraculoso poder, afirmam outros que ele cura as mais complicadas enfermidades

— É estranho ver uma cidade como esta, a desvairar-se por este modo! — comentou

Taciano, com interesse. Por isso mesmo, necessitamos de elementos renovadores. A sua decisão, rechaçando Corvino, é sumamente confortadora. Ele é incompetente para conduzir crianças, mesmo desprezíveis. Sei que Artêmio lhe advoga a causa, mas estou convencido de que poderemos

interromper-lhe, doravante, as mistificações. Zenóbio, um velho amigo que foi alto dignitário da imperial munificência, comunicou-me, ontem à noite, informado por fontes dignas de crédito, que o menino morto fôra encaminhado aos dentes do cão pelo próprio Corvino, a fim de que a malta cristã obtivesse sangue inocente para os mistérios negros das reuniões que praticam. É notório que ele foi a única testemunha do ato final E, baixando o tom de voz, perguntou:

— Teria o dileto amigo observado isso? Seria muito importante registrar o fato, através

de sua própria boca

Taciano, de rosto esfogueado, a exprimir o choque de contraditórias emoções, esclareceu, presto:

— Nada posso adiantar nesse sentido. Quando ouvi o nome do crucificado, a revolta

subiu-me à cabeça. Não tive olhos senão para defender a nossa propriedade contra a influência pestilencial. Determinei a soltura do cão de guarda, possuído de extrema

desesperação. Não me cabe, por isso, asseverar aquilo que não verifiquei por mim mesmo. Quirino, porém, mordeu os lábios, contrariado, e ajuntou:

— Fique certo, contudo, de que as coisas não terão ocorrido de outro modo. Reajamos em

conjunto. Nossos escravos não podem continuar à mercê de bruxos inconscientes e nem será lícito permitir que pessoas de nossa condição social se deixem embair sem defesa

— Nisso, achamo-nos de pleno acordo — salientou o rapaz, resoluto —; de minha parte,

pretendo corrigir e selecionar a comunidade de servidores. — E que plano traçou para esse serviço? gostaria de agir em minha casa com uniformidade de vistas. — Aguardo a vinda de meus pais, em breves dias, que trarão consigo Helena, a minha futura esposa. Como passarei a residir aqui depois do meu casamento, antecipei-me a eles, a fim de adaptar a vida da propriedade aos hábitos de minha família e de modo a afeiçoar-me às usanças da província. Não desejo, todavia, que os meus encontrem os disparates surpreendidos por mim. Pretendo reunir todos os servos, a fim de prestarem juramento aos deuses que veneramos. Afastarei quem fugir ao justo compromisso. Em seguida, penso instituir em casa o culto de Cíbele, começando com uma cerimônia processional pelo nosso bosque. É indispensável purificar os costumes e os ares.

Quirino concordou, entusiástico, e prometeu aderir ao programa. Não somente faria o mesmo em seu domicílio, mas convocaria os amigos a acompanhá-lo. Estimava Opílio Vetúrio, de longos anos, e felicitava-se por ver-lhe a organização doméstica zelosa e bem guardada. Realmente, depois de alguns dias, quando os sofrimentos da peste desapareciam no olvido comum, Taciano promoveu a grande assembléia do lar para a reafirmação de fidelidade aos deuses. Em vastíssima dependência da herdade, uma soberba estátua de Cíbele fôra instalada para

a recepção dos votos gerais, enquanto que à direita da imagem, num alto palanque paramentado de seda carmezim e fios dourados, instalaram-se Taciano, dois sacerdotes populares da deusa e o casal de mordomos, Alésio e Pontimiana. Numa extensa galeria, consideravelmente elevada, junto às portas de acesso ao grande recinto, a nobreza citadina, trazida por Eustásio, rejubilava-se com as cerimônias.

Em baixo, acotovelavam-se todos os servidores da família, dentre os quais alguns artistas repetiam cânticos consagrados à divindade. Num pequeno altar, graciosamente florido, a imagem que Vetúrio importara de Pessinunte figurava-se uma testemunha impassível. Cíbele, ladeada por dois leões, esculpida em mármore imaculado, representava realmente

o símbolo de uma civilização bruxuleante, à frente do olhar indagador e triste de dezenas de escravos, sob a orgulhosa exibição dos senhores.

O primeiro a aproximar-se, criando naturalmente um padrão para ser imitado, foi

Taciano, que, reverente diante do ídolo, declarou em voz alta:

— Sob a invocação da Divina Cíbele, Mãe dos deuses e mãe nossa, juro irrestrita

fidelidade às crenças e tradições dos nossos antepassados e perfeita obediência aos nossos eternos imperadores. Frenéticos aplausos coroaram-lhe as palavras. Um hino sacro, acompanhado por flautas frígias, fêz-se ouvir cadenciado e melodioso. Em seguida, Alésio desceu do trono improvisado e, dando a idéia de que a cena havia sido previamente estudada, pronunciou respeitosamente os mesmos votos. Logo após, veio Pontimiana. A nobre senhora parecia doente e fatigada. Adivinhava-se-lhe a luta íntima. Palidíssima, enviou ao marido suplicante olhar, mas, pela expressão rude com que Alésio

a fitou, era possível imaginar os duros conflitos em que se haviam empenhado, antes da cerimônia Contida pelos olhos frios do companheiro, a orientadora da casa enxugou as lágrimas e repetiu, pausadamente, as mesmas palavras, negando assim a fé cristã que lhe atribuíam. Triunfante sorriso pairou na máscara fisionômica de Alésio, enquanto se alastrava cochichado sussurro em enorme agrupamento de servidores. Notas de amargurado assombro surgiram em vários rostos. Todos os escravos, um a um, alguns enfáticos e outros humilhados, reafirmaram as frases pronunciadas inicialmente pelo senhor.

O último foi Rufo.

Epípodo, o capataz, conhecia-lhe a firmeza de opinião e, por isso, deixara-o para o fim, temendo qualquer irregularidade tendente a estabelecer a indisciplina.

De semblante austero, evidenciando aceitar plenamente as responsabilidades daquela

hora, ergueu o bronzeado perfil, como se procurasse o céu e não a estátua impassível, exclamando em voz cristalina e dominadora:

— Juro respeitar os imperadores que nos governam , mas sou cristão e renego os deuses de pedra, incapazes de corrigir a crueldade e o orgulho que nos oprimem no mundo. Um burburinho percorreu a assembléia.

Taciano dirigiu-se, em voz baixa, ao sacerdote mais idoso e esse, assumindo a função de juiz, clamou para o servo, em tom autoritário:

— Rufo, não te esqueças de tua condição.

— Sim — concordou o interpelado, valoroso —, sou escravo, e sempre servi aos meus

senhores com lealdade, mas o espírito é livre

Verdadeiro Senhor!

Somente a Jesus Cristo reconheço por

— Exijo que te retrates perante Cíbele, a sublime Mãe dos Deuses.

— Nada fiz que não esteja aprovado pela retidão de minha consciência.

— Abjura e serás perdoado.

— Não posso.

— Sabes quais são as consequências de tua irreflexão?

— Creio falar com perfeito conhecimento de minha responsabilidade, entretanto,

quaisquer que sejam os resultados de meu gesto, não devo recuar perante a minha fé.

Rufo relanceou o olhar pelos circunstantes e notou que dezenas de companheiros

concitavam-no à resistência. Pontimiana, algo desafogada, enviava-lhe, em silêncio, muda mensagem de bom ânimo.

— Abjura! abjura! — trovejava a voz do padre com aspereza.

— Não posso! — repetiu Rufo, imperturbável.

Depois de ligeira confabulação com o jovem patrício, o improvisado julgador convocou Epípodo ao chicote.

Rufo, por ordem do algoz, despiu a túnica de gala que envergara para a festa e ajoelhou- se de mãos para trás.

O trançado fino e cortante lambeu-lhe a pele nua por três vezes, provocando sangrentos

vergões, mas o escravo não tremeu.

— Ainda há tempo, infeliz! — bradou, confundido, o sacerdote da Magna Mater — abjura e a tua falta será relevada

— Sou cristão — reiterava Rufo, sereno.

— O castigo poderá conduzir-te à morte!

— suspirou a vítima com humildade. — Jesus

conheceu o martírio na cruz para salvar-nos. Morrer por fidelidade a ele é uma honra a que devo aspirar.

O látego visitou-lhe o dorso com violência, abrindo-lhe feridas sangrentas, mas,

percebendo o mal-estar que a cena de selvageria impunha ao recinto, Taciano recomendou fôsse o escravo recolhido ao cárcere, até resolver quanto à definitiva punição. Terminado o serviço, começou a solenidade processional.

— O sofrimento não me intimida

O filho de Cíntia desejava uma purificação completa da propriedade.

Considerável multidão apinhava-se nos pátios da casa, aguardando o cortejo. A estátua de Cíbele foi colocada sobre riquíssimo andor de prata, ornamentado de lírios. Jovens pares, rigorosamente vestidos de branco, simbolizando a castidade e a beleza, abriam alas à frente, dançando, em rítmos graciosos, ao toque de flautas e pandeiretas do culto. Em seguida, todas as senhoras presentes, conduzindo palmas aromáticas, anunciavam o ídolo que, suportado pelos ombros de Taciano e de outros rapazes consagrados à deusa, se fazia seguir pelos sacerdotes em orações do rito frígio e pelos incensadores. Depois deles, uma jovem de rara beleza carregava o cutelo sagrado. Acompanhando-a, vinha o conjunto de musicistas, usando trompas, flautas, címbalos, tímpanos e castanholas, nos cânticos votivos, cujos trechos harmoniosos se perdiam no matagal. Os dignitários e os principais vinham, em fila, silenciosos e reverentes e, ao fim do préstito, congregava-se a massa de escravos, mudos e tristes. Os hinos de louvor à mãe dos deuses embalsamavam o bosque de doce melodia, interrompendo o chilrear dos pássaros assustados A procissão, em diversas fases, contornou a herdade, através do arvoredo bem cultivado e das vinhas extensas, tornando a casa, onde Cíbele foi restituida ao templo minúsculo que Opílio Vetúrio, em outro tempo, lhe erigira em pleno jardim. Taciano, tomando a palavra depois das preces dos sacerdotes, agradeceu a presença dos religiosos, das autoridades e do povo, enaltecendo a sua confiança na proteção das Divindades Olímpicas. Dispersou-se a colorida assembléia. Entardecia Sozinho agora no amplo terraço, de onde podia descortinar o horizonte lavado e límpido, o jovem, instintivamente, recordou o irmão Corvino, a morte de Silvano e a reação de Rufo e, sem perceber, começou a lutar com a influência do Cristo, não mais em derredor das próprias

idéias, mas dentro mesmo do coração.

6

No caminho redentor

Dias amargos surgiram para a igreja de Lião, depois da morte de Silvano. Gratificada por Eustásio, que odiava o Evangelho, a viúva Mércia, mãe da criança, veio a

público acusar o irmão Corvino, declarando-o feiticeiro e infanticida. Afirmou, perante as autoridades, que o menino fôra vítima de sortilégios malditos, chegando à crueldade de acrescentar que Silvano, órfão, tinha sido fascinado por engodos do pregador. Extremamente humilhado, o amigo dos pobres foi conduzido a interrogatórios oficiais, em que se comportou com admirável nobreza. Varro nada reclamou. Esclareceu que visitara a residência de Vetúrio com a melhor intenção e que, inadvertidamente, uma das crianças fôra atacada por um cão bravio, solto não sabia como. Não podia, desse modo, culpar a ninguém. Não faltaram insultos, por parte de romanos sarcásticos, que ele suportou com humildade e heroismo. Contudo, quando a prisão dele se fazia iminente, Artêmio Cimbro, patrício de grande fortuna e de não menor generosidade, advogou-lhe a causa, empenhando privilégios e haveres por livrá-lo do cárcere. Mobilizando altos valores políticos, junto ao legado propretor, conseguiu sustar a internação temporàriamente, arquivando-se o processo para despachos ulteriores, mas o risonho lar dos meninos desapareceu.

As crianças foram recolhidas à pressa, em vários domicílios de irmãos que as receberam

com amor. Considerado, pelas autoridades, indigno de orientar a infância, o companheiro dos sofredores sentiu despedaçar-se-lhe o coração, quando o último petiz o abraçou, chorando, às despedidas. Quinto Varro, o padrão varonil do bom ânimo e o exemplo da fé viva, não obstante a fortaleza espiritual de que invariàvelmente dera testemunho, cedeu à tortura que antecede o desalento. Entre a paixão pelo filho inacessível e o amor pelas crianças de que fôra irremediavelmente despojado, era surpreendido, vezes frequentes, entre lágrimas. Em muitas ocasiões, dentro da noite, via-se diante da chácara senhoril de Vetúrio, tentando ver o rosto de Taciano, em algum ângulo das janelas iluminadas e, não raro, horas mortas, buscava essa ou aquela residência particular para avistar-se com algum dos filhinhos do coração. Estudava intensamente, tentando fugir aos próprios pensamentos, em longas vigílias que

terminavam pela extrema fadiga. Mal se alimentava, empenhando-se em trabalhos sacrificiais

pelos doentes, receando talvez mergulhar-se na amargura, da qual resvalaria fatalmente para o desânimo. Apesar das advertências dos superiores e dos amigos, perseverara na excessiva movimentação, até que caiu no leito, sob invencível cansaço. Febre alta devorava-o, devagarinho, constrangendo-o a oscilar entre a vida e a morte. Por fim, à custa de carinho e devotamento dos companheiros, venceu o inquietante desequilíbrio, mas, apático e abatido, deixou-se permanecer na enxerga do quarto humilde, sem coragem de levantar-se. Certa noite, acariciado pelo vento fresco que passava, sussurrando brandamente, lembrava ele o velho Corvino, com maior intensidade

O luar e a atmosfera pura, a câmara pequena e a solidão compeliam-no a recuar no

tempo. Sentia imensas saudades do apóstolo que lhe tomara o lugar nos braços escuros da

morte Esposara a missão evangélica com extremado fervor. Dera à igreja os mais belos sonhos. Renunciara a todos os prazeres do homem comum, para favorecer, em si mesmo, a obra da espiritualização. Buscara esquecer o que fôra, para transformar-se no irmão de todos. Dividira o tempo entre o enriquecimento da vida interior e o serviço constante, mas trazia o espírito sequioso de amor. Seria crime o propósito de aproximar-se do filho para consagrar-se a ele? seria reprovável o desejo de ser igualmente querido? Na condição de homem, procurara compreender a esposa e honrar-lhe, no íntimo, a escolha feita. Cíntia poderia transitar no caminho que lhe aprouvesse. Era livre e, em razão disso, a mulher não Lhe ocupava o pensamento, contudo, a lembrança de Taciano vergastava- lhe o coração. O anseio de ajudá-lo convertera-se-Lhe nalma em idéia fixa. Realmente, vira-o agressivo e cruel. Jamais lhe olvidaria a revolta, em ouvindo o nome de Jesus nos lábios tenros de Silvano. Entretanto — pensava —, o rapaz era fruto da falsa educação na casa de Opílio. O homem que o condenara à morte física, sentenciara-Lhe o filhinho à morte moral. Seria aconselhável nada fazer pelo jovem que apenas começava a existência? constituiria ato culposo devotar-se um pai ao próprio filho, com a melhor intenção? Recordando, porém, a grandeza do ideal que o impelia ao amor da Humanidade, perguntava a si mesmo por que motivo queria ao rapaz assim tanto Se a igreja povoava-se de meninos e jovens a lhe merecerem atenção e ternura, que razões subsistiriam para concentrar-se em Taciano com tamanha afetividade, quando não desconhecia os intransponíveis impedimentos que os separavam. Depois de muitos anos de resignação e heroismo, auscultando os enigmas da própria

alma, Quinto Varro rendia-se, não às lágrimas serenas, filhas da sensibilidade comovida, mas ao pranto convulso. vizinho do desespero. A brisa suave, em correntes refrigerantes, penetrava a janela aberta, como se buscasse afagar-lhe a cabeça dolorida Agora, todavia, alheava-se dos encantos da Natureza.

A

presença do filho seria provavelmente a única força capaz de restituir-lhe a sensação de plenitude. De pensamento voltado para a memória de Corvino, recordava-lhe os minutos derradeiros. Falara-lhe o venerando amigo, em termos inesquecíveis, quanto à sobrevivência da alma. Alentara-o com a certeza da irrealidade da morte. Consolidara-lhe a confiança e investira-o na posse de imorredoura fé. Ah! como necessitava, naquele instante, de uma palavra que o arrebatasse ao torvelinho de angústia!

Ele, que ensinara a resistência moral, sentia-se agora frágil e enfermiço. Pensou no amigo morto, como a criança transviada suspira por reencontrar o regaço materno Relegado a si mesmo, na solidão do quarto, soluçava com a cabeça dobrada sobre os joelhos, quando notou que leve mão lhe pousava nos ombros recurvos.

Perplexo, ergueu os olhos, inchados de chorar. e — oh! surpresa maravilhosa! — o ancião

Apesar da multidão dos amigos de Lião, sentia-se abandonado, sem ninguém

desencarnado regressara do túmulo e achava-se ali, diante dele, revestido de luz

mesmo apóstolo de outro tempo, mas o corpo como que se fizera diáfano e mais jovem. Irradiações de safirina claridade fulgiam-lhe na fronte e desciam como que em jorro sublime do coração. O presbítero quis gritar a felicidade que lhe invadia o espírito, prosternando-se à frente do mensageiro do Céu, mas uma força incoercível emudecia-lhe a garganta e chumbava-o ao leito pobre.

Era o

Com um sorriso inexprimível, traduzindo melancolia e saudade, amor e esperança, a entidade falou-lhe com carinho:

—Varro, meu filho, porque desanimas, quando a luta apenas começa? Reergue-te para o

trabalho. Fomos chamados para servir. Divino é o amor das almas, laço eterno a ligar-nos uns aos outros para a imortalidade triunfante, mas que será desse dom celeste se não soubermos renunciar? O coração incapaz de ceder a benefício da felicidade alheia, é semente seca que não produz. O emissário espiritual fêz uma pausa ligeira, como a impor ordem à enunciação dos próprios pensamentos e continuou:

—Taciano é filho do Criador, quanto nós mesmos. Não reclames dele aquilo que ainda te não pode dar. Ninguém se faz amado através da exigência. Dá tudo! aqueles que desejamos ajudar ou salvar nem sempre conseguem compreender, de pronto, o sentido de nossas palavras, mas podem ser inclinados ou arrastados à renovação por nossos atos e exemplos. Em muitas ocasiões, na Terra, somos esquecidos e humilhados por aqueles a quem nos devotamos, mas, se soubermos perseverar na abnegação, acendemos no próprio espírito o

abençoado lume com que lhes clarearemos a estrada, além do sepulcro!

mundo

na velhice! Ampara teu filho que é também nosso irmão na Eternidade, mas não te proponhas

escravizá-lo ao teu modo de ser! Monstruosa seria a árvore que se pusesse a devorar o próprio fruto; condenável seria a fonte que tragasse as próprias águas! Os que amam, sustentam a vida e nela transitam como heróis, mas os que desejam ser amados não passam muitas vezes de

tiranos crueis

Jesus e nossa casa, espera por ti nossos familiares igualmente

pais que os adoravam e filhos que lhes dilaceraram o coração

para a nossa capacidade de auxiliar conheceram, de perto, a meninice e a graça, a beleza e a

juventude!

Tudo passa no

Os gritos da mocidade menos construtiva transformam-se em música de meditação

Levanta-te! Ainda não sorveste todo o cálice. Além disso, a igreja, casa de

Os que lhe batem à porta, consternados e desiludidos, são Esses velhos abandonados que nos procuram tiveram também

Esses doentes que apelam

Nossas dores, meu amigo, não são únicas. E o sofrimento é a forja purificadora,

onde perdemos o peso das paixões inferiores, a fim de nos alçarmos à vida mais alta

sempre é na câmara escura da adversidade que percebemos os raios da Inspiração Divina, porque a saciedade terrestre costuma anestesiar-nos o espírito

Quase

O mensageiro fêz breve silêncio, fitou-o com mais ternura, e, em seguida, acentuou:

—Varro, procura teu filho, com a lâmpada acesa do amor, nos filhos alheios, e o Senhor

abençoar-te-á, convertendo-te a amargura em paz do coração dentro da qual reeducarás aqueles que mais amas

O presbítero, num misto de dor e de alegria, de emotividade e de angústia, refletiu sobre

o enviado espiritual, anotando-lhe os mais íntimos

pensamentos, aconselhou:

Que seria

de nós se Jesus, entediado de nossos erros, se entregasse à fadiga inútil? ainda que o corpo se

O túmulo é a

penetração na luz de novo dia para quantos lhe atravessam a noite com a visão da esperança e

do trabalho.

O religioso considerou intimamente quão proveitosa lhe seria qualquer informação

alusiva ao futuro

reconstituir a escola que perdera?

Bastou que semelhantes indagações lhe assomassem ao cérebro para que a entidade lhe dissesse bondosamente:

Jesus até hoje não foi

a exaustão

Ergue-te e aguarda de pé a luta

que

o

torturava,

mas

—Não te rendas ao sopro frio do infortúnio, nem creias no poder do cansaço

recolha às transformações da morte, mantém-te firme na fé e no otimismo

Poderia, acaso, esperar alguma aproximação com Taciano? conseguiria

— Filho, não aguardes, por agora, senão renúncia e sacrifício

compreendido, mesmo por muitos que se dizem seus seguidores. Auxilia, perdoa e espera! As vitórias supremas do espírito brilham além da carne.

Nesse instante, o apóstolo desencarnado inclinou-se e apertou-o nos braços afetuosos. Quinto Varro adivinhou-lhe a despedida.

Oh! daria tudo para abrir-lhe a alma e relacionar-lhe todos os acontecimentos daqueles anos de saudade e separação, mas trazia as cordas vocais entorpecidas. Corvino osculou-lhe os cabelos, na atitude de um pai que se despede de um filhinho, antes de adormecer, e, recuando até à saída, dirigiu-lhe comovedor adeus.

Lá fora, a noite esmaltada de estrelas embalava-se de brisas perfumadas e refrescantes.

Aquietou-se o doente no leito, com uma sensação de paz somente compreensível por aqueles que vencem em si mesmos os grandes combates do coração. A breve tempo, qual se houvera sorvido brando entorpecente, dormiu tranquilo. No dia imediato, acordou registrando singular revigoramento.

Com espanto geral, dirigiu-se aos ofícios religiosos da manhã, para o culto da alegria e do reconhecimento. Mal terminara as preces habituais, notou, não longe do átrio, desusado movimento do povo. Gritaria ensurdecedora vagueava no ar. Ante a silenciosa indagação que esboçava no rosto, alguém esclareceu que alguns bailarinos mascarados se achavam em função na via pública, anunciando o espetáculo de gala que se realizaria no anfiteatro, em homenagem à união matrimonial do moço Taciano com a jovem patrícia Helena Vetúrio.

A casa de Opílio tencionava solenizar o acontecimento com vários divertimentos

públicos, de vez que o ricaço, senhor de extensas propriedades, pretendia fazer-se mais intensamente respeitado na comunidade citadina. Com efeito, Vetúrio e a família, acompanhados de grande séquito de clientes e aduladores, haviam chegado para a grande celebração.

A herdade, dantes simples, embora imponente, convertera-se em verdadeiro palácio

romano, superlotado de damas elegantes e de tribunos discutidores, de políticos ociosos que comentavam as intrigas da Corte e de bajuladores sorridentes àprocura do vinho farto. Escravos inúmeros iam e vinham à pressa. Movimentavam-se liteiras e carros, de variadas procedências. Helena não cabia em si de júbilo, entre o carinho do noivo e a admiração de quantos lhe cortejavam a beleza. Extremamente adestrada na vida social, fazia prodígios para agradar à aristocracia gaulesa, derramando-se em atenções por toda parte. Cíntia, porém, viera transformada. Intencionalmente, fugia de todas as festividades que lhe agitavam o lar. Ausente das conversações e dos saraus, era dada por enferma na palavra de Vetúrio e de Taciano, ante as interrogações das visitas. Mas um homem antigo, velho associado de Opílio desde a mocidade, asseverava, entre os íntimos. que a senhora se fizera cristã. Esse homem era o mesmo Flávio Súbrio, o velho soldado coxo, renovado também nas

concepções da vida. Súbrio recebera em Roma inestimáveis benefícios da coletividade evangélica e alterara os princípios que lhe norteavam o destino. Do ateísmo e do sarcasmo passara à crença e à meditação.

Não era um adepto do Cristo, na verdadeira acepção da palavra, entretanto, fazia leituras edificantes, respeitava a memória de Jesus, dava esmolas e evitava o crime que, em outro tempo, constituía para ele trivialidade sem importância. Por algumas vezes, comparecera às pregações das catacumbas e modificara-se. Conseguira reter na consciência a bênção do remorso e reconsiderara o caminho percorrido Todavia, de todos os dramas escuros que lhe povoavam o espírito, o assassínio de Corvino era talvez o que mais lhe dilacerava o coração. Em muitas ocasiões, perguntara, sem resposta a si mesmo, que teria sido feito de Quinto

Onde teria desembarcado? Conseguira sobreviver? Nunca mais obtivera dele a menor

Varro

notícia. Jamais esquecera a expressão de calma dos olhos de Corvino, quando lhe apunhalara o

tórax envelhecido. Supôs que o apóstolo gritasse revoltado, entretanto, em se descobrindo, angustiado, o ancião levou a destra ao peito opresso, sem o mais leve gemido de reação.

Aquele quadro nunca mais se lhe apagou da

memória. Perseguia-o em todos os lugares. Se procurava mergulhar-se em taças fascinantes ou se buscava outros ares e companhias, com o intuito de fugir de si mesmo, lá se achava, no fundo da mente, a figura indelével do velho pregador, retribuindo-lhe a punhalada com a oração. Atormentado pela própria consciência, não tolerara o suplício que infligira a si mesmo, e enlouquecera. Nas provações da demência, fôra socorrido por um grupo de cristãos, cujas preces lhe haviam balsamizado o espírito sofredor. Desde então, modificara o modo de ser, não obstante conservar encerrados consigo os seus inquietantes segredos, confiando-se aos braços renovadores do tempo. Quando Opílio o convidou a transferir-se para a Gália, não hesitou. Sabia que o missionário morto pertencera àcoletividade lionesa e propunha-se algo fazer pela organização que ele tanto amara. Conhecia as hostilidades de Vetúrio contra o Evangelho, no entanto, não lhe faltariam recursos para ajudar, anônimo, àfamília espiritual que o irmão Corvino legara aos companheiros. Sempre ligado à casa de Vetúrio, fôra informado por uma escrava de confiança que Cíntia, enferma, se dispusera a receber o auxílio cristão, nos aposentos que lhe eram particulares e, restabelecida, alterara espiritualmente os próprios rumos. Simpatizara com a nova atitude da matrona, todavia, a esse respeito, nunca pudera ter com ela a mais ligeira entrevista. Efetivamente, essa informação era verdadeira. Cíntia tomara-se de súbita inclinação para o Cristianismo. Logo após a temporária separação do filho, fôra igualmente atacada pela peste, somente debelada com a interferência de um santo homem que, conduzido ao seu leito, às ocultas, por algumas escravas, lhe impusera as mãos em prece, devolvendo-lhe a paz íntima. Reerguera-se da cama, contudo sentia-se presa de insopitável melancolia. As crises de coração eram frequentes. Quando a casa se envolvia em silêncio, descia para o jardim, preferindo a meditação a qualquer bulício doméstico. Nessas ocasiões, muitas vezes Opilio a recolheu nos braços, enxugando-lhe as lágrimas abundantes. Estabeleceu com ela discussões que, gradativamente, se fizeram amargas e rudes e, por fim, considerou prudente afastar-se de Roma, por tempo indeterminado, esperando que a

palavra de Taciano a dissuadisse. Em Lião, o padrasto entendeu-se com o rapaz, que, orgulhoso e inflexível, lhe escutou as confidências, de semblante espantado e sombrio. O moço aguardou uma oportunidade favorável ao tipo de conversação que desejava e, na véspera do casamento, valendo-se de ensejo adequado, alegou a necessidade de apresentar à mãezinha alguns novos trabalhos que vinha movimentando e retiraram-se ambos para vinhedo próximo. Ante o Sol que se afigurava um braseiro perdido no poente afogueado, o jovem recordava, pelo caminho, que aquele era o seu último dia de mocidade sem compromisso. Na manhã imediata, marcharia ao encontro de novo destino. Sob ramalhudo e anoso carvalho que parecia interessado em proteger a plantação nascente, tomou as mãos maternas e comentou os receios que lhe feriam a alma Porventura, teria ela esquecido os votos sagrados do coração? Soubera pelo pai adotivo

Aliás, ao sair, notou que ele orava

que vivia agora dominada pelos sortilégios nazarenos

conformar-se com a idéia de que houvesse alterado a direção da fé. Sabia-a forte, como sempre consagrada aos numes domésticos, sem qualquer traição aos antepassados, e nela confiaria até ao fim.

Seria isso verdade? Não podia

A genitora registrou-lhe as palavras, de olhos velados pela névoa do pranto que não

chegava a cair e, como se guardasse nalma a sombra do crepúsculo que começava a vestir a paisagem, respondeu com amargura:

— Meu filho, amanhã terei cumprido integralmente a minha tarefa de mãe. O teu

casamento assinala o fim de minhas responsabilidades nesse sentido. Podemos, pois,

conversar, de coração para coração, como dois velhos amigos

muita sede de renovação espiritual

— Mas porque renovação se o carinho dos deuses jaz sobre a nossa casa? — atalhou o

rapaz agastado e apreensivo. — Acaso nos falta qualquer coisa? não vivemos uns para os outros na doce confiança recíproca que os protetores celestes nos conferiram?

— A fartura de bens materiais nem sempre traz felicidade ao coração — observou a

matrona, sorrindo, triste —; a riqueza de Vetúrio pode não ser a minha riqueza

Pousou no filho os olhos molhados e calmos que o sofrimento íntimo enobrecera e continuou, depois de longa pausa:

— Nossa personalidade, enquanto somos jovens, é semelhante a pedra preciosa por

lapidar. Mas o tempo, dia a dia, nos desgasta e transforma, até que um novo entendimento da vida nos faça brilhar o coração. Sinto-me em nova fase. És hoje um homem e podes

Há muito tempo observo a decadência que nos rodeia. Decadência nos que

governam, a expressar-se em desmandos de toda a sorte, e decadência nos governados que

Noutra época, tive também os olhos vendados. Por

mais falasse teu pai, avisadamente, buscando acordar-me, mais surdos se me faziam os

Hoje, porém, as palavras dele ressoam em minha consciência com mais nitidez.

Achamo-nos atacados no lodo de vícios e misérias morais. Só uma intervenção espiritual, diversa daquela em que até hoje temos acreditado, pode solevar o mundo

ouvidos

fazem da existência uma caça ao prazer

entender

De alguns anos para cá, sinto

— Mas, meu pai — explicou Taciano, visivelmente contrafeito — era um filósofo que

não se afastou de nossas tradições. A documentação que nos deixou atesta-lhe a cultura. Além do mais, foi assassinado quando cumpria nobre dever no combate à praga cristã.

A senhora estampou indisfarçáveis sinais de amargura, na fisionomia serena, e replicou:

— Enganas-te, meu filho! Cresceste ao lado de Vetúrio, sob a névoa espessa que nos

esconde o passado

Tomando conhecimento da inesperada revelação, o rapaz transtornou-se. Estranho rubor subiu-lhe à face, intumesceram-se-lhe as veias do rosto, crisparam-se-lhe os lábios e animalizou-se-lhe a expressão.

Devo, porém, asseverar-te agora que Varro era seguidor de Jesus

Amedrontada, Cíntia emudeceu.

Qual acontecera no dia da morte de Silvano, o jovem patrício colocou-se fora de si. Não podia insubordinar-se naquela hora, contudo, bradou em desabafo:

— Sempre defrontado por esse Cristo que não procuro! Pela glória de Júpiter, nunca cederei, nunca cederei!

A genitora recuou, possuída de forte espanto.

Jamais lhe percebera tamanho desequilíbrio.

Taciano apresentava a máscara indefinível do sofrimento e do ódio, qual se estivesse, de chofre, à frente do seu mais terrível adversário. Contemplou Cíntia, trêmula, e esforçando-se, em vão, por acalmar-se, enunciou com um ar de desalento:

— Mãe, Opílio tem razão. A senhora está mesmo demente. A peste enlouqueceu-a!

E depois de alguns instantes de silêncio, em que apenas se lhe ouvia a respiração

ofegante, acrescentou, melancólico:

— Amanhã, desposarei Helena com um dardo envenenado a pungir-me o peito.

Logo após, enlaçou-a, nervoso, com a preocupação de quem conduz um doente grave e, sem qualquer palavra, deixou-a, aflita e desapontada, em ataviada câmara de repouso.

Desde aquele crepúsculo inolvidável, Cíntia Júlia foi tida à conta de louca no seio da família.

O casamento dos jovens realizou-se com solenidades excepcionais. Por três dias

consecutivos, a herdade e o anfiteatro regurgitaram de convidados para os jogos e festejos

gratulatórios, com alegres cerimoniais de louvor e reconhecimento aos numes tutelares. Mas, no esplendor do regozijo público, duas personagens jaziam estigmatizadas por infinita angústia. Opílio e Taciano, constrangidos a manter a dona da casa no indevassável exílio doméstico, guardavam o sorriso artificial de quem recebia o júbilo do povo como taça brilhante cheia de fel.

Os aposentos da matrona permaneciam sob a guarda severa que Epípodo dirigia.

Proibiu-se-lhe a ela a recepção de visitas.

A entrada dos próprios servidores passou a ser devidamente controlada. A esposa de

Vetúrio só poderia avistar-se com os mais íntimos.

E enquanto Opílio, agora mais estreitamente ligado a Galba, se devotava a largos

empreendimentos na pecuária, junto de Helena e Taciano que se amavam, risonhos e felizes. Varro, desacoroçoado de qualquer entendimento com o filho, voltava à posição de

protetor dos desamparados, dividindo-se entre as tarefas sacrificiais de sempre e as pregações edificantes, em que a sua palavra sublime parecia banhar-se de redentora luz.

A fama do irmão Corvino aumentava dia a dia, entre o ódio gratuito dos romanos

gozadores e o agradecimento das almas simples que buscavam nele o refúgio e a consolação, a saúde e a esperança

O ano 235, entrara sob escuros vaticínios.

Repletava-se o Império de incessante mal-estar. Importante corrente do patriciado, sob a instigação de sacerdotes consagrados às divindades olímpicas, acusava os adeptos da Boa Nova com referências amargas, atribuindo-lhes a causa dos desastres que atormentavam a vida coletiva.

A peste que flagelava o mundo latino, em todas as direções, as colheitas mirradas, as

vicissitudes da guerra e a instabilidade política eram tidas como consequência do trabalho punitivo dos deuses, que castigavam os cristãos, sempre mais numerosos em toda a parte. Nuvens terríveis acumulavam-se sobre os trabalhadores do Evangelho, que, em preces, aguardavam o desabar de novos temporais. Em meio de prognósticos sombrios, Caio Júlio Vero Maximino subira ao trono romano. Alexandre Severo fôra assassinado cruelmente, desaparecendo com ele a influência das

mulheres piedosas que amparavam o Cristianismo no trono imperial.

O novo César assemelhava-se a um monstro que se apoderara da púrpura, sedento de

sangue e de poder. Fortaleceu, à pressa, os tiranos da administração e do exército e vasta perseguição aos prosélitos do Cristo foi reiniciada, com impulso avassalador. Embora Maximino se mantivesse nas lides belicosas do mundo provincial, o movimento de morte irradiou-se de Roma, despertando a autocracia e a violência. Diversas proclamações foram levadas a efeito, recomendando, a princípio, apenas o assassínio dos bispos e dos religiosos que lhes acolitassem o ministério, com anistia aos que abjurassem a fé, mas, a breve tempo, avolumou-se a onda arrasadora contra todos os profitentes do credo martirizado. Inúmeras igrejas, levantadas desde a ascensão de Caracala, com ingentes sacrifícios, foram vítimas de pavorosos incêndios.

Na metrópole, os perseguidos tornavam ao culto exclusivamente nas catacumbas, e, nas cidades distantes, a repressão era graduada ao talante dos principais. Com os cultivadores do Evangelho reconduzidos aos tribunais, aos calabouços e aos anfiteatros, recomeçou vasta efusão de sangue em toda a parte. Em Lião, a igreja de São João foi interditada e os objetos sagrados passaram às mãos

irreverentes de autoridades inescrupulosas. O corpo eclesiástico e os religiosos de obrigações definidas foram expulsos desapiedadamente, mas alguns deles, dentre os quais o irmão Corvino, resistiram à situação e permaneceram na cidade velando pelo rebanho aflito. Os seguidores de Jesus, nas Gálias, não obstante todos os reveses da imensa luta, persistiram na fé, valorosos e invictos. Como os druidas, seus heróicos antepassados, procuraram a floresta para os seus cânticos de louvor a Deus. Depois do trabalho de cada dia, marchavam à noite, rumo ao campo amigo e silencioso, em cujas catedrais de arvoredo, sob o firmamento estrelado, oravam e comentavam as divinas revelações, como se respirassem, por antecipação, as alegrias do Reino Celeste. Quirino Eustásio, o questor, movimentou os mais escuros fios da intriga e da calúnia, para que se efetuasse uma grande matança, mas Artêmio Cimbro, patrício por todos os títulos venerável, opunha toda a sua poderosa influência contra qualquer medida extrema. Diante dos obstáculos que lhe estorvavam os desejos, Quirino aventou a idéia de os grandes senhores realizarem, nas próprias casas, o que denominava como sendo o «justo escarmento». Os escravos reconhecidamente cristãos seriam condenados à morte, e seus descendentes vendidos para outras regiões, a fim de que a cidade sofresse um expurgo tão completo quanto possível. Uma ordem do legado imperial, por ele obtida sem dificuldade, completou-lhe os propósitos, encetando-se o morticínio em seu próprio lar. Seis homens cativos foram trucidados espetacularmente, ao toque de músicas e entre júbilos populares, alastrando-se a medida por várias casas nobres. Chegada a vez do palácio rural de Opílio, o questor visitou-o para articular as providências necessárias.

— Ao que me consta — informou Vetúrio, depois de interpelado —, temos aqui tão

somente um recalcitrante.

— Já sei — falou Eustásio, malicioso —, trata-se de Rufo, nosso teimoso e velho conhecido. Taciano foi chamado a opinar.

O filho de Cíntia trouxe pelo braço a jovem esposa, em cujo regaço dormia Lucila, a primogênita recém-nata.

A conversação prosseguiu animada e ferina.

— Suponho — explicou o dignitário enfatuado — que não temos outra alternativa.

Exterminaremos a canalha ou seremos exterminados por ela. Observo que alguns dos nossos compatriotas, e dos mais eminentes, receiam afrontar a ameaça Galiléia, em nossa cidade,

considerando talvez os seus fatores numéricos. Entretanto, é imprescindível reagir. Lião é a metrópole moral das Gálias, tanto quanto Roma é o centro do mundo. Que seria de nós estimulando aqui o favoritismo? Que Artêmio Cimbro agasalhe os velhacos, valendo-se do seu prestígio com senadores e altos magistrados de Roma, é calamidade que não podemos evitar, mas procedermos nós do mesmo modo, com servos imundos e ladrões, seria digno dos nossos foros de nobreza? Os circunstantes aprovaram-lhe as palavras, com expressivos sinais de simpatia.

— Os escravos — continuou Quirino, convincente — são instrumentos passivos de

trabalho e um instrumento, por si, não pode raciocinar. Somos nós os responsáveis. Providenciar é nosso dever.

E talvez porque a pausa se fizesse mais longa, Helena opinou, com firmeza:

— Concordo plenamente. Desde muito observo que a praga nazarena tem, sobretudo,

deletérios efeitos psíquicos. Parece desfigurar o caráter e apagar o brio das pessoas. Antigamente, os sentenciados à morte nos circos lutavam, denodados, com as feras ou com os gladiadores, conseguindo, muitas vezes, recuperar o direito de viver e a própria liberdade. Agora, contudo, com os ensinamentos do homem crucificado, arrefeceu-se-lhes a

galhardia. Há, por toda a parte, uma enchente de vergonha. O combate nas festas sempre foi um belo símbolo. Atualmente, porém, ao invés da lança em riste, vemos braços cruzados e ouvimos cânticos até ao fim. Eustásio soltou estentórica risada e acentuou:

— Bem lembrado! bem lembrado! se a moda pega, viveremos de joelhos para que os vagabundos se mantenham de pé.

O entendimento prosseguiu demorado e minucioso.

Marcaram o dia da derradeira tentativa para a recuperação de Rufo. Solenizariam o acontecimento.

Os escravos não seriam dispensados da cena final.

Eustásio traria consigo um comprador da Aquitânia e, se o renitente não cedesse, vender-

lhe-iam a esposa e as duas filhinhas, no instante em que se lhe processasse a eliminação. A medida seria uma advertência aos demais e, provavelmente, sustaria novos surtos de indisciplina. Examinaram entre si o gênero de morte mais adequado à situação, caso Rufo se revelasse inflexível. Salientou Vetúrio que um machado nas mãos de Epípodo não seria usado em vão, mas Quirino, perverso, recordou que um servo delinqüente, arrastado pela cauda de um potro selvagem, era sempre um quadro festivo, digno de ser visto.

O dia do expurgo na fazenda de Opílio surgiu sob pesada expectação.

Indisfarçável angústia transparecia do semblante de numerosos trabalhadores, concentrados em extenso pátio. Vetúrio, Taciano e Galba, seguidos de Quirino, de outras personalidades destacadas e do mercador de cativos, penetraram o recinto, empertigados, dominadores e livres.

Rufo, ladeado por musculosos guardas, foi trazido ao centro da praça, em cujos limites se amontoavam homens, mulheres e crianças. Foi então que Vetúrio determinou que uma senhora e duas meninas se aproximassem. Eram Dioclécia, a esposa do prisioneiro, e as duas filhinhas Rufilia e Diônia, que o abraçaram com sofreguidão e alegria.

— Papai! papaizinho!

As vozes caridosas ecoaram, comoventes, arrancando lágrimas, enquanto o escravo mostrava o pranto que lhe manava dos olhos, como gotas de orvalho diamantino, deslizando

sobre expressiva máscara de bronze. Epípodo, atendendo a um sinal do senhor, separou o belo grupo familiar e a voz de Opílio bradou, emprestando às palavras o máximo de energia:

— Rufo! chegou o momento decisivo! Jurarás fidelidade aos deuses e serás salvo, ou

seguirás o impostor galileu, sentenciando-te à morte e provocando o banimento definitivo dos teus. Escolhe! não há tempo a perder!

— Ah! senhor — chorou o servo, caindo de joelhos —, não me condeneis! Compadecei-

vos de mim !

O infeliz calou-se, dominado pela angústia, e a cabeça noutro tempo erecta e altiva

baixou o rosto até à poeira que Vetúrio pisava. — Não invoques o passado! Atende ao presente! porque a ilusão nazarena, quando as nossas divindades te propiciam o pão farto e a vida feliz? Rufo, porém, reergueu a fronte, recuperando a serenidade.

sou escravo desta casa, desde que nasci!

Contemplou a esposa que o fitava, amargurada, e, em seguida, estendeu os braços para

Diônia, meigo anjo moreno de quatro anos, que se precipitou, de novo, para ele, exclamando, confiante:

— O senhor vem conosco, papai?

O interpelado fixou a menina, com inexprimível ternura, mas não respondeu.

Ninguém poderia conhecer o drama que se desenrolava por trás daquele semblante sulcado pelo sofrimento.

Os olhos estáticos pararam de chorar.

Súbita e inabalável firmeza estampara-se-lhe no rosto.

Elevou a atenção para o céu, evidenciando íntima atitude de oração, mas Opílio tornou a falar, contundente e gritante:

— Não delongues, não delongues! Renegas a superstição nazarena e abominas agora o

impostor da cruz?

— O Evangelho é revelação divina —. informou Rufo, possuído de calma impressionante

—, e Jesus não é um mistificador e sim o Mestre da Vida Imperecível

— Como ousas? — atalhou Vetúrio, encolerizado — a tua morte não passará de suicídio e

serás o verdugo da própria família. Dioclécia e as meninas serão expulsas e, quanto a ti mesmo, em poucos momentos descerás ao convívio das potências infernais. Lançou-lhe rancoroso olhar e rematou, depois de ligeiro intervalo:

Desgraçado, não temes?

O

escravo, parecendo envolvido em vigorosas forças espirituais, fitou-o, com tristeza, e

esclareceu:

Dói-me o coração

reconhecer a esposa e as filhinhas humilhadas pelo incerto destino que as espera na Terra,

entretanto, entrego-as nesta hora ao Juiz do Céu. Hoje podeis sentenciar. A casa, o solo, o arvoredo e o ouro permanecem em vossas mãos. Amanhã, porém, sereis chamado à prestação de contas nos tribunais divinos. Onde estão aqueles que, em outro tempo, perseguiram e condenaram? Arrojaram-se todos ao mesmo pó em que se confundem os servos e os senhores.

As liteiras da vaidade e do orgulho consomem-se no tempo

Não temo a morte, que para vós

é enigma e mistério, e para mim é libertação e vida A grande assembléia escutava com insopitável torpor de assombro.

Opílio, manietado talvez por fios intangíveis, jazia imóvel como o bastão lavrado em que se apoiava, por nota marcante de sua autoridade doméstica.

— Comentais a lamentável situação de minha companheira e de minhas filhas —

continuou Rufo, depois de curto intervalo —, em vista de vossa resolução, exilando-as para

outras terras, no entanto, com o respeito que a vossa família sempre nos mereceu, sou levado

Onde viverão hoje vossos pais? Os títulos do patriciado

a perguntar por vossos antepassados

não exoneraram vossos avoengos dos deveres para com o sepulcro. Sois tão separado deles,

E, enquanto a vossa saudade vagar como sombra inútil,

como serei doravante dos meus

corvejando sobre os vossos dias, a dor de minha mulher tanto quanto a minha própria dor

produzirão em nós a confortadora certeza de estarmos cooperando na edificação de um mundo

melhor

espírito é livre para adorar a Deus, segundo a nossa compreensão. Antes de nós, companheiros

Quantos terão sido assassinados nos circos, nas cruzes, nas

outros conheceram o martírio

fogueiras e nos tribunais? quantos terão demandado o túmulo, carregando espinhosos fardos

Entretanto, nossos corações feridos, como o lenho atirado ao fogo, alimentam a

chama do idealismo santificante que iluminará a Humanidade!

de aflição!

Somos escravos, sim, nascidos sob o jugo pesado de cruel cativeiro, contudo, nosso

— Senhor, os que vão morrer colocam-se àfrente da verdade

Nossos filhos jamais estarão órfãos. Tutelados do Cristo, no mundo, constituem a herança

A felicidade celeste habita conosco nos

cárceres da Terra. Nossos padecimentos são semelhantes às sombras ralas da madrugada que

abençoada de nossa fé, destinada ao grande futuro

se misturam à luz nascente de novo dia!

O

prisioneiro fitou Vetúrio, de frente, com valorosa serenidade, e afirmou sem afetação:

Vós, porém, romanos dominadores, tremei, enquanto rides! Jesus reina, acima de

César!

Vencendo a lassidão que o dominava, Opílio Vetúrio agitou os braços e clamou:

Cala-te! nem mais uma palavra! Epípodo, o chicote!

O

capataz estalou o rebenque no rosto do escravo enobrecido, enquanto Vetúrio, em

poucas palavras, concluía o negócio com o mercador. Dioclécia e as filhinhas foram cedidas a preço ínfimo. Enquanto o potro bravio era aparelhado, a esposa do mártir tentou lançar-se nos braços dele, mas algumas companheiras afastaram-na, com as meninas, para recanto próximo. Rufo ia ser atado à cauda do animal que relinchava, escouceante, quando Berzélio, o comprador de cativos, abeirou-se dele e ciciou-lhe aos ouvidos:

— Tua família encontrará um lar em nossa casa da Aquitânia. Morre em paz, eu também sou cristão. Pela primeira vez, naquele dia de terríveis recordações, belo sorriso estampou-se no semblante do mártir. Mais tarde, algumas mulheres piedosas da igreja lhe recolhiam os despojos em matagal próximo. Emancipara-se Rufo para servir com mais segurança aos desígnios do Senhor. Da elevada janela dos seus aposentos de exílio, Cíntia acompanhara a cena horrenda. Vendo o animal desembestar pelo bosque, arrastando a vítima indefesa, desmaiara de pavor. Escravas de confiança, orientadas por Helena, aflita, iam e vinham na azáfama do

socorro. Taciano esqueceu as visitas e colocou-se ao lado da enferma, acabrunhado e abatido. Duas horas de expectativa correram pesadas e tristes. Depois de muitas massagens e de vários excitantes nas narinas, a senhora acordou, mas, para espanto de todos, desferia estranhas gargalhadas. Cíntia Júlia estava louca

A família Vetúrio, desde então, cobriu-se de provas inquietantes.

Um ano decorreu sem novidades de vulto. Excursões diversas nas Gálias foram efetuadas com a doente, na companhia de Opílio e Taciano, em busca de melhoras que não apareceram. Médicos e oráculos famosos foram consultados sem proveito. Não obstante reforçado o serviço de vigilância em casa, a guarda da enferma tornou-se mais difícil. De quando em quando, era encontrada a falar consigo mesma, em voz alta, com evidente alienação mental, mais acentuada.

Certa feita, burlando as sentinelas, caminhou para um velho tugúrio, onde o irmão Corvino socorria os sofredores.

Quinto Varro orava com a destra suspensa sobre duas crianças paralíticas, quando notou a presença da mulher amada, que ele, de pronto, identificou. Irreprimível amargura envolveu-lhe o coração. Cíntia era apenas uma sombra.

O corpo descarnado, as rugas numerosas, a cabeleira quase branca e os lábios torcidos

desfiguravam-na desapiedadamente. Fixou-o, a princípio, com indiferença, mas observando-o sozinho, tão logo se haviam retirado as visitas, iluminou-se-lhe a expressão de fé e confiança. Acercou-se, respeitosamente, do apóstolo e rogou, humilde:

- Pai Corvino, há muito tempo ouço referências ao vosso trabalho. Sois um intérprete de Jesus! Valei-me, por piedade! Sinto-me doente, cansada de tudo

E, provavelmente porque reparasse a perplexidade do benfeitor, acrescentou, precipitada:

— Não me conheceis? Sou a segunda esposa de Opílio Vetúrio, um dos inimigos dos

Oh! sim, quem sabe? que pode fazer uma pobre

mulher senão enlouquecer quando se vê plenamente ludibriada pela vida? poderá o coração

vencer as dores irremediáveis? como conseguirá uma árvore resistir ao raio que a destrói? já vistes alguém sustar a corrente de um rio com um simples ramo de parra? Noutro tempo, fui a esposa de um homem que não soube compreender e sou mãe de um filho que me não

Errei, preferindo o inferno do ouro, quando Deus me oferecia o

Desprezei o companheiro que realmente me queria para a glória do espírito e

Agora, procuro recuperar minhalma e tratam-me por

paraíso da paz

julgaram-me senhora de robusto juízo

cristãos! A família declara-me dementada

entende

Estou exausta

louca

Estou farta de ilusões

Quero a bênção do Cristo consolador

Aspiro à renovação

A

infortunada matrona enxugou as lágrimas, ante o missionário que a fitava, aterrado e

enternecido, e continuou:

— Avaliareis, por acaso, o sacrifício do coração materno, alimentando um filho, dia a dia,

orvalhando-o com o pranto de sua dor e fortalecendo-o com os raios de sua alegria, para vê- lo, em seguida, conscientemente entregue à ferocidade? Podereis imaginar os padecimentos da mulher que, vítima de si mesma, permanece situada entre o desencanto e o remorso, ferida

nas menores aspirações? Ah! pai Corvino, por quem sois! compadecei-vos de mim!

Desejo

buscar o Mestre, mas estou condenada a respirar entre os ídolos que me enganaram a minhalma que sangra!

Socorrei

Ajoelhou-se como quem nada mais poderia dar de si própria senão a suprema humildade e, com surpresa, verificou que o irmão dos infelizes tinha lágrimas abundantes.

— Chorais? — bradou a enferma, perplexa —só um emissário do Senhor pode assim

proceder

Sou culpada! culpada!

Lançando os olhos para o alto, começou a gritar com manifesto desequilíbrio:

— Perdoai-me, ó meu Deus! meus pecados são enormes. Tenho crimes que provocam o

Malditos os deuses de pedra que nos arrojam aos

despenhadeiros da ignorância! malditos os gênios do egoísmo, do orgulho, da perversidade e da ambição! Quinto Varro, que a fisionomia envelhecida e a longa barba tornavam irreconhecível, inclinou-se para ela e, dominado pelo carinho espontâneo, murmurou:

— Cíntia! espera e confia! induzidos a esquecê-lo

Estranho fulgor estampou-se no semblante da enferma, que lhe cortou a palavra, exclamando:

quem sois? como soubestes meu nome sem que eu vo-lo

dissesse? Sereis, acaso, um fantasma que regressa do túmulo ou a sombra de um homem que

morreu sem nunca estar morto?

O missionário afagou-a com ternura e osculou-lhe os cabelos, copiando, instintivamente,

os gestos da mocidade. Perplexa, a matrona recuou, exibindo no olhar profunda lucidez, qual se fôra repentinamente chamada à realidade pela grande emoção Fixou o interlocutor, de frente, com inexprimível espanto, e gritou:

Deus não nos esquece, ainda mesmo quando sejamos

pranto dos vossos escolhidos!

— Oh! esta voz, esta voz!

— Varro!

Na inflexão com que pronunciara aquele simples nome, colocara todo o amor e todo o assombro que era capaz de sentir.

O apóstolo, no entanto, debalde aguardou a frase que se lhe apagara nos lábios

descoloridos. Cíntia contemplou-o por momentos curtos, emudecida, mantendo na expressão fisionômica a extática felicidade de quem encontra um tesouro há longo tempo acariciado

Um peregrino da fé religiosa que surpreendesse o paraíso não revelaria maior ventura que

a daquela face transfigurada por suprema alegria interior.

O quadro inolvidável, porém, foi breve como um relâmpago dentro da noite.

Destrambelhado o coração pelo júbilo do reencontro, a pobre senhora empalideceu

repentinamente, os órgãos visuais arregalaram-se-lhe nas órbitas e o corpo oscilou, desgovernado. Varro, aflito, correu a ampará-la.

A agonizante aquietou-se-lhe nos braços com a submissão de uma criança.

O valoroso patrício, que a fé metamorfoseara em sacerdote, rociando-lhe o rosto de lágrimas, cerrou-lhe os olhos, piedosamente. Cíntia Júlia morrera como um passarinho, sem estertores, sem contrações. Apertando-a, de encontro ao coração, Quinto Varro soluçou, balbuciando uma prece. — Senhor! — clamou ele — tu, que nos reúnes com bondade, não nos separarias para sempre! Amigo Divino, que nos concedes a luz do dia depois das sombras da noite, dá-nos

serenidade, finda a tormenta!

Ampara-nos o coração desarvorado nos tortuosos caminhos do

mundo e abre-nos o horizonte da paz! Tantas vezes morremos nas trevas da ignorância, mas a tua compaixão nos ergue, de novo, à claridade divina! Nada posso pedir-te, servo que sou

agraciado por tantas bênçãos imerecidas, mas, se possível, rogo-te proteção para quem hoje te busca, com o espírito sedento de amor, Ó Mestre de nossas almas, socorre-nos na solução de nossas necessidades! Nada podemos sem a tua luz! Sufocado pela comoção, silenciou.

A oração falada morrera-lhe na garganta, mas o espírito fervoroso prosseguiu em súplica

silenciosa, que somente foi interrompida à chegada de um irmão que o auxiliou a prestar as derradeiras expressões de carinho à morta, cujos lábios se entreabriam, imóveis, num sorriso indefinível. Um mensageiro de confiança foi expedido ao palácio de Vetúrio, mas, temendo

represálias, o emissário apenas notificou que a senhora, vítima de inopinado mal-estar, exigia imediata assistência.

A notícia foi recebida desagradàvelmente.

Aquela fuga para o círculo cristão era detestável acontecimento.

Epípodo, o chefe da vigilância, foi advertido com severidade e um homem da estima familiar,

à frente de vários cooperadores, foi incumbido de superintender a remoção da enferma para a casa. Esse homem era Flávio Súbrio.

O velho soldado procurou o irmão Corvino e, surpreendido por aquela voz que não lhe

parecia estranha, veio a conhecer a deplorável ocorrência. Lançando olhares desconfiados para o apóstolo, que tinha nome idêntico ao da vítima que

ele nunca esquecera, providenciou, respeitoso, o transporte do cadáver, que Varro ajudou carinhosamente a instalar na carruagem, convertida em coche mortuário. Infinita consternação envolveu a residência romana, outrora fulgurante e feliz, e, ao entardecer, um pelotão de legionários cercou o casebre em que o irmão Corvino meditava Vetúrio reclamara-lhe a prisão para o inquérito que pretendia instaurar.

O

presbítero foi acintosamente recolhido e encarcerado sem a menor consideração.

O

martírio supremo de Quinto Varro ia começar.

7

Martírio e amor

Atirado ao calabouço, o irmão Corvino passou a experimentar os efeitos da implacável perseguição de Opílio Vetúrio. Ordenações dos assessores de Maximino começaram a aparecer, recomendando o suplício dos chamados «desordeiros galileus».

Artêmio Cimbro e alguns outros patrícios influentes embalde tentaram opor resistência à chacina criminosa, porque o deplorável movimento alastrou-se, irrefreável. Álcio Noviciano, velho guerreiro da Trácia, chegou à cidade, em companhia de alguns frumentários, na posição de enviado do tirano que comandava o poder, sendo recebido festivamente. Exibições no anfiteatro da cidade foram organizadas com esmero.

O amigo de Maximino era portador de cartas diversas às autoridades lugdunenses,

recomendando o maior rigor no castigo aos seguidores do culto nazareno e, a fim de

corresponder às mensagens ilustres, dezenas de plebeus foram lançados à sanha carnívora de feras africanas, ao som de músicas alegres.

O benfeitor dos pobres, entretanto, e outros prisioneiros altamente categorizados pela

opinião pública foram reservados a interrogatório dirigido pelo destacado visitante. No dia justo, o tribunal de audiências regurgitava de povo. Vastas galerias jaziam apinhadas de gente. Todos os adversários da nova fé como que se congregavam ali, para a ironia e o escárnio. Renteando quase com o embaixador do imperante, Opílio, Galba, Taciano e Súbrio acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos com sombrio aspecto. Vetúrio, denunciando no rosto envelhecido as extremas aflições que o atormentavam, revelava-se inquieto, levando a destra aos olhos, de momento a momento, evidenciando a emotividade de que se via possuído, enquanto Taciano, recordando o enfermeiro abnegado, mostrava no semblante um misto de compaixão e desprezo. Caracterizava-se Galba pela frieza

habitual, mas Flávio Súbrio, não obstante decrépito, espreitava os menores rumores do largo recinto, com a vivacidade de um felino, parecendo disposto a registrar as mínimas particularidades do espetáculo.

O irmão Corvino, escoltado por guardas numerosos, apareceu no grande salão.

Esquelético e descorado, falava, sem palavras, da fome que curtia no cárcere. No pulso, trazia feridas rubras e, na face, sinais de chicotadas revelavam o martírio nas celas, onde legionários ébrios costumavam realizar exercícios de crueldade, mas os olhos do condenado como que se mostravam mais brilhantes. Não era só a paciência que se irradiava deles,

demonstrando-lhe a grandeza espiritual, mas também uma superioridade indefinível, misturada de compreensão e piedade pelos verdugos.

À frente do missionário, os representantes da casa de Opílio fizeram-se pálidos.

Imprecações reboaram de todos os lados, acirrando os ânimos contra o apóstolo indefeso.

— “Abaixo o feiticeiro! morte ao assassino! suplício ao matador de mulheres e crianças!. Impropérios como esses eram bramidos à solta por centenas de lábios duros e espumejantes. Quinto Varro, porém, que a consciência tranquila parecia coroar de imperturbável

serenidade, passeou o olhar calmo e bondoso pela assembléia irritada e a multidão aquietou- se, de chofre, qual se fôra dominada por força irresistível.

O próprio Álcio, habituado à agressividade da caserna, estava surpreendido.

Levantou-se, imponente, e tentando, em vão, assumir o aspecto respeitável de um magistrado, arengou, por alguns minutos, salientando as preocupações do governo na eliminação do culto proibido e advertindo os cidadãos contra a ideologia religiosa que

pretendia confundir escravos e senhores. Em seguida, dirigiu-se solenemente ao presbítero, notificando:

— Creio-me exonerado de qualquer consideração para com os prisioneiros sem títulos

que os recomendem ao respeito do Estado, contudo, tantos empenhos foram interpostos, junto de minha autoridade, em vosso favor, tantas famílias aristocráticas se interessam por vosso

destino, que me sinto no dever de ajuizar quanto à vossa situação com especial benevolência. Corvino escutava o legado, serenamente, mas insopitável inquietude dominava a multidão.

— Sois acusado de haver provocado a morte de uma criança — prosseguiu Novaciano,

empertigado —, para cultivar sortilégios malignos, e de haver assassinado uma distinta dama patrícia, doente e irresponsável, depois de atraí-la, provavelmente com promessas de cura imaginária. Todavia, ponderando as solicitações de vários principais, dignar-me-ei analisar o processo alusivo às culpas referidas, tratando-vos como cidadão do Império, mas, antes de

tudo, desejo certificar-me de vossa fidelidade às nossas tradições e princípios, de vez que sois indicado como membro da seita renegada, para cuja extinção não possuímos outros recursos que não sejam o exílio, a punição ou a morte. Fêz ligeiro intervalo, fixou o presbítero de frente, buscando, em vão, suportar-lhe o olhar confiante e calmo e inquiriu:

— Em nome do Imperador Maximino, exorto-vos a jurar lealdade aos deuses e obediência às leis romanas!

Varro, concentrado em si mesmo, evidenciando longa distância espiritual da atmosfera de crueldade e pequenez que predominava no recinto, respondeu com firmeza e simplicidade:

— Ilustre legado, consoante as lições do meu Mestre, sempre dei a César o respeito que

César espera de mim, no entanto, não posso sacrificar aos ídolos, porque sou cristão e não desejo abandonar minha fé.

— Que ousadia! — exclamou Novaciano, encolerizado, enquanto o populacho prorrompia em gritos: — “morte ao traidor! degolem o celerado! ”

O

religioso, porém, não expressou a mínima alteração facial.

O

juiz agitou pequeno martelete de bronze, exigindo silêncio, e voltou a interpelar:

Sois atrevido até ao insulto?

— Rogo-vos desculpas se a minha palavra incomoda, no entanto, indagais e respondo por minha vez. A atitude serena e digna de Corvino de novo impusera quietação à grande assembléia. Álcio enxugou o suor copioso que lhe corria da fronte enrugada e tornou:

— Confessais, então, vosso conúbio com a seita maldita dos nazarenos?

— Não vejo qualquer maldição nela — replicou o preso, sem azedume —, os seguidores do Evangelho são amigos da fraternidade, do serviço, da bondade e do perdão.

O emissário de César passou a destra pela calva oleosa, brandiu um bastão de prata no estrado em que se apoiava e bradou:

— Sois apenas velha quadrilha de mentirosos! que fraternidade poderia ensinar-vos um

galileu desconhecido que vos induz ao suplício, há quase duzentos anos? que serviço

prestaríeis à coletividade, pregando a indisciplina entre os escravos com falaciosas promessas de um reino celestial? que bondade exerceríeis, conduzindo mulheres e crianças ao espetáculo sangrento dos circos? e que perdão conseguireis exemplificar, quando o vosso heroismo não passa de vileza e humilhação? Varro percebeu a dureza intelectual do inquiridor e objetou:

— Nosso Mestre padeceu na cruz por sentir-se o irmão maior da Humanidade,

necessitada, não de força bruta ou de violência, mas de valor moral para compreender a grandeza do espírito eterno; o serviço para nós não é a exploração do homem pelo homem e sim o livre acesso da criatura ao trabalho para o engrandecimento dos méritos pessoais de

cada um; a bondade, em nosso campo de ação, é

Álcio, entretanto, cortou-lhe a palavra, gesticulando, furioso:

— Calai-vos! porque aturar o vosso sermão sem nexo? Ignorais, porventura, que posso decidir sobre o vosso destino?

— Nossos destinos jazem nas mãos de Deus! — retorquiu Varro, sereno.

— Sabeis que posso lavrar a vossa sentença de morte?

— Respeitável legado, o poder transitório do mundo está em vossas determinações.

Obedecei a César, ordenando o que vos aprouver! Obedecerei a Cristo, submetendo-me à vossa vontade. Novaciano trocou expressivo olhar com Vetúrio, como se estivessem acertando, em silêncio, os pontos de vista que lhes eram comuns e clamou:

— Não tolero o sarcasmo!

Convocou um dos assessores e recomendou que o prisioneiro recebesse três chicotadas de relho curto na boca. Um guarda de aspecto feroz foi o escolhido. Varro, enquanto açoitado, parecia em oração.

O sangue borbotava-lhe dos lábios, escorrendo sobre a túnica humilde, quando um

jovem, aproximando-se, ajoelhou-se, junto dele, e exclamou em pranto:

— Pai Corvino, eu sou teu filho! Recolheste-me quando eu vagava na rua, sem ninguém!

Deste-me uma profissão e uma vida digna

Todavia, no estupor geral que a cena impunha aos circunstantes, o benfeitor ferido, embora sangrando, inclinou-se para o rapaz e rogou:

— Crispo, meu filho, não afrontes a autoridade! porque te rebelas, assim, se ainda não foste chamado?

— Meu pai — soluçou o jovem, quase menino —, também quero o testemunho! desejo provar minha fidelidade ao Senhor!

Não sofrerás sozinho! Estou aqui

E, voltando-se para o representante de César, declarou:

— Eu também sou cristão!

Corvino acariciou-lhe os cabelos em desalinho e continuou:

— Esqueceste que a maior exemplificação dos seguidores do Evangelho não é a da morte

e sim a da vida? Não sabes que Jesus espera de nós a lição do amor e da fé onde respiramos?

Meu testemunho no tribunal ou no anfiteatro será dos mais fáceis, mas poderás honrar o nosso Mestre, de maneira mais sacrificial e mais nobre, trabalhando por ele, em benefício dos

Vai em paz! Não desrespeites o

mensageiro do Imperador! Como se o ambiente estivesse magnetizado por forças intangíveis, o moço, enxugando as lágrimas, saiu sem ser molestado por ninguém.

nossos irmãos em Humanidade e por ele sofrendo, dia a dia

Tornando a si da surpresa que o senhoreara, Novaciano reergueu a voz e considerou:

— O legado de Augusto não pode perder tempo. Sacrificai aos deuses e o processo que vos envolve o nome será examinado atenciosamente

— Não posso! — insistiu Corvino, sem afetação — sou adepto do Cristianismo e nessa condição desejo morrer.

— Morrereis então! — gritou Álcio, indignado. E assinou a sentença, indicando o campo próximo em que o prisioneiro seria decapitado no dia seguinte, ao amanhecer. Varro escutou-a, sem modificar-se. A fé e a tranquilidade imperturbáveis fulgiam-lhe no semblante.

Na assembléia, contudo, reinava amplo mal-estar.

Opílio e Galba abraçaram o legado com visíveis sinais de satisfação. Taciano, porém, sentia-se inexplicavelmente angustiado, lutando consigo mesmo para sobrepor-se a qualquer ato de simpatia. As conversações que mantivera com o enfermeiro em outro tempo afloravam-

lhe à memória. Aquele homem ultrajado e abatido impunha-se-lhe à admiração, ainda mesmo contra a sua própria vontade. Tudo faria para não pensar, mas a grandeza moral dele

confundia-o e o chamava à reflexão. Instintivamente, inclinava-se a defendê-lo, contudo, não seria lícito conceder a si mesmo tal aventura. Corvino poderia ser um gigante de heroismo, mas era cristão, e ele, Taciano, detestava os nazarenos. Afastou-se alguns passos, a fim de apreciar soberba estátua de Têmis que jazia no recinto, mas alguém correu ao encontro do condenado, que voltava à prisão, resignadamente. Esse alguém era o velho Flávio Súbrio, que se abeirou do religioso e disse-lhe em voz baixa:

Vinte anos não me fariam

— Reconheço-te! Agora, não alimento qualquer dúvida olvidar-te!

Quinto Varro lançou-lhe dolorido olhar, sem nada responder.

O antigo lidador, todavia, recebeu-lhe o silêncio como sendo a confirmação que

aguardava e, contendo a custo o pranto que lhe enevoava os olhos, segurou-lhe as mãos que pesadas algemas enlaçavam e acentuou:

— Meu amigo, não teria sido mais suave a tua morte no mar? como me pesa haver

cooperado para o teu sacrifício! como lastimo a tua infortunada sorte, observando o fardo de angústia que te verga os ombros!

O interpelado, porém, sorriu, triste, e replicou:

— Súbrio, a escravidão a Jesus é a verdadeira liberdade, tanto quanto a morte, em

companhia do nosso Divino Mestre, é a ressurreição para a vida imperecível! Só um fardo deveremos temer — o da consciência culpada!

E, reparando-lhe, com surpresa, as lágrimas de sincera compunção, que não chegaram a

transbordar, acrescentou:

— Se procuras agora algum meio de acesso

à verdade, não deixes para amanhã o teu encontro

com o Cristo. Faze alguma coisa por tua salvação

e o Senhor fará o resto

Nesse instante, porém, o chefe de vigilância, acreditando que Súbrio insultava o prisioneiro, abeirou-se de ambos e vociferou, sarcástico:

— Nobre romano, deixa comigo este feiticeiro! Prepará-lo-ei a bastonadas para o espetáculo de amanhã

E antes que Súbrio, estupefato, pudesse mover-se, Varro foi arrastado, de novo, para o

cárcere. Desde esse momento, porém, o velho guerreiro em disponibilidade pareceu tomado de incompreensível perturbação. Desligou-se dos amigos íntimos, dirigiu-se apressadamente à herdade, retirou de antigo cofre todas as peças de ouro que possuía e voltou ao centro da cidade, procurando os companheiros do irmão Corvino. Nos arredores da igreja, num telheiro abandonado, encontrou Ênio Pudens, por indicação de algumas mulheres piedosas. Deu-se a conhecer ao clérigo respeitável e entregou-lhe, para a igreja de São João, todo o dinheiro que pudera amealhar, durante anos, rogando-lhe abençoar as suas novas resoluções. Ênio, comovido, orou em companhia dele, deprecando a assistência celestial e confortando-o com generosas palavras de bondade, compreensão e fé. Apesar de semelhante socorro, o velho soldado parecia diferente, abstraído, dementado Em vão, Opílio procurou-o em casa, debalde Taciano buscou-lhe a companhia. Súbrio retirara-se para o campo, mantendo-se em meditação, a reconsiderar os caminhos percorridos. Tornou ao ambiente doméstico, nas primeiras horas da madrugada, mas não conseguiu

acalmar-se. Quando Vetúrio veio acordá-lo, para seguirem juntos, no rumo do campo da execução, já havia seguido para o local, onde Galba e o pai a ele se reuniram. Taciano absteve-se. Alegou súbita indisposição orgânica, a fim de subtrair-se ao espetáculo. Não desejava enfrentar a presença de Corvino, cuja serenidade o molestava. Não obstante a hora matutina, vasta multidão se aglomerava na praça livre, não faltando

grande número de personalidades eminentes, inclusive Novaciano, que se sentira fortemente impressionado com a resistência moral do prisioneiro. Atendidas as formalidades, então vigentes, o representante de Maximino ordenou ao carrasco se aproximasse.

O irmão Corvino, evidenciando indescritível ansiedade no olhar percuciente e límpido,

fitava o grupo de Opílio, à procura de alguém que não aparecia Pesados momentos transcorreram.

A Natureza, como que indiferente aos crimes e aos infortúnios dos homens, engalanava-se de luz.

O Sol coroava a paisagem com raios de ouro, enquanto o vento cantava, em sopros

frescos, carreando para longe a fragrância das ramarias em flor.

Entristecido, de vez que não conseguira surpreender Taciano na assembléia popular que o rodeava, Quinto Varro passou à oração silenciosa. Espiritualmente distanciado do ensurdecedor vozerio, observou que vultos luminosos o

acariciavam

Procurava aguçar os sentidos

a perspectiva de igualmente morrer na reafirmação de sua fé

Lembrou-se, insistentemente, do venerando Corvino e sentiu-se consolado com

para penetrar com segurança no mundo invisível, quando escutou os gritos estentóricos de alguém, junto dele. Era Flávio Súbrio que bradava, possesso:

— Eu também sou cristão! Abaixo os deuses de pedra! Viva Jesus! Viva Jesus! Prendam- me! Prendam-me com razão! Sou um assassino que se transforma! Já matei muitos! Matem-

me agora também!

Infelizes romanos, porque converterdes a honra dos antepassados num

rio de sangue! Somos todos celerados sem remissão! Quero, por isso, a nova lei! Em meio da perplexidade geral, Vetúrio abeirou-se do aristocrático visitante e informou:

— Ilustre Novaciano, apresse a execução. Flávio Súbrio é comensal de minha casa, há

muitos anos, e acaba de enlouquecer, talvez, em razão da idade avançada. Incumbir-me-ei de afastá-lo, sem qualquer inconveniência.

A

ordem foi expedida.

O

condenado ajoelhou-se.

Artêmio Cimbro, que ninguém ousava incomodar, em virtude das suas prerrogativas, aproximou-se dele, valorosamente, e cobriu-lhe o rosto com pequena toalha de linho tenuíssimo, a fim de que a cena brutal lhe não ferisse a visão. Glabro Hércules, antigo gladiador do anfiteatro, agora convertido em verdugo, ergueu o gládio, com mãos trêmulas, descendo o instrumento sobre o pescoço da vítima. Todavia, poderes invisíveis atuavam para que o gume da espada não atingisse o lugar visado. Havendo

desferido o terceiro golpe, recebeu do legado de César a determinação de sustar o Serviço. Existia uma lei, proibindo o quarto golpe em qualquer decapitação. Quinto Varro, banhado em sangue, foi, por isso, transferido para o calabouço, onde, agora, lhe assistia o direito de morrer lentamente. Vetúrio acompanhou as mínimas particularidades do quadro terrível, sem alterar-se, e quando voltou a procurar por Flávio Súbrio, que se distanciara para não ver a horrenda exibição, não mais o encontrou.

O cliente de Opílio tomara um carro e voltara, rápido, para casa.

Profundamente transtornado, quase irreconhecível, convocou Taciano a entendimento

particular e passou a narrar-lhe o passado, sintetizando quanto possível.

O moço patrício, boquiaberto e aterrado, ouvia-lhe as reminiscências, quando Vetúrio

chegou suarento e aflito, e, adivinhando o que se passava, tentou interrompê-lo.

— Flávio Súbrio enlouqueceu! — rugiu irado.

— Não, Taciano, não! — protestou ele, em voz firme — meu juízo não está desequilibrado! Minha saúde nunca foi tão robusta quanto agora! Minha consciência apenas acorda para justiçar a si mesma. Tenho crimes sobre crimes! Não perpetrarei mais esse — o

de ocultar-te a realidade. Corre ao campo da execução e, se teu pai ainda vive, não lhe prives do teu carinho à última hora! Seguirei contigo, seguirei contigo!. Opílio, desesperado, revelando comprometedor desequilíbrio que, de modo algum, se coadunava com o seu temperamento calculado e cortês, interferiu, gritando:

— Cão, recua! Não quebrarás a harmonia de minha casa! Não menosprezes a memória do

pai de Taciano, que sempre nos foi extremamente sagrada! Com as veias intumescidas, denunciando a emotividade que lhe oprimia a alma, Súbrio estampou feroz expressão na fisionomia, dantes fleumática e impenetrável, e retorquiu:

— Não é verdade, Taciano! Opílio recomendou-me apunhalar Quinto Varro sobre as águas, mas, por gratidão ao passado, poupei-o, assassinando um apóstolo que o acompanhava

e que, certamente, lhe legou o nome. Ainda que eu morra, estou agora mais aliviado, quase feliz. Extravasei o fel que me envenenava o coração, expeli algo de minha própria baixeza Mas, não percamos tempo, sigamos! Vetúrio, porém, de imediato, cingiu-lhe a cintura e imobilizou-lhe os braços, chamando os servos, alarmado e lívido. Escravos musculosos, em obediência ao amo, trancafiaram-no em aposento primorosamente mobilado, mas escuro e triste. O lidador do pretérito, não obstante a senectude, mostrava naquela hora a agilidade de um tigre posto a ferros, tentando reagir à altura da agressão. Todavia, antes que Opílio e o esposo de Helena se retirassem, Súbrio calou-se, inexplicavelmente. Brilhavam-lhe, agora, os olhos, tomados de estranha lucidez, e, transcorridos alguns instantes, falou, pausadamente:

— Taciano, minha história é a versão real dos fatos. Algo me diz ao espírito que teu pai

Naturalmente, acredita

ainda não partiu. Vetúrio encarcerou-me, supondo asfixiar a verdade

que poderá reter-me, quanto fêz com tua desventurada mãe, entretanto, engana a si mesmo,

mais uma vez

e já que me sinto impossibilitado de uma confissão, à frente do legado de

Augusto, a fim de receber o castigo que mereço, morrerei para que creias em mim! Troco minha vida prejudicial e inútil pelos momentos de consolo que Varro nos merece Opílio desferiu uma risada nervosa, reiterando a convicção de que o companheiro

delirava. Súbrio, no entanto, continuou calmo, dirigindo-se ao rapaz:

— Quando eu tiver punido a mim mesmo, pondera a minha revelação e não vaciles

Vetúrio, porém, impediu qualquer novo entendimento. Arrastou o genro para o interior doméstico, convidando-o a preparar-se para a refeição. No triclínio, buscou dissipar a tristeza do filho adotivo, ensaiando conversação alegre e calmante, e, findo o repasto, passaram a breve repouso em amplo terraço, ambos procurando distração e refazimento. Quando o filho de Cíntia parecia mais animado, eis que surge Epípodo, muito pálido, anunciando que o velho Súbrio se dependurara na grade mais alta da câmara-prisão. Enteado e padrasto entreolharam-se, apavorados. Correram, instintivamente, ao quarto sombrio c encontraram o corpo do velho amigo a pender, inerte, de grossas vigas de madeira.

O antigo soldado cumprira a palavra, suicidando-se. Taciano, então, qual se estivesse impulsionado por indomável energia, não mais hesitou.

Afastou-se, presto, na direção da cavalariça e, quando se aboletava em carruagem ligeira, foi abraçado por Opílio, que declarou:

— Vou contigo. Convencer-te-ás de que o miserável feiticeiro está morto e de que Súbrio foi simplesmente vítima de loucura e ilusão.

O Sol das primeiras horas da tarde dardejava por entre as frondes dos gigantescos

carvalhos que protegiam o caminho pelo qual os dois associados do destino seguiam silenciosos, ruminando, mentalmente, as próprias reflexões. Contudo, enquanto Taciano,

jovem e vigoroso, se perdia num abismo de indagações, Opílio, encanecido e inquieto, afun- dava-se em dilacerantes sofrimentos. Como escapar aos dissabores daquela hora, se o condenado ainda estivesse vivo? como reaver a confiança do genro, se a palavra de Súbrio fôsse confirmada?

À porta da enxovia, foram recebidos pelo administrador da prisão, com especiais

deferências, que, loquaz e gentil, informou achar-se o irmão Corvino moribundo

A pedido de Artêmio Cimbro, o carcereiro Edúlio prestava-lhe assistência, mesmo porque o generoso patrício obtivera permissão para sepultar-lhe o corpo, tão logo expirasse. Opílio, trêmulo, rogou licença para visitarem o agonizante a sós, sendo imediatamente atendido. Afastado o enfermeiro, ambos penetraram a câmara estreita, onde o condenado, de olhos imensamente lúcidos, aguardava o instante final. Finíssimos lençóis, oferecidos por mãos anônimas, apresentavam-se manchados de sangue. Os golpes de Hércules tinham-lhe massacrado o omoplata, invadindo o tórax, que se apresentava aberto. Taciano, dominado por inenarrável angústia, permutou com ele inesquecível olhar

E, de espírito iluminado pela verdade, qual ocorre às grandes almas ao se avizinharem da

morte, Quinto Varro, com esforço, falou-lhe, abertamente:

— Meu filho, supliquei a Jesus não me permitisse a grande viagem, sem reencontrar-te

Estou convencido de que Flávio Súbrio revelou ao teu coração todos os sucessos que já se foram Porque o rapaz, aterrorizado, se voltasse para Vetúrio, o genitor continuou:

Este é Opílio, que te criou como pai. Compreendo o constrangimento com que

Ontem, Cíntia

nos ouve, no entanto, rogo a ele me releve esta conversação de última hora ausentava-se da Terra, hoje sou eu

A essa altura, o moribundo sorriu, conformado. O jovem, todavia, evidenciando os

próprios conflitos mentais, deixou que a emoção lhe extravasasse do peito, interrogando:

— Se és meu pai, como compreender tamanha serenidade? Se Súbrio foi verdadeiro, não

tens em meu padrasto o maior inimigo? Se Vetúrio mandou que te assassinassem para usurpar-te o destino de minha mãe, como pudeste tolerar tão horrível situação, quando uma

simples palavra tua conseguiria clarear qualquer dúvida? Ó deuses, como vencer o tenebroso labirinto?.

O sentenciado, porém, recompondo a expressão fisionômica, tentou esboçar um gesto de

carinho e acrescentou, reticencioso:

— Taciano, não te perturbes, no justo momento em que nos despedimos. Não consideres

Lembra-te, meu filho, do afeto com que te

orientou o desenvolvimento

Vetúrio como adversário de nossa felicidade

Ninguém alcança a dignidade pessoal sem abnegados

condutores. Olvidas, porventura, o devotamento com que te consagrou ao teu bem-estar? O agradecimento sincero é uma lei para os corações nobres e leais. Ainda que fôsse ele um criminoso comum, merecer-nos-ia respeito pela ternura com que te seguiu os primeiros

— Já sei

passos

Sempre honrei os desejos

de Cíntia nas menores particularidades e não deixaria de compreendê-la numa escolha do coração

Supões devamos identificar nele um inimigo de nossa casa, entretanto, não

poderemos esquecer haver sido ele o homem amado por tua mãe

O ferido interrompeu-se, por alguns instantes, readquirindo forças, e prosseguiu:

— Não me creias transviado do sentimento.

Aprendi com Jesus que o amor, acima de tudo, é o meio de cooperarmos na felicidade

daqueles a quem nos devotamos

pretérito poderia ter sido orientado por outras normas, entretanto, quem de nós poderá penetrar com segurança a consciência alheia? que faríamos se estivéssemos no lugar deles?

Opilio, decerto, foi querido com infinito enternecimento pela alma a quem tanto devemos e, talvez por isso mesmo, não hesitou em manifestar-lhe as mais íntimas aspirações

— Se devo reconhecê-lo como pai — soluçou o moço, de joelhos —, não entendo o perdão das ofensas!