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Leila Lauar Sarmento

Licenciada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais.


Professora na rede pública e em escolas particulares de Belo Horizonte por 35 anos.
Coordenadora do Ensino Fundamental e do Ensino Médio por 13 anos.

Douglas Tufano
Licenciado em Letras (Português-Francês) e Pedagogia pela Universidade de São Paulo.
Professor na rede pública e em escolas particulares do estado de São Paulo por 25 anos.

PORTUGUÊS
LITERATURA • GRAMÁTICA • PRODUÇÃO DE TEXTO
VOLUME

3
Componente curricular: LÍNGUA PORTUGUESA

MANUAL DO PROFESSOR

1a edição

São Paulo, 2010

Iniciais Vol_3.indd 1 06.05.10 12:24:22


Título original: Português: literatura, gramática, produção de texto
© Leila Lauar Sarmento, Douglas Tufano 2010

Coordenação editorial: Áurea Regina Kanashiro


Edição de texto: Rogério de Araújo Ramos, Mônica Franco Jacintho,
Thelma Guimarães
Assessoria didático-pedagógica: Renata Tufano
Assistência editorial: Áurea Faria, José Paulo Brait, Andréa da Silva Medeiros,
Moira Versolato
Preparação de texto: Anabel Ly Maduar, Marcia Camargo, Marilu M. Tassetto
Coordenação de design e projetos visuais: Sandra Botelho de Carvalho Homma
Projeto gráfico: A+ Comunicação
Capa: Martha Tadaieski, Mariza de Souza Porto
Ilustração de capa: Eloar Guazzelli
Coordenação de produção gráfica: André Monteiro, Maria de Lourdes Rodrigues
Coordenação de arte: Maria Lucia F. Couto
Edição de arte: Rodolpho de Souza
Editoração eletrônica: Arbore Comunicação Empresarial e Design
Coordenação de revisão: Elaine Cristina del Nero
Revisão: Kiel Pimenta, Luís Maurício Bôa Nova, Márcia Leme, Sandra G. Cortés
Coordenação de pesquisa iconográfica: Ana Lucia Soares
Pesquisa iconográfica: Érika Freitas, Monica de Souza, Joanna Heliszkowski
Coordenação de bureau: Américo Jesus
Tratamento de imagens: Alexandre Petreca, Rubens M. Rodrigues,
Bureau São Paulo, Pix Art, Fabio N. Precendo, Arleth Rodrigues
Pré-impressão: Helio P. de Souza Filho, Marcio Hideyuki Kamoto,
Alexandre Petreca, Everton L. de Oliveira
Coordenação de produção industrial: Wilson Aparecido Troque
Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Sarmento, Leila Lauar


Português : literatura, gramática, produção de
texto / Leila Lauar Sarmento, Douglas Tufano. ––
1. ed. –– São Paulo : Moderna, 2010.

1. Gramática (Ensino médio) 2. Literatura


(Ensino médio) 3. Português (Ensino médio)
4. Português - Redação (Ensino médio) I. Tufano,
Douglas. II. Título.
CDD-469.507
-807
10-01149 -469.07

Índices para catálogo sistemático:


1. Gramática : Português : Ensino médio 469.507
2. Literatura : Ensino médio 807
3. Português : Ensino médio 469.07

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Todos os direitos reservados
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2010
Impresso no Brasil

1 3 5 7 9 10 8 6 4 2

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APRESENTAÇÃO

O intuito desta obra é contribuir para que você se torne um leitor e


produtor de textos crítico e consciente. Por isso, pretendemos que ela
seja no mínimo instigante e revele alguns dos prazeres envolvidos na
prática da leitura e da escrita.
Para tanto, oferecemos um grande número de textos acompanha-
dos de atividades variadas, individuais e em grupos: exercícios de
análise e comparação, questões dissertativas e propostas de produ-
ção de textos orais e escritos. Nosso objetivo é fazer com que as aulas
fiquem ainda mais dinâmicas e criar oportunidades para a realização
de debates a respeito de assuntos atuais. Os textos foram cuidadosa-
mente selecionados a fim de tornar a utilização desta obra construti-
va e prazerosa, um estímulo ao hábito de ler e à prática da produção
textual.
No estudo da literatura, enfatizamos a relação entre o contexto
histórico e cultural e os movimentos literários. Estudamos a literatura
portuguesa sobretudo em função de sua importância como raiz da
literatura brasileira, procurando mostrar como, aos poucos, a nossa
produção literária foi adquirindo características próprias. Os trechos
de obras estudados e a análise proposta a partir deles são um convite
à leitura dos livros comentados.
A gramática é estudada a partir de textos verbais e não verbais, o
que favorece a interpretação de bons textos e a compreensão dos
conteúdos gramaticais. Atividades práticas variadas permitem a fixa-
ção desses conteúdos e a sua adequada aplicação.
Na produção textual, destaca-se o estudo dos gêneros do cotidiano
e daqueles relacionados à oralidade, privilegiando-se, ainda, o traba-
lho com textos jornalísticos, argumentativos, teatrais e poéticos, se-
jam eles descritivos, narrativos ou dissertativos. Exploram-se também
as variantes linguísticas e a mudança de interlocutores na elaboração
de textos. Aliado à interpretação de imagens e de textos, esse tra-
balho oferece os recursos necessários para que você produza textos
adequados aos destinatários e aos objetivos de produção.
Esperamos que a utilização desta obra contribua para que as aulas
de Língua Portuguesa sejam momentos muito especiais.

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SUMÁRIO
BIBLIOGRAFIA
SUMÁRIO

LITERATURA

Capítulo 1 O MODERNISMO EM PORTUGAL .............................................................................. 10


Lendo a imagem: A rua entra na casa, de Umberto Boccioni ...................................... 10
As revoluções artísticas: o fim da arte tradicional ......................................................... 12
O Modernismo em Portugal ............................................................................................... 17
Os vários caminhos da modernidade ............................................................................... 34
Atividade complementar: Fernando Pessoa em voz alta ........................................... 37
Vale a pena ........................................................................................................................ 38

Capítulo 2 O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL ............................................................................ 39


Lendo a imagem: .............................................................................................................. 39
O Pré-Modernismo (1900-1920): a literatura descobre um outro Brasil ...................... 40
Encontro com a literatura estrangeira: Anton Tchekhov: um mestre do conto ..... 64
Atividade complementar: Sátira e crítica social: a visão crítica do
Pré-Modernismo ............................................................................................................... 66
Vale a pena ........................................................................................................................ 67

Capítulo 3 A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA ......... 69


Lendo a imagem: Operários, de Tarsila do Amaral ..................................................... 69
O Modernismo brasileiro e suas duas fases ................................................................. 71
Grupos e tendências da primeira fase modernista ...................................................... 78
Principais autores da primeira fase modernista .......................................................... 79
Encontro com a literatura estrangeira: Aldous Huxley e seu admirável mundo novo .. 91
Atividade complementar: Exposição e documentário sobre a Semana de 22 ......... 95
Vale a pena .................................................................................................................. 96

Capítulo 4 A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA .... 97


Lendo a imagem: Criança morta, de Candido Portinari ............................................... 97
A prosa na segunda fase do Modernismo (1930-1945) ................................................... 99
A poesia na segunda fase do Modernismo (1930-1945) ................................................. 119
Encontro com a literatura estrangeira: George Orwell: o criador do Big Brother ... 127
Atividade complementar: Elaboração de antologia poética ...................................... 129
Vale a pena ........................................................................................................................ 130

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Capítulo 5 A PROSA BRASILEIRA DEPOIS DE 1945.................................................... 131
Lendo a imagem: Aves da noite, de Edward Hopper .................................................... 131
A prosa brasileira depois de 1945 ...................................................................................... 133
Encontro com a literatura estrangeira: Ray Bradbury:
mestre da ficção científica ................................................................................................. 160
Atividade complementar: Crônica e música popular .................................................. 170
Vale a pena ........................................................................................................................ 171

Capítulo 6 A POESIA E O TEATRO DEPOIS DE 1945................................................... 172


Lendo a imagem: Poema concreto Velocidade, de Ronaldo Azeredo ........................ 172
Novos caminhos da poesia ................................................................................................. 173
O teatro a partir de 1945 .................................................................................................... 182
Encontro com a literatura estrangeira: Henrik Ibsen — Casa de bonecas ............... 195
Atividade complementar: Leitura dramatizada .......................................................... 202
Vale a pena ........................................................................................................................ 203

Capítulo 7 A LITERATURA AFRICANA EM LÍNGUA PORTUGUESA ............................. 204


Lendo a imagem: Grupo de capoeiristas da Bahia, 1993 ............................................. 204
A literatura africana de língua portuguesa ..................................................................... 205
Atividade complementar: História e Literatura: escritores africanos de
língua portuguesa ............................................................................................................... 217
Vale a pena ........................................................................................................................ 218

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GRAMÁTICA

Capítulo 8 O PERÍODO SIMPLES E O PERÍODO COMPOSTO POR COORDENAÇÃO ... 220

Orações coordenadas ......................................................................................................... 220

Aplicação ........................................................................................................................... 224

As orações coordenadas no contexto ............................................................................ 228

Capítulo 9 O PERÍODO COMPOSTO POR SUBORDINAÇÃO E POR COORDENAÇÃO


E SUBORDINAÇÃO. ORAÇÕES SUBORDINADAS SUBSTANTIVAS ............. 229
O período composto por subordinação ............................................................................ 229
O período composto por coordenação e subordinação ................................................. 230
Aplicação ........................................................................................................................... 238
As orações subordinadas substantivas no contexto .................................................. 244

Capítulo 10 ORAÇÕES SUBORDINADAS ADJETIVAS ..................................................... 245


Orações subordinadas adjetivas ....................................................................................... 245
Aplicação ........................................................................................................................... 251
As orações subordinadas adjetivas no contexto ......................................................... 255

Capítulo 11 ORAÇÕES SUBORDINADAS ADVERBIAIS .................................................. 256


Orações subordinadas adverbiais ..................................................................................... 256
Aplicação ........................................................................................................................... 262
As orações coordenadas e subordinadas no contexto ................................................ 268

Capítulo 12 PONTUAÇÃO................................................................................................ 270


Vírgula .................................................................................................................................. 272
Ponto e vírgula .................................................................................................................... 273
Dois-pontos .......................................................................................................................... 273
Reticências ........................................................................................................................... 274
Ponto de interrogação ....................................................................................................... 274
Ponto de exclamação .......................................................................................................... 274
Ponto final ........................................................................................................................... 274
Aspas ..................................................................................................................................... 275
Parênteses ........................................................................................................................... 275
Travessão .............................................................................................................................. 276
Aplicação ........................................................................................................................... 276
A pontuação no contexto ............................................................................................... 281

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Capítulo 13 A CONCORDÂNCIA ...................................................................................... 282
Concordância nominal ........................................................................................................ 283
Aplicação ........................................................................................................................... 286
Concordância verbal ........................................................................................................... 289
Aplicação ........................................................................................................................... 295
A concordância no contexto ........................................................................................... 298

Capítulo 14 A REGÊNCIA. A CRASE ................................................................................ 300


A regência ............................................................................................................................. 300
Aplicação ........................................................................................................................... 306
Crase ..................................................................................................................................... 310
Aplicação ........................................................................................................................... 312
A regência no contexto ................................................................................................... 316

Capítulo 15 A ORDEM DOS TERMOS NOS ENUNCIADOS LINGUÍSTICOS:


COLOCAÇÃO ................................................................................................ 317
Colocação dos termos na oração ....................................................................................... 317
Colocação dos pronomes pessoais átonos ...................................................................... 318
Aplicação ........................................................................................................................... 320
A colocação pronominal no contexto ............................................................................ 323

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PRODUÇÃO DE TEXTO

Capítulo 16 O TEXTO DISSERTATIVO-ARGUMENTATIVO ............................................. 326


Dissertação e argumentação ............................................................................................. 326
Texto dissertativo ............................................................................................................... 329
Produção de textos .......................................................................................................... 332
Estrutura do texto argumentativo ................................................................................... 334
Produção de textos .......................................................................................................... 336
Recursos argumentativos .................................................................................................. 339
Produção de textos .......................................................................................................... 344
Trabalhando a coesão e os argumentos ........................................................................... 346

Capítulo 17 O TEXTO ARGUMENTATIVO ....................................................................... 348


Argumentação e contra-argumentação ........................................................................... 348
Produção de textos .......................................................................................................... 351
A subjetividade e a objetividade no texto argumentativo ........................................... 352
Produção de textos .......................................................................................................... 354
Argumentações implícitas: pressuposto e subentendido ............................................. 356

Capítulo 18 CARTA ABERTA E MANIFESTO ................................................................... 363


Gênero textual: carta aberta ............................................................................................. 363
Produção de textos .......................................................................................................... 365
Gênero textual: manifesto ................................................................................................ 368
Produção de textos .......................................................................................................... 371

Capítulo 19 CRÍTICA DE FILME E ABAIXO-ASSINADO ................................................. 374


Gênero textual: crítica de filme ........................................................................................ 374
Produção de textos .......................................................................................................... 377
Gênero textual: Abaixo-assinado ...................................................................................... 378
Produção de textos .......................................................................................................... 381

Capítulo 20 O TEXTO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E O SEMINÁRIO ......................... 382


Gênero textual: texto de divulgação científica .............................................................. 382
Produção de textos .......................................................................................................... 386
Gênero textual: seminário ................................................................................................. 389
Produção de textos .......................................................................................................... 392
Oficina de projeto ............................................................................................................ 393

Questões de vestibulares e do Enem ................................................................................ 395


Bibliografia .......................................................................................................................... 413

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LITERATURA
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Capítulo

1 O Modernismo
em Portugal

Lendo a imagem
AKG-IMAGES/LATINSTOCK – NIEDERSACHSISCHES LANDESMUSEUM, HANOVER

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

BOCCIONI, Umberto.
A rua entra na casa. 1911.
Óleo sobre tela, 100 x 107 cm.

10 LITERATURA

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Leitura

Ode triunfal
À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto.
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r- eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,


Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Platão: filósofo que viveu entre
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 428-427 e 348-347 a.C.
Ser completo como uma máquina! Virgílio: poeta que viveu entre 70 e
19 a.C.
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Alexandre Magno: príncipe e rei da
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Macedônia, conquistador do Impé-
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento rio Persa, viveu entre 356 e 323 a.C.
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Ésquilo: dramaturgo que viveu en-
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! tre 525-524 e 456-455 a.C.
[...] Ciciando: murmurando.
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Estrugindo: soando tremendamen-
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Fernando Pessoa: obra poética. te forte.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 306. (Fragmento). Passento: permeável.

Converse com seus colegas


BETTMANN/CORBIS/LATINSTOCK

1 Em primeiro plano, vemos uma figura feminina numa sacada. Por-


tanto, ela está colocada num certo espaço. Pode-se dizer que o artis-
ta fez uma representação tradicional desse espaço?
2 Ao sair à sacada, a mulher abre a casa e os ruídos e imagens da rua
chegam até ela. Como foi representada essa “invasão” de ruídos e
imagens?
3 O início do século XX trouxe inúmeros avanços científicos e tecnoló-
gicos. A vida urbana intensificou-se e tudo passou a ocorrer em um Cena do filme Tempos modernos. Direção
de Charles Chaplin. EUA, 1936. No começo
ritmo mais acelerado. A cena representada pode ser uma referência do século XX, a desumanização da era
a essas mudanças? Por quê? moderna já se torna tema de filme.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 11

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4 Há semelhanças entre essas mudanças e as mudanças mencionadas
pelo eu lírico no fragmento de poema que você leu? Por quê?
a) A reflexão a respeito da vida moderna aparece também na litera-
tura. É possível percebê-la no fragmento de poema lido?
b) Segundo o eu lírico, as mudanças do mundo novo são desconhe-
cidas dos antigos. Contudo ele menciona vários dos “antigos” na
terceira estrofe. Por quê?
c) Copie, em seu caderno, o verso em que o eu lírico explica essa in-
fluência mencionando passado, presente e futuro.
5 Esses versos de 1914 podem ser considerados uma espécie de manifes-
to de uma nova poética, de um novo conceito de poesia? Justifique.
. Que versos você poderia citar para justificar sua resposta anterior?
6 Quanto à forma, que características diferentes os versos apresen-
tam com relação às odes clássicas?

Cada artista cria suas pró-


prias concepções de arte
Essa nova postura se mani-
As revoluções artísticas:
o fim da arte tradicional

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
festa nas diversas artes. Na li-
teratura, chega ao fim a no-
ção rígida de estilos literários,
tal como se percebia nos sécu- Desde o final do século XIX, a arte passou a apresentar transformações.
los anteriores. Sobre essa inde- A ruptura com o passado e a pesquisa de novas formas de expressão carac-
pendência do escritor moderno, terizam a arte no início do século XX, que nasce cercada de irreverência,
veja o que diz o poeta brasileiro polêmica e experimentação. Formam-se grupos, nascem e morrem tendên-
João Cabral de Melo Neto.
cias, mas aos poucos surge um individualismo artístico que será a marca
[...] O autor de hoje traba- do novo século.
lha à sua maneira, à manei-
ra que ele considera mais Esse desejo de renovação e libertação pode ser percebido, por exemplo,
conveniente à sua expressão neste texto do poeta português José Régio.
pessoal.
Do mesmo modo que ele Cântico negro
cria sua mitologia e sua lin-
guagem pessoal, ele cria as “Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
leis de sua composição. Do Estendendo-me os braços, e seguros
mesmo modo que ele cria De que seria bom que eu os ouvisse
seu tipo de poema, ele cria Quando me dizem: “vem por aqui”!
seu conceito de poema e, a
partir daí, seu conceito de Eu olho-os com olhos lassos,
poesia, de literatura, de arte. (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
Cada poeta tem sua poéti- E cruzo os braços,
ca. Ele não está obrigado a E nunca vou por ali…
obedecer a nenhuma regra,
nem mesmo àquelas que em A minha glória é esta:
determinado momento ele Criar desumanidade!
mesmo criou, nem a sinto- Não acompanhar ninguém.
nizar seu poema a nenhuma — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
sensibilidade diversa da sua.
O que se espera dele, hoje, é Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
que não se pareça a ninguém, Não, não vou por aí! Só vou por onde
que contribua com uma ex-
pressão original. [..] Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
NUNES, Benedito (Org.). João Por que me repetis: “vem por aqui”?
Cabral de Melo Neto. Petrópolis: Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Vozes, 1971. p. 190. (Coleção
Redemoinhar aos ventos,
Poetas modernos do Brasil, 1).
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
(Fragmento).
A ir por aí…

12 LITERATURA

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Se vim ao mundo, foi Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Só para desflorar florestas virgens, Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
E desenhar meus próprios pés na areia Mas eu, que nunca principio nem acabo,
[inexplorada! Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
O mais que faço não vale nada.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Como, pois, sereis vós Ninguém me peça definições!
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem Ninguém me diga: “vem por aqui”!
Para eu derrubar os meus obstáculos?… A minha vida é um vendaval que se soltou.
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, É uma onda que se alevantou.
E vós amais o que é fácil! É um átomo a mais que se animou…
Eu amo o Longe e a Miragem, Não sei por onde vou,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos… Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí!
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
RÉGIO, José. In: MOISÉS, Massaud (Org.).
Tendes pátrias, tendes tetos, A literatura portuguesa através dos textos.
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. 13. ed. São Paulo:
Eu tenho a minha Loucura! Cultrix, 1983. p. 433-434.
Levanto-a, como um facho, a arder na noite
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

[escura,
E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios…

Início do século XX na Europa: novidades na ciência e suas consequências


Os primeiros vinte anos do século XX presenciaram um 1913 – Primeira locomotiva diesel-elétrica (Suécia).
notável desenvolvimento científico e tecnológico. As inú- Henry Ford introduz, em sua fábrica de automó-
meras invenções e descobertas realizadas entre 1900 e veis, a primeira linha de montagem (EUA).
1920, nos mais diversos campos, mudaram profunda- 1916 – Primeiros tanques de guerra blindados (Grã-
mente a face do mundo, criando um novo ritmo de vida -Bretanha).
para a maior parte da humanidade. Invenção do sonar (França).
Eis alguns fatos marcantes desse período: Primeiro voo transatlântico (Grã-Bretanha).
1900 – Primeiro sinal telegráfico transatlântico (Grã- Primeiras emissões radiofônicas regulares (EUA).
-Bretanha).
1903 – Invenção do eletrocardiógrafo (Holanda). A Primeira Guerra Mundial
Exibição do primeiro grande sucesso comercial do
cinema, O grande roubo do trem, filme de aven- O início do século XX não presenciou apenas o avan-
tura que determinaria o ritmo narrativo do cine- ço benéfico da ciência. Na Europa, conflitos políticos le-
ma posterior (EUA). varam à eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
1906 – Em outubro, Santos Dumont realiza, em Paris, o pri- que deixou milhões de mortos, entre civis e militares. E o
meiro voo com um veículo mais pesado que o ar. conhecimento científico, saudado inicialmente como algo
Primeira transmissão da voz humana pelo rádio que traria felicidade e bem-estar à humanidade, começa-
(EUA). va a ser utilizado no aperfeiçoamento das máquinas de
Primeiro voo tripulado em helicóptero (França). destruição de seres humanos.
THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/
KEYSTONE – COLEÇÃO PARTICULAR

SARGENT, John Singer. A


marcha dos gaseados.
1918. Óleo sobre tela,
231 x 611,1 cm.
Nesse quadro estão
representados soldados
que ficaram cegos por
causa do gás de mostarda
usado na Primeira
Guerra Mundial.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 13

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Movimentos que mudaram
nossas ideias sobre arte
Nas primeiras décadas do século XX, a ruptura violenta com o tradicio-
nalismo ocorreu com o surgimento de tendências que provocaram uma
revolução nas artes plásticas, caracterizada por um intenso desejo de expe-
rimentação, de busca de novas linguagens artísticas. Vejamos os principais
movimentos em que nasceram essas tendências.

• Expressionismo
The Munch-ellingsen group, Munch, edvard/licenciado
por auTvis, Brasil, 2010 – nasjonalgallerieT, oslo

Exprimir as emoções e o mundo interior do artista usando a distorção


violenta, a cor forte e o traço exagerado, que não raro chegava à caricatura,
era o objetivo do Expressionismo, surgido nos anos finais do século XIX e
que procurava expressar de modo brusco as angústias do ser humano dian-
te do início de um novo século.
O principal pintor expressionista é o norueguês Edvard Munch (1863-
-1944), autor de quadros intensamente dramáticos, como O grito, de 1893.

• Cubismo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Em 1907, o espanhol Pablo Picasso e o francês Georges Braque desenvol-
vem as ideias do Cubismo. Na pintura cubista, o artista dá simultaneamente
várias visões de um tema, tomadas a partir de diversos pontos. Há um aban-
MUNCH, Edvard. O grito. 1893. Óleo, dono da perspectiva e os elementos do quadro são estilizados em formas
têmpera e pastel em cartão, 91 x 73,5 cm. geométricas. Essa forma inusitada de representar a natureza e, principal-
mente, a figura humana provocou um efeito de estranhamento perturbador
no público acostumado à arte tradicional.
akg-iMages/laTinsTock/Braque, georges/licenciado
por auTvis, Brasil, 2010 – kunsTMuseuM, Berna

succession paBlo picasso/licenciado por auTvis,


Brasil, 2010 – Museu de arTe Moderna, nova york
BRAQUE, Georges.
Casas de L’Estaque.
1908. Óleo sobre
tela, 73 x 60 cm.
Nessa pintura,
Braque abandona a
perspectiva e constrói
formas por meio de
cores, iluminando
cada imagem
separadamente, em
vez de representar
uma paisagem onde
a luz provém de um
único ponto, como
faz a arte tradicional.
PICASSO, Pablo. Moça com bandolim. 1910.
Óleo sobre tela, 100,3 x 73,6 cm.
• Futurismo
A partir de 1909, desenvolveu-se o Futurismo, movimento que nasceu na
Itália. Os futuristas negavam a arte do passado, que julgavam irremediavel-
mente morta, e louvavam as conquistas tecnológicas. Exaltavam o movimen-
to, a energia, a velocidade, procurando integrar a arte naquilo que considera-
vam o glorioso mundo moderno, feito de violência e rápidas transformações.

14 literatura

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 14 5/7/10 4:24:38 PM


A palavra-chave desse movimento era dinamismo, e sua principal contri-

THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE/SUCCESSION MARCEL DUCHAMP/


LICENCIADO POR AUTVIS, BRASIL, 2010 – PHILADELPHIA MUSEUM OF ART, PENSILVÂNIA
buição foi a ideia de sincronicidade na obra de arte, um modo de reunir vi-
sualmente aquilo que acontece simultaneamente: som, luz e movimento.
O líder do movimento futurista foi o poeta italiano Filippo Marinetti
(1876-1944), que assim escreveu em 1909, no Manifesto futurista:
[...]
3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o
êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insô-
nia febril, o passo ginástico, o salto perigoso, a bofetada e o soco.
4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com
uma beleza nova: a beleza da velocidade. [...]
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro.
2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 66. (Fragmento).
BALLA, GIACOMO/LICENCIADO POR AUTVIS,
BRASIL, 2010 – TATE GALLERY, LONDRES

DUCHAMP, Marcel. Nu descendo uma


escada no 2. 1912. Óleo sobre tela,
147,5 x 89 cm. Essa pintura, em que a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

figura humana é representada como


uma máquina em movimento, tem
características cubistas e futuristas.

BALLA, Giacomo. Velocidade


abstrata: o carro passou. 1913.
Óleo sobre tela, 50,2 x 65,4 cm.
Essa pintura é tipicamente
futurista.

• Abstracionismo
Na primeira década do século XX, mais um “ismo” surge na história da
arte, o Abstracionismo, em que o artista deixa de uma vez por todas de
representar a realidade exterior. As cores e as formas passam a ser vistas
como entidades autônomas, com valor próprio. O quadro deixa de ter a
realidade como referencial e vale por si mesmo. É uma superfície com
formas e cores, mas sem tema reconhecível. Um dos principais nomes do
Abstracionismo foi o russo Wassily Kandinsky (1866-1944).
THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE/KANDINSKY,
WASSILY/LICENCIADO POR AUTVIS, BRASIL, 2010 –
SOLOMON R. GUGGENHEIM MUSEUM, NOVA YORK

KANDINSKY, Wassily.
Prazeres. 1913. Óleo sobre
tela, 109,8 x 119,7 cm.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 15

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 15 05.05.10 13:19:46


• Dadaísmo
THE INTERNACIONAL DADA ARCHIVE –
BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE IOWA, EUA

Movimento surgido em 1916, em Zurique, na Suíça. Profundamente ir-


reverente e destruidor, o Dadaísmo reflete a descrença de uma geração
marcada pela guerra. Eis um trecho de seu manifesto, de 1918:
[...] Eu destruo as gavetas do cérebro e as da organização social:
desmoralizar por todo lado e lançar a mão do céu ao inferno, os
olhos do inferno ao céu, restabelecer a roda fecunda de um circo
universal nos poderes reais e na fantasia de cada indivíduo. [...]
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro.
2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 112. (Fragmento).

O líder do movimento era o romeno Tristan Tzara (1896-1963) e a pala-


vra dadá, que deu nome ao movimento, foi escolhida por ele, casualmente,
num dicionário francês. Essa palavra, aliás, não tem nenhum significado
Capa do número 2 da revista Dadá, 1920.
especial e, por isso mesmo, batizou o movimento.
Num de seus manifestos, o dadaísta Tzara apresenta a receita seguinte:
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam
[esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do
[saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade
[graciosa, ainda que incompreendido do público.
TZARA, Tristan. Para fazer um poema dadaísta. In: TELES, Gilberto Mendonça.
Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 103.
THE BRIDGEMAN ART LIBRARY/KEYSTONE – MATTIOLI COLLECTION, MILÃO

O Dadaísmo durou apenas alguns anos e provocou muitas polêmicas


por sua atitude radical de negação de todos os valores. Alguns artistas que
participaram do movimento dadaísta se organizaram em 1924 e lançaram
o Surrealismo. Veja o que diz o crítico Gilberto Mendonça Teles a respeito
desse movimento:
[...] O futurismo lançou-se contra o passado e sonhou uma super-
literatura no século da “velocidade”; o expressionismo via a des-
truição do mundo, mas sabendo que do caos se organizaria uma
estrutura superior, que era a verdadeira beleza. Para os dadaístas,
entretanto, não havia passado, nem futuro: o que havia era a guer-
ra, o nada: e a única coisa que restava ao artista era produzir uma
antiarte, uma antiliteratura: “Dadá não significa nada”, “a obra não
tem causa nem teoria” e “Eu estou contra os sistemas; o mais acei-
tável dos sistemas é o de não ter princípio algum”, frase que nos
BOCCIONI, Umberto. Formas únicas na
continuidade do espaço. 1913. Bronze.
lembra a dos nossos modernistas: “Não sabemos o que queremos;
Essa obra representa a realização do sabemos o que não queremos: não queremos o passado.
ideal futurista: expressar vivamente o [...]
dinamismo e o movimento do corpo.
A escultura parece forçar seu caminho TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro.
contra o vento. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 102-103. (Fragmento).

16 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 16 05.05.10 13:19:56


• Surrealismo
Surgido em 1924, o Surrealismo é outro importante movimento artístico
que marcou o século XX. Buscava libertar o artista dos limites da razão, pro-
pondo a expressão plena dos conteúdos da imaginação e do inconsciente
num registro automático, sem nenhuma espécie de censura.
Seu criador, o escritor francês André Breton, assim escreveu em 1924:
[...] A imaginação está talvez a ponto de retomar seus direitos. Se
as profundezas de nosso espírito abrigam forças estranhas capazes
de aumentar as da superfície, ou de lutar vitoriosamente contra elas,
há todo interesse em captá-las, em captá-las desde o início, para sub-
metê-las em seguida, se isso ocorrer, ao controle de nossa razão. [...]
TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro.
2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 132. (Fragmento).

Sob a influência das teorias de Freud sobre o

FONDATION GALA – SALVADOR DALÍ/LICENCIADO POR AUTVIS,


BRASIL, 2010 - MUSEU DE ARTE MODERNA, NOVA YORK
sonho e o inconsciente, os surrealistas passaram a
explorar a livre associação de ideias, procurando
expressar os conteúdos mais profundos da mente.
No campo da pintura, o Surrealismo teve gran-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de desenvolvimento, encontrando-se entre seus


principais representantes os artistas Giorgio de
Chirico, Salvador Dalí, Max Ernst e René Magritte.
Como pudemos ver, apesar das diferenças que
havia entre os diversos movimentos artísticos sur-
gidos nas primeiras décadas do século XX, todos
eles tinham em comum o desejo de renovação e
experimentação, de pesquisa de novos meios de
expressão, rejeitando a tradição em favor de uma
DALÍ, Salvador. A persistência da memória. 1931.
arte mais sintonizada com os novos tempos. Óleo sobre tela, 24,1 x 33 cm.

O Modernismo em Portugal
O Modernismo em Portugal pode ser dividido em três diferentes gera-
ções. A primeira é iniciada em 1915 pela publicação da revista Orpheu. O
lançamento da revista Presença, em 1927, dá início à segunda geração. A

ARQUIVO DO ESTADO, SÃO PAULO


terceira, a geração neorrealista, começa a surgir a partir de 1940. Você vai
conhecer um pouco a respeito de cada uma delas a seguir.

A revista Orpheu
O marco inicial do Modernismo português é o lançamento da revista
literária Orpheu, em 1915. Dirigida por Luís de Montalvor e Ronald de Car-
valho, dela participaram, entre outros, o pintor e escritor Almada Negreiros
e os dois mais importantes poetas dessa primeira geração modernista: Fer-
nando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
A revista teve apenas dois números (março e junho de 1915) e sofreu
ataques furiosos da imprensa conservadora, que chamou os modernistas
de “loucos futuristas”. Mas as ideias provocantes dos jovens artistas marca-
ram presença e abriram espaço para a manifestação de novas concepções
estéticas, numa tentativa de integrar Portugal no clima de renovação que,
como vimos, agitava o ambiente artístico europeu naquela época. Capa do número 1 da revista Orpheu, 1915.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 17

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 17 05.05.10 13:20:00


• Fernando Pessoa
ACERVO ICONOGRAPHIA

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 1888 e morreu em 1935.


A riqueza de sua obra poética coloca-o indiscutivelmente como um dos
maiores nomes da história da literatura portuguesa.
Fernando Pessoa deixou em jornais e revistas alguns textos de crítica
literária e uns poucos poemas em inglês e português. Quase toda a sua
obra só veio a público postumamente. Ao morrer, tinha apenas um livro
publicado — Mensagem.
Esse livro é composto de pequenos poemas que, no conjunto, contam a
história de Portugal e projetam, de forma mística, o sonho de um futuro e
glorioso novo Império. Veja a seguir um dos poemas dessa obra. Observe
que o eu lírico incorpora, em sua fala, o próprio povo português, falando
em nome de uma coletividade. O poema faz alusão às grandes navegações
portuguesas dos séculos XV e XVI.

X. Mar portuguez
Foto de Fernando Pessoa. s.d. Ó mar salgado, quanto do teu sal
Professor: segundo Maria Aliete Galhoz, orga- São lágrimas de Portugal!
nizadora da antologia de que foi extraído esse
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
fragmento do poema “Mar portuguez”, “... como
homenagem à memória do poeta, reproduzimos
absolutamente intocada a grafia de Mensagem...”
Quantos filhos em vão rezaram!
[livro do qual faz parte o poema em questão]. Por Quantas noivas ficaram por casar
isso, “portuguez” (com z e sem acento).
Para que fosses nosso, ó mar!
Bojador: nome de um cabo da costa
ocidental africana. Na direção do sul Valeu a pena? Tudo vale a pena
da África, era o ponto mais avança- Se a alma não é pequena.
do a que haviam chegado os nave-
gadores até então. Os portugueses, Quem quer passar além do Bojador
sob o comando de Gil Eanes, conse- Tem que passar além da dor.
guiram ultrapassá-lo em 1434.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
O nascimento da PESSOA, Fernando. In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.).
República Fernando Pessoa: obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 82.
O fim do regime monárquico
e a instalação da República, em Os heterônimos
1910, é o fato político marcante
do início do século XX em Por- Homem culto, de incrível curiosidade intelectual, Fernando Pessoa des-
tugal. Logo, em seguida, o país dobrou-se em vários heterônimos, dos quais os mais significativos são Ál-
sofreria também as dificul- varo de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. É importante destacar a di-
dades causadas pela Primeira
ferença entre heterônimo e pseudônimo. Pseudônimo é apenas um “nome
Guerra Mundial.
Na década de 1920, o nacio- falso”, inventado por alguém para ser usado no lugar de seu nome verda-
nalismo que empolgava a jo- deiro. Heterônimo, porém, tem outro sentido. Veja como esse substantivo
vem República sofre forte in- vem explicado no Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa:
fluência do fascismo italiano e
do nazismo alemão, assumindo Nome imaginário que um criador identifica como o autor de obras
uma forma radical que leva ao suas e que, à diferença do pseudônimo, designa alguém com qualida-
poder um governo de direita
extremamente autoritário: em
des e tendências marcadamente diferentes das desse criador.
1928, começava a ditadura de INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário eletrônico
Oliveira Salazar, que fundou o Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
Estado Novo em 1933. Esse re-
gime ditatorial perdurou até E é exatamente isso que ocorre com Fernando Pessoa. Além das poesias
1974; nesse ano, a 25 de abril,
ocorre a Revolução dos Cravos, que assinou como ortônimo, ou seja, como Fernando Pessoa “ele mesmo”,
que pôs fim a uma das mais escreveu outras que assinou como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alber-
longas e opressoras ditaduras to Caeiro, e criou, para cada um desses heterônimos, um estilo, uma visão
da história europeia. de mundo particular e até uma ”biografia”.

18 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 18 05.05.10 13:20:02


O objetivo desta seção “Leitura” é fazer com que os alunos reconheçam as ca-
racterísticas da produção de Fernando Pessoa e de seus heterônimos, a partir da
leitura, da análise e da comparação entre os poemas. Sugerimos que os alunos
Leitura façam esse trabalho em grupo. Na “Atividade complementar”, no final do capítulo,
essa comparação será o ponto de partida para a preparação de uma leitura em
Texto 1 voz alta dos poemas de Fernando Pessoa e de seus heterônimos.

O guardador de rebanhos
II

MUSEU CALOUSTE GULBENKIAN, LISBOA


O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento,
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Porque o vejo. Mas não penso nele


Porque pensar é não compreender… NEGREIROS, Almada. Retrato
de Fernando Pessoa. 1954.
O Mundo não se fez para pensarmos nele Óleo sobre tela, 201 x 201 cm.
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…


Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso.
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
PESSOA, Fernando. Poemas completos de Alberto Caeiro.
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Fernando Pessoa: obra poética.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 204-205. (Fragmento).

Texto 2
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida


Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.


Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 19

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Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,


Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as


No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois


Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fado: destino.
Óbolo: moeda.
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Barqueiro sombrio: alusão a Caron- Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
te, que, na mitologia grega, era o Pagã triste e com flores no regaço.
barqueiro que conduzia as almas ao
reino dos mortos, mediante o paga- PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio/Odes de Ricardo Reis.
mento de uma moeda. In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Fernando Pessoa: obra poética.
Regaço: colo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 256-257.

Texto 3

Lisbon revisited
(1923)
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!


A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!


Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!


Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem
[conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.


Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

20 LITERATURA

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Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?


Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!


Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —


Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…


E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio/Poesias de Álvaro de Campos.
In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Fernando Pessoa: obra poética.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 356-357. Lisbon revisited: Lisboa revisitada.

Texto 4

Cancioneiro
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,


Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto


Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.
WEBERSON SANTIAGO

A cada pancada tua,


Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
PESSOA, Fernando. In: GALHOZ, Maria Aliete (Org.). Fernando Pessoa: Dolente: que sente e/ou expressa
obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 140. (Fragmento). dor; lamentoso.

1 No texto 1, do heterônimo Alberto Caeiro, com que objetivo o eu


lírico usa a imagem da criança?

O MODERNISMO EM PORTUGAL 21

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 21 05.05.10 13:20:06


2 Por que, para o eu lírico do texto de Alberto Caeiro, “pensar é estar
doente dos olhos”?
. Com base na afirmação feita pelo eu lírico, é possível dizer que
ele valoriza mais a reflexão ou as sensações? Escreva, em seu ca-
derno, outro verso desse poema que confirme sua resposta.
3 Em um dos versos, o eu lírico do texto 1 menciona um dos prin-
cipais temas explorados por Alberto Caeiro. Considerando o título
do poema e também as referências a flores (girassol e malmequer),
escreva, em seu caderno, o verso em que ele menciona esse tema.
4 No texto 2, do heterônimo Ricardo Reis, o eu lírico refere-se a si
mesmo e a Lídia, sua interlocutora, como “crianças adultas”. Expli-
que a que aspecto da infância ele se refere?
. Essa referência à infância é feita com o mesmo objetivo que a re-
ferência feita no texto de Alberto Caeiro? Por quê?
5 Na segunda estrofe do poema de Ricardo Reis, o eu lírico faz um con-
vite a Lídia que sugere uma postura diante da vida muito diferente
da expressa no poema de Alberto Caeiro. Que convite é esse?
. Por que esse convite permite pensar que a postura diante da vida

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
do eu lírico do poema de Ricardo Reis é diferente da postura ex-
pressa no poema de Alberto Caeiro?
6 Que imagem usa o eu lírico do texto de Ricardo Reis para represen-
tar a passagem constante e inevitável do tempo e da vida?
a) Para o eu lírico, uma vez que não é possível evitar que o tempo
e a vida passem, qual a melhor maneira de viver? Copie, em seu
caderno, versos que comprovem a sua resposta.
b) Que concepção de amor o eu lírico expressa?
7 Nas duas últimas estrofes, que recurso de linguagem usou o eu lírico
para falar da morte?
. O texto de Ricardo Reis é uma ode e nele são feitas alusões à cul-
tura greco-romana. Comparado ao texto de Alberto Caeiro, é pos-
sível dizer que ele é mais formal? Por quê?
8 Que recurso usou o eu lírico do texto 3, de autoria de Álvaro de
Campos, para caracterizar seu interlocutor como indefinido ou in-
determinado?
. Apesar de indeterminado, é possível perceber no texto o que esse
interlocutor representa para o eu lírico? Explique.
9 Leia o seguinte verbete de dicionário:
niilismo s.m. 1. Descrença absoluta. 2. Doutrina segundo a
qual nada existe de absoluto.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da
língua portuguesa. 7. ed. Curitiba: Positivo, 2008. p. 578.

a) Seguindo essa definição, podemos dizer que o eu lírico do poema


de Álvaro de Campos expressa uma visão niilista da existência?
Justifique.
b) Leia novamente os textos de Alberto Caeiro e de Ricardo Reis e res-
ponda: o eu lírico desses poemas teria uma visão niilista da existên-
cia? Copie, em seu caderno, versos que comprovem sua resposta.

22 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 22 05.05.10 13:20:07


10 No texto 4, Fernando Pessoa, o ortônimo, retoma a tradição lírica
portuguesa. Seu poema, construído em redondilhas maiores (versos
de sete sílabas), tem um tema que também apresenta ligações com
o lirismo tradicional português e que caracteriza sua produção. Que
tema é esse?
11 Uma das características do período modernista é o conflito entre a
tradição e o novo, tanto no plano da literatura, da arte, da ciência e
da filosofia quanto na relação do ser humano com a vida. É possível
destacar traços desse conflito nos poemas de Fernando Pessoa e de
seus heterônimos?

ARQUIVO DO ESTADO, SÃO PAULO


• Mário de Sá-Carneiro
Mário de Sá-Carneiro nasceu em 1890 e suicidou-se em 1916. Sua obra
poética, assim como a de seu grande amigo Fernando Pessoa, é uma das
realizações mais significativas do Modernismo português.
A angústia existencial é o tema constante e obsessivo da obra desse es-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

critor. A sensação de ser um “estranho” no mundo é uma tônica em seus


versos. Sá-Carneiro escreveu as seguintes obras: Céu em fogo (contos); A con-
fissão de Lúcio (narrativa); Dispersão (poesias); Indícios de ouro (poesias).

Leitura
Texto 1

Dispersão
Foto de Mário de Sá-Carneiro. s.d.
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida


Um astro doido a sonhar,
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje;
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
[...]
SÁ-CARNEIRO, Mário de. In: MOISÉS, Massaud. Presença da literatura portuguesa:
Modernismo. 6. ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, s.d. p. 49. (Fragmento).

Texto 2

Escavação
Numa ânsia de ter alguma coisa, Nada tendo, decido-me a criar:
Divago por mim mesmo a procurar, Brando a espada: sou luz harmoniosa
Desço-me todo, em vão, sem nada achar, E chama genial que tudo ousa
E a minh’alma perdida não repousa. Unicamente à força de sonhar...

O MODERNISMO EM PORTUGAL 23

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 23 05.05.10 13:20:07


Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
— Onde existo que não existo em mim?
Um cemitério falso sem ossadas,
Noite d’amor sem bocas esmagadas —
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
SÁ-CARNEIRO, Mário de. Poesia. In: BERARDINELLI, Cleonice
Fulva: amarelada. (Org.). Rio de Janeiro: Agir, 2005.

. Explique como os títulos dos poemas resumem o intenso egocentris-


mo que caracteriza a obra de Sá-Carneiro.

• Uma voz distante e feminina:


ACERVO BIBLIOTECA NACIONAL, LISBOA

Florbela Espanca
Florbela Espanca nasceu em 1894 e faleceu em 1930. A importância de
sua obra torna obrigatório mencioná-la quando se fala na produção lite-
rária desse período, ainda que sua vinculação ao Modernismo seja motivo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de controvérsia.
A leitura da obra da escritora portuguesa Florbela Espanca tem
sido feita, via de regra, de duas perspectivas críticas: há, de um
lado, os que nela só veem a sua ligação com a produção literária
do século XIX, vinculando-a rigidamente ora aos quadros do ro-
mantismo, ora aos do decadentismo-simbolismo; e há, de outro,
os que preferem apontar o caráter de exceção e a concreta situação
de marginalidade literária que em Florbela são devidos a uma
Foto de Florbela Espanca. c. 1928. linguagem singular, de autoria feminina, ainda não “audível” no
universo masculino dos intelectuais seus contemporâneos. Mas há
ainda uma perspectiva alternativa que pouco tem sido explorada
e que merece mais atenção: é preciso realçar as afinidades da obra
de Florbela com a produção de seu tempo, isto é, a produção das
três primeiras décadas do século XX. Afinal, o caso é de uma escri-
tora que, nascida em 1894 e falecida em 1930, produziu o essencial
de sua obra literária na década de 1920, quando os modernistas
portugueses se empenhavam em fortalecer as bases do movimento
anunciado em 1915, pela revista Orpheu. [...]
É verdade que Florbela não participou do movimento modernis-
ta e que nem sequer chegou perto das inovações formais com que
Fernando Pessoa e os seus companheiros de geração transforma-
ram efetivamente a linguagem poética. Mas também é verdade que
ela os acompanhou, a par e passo, no gosto das grandes mascara-
Mascaradas: referência a um movi- das, e na adoção de uma postura esteticista que tende a louvar tudo
mento de origem italiana, constituí-
do de cenas ou números alegóricos,
o que seja ostensivamente factício.
mitológicos ou satíricos. JUNQUEIRA, Renata Soares. Florbela Espanca: uma estética da teatralidade.
Factício: que não parece natural. São Paulo: Editora Unesp, 2003. p. 17-18. (Fragmento).

Em vida, sua obra quase não teve repercussão, tendo sido “descoberta” e
valorizada somente depois de sua morte, na década de 1930. Em sua poe-
sia revelam-se inicialmente influências simbolistas, mas seu trabalho logo
adquire um tom bastante pessoal, que fica evidente em poemas que falam
da condição feminina, da ânsia de amar, da busca da felicidade.

24 LITERATURA

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As obras principais de Florbela Espanca são Livro de Sóror Saudade e
Charneca em flor. Leia a seguir um de seus poemas.

Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...


Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:


É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada


Que seja a minha noite uma alvorada,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Que me saiba perder... pra me encontrar...


ESPANCA, Florbela. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa
através dos textos. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1983. p. 472.

A revista
Presença ARQUIVO DO ESTADO, SÃO PAULO

Em 1927, uma segunda ge-


ração de escritores, surgida em
Coimbra, marca seu espaço no
panorama cultural português
com o lançamento da revista
Presença, uma “Folha de Arte e
Crítica”. Reafirma e consolida
as ideias de renovação lançadas
pela geração da revista Orpheu,
mas vai além, procurando desen-
volver uma exigente consciência Capa do
número 1
crítica, ausente nos primeiros da revista
modernistas, exceto em Fernan- Presença, 1927.
do Pessoa.
Do grupo da revista Presença faziam parte escritores que se consagraram
na literatura portuguesa, tais como José Régio, Miguel Torga, João Gaspar
Simões, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais Monteiro.

• Miguel Torga
Miguel Torga é o pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha,
que nasceu em 1907 e faleceu em 1995. É autor de uma obra extensa e
variada (romance, conto, poesia, teatro), mas se destacou principalmen-
te como contista e poeta. O conto que vamos ler a seguir pertence ao
livro Bichos.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 25

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Leitura

Mago
Mago respirou fundo. Abriu o nariz e encheu o peito de ar ou
de luar, não podia saber ao certo, porque a noite era uma mistura de
brisa e claridade. Mas fosse de frescura ou de luz a onda que bebera
dum trago, de tal modo o inundou, que em todo o corpo lhe correu
logo um frêmito de vida nova. Esticou-se então por inteiro, firmado
nas quatro patas, arqueou o lombo, e deixou-se ficar assim alguns
instantes, só músculos, tendões e nervos, com os ossos a ranger de
cabo a rabo. Arre, que não podia mais! Aquele mormaço da sala
dava cabo dele. Punha-o mole, sem ação, bambo e morno como o
cobertor de papa onde dormia. A que baixezas a gente pode che-
gar! Ah, mas tinha de acabar semelhante vergonha! Não pensasse
lá agora a senhora D. Maria da Glória Sância que estava disposto
WEBERSON SANTIAGO

a deixar-se perder para sempre no seu regaço macio de solteirona.


Não faltava mais nada! De resto, ali tinha já a primeira demons-
tração: ela a ressonar sozinha na cama fofa, enquanto ele enchia os
pulmões de oxigênio e de liberdade. É certo que a deixara primeiro

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
adormecer, e só então, brandamente, deslizara de seus braços para
o tapete e do tapete para a rua, através do postigo da cozinha. Uma
questão de delicadeza, apenas. Porque, afinal, não havia vantagem
nenhuma em fazer as coisas à bruta e ofender quem só lhe queria
bem... Que diabo, sempre era a senhora D. Maria Sância, a que até
um fio de oiro lhe comprara para o pescoço! Que, considerando
bem, por essas e outras é que chegara àquela linda situação...
— Ouvi dizer que já nem sardinhas comes?!
— Essa agora! É todos os dias...
— E que nunca mais caçaste?!
— Ainda esta manhã...
Piadinhas do Lambão. É claro que os mimos de D. Sância lhe ha-
viam deformado o gosto... Metia-lhe os petiscos ao focinho, tentava-
-se! E havia por onde escolher, de mais a mais... Quanto a ratos, que
necessidade tinha de perder o tempo, debruçado três horas sobre
um buraco, sem mexer sequer a menina dos olhos, à espera dum
pobre diabo qualquer que ressonava lá no fundo? Deixá-los viver!
As coisas são o que são. Em todo o caso, ainda comia a sua pescada
crua e deitava honradamente a mão a uma ou outra borboleta bran-
ca, sem falar nas andorinhas novas e nos pardalecos que filava por
desfastio na primavera. Que demônio! Mais, seria exagerar.
— Mas que não sais de casa, sempre agarrado às saias...
Na verdade, saía pouco. Outros tempos, outros hábitos. Banque-
teava-se e ficava-se pelas almofadas... Digestões difíceis, vinha-lhe
um migalho de sonolência... Às vezes tentava reagir. Mas o raio da
velha, mal o via pôr o pé na soleira da porta, perdia a cabeça! Pare-
cia uma sineta:
— Mago! Mago! Bicho, bichinho!
Regressava aos lençóis. Contrariado, evidentemente. Mas quê!
Era o pão... O pãozinho da boca! Que remédio senão torcer cami-
nho e, com as unhas discretamente recolhidas, continuar as carícias
de algodão em rama no cachaço da dona...
— E que deixaste a Faísca!...

26 LITERATURA

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— Eu?!...
— Que anda metida com o Zimbro... Pelo menos é o que consta.
Que teve até cinco pequenos dele...
— Meus! Muito meus! Do meu sangue!
Pantominice. Um triste chanato na hora do convento... Paleio de
chavelhudo manso... A ninhada pertencia inteirinha ao Zimbro. Até
pela pinta se via. Todos com o mesmo olhinho remeloso do pai...
Um parrana, realmente, embora o não confessasse. Os mimos da
D. Sância tinham-no desgraçado. Ah, mas a coisa ia mudar de fi-
gura! Estava farto de ser desfeiteado. Ainda há bem pouco tempo...
Chegara-se ao pé da mulher, disposto a impor a sua autoridade.
— Ouve lá: disseram-me que mos andas a pôr para aí com todo
o mundo?!
E recebe esta pelas ventas:
— Bem haja eu!
— Bem hajas tu?!
— Nunca guardei respeito a maricas!...
Só a tiro! Mas a verdade é que a Faísca tinha razão. Lá de ano a
ano é que vinha procurá-la, e isto de gado fêmeo quer assistência...
Além disso, pesadão, desconsolado. E até esquecido dos ganidos
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dessas horas... Uma vergonha!


— Aparece logo à noite, pelo Tinoco... Há reunião... E adeusi-
nho...
— Adeus, Lambão.
Foi no quintal, à tarde, quando a D. Sância dormia a sesta. O an-
tigo companheiro, empoleirado no muro, rondava a cozinha da vi-
zinhança, onde assavam carapaus. Por acaso chegara à janela nesse
momento, vira-o e fizera-lhe sinal. E o outro, de boa ou de má-fé,
abrira o saco. Mas há males que vêm por bem. Depois da conversa,
pensara maduramente no caso, e ali estava agora disposto a ressus-
citar daquela vida perdida em que o destino o metera.
Sim, ali estava, a dois passos do Tinoco, o clube da gataria do
bairro. Bem situado, com saída para dois quarteirões, fora funda-
do pelo maior valdevinos da geração: — o Hilário. Era um telhado
corrido, quase plano, amplo, alto, mas de onde se podia cair de qual-
quer maneira numa aflição. Um achado. Como a casa servia de ar- WEBERSON SANTIAGO

mazém, o Hilário viu de relance as condições do local. E logo no


outro dia os beijos, as mordedelas, os arranhões e os queixumes do
cio foram ali.
Bons tempos esses! Namorava então a Boneca, uma gatinha bor-
ralheira de a gente se perder.
— Ora viva!
— Miiau...
— Seja bem aparecida, a minha princesa!
— Miiau...
Mimo da cabeça aos pés. Mas um rebuçadinho! Depois enrodi-
lhara-se com a Moira-Negra, um coiro velho, curtido e batido. Cada
guincho que abria a noite!
— Cala-te lá com isso, mulher!...
Isso calava ela! Acabou por se aborrecer. Por fim veio a lambis-
goia da Perricha... Uns trabalhos. Ciúmes, fraqueza, dores de cabe-
ça, o diabo!
— Matas-te, filho, arruínas-te...

O MODERNISMO EM PORTUGAL 27

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Palavras sensatas da mãe.
— Muda de vida, homem! Essa excomungada leva-te à sepultura.
Mas quê! O vício pode muito...
Até que a mãe morreu de velhice e desgosto, a Perricha de-
sapareceu das redondezas, e ele foi cair por acaso no quintal da
D. Sância.
— O bichinho está doente. Se calhar é fome...
E a ternura da senhora nunca mais o largou. A princípio ainda
tentou reagir; mas, por fim, o corpo, o miserável corpo, acostumou-
WEBERSON SANTIAGO

-se ao ripanço. A parva cuidava que era amor correspondido. Me-


lhor fora! Amizade sincera não é com gatos. Simplesmente, quem
brinca aos afogados, afoga-se. Com o andar do tempo, a moleza
tomara conta dele... Quando reparou, estava perdido. Às vezes
apetecia-lhe atirar com os aparelhos ao ar. Infelizmente, as vidas
iam ruins. Virava-se um balde de restos, e não se aproveitava uma
espinha. Que remédio, pois, senão contemporizar... Mas cara apo-
sentadoria! Considerando bem, melhor fora que o estafermo da
solteirona nunca lhe tivesse aparecido. Mais valia andar pelado e a
cair de fome, e ser capaz de responder ao pé da letra aos sarcasmos
que agora lhe atiravam.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
— Olha o Mago!... Olha o milionário!...
O patife do Tareco. Era de o derreter logo ali! A desgraça é que
não podia passar da mansa indignação que o roía. Nem forças,
nem coragem para mais. E, logo por azar, com o clube à cunha!
Parecia de propósito. Raios partissem a D. Sância e mais quem
lhe gabava as almofadas! Por causa delas pouco faltava para lhe
cuspirem na cara!
— Com que então de visita aos bairros pobres?! Obra de assistên-
cia aos desvalidos, não?...
Até o bandido do Zimbro! Vejam lá! O engraçado! Não contente
de lhe roubar a mulher, de lhe pregar um par deles do tamanho
duma procissão, vinha ainda com provocações à vista de toda a
gente. Ah, mas estava redondamente enganado, se cuidava que não
recebia o troco devido!
— O cavalheiro seja mais delicado...
— Reparem nas falinhas dele... A tratar os amigos por cavalheiros!
— Amigos?! Eu não tenho amigos da sua laia!
— Pesam-lhe na testa, coitado!
Desembestou. Cego da cabeça aos pés, atirou-se ao abismo. Infe-
lizmente, as ensanchas do Zimbro eram outras. Tinha raiva, tinha
dentes, tinha unhas e fôlego. Contra tais armas, que podia a sanha
dum pobre mortal, gordo e lustroso? Servir de bombo da festa... É
que nem a primeira acertou! Ágil e musculado, e com a maleabili-
dade de uma cobra, o inimigo furtou-se à sua fúria e ripostou a va-
ler ao golpe esboçado. Depois, foi o bom e o bonito! A seguir a uma
saraivada de investidas traiçoeiras, meia dúzia de navalhadas de
liquidar um homem. Só visto! No fim da luta, quando já não podia
mais e se confessou derrotado, sangrava e gemia tanto que até um
polícia, em baixo, na rua estreita, se comoveu. O clube, esse, parecia
doido de alegria. A Faísca rebolava-se no chão, de contente.
Fugiu desvairado pelos telhados fora. A lua, cada vez mais bran-
ca lá no alto, olhava-o com desdém. A cidade, adormecida, parecia
um cemitério sem fim. Da torre duma igreja saía um pio agoirento.

28 LITERATURA

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Jogara naquele lance o resto da dignidade. E perdera. Dali por
diante, seria apenas uma humilhação sem esperança. Ele, que tive-
ra nas mãos possantes e nervosas o corpo fino e submisso da Bone-
ca, ele, o escolhido da Moira-Negra, ele, o companheiro de noita-
das do Hilário, ele, Mago, relegado definitivamente para o mundo
das pantufas e dos tapetes! Proibido para o resto da existência de
pensar sequer numa baforada da húmida frescura que agora lhe
atravessava as ventas e lhe deixava cantarinhas no bigode... Conde-
nado para sempre ao bafio da maldita sala de visitas de D. Sância!
Negra sorte! E tudo obra do coirão da velha... Se não fosse ela, em
vez de ir ali esquadrilhado e a mancar da mão esquerda, estaria no
Tinoco a soltar ganidos como os outros, depois de ter feito o Zim-
bro em pedaços... Assim, arrastava-se penosamente por aquele
caminho de desespero, tal e qual um moribundo a despedir-se da
vida... Miséria de destino! Vexado, vencido, retalhado no corpo e na
alma... E tudo obra do estupor da santanária!...
Vinha rompendo a manhã. Um sino ao longe deu seis horas.
Abriam-se as primeiras janelas. Grandes laivos avermelhados
anunciavam a chegada próxima do sol.
Parou. Lambeu a pata doente e sacudiu-se, num arrepio. Uma
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

lassidão profunda começava a invadi-lo. Maldita D. Sância!... Se


nunca tivesse conhecido tal sujeita...
Olha, olha, a enevoar-se-lhe a vista!... Queriam ver que ia
desmaiar?!
Encostou-se a uma chaminé, e ficou algum tempo sem dar acordo
de si, a arfar penosamente. Até que uma onda de energia o trouxe
de novo ao mundo. Arregalou os olhos. Estava melhor, felizmente!
Já enxergava claro outra vez. Podia continuar.
Em que trabalhos o metera o raio da velha! E louvar a Deus safar-
-se com vida da brincadeira... Coça valente!... Por um triz que não
se ficava... Muita resistência tinha ele ainda!
A alguns metros apenas do jardim da casa, cuidou que tornava
a desfalecer. E só então é que reparou: deixava um rasto de sangue
por onde passava...
Fez das tripas coração, e lá conseguiu equilibrar-se e chegar ao
pequeno muro que vedava o paraíso da sua perdição. Saltava? Não
saltava? Que infâmia, regressar aos mimos da D. Sância! Que nojo!
Que ordinarice!
Mas a que propósito vinham agora semelhantes escrúpulos e
recriminações? Sim, a que propósito? Fartinho de saber que nem
sequer lhe passara seriamente pela cabeça a ideia de resolver o caso
doutra maneira! Ao menos fosse sincero! De resto, que esforço con- Postigo: pequena porta.
creto fizera para se libertar? Nenhum. Ainda não havia uma dúzia Parrana: que ou aquele que se apre-
de horas, ouvira a voz do Lambão como um eco da própria cons- senta malvestido.
ciência... E, afinal, ali estava outra vez! E viera de livre vontade... Carapaus: espécie de peixe.
Ninguém o obrigara... Já roído de remorsos? Ora, ora! Outro fosse Valdevinos: vadio.
ele, nem aquela casa encarava mais. E voltara! Sim, voltara misera- Coiro: couro.
Ripanço: preguiça, indolência.
velmente... E à procura de quê? Da paz podre dum conforto castra-
Estafermo: alguém que atrapalha.
dor... Que abjeção! Que náusea!
Ensanchas: ousadias.
E, sem querer, sem poder aceitar a sua degradação, Mago en- Sanha: fúria.
trou pelo postigo da cozinha e foi-se deitar entre os braços balofos Bombo: espécie de tambor.
da D. Sância. Infâmia: desonra.
TORGA, Miguel. Bichos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 27-35. Abjeção: degradação.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 29

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1 Que tipo de narrador foi usado nesse conto?
.A escolha do foco narrativo é muito importante em um texto. Que
efeito foi produzido pela escolha desse tipo de narrador?
2 Por que Mago sai de casa naquela noite?
.O que acontece com ele quando reencontra os antigos amigos?
3 Ao longo do conto, Mago parece enfrentar um dilema, mas, no final
da história, é possível perceber que esse dilema não era real. Que
dilema seria esse?
a) Por que esse dilema não era real? Copie, em seu caderno, um tre-
cho do texto que comprove sua resposta.
b) Como Mago se sentia por fazer essa escolha?
4 A fábula é um gênero textual em que as personagens são animais e
em que há sempre um fundo moral. Você acha que o conto “Mago”
tem características de uma fábula? Explique.
5 Esse conto foi escrito em 1940. Em sua opinião, o dilema sugerido
nessa história ainda pode ser considerado atual? Por quê?

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Fernando Namora nasceu
A geração neorrealista
em 1919 e faleceu em 1989. Dei- Na década de 1940, surgiu uma terceira geração literária, que desen-
xou uma extensa obra de ro-
mancista e contista. Foi médico volve sobretudo a prosa (romance e conto). Alguns autores fazem da lite-
e, segundo o crítico Massaud ratura uma forma de leitura crítica da sociedade portuguesa da época, a
Moisés, essa profissão possibi- conturbada época dos tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial. Essa ge-
litou experiências que ele pôde ração sofreu forte influência de alguns escritores norte-americanos (como
aproveitar em seus livros. É o
que pode ser percebido no con- Steinbeck, John dos Passos e Hemingway) e brasileiros (como Jorge Amado,
to ao lado, extraído do livro Re- Graciliano Ramos e José Lins do Rego).
talhos da vida de um médico. O Neorrealismo, nome com que ficou conhecido esse movimento, re-
É um conto com grande tensão velou prosadores importantes, tanto na linha social como na psicológica,
dramática, no qual, ao mesmo
tempo em que focaliza a vida dentre os quais podemos citar Ferreira de Castro, Fernando Namora, Alves
sofrida do homem do interior, Redol, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, entre outros.
faz uma fina análise do com-
portamento humano. Leitura

História de um parto
Com vinte e quatro anos medrosos e um diploma de médico,
tinha começado a minha vida em Monsanto. Ali, a província bravia
despede-se da campina, ergue-se nos degraus das fragas para olhar
com altivez as serras de Espanha, enquanto o friso de planaltos que
corre as linhas da fronteira espreita as surtidas do contrabando e a
fuga dos rios.
Aquele povo soturno, endurecido a subir e descer abismos, fru-
tificando uma terra alheia, pressentiu o perigo da minha inexpe-
riência. Os camponeses vinham ao consultório fechados em meias
palavras, avaliando dos meus dotes de mágico, e nas suas faces
obstinadas havia apenas desconfiança e desafio. Algumas vezes, a
morte estava ali entre mim e eles, troçando da minha humildade
apavorada, e nem assim me davam um estímulo: duros, inviolá-
veis, lá lhes parecia que um bom médico não precisa de arrimos.

30 LITERATURA

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Muitos anos atrás, outro colega tinha sofrido o mesmo ambiente,
em despique com bruxas, leiloado na praça pública a votos e a mur-
ros, e, apesar de tudo, vencera. Essa gente granítica, com os ossos
a esticarem uma pele morena, esperava de mim, como esperara e
exigira do antigo médico, antes de o aceitar, a prova indiscutível
que decidisse da minha reputação: um parto, por exemplo, com o
seu assombroso mistério, as suas horas de mortificada expectativa.
O parto sempre representou aos olhos do povo uma hora solene:
nele se decidem duas vidas e também as qualidades de arrojo, cal-
ma e de saber de um profissional. O curandeiro pode ser insultado
na sua banca de barbeiro ou no instante aflito de uma sangria de
urgência; mas a comadre, a velha suja talhada em pedra enrugada,
sem sorrisos nem lágrimas, que espreita a nossa entrada no mundo,
tem fama e pão certos até ao fim dos tempos.

WEBERSON SANTIAGO
Deu-se por essa altura, um casamento pomposo e, como tal, esta-
va indicada a presença ornamental do médico. Lá fui, sob a promes-
sa de ser acompanhado pelo meu amigo farmacêutico, homem de
vagas de gênio que ajudavam a vencer os dias ensonados daquele
desterro. Calhou vir também à boda o colega que me precedera
no partido médico. Entretanto, a alguns quilômetros, para lá dos
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

barrocais retalhados nas gargantas dos penedos, uma camponesa


gemia, havia quatro dias, as dores de parto; e desde que a comadre
confessara a inutilidade dos seus préstimos, justificando-se com a
criança atravessada no ventre, nada restava fazer, salvo a ciência
de um doutor. A família veio por aí acima, entregue ao passo con-
formado daqueles heroicos jericos de Monsanto, que galgam e se
firmam nos pavorosos declives dos caminhos. Trazia consigo um
problema de parto e de cortesia: dois médicos estavam nessa tarde
na aldeia, lado a lado, à mesa de uma festança. Um tinha cumprido
em dois anos de partos, dores, aflições; o outro era este imberbe
João Semana, que nada garantia. Mas sendo eu o médico da terra —
eis a cortesia em jogo — a cadeira pertencia-me, devia ser procurado
para o trabalho e para o pago. E a família acabou por correr o risco:
seria eu o escolhido. Para mim o transporte do burro, o sobressalto,
a ansiedade pelo que poderia acontecer. O meu nervosismo ain-
da foi atiçado por uma rude prova de franqueza dos campônios:
sucedeu que, mal eu chegara junto da esmorecida parturiente, me
confessaram, com ressaibos de deferência, as dúvidas que haviam
tido na minha escolha!
E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura
que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do
que esse ventre estafado de esforços vãos, do que a bacia estreita
que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me decidir
àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com
os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das fa-
mílias aldeãs. [...]
Num mutismo que não dava esperanças a ninguém, pensava que
caminho devia escolher: expulsar dali a comadre, desempenhando
de vez o meu papel, procurando aliviar-me de todos os pesos e
dúvidas estranhas que enredavam as minhas decisões de médico,
ou esperar que algum imprevisto viesse robustecer-me a minha ri-
dícula posição.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 31

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Dentro do quarto, sufocando a mulher, além de mim e da coma-
dre, completavam o ambiente as vizinhas e conhecidas, tenebrosa-
mente vestidas de escuro, umas abanando com o lenço o suor frio
da parturiente, outras enxotando as moscas, em gestos moles e rit-
mados, outras, ainda, hirtas de expectativa, e todas agigantando-se
como pesadelos, como juízes proféticos.
Os homens, o pai e o marido, esperavam cá fora, sentados numa
laje que ocupava quase todo o pátio, onde se abria um canal para
esgoto das urinas escapadas das furdas. Vim junto deles desafogar
os pulmões no ar fresco e livre. O pai da parturiente, um homem re-
signado, esperou-me com uns olhos em que havia prece. Sentamo-
-nos os três, derreados, por uns minutos. Então, pedi ao marido que
WEBERSON SANTIAGO

fosse à vila buscar-me os ferros. O velho levou as mãos à cabeça e


escondeu os olhos. Eu devia encorajá-lo, dar-lhe um aceno daquele
apoio de que eu próprio precisava: era ele a única pessoa em quem
verdadeiramente sentia uma angústia sem censuras. Mas não con-
fiei nas minhas palavras e voltei para dentro de casa.
O útero da mulher revigorara-se com os estimulantes, contor-
cia-se no esforço de se libertar. A tarde estava quase no fim, uma
tarde espessa, afrontada, que de súbito se vinha agachar sobre as

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
árvores e sobre as casas. A comadre, ao ver-me em jeitos de nova
observação, tornou com os seus conselhos:
— É nas nalgas, Sr. Doutor.
Quando voltei ao pátio, o velho espremia as mãos e falou-me
como se tivesse as maxilas retesadas.
— É a minha única filha. Salve-a, Sr. Doutor. Somos pobres, não
temos dinheiro, nunca o tivemos, mas eu vou trabalhar até ao fim
da minha vida para lhe pagar. Mas salve-a!
Dei-lhe um cigarro e disse com simplicidade:
— Isto está a demorar. Mas vai. Espere que o seu genro me traga
os ferros.
— Vai rasgá-la?
— Que ideia! É uma ajuda. Custa um bocadinho, mas fica logo
aliviada.
O homem chegou, por fim, desfigurado de suor. Enquanto ferviam
os ferros, uma das assistentes recomendou-lhe afetuosamente:
— Vai comer alguma coisa. Ainda estás em jejum.
— Não tenho fome.
— Mas precisas.
Deu-lhe um pão de vários quilos de peso. Rijo e embolorado. O
homem raspou meticulosamente o bolor, abriu o pão ao meio, tor-
nou a esfarelar os ninhos verdes e comeu, com vagares. A mulher
deu-lhe ainda azeitonas, carregadas de sal. Depois ele despejou nas
goelas uma bilha de água.
Eu já sabia que aquele povo subalimentado iludia o estômago
com litradas de água e montes de verdura, às vezes ervas selvagens,
numa sede provocada pelo sal dos alimentos. E assim, entulhando-
-o, calava aquela ânsia de plenitude.
Quando os ferros foram dispostos para a intervenção, um rumor
correu a assistência. As mulheres deram passos inquietos e inúteis
pela sala, balbuciaram rezas, lacrimejaram, a parturiente gemeu
desconsolada, a comadre empertigou-se de gravidade. A mãe da
rapariga ainda tentou deter-me; varava a minha face imberbe, ago-
ra resoluta, procurando dentro de mim uma decisiva garantia.

32 LITERATURA

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— Será mesmo preciso, Sr. Doutor? Não poderíamos esperar?
— Não, já esperamos muito tempo, minha senhora.
De memória, eu ia revendo precipitadamente as ilustrações
dos tratados, as técnicas, enquanto vaselinava as colheres. Recea-
va ter errado a posição da criança, temia amachucar o ser que
viria para a vida pelas minhas mãos, obcecava-me o pavor de
hemorragias, colapsos, traumatismos, e via já diante de mim um
recém-nascido ferido e deformado. Duas vidas estavam à mercê
daqueles minutos próximos. Deles dependiam ainda o meu pró-
prio futuro e o de alguns daqueles que me rodeavam. A par dos
tratados, também mentalmente estava ali comigo o velho, na sua
imagem de dor humilde e silenciosa. Teria preferido vê-lo a meu
lado, de angústias solidárias, nós dois e a sua filha, depois de
enxotados os corvos.
Gemidos, silêncio, o morno das respirações, uma luz vacilante
e fúnebre de azeite, e depois de muitos esforços dos meus pulsos
e dos meus nervos, de sentir que os ferros desentranhavam não
só a criança, mas também todo aquele ventre dorido, a cabeça do
recém-nascido rompeu para o mundo. Gritei umas ordens, com
uma voz já imperante, protegido por aquilo que, após a timidez e a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dúvida, sentia como um triunfo. A criança chegou às minhas mãos,


mãos heroicamente ensanguentadas, sem uma beliscadura. Tirei-a
depois com ostentação dos dedos engelhados da comadre, lavei-a
com carinho, feliz, alvoroçado. Amava-a como se me pertencesse.
Eu, agora, dominava o ambiente. Dominava os corvos e, entre
eles, o mais sinistro: a comadre. Ela, então, ergueu as mãos, em
transe:
— Milagre! Vi nascer centenas de meninos, vi horas boas e más,
mas um trabalho destes… A criança está aí sem um arranhão. Onde
eu chegar, Sr. Doutor…
E ficamos amigos.
Cá fora esperava-me uma noite sufocada de outono. O velho
tinha aparelhado o jerico e engolia saliva a todo o momento, on-
Ferros: alusão ao fórceps, instru-
dulado o pescoço, mudo de emoção. De chapéu erguido, os olhos mento cirúrgico em forma de pin-
brilhantes, esperava que eu partisse. Entesado numa posição de ça usado em partos difíceis para ex-
trair a criança do útero.
sentido, ficou sempre de chapéu num jeito de bandeira, até que de-
Mutismo: silêncio.
sapareci na dobra da rua. E só depois conseguiu rouquejar: Hirtas: imóveis.
— Obrigado, Sr. Doutor! Obrigado. Viva! para sempre! Furdas: cabanas, casebres.
NAMORA, Fernando. Retalhos da vida de um médico. Afrontada: abafada.
Porto Alegre: Globo, 1970. p. 3-8. (Fragmento). Entesado: duro.

1 No segundo parágrafo, o narrador de certa forma antecipa o desen-


volvimento do conto. Explique.
2 Que importância tem no conto a cena em que o jovem marido da
moça se alimenta?
3 A comadre ocupa o papel de antagonista nessa narrativa, embora
todos ao redor do médico o questionem ao longo do conto. O que a
oposição entre a comadre e o médico pode representar?
4 Por que esse conto pode ser considerado neorrealista? Em que as-
pectos ele se aproxima da prosa realista do século XIX?

O MODERNISMO EM PORTUGAL 33

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 33 05.05.10 13:20:17


As rosas
Quando à noite desfolho e
Os vários caminhos
[trinco as rosas
É como se prendesse entre
da modernidade
[os meus dentes Depois da metade do século XX, a literatura portuguesa continuou se
Todo o luar das noites
[transparentes, enriquecendo e se renovando. Ao lado de autores consagrados, surgem es-
Todo o fulgor das tardes critores que contribuem para a formação de um rico patrimônio literário.
[luminosas, Dentre os escritores importantes que surgiram ou se firmaram na segun-
O vento bailador das da metade do século XX, podemos citar, por exemplo, Sofia de Melo Breyner
[Primaveras, Andresen, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luís,
A doçura amarga dos
[poentes, José Rodrigues Miguéis, Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega, Maria Judite de
E a exaltação de todas as Carvalho, David Mourão-Ferreira, Augusto Abelaira, Antunes da Silva, José
[esperas. Saramago, Lobo Antunes, Herberto Helder, Almeida Faria, entre outros.
ANDRESEN, Sophia de Melo
Breyner. In: MOISÉS, Massaud.
Leitura
Presença da literatura portuguesa: Texto 1
Modernismo. 6. ed. São Paulo/
Rio de Janeiro: Difel. p. 327. Fala do velho do Restelo ao astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
TUCA VIEIRA/FOLHA IMAGEM

E pusemos em ti sei lá bem que desejo


De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome, Napalme: substância
Só a fome, astronauta, só a fome, usada na fabricação de
E são brinquedos as bombas de napalme. bombas incendiárias.

SARAMAGO, José. Os poemas possíveis. 3. ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1981. p. 76.
José Saramago. Foto de 2008.

Em 1998, José Saramago Texto 2


(1922-) tornou-se o primeiro — Ó glória de mandar, ó vã cobiça
escritor de língua portuguesa a
receber o Prêmio Nobel de Li- Desta vaidade a quem chamamos Fama!
teratura, que o consagrou in- Ó fraudulento gosto, que se atiça
ternacionalmente. Ele é autor ˜ aura popular, que honra se chama!
Cua
de vários livros famosos, como Que castigo tamanho e que justiça
O ano da morte de Ricardo Fazes no peito vão que muito te ama!
Reis, Ensaio sobre a cegueira, O
evangelho segundo Jesus Cris- Que mortes, que perigos, que tormentas,
to, Memorial do convento, en- Que crueldades neles experimentas!
tre outros. Mas, além de prosa- Dura inquietação da alma e da vida,
dor, Saramago é também poe-
ta. E tanto em prosa como em Fonte de desamparos e adultérios,
verso a marca de sua literatu- Sagaz consumidora conhecida
ra é a expressão de uma aguda De fazendas, de reinos e de impérios:
visão crítica da realidade so-
cial, política e religiosa do nos- CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Canto IV. In: SALGADO JÚNIOR,
so tempo. Antônio (Org.). Luís de Camões: obra completa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 2002. p. 112. (Fragmento).

34 LITERATURA

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. No texto 1, Saramago faz uma referência ao famoso episódio conhe-
cido como “O velho do Restelo”, do poema Os lusíadas, de Luís de
Camões. Quando a esquadra de Vasco da Gama se prepara para par-
tir da praia de Restelo, em direção à Índia, surge um velho que se
dirige aos navegantes criticando a viagem. Seu argumento é que as
viagens só trazem desgraça ao país, são movidas apenas pela cobiça
e pelo desejo de glória. Destroem famílias, causam ruínas, põem a
perder impérios. Abandona-se o povo à própria sorte enquanto se
gastam fortunas nessas expedições.
Por que o eu lírico do poema de Saramago se assemelha ao “velho
do Restelo” de Os lusíadas? O que há em comum entre eles para que
haja essa similitude?

Encontro com a literatura estrangeira


Erich Maria Remarque: Nada de novo no front
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ALBERT HARLINGUE/ROGER-VIOLL/IMAGEPLUS

Erich Maria Remarque. Foto de 1960.

Vimos neste capítulo que o começo do século XX foi abalado por um trá-
gico acontecimento: a Primeira Guerra Mundial, cujos efeitos dramáticos
se converteram em temas de muitas pinturas e textos literários.
O alemão Erich Maria Remarque (1898-1970) tinha apenas 18 anos quan-
do combateu como soldado na Primeira Guerra Mundial. Sobreviveu, mas
nunca se esqueceu dos horrores que presenciou. Depois de alguns anos,
decidiu pôr no papel essas lembranças e escreveu um livro como se fosse
um diário de guerra. Publicado em 1929, o livro Nada de novo no front fez
sucesso e escândalo. Denunciando a estupidez e a crueldade da guerra,
que transforma seres humanos em máquinas de matar, o livro foi criticado
por aqueles que ainda viam na guerra apenas uma aventura meio român-
tica, plena de atos heroicos, de abnegação, de idealismo. Remarque, no
entanto, mostrava o outro lado, revelava a face dos verdadeiros soldados
de ambos os lados, alguns mal saídos da adolescência, crianças assustadas
matando e morrendo. Denunciava a insensatez daqueles que decidiam,

O MODERNISMO EM PORTUGAL 35

Literatura Vol_3 Cap_1.indd 35 05.05.10 13:20:19


em seus gabinetes, a morte sem sentido de milhares de jovens de ambos
os lados do conflito.
Esse livro foi traduzido para muitas línguas e adaptado para o cinema
em 1930.

Leitura
[...]
Tornamo-nos animais selvagens. Não combatemos, defendemo-
-nos da destruição. Sabemos que não lançamos as granadas contra
homens, mas contra a Morte, que nos persegue, com as mãos e
capacetes. Pela primeira vez em três dias, conseguimos vê-la cara
a cara; pela primeira vez em três dias, podemo-nos defender con-
tra ela. Uma raiva louca nos anima, não esperamos mais indefe-
sos, impotentes, no cadafalso, mas podemos destruir e matar, para
nos salvarmos... e para nos vingarmos. Escondemo-nos, abaixados
atrás de cada canto, por trás de cada defesa de arame farpado, e,
antes de corrermos, atiramos montes de granadas aos pés dos ini-
migos que avançam. O estampido das granadas de mão repercute
poderosamente nos nossos braços e pernas. Corremos agachados

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
como gatos, submersos por esta onda que nos arrasta, que nos
torna cruéis, bandidos, assassinos, até demônios; esta onda que
aumenta nossa força pelo medo, pela fúria e pela avidez de vida,
que procura lutar apenas pela nossa salvação. Se seu próprio pai
viesse com os do outro lado, você não hesitaria em atirar-lhe uma
granada em pleno peito.
As primeiras trincheiras são abandonadas. Ainda são trinchei-
ras? Estão destroçadas, aniquiladas; são apenas restos de trinchei-
ras, buracos unidos por caminhos, ninhos de cratera, nada mais.
Mas as baixas do inimigo aumentam. Não contavam com tanta
resistência.
WEBERSON SANTIAGO

É meio-dia. O sol queima, asfixiante. O suor irrita-nos os olhos e


o limpamos com as mangas; às vezes há sangue junto. Chegamos
agora a uma trincheira em condições um pouco melhores. Está ocu-
pada pelas nossas tropas e preparada para o contra-ataque. Nossa
artilharia intensifica o fogo e impede o ataque inimigo, aferroando
a posição.
As linhas de retaguarda param. Não conseguem avançar. O ata-
que é paralisado pela nossa artilharia.
Ficamos à espreita. O fogo salta cem metros à frente — retoma-
mos a ofensiva. Ao meu lado, a cabeça de um cabo é arrancada.
Ainda corre mais alguns passos, enquanto o sangue jorra-lhe do
pescoço, como um repuxo.
Não chega a haver combate corpo a corpo porque os outros são
obrigados a recuar. Alcançamos novamente nossos restos de trin-
cheira e até a ultrapassamos.
Oh! Esta reviravolta! Alcançamos as posições abrigadas da re-
serva, gostaríamos de rastejar para dentro delas e desaparecer; ao
invés disto, somos obrigados a voltar e mergulhar novamente no
horror. Se não fôssemos autômatos nesses momentos, continuaría-
mos ali, deitados, exaustos, inertes. Mas somos de novo arrastados
para a frente, sem forças, mas ainda selvagens e furiosos; queremos

36 LITERATURA

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matar, pois aqueles que estão à nossa frente são nossos inimigos
mortais; seus fuzis e suas granadas estão apontadas para nós; se
não os exterminarmos, seremos destruídos por eles.
A terra escura, rasgada, destroçada, com seu brilho gorduroso
sob os raios do sol, é o cenário deste mundo agitado e sombrio de
autômatos; nosso ofegar é o ranger das molas do mecanismo; os
lábios estão ressequidos [...]. É neste estado que avançamos camba-
leantes; em nossas almas, crivadas e arrasadas, penetra, torturante

WEBERSON SANTIAGO
e insistentemente, a imagem da terra escura sob o sol gorduroso,
com os soldados mortos e os que ainda estremecem, como se assim
tivesse que ser, e que gritam. Querem agarrar nossas pernas, en-
quanto pulamos por cima de seus corpos.
Perdemos toda a noção de solidariedade; quase não nos reconhe-
cemos, quando, por acaso, a imagem do outro cai sob nosso olhar
de fera acossada. Somos mortos insensíveis que, por um feitiço trá-
gico, ainda conseguem correr e matar.
[...]
REMARQUE, Erich Maria. Nada de novo no front.
Trad. de Helen Rumjanek. São Paulo:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Abril Cultural, 1981. p. 96-98. (Fragmento).

1 Que efeito dramático produz o uso do presente do indicativo neste


texto?
2 Que expressões encontramos no texto que sugerem a desumaniza-
ção dos soldados?
3 Em mais de uma passagem, o narrador se refere a si mesmo e aos ou-
tros soldados como autômatos. Que crítica pode ser retirada dessa
maneira de caracterizar os soldados?
4 Qual pode ser a intenção que justificaria o fato de a cena ter sido
descrita com tamanha crueza?

Atividade complementar
Fernando Pessoa em voz alta
Sugerimos que os grupos se organizem para uma atividade de leitura
dramatizada de textos dos heterônimos de Fernando Pessoa estudados
neste capítulo: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.
Como atividade preliminar, os grupos devem pesquisar textos em que Sugestão de sites para pesquisa
Fernando Pessoa comenta a criação desses heterônimos, dando a cada um <http://www.cfh.ufsc.br/
deles características psicológicas e até físicas. Na internet há vários sites que ~magno/frames.html>
podem ajudar nessa pesquisa. <http://cvc.instituto-camoes.
pt/figuras/fernandopessoa.
Depois, cada grupo deve escolher os textos de um heterônimo que serão html>
lidos em sala de aula. Após a leitura, os grupos devem esclarecer a relação
que há entre os poemas escolhidos e as características do heterônimo. Para mais informações, ver PERRONE-
-MOISÉS, Leyla. Fernando Pessoa: aquém
Os grupos podem usar vários recursos para tornar mais expressiva a lei- do eu, além do outro. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
tura dos textos, como fundo musical, projeção de imagens num telão etc.
Como esses recursos devem ter relação com os textos lidos, devem, portan-
to, ser justificados pelos grupos.

O MODERNISMO EM PORTUGAL 37

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VALE A PENA

Vale a pena ler


Nada de novo no front.
REPRODUÇÃO

Fernando Pessoa:
Erich Maria Remarque. obras escolhidas
Porto Alegre: L&PM, Organização de Álvaro
2004. Cardoso Gomes. Porto
Este é um livro clássico Alegre: L&PM, 2007.
sobre a Primeira Guerra Boxe que contém as
Mundial. Uma narrativa obras Poesia, Poemas de
dinâmica, em ritmo acele- Álvaro de Campos, Poe-
rado, envolvente a ponto mas de Alberto Caeiro,
de parecer que estamos Odes de Ricardo Reis e
vendo as cenas numa tela Mensagem.
de cinema.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Vale a pena assistir
Tempos modernos.
REPRODUÇÃO

Direção de Charles Chaplin. EUA, 1936. Comédia.


Um filme imperdível de Chaplin, o mestre do humor. É
uma sátira impagável e ao mesmo tempo uma adver-
tência sobre a mecanização que tomava conta do mun-
do no começo do século XX, provocando não só uma
mudança radical no ritmo de trabalho como também
problemas sociais.

Vale a pena acessar Atenção: milhares de sites são criados ou desativados diariamente. Por esse motivo,
o endereço indicado pode não estar mais disponível por ocasião do acesso.

http://www.historiadaarte.com.br
Neste site, encontramos uma didática linha do tempo, com explicações sobre todos
os movimentos artísticos, acompanhadas de reproduções de obras importantes. Aqui
você poderá encontrar bom material sobre os movimentos estudados neste capítulo,
como Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo e Surrealismo. Oferece ainda
links para vários sites de arte do Brasil e do exterior. Um deles, por exemplo, possibi-
lita o acesso a todos os museus brasileiros.

38 LITERATURA

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Capítulo

2 O Pré-Modernismo
no Brasil

Lendo a imagem
PALÊ ZUPPANI/PULSAR IMAGENS

DANIEL CYMBALISTA/PULSAR IMAGENS


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Casa de pau a pique em Crateús, zona rural do Ceará. Junho de 2008. Vista geral da Avenida Paulista,
em São Paulo. Fevereiro de 2009.
Leia o texto.

Leitura
Euclides da Cunha descreve a chegada de um novo grupo de soldados do
exército nacional à região onde ficava o povoado de Canudos. Os soldados
iam combater os seguidores de Antônio Conselheiro, um líder religioso que
reunira ali uma multidão de sertanejos miseráveis, esperançosos em ter
seu pedaço de terra e melhorar sua condição de vida. O ano é 1897.
[…]
Os novos expedicionários ao atingirem-no [o sertão] percebe-
ram esta transição violenta. Discordância absoluta e radical entre
as cidades da costa e as malocas de telha do interior, que desequi-
libra tanto o ritmo de nosso desenvolvimento evolutivo e perturba
deploravelmente a unidade nacional. Viam-se em terra estranha.
Outros hábitos. Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesmo,
articulada em gíria original e pinturesca. Invadia-os o sentimen-
to exato de seguirem para uma guerra externa. Sentiam-se fora do
Brasil. A separação social completa dilatava a distância geográfica;
criava a sensação nostálgica de longo afastamento da pátria.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 39

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Além disto, a missão que ali os conduzia frisava, mais fundo, o
antagonismo. O inimigo lá estava, para leste e para o norte, homi-
ziado nos sem-fins das chapadas, e no extremo delas, ao longe, se
Transição: transformação, mudança. desenrolava um drama formidável…
Pinturesca: pitoresca. […]
Dilatava: aumentava. O que ia fazer-se era o que haviam feito as tropas anteriores
Frisava: acentuava, destacava.
— uma invasão — em território estrangeiro. Tudo aquilo era uma
Antagonismo: oposição, incompa-
tibilidade. ficção geográfica. […]
Homiziado: escondido. CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos.
Formidável: terrível, pavoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. p. 551. (Fragmento).

Converse com seus colegas

1 Qual foi a sensação dos expedicionários ao atingirem o sertão e en-


trarem em contato com a gente que lá vivia? Por que eles tiveram
essa sensação?
2 Segundo o autor, o que “perturba deploravelmente a unidade na-
cional”?
3 Por que a missão que devia ser executada pelos expedicionários

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
acentuava ainda mais os antagonismos existentes entre os homens
do litoral e os sertanejos?
4 Que relação podemos estabelecer entre esse texto de Euclides da
Cunha e as fotos que abrem este capítulo?

O Pré-Modernismo
(1900-1920): a literatura
descobre um outro Brasil
O período literário que, no Brasil, recebe o nome de Modernismo co-
meçou em 1922, didaticamente falando. Representou uma grande reno-
vação em nossa cultura e teve, como uma de suas características marcan-
tes, a “redescoberta” do Brasil, o interesse em estudar a nossa realidade
social e cultural.
E o que vem a ser, então, o Pré-Modernismo? Para entender melhor
essa situação, devemos lembrar que, no início do século XX, a literatura
brasileira, de modo geral, não apresentava sinais de renovação. Os movi-
mentos artísticos que agitavam a Europa não repercutiam no ambiente
artístico brasileiro, bastante provinciano e acanhado. Na poesia, predo-
minava o velho Parnasianismo, com sua linguagem rebuscada e temas
repisados, e, na prosa, os velhos recursos do Realismo e até do Roman-
tismo. A literatura passava longe dos problemas mais sérios da sociedade
brasileira.
No entanto, alguns poucos escritores destoaram desse estado geral e
produziram obras que mostravam uma visão crítica da realidade brasilei-
ra. Escritores como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato,
principalmente, expressaram, em maior ou menor grau, uma visão crítica

40 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_2.indd 40 05.05.10 13:21:10


da nossa realidade e, assim, foram uma espécie de precursores do Moder-
nismo — por isso são considerados pré-modernos. Conforme sintetiza o
crítico Alfredo Bosi:

Creio que se pode chamar pré-modernista […] tudo o que, nas


primeiras décadas do século, problematiza a nossa realidade social
e cultural. […]
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira.
3. ed. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 345. (Fragmento).

Um país que cresce com muitos problemas


Os primeiros trinta anos do governo republicano mostram um Brasil com
muitos problemas sociais e políticos. A República, proclamada em 1889,
não trouxera as reformas de que o país necessitava. As desigualdades eco-
nômicas entre as diversas regiões do país, e entre as áreas rural e urbana,
provocam conflitos e tensões sociais.
Vejamos alguns fatos históricos que mostram a agitação social existente
então no país.
1896 — Início dos conflitos no povoado de Canudos, que só terminarão
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

no ano seguinte, provocando milhares de mortes entre a popu-


lação local e os soldados.
1906 — Afonso Pena é eleito presidente da República. Eclodem greves
operárias em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
1910 — O marechal Hermes da Fonseca é eleito presidente da Repúbli-
ca. Decreta intervenção em vários estados, provocando protes-
tos e violenta oposição.
1912 — Explode a guerra do Contestado, conflito armado ocorrido na
região situada entre os estados de Santa Catarina e Paraná. Os
camponeses, liderados por José Maria, que se dizia profeta, ini-
ciam um movimento messiânico de acentuado teor político e
social. O movimento é sufocado pelo general Setembrino de
Carvalho. A maioria dos camponeses morre em combate e os
sobreviventes são fuzilados. A guerra só termina em 1916.
ACERVO ICONOGRAPHIA

Guerra do Contestado: um destacamento do Regimento de


Segurança do Paraná parte para a região conflagrada. 1912.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 41

Literatura Vol_3 Cap_2.indd 41 05.05.10 13:21:11


1913 — Operários de diversos pontos do país realizam comícios com a
presença de milhares de pessoas, protestando contra a carestia,
os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. A jorna-
da de trabalho ainda é, em média, de catorze horas diárias.
1914 — No dia 8 de outubro, agitações operárias fazem o presidente
Hermes da Fonseca decretar estado de sítio no Rio de Janeiro.
Em novembro, toma posse o novo presidente eleito: Vences-
lau Brás.
1917 — Explode uma grande greve operária em São Paulo, envolvendo
cerca de setenta mil trabalhadores. Nos conflitos de rua, a polí-
cia mata um operário.

Euclides da Cunha
ACERVO ICONOGRAPHIA

Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro, em


1866, e morreu assassinado por questões familiares, em 1909, na capital
fluminense.
Cursou a Escola Militar, formando-se em Engenharia. Depois de desligar-
-se do Exército, passou ao serviço civil e começou também a colaborar para
o jornal O Estado de S. Paulo, que, em 1897, enviou-o a Canudos, um pobre

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
povoado no interior da Bahia. A tarefa de Euclides era escrever sobre as
operações do Exército contra uma suposta rebelião de sertanejos, liderados
por um beato chamado Antônio Conselheiro.
Euclides da Cunha ficou em Canudos até quase o fim das lutas e, mais
tarde, em 1902, baseando-se nas observações feitas em campo e retraba-
lhando as matérias enviadas para o jornal, publicou Os sertões. A obra cau-
Euclides da Cunha. Foto sem data. sou grande impacto, não só pela originalidade e exuberância de seu estilo,
como também pela corajosa crítica às ações do Exército, que massacrou a
população de Canudos.

• Os sertões: a denúncia do crime de Canudos


ACERVO ICONOGRAPHIA

MARCOS ISSA/OLHAR IMAGEM

Ruínas do arraial de Canudos, depois do incêndio ateado pelos Região de Canudos, Bahia, coberta por um açude. 1997.
soldados. Foto de Flavio de Barros. s. d.

Embora não seja uma obra de ficção, Os sertões pode ser considerada
uma obra literária pelo tratamento artístico a que o autor submeteu o as-
sunto e a linguagem. E pode ser considerada pré-moderna pela visão crítica
que expressa sobre a realidade brasileira.
Antes de conhecer pessoalmente a região de Canudos e seus habitantes,
Euclides tinha escrito alguns artigos de jornal manifestando uma posição

42 LITERATURA

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Para um estudo mais aprofundado sobre o discurso de Antônio Conselheiro, sugerimos a leitura de: FIORIN, José Luiz.
O discurso de Antônio Conselheiro. Religião & sociedade, São Paulo, 1980. v. 5, p. 95-129. OTTEN, Alexandre H. Só
Deus é grande: a mensagem religiosa de Antônio Conselheiro. São Paulo: Loyola, 1990.
claramente hostil aos sertanejos,

BIBLIOTECA NACIONAL,
RIO DE JANEIRO
vendo-os como uma ameaça à es-
tabilidade da República. Essa era
a posição, aliás, do público em
geral, que desconhecia comple-
tamente as verdadeiras causas do
confronto.
O crescimento de Canudos in-
comodava os donos de terras da
região, e os conflitos que começa- Caricatura de 1896, feita
ram a surgir envolvendo os novos por Ângelo Agostini para
habitantes criaram a imagem de a Revista illustrada, uma
publicação abolicionista
que se tratava de um bando de e republicana. Mostra
perigosos agitadores. Para ajudar Conselheiro e seus soldados
barrando a passagem da
a criar essa imagem negativa, a República.
elite local e a imprensa explora-
vam a posição política de Antônio Conselheiro, que se dizia monarquista e
criticava violentamente a República recém-proclamada. Hoje, uma leitura
menos apaixonada dos fatos revela que o discurso de Conselheiro tinha um
fundo muito mais religioso do que político. A multidão que o seguia era
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

impelida pela miséria e pela ânsia desesperada de uma vida digna — e não
pela maior simpatia por este ou aquele regime político.
Contudo, a versão oficial dos fatos, na qual Conselheiro aparecia como
inimigo da República e da ordem, foi encampada pela imprensa em geral
A sobriedade de Machado
e, assim, aceita pela opinião pública do país, que achava justificada uma
Machado de Assis, por oca-
forte ação repressiva para acabar com o movimento. Um exemplo do ponto sião do final da guerra, em
de vista predominante sobre Antônio Conselheiro é este trecho que Olavo 1897, faz um comentário mui-
Bilac escreveu em dezembro de 1896. to lúcido a respeito do episódio
e sugere que um autor de ta-
[…] Pelo que todo mundo diz do Conselheiro, ele não é só um lento faria um livro interessan-
fanático: é também um salteador; e salteadores, além de fanáticos, te sobre ele.
são também todos os seus sequazes. […] […]
Caso
Ora bem, quando acabar
ZILBERMAN, Regina. Euclides e os outros. In: FERNANDES, Rinaldo de
os alunos esta seita dos Canudos, tal-
desconheçam as palavras (Org.). O clarim e a oração: cem anos de Os sertões. São Paulo: vez haja nela um livro sobre
salteadores (assaltantes) e sequazes (seguido- Geração Editorial, 2002. p. 393. (Fragmento).
res), estimulá-los a procurá-las no dicionário.
o fanatismo sertanejo e a fi-
gura do Messias. Outro Co-
Euclides, como dissemos, a princípio também compartilhou dessa opi- elho Neto [famoso escritor
nião. Mas ao chegar a Canudos começou a mudar seu pensamento, confor- da época], se tiver igual ta-
me explica o professor Adilson Citelli. lento, pode dar-nos daqui a
um século um capítulo inte-
[…] ressante, estudando o fervor
No entanto, o contato com o sertanejo, o testemunho da cruel- dos bárbaros e a preguiça
dos civilizados, que os dei-
dade e da violência praticadas contra Belo Monte, a verificação da xaram crescer tanto, quando
falta de sentido em se fuzilar e degolar prisioneiros, o espanto com era mais fácil tê-los dissolvi-
a carnificina, o genocídio, a insensibilidade do governo para reco- do com uma patrulha, desde
nhecer as particularidades de um mundo marcado pela fome e pela que o simples frade não fez
nada. Quem sabe? […]
miséria operaram mudanças no espírito de Euclides e que terão re-
flexos no processo de feitura de Os sertões. ASSIS, Machado de.
[…] Crônica/A Semana/1897.
In: COUTINHO, Afrânio
CITELLI, Adilson. Roteiro de leitura: Os sertões. (Org.). Machado de Assis: obra
São Paulo: Ática, 1996. p. 35. (Fragmento). completa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1992. v. III.
Assim, Euclides da Cunha passou a afirmar que os sertanejos refugiados p. 765. (Fragmento).
em Canudos não poderiam ser vistos como culpados, e sim como vítimas

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 43

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de uma série de fatores econômicos, geográficos, raciais e históricos. Aban-
donada pelo governo, a população miserável do sertão foi ficando cada vez
mais isolada, facilitando o surgimento do misticismo e fanatismo religio-
so. Criava-se com isso uma situação propícia à atuação de líderes capazes
de eletrizar multidões com suas promessas de paraíso e bem-aventurança,
como foi o caso de Antônio Conselheiro.
O governo republicano, na opinião de Euclides da Cunha, não com-
preendera o problema social, transformando-o numa questão militar. Des-
perdiçava, desse modo, a oportunidade de iniciar um processo de inclusão
daquela população marginalizada:
[…] Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se
Certificar-se de que os alunos entendem a
expressão “caminhos abertos à artilharia”
não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma
(caminhos abertos a tiros de canhão ou propaganda tenaz, contínua e persistente, visando trazer para o
outros artefatos bélicos que compõem
uma artilharia). nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compa-
triotas retardatários.
[…]
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. p. 554. (Fragmento).

Canudos na imprensa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Ainda que tenha aceitado as teorias evolucionistas da época, que viam
Veja como o jornal O Estado na mestiçagem um fator de degradação (teorias que hoje estão ultrapas-
de S. Paulo, que havia contrata-
sadas), Euclides da Cunha criou uma obra que permanece por sua força
do Euclides da Cunha, noticiou o
fim da guerra de Canudos. denunciadora de um grave problema social brasileiro. Argumentando que
caberia ao governo compreender o problema e não simplesmente mas-
Canudos, 6 out. 1897
sacrar Conselheiro e sua gente, o autor, indignado, culpou o Exército pelo
Ontem, às 4 horas da tar-
de, depois de incendiados que chamou de “crime de Canudos”: “Aquela campanha lembra um re-
com querosene pelo valente fluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime.
tenente Dourado os escom- Denunciemo-lo”.
bros das restantes casas, sur-
giram os jagunços que nelas
estavam ocultos. Com a mor- Pequena história do conflito de Canudos
te desses últimos inimigos
Em 1874, temos o primeiro registro de que o cearense Antônio Vicente
da República, houve um de-
lírio indescritível entre todas Mendes Maciel estaria peregrinando pelo sertão e arrebanhando seguido-
as forças do acampamento. O res. Em 1893 — já na vigência do regime republicano —, em uma feira do
toque de alvorada e os da vi- interior baiano, o líder incentiva uma rebelião contra os impostos e seu
tória foram feitos por todas
as bandas de música, cor- grupo é perseguido pela polícia. Há mortes de ambos os lados, mas Antô-
netas e clarins. As mulheres nio, já conhecido como Conselheiro, sai vitorioso.
a quem os nossos soldados O conflito desperta nele o desejo de refugiar-se com seu povo em al-
procuraram salvar ao fogo, gum lugar. Escolhem uma fazenda abandonada à beira do rio Vaza-Barris,
poupando-lhes a vida, não se
quiseram entregar e loucas denominada Canudos, e rebatizam o local como Belo Monte. A notícia da
de ódio atiravam-se às cha- fundação da comunidade logo se espalha e uma multidão vem se juntar
mas, morrendo carboniza- aos conselheiristas; rapidamente a população do arraial chega a 30 mil
das. Um fato houve que hor- pessoas, fazendo dele o segundo maior povoado da Bahia, atrás apenas
rorizou os nossos camaradas:
uma jagunça, intimada a sair de Salvador.
da casa incendiada, apertou Três anos depois, em 1896, o governo estadual organiza a primeira ex-
contra o seio o filhinho que pedição contra Canudos, formada por cerca de cem homens. Antes mesmo
carregava e com ele lançou-
-se às chamas, bradando —
de chegar ao arraial, a tropa é atacada de surpresa pelos conselheiristas e
Viva o nosso Bom Jesus. A in- forçada à retirada. Em janeiro de 1897, uma segunda expedição parte, des-
dômita coragem desta gente sa vez com seiscentos soldados. Caem aproximadamente setecentos conse-
é digna de melhor causa. lheiristas, mas o arraial não é invadido.
O Estado de S. Paulo, 6 out. Diante desses dois fracassos do governo baiano, a União resolve intervir:
1997. Há um século. em março de 1897, o temido coronel Moreira César — conhecido como
O discurso jornalístico sofreu profundas alterações ao longo do tempo. Como vemos neste exemplo, houve uma época em que adjetivações marcadas por forte
carga subjetiva (“valente tenente”) e comentários pessoais explícitos (“A indômita coragem desta gente é digna de melhor causa”) eram perfeitamente comuns nos
textos jornalísticos, inclusive nos gêneros não opinativos, como a notícia. É interessante chamar a atenção da classe para esse aspecto,
44 LITERATURA ainda mais porque, ao longo desta coleção, eles vêm estudando vários gêneros jornalísticos (confrontar, por exemplo, Capítulos 19 e 20
do volume 2) e percebendo que, no discurso jornalístico contemporâneo, a subjetividade é evitada e camuflada o máximo possível.

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“Corta-Cabeça” por seus métodos sanguinários — é designado para coman-
dar uma terceira expedição, agora com mil e duzentos soldados. Contudo,
numa manobra estratégica desastrada, as tropas federais são derrotadas e
Moreira César morre.
Em abril de 1897, organiza-se a quarta e última expedição, sob o coman-
do do general Artur Oscar. Após uma série de batalhas terríveis, que se ar-
rastam por meses e ceifam milhares de vidas de ambos os lados, as tropas
federais finalmente destroem Canudos, numa carnificina impressionante.
No dia 5 de outubro de 1897, ocorre o último confronto, assim descrito por
Euclides da Cunha:
[…]
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, re-
sistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na
precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caí-
ram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro
apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos
quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
[…]
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos.
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Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. p. 642. (Fragmento).

O combate entre essas quatro expedições militares e os conselheiristas


é narrado detalhadamente na última parte de Os sertões, denominada “A
luta” — a mais longa e importante das três partes em que se divide o livro.
A primeira parte chama-se “A terra” e dedica-se a descrever, em minucio-
sos termos científicos, as condições geográficas do sertão nordestino. Nessa
primeira parte, Euclides da Cunha também apresenta algumas hipóteses
para explicar os nefastos ciclos de seca a que a região é submetida.
A segunda parte, intitulada “O homem”, preocupa-se em definir a “gê-
nese da população sertaneja”, sempre de acordo com as concepções cien-
tíficas da época, quando se acreditava na existência de raças humanas, na
superioridade de umas sobre as outras e no caráter prejudicial da mesti-
çagem. Além disso, essa segunda parte narra a história pessoal de Antônio
Conselheiro e a formação do povoado de Canudos.

Leitura
A passagem que leremos a
ACERVO ICONOGRAPHIA

seguir refere-se aos aconteci-


mentos do dia 2 de outubro de
1897 — três dias antes, portan-
to, da rendição total do povoa-
do. Cerca de trezentas pessoas,
mulheres e crianças na grande
maioria, entregam-se aos sol-
dados acampados em Monte
Santo, um povoado vizinho.
Enquanto isso, no arraial, os
poucos jagunços que haviam
restado, cerca de vinte apenas,
continuariam pelejando até a
morte em uma trincheira feita Cerca de trezentos prisioneiros, a maioria mulheres e crianças, entregam-se às
de cadáveres. tropas federais. Foto de Flavio de Barros, 1897.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 45

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[…]
A entrada dos prisioneiros foi comovedora. […]
Os combatentes contemplavam-nos entristecidos. Surpreendiam-
-se; comoviam-se. O arraial, in extremis, punha-lhes adiante, naque-
le armistício transitório, uma legião desarmada, mutilada, faminta
e claudicante, num assalto mais duro do que o das trincheiras em
fogo. Custava-lhes admitir que toda aquela gente inútil e frágil sa-
ísse tão numerosa ainda dos casebres bombardeados durante três
meses. Contemplando-lhes os rostos baços, os arcabouços esmirra-
dos e sujos, cujos molambos em tiras não encobriam lanhos, escaras
e escalavros — a vitória tão longamente apetecida decaía de súbito.
Repugnava aquele triunfo. Envergonhava. Era, com efeito, contra-
producente compensação a tão luxuosos gastos de combates, de
In extremis (latim): na hora da reveses e de milhares de vidas, o apresamento daquela caqueirada
morte, no momento final. humana — do mesmo passo angulhenta e sinistra, entre trágica e
Armistício: trégua.
imunda, passando-lhes pelos olhos, num longo enxurro de carcaças
Baços: mortiços, sem brilho.
e molambos…
Arcabouços: esqueletos.
Lanhos: ferimentos.
Nem um rosto viril, nem um braço capaz de suspender uma
Escaras: crostas de ferida. arma, nem um peito resfolegante de campeador domado: mulheres,
Escalavros: esfolados. sem-número de mulheres, velhas espectrais, moças envelhecidas,

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Apetecida: desejada. velhas e moças indistintas na mesma fealdade, escaveiradas e sujas,
Reveses: derrotas, insucessos. filhos escanchados nos quadris desnalgados, filhos encarapitados às
Apresamento: captura. costas, filhos suspensos aos peitos murchos, filhos arrastados pelos
Do mesmo passo: ao mesmo tempo. braços, passando; crianças, sem-número de crianças; velhos, sem-
Angulhenta: que causa náusea, as- -número de velhos; raros homens, enfermos opilados, faces túmidas
querosa.
Desnalgados: magros, com náde-
e mortas, de cera, bustos dobrados, andar cambaleante.
gas estreitas. […]
Opilados: doentes de amarelão.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos.
Túmidas: dilatadas, inchadas.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. p. 637-638. (Fragmento).

1 Por que diz o autor que, para os soldados, era mais difícil encarar os
prisioneiros do que enfrentar o fogo das trincheiras?
2 Por que a vitória, tão longamente desejada, de repente perdeu o
sabor e a importância?
3 Que recurso literário é utilizado no último parágrafo da passagem
lida? Que efeito tal recurso provoca?

Em 1987, nos cem anos do fim da guerra de Canudos, o jornalista Anto-


nio Carlos de Faria escreveu o seguinte texto.

O centenário
Rio de Janeiro — Canudos está presente em todo o país. Cem
anos depois que o arraial de Antônio Conselheiro foi devastado
pelas tropas do Exército, há um pouco da mesma miséria em cada
favela brasileira.
A primeira de todas elas completa, em novembro, um centenário
de surgimento. É a comunidade do morro da Providência, na re-
gião central do Rio, originalmente chamado de morro da Favela.
Providência é o nome de um rio da região de Canudos. Favela é
o nome de uma planta que provoca urticária, descrita por Euclides
da Cunha em Os sertões. A historiadora Sônia Zylberberg conta que

46 LITERATURA

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soldados que voltaram das batalhas trouxeram mulheres sobrevi-
ventes de Canudos para o Rio. Como o governo não cumpriu a
promessa de construir casas para os combatentes, estes ocuparam
o morro com suas construções irregulares.
Talvez tenham chamado o lugar de morro da Favela porque
viram algo de semelhante na paisagem com um dos locais próxi-
mos a Canudos, onde crescia a planta. Outra hipótese é a de que
os soldados vieram para o Rio com mudas de favela. As mudas
não vingaram no clima úmido, mas as favelas se expandiram e to-
maram conta do país. De nome de uma comunidade de soldados
indigentes e de mulheres subjugadas, a palavra ganhou autonomia,
transformou-se num conceito.
As velhas fotos dos habitantes de Canudos chocam por mostrar a
fraqueza daqueles que foram descritos na época como uma ameaça
à estabilidade da República. Mas causam impacto também por se-
rem ainda tão atuais, podendo ilustrar reportagens recentes sobre
os bolsões de pobreza do país. […]
Canudos não sucumbiu. Está presente, a mostrar que a socieda-
de brasileira ainda vive antigas contradições, um século depois.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

FARIA, Antonio Carlos de. Folha de S.Paulo,


São Paulo, 29 set. 1997. (Fragmento). © Folhapress.

Lima Barreto
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio
de Janeiro, e aí morreu, em 1922. Mulato e de família humilde,
passou grandes dificuldades na vida. Trabalhou na Secretaria de

ACERVO ICONOGRAPHIA
Guerra como escrevente, cargo que ocupou até 1918, quando
se aposentou por motivos de saúde. Alcoólatra, sofreu crises de
loucura que o levaram a ser internado duas vezes no Hospício
Nacional. Dessa experiência dolorosa nasceu o livro de memó-
rias O cemitério dos vivos.
Lima Barreto foi jornalista e autor de crônicas, contos e ro-
mances. O lugar de destaque que ocupa em nossa literatura se
deve à crítica contundente que fez da sociedade carioca (e, por
extensão, da sociedade brasileira) do começo do século XX. De-
nunciou o preconceito racial e a corrupção das nossas elites e
incorporou na sua literatura o povo sofrido dos subúrbios, suas
vidas tristes e sem horizontes. Caricatura de Lima
Barreto, de autoria
Escritor afastado dos grupos de intelectuais que dominavam o
de Hugo Leal, 1919.
ambiente literário carioca, Lima Barreto expressou, em sua pró-
pria linguagem, essa marginalidade: em vez do rebuscamento vocabular
e do purismo gramatical que caracterizavam a literatura da época, apre-
senta um estilo simples e comunicativo, tendo sido considerado, por seus
contemporâneos, um escritor desleixado. No entanto, foi valorizado pelos
modernistas e hoje é visto como um dos mais importantes ficcionistas de
nossa literatura.
De sua produção literária, merecem destaque os romances Recordações
do escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1915),
Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919) e Numa e Ninfa (1923), além de
diversos contos, que foram reunidos no volume Histórias e sonhos, publica-
do postumamente.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 47

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• Triste fim de Policarpo Quaresma
O romance Triste fim de Policarpo Quaresma é a grande contribuição de
Lima Barreto para a literatura brasileira. Ele o escreveu de janeiro a março
de 1911 e, a partir de agosto, começou a publicá-lo em folhetins no Jornal
do Commercio, do Rio de Janeiro. Só foi publicado em livro em 1915.
A ação transcorre no final do século XIX, época da Primeira República, e
a figura central do romance é o major reformado Policarpo Quaresma, um
nacionalista fanático que, conhecendo o Brasil apenas por intermédio dos
livros, sonha em poder ajudar o país a se transformar numa grande potên-
cia. Seu patriotismo leva-o a envolver-se em três projetos, que constituem
o conteúdo das três partes em que se divide o livro.
Inicialmente, Quaresma mergulha no estudo das tradições brasileiras.
Estuda violão com Ricardo Coração dos Outros, um compositor de modi-
nhas populares que, para o major, eram a nossa autêntica expressão mu-
sical. Mas o violão, na época, era considerado um instrumento de vadios
e marginais e, por isso, Quaresma começa a ser criticado pela vizinhança,
que não entende as razões patrióticas desse estudo. Dedica-se também à
pesquisa do nosso folclore (lamentando que muitas cantigas e brincadeiras

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tradicionais tenham sido abandonadas) e ao estudo da língua tupi-guarani
e dos costumes dos nossos indígenas. Obcecado por essas ideias, chega a
fazer um requerimento à Câmara pedindo a oficialização do tupi-guarani
como língua nacional. Tal ato o torna objeto de chacota e ele passa a ser
ridicularizado na repartição em que trabalha e nos jornais. Quaresma fica
tão abalado por essas ofensas que acaba sendo internado num hospital
para doentes mentais, de onde sai para dedicar-se a outro projeto naciona-
A Revolta da Armada, um mo- lista — o trabalho agrícola.
vimento de forte oposição ao
governo autoritário de Floria- Compra o sítio Sossego e resolve pôr em prática as orientações científi-
no Peixoto, ocorreu em setem- cas que encontra nos livros. Mas as terras não se revelam tão férteis como
bro de 1893. Uma parte da Ma- diziam os livros, as pragas são terríveis, há muitas dificuldades na comer-
rinha se rebelou contra Floriano cialização dos produtos — enfim, nada que compense o grande sacrifício
e tentou forçar sua renúncia. As
fortalezas de Santa Cruz, Laje e da lida no campo. Apesar da enorme extensão territorial, o Brasil não se
São João, no Rio de Janeiro, fo- desenvolve como potência agrícola, e Quaresma começa a perceber que o
ram ameaçadas de ataque pe- problema, na verdade, está na corrupção dos políticos, que não fazem leis
los navios dos revoltosos. Para
que ajudem esse desenvolvimento. Dedica-se então a seu último projeto
defender a cidade, instalaram-
-se peças de artilharia em al- — o projeto político.
guns pontos estratégicos. Volta ao Rio de Janeiro, engaja-se voluntariamente nas tropas do mare-
MUSEU HISTÓRICO NACIONAL, RIO DE JANEIRO

chal Floriano Peixoto por ocasião da Revolta da Armada e luta pelos ideais
republicanos. Vê em Floriano o reformador que sonhou e entrega-lhe um
documento em que expõe seus planos de salvação do país. Mas o marechal
responde-lhe secamente: “Você, Quaresma, é um visionário…”.
Desilude-se mais uma vez. Compreende então que não há patriotis-
mo. Os homens que governam o país só estão preocupados com seus
interesses pessoais. E, ao denunciar as atrocidades que se cometem con-
tra os prisioneiros, acaba sendo preso pelo mesmo governo ao qual se
aliou voluntariamente. Na prisão, espera seu “triste fim”. Assim, no final,
Revolta da Armada: acampamento o major Quaresma deixa de ser uma espécie de Dom Quixote, sempre a
dos soldados do 1o batalhão de lutar por objetivos inatingíveis, e adquire dimensões de herói trágico,
Engenharia no morro do Castelo, Rio
de Janeiro, 1891. que, à custa da própria vida, toma consciência da realidade degradada
em que vive.
Lembramos que a célebre obra Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, foi apresentada no
Capítulo 4 do primeiro volume desta coleção.
48 LITERATURA

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Leitura
Texto 1
Numa reunião em seu sítio, Quaresma está conversando sobre agricul-
tura, quando o marido de sua afilhada Olga lhe sugere o uso de adubos.
[…]
— Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal ideia! Pois se
temos as terras mais férteis do mundo!
— Mas se esgotam, major — observou o doutor.
D. Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet que estava fa-
zendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga introme-
teu-se na conversa:
— Que zanga é essa, padrinho?
— É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras pre-
cisam de adubos… Isto é até uma injúria!
— Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor — aduziu o doutor —,

ANDRÉA VILELA
ensaiava uns fosfatos…
— Decerto, major — obtemperou Ricardo. — Eu, quando come-
cei a tocar violão, não queria aprender música… Qual música! Qual
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nada! A inspiração basta!… Hoje vejo que é preciso… É assim —


resumia ele.
Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com
toda a força d’alma:
— Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais
bem-dotado e as suas terras não precisam “empréstimo” para dar
sustento ao homem. Fique certo!
— Há mais férteis — avançou o doutor.
— Onde?
— Na Europa.
— Na Europa!
— Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou
triunfante:
— O senhor não é patriota! Esses moços…
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas conside-
rações sobre o violão. À noite, o menestrel cantou a sua última pro-
dução: “Os lábios da Carola”. Suspeitava-se que Carola fosse uma
criada do doutor Campos; mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no
com interesse e ele foi muito aclamado. Olga tocou no velho piano
de d. Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.
Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de
dormir e, deitado, pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opu-
lências do Brasil.
A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima
bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orquestra
noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com
prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordi-
nário! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha
um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos
recomeçaram o seu hino. Havia vozes baixas, outras mais altas e es-
tridentes; uma se seguia à outra, num dado instante todas se junta-
ram num unisono sustentado. Suspenderam um instante a música.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 49

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O major apurou o ouvido; o ruído continuara. Que era? Eram uns
estalos tênues; parecia que quebravam gravetos, que deixavam
outros cair no chão… Os sapos recomeçaram; o regente deu uma
martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito;
Quaresma pôde ler umas cinco páginas. Os batráquios pararam;
a bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal e foi
à dependência da casa donde partia o ruído, assim mesmo como
estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu
uma ferroada no peito do pé. Quase gritou. Abaixou a vela para ver
melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à
sua pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que,
por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e car-
regavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes tinham
sido deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro, e,
carregadas com os grãos, elas, em pelotões cerrados, mergulhavam
no solo em busca da sua cidade subterrânea.
Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram mi-
lhares e cada vez mais o exército aumentava. Veio uma, mordeu-o, de-
pois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo

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seu corpo. Não pôde aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e cor-
reu daquele ínfimo inimigo que, talvez, nem mesmo à luz radiante
do sol, o visse distintamente…
[…]
Obtemperou: argumentou com hu- BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma.
mildade, ponderou. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2004. p. 97-98. (Fragmento).

1 Como se manifesta o nacionalismo radical de Quaresma na discus-


são que ele trava com o marido de Olga?
. Como Quaresma encerra a discussão?
2 Em que outro momento do texto temos mais um exemplo do nacio-
nalismo extremado de Quaresma?
3 Que significado assume no texto o episódio das formigas saúvas?

Leitura
Texto 2
O trecho seguinte foi extraído do final do romance. Ele mostra as refle-
xões de Policarpo Quaresma na prisão.
[…]
Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naque-
le estreito calabouço. Pois ele, o Quaresma plácido, o Quaresma de
tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste fim?
De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele
pudesse pressentir o seu extravagante propósito, tão aparentemente
sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos
passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com
que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal
desígnio? Ou teriam sido os fatos externos, que venceram a ele, Qua-
resma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade?

50 LITERATURA

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Ele não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas coisas se bara-
lhavam, se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia.
Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao
erguer-se da cama; e, pelo cálculo aproximado do tempo, pois esta-
va sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca
luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o condu-
zira, nada lhe quisera dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas
para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira ne-
nhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe po-
dia, com um olhar, com um gesto, trazer sossego às suas dúvidas.
Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente,
protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim,
a desoras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara
fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos
todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a
sua solidariedade humana; e ele escrevera a carta com veemência,
com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou cla-
ra, franca e nitidamente.
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Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaio-
lado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera,
como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, mis-

ANDRÉA VILELA
turado com os seus detritos, quase sem comer… Como acabarei?
Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de
pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia
base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta
o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais
esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de
matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência coi-
sa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele
feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estu-
dar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir
para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso,
a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela
o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava?
Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua
vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara — todo esse
lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza neces-
sária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele
fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios?
Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a
felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O impor-
tante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas
coisas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas… Restava
disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escár-
nio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As
terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros.
Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente,

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 51

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Ferazes: férteis. o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente?
Tenente Antonino: escrivão da co- Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisio-
letoria de impostos do município de
Curuzu, onde ficava o sítio de Qua- neiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção,
resma. Personagem secundário, re- uma série, melhor, um encadeamento de decepções.
vela um ponto de vista desencan- A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por
tado e mesquinho da política, que
para ele é apenas um meio de satis- ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a
fazer as necessidades particulares intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia
daqueles que com ela se envolvem.
Doutor Campos: é o presidente da
de fato era a do Tenente Antonino, a do doutor Campos, a do ho-
Câmara municipal de Curuzu. Pune mem do Itamarati.
Quaresma com exigências absurdas […]
depois que este se recusa a ajudá-lo
numa fraude eleitoral. BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma.
Homem do Itamarati: referência ao São Paulo: Moderna, 2004. p. 161-162. (Fragmento).
oficial que, na véspera, havia levado
os prisioneiros “escolhidos a esmo”. 1 Você já aprendeu a reconhecer os tipos de discurso: direto, indireto,
indireto livre. Qual deles predomina nesse texto? Que impressões
sobre o narrador o uso dele sugere ao leitor?
2 O que originou a carta enviada por Quaresma ao presidente?
3 Diante da proximidade da morte, Quaresma faz um balanço de seus
esforços patrióticos. Qual é esse balanço?

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4 No final desse balanço, Quaresma refaz seu conceito de pátria. O
que mudou com relação ao anterior?
5 Que pontos em comum e que diferenças você destacaria entre Triste
fim de Policarpo Quaresma e Os sertões, para justificar a afirmação
de que ambos são pré-modernos?

Leitura
Texto 3
Neste trecho, um pouco anterior ao que você acabou de ler, temos a
carta que Quaresma escreve à sua irmã, contando-lhe o que havia vivido
na frente de batalha durante a Revolta da Armada, da qual, como dito, ele
participara voluntariamente.
[...]
“Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que re-
cebi há quase duas semanas. Justamente quando ela me chegou às
mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que
me levou à cama e trar-me-á uma convalescença longa. Que comba-
te, minha filha! Que horror! Quando me lembro dele, passo as mãos
pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei com horror à
guerra que ninguém pode avaliar… Uma confusão, um infernal zu-
nir de balas, clarões sinistros, imprecações — e tudo isto no seio da
treva profunda da noite… Houve momentos que se abandonaram
as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta, a coronhadas, a machado,
ANDRÉA VILELA

facão. Filha: um combate de trogloditas, uma coisa pré-histórica…


Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua
razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de
nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e
se depositou em nós nos milenários combates com as feras, quando
disputávamos a terra a elas… Eu não vi homens de hoje; vi homens
de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex,
sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a

52 LITERATURA

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matar… Este teu irmão que estás vendo, também fez das suas, tam-
bém foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade,
muita crueldade… eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente
de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a
meus pés… Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de per-
dão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém
enfim… Não imaginas como isto faz-me sofrer… […]” Sílex: certa rocha escura e muito
dura, usada na pré-história para a
BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. fabricação de machados, pontas de
São Paulo: Moderna, 2004. p. 154. (Fragmento). flecha e outros objetos.

Texto 4
Veja agora este trecho de Os sertões, em que Euclides da Cunha comenta
os violentos combates entre soldados do governo e os sertanejos de Canudos.
[…]
Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura
de montanhas. Era um parêntese; era um hiato. Era um vácuo. Não
existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava.
Realizava-se um recuo prodigioso no tempo; um resvalar eston-
teador por alguns séculos abaixo.
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Descidas as vertentes, em que se entalava aquela furna enorme,


podia representar-se lá dentro, obscuramente, um drama sanguino-
lento da Idade das cavernas. O cenário era sugestivo. Os atores, de
um e de outro lado, negros, caboclos, brancos e amarelos, traziam,
intacta, nas faces a caracterização indelével e multiforme das raças
— e só podiam unificar-se sobre a base comum dos instintos infe-
riores e maus.
A animalidade primitiva, lentamente expungida pela civilização,
ressurgiu, inteiriça. Desforrava-se afinal. Encontrou nas mãos ao
invés do machado de diorito e do arpão de osso, a espada e a ca-
rabina. Mas a faca relembrava-lhe melhor o antigo punhal de sílex
lascado. Vibrou-a. Nada tinha a temer. Nem mesmo o juízo remoto
do futuro.
Mas que entre os deslumbramentos do futuro caia, implacável e
revolta; sem altitude, porque a deprime o assunto; brutalmente vio-
lenta, porque é um grito de protesto; sombria, porque reflete uma
nódoa — esta página sem brilhos…
[…]
CUNHA, Euclides da. Últimos dias. Os sertões: campanha de Canudos. Furna: caverna, gruta.
38. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997. p. 604. (Fragmento). Expungida: eliminada.

. Que pontos em comum podemos apontar entre os textos 3 e 4?

Monteiro Lobato
Monteiro Lobato (1882-1948) participou ativamente da vida cultural bra-
sileira. Deixou uma extensa obra, composta de contos, crônicas, ensaios,
artigos e uma série de livros infantis que o transformaram no verdadeiro
iniciador da nossa literatura infantil. Foi promotor, fazendeiro, jornalista e
editor. Lutou ardentemente pela campanha da nacionalização do petróleo,
o que lhe custou um processo e três meses de prisão, em 1941, durante o
governo de Getúlio Vargas.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 53

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Os princípios estéticos de Monteiro Lobato enraizavam-se em autores
“clássicos” da língua portuguesa, não faltando mesmo certo purismo em
sua linguagem literária. Essa formação tradicional o impediu de assumir
compromisso efetivo com o movimento renovador, irreverente e polêmico
dos primeiros modernistas, que ele aliás via com desconfiança, temendo
ser simples imitadores de ideias estrangeiras. Nem por isso, porém, deixou
de perceber o efeito renovador do movimento, como escreveu alguns anos
depois, em 1926:
[…] Esta brincadeira de crianças inteligentes [a semana de 22 e
o Modernismo], que outra coisa não é tal movimento, vai desem-
penhar uma função muito séria em nossas letras. Vai forçar-nos a
uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas
a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua
portuguesa de Portugal.
LOBATO, Monteiro. O nosso dualismo.
Diário da Noite, São Paulo, 20 mar. 1926. (Fragmento).

Seja como for, a visão crítica da realidade brasileira e o nacionalismo


lúcido e objetivo que possuía revelam, sem dúvida, a face moderna de

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Lobato. De sua obra de ficção para adultos, merecem destaque os livros de
contos Urupês (1918), Cidades mortas (1919) e Negrinha (1920).
Agora você vai ler o texto integral de “Negrinha”, um dos mais célebres
contos para adultos de Monteiro Lobato.

Leitura

Negrinha
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca,
mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-
-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos
imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, ami-
mada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo re-
ANDRÉA VILELA

servado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de ba-


lanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário,
dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em
suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião
e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a Dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em
carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua
carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal
vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A
mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com
ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões
de desespero.
— Cale a boca, diabo!
Vagia: chorava, lamentava-se.
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sem-
Entanguem: endurecem de frio; en-
regelam(-se). pre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…

54 LITERATURA

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Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com olhos eterna-
mente assustados. Órfã aos quatro anos, ficou por ali, feito gato
sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a ideia dos gran-
des. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o
mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos.
Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que
às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora
punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
— Sentadinha aí, e bico, hein?
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
— Braços cruzados, já, diabo!
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E
o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco ho-
ras — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a
janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas.
Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espi-
char trancinhas sem fim.
Que ideia faria de si essa criança, que nunca ouvira uma palavra
de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata
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choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorri-


nha, coisa ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com
que a mimoseavam. Tempo houve em que foi bubônica. A epidemia
andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo
apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Percebe-
ram-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um
gostinho só na vida, nem esse de personalizar a peste…
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões.
Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse
motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões
a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mão em cujos nós de
dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos flui-
dos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…
A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.
Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas fero-
zes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se Mimoseavam: presenteavam.
afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco Berra: moda.
e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama Cocres: pancadas leves na cabeça,
aplicadas geralmente com os nós
assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de dos dedos; o mesmo que coques ou
relho, porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”… croques.
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou Cantar o bolo: contar as pancadas
dadas com a palmatória.
da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para Bacalhau: chicote de couro cru,
os frenesis. Inocente derivativo. trançado ou retorcido.
— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!… Nunca se afizera: nunca se acos-
tumara.
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da
Mucama: escrava ou criada negra,
crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que can- geralmente jovem, que fazia servi-
tam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar ços domésticos.
a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar!) e o a duas mãos, o sa- Novena de relho: surra de chicote
durante nove dias seguidos.
cudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta
Azorrague: chicote.
da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A Gana: ímpeto; ódio.
esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — Frenesis: exaltações; rabugices.
divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer Derivativo: remédio usado para
fino” nada melhor! tratar irritações na pele.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 55

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Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em
quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e ma-
tar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do
ovo quente.
Não sabem? Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha
— coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando
para o fim. A criança não sofreou a revolta e atirou-lhe um dos no-
mes com que a mimoseavam todos os dias.
— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar
o caso à patroa.
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua
cara iluminou-se.
— Eu curo ela! — disse — e desentalando do trono as banhas foi
para a cozinha, qual perua choca, a ruflar as saias.
— Traga um ovo!
Veio o ovo. Dona Inácia mesma pô-lo na água a ferver; e de mãos
à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minu-
tos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que,
encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nun-
ca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

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— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A pa-
troa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás!
na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos
amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surda-
mente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram
a perceber aquilo. Depois:
— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de
receber o vigário que chegava.
— Ah, Monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida… Estou
criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira
me dá!
— A caridade é a mais bela das virtudes cristãs, minha Senhora
— murmurou o padre.
— Sim, mas cansa…
— Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A boa senhora suspirou resignadamente.
— Inda é o que vale…
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas
sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas
e criadas em ninho de plumas.
Do seu canto na sala do trono Negrinha viu-as irromperem pela
casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vi-
vacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente
para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos
invasores o raio dum castigo tremendo.
Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também… Quê? Pois não era
crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e
Sofreou: reprimiu, refreou. aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e
Prelibação: antegozo. veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

56 LITERATURA

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Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma.
Beliscão no umbigo, e nos ouvidos o som cruel de todos os dias: “Já
para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?”
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia
moral — sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos
— a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
— Quem há de ser? — disse a tia num suspiro de vítima. Uma ca-

ANDRÉA VILELA
ridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus…
Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por
aí afora.
“Brinquem!” Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com
suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brin-
cara em imaginação com o cuco.
Chegaram as malas e logo,
— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
Que maravilha! Um cavalo de pau!… Negrinha arregalava os
olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E
mais… Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos… que
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falava “mamã”… que dormia…


Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e
nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que
era uma criança artificial.
— É feita?… — perguntou extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu
da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha
esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatu-
rinha de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem
ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você, como se chama?
— Negrinha.
As meninas, novamente, torceram-se de riso; mas vendo que
o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a
boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos
pinotes. Que aventura, santo Deus! Seria possível? Depois, pegou
a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino,
sorria para ela e para as meninas, com assustados relances d’olhos
para a porta. Fora de si, literalmente… Era como se penetrara no
céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo
adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar
a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns
instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de
Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o
seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi
mulher. Apiedou-se.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 57

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Ao percebê-la na sala, Negrinha havia tremido, passando-lhe
num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de
castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-
-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais ines-
perada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu,
doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá,
hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror.
Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada
carinha…
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma —
na princesinha e na mendiga. E para ambas é a boneca o supremo
enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o
momento da boneca — preparatório, e o momento dos filhos — de-
ANDRÉA VILELA

finitivo. Depois disso, está extinta a mulher.


Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha
uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que
trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa e
doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era
coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a bo-
neca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negri-
nha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atenazava tanto, e na cozinha
uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia
e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora
nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas aden-
tro de seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos,
a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os
olhos para dormir. Vivera realizando sonhos de imaginação. Desa-
brochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato
sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza.
O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de
anjos… E bonecas e anjos romoinhavam-lhe em torno, numa farân-
dola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça —
abraçada, rodopiada.
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em se-
guida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, lon-
ge, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
Mas, imóvel, sem rufar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…
Eclosão: desabrochamento. E tudo se esvaiu em trevas.
Ramerrão: monotonia. Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela car-
Atenazava: atormentava. nezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…
Não obstante: apesar disso. E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma
Farândola: dança. cômica, na memória das meninas ricas.

58 LITERATURA

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— Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?
Outra de saudade, no nó dos dedos de Dona Inácia:
— Como era boa para um cocre!…
LOBATO, Monteiro. In: MOREIRA, José Carlos Barbosa (Org.).
Antologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1967. p. 74-83.

1 Releia.
“Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno, porque
se engraçou dela o senhor; uma novena de relho, porque disse:
“Como é ruim, a sinhá!”…
a) Qual figura de linguagem predomina nesse trecho? Copie no ca-
derno o item correto e explique por que o escolheu.

metáfora hipérbole ironia eufemismo

b) Ainda em relação a esse trecho, explique por que as aspas têm


significado diferente em “Qualquer coisinha” e em “Como é ruim,
a sinhá!”.
2 A mesma figura de linguagem que você identificou na questão anterior
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

é usada com frequência na caracterização do personagem Dona Inácia.


. Transcreva no caderno duas passagens do texto em que isso ocor-
ra; depois, explique qual papel tal figura de linguagem exerce na
construção desse personagem.
3 Pode-se dizer que o narrador desse conto lembra um “contador de
casos”, pelas marcas de oralidade que insere na narração.
. Copie no caderno trechos que justifiquem a afirmação acima.
4 Que sentido simbólico pode ter o fato de Negrinha não ter nome
próprio?
5 “O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da
alma a gana.”
a) Que consequências do regime escravocrata destaca o narrador
nessa passagem?
b) Que episódio envolvendo Negrinha ilustra essa “gana” de que
fala o narrador?
6 O narrador, em certo momento, chama Negrinha de “coisa humana”.
Por quê? Transcreva do texto essa passagem antes de responder.
7 Em certa passagem do texto, referindo-se a Negrinha, diz o narra-
dor: “e essa consciência a matou”. O que ele quis dizer com isso?
8 “Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momen-
to da boneca — preparatório, e o momento dos filhos — definitivo.
Depois disso, está extinta a mulher.” Essa afirmação do narrador
reflete o ponto de vista sobre a mulher predominante na época em
que o texto foi escrito. Qual era esse ponto de vista?
. Na sua opinião, como seria hoje a reação do público em geral
diante de uma afirmação como essa?
9 Que visão crítica das relações sociais no Brasil está expressa nes-
se conto?

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 59

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• Jeca Tatu e Zé Brasil
O atraso econômico e cultural em que viviam as populações sertanejas
chamou a atenção de vários escritores no começo do século XX. Monteiro Lo-
bato foi um dos que se interessaram pelo problema e, para denunciar o atra-
so em que vivia o homem do campo, em 1914 criou a figura do Jeca Tatu.
Mas Lobato, com o passar dos anos, reformulou sua visão inicial do cabo-
clo — que era bastante negativa — e passou a compreender a questão de
um ponto de vista mais amplo, levando em conta o problema da saúde e o
desamparo social de que era vítima o nosso homem do campo. Assim, em
1947, um ano antes de morrer, Lobato cria a figura do Zé Brasil, analisando
agora a questão do Jeca Tatu de outro ângulo, numa espécie também de
autocrítica. Lançado numa edição bem simples de 24 páginas, o livreto
provocou polêmicas e chegou a ser apreendido pela polícia. No ano seguin-
te, foi novamente reeditado com ilustrações do pintor Candido Portinari.
Os textos reproduzidos a seguir ilustram as duas visões que Lobato teve
do problema.

Leitura
Texto 1

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
[…]
Quando comparece às feiras, todo mundo logo adivinha o que
ele traz; sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao ho-
mem só custa o gesto de espichar a mão e colher — cocos de tucum
ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquí-
deas; ou artefatos de taquarapoca — peneiras, cestinhas, samburás,
tipitis, pios de caçador; ou utensílios de madeira mole — gamelas,
pilõezinhos, colheres de pau.
Nada mais.
ACERVO ICONOGRAPHIA

Seu grande cuidado é espremer todas as


consequências da lei do menor esforço — e nis-
so vai longe. […]
Um terreirinho descalvado rodeia a casa.
O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem
horta, nem flores — nada revelador de perma-
nência.
Há mil razões para isso: porque não é sua
a terra; porque se o “tocarem” não ficará nada
que a outrem aproveite; porque para frutas há o
mato; porque a “criação” come; porque… […]
Jeca, interpelado, olha para o morro coberto
de moirões, olha para o terreiro nu, coça a ca-
Capa do almanaque do beça e cuspilha.
Jeca Tatuzinho, 1941. — Não paga a pena.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra
atravessada de fatalismo e modorra.
Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades.
De qualquer jeito se vive.
Interpelado: questionado.
[…]
Moirões: estacas.
Cuspilha: dá uma cuspidinha. LOBATO, Monteiro. In: MOREIRA, José Carlos Barbosa (Org.). Textos escolhidos:
Grulha: fala. Monteiro Lobato. 2. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1967. p. 20-22. (Fragmento).
Certificar-se de que os alunos conhecem a expressão “não paga a pena” (equivalente a
“não vale a pena”). Verificar, também, se entendem o sentido em que foi usado o verbo
tocar no sexto parágrafo: “se o ‘tocarem’” = se o enxotarem, se o mandarem embora.
60 LITERATURA

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Texto 2
[...]
Zé Brasil era um pobre-coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres
de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma — só
a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, uns caixões,
as cuias… Nem cama tinha. Zé Brasil sempre dormiu em esteiras de
tábua. […] Livros, só folhinhas — para ver as luas e se vai chover ou
não, e aquele livrinho do Fontoura com a história do Jeca Tatu.
— Coitado deste Jeca! — dizia Zé Brasil, olhando para aquelas fi-
guras. — Tal qual eu. Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma
opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorri-
nho. Pois não é que meu cachorro também se chama Joli?…
II
A vida de Zé Brasil era a mais simples. Levantar de madrugada,
tomar um cafezinho ralo (“escolha” com rapadura), com farinha de
milho (quando tinha) e ir para a roça pegar no cabo da enxada. O
almoço ele o comia lá mesmo, levado pela mulher; arroz com feijão
e farinha de mandioca, às vezes um torresmo ou um pedacinho
de carne-seca para enfeitar. Depois, cabo da enxada outra vez, até
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

à hora do café do meio-dia. E novamente a enxada, quando não a


foice ou o machado. A luta com a terra sempre foi brava. O mato
não para nunca de crescer, e é preciso ir derrubando as capoeiras e
capoeirões porque não há o que se estrague tão depressa como as
terras de plantação.
Na frente da casa, o terreirinho, o mastro de Santo Antônio. Nos
fundos, o chiqueirinho com um capadete engordando, a árvore
onde dormem as galinhas, e a “horta” — umas latas velhas num
jirauzinho, com um pé de cebola, outro de arruda e mais remédios
— hortelã, cidreira etc. No jirau, por causa da formiga.
— Ah, estas formigas me matam! — dizia o Zé com cara de desâ-
nimo. — Comem tudo que a gente planta.
E se alguém da cidade, desses que não entendem de nada desta
vida, vinha com histórias de “matar formiga”, Zé dizia: “Matar for-
miga!… Elas é que matam a gente. Isso de matar formiga é só para
os ricos, e muito ricos. A formicida está pela hora da morte — e cada
vez pior, mais falsificada. E que me adianta matar um formigueiro
aqui neste sítio, se há tantos formigueiros nos vizinhos? […]
III
A gente da cidade — como são cegas as gentes das cidades!…
Esses doutores, esses escrevedores nos jornais, esses deputados,
paravam ali e era só crítica: vadio, indolente, sem ambição, impres-
tável… não havia o que não dissessem do Zé Brasil. Mas ninguém
punha atenção nas doenças que derreavam aquele pobre homem
— opilação, sezões, quanta verminose há, malária. E cadê doutor?
Cadê remédio? Cadê jeito? O jeito era sempre o mesmo: sofrer sem
um gemido e ir trabalhando doente mesmo, até não aguentar mais
e cair como cavalo que afrouxa. E morrer na velha esteira — e feliz
se houver por ali alguma rede em que o corpo vá para o cemitério,
senão vai amarrado com cipó.
— Mas você morre, Zé, e sua alma vai para o céu — disse um dia
o padre — e Zé duvidou.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 61

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— Está aí uma coisa que só vendo! Minha ideia é que nem dei-
xam minha alma entrar no céu. Tocam ela de lá, como aqui na vida
o coronel Tatuíra já me tocou das terras dele.
— Por quê, Zé?

IV
— Eu era “agregado” na fazenda do Taquaral. O coronel me
deu lá uma grota, fiz minha casinha, derrubei mato, plantei milho
e feijão.
— De meias?
— Sim. Metade para o coronel, metade para mim.
— Mas isso dá, Zé?
— Dá para a gente ir morrendo de fome pelo caminho da vida — a
gente que trabalha e planta. Para o dono da terra é o melhor negócio
do mundo. Ele não faz nada, de nada, de nada. Não fornece nem uma
foice, nem um vidrinho de quina para a sezão — mas leva metade da
colheita, e metade bem medida — uma metade gorda; a metade que
fica com a gente é magra, minguada… E a gente tem de viver com
aquilo um ano inteiro, até que chegue tempo de outra colheita.
— Mas como foi o negócio da fazenda do Taquaral?

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
— Eu era “agregado” lá e ia labutando na grota. Certo ano tudo
correu bem e as plantações ficaram a maior das belezas. O coronel
passou por lá, viu aquilo — e eu não gostei da cara dele. No dia
seguinte me “tocou” de suas terras como quem toca um cachorro;
colheu as roças para ele e naquela casinha que eu havia feito, botou
o Totó Urumbeva.
— Mas não há uma lei que…
Zé Brasil deu uma risada. “Lei… Isso é coisa para os ricos. Para os
pobres, a lei é a cadeia e se resingar um pouquinho é o chanfalho.”

V
— E se você fosse dono das terras, aí dum sítio de 10 ou 20 al-
queires?
— Ah, aí tudo mudava. Se eu tivesse um sítio, fazia uma casa
boa, plantava árvores de fruta, e uma horta, e até um jardinzinho
MUSEU HISTÓRICO FOLCLÓRICO E
PEDAGÓGICO “MONTEIRO LOBATO”, TAUBATÉ/SP

como o do Giusepe. Mas como fazer casa boa, e plantar árvores, e


ter horta em terra dos outros, sem garantia nenhuma? Vi isso com
o coronel Tatuíra. Só porque naquele ano as minhas roças estavam
uma beleza, ele não resistiu à ambição e me tocou. E que mundo
de terras esse homem tem! A fazenda do Taquaral foi medida. Os
engenheiros acharam mais de 2 mil alqueires — e ele ainda é dono
de mais duas fazendas bem grandes, lá no Oeste. E não vende nem
um palmo de terra. Herdou do pai, que já havia herdado do avô.
E o gosto do coronel é dizer que vai deixar para o Tatuirinha uma
fazenda maior ainda — e anda em negócios com o Mané Labrego
para a compra daquele sítio da Grota Funda.
— Então não vende nem dá as terras, só arrenda?
— Isso. Também não planta nada. O que ele quer lá é rendeiro
como eu fui, e são hoje mais de cem as famílias que vivem no Ta-
quaral. Desse jeito, o lucro do coronel é certo. Se vem chuva de pe-
Capa do livro Zé Brasil. Editora
dra, se vem geada ou ventania, ele nunca perde nada; quem perde
Vitória, 1947. são os rendeiros.

62 LITERATURA

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VI
— Mas, Zé, se essas terras do Taquaral fossem divididas por
essas cento e tantas famílias que já vivem lá, não acha que ficava
muito melhor?
— Melhor para quem? Para o coronel?
— Não. Para o mundo em geral, para todos.
— Pois está claro que sim. Em vez de haver só um rico, que é o co-
ronel Tatuíra, haveria mais de cem arranjados, todos vivendo na maior
abundância, donos de tudo quanto produzissem, não só da metade. E
o melhor de tudo seria a segurança, a certeza de que ninguém dali não
saía por vontade dos outros, tocado como um cachorro, como eu fui.
Ah, que grande felicidade! Mas quem pensa nisso no mundo? Quem
se incomoda com o pobre Zé Brasil? Ele que morra de doenças, ele
que seja roubado, e metido na cadeia se abre a boca para se queixar.
O mundo é dos ricos e Zé Brasil nasceu pobre. Ninguém no mundo
pensa nele, olha para ele, cuida de melhorar a sorte dele…
[…]
LOBATO, Monteiro. In: LAJOLO, Marisa (Org.). Literatura comentada:
Monteiro Lobato. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 92-95. (Fragmento).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Mocho: tamborete. Capoeiras e capoeirões: matagal que sur-


ge em uma área depois que ela foi derruba-
Livrinho do Fontoura: referência a folhe-
da ou queimada para fins agrícolas.
tos publicitários feitos por Lobato sob en-
comenda do Laboratório Fontoura. O garo- Capadete: porquinho capado.
to-propaganda dos folhetos era o próprio Jirauzinho: armação de madeira.
Jeca Tatu, que usava os remédios fabrica- Sezões: febres.
dos pelo laboratório e tornava-se saudá- Quina: árvore cuja casca contém quinina,
vel, cheio de vigor. um alcaloide de uso farmacêutico.
Opilação: amarelão. Resingar: reclamar.
Escolha: café de má qualidade. Chanfalho: chicote.

1 Segundo o texto 1, quais são as principais características do perso-


nagem Jeca Tatu, aquelas que explicam o estado de pobreza em que
ele vive?
. As coisas que Jeca vende na feira reforçam essa ideia? Por quê?
2 No texto 2, como é explicada a miséria de Zé Brasil?
3 Nesse texto, além de denunciar a miséria do homem do campo, Mon-
teiro Lobato propõe uma espécie de reforma agrária. Em que consis-
te essa reforma?
4 Que passagem do texto 2 mostra que Zé Brasil é uma retomada da
figura do Jeca?
. O que a mudança de nome — de Jeca Tatu para Zé Brasil — pode
significar?
5 Como você observou, na parte III do texto 2 inicia-se um diálogo
que perdura até o fim do fragmento lido.
a) Com quem Zé Brasil estaria conversando? Qual a importância das
falas dessa pessoa para a exposição das ideias no texto?
b) Pode-se dizer que esse diálogo contribui para concretizar a inten-
ção didática e doutrinária do texto 2? Por quê?
6 As marcas de oralidade que você identificou na narração de “Negri-
nha” também estão presentes na narração de “Zé Brasil”? Em caso
positivo, dê exemplos.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 63

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APIC/GETTY IMAGES Encontro com a literatura estrangeira
Anton Tchekhov: um mestre do conto
Anton Tchekhov nasceu em 1860, na Ucrânia, e morreu na Alemanha, aon-
de fora em busca de tratamento de saúde, em 1904. Era de família pobre,
mas conseguiu formar-se médico, profissão que exerceu por muitos anos, an-
tes de dedicar-se inteiramente à literatura. É um dos mestres do conto psico-
lógico, como poderemos ver pela leitura do texto abaixo, tendo-se destacado
também como autor de teatro. É, sem dúvida, um dos grandes nomes da
literatura mundial do final do século XIX e começo do XX.

Leitura

Anton Tchekhov. c. 1890. Pamonha


Convidei há dias para o meu escritório a governanta de meus
filhos, Iúlia Vassílievna. Era preciso acertar as contas.
— Sente-se, Iúlia Vassílievna! — disse. — Vamos fazer as contas.
Com certeza, está precisando de dinheiro e a senhora é tão cerimo-
niosa que não pede sozinha… Bem… Ficou ajustado entre nós que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
seriam trinta rublos por mês…
— Quarenta…
— Não, trinta… Eu tenho anotado… Sempre paguei trinta ru-
blos às governantas… Bem, a senhora residiu aqui durante dois
meses…
— Dois meses e cinco dias…
— Dois meses exatos… Anotei assim. Quer dizer que tem a re-
ceber sessenta rublos… Descontando nove domingos… A senhora,
realmente, não deu aula ao Kólia1 nos domingos, mas apenas pas-
seou com ele… E mais três feriados…
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e pôs-se a puxar uma franja do
vestido, mas… não disse palavra!…
— Três feriados… Quer dizer que temos a descontar doze ru-
blos… Kólia esteve doente quatro dias e, por isso, não estudou…
A senhora, então, deu aula apenas a Vária2… Durante três dias, a
senhora teve dor de dente e minha mulher dispensou-a das aulas
da tarde. Doze e sete são dezenove. Descontando… ficam… hum…
quarenta e um rublos… Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou congestionado e nu-
blou-se. Começou a tremer-lhe o queixo. Tossiu nervosa, assoou-se,
mas… sem dizer palavra!
— Na noite de Ano Bom, a senhora quebrou uma xícara de chá
e um pires. São menos dois rublos… A xícara é uma relíquia, cus-
ta mais caro, mas… vá lá, Deus que a perdoe! Nossas coisas já se
têm estragado em tantas ocasiões! Depois, devido a uma falta de
atenção por parte da senhora, Kólia trepou numa árvore e rasgou
o paletozinho… São menos dez… A arrumadeira, em consequência
igualmente de uma distração sua, roubou os sapatos de Vária. A
senhora deve cuidar de tudo. Está contratada e recebe ordenado.
Quer dizer que devemos tirar mais cinco… No dia dez de janeiro, a
senhora levou emprestados de mim dez rublos…
— Eu não levei! — murmurou Iúlia Vassílievna.

64 LITERATURA

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— Mas, está anotado aqui!
— Está bem… seja.
— De quarenta e um, tira-se vinte e sete, sobram quatorze…
Os olhos da governanta encheram-se de lágrimas… O suor apa-
receu sobre seu narizinho comprido e gracioso. Pobre menina!
— Eu só levei uma vez — disse ela, a voz trêmula. — Levei três
rublos de sua senhora… Não levei mais nada…
— E agora? Imagine, eu nem anotei isso! Tirando três de quator-
ze, fica onze… Aqui está o seu dinheiro, minha cara! Três… três,
três… um e um… Queira receber!
Dei-lhe os onze rublos… Ela os tomou e enfiou-os no bolso, com
dedos trêmulos.
— Merci — murmurou.
Levantei-me de um salto e pus-me a andar pelo quarto. O furor
apossou-se de mim.
— Mas, por que este merci? — perguntei.
— Pelo dinheiro…
— Mas, eu a assaltei, diabos, eu lhe roubei dinheiro! Por que
merci?
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

— Noutras casas, cheguei a não receber nada…


— Não recebeu nada! Compreende-se! Eu caçoei da senhora, dei-
-lhe uma lição cruel… Vou lhe pagar todos os seus oitenta rublos!
Estão preparados para a senhora, neste envelope! Mas, como é que
se pode ser moleirona assim? Por que não protesta? Por que fica
quieta? Pensa que, neste mundo, pode-se não ser audacioso? Pensa
que se pode ser tão pamonha?
Ela esboçou um sorriso azedo e eu li em seu rosto: “Pode-se,
sim!”.
Pedi-lhe perdão por aquela lição cruel e dei-lhe, para seu gran-
de espanto, os oitenta rublos. Pôs-se a balbuciar merci com timidez
e saiu do escritório. Acompanhei-a com o olhar e pensei:
— É fácil ser forte neste mundo!
(1883)
1
Diminutivo de Nicolai. 2
Diminutivo de Varvara.
TCHEKHOV, Anton Pavlovitch. A dama do cachorrinho e outros contos.
Trad. de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 25-27.

Merci: (francês) obrigado(a).

1 Como você observou, o texto cria determinadas expectativas no lei-


tor, mas, em certo momento, essas expectativas são radicalmente
frustradas.
a) A princípio, quais expectativas o texto cria? Em qual momento
ocorre a reviravolta?
b) O que estava ocorrendo, na verdade?
2 Relendo o conto, percebemos que, mesmo antes do momento de
reviravolta, existem alguns indícios do que estava realmente acon-
tecendo.
. Você concorda com essa afirmação? Em caso positivo, transcreva
do texto, no caderno, alguns desses indícios.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 65

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3 Releia esta fala do narrador personagem e explique o trecho em des-
taque: “— Não recebeu nada! Compreende-se!”
4 No final, o narrador pergunta à moça “Pensa que se pode ser tão
pamonha?”; ela esboça um “sorriso azedo” e ele lê em seu rosto:
“Pode-se, sim!”
a) Quais motivos poderiam levar pessoas como a governanta a se-
rem “pamonhas”, ou seja, a terem um comportamento tão subser-
viente e passivo?
b) Qual sua opinião pessoal sobre a “lição” que o narrador per-
sonagem quis dar à governanta? Você acha que ele agiu bem?
Por quê?
c) Como você interpreta o pensamento final do narrador: “É fácil ser
forte neste mundo!”
5 No que diz respeito à temática, você vê semelhanças entre este conto
e algum(ns) dos outros textos que lemos neste capítulo? Explique.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Atividade complementar
Sátira e crítica social: a visão crítica do Pré-Modernismo
Propomos, neste capítulo, uma atividade complementar que relaciona
as áreas de História e Literatura.
Inicialmente, com o auxílio do professor de História, sugerimos que os
grupos elaborem um painel que destaque as críticas que se fazem à Repú-
blica Velha no campo social e político. Cada grupo pode ficar encarregado
de um aspecto desse painel.
Depois, os grupos devem ler as crônicas de Lima Barreto reunidas no
livro Os bruzundangas. Esse livro pode ser facilmente encontrado em bi-
bliotecas ou em vários sites da
REPRODUÇÃO

internet (um deles é: www.domi-


niopublico.org.br). Nessas crôni-
cas, reunidas como se fossem ca-
pítulos de um livro, Lima Barreto
trata satiricamente de diversos as-
pectos da vida brasileira, falando
de política, hábitos sociais, educa-
ção, sistema escolar, eleições etc.
A Bruzundanga é o Brasil, e os
bruzundangas, os brasileiros.
A tarefa dos grupos é identificar,
nos textos, os problemas sociais
apontados no painel histórico. E,
como atividade final, propomos
que cada grupo elabore uma sáti-
ra na forma de crônica, como fez
Lima Barreto, em que a Bruzun-
Capa de Os danga fosse o Brasil de hoje, co-
bruzundangas, mentando algum problema que o
publicado pela
editora Ática, 1988. grupo ache importante destacar.

66 LITERATURA

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VALE A PENA

Vale a pena ler


REPRODUÇÃO

Um homem extraordinário e outras


histórias.
Anton Tchekhov. Trad. de Tatiana
Belinky. Porto Alegre: L&PM, 2008.
Uma das melhores coletâneas de contos de
Tchekhov traduzidos diretamente do original
russo. Uma boa porta de entrada para o rico
universo literário desse grande escritor.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A chave do tamanho. Monteiro Lobato.


REPRODUÇÃO

São Paulo: Brasiliense, 1997.


Uma sátira bem divertida e, ao mesmo tem-
po, certeira dos homens que se acham os se-
nhores da guerra e do mundo. De repente,
por artes da Emília, todos os seres humanos
ficam bem pequenos, do tamanho de uma
formiga. E agora, quem manda no mundo?
Uma das obras-primas da literatura de Mon-
teiro Lobato, para jovens e adultos.

A guerra do fim do mundo.


REPRODUÇÃO

Mario Vargas Llosa. Trad. de


Remy Gorga Filho. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1981.
O premiado escritor peruano reconstituiu
sob forma de ficção a guerra de Canudos con-
tada por Euclides da Cunha. É um livro que
mantém a verdade histórica em suas linhas
gerais, mas cria um universo à parte com per-
sonagens que lutam, amam, vivem e morrem
por seus ideais.

O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL 67

Literatura Vol_3 Cap_2.indd 67 05.05.10 13:21:26


Vale a pena assistir

REPRODUÇÃO

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Guerra de Canudos.
Direção de Sérgio Rezende. Brasil, 1997. Drama.
Baseado no livro Os sertões, o filme faz uma releitura da guerra de Canudos,
destacando as causas sociais e também as motivações religiosas que marcaram
o conflito. Com um elenco formado de artistas consagrados, é uma das grandes
realizações do cinema brasileiro.

Atenção: milhares de sites são criados ou desativados dia-


Vale a pena acessar riamente. Por esse motivo, alguns dos endereços indicados
podem não estar mais disponíveis por ocasião do acesso.

http://www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/
bibliografialobatiana/contos1.html
Apresenta o texto integral do folheto do Jeca Tatuzinho do Biotônico Fontoura,
escrito por Monteiro Lobato.

www.euclidesdacunha.org.br
Página da Academia Brasileira de Letras dedicada a Euclides da Cunha. Bom site
de pesquisa com informações sobre a vida e a obra do escritor, permitindo o
acesso também a artigos, manuscritos, fotos e trabalhos sobre Os sertões.

http://lobato.globo.com/lobato.asp
Página do portal da Rede Globo de Televisão sobre a vida e a obra de Monteiro
Lobato. Dentre algumas raridades, como os desenhos e pinturas do autor e uma
completa linha do tempo, encontramos um espaço dedicado às inúmeras char-
ges feitas sobre o rosto marcante de Lobato. Há também uma grande galeria
de fotografias, indicações de links, trechos de livros e frases do autor, além de
resumos de suas principais obras.

68 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_2.indd 68 05.05.10 13:21:27


Capítulo

3 A primeira fase do
Modernismo (1922-1930):
Prosa e poesia

Lendo a imagem
Observe a imagem.

ACERVO ARTÍSTICO-CULTURAL DOS PALÁCIOS DO GOVERNO DE SÃO PAULO.


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

AMARAL, Tarsila do. Operários. 1933.


Óleo sobre tela, 150 x 205 cm.

Leia o texto.

Leitura
O fragmento que você lerá a seguir faz parte de um artigo chamado
“Geração revoltada”, publicado em 1926 em um jornal paulistano. O
autor do artigo, o escritor Antônio de Alcântara Machado, comenta o
que estava acontecendo no ambiente literário brasileiro naquela década
de 1920.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 69

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 69 06.05.10 12:52:24


[…]
A revolta destes principiantes é justíssima. A literatura brasileira
constituía um vasto domínio pertencente a meia dúzia de cavalhei-
ros mais ou menos respeitáveis. Ninguém ousava bulir no patri-
mônio sagrado. Seus donos contentavam-se em plantar de vez em
quando uma rocinha de milho muito ordinária. E só. O enorme lote
de terras riquíssimas continuava abandonado. Sem produzir coisa
alguma. Não dava renda. Porém dava importância. Os produtos
WEBERSON SANTIAGO

não apareciam. Ou eram miseráveis. Mas os cavalheiros passavam


por grandes proprietários e era o que convinha.
Portanto a invasão da gente moça armada de talento e coragem,
de Colt na cinta e machado na mão, guiando tratores Fordson e des-
truindo a dinamite veio ofender direitos adquiridos, velhas vanta-
gens sempre respeitadas, provocando o salseiro que sabemos.
Mas quem é que mandou essa gente não cuidar do que era seu?
Ficar parada bem no meio da agitação enorme em que vivemos?
Sempre fanática do carro de boi? Ignorante e estúpida?
Pois que essa gente vá se queixar agora ao bispo mais próximo.
Enquanto a rapaziada consulta um agente de automóveis. Também
o mais próximo. Que é para não perder.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[…]
MACHADO, Antônio de Alcântara. In: CANDIDO, Antonio;
CASTELLO, José A. Presença da literatura brasileira III: Modernismo.
9. ed. São Paulo: Difel, 1983. p. 136. (Fragmento).

Colt: marca de revólveres.


Fordson: marca de tratores mais
tarde fundida à Ford.

Converse com seus colegas

1 Observe a tela de Tarsila do Amaral. Em termos de origem étnica,


os personagens representados parecem semelhantes ou diversos? O
que isso pode indicar, levando em conta o título do quadro?
a) As chaminés ao fundo podem ser vistas como símbolos de quê?
b) O quadro é de 1933. Ele revela alguma mudança na posição da
mulher em nossa sociedade? Explique.
2 Releia agora o texto de Alcântara Machado. Quem seriam os “princi-
piantes” cuja revolta o autor considerava “justíssima”?
3 No texto de Alcântara Machado, a que foi comparada a literatura
brasileira do começo do século?
4 “Seus donos contentavam-se em plantar de vez em quando uma ro-
cinha de milho muito ordinária.”
a) Quem eram esses “donos”?
b) O que era “uma rocinha de milho muito ordinária”?
5 Que valor simbólico têm, no texto, o Colt, o machado, os tratores e
a dinamite?
6 Que relação podemos estabelecer entre o quadro que abre o capítu-
lo e o texto de Alcântara Machado?

70 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 70 06.05.10 12:52:27


O Modernismo brasileiro
e suas duas fases
Do ponto de vista didático, o Modernismo brasileiro costuma ser dividido
em duas fases:
• 1922-1930 — Período de “combate”. Nessa fase, a primeira geração
modernista procura difundir as novas ideias e não hesita em ridi-
cularizar a literatura tradicionalista, provocando muitas polêmicas.
Criticam-se, principalmente, a linguagem rebuscada, ainda ligada ao
Parnasianismo, e as formas lusitanas de expressão literária.
• 1930-1945 — Período de “construção”. Nessa fase, praticamente ter-
minam as polêmicas relacionadas à questão do combate à linguagem
parnasiana. A literatura volta-se para os grandes problemas sociais e
políticos do país. Discute-se o papel do escritor e do intelectual em
geral em face da sociedade; renovam-se os estudos sociológicos, a
crítica literária.
Neste capítulo, estudaremos a primeira fase do Modernismo.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Ideias modernistas antes de 1922


Conforme vimos no capítulo anterior, nas primeiras décadas do século
XX a nossa literatura permanecia presa aos velhos modelos acadêmicos,
salvo por algumas raras exceções. Ainda que se reconhecesse a necessidade
de uma renovação, nem todos viam com bons olhos as ideias de revolução
artística que começavam a circular entre os escritores mais jovens, pro-
motores de encontros e articuladores de movimentos que tinham como
objetivo “arejar” o nosso ambiente cultural.
Em 1912, o jovem escritor e jornalista Oswald de Andrade toma conhe- Remeter os alunos ao Capítulo 1
de literatura deste volume, em que
cimento, na Europa, das ideias do Futurismo, que mais tarde seriam divul- estudamos o Futurismo.
gadas em São Paulo. Em 1915, o brasileiro Ronald de Carvalho participa da
fundação da revista Orpheu, que assinala o início da vanguarda futurista
em Portugal. Em 1916, funda-se a Revista do Brasil, marcada por uma linha
crítica e nacionalista.
Pouco a pouco, começam a se formar grupos de escritores que, embora
sem consciência clara e definida do que desejavam, sentiam que era pre-
ciso renovar nossa literatura. Vendo na Academia Brasileira de Letras uma
espécie de representação oficial da literatura tradicional, os jovens escrito-
res passaram a atacá-la, erguendo contra ela a bandeira da renovação e da
modernidade.

O “caso” Anita Malfatti


Um fato importante pela polêmica que provocou a respeito da arte mo-
derna foi a exposição de quadros de Anita Malfatti (1889-1964), na cidade
de São Paulo, nos meses de dezembro de 1917 e janeiro de 1918.
Voltando de uma viagem de estudos à Europa e aos Estados Unidos,
onde conhecera as novas tendências artísticas, principalmente o Cubismo
e o Expressionismo, Anita Malfatti, à época com apenas 21 anos, foi incen-
tivada por alguns amigos a expor suas últimas obras.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 71

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 71 06.05.10 12:52:27


No acanhado meio artístico paulistano, a exposição provocou surpre-
sa. Entretanto, o que realmente desencadeou a polêmica, não só sobre a
pintora, mas principalmente sobre a validade da nova arte, foi um artigo
escrito por Monteiro Lobato, crítico de arte do jornal O Estado de S. Paulo, e
que ficou conhecido pelo título de “Paranoia ou mistificação?”.
Apesar da lucidez com que debatia certos problemas brasileiros, nessa
questão de pintura moderna Monteiro Lobato mostrou-se intolerante, criti-
cando violentamente as novas tendências, chegando a ridicularizá-las:

[…]
Tutti quanti: locução italiana Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti
usada para encerrar uma enu-
meração; equivale a “etc.”.
não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão
da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. […]
LOBATO, Monteiro. Paranoia ou mistificação? In: SILVA BRITO, Mario da.
História do Modernismo brasileiro. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.
v. 1. p. 53. (Fragmento).
COLEÇÃO DE ARTES VISUAIS DO INSTITUTO
DE ESTUDOS BRASILEIROS – USP

Monteiro Lobato reconhece o talento de Anita Malfatti, mas acha que


ela o desperdiça fazendo imitações desses “enganadores”. Compara a arte
moderna aos desenhos feitos pelos loucos nos manicômios.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[…] A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é
sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estra-
nhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas
pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há since-
ridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.
[…]
LOBATO, Monteiro. Paranoia ou mistificação? In: SILVA BRITO, Mario da.
História do Modernismo brasileiro. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.
v. 1. p. 52-53. (Fragmento).

MALFATTI, Anita. O homem amarelo.


Essa crítica de Monteiro Lobato teve uma grande repercussão. Quadros
1915-1916. Óleo sobre tela. 61 x 51 cm. que haviam sido comprados foram devolvidos e a jovem pintora ficou aba-
lada, trancando-se em casa e manifestando desejo de não mais pintar. E o
Modernismo sofria, assim, seu ataque mais forte.
Entretanto, essa mesma crítica acabou aproximando os jovens artistas,
que se uniram em defesa das novas formas de expressão. A importância do
“caso Malfatti” foi confirmada, mais tarde, por Mário de Andrade, um dos
principais nomes do Modernismo:
[…] Foi ela, foram os seus quadros que nos deram uma primeira
BRECHERET, Víctor. Monumento às consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização
bandeiras. 1953. Situado próximo
ao parque do Ibirapuera, na capital
das artes brasileiras. […]
paulista. Escultura grandiosa, com 37 ANDRADE, Mário de. In: BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti no tempo e no
figuras, 50 metros de comprimento,
espaço: biografia e estudo da obra. São Paulo: Editora 34, 2006. p. 436. (Fragmento).
16 metros de largura e 10 metros
de altura. Foto de 2007.

Brecheret e o triunfo da modernidade


JUCA MARTINS/OLHAR IMAGEM

O escultor Victor Brecheret (1894-1955) tornou-se a segunda figura de


destaque nesse período inicial do Modernismo.
“Descoberto” em 1919 pelos modernistas, num modesto estúdio, Breche-
ret tornou-se logo o centro das atenções dos jovens artistas, deslumbrados
diante do vigor de suas obras, de suas arrojadas concepções estéticas. Toma-
dos por essa empolgação, elevam o jovem artista de 25 anos à categoria de

72 LITERATURA

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gênio, como testemunhou Mário de Andrade: “Porque Victor Brecheret, para
nós, era no mínimo gênio. Este o mínimo com que podíamos nos contentar,
tais os entusiasmos a que ele nos sacudia”. O talento de Brecheret conquis-
tou não só os jovens, mas até muitos tradicionalistas, inclusive o próprio
Monteiro Lobato, que pouco tempo antes tinha sido tão duro com o moder-
nismo de Anita Malfatti.
Quando Brecheret venceu um concurso internacional em Paris, os mo-
dernistas exultaram, pois era a vitória de suas ideias renovadoras. Vencer
em Paris era vencer no mundo civilizado, na capital das artes. E era poder
tachar de ultrapassados os que não aceitavam a nova arte. Entusiasmado,
um dos modernistas, Menotti del Picchia, escreve, no Correio Paulistano de
10 de novembro de 1920, a respeito da vitória de Brecheret: “É a consagra-
ção do grupo novo. É a morte da velharia, do arcaísmo, do mau gosto”.
Como se vê, foi forte a influência das artes plásticas sobre os jovens escri-
tores. O próprio Mário de Andrade reconheceu que foi sob o impacto da obra
de Brecheret que ele escreveu Pauliceia desvairada, um livro de poemas que,
lançado em 1922, seria um dos marcos da renovação literária modernista.

A Semana de Arte Moderna de 1922

ARQUIVO DO ESTADO, SÃO PAULO


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

No fim de 1921 intensificam-se os contatos entre os jovens artistas de


São Paulo e do Rio de Janeiro. O consagrado escritor Graça Aranha (1868-
-1931), que pertencia à Academia Brasileira de Letras, resolve aderir às no-
vas ideias e começa a participar do movimento.
Percebe-se, assim, que havia na época uma grande agitação e um clima
de debates e reivindicações. A proximidade das comemorações do Cente-
nário da Independência, para as quais se preparava todo o país, reforça a
ideia lançada pelo pintor Di Cavalcanti (1897-1976) de se organizar uma
semana de arte moderna, destinada a ser o marco definitivo do Modernis- Retrato de Di Cavalcante, c. 1970.
mo no Brasil. O pintor Di Cavalcanti reve-
Inicialmente, o objetivo de Di Cavalcanti era modesto: montar uma pe- lou, mais tarde, como surgiu a
quena exposição de arte moderna na livraria e editora O Livro, em São ideia da Semana de 22:
Paulo. Nessa livraria, os modernistas costumavam reunir-se para palestras, Eu sugeri a Paulo Prado a
declamações e mostras de trabalho. nossa semana, que seria uma
Por intermédio do escritor Graça Aranha, Di Cavalcanti conhece Paulo semana de escândalos literá-
rios e artísticos, de meter os
Prado, um homem culto, muito rico, de formação europeia e bom gosto estribos na barriga da bur-
artístico. Este se anima com a ideia e resolve ajudar. A adesão de pessoas de guesiazinha paulistana.
destaque da alta sociedade paulistana que resolveram prestigiar o evento au- In: AMARAL, Aracy A. Artes
menta ainda mais o interesse da imprensa em divulgá-lo. Escolhe-se, então, plásticas na Semana de 22. 5. ed.
um novo local para São Paulo: Editora 34, 1998. p. 129.
JUCA MARTINS/OLHAR IMAGEM

a realização da Se-
mana: o majestoso
Teatro Municipal de
São Paulo, que tinha
sido inaugurado em
1912 e era o reduto
artístico da aristo-
cracia da cidade.

Teatro Municipal.
São Paulo, 1997.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 73

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 73 06.05.10 12:52:32


Depois de grande publicidade na imprensa, começam a realizar-se os
espetáculos, programados para os dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. No
saguão do teatro, é instalada uma exposição de artes plásticas que inclui
trabalhos dos artistas Victor Brecheret, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicen-
te Rego Monteiro, entre outros.

• As noites polêmicas

INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS, USP


[…] Queremos exprimir nos-
sa mais livre espontaneidade No dia 13, Graça Aranha abre a Sema-
dentro da mais espontânea li- na com a palestra “Emoção estética na
berdade. Ser, como somos, sin- obra de arte”, propondo a renovação das
ceros, sem artificialismos, sem
artes e das letras. Vários textos modernis-
contorcionismos, sem escolas.
[…] Nada de postiço, meloso,
tas são declamados em seguida. Depois,
artificial, arrevesado, precioso: apresenta-se uma composição musical
queremos escrever com sangue de Villa-Lobos e uma conferência de Ro-
— que é humanidade; com ele- nald de Carvalho sobre a pintura e a es-
tricidade — que é movimento, cultura modernas no Brasil. O programa
expressão dinâmica do século; se encerra com a execução de algumas
violência — que é energia ban- Cartaz anunciando o programa
deirante. […]
peças musicais.
do dia 15 da Semana de Arte
No dia 15, a programação provoca Moderna de 1922.
DEL PICCHIA, Menotti. In:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
AMARAL, Aracy A. Artes
muita polêmica e agitação. Abre a noite o
plásticas na Semana de 22. 5. ed. escritor Menotti del Picchia, com a palestra “Arte moderna”. Suas enfáticas
São Paulo: Editora 34, 1998. reivindicações de liberdade e renovação provocam apartes e vaias. Alguns
p. 277. (Fragmento). jovens escritores também são apresentados e declamam versos modernos,
a que se segue ruidosa manifestação de desagrado dos espectadores, com
gritos, vaias e ofensas. A pianista Guiomar Novaes fecha a primeira parte da
programação e sua música acalma um pouco o ambiente.
No intervalo, perante um público espantado com as obras expostas no
saguão, Mário de Andrade faz uma rápida palestra sobre arte moderna, na
escadaria do teatro. Mas quase não é ouvido, pois as pessoas começaram a
vaiá-lo e a caçoar das obras, o que gerou um grande tumulto. A segunda par-
te do programa, mais tranquila, constou da execução de peças musicais.
O historiador Mário da Silva Brito relata que, no dia 15, “o poema ‘Os
sapos’, de Manuel Bandeira, que ridicularizava o Parnasianismo, foi de-
clamado por Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de
‘foi não foi’ da maioria do público. Agenor Barbosa obteve aplausos com
o poema ‘Os pássaros de aço’, sobre o avião, mas Sérgio Milliet falou sob o
acompanhamento de relinchos e miados”.
INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS – USP – ARQUIVO ANITA MALFATTI

Os sapos
Enfunando os papos, O sapo-tanoeiro,
Saem da penumbra, Parnasiano aguado,
Aos pulos, os sapos. Diz: — “Meu cancioneiro
A luz os deslumbra. É bem martelado.
Em ronco que aterra, Vede como primo
Berra o sapo-boi: Em comer os hiatos!
— “Meu pai foi à guerra!” Que arte! E nunca rimo
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!” Os termos cognatos.”
[…]
BANDEIRA, Manuel. Os sapos. In: SEFFRIN, André (Org.). Manuel Bandeira: poesia
completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 48. (Fragmento). © do texto
de Manuel Bandeira, do Condomínio dos Proprietários dos Direitos Intelectuais
Capa de Di Cavalcanti para o catálogo da de Manuel Bandeira. (In: Estrela da vida inteira – Editora Nova Fronteira). Direitos
exposição da Semana de Arte Moderna cedidos por Solombra – Agência Literária (solombra@solombra.org).
de São Paulo, 1922.

74 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 74 06.05.10 12:52:35


A Semana foi encerrada no dia 17 com o espetáculo de Villa-Lobos, que

INSTITUTO DE ESTUDOS BRASILEIROS, USP


causou um certo alvoroço porque a plateia achou que fosse provocação
“futurista” o compositor e maestro apresentar-se de casaca e chinelos…
Mas o motivo dessa estranha combinação era muito simples: Villa-Lobos
estava sofrendo com um calo e não tinha condições de usar sapatos…
A Semana de Arte Moderna de 1922 representa apenas um dos momen-
tos da história do Modernismo, que, na verdade, já se iniciara antes dela e
prosseguiria depois em várias direções, consolidando-se como o movimen-
to cultural mais fecundo de nossa história. Além disso, deve-se destacar
que fora de São Paulo também já atuavam grupos de jovens artistas em
prol de uma renovação cultural no nosso país. E um movimento tão amplo
não poderia ter, como realmente não teve, um “programa” rígido de ideias,
uma “cartilha” a ser fielmente seguida pelos participantes, como afirmou, Cartaz anunciando o programa do dia 17
mais tarde, em 1942, Mário de Andrade: da Semana de Arte Moderna de 1922.

[…] Já um autor escreveu, como conclusão condenatória, que a


“estética do Modernismo ficou indefinível”… Pois essa é a melhor
razão-de-ser do Modernismo! Ele não era uma estética, nem na Eu-
ropa nem aqui. Era um estado de espírito revoltado e revolucioná-
rio que, se a nós nos atualizou, sistematizando como constância da
Inteligência nacional o direito antiacadêmico da pesquisa estética e
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

preparou o estado revolucionário das outras manifestações sociais


do país, também fez isto mesmo no resto do mundo, profetizando
estas guerras de que uma civilização nova nascerá. […]
ANDRADE, Mário de. In: AMARAL, Aracy A. Artes plásticas na Semana de 22.
5. ed. São Paulo: Editora 34, 1998. p. 219. (Fragmento).

• Desejo de atualização
As figuras que se destacaram nos anos polêmicos que antecederam a rea-
lização da Semana de 22, como Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e
Mário de Andrade, divergiam profundamente quanto às características da re-
novação pretendida, conforme provam suas obras e a evolução posterior de
cada um. O mesmo ocorreu em outras artes, como pintura, escultura e músi-
ca. O que animou os jovens a unir-se em certo momento foi a consciência da
necessidade de lutar contra obstáculos comuns: o espírito conservador e pas-
sadista, o obscurantismo e o provincianismo cultural imperantes na época.
O desejo de atualizar a nossa arte, de colocá-la em dia com o que se esta-
va fazendo na Europa, sobretudo na França, foi o que congregou os jovens
modernistas e deu ao movimento matizes internacionais, recebendo, por
parte dos mais conservadores, a pecha de “moda” importada. Pela primei-
ra vez, em nossa história cultural, houve uma sintonia imediata com os
centros de vanguarda e isso incomodou os “donos” da arte brasileira. Sobre
isso, assim se manifestou o escritor Antônio de Alcântara Machado:
[...] Mas tal como rebentou não. Os bocós estra-
Se em vez de aparecerem simultaneamente nharam. Sentiram-se mal. Davam-se tão bem
como duas forças que se adivinhassem o movi- com as velharias. Era tudo tão cômodo e tão fá-
mento brasileiro aqui despontasse muito mais cil. Nem precisava pensar mais. A coisa já saía
tarde como eco remoto do europeu, então sim, sem esforço. O realejo era herança de família e
a ingenuidade indígena o aplaudiria e aceitaria estava à disposição de qualquer um. Bastava es-
sem discussão. Seria mais uma moda importada tender a mão e virar a manivela. Pronto.
com atraso. Francamente adaptável, portanto. [...]
MACHADO, Antônio de Alcântara. In: CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A.
Presença da literatura brasileira III: Modernismo. 4. ed. São Paulo: Difel, 1983. p. 137. (Fragmento).

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 75

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 75 06.05.10 12:52:37


O poema-piada • A influência estrangeira
Relicário A influência estrangeira no movimento modernista é visível e não há por
No baile da Corte que negá-la, mas se distinguiu das outras influências que ocorreram no
Foi o Conde d’Eu quem Brasil, principalmente por ter provocado um processo de atualização que
[disse
Pra Dona Benvinda
despertou o interesse pela pesquisa de uma “linguagem artística brasileira”
Que farinha de Suruí adequada aos tempos modernos, tanto na literatura como nas outras artes.
Pinga de Parati Esse esforço de renovação foi simultâneo à busca de nossas raízes culturais,
Fumo de Baependi
gerando, anos depois, uma preocupação nacionalista que se firmou como
É comê bebê pitá e caí
um dos objetivos da nova geração, chegando mesmo a ultrapassar os limi-
ANDRADE, Oswald
de. Obras completas. Rio tes da arte para desdobrar-se na ação política.
de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1971. p. 95.
• A conquista da liberdade formal
A brincadeira poética, como
essa de Oswald de Andrade, foi Leia este poema do escritor e tradutor paulista Guilherme de Almeida
muito comum nos primeiros (1890-1969), publicado em 1925.
tempos do Modernismo. Era
um modo de provocar os tra- Samba
dicionalistas, debochando da
“seriedade” da poesia e intro- Poente — fogueira de São João.
duzindo o humor. E sob a cinza noturna o sol é um tição

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
quase apagado quase.
Convidar alguns alunos para declamar o poe-
ma em voz alta. Chamar atenção para sua Mas a noite negra
musicalidade divertida e para a reprodução da
oralidade nas formas verbais comê, bebê, pitá
espia de longe por uma nesga
e caí. Explicar também as referências do texto: de nuvens e galhos. E vem depressa e chega
o francês Conde d’Eu (1842-1922) foi casado
com a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II; correndo. Chega. E ergue a lua redonda
Suruí é uma localidade do município de Magé
(RJ), Parati, uma cidade do sul fluminense, e
e branca como um pandeiro.
Baependi, uma cidade do sul de Minas. E o samba estronda
rebenta
retumba
ribomba.
E bamboleando em ronda
dançam bandos tontos e bambos
de pirilampos.
ALMEIDA, Guilherme de. In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva.
Poesia moderna. São Paulo: Melhoramentos, 1967. p. 98.

Nem toda a obra de Guilherme de Almeida pode ser considerada moder-


nista, mas esse poema sim. Vejamos por quê.
O primeiro aspecto modernista que sobressai no texto é a distribuição
espacial. Observe que os versos “Mas a noite negra” e “E o samba estron-
da” não estão alinhados à esquerda, como os outros, e sim à direita. Além
disso, os versos “rebenta”, “retumba” e “ribomba” foram dispostos de um
modo muito peculiar, ocupando todo o espaço horizontal e formando um
movimento descendente no papel.
Tais recursos não apenas dão maior destaque aos versos em questão,
como também criam um efeito visual que evoca o ritmo irrequieto, esfu-
ziante do samba. É como se o leitor pudesse “ver” as evoluções dos dança-
rinos (ou dos pirilampos, mencionados na última estrofe).
Essa exploração do aspecto visual na construção do poema foi um tra-
ço marcante do Modernismo desde os seus primórdios. Décadas depois,
ela seria levada ao extremo com a poesia concreta, conforme estudare-
mos no Capítulo 6.

76 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 76 06.05.10 12:52:38


Mas essa não é a única característica modernista do poema. Também
se observa a irregularidade na extensão dos versos e na distribuição das
rimas, outro sinal da pouca preocupação dos novos autores com os esque-
mas métricos tradicionais. O que eles queriam era imprimir musicalidade
e vigor aos poemas. Para tanto, lançavam mão de vários recursos — nesse
caso, por exemplo, observe que se criou uma aliteração nos últimos cinco
versos, por meio da repetição de nasalizações e dos fonemas /r/ e /t/, o que
ajuda a evocar o ritmo forte do samba.

Sátiras e paródias de lado a lado


Nesse período inicial do Modernismo, foram constantes os ataques à
linguagem rebuscada e artificial do Parnasianismo. Muitas dessas críticas Note que o pedantismo lin-
guístico na época era tão forte
foram feitas em tom de sátira, como no conto “O colocador de pronomes”,
que incomodava até escritores
de Monteiro Lobato, em que o personagem principal, um sujeito chamado de estilo tradicional, como era o
Aldrovando, usa uma linguagem tão rebuscada que ninguém o entende. caso de Lobato. Conforme estu-
Ele representa o homem pedante que pensa que falar bem é imitar os damos no capítulo anterior, Mon-
escritores portugueses do passado, aquele que se apega às rígidas regras teiro Lobato não era dado a ou-
sadias linguísticas e utilizava,
gramaticais, corrigindo o jeito de falar e escrever de todo mundo.
geralmente, um português lite-
Neste trecho do conto, Aldrovando vai pelas ruas procurando erros de rário bastante conservador. Ain-
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português. da assim, mostrou-se crítico com


o purismo exagerado e sem pro-
[…] Andou pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com ví- pósito, como vemos nesse conto.
cios de língua. Descoberta a “asnidade”, ia ter com o proprietário,
contra ele desfechando os melhores argumentos catequistas.
Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma
tabuleta — “Ferra-se cavalos” — escoincinhava a santa gramática.
— Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a
mim parece que erres, alarve que és. Se erram paredros, nesta época
de ouro da corrução…
O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.
— Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o após-
tolo, que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que
seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do as-
seio gramatical, que o expunjas.
— ???
— Que reformes a tabuleta, digo.
— Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com licença paga?
Estará acaso rachada?
— Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à
sã gramaticalidade.
O honesto ferreiro não entendia nada de nada.
— Macacos me lambam se estou entendendo o que V. Sa. diz…
— Digo que está a forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem
que cair no plural, pois que a forma é passiva e o sujeito é “cavalos”. Este texto de Lobato permite também um
O ferreiro abriu o resto da boca. interessante exercício de inferência de signi-
ficado a partir do contexto. Os alunos devem
[…] reunir-se em grupos e, pelo contexto, imaginar
o que significam os termos desconhecidos,
LOBATO, Monteiro. O colocador de pronomes. tais como alarve, paredros, corrução, eiva etc.
In: MOREIRA, José Carlos Barbosa (Org.). Textos escolhidos. Depois, conferem os vocábulos no dicionário
e verificam em que medida acertaram. Eles
2. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1967. p. 103-104. (Fragmento). ficarão surpresos ao perceber quanto pode-
mos decifrar das palavras apenas levando
em conta a situação comunicativa em que
Mas assim como os modernistas parodiavam a linguagem rebuscada do Par- são usadas! Além disso, o texto pode ser
nasianismo, a linguagem mais ágil e coloquial que eles passaram a usar tam- usado para uma discussão sobre níveis de
linguagem, retomando o que já estudamos
bém foi objeto de paródia, principalmente na imprensa. Veja um exemplo. na frente de Gramática.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 77

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Soneto futurista
Manhã. Frio. Carroças. Quitandeiros.
Futuristas. Ideias. Maluquice.
Bondes tardos. Garis. Parlapatice.
Aranhas. Automóveis. Gazeteiros.
Olho grande. Ambição. Vaia. Ratice. Ratice: esquisitice, excen-
O Futuro! O Passado! Os açougueiros. tricidade.
Gias: rãs.
Caminhões de capim. Cubos. Tinteiros.
Tripeça: banco de três pés,
Pincéis. Palhetas. Tintas. Macaquice. usado por sapateiros.
Olhos em alvo. Camundongos. Gias. Café com leite: referência
à tradição política que pre-
Gênios. Botas. Botinas e tripeça. valeceu na República Ve-
Sapateiros. Amor. Filosofias. lha, pela qual governantes
dos estados de São Paulo
Batatas e cebolas. Nova peça. (produtor de café) e Minas
Gerais (produtor de leite)
A aranha. O Graça. Novas energias. revezavam-se no poder
Café com leite. Futurismo à Beça! federal.

DE LAET, Carlos. In: MAGALHÃES JR., Raimundo (Org.). Antologia de


humorismo e sátira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957. p. 114.

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Revistas modernistas
Geralmente, os grupos mo-
Grupos e tendências da
dernistas lançavam revistas de
arte e cultura que serviam de
primeira fase modernista
porta-vozes de suas ideias. As A repercussão das ideias modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro contri-
principais são:
• Klaxon (1922, São Paulo); buiu para animar os grupos de vanguarda que começavam a surgir em vários
• Estética (1924, Rio de Janeiro); pontos do país, emprestando novos matizes ao processo de renovação artísti-
• A Revista (1925, Minas Gerais); ca. Esses grupos tiveram duração efêmera, mas são um sinal da inquietação
• Madrugada (1925, Rio Gran-
cultural que marcou a época. Vejamos os mais representativos.
de do Sul);
• Terra Roxa e Outras Terras
(1926, São Paulo);
• Festa (1928, Rio de Janeiro). Movimento Pau-Brasil
Lançado em 1924 por Oswald de Andrade, esse movimento apresenta
uma posição primitivista, buscando uma poesia ingênua, de redescoberta
ARQUIVO DO ESTADO, SÃO PAULO

do mundo e do Brasil. Exalta o progresso e a era presente, ao mesmo tem-


po em que combate a linguagem retórica e vazia: “Contra o gabinetismo,
a prática culta da vida. […] A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural
e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos.
Como somos” (Manifesto pau-brasil). Desse movimento participaram tam-
bém a pintora Tarsila do Amaral e o intelectual Paulo Prado.

Movimento Verde-Amarelo e Grupo da Anta


O Movimento Verde-Amarelo, como indica o nome, foi um movimen-
to nacionalista, liderado por Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Plínio
Salgado e outros. Escolheu como símbolo a anta, animal que tinha uma
função mítica na cultura tupi: “Proclamando nós a procedência do índio,
como ele o fez dizendo-se filho da Anta, romperemos com todos os com-
promissos que nos têm prendido indefinidamente aos preconceitos eu-
Capa do primeiro número da revista
Klaxon, palavra que significa “buzina”. ropeus”. Esse movimento converteu-se, em 1926, no chamado Grupo da
Essa revista circulou de maio de 1922 a Anta, que seguiu uma linha de orientação política nitidamente de direita,
janeiro de 1923 e foi o veículo inicial de
divulgação das ideias modernistas.
da qual sairia, na década de 1930, o integralismo de Plínio Salgado.

78 LITERATURA

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Movimento Antropofágico Um símbolo
Lançado com a publicação da Revista de Antropofagia, criada por Oswald antropofágico
de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, Tarsila do Amaral e outros,

COLEÇÃO EDUARDO FRANCISCO COSTANTINI, BUENOS AIRES


esse movimento foi um desdobramento do primitivismo Pau-Brasil e uma
reação ao nacionalismo ufanista do grupo Verde-Amarelo.
[…] Oswald propugnava uma atitude brasileira de devoração ri-
tual dos valores europeus, a fim de superar a civilização patriarcal e
capitalista, com as suas normas rígidas no plano social e os seus re-
calques impostos, no plano psicológico. O órgão do movimento foi a
Revista de Antropofagia (1928-1929), que depois de ter sido publicação
independente se tornou uma página do Diário de São Paulo, abrigan-
do a colaboração de todas as correntes internas do Modernismo.
[…]
CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A. Presença da literatura brasileira III: AMARAL, Tarsila do. Abaporu. 1928.
Óleo sobre tela, 85 x 73 cm.
Modernismo. 9. ed. São Paulo: Difel, 1983. p. 16-17. (Fragmento).
Essa tela de Tarsila do Ama-
ral, que na época era casada
Principais autores da primeira com Oswald de Andrade, aca-
bou ficando como uma espécie

fase modernista de símbolo do movimento an-


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

tropofágico. Sobre essa obra,


assim disse a pintora:
Vários autores importantes surgiram durante a chamada primeira fase
do Modernismo (1922-1930), mas continuaram ainda a produzir até muito Eu quis fazer um quadro
que assustasse o Oswald,
tempo depois. Apenas para efeito didático, vamos fazer o estudo de alguns uma coisa que ele não espera-
deles neste capítulo. va. Aí é que vamos chegar no
Abaporu. […] Oswald disse:
“Isso é como se fosse selva-
Mário de Andrade gem, uma coisa do mato”. Eu
quis dar um nome selvagem
Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em 1893, e aí mor- também ao quadro e dei Aba-
reu, em 1945. Foi professor de piano e história da música. Pesquisador in- poru, palavra que encontrei
cansável, interessou-se pelas mais variadas manifestações artísticas, escre- no dicionário de Montoya, da
vendo sobre literatura, folclore, artes plásticas, música etc. Por seu espírito língua dos índios. Quer dizer
“antropófago”.
criativo e seu dinamismo, exerceu grande influência no desenvolvimento
do movimento modernista. De sua produção literária, destacam-se os se- AMARAL, Tarsila do.
guintes livros: In: LEITE, José Roberto
• poesia — Há uma gota de sangue em cada poema; Pauliceia desvairada; Teixeira. Pintura moderna
brasileira. São Paulo: Record,
Losango cáqui; Clã do jabuti; Remate de males; Poesias; Lira paulistana;
1978. p. 14. (Fragmento).
• prosa — Primeiro andar (contos); Amar, verbo intransitivo (romance);
Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (rapsódia); Belazarte (contos);
Contos novos.

A correspondência de Mário de Andrade


Mário de Andrade trocou correspondência com muitos escritores jovens,
aconselhando-os como se fosse um irmão mais velho e experiente. Um desses
jovens foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, que, mais tarde, declarou:
[…] As cartas de Mário de Andrade ficaram constituindo o aconte-
cimento mais formidável de nossa vida intelectual belo-horizontina.
Eram torpedos de pontaria infalível. Depois de recebê-las, ficávamos
diferentes do que éramos antes. E diferentes no sentido de mais ricos
ou mais lúcidos. […]
ANDRADE, Carlos Drummond de. In: MARIA, Luzia de. Drummond: um olhar
amoroso. São Paulo: Escrituras, 2002. p. 94. (Fragmento). Carlos Drummond de
Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 79

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FERNANDO FAVORETTO/CRIAR IMAGEM
Leitura

Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus!
A casa onde viveu Mário de Andrade,
na rua Lopes Chaves, foi tombada como [muito longe de mim
patrimônio histórico municipal e estadual. Na escuridão ativa da noite que caiu
Hoje abriga a Oficina da Palavra, um Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
espaço com atividades culturais abertas à
comunidade. Foto de 2010. Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Pele: disco ou bola achatada que Esse homem é brasileiro que nem eu.
se prepara com a borracha recém-
-extraída para poder transportá-la e ANDRADE, Mário de. Poesias completas.
comercializá-la com mais facilidade. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 181.

1 Em relação à primeira e à segunda estrofe, podemos dizer que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
cada uma faz referência a certo espaço geográfico. Transcreva
cada um deles.
.O que as estrofes revelam sobre a realidade social em que vivem
os habitantes desses espaços?
2 A última estrofe surpreende o leitor com uma revelação inesperada.
Por quê? O fato de essa estrofe estar composta por um único verso
reforça tal efeito? Justifique.
3 O “descobrimento” de que fala o eu lírico está relacionado ao proje-
to nacionalista do Modernismo? Por quê?
. Aponte uma possível relação entre o “descobrimento” do poema
e o “descobrimento” do Brasil pelos portugueses.
4 Do ponto de vista formal, que características modernistas apresenta
o texto?

• Macunaíma, o herói sem nenhum caráter


Chamada de “rapsódia” por Mário de Andrade, a obra Macunaíma é
Rapsódia designava, na Gré-
construída a partir de um conjunto de lendas a que se misturam supersti-
cia antiga, a recitação de frag-
mentos de poemas épicos, no- ções, provérbios, anedotas e elementos fantásticos.
tadamente homéricos, pelos O enredo central da rapsódia, frequentemente interrompido pela narra-
rapsodos, poetas ou declamado- ção de “casos” ou lendas, é o seguinte: Macunaíma tenta reaver o amuleto
res ambulantes […], nos domí- prodigioso (a muiraquitã) que ganhara de sua mulher Ci, Mãe do Mato,
nios literários, o vocábulo rap-
sódia equivale a “compilação,
único amor sincero de sua vida, e que por desgosto pela morte do filho
numa mesma obra, de temas pequeno subiu aos céus e transformou-se na estrela Beta do Centauro.
ou assuntos heterogêneos e de Macunaíma havia perdido esse amuleto, que acabou ficando em poder
vária origem”. do gigante Piaimã, em São Paulo. Depois de várias aventuras junto com
MOISÉS, Massaud. Dicionário seus irmãos Maanape e Jiguê, Macunaíma recupera o amuleto. Porém,
de termos literários. 2. ed. São após novas aventuras, agora sozinho, pois os irmãos haviam morrido, Ma-
Paulo: Cultrix, 1978. p. 427.
(Fragmento). cunaíma, enganado pela Uiara (divindade que vive nos rios e lagos), perde
novamente a muiraquitã e fica todo machucado. Desiludido, resolve aban-

80 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 80 06.05.10 12:52:46


donar este mundo e subir aos céus, onde é transformado em constelação:

BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO


“A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que, de tanto penar
na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora
e banza solitário no campo vasto do céu”.
Segundo o crítico Cavalcanti Proença, o material de que se serviu o autor
[…] é de origem europeia, ameríndia e negra, pois que Macunaí-
ma, que nasce índio-negro, fica depois de olhos azuis quando chega
ao planalto, enquanto os irmãos do mesmo sangue, um fica índio
e outro negro. E continuam irmãos. Macunaíma entretanto não ad-
quire alma europeia. É branco só na pele e nos hábitos. A alma é
uma mistura de tudo.
[…]
PROENÇA, M. Cavalcanti. Roteiro de Macunaíma. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1969. p. 27. (Fragmento).

O próprio nome Macunaíma foi escolhido porque “não é só do Brasil, é da


Venezuela também, e o herói, não achando mais a própria consciência, usa a
Capa da primeira edição de Macunaíma:
de um hispano-americano e se dá bem do mesmo jeito” (obra citada, p. 40).
o herói sem nenhum caráter. São Paulo:
Em relação ao subtítulo da obra — o herói sem nenhum caráter — pode-se Gráfica de Eugênio Cupolo, 1928.
dizer que, na verdade, essa ausência de caráter é mais no sentido cultural do
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que simplesmente moral. Como escreveu o próprio Mário de Andrade:


[…] O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a
preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa
a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito
verifiquei uma coisa que parece certa: o brasileiro não tem cará-
ter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém
a minha conclusão é novidade para mim porque tirada de minha
experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas
uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica per-
manente, se manifestando por tudo, nos costumes, na ação exterior,
no sentimento, na língua, na História, na andadura, tanto no bem
como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem
civilização própria nem consciência tradicional. […]
ANDRADE, Mário de. In: Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Edição crítica
de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos;
São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1978. p. 367. (Fragmento).

O herói caracteriza-se exatamente pelo comportamento ilógico. Aliás,


nas próprias palavras de Mário de Andrade: “É justo nisso que está a lógi-
ca de Macunaíma: em não ter lógica. […] Macunaíma é uma contradição
em si mesmo. O caráter que demonstra num capítulo, ele desfaz noutro”
(PERRONE-MOISÉS, Leyla. Vira e mexe, nacionalismo: paradoxos do naciona-
lismo literário. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. p. 192.).

A linguagem de Macunaíma
Mas não é só no desenvolvimento do tema que essa obra se destaca. Com
base em muitos estudos sobre folclore e literatura oral, Mário de Andrade
elaborou uma linguagem riquíssima, composta de regionalismos de todas
as partes do Brasil; criou palavras, utilizou-se abundantemente de provér-
bios, modismos e ditados populares; inseriu cantigas, quadras, modinhas,
parodiou o purismo parnasiano, variando bastante os estilos narrativos.
Vamos observar isso melhor lendo os trechos a seguir.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 81

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Leitura
Texto 1

Capítulo 1
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa
gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um mo-
mento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do
Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa
criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais
de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
— Ai! que preguiça!…
e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no
jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente
os dois manos que tinha, Maanape já velhinho, e Jiguê na força de
homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia
deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava
pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar
banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dan-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
do mergulho e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos
Sarapantar: espantar. guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo se
Jirau de paxiúba: espécie de estra- alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaí-
do de varas feito com fibras de pi- ma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos
xaúba, um tipo de palmeira.
Dandava: forma infantil para andava.
guspia na cara. Porém respeitava os velhos e frequentava com apli-
Espertava: despertava. cação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas
Guaimuns: guaiamum(ns), espécie danças religiosas da tribo.
de caranguejo. […]
Cunhatã: vocábulo de origem tupi
que significa moça, garota. ANDRADE, Mário de. In: Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Edição crítica
Guspia: cuspia. de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos;
São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1978. p. 7. (Fragmento).

Texto 2

Capítulo V
[…] Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do
rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a marca dum
pé gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa
do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água
era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão
do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Je-
sus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava
branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele.
E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo
Lapa: grande pedra ou laje que se retinta dos Tapanhumas.
destaca de um rochedo, oferecen- Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão
do abrigo.
do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e
Abicaram: chegaram (com uma
embarcação), encalharam. por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos
Sumé: segundo Cavalcanti Proença, os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve
referência a uma lendária marca fei- dó e consolou:
ta pelo pé de São Tomé (Sumé) em
sua peregrinação antes da desco- — Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-
berta do Brasil pelos portugueses. -se e antes fanhoso que sem nariz.

82 LITERATURA

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Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a
água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e
Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso
ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as palmas
das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na
água santa. Macunaíma teve dó e consolou:
— Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu
nosso tio Judas!
[…]
ANDRADE, Mário de. In: Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.
Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro:
LTC – Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Secretaria da
Cultura, Ciência e Tecnologia, 1978. p. 33-34. (Fragmento).

1 Desde o nascimento, Macunaíma já revela as características básicas


de seu comportamento. Quais são elas?
2 Releia: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nos-
sa gente”. Considerando o trecho destacado, que sentido simbólico
pode ter a cena transcrita no texto 2?
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

3 Quanto à linguagem, você percebeu nos textos algum desvio da va-


riedade padrão em termos de ortografia ou pontuação?
4 Os textos revelam marcas de oralidade? Em caso positivo, dê exemplos.

Oswald de Andrade

COLEÇÃO PARTICULAR
Oswald de Andrade (1890-1954), com seu espírito irrequieto e polêmico,
foi uma das figuras mais dinâmicas do movimento modernista. Nas suas
viagens à Europa, entrou em contato com ideias vanguardistas, que depois
divulgou no Brasil. Exerceu inúmeras atividades ligadas à literatura: foi jor-
nalista, poeta, romancista e autor de peças teatrais.
Suas principais obras em verso são: Poesia pau-brasil (1925); Primeiro
caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927); e Poesias reunidas
(1945). Na prosa merecem destaque: Memórias sentimentais de João Mira-
mar (1924); Serafim Ponte Grande (1933); Os condenados (1941) – título geral
dado à Trilogia do exílio, composta de Os condenados (1922), Estrela de ab-
sinto (1927), A escada (1934); Marco zero I: a revolução melancólica (1943); e
Marco zero II: chão (1945). Escreveu ainda, para o teatro, as seguintes peças: Tarsila do Amaral. Retrato de
Oswald de Andrade. 1922.
O homem e o cavalo (1934); A morta (1937) e O rei da vela (1937). Óleo sobre tela. 60 x 50 cm.

• A poesia de Oswald de Andrade:


características gerais
A poesia de Oswald de Andrade é um exemplo vigoroso de renovação na
linguagem literária. Fugindo totalmente dos modelos da época, ele criou
uma obra poética original, plena de humor e ironia, numa linguagem co-
loquial que surpreende pelos achados e pela maestria com que soube
utilizar as potencialidades da língua portuguesa. Observe, por exemplo,
o poema “Relógio”, que fala de temas universais de um jeito simples e
conciso. Note também que a melodia do poema lembra o compasso dos
antigos relógios de pêndulo.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 83

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Relógio
As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
WEBERSON SANTIAGO

Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
ANDRADE, Oswald de. Obras completas.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. p. 187.

Retomar brevemente o que estudamos sobre Repudiando o purismo e o artificialismo, Oswald incorporou à poesia a
Parnasianismo no penúltimo capítulo de lite- linguagem cotidiana, os neologismos. Revoltou-se contra a poesia que se li-
ratura do volume anterior. Aliás, no referido
capítulo os alunos já leram esse trecho do mitava a copiar certas fórmulas e padrões consagrados pelos tradicionalistas,
Manifesto Pau-Brasil.
que ele satirizou, aliás, numa passagem do Manifesto Pau-Brasil: “Só não se
inventou uma máquina de fazer versos — já havia o poeta parnasiano”.
A irreverência dos modernistas é bem representada por Oswald de An-
drade. Além de poemas satíricos e humorísticos, ele é autor de paródias

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de textos famosos de nossa literatura. Vejamos um exemplo: no texto 1,
leremos um trecho do poema original, do romântico Casimiro de Abreu
(1839-1860) e, no texto 2, a paródia de Oswald.

Leitura
Texto 1

Meus oito anos


Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
[…]
ABREU, Casimiro de. In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira
Fagueiras: serenas; alegres. através dos textos. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 161. (Fragmento).

Texto 2

Meus oito anos


Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
ANDRADE, Oswald de. Primeiro caderno do aluno de
poesia Oswald de Andrade. São Paulo: Globo, 1991. p. 28.

84 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 84 06.05.10 12:52:53


1 Releia o último verso de cada poema. Explique por que no texto 2
aparece a construção “Sem nenhum laranjais”, em vez da concor-
dância regular (“Sem nenhum laranjal”).
2 Segundo a professora Ana Maria Lisboa de Mello, o tom humorís-
tico desse poema de Oswald de Andrade “provém, especialmente,
da troca do espaço amplo […], descrito pelo poeta romântico, pelo
espaço exíguo de um fundo de quintal”.
a) Os dois últimos versos do poema de Oswald deixam mais eviden-
tes essa diminuição do espaço físico. Por quê?
b) A diminuição do espaço residencial é um reflexo da urbanização
pela qual passava o Brasil no início do século XX. Qual outra men-
ção ao mundo urbano é feita no poema de Oswald?
3 Observe que, no texto 2, a locução “À sombra das bananeiras” foi
substituída por “Debaixo das bananeiras”. Qual seria o propósito
dessa troca?

• A prosa de Oswald de Andrade:


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

características gerais
No campo da prosa, duas obras de Oswald de Andrade abriram novas
perspectivas para a pesquisa e o desenvolvimento da linguagem literária
moderna: Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande.
Rompendo com os esquemas narrativos tradicionais, essas obras apresen-
tavam a justaposição de breves capítulos, nos quais a prosa e a poesia se
fundiam para criar um estilo original e vigoroso.

Memórias sentimentais de João Miramar


Nessa obra, composta de pequenos blocos narrativos, João Miramar
recorda suas viagens turísticas, seus casos amorosos e sua falência eco-
nômica. Os fatos não são narrados necessariamente na ordem cronoló-
gica e neles se mesclam diferentes registros de linguagem — infantil,
poético, parodístico.
Transcrevemos, a seguir, um dos blocos narrativos. Trata-se do terceiro,
situado logo no início do livro.

Leitura
[…]

3. Gare do infinito
Papai estava doente na cama e vinha um carro e um homem e o
carro ficava esperando no jardim.
Levaram-me para uma casa velha que fazia doces e nos muda-
mos para a sala do quintal onde tinha uma figueira na janela.
No desabar do jantar noturno a voz toda preta de mamãe ia me
WEBERSON SANTIAGO

buscar para a reza do Anjo que carregou meu pai.


[…]
ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar.
13. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 45-46. (Fragmento).

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 85

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1 Iniciando suas recordações, o narrador expressa, pela linguagem, o
modo infantil de ver a realidade. Como isso é construído no texto?
2 Que palavras e expressões, no último parágrafo, traduzem a ideia de
morte e tristeza? Explique.
3 Gare é uma palavra de origem francesa e designa local de embarque
e desembarque numa estação de trem. No texto, que sentido simbó-
lico ela possui?

ACERVO ICONOGRAPHIA
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira nasceu em Pernambuco em 1886, mas cedo mudou-
-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1968. Foi membro da Academia
Brasileira de Letras, professor de literatura no Colégio Pedro II e de litera-
tura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia. Colaborou na
imprensa, foi tradutor e crítico literário.
Escreveu os seguintes livros de poesia: A cinza das horas (1917); Carna-
val (1919); Ritmo dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da manhã
(1936); Lira dos cinquent’anos (1940); Mafuá do malungo (1948); Belo belo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(1948); Opus 10 (1952); Estrela da tarde (1960).
Escritor Manuel Bandeira em sua Em prosa, escreveu, entre outros: Crônicas da província do Brasil (1937);
residência na Avenida Beira-Mar, Itinerário de Pasárgada (1954); Os reis vagabundos e mais 50 crônicas (1966);
Rio de Janeiro, década de 1950.
Andorinha, andorinha (1965).

Um poeta marcado pela doença


[…]
A história de minha adolescência é a história de minha doença. Adoeci
aos dezoito anos quando estava fazendo o curso de engenheiro-arquiteto
da Escola Politécnica de São Paulo. [...] Tive de abandonar para sempre os
estudos. [...] Aos trinta e um anos, ao editar o meu primeiro livro de versos,
A cinza das horas, era praticamente um inválido. Publicando-o, não tinha de
todo a intenção de iniciar uma carreira literária. Aquilo era antes o meu tes-
tamento — o testamento da minha adolescência. Mas os estímulos que re-
cebi fizeram-me persistir nessa atividade poética, que eu exercia mais como
um simples desabafo dos meus desgostos íntimos, da minha forçada ocio-
sidade. Hoje vivo admirado de ver que essa minha obra de poeta menor —
de poeta rigorosamente menor — tenha podido suscitar tantas simpatias.
Conto estas coisas porque a minha dura experiência implica uma lição
de otimismo e confiança. Ninguém desanime por grande que seja a pe-
dra no caminho. A do meu parecia intransponível. No entanto saltei-a.
Milagre? Pois então isso prova que ainda há milagres.
BANDEIRA, Manuel. Minha adolescência. In: SEFFRIN, André (Org.). Manuel Bandeira:
poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 625. (Fragmento).
© do texto de Manuel Bandeira, do Condomínio dos Proprietários dos Direitos
Intelectuais de Manuel Bandeira. (In: Estrela da vida inteira – Editora Nova Fronteira).
Direitos cedidos por Solombra – Agência Literária (solombra@solombra.org).

Surgidos antes da Semana de 22, os dois primeiros livros de Manuel Ban-


deira, A cinza das horas e Carnaval, embora mantenham um tom lírico e
melancólico, que lembra o Simbolismo do começo do século, já mostram
certa liberdade formal.
Em Ritmo dissoluto (1924), o poeta usa o verso livre e desenvolve temas
populares numa linguagem simples e comunicativa. O tom de sua poesia,
porém, continua melancólico e seus temas giram em torno do tempo que
passa, da morte, das saudades da infância. São desse livro os poemas “Me-
ninos carvoeiros”, “Na rua do sabão” e “Noite morta”.

86 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 86 06.05.10 12:52:54


Manuel Bandeira alcança o ponto mais alto como modernista no livro
Libertinagem (1930), no qual desenvolve plenamente sua linguagem colo-
quial e irônica, atingindo grande dramaticidade em poemas como o famo-
so “Pneumotórax”. A ânsia de libertação e a ausência dolorosa de figuras
familiares estão presentes em “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Poema de
finados”, “Evocação de Recife”, “Profundamente” e “O último poema”.
Os livros que publica posteriormente trazem poemas que se tornaram
famosos, como “Versos de natal”, “Belo belo”, “Consoada” e “Última canção
do beco”. Falando sobre a saudade da infância e da família, a presença da
morte, a fugacidade da vida e do amor, sua linguagem ganha fluidez cada
vez maior. Dono de um lirismo muito pessoal, Manuel Bandeira conseguiu
expressar com grande sensibilidade os momentos e as emoções que mar-
cam a existência humana — por isso sua poesia é universal.

Leitura
Texto 1

Pneumotórax Pneumotórax: presença de ar na


pleura, uma membrana que envol-
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. ve o pulmão.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Hemoptise: expectoração de sangue.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Tosse, tosse, tosse. Dispneia: dificuldade de respirar.

Mandou chamar o médico:


— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
……………………………………………………..
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão
[direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
BANDEIRA, Manuel. In: SEFFRIN, André (Org.). Manuel Bandeira:
poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 101.
© do texto de Manuel Bandeira, do Condomínio dos Proprietários
dos Direitos Intelectuais de Manuel Bandeira. (In: Estrela da vida
inteira – Editora Nova Fronteira). Direitos cedidos por Solombra –
Agência Literária (solombra@solombra.org).

Texto 2

O último poema
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
BANDEIRA, Manuel. In: SEFFRIN, André (Org.). Manuel Bandeira:
poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 120.
© do texto de Manuel Bandeira, do Condomínio dos Proprietários
dos Direitos Intelectuais de Manuel Bandeira. (In: Estrela da vida
inteira – Editora Nova Fronteira). Direitos cedidos por Solombra –
Agência Literária (solombra@solombra.org).

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 87

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Texto 3

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
BANDEIRA, Manuel. In: SEFFRIN, André (Org.). Manuel Bandeira: poesia
Consoada: refeição noturna.
completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 208. © do texto de
Caroável: carinhosa, amável.
Manuel Bandeira, do Condomínio dos Proprietários dos Direitos Intelectuais
Iniludível: a quem não se pode iludir. de Manuel Bandeira. (In: Estrela da vida inteira – Editora Nova Fronteira).
Sortilégios: mistérios. Direitos cedidos por Solombra – Agência Literária (solombra@solombra.org).

1 Os dois primeiros versos do texto 1 têm grande poder de síntese.


Como eles resumem o drama dos tuberculosos — que foi, também, o

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
drama pessoal de Manuel Bandeira?
. Que efeito provoca a repetição da palavra tosse, no terceiro verso
do texto 1?
2 A incorporação de outros gêneros é uma característica dos poemas
modernistas. Como isso ocorre no texto 1?
3 O que indica a linha pontilhada no meio do texto 1? Por que a pre-
sença dessa linha também é uma característica modernista?
4 Por que o último verso do poema “Pneumotórax” contraria as expec-
tativas de leitura formadas até então?
5 A respeito do texto 2, qual a única afirmativa incorreta? Copie-a no
caderno.
a) A repetição de estruturas sintáticas é um dos recursos rítmicos
do poema.
b) A função metalinguística está presente no texto.
c) Embora modernista na forma, o poema revela simpatia pelos
princípios parnasianos, segundo os quais apenas temas elevados
deveriam figurar na poesia.
d) A presença de versos brancos (sem rima) e de extensão irregular
comprova o caráter modernista do poema.
6 Releia o texto 3 e observe que o substantivo morte e o verbo morrer
não aparecem em nenhum momento; no entanto, estão subentendi-
dos em várias passagens. Aponte-as.
7 “Quando a Indesejada das gentes chegar” / “O meu dia foi bom, pode
a noite descer”. Que figura de linguagem foi usada nesses versos?
8 Os três últimos versos do texto 3 revelam o conceito que o eu lírico
tem da morte. Explique.
. Você acha que o título do texto 3 tem relação com esse conceito
que o eu lírico tem da morte? Por quê?

88 LITERATURA

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Antônio de Alcântara Machado
Nasceu em São Paulo, em 1901, e mor-
ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO/AE

reu ainda jovem no Rio de Janeiro, em


1935. Embora não tenha participado da Pathé Baby era o nome de uma
marca de projetor de filmes das
Semana de 22, foi um dos mais ativos décadas de 1930 e 1940. Alcânta-
escritores do movimento modernista e ra Machado foi um dos primeiros
colaborou em várias revistas. Sua obra escritores a atentar para a im-
compõe-se de crônicas (Pathé Baby e Ca- portância do elemento visual na
vaquinho e saxofone), contos (Brás, Bexiga composição de suas narrativas.
e Barra Funda e Laranja da China, que
Antônio de Alcântara Machado, na foram reunidos no livro Novelas paulista-
Livraria José Olympio, São Paulo,
durante o lançamento de suas obras
nas, publicado em 1965) e um romance
completas em maio de 1961. inacabado (Mana Maria).

• Um contista original
Antônio de Alcântara Machado foi o principal contista da primeira fase
do Modernismo. Atento às transformações pelas quais passava a cidade de
São Paulo, observou, principalmente, uma figura que começava a se tornar
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cada vez mais presente no dia a dia da cidade: o imigrante italiano.


Nos contos de Brás, Bexiga e Barra Funda (nomes de bairros da cidade de
São Paulo, nos quais viviam muitos imigrantes italianos), vemos os dramas
e sonhos desses imigrantes pobres que lutavam pela sobrevivência numa
cidade que, rapidamente, começava a se industrializar. São mostradas tam-
bém as mudanças que a presença de tais imigrantes provocava nas tradi-
cionais famílias paulistanas, cuja riqueza, muitas vezes, era só aparente —
o capital começava a mudar de mãos nessa São Paulo do início do século
XX, onde o dinheiro falava mais alto do que os nomes de família.
Seus contos apresentam uma ampla galeria de perso-

JUCA MARTINS/OLHAR IMAGEM


nagens populares, sendo o imigrante italiano presença
constante, mas não única. Seu estilo é ágil, feito de frases
curtas e de uma linguagem coloquial. Em vários contos,
chega a aproveitar palavras e expressões italianas para
melhor caracterizar as personagens.
Na obra de Antônio de Alcântara Machado realizou-se
uma das aspirações principais do Modernismo, que era eli-
minar o “falar difícil”, o jeito parnasiano e pedante de escre-
ver, valorizando literariamente a linguagem coloquial.
Leremos agora um dos pequenos contos de Brás, Bexiga
e Barra Funda.
Memorial do Imigrante, no Brás,
em São Paulo. 2008
Leitura

O monstro de rodas
O Nino apareceu na porta. Teve um arrepio. Levantou a gola do
paletó.
— Ei, Pepino! Escuta só o frio!
Na sala discutiam agora a hora do enterro. A Aída achava que
de tarde ficava melhor. Era mais bonito. Com o filho dormindo no
colo Dona Mariângela achava também. A fumaça do cachimbo do
marido ia dançar bem em cima do caixão.
— Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!
Dona Nunzia descabelada enfiava o lenço na boca.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 89

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— Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!
A população brasileira
Sentada no chão a mulata oferecia o copo de água de flor de
e os imigrantes
laranja.
Nos primeiros vinte anos do
século XX, sucessivas levas de — Leva ela pra dentro!
imigrantes contribuem para — Não! Eu não quero! Eu… não… quero!…
diversificar ainda mais os tipos Mas o marido e o irmão a arrancaram da cadeira e ela foi gritan-
físicos da população brasileira.
De 1904 a 1923, entram no Bra-
do para o quarto. Enxugaram-se lágrimas de dó.
sil cerca de 1,5 milhão de imi- — Coitada da dona Nunzia!
grantes, a maioria portugue- A negra de sandália sem meia principiou a segunda volta do terço.
ses, espanhóis e italianos. Na — Ave Maria, cheia de graça, o Senhor…
década de 1920, intensifica-se
a imigração japonesa. Carrocinhas de padeiro derrapavam nos paralelepípedos da rua
Entre os imigrantes, havia Sousa Lima. Passavam cestas para a feira do Largo do Arouche.
também pintores, músicos, ar- Garoava na madrugada roxa.
tesãos. Com sua experiência,
contribuíram para enriquecer — … da nossa morte. Amém. Padre-Nosso que estais no Céu…
o ambiente artístico brasilei- O soldado espiou da porta. Seu Chiarini começou a roncar muito
ro. Por isso, alguns nomes de forte. Um bocejo. Dois bocejos. Três. Quatro.
destaque da nossa arte na pri-
meira metade do século XX são
— … de todo o mal. Amém.
imigrantes ou filhos de imi- A Aída levantou-se e foi espantar as moscas do rosto do anjinho.
grantes. Veja um exemplo: Cinco. Seis.
O violão e a flauta recolhendo da farra emudeceram respeitosa-
MUSEU LASAR SEGALL, SÃO PAULO

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mente na calçada.

Na sala de jantar Pepino bebia cerveja em companhia do Amé-


rico Zamponi (SALÃO PALESTRA ITÁLIA — Engraxa-se na perfeição a
200 réis) e o Tibúrcio (— O Tibúrcio… — O mulato? — Quem mais
há de ser?).
— Quero só ver daqui a pouco a notícia do Fanfulla. Deve cascar
SEGALL, Lasar. Navio de o almofadinha.
emigrantes. 1939-1941. Óleo sobre
tela, 230 x 275 cm. Participou — Xi, Pepino! Você é ainda muito criança. Tu é ingênuo, rapaz.
ativamente do movimento Não conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego.
expressionista alemão e chegou a
visitar o Brasil, em 1913, onde expôs Filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem
suas pinturas. Em 1923, o artista medo. É ou não é, Seu Zamponi?
voltou ao Brasil, fixando-se aqui
definitivamente. Faleceu em 1957. Seu Américo Zamponi soltou um palavrão, cuspiu, soltou outro
palavrão, bebeu, soltou mais outro palavrão, cuspiu.
— É isso mesmo, Seu Zamponi, é isso mesmo!

O caixãozinho cor-de-rosa com listras prateadas (dona Nunzia


gritava) surgiu diante dos olhos assanhados da vizinhança reunida
na calçada (a molecada pulava) nas mãos da Aída, da Josefina, da
Margarida e da Linda.
— Não precisa ir depressa para as moças não ficarem escanga-
lhadas.
A Josefina na mão livre sustentava um ramo de flores. Do outro
lado a Linda tinha a sombrinha verde, aberta. Vestidos engoma-
dos, armados, um branco, um amarelo, um creme, um azul. O
enterro seguiu.
O pessoal feminino da reserva carregava dálias e palmas-de-são-
-josé. E na calçada os homens caminhavam descobertos.

O Nino quis fechar com o Pepino uma aposta de quinhentão.


— A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gen-
te chegar no Araçá. Mais de cinquenta você ganha. Menos, eu.

90 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 90 06.05.10 15:50:57


Mas o Pepino não quis. E pegaram uma discussão sobre qual dos
dois era o melhor: Friedenreich ou Feitiço.
— Deixa eu carregar agora, Josefina?
— Puxa, que fiteira! Só porque a gente está chegando na avenida
Angélica. Que mania de se mostrar, que você tem!
O grilo fez continência. Automóveis disparavam para o corso Fanfulla: nome do jornal da colônia
com mulheres de pernas cruzadas mostrando tudo. Chapéus cum- italiana.
Cascar: criticar duramente.
primentavam dos ônibus, dos bondes. Sinais-da-santa-cruz. Gente
Almofadinha: sujeito bem-vestido,
parada. com jeito de rico.
Na Praça Buenos Aires, Tibúrcio já havia arranjado três votos Light: companhia de energia elétrica
para as próximas eleições municipais. que atuava em São Paulo na época.
Moças: quando o morto era um “an-
— Mamãe, mamãe! Venha ver um enterro, mamãe! jinho”, isto é, uma criança, o caixão
era geralmente levado por moças.
Quinhentão: moeda de quinhentos
Aída voltou com a chave do caixão presa num lacinho de fita. réis; no sistema monetário da épo-
Encontrou dona Nunzia sentada na beira da cama olhando o retra- ca, era uma moeda de pouco valor.
to que a Gazeta publicara. Sozinha. Chorando. Araçá: nome de um cemitério em
São Paulo.
— Que linda que era ela! Friedenreich ou Feitiço: dois famo-
— Não vale a pena pensar mais nisso, dona Nunzia… sos jogadores de futebol da época.
O pai tinha ido conversar com o advogado. Grilo: guarda de trânsito (gíria da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

época).
MACHADO, Antônio de Alcântara. Novelas paulistanas: Brás, Bexiga e Corso: cortejo de automóveis, muitos
Barra Funda, Laranja da China, Mana Maria, contos avulsos. deles abertos, realizado em dias fes-
6. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p. 39-41. tivos e, principalmente, no Carnaval.

1 Explique o título do conto.


2 De acordo com o professor Valdevino Soares de Oliveira, apesar de
Alcântara Machado “não haver escrito nada a respeito do cinema (pa-
rece que teoricamente o cinema não o preocupou), sua obra apresen-
ta estreitas ligações com a técnica cinematográfica” (Literatura: esse
cinema com cheiro. São Paulo: Arte e Ciência, 1998. p. 47).
. Essa afirmação aplica-se ao conto lido? Por quê?
3 Que denúncia de injustiça social ocorre no texto?

Encontro com a literatura estrangeira REPRODUÇÃO

Aldous Huxley e seu admirável mundo novo


As consequências trágicas da Primeira Guerra Mundial e o perigo do uso
da ciência para fins escusos marcaram profundamente o ambiente intelec-
tual da Europa na primeira metade do século XX.
Em 1932, o escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) publicou Admirável
mundo novo, um livro que faz uma projeção inquietante sobre como po-
deria ser um mundo em que a ciência fosse usada não só para controlar a
vida social, como também para programar geneticamente os futuros seres
humanos. No livro, o objetivo desse projeto é criar uma sociedade “ideal”,
isto é, onde não houvesse rebeliões, descontentamentos, protestos, pois
todos fariam parte de uma engrenagem perfeita e se sentiriam felizes por
Capa de uma das mais recentes
pertencerem à sua “casta”. Essas castas eram definidas no momento em edições de Admirável mundo
que as pessoas eram “fabricadas” nos laboratórios de genética — porque, novo (Editora Globo), a
desconcertante obra-prima de
é claro, ninguém mais tinha pai nem mãe… Aldous Huxley.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 91

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Mas, nessa história, apenas uma parte da humanidade tinha sido alcan-
çada por esse projeto. Ainda havia lugares onde as pessoas viviam “selva-
gemente”, isto é, como seres livres, com suas línguas próprias, seus hábitos
culturais etc. Essas pessoas estavam confinadas em reservas.
O livro de Huxley obteve grande sucesso. Foi transformado em filme e des-
pertou dúvidas perturbadoras: com o desenvolvimento da ciência e das técni-
cas de manipulação da mente, seria esse, um dia, o futuro da humanidade?

Leitura
Texto 1
Neste trecho, o Diretor de Incubação e Condicionamento (D.I.C.) mos-
tra a um grupo de jovens estudantes como funciona o seu departamento.
[…]
Ao entrar o D.I.C., as enfermeiras perfilaram-se em posição de
sentido.
— Mostrem os livros — disse secamente.
As enfermeiras obedeceram a ordem em silêncio. Colocaram os
livros devidamente entre os vasos de rosas — uma fileira de álbuns
infantis abertos de maneira tentadora em figuras coloridas de ani-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mais, peixes ou aves.
— Agora tragam as crianças.
Apressaram-se em sair e num ou dois minutos já estavam de vol-
ta, cada qual empurrando uma espécie de carrinho alto, com qua-
tro prateleiras de tela metálica que continham bebês de oito meses
exatamente iguais (um grupo Bokanovsky, era evidente) e todos (já
que pertenciam à casta Delta) vestidos de cáqui.
— Coloquem-nas no chão.
As crianças foram descarregadas.
— Agora virem-nas de modo que possam ver as flores e os livros.
Já virados, primeiro os bebês ficaram quietos, depois começaram
a engatinhar em direção às massas de cores brilhantes, às formas
tão alegres e brilhantes impressas nas páginas brancas. Enquanto
se aproximavam, o sol saiu de um eclipse momentâneo atrás de
uma nuvem. As rosas brilhavam como sob o efeito de uma paixão
interior; uma nova e profunda significação parecia irradiar das pá-
ginas dos livros. Os bebês que engatinhavam proferiram gritinhos
de excitação, murmúrios e gorjeios de prazer.
O Diretor esfregou as mãos. — Excelente! — disse. — Melhor do
que se fosse feito de propósito.
Os que engatinhavam com mais rapidez já tinham alcançado o
objetivo. As mãozinhas se estenderam trôpegas, tocaram, agarra-
ram, despetalando as rosas transfiguradas, amassando as páginas
iluminadas dos livros. O Diretor esperou até que todos estivessem
alegremente entretidos. Então ele disse: Observem bem. Erguendo
a mão, deu o sinal.
A Enfermeira Chefe, que estava ao lado de um painel de coman-
do na outra extremidade da sala, abaixou uma pequena alavanca.
Houve uma violenta explosão. Aguda cada vez com maior
intensidade, soou uma sirena. Campainhas de alarme tocaram
furiosamente.
WEBERSON SANTIAGO

As crianças alarmaram-se, gritaram; seus rostos contorceram-se


de terror.

92 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 92 06.05.10 12:52:59


— Agora — gritou o Diretor (porque o barulho era ensurdece-
dor) — procedamos à fixação profunda da lição, por meio de um
choque elétrico fraco.
Acenou de novo, e a Enfermeira Chefe acionou uma segunda ala-
vanca. Os gritos das crianças mudaram de tom subitamente. Havia
algo de desesperado, de quase doentio nos berros espasmódicos que
emitiam agora. Seus corpinhos contraíam-se e esticavam-se; as pernas
moviam-se convulsionadas, como sob o empuxo de fios invisíveis.
— Podemos eletrizar toda essa parte do assoalho — uivou o Di-
retor, explicando. — Mas já basta — acenou à enfermeira.
As explosões cessaram, as campainhas pararam de tocar, o ruído
da sirena morreu, de tom a tom até o silêncio. Os corpos contraídos e
retesados relaxaram, e os soluços e uivos de crianças alucinadas trans-
formaram-se mais uma vez em berros normais de terror comum.
— Ofereçam-lhes de novo as flores e os livros.
As enfermeiras obedeceram, mas à aproximação das rosas, à
simples visão daquelas figuras alegremente coloridas do gatinho,
do galo e do carneirinho preto, os bebês afastaram-se apavorados;
seus gritos aumentaram subitamente.
— Observem — disse o Diretor triunfante. — Observem.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Livros e ruídos insuportáveis, flores e choques elétricos — esses


pares já estavam ligados na mente infantil; e após duzentas repetições
da mesma lição ou de outra semelhante, estariam indissoluvelmente
associadas. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.
— Eles crescerão com o que os psicologistas costumavam chamar
“ódio instintivo de livros e flores”. Reflexos condicionados inalte-
ráveis. Manter-se-ão afastados de livros e de botânica por toda a
vida. O Diretor voltou-se para as enfermeiras. — Podem levá-los.
Sempre gritando, os bebês de cáqui foram colocados nos carri-
nhos e retirados, deixando atrás deles um cheiro de leite azedo e
um silêncio bem-vindo.
Um dos estudantes levantou a mão; embora compreendesse per-
feitamente por que gente de casta inferior não devia desperdiçar o
tempo da Comunidade com livros, pois sempre haveria o risco de
lerem algo que descondicionasse seus reflexos, no entanto… bem,
não podia aceitar o que se referia às flores. Por que dar-se ao trabalho
de tornar psicologicamente impossível aos Deltas amar as flores?
O D.I.C. explicou pacientemente. Se as crianças eram levadas a
gritar ao verem rosas, a razão era de alta política econômica. Há
muito tempo atrás (cerca de um século), Gamas, Deltas e mesmo
Ipsilones, eram condicionados a amar as flores — especialmente
as flores e a natureza agreste em geral. Tinha-se a ideia de levá-los
a desejarem ir para o campo em qualquer oportunidade possível,
forçando, assim, o consumo dos meios de transporte.
— E eles não utilizaram os meios de transporte? — perguntou o
estudante.
— Sim, e demais — respondeu o D.I.C. — Mas nada mais. As flo-
res do campo e as paisagens, observou, têm um grande defeito: são Grupo Bokanovsky: no livro, é um
processo de manipulação genéti-
gratuitas. O amor à natureza não depende do trabalho industrial. ca que permite produzir até 96 gê-
Decidiu-se abolir o amor à natureza, ao menos nas classes mais meos a partir de um único óvulo.
baixas; abolir o amor à natureza, mas não a tendência a utilizar os Gamas, Deltas, Ipsilones: indiví-
duos pertencentes às castas mais bai-
meios de transporte. É evidente que era essencial manter o hábito xas da sociedade retratada no livro;
de ir ao campo, mesmo detestando-o. O problema era encontrar as castas altas são a Alfa e a Beta.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 93

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 93 06.05.10 12:52:59


uma razão economicamente mais bem fundada para forçar o con-
Condicionamento e
sumo dos transportes do que uma simples afeição às flores do cam-
eugenia
po e às paisagens. Ela foi devidamente encontrada.
Para compreender os concei-
tos satirizados em Admirável — Condicionamos as massas a odiar o campo — concluiu o Dire-
mundo novo, é preciso conhe- tor. — Mas simultaneamente as condicionamos a apreciar todos os
cer um pouco o ambiente in- esportes campestres. Ao mesmo tempo, providenciamos que todos
telectual e científico do início os esportes campestres determinem o uso de aparatos elaborados.
do século XX. Eram muito dis-
cutidas, por exemplo, as ideias Assim eles consomem produtos elaborados e também o transporte.
de condicionamento e euge- Donde os choques elétricos.
nia. A possibilidade de condi- — Compreendo — disse o estudante, e ficou calado, absorto em
cionar o comportamento hu- admiração.
mano por meio de estímulos
positivos e negativos tornou- […]
-se popular devido aos experi- HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Felisberto Albuquerque.
mentos do médico russo Ivan São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 43-47. (Fragmento).
Petrovich Pavlov (1849-1936).
Em sua experiência mais clás-
sica, Pavlov havia conseguido Texto 2
que cães associassem a ofer-
ta de comida ao som de uma Neste trecho, vemos Bernard, um rapaz que tem um “defeito”: ele não
campainha. Outros cientistas reage perfeitamente aos condicionamentos e volta e meia tem umas ideias
propuseram, então, a aplica- estranhas…

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ção de métodos semelhantes
a humanos, a fim de estimu- […] Lenina estava chorando. — É horrível, é horrível — ela con-
lar comportamentos positivos
tinuava a repetir. — Como você pode falar assim de não querer ser
e inibir os indesejados.
Os partidários da eugenia, uma parte do corpo social? Afinal de contas, cada um trabalha para
por sua vez, iam mais além: todos. Nada podemos fazer sem os outros. Até os Ipsilones…
queriam “cortar o mal pela — Sim, eu sei — disse Bernard sarcástico. — Até os Ipsilones são
raiz” mediante a seleção ge-
úteis! Eu também. Eu gostaria para diabo de não servir para nada.
nética de seres humanos, de
maneira que somente os mais Lenina escandalizou-se com essa blasfêmia. — Bernard! — Ela
saudáveis, fortes, bonitos etc. protestou com voz de espanto e aflição. — Como você pode?
pudessem procriar. Embora Em outro tom: — Como posso? — ele repetiu meditativo. — Não, o
hoje totalmente rejeitadas e
desmoralizadas, na época es-
problema real é: como é que não posso, ou melhor — porque, afinal de
sas ideias eram aceitas por contas, sei perfeitamente que não posso — o que aconteceria se eu pu-
inúmeros cientistas e gover- desse, se fosse livre — e não escravizado pelo meu condicionamento.
nantes, inclusive no Brasil. — Mas Bernard, você está dizendo as coisas mais horríveis.
O professor de História ou Sociologia (se
— Você não queria ser livre, Lenina?
houver) pode falar à classe sobre eugenia e — Não sei o que você quer dizer. Eu sou livre. Livre para me
higienismo no Brasil.
divertir à vontade. Agora todos são felizes.
Ele riu: — Sim, agora todos são felizes. Começamos a dar isso
às crianças de cinco. Mas você não gostaria de ser livre de outro
modo, Lenina? Do modo que você quisesse, por exemplo; não igual
a todos os outros.
— Não sei o que você quer dizer — ela repetiu. Depois, virando-
-se para ele: — Oh, vamos voltar, Bernard — ela suplicou; — detes-
to isto aqui.
— Você não gosta de estar comigo?
— Claro que gosto, Bernard. É este lugar horrível.
— Achei que estaríamos mais… mais juntos aqui — sem mais
nada além do mar e da lua. Mais unidos do que na multidão, ou
mesmo do que no meu quarto. Você não compreende isso?
— Não compreendo nada — disse ela com decisão, determina-
da a preservar intacta sua incompreensão. — Nada absolutamente.
E o que compreendo menos ainda — continuou em outro tom —
é por que você não toma soma quando tem essas ideias horríveis.

94 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 94 06.05.10 12:53:00


Assim você esqueceria tudo. E em vez de sentir-se miserável, ficaria
contente. Tão contente — ela repetiu e sorriu, apesar do temor que se lia
em seus olhos, como prometendo um carinho atraente e voluptuoso.
[…]
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Felisberto Albuquerque.
São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 121-122. (Fragmento).

1 Em Admirável mundo novo há várias referências a Henry Ford, o in-


dustrial norte-americano que criou a linha de montagem.
.Aponte possíveis relações entre uma linha de montagem para pro-
dução em série e a geração de bebês pelo processo Bokanovsky.
Pelos trechos lidos, qual analogia entre esses processos podemos
imaginar que o livro faz?
2 Pouquíssimo tempo depois de essa obra ser escrita, alguns países
viram a ascensão de regimes totalitários cujos métodos de afirma-
ção ideológica eram muito semelhantes às técnicas de condiciona-
mento apresentadas pelo D.I.C.
a) A que regimes estamos nos referindo? O que a menção a essas
técnicas no livro pode indicar?
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

b) Na sua opinião, essas formas de condicionamento continuam


existindo simbolicamente em nosso tempo?
3 Com base no texto 2, infira a função do soma nesse novo mundo.
.Você acha que também existe uma forma de soma na vida de hoje?
4 A manipulação genética, o controle da mente das pessoas, a perda
da individualidade — tudo isso pode acontecer de fato? Ou já esta-
ria acontecendo?

Atividade complementar
Exposição e documentário sobre a Semana de 22
Como atividade complementar para este capítulo, propomos que os gru-
pos se organizem para a montagem de uma exposição ou painel sobre a
Semana de Arte Moderna de 1922.
Há muito material disponível em livros, revistas e na internet, onde os
grupos poderão conseguir reproduções de textos, cartazes e obras de arte.
Mas, para essa atividade, é preciso que os grupos se reúnam para traçar
um plano de trabalho e pesquisa, pois é necessário definir o que cada
grupo vai apresentar. Diferentes aspectos do evento devem ser abordados:
as artes plásticas, a literatura, a reação da plateia, o programa musical, o
local do evento etc.
No dia da apresentação do painel, seria interessante que os grupos fizes-
sem também uma leitura expressiva de alguns textos que foram lidos pelos
modernistas no palco do Teatro Municipal de São Paulo, durante a Semana.
Como desdobramento dessa atividade, sugerimos que a pesquisa para a
exposição seja ampliada para a produção de um DVD sobre a Semana de
Arte Moderna. Uma busca cuidadosa na internet pode permitir a gravação
de pequenos vídeos, imagens de obras de arte, textos, fotos, músicas etc.
Depois da exibição do DVD em sala de aula, algumas cópias ficariam dispo-
níveis na biblioteca da escola para a consulta de outros alunos.

A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO (1922-1930): PROSA E POESIA 95

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 95 06.05.10 12:53:00


VALE A PENA

Vale a pena ler


Virando séculos (1890-1914): no tempo das certezas.
REPRODUÇÃO

Angela Marques da Costa e Lilia Moritz Schwarcz.


São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
Esse livro traça um interessante panorama sobre a passagem do século
XIX para o XX, mostrando as invenções e inovações que revolucionaram a
vida urbana e o ritmo da vida cotidiana brasileira e ajudando a entender
as mudanças que propiciaram o surgimento de novas formas de arte.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Vale a pena assistir
REPRODUÇÃO

Macunaíma.
Direção de Joaquim Pedro de Andrade. Brasil, 1969. Comédia.
Esse clássico do Cinema Novo trouxe a obra de Mário de Andrade para
o cenário conturbado do Brasil dos anos 1960, sob a ditadura militar. O
protagonista é vivido por Grande Otelo e, depois do “branqueamento”,
por Paulo José. Estão no elenco outros grandes nomes, como Jardel Fi-
lho, Dina Sfat, Milton Gonçalves e Joana Fomm.

Atenção: milhares de sites são criados ou desativados dia-


Vale a pena acessar riamente. Por esse motivo, alguns dos endereços indicados
podem não estar mais disponíveis por ocasião do acesso.

http://www.mundocultural.com.br
Neste site, você pode fazer pesquisas sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 e sobre os es-
critores da primeira fase do Modernismo, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre
outros. Há fotos e também acesso para o download completo de algumas obras.

http://www.culturabrasil.pro.br/bandeira.htm
Artigo sobre a vida e a obra de Manuel Bandeira. Nesta página, pode-se ouvir o poema “Vou-me
embora pra Pasárgada” recitado pelo próprio poeta.

www.memorialdoimigrante.org.br
Site governamental com informações muito úteis para pesquisas sobre a imigração no Brasil.

96 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_3.indd 96 06.05.10 12:53:00


Capítulo

4 A segunda fase do
Modernismo (1930-1945):
prosa e poesia

Lendo a imagem
Observe a imagem.

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO ASSIS CHATEAUBRIAND, SÃO PAULO


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

PORTINARI, Candido.
Criança morta. 1944.
Óleo sobre tela, 176 x 190 cm.

Leia o texto.

Leitura
Vamos ler este trecho de Solo de clarineta, um li- vida que senti de perto o cheiro de sangue e de
vro de memórias do escritor gaúcho Erico Verissimo. carne humana dilacerada. Apesar do horror e da
[...] Lembro-me de que certa noite — eu teria náusea, continuei firme onde estava, talvez pen-
uns quatorze anos, quando muito — encarre- sando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo
garam-me de segurar uma lâmpada elétrica à isso sem gemer, por que não hei de poder ficar
cabeceira da mesa de operações, enquanto um segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a
médico fazia os primeiros curativos num pobre- costurar esses talhos e salvar essa vida? [...]
-diabo que soldados da Polícia Municipal ha- Desde que, adulto, comecei a escrever ro-
viam “carneado”. [...] Foi essa a primeira vez na mances, tem-me animado até hoje a ideia de que

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 97

Literatura Vol_3 Cap_4.indd 97 05.05.10 13:29:40


o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e
injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a
realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão,
propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a
lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma
lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último
caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não
desertamos nosso posto. [...]
VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta: memórias. v. 1. 2. ed.
Porto Alegre: Globo, 1973. p. 44-45. (Fragmento).

Converse com seus colegas

1 Descreva o espaço onde estão os personagens do quadro de Portinari.


a) Pode haver uma relação entre esse espaço e a cena representada?
b) Quem podem ser as pessoas representadas com a criança morta?
2 Podemos perceber que o pintor não quis representar as figuras hu-
manas como se fossem fotografias da vida real; ao contrário, ele de-
forma seus corpos violentamente. Que efeito provoca a deformação
dessas figuras no quadro?

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
3 Você acha que se pode afirmar que o quadro denuncia um problema

.
social? Por quê?
Observando o tema e o estilo do autor nesse quadro, que conceito
de obra de arte você acha que esse autor tinha? Qual seria, para
ele, a função do artista?
4 Quanto ao texto de Erico Verissimo, que relação este estabelece en-

.
tre o episódio vivido em sua juventude e o ofício de escritor?
“Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco
de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente,
como um sinal de que não desertamos nosso posto.” Como você
interpreta essas metáforas presentes no trecho final?
5 Você acha que há uma relação entre o depoimento de Erico Verissi-
mo e o quadro de Portinari que abre este capítulo? Explique.
6 Considere agora este poema de Carlos Drummond de Andrade.
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens
[presentes,
a vida presente.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 2002. p. 80. Carlos Drummond de Andrade
Taciturnos: calados; melancólicos. © Graña Drummond – www.carlosdrummond.com.br

98 LITERATURA

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a) Podemos dizer que, nesse texto, o eu lírico também toca na ques-
tão do ofício do escritor? Em caso positivo, explique qual ponto
de vista ele revela ter.
b) A concepção de arte expressa nesse poema tem pontos em co-
mum com a concepção expressa por Erico Verissimo?

A prosa na segunda fase do


Modernismo (1930-1945)
Passada a primeira fase combativa do Modernismo, novas tendências se
delineiam. Na prosa surgem basicamente três vertentes. A primeira é a do
romance nordestino, em que se manifesta com mais intensidade a postura
de fazer da literatura uma forma vigorosa de análise e denúncia dos pro-
blemas sociais — no caso, daqueles que afligiam a população nordestina,
assolada pela seca e abandonada pelo governo. Esse tipo de romance tam-
bém é chamado neorrealista, por retomar o interesse social que marcou o
romance realista do século XIX.
A publicação do romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1928, é o marco inicial dessa vertente, cujos autores principais são Graciliano
Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Amando Fontes e Jorge Amado.
De outra parte, temos o rico desenvolvimento do romance intimista e
psicológico, em que predomina o interesse pela análise do mundo interior
das personagens e de seus conflitos íntimos. Nessa linha, os autores princi-
pais são Lúcio Cardoso, Cornélio Pires e Ciro dos Anjos.
A terceira vertente importante da prosa na segunda fase modernista é
o romance de temática social urbana, com ênfase na análise dos conflitos
que surgem entre os personagens e as estruturas sociais urbanas. Os prin-
cipais autores dessa linha são Erico Verissimo, Dionélio Machado, Marques
Rebelo e Otávio de Faria.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO


Uma época conturbada
As décadas de 1930 e 1940 foram particularmente conturbadas no Brasil
e no mundo, do ponto de vista político e social. Essa época de agudos con-
flitos ideológicos viu explodir a enorme tragédia que foi a Segunda Guerra
Mundial, com profundos efeitos no destino de milhões de pessoas.
Vejamos um resumo dos principais fatos que marcaram o período.
1930 — Em outubro, explode no Rio Grande do Sul a revolução liderada
por Getúlio Vargas. O presidente Washington Luís é deposto e Getúlio toma
posse como chefe do governo provisório. Um decreto dissolve o Congresso
Nacional. Tem início a chamada Segunda República.
1931 — Em janeiro, os trabalhadores tentam realizar a “marcha da
fome”, mas são impedidos pela polícia. Ao longo desse ano, muitas mani-
festações operárias serão duramente reprimidas.
1932 — No dia 9 de julho, em São Paulo, explode a Revolução Constitu-
cionalista, que tinha por objetivo o estabelecimento de uma Constituinte,
pois os paulistas achavam que o governo de Getúlio caminhava para a di-
tadura. Sozinho contra o resto do país, o estado de São Paulo é invadido
em diversos pontos e não consegue suportar o avanço das tropas getulistas. Cartaz da Revolução Constitucionalista de
32 mostra um típico bandeirante, símbolo
Morrem centenas de paulistas e a rendição ocorre no começo de outubro. do estado de São Paulo, retirando do
Um interventor federal é enviado a São Paulo. poder o ditador Getúlio Vargas.

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 99

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1934 — Em julho, é promulgada uma nova Constituição, que legitima
Getúlio Vargas no poder.
1935 — É lançada oficialmente em março, no Rio de Janeiro, a Aliança
Nacional Libertadora (ANL), que congrega diferentes tendências da esquer-
da, principalmente comunistas e socialistas. Luís Carlos Prestes é um de
seus líderes. Seu objetivo é opor-se ao avanço da direita fascista. Em julho,
um decreto torna ilegal a ANL, cujas sedes são fechadas.
1936 — Em janeiro, Luís Carlos Prestes é preso. A polícia de Getúlio co-
meça a “caçar” pessoas acusadas de serem comunistas, mesmo que não
tenham participado de manifestações contra o governo. Um desses presos
é o escritor Graciliano Ramos, detido em março. Seu testemunho desse
período está no livro Memórias do cárcere.
1937 — No mês de novembro, Getúlio Vargas ordena o fechamento do
Congresso Nacional e dá um golpe político, instaurando o Estado Novo e
suspendendo os direitos constitucionais. No dia 10, impõe uma nova Cons-
tituição, autoritária e centralista, que extingue os partidos políticos.
1939 — Hitler invade a Polônia, em setembro, desencadeando a Segun-
da Guerra Mundial. Em dezembro, Getúlio cria o Departamento de Impren-
sa e Propaganda (DIP) para autopromover-se e, ao mesmo tempo, censurar

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
os meios de comunicação, que começam a exercer grande influência sobre
a opinião pública.
1940 — Entra em vigor, em maio, o salário mínimo. A legislação traba-
lhista que garante os direitos básicos do trabalhador faz de Getúlio Vargas
uma figura muito querida pelo povo.
1942 — Em agosto, o Brasil declara guerra aos países do Eixo (Alemanha,
Itália e Japão).
1945 — No mês de abril, cedendo a pressões da sociedade civil, Getúlio
Vargas concede anistia aos presos políticos. Em maio, a Alemanha se rende,
é o fim da guerra na Europa. Em agosto, depois de sofrer bombardeio atô-
mico, o Japão se rende. Termina a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, em
outubro, Getúlio Vargas é deposto. É eleito presidente do Brasil o general
Eurico Gaspar Dutra, em dezembro.

Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz nasceu em 1910, no Ceará. Destacou-se, ainda bas-
tante jovem, com a publicação do romance O Quinze (1930), que aborda
o drama dos retirantes nordestinos que fogem da seca. Prosseguiu sua
carreira com os romances João Miguel (1932), Caminho de pedras (1937),
As três Marias (1939), Dôra, Doralina (1975) e Memorial de Maria Moura
(1992), além de Brandão entre o mar e o amor (1942), em parceria com
Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Aníbal Machado.
Escreveu também peças de teatro, crônicas e literatura infantil. Faleceu
em 2003.

Alguns autores que trataram


• O Quinze
do tema da seca: Rodolfo Teófilo O romance O Quinze projetou nacionalmente o nome de Rachel de Quei-
(A fome, 1890), Domingos Olím- roz, na época uma estreante de apenas 20 anos de idade. Retomando o
pio (Luzia-Homem, 1903) e José
tema dos problemas sociais e humanos causados pela seca, que já fora
Américo de Almeida (A baga-
ceira, 1928). tratado por outros autores, surpreende a crítica com seu estilo despojado,
numa narrativa enxuta, distante do tradicional estilo rebuscado.

100 LITERATURA

Literatura Vol_3 Cap_4.indd 100 05.05.10 13:29:48


A marcha penosa e trágica pelo sertão do retirante Chico Bento e sua
família constitui o núcleo dramático da obra. Abandonados pelas autori- Ficção e realidade
dades, os retirantes vão caminhando em busca de comida ou proteção. Às O título do romance O Quin-
ze refere-se à seca de 1915,
vezes, são agrupados em acampamentos, mas com pouquíssimos recur- uma das mais terríveis sofridas
sos, que não impedem a morte de muitos deles por doenças ou inanição. pela população do Nordeste. O
As crianças são as principais vítimas dessa calamidade. Paralelamente ao historiador Marco Antonio Villa
comenta, citando notícias da
drama da seca, desenvolve-se o drama da impossibilidade de comunicação
época da seca de 1915:
afetiva entre Vicente e Conceição — ele, um proprietário rural obstinado
pela vida na fazenda da família; ela, uma moça da cidade, atraída pela […] De Alagoas chega-
figura livre e franca de Vicente, mas que não consegue penetrar em seu va mais uma notícia de sa-
que: “A situação é ainda
mundo rude, quase selvagem. agravada pela emigração
de bandos de famintos em

MUSEU BORDALLO
PINHEIRO, LISBOA
busca das margens do São
Francisco, os quais têm as-
saltado vários armazéns e
fazendas”. No Piauí, “uma
família de sertanejos [...]
durante a penosa viagem
de travessia para o litoral,
a fim de não morrer de
fome, foi obrigada a ven-
A exploração inescrupulosa da seca já era
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

der um filho por quatro


denunciada na época do Império, como
rapaduras”, enquanto ou-
vemos nesta página da revista Besouro,
de 20 de julho de 1878, feita pelo jornalista tra “família de emigran-
e ilustrador Rafael Bordallo Pinheiro. Na tes abandonara um filho
parte de cima, o texto diz o seguinte, em de cinco anos amarran-
português atual: “Páginas tristes. Cenas do-lhe às costas um outro
e aspectos do Ceará. Para S. Majestade, o ainda de peito, com o fim
Sr. Governo e os Srs. Fornecedores verem. de expô-los à caridade dos
Cópias fidelíssimas de fotografias que transeuntes, para que não
nos foram remetidas pelo nosso amigo morressem de fome”.
e colega José do Patrocínio”. A legenda
[…]
embaixo diz: “Estado da população
retirante... e ainda há quem lhes mande VILLA, Marco Antonio. Vida
farinha falsificada e especule com eles!!!”.
e morte no sertão: história
das secas no Nordeste
Leitura nos séculos XIX e XX. São
Este trecho mostra um dos momentos da penosa travessia que a família Paulo: Ática, 2001. p. 110.
(Fragmento).
de Chico Bento realiza através do sertão castigado pela seca.
[...]
Eram duas horas da tarde.
Cordulina, que vinha quase cambaleando, sentou-se numa pe-
dra e falou, numa voz quebrada e penosa:
— Chico, eu não posso mais… Acho até que vou morrer. Dá-me
aquela zoeira na cabeça!
Chico Bento olhou dolorosamente a mulher. O cabelo, em falri-
pas sujas, como que gasto, acabado, caía, por cima do rosto, enves-
gando os olhos, roçando na boca. A pele, empretecida como uma
casca, pregueava nos braços e nos peitos, que o casaco e a camisa
rasgada descobriam.
A saia roída se apertava na cintura em dobras sórdidas; e se enro-
lava nos ossos das pernas, como um pano posto a enxugar se enrola
nas estacas da cerca.
Num súbito contraste, a memória do vaqueiro confusamente co-
meçou a recordar a Cordulina do tempo do casamento.
Viu-a de branco, gorda e alegre, com um ramo de cravos no cabe-
lo oleado e argolas de ouro nas orelhas…

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 101

Literatura Vol_3 Cap_4.indd 101 05.05.10 13:29:48


Depois sua pobre cabeça dolorida entrou a tresvariar; a vista
turbou-se como as ideias; confundiu as duas imagens, a real e a
evocada, e seus olhos visionaram uma Cordulina fantástica, magra
como a morte, coberta de grandes panos brancos, pendendo-lhe
das orelhas duas argolas de ouro, que cresciam, cresciam, até atin-
gir o tamanho do sol.
CARLOS CAMINHA

No colo da mulher, o Duquinha, também só osso e pele, levava,


com um gemido abafado, a mãozinha imunda, de dedos ressequi-
dos, aos pobres olhos doentes.
E com a outra tateava o peito da mãe, mas num movimento tão
fraco e tão triste que era mais uma tentativa do que um gesto.
Lentamente o vaqueiro voltou as costas; cabisbaixo, o Pedro o
seguiu.
E foram andando à toa, devagarinho, costeando a margem da
caatinga.
Às vezes, o menino parava, curvava-se, espiando debaixo dos
paus, procurando ouvir a carreira de algum tejuaçu que parecia ter
passado perto deles. Mas o silêncio fino do ar era o mesmo. E a
morna correnteza que ventava, passava silenciosa como um sopro
de morte; na terra desolada não havia sequer uma folha seca; e as

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
árvores negras e agressivas eram como arestas de pedra, enristadas
contra o céu.
Mais longe, numa volta da estrada, a telha encarnada de uma
casa brilhava ao sol. Lentamente, Chico Bento moveu os passos trô-
pegos na sua direção.
De repente, um bé!, agudo e longo, estridulou na calma.
E uma cabra ruiva, nambi, de focinho quase preto, estendeu a
cabeça por entre a orla de galhos secos do caminho, aguçando os
rudimentos de orelha, evidentemente procurando ouvir, naquela
distensão de sentidos, uma longínqua resposta a seu apelo.
Chico Bento, perto, olhava-a, com as mãos trêmulas, a garganta
áspera, os olhos afogueados.
O animal soltou novamente o seu clamor aflito.
Cauteloso, o vaqueiro avançou um passo.
E de súbito em três pancadas secas, rápidas, o seu cacete de jucá
zuniu: a cabra entonteceu, amunhecou, e caiu em cheio por terra.
Chico Bento tirou do cinto a faca, que de tão velha e tão gasta
nunca achara quem lhe desse um tostão por ela.
Abriu no animal um corte que foi de debaixo da boca até separar
ao meio o úbere branco de tetas secas, escorridas.
Rapidamente iniciou a esfolação. A faca afiada corria entre a car-
ne e o couro, e na pressa, arrancava aqui pedaços de lombo, afinava
ali a pele, deixando-a quase transparente.
Mas Chico Bento cortava, cortava sempre, com um movimento
febril de mãos, enquanto o Pedro, comovido e ansioso, ia seguran-
do o couro descarnado.
Afinal, toda a pele destacada, estirou-se no chão.
E o vaqueiro, batendo com o cacete no cabo da faca, abriu ao
meio a criação morta.
Mas Pedro, que fitava a estrada, o interrompeu:
— Olha, pai!
Um homem de mescla azul vinha para eles em grandes passadas.
Agitava os braços com fúria, aos berros:

102 LITERATURA

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— Cachorro! Ladrão! Matar minha cabrinha! Desgraçado!
Chico Bento, tonto, desnorteado, deixou a faca cair e, ainda de
cócoras, tartamudeava explicações confusas.
O homem avançou, arrebatou-lhe a cabra e procurou enrolá-la
no couro.
Dentro da sua perturbação, Chico Bento compreendeu apenas
que lhe tomavam aquela carne em que seus olhos famintos já se
regalavam, da qual suas mãos febris já tinham sentido o calor con-
fortante.
E lhe veio agudamente à lembrança Cordulina exânime na pedra
da estrada… O Duquinha tão morto que já nem chorava…
Caindo quase de joelhos, com os olhos vermelhos cheios de lá-
grimas que lhe corriam pela face áspera, suplicou, de mãos juntas:
— Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de car-
ne, um taquinho ao menos, que dê um caldo para a mulher mais os
meninos! Foi pra eles que eu matei! Já caíram com a fome!…
— Não dou nada! Ladrão! Sem-vergonha! Cabra sem-vergonha!
A energia abatida do vaqueiro não se estimulou nem mesmo
diante daquela palavra.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Antes se abateu mais, e ele ficou na mesma atitude de súplica.


E o homem disse afinal, num gesto brusco, arrancando as tripas
da criação e atirando-as para o vaqueiro:
— Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como
você fez, dar-se tripas é até demais!…
A faca brilhava no chão, ainda ensanguentada, e atraiu os olhos
de Chico Bento.
Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa; mas foi
ímpeto confuso e rápido. Ao gesto de estender a mão, faltou-lhe
o ânimo.
O homem, sem se importar com o sangue, pusera no ombro o
animal sumariamente envolvido no couro e marchava para a casa
cujo telhado vermelhava, lá além. Falripas: cabelos curtos e ralos.
Pedro, sem perder tempo, apanhou o fato que ficara no chão e Tejuaçu: lagarto grande.
correu para a mãe. Enristadas: em riste, erguidas para
o alto.
Chico Bento ainda esteve uns momentos na mesma postura, Encarnada: vermelha.
ajoelhado. Nambi: de orelhas pequenas.
E antes de se erguer, chupou os dedos sujos de sangue, que lhe Amunhecou: (regionalismo do Nor-
deixaram na boca um gosto amargo de vida. deste) fraquejou, caiu.
Mescla: tecido feito com fios de
[...] tons diversos, ou de fibras diversas.
QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 20. ed. Rio de Janeiro: Exânime: desfalecida.
José Olympio, 1976. p. 46-49. (Fragmento). Fato: vísceras de um animal.

1 Podemos dizer que o texto apresenta dois confrontos. Quais são


eles?
2 Qual função pode ter na narrativa a passagem em que Chico Ben-
to evoca a imagem de Cordulina no dia do casamento, vestida “de
branco, gorda e alegre, com um ramo de cravos no cabelo oleado e
argolas de ouro nas orelhas…”?
3 Na sua opinião, qual passagem mostra de maneira mais intensa o
abatimento moral de Chico Bento? Por quê?

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 103

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Jorge Amado
FERNANDO VIVAS/ABRIL IMAGENS

Jorge Amado (1912-2001) é um dos mais conhecidos escritores brasilei-


ros e o romancista da Bahia por excelência. Seus primeiros romances — Ca-
cau (1933), Jubiabá (1935), Mar morto (1936), Capitães de areia (1937) e Terras
do sem-fim (1943) — constituem francas denúncias sociais e correspondem
ao período de intensa participação política do autor.
A partir de 1958, com o romance Gabriela, cravo e canela, Jorge Amado
inicia uma nova fase, em que predominam a crítica de costumes e a sátira,
características presentes nos romances que se seguiram, de grande aceita-
Jorge Amado, Salvador, BA, ção popular, tais como Os pastores da noite (1964), Dona Flor e seus dois mari-
agosto de 1992. dos (1967), Tenda dos milagres (1970), Teresa Batista cansada de guerra (1972)
e Tieta do Agreste (1976). Escreveu também as novelas A morte e a morte de
Quincas Berro d’água (1961) e Os velhos marinheiros (1961).

• Terras do sem-fim
O romance Terras do sem-fim trata da fixação e expansão das fazendas de
cacau em São Jorge dos Ilhéus (atual cidade de Ilhéus, na Bahia). A cobiça
e o desejo de enriquecimento levam dois fazendeiros ao confronto: o coro-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nel Horácio da Silveira e Juca Badaró, da família Badaró, a mais rica da re-
gião. Ambos disputam as terras incultas de modo violento, principalmente
Horácio, para quem as armas são a única lei.
Paralelamente, desenvolve-se o drama de Ester, esposa de Horácio.
Educada em outro meio, não se acostuma com a vida que leva na fazen-
da, solitária, cercada de perigos. Quando conhece Virgílio, um advogado
que passa a frequentar sua casa, vê nele a figura de seus sonhos de ado-
lescente, perdidos com o casamento, e acaba por tornar-se sua amante.
O romance mantém um clima de suspense entre a sequência dos fatos
que envolvem as lutas dos dois fazendeiros e seus capangas e o drama
íntimo de Ester.

Leitura
Este trecho mostra o relacionamento que havia entre Juca Badaró e seus
empregados.
[…]
Os homens vão recuando. Levaram horas, dias e noites, para
chegar até ali. Atravessaram rios, picadas quase intransitáveis, fi-
zeram caminhos, calçaram atoleiros, um foi mordido de cobra e
ficou enterrado ao lado da estrada recém-aberta. Uma cruz tosca,
o barro mais alto, era tudo que lembrava o cearense que havia
caído. Não puseram o seu nome, não havia com que escrever. Na-
quele caminho da terra do cacau aquela foi a primeira cruz das
muitas que depois iriam ladear as estradas, lembrando homens
caídos na conquista da terra. Outro se arrastou com febre, mordi-
do por aquela febre que matava até macacos. Se arrastando che-
gou e agora ele também recua, a febre fá-lo ver visões alucinantes.
Grita para os demais:
— É o lobisomem…
Vão recuando. A princípio devagar. Passo a passo até alcançar o ca-
minho mais largo, onde são menos numerosos os espinhos e os atolei-
ros. A chuva de junho cai sobre eles, encharcando as roupas, fazendo-

104 LITERATURA

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-os tremer. Diante deles a mata, a tempestade, os fantasmas. Recuam.
Agora chegam à picada, é uma corrida só, atingirão as margens
do rio onde uma canoa os espera. Quase respiram aliviados. O que
vai com febre já não sente a febre. O medo dá-lhe uma nova força
ao corpo alquebrado.
Mas diante deles, parabélum na mão, o rosto contraído de raiva,
está Juca Badaró. Também ele estava ante a mata, também ele viu
os raios e ouviu os trovões, escutou o miado das onças e o silvo das
cobras. Também seu coração se apertou com o grito agourento do
corujão. Também ele sabia que ali moravam as assombrações. Mas
Juca Badaró não via na sua frente a mata, o princípio do mundo.
Seus olhos estavam cheios de outra visão. Via aquela terra negra, a
melhor terra do mundo para o plantio do cacau. Via na sua frente
não mais a mata iluminada pelos raios, cheia de estranhas vozes,
enredada de cipós, fechada nas árvores centenárias, habitada de
animais ferozes e assombrações. Via o campo cultivado de cacauei-
ros, as árvores dos frutos de ouro regularmente plantadas, os cocos
maduros, amarelos. Via as roças de cacau se estendendo na terra
onde antes fora mata. Era belo. Nada mais belo no mundo que as
roças de cacau. Juca Badaró, diante da mata misteriosa, sorria. Em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

breve ali seriam os cacaueiros, carregados de frutos, uma doce som-


bra sobre o solo. Nem via os homens com medo, recuando.
Quando os viu, só teve tempo de correr na sua frente, se postar na
entrada do caminho de parabélum na mão, uma decisão no olhar:
— Meto bala no primeiro que der um passo…
Os homens pararam. Ficaram um instante assim, sem saber o
que fazer. Atrás estava a floresta, na frente Juca Badaró disposto a
atirar. Mas o que tinha febre gritou:
— É o lobisomem… — e avançou num pulo.
Juca Badaró atirou, novo raio atravessou a noite. A mata repetiu
num eco o som do tiro. Os outros homens ficaram em torno do que
caíra, as cabeças baixas. Juca Badaró se aproximou vagarosamente,
o parabélum ainda na mão. Antônio Vítor tinha se baixado, segu-
rava a cabeça do ferido. A bala atravessara o ombro. Juca Badaró
falou com a voz muito calma:
— Não atirei para matar, só para mostrar que vocês têm que obe-
decer… — apontou para um: — Vá buscar água para lavar a ferida.
Assistiu a todo o tratamento, ele mesmo amarrou um pedaço de
pano no ombro do homem ferido e ajudou a levá-lo para o acampa-
mento junto da mata. Os homens iam tremendo, mas iam. Deitaram
o ferido que delirava. Na mata as assombrações estavam soltas.
— Adiante — disse Juca Badaró.
Os homens se espiavam uns aos outros. Juca suspendeu o para-
bélum:
— Adiante…
Os machados e os facões começaram a cair num ruído monóto-
no sobre a mata, perturbando seu sono. Juca Badaró olhou na sua
frente. Via novamente toda aquela terra negra plantada de cacau,
roças e roças carregadas de frutos amarelos. A chuva de junho ro-
lava sobre os homens, o ferido pedia água numa voz entrecortada.
Juca Badaró guardou o parabélum.
[…]
AMADO, Jorge. Terras do sem-fim. São Paulo: Parabélum: pistola automática de
Livraria Martins, 1973. p. 47-49. (Fragmento). grande calibre.

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 105

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1 Nesse texto, percebemos que a mata adquire significados diferentes
para Juca Badaró e para os seus homens. Explique.
2 Como podemos caracterizar o relacionamento entre Juca Badaró e
seus empregados?
3 Que pontos em comum há entre esse texto de Jorge Amado e o tex-
to de Rachel de Queiroz, analisado anteriormente, para que ambos
possam ser considerados exemplos da linha neorrealista que se de-
senvolveu na segunda fase do Modernismo?

Graciliano Ramos
ARQUIVO DO INSTITUTO DE ESTUDOS
BRASILEIROS, USP, SÃO PAULO

Nasceu em Alagoas, em 1892, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Gra-


ciliano Ramos é considerado o mais importante prosador da segunda fase
do Modernismo. Deixou os romances Caetés (1933), São Bernardo (1934),
Angústia (1936) e Vidas secas (1938). Escreveu ainda contos (Insônia, 1947),
memórias (Infância, 1945, Memórias do cárcere, 1953) e um livro de litera-
tura infantil (Histórias de Alexandre, 1944), entre outras obras.

• Vidas secas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Graciliano Ramos, 1948.
A narrativa é estruturada numa sucessão de cenas que focalizam dife-
rentes momentos na vida de uma família de retirantes — Fabiano, sinhá
Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia. Em suas andanças pelo sertão,
fugindo da seca, a família se instala numa fazenda abandonada. Com a
chegada das chuvas, o dono da propriedade volta e Fabiano submete-se às
suas ordens, permanecendo na fazenda como vaqueiro.
A incapacidade de usar adequadamente a linguagem isola Fabiano das
outras pessoas. É explorado em seu trabalho, sente-se enganado, mas nada
pode fazer: “[...] sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difí-
ceis, ele saía logrado”.
Por essas experiências negativas, Fabiano vai associando a linguagem ao
mundo dos “homens sabidos” e passa a temer a ambos. As palavras pare-
cem dotadas de um poder mágico e ele admira e teme os que conseguem
falar com facilidade.
Quando volta o período das secas, a família abandona a fazenda e reco-
meça suas andanças pelo sertão. Fabiano e sinhá Vitória, de olhos no futuro,
mantêm ainda uma remota esperança de que as coisas talvez um dia me-
lhorem e seus filhos não precisem passar pelo que eles estão passando.
ACERVO ICONOGRAPHIA

[…]
Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano
estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela
era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de sinhá Vitória,
as palavras que sinhá Vitória murmurava porque tinha confiança
nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho.
[…]
RAMOS, Graciliano. In: GARBUGLIO, José C.; BOSI, Alfredo;
FACIOLI, Valentim (Org.). Graciliano Ramos: antologia & estudos.
São Paulo: Ática, 1987. p. 387. (Fragmento).

Em cartas e depoimentos, Graciliano Ramos explicou que o livro Vidas


secas nasceu da junção de textos independentes. O ponto inicial foi o epi-
Cena do filme Vidas secas, de
Nelson Pereira dos Santos, 1963. sódio da morte da cachorra Baleia.

106 LITERATURA

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[…]
Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil,
como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma
cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo.
O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás.
Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero
que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que
eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a
minha cachorra Baleia e esperamos preás.
[…]

Depois de escrever “Baleia”, que saiu como conto em jornal, Graciliano


explica:
[…] Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal.
Essas coisas foram vendidas em retalho, a jornais e revistas. E como
[o editor] José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano
passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos
como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os
dois filhos e a cachorra Baleia.
[…]
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Sobre o enfoque dado aos personagens, comentou:


[…] O que me interessa é o homem, e homem daquela região as-
pérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece em
literatura. […] Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primi-
tivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação
desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do
meio físico e da injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense
— e os meus personagens são quase selvagens — o que ele pensa
merece anotação.
[…]
RAMOS, Graciliano. In: GARBUGLIO, José C.; BOSI, Alfredo;
FACIOLI, Valentim (Org.). Graciliano Ramos: antologia & estudos.
São Paulo: Ática, 1987. p. 63-64. (Fragmentos).

Leitura

Ao ler o trecho a seguir, preste atenção na dinâmica do relacionamento


entre Fabiano e o dono da fazenda onde ele morava.
[…]
Pouco a pouco, o ferro do proprietário queimava os bichos de
Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo
endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora
das contas davam-lhe uma ninharia.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, ar-
rependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi con-
sultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o barreiro,
sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes
de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguin-
te Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as
operações de sinhá Vitória, como de costume, diferiam das do pa-
trão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era pro-
veniente de juros.

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO (1930-1945): PROSA E POESIA 107

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Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim se-
nhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo.
Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu
o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no
toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aqui-
lo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o va-
queiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era
preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era
CARLOS CAMINHA

bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lu-
gar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor,
mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, pro-
vavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas
dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na
sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijo-
lo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se
tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos.
Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[...] Sentou-se numa calçada, tirou do bolso o dinheiro, examinou-o,
procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. Não podia dizer em
voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase
de graça e ainda inventavam juro. Que juro! O que havia era safadeza.
— Ladroeira.
Nem lhe permitiam queixas. Porque reclamara, achara a coisa
uma exorbitância, o branco se levantara furioso, com quatro pedras
na mão. Para que tanto espalhafato?
— Hum! hum!
Recordou-se do que lhe sucedera anos atrás, antes da seca, longe.
Num dia de apuro recorrera ao porco magro que não queria engor-
dar no chiqueiro e estava reservado às despesas do Natal: matara-o
antes de tempo e fora vendê-lo na cidade. Mas o cobrador da pre-
feitura chegara com o recibo e atrapalhara-o. Fabiano fingira-se
desentendido: não compreendia nada, era bruto. Como o outro lhe
explicasse que, para vender o porco, devia pagar imposto, tenta-
ra convencê-lo de que ali não havia porco, havia quartos de porco,
pedaços de carne. O agente se aborrecera, insultara-o, e Fabiano se
encolhera. Bem, bem. Deus o livrasse de história com o governo. Jul-
gava que podia dispor dos seus troços. Não entendia de imposto.
— Um bruto, está percebendo?
Supunha que o cevado era dele. Agora se a prefeitura tinha uma
parte, estava acabado. Pois ia voltar para casa e comer a carne. Po-
dia comer a carne? Podia ou não podia? O funcionário batera o pé
agastado e Fabiano se desculpara, o chapéu de couro na mão, o
espinhaço curvo.
— Quem foi que disse que eu queria brigar? O melhor é a gente
acabar com isso.
Despedira-se, metera a carne no saco e fora vendê-la noutra rua, es-
condido. Mas, atracado pelo cobrador, gemera no imposto e na multa.
Daquele dia em diante não criaria mais porcos. Era perigoso criá-los.
[...]
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed.
Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 92-95. (Fragmento).

108 LITERATURA

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1 O narrador frequentemente se vale do discurso indireto livre. Que
funcionalidade tem no texto o uso desse tipo de discurso? Justifique
sua resposta com exemplo copiado do texto para o caderno.

2 No começo do texto, o dono da fazenda onde Fabiano trabalha e


mora é chamado de “patrão”; logo depois, porém, ele passa a ser
chamado de “amo”. Considerando o significado dessas duas pala-
vras, como você explica essa mudança na forma como Fabiano trata
o dono da fazenda?

3 “Com certeza havia um erro no papel do branco.” Observe que, nes-


sa passagem, Fabiano trata o patrão por “branco”. Considerando
seus conhecimentos de história do Brasil, que conotação assumiu a
palavra branco em nossa cultura? E por que ela é usada com referên-
cia ao dono da fazenda nessa passagem?

4 O poder de pressão do patrão para forçar Fabiano a aceitar suas


condições resume-se numa frase do texto. Qual?

5 “O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijo-


lo.” O que essa passagem destacada revela sobre o tipo de relacio-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

namento que havia entre Fabiano e o patrão?

6 O texto mostra Fabiano em duas situações de conflito: uma com o


patrão e outra com o cobrador da prefeitura. Considerando o com-
portamento de Fabiano, o que há em comum nas duas situações?

7 Que adjetivo, repetido várias vezes, destaca a rusticidade de Fa-


biano, cujas reações são frequentemente associadas às de um
animal?

• São Bernardo
No romance São Bernardo, o social e o psicológico se fundem para criar
uma obra-prima de análise das relações humanas.
A história é contada em 1a pessoa pelo personagem principal, Paulo Ho-
nório, dono da fazenda São Bernardo. Astucioso, desonesto, não hesita em
amedrontar ou corromper as pessoas para conseguir o que deseja. Frio e
calculista, enriquece em pouco tempo.
A fim de garantir um herdeiro para São Bernardo, Paulo Honório casa-
-se com Madalena, uma professora desempregada que vive com uma tia