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RESENHA

NORBERT ELIAS POR ELE MESMO


BCH-UFC
PERIODICOS

Norbert Elias por ele DE NORBERT ELlAS do prefácio! (não à toa,


mesmo Norbert Elias por Ele mesmo.
Casa-Grande & Senzala
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. é dedicado à memória de
seus avós).

P ode a história
vida de um autor,
seus dilemas
triunfos pessoais, cons-
de

e
POR LAÉCIO RICARDO DE AaUINO RODRIGUES*

* Jornalista e mestrando do Programa de


Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal do Ceará (UFC)
Outro ilustre exem-
plo é o de Max Weber.
Impossível reduzir
genialidade de sua obra
a

tituir um termômetro a aspectos biográficos, ou


indicativo da orientação de sua produção inte- tentar explicá-Ia somente por sua história de vida,
lectual, a ponto de permitir analogias entre sua uma vez que sua ciência é legítima herdeira de
biografia e o conteúdo de seus livros? A coloca- vertentes diversas da intelectualidade alemã. Con-
ção é delicada. Os entusiastas poderão alegar tudo, é difícil desconsiderar que a incompatibili-
que uma compreensão da visão de mundo do dade entre a atividade científica e a prática política
pesquisador - de quem foi este homem, que tão denunciada em seus textos não seja reflexo de
valores professou e como se situou ante as ques- um dilema pessoal: defensor da neutralidade
tões centrais de seu tempo - é indispensável a axiológica das Ciências Sociais, Weber foi também
um maior entendimento de sua obra. Cientistas um cidadão interessado em participar das deci-
sociais de índole positivista, por outro lado, ten- sões políticas de seu país - seu fracasso neste últi-
deriam a refutar tal hipótese: um conhecimento mo empreendimento, aliás, pontua o pessimismo
produzido livre de juízo de valor não pode ser de alguns de seus ensaios. Também não é incoe-
mensurado por questões ideológicas. E penso rente imaginar que parte do seu interesse pelo
que ambos estão certos. Exemplifico. puritanismo possa derivar da influência mater-
Ninguém pode chegar ao extremo de afir- na (embora não professasse credo algum, Weber
mar que "Casa-Grande & Senzala", obra seminal mantinha laços afetivos muito e treitos com a
de Gilberto Freyre, é um livro autobiográfico, uma mãe, Helene Weber, mulher de austera forma-
vez que, para redigi-Ia, o autor precisou se dis- ção protestante).
tanciar de suas raízes e aprimorar sua formação E por que retomo essa discussão tão con-
acadêmica no exterior (sobretudo nos Estados troversa quanto apaixonante? Justamente porque
Unidos). No entanto, em vários trechos deste clás- ela se faz presente em Norbert Elias por Ele Mes-
sico, Freyre admite que, escrevê-lo, implicou um mo, mais um título da série que a editora cario-
reencontro com a sua ascendência: remanescen- ca Jorge Zahar vem dedicando à obra do
te da aristocracia açucareira pernambucana, suas sociólogo alemão. Dividido em três segmentos,
recordações reverberam nas páginas do livro, num o livro apresenta uma extensa e esclarecedora
exercício de memória: "é um passado que se en- entrevista com o intelectual - quase noventa
tende tocando em nervos; um passado que emen- páginas -, cinco ensaios de natureza autobio-
da com a vida de cada um; uma aventura de gráfica e uma breve cronologia. A leitura dos
sensibilidade, não apenas um esforço de pesqui- textos não deixa dúvidas: a figura que emerge
sa pelos arquivos", confessa, em trecho marcante desses relatos é o homem Elias, alemão de

ROORIGUES. LAÉelO RICARDD DE AaUINO: NORBERT ELlAS POR ELE MESMO. P. 139 A 142 139
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Breslau (hoje a cidade polonesa de Wroclaw), mento de derrota - "isso é muito alemão, m
um sobrevivente em duplo sentido: do alemão. Nenhum outro país, a não ser talvez
patrulhamento nazista e do ostracismo acadê- Polônia, tem uma consciência de si tão sinis
mico, ao qual esteve confinado até fins da déca- (p. 32). Curioso que Elias, ainda jovem, já
da de 60, quando teve sua obra revista na Europa monstrasse interesse em fontes pouco u
- à época, contava já com quase 70 anos. Mas é como canções militares para decifrar o habit
difícil não perceber que, às vezes, sua ciência se de uma sociedade.
aproxima sensivelmente de sua trajetória bio- Os estudos em filosofia e medicina,
gráfica, quase se tangenciam. senvolvidos em Breslau, seriam importantes p
Elias viveu em Breslau até 1924, quando ampliar a dimensão interdisciplinar de sua CI'
defende sua tese de filosofia e decide seguir cia social. A partir de 1925, instala-se e
para Heidelberg, a fim de aprofundar sua for- Heidelberg. A atmosfera intelectual da cida
mação. Na entrevista, que data de 1984 (pró- logo o seduz - em suas palavras, Heidelberg e
ximo à sua morte, em 1990, portanto), descreve a "meca da Sociologia", num contexto forteme
sua cidade como "opulenta" e de grande mo- influenciado pela figura de Max Weber. _
vimentação cultural, localizada numa rica re- efervescência dos debates e a presença de a -
gião agrícola. Inicialmente dispersas, as dêmicos como Alfred Weber (irmão de M~\:
lembranças do sociólogo vicejam aos poucos. Karl Mannheim, de quem se tornaria
Filho único de uma abastada família judia - o interlocutor assíduo, lhe despertam o interes
pai era um empresário do ramo têxtil -, revela pela disciplina emergente.?
que o anti-sernitismo parecia uma sombra pá- No final da década, dirige-se para Frankf -
lida naquele início de século.? com Mannheim, para continuar os estudo -
Apesar do longo desprezo acadêmico, Elias essa altura, sua sociologia já adquirira cont
explica a perseverança intelectual pela atenção nos peculiares: uma ciência a serviço
e zelo familiar, uma dedicação capaz de lhe im- desmistificação de estereótipos e mitologi
primir uma inabalável autoconfiança '. O proces- deslocada de partidarismos e ideologias. "P
so de exclusão não lhe demovera do desejo de so então dizer que a minha convicção de q
prosseguir no campo científico; tampouco recu- é preciso erguer o véu que oculta os conce -
ava em suas colocações. "Ou triunfava, ou de- tos remonta muito longe em meu passado"
saparecia. Não tinha certeza absoluta, 46). Remover a máscara, demolir represen -
naturalmente, mas não duvidava nem um pou- ções ilusórias. É significativo, portanto, que
co de que minha obra um dia seria reconhecida seu livro O Que é Sociologia? tenha um capí -
como contribuição de qualidade ao saber da 10 intitulado o sociólogo como caçador de 11 -
humanidade" (p. 22). tos. o mesmo período, também desenvol
Para atingir o Olimpo, no entanto, Elias suas idéias sobre as redes de interdependênci
desceu ao inferno várias vezes. A contragosto, "o indivíduo está ligado aos outros por u
foi recrutado para o exército alemão, durante a fenômeno de dependência recíproca", conceit
Primeira Guerra - em suas palavras, não escon- que seria plenamente desenvolvido em A So-
de o desprezo pelo imperador e pelo conflito". ciedade de Corte.
Teve experiências marcantes no front, embora Ainda em Heidelberg, ouve falar dos nacio-
não participasse diretamente das batalhas. Sua nal-socialistas; contudo, não sentia o movimen-
recordação mais notável é dos cânticos entoa- to como ameaça. No depoimento, reconhece que
dos pelos soldados, durante o deslocamento dos a segurança familiar e a atmosfera intelectual da
comboios, onde a intuição da morte está sem- cidade prejudicaram suas intuições. Somente e __
pre presente, inspirando uma espécie de senti- Frankfurt pressente os riscos do anti-semitismo

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Deixa então a Alemanha em 1933. Tem início o judeu alemão lutando para se estabelecer no
exílio e um período de enorme carestia, com os campo acadêmico, um sociólogo exilado em
recursos familiares bloqueados pelo governo permanente esforço para não se deixar tragar
nazista (seus pais seriam vítimas do hitlerismo). pelo esquecimento, confiante na singularida-
Enfrentando privações diversas, escreveu seus de de seu pensamento. Difícil não considerar
primeiros livros na Inglaterra com a ajuda de tais aspectos biográficos pertinentes numa dis-
um comitê de refugiados judeus - obras como cussão sobre sua produção teórica (o vínculo
A Sociedade de Corte e O Processo Civilizado r, apontado aqui não é o de determinação, mas
hoje celebradas, foram publicadas para audiên- de cumplicidade). Aliás, Leopoldo Waizbort,
cias vazias, sem qualquer retorno. na apresentação do Dossiê Norbert Elias', rea-
Embora não o tenha exasperado, o re- firma este dialogismo: segundo ele, sociólogo,
conhecimento tardio lhe exigiu demasiada pa- judeu e alemão são pontos de abordagem pri-
ciência. A relação ambígua com seu país natal vilegiados para se compreender a trajetória
foi passada a limpo no volume Os Alemães, pessoal, intelectual e institucional do autor e
espécie de biografia daquela nação, onde Elias sua obra, suficientes, inclusive, para apontar
mapeia o habitus germânico e seu ímpeto mi- o leque de formulações teóricas e o sentido
litarista não para explicar as causas do nazis- de certas escolhas temâticas".
mo, mas para revelar que os processos O tom confessional e biográfico, portan-
civilizadores não são unilineares - às vezes to, não é a única virtude de Norbert Elias por
são atravessados por surtos de "descivilização" Ele mesmo. Sobretudo, o livro se destaca por
e irracionalidade. Pelo menos num sentido, permitir esta saudável confrontação entre a tra-
seu desterro foi positivo: é provável que uma jetória pessoal do autor e sua produção teóri-
obra do porte de Os Alemães somente possa ca, servindo, pois, como texto introdutório às
ter sido viabilizada em virtude do distan- suas idéias científicas. Vai além: também possi-
ciamento de seu país e do seu passado. bilita ao leitor situar o sociólogo no contexto
Apesar do isolamento acadêmico, é notá- histórico de sua formação e desenvolvimen-
vel que a disposição de Elias para o labor cien- to intelectual. Uma experiência fascinante,
tífico tenha se mantido forte e duradoura, sem dúvida.
despertando a atenção de seus admiradores e
impondo-lhe uma longa existência (mais de 90 Notas
anos) sem descendentes: Elias não casou ou teve
filhos. Indagado sobre a importância que o tra- 1FREYRE, Gilberto. (2000). Casa-Grande & Senzala.
balho adquiriu em sua vida, recorre a seus argu- 39ª edição. Rio de Janeiro: Ed. Record.
2 Elias descreve poucos episódios de cunho anti-
mentos teóricos: "Nunca acho que se possa dizer
semita neste período de sua vida. Um é marcante:
que determinada atividade seja resultado de uma
quando tinha entre 15 e 16 anos, durante uma dis-
opção pessoal". A idéia subjacente da frase é a cussão colegial, em meio à qual os alunos apresen-
mesma já presente em A Sociedade de Corte e tavam seus projetos para o futuro, Elias manifestou
revisitada em A Sociedade dos Indivíduos: o ho- o desejo de ser professor universitário, e foi inter-
mem não é absolutamente autônomo ou social- rompido por um colega, alegando que esta possi-
mente determinado em suas decisões (os laços bilidade lhe havia sido vetada desde nascimento, °
observação ilustrativa do preconceito acadêmico
de interdependência aos quais se encontra vin-
contra os intelectuais judeus (p. 19).
culado revelam que em suas escolhas também
3 "É por essa sensação de grande segurança que usu-
pesam motivações sociais). fruí durante minha infância que explico minha per-
Usando uma terminologia clássica de seu severança, mais tarde, na época em que escrevia
pensamento, Elias foi sempre um outsider.í í.un meus livros e ninguém prestava atenção em mim.

RODRIGUES, LAÉCIO RICARDO DE Aourso: NORBERT ELIAS POR ELE MESMO. P. 139 A 142 141
RESENHA

[, .. 1 Tenho uma intuição que me dá a segurança de 6 Três dos ensaios presentes no livro discorrem sobre
que tudo irá bem, enfim, atribuo isso à enorme este período de reorientação intelectual de Elias -
sensação de segurança que usufruí como filho úni- sua inclinação à sociologia - e sua aproximação com
co, graças ao amor de meus pais" (p. 22). intelectuais como Karl Mannheim e Alfred Weber.
4 "Minha identificação com a Alemanha não se dava 7 Para o conceito de outsider, conferir o volume
de forma alguma em termos militares; na época, eu Os Estabelecidos e os Outsiders, também publica-
não tinha nada a ver com isso. Mesmo como solda- do pela Zahar.
do, nunca fui nacionalista ou patriota - dirigia-me 8 WAIZBORT, Leopoldo. (org.). (2001). Dossiê Norbert

para a morte porque era obrigado" (p. 28). Elias. São Paulo, Edusp.
5 Para o conceito de babitus em Elias, conferir os 9 No quarto ensaio incluído no livro, Elias discorre
volumes A Sociedade de Corte e Os Alemães, publi- sobre a sua condição simultânea de judeu e alemão.
cados pela mesma editora.

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