Você está na página 1de 4

FLUXO DE CAIXA RELEVANTE

As projeções de preço e quantidade de vendas dos fluxos de caixa são, geralmente, fornecidas pelo
setor de marketing, que se baseia nos seus conhecimentos sobre a elasticidade de preço, os efeitos
da publicidade e propaganda, o ambiente macroeconômico, a reação esperada dos competidores e os
padrões de compra dos consumidores. Da mesma forma, os investimentos de capital associados a um
novo produto são, geralmente, fornecidos pelos setores de engenharia e desenvolvimento de produto,
enquanto os custos operacionais são estimados pelos contadores, engenheiros de produção, recursos
humanos, compradores, etc.

A realização de estimativas de receitas e despesas em projetos novos e inéditos também é uma tarefa
cuja dificuldade é grande, devido à falta de dados históricos em que se basear e por não se saber
como o mercado vai reagir frente ao novo produto. As dificuldades encontradas nas previsões corretas
só são comparáveis, em importância, às dificuldades relativas a decisões de investimento. Podemos,
no entanto, minimizar os erros de projeção.

O que descontar?
Sabemos agora que o método recomendado para a avaliação de projetos é o valor presente do fluxo
de caixa gerado ao longo de toda a sua vida útil. Projeções de fluxo de caixa e projeções de lucro
contábil são coisas bem distintas, e devemos saber diferenciar os dois para evitarmos alguns erros
comuns na análise de projetos. Além disso, veremos que apenas os fluxos de caixa incrementais são
relevantes para a decisão de aceitar ou rejeitar um projeto.

Fluxo de caixa e lucro contábil


A contabilidade financeira tende a enfocar o lucro como medida de performance. O lucro, por sua vez,
é baseado nos princípios contábeis de receita e despesa, levando-se em conta o regime de
competência. Isso significa que receitas a receber e despesas a pagar são computadas para o cálculo
do lucro, embora ainda não tenham sido recebidas ou pagas efetivamente. Além disso, as despesas
de depreciação são abatidas do lucro operacional.

Lucros contábeis são utilizados para uma série de finalidades importantes, mas a análise de projetos
de investimento não é uma delas. Em finanças corporativas, o enfoque está no fluxo de caixa. Ao
utilizarmos informações contábeis para estimarmos o fluxo de caixa, temos de ajustar, no tempo, as
receitas e despesas que representam recebimentos ou desembolsos futuros, e desconsiderar aquelas
que não afetam o fluxo de caixa, como a depreciação, alguns tipos de custos indiretos, etc. Para o
processo de tomada de decisão de investimentos de capital, utilizaremos sempre valores de fluxo de
caixa projetados.

1
Fluxo de caixa incremental
Apenas projetar os fluxos de caixa não é o suficiente. Para o cálculo do valor presente líquido (VPL),
os fluxos de caixa incrementais ao projeto devem ser considerados. Esses fluxos representam as
mudanças que ocorrem no fluxo da empresa em decorrência da decisão de aceitar o projeto. O que
nos interessa, portanto, é a diferença entre os fluxos de caixa da empresa com o projeto e os fluxos
que ocorreriam sem o projeto.

Além disso, o fluxo deve ser líquido, já descontados todos os impostos que venham a incidir. O uso de
fluxos incrementais é simples, mas devemos tomar alguns cuidados para a sua correta determinação.
Da mesma forma, não se encontram maiores problemas ao se traduzirem dados contábeis em um
fluxo de caixa, contanto que se esteja alerta para considerar apenas os itens que representam,
efetivamente, entradas e saídas de caixa incrementais, à medida em que elas efetivamente ocorram.
Veremos, a seguir, como evitar esses problemas em algumas situações específicas.

Depreciação
A depreciação só faz sentido como uma despesa que tem o efeito de reduzir a tributação, pois ela não
representa desembolso. Quando se apura o fluxo de caixa líquido a partir de um demonstrativo de
resultados projetado, a depreciação deve ser somada de volta ao lucro líquido, pois ela entra somente
para o cálculo do imposto.

Custos de oportunidade
Os custos de oportunidade são custos que, embora não representem uma saída efetiva de caixa,
representam uma saída potencial e, portanto, devem ser levados em conta na análise. A empresa
pode possuir um ativo que poderia ser vendido, alugado ou utilizado por algum outro setor da
empresa, ou mesmo fora dela. Se esse ativo é utilizado por um novo projeto, as receitas que ele
poderia gerar nas outras opções de uso são perdidas. Essas perdas podem ser consideradas custos e
são chamadas de custos de oportunidade, pois, ao aceitar o projeto, a empresa abre mão da
oportunidade de utilizar esse ativo para outros fins.

Suponha que o Sr. Monteiro seja o feliz proprietário de um negócio que lhe rende a quantia de $
4.000 mensais. O Sr. Monteiro possui também uma loja comercial em um ponto valorizado do centro
da cidade que poderia ser alugada por $ 5.000 mensais. Valeria a pena instalar o seu negócio nesse
local? Com certeza, não, pois assim fazendo, ele estaria abrindo mão de uma receita de $ 5.000 em
troca de uma de $ 4.000.

2
Efeitos colaterais
Projetos de investimento de capital podem gerar efeitos colaterais em outras partes da empresa não
ligadas diretamente ao projeto. O lançamento de um novo produto que afete negativamente as
vendas dos produtos atuais da empresa é um exemplo. Uma empresa brasileira exportadora que
esteja analisando montar uma fábrica na Argentina, por exemplo, deve considerar a perda de receita
de exportação para aquele país que o projeto acarretará. Em outras palavras, temos de analisar se os
benefícios do novo investimento compensam as eventuais perdas acarretadas por ele à firma.

Por outro lado, essa contribuição nem sempre é negativa. Por exemplo, uma companhia aérea que
esteja analisando o projeto de implantação de uma nova linha entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, em
um horário que tenha uma conexão conveniente com os seus voos para o exterior, deve alocar ao
projeto quaisquer benefícios advindos do aumento de procura para os seus voos internacionais por parte
dos seus passageiros de Belo Horizonte, que, de outra forma, não utilizariam os serviços da empresa.

Uma consequência do tratamento dos efeitos colaterais é que, no âmbito de um projeto, faz sentido
calcular o imposto de renda sobre um prejuízo, pois ele representa um abatimento no imposto de
renda global da empresa, ou seja, um incremento negativo, que deve ser considerado como um
benefício marginal do novo projeto.

Custos passados
Custos (ou receitas) que já foram incorridos no passado não são afetados pela decisão de aceitar ou
rejeitar um projeto futuro e, portanto, não são relevantes para a análise, devendo ser excluídos. Isso
não significa que esses custos passados não tenham produzido resultados ou informações relevantes
na sua época, mas sim que não têm lugar na análise do projeto atual. A contratação de uma pesquisa
de mercado ou de um estudo de viabilidade, por exemplo, tem por finalidade levantar dados
importantes de mercado e custo necessários a uma decisão de investimento. Embora haja uma
ligação clara e direta entre esse estudo e o projeto de investimento, ele representa uma decisão de
investimento anterior, cujo custo, certamente, foi avaliado na época, à luz dos benefícios que adviriam
das informações coletadas.

Capital de giro
Os investimentos de capital de um projeto podem ser consideravelmente maiores que apenas os
desembolsos para aquisição de ativos fixos (equipamento, maquinário, instalações, imóveis, etc.).
Normalmente, um projeto de investimento de capital aumenta os estoques, o contas a receber e o
contas a pagar. O aumento do capital de giro (caixa + estoques + contas a receber - contas a pagar)
também faz parte do investimento necessário, mas, muito frequentemente, essas necessidades
adicionais de investimento são esquecidas. Se um projeto leva um certo número de anos para atingir
plena capacidade, é provável que haja necessidades adicionais de capital de giro nos anos iniciais,
especialmente para novos produtos, para os quais a empresa talvez tenha de oferecer facilidades de
crédito e pagamento, de modo a atrair compradores (aumento do contas a receber). A decisão de

3
investimento significa que a empresa utiliza capital fixo e capital de giro durante toda a vida útil do
projeto. Ao final do projeto, o capital fixo retorna em forma de valor residual ou sucata, geralmente
um menor valor do que o investimento inicial, e, integralmente, no caso de capital de giro.

Custos indiretos
Apenas custos fixos indiretos incrementais devem ser incluídos na análise. Na maioria das empresas,
todos os custos, inclusive os custos fixos indiretos, são alocados em centros de custos de acordo com
critérios preestabelecidos. Qualquer investimento em novos processos ou novas máquinas atrai para si
uma parcela desses custos indiretos. Embora isso possa ser apropriado para fins de contabilidade,
apenas os custos fixos incrementais, isto é, diretamente causados pelo projeto devem ser incluídos
para fins de análise do investimento.

Juros
Investimentos de capital precisam ser financiados de uma forma ou de outra. Às vezes, isso é feito
por meio de empréstimo bancário, o que requer uma série de saídas de caixa para pagamento de
juros. Essas saídas de caixa devem ser incluídas no fluxo relevante do projeto? A resposta para essa
pergunta é não, pois essas despesas estão relacionadas com a decisão de financiamento, e não com a
de investimento. Se considerássemos essas despesas no fluxo de caixa do projeto, estaríamos
computando duas vezes esses valores e acarretando um VPL muito menor que o verdadeiro, pois a
taxa de desconto utilizada já reflete o custo de capital do projeto. No caso de o projeto ser realizado
apenas com recursos próprios, o mesmo raciocínio se aplica – os recursos próprios que o projeto está
utilizando, na verdade, vêm do dinheiro investido pelos acionistas na empresa, que deve ser
remunerado a taxas de mercado. Isso tudo é levado em conta na taxa de desconto. O efeito disso é
que podemos ignorar a forma pela qual o projeto é financiado, se com recursos próprios ou de
terceiros, pois o tratamento será o mesmo em qualquer dos casos.

Você também pode gostar