Você está na página 1de 8

O que é nacional nos quadrinhos brasileiros?

AMARO XAVIER BRAGA JUNIOR*

Resumo
O texto se desenvolve em torno de um ensaio sobre a ausência de nacionalidade
nos quadrinhos brasileiros. Enfatiza o que seriam os elementos de nacionalidade e
sua importância na produção de HQs. Destaca dois aspectos que denunciam a
nacionalidade de um quadrinho: o tema e as caracterizações do tipo de desenho
(biótipo das personagens, elementos de urbanização e princípios arquitetônicos,
vestimentas, entre outros) mostrando as principais confusões decorrentes destes
conceitos com os gêneros de HQ. Propõe que o termo “quadrinho nacional” é
uma terminologia inapropriada para a maioria dos quadrinhos brasileiros.
Palavras-chaves: Identidade; Nacionalização; HQ.

What is national in Brazilians Comics?


Abstract
This paper develops around an essay about the absence of nationality in brazilian
comics. Emphasizes what are the elements of citizenship and its importance in the
production of comics. Highlights two aspects which denounce the nationality of a
comic book: the theme and characterizations of the type of design (biotype of
characters, elements of urbanization and architectural principles, clothing, etc.)
showing the main confusions arising from these concepts with comics genres.
Proposes that the term "national comic" is an inappropriate terminology for most
brazilians comics.
Key words: Identity; Nationalization; Comic.

*
AMARO XAVIER BRAGA JUNIOR é Produtor Cultural e Quadrinhista. Possui sete álbuns
em quadrinhos publicados. É Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (UFPE), Esp. em História das
Artes e das Religiões (UFRPE), Esp. em Artes Visuais (SENAC), Esp. em Gestão de EAD (Esc.
Exército/UCB), Mestre e Doutorando em Sociologia (UFPE). Diretor do CDICHQ – Centro de
Desenvolvimento e Incentivo Cultural às Histórias em Quadrinhos. Premiado em 2007 com o HQMIX de
Melhor Contribuição pelo álbum em HQ “Passos Perdidos, História Desenhada”. É professor efetivo no
Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas - UFAL. axbraga@gmail.com,
http://axbraga.blogspot.com.br.

27
A memória é um tipo de originários do seu grupo e
informação que se preservou e que, portanto, vieram de fora.
que leva o individuo a um Nesta perspectiva o elemento
tempo passado, uma nacional exerce grande
lembrança reminiscente. importância na relação de
Apesar de o termo ter origem interação mnemônica entre
grega relativa a titã expectador e produto. Ambos
Mnemosyne que gera as nove precisam acertar os elementos
musas inspiradoras da música, de um em relação ao outro.
arte e da história (CHAUÍ,
Isto é, os elementos do
2005), o verbete refere-se à produto precisam ser
capacidade de “[...] reter as reconhecidos pelo expectador
idéias, impressões e para que ele possa reconhecê-
conhecimentos adquiridos. [...] lo e lhe atribuir o status de nacional. Que
Dispositivo em que informações podem elementos seriam estes que atribuiriam
ser registradas, conservadas e, ao produto seu status nacionalizado?
posteriormente, recuperadas.” Apresentam-se, brevemente, estes
(FERREIRA, 1989, p.488). Todas as elementos a seguir.
imagens são recursos mnemônicos. Os
quadrinhos, como imagens desenhadas,
não ficam distantes e podem estar Nacional é a qualidade daquilo que
completamente vinculados ao processo pertence à Nação. A Nação é o nome que
de aquisição da cultura. se dá a um povo que vive num território
politicamente constituído e que
Todos os produtos reconhecidos como compartilha uma série de elementos
“nacionais” possuem uma base étnicos em comum: língua, valores,
mnemônica. Se forem “Nacionais” é alimentação, vestimenta, hábitos, etc.
porque suas estruturas fazem o nem todas as produções de um povo
espectador\consumidor recordar podem ser enquadradas como nacionais,
informações que foram registradas pela justamente, por não compartilharem, em
tradição como pertencentes a um grupo sua estrutura, tais elementos em comum.
cultural específico, endógeno (de dentro), Assim, a literatura nacional, a música
e não a outro, tido como exógeno (de nacional, o cinema nacional, a culinária
fora). A nacionalização de algo, portanto, nacional etc., são assim denominados,
atribui à coisa nacionalizada, um recurso por incorporarem em sua estrutura,
mnemônico necessário para seu elementos que, de alguma forma,
reconhecimento e identificação. identificam a nação àqueles que os
consomem. É desta forma que, ao entrar
Os quadrinhos classificados como em contato com a culinária japonesa,
“nacionais” incorporam, por usa vez, reconheço-a como tal, por não incluir
uma série de elementos que cumprem elementos que se relacionem com outra
uma função mediadora da identificação e cultura que não aquela presentificada no
das lembranças de padrões culturais país chamado Japão. Brasileiros e
vistos como de dentro do grupo ao qual Japoneses, na culinária, compartilham o
foram gerados. Reconhecer um gosto e o consumo pelo arroz, entretanto,
quadrinho estrangeiro como não- a maneira de cozinhá-lo, seus
nacional, portanto, ocorre porque sua acompanhamentos, porções e até o sabor
estrutura imagética faz o leitor recordar se alteram e se ajustam aos padrões
valores e elementos que não são culturais de cada país. Este processo não

28
é exclusivo da culinária, mas atinge todos não-regionais. Como se isso fosse um
os outros produtos culturais que se breguismo que sinalizasse uma falta de
institucionalizam como “nacionais”. criatividade e originalidade e com
implicações negativas a produção
Levando estes critérios em consideração, ficcional. Um profundo engano. Se
o que a história em quadrinhos brasileira conhecemos muito bem, na nossa
deve apresentar para ser reconhecida memória gráfica, Nova York, muito é
como nacional? Alguns pontos merecem devido aos cenários regionalizados do
destaque ao pensarmos o elemento Homem-Aranha (também devido ao
nacional nestes quadrinhos: a questão dos Cinema ou a TV, com as séries, é
Temas e o Tipo de Desenho. verdade, mas sigam o raciocínio...).
Os Temas são as questões mais óbvias e Conhecemos a história do oeste
ao mesmo tempo, negligenciadas nas americano, quase de memória,
produções e no debate sobre a reconhecendo nomes, personagens,
nacionalização. Restringindo a discussão ambientações urbanísticas, nomes das
ao mundo dos quadrinhos, os temas nações indígenas e até vestimentas, pelos
confundem-se com os gêneros literários. quadrinhos de bang-bang como Tex,
Terror, Aventura, Super-heróis, Infantis, Zagor, entre outros. E, apesar de terem
entre outros, dividem as publicações em sido produzidas por italianos e na Itália,
segmentos distintos. Por muito tempo de nada sabemos de seus contextos
isso foi uma tentativa dos comics, tendo culturais, história local e personagens por
em vista que em outros mercados estas histórias. Afora seus autores ou o
famosos esta distinção não é de fácil local onde foram gerados, o que de
obtenção (enfaticamente no caso dos italiano, ou de fumetti tem estas HQs?
mangás). Os temas se mesclam e os Pois seus temas não estão ambientados
gêneros se confundem. na regionalidade, mas num
estrangeirismo ascendente que relegou às
Mas o que me refiro aqui não é nações as deliciosas histórias do cowboy
propriamente o gênero destas histórias. americano. Não adentramos na qualidade
Elas podem ser de qualquer um deles, da história, que é inegável, mas nas
sem distinção. Mas suas temáticas devem consequências não observadas de sua
incorporar características regionais. produção ante a cultura do país. O tema
Assim, temos uma distinção entre Tema cowboy ou Oeste Americano inundou
e Gênero. Alguns gêneros passaram a ser tantas publicações que construiu um
reconhecidos como similitudes do tema e imaginário particular sobre uma
tendem a representar aspectos de importante fase da história Norte
nacionalidade. Assim o gênero super- Americana. Até hoje sabemos os nomes
heróis passaram a representar os comics, das grandes nações indígenas, os nativos
e, por seguinte, a cultura estadunidense. americanos como Sioux, Apaches,
É como se o simples fato de constituir Comanches e suas práticas, vestimentas,
uma HQ de super-heróis fosse um rituais, e aparência. O que sabemos da
atestado de uma mimese dos comics, ou nossa? Nada ou muito pouco. Nossas
atestar uma produção de colonização ou crianças ainda brincam na escola de índio
a falta de criatividade. americano e não brasileiro, elas fazem
uma roda e cantam, com uma pena régia
No Brasil e entre os brasileiros, tal sobre a cabeça, um uh-uh-uh, com
ambientação é constantemente ignorada. pequenas tapinhas sobre a boca,
Se atribui valor à capacidade de incentivadas por suas professoras
representar o outro de fora ou localidades

29
iletradas e aculturadas, que reproduzem, culturalmente alocados. Nós brasileiros,
sem saber, uma cultura estrangeira que sem querer cometer o erro da
não se aproxima em nada da nacional. generalização redutora, mas já o fazendo,
Nosso índio nunca fez isso e nunca fará. não saímos com toalhas quadriculadas e
Este desprestígio iconográfico leva-nos a lanches frios, com pães de caixa
entender que não há nada interessante em recheados de pasta de amendoim com
nossos índios, não conhecemos seus geleia para sentar sobre as gramas de
nomes. Cuxá, Fulniô, Xukuru e parques. Levamos galinha assada e farofa
Kapinawá não significam nada para os para as praias, Pão com carne moída, pão
jovens, porque simplesmente suas com queijo e presunto besuntados com
histórias de guerra, seus mitos e até sua margarina e garrafas de 2 litros de
aparência não chegaram até nós. O refrigerante. Fazemos churrasco nas
espírito do coiote ou da águia é piscinas e nossas brigas de vizinhança
conhecido pelos brasileiros, mas o do envolvem xingamentos opressivos e
lobo guará ou do carcará, não faz sentido insinuações sexuais. São nossas histórias
nenhum, às vezes até se desconhece a populares, do dia-a-dia de qualquer
aparência destes animais. Isso é subúrbio do litoral nordestino (e me
produzido pelo tema. O exemplo do restrinjo aqui àquelas vinculadas a
faroeste Tex é nítido e vívido. Apesar de tradição do litoral do nordeste. No
ser italiano, destes, só tem o nome, vago interior já é diferente, e o mesmo deve
e vazio, pois de italiano, não tem nada. É ocorrer em outras regiões do país
óbvio que os puristas defenderão que isso também, e desculpem-me por não poder
não é importante, porque a produção contemplá-las na minha explanação.).
ficcional supera estas circunstâncias. Mas Negligenciá-las e denegri-las como não
novamente: não me refiro aqui da desejadas ou passíveis de não existência
qualidade destas produções, não é uma ou de incorporação aos enredos de
questão de serem ou não boas, mas dos história é negar a própria existência e
efeitos não desejados de sua existência corroborar para a aculturação.
ou os efeitos de sua supremacia em
relação a outras publicações que se É necessário ainda ter atenção que o
apropriem da cultura nacional. tema, por si só, pode não representar
satisfatoriamente a nacionalidade, pois
Efeito semelhante acomete os mangás pode ser produzido como um mecanismo
nacionais que tentam reproduzir cem por estereotipado, principalmente se for
cento do mangá japonês, mimetizando- produzido por pessoas de fora do grupo.
os. Reproduzem histórias, mitos, Estes temas podem ser representados
personagens e o urbanismo nipônico. E o pela história local, pelos causos
pior: associam esta capacidade de populares (as chamadas lendas urbanas),
mimese como sinônimo de competência os personagens característicos, quase
e qualidade do desenhista (BRAGA JR, míticos que ambientam todas as histórias
2011). produzidas e reproduzidas pelos
contadores populares. Isso pode ser
Vejamos alguns destes temas circunscrito na terminologia
“inofensivos”. A guerra dos vizinhos é “regionalizado”. Os temas regionalizados
uma constante na cultura popular só são conhecidos por aqueles que vivem
americana. Filmes, literatura e ou cresceram na região e desconhecidos
quadrinhos se envolveram nisso. E nos nas outras. São estes temas que auxiliam
conhecemos cada um deles. Os a formação da identidade e alimentam a
campings, piqueniques são divertimento cultural, atuando como fontes memoriais

30
e (in)formacionais. Ou seja, formam comemos e como os preparamos. São as
cidadãos cientes de sua história, de sua roupas que vestimos e suas combinações
cultura e de sua identidade. para cada ocasião. Vão desde a maneira
de pentear os cabelos, os adornos
Super-heróis é gênero, não um tema. corporais até a disposição do espaço
Nossos super-heróis deveriam seguir interno da nossa casa, dos nossos
nosso modelo de herói, assim como os restaurantes e a aparência dos utensílios
super-heróis norte-americanos seguem o domésticos. São os maneirismos que lhe
modelo de herói estadunidense ajudam a identificar o local de
(estampado em filmes, na propaganda e pertencimento. Tudo isso é folclórico ou
na própria história do país: glorioso – que com o tempo, vem a se tornar o que os
derrota o inimigo, nobre – preocupado folcloristas chamam de “folclórico”. Não
com o próximo e não consigo mesmo; e se restringe as lendas e mitos, apesar
missionário – com o objetivo de levar e deles fazerem parte. Fazer uma HQ
capitanear os de fora com seus valores). brasileira se tornar uma HQ Nacional,
Nosso herói – e muitos estudos têm não é simplesmente fazer um história
demonstrado isso, tem outro viés, é sobre o folclore. É preciso incluí-lo nos
encantador, mesmo que amoral; tem gêneros diversos e nas estruturas
lábia e jogo de cintura. Nosso super-herói temáticas da história.
deveria incorporar os mesmo valores.
Afinal, ele se propõe a ser o nosso super- Outro elemento para a presentificação da
herói e não o deles! nacionalidade nos quadrinhos relaciona-
se com a aparência visual deles. Esta
Um dos erros mais cometidos e que visualidade advém do Tipo de Desenho e
alimentam as principais críticas dos que sua importância. Primeiro porque tudo
negam a necessidade de discutir a que se relaciona aos quadrinhos é
natureza do quadrinho nacional, faz percebido como desenho. Como se este
referência a folclorização dos temas. O fosse o elemento principal dos
folclore é importante. Ele resguarda as quadrinhos. Não é. Apesar das imagens
bases culturais do povo que o levam, a desenhadas serem um elemento
partir do momento que estruturam e importante, é a sequencialidade sua
compartilham estes elementos, a ter os estrutura principal. Muitos pesquisadores
subsídios necessários para se constituir têm deixado isso claro (McCLOUD,
enquanto nação. Mais uma vez, devemos 1995), mesmo assim, entre muitos outros
este congelamento insipiente dos pesquisadores, produtores e leitores de
elementos folclóricos à inércia de nossas quadrinhos, a questão do desenho é visto
professoras e sua má formação. como elemento principal1. Mas, algo que
Chamamos de Folclore não apenas os
1
mitos de Saci, Iara ou Boitatá, mas uma John Byrne, um dos mestres dos comics
série de outros elementos que dão sentido estadunidenses revolucionou muitas questões de
ao grupo e os aproxima enquanto linguagem estética, não só a reestruturar os
roteiros de vários super-heróis – preocupando em
experiência de valores, gostos e fluxos de explicar situações de maneira racional- como
identificação. São as músicas que brincou com os elementos de sequencialidade.
cantamos (como Mario de Andrade Numa história da Tropa Alfa, Byrne subverteu a
descobriu em sua turnê pelo Brasil), as presença dominante do desenho a produzir seis
brincadeiras da infância – aquelas que na páginas em branco, sem nenhum desenho, traço
ou cor. Apenas onomatopeias e o texto
vila, subúrbio ou prédio, as crianças circunscrito nos balões e legendas. E explicava: a
desenvolviam, e atribuíam ao local seu luta entre Pássaro de Neve e Kolomaq ocorre
pertencimento. São os alimentos que durante uma tempestade de neve que deixa tudo

31
passa despercebido é que o desenho é O que chamamos de “Biótipo” é a forma
uma forma de representação gráfica de como os corpos são representados nos
uma dada realidade que é percebida quadrinhos, a aparência do corpo
cognitivamente por um expectador. O humano e os elementos que definem seus
desenho não segue regras absolutas. Em gêneros e fases constitutivas. O biótipo
outros termos: não existe uma maneira dos personagens2 nos quadrinhos, num
certa de desenhar. Não existe desenho primeiro momento, registra a visão de
correto, bonito ou ideal. Estes não mundo sobre o ideal de corpo daquele
passam de atribuições subjetivas da grupo que produz a HQ ou a maneira
relação entre apreciador e obra. Cada como o corpo é visto. Apesar de cada
grupo cultural registra iconograficamente escola produzir regras de representação
as informações conforme as gráfica destes corpos, eles tendem a se
configurações culturais recebidas pela construir sobre estas visões de mundo. A
socialização. Isso se torna evidente maneira de desenhar mulheres, homens,
comparando o grafismo de um homem velhos, crianças, não apenas segue
adulto entre Incas, Europeus e Africanos. parâmetros do objeto, mas dos valores
No caso dos quadrinhos, entre europeus, axiológicos em sua concepção. Um corpo
japoneses e norte-americanos. Cada um humano não tem oito cabeças e meia.
representa a figura humana de forma Esta regra de representação é apenas um
única e particular. Esta representação é critério gráfico de uma escola ocidental
uma essência cultural identitária. Não é que se convencionou num processo de
difícil perceber quando um desenho tem interação recíproca entre representador
sua origem em um destas nações. Por (desenhista), o representado (a coisa
isso nominamo-los facilmente de enquanto objeto real), o representante (o
Comics, BD ou Mangá, entre outros. desenho) e seu público receptor (leitor).
Quando estes concordam nos mesmos
Feitas estas considerações é necessário
elementos, aquilo que se produz é um
ainda pensar em algumas estruturas que
entendimento da coisa produzida
se relacionam com a nacionalidade:
graficamente. Nestes casos as pessoas
biótipo das personagens, elementos de
urbanização e princípios arquitetônicos, 2
vestimentas e padrões de alimentação, O biótipo dos personagens é um dos elementos
mais característicos da cultura. Apesar dos
regionalização (cenários, linguagem e
estudos sobre a diversidade humana apontarem a
visões de mundo), técnicas de pintura, não existência de “raças” humanas, no senso
arte-final e edição e onomatopeias. Estas comum, o conceito de raça ainda insiste em se
estruturas são informações que podem ou sobrepor a realidade científica. As pessoas
não estar contidas nas produções em elegem determinadas características físicas,
visíveis, e as relacionam a um padrão racial (tipo
quadrinhos. O nível de presentificação
de cabelo, tom de pele, formato do rosto, etc.). Na
destas características determina o quão maioria das vezes estes relacionamentos estão
próximo o material se encontra de vinculados a determinadas competências sociais.
padrões identitários cabíveis de serem Isto é, no senso comum, há uma tentativa de
reconhecidos pelos leitores como estabelecer competências sociais às
características físicas percebíveis. Sabemos que
nacionais e resguardar tais informações
as diferenças biológicas entre as populações
ao ponto de se vincularem à memória humanas só podem ser diagnosticadas e
iconográfica. percebidas através do DNA, mas é comum que se
ignore tais situações em decorrências de
branco. Ali se ambientava uma das mais elementos fenótipos, alegando que são genótipos.
contestadas verdades sobre os quadrinhos: as Tais situações terminam por alimentar
imagens desenhadas não são indispensáveis para estereótipos que levam a práticas de
se criar uma sequência narrativa imagética. discriminação.

32
dirão: “que desenho bonito! A mulher é demostrado4 que é necessário debater
linda!”. Ou algo semelhante. Quando a sobre a estética do nacional, em nossas
frequência não é atingida nesta relação produções, e que um principio norteador
tríptica, o efeito é antagônico: “Que – afinal ainda estamos na busca – é a
desenho horrível, a mulher parece uma experimentação atrelada ao elementos
girafa! O pescoço ficou muito grande, tá culturais endógenos e folclóricos, ou para
errado. Ele precisa melhorar o desenho. usar um termo mais apropriado,
Ele precisa estudar anatomia”. Sabemos, vinculados ao nosso patrimônio cultural
sem muito risco de erro, que mulheres (material e imaterial).
diferentes possuem pescoços diferentes.
Talvez o grande problema seja a falta de
Algumas, menores, outras, maiores. O
concepção sobre os elementos
fato de variar de tamanho não às
nacionalizantes que estejam vinculados à
compromete em realidade ou beleza3.
brasilidade. As inovações nacionais na
Posições contrárias, em sua maioria, musica erudita de Villa Lobos não
partem de grupos elitistas que elegeram estavam reduzidas apenas ao tema (o
estéticas exógenas como modelo guarani), mas a inovações estéticas como
civilizatório, descredenciando as a inclusão de instrumentos nunca antes
iniciativas nacionalizadas, justamente, utilizados e a busca por um timbre
devido ao seu regionalismo e a sua associado a musica popular de rua do
desvinculação com panoramas estéticos período5. Não é simples a utilização
oriundos de outras culturas e até as destes elementos. Alavancar valores
iniciativas vanguardistas. Muito se tem relacionados à cultura negra ou
debatido sobre o quadrinho nacional e afrodescendente pode levar a defender
muitas críticas tem se dirigido a valores africanos (valores culturais de
iniciativas que discutem a estética destes outro continente) e não necessariamente
produtos, considerando-as inadequadas brasileiros. Por mais que defendam
ou sem sentido. alguns, a cultura negra na áfrica não é
igual à cultura negra brasileira.
Iniciativas como a de Mario de Andrade
(1959) e dos artistas e intelectuais da Voltando a minha pergunta inicial: o que
Semana de Arte Moderna, têm tem de Nacional no Quadrinho
Brasileiro? Ainda muito pouco. Quem
3
Lembremo-nos aqui das chamadas “Mulheres- acompanha de perto o mercado de
girafas” no Nepal. O ideal de beleza é constituído quadrinhos no Brasil tem notado um
a partir de padrões instituídos internamente pela constante crescimento, tanto da
cultura produtora. Apesar dos casos de
aculturação e transculturação, cada grupo os quantidade de produções que chegam às
estabelece de forma particular e sem vínculos bancas e livrarias e do número de artistas
com padrões absolutos que sejam válidos em que se destacam em outros países. Ainda
todas as culturas. Temos conhecimento que assim, é comum que estes mesmos
algumas teorias biológicas, vinculadas a ecologia,
tentam relacionar um padrão universal de
4
reconhecimento da beleza ou da preferência Não deixamos de lado as opiniões conflituosas
sexual no mundo animal. Estabelecendo que a dos dois em relação às desqualificações estéticas
simetria e o fortalecimento de padrões de cores e suas opiniões conflitantes em relação ao que
são os elementos chaves para reconhecer um seria nacional, mas ambos indicam caminhos
indicativo genético universal na acepção do belo. próximos, quanto à necessidade de se voltar para
Consideramos tal posição um determinismo dentro e resgatar a essência que se encurtam no
biológico que não pode ser totalmente vinculado povo e nas regionalidades que ladeiam o povo.
5
à diversidade humana por desconsiderar as Para aprofundar estes dados, consulte o
atribuições simbólicas e seus contextos sócio-
trabalho de Contier (2004, p.19 e 20).
históricos.

33
artistas se guiem pelas características dos quadrinhos brasileiros, mas nem todos,
mercados estrangeiros como sinônimo de infelizmente, podem receber a alcunha de
qualidade. Desenham seguindo as escolas “nacionais”.
da Marvel e da DC, ou pela febre do Talvez esta situação decorra da falta de
momento, se impregnando da estética um termo próprio para reconhecermos e
mangá. Mas ao mesmo tempo, notam-se identificarmos culturalmente o quadrinho
destaques em várias frentes. Os gêmeos brasileiro, como ocorre com o Comic, o
Gabriel Moon e Fábio Bá com Mangá e a BD, o que aprofundei em
Daytripper, Beijo Adolescente de Rafael outros estudos (BRAGA JR, 2011). Até
Coutinho, algumas das histórias do
temos uma nomenclatura, gibi.
Mangá Tropical do Alexandre Nagado e Infelizmente, cada vez mais, é
do André Diniz, são só alguns dos que abandonada pelo público ligado
tem se destacado na inserção destes diretamente com os quadrinhos. Assim
elementos nacionalizados em suas fica difícil diferenciar entre aquilo que o
produções. Brasil produz de quadrinhos e sua
Ao que parece, o nível de nacionalização linguagem própria ao qual chamaríamos
é maior entre aqueles quadrinhistas que de nacional. O que falta aos nossos
se efetivam, em algum nível no mercado. quadrinhistas não é talento, mas
Já entre os que atuam na produção conscientização. Pois aquilo que eles
independente, é o contrário. Estes produzem não traz consequências apenas
últimos são os que mais defendem e para eles, mas também para nossa nação.
exigem mudanças no mercado de
quadrinhos. Brigam e defendem o
mercado de quadrinhos “nacional”, mas Referências
quando se dedicam a produzir, suas HQs ANDRADE, Mário de. Danças Dramáticas do
tem pouca coisa a contribuir com o Brasil. São Paulo: Martins, 1959.
mercado. Ao contrário, legitima a BRAGA JR, A. X. Desvendando o Mangá
reprodução de outros estilos e mercados Nacional: Reprodução e Hibridização nas
de HQs. Estas ações vão desde o tipo de Histórias em Quadrinhos. Maceió: Edufal,
2011.
papel e tamanho das revistas, ao tipo de
história que querem ver nas bancas. Eles CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13 ed. São
confundem seu gosto particular – de um Paulo: Ática. 2005.
consumo de gênero específico – com a CONTIER, Arnaldo Daraya. O Nacional na
qualidade da produção de um quadrinho música erudita brasileira: Mário de Andrade e a
nacional. Todas estas produções são questão da identidade cultural. Fênix - Revista
De História e Estudos Culturais, out./nov./dez.
importantes e devem continuar a serem 2004, vol. 1, ano 1, n° 1. pp. 01-21.
desenvolvidas. Ainda assim, não se deve
FERREIRA, A. B. de H. Dicionário da Língua
confundir uma coisa com a outra. Os Portuguesa. São Paulo: Positivo, 1989.
independentes tendem a se envolver com
as publicações em fanzines e participação McCLOUD, Scott. Desvendando os
quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995.
nos salões e suas percepções de
qualificação não coincidem com as
outras que nos levariam a um quadrinho Recebido em 2013-02-06
realmente Nacional. Todos são Publicado em 2013-03-11

34