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O VETO AO DIVÓRCIO – Fernando Madrinha, Expresso 23.8.

2008

Em dez anos apenas (de 1996 a 2006), o número de divórcios


praticamente duplicou, enquanto o de casamentos sofreu uma redução de
quase um terço. Não admira que quem considera a família tradicional o
núcleo central e insubstituível da sociedade olhe com preocupação para
estes números e resista a qualquer ideia ou proposta de facilitar
ainda mais a invalidação do contrato que lhe subjaz. Foi com este
espírito, muito provavelmente, que o Presidente da República olhou
para a lei do divórcio. E talvez tenha sido essa posição de princípio
que pesou, mais do que tudo o resto, na sua decisão de vetar o
diploma.

Cavaco Silva apresentou fundamentos e ilustrou-os até com exemplos de


situações concretas, como casos de violência doméstica em que, por
força de uma disposição da lei que toma em consideração o contributo
de cada membro do casal para o património comum, o agressor pode não
só obter o divórcio mas até ser compensado em dinheiro ou bens. Só por
delírio um tribunal gratificaria, num processo de divórcio, o autor de
violência doméstica comprovada, obrigando a vítima a pagar-lhe por ter
contribuído menos do que o agressor para o património do casal. Mas a
verdade é que, em tese, essa situação pode verificar-se, pelo menos
nas situações em que a mulher tenha deixado de trabalhar para cuidar
da família, como acaba por reconhecer ('Público') um dos autores do
diploma.

Nenhuma lei basta, por si só, para se fazer justiça. Por mais bem
elaborada que esteja, há-de oferecer sempre leituras que permitam
desvirtuar-lhe o espírito e até a intenção do legislador. É para se
evitar isso que existem os tribunais e, ainda antes deles, outras leis
que completam, esclarecem ou explicitam o que possa estar menos claro
em cada lei específica.

De qualquer modo, o Presidente não se limita a pedir que se esclareça


e corrija este ou aquele aspecto da lei. Ele discorda da sua essência
e objectivo fulcral: a eliminação do conceito de culpa, a qual permite
que haja divórcio desde que apenas um dos membros do casal o pretenda.
Ao propor que se retome "o regime de divórcio culposo", Cavaco
aconselha os senhores deputados da maioria a, pura e simplesmente,
atirarem a lei para o caixote do lixo.

Ora, desde que estejam devidamente acautelados os interesses das


partes "mais fracas" — em geral a mulher e os filhos, como diz o
Presidente —, a lei é válida quanto ao seu objectivo central. Quando
um dos membros do casal quer o divórcio, isso significa que o
casamento de facto já acabou. De nada vale obrigar os cônjuges a
fingirem que ainda existe, até porque o resultado, incluindo no caso
de violência doméstica que o Presidente tomou como exemplo, pode ser
bem mais doloroso e funesto do que uma separação em devido tempo.