Você está na página 1de 81

Hugo Lovisolo

A educação Física vive momentos de discussão e cação Física


crítica de questões vinculadas à sua identidade e lugar entre as
disciplinas científicas, e com sua legitimidade e papéis na própria
sociedade. Nos cursos de graduação e pós-graduação essas questões
suscitam tanto preocupações de ordem intelectual quanto de ordem
pessoal. O autor analisa e propõe alternativas, a partir das ciências
sociais, para as relações entre educação física e seus fundamentos
científicos e para os problemas vinculados àlegitimidade e
possibilidade de sua intervenção. Propõe que compreendamos a
ARTE DA
Educação Física como definida a partir do horizonte de valores
(estéticos e éticos), transformados em objetivos sociais, que
comandam a intervenção. Considera que os educadores físicos
devem desenvolver uma arte da mediação entre conhecimentos,
valores e objetivos no programa de intervenção e que essa arte é
I MEDIAÇÃO
produto da mediação criativa entre ciências, técnicas e saberes. A
intervenção, para o autor, apenas faz sentido, e será eficiente, no seio p
O)
de acordos sociais livres e participativamente decididos. Tomando
como referência a educação física escolar desenvolve e exemplifica
esta hipótese. Dada a contraposição de valores que caracterizam a
nossa sociedade, e tomando como eixo analítico o valor da
competição em jogos e esportes, o autor demonstra as ambigüidades
desse valor no plano dos efeitos na formação individual e na
dinâmica sócio-cultural. A articulação de valores, éticos e estéticos,
e sua quase indistinção ou superposição, é trabalhada no seio do
movimento social pela saúde (qualidade de vida, mantendo a forma,
prolongando a vida), um vetor de estruturação de nosso presente e
um campo significativo, em suas múltiplas dimensões, de atuação
profissional. A obra abre para novas questões e formas de olhar a
Educação Física no momento atual ao invés de se fechar em posições
já estabelecidas. O autor matem um diálogo permanente com o
leitor, a partir das ciências sociais, utilizando formas discursivas que
facilitam a compreensão do leitor.

SPRINT
Educação Física
.* ' "' oE lífe SE

A ARTE DA
MEDIAÇÃO

Hugo Lovisolo
Direitos exclusivos para a língua portuguesa
Copyright© 1995 by
EDITORA SPRINT LTDA.
Rua Adolfo Mota, 61
CEP 20540-100 - Rio de Janeiro - RJ
TeL: (021) 264-8080 — Fax: (021) 284-9340

ISBN 85-85031-81.6

Reservados todos os direitos.


Proibida a reprodução desta obra, ou de suas partes,
sem o consentimento expresso da Editora.

Capa e Editoração: VIZUALL Editoração Criativa

CIP-Brasil. Catalogação na fonte


LOVISOLO, Hugo
Educação Física: Arte da Mediação; Hugo Lovisolo
Sprint Editora - Rio de Janeiro - RJ - 1995
ISBN 85-85031-81.6
I. Educação Física 2. Esporte
3. Corporeidade 4. Antropologia
5. Sociologia

I. Título Hugo Lovisolo

Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme


Decreto n° 1825 de 20 de dezembro de 1967
Doutor em Antropologia Social, professor do mestrado e
Impresso no Brasil doutorado em Educação Física da Universidade Gama Filho.
Printed in Brazil
Sumário

Introdução 01

Capítulo l : A educação física como arte da mediação 07

Capítulo 2: Educação e educação física em escolas


de Rio de Janeiro 39

Capítulo 3: Regras, esportes e capitalismo 81

Capítulo 4: Esporte e movimento pela saúde 109

Capítulo 5: Ciências do esporte:


interdisciplinaridade ou mediação 133

Bibliografia 149
Introdução
Os cinco capítulos que compõem este livro, apesar de escritos
em distintas oportunidades entre 1991 e 1994, possuemuma considerável
unidade. Trata-se, nos três, de pensar aspectos do lugar da educação
físicana sociedade atual e particularmente na brasileira. Devo reconhecer
que, antropólogo por formação, meu interesse nos temas que aqui
desenvolvo foi durante muito tempo de caráter geral, situavam-se no
campo das leituras que as etnografias provocavam em relação as
representações e práticas sobre o corpo e as atividades corporais em
distintas culturas. A oportunidade de lecionar antropologia e sociologia
do corpo e das atividades corporais na Universidade Garoa Filho, no
Mestrado de Educação Física, possibilitou o contato com os colegas
e alunos. Os alunos mudaram a imagem que eu tinha dos professores
de educação física, os educadores físicos como os chamo, com muito
carinho, no primeiro capítulo. Eles me transmitiram um horizonte de
questões, de problemas e ansiedades profissionais que eu nem imaginava
existirem. Meu interesse no campo se potencializou e iniciei pesquisas
ria área.
Alguns princípios orientadores de leitura dos fenômenos que~\
nos ocupam me parecem evidentes. O primeiro é que o corpo fornece
um grande modelo de referência, um manancial de metáforas para
pensarmos tanto questões não corporais nem materiais quanto a
própria sociedade. O segundo, é que a linguagem sobre o corpo torna- j
se figuras de expressão de instâncias ou processos não corporais. O i
terceiro, é que o esporte e as atividades corporais tornaram-se, além dê"
um componente do processo civilizador, no sentido elaborado por
Elias, um modelo de entendimento, por vezes crítico, da sociedade. O
quarto, é que a procura do equilíbrio entre o físico e psíquico, o
corporal e o mental, a carne e o espírito (talvez entre natureza e j
cultura?) é um vetor significativo para entendermos o auge das práticas
corporais. Há, acredito, uma espécie de recusa à preeminência
'j
qualquer um dos aspectos e sua substituição por um modelo de
do eu mediante o corpo, entre outros.
circularidadê ou de condicionamento reciproco entre os leigos e os Em tempos de critica e rebeldia, a educação física, ou melhor
M especialistas. O quinto, é que a procura da longevidade e de manter seriadizer os educadores físicos, expandem seus campos de intervenção.
J-i a_iforma ou estar em -Lforma são chaves orientadoras,: talvez também Emergem assim propostas de educação física preocupadas com a
práticas de resistência à entropia natural e social, para entendermos o formação intelectual, a consciência política e moral, a formação
fenômeno das práticas corporais. Recuso, portanto, entender os holística dos "eus" entre outros novos objetivos. O espírito crítico
esportes e as atividades culturais como meros mecanismos de fuga e revisa a história da educação física, retomando questões sobre sua
(descompromisso. funcionalidade ou capacidade de transformação manifesta ou latente.
r No Ocidente a formação dos homens implicou gradativamente Também olha para as práticas esportivas e corporais encontrando nos
a constituição de quatro questões principais: ada formação intelectual, modos de sua realização e em suas regras interesses de acomodação,
a da moral, a da manual e a da física ou corporal. Apaideia no Ocidente domínio e manutenção de ordenamentos nem sempre justos. Por vezes,
respondeu com variações ao longo de sua história aos problemas que os educadores físicos se sentem em meio de uma crise: de valores
cada dimensão apresenta. De fato, as propostas pedagógicas tratam orientadores, de identidade, de consenso em relação aos processos de
destas questões combinando-as, fundindo-as e hierarquizando-as
intervenção e a seus objetivos.
.segundo perfis particulares. Assim, por vezes, trata-se de formar o Acredito que a crise resulta das forças do relativismo que
intelecto, o físico e a habilidade manual. Em outras, apenas o espírito domina nosso presente. Se nos entregamos ao relativismo temos que
e o corpo ou a consciência e o corpo. As vezes a moral é absorvida na reconhecer que há lugar para qualquer tipo de representação sobre o
tematização da formação política ou do cidadão.
corpo e para qualquer tipo de prática corporal. Temos que aceitar que
As quatro questões, e seus desdobramentos em questões cada grupo e cada indivíduo tem direito a pensar e tratar de seu corpo
específicas, continuam sendo relevantes por estabelecerem ao longo como sua vontade lhe indique. O educador físico seria assim um mero
da história uma rede de relações de signos variados. Tomemos as
mediador, alguém que estabelece um programa de atividades, que
questões mais próximas para observar, por exemplo, que a formação
distribui um conjunto de meios, para atingir ou satisfazer as demandas
intelectual (a habilidade no raciocínio, na utilização criativa de
do grupo com o qual trabalha. Contudo, uma boa parcela dos estudantes
informações, como exemplos) não se confunde com a moral embora
e profissionais da educação física recusa esse papel por dois motivos
estejam inter-relacionados. E fácil mencionar muitos exemplos de
principais, analiticamente distinguíveis, porém, na prática, altamente
pessoas dotadas intelectualmente porém altamente questionáveis sob
coexistentes. Por um lado, porque acreditam que seu próprio conjunto
o ponto de vista moral ou do senso que possuem da justiça. Entretanto,
de valores é superior aos do grupo com o qual trabalha. Assume-se,
hoje, um corpo, formado a partir de hábitos de controle alimentar e da então, como formador de valores, como orientador de condutas de
prática esportiva, pode nos estar sinalizando uma atitude moral, a do
pensar e fazer. Pensam que os outros estão alienados, não são
autocontrole, e também produzir um efeito que entendemos como
conscientes ou ainda não ascenderam ao entendimento do justo, do
estético.
verdadeiro e do belo. Por outro, existem os que pretendem reencontrar
A educação física surge na modernidade vinculada à questão da aunidade maisque imporum conjunto de valores, Sentem-se desgarrados
formação dos corpos e superpõe no horizonte de seu agir objetivos pela fragmentação do presente, procuram e querem reencontrar a
diversos: militares, disciplinares, de saúde, estéticos, esportivos unidade, a comunidade de valores e de formas de expressão.
recreativos, esportivos de alto rendimento e expressivos e formativos Os artigos situam-se nesse contexto de reflexões, sentimentos
e atitudes. O primeiro, A editcaçãofísica como arte da mediação, título
do livro, procura clarificar a distinção entre intervenção em educação
._física e pesquisa disciplinar e entre intenções é efeitos nos processos de
intervenção no campo. O segundo, apresenta os resultados de uma
pesquisa em escolas do Rio de Janeiro, realizada com alunos e
responsáveis, com o intuito de relativizar, partindo da "demanda",
muitos dos discursos elaborados sobre o dever ser da educação física
em contextos escolares. Trata de dizer que devemos escutar o que os
alunos e seus responsáveis estão demandando da escola e da própria
disciplina educação física. Trata de insinuar que a escola não será boa
se não estabelece acordos entre seus agentes. O terceiro, discute uma
questão central: o problema das regras nas práticas corporais e
esportivas, tentando relativizar as críticas e abrindo algumas sendas
que acreditamos deveriam ser transitadas. O quarto, procura dar
algumas pistas para pensarmos esse poderoso movimento de consenso
que é o da saúde, talvez a única expressão "anti-relativista" do atual
momento. O quinto artigo, volta a retomar, no contexto da
interdisciplinaridade nas ciências ao esporte, algumas questões
anunciadas, porém não trabalhadas, no primeiro capítulo.
Minhas posições, ainda em processo de elaboração e
reformulação, foram construídas a partir das questões e reflexões de
meus alunos da disciplina Sociologia das Atividades Corporais do
curso de Mestrado em Educação Física da Universidade Gama Filho
e também dos diálogos no processo de orientação dos mestrandos.
Algumas das preocupações dos alunos tornaram-se eixos em minhas
próprias reflexões, em vários sentidos são co-autores, embora não
Capítulo l
responsáveis por muitas das afirmações realizadas. Contudo, não é
intenção do trabalho fechar questões, propõe- se mais a indicar algumas
pistas para os estudos e pesquisas dos alunos. E de se destacar também
A educação física
as influências das conversas, mais assistemáticas que sistemáticas, com
meus colegas do mestrado e, especialmente, com seu coordenador, como arte da mediação
Helder Guerra Rezende. A alunos e colegas agradeço e dedico estas
páginas.
Introdução

A experiência docente na pós-graduação indica que muitas


das discussões do campo da educação física, por vezes de grande
virulência, são em pane produto de mal-entendidos e, sobretudo, da
necessidade de solidificar valores sentidos como verdades pelos seus
defensores. Daí a insistência em apresentar a própria posição como
se fosse cientifica ou como resultado de um processo de
"conscientização11 que, quase sempre, é entendido em oposição à
alienação, isto é, como falta de compreensão científica do mundo ou
como adoção de ideologias que não se correspondem com a posição
social de seus portadores. Os "conscientizados", desde sua posição
de superioridade ou .iluminada, consideram-se responsáveis de ajudar
aos não conscientizados a realizar sua própria passagem para o estado
superior, seja científico, seja de ideologia autônoma. Muitos
'"conscientizados" sofrem profundamente quando os t l não
conscientizados" não estão nem um pouco inclinados a reconhecer
a bondade do "conscientizador''. Na verdade a posição que ocupam
sob o ponto de vista sociológico é semelhante a do catequizador e a
do colonizador.
A afirmação precedente não implica um juízo moral negativo
sobreo conscientizador ou educador. Historicamente, nos movimentos
de aproximação entre "intelectuais" e povo, os sentimentos de
compaixão, solidariedade, culpa, vergonha e de responsabilidade pela
situação do outro desempenharam um papel motor. As ideologias
elaboram, refinam esses sentimentos impulsores, lhes dão expressão
em categorias como compromisso ou comunhão com o povo ou estar
a serviço dos fracos, entre outras. Estes sentimentos possuem
dignidade e nobreza e nos é difícil pensar numa sociedade que de
alguma forma não os desenvolva nos espíritos e nas práticas. Mais ao homem igualmente poderíamos lutar para desenvolver a paz. Temos
ainda, parece difícil transformar a realidade sem alguma forma de suficiente experiênciahistóricapara saber que apoiar valores unicamente
presença desses sentimentos. O motor da ação dos homens carece de baseados na ciência é perigoso. O que hoje é ciência pode se tornar
seu combustível. amanhã mero erro da caminhada. A ciência e a lógica podem ajudar a
Entretanto, em nossas sociedades, a argumentação pseudo- determinar aquilo que não devemos acreditar, contudo são péssimas
científica torna-se um escudo para a defesa e difusão de sentimentos^ companheiras para nos dizer em quais valores devemos apostar para
e valores partilhados pelos educadores que se identificam como construir o mundo que sonhamos. J
"comprometidos", e também pelos educadores físicos, os alunos da Acredito que as ideologias dominantes na educação física em'
pós-graduação. Embora eu compartilhe muito desses valores nosso meio são cientificistas, isto é, pretendem assumirpára o discurso
(emancipação, igualdade; liberdade, solidariedade, entre outros) não sobre o social o mesmo estatuto dos discursos sobre a natureza
posso deixar de assinalar que dessa forma se elaboram "ideologias elaborado pelas ciências que dela se ocupam. A história e posição da
cientificas", isto é, discursos cuja pretensão de justiça e de verdade é educação física, • enquanto campo de aplicação de conhecimentos
legitimada se apresentando como "Ciência". Tal modo de justificar científicos, como veremos adiante, gravita nessa direção. Corremos
os valores conforma a "tradição cientificista". assim o risco, por exemplo, de que um modelo estético do corpo se
Sabemos que freqüentemente as ideologias conservadoras —de torne um modelo científico. Mesmo as receitas ou recomendações
corte racista ou sexista e outras— apoiam-se também no seu caráter científicas sobre o tratamento dos corpos modificam-se com grande
pretensamente científico. A observação das diferenças empíricas entre velocidade. Qualquer um de nós pode lembrar exemplos de hábitos que
os homens levou os conservadores a justificar a hierarquia, ainda tidos como científicos deixaram de sê-lo. Para minha geração era
bastante recentemente sob o escudo de testes de inteligência já cientificamente obrigatório extirpar as amigdalas, hoje esta intervenção,
suficientemente criticados. A mesma observação das diferenças levou sé realiza pouco freqüentemente. , . •
e leva outros a lutar pela igualdade diante de deus, a lei, o estado ou A ciência muda rápido demais para que nela encontremos
as oportunidades. Em outras palavras, embora se constatasse fundamento de nossos valores e critérios duradouros de orientação no
cientificamente que o egoísmo é parte integrante da natureza humana cotidiano. Não estou com isto atacando a ciência, apenas sugerindo
as sociedades poderiam querer favorecê-lo ou querer criar formas de que saibamos qual é seu lugar e que não conviríamos a enunciação de
socialização e educação que fossem contra o egoísmo, mítigando-o, seu nome num aríete para impor convicções sobre o social.
reduzindo seus efeitos. Há, assim, uma alta quota de independência Talvez seja ainda o marxismo a corrente dominante dentro do
entre a constatação de propriedades dos homens e das sociedades e a cientificismo da educação física. Na verdade um marxismo muito fraco,
ação de indivíduos historicamente situados para formar os homens e por vezes nem mesmo um marxismo. Falta-lhes a seus defensores
remodelar suas sociedades. muita leitura, reflexão e observação humilde dos dados que
Julgamos a ciência pela sua coerência interna e sua relação com correspondem à realidade formulada pelo próprio marxismo. Um
os fatos nos quais se apoia, porém não podemos julgar os valores da marxismo ao qual falta a observação dos dados, como os que Marx
mesma forma. De fato, se acompanharmos Rousseau, pensaremos apurava nos informes dos inspetores de fábricas ingleses ou Lenin nos
que os homens estão algemados por toda parte. Mas esta observação, censos dos Estados Unidos, corre o risco de ser apenas preconceito.
falsa ou verdadeira, não obstaculiza nem um pouco que lutemos pela Solicito que leiam, por exemplo., o livro do professor Medina sobre q
igualdade. Se a biologia provasse que o instinto de agressão é natural corpo do brasileiro como exemplo das afirmações precedentes. Ao

10 11
invés de pesquisa somente acho nele declarações de grande apelo
emotivo. com as questões de gosto, liberdade da esfera pessoal ou subjetiva, e
as verdades da ciência, iníersubjetivas em alto grau. Nem pessoais, nem
Quando a principal confiança marxista, no plano da intervenção,
altamente intersubjetivos, os valores merecem ser defendidos com
a de que um mundo centralizado e planejado é superior a um mundo
argumentos e ações que os realizem. Embora sejam coletivos eles não
regido pelo mercado parece haver-se derrubado, ou pelo menos
se confundem com as verdades cientificas que hoje representamos
eclipsado, e quando ao invés da paz e unidade os países socialistas
como transitórias e aproximadas. Portanto, pouco fundamento
enfrentam o fantasma bastante real da guerra interna e da fragmentação,
poderíamos encontrar nelas para construir nosso mundo. Há
a humildade do cientista deveria substituirá crença dogmática. É hora
de pensar, de colocar as velhas 'Verdades" em suspense e não de cientificistas, positivistas e marxistas, que acreditam na eternidade da
repetir antigos "slogans" que parecem dar a força que a razão falha verdade científica. Claro que se fossem eternas seriam um ótimo
em proporcionar. Os alunos sensíveis se sentem confusos e este fundamento para a construção do mundo. Outros, acreditam que a
sentimento é certamente melhor do que a afirmação de um dogmatismo eternidade é o método científico. Todavia, hoje se fala dos métodos e
sem apoio na realidade. Os professores, pelo menos alguns, sabemos sabemos que a vigência do método é imersubjetiva, relativa e histórica.
que também estamos confusos pois as razões desse sentimento são bem A velha solução de dialogar sobre os valores continua sendo um
reais. (/\/\ jj> Q ^ f\ tV t\- caminho transitável se acreditamos na razoabilidade dos homens. O
^ c ent c
9. ' 'fi 'smo, entre outros desfavores, faz freqüentemente diálogo apenas é possivel se a democracia é uma realidade do
esquecer que um dos pilares da eficácia da educação é o consenso ou cotidiano.
acordo numa sociedade democrática: o compartilhar valores sobre os ^ Parece-me que, o diálogo sobre os valores deve reconhecer três^ ^
fins e os meios do processo educativo. Nenhuma educação pode dar princípios em nome da experiência: a) O da pluralidade: existe
certo se não se apoia num horizonte comum de valores perseguidos em diferenciação significativa devalores nas sociedades complexas. Nossa
conjunto pelos atores do processo educativo. O acordo, entretantõT cultura ou tradição valoriza valores por vezes contraditórios, b) O da
não significa monolttismo. Significa que apenas é possivel mudar no HÕO contradição: valores contrários podem ser igualmente valiosos e
seio de uma tradição. Os desacordos fazem sentido no horizonte da necessários para a vida humana, neste sentido Kolakowsjd escreveu'
concordância. A crítica que perde de vista as considerações em pauta seu ti/ogio à incoriseqüência. c) O da sititacionaUdade: situações
acaba jogando tudo fora, água e a criança. históricas específicas nos demandam a defesa de valores que podem
A eficácia tampouco existe quando a valorização é meramente perigar, estar prestes a morrer. Isto não significa, entretanto, matar os
discursiva e não se concretiza na prática: pouco se valoriza a educação -valores opostos. A luta pela igualdade não deve acabar com a liberdade
quando se desvalorizam os educadores. Um educador desvalorizado nem a manutenção da liberdade de poucos significar a desigualdade de
social; cultural e economicamente é a pior propaganda educacional. 'muitos. Caminhar pelo fio da-navalha é difícil, porém é o caminho
Estudar para ser como o professor não parece ser um bom negócio para necessário e desejável. Por vezes parece que a única forma possível de
os alunos brasileiros. Valores e práticas devem assim seguir a mesma caminhar é,no vai e vem, no ziguezague.
música. Esta coerência é um dos vetores do consenso. . Uma cultura é forte na medida em que possui um estoque de
Minha posição pessoal, que não pode ser confundida com uma valores diferenciados mesmo que em contradição. E forte, assim, de
solução, e a de que os valores não são nem verdades cientificas nem modo semelhante ao de uma espécie por possuir recursos genéticos
questão de mero gosto individual. Formam uma estrutura triangular variados. Uma sociedade de valores únicos e não contraditórios é fraca
pois dá pouca liberdade de combinação e criatividade aos seus atores.
12
13
\/\A
Estas sociedades são desejadas por aqueles que sentem a diversidade valioso, verdadeiro, operacional, econômico, redutor, não-redutor,
eo conflito entre valores como negatividade, como falta de organicidade complexo, etc. Supomos então que podemos estabelecer um campo,
e mesmo como desmapeamento. Assim, segundo meu ponto de vista um terreno neutro ou comum do qual avaliar e selecionar o melhor
^nada original, a palavra de ordem que nos manda escolher entre ponto de vista. Este terreno comum permitiria, epistemologicamente,
democracia representativa eydireta é redutora, limita nosso estoque estabelecer a legitimidade de um ponto de vista e escolher entre teorias
cultural. O bom é se perguntar onde e quando democracia representativa, concorrentes. Esta confiança hoje está suficientemente alquebrada
onde e quando a direta e como combiná-las, conciliá-las. O mesmo em para que pensadores importantes a questionem e afirmem a
relação a igualdade e liberdade ou aventura e segurança ou competição O -
impossibilidade de se estabelecer um terreno comum.1
e solidariedade. Fico com as alternativas, embora hajam situações que Sem entrar no âmago desta discussão filosófica, podemos
demandem a defesa de uma delas e não existam respostas já prontas constatar que um ponto de vista é socialmente aceito quando é
que definam as escolhas em cada situação. A força do argumento é produzido por uma disciplina de reconhecida cientificidade, legitimada
:entral em cada situação. como papel na sociedade.2 Neste sentido, cada legitimidade possui
São citados poucos autores nas notas deste texto. Esta estratégia uma história. Assim, encontramos físicos, químicos, biólogos e suas
é proposital pois se quer fugir ao argumento de autoridade. O texto é respectivas disciplinas. O reconhecimento social, a legitimidade, não
mais um convite para refletirmos juntos do que uma demonstração, eliminam as críticas nem os debates, da mesma forma que
sistemática de afirmações. E um momento de eliminação de obstáculos reconhecimento dos partidos políticos ou da legitimidade do governo
para pensarmos com maior leveza, com menor carga de sentimentos não faz desaparecer a crítica a suas propostas e ações. Os biólogos
e preconceitos, ou seja, com argumentos que lembrem sua razão de ser. concordam no papel da seleção, no entanto podem discutir sobre se ela
Não espero, sobre este texto, que os leitores pensem se é ou não acontece no gene, no indivíduo ou no grupo. Para avançar na discussão
cientifico. Interessa-rne, sobretudo, que motive nosso diálogo sem é importante saber em que concordamos, e não somente dominar o
* 'perder a forma1' pois quando ela se perde é difícil dê ser reencontrada. índice das discordâncias. Assim poderemos sentir a proximidade, e não
/p i /\Apo P^TA /^T£ ^ (j^u^íõ ^"«lA apenas a distância, que temos com nossos adversários,
Sobre a legitimação aas disciplinas Habitualmente legitimamos um papel social quando
e outros tópicos talvez desnecessários reconhecemos que realiza valores especiais de uma forma adequada.
No caso do papel social da ciência,dois valores lhe são atribuídos: o
Estamos acostumados, em nossa tradição de pensamento, a fundamental, o próprio valor do conhecimento como desejável em si
abordar os fenômenos a partir de perspectivas analíticas. Em outros mesmo e enquanto meio para se . aumentar o conhecimento (as
termos, aceitamos que o ponto de vista constrói o objeto de matemáticas que conhecemos servem para desenvolver "mais"
conhecimento separando o essencial, o determinante, o estrutural ou matemáticas); secundariamente, a utilidade do conhecimento para a
significativo dos aspectos não relevantes. Um fenômeno como a vida humana, para a solução dos problemas práticos que os homens
1
'vida' * pode legitimamente ser estudado sob o ponto de vista da física formulam e enfrentam. A utilidade é secundária, pois se fosse um valor
(biofísica), da química (bioquímica), da biologia ou da filosofia entre dominante a astrologia seria reconhecida como ciência ao invés da
outros. Cada ponto de vista opera uma redução do fenômeno a objeto, astronomia. Semdúvidaaastrologiaémuitomaisútilquea astronomia
de pesquisa. no cotidiano das pessoas. mais socialmente -L
Podemos também discutir sobre qual é o ponto de vista mais percebida
Ser secundário, todavia, não implica que o valor da utilidadej'

14 15
não ocupe freqüentemente o primeiro plano da cena, nem que os luta econômica. Entretanto, elas participam, com tantas outras, de
cientistas não usem a utilidade para obterem legitimidade e apoio de nossa relação com o mundo. Observo que muitos revolucionários da
todo tipo. Os cientistas não são tão diferentes das outras pessoas educação raciocinam como os empresários que apenas querem para os
quando argumentam em benefício próprio. Ambos valores são trabalhadores uma educação útil para o processo produtivo, Os
construções sociais que foram realizadas num longo percurso histórico revolucionários quase sempre a pretendem útil para o processo
pormeio de argumentos. Éa história quepode explicar o reconhecimento organizativo-político. Ambos são funcionalistas e utilitaristas da
da astronomia como ciência e a não legitimidade científica da educação. -1
Há, lembremos, também os que pensam que o progresso do
astrologiajamaisautilidade. Há pessoas que apenas podem reconhecer
a ciência pela sua utilidade. Eles são de fato utilitaristas, embora conhecimento científico se traduz em regressão espiritual, moral e
possam criticar o utilitarismo. Para a maioria das pessoas saber que o mesmo em destruição da natureza.3 Há, então, os que pensam que
homo sapiens tem cerca de 50.000 anos é de completa inutilidade. passaríamos melhor sem ciência. Outros pensam que passaríamos
Apenas é "útil" para compreender nossa precariedade na terra, para melhor sem esporte ou sem política. Estas soluções se assemelham a
saber que estamos aqui apenas nos últimos segundos de um dia de acabar com a pobreza matando os pobres. Podemos, no entanto,
bilhões de anos. Talvez pudéssemos ser mais cuidadosos se sabemos aceitar que domina na sociedade, embora com reações, o reconhecimento
que os dinossauros, grandes e fortes, desapareceram após cem mühões desses especiais valores da atividade científica. Mais ainda, que as
áreas de atividades mencionadas ciência, esporte e política podem ser
deanos.^p J / A ? O R f A /VT&
Os dois valores em questão foram e ainda são questionados, aperfeiçoadas ao invés de decapitadas. Reconheço, entretanto, que o
'criticados. Contudo, julgar os conhecimentos prioritariamente a partir valor de aperfeiçoar nossas atividades, o próprio aperfeiçoar, conta
de sua utilidade, qualquer que seja ela, é sofrer de miopia utilitarista, com muitos detratores. Aperfeiçoar passou a ser uma atitude de
isto é, enxergar, e mal, apenas aquilo que está perto. Eu não sei se a segunda ou terceira categoria, pois para muitos trata-se de revolucionar.
ciência chegará um dia a "solucionar" nossos principais problemas. A mudança social pode ser pensada como um processo gradual
Acredito, no entanto, que pode aumentar a compreensão de nós de transformações ou como um processo que avança a saltos, com
mesmos e esta é uma das poucas cartas que temos no baralho para grandes rupturas. Os biólogos, nossos parentes mais próximos das
definir e enfrentar nossos problemas, ciências exatas e naturais, enfrentam a mesma oposição quando
A utilidade domina por vezes nas críticas a educação. Assim, pensam a mudança. Eu defenderia, juntamente' com alguns dos
por exemplo, se contrapõe ao ensino das matemáticas sua utilidade biólogos, um enfoque pluralista: a mudança é por vezes gradual e por
social. Os homens no mercado realizam cálculos que não sabem fazer vezes revolucionária. Há lugar para todos no pluralismo da sociedade
no papel, nos dizem, como se estas ações fossem o dever ser das e da natureza. (Recomendo a leitura das obras de S. Gould aos que Cí
gostam de biologia e muito mais àqueles que a detestam). £l--
matemáticas. Reduzem o ensino a sua utilidade. Além de sua utilidade,
nem sempre explicitada, a geometria euclidiana é um modo de pensar, L,

de definir as coisas e operar com elas. Há verdades e utilidades nela, £ o baita problema da legitimidade da educação física L
por certo, porém também há beleza que o docente deve ensinar a
apreciar. Quando apreciamos Bach, Guimarães Rosa, Olinda, a vida Este breve apanhado nos coloca dois problemas sérios.) <
sertaneja ou a arte de domar os potros, alguma coisa do humano está .Primeiro: qual é o ponto de vista da educação física, seu objeto. no\V"
entrando em nós. Talvez essas artes não sejam úteis no cotidiano da conhecimento1 de seus fenômenos? Segundo: quais os valores especiais]^

16 17
produzimos conhecimento para fazer pedagógico
que lhe são socialmente reconhecidos, quer de utilidade, quer de academias de fisioculturismo levam o nome de Apoio!). Cada um
conhecimento? desses cientistas operaria a partir de alguns dos pontos de vistas
ij r Sejamos generosos, partamos do princípio de que o campo dos dominantes em suas disciplinas. Um leitor avisado poderia reconhecer
-(fenômenos que se ocupam com a educação física é o das atividades qual a tradição disciplinar que gera a explicação ou interpretação.
\! corporaisnum sentido amplo. Este campo fenomênico é tremendamente Qual, me pergunto, é o ponto de vista explicativo da educação física?,
" disperso pois pode abranger tudo aquilo que os homens fazem e Qual a tradição que nos permite afirmar diante de uma interpretação
significam com seu corpo —nível intencional— ou tudo aquilo que os ou explicação que ela pertence ao campo disciplinar da educação
corpos dos homens fazem e significam sem que as intenções dos física? Ela existe? Mantenhamos um bocadinho mais o mistério.
í homens estejam presentes —nível biológico-, inconsciente individual,
"(determinação cultural, etc. O primeiro mal-entendido: cientista ou bricoleur

• É óbvio que tamanho campo fenomênico pode ser estudado por Uma forma de abordar o problema consiste em se situar no
quase qualquer disciplina socialmente reconhecida. Teríamos assim plano da reprodução do papel social da atividade científica. Na
uma física, uma química, uma biologia, uma psicologia, uma economia, reprodução de um físico domina o conteúdo da própria física, isto é,
uma sociologia, entre outras, das atividades corporais. Cada uma as teorias, os métodos e os estilos de se fazer física. O físico é
destas disciplinas estudaria as atividades corporais com um conjunto socializado na tradição da física. Estórias, anedotas, figuras heróicas
identificável e distinguível de teorias, métodos e estilos de fazer participam na construção e transmissão da tradição além de teorias,
ciência. Cada disciplina produziria um recorte, uma redução particular . métodos e dados. Com os matemáticos e os biólogos acontecem coisa
do campo fenomênico na construção de seu objeto. A mesma cidade semelhante na formação • de suas respectivas tradições.
pode ser habitada e visitada de formas diferentes. Um educador físico suporta um currículo de formação que vai
Coloca-se então a questão de qual é o conjunto próprio, da mecânica à filosofia, passando pela fisiologia,, a neurologia, a
identificável e distinguivel, de teorias e objetos, métodos e estilos de biologia, a sociologia, as ditas ciências da educação e a história entre
b fazer ciência da educação física? Qual é o seu recorte? Em outros outras áreas disciplinares. A reprodução, ou formação, é claramente
termos, por certo mais emotivos, qual e a sua identidade? mosaico, fragmentária, multidisciplinar, e não dominantemente
Temos um monte de joãozinhos que fazem musculação cinco disciplinar. Os conteúdos do currículo podem enfatizar uma ou outra
r dias por semana e nos perguntamos sobre o porquê deste esforço. Um área disciplinar, mas a ênfase não tira o caráter eminentemente
biólogo poderia responder que eles estão desenvolvendo características multidisciplinar. Este caráter da formação não implica que se baseie em
corporais que os colocam melhor dianteda seleção natural, isto é, estão formas consensuais e satisfatórias de integração ou relacionamento das
potencializando suas possibilidades de reprodução. Um psicólogo, de diversas disciplinas que entram no currículo. De fato, e este é um
alguma ortodoxia, poderia responder que estão sublimando problema sério na formação, as disciplinas podem ser entendidas como
determinados instintos e construindo uma imagem do eu. Um sociólogo compartimentos sem graus apreciáveis de comunicação. O currículo
procuraria no poder da distinção ou na correspondência com padrões pode então, com bastante razão, ser entendido como justaposição de
culturais as explicações da conduta dos joãozinhos, e também de fragmentos ou como um mosaico de disciplinas. Na própria pós-
algumas mariazinhas. O historiador narraria o desenvolvimento histórico graduação, por exemplo, as disciplinas bioméclicas são obrigatórias até
dessas condutas, talvez nos levaria em direção das tradições (tantas para os interessados em fazer história da educação física ou pedagogia

18 19
intervenção no plano de atividades corporais que realizem valores
do movimento humano. Observe-se que não estou questionando a
importância de cada disiciplina, apenas estou afirmando que não sociais.
De fato, os cursos de "educação física" foram inicialmente
sabemos como costurar os retalhos.
criados para formar especialistas em um tipo de intervenção. Neste
O problema se coloca na prática quando o educador físico deve
sentido, considerou-se a educação física como um campo de
produzir um arranjo das disciplinas num programa de atividade corporal.
Neste caso, o educador físico se nos aparece muito próximo da figura "aplicação" das disciplinas científicas, O educador físico deveria ser
alguma coisa assim como um engenheiro das atividades corporais na
do bricoleur^ de Lévi-Strauss, que a partir de fragmentos de antigos
realização de valores postulados como sociais pelos idealizadores. j
objetos, guardados no porão, constrói um objeto novo no qual suas
A intervenção, então, devia e deve, tudo indica, basear-se nos l '
marcas não desaparecem. 4 Ele é formado, fundamentalmente, para
conhecimentos cientificos das disciplinas que podem auxiliá-la.
combinar conhecimentos, técnicas e tecnologias para alcançar objetivos
sociais. A combinação, o produto intelectual de sua atividade, se Entretanto, nem a definição dos valores orientadores da intervenção
nem a seleção das disciplinas ou conhecimentos auxiliadores são j i
expressa geralmente num programa: de treinamento, de educação < _ • - = - .:„.«„,„ fr
corporal ou de lazer entre outros. Esta concepção já estava presente decisões científicas.
Confundir os dois papéis, o do cientista e o do bricoleur, ou
no parecer sobre educação de Rui Barbosa. Mais ainda, se lermos o
parecer observaremos que nele a educação física possui o valor interventor", é o primeiro e freqüente mal-entendido que encontramos
instrumental de formar um bom suporte material, corporal, para o entre os educadores físicos. Este mal-entendido se relacionarão da
intelecto. Seu caráter instrumental e utilitário é evidente. A educação confusão entre disciplina e programa de atividade?
física dominantemente foi considerada como meio pararealizar valores
sociais (higiênicos, estéticos e de controle social para citarmos alguns O segundo mal-entendido:
dos mais importantes). disciplina ou programa de atividades "•
Por certo, um profissional de educação física_pode produzir
papers que, quando de qualidade, podem ser considerados como Há ainda um segundo mal-entendido que persegue a educação
trabalhos de fisiologia, de psicologia, de história ou4e sociologia e, física. Na verdade na escola, no clube, na fábrica, nas academias, nos
neste caso, opera como os profissionais dessas áreas disciplinares. 5 centros de recuperação se realizam atividades corporais programadas
Entretanto, quandoeleplanejaourecomendaatividadescorporaisage, (jogos, esportes, ginástica, etc.) emfunçao de objetivos sociais. Nesses
primafade, como um bricoleur. Por exemplo, quando formula o plano lugares não se ensina a disciplina "educação física" ainda que esse
de "educação física" para uma escola pode levar em consideração possa ser, no caso das escolas, o nome das atividades no horário
afirmações, ou conhecimentos, que vão da fisiologia até aquelas que escolar. O professor dematemáticasoudefísicae/í5/>?c/^tó/wí7//£:a/ne//íe
O a antropologia elabora e, sobretudo, procura realizar objetivos o conteúdo de sua disciplina no seu horário escolar. Ensina parcial e
políticos ou sociais com seu programa. Em outros termos, o programa gradativamente aquilo que aprendeu na sua própria formação, isto é,
realiza objetivos que se supõem úteispara a sociedade no seu conjunto, matemática ou física. Em outras palavras, o objetivo de sua ação
para algum de seus segmentos ou simplesmente para os participantes educativa reproduz —parcialmente e segundo critérios de adequação
do programa. A utilidade pode assim ocupar o lugar central na obra ao tipo de ensino— o currículo de formação de sua área disciplinar.
/ou programa de intervenção do bricoleur. A tradição da educação Esta, de praxe, não é a situação do professor de educação física:
l física parece ser portanto a formulação de propostas ou programas de ele não é contratado para ensinar aquilo que aprendeu na sua formação.

20 21
r /
£j ÍEspera-seque oaprendido sejautilizado na formulação de um programa, Entretanto, quando é médico, quando deve prevenir, proteger ou
s /baseado no conhecimento científico, de atividade corporal que deve restaurar a saúde dos indivíduos ou da população também ele opera
^J realizar objetivos sociais, isto é, valores em condições determinadas. como um bricoleur: usa recursos diversos em função de objetivos
^ Os objetivos sociais dos programas de intervenção são a especificação sociais. Cria um programa no qual articula conhecimentos de áreas
de valores adeterminadas condições queconformam, na representação, diversas, técnicas, tecnologias e até efeitos simbólicos quando os
uma situação singular.6 Encontra-se, portanto, próximo das fimções-do considera como elementos ativos ou coadjuvantes do processo de
médico, do engenheiro, do assistente social e do pedagogo quando cura ou restauração. Mesmo quando populariza os conhecimentos
agem no plano da intervenção. médicos o objetivo é a saúde e não a formação médica. Os
Esta situação especial e paradoxal não deve ser dimihuida em conhecimentos são considerados como um meio e não como um
mportância e significado,pois a sociedade moderna pareceria que não objetivo em si mesmo.
pode funcionar sem os especialistas da intervenção. Uma sociedade Uma pesquisa em química não se confunde com uma pesquisa
sem especialistas seria muito diferente daquilo que entendemos por em medicina, apesar que os resultados dessa pesquisa sejam úteis para
sociedade complexa, moderna e plural. Entretanto, a situação especial a saúde. Uma pesquisa médica, insistamos, se distingue por se colocar
leva a muitos professores de educação física a procurar ensinar no ponto de vista de articular recursos diversos —de conhecimentos e
fragmentariamente (nem gradativa nem sistematicamente) conteúdos técnicos com a finalidade de realizar o objetivo social da saúde--. Esta
do currículo de sua própria formação. Leva-os a projetar, no sentido pesquisa não deve necessariamente aumentar os conhecimentos que
psicanalítico vulgar, sua formação na formação dos participantes da articula, seu valor deriva fundamentalmente de sua utilidade para
atividade corporal programada. Buscam imitar a conduta daqueles^jue realizar objetivos sociais. Uma correlação empírica positiva entre uma
\ ensinam as disciplinas reconhecidas como científicas. Assim, o educador substância e uma doença é um bom fundamento para uma terapêutica,
^físico pode tentar ensinar a mecânica ou afisiologiade um determinado embora não saibamos como a substância possa atuar no organismo. As
movimento; a antropologia, sociologia ou história de um esporte em linhas de demarcação são por certo frágeis, contudo o papel do médico
particular como se este fosse um objetivo em si mesmo. De praxe, os e da medicina não se confunde com o papel da pesquisa nas disciplinas
^educadoresfísicos acreditam que essa projeção (formação) é necessária, que subsidiam a medicina. Assim como não confundimos o dia e a noite
útil, boa, conscientizadora para os praticantes ou participantes dos embora seja impossível determinar quando um termina e o outro
D programas de atividades corporais. Entre os alunos de pós-graduação começa.
em educação física a procura de formas de realizar a projeção se torna Foi na história que a medicina ganhou grande reconhecimento
angustiante, obsessiva.7 Aquilo que outras áreas discipünares fazem e os médicos passaram a ter um poder político e uma incidência cultural
de modo natural é um espelhismo que corre sempre na frente dos considerável. Hoje apreciamos o papel social da medicina e de seus
educadores físicos. mediadores, os médicos. Podemos discutir se ela deve ser privada ou
^ Talvez devêssemos mudar a lente da comparação e tomar como pública, se desenvolver a medicina preventiva, de base ou as
referência a formação do médico. Neste caso também nos confrontamos especialidades, se concentrar esforços na alopatia ou desenvolver a
com um currículo de estrutura multidisciplinar. Também o médico homeopatia ou as ditas medicinas ou curas alternativas. Não está em
pode fazer pesquisa em bioquímica, genética, físiologia, neurologia ou questão a necessidade da cura nem a atividade médica que a toma por
qualquer outra especialidade operando, em cada caso, com as teorias, objetivo. Tanto os médicos estão seguros do reconhecimento do seu
métodos e estilos da área disciplinar na qual realiza a pesquisa. papel social que podemos encontrar médicos que aceitam tudo aquilo

22 23
que é bom para a cura do paciente. Assim, não descartam as práticas
Esta posição de mediação não se modifica quando no presente ,
terapêuticas populares de cura nem os efeitos simbólicos dos rituais
colocamos valores tais como-a liberdade, a felicidade, o prazer, a n
religiosos ou de corte psicanalíticos. O programa terapêutico pode
conscientização do corpo, a transformação social, a realização do eu
incluir tudo aquilo que comprovadamente não seja contrário ao
ou qualquer outro enquanto objetivos das atividades corporais.
objetivo social da cura. O programa articula, concilia, diversos
Todavia, esta situação não se modifica quando se trata de integrar a
recursos em prol da cura. No passado, quando a medicina ainda não
dualidadecorpo-mente. Asatividadescorporaisprogramadascontinuam "J
havia sido reconhecida, sobretudo na cultura popular, os médicos
sendo um meio para se realizar valores de utilidade social, embora
lutavam pela penalização de práticas terapêuticas que hoje aceitam
sejam diferentes dos tradicionais e diferentes grupos de profissionais e .
com bastante entusiasmo como coadjuvantes.
intelectuaisque defendem valores contrapostos, e cadagrupo considere
A diferença especifica da medicina se reflete em representá-la
as elaborações adversárias, pensadas por vezes como inimigas, como
como competência para combinar ciências, técnicas e experiência. Por
fonte do erro ou ideologias a serviço dos opressores ou qualquer outro
vezes a competência para combinar recursos diversos recebe o nome qualificativo. Uma sociedade plural se caracteriza pela existência, xA
de arte, O mesmo qualificativo tem recebido a agricultura e a
confronto e conciliação de valores e objetivos diferentes e por vezes em •
educação, entre outras tantas atividades.8 O qualificativo indica que os
franca oposição. No presente lidamos tanto com valores gerados no ^
•{recursos não podem ser combinados cientificamente ou por um
passado quanto com aqueles que supomos apenas terão vigência plena ^~
algoritmo. Indica então que a atividade do bricolenr, seu gênio,
no futuro. O presente aparece como lugar de tensão, de irresolução, T
instinto, percepção, entre outras alusões ao mesmo problema, é~
de confronto e conciliação. Lt
fundamental. Digamos que dizem que a criatividade para realizar o É por razão da obrigação de realizar objetivos sociais, e nãoA )-
rograma não pode ser programada, que é uma artev
meramente produzir conhecimento, que a principal discussão no
:ampo da educação física é sobre os objetivos sociais que ela deve
tllllLÍVy «w WUUW*Y» U _ _ _ _

Educação física e objetivos sociais contrapostos


Tomover, perseguir, realizar. De fato, não podemos cientificamente \r
decidir se a educação física deve perseguir o objetivo da emancipação
O que hoje conhecemos por educação física emerge como
politica ou o da saúde ou o da estética do corpo. Em segundo lugar, as
reflexão que articula conhecimentos ou saberes para realizar objetivos
discussões centram-se sobre as características dos programas para a
sociais. As propostas de atividades corporais programadas, não
jgalização dos objetivos uma vez definidos.
espontâneas, procuram realizar valores sociais: tradicionalmente corpos
Os profissionais da educação física referem-se permanentemente
fortes e sadios, corpos disciplinados, caráteres, personalidades, hábitos
ao seu compromisso com a prática, em definitivo, ao conjunto dos
entre outros. A atividade corporal é entendida como meio, como
valores transformados em objetivos que devem promover no programa L
recurso, para se realizar valores sociais. Observemos que é somente
de atividade corporal.
no discurso e conduta das crianças onde o jogo, o esporte e a No campo da medicina e da engenharia a legitimidade social é
brincadeira se colocam em si mesmos como finalidade. Os adultos,
grande, e é significativamente alto o consenso sobre os objetivos
habitualmente, atribuem a essas atividades também, ou dominantemente, sociais a serem promovidos. O grau de consenso, por demais o grau de\\
outras finalidades, situam-nas como meio que contribui para o trabalho, qualquer coisa, é importante na sociedade. Não podemos refletir e agir
asaúde, o relaxamento ou outros objetivos. Os adultos tendem a racionalizar sobre o social se o grau daquilo que consideramos não é levado em
e justificar, em linguagem utilitária, as atividades corporais.
consideração. Temos que deixar de considerar o grau como
24
C9

í/significativo, acessório ou negligenciável. Na verdade "o grau" é relação a valores e objetivos sociais. Os historiadores da educação\
freqüentemente o verdadeiro problema. 9 É o alto grau de consenso da física afirmam, e por vezes se queixam, de serem suas atividades
medicina, por exemplo, que faz com que os valores sociais da saúde consideradas como disciplina corporal que contribui na formação
sejam lidos como demanda do povo, da classe trabalhadora ou da moral ou do caracter. Assim, o corpo deve ser trabalhado para ser um
sociedade e não como trabalho de imposição dos especialistas. Como bom receptáculo para uma mente que, ao mesmo tempo, o considera'
conseqüência, o próprio especialista se sente respondendo a uma um instrumento, um meio de sua realização. Quase todos os manuais
c( demanda. Pode se apresentar e se sentir como solucionador de de história da educação enfatizam que o enfoque biomédico e as
demandas, esquecendo que seus predecessores agiram ativamente necessidades militares institucionalizaram a educação física no sistema
para definir o perfil das demandas atuais e deixam de notar que eles educacional na primeira metade de nosso século. n A formação de
contribuem para sua redefinição constante. especialistas resultou assim de uma demanda associada de corpos
A situação atual, na medicina e outros campos de atividades, sadios e funcionais para a ordem social, a economia e a defesa
oculta o longo trabalho dos especialistas (da saúde, da religião, dos nacional Quando as demandas originais perdem seus fundamentos,
humanistas) para inculcar valores, estruturas de personalidade e padrões e se tornam preconceito, são retrabalhadas e criticadas sob a base
de comportamento na sociedade. Formação que abrange os modos de de demandas emergentes inseridas em redefinições, necessidades e
reprodução e sexualidade, de atendimento do corpo, de definição da objetivos sociais w c ( J*
normalidade ou saúde, de espectativas em relação à duração da vida,
de ideais de corpo entre outros.10 Este longo trabalho de inculcação Demandas sociais e propostas
faz, por exemplo, que objetivos como a longevidade, a altura e peso dos
indivíduos se tenham tornado valores' 'naturais". Os jornais registram A educação física hoje aparece como um campo no qual
a preocupação com abaixa estaturadosbrasileiros, quando comparada projetos e demandas variadas se confrontam. Um amplo leque de
com as médias americanas por exemplo, e tomam uma maior altura demandas -isoladas ou associadas e mais ou menos consensuais—
média como símbolo de progresso alimentar, da saúde, enfim, das definem o horizonte de atuação dos profissionais da educação física
condições de vida. Esta absolutização para qualquer realidade indica na sociedade. Ao mesmo tempo, o campo da educação física está
a pouca base científica do valor da altura, pois, sob o ponto de vista eivado de- propostas de novo tipo, muitas delas ditas contrárias às
darwiníano, a altura apenas poderia ser considerada como positiva ou demandas tradicionais ou socialmente dominantes. Apontemos, sem
negativa pela sua adequação ao contexto. Devemos reconhecer que pretender ser sistemáticos e exaustivos, algumas delas.
o apelo á argumentos científicos e ao prestígio da ciência foi fundamental Em primeiro lugar, o discurso biomédico continua apresentando
na construção social dos especialistas do corpo. demandas vinculadas à saúde. A atividade corporal situa-se aqui em
^ A educação dos corpos, a educação física, emerge no bojo das três dimensões principais: a) como preventiva de doenças e dos
atividades de intervenção dos especialistas. Sua institucionalização desgastes da velhice —recusa social a se envelhecer--, b) como
resulta da demanda de programas de atividades cprporajsque realizem formadora, mantenedora e recuperadora da disposição física ou do
objetivos sociais. Assim, é impossível pensar a educação física sob o corpo, a atividade corporal na empresa poderia aqui ser incluída, c)
modelo da institucionalização das disciplinas cientificas. De fato, a como compensadora dos desgastes neurológicos e/ou psicológicos da
educação física não possui um objeto próprio, delimitado, específico. vida moderna e d) como recuperadora de funções corporais perdidas
Ao longo de sua história as atividades corporais situaram-se em ou não desenvolvidas em indivíduos. Neste campo, as propostas

2Q 27
(J
alternativas à físiologia ou medicina normal se multiplicam. Propostas
que objetivam à unidade da mente e do corpo, ao tratamento das diversificados: saúde, desenvolvimento psicomotor, cognitivo,
dimensões emocionais entre outras. As ciências biomédicas ocupam conscientizadores ou políticos entre outros. Neste tipo de demanda os
um lugar de destaque no fundamento das propostas de intervenção profissionais da educação física interagem fortemente com os
relacionadas com estes objetivos. pedagogos, os educadores. A filosofia, a psicologia, a sociologia e
Em segundo lugar, há um conjunto de demandas estéticas, por antropologia educacional subsidiam ativamente as discussões neste
vezes travestidas de cientificas, que se expressam nas atividades de campo. pb l f^ÇO PI A A > T b
construção de modelos ou tiposideais de corpos. Realizam-se esforços • Em todas estas e outras demandas os educadores físicos
significativos para se construir uma identidade, uma distinção, a partir participam discutindo e apresentando propostas que fazem'a sua
da imagem do corpo. No plano mais geral, por exemplo, torna-se uma definição de objetivos, perfil da demanda e características de cada
preocupação a altura e peso da população. As academias de formação atividade. O campo da educação física aparece diante de nós como
de corpos estéticos se multiplicam. conflitivo, onde se disputa a hegemonia de definições, objetivos e>
Em terceiro lugar, destaca-se a demanda das atividades corporais práticas em qualquer segmento de demanda. Observamos que
-recreação, divertimento, lazer, etc- ocuparem o tempo livre que "projetos" e '.'compromissos" antagônicos se confrontam em
resulta da tendência à redução dajornada de trabalho, de mudanças em qualquer segmento de demanda. A intervenção no campo das atividades
suas modalidades e de redefinições amplas da sociedade. Emergem as corporais continua sendo o núcleo da tradição da educação física, l
propostas sobre o prazer de "trabalhar" o e com o corpo. O enfoque
"liberador" , por sua vez, enfatiza que o corpo deve ser liberado dos Da arte da mediação: objetivos
bj e meios
domínios aos quais foi submetido para recuperar o prazer do corpo. O /W u TO
pensamento crítico humanista participa ativamente na discussão e A situação apresentada nos leva a redefinir o papel de bricoleur
implementação de propostas deste tipo. como arte da mediação: mediação entre histórias, entre presente e
Situam-se em quarto lugar as demandas do nacionalismo futuro; mediação entre disciplinas; mediação entre ideologias ou
esportivo. Ao invés de ganharmos e festejarmosaguerrao nacionalismo demandas sociais na elaboração do programa de atividade corporal.
nos manda ganhar competições esportivas, científicas e artísticas. O Q educador físico, o mediador, não se relaciona apenas com
espírito competitivo e a procura do louvor deve se realizar na paz dos a articulação de áreas disciplinares. A representação e avaliação da
esportes, na doçura das atividades científicas e artísticas e não no história, do presente e futuro' de sua atividade, desempenha um papel
campo de batalha. O desenvolvimento de capacidades Esportivas e o central em suas propostas. Também os valores que escolhe promover
treinamento é hoje um campo significativo para os profissionais da e realizar agem sobre as propostas. Estes planos de construção das/1
educação física em nosso meio. O Brasil não somente exporta jogadores propostas agem sobre a escolha das disciplinas que o mediador prioriza
de futebol, como também treinadores nessa e noutras modalidades na elaboração de seus programas. Assim, as incidências sobre a arte da
esportivas. Em relação a estas demandas as propostas alternativas se mediação são múltiplas. Recortaremos apenas alguns de seus aspectos
situam dominantemente no questionamento dos meios recomendados A arte da mediação se nos aparece como estando principalmente
para a realização dos objetivos. condicionada pela opção entre a "aceitação" e a "determinação" da
Em quinto lugar, c onfront amo-nos com as demandas de demanda. Isto cria como duas tribos de profissionais da educaçãc
atividades corporais na educação formal. Os objetivos são aqui física.
O profissional que aceita a demanda guia-se na elaboração do
28
29
/•
programa por objetivos externos, isto é, por objetivos que aceita^
como socialmente dados em algum segmento de atividade. Digamos / OBJETIVOS
que ele é a-crítico em relação aos objetivos. Assim, pode elaborar'
um programa de treinamento competitivo para o brilho nacional A-críticos
ou de atividades corporais na empresa para que os operários
estejam psicológica e fisicamente melhor e sejam mais produtivos. Críticos
Sua pretensão é ade realizar da melhor forma possível os objetivos
sociais que lhe são demandados. Neste caso, a questão central l r
A-críticos B D
diz respeito sobre a melhor forma de realizar os objetivos/jj
requeridos. Isto não implica, entretanto, falta de criatividade ou de)
competência na mediação. Este tipo de profissional pode ser muito A: critico ou inovador em relação aos objetivos e meios; ~nr=
criativo na articulação do programa e mesmo altamente renovador
••n*
em relação aquilo que vinha sendo feito. Assim, aceitando-se a B: a-crítico em relação aos objetivos e crítico em relação aos meios; ^
demanda o profissional pode ser tradicional ou 'renovador na
elaboração do programa que a satisfaz. Pode, portanto, ser crítico C: crítico em relação aos objetivos e a-crítico em relação aos meios; ^
e criativo em relação aos meios para realizar os objetivos. ,. .
D: a-cntico em relação a objetivos e meios.
A outra tribo é formada pelos profissionais que desejamJ
necessitam ou acham fundamental determinar a demanda. Aqui
Estas considerações nos colocam diante de um velho e crucial
o programa inicia-se pela discussão dos objetivos com o auxilio dá problema: devemos avaliar os homens pelas suas intenções (a-criticasu
interpretação socio-política. Qual a função profissional é a grande ou críticas) ou pelos efeitos de sua ação (tradicional ou inovador)? AJj
questão? Qual o papel dos educadores físico^ Qual a função do questão não existiria se as intenções e os efeitos fossem convergentes] *.
programa de atividade corporal? Estes profissionais são os críticos, os Entretanto, há uma longa lista de pensadores de envergadura que -
que se sentem renovadores ou revolucionários, os que acreditam que chegaram à conclusão de que intenções e efeitos podem ser paradoxais,
podem transformar a realidade social em função de seus desejos ou1 ou contraditórios, isto é, divergentes. Mandeville popularizou a
sonhos, embora por vezes atribuam esses desejos ou sonhos ao povo/ divergência positiva quando afirmou que dos vícios privados (da
aos oprimidos, aos trabalhadores. Esta opção não implica que estes; intenção egoísta) se deriva a virtude pública (o efeito de riqueza das
nações). Marx, em oposição, enfatizou a segunda divergência quando
profissionais sejam necessariamente criativos ou renovadores em
reafirmou que o inferno está empedrado de boas intenções, isto é, que
relação aos meios. De fato, na mediação que elabora o programa eles as boas intenções dos capitalistas podem nos levar, e também a eles, a
podem ser tradicionalistas ou pouco inovadores. A-críticos, então, enj uma situação pior. Mais ainda, quando sua tese central diz que se os
relação aos meios que realizem seus objetivos criticamente elaborados capitalistas agem capitalisticamente contribuem para a morte do
^Nossos comentários nos levam as seguintes possibilidades: capital. Observemos que a grande críticaacaridade,umaboaintenção,
é a de que seu efeito resulta em aumentar a dependência, a apatia, e por
30
31
esse meio apenas reforça a caridade dos doadores enquanto situação intencionada, os cidadãos poderão votar ainda nele. Habitualmente
de superioridade. perdoamos a incompetência ou desconhecimento, e mesmo o efeito
Tomemos um exemplo desportivo: o boxe. Meu conhecimento negativo de uma ação nào-intencional, somos mais duros com as
dos educadores físicos aponta que muitos deles compartilham intenções negativas ou moralmente ruins. Isto pode acontecer porque
sentimentos e argumentos humanistas contra este esporte. Alguns em nossa própria experiência constatamos a divergência entre
gostariam que fosse uma prática esportiva proibida e nenhum dos que intenções e efeitos. Podemos, todavia, no processo avaliativo,
compartilham esses sentimentos e argumentos se dedica voluntariamente ^privilegiar as intenções ou os efeitos. Salientemos que, enquanto
a atuar no treinamento esportivo do boxe. A intenção crítica apenas a avaliação das intenções não exige créditos especiais, por ser
pode ter algum efeito no campo geral da discussão ideológica e pouco basicamente moral, a avaliação dos efeitos em nossa sociedade
UtlJlVuln i—i.'.--. . —-, __ .
"*^ ' - — — —. ^ ,-. f,^^ ftff^. f^
ou nada se incorpora ao programade treinamento. Em oposição, os que demanda especialistas. Os efeitos são diferentes no tempo e no espaço,
V
'" * - -- ^ - —.**.}!+. * r* f^. e
aceitam os objetivos desse esporte estão introduzindo novidades no nos diversos contextos
programa de treinamento cujos efeitos, a médio e longo prazo, podem b l l V U I l bsjum
especialistas avaliações das políticas públicas
~«- __í

significar uma mudança no boxe. A introdução da dança, e portanto da implementadas,


mi|_ntlin_iilcnjnj, embora <*.i*.w* muitas vezes engavetem-nas quando seus
^ - -* -»~ -^ ** * - * ' " ^ l i ^ í r * O / ~ l / 1 r t C
música, no treinamento pode gradativamente ir diminuindo a importância resultados não lhes sào favoráveis. Na arte da mediação a avaliação dos
1U^ A nr
do nocaute, esse "gol" do boxe. Esta mudança não necessita estar efeitos é um processo central, vertebral, para a
• Z i~
determinada por uma intenção ou vontade de modificar a demanda. O programas, de sua mudança, e para a obtenção do reconhecimento
treinamento pode gradativamente ir enfatizando a importância do social sobre os mesmos.
estilo, um valor de tradição e cultura do boxe, sobre o nocaute, seu Curiosamente domina entre os educadores físicos a avaliaçãc
outro valor. Esta mudança gradativa da relação entre aquilo que se da arte da mediação pela intenção. Basicamente, avalia-se se o:
• " ' " ' !-„,.,
admira num esporte pode levar a uma docificação do boxe e a objetivos dos "outros*' são os mesmos que "nós" defendemos. Este
\J ^JJ • W i r u ^ » . ^ ^ , _.

conseqüente introdução de estilos e equipamentos que minimizando a tipo de avaliação é um claro sinal da ideologização do campo
-i - _..:..: j„
importância do nocaute sejam menos agressivos para seus praticantes. ^ Vi u v. u y uu f-j* •- .. _^ _..
4
segmentos de atividade
O boxe poderá ser valorizado ainda como esporte enquanto o nocaute vinculados á educação formal e não-formal. Neste terreno, a disput
V UI^LHUVJUJ — T
* ' J _ • n i
— " ~ ^. ^ -v* l l*, si f* r
perderia sua importância e, com ele, o privilégio concedido à violência entre os que aceitam a demanda social e os que desejam lhe da
^,1111%, W J --[k.-^ v. -------- -.
- - - - - - - r ^ : r ; ^ .. ^ - _ __T*^
do soco. Os exemplos poderiam ser multiplicados.12 forma, ganha sua maior força e virulência e, muito freqüentemente
Não estou por certo propondo que deixemos de julgar as discussão torna-se não civilizada.
intenções. A necessidade de julgar as intenções dos outros impõe-se Os médicos podem discordar sobre o tratamento Me ur
no cotidiano, permanentemente avaliamos as intenções dos outros para paciente.. Cada um pode defender uma arte da mediação diferente e
definir nossa conduta. O campo da relação entre governantes e termos dos meios a serem articmaaos. articulados. nnu
Entretanto,
eiamu, por
ym mais mau tufurioso
» *>~~
" ~ *•• -• - j --------- «^Á^t
governados é fundamentalmente, de pane dos segundos, um processo que se encontrem na disputa, partilham o objetivo de curar o pacienjj
de avaliação de intenções. O cidadão comum não pode esperar que os A discussão se torna técnica, menos ideológica. Q próprio pacient
f\ U.1OVL4JJUU jy ..,."..,_ .,

especialistas avaliem, após vários anos de estudo, o efeito educativo poderá consultar outros médicos para arbitrar a disputa. Oobjeti
'' - - -..-*: l U n m I n c i c
dos Cieps parajulgar Brizola enquanto governador. De fato, o primeiro e posto em questão, pacientes e médicos o comjjartilhãmTirisisU
julgamento é sobre as intenções. Se daqui a alguns anos o próprio e^ta é uma discussão em relação aos meios e não sobre_osJjtTsJ
Brizola reconhecer que sua estratégia educativa foi errada, porém bem ação. Ilustra o alto grau de reconhecimento do papel social de

32
Entendemos que uma ação é racional quando levando em
médicos e o consenso em relação aos objetivos de sua ação. Esta
conta as condições mobiliza os meios de forma a atingir o objetivo,
discussão não é ideologicamente do mesmo tipo que quando se
ou pelo menos maximiza os meios disponíveis para atingir o objetivo.
discutem os objetivos ou finalidades. Confundir estas duas
Entendemos que a ciência, a estratégia econômica ou militar, a
discussões é uma forma de aumentar os mal-entendidos. Destes
engenharia, a medicina, entre outras, são campos nos quais domina
apenas tiram partido os que apostam no discurso único, na atitude de
a ação racional. Associamos, assim, a ação racional a possibilidades de
unificação que é contraria ao processo intelectual que gera distinções
conhecimento e de cálculo. Se a ação é racional, como é possível
cada vez mais finas. O discurso que não distingue possui um alto apelo
concordando no objetivo utilizar meios discordantes e como
emotivo, porém pouco consegue fazer, pois o fazer implica distinguir
discordando no objetivo utilizar meios concordantes? Esta é a
e temperar na medida certa como sabe qualquer boa cozinheira.
surpresa. Vejamos o problema com breves toques em perspectiva
A dupla confusão entre as intenções e os efeitos e entre
histórica.
a discordância ou a concordância em relação aos objetivos ou aos
meios permeia as discussões no campo da educação física. N*T
Valores nos objetivos e nos meios
verdade, educadores físicos podem entre si: a) discordar em relação
ÜJ
aos objetivos e aos meios; b) concordar em relação aos objetivos
O mundo moderno pensou a modernidade como um processo
e discordar em relação aos meios; c) discordarem relação aos objetivos
secular de aumento do domínio da ação racional em todos os campos
e concordar em relação aos meios e d) concordar em ambos planos.
de atividades. Os objetivos da ação podiam ser pensados como
As situações "a" e "d" se nos aparecem como coerentes e
não racionais, como valores, no entanto o processo de sua realização
de fácil aceitação. As situações sociológica e historicamente
devia e podia ser crescentemente racional, Isto significou uma
relevantes são as "b" e "c". Os marxistas, compartilhando o objetivo
discordaram em quanto aos meios para sua Qü
profunda valorização do conhecimento dás condições e dos meios, e
do socialismo,
de sua inter-relação, no mundo moderno. Medicina e engenharia
construção, por exemplo, uso ou não da violência. Liberais e marxistas O
passaram a ser áreas de atividade racional, embora desenvolver o
podem discordar em relação ao tipo de sociedade que desejam, Q. conhecimento científico . não fosse o objetivo dominante. A
contudo, podem concordar em considerar como os meios principais
racionalidade tornou-se o denominador comum entre as áreas de
a persuasão e a educação. Os exemplos históricos podem ser, em
relação a estas situações, multiplicados ao infinito. atividades modernas. As condutas tradicionais, as que não podiam
fundar-se num cálculo racional, foram entendidas como
Estas duas situações nos surpreendem, e por vezes nos
preconceito, como atividades que tinham perdido suas razões empíricas.
incomodam, à medida que consciente ou inconscientemente acreditamos
Aeducaçãoeaeducação física são áreas que se desenvolveram
que existe ou deveria existir a ação racional em determinadas áreas
do social e especialmente no campo da educação física. Entender o agir a partir de pretensões de cientificidade e racionalidade. As atividades
como ação é a lógica natural do ator. Basicamente, entendemos as de educação foram reivindicadas como objeto pelas "ciências da
educação", a cientificidade e a racionalidade foram passaportes para
condutas quando pensamos que elas resultam da vontade dos
se obter reconhecimento e legitimidade na modernidade. Os limites a
indivíduos de alcançar objetivos (intenções) cuja realização depende
• suas pretensões, contudo, não se situaram nem se situam principalmente
de condições e meios. As condições são variáveis que o ator deve
considerar embora não possa modificar, os meios são os recursos que na a-cientificidade ou a-racionalidade dos objetivos, senão que na
relação não racional nem calculável entre meios e objetivos. A escola
o ator pode mobilizar para alcançar os objetivos.
(V, (O \ <c
35
é criticada por não alfabetizar, pela alta evasão, pela repetência e pela diria Pierre Bourdieu.
C
Í/Y- ^
^ ÍJ
baixa qualidade da formação e não por serem esses objetivos pouco Caso (c). Na escola um educador pode defender como
compartilhados ou não expressarem valores sociais compartilhados. objetivo o desenvolvimento psicomotor da criança e um outro
A falta de realização dos objetivos questiona a cientificidade das conscientização de sua situação de vida. Ambos podem operar nu
ciências da educação. Por certo os especialistas da educação colocam "clima" participativo e apoiando a capacidade crítica da criança.
a responsabilidade sobre os repetidos fracassos nos políticos, pois Ambos podem pretender realizar seus objetivos por meio de
os especialistas teriam a especialidade mas não o poder de implementar processos inovadores em relação aos tradicionais. Num plano geral
suas receitas. suas atitudes em relação à escolha dos meios, nos limites que os
Os objetivos podem, e devem, ser valores socialmente objetivos possibilitam, são semelhantes. J
compartilhados. Entretanto, os valores também permeiam os meios na Poder-se-ia objetar o fato de tomarmos o 4 ' clima" como meio
ação educacional e, de modo geral, toda a arte da mediação. Disto para se atingir objetivos. A maioria dos programas se preocupam
decorre a vigência das situações "a", "b" , "c" e "d'*. Situações explicitamente por sua definição e estabelecimento e lhes atribuem
nas quais a relação meios-objetivos se apresenta como racional importância estratégica. A critica da pedagogia moderna à tradicional
quando na realidade é uma relação segundo valores, ou seja, os' é mais uma critica aos valores presentes no processo pedagógico,
valores presentes nos objetivos estào também presentes nos meios aos modos de interação, enfim ao "clima", do que aos objetivos. De
("a" e "d") ou valores diferentes permeiam objetivosemeios^b" fato, pedagogos modernos recuperam a transmissão sistemática de
ê "c"). ^> conhecimentos como objetivo da educação formal. A criticatoma cada
Exemplifiquemos para a educação física o que viemos dizendo vez mais o sentido de estabelecer uma coerência ou correlação entre
sobre os casos intermediários, que são os mais significativos sob o os valores presentes nos objetivos e os valores presentes nos meios.
ponto de vista sociológico. Tomemos dois exemplos do treinamento, Digamos que desejam que às intenções estejam'presentes nos meios
programas que se supõem mais carregados de racionalidade na relação pelos quais se procura realizá-las. E, depois .de tudo, no cotidiano,
meios-objetivos. antes de sair de casa procuramos saber qual é o clima.
s- Caso (b). No treinamento objetiva-se o desempenho do Diria, para finalizar, que a principal finalidade didática é a de
(atleta, a eficiência, importa a performance na competição. estabelecer um clima de entendimento. Este, lembro, é o primeiro
Entretanto, o treinamento pode ser pensado num t l clima" de objetivo destas notas. • ' • '
disciplina autoritária ou num outro de disciplina auto-imposta, elaborada
pelos participantes do treinamento. Em ambos os casos, os
argumentos salientam as vantagens para o desempenho de um ou outro
meio. Cada estratégia apresentar-se-á como mais eficiente no
atingimento dos objetivos. Isto é, como mais racional na articulação de
meios e fins. Esta seria uma situação freqüente onde a demanda 1
Em relação a esta discussão ver o trabalho de Ròrty (1988.)
2
social estabelece com força os valores e objetivos e ainda não existe Estou partindo aqui dos fundamentos da sociologia da ciência, a literatura
consenso entre os mediadores em relação aos meios para se atingir a respeito c ampla c conhecid. .- .
os objetivos ou onde as diferentes propostas sobre os meios refletem • * A idéia de progresso é fundamental no Brasil e no mundo. Ver as obras
de Nisbct e o claro texto de Lc Goff sobre a inscparabilidadedas idéias de progresso
disputas entre os mediadores por ocupar posições no campo, como
c reação.

36 37
( C
4
Refiro-me aqui à imagem criada por Lévi-Strauss no Pensamento
selvagem.
5
Conferir como exemplo a excelente História do corpo de Crespo.
6
Observe-se que esta é uma mediação sistematicamente realizada pelo
especialista entre o universal, aprendido na formação, e o particular da situação na
qual o programa se desenvolve.
7
De fato os especialistas da Física podem discordar sobre as partes da Física
que devem ser priorizadas, os meios de ensino-aprendizagem e as metodologias
entre outros aspectos.Contudo, eles não se colocam objetivos culturalmente tão
distantes como a "conscientização políüca"e a "saúde do corpo". Observemos
que estes objetivos se colocam como contrapostos no programa de atividades e não
na sociedade. Esses valores situam-se em planosdiferentes e ambos podem ser
valiosos. É no programa de atividade onde o especialista situa a contradição e a
escolha que, no fundo, remete à diferenciação entre os especialistas.
• * Conferir meus comentários sobre este assunto em Educação popular:
maioridade e conciliação.
9
Observo que há, entre os especialistas da Educação Física, um marxismo
banalizado que esquece o grau. De fato, o grau é uma questão empírica complexa
e o marxismo banalizado, distanciado da pesquisa empírica, o exclui, pois está
impossibilitado de lidar com ele dada sua preferência em explicar quase tudo pela
luta de classes. Esquece que a definição e entendimento concreto das classes e dos
seus agires é tarefa teórica e empírica complexa e que demanda pesquisa constante.
O marxismo banalizado é muito cômodo e mágico, pois tira de frases feitas a
"realidade social".
10
Ver os TrabaJhos de Elas, Brown, Vigarelío e Crespo citados na
bibliografia, corno exemplos de análise das construções às quais me refiro.
11
Conferir Eby, por exemplo.
12
Uma contribuição central, da releitua da história da ciência, feita por
Kuhn é considerar que a atividade científica sendo convergente -agindo dentro de
um paradigma- termina provocando a divergência, a mudança do paradigma.
Entre as intenções que guiam a ação e seus efeitos há também no caso da ciência
Capítulo 2
distâncias consideráveis.

Educação e educação física


em escolas do Rio de Janeiro

38 39
1.Educação e educação física em escolas do Rio de
Janeiro.1

O campo da educação física no Brasil caracteriza-se pela


dispersão das propostas ou programas de atividades corporais. O
debate existente é considerável e, dificilmente, poder-se-ia afirmar
que, a intervenção dos profissionais da área, se orienta por um
consenso significativo, em termos de valores ou objetivos a serem
perseguidos e dos meios adequados aos mesmos. A dispersão, com
seus debates e discussões, aparentemente inesgotáveis, é
particularmente forte no que diz respeito à educação física no
contexto institucional da educação formal e, sobretudo, no seu
Primeiro Grau.2 . . . . . .
O ponto de partida dos estudos Sobre a educação formal,
diríamos que de consenso, reside naafirmaçãp de que a escola brasileira
está mal e que devem ser realizadas ações para tirá-la desta situação.
A partir deste consenso, muito frágil ou muito forte, segundo o ponto
de vista avaliador, as .propostas de transformação ou mudança se
multiplicam. Se'u lequeé-arhploe, sob o ponto de vista pedagógico,
abrange desde a politização da educação até sua psicologização mais
individualista ou a revalorização da escola tradicional. No plano
organizativo, defende-se desde um controle e centralização maior da
educação pública, até ousadas propostas de descentralização, com a
introdução de mecanismos de ''mercado" , ou de estímulo a
produtividade. Adispersâodas propostas indica, entre outros elementos,
a dificuldade da educação brasileira em constituir uma tradição, um
conjunto de valores e normas suficientemente articulados, em cujo
âmago da mudança educacional aconteça. De fato, o acúmulo de
Propostas hão está acompanhado por mudanças efetivas no cotidiano

41
escolar. articulados ou não a um conjunto de valores. Sabemos, na prática, que
Evidentemente, estepanorama da educação incide, fortemente, não contamos com "tradição afortunada" que estabeleça um campo
na educação física escolar. Também aqui as propostas de intervenção consensual como base da ação educativa. Este ponto de vista prático
se diversificam, em termos de valores e meios, para sua realização. A justifica a pesquisa fortemente descritiva que estamos realizando, pois
emancipação política, o desenvolvimento psicomotor, o o que se pretende é aproximar dados empíricos que possam ser \
desenvolvimento cognitivo, o apoio a integração e funcionamento utilizados como referências para o debate. i
escolar, o respeito a cultura dos alunos ou a competência corporal, Os valores, as crenças e as representações mudam como 1 <
entre outros, podem ser escolhidos enquanto valores orientadores do qualquer outro elemento da sociedade e da natureza. Estabelecer^
processo de intervenção. Por certo, a diversidade dos meios propostos acordos ou consensos não significa congelar o mundo como alguns Sf
é correlata a dos valores ou objetivos. acreditam. Os acordos são eficientes para mudar o mundo, sobretudo, «
Os discursos de intervenção dos especialistas geralmente quando a mudança se processa no seio de uma "tradição afortunada" ;
pretendem o status de científicos. Entretanto, é habitualmente baixo -um conjunto de acordos que possibilitam guiar a mudança sem I
e mesmo nulo, o fundamento em termos de pesquisa empírica. Os sermos tragados pela entropia. De fato, a história da educação no>
especialistas participantes dos debates pretendem impor seus pontos Brasil representa uma tradição desafortunada ou, uma força entrópica,^
de vista sem apresentarem, habitualmente, "dados" ou "provas", que que nega a consolidação de um sistema educacional que possamos í
possibilitem ãleançaçmos alguns' 'acordos", que permitam aperfeiçoar qualificar, sem modéstia, de regular ou de bom. * A > ^ ^
a educação no Brasil. ' : • >• Observe-se que não se trata aquig&i 'extrair'' da ciência ou do
"*••• *: Os alunos e seus responsáveis também possuem seus pontos de conhecimento científico, os valores ou as crenças, que dir jíV
vista e opiniões-formuladas, a partir da experiência escolar, e de
representações elaboradas, à partir de incidências diversas (cultura
processo educativo e a intervenção da educa
menor e diferente. Pretendeu-se, n
pretensão e
alho, estabelecer as linhas,
""""
v
popular, especialistas, meios de comunicação, entre outras). Estes pontos ou tópicos que deveriam guiar.o estabelecimento dos acordos
pontos de vista devem ser levados em alta consideração se pretendem sociais. Neste sentido, os resultados da pesquisa podem ser considerados
alcançar algum grau de consenso, em termos de "projetos" ou de como matéria- prima que enriquece os diálogos.
"propostas", para a ação educacional e, em especial, para a educação A amostra desta,pesquisa foi formada por 703 informantes
básica. alunos e 432 informantes responsáveis..Selecionou-se seis escolas de
Parece por demais evidente que os negócios humanos funcionam -diferentes regiões da Rede Municipal, no segundo segmento de 1°
quando se estabelece algum grau de consenso ou acordo entre os atores Grau. O questionário foi dó tipo auto-administrado. Aplicaram-se 900
sociais que deles participam. Os atores privilegiados do processo questionários a alunos e a mesma quantidade aos responsáveis. A taxa
educativo são sem dúvidas as famílias, os educandos e os de retorno foi alta se considerarmos o tipo de aplicação. Entre os
1
educadores. Se entre eles não existe um acordo suficiente a escola não informantes alunos, 58% dos pesquisados foram do sexo feminino. Em
funciona. Acordo sobre valores, os meios, as espectativas parece ser relação a caracterização sócio-econômica dos informantes, observemo s
a estratégia fundamental para que se implementem projetos no plano que quase 48% dos responsáveis declararam perceber renda inferior a
da educação. Enfim, se os atores não partilham de um horizonte comum três salários mínimos, e 18% de três a cinco salários mínimos. Observa-
de crenças ou representações é impossível a eficácia simbólica da se, portanto, um perfil ,de .renda com predomínio de salários
escola, lugar onde, permanentemente, se ensina a operar com símbolos característicos das camadas populares.

43
2. Da educação e da escola No quadro a seguir apresentam-se os motivos que orientam
os responsáveis em relação a escolha da escola;
As respostas dos responsáveis N" %
MOTIVO
Os estudos sobre educação salientam que a preocupação pela Qualidade 193 36,0-
escolha da escola tornou-se um elemento do cotidiano da classe média.4 27,1
Proximidade 143
As famílias, discutem as escolas em termos de suas propostas
pedagógicas, e as escolas direcionam tais propostas, para segmentos Gratuidade 143 27,1
sócio-culturais definidos, como a clientela em potencial. Há, em vários 2,6
Sem escolha 14
sentidos, um controle simbólico e prático das famílias de classe média
:
sobre as propostas e realizações das escolas. Estes processos têm Hor. integral 13 2,5
especial vigência na educação privada.
Alimentação 1 0,2
A escolha de uma determinada escola significa que as famílias
acreditam na existência de diferenças entre as propostas pedagógicas, Filhos na escola 3 0,6
e que consideram que há escolas melhores ou piores para a formação
de cada criança. Neste sentido, a escolha também comporta um Conhecidos 4 0,8
componente de psicologização no entendimento da educação.5 Estas Outros 13 2,5
considerações levam a crer que a imagem de uma escola única, se
alguma vez vigorou em nosso meio, quebrou-se na representação das TOTAL 52,7 100,0
famíliasdeclasse média. Háumasegmentaçãodademandaeducacional
nesses grupos sociais. Verifica-se que a proximidade e a gratuidade, se somadas,
Interessava na pesquisa constatar se havia segmentações perfazem um percentual de 54,2%, o que pode indicar que a
semelhantes entre os informantes de baixa renda da escola pública, ou orientação é dominantemente utilitária na escolha da escola. A
se as orientações tinham um fundamento ainda referido a unidade da menção da gratuidade (27,1%) pode .ser entendida como opção
escola. Assim, por exemplo, se alguém escolheaescola pela proximidade forçada, no caso dos responsáveis contarem com poucos recursos. A
do domicílio, num contexto urbano que possibilite a escolha, é porque opção de 36,6% escolhendo a escola pela qualidade do ensino, salienta
de alguma forma, acredita que as diferenças entre as escolas não a preocupação dos pais com a formação dos filhos. De fato, esta
justificam os custos de deslocamento. Aceita, assim, o critério da preocupação indica que a orientação pela qualidade é significativa
administração escolar, que'orienta na direção da proximidade lar- entre os responsáveis. Ao mesmo tempo, pode estar indicando a
escola a partir da indistinção das "qualidades" de cada escola. Com quebra da idéia de unidade que domina na representação da Escola
esta conduta, elimina-se a "escolha" do horizonte das preocupações Pública. Isto é, a vigência de representações diferenciadas das
da família das classes populares. Observa-se que um efeito desta atitude escolas, diferenciação derivada da própriadefinição variada da qualidade
é que a administração escolar elimina a "competitividade" entre as (A pesquisa sobre as definições de "qualidade" da escola é um campo
escolas, pois elas possuem uma clientela cativa pelo determinismo ainda insuficientemente explorado). . •
geográfico. Segundo a opinião dos familiares, constatou-se que 73%

44 45
avaliam o ensino escolar como £'regular'', 18% "puxado" e 9% denominam de ensino ou escola tradicional, e por vezes, de autoritária
"fraco". Entretanto, quando chamados a responder sobre o "dever ou disciplinadora. As respostas que manifestam estaposição significam
ser" do ensino, quase 71% acreditam que deveria ser mais "puxado". mais de 70% do total. Também, apareceu entre as respostas o
Se a primeira resposta pode ser entendida como uma avaliação de objetivo de "desenvolver a criança", este pode ser aceito como
compromisso, a segunda sobre o — "dever ser"— situa uma demanda objetivo da escola moderna. Um dado interessante é o percentual de
de maiores exigências de ensino. Adesconformidadese manifesta 11% que apareceu como resposta, que se alinha com a posição dos
então em relação ao "dever ser" da escola e não imediatamente pedagogos "progressistas". Isto pode indicar que o discurso dos
quando se interroga sobre o que ela "é". educadores "politizados" está se incorporando ao discurso dos
Os informantes quando questionados sobre a satisfação ou responsáveis ou a sociedade em geral cristalizou uma espécie de
insatisfação com a escola, não apresentam diferenças, pois quase 90% discurso transformador. O quadro a seguir dá substância as observações
dos informantes da família declaram estar satisfeitos. Embora os acima:
questionários não fossem identificados, é possível que o
condicionamento da resposta tenha tido considerável peso nas
mesmas, devido a temores diante da reação da escola. As respostas OBJETIVOS N° %
a outras questões mais indiretas permitem concluir que o Preparar a criança 203 25,73
contentamento não é tão alto quanto o percentual enunciado acima
salienta. Instruir 187 23,70
Tomemos alguns desses indicadores. Quando a avaliação do Disciplinar 167 21,17
ensino passa pela disciplina escolar, 61,8% acham que a escola é
"rígida", 27,8% "poucorígida" e somente 8,5% "muito rígida". Desenvolver a criança -118'-' 14,96
59,5% esperam que a escola seja "mais rígida". Apenas 4,2% se
expressam no sentido de uma escola "menos rígida". Também, neste
Mudar a sociedade 92; • 11,66
caso, adesconformidade se manifesta no plano do "dever ser". Em Outras 22 ' • 2,78
relação à realidade da escola as respostas são cautelosas, e assim o
termo intermediário, menos comprometido, domina amplamente. Total 789 ; 100
Os responsáveis quando compararam a escola do passado com
a de hoje, forneceram as seguintes avaliações: 72,5% acreditam que No conjunto das respostas alinhavadas, pode-se dizer que,
a escola do passado foi melhor e apenas 13,4% avaliam como melhor no domínio das representações dos responsáveis, a escola idealizada
a escola do presente. O restante não percebe diferenças na comparação por estes deve ser disciplinadora, preparar e instruir a criança. Enfim,
entre o passado e o presente. Evidentemente, estes dados devem ser aquilo que se reconhece como imagem tradicional ou conservadora da
relativizados em função da tendência, bastante geral, de valorização do
escola.
passado. Contudo, eles podem ser entendidos como sinais da Esta imagem se reforça quando considera-se a importância
disconformidade com a escola.
atribuidapelos responsáveis às disciplinas escolares vigentes. Aceitando-
Tal avaliação pode ser confirmada quando os responsáveis ,se respostas múltiplas, obtém-se os seguintes valores de respostas
manifestam como objetivos da escola, aquilo que os pedagogos
válidas:

47
m relação à oferta do sistema escolar. As respostas foram as
DISCIPLINA N" seguintes:
Matemática 386

Português 372 DISCIPLINA N"

Ciências 115 Matemática 258

História 105 Portuüuês 236

Geografia 75 Lin. estrangeiras 119

Ed. física 74 Ciências 91

Inglês 68 Educação Física 89

Quimica 17 Geografia 72

Francês 16 História 64

Música 7 Química 24

TOTAL 1235 Música 19

Outras •_ — . • 68

Os responsáveis apresentam uma imagem definida da Total 1040


importância das disciplinas. Observemos, primeiramente, que
matemática e português são consideradas, de modo inequívoco,
como as disciplinas mais importante, concentrando 60% das A idéia que se tem é a-da dominância de um currículo que
respostas. Ocupam, assim, o primeiro lugar nas preferências, por privilegie as disciplinas heurísticas, que permitam a sociabilidade
certo orientadas pela utilidade destas disciplinas no contexto é o aprendizado. Tais como: matemática, português e as línguas
cultural. A disciplina'ciências (física-biológicas) ocupa um lugar estrangeiras. Em segundo lugar, destacam-se as disciplinas
de destaque, seguida por história, geografia e educação física. formativas em ciências, história e geografia. Em terceiro, a
Claramente, o inglês é a língua estrangeira de preferência, tendo própria educação física.
francês, comparativamente, poucas menções. As respostas dos familiares são coerentes e retratam um
Com a intenção de se completar o perfil das modelo de escola organizada, exigente e centrada no currículo,
disciplinas, o questionário perguntava que disciplinas deveriam ter onde as disciplinas preferidas, perfilam entre as de dominância
maior quantidade de aulas. Acreditava-se que estas respostas heurística e científica. História, sem dúvida, é considerada
fossem, talvez, melhor na sua capacidade de refletir expectativas, : como a principal disciplina de formação humanística.

48 49
As Respostas dos Alunos
NÃO GOSTA N° %
A educação brasileira como objeto de estudo tem Sujeira 417 24,99
recebido diferentes recortes. As análises tratam da Bagunça 325 19,48
competência do professor, da eficiência dos métodos, da Falta de manutenção 279 16,72
política financeira destinada à educação e das propostas 234 14,03
Falta de materiais
ideológicas que são subjacentes ao processo educativo.
Horário 208 12,47
Enfim, estes temas têm sido bastante explorados. Entretanto,
Professor 51 3,05
a opinião dos atendidos pela escola brasileira não tem
merecido o tratamento destes grandes temas. As avaliações a Ensino 47 2,81
seguir procuram aproximar alguns dados para o Funcionário 31 1,85
conhecimento do ponto de vista dos atendidos diretamente Matéria 30 1,79
pela escola pública, os alunos. Falta de professor 06 0,35
Cabe esclarecer que as perguntas dirigidas aos Outras 41 2,46
alunos diferem ligeiramente, na forma e na disposição das Total 1669 100,0
apresentadas aos responsáveis. Por certo, a estratégia de
organização do questionário atendeu apenas as diferenças Somando os percentuais dos quatro primeiros indicadores,
lingüísticas e contextuais dos grupos pesquisados, todavia as 75,22% deumtotal de respostasmúltiplasválidas(1669),observa-seque
categorias levantadas pelo instrumento não diferem entre os os alunos concentram suas críticas na sujeira, na bagunça, na falta de
manutenção e materiais. Os informantes apontam, através deste alto
responsáveis e alunos, e isto possibilita comparações entre percentual, que a escola se encontra desorganizada, tanto doponto de vista
suas respostas. disciplinar, quanto do ponto de vista administrativo. A falta de disciplina
Pediu-se aos informantes que identificassem o que é reclamada através do alto percentual de insatisfação com a sujeira e a
gostam e desgostam na escola. A partir desta identificação, a bagunça. Istopareceindicar que oprofessor,eosdemaisresponsáveispela
questão seguinte pedia que os informantes contrabalançassem escola, na visão dos,alunos, já não se responsabilizam pela ordem do
ambiente escolar. Este dado indica a ausência de orientações básicas para
suas opiniões e julgassem se a escola possui mais coisas boas que seja trabalhado qualquer projeto pedagógico. A desorganização
ou ruins. Constatou-se que 70.8% dos alunos avaliam que a administrativa causada pela sujeira, pelafaltade manutenção e materiais,
escola, apesar das "faltas" reclamadas por eles, apresenta indica que o problema administrativo possui razões internas (da própria
mais "coisas boas" do que "ruins". A escola ainda é direção) e externas (dá falta de recursos e políticas governamentais).
valorizada do ponto de vista dos alunos que nela O horário, o quinto indicador de insatisfação com a escola,
permanecem. apresentaaconcentraçãodel2%,oquepode ser considerado alto. Este
percentual alto, entretanto, pode ser explicado pelos Cieps que integram
Observe-se, a seguir, o que os alunos "gostam" e a amostradas escolas selecionadas. OsCiepsfuncionam em turno integral,
e
"não gostam" no universo escolar. Estes dados são este tem sido um dilema enfrentado pelos atendidos, que são oriundos
importantes para que se entenda o "cálculo" utilizado pelos dasclassespopulares. Aidéiadoturno integral parece contribuir para uma
informantes na avaliação da escola como uma instituição "lelhorformaçãò em termos ideais, em contrapartida este modelo exclui
0
positiva, como foi visto acima: aluno de contribuir diretamente na renda familiar e/ou limita sua vida na
rua.

50
51
A questão que se referia ao que os alunos mais gostavam na A dispersão das respostas dos alunos solicita que as mesmas
escolafoido tipo aberta, somando um total de 1158 respostas múltiplas sejamreagrupadas por afinidades, comoobjetivodeclarificaraanálise. , . .
válidas Observem-se as respostas Destacam-se, em principio, as respostas que dizem respeito
GOSTA N" % às relações pessoais e afetivas, e dos espaços que as facilitam dentro
1 -Professor 325 28,07 da escola. Constata-se que os informantes valorizam em 54,78% --
2-Amigos 112 9,68 somando os percentuais das respostas l, 2,5,8, lie /?--os indicadores! i^
que se referem a relações humanas na escola: os professores (28,07%) ~
3-Educação física 111 9,59
e amigos (9,68%) como figuras que mais gostam na vida escolar; o o
4-Ensino 110 9,50 pátio da escola (7,95%) também mereceu destaque, por ser este
5-Pátio 92 7,95 o local onde os alunos organizam parte significativa da vida social no
6-Tudo 66 5,70 ambiente escolar; a direção (3,11%) e funcionários (4,24%); e o
7-Merenda 59 5,10 carinho (1,73%). De fato, todas estas respostas se encaminham paray1
uma valorização das relações humanas que são travadas na escola. ^
8-Funcionário 49 4,24
O ensino (9,50%), a educação física (9,59%), a educação é*
9-Estudar 46 3,98
artística (3,29%) e a atitude de estudar (3,98), também são atividades
10-Artes 38 3,29 que os alunos gostam na escola. Este conjunto de respostas, somadas
11 -Direção 36 3,11 percentualmente, atingem a 26,36% e poderia-se dizer que se vinculam>X,
12-Carinho 20 1,73 ao objetivo básico da escola, isto é, ensinar os conteúdos socialmente
13-Bagunça 17 1,46 valorizados e úteis. Entretanto, quando comparado o percentual^
14-Horário 15 1,29 destas respostas àquelas que se' vinculam as relações humanas,
constata-se que os alunos se identificam' e priorizam as relações
l"5-Limpeza 8 0,69 j
afetivo-sociais. * ' , '
16-Banho 7 0,60 Um dado interessante é o percentual, 'que pode ÜJ
17-Laboratório 7 0,60 considerado significativo, atribuído à educação'física. O destaque
18-Biblioteca 7 • 0,60 desta disciplina e a citação da educação artística nas' respostas pode
19-Festas 6 0,51 significar uma separação e uma diferenciação destas das demais
20-Cantina 5 0,43 disciplinas quanto aos seus objetivos nas representações dos atores.. ^
V**
Em contrapartida, as elaborações dos intelectuais progressistas/
21 -Passeio 5 0,43
vinculados a área justificam sua relevância na escola pelas mesmas
22-Nada 4 0,34
razões culturais e cognitivas que as demais disciplinas se justificam. As
23 -Grêmio 2 0,17 demais respostas, ' 'tio que gostam1 \ se vinculam a aspectos infra- o
24-Cozinha 2 0,17 estruturais e de funcionamento geral da escola. • '
25-Outros 9 0,77 Uma contraposição que se levantou, segundo o ponto de vista
TOTAL 1158 100,0 do informante, se situa na avaliação de como o ensino "e" e como
"deveria ser": O aluno deveria avaliar o ensino de sua escola em

52 53
ambos os planos. Na avaliação do "é" obtiveram-se os seguintes gostavam; quais as que menos gostavam; e quais eram as mais
números: 66,9% avaliaram o ensino como "regular", 20,8% como importantes. Este conjunto de questões tinha por intenção, levantar o
"puxado"e 11,5% como "fraco". A outra questão que tratava do papel atribuído às disciplinas escolares, segundo o cálculo entre
"dever ser" apresentou os seguintes valores: 56,2% afirmaram que satisfação, rejeição e importância. Vejamos a seguir, na tabela, os
o ensino deve ser mais "puxado", 36,7% que se deve manter "como resultados das respostas múltiplas válidas:
está" e 6,1% que deve ser "menos puxado". As respostas de maior
percentual que avaliam o ensino como "regular", e que o ensino DISCLIPLINA MAIS GOSTAM MENOS GOSTAM MAIS IMPORT.
N« Ord N° Orrf N° Ord
desejado deve ser mais "puxado" (forte), podem ser consideradas
como uma idéia socialmente compartilhada: que a escola atual, Educação física 382 1° 54 10° 129 7°
principalmente a pública, é mais fraca do que as expectativas sociais
demandam. Matemática 318 2° 260 2° 437 1°
A idéia da disciplina escolar, entendida como uma categoria Português 315 3° 196 7° 432 2°
que regula as relações de conduta na escola, foi colhida através de duas
questões: a primeira tratava do que era proibido na escola, e a Ciências 244 4° 203 5° 242 3°
segunda levantava junto aos alunos que normas de orientações de Inglês 204 5° 203 6° 153 6°
conduta estes desejam em seu dia a dia na escola.
Quanto à questão da proibição para entendermos os limites Geografia 203 6° 213 3° 212 5°
visualizados pelos informantes, estes manifestaram em 88,2% dos
História 140 7° 344 1° 227 4°
casos, que a escola proíbe algumas coisas e permite outras, em 8,0%
proíbe o ahmo de fazer tudo e, apenas 2,4% afirmaram que a escola Francês 104 8° 153 8° 58 8°
é totalmemíe permissiva.
Ed. musical 83 9° 217 4° 11
Embora as respostas dos alunos confirmem que a disciplina de
suas escolas é equilibrada —permitindo algumas coisas e proibindo Química 40 10° 78 9° 49 90
outras—, quando inquiridos a respeito da disciplina que almejam em
Outras 23 11° 17 11° 10 10°
suas escolas, atribuíram os seguintes valores: 52,9% desejam que a
disciplina seja mais rígida; 37,7% que seja mantida como está; e 7,7% TOTAL 2056 1938 1949
que sejamenos rígida. Este posicionamento dos informantes é coerente
com as respostas dos que descrevem que não gostam de bagunça Diante das respostas pode-se afirmar, pela primeira coluna
em suas escolas. Em certa medida, talvez, este dado esteja apontando destacando as seis disciplinas mais votadas, que os informantes
para a crise de autoridade que vive a escola hoje. Pode-se sugerir, demonstram satisfação em realizar por ordem de preferência as atividades
diante destes percentuais, que os alunos desejam que a escola dê de: educação física (3 82), matemática (318), português (315), ciências
a eles melhores referências de orientação de conduta. (244), inglês (204) e geografia (203). Na segunda coluna, onde
Com a intenção de completar as representações que os alunos indicam as disciplinas que "gostam menos", ou melhor, não
fazem da escola de hoje, e de seu' 'dever ser", o questionário levantou possuem satisfação em realizá-las, temos os seguintes valores: história
junto aos alunos as seguintes questões; que disciplinas eles mais (344),matemática(260), ed. musical(217),geografia (213), ciências

54 55
(203) e inglês (203). Na terceira coluna, onde se verifica a 3.Da educação física na escola
importância atribuída às disciplinas, os resultados são os seguintes:
matemática (437), português (432), ciências (242) , história (227), a) O ponto de vista dos responsáveis
geografia (212) e inglês (153).
l • Que conclusões pode-se observar, a partir da rotatividade Importância da educação física e suas atividades
e aproximação dos valores, entre as disciplinas mais votadas quanto
a utilidade, satisfação ou insatisfação? Os responsáveis avaliam como importante a educação física na
A educação física obtém o primeiro lugar entre as disciplinas escola (93,3%). Somente 2,8% a consideram não importante e 3,7%
que os alunos mais gostam, entretanto cai para sétimo lugar em declaram não ter opinião formada.
importância. Os alunos distinguem, portanto, entre o gostar, o prazer, O conhecimento por parte dos responsáveis, das atividades
O que uma disciplina pode lhes proporcionar e a utilidade que as outras de educação física, é um dado significativo para se entender a própria
disciplinas podem ter para suas vidas no mundo do trabalho. avaliação da importância desta disciplina. As respostas foram as
Matemática e português são as disciplinas mais valorizadas ern seguintes:
ordem de importância e, também, na ordem de gosto dos alunos.
Entretanto,'em termos de "gostar menos" a primeira disciplina"
(matemática) ocupa o segundo lugar e a segunda (português), o TIPO DE ATIVIDADE N° %
sétimo. Estas diferenças parecem indicar: (a) importância concedida
Ginástica 262 27,2
a ambas na escola e na sociedade; (b) as dificuldades em torno do
aprendizado de matemática, que a íevam a ocupar o segundo lugar Corrida 183 -. '19,0
dentre as disciplinas que os alunos menos gostam; e (c) menores
dificuldades dos alunos com português que cai para sétimo lugar no Futebol 121 \ 12,6
mesmo eixo. A matemática apresentou, mais ou menos, um índice Voleibol 105 • 10,9
equilibrado entre o prazer e o desprazer que proporciona na comunidad e
escolar. Handebol ' 73 ,7,6
Ciências ocupa o terceiro lugar na ordem de importância, 11 .*• -
G. Olímpica " ' 1,1
quarto na de "gostar mais", e quinto nade "gostar menos". Há,
assim, uma grande correlação entre as três colunas. Basquetebol -123 12,8
Um caso significativo é o da disciplina história, que obtém
Dança 41 4,2
a primeira posição entre as disciplinas que os alunos''gostam menos* \
quarto em lugar de "importância", e sétimo entre as disciplinas que Outros 27 2,8
os alunos1'mais gostam". Os dados parecem indicar uma importância
intermediária, baixo gosto e altíssima rejeição. Observações Sem resposta 17 ' L»
semelhantes podem ser realizadas em relação a geografia. TOTAL 963 . 100,0
Como comentário geral deve-se insistir na importância atribuída
às disciplinas heurísticas e científicas, e o menor valor atribuído às
disciplinas humanísticas.
57
56
Nas atividades citadas pelos responsáveis predominam a ginástica As respostas salientam dominantemente valores sociais
(27,2%) e as atividades em equipes, que representam 43,9% do total. O baixo e, embora não sejam formuladas a partir de um eixo único, são
índice de "sem resposta" indica um conhecimento, real ou imaginado, das coerentes com o tipo de atividade realizada em educação
atividades praticadas pelas crianças. Claramente, as atividades citadas física. Observa-se que "praticar esporte" (27,5%) e
remetem à instalações simples, realizadas em quadras polivalentes, ou mesmo "competir" (26,2%) são as respostas mais freqüentes. Este
nos pátios escolares. aprendizado está estritamente relacionado com as atividades
Observa-se que as atividades em equipe (futebol, basquetebol, handebol esportivas em equipes. Desperta atenção o fato de que outros
e voleibol) são as dominantes em nosso meio cultural esportivo. Entretanto, valores sociais, além do aprendizado da competição, tenham
os percentuais mencionados se distanciam dos existentes na sociedade onde, percentuais significativos de respostas, como nos casos de
por exemplo, o futebol domina amplamente. Este dado pode apontar, portanto, aprender a ser "solidário*' (8,9%), "ele mesmo" (11,4%),
o esforço dos professores em, respeitando as práticas existentes, diversificarem "não ter medo" (10,8%) e "descontrair" (13,8%). Sem
a experiência esportiva dos alunos ainda com a limitação dos meios existentes. dúvidas, estes valores têm sido defendidos como objetivos
específicos da educação física em sua tradição. As duas
Do aprendizado e da utilidade primeiras respostas tornaram-se, por assim dize-lo, tradição da
educação física, embora as críticas progressistas insistam sobre
A questão seguinte pretendia caracterizar o aprendizado que a a negatividade de alguns destes valores, especialmente, do
educação física escolar teria para as crianças segundo os repensáveis, isto é, valor da "competição''. Nada impossibilita contudo
o que eles pensavam que as crianças aprendiam nas aulas de educação física. considerar esses valores em oposição, como igualmente
Observa-se as seguintes respostas: valiosos, sob o ponto de vista dos atores, pois a vida
pareceria; exigir tanto a competitividade, quanto á solídaridade
ou, pelo menos, a dominância de uma ou outra capacidade
APRENDE N° % nas diversas esferas da atividade social. Sob este ponto de vista
Ser solidário a atividade de educação física deveria se caracterizar, por
103 8,9 exemplo, pela conciliação de valores como ''competitividade"
Ser ele mesmo 132 H,4 e "solidariedade". , , . * "
Em uma outra questão pretendia-se atingir o valor de
Não ter medo 126 10,8 utilidade da educação física escolar; Partiu-se do suposto de
Competir 303 26,2 que, o que se' aprende e sua utilidade, são coisas distintas e
que esta intuição encontra-se bastante difundida na sociedade.
Descontrair 160 13,8 A utilidade foi representada pela questão "para que serve a
Praticar esporte 320 27,5 educação física na escola? Observemos a distribuição das
respostas: .
Sem resposta 16 1,4
TOTAL 1160 100,0

58 59
AA f O l B
UTILIDADE N° % elemento que contribui com a disciplina escolar, e a recreação se
Preparar atletas 98 7,9
aproxima às atividades que permitem "descansar a cabeça".
É importante salientar que quando caracterizou-se uma resposta
Desenvolver o corpo 246 19,9 como tradicional, não estamos dizendo que seja inadequada ou pouco
valiosa, nem que esteja superada pelo processo histórico-social.
Aprender a jogar os esportes 190 15,3
A classificação possui a intenção de contrastar as ideologias
Ter mais saúde 256 20,8 dos responsáveis, e mesmo das crianças, com as correntes pedagógicas
e com as ideologias que os especialistas elaboram e fazem circular.
Gastar as energias das crianças 109 8,8 Observa-se, por exemplo, que o atendimento pediátrico numa escola
Descansar a cabeça 122 9,8 de classe média poderia ser vivido pelos responsáveis como uma
intromissão na forma com que eles cuidam de suas crianças. A
Disciplinar as crianças 79 6,4 escolha do pediatra é muito importante e se rodeia do levantamento
Perder o medo 43 3,5 de informações em certos segmentos da classe média. Entretanto, o
atendimento pediátrico em muitas escolas públicas, na maioria das
Recrear 83 6,7 vezes, pode ser interpretado muito positivamente pelos responsáveis
Outros 2 0,1 das crianças, pois eles muito mal conseguem um pediatra e geralmente
com baixíssima possibilidade de escolha. Portanto, é lógico que as
Sem resposta 11 0,8 atividades que possam teoricamente contribuir para a saúde destas
TOTAL 1239 100,0 crianças sejam valorizadas no contexto .das camadas populares.

As respostas resumem o conjunto das utilidades atribuídas A obrigatoriedade da educação física


à educação física. Observa-se que as derivadas dos enfoques
biomédicos (desenvolver o corpo, 19,9% e ter mais saúde 20,8%) E sabido que as disciplinas passam a formar parte do currículo
alcançam os maiores percentuais nas respostas. O objetivo tle escolar, a partir de elaborações dos especialistas e, por vezes, por
aprender os esportes ; está imediatamente atrás com 15,3% e a pressão direta dos mesmos. Por exemplo, no caso da sociologia,
formação de atletas não ocupa um lugar relevante. De fato, conceitos recentemente no Estado do Rio de Janeiro, onde os sociólogos
tradicionais que atribuem à educação física, a capacidade de gastar as pressionaram os parlamentares para conseguir sua inclusão no
energias excedentes da criança (8,8%), e descansar a cabeça das currículo de 2° Grau. Depraxea "clientela" do sistema educacional
atividades intelectuais (9,8%), superam ao objetivo de formar atletas. não é considerada quando se realiza a incorporação de novas disciplinas
Um objetivo mais vinculado a escola nova como a recreação aparece em caráter obrigatório. A obrigatoriedade resulta, assim, do produto
com baixa participação (6,7%), se comparado com os mais tradicionais, da insistência dos especialistas e, raramente, de consultas e debates
e com a participação semelhante aos objetivos das pedagogias que democráticos. ..
enfatizavam o papel disciplinador da atividade física. Por certo, o gasto Foi formulada aos responsáveis a questão sobre a
de energias da criança também poderia ser entendido como um obrigatoriedade da educação física na escola. Apesar de mais de
90% considerarem esta disciplina escolar importante, 30% dos
60
61
entrevistados consideraram que deveria ser optativa. Embora indicaque,oqueéatrativonão precisa ser obrigatório. Em outro sentido
minoritário, este percentual é significativo. Se for considerado que o poder-se-ia interpretar que há um certo temor de que a educação física na
sistema escolar brasileiro não dá praticamente opções de escolha aos escola, talvez, retire tempo de outras disciplinas consideradas como mais
seus alunos, as disciplinas são todas obrigatórias, poder-se-ia pensar importantes ou meramente incumbência exclusiva da escola. Caso este,
na possibilidade de experimentar a optatividade da educação física, quenãoseriaodosesportes,nemodaeducaçãofísicapoisexistiriamoutras
num contexto de disciplinas alternativas. alternativas de prática como os dados a seguir parecem indicar.
Com o intuito de esclarecer a posição dos responsáveis, em
relação à educação física, apresentou-se algumas alternativas para que As atividades esportivas fora da escola
estes se posicionassem. Sendo assim as escolas deveriam:
Segundo os responsáveis, 61% das crianças praticam algum
1. Ter mais aulas de educação física; esporte regularmente fora da escola e 37% não realizam atividades. Em
2. Não ter educação física; verdade, onúmerodos quedeclarampraticarregularmentealgum esporte
3. Ter fora do horário escolar mais aulas de educação é elevado, se levarmos em conta as deficiências de instalações e
equipamentos esportivos em nossa cidade e as condições de vida dos
física;
4. Ter mais esporte; membros de nossa amostra. Importa, conseqüentemente, observar quais
os tipos de esportes praticado:
5. Ter mais ginástica;
6. Outros.
Observemos as respostas diante destas alternativas: ESPORTE PRATICADO N° %
OPÇÃO N° % Futebol 122."' 28,7
Ginástica , 66 15,5
1 289 31,9
Voleibol 63 14,8
2 19 2,0
Dança 50 11,8
3 138 15,2
Natação 36 8,5
4e5 421 46,6
Basquetebol 20 4,7
6 26 2,9
Atletismo 13 3,0
SR 13 1,4 Handebol 12 2,8
TOTAL 906 100,0 Queimado 10 2,3
Osdadosindicamqueaescolhapelaoptatividadenãosignificauma Karatê 9 2,1
negação da educação física, pois somente 2% manifestaram esta opinião. Musculação 8 1,9
Naverdadeos responsáveis reivindicammaisgnásticaeesporteem46,6% G. Olímpica 7 1,6
dos casos, e mais aulas de educação física em 31,9% das respostas. Além
Outros 10 2,3
disto, uma boa parcela, 15,2%, reivindicou mais aulas de educação física
fora do horário escolar. A opção talvez reflita uma velha sabedoria que TOTAL 426 100,0

63
Pode-se separar as atividades em dois grandes grupos: (a) as O eixo a partir do qual se igualam educação física e esporte
atividades cujas possibilidades de serem realizadas sem instalaçõesespeciais é o da prática das atividades esportivas em quase 62% das
e sem orientação profissional são grandes como: futebol, queimado, respostas. Há, portanto, uma forte concentração das respostas
handebol, voleibol e basquetebol; (b) as atividades cujas possibilidades de entre os que afirmam não haver diferenças entre essas atividades.
serem realizadas com equipamentos ou orientação profissional são altas: Observamos que a igualdade se estabelece a partir da
como natação, ginástica, dança, atletismo, karatèemusculação. Somadosos constatação daquilo que, dominantemente, se faz na educação
percentuais do segundo grupo, estes representam quase a metade do total física e, em especial, de suas práticas na escola como acima já foi
(44,4%). Este valor parece indicar uma grande valorização da atividade apresentado.
corporal, ao ponto de se investir algum tipo de recurso monetário em sua A distribuição das respostas segue outro padrão
realização. quando os informantes afirmam haver diferença entre ambas as
atividades. Assim, a educação física se diferencia do esporte pelos
Educação física e esporte seguintes aspectos:

Uma questão que interessava era saber se as pessoas realizam, ou MOTIVO N°


não^gumtipodedistinçãoentreeducaçãofísicaeesportee^mcasopositivo, Saúde 35
quais os significados dados as mesmas. Com este objetivo perguntou-se
aos informantes se percebiam, ou não, alguma diferença entre os termos e Pré-requisito 20
porquê? Generaliza 16
Do total dos responsáveis 54% (235) não encontravam diferença Exercício físico 11
entre educação física e esporte, e 40% (173) declararam ser atividades
diferentes, sendo que o restante, 6%, não responderam à questão. Observe- Desenvol. fisiológico . • 10
seprimeiro as razões dosqueanrrnarnaigualdadee, depois, às daqueles que Disciplinadora 10 , - ,
declaram ser atividades diferentes.
A igualdade baseia-se nas seguintes razões para os responsáveis: Obrigatório 8 .
Desenvolve corpo e mente ' . 7
MOTIVO N° %
Formação ' • 4
Praticam esporte 144 61,7
Não desenvolve 4
Treinam o corpo 14 5,9
Mais cansativa 2
Desenvolvem a mente 7 2,8
Para meninas 1
São lazer 2 0,8
Preparam atletas 1 0,4 Não é competitiva 1
Outros 1 0,4 Outros 1
Sem justificar 66 28,0 Sem Justificar 38
TOTAL 235 100,0 .TOTAL 1 68

65
Duas observações se impõem: (a) não existe um padrão Comparando as respostas, pode-se afirmar que: (a) quando
dominante na definição de educação física. As respostas são muitas. os responsáveis afirmam não haver diferença, o fazem sobre a base
Apenas * 4 saúde", como objetivo da educação física, obtém um percentual de observar a prática dominante em ambas as atividades; (b)
significativo(21%); (b)aespecificidadedaeducaçãofísicaéconstruída, quando ao contrário afirmam a diferença, nos remetem a objetivos,
dominantemente, pela atribuição de objetivos (e não pela observação
ou supostos, sobre a finalidade e os efeitos da educação física
da prática, como no caso que se afirma a igualdade pela referência e do esporte. De fato, a dificuldade de sua distinção fica clara na
à prática dos esportes) e por seus aspectos formais e escolares, como dispersão das razões dadas para justificá-la. A distinção pressupõe
a obrigatoriedade, por exemplo. algum conhecimento sobre os discursos que a fundamente, pois são
Este duplo padrão das respostas continua presente quando os nestes que se estabelecem as diferenças de objetivos, ou supostos,
que afirmam a diferença^ definem o esporte ao invés da educação
de um e outro tipo de ação.
física. Observemos as respostas: Esta problemática deve preocupar aos que defendem uma
distinção entre educação física e esporte, pois a mesma, de possuir
MOTIVO N° algum valor no plano das práticas escolares, não foi suficientemente
Lazer 31 compreendida pelos atores sociais que, conseqüentemente, não
conseguem expressar a diferença com algum grau de consenso.
Competição 24 Entretanto, a não distinção pode obrigar aos que a defendem a
Limitado 15 repensar os motivos —em especial, os derivados das lutas pela
distinção entre os especialistas, no sentido utilizado por Pierre
Jogo 11 Bourdieu— que os levam a .elaborar argumentos a, favor desta
Mais puxado ; 07 distinção. ,'
Depende da EF 06
Dinheiro 05 b) O ponto de vista dos alunos

Mais completo 05 A importância da educação física é suas atividades


Desen. a mente 03
Os alunos avaliam a educação física na escola como uma
Para meninos 02 disciplina importante. Das 703 respostas, 86,1% dos informantes
Variado 02 a consideram importante, 4,5% não lhe atribuem importância,
8,5% não possuem opinião formada e 0,9% não responderam. Estes
Outros 05 percentuais levam a acreditar que os alunos atribuem valor às
Sem Justificativa 57 atividades corporais ou físicas na escola.
As atividades corporais que são mencionadas e dão sentido
TOTAL 173 ao valor atribuído pelos alunos, são as seguintes:

66
67
identidade e, principalmente, como meio de lazer. A soma das
ATIVIDADES N° % modalidades esportivas coletivas totalizam 44,69% das respostas.
Uma conclusão à qual se pode chegar, a partir dos
Corrida 407 23,96
apresentados, é que o currículo da educação física caracteriza-se por
Ginástica 386 22,70 assumir a função de ensinar e socializar os alunos nas atividades
corporais culturalmente valorizadas e, talvez, na maioria das vezes,
Basquetebol 231 13,58 apenas reproduzamna escolaaquilo quejá é socialmente disseminado.,
Futebol 230 13,52 Notamos que as atividades citadas acima reproduzem o senso
comum, pois os informantes quando inquiridos a respeito do que
Voleibol 181 10,56 desejariam realizar nas aulas de educação física fazem referência às
Handebol 118 6,94 mesmas atividades. Cabe destacar que a natação recebeu 355 das 1254
respostas múltiplas válidas. O desejo dos alunos em realizar natação
Dança 53 3,12 em suas escolas se contrapõe a ausènciade instalações apropriadas na
Atletismo 30 1,76 maioria das escolas da Rede Pública e, talvez, represente o desejo de
status social que esta atividade possui em nossa sociedade.
Queimado 19 1,12
Outras 25 1,48
Do aprendizado e da utilidade
Sem Resposta 20 1,18
TOTAL 1700 100,0
Uma questão que constava no questionário referia-se ao
grau de satisfação dos alunos em relação às atividades que realizavam
As atividades citadas pelos alunos indicam que o currículo na educação física escolar. As respostas apresentaram-se da seguinte
da educação física desenvolvido nas escolas possui um perfil voltado forma: 88,1% afirmaram que "gostam" das atividades que
para a aptidão física (ginástica 22,70% e corrida 23,95%) e para o realizam; .8,65% "não gostam"; é 3,25% não possuem opinião
ensino das modalidades esportivas coletivas, as mais populares, formada. , • - -- '
(Basquetebol 13,58%, Futebol 13,52%, Voleibol 10,65% e Handebol Este índice de satisfação, se contraposto à idéia de crise e
6,94%). insatisfação apontada pelos intelectuaisque pensam a educação física
De fato, pode-se observar que as atividades desenvolvidas na escolar, solicita que se repense e se investigue mais sistematicamente
escola estão de acordo com as atividades corporais mais valorizadas o fenômeno "aula de educação física". Apesar das limitações e
em nosso meio cultural. Assim, a ginástica e a corrida são precariedades que todos sabemos que vive o sistema educacional
representadas como os instrumentos mais comuns de manutenção da brasileiro, talvez se esteja absolutizando as representações sobre a
estética corporal e da saúde. Tais atividades, se somadas, perfazem escola. Em conseqüência, não estamos conseguindo realizar
46,65% das respostas múltiplas válidas. Já os esportes coletivos são análises e recortes sobre os problemas mais significativos da educação
valorizados em nossa sociedade como elementos de construção de formal. ' ., ' ' .. ' .

68 69
A utilidade que os alunos vinculam à educação física foi O conjunto das respostas demarca o perfil das utilidades
captada através de duas questões. Pode-se constatar que estas vinculadas ao ensino da educação física. Os objetivos de caráter
questões diferenciavam-se em níveis de abrangência, pois uma biomédico atingem os maiores percentuais das respostas
destas possuía um caráter mais universal e a outra um caráter mais (desenvolver o corpo e a força 20,45%; e ter mais saúde 14,54%).
pessoal.e particular. Observem as respostas das utilidades atribuídas A estética corporal obteve um significativo percentual (ficar com
a educação física: o corpo mais bonito 10,20%). Pode-se dizer que os valores
biomédicos e os valores estéticosvinculados ao corpo, aparecem
na maioria das vezes, unidos nas representações corporais em nossa
UTILIDADE N° % sociedade.
Desenvolver o corpo e a força 353 20,45 Outro objetivo atribuído à educação física se vincula ao
desenvolvimento das práticas esportivas. Os informantes
Ter mais saúde 251 14,54 destinaram a ela um percentual 13,56%. "Aprender a competir" foi
Praticar esportes 234 13,56 outra função atribuída a esta disciplina (l 1,35%). Observa-se que
o valor da competição na educação física escolar está quase sempre
Aprender a competir 196 11,35 associado à prática de jogos e esportes. Assim, os objetivos da
Ficar com o corpo mais bonito 176 10,20 prática esportiva e da competição —no contexto das respostas dos
alunos— podem ser vistos como faces de uma mesma moeda.
Divertir 115 6,66 Os objetivos de caráter psicológico também auxiliam a
Perder o medo 95 5,51 traçar o perfil da educação física na escola. Os informantes atribuem
como funções desta disciplina levar o aluno a "perder o medo"
Ser você mesmo 89 5,16 (5,51%), a "ser ele mesmo" (5,16%) e "ser descontraído"
Melhorar a nota 88 5,09 (2,02%). De fato, em nossa sociedade há uma tendência
psicologizante na orientação e interpretação das condutas dos
Quebra a monotonia da sala de aula 48 2,77
indivíduos. A escola e a educação física refletem esta tendência que
Ser descontraída 35 2,02 aparece também entre as representações dos alunos.
As respostas em relação a pergunta que intencionava captar
Ser solidário com os colegas 29 1,67
os objetivos de caráter mais pessoal e particular atribuídos pelos
Todos os objetivos 7 0,40 informantes à educação física escolar, obteve o seguinte perfil:
Nada 3 0,17
Sem Resposta 8 0,48
TOTAL 1727 100,0

70 71
OBJETIVO N° % estão sempre atreladas ao caráter utilitário das atividades corporais
Ter mais saúde 261 16,83 na formação do homem brasileiro. Além desta tradição, a questão
da obrigatoriedade esbarra sempre no lugar comum da pressão dos
Desenvolver o corpo e ficar mais forte 256 16,53 especialistas, em conquistar e regulamentar "fatias" do mercado de
trabalho. Assim, por um lado, podemos encontrar nos políticos e
Praticar esportes 251 16,21
ideólogos da educação e da educação física a intenção de intervir
Ficar com o corpo mais bonito 204 13,17 legislando na cultura corporal da população.
Observe-se que tais argumentos (dos dirigentes, dos intelectuais
Melhorar a nota 128 8,25
e dos especialistas) não levam em conta a opinião da "clientela1'
Divertir-se com os colegas 123 7,94 atendida, como já foi 'comentado anteriormente. Por esta razão,
considerou-se necessário perguntar aos alunos a respeito da
Ser um atleta 112 7,23 obrigatoriedade, ou optatividade, da educação física na escola. Os
Perder o medo 89 5,54 alunos posicionaram-se da seguinte forma:

Ser mais descontraído 69 4,45 OPINIÃO N° %


Outros 39 2,60 Obrigatória 380 54,1
Sem opinião 21 1,35 Optativa 306 43,5
TOTAL 1553 100,0 Sem resposta : 17 ' ; 2,4
TOTAL . 703 100,0
Embora existam variações no perfil das respostas, repete-
se o padrão estabelecido e analisado na resposta anterior. Aqui,
também, dominam os objetivos de desenvolver o corpo e a força, Nota-se que 54,1% dos alunos acreditam que a disciplina deve
gerar saúde, praticar esportes e os de caráter psicológico. ser de caráter obrigatório e 43,5% responderam que deve ser optativa.
A diferença percentual entre as respostas que indicam a obrigatoriedade
A obrigatoriedade da educação física e a optatividade, é de apenas 10,6%, o que pode significar que não
há consenso entre os informantes a respeito desta questão.
A educação física enquanto componente curricular no Brasil Podemos afirmar, todavia, que os alunos distinguem com
sempre conviveu com o problema da legitimidade. O reflexo desta clareza a importância, a relevância da educação física, de sua
erise está marcado, em sua própria história, com osfamosos Decretos, obrigatoriedade. Como já foi apresentado, 86,1% dos alunos julgam
Regulamentos e Pareceres (desde Rui Barbosa, Getúlio Vargas até a importante ter educação física na escola. Ao compararmos este dado
Ditadura Militar de 64) que, por força da lei, pretendiam torná-la parte aos 43,5% que acreditam que a prática desta disciplina deve ser
integrante da cultura do brasileiro. Tais intenções de ordem legal optativa, o que é um percentual significativo, chegaremos à conclusão
que os alunos distinguem que importância e obrigatoriedade são
72
73
"coisas diferentes*'. Por certo, que tal posição contrariaria a *Não responderam a esta questão 51 alunos, isto é, 7,25%
tradição dos políticos e intelectuais que vinculam, no campo de suas da amostra.
decisões e idéias, importância à obrigatoriedade. A diversificação e distribuição das atividades acima indicam
que existem variadas opções de atividades corporais em nossa
As atividades corporais f ora da escola sociedade. Apesar disto, o futebol, a ginástica, o voleibol e a dança,
foram as atividades que receberam os maiores percentuais. Uma das
A importância das atividades corporais se destaca ainda mais explicações possíveis seria o grau de tradição que estas atividades
quando se observa o perfil de sua prática fora da escola. Vejamos as apresentam no contexto cultural. Os 19,33% dados ao futebol, o mais
atividades: alto percentual, não surpreenderia nenhum brasileiro pelo significado
que este esporte atingiu em nossa sociedade. O futebol pode ser
ATIVIDADES N° %
considerado como um dos elementos culturais que dá coerência a
Futebol 230 49,33 identidade do brasileiro (cf. Soares, 1990). Os 16,81% que recebeu a
Ginástica 200 16,81 ginástica confere com a tradição desta atividade na civilização
ocidental. A dança (9,00%) atividade que atende em sua maioria
Voleibol 147 12,36 o sexo feminino, também pode ser explicada por sua tradição.
Dança 107 9,00 Entretanto, os 12,36% conferidos ao vôlei pode ter uma explicação
diferente, na medida em que esta atividade ganhou popularidade no
Natação 78 6,56
Brasil a partir do início da década de oitenta, por sua massificação
Basquetebol 65 5,47 e pelos resultados significativos no panorama rriuridial que o Brasil
Atletismo 54 4,54 obteve neste esporte. Enfim, pode-se afirmar que os alunos
reproduzem basicamente as atividades que são valorizadas
Handebol 50 4,20 culturalmente. Nota-se, poroutro lado, que a sociedade atual apresenta
Judô-Karatê 50 4,20 diversas possibilidades de atividades corporais.
Gin. Olímpica 27 2,27 Educação Física e esporte
Brincar 25 2,10
Musculação 22 1,84 Diante da questão da igualdade ou diferença entre educação
física e esporte, os dados não variam significativamente quando os
Ativ. Marítimas 7 0,58 interrogados são os alunos, ao invés dos responsáveis; 47,5% dos
Patins 7 0,58 alunos respondem que educação física e esporte são a mesma coisa. Em
segundo lugar, um alto percentual, 34,7%, deixaram a questão sem
Tênis 2 0,16
resposta e 12,8% declararam haver diferenças, entretanto, não
Nenhuma 119 10,00 explicitaram quais são. Assim, apenas 5% dos alunos encontraram
TOTAL 1190 100,0 alguma diferença e conseguiram atribuir-lhe algum sentido.
Quando os alunos que percebem as diferenças conseguem

74 75
atribuir sentido a esta resposta definem a educação física como: sendo que o discurso das pedagogias modernas e progressistas está sendo
incorporado pelos responsáveis. Devemos lembrar que as propostas
obrigatória, especializada, vinculada à ginástica e à formação do
pedagógicas de Paulo Freire alcançaram no país largos segmentos da
corpo. Quando tomam o esporte como referência, afirmam que este
opinião pública e dos setores populares, por meio do trabalho
é livre, competitivo, tem relação com a prática e o jogo e é mais
"pesado" do que a educação física. O baixo número de respostas nos eclesial orientado pela Teologia da Libertação.
4. As questões sobre a disciplina reforçam a imagem
impede de aprofundar na análise as distinções, embora a formalidade
da educação física (obrigatoriedade, formação do corpo, ginástica, acima exposta. Embora a maioria dos responsáveis (61,8%) achem
etc.) se contraponha à informalidade do esporte (livre, jogo, etc.) e a a escola rígida; 27,8% pouco rígida; e 8,5% muito rígida, quando
seu caráter competitivo. confrontados com o dever ser da disciplina escolar, 59% declaram
que deveria ser mais rígida. Entre os alunos 88,2% acreditam que a
4. Conclusão disciplina atual é equilibrada. Contudo, em relação ao dever ser, 52,9%
declaram que deve ser mais rígida. Tanto os responsáveis quanto os
Neste último tópico pretende-se comparar algumas das respostas alunos parecem estar solicitando delimitações e referências disciplinares
dos responsáveis com a dos alunos, quando passíveis dessa operação. mais claras, por parte da escola. De fato, a disciplina parece ser um
elemento valorizado da dinâmica escolar, tanto por parte dos
1. O motivo da escolha da escola foi respondido apenas
pelos responsáveis. Destaca-se a qualidade (36,6%); a proximidade responsáveis quanto dos alunos.
(27,1%); e a gratuidade (27,1%) como motivos da escolha. A 5. Destaca-se que para os alunos a bagunça e a sujeira
menção da qualidade é significativa, embora superada quando são características da escola que eles rejeitam. Ambas
somamos às outras duas razões de caráter pragmático ou utilitário. características podem ser consideradas como elementos antiordem ou
antidisciplinar em nossa cultura. As relações humanas (professores,
2. A avaliação do ensino foi considerada ''regular"
por 73% dos responsáveis e 66,9% dos alunos. amigos e colegas) e as situações que as possibilitam são dimensões
3. Em relação ao "dever ser" da escola, 71% dos que os alunos valorizam na escola,
responsáveis e 56,2% dos alunos declararam que o ensino deveria 6. A ordem de importância atribuída às disciplinas
ser "mais puxado". Além disso, 36,7% dos alunos declararam que que figuram no currículo escolar coincidem entre responsáveis e
deveria permanecer como está e somente 6,1% que deveria ser alunos. Os informantes valorizam em primeiro plano as disciplinas de
* 'menos puxado''. Os valores indicam a dominância de uma procura caráter heurístico, como Matemática e . português pois são
por ensino "forte" em conteúdos e, em contrapartida, que o ensino disciplinas que se constituem em "linguagens" básicas. Em segundo
atual estaria aquém das expectativas dos responsáveis e dos alunos. plano, destacam-se as disciplinas de caráter científico e humanista,
Domina, por certo, a imagem de uma escola de ensino tradicional. como a ciências, história e geografia. A educação física e as demais
Isto se confirma com os objetivos atribuídos à escola, na visão dos disciplinas aparecem em terceiro plano. A atribuição de valores
responsáveisjáque consideram, como função desta, preparar, instruir diferenciados às disciplinas reforçam a interpretação de que a escola
e disciplinar a criança (70,6%). Ainda que predomine a visão idealizada pelos informantes se aproxima mais da concepção tradicional
tradicional, é importante destacar que, também são apontados como de ensino. ;
objetivos da escola o "desenvolvimento da criança" (14,96%) e 7. Os alunos quando levados a ordenar as disciplinas
a "mudança da sociedade" (l 1,66%). Estes dados permitem concluir por preferência ou gosto, apontam a seguinte ordem decrescente:

77
76
educação física, matemática, português, ciências, inglês, geografia, articulada e que os especialistas devem tanto repensar as formas que
história, francês, educação musical e química. Tal ordem desgosto" transmitem a diferença quanto o significado mais amplo da mesma,
elaborada pelos alunos apresenta apenas uma diferença básica se isto é, fora da dinâmica interna ao campo dos especialistas.
confrontada com a * 'importância'' atribuída às disciplinas. A educação
física representa a disciplina que mais gostam do currículo escolar.
Este dado possibilita concluir que os alunos distingem "importância*'
ou ''utilidade" de "gosto" ou "prazer". De fato, parte importante
do discurso pedagógico procura, com enormes dificuldades para
encontrá-las, formas de ensino que permitam conciliar importância
e prazer ou gosto.
8. Os informantes quando questionados a respeito
da importância da educação física na escola atribuíram os seguintes
percentuais: 93,3% dos responsáveis e 81,1% dos alunos, julgam esta
disciplina importante. Entretanto, os alunos ao se manifestarem
quanto à participação obrigatória, ou optativa, apresentaram
percentuais aproximadamente divididos. Consideram que esta disciplina
deve ser optativa 43,5% dos alunos e 30% dos responsáveis.
Embora estes números não sejam majoritários, de qualquer maneira,
indicam que há uma clara distinção entre a importância da disciplina
e sua obrigatoriedade.
9. Os valores ou objetivos sociais que os responsáveis
atribuem à educação física se vinculam à socialização com o esporte
e ao desenvolvimento de atitudes psicológicas e sociais positivas. Os
alunos vinculam ao ensino da educação física os objetivos de caráter
biomédico. Os pbjetivos estéticos ocupam o segundo lugar e por
último objetivos psicológicos.
10. A distinção entre educação física e esporte obteve
graus relativos de reconhecimento, caso ela exista de fato. Entre os
responsáveis, apenas 40% declararam que há distinção entre os ditos
conceitos ou atividades. Entretanto, 54% não encontraram diferença 1
São co-atutores deste Capítulo Antônio Jorge G. Soares e Maristela David
entre os termos. Dos alunos, 47,5% responderam que ambas atividades dos Santos. A pesquisa foi realizada no Mestrado de Educação Física com apoio do
são a mesma coisa e 34,7% deixaram a questão sem responder. Apenas CNPq e sob minha coordenação.
2
12,8% declararam haver diferenças, embora, a maioria não explicitasse Cf. Lovisolo, H. e Wrobel, V. 1985.
3
Cf. Lovisolo, H. 1990/b. -
as diferenças. Somente 5% dos alunos atribuíram algum sentido a 4
Cf, Lovisolo 1987.
distinção. Os dados indicam que esta distinção está fracamente !
Cf. Nicolaci-Da-Costa (1987).

78 79
Capítulo 3
Regras, esportes capitalismo:
obrigatoriedade e escolha na
educação física escolar.

81
A crítica das regras

No campo da educação física, foi formulada e defendida nòVi


Brasil uma concepção das regras esportivas que considero teoricamente
errada e socialmente negativa, sobretudo quando lida a partir das
vontades de formação de sistemas e políticas democráticas, presentes
em largos segmentos da sociedade. Embora alguns dos formuladores
e defensores de tal concepção tenham, posteriormente, revisto-as
criticamente, as revisões não parecem ter ganho um caráter tão público
e notório quanto a concepção negativa originalmente desenvolvida. E
então a difusão de uma concepção errônea o motivo das reflexões aqui
ensaiadas e não apenas o erro.
Acredita-se que o erro, dentro das regras do jogo científico, é
autocorregivel. Entretanto, quando em nome dá ciência se difunde um
erro, e sua crítica e correção pública externa não é suficientemente
ampla e forte, em verdade se está semeando preconceitos. Um
preconceito é urna descrição ou explicação que esqueceu suas razões
de existência, quer as argumentativas elaboradas no seio de uma
tradição, quer as fatuais ou ambas. Nada mais distante da ética
científica do que semear preconceitos, embora essa ação seja mais
freqüente do que o desejado. É este o fato que nos leva a escrever,
reitero, e não o mero erro.,Um indicador da difusão é a enunciação da
concepção em pauta pelos alunos de graduação e pós-graduação em
educação física, também, deve ser dito, ela é moeda bastante corrente
entre os docentes dos cursos.
Faz-se necessário realizar ainda outro esclarecimento. Embora
se partilhem os valores que orientam a critica (por exemplo, o
imperativo de ampliar a solidariedade para se compensar a
competitividade social, a igualdade de participação nas aulas de

83
educação física no contexto escolar ao invés de favorecer o
desenvolvimento dos melhores, o desenvolvimento do esporte baseado caso do Brasil, embora seu sistema educacional seja altamente
nofairplayao invés de baseado em vontades competitivas e cegas de excludente.4 Porém, não somos menos funcionalistas <;e afirmamos_a
prestígio e triunfo e a participação na criação das regras reguladoras funcionalidade das regras em relação à dominação de classe ou à|
formação de personalidades sociais adaptadas às competições da
economia, da cultura ou da política. A afirmação popular de que todo Jb
dos jogos e esportes entre outros), devemos estar cientes de que o
fundamento no valor não faz automaticamente verdadeira ou válida a
crítica. Basicamente por duas condições: a) a realidade social não é o existente é produto do interesse de alguém é profundamente h
transparente e b) existem em nossa própria sociedade valores funcionalista e colabora com a construção de certezas, uma funçãd
contrapostos ou de difícil conciliação.1 Ambas as condições serão psicológica importante. Ser funcionalista não significa, entretantoA5^
exploradas ao longo deste trabalho. estar sempre errado. De fato, há muitas crenças, hábitos, regras, leis,' ~~
A concepção comentada é desenvolvida com nuances costumes e usos que são funcionais para alguma instância do social.
significativas pelos diversos autores que dela se ocupam. Interessa-nos Entretanto, há também outras quenão possuem nenhuma funcionalidade, O
aqui reduzi-la a um esquema básico: a uma espécie de modelo duro que sendo afuncionais ou francamente disfuncionais, e que ao invés de
ignora as qualificações, pois é esse modelo o que se percebe na fala dos integrar ou solidificar sistemas induzem processos desagregativos, de
alunos e de muitos docentes na troca cotidiana.2 Assim, a crítica não conflito e de mudança social.5 Se qualquer coisa é funcional para a
se refere a nenhum autor em particular e sim ao efeito conjunto de seus integração do sistema é quase impossível explicar a mudança e os
trabalhos, embora não sejam diretamente responsáveis por esses conflitos.
efeitos. Afírmaremosentãoquetrêsaxiomas descrevem, sinteticamente, O plano das intenções (da ação, da lei, da regra ou áè
a concepção pura das regras posta em questão: a) todas as regras regulamento) é o mais imediato no reconhecimento das funções. O
existentes na sociedade são funcionais paraareprodução da dominação agente habitualmente enunciasuas intenções ou finalidades de sua ação
do capital e da ordem social vigente; b) todas as regras que regem os que, de praxe, entendemos que se propõem atingir objetivos, finalidades»
esportes e as atividades de educação física compartilham dessa funções.6 As intenções do agente social, individual ou coletivo, entram,
propriedade e c) portanto os esportes e seu ensino (em clubes, no entanto, num processo interativo com as intenções de outros atores
academias e escolas) desenvolvem competências adequadas ao que podem possuir finalidades diferentes e mesmo de sinais opostos.7 ÜJ
funcionamento do capitalismo. . Os resultados da interação podem confirmar as intenções dos agentes,
podem também ser absolutamente contrários às mesmas ou meramente
A reiteração funcionalista indiferentes. Há, assim, um amplo campo de variabilidades, incertezas/%;
e contingências entre as intenções e os resultados. Há incerteza, em V
Observo que háum marcado enfoque funcionalista na construção particular, na relação entre as funções subjetivamente imputadas à
da concepção em pauta. A idéia básica do funcionalismo, a partir de ação e as funções objetivamente resultantes. Se o mundo social não Q
Malinowski, é que qualquer crença, hábito ou uso de uma sociedade é fosse organizado dessa forma não haveria nem bolsa nem esporte, nem
funcional para seu funcionamento, para a manutenção da ordem ou mundo social conflitivo, contraditório, paradoxal.
sistema social.3 Continua-se sendo funcionalista quando se afirma a Pelas razões apresentadas, podemos concluir que o estudo das
funcionalidade por exemplo da educação em relação à integração intenções (leis, normas, propostas, etc.) é uma parte dos estudos
social. Um sistema socialpode estar razoavelmente integrado, como no históricos e sociais, porém insuficiente no caso de não serem revelados
os resultados da interação social e os mecanismos que se consolidam
84
ias interações e processam as intenções dos agentes. Não podemos esportivas, imaginárias ou miméticas, substituíram parcialmente as
confundir portanto um estudo das intenções com aquilo que realmente lutas reais, possuindo, assim, um efeito civilizador.9 Se tiveram esse
ocorreu na história.8 Tendo em vista problemas semelhantes, é que efeito deveríamos, ao invés de criticá-las por desenvolver o espírito
Marx afirmava que o inferno está empedrado de boas intenções. Uma competitivo no esporte, agradecer sua ação civilizatória, isto é, sua
proposta, regra ou lei, funcional no plano das intenções, pode se tornar contribuição na redução da violência física da guerra, embora possa ter
disfundonal no das interações sociais, sendo o inverso também possível. significado o sacrifício dos corpos e sentimentos de muitos indivíduos
Quando os donos das fabricas inglesas introduziram os relógios para concretos ao submeter-se a treinamentos freqüentemente destrutivos.
controlar o tempo de trabalho, não imaginavam nem sabiam que essa
v A
O que importa aqui destacar é que os países ditos socialista^
inovação colaboraria significativamente para que os trabalhadores aceitaram com absoluto entusiasmo as regras e regulamentos vigentes
i •••'• ' •—' j - -' - — ' - ' —" • ~~
tomassem consciência do valor de seu tempo de trabalho, e começassem dos esportes desenvolvidos no capitalismo e, em especial, com a
|a reivindicar o pagamento das horas extras e a redução da jornada de contribuição pioneira e significativa da Inglaterra, sabidamente
jtrabalho. São as disparidades entre as intenções e os resultados uma considerada berço do capitalismo.10 Como podia serem bons para o
significativa razão para fazer das ciências sociais e humanas um campo socialismo os esportes e suas regras tão funcionais ao capitalismo? É
empolgante de pesquisa, além de constituírem um fator fundamental da bastante infrutífero, embora psicologicamente adequado para reinstaurar
a coerência, explicar a situação pelos desvios do socialismo real.
f Qualquer observador medianamente atento, colocar-se-ia o Entretanto, se alguém aceita esse tipo de explicação deveria, em termos
problema do grande desenvolvimento, nas sociedades ditas socialistas, de coerência lógica, aceitar os l " desvios'' da Inquisição ou o genocídio
que teve o esporte, guiado pelos mesmos regulamentos e regras nazista como "desvio*'. Este contra-exemplo, suficientemente
vigentes nas capitalistas. Este simples fato empírico deveria questionar poderoso, deveria levar, ps que defendem a cohcepçlo da funcionalidade
a confiança, partilhada por muitos educadores físicos, na existência de para o capitalismo das regras e dos regulamentos esportivos, a duvidar
uma relação direta e funcional entre competição esportiva e capitalismo. sobre a mesma. No entanto, ela passou pelo crivo da crítica empírica,
Percebe-se, sem demasiados esforços, que houve uma corrida esportiva, desenvolveu-se e é hoje moeda corrente. Tal fato pareceria indicar que
paralelaàcorridaarmamentista, encabeçadapelas nações mais poderosas a concepção afina-se ou se corresponde com demandas ideológicas e
e representativas dos regimes socialista e capitalista. O número de de sentimentos pré-constituídos. Podemos assim elaborar a hipótese
medalhas obtidas nas olimpíadas foi-nos apresentado como indicador que a concepção é uma luva para disposições, ideologias, atitudes ou
privilegiado das virtudes de um ou outro regime em aliança com os sentimentos difundidos e ainda vigentes.
triunfes obtidos na carreira espacial. Na verdade, no bojo da corrida Propositadamente coloquei em itálico a palavra todas quando
esportiva, os sentimentos eargumentos, a favor ou contra um ou outro sintetizei a concepção em pauta, pois se somente algumas regras são
regime, estiveram altamente misturados com seus irmãos mais velhos: funcionais e outras não, a concepção vai para o espaço e apenas nos
os sentimentos e argumentos nacionalistas. É difícil, e talvez seja resta estabelecer caso a caso a funcionalidade, disfuncionalidade ou
impossível, estabelecer com clareza qual desses sentimentos foi o afijncionalidade de cada regra. Em outras palavras, a concepção
dominante dentro da corrida armamentista e da esportiva. Por outro desmancha-se no ar e perde qualquer força explicativa. Nenhum
lado, talvez devamos reconhecer que a corrida esportiva foi útil para biólogo afirmaria, por exemplo, que todas as bactérias são danosas para
"sublimar" o enfrentamento armado. Inspirando-nos em Norbert a espécie humana. De fato, há bactérias positivas e negativas para a vida
Elias, poderíamos apostar na hipótese de que as competições ou lutas humana, por isto o biólogo não formula uma teoria geral sobre as

-86
justiça em qualquer nível. Teríamos que negar as lutas democráticas e
bactérias e a vida humana; ao invés disso reconhece sua importância e
seus resultados: a tendência à universalização e ampliação dos direitos
as qualifica sem generalizar. Proponho que, por respeito à lógica
políticos, civis e sociais.
partilhada no campo científico, se siga o mesmo procedimento em
Considero que há sentimentos fortes que impulsionam na
r relação às práticas esportivas e seu ensino. Ou seja, a partir da escolha
direção de formular princípios avaliativos do social de tipo universal,
dos valores que pretendemos reforçar, deveríamos analisar as relações
como o de toda lei é funcional ou todo esporte é funcional para o
de afinidades e oposição com os esportes, suas regras, modos de ensino
capitalismo. Acreditar nesses princípios simplifica enormemente o
e estilos de prática e desempenho. u Corresponde, então, ao invés de
esforço que devemos realizar para entender o mundo social. Quando
pressupor funcionalidades ou correspondências, demonstrá-las com os
acreditamos cegamente num princípio avaliativo universal fazemos
recursos teóricos e metodológicos disponíveis e mesmo com os que
uma extraordinária economia de pensamento. Tomemos um exemplo
possam vir a ser elaborados no processo de investigação e exposição.
dos dias atuais. Discute-se sobre a privatização das empresas estatais.'
A concepção sob o foco da crítica, em contrapartida dessa
Tanto os que são totalmente a favor quanto contra a privatização estão
Lu
'atitude prudente, parece que emerge de um preconceito, ideologia, * ' j-
realizando uma economia de pensamento e também engessando a
sentimento ou atitude muito simples: consideraquetodalei, regulamento
realidade. No fundo sabemos que não podemos decidir em função de
ou norma, foi ç é elaborada pelos opressores e exploradores para
um princípio único, a favor ou contra, pois deveríamos analisar
oprimir e explorar melhor os oprimidos e explorados. Assim, a lei, a
empresa
w.j
por
•~-_r empresa a partir
r^_—^r- —_-_: » de um conjunto
. de critérios de avaliação, y |—
norma ou o regulamento, origina-se nos interesses, necessidades ou
Na verdade, o que deveríamos discutir são os critérios. Além disso,
vontades dos poderosos; toda lei é funcional para os poderosos. É
deveríamos insistir sobre a necessária transparência da gestão das O
(bastante evidente que, em termos lógicos, essa concepção e a luta pela
empresas públicas. Sem transparência não,podemos nem discutir as
democracia são altamente contraditórias. O democrata acredita no "I •_--— f ^ . ^ _^_~r^:——,

empresas nem impedir que sejam utilizadas em benefícios privados. A


poder civilizatório e progressista da lei, norma ou regulamento,
transparência é uma condição necessária para o debate sobre as
democraticamente elaborado, tanto em relação ao espaço público
quanto no que diz respeito ao desenvolvimento pessoal e às relações empresas^ ;

(interpessoais da intimidade ou privacidade.12


Lei e limitação dos poderes
À bitolada concepção negativa e antidemocrática poder-se-ia
contrapor uma não menos bitolada que afirmasse: toda lei, regulamento
, . As regras nas sociedades organizadas sob regimes democráticos
-ou norma, é resultado das lutas dos oprimidos e explorados e leva a uma
são de tipo universalistas, assim uma vez formulada rege a vida dos
restrição nos limites do poder dos opressores e exploradores. Teríamos,
ricos e dós pobres, dos brancos e dos pretos e: dos membros das
então, a mesma funcionalidade apenas que às avessas, inverteríamos
diversas religiões, embora cada categoria social tenha diferenciados,
a direção de seus efeitos. Embora considere ambas as concepções
ainda que limitados, poderes de manipulaçao-interpretação da lei. O
como extremas e erradas, devo esclarecer que a segunda me parece, em
próprio soberano, ao formular a lei, a ela se submete. Na monarquia
termos de probabilidades históricas, e também dos desejos, estar mais
absolutista francesa o Rei podia colocar na Bastilha qualquer pessoa e
próxima das tendências das sociedades ocidentais e dos regimes segundo o tempo que sua vontade estabelecesse: Em uma democracia
políticos democráticos que a primeira. Caso contrário, o único
(republicana ou monárquica), a lei especifica os motivos e as
"progresso" político existente seria o da opressão. Teríamos então circunstâncias pela qual qualquer cidadão pode ser preso. A lei limita
\que negar os "progressos" nas lutas pela liberdade, a igualdade, a
89
88
o poder absoluto do soberano.
defender sua maldade ou bondade infinita.
Dentro dos limites estreitos da lógica bivalente do certo e
Thomas Hobbes é considerado o grande pensador político da
errado, diria que a segunda posição, quando considera a lei como
modernidade. Também pode ser considerado, embora existam
limitadora dos poderes dos poderosos, é menos errada, lógica e
interpretações alternativas, como o teórico do Estado Absolutista.
historicamente, e também menos negativa socialmente, isto é, sob o
Entretanto, Hobbes, ainda que concedendo poder absoluto ao soberano,
ponto de vista da esperança democrática, que a primeira. É portanto
argumentou, com êxito, que seus atos deviam estar precedidos pela
conveniente trabalhar teoricamente para aperfeiçoar a segunda
formulação dalei. O soberano, portanto, antes de agir tinha que legislai
concepção e destacar seus efeitos positivos sob o ponto de vista social.
e só poderia agir nos marcos da lei. Assim, a lei, torna-se o limite para
' Destaco dois fatos significativos de minha vida pessoal, em
o poder arbitrário do soberano. Sem lei o soberano é tirano, déspota.
virtude de ser muito difícil para mim aceitarum abismo entre experiência
Com a lei deve agir dentro da legislação que limita seu próprio poder,
pessoal e elaboração teórica, e isto, seja dito de imediato, parece-me
ainda que seja ele quem a formula. O Estado de Direito, um valor dos\
que é prática corrente entre os que defendem a concepção que estou
que defendem a democracia, afirma o papel limitador do poder que afl
criticando. Primeiro fato: meu pai, um operário metalúrgico, e seus
lei possui. Outro valor, o de que o poder vem do povo, consolidou-
colegas situavam-se nos marcos da segunda concepção, basicamente
se nas lutas pela ampliação dos direitos políticos, basicamente pela
por duas razões. A primeira é que de fato muitas das leis e regulamentos
extensão do voto e da cidadania atodos os maiores de idade, superadas
do trabalho eram por eles vistas como conquistas das lutas operárias
as diversas formas de voto qualificado. Renunciar às leis reguladoras
que resultavam em limitações legais do poder dos capitalistas. Também
do poder significa renunciar às lutas pelo estado democrático e a dois O
percebiam, segunda razão, que as leis políticas, civis e criminais
de seus valores: o Estado de Direito e o Voto Universal. Será que as CL
limitavam o poder dos poderosos, estabelecendo regras de jogo que,
regras que regem os direitos políticos, civis e sociais são meras
quando não os beneficiava diretamente, ampliavam seus campos de
Lação e influência e os protegiam do poder discriminatório. Deduz-se, funcionalidades para a reprodução do capital ou da opressão? Se assim
for a história deveria ser reescrita e as forças que, em diferentes
assim, que: se os fracos estão mal com as regras, estariam muito pior
momentos históricos, forampensadas, e se pensaram como progressistas,
sem elas. Do segundo fato ouvi inúmeras narrativas. Nos tempos de
nada fizeram por nós" ~~~' ~~'
ditadura e repressão política, os militantes de esquerda e os dirigentes
Uma parte importante, senão central, da história
dos trabalhadores praticavam, nas condições das prisões, untrígida
trabalhadores na modernidade, é a da luta pela substituição do poder
disciplina que implicava horários rigorosos e obrigatórios de ginástica,
paternal e patriarcal dos patrões pelo poder legal e contratual, pelo
de estudos, de tarefes vinculadas à alimentação e a limpeza. Certamente,
conjunto de regras que crescentemente regem a relação entre
o rígido conjunto de regras tinha por principal finalidade conservar a
empregadores e empregados. Foi um objetivo dos dirigentes operários \
integridade e dignidade pessoal dos ativistas políticos, sindicais e
quebraropoderpatriarcalparapoder estabelecer aidentidadedaclasse |
estudantis detentos. A primeira experiência me faz duvidar sobre o
trabalhadora. A greve foi um instrumento fundamental para se conseguir l
axioma de que toda regra é funcional para a sociedade capitalista; a_
essa ruptura, e por essa razão podia ser eficiente ainda quando não se \
segunda me faz duvidar sobre o axioma de que as regras dos esportes
obtivessem resultados palpáveis a favor dos trabalhadores; a luta pela
e das atividades de ginástica, a disciplina que as regras instauram, seja
legalização das greves foi um capítulo central na história da constituição
funcional para o capitalismo. 13Ambas experiências levam a considerar
do trabalhador moderno. Assim, grande parte das lutas operárias^
o caráter ambíguo, paradoxal, contraditório das regras, ao invés de
podem ser entendidas como processo de. substituição de um poder
90 91
paternal e patriarcal, sem limites, pelo poder limitador e regulador das baseada no conflito. Para Pareto, a história resulta das lutas entre as-^s>
relações estabelecidas na lei, nas regras, nos regulamentos e normas elites que disputam o poder. Assim, pensar a sociedade a partir dox;
que regem os contratos de trabalho. 14 Os trabalhadores ampliaram seu conflito não é propriedade exclusiva do marxismo nem dos progressistas. •
poder, formaram suas organizações, lutaram para conseguir uma Há uma assimilação quase que automática entre conflito e^;
legislação cada dia mais avançada. Os trabalhadores organizados desagregação. Sob este ponto de vista os conflitos seriam sempre *
civilizaram e ainda civilizam o capital. Será que os trabalhadores estão negativos, desintegradores. Na verdade, os conflitos podem causar ]
profundamente errados quando eles lutam por regras? Será que estão tanto desagregação quanto agregação e mesmo solidariedade. Depende^
errados porque o capital continua a se reproduzir adaptando-se a regras do plano no qual situamos nossa observação. O conflito armado entre
que limitam seu poder? duas nações é destrutivo. Contudo, o conflito pode aumentar a
f A concepção que estou criticando parece fechar seus olhos à solidariedade em cada nação, desenvolver a consciência nacional, criar
ibhistória. Considera, cega pelo dogmatísmo, que toda regra é ditada sentimentos na direção de estabelecer acordos que diminuem os
. pelo capital ou pelos opressores em seu próprio benefício. Ignora as conflitos internos. As regras procuram civilizar os conflitos, minimizar
' • - !*-—•_ c-:— 15 A
lutas pela limitação do poder das elites econômicas, sociais e políticas. suas perdas e, sobretudo, reduzir as quotas de violência física.
i i- Enfím, afirma dogmaticamente um absurdo teórico e, no plano social, regulamentação dos esportes parece estar_estreitamentevinculada com
_w • . - - - _
» apenas conduz na direção da desesperança, o contrário daquilo que a intenção de minimizar a violência física e os danos que dela resultam.
aspiram em suas propostas ideológicas. Insisto, se toda lei é funcional A história do esporte pode ser escrita sob esse ponto de vista.
^ aos poderosos o ideal democrático é insustentável. A única saida então Nenhuma regra elaborada para regular um conflito, qualquer
é a ditadura iluminada de elites ou unípessoaís. que seja sua natureza, tem um caráter eterno: as regras são
historicamente elaboradas e resultam; de uma negociação, real ou
Incerteza, regras e mudança simbólica, direta ou mediada; entre as partes em conflito. As regras
são elaboradas, por serem históricas, em. situações de incerteza.
A maioria das regras são elaboradas em contextos de conflito Nunca se sabe a ciência certa os efeitos positivos e negativos que
e incerteza. Se usarmos a expressão conflito em um sentido geral, a regra terá a partir de sua elaboração. Contudo, a regra não é
podemos considerar que as regras são elaboradas para se alcançar a formulada às cegas ou irracionalmente, ela possui • uma
solução transitória de conflitos. O conflito emerge do confronto de racionalidade historicamente limitada. Dou um caso para
poderes em função de paixões, interesses ou vontades contrapostas. A exemplificar. A regra de se pagar diferencialménte as horas extras
percepção de que na sociedade há conflitos é muito antiga e estava foi uma conquista das lutas operárias no contexto das ações para se
presente no pensamento de Aristóteles. Pensar a sociedade a partir do limitar a jornada de trabalho. Podemos estar quase seguros de que
conflito não é uma invenção de Marx, como muitos parecem acreditar. os patrões não gostaram dessa regra. De fato, a regra significou
Marx, em verdade, procurou uma explicação específica, e que uma forte limitação à exploração do capital e penalizou a utilização
considerou científica, do conflito na dinâmica histórica e acreditou da força de trabalho fora do horário pactuado. Hoje, entretanto, os
encontrá-la na luta de classes. É portanto um tipo especial de explicação dirigentes operários estão criticando a utilização das horas extras
do conflito o que caracteriza o pensamento marxista. Wilfredo Pareto, como estratégia empresarial de redução do número de
um pensador conservador-liberal, desenvolveu, juntamente com trabalhadores contratados. Este efeito -negativo sob o ponto de
Gaetano Mosca, uma outra interpretação da dinâmica histórica também vista dós trabalhadores; positivo; sob o ponto de vista dos

92 93
empresários- depende de uma situação nova em termos das técnicas O conceito democrático da regra
de produção e das condições econômicas. Ou seja, por haverem
variado certas condições históricas, uma regra conquistada pode ser A imagem de uma sociedade sem regras é um absurdo lógico
utilizada *'perversamente". Nega este fato o caráter progressivo e histórico. Lógico, pois o próprio conceito de sociedade pressupõe
das regras que regem o trabalho? Acredito que não, embora levem regularidades e estas nos remetem para o campo das regulações,
os efeitos negativos a revisitar e reformular as regras. Assim, as normas ou regras; histórico, por não se conhecerem sociedades sem
regras não são imutáveis e de praxe se estabelecem regras para regras de algum tipo. São estas constatações conservadoras? Acredito
mudar as regras. A discussão no momento é sobre as regras que não. O conservadorismo em relação às regras se ancora em dois
constitucionais que permitem ou não revisar as regras estabelecidas elos, por vezes, profundamente interligados: as regras vigentes não
na constituição. devem mudar e o modo dominante e seletivo de estabelecer as regras
Às regras significam um pacto entre as partes em conflitc^ é o correto. Observo, entretanto, que estas definições possuem um alto
pela qual decidem elaborar uma regra e a ela se submeter, O^ grau de relatividade. Um exemplo disso é que hoje no Brasil as forças
horizonte da regra é a superação, nunca definitiva, do conflito, da ditas progressistas são contra a revisão constitucional e sua mudança,
desordem, da violência. O que leva a elaborar a regra é o medo da pois pensam que mudar é retroceder, que a revisão pode significar
guerra, poderia dizer Hobbes. Ou, talvez, a intuição de que se perda de direitos sociais estabelecidos na constituição (estamos
estamos mal com as regras estaríamos pior sem elas. A situação dej necessitando de novas definições, de no vos instrumentos para pensarmos
conflito possui para Hobbes duas saídas básicas: ou a guerra ou o o atual momento),
pacto. A regra resulta da vontade de se estabelecer um pacto que O pensamento progressista atacou em diferentes momentos
regule o conflito. Os conflitos nem sempre desaparecem com as históricos as duas. crenças conservadoras em relação às regras. Primeiro,
regras que os regulam, apenas tornam mais civilizadas, menos indicando que as regras são elaboradas pelos homens em determinadas
violentas e, por vezes, mais equitativas suas resoluções conjunturais. circunstâncias históricas e que, portanto, estão sujeitas a mudança.
Há, assim, na aceitação das regras um profundo conteúdoj Segundo, afirmando que há um modo democrático de se estabelecer as
civilizatório. As partes, contudo, podem tentar desobedecer ou' regras. Seguindo a Rousseau, o pensamento democrático afirma que
manipular a regra. Algum poder .por cima das partes em conflito os homens devem obedecer as regras que eles próprios formulam:
deve ser o juiz nos casos de desobediência ou manipulação ilegítima obedecer as regras que se dão a si mesmos. ,Ao obedecer apenas as
da regra. Resolver um conflito por meio de um terceiro, o juiz de O regras auto-impostas os homens estariam superando a distinção ou
cissão entre os que mandam e obedecem, entre governantes e
fora, que julga diretamente -em função dos usos, costumes, isto é,
da tradição- ou em função dos pactos formal e legalmente governados? Esta questão é crucial para o pensamento democrático.
estabelecidos, é também um elemento constitutivo do processo A segunda afirmativa teve duas interpretações: a democracia
civilizatório. A crítica aos tribunais militares que julgam militares, direta e a democracia indireta ou representativa. O conceito democrático
sobretudo em casos que envolve a civis, é que o juiz é radical afirmou que aúnica democracia verdadeira ejusta é a democracia
insuficientemente de fora em relação a uma das partes em conflito. direta. O funcionamento político grego na época de auge democrático
Esta elaboração também se corresponde com a experiência de que foi tomado como modelo inspirador, da democracia direta.16 Em
ruim com regras pior sem elas, ou seja, pior ainda seria se não contraposição, e com base em diversos argumentos, os construtores da
J democracia ocidental e moderna inclinaram-se pela vigência da
existissem regras de nenhum tipo para julgar os militares.
/l/ Í^TA94^^ & 95
democracia representativa como forma de elaboração, controle e proibições, sem limitações. A maioria dos esportes aparecem estandôí
aplicação das regras. sujeitos a regras cada dia mais proibitivas da violência física. De fato,
Pessoalmente acredito que as duas formas de elaboração de se tomarmos num extremo a luta grega denominada pankration e, no
regras e decisões, a direta e a indireta, devem ter vigência em espaços outro, o estado atual do boxe, deveríamos pensar o processo como
diferentes do agir social. Não é este o lugar para estender-me, de forma aumento das proibições na forma e tipo dos golpes.18 O boxe se nos
exploratória, sobre o tema. aparece, em virtude das proibições, como esporte de luta menos
violento, mais civilizado queopankration, embora muitas consciências
Esportes e regras o considerem exemplo vivo do antiesporte.19 Os esportes com bola
originalmente caracterizavam-se pela violência física entre os
As regras esportivas disciplinam? A resposta a esta questão, praticantes, associada a umnúmero pequeno de regras. A * 'civilização''
obviamente, é sempre positiva. Qualquer esporte para existir deve desse tipo de esporte pode ser entendida como um aumento e
possuir um código próprio, uma armadura de regras que indicam o especificação das regras de jogo e das penalizações.
permitido e o proibido, os objetivos do esporte e o modo de seu ' As regras que constituem um esporte tampouco são imutáveis^
desenvolvimento. Ainda no caso de que imaginemos um esporte, uma Se temos uma história do futebol, do basquete ou das lutas é, em partej
luta por exemplo, na qual tudo vale, vigoraria a regra de que os porque suas regras foram modificadas. A mudança das regras, e os<
lutadores devem participar pela própria vontade. Sejogarmos escravos motivos dessas mudanças, é um capitulo que julgo central para
às feras poderemos fazer um espetáculo, abertamente anti-humano, qualquer história dos esportes. Assim como é central em história d(
entretanto não o podemos confundir com qualquertipo de esporte, pois Mireito estabelecer tanto o que muda nas leis quanto as razões dessas
os escravos não são voluntários da arena. Da mesma forma não mudanças. Se não houvesse continuidade e mudança não haveria
podemos confundir a atividade corporal realizada para se salvar de um história. Uma forma que temos de pensar essa questão é por meio do
terremoto ou de um naufrágio com atividade esportiva. Assim, o conceito de tradição. Podemos afirmar que osesportes, e em particular
aspecto voluntário da participação e as regras parecem ser centrais: a cada esporte, constitui uma tradição, e que em seu seio processa-se
representação ocidental do esporte exige a participação voluntária e tanto a continuidade quanto a mudança. Assim, o historiador do
a regulamentação. futebol pode, por exemplo, colocar-se a questão de quando e por quais
f Todavia, para entrarmos no jogo temos que respeitar as regras razõesfoi introduzido o impedimento. Pode-se perguntar que objetivos
/do esporte, com juiz ou sem ele, e o desrespeito leva ao conflito que, tinha a introdução desta regra em termos da dinâmica e da própria
não raro, acaba com o jogo. Os que não respeitam as regras, de praxe, estética do jogo de futebol. Pode pretender recriar o clima de
são excluídos dosjogos. A regra das regras dos esportes diz, no plano sentimentos, atitudes, expectativas, satisfações e insatisfações que
do dever ser ou como ideal regulatório, que devemos considerar o levaram à formulação do impedimento. Pode, também, correlacionar
oponente como adversário e não como inimigo. Trata-se de ganhar o as razões da mudança, e ela mesma, com outras "configurações"
jjogo e não de destruir o adversário que, aliás, pode estar em nosso time presentes em outras esferas da sociedade.20 Pode deslocar o olhar e se
'na próxima rodada. Esta regra diferencia o esporte dos combates ou da interrogar sobre o modo de reformulação de uma regra: estabelecer que
guerra. Na guerra enfrentamos inimigos e ganhar significa destruir. 17 atores participaram e como, por exemplo. A regra foi democrática ou
Eu gostaria de perguntar, retoricamente, aos que criticam as regras no elitistamente estabelecida? Traçará assim o. perfil dos que tomam as
esporte, se eles gostariam de participar de um esporte sem regras, sem decisões e sua dinâmica. Terá, provavelmente, que olhar para fora do

96 97
O
próprio jogo para atingir o conjunto dos objetivos explicativos. que ter razões de peso para queos que partilham uma tradição esportiva J^
O conceito de tradição leva a pensar que a mudança, se situada estejam dispostos a mudá-la. Essas razões deverão estar ancoradas naí r-
em seus marcos, para se efetivar deverá tanto ser assimilável pela tradição e apoiar-se em insatisfações deseus participantes. As propostas/" ^
cultura da tradição dos que a partilham e/ou por aqueles que são de mudança, portanto, deverão apresentar soluções para insatisfações j
considerados seus detentores. Tomemos as discussões atuais sobre o que, no entanto, respeitem a tradição. j—
modo de se realizar o lateral no futebol para exemplificar o que Os que ingenuamente propõem alterar as regras de um esporte
queremos dizer com assimilável pela cultura da tradição. Os que com objetivos experimentais ou de crítica podem estar dando murros
defendem o lateral com o pé estão fazendo uma proposição adequada em ponta de faca. Para se mudar uma regra devem existir fatos
para a cultura da tradição do futebol nam esporte que se joga definidos (insatisfações com a regra) e argumentos significativos
basicamente com o pé e no qual a participação da mão apenas está (apoiados na tradição ou em sua depuração). Há tanto preconceito em
permitida ao goleiro e aos jogadores no lateral- e podem argumentar mudar por mudar quanto em não mudar por não mudar. Ambos hábitos
que estão depurando a tradição e aprimorando a estética do jogo. Ou estão moldados pelos preconceitos de que o novo é o melhor ou de que
seja, podem propor uma mudança com o objetivo "conservador" de o velho é o melhor. Esses hábitos pouco têm a ver com o pensamento
realizar melhor uma tradição, que poderíamos chegar a considerar que se quer crítico, embora apareçam relacionados com disposições
como estando desvirtuada nas regras atuais do jogo que estabelecem sobre as quais gostaríamos de ensaiar algumas palavras.
o lateral com as duas mãos. Não conheço, em contrapartida, propostas
a favor de se efetivar o lateral como se faz o saque no voleibol; tal Tradição, disposições e invenção de regras situacionais
proposta, caso existisse, iria de fato contra a cultura do futebol,
enquanto a primeira se situa em seu coração. Situar-se na cultura da Quando as crianças nascem enfrentam um mundojá constituído,
tradição é um passo necessário, porém insuficiente para explicar a ordenado segundo valores e normas. Diferente não é a situação no
mudança. Seria também necessário que os que partilham a tradição do campo dos esportes e dos jogos, também aqui enfrentam tradições
futebol e, ou, os que detêm o poder em suas organizações, cheguem a constituídas sob os pontos de vista estético, ético e técnico. A
considerar como vantagem a mudança das regras. Deverão ser postos observação nos indica que a criança quando joga com uma bola, por
em ação mecanismos que estabeleçam consenso sobre a necessidade e exemplo, tenta controlá-la a maior parte do tempo. Ignora que há uma
sobre a vantagem da mudança nas regras do lateral. A discussão entre meta, que joga com outros e que há. diversas regras. A socialização no .
os que partilham a tradição do futebol (dirigentes de associações e esporte vai desde esses elementos básicos à internalização da tradição,
clubes, espectadores, profissionais, amadores, entre outros) pode ser por vezes nacional, daquilo que é belo, justo e tecnicamente adequado
fechada ou aberta, mais ampla ou mais restrita, contudo ela apenas será no jogo. Assim, jogadores e espectadores, socializados em uma
efetivada quando se estime que não gerará cismas, fraturas, tradição, podem julgar o jogo belo ou feio, justo ou injusto, técnico ou
fragmentações da tradição e de suas organizações. carente de técnica. A tradição forma nos atores disposições a partir das
Quis apelar à atenção sobre a complexidade que envolve a\ quais tanto praticam quanto julgam a prática de um esporte. Como os
mudança das regras no campo do esporte. Embora tenha desenvolvido / valores estéticos, éticos e técnicos não estão automaticamente
o tópico muito ligeira e rapidamente, parece-me que é suficiente para y correlacionados podemos sair insatisfeitos de um jogo no qual nossa
que pensemos duas coisas: a mudança nas regras dos esportes é um l equipe ganhou.
processo delicado e complicado e qualquer proposta de mudança terá J Se tomarmos o caso do futebol, dada sua dominância entre asf

98 99
f '/
preferências esportivas dos homens da sociedade brasileira, temos que coerente. De fato, há tensões, contraposições, inconciliações entre os
reconhecer que, junto às regras do esporte oficial, há um significativo valores presentes na tradição geral dos esportes e na de cada esporte
número de variações de jogo em função do tipo de bola, do tamanho em particular. O valor da técnica, posto a serviço de ganhar o jogo,
da'' quadra'' e do número de j ogadores. Há portanto uma rica invenção pode ir de encontro com os valores estéticos e também com os éticos.
de regras.situacionais dentro das disposições da tradição. Num pequeno Uma ética muito estrita pode fazer desinteressante o jogo. As
(levantamento feito com crianças, no Rio de Janeiro, elas mencionam inconciliações entre as disposições e valores -com os quais nos
aproximadamente vinte variações, das quais apenas duas possuem motivamos e orientamos para jogar, e também com os quais julgamos
reconhecimento oficial e seusjogos são televisados. As variações estão ojogo-, criam um amplo campo de debates-orientados por preferências,
também dentro da tradição do jogo de futebol e de seu aprendizado. que envolve comentaristas, espectadores e profissionais de cada
Uma observação mais detalhada possibilitaria destacar os fundamentos, esporte- e podem gerar regras que procurem conciliar transitoriamente
as técnicas, as habilidades e o desenvolvimento psicomotor e corporal os valores inconciliáveis. Conciliar transitoriamente significa encontrar
cada variação estimula e forma. Gostaria de conhecer algum regras que medianamente satisfaçam vários valores. Dou um exemplo.
rabalho que faça essa contribuição significativa, pois poderia instruir Uma redução drástica do direito a faltas no basquete, como resultado
professores ou treinadores do esporte na utilização das variações no do aumento das exigências éticas, reduziria a estética, a dinâmica e o
esenvolvimento dos fundamentos. Algumas destas variações brilho do jogo. A regra precisa conciliar o estado de várias exigências,
romovem o rodízio no jogo entre as posições de goleiro, defensor e valores transformados em objetivos, que mudam tanto por razões
'atacante, dando assim lugar a uma experimentação dos objetivos e internas quanto externas a tradição esportiva. A redução nos níveis de
habilidades requeridos por cada posição e indo, por exemplo, contra aceitação da violência nos esportes leva a regras mais rígidas em
nossa tradição de futebol que desvaloriza a posição de goleiro. Os relação às faltas, entretanto elas devem ser conciliadas com os valores
comentários e exemplos apresentados, destinam-se a remover o estéticos e técnicos presentes na tradição. Estas observações são muito
preconceito que considera a tradição esportiva como rígida e como mais significativas nos esportes deequipe, onde o confronto dos corpos
meramente impositiva. Trata-se, pelo contrário, de entender os graus é constante, mais ajustadas então ao basquete e futebol do que ao vôlei,
deliberdadeedeadaptabilidade situacional que cadatradição possibilita. por exemplo.21 Também uma mudança técnica pode provocar
.— Embora dentro da tradição, as crianças são ativas na geração insatisfações transitórias ou duradouras em esportes que não implicam
jdas variações e das regras que as organizam, pois não esperam para o confronto físico dos corpos. O aperfeiçoamento técnico do saque no
fazê-lo que alguma Associação de Futebol as legitime. Contudo, a "tênis-pode4evar -a dificultar enormemente a devolução, provocando
jcapacidadede geração de variações não nega o reconhecimento de uma primeiro admiração e depois insatisfações diante de um jogo que
variação como a oficial, se se quer, o "verdadeiro" futebol.,-Assim, a ganharia em monotonia. Caso se aperfeiçoasse a devolução, o jogo se >
/tradição do futebol possibilita tanto a experimentação de novas regras reequilibraria em termos de valores. Se isto não acontece, talvez se
de jogo, variações, adequadas à cultura da tradição, quanto o torne necessário mudar a regra do saque, por exemplo, obrigando a
reconhecimento e respeito do modelo ou variação oficial do futebol, A bater a bola a menor distância ou elevar a rede, para restabelecer o
tradição possui regras, entretanto também motiva a criatividade na equilíbrio entre ã inovação técnica e as disposições estéticas do tênis,
geração de novas regras que respeitem a cultura da tradição: os valores Cada tradição esportiva é, portanto, um precário equilíbrio afetado
estéticos, éticos e técnicos que a estruturam. pelas forças que á própria tradição mobiliza. Sendo o equilíbrio
Os valores não constituem um conjunto necessariamente dinâmico, a regra, como a lei, é uma solução transitória para a

100 101
conciliação de valores de difícil conciliação. quebrar com o corporativismo que fez da educação física uma disciplina
A dinâmica das tradições esportivas levam a pensar que obrigatória; do outro, elaborar argumentos e experiências persuassivas
constituem um excelente campo de reflexão sobre as práticas sociais, sobre sua necessidade social e pessoal apesar de deixar de ser uma^p
seus condicionamentos, interações, conflitos e soluções transitórias. disciplina obrigatória. As crianças de modo geral acham muito bom 5
Habitualmente os participantes de uma tradição esportiva discutem as comer chocolate, apesar de não ser sua ingestão obrigatória, e reação J
questões provocadas pela não conciliação dos valores, sobretudo a semelhante parece existir em relação com a educação física, entendida l
partir dejogosoudisputas passadas, emboratambém existam discussões como conjunto de atividades corporais e de práticas esportivas, no ^
baseadas em suposições sobre as vantagens e desvantagens entre contexto escolar.22 É oportuno se salientar, para eliminar temores hoje1 J
outras. Por vezes podem pretender solucionar as inconciliações infundados, que algumas pesquisas já realizadas indicam uma forte
estabelecendo um valor superior que submete, e mesmo exclui, os corrente de opinião a favor da não obrigatoriedade, sem, contudo, que t£
outros valores. Assim parece ocorrer quando tudo vale para se ganhar isso signifique uma avaliação negativa da educação física nos contextos lu
ojogo. Estas estratégias pareceriamterumadurabilidade relativamente escolares. a Os dados indicam, pelo contrário, uma avaliação ^
curta e logo os valores submetidos ou excluídos, os éticos e estéticos, extremamente positiva e a vontade da prática de esportes e atividades
revoltam-se e voltam a cena exigindo novas conciliações. O dopping corporais, em contextos de ensino, ainda no caso de não serem
é um caso por demais conhecido, podemos encontrar reações obrigatórios.
semelhantes nos esportes coletivos. Ó atrativo atual do basquete Se a educação física no sistema educacional é transformada em
americano parece derivar sua força de uma excelente conciliação entre atividades, tanto real quanto formalmente, poderia se tornar uma
demandas técnicas, éticas e estéticas. poderosa contribuição para a construção da democracia pessoal e de,
' Seria despropositado pretender que a discussão, a análise e a relações democráticas interpessoais. Entendo por democracia pessoal,
crítica, substitua o próprio esporte entre profissionais, amadores e em seus minimos termos, a construção de um sujeito autônomo capaz '
espectadores. Tal parece ser a proposta feita por alguns teóricos da de escolher, a partir de avaliações razoáveis, as atividades e associações/1
educação física, sobretudo daqueles queatuam em contextos escolares, nas quais quer participar. Entendo por democraciainterpessoalum tipo| ,
e em recreação com grupos populares, e que pretendem desenvolver de relacionamento não condicionado legalmente, um relacionamento
a consciência crítica, o espírito de justiça ou a revolta diante das que se processa na base do reconhecimento mútuo da autonomia, das
injustiças sociais. Pretende-se nas propostas que a reflexão sobre a afinidades de disposições, sobretudo emotivas, e no estabelecimento
sociedade, feita a partir do esporte e da atividade cultural, torne-se uma de acordos, de contratos, de parcerias.
* 'disciplina'' em sentido estrito, ao invés de continuar tendo o estatuto No caso da educação física tornar-se uma atividade não
real de''atividade" e o formal de disciplina no sistema de ensino obrigatória, as unidades educativas deveriam: a) organizar um leq ue de í—
brasileiro. Parece muito mais lógico e funcional que a educação física atividades esportivas, corporais e recreativas para que os alunos CL
no sistema de ensino seja uma atividade com objetivos definidos em escolham em qual participar; b) criar processos de conhecimento e dej Q
termos éticos, estéticos e técnicos e que o ensino das humanidades e experiência das mesmas para que os alunos as avaliem e as escolham/
das ciências sociais incorpore o esporte como objeto de estudo e em função de relatos razoáveis que justifiquem suas preferências e c)
reflexão, dada sua importância para o mundo e para a vida cotidiana constituir processos dialógicos que levem na direção de acordos, de
dos estudantes. contratos e parcerias em relação às regras dos esportes e das atividades
Abandonar a formalidade de disciplina significa, por um lado, corporais nas situações concretas em que ocorrem e também em

102 103
relação com a participação nos mesmos. atividades, far-se-á sentir o peso das respectivas tradições quando
Devemos realizar alguns comentários esclarecedores sobre o existentes. As regras e as normas de uma tradição viva e saudável não
que foi dito. A importância do esporte e da autoconstrução dos corpos, são vividas como imposição. Ao contrário, temos delas uma vivência
enquanto dimensão significativa da elaboração da auío-identidade na de naturalidade e de espontaneidade. Tornam-se impositivas,-
modernidade, leva a pensar que atividades esportivas e corporais não autoritárias, quando a tradição quebra-se e perde sua força. Podemos
obrigatórias contariam com a mesma ou maior adesão que sendo perfeitamente imaginar uma tradição já sem forças dentro da qual o
obrigatórias. Em segundo lugar, as pesquisasindicamque as preferências filho solicita ao pai que lhe consiga uma noiva pois está na idade de
pelos esportes e atividades corporais estão passando por um processo casar. A tradição hoje manda que cada um de nós procure sua própria
de diversificação, o gênero, a idade e a classe social são variáveis noiva. Quando a tradição perde sua força e vitalidade, a invocação de
incidentes nesse processo, tanto em relação com as práticas quanto em suas regras ou normas se torna autoritária. Hoje seria classificado de
relação ao esporte espetáculo. autoritário, senão de louco, o pai que ordenasse a seu filho casar com
A oferta-obrigatória por parte da escola- de um leque variado determinada mulher. As sociedades tradicionais de nosso passado
de atividades esportivas, corporais e recreativas-não obrigatórias para recente foram baseadas no poder patriarcal e paterna!. Durante muito
os alunos-, levaria a que cada aluno procure àquelas nas quais por tempo essa tradição esteve viva e saudável, quando começa a se
experiência ou antecipação acredita encontrar maiores satisfações quebrar, quando perde sua força, os mandamentos enunciados em
pessoais. Há um falso igualitarismo no fato de apenas se ofertar como nome da tradição tornam-se autoritários. Assim, a emergência do.
esporte o futebol e então se pretender que todos os alunos joguem, com autoritarismo é o sinal da perda da força da tradição.
independência de suas preferências e habilidades. Claro, se a única Na sociedade moderna a tradição democrática é a da igualdade
oferta para os varões é o futebol, está-se criando uma situação na qual e da liberdade. Significa que a tradição manda estabelecer a partir da
apenas se pode escolher entre jogar ou ficar olhando. Essa, por certo, suposição da autonomia dos indivíduos ps acordos, os contratos, as
é uma escolha muito pouco educativa sob o ponto de vista da formação parcerias. A tradição moderna se expande, com assincronias, em
de uma personalidade democrática. A formação dessa personalidade esferas diferentes: na vida pública, na privada, na empresa, na escola,
implica uma considerável reflexividade sobre o próprio eu, portanto nos hospitais. Começamos desde cedo a tratar as nossas crianças como
sobre suas possibilidades e limitações; implica fundamentalmente a se fossem autônomos para que chegem a sê-lo. 'Seria absurdo pretender
autoconstrução de um estilo de vida, dentro do qual se situa a relação que as crianças e jovens façam tudo o que seus pais mandam até os 21
com o corpo e com as atividades corporais. Não é importante que o anoseapartirdessemomento se transformem magicamente em adultos
aluno jogue futebol mal ou bem, o significativo é que realize as autônomos. O treinamento da autonomia, embora gradual como
atividades que colaborem com seu crescimento pessoal e uma dimensão qualquer treinamento, deve começar desde cedo.
desse crescimento é o reconhecimento de suas próprias limitações. Acredito que a implementação da educação física,
Gostaria de uma situação na qual o aluno que dança respeite os amigos atividade não obrigatória nos contextos escolares, poderia ser um
e colegas que praticam futebol e admire àqueles que se destacam nesse reforço para a tradição democrática. Eliminaria o poder coercitivo)
esporte, e gostaria que os que praticam futebol tenham as mesmas legal que os professores de educação física possuem sobre os alunos.
atitudes com seus colegas dançarinos. Essas atitudes são centrais para Os obrigaria á ser criativos no planejamento da oferta de atividades
uma democracia interpessoal. corporais e estarem atentos às demandas dos alunos: a sua autonomia
Evidentemente que em cada esporte, e mesmo em algumas e necessidades de construção de seus " eus" e de seus relacionamentos -

104 105
No fundo acredito que a transformação da educação Física em atividade Soares (1989), Santiago (1993) e Mendonça (1993).
12
não obrigatória pode colaborar muito mais com a construção de Cf. Giddens, 1993.
13
No filme Em nome do pai, a recuperação do espírito de luta do principal
personalidades e inter-relações democráticas que muitas palavras personagem está estreitamente vinculada à recuperação do corpo por meio da
escritas nessa direção, embora sejam essas palavras uma grande ginástica que pratica em sua cela.
14
contribuição para se mudar o estatuto legal da educação física no A economista inglesa Joan Robinson observou que, em seu pais, os
contexto escolar. capitalistas foram grandemente inovadores em contextos de lutas intensas dos
A/fOK J6 trabalhadores. Ou seja, as lutas dos trabalhadores obrigaram os capitalistas a
modernizar-se. O efeito de inovação provavelmente não estava entre as intenções
dos trabalhadores. O exemplo sugere mais uma vez a dificuldade de aplicar
princípios avaliativos gerais na interpretação do social.
15
Cf. Elias, N. (1992).
l6
1
Cf.Finley,M. (1988).
Ver o capítulo 1. 17
Algumas destas diferenças foram tematizadas por Anatol Rapapport.
2 18
O trabalho mais elaborado e lúcido da concepção acredito seja o de Bratch Sobre as lutas esportivas na Grécia conferir o trabalho de Poliakoff (1987),
(1992, cap.2). 19
Cf. Elias, N. (1992).
3 M
Uma crítica ainda válida aos' 'excessos' 'do funcionalismo foi formulada Uso aqui o termo "configuração" no sentido dado por Elias (1980).
por Lévi-Strauss (cf. Lévi-Strauss, 1975). 11
Meus comentários sobre o futebol são devedores das trocas com Antônio
4
As pesquisas de Sérgio Costa Ribeiro e sua equipe têm demonstrado Jorge G. Soares.
claramente a alta capacidade de exclusão do sistema educativo brasileiro. Contudo 22
Cf. capítulo 2.
o Brasil realizou uma integração da nacionalidade e de aceitação de valores por 23
Cf. Da Silva ( l 992).
outros caminhos.
5
Cf. Lovisolo, 1989, especialmente capítulo V.
6
É bom lembrar que temos duas formas ou perspectivas dominantes para
entender a conduta dos indivíduos. Sob a primeira perspectiva, que podemos
denominar de homus economicus, entendemos que o agente atua para alcançar
valores, objetivos, interesses ou finalidades mobilizando meios a seu dispor e
enfrentando condições que não pode mobilizar. Sob a segunda, que podemos
chamar de homus sociologicus, o ator social desempenha um papel, ou seja, atua
a partir de regras sociais. Os termos de agente e ator servem para indicar qual das
perspectivas usamos para explicaraação ou conduta. Embora não sejam teoricamente
integradas elas podem ser combinadas, por exemplo, quando sob a perspectiva do
agente consideramos as normas como condições.
7
Recomendo a leitura dos trabalhos de Boudon,1979, e Elster, 1983.
8
Tal confusão é muito freqüente nos trabalhos de história da educação e da
educação física. Os autores habitualmente tomam as intenções do legislador ou do
político como espelho da realidade.
9
Cf. Elias 1990 e 1992.
10
Cf. Elias 1992, especialmente Introdução e os capítulos III e V.
11
A questão da correspondência entre valores e práticas, mediada pelos
sentidos construídos pelos atores sociais, é ainda um campo interessante de
pesquisa. Ver, como exemplos de investimentos nessa direção, as dissertações de

106 107
Capítulo 4
Esporte e movimento pela
saúde: notas de pesquisa.

109
Introdução: o paradoxo do progresso e a saúde

Uma das formas mais freqüente e destacada de entender o


presente, consiste em situá-lo num complexo de relações com o
passado e o futuro. Quando realizamos esta ação, a questão avaliativa,
isto é, as comparações do presente que construímos com o passado que
reconstruímos, e também com o futuro que imaginamos, torna-se
central. A avaliação do presente torna-se assim produto também das
relações com o passado e o futuro.
Uma das perguntas que habitualmente orienta o trabalho
comparativo, em diferentes áreas da ati vidade.humana, é a interrogação
sobre o progresso em relação ao passado. Essa pergunta é habitual no
campo dos esportes competitivos, tanto entre os especialistas quanto
entre os desportistas amadores e os apreciadores dós esportes. Temos,
assim, uma espécie de hábito, e toda uma linguagem, que parece
obrigar-nos a realizar esse tipo de comparação. Comparamos as
marcas atléticas ou as formas de jogos coletivos do presente com os
do passado e hipotetizamos sobre os desempenhos, futuros, queremos
saber se o progresso é mais ou menos contínuo ou se há um limite para
as potencialidades humanas. Porém, a comparação também aparece
quando nos situamos no ponto de vista de avaliar a educação física e
as atividades corporai s não vinculadas ao esporte competitivo. Quando,
por exemplo, pensamos e avaliamos as atividades culturais em termos
de sua contribuição para o lazer, a recreação, os padrões estéticos, de
saúde e ainda sua contribuição para a produção cultural, da moral e da
política.
A idéia de progresso aparece então como tendo sido, e ainda
é, fundamental para nossa cultura, tanto quando a defendemos quando
a atacamos; tanto então quando defendemos a existência de algum tipo

111
o

O relativismo é o principal crítico da idéia de progresso. • ~\ \


OYs
de progresso como quando reagimos negativamente às propostas
concretas ou à própria idéia em si mesma. A idéia é suficientemente relativismo não é contudo uma idéia fora de lugar, malvada e sem ^
central como para que o presente, quando definido como crise, seja fundamentos. Enfrentamos, de fato, obstáculos consideráveis p a r a / §
tanto entendido como resultado da diminuição das esperanças no afirmarmos o progresso da pintura moderna em relação à clássica, para * f
progresso, por causa dos empecilhos ou obstáculos que o freiam, entender que Joyce é superior a Cervantes ou que nossos padrões j1^
quanto da perda nas esperanças que a própria idéia de progresso morais são superiores aos da Grécia clássica ou aos de uma tribo ^f
provocou durante longo tempo. NoBrasil, temas como desenvolvimento amazônica. Temos, assim, muitas dificuldades em formular argumentos
econômico, social e consolidação democrática estão profundamente sólidos que nos levem, sobretudo, a aceitar o progresso estético e
vinculados ao campo semântico do progresso. Os políticos, bem moral. Porém, é também muito complicado estabelecera superioridade
sabemos, usame abusam das esperanças sobre o progresso: econômico, da física relativista em relação à física clássica, neste caso a discussão
social e cultural. A idéia de progresso é então importante pois desliza para campos altamente sofisticados da história e epistemologia
estabelece um sentido, uma finalidade, uma direcionalidade para o agir da ciência.2 Todos esses objetos pareceriam ser portanto não
humano. A crise da idéia de progresso significa, conseqüentemente, um comparáveis ou incomensuráveis, como se afirma numa linguageiri
abalo, uma quebra do próprio sentido do agir humano. A idéia de mais técnica. Assim, o relativismo opera a partir de dificuldades reais\ «,
progresso foi um importante doador de sentido anosso estar no mundo. em se estabelecer o progresso e empurra na direção de se pensar que
Há vozes que podem defender o ponto de vista de que poderíamos estar a própria idéia pode provocar problemas maiores do que aqueles que
e agir muito bem sem a idéia de progresso, e de fato contam com bons parece querer solucionar. Por outro lado, o relativismo apresenta-se
argumentos para apoir essa convocação. Pareceria, contudo, que ainda como uma estratégia civilizatória baseada na tolerância e potencialmente
não nos ofereceram uma idéia suficientemente atraente e prática para associável com o pragmatismo.3 Se, de fato, não podemos^estabelecer
relações de superioridade ou inferioridade.'em quais argumentos
f--
abandonarmos a idéia de progresso.
As respostas à pergunta sobre o progresso compõem no basearíamos os esforços de colonização, civilização ou conscientização
entanto um campo conflitivo, pois sob diversos pontos de vista (moral do outro, daquele que nos é diferente? Neste sentido, o relativismo é
e estético, por exemplo) é difícil, e talvez impossível, afirmar que uma salutar reação contra os crimes cometidos em nome da confiança
estamos melhor ou pior que no passado. Os críticos do progresso do no progresso. O relativismo nos convida a admirar e conviver com a
presente, apoiam-se de praxe nesses pontos de vista para criticar diferença e com os diferentes e a realizar um esforço de compreensão
especialmente os otimistas do progresso, aos que entendem que o do outro, ao invés de um trabalho de domesticação ou transformação.
progresso estaria processando-se em todos os campos da atividade Assim, o relativismo não, aparece como uma idéia fora de lugar,
humana ou, pelo menos, em campos considerados centrais, significativos malvada e sem fundamentos. . '
e valiosos. A crítica à idéia de progresso significa um esvaziamento do O que denominamos relativismo pode ser entendido, embora
sentido do mundo. De fato, se partirmos da idéia de que não há não seja apenas isso, como um poderoso movimento de reação à idéia
possibilidade de progresso espiritual ou material no mundo muito do de progresso, sobretudo nas interpretações sobre o progresso formuladas
quefazemosperde seu sentidode longo prazo. Perdemosum referencial durante o século XIX. O relativismo antropológico criticou a idéia da
significativo para orientar e julgar nosso estar no mundo. A idéia de comparação entre o passado e .o futuro, de modo mais geral criticou a
progresso é de tamanha significação que podemos estudar a modernidade comparação avaliativa entre culturas diferentes sob o ponto de vista
sob o ponto de vista das afirmações e reações ao progresso.1 moral. Ou seja, o relativismo defendeu a idéia de que nos é impossível

112 113
estabelecer relações de inferioridade ou superioridadeentreas culturas.4
ampliação dos sistemas de esgotos e água tratada é na democratização
O relativismo epistemológico atacou nosso entendimento da ciência
do acesso aos meios de prevenção e cura das doenças. De fato, os
como processo de constante superação, pois afirmou que as teorias não
progressos em pauta não se distribuem uniformemente pelo planeta,
são comparáveis. No campo das artes, o relativismo também recusou
dentro dos países e entre as regiões. A luta pela igualdade na distribuição
representá-las como constituindo um processo de evolução. As críticas
dos benefícios do progresso continua sendo um poderoso motor do
relativistas colocaram pedras no entendimento dó mundo social como
agir humano.
processo evolutivo, de superação de fases ou estados anteriores.
Num mundo relativista emerge como um paradoxo o acordo,
Digamos que o relativismo nos convida a valorizar as diversidades das
quase uma certeza amplamente compartilhada, sobre a importância do
formas existentes, naíuraise sociais, ao invésde valorizar suaevolução.
progresso no campo da saúde. Esse acordo destaca o campo da saúde
Se houve um tempo no qual era politicamente correto expandir
como sendo muito especial para a confiança e ação dos que acreditam
o progresso, atualmente tornou-se politicamente correto a defesa da
em alguma forma de progresso. Será esse acordo uma das últimas
diversidade. Estamos hoje imersos, com nossas incertezas e dúvidas,
trincheiras da idéia de Progresso?
nos terriçnos ,005 relaíiyismos e dos argumentos que defendem a
A longevidade, ou a esperança de vidaf^nlu^fláá flJHk
impossibilidade da comparação em termos de superior e inferior, e
um indicador privilegiado e sintético para se afirmar o progresso no >
também das impossibilidades de responder clara e distintamente à
campo da saúde. Se as pessoas tivessem que escolher um país para
.-questão.de se estamos melhor ou pior que no passado em termos •Prt"imi l -lirtjnnriiinn i n ..--.,....._._

viver e apenas contassem com indicadores de educarão, FéHÍ


morais, estéticos e mesmo em termos de conhecimento científico.
e longevidade, não duvido que a maioria escolheria para morar o pais
Assim, a noção de progresso, que durante bastante tempo parecia dar
com melhor indicador de longevidade. O resultado hipotético, porém
um sentido, uma direção, uma finalidade ao processo histórico, já não
sensato, do jogo não menos hipotético de escolha entre países, indica
possui o mesmo poder iluminador.
a importância assumida pela esperança de vida.5
Há, contudo, relativo consenso em afirmar o progresso em
De fato, também podemos fazê-lo no campo do atletismo, por
algumas áreas do fazer humano. Em primeiro lugar, o progresso
exemplo, quando comparamos os registros do presente com os do
tecnológico, refletido basicamente no aumento da produtividade do
passado, chegando aestimar que háprogresso crescente no desempenho
trabalho, aparece como inegável campo de progressos, embora a
físico dos atletas. De fato, também em relação ao progresso esportivo
avaliação se complique quando consideramos os efeitos negativos da
ps efeitos perversos ou negativos mencionados, principalmente os que
massificação tecnológica sobre o meio ambiente e também sobre
se referem à saúde dos ex-atletas e à perda do sentido lúdico do esporte,
populações específicas. Em segundo lugar, cita-se o progresso em
são significativos para alguns relativizadores e críticos do progresso
termos do aumento da população e da esperança de vida, isto é, da
no campo esportivo. Criticam-se os esforços desmedidos para superar
longevidade, como áreas menos conflitivas de consenso sobre o
as marcas do passado que provocariam a deterioração, por vezes,
progresso. O aperfeiçoamento tecnológico, o aumento da população
permanente, da saúde dos ex-atletas.6 J
e da esperança de vida estão por certo estreitamente relacionados.
Assim, parece que poderíamos falar de progresso nos casos que
Entendemos que o aumento da população e da longevidade indicam o
podemos estabelecer: a) algum tipo de medida comparativa entriT
progresso na saúde das populações, possibilitado por inovações
desempenhos do passado e do presente e b) quando não se localizam^
tecnológicas que fazem mais leves e menos desgastante os diversos efeitos perversos ou negativos que relativizam os desempenhos^
tipos de trabalho e mais saudáveis as condições de vida, sobretudo na
conseguidos. Destaca-se, como preenchendo ambos os critérios, a
114 115
saúde, cujo progresso é registrado, especialmente, a partir do indicador Acredito que em volta da saúde e da longevidade formou-se um
"] sintético que é o aumento da longevidade das populações. poderoso movimento agregativo que comparte valores e interesses e
O progresso nessas dimensões, embora possa ser medido com tomou, ao longo do século, considerável magnitude e força
algumas dificuldades, não elimina as vozes críticas e descontentes em especialmente no Ocidente. Talvez seja o movimento social que possui
relação a suas implicações éticas. Contudo, as dimensões citadas do maior grau de acordo, apesar das tensões internas que o perpassam e
progresso (progresso tecnológico, aumento das populações e da daheterogeneidade própria de cada movimento, e isto sem dúvidas está
longevidade) possuem uma outra particularidade que nos interessa: relacionado com as avaliações e possibilidades de progresso nesse
a de serem bastante democráticas, no sentido que as pessoas comuns, campo. A manutenção da saúde, entendida não apenas negativamente,
sem formação especializada, podem manifestar suas opini ões valorativás como estando livre de doenças, porém positivamente como estando /-\ i^
e constatar no cotidiano as transformações associadas com essas em ou mantendo a forma, e da longevidade, estão crescentemente se ^
dimensões do progresso. Ou seja, as pessoas podem no cotidiano tornando valores orientadores da vida das pessoas e aglutinadores de o
visualizar o progresso tecnológico desde os computadores aos tratores interesses de origens bem diferentes e contraditórios, como os do O
e as máquinas de lavar roupas ou pratos e sentem no contexto o Estado, das seguradoras, das indústrias, dos especialistas, de amplos L
aumento da população e observam que a longevidade está mudando a setores da sociedade e de correntes de pensamento religiosas e -^
imagem do mundo, no sentido que as populações são cada dia mais seculares.
velhas, acarretando efeitos significativos em vários campos. As pessoas Podemos partir então da constatação da existência de um
podem avaliar se estas coisas são boas ou ruins a partir do universo de movimento pela saúde que, no entanto, assume íntensidades e
seus conhecimentos práticos e de suas experiências de vida. Podem, cv
características diferenciadas em cada contexto nacional ou regional. "
então, emitir juízos com bastante independência das opiniões dos Podemos observar que instaurou-se nos movimentos pela saúde uma
especialistas, caso bastante mais difícil quando se discute o progresso força emotiva e moral que impulsiona as pessoas.a viverem o máximo
nos campos da física ou da pintura ou no da moralidade de sociedades possível, mantendo a forma para chegar à velhice em condições físicas
significativamente diferentes. Em função de suas avaliações as pessoas e psicológicas de participação em diferentes esferas da vida social.
podem tanto se propor agir por mudanças radicais nos rumos do velhice, assim, está deixando de ser pensada como um momento de
desenvolvimento tecnológico quanto demandar meros aprimoramentos reclusão, como um estado de aposentadoria, no sentido literal de ficar 3
de seus percursos. Podementender, por exemplo, que muitos aparelhos recluso em um aposento, como um informante diz para o pesquisador.
de uso doméstico possuem mais programas que os necessários, A velhice está deixando de ser o-oposto da vida ativa, cujo símbolo foi
tornando-se portanto caros sem necessidade e elaborar propostas para durante muito tempo a juventude, para passar cada vez mais a ser
fazê-los mais simples e baratos. Ou podem mobilizar-se para acabar considerada como momento também dessa vida ativa. Há, neste
com a energia nuclear ou fazê-lo para que os carros sejam mais quadro, uma espécie de revolução no cotidiano que passa tanto pela / V
econômicos e seguros e os alimentos industrializados menos tóxicos preocupação com a saúde quanto pela resistência ou recusa a envelhecer, '
para o organismo humano. Também podem discutir sobre os valores no sentido tradicional dessa expressão, ou seja, a sentir-se desgastado,
e as implicações do crescimento da população e, sobretudo, sobre o usado demais, fora de circulação, enfim, um objeto do porão e das
próprio valor da longevidade. A saúde torna-se portanto um campo lembranças.7 Confrontamo-nos, portanto, com uma tendência para se Qí.
bastante democrático, no sentido de igualitário, de avaliações, propostas modificar as representações sobre a velhice como momento de O
e reivindicações. passividade, de inatividade e também da saúde como ausência de

116 117
doença, como funcionamento silencioso do organismo. As pessoas de intervenção que tentaram tanto promover o progresso quanto doar
parecem estar querendo crescentemente acumular anos sem perder
. um sentido à vida humana. Ações de intervenção que distribuíram

t, 'capacidade de participar, de circular, sem se sentirem ou serem vistos


como usados e gastos. Rejeitam portanto a reclusão nos aposentos
interiores ou no porão, pretendem ficar na sala, na rua, enfim, na vida
Q ativa. Também pareceriam estar querendo sentir-se física e mentalmente
valores e objetivos para a vida humana. Acredito que estamos hoje
metidos no meio de uma imensa pastoral: o movimento pela saúde.
Temos que começar a refletir e a entender os múltiplos sentidos e
efeitos desse movimento no presente e na perspectiva de sua história,
potentes, bem dispostos, equilibrados, com capacidade de autocontrole sobretudo se os especialistas e os não especialistas, e entre os primeiros,
entre tantas outras afirmações que sinalizam os significados que a saúde os educadores físicos11, pretendem desempenhar algum papel
está adquirindo na sociedade.8 responsável em seu seio.
^ Acredito que o movimento pela saúde está provocando uma
readequação daprópriaeducação física. Historicamente, há um poderoso Mudança de hábitos: crítica técnica e moral.
veio constitutivo da educação física que já na visão de Locke, provável
criador do termo, a vincula à formação de corpos sadios e potentes, sem O movimento pela saúde pode ser inicialmente considerado, ou
preocupações pelo aspeto competitivo ou pela performance esportiva. definido, como um processo de agregação ou convergência de valores
Acredito que na tradição da educação física esse primeiro objetivo foi e interesses que implica uma remoralização da sociedade, por meio dos
deslocado —e por vezes minimizado, no domínio das propostas mais indivíduos, através da mudança de hábitoscotidianos que se expressam,
recentes— por: de um lado, a preocupação pelas performances dos sintética e centralmente, no momento atual, na luta contra a gordura,
atletas e desportistas e, do outro, pelas propostas que atribuem à o fumo e a favor de manter a forma, corporal e espiritu..., por meio de
educação física um papel formador das consciências críticas, da hábitos alimentares, práticas esportivas e corporais que prolonguem a
inteligência ou de qualquer outro valor não diretamente ancorado na vida tanto quanto for possível.12 Cada um desses aspectos será
especificidade do trabalho com os corpos.9 considerado ao longo dó trabalho de modo sintético, exploratório e
s Parece-me que há sinais de que o movimento pela saúde fará não conclusivo. Pretende-se mais formular algumas hipóteses para
retornar a educação- física ao campo t das
• — preocupações
r t T*^—" com
~-*— a »« saúde,
!**»•-M*íj uma agenda de pesquisas do que propor conclusões sobre cada aspecto
entendida, entretanto, como uma noção de múltiplas dimensões: em particular ou sobre suas inter-relações.13
fisiológica, psicológica, estética, moral e espiritual, recreativa e de O movimento da saúde não é novo, possui uma história
sociabilidade. Diria então como hipótese que a educação físicajá está, considerável que ainda deve ser realizada no caso do Brasil, embora
e estará ainda mais no futuro, vinculada ao movimento pela saúde. muitas de suas características locais sejam semelhantes às que podem
Crescentemente, então, as atividades corporais e esportivas estarão ser encontradas em outras realidades.14 Como tantos outros movimentos
marcadas pelos múltiplos sentidos que interagem e desdobram-se em possui origens variadas e de difícil mapeamento e tem sido gerado tanto
torno da saúde. Devemos então nos perguntar até que ponto as críticas com a contribuição de especialistas no campo da saúde quanto de
aos movimentos higienistas, realizadas no campo da história da educação,
/• « ~—* •-• •--""" ' *•"• . -_^_ ~ —» - ' * leigos", e tanto a partir de grupos com identidade, valores e objetivos
físicanão devem serrevisitadasereavaliadas. Sobretudo, quando essas religiosos quanto de tipo secular.15 É muito importante realizar a
IQ
intervenções, essas pastorais __._. da higiene
. — . . . . e da saúde, foram apenas *——- história das variadas origens do movimento para não cairmos no erro
pensadas, sob os pontos de vista que se autoproclamam de críticos, de pensar que é um mero produto das ações médicas, das pesquisas
como estratégias de dominação, ao invés de também sê-lo como formas científicas e dos especialistas do corpo, embora esses sejam agentes

119
"
importantes dentro do movimento. Reconhecermos as origens variadas mudança basicamente moral e c) como junção ou conjugação de
e, em especial, asreligiosas e políticas, é importante para a compreensão aspectos técnicos e morais. Parece-me altamente plausível a hipótese
do movimento. de que as possibilidades-técnica, moral e suas combinações-, fazem
Embora haja diferenças consideráveis nas origens e nos modos parte da plasticidade ideológica do movimento, que permite enfatizar
de seu desenvolvimento, em cada contexto nacional ou regional, dois somente os aspectos técnicos da mudança nos hábitos ou enfatizar os
elementos aparecem como sendo bastante constantes e responsáveis aspectos religiosos e morais, ou mesmo se pretender uma articulação
pelo seu êxito cultural: primeiro, a capacidade que o movimento equilibrada de ambos os aspectos. Assim, por exemplo, a recomendação
demonstra em tomar seus valores e objetivos em acordos culturais, em para se abandonar o consumo das carnes vermelhas pode estar fundada
consenso social; segundo, a capacidade que demonstra em agregar tecnicamente na redução do colesterol. Contudo, também pode ser
interesses gerando organizações, regulações e ações a favor dos postulada a partir da necessidade moral de reduzir a agressividade, de
valores e objetivos do movimento. aumentar a equanimidade, enfim, de controlar a violência no mundo.
r^ O primeiro elemento, a capacidade de gerar acordos culturais, Também ambos argumentos, o técnico e o moral, podem ser combinados
'pareceria residir o ser facilitado pelo tipo de articulação discursiva do em uma única fórmula. A plasticidade permite que, por exemplo,
movimento entre os hábitos alimentares, os corporais e os estados médicos, com argumentos técnicos, e religiosos, apenas com argumentos
psíquicos. Apesar das diferenças notáveis em termos de regimes de morais, participem do movimento.
alimentação e sonho, de terapêuticas e atividades corporais, e apesar A plasticidade permite a pluralidade de leituras do movimento
também das diferenças nos fundamentos filosóficos, científicos e e favorece sua aceitação, pois permite se resguardar a especificidade
religiosos, o movimento da saúde estruturou-se e ganhou força a partir nos fundamentos, nos objetivos práticos e nos meios preferidos para
do acordo sobre a necessidade de promover mudanças nos hábitos de atingi-los por diferentes participantes (indivíduos ou grupos). Assim,
relacionamento com nossos corpos e que isto implicava mudanças das também faz parte da história possível do movimento as ênfases na
mentes, dos espíritos, das psiques ou das consciências. O movimento mudança técnica ou na moral, ou os propósitos de articular nos planos
demanda mudanças de atitudes, de estados de consciência para mudar das representações e das ações ambos os aspectos. No plano dos
H hábitos corporais. Por outro lado, promete que a mudança nos hábitos fundamentos, parecem altamente significativas as diferenças entre
corporais gera mudanças nos estados psíquicos. Mais importante que fundamentos técnicos (fisiológicos ou psicológicos), éticos e religiosos
a origem da mudança, consciência ou hábitos, o que importa é a difusão e também significativas são suas fôrmas de articulação e conciliação.
de uma circularidade entre corpo e mente. Assim, o movimento da Acredito que na maioria dos estudos sobre as práticas esportivas)
Q^ saúde possui como objetivo fundamental modificar hábitos de conduta, e corporais em nosso meio houve pouca atenção às origens das práticas
o tanto mentais quanto corporais, tanto psíquicos quanto físicos. De e de seus fundamentos morais. Em contraposição, dominou uma
modo geral apela para o individualismo, a responsabilidade individual, acentuada tendência critica para serem destacados os objetivos e
a força de vontade pessoal para provocar a mudança nos hábitos, fundamentos técnicos e políticos, deixamos assim de prestar suficiente
embora seja um movimento de apoio e solidariedade àqueles que atenção aos aspectos religiosos e morais do esporte e das práticas
pretendem modificar seus próprios hábitos. 16 corporais. Tal forma de entendimento ajudou a considerar as práticas l
A mudança nos hábitos, sob o ponto de vista meramente lógica, esportivas como pouco sérias, e pouco morais, apesar dos protestos
CâpUlllVaO t-V/111 V JJVSUWV dWMltw, v fsvu«f ^^.v.«__, _j f

poderia estar fundamentada em três tipos de argumentos ou modos de contrários atai tipo de interpretação. Observemos, contudo, que as-
intervenção: a) como uma mudança meramente técnica; b) corno criticas às práticas corporais ou esportivas cujo objetivo é modelar o

120 121
i
corpo, segundo padrões de beleza, possuem basicamente um fundamento O que estou propondo é que uma das leituras possíveis, e
moral. Não seria moral dedicar-se a isso pois há outras coisas mais Frutíferas, das práticas corporais e do esporte, pode ser realizada a
importantes a serem feitas na vida, critica-se assim o individualismo, o partir da ótica das propostas e ações para a mudança nos hábitos,
egocentrismo ou o narcisismo. Também se afirma que preocupar-se considerando tanto os componentes
c li técnicos quanto
I-IMUIUVI U11UW kuntv \jj wniu u ••<••..•_» .
1 os morais.
-.,- Uma
-.-—^_—i
com a estética demasiadamente, embora seja muito difícil definir o forma de fazer essa leitura, no momento, é vinculando os esportes a
"demasiadamente", é uma atitude alienante pois de praxe se aceita
'
as práticas corporais aos obj et••i vos- de
< J
mudança t-ii.:*
nos hábitos 1
do ,»„—+J
movimento h
um padrão estético exterior ou imposto, assim a crítica se apoia em pela saúde, Outra, é vinculando o esporte ao processo civilizador,!
razões de fundamento moral, basicamente no abandono da entendido basicamente também como mudança de hábitos, no sentido} ^,
"autonomia*'. Contudo, os fundamentos morais poucas vezes são proposto por Norbert Elias, de ser o esporteum conjunto de atividadesU—
explicitados. Há, no ar, uma certa má fé na exposição e defesa dos mirnéticas que permitem substituir a violência física pela simbólica e 01
fundamentos. Por sua vez, o pensamento político e social crítico contribuem poderosamente, via o respeito das regras esportivas, para O
considerou durante longo tempo que as práticas esportivas, e sobretudo o desenvolvimento dos hábitos de autocontrole, de respeito às regras
o esporte competitivo, significa uma alienação, uma falsa consciência, e do hábito de saber ganhar e perder considerando o outro como um
um desvio daquilo que importava: a reforma política e moral da adversário e não como inimigo que deve ser destruído. Ambas as
sociedade, isto é, a nova ordem social, O pensamento crítico viu no leituras podem, teórica e empiricamente, ser relacionadas, e iremos
esporte uma forma de desenvolvimento de uma' 'moralidade negativa'', apontando alguns desses relacionamentos.18 j
de tipo competitiva e egoística, e deixou de observar os elementos de A vinculação que estamos propondo, entre esporte e mudança^
uma "moralidade positiva" talvez também presentes nas práticas. de hábitos, significa redefinir os modos de fazermos pesquisa no campo
Assim a crítica ao esporte competitivo realizou-se a partir do desejo de do esporte. As pesquisas sobre as práticas esportivas e corporais são
uma moral cuja base de valores devia ser a solidariedade e o altruísmo. habitualmente entendidas como sendo exteriores ao objetivo principal
O pensamento crítico considerou que as práticas esportivas ocupavam de mudança nos hábitos que o movimento de saúde propõe e às
o cotidiano das pessoas distanciando-as da política, e deslocando tendências do processo civilizatório. Apesardospromotores do esporte
conseqüentemente os verdadeiros problemas e interesses. Formulava- terem enfatizado a vertente moral do esporte, entendida basicamente
se então uma crítica política ao esporte cujo fundamento também é de como mudança nos hábitos, este aspecto é pouco explorado nas
tipo moral, pois há alienação ou falta de responsabilidade no fato de pesquisas sobre os esportes realizadas no país. Mesmo quando se
dedicar-se à coisas que obstaculizam construir um mundo mais justo, reconhece, por exemplo, o papel'dos religiosos na promoção do
portanto mais moral. Deixou-se de considerar, por exemplo, que no esporte, poucos sentidos se extraem desse tipo de constatação. 19 J
esporte competitivo a regra se aplica igualitariamente e que esta De fato, muitas pesquisas não interrogam os informantes sobre
experiência é básica e constitutiva da vida democrática. Deixou-se seus hábitos alimentares nem sobre suas avaliações sobre os mesmos,
também de perceber que á dinâmica das competições levam a ou sobre suas relações com os estimulantes (químicos, fumo, drogas,
considerar o inimigo como mero adversário e obriga a aceitar o rodízio entre outros), nem se preocupam pelo universo geral das representações
no pódio e no poder. Essas experiências, a do respeito da regra, a da pelas quais os informantes dão sentido a suas práticas esportivas. Na
representação do adversário e da conformidade em relação ao rodízio área da educação física dominaram as pesquisas de tipo'' survey'', com
do poder são atitudes esportivas que, ao mesmo tempo, são básicas um recorte acentuado das possibilidades de entendimento e de resposta
para o funcionamento das sociedades democráticas.17 por parte dos entrevistados, que resulta num recorte das significações,

122 123
portanto do entendimento das condutas objeto das pesquisas. Quando com a natureza. Há, portanto, uma moralidade do lazer? Há lazeres
o informante declara que faz uma atividade para manter a forma, por morais, outros menos morais e alguns francamente imorais? Como se
exemplo, pouco ficamos sabendo sobre o significado dessa expressão. estruturam essas classificações em nossa cultura? Podemos também
Mais ainda, domina o entendimento que manter a forma está considerar o lazer de modo terapêutico, como momento necessário
estreitamente vinculado a meras técnicas médicas de saúde ou ao para superar ou compensar o estresse e desequilíbrios da vida.
domínio de padrões estéticos. Assim, os significados morais de manter Evidentemente que neste caso vinculamos o lazer às aspirações de
!
a forma esvaiem-se, perdem qualquer sentido. Manter a forma pode saúde. O lazer pode, em vários sentidos, estar ocupando o lugar ou os
tanto ter como referência um padrão de estética corporal quanto um papéis da oração. A oração sempre foi vista pelo crente como modo de
estado fisiológico e psicológico desejável, ou todos esses objetivos- reencontro com a paz de espírito, como superação das dores, das
^ significados ao mesmo tempo. Porém, pode também enviar-nos para preocupações, enfim, do estresse e desequilíbrios da vida. Podemos
J adimensão moral do autocontrole, da responsabilidade, da sociabilidade então pensar a atividade corporal a partir de um modelo religioso?
í entre tantas outras. Pessoalmente acredito nas possibilidades de ampliação de nosso
9 r * Não temos, por outro lado, ainda clareado as relações que se entendimento que poderíamos obter desse tipo de leitura.
'estabelecem entre a estética e a saúde. De fato, podemos estar , A prática corporal pode então ser entendida como forma de se
entrando, ou podemos já estar no meio de representações que alcançar um equilíbrio, como caminho que permite o crescimento do
identificam ou igualam certos padrões estéticos com indicadores de autocontrole, do domínio sobre si mesmo. Evidentemente que estes
saúde atual ou futura e com a vigência de sinais morais. Um abdômen j objetivos tem como referência um horizonte moral e civilizatório que
de homem sem gorduras parece haver-se tornado hoje tanto um padrão demanda em nossas sociedades um primado dos mecanismos de
estético quanto um indicador, presente ou futuro, de saúde. Porém autocontrole sobre os de controle externo. A própria alimentação já foi
pode ao mesmo tempo ser entendido como sinais de estados morais? postulada como caminho de redução das condutas violentase agressivas
Uma mulher com corpo firme, sem gordura visível nem celulites é um e o esporte como forma de canalização e de sublimação das tendências
padrão estético valorizado, entretanto não é ao mesmo tempo um agressivas. Na retomada do esporte de alto nível nas olimpíadas,
indicador de saúde, de hábitos alimentares e de práticas corporais, pretendeu-se encontrarumaatividademiméticaqueajudasseasubstituir
enfim de um autocontrole e de uma moral que permitem manter e as guerras pelas competições esportivas. O horizonte moral que esses
construir esse corpo? Ou seja, não estaremos entrando ou construindo .exemplos destacam é freqüentemente esquecido ou não relacionado
um sistema de representações sobre o corpo pelo qual os indicadores nas pesquisas que, apressadamente, reduzem os significados do agir
estéticos, de saúde e morai s se mimetizam, se confundem, se sobrepõem? humano. Assim, o aspectomoraldo movimentodasaúdeé desconhecido,
Observemos que também no lazer podem existir multiplicidades como também é desconhecida a participação do esporte na formação
de sentidos. O lazer pode ser entendido como mero momento lúdico do indivíduo, no crescimento das formas de domínio sobre si mesmo,
e enquanto tal Valorizado. Sob este ponto de vista, o lazer de jogar um componente central do aspecto moral do movimento pela saúde.
pôquer ou o de realizar caminhadas ecológicas situam-se no mesmo Em sua história, ó movimento pela saúde não criticou apenas
nível, no da satisfação subjetivado jogador ou do caminhante. Entretanto, tecnicamente hábitos que estavam errados em termos da preservação
os anúncios do lazer ecológico estão nos meios de comunicação e nos da saúde. Há por certo médicos que realizam sua intervenção no seio
murais escolares, não sendo este o caso das mesas de pôquer. O lazer do movimento de um modo técnico, informando que se quisermos
ecológico situa-se nos marcos de uma nova moral no relacionamento viver mais devemos seguir um conjunto de regras técnicas que

124 125
significam mudar nossos hábitos. Colocam suas recomendações sern longevidade e num corpo sadio que, cada vez mais, torna-se sinônimo
levar em consideração, pelo menos abertamente, avaliações de tipo de um corpo estético. Digamos que o movimento para universalizar-
éticas e estéticas sobre a gordura, o fumo ou a inatividade física. se adotou a linguagem dos interesses, ocultando sua tradição de critica
Contudo, o movimento no seu conjunto, aberta ou implicitamente, moral, embora a moralidade apareça nas bordas das criticas aos maus
sempre indicou que esses hábitos implicam algum tipo de defeito, hábitos. De fato, devemos reconhecer queédifícil, senão absolutamente
perversão ou falha moral. A luta contra o alcolismo foi um tipo de açãc impossível, criar um movimento social sem algum tipo de apoio na
cujo conteúdo moral foi claro e dominante. Entretanto, infiltra-se indignação, no sentimento moral, e na subseqüente crítica moral.
atualmente na crítica ao gordo» ao fumante e ao inativo, uma dimensão
moral. A luta contra esses males é encarada por grupos e participantes Agregação de interesses
do movimento pela saúde como missão e é difícil distingui-la das
missões religiosas ou dos movimentos moralizantes. Essas figuras -ai Afirmamos acima que, em segundo lugar, o movimento da
do gordo, do inativo e do fumante- não se caracterizam apenas pon saúde é forte e cresceu rapidamente porque possibilitou agregar
possuir hábitos que provocam danos à saúde e diminuem as chances de\ "tf- interesses de diversos atores sociais e mesmo de atores sociais que
vida, carregam também algum grau de estigma moral, sobretudo " podem estar em confronto em outros movimentos. Em vários sentidos,
quando persistem nessas condutas desajustadas e que, sob o ponto de é nos Estados Unidos e em países da Europa onde essa agregação de
vista moral, atentariam contra a vida humana. A gordura situa-se assim interesses pode ser percebida mais claramente, embora seus sinais já se
na longa tradição religiosa de crítica à gula. Junto com o alcoolismo, deixem sentir no Brasil. Seria muito difícil explicar a rápida expansão
o uso de drogas e o fumo, a gordura é situada no polo das condutas do movimento sem levar em consideração a sociologia da agregação
humanas marcadas pela falta de autocontrole, de domínio sobre si dos interesses que promove sobre a base de seus aspectos técnicos e
mesmo, da falta de força de vontade e perseverança, de entrega a morais. Realizemos uma breve Descrição-desses atores e de seus
prazeres fáceis. Os maus hábitos, principais inimigos do movimento da interesses. . • . •
saúde, são portanto associados à linguagem da crítica moral. f Para um dos atores principais das sociedades modernas, os
A junção da crítica técnica e moral aos hábitos contrários àN estados dos países desenvolvidos, passou, a ser um bom negócio
saúde é uma característica central e recorrente do movimento. Sob este investir na promoção da saúde, sobretudo quando se considera que
ponto de vista, o movimento aspira à formação de uma comunidade '-b "domina aa r»r\rãcientí>i^5/-»
"Hrvmino representação Hf»7mf»
de que as
a ç práticas
nrátírãc .do movimento ne»]?
Af\ trm\rimt*ntn. pela cnúHí*
saúde
moral. Alcoólicos Anônimos, Vigilantes do Peso e grupos antifumo r- redundam em menores taxas de doenças .e, como conseqüência, em
são organizações com padrões comuns que objetivam modificar menores gastos médicos e hospitalares e maior produtividade no
hábitos na medida que constróem uma nova personalidade moral. A campo da produção. Reduzir as internações, sobretudo as provocadáT
confissão, o reconhecimento da culpa e ,das fraquezas e os rituais pelas doenças cardíacas e o câncer, tornou-se um objetivo das políticas
grupais, são práticas comuns das organizações que procuram formar de saúde. Em relação às primeiras domina o quadro, gerado pelas
um novo ser, produzir uma conversão.Foram e são também práticas de o pesquisas, que a interação somativa entre gordura, fumo e vida
muitos movimentos religiosos. Entretanto, é possível trabalhar com a sedentária aumentam significativamente as taxas de risco de doenças
hipótese de que contribuiu com o crescimento do movimento um certo cardíacas. O fumo tornou-se o principal agente provocador do câncer
ocultamento da crítica moral, destacando-se nas propostas de mudança de pulmão, e existe a impressão, não fundada claramente em pesquisas,
nos hábitos uma linguagem centrada nos interesses na saúde, na; \Íe que uma alimentação inadequada contribuiria com diversas formas

126
( 3
de câncer. Neste quadro, a ação dos estados a favor do movimento da vinculadas à produção de alimentos, material e aparelhos desportivos,
saúde aparece como baseada nos sólidos interesses da política pública vitaminas e complementos dietéticos, higiene e cosméticos. De fato,
no campo da saúde. Os estados reforçaram o movimento pela saúde em vários momentos, e especialmente a indústria alimentar, entrou em
com campanhas publicitárias, com apoios explícitos e com regulações conflitos com o movimento da saúde. As criticas do movimento aos
legais que limitaram as possibilidades dos maus hábitos. As regulações conservantes, corantes e sabores artificiais foi e é ainda dura. Contudo,
que restringem o fumo, que limitam sua publicidade e que taxa cada vez temos a impressão que uma boa parcela das empresas produtoras de
mais o consumidor de cigarros são exemplos claros. E de se destacar alimentos mudou sua conduta e procura alinhavar sua oferta em função
que no combate ao fumo, o movimento pela saúde chega a tomar
das demandas do movimento da saúde. A visita aos supermercados
características de uma guerra santa, de uma luta religiosa contra os permite conferir como as embalagens registram essa adequação,
hereges que perseveram em hábitos contrários aos objetivos de saúde oferecendo produtos de baixo nivel de gordura, produtos vitaminados
e longevidade. Há áreas dos Estados Unidos onde a guerra simbólica
e com conservantes, corantes e sabores que se declaram naturais. A
dos não fumantes contra os fumantes pode sem dúvida ser comparada indústria aparece ofertando uma ampla gama de possibilidades de
a muitas guerras religiosas. escolha e construindo a imagem de um consumidor soberano que pode
Um segundo ator importante são as empresas seguradoras,
escolher entre o produto com gordura ou sem ela, com açúcar ou sem,
indissoluvelmente vinculadas como é sabido ao capital financeiro, que
entre arroz ou trigo integral ou não integral. Podemos considerar que
promovem uma política de preços e descontos destinadas a favorecer
o movimento da saúde, apesar dos conflitos iniciais, deu novas
aos não íumantes e àqueles que têm medidas de peso dentro das taxas oportunidades à indústria alimentar. Evidentemente que no campo da
de menor risco. Favorecem também então as práticas corporais e roupa e do calçado esportivo e da produção de aparelhos e instrumentos
esportivas. As empresas de seguros são poderosos agentes capazes de
para se manter em .forma, criou-se um novo segmento industrial que
encomendar pesquisas no campo da saúde e divulgar seus resultados
ganha espaço crescente no campo da produção e da propaganda.
nos meios de comunicação para formar no público atitudes favoráveis
Os especialistas da saúde, em especial a classe médica, porém
à orientação moral e técnica do movimento. As seguradoras pressionam também os educadores físicos, os fisioterapeutas, os massagistas e
os estados para que tomem medidas no campo da segurança no outros militam ativamente no campo do movimento pela saúde. Geram
transporte e na indústria e apoiam as lutas do movimento pela proibição
discursos e dietas, métodos de emagrecimento, tratamentos antifumo,
do fumo nos espaços públicos. Participam da guerra contra o fumo,
realizam pesquisas para fundamentar sua intervenção, entre outros
contra o consumo de gorduras e a favor das práticas esportivas. Sua
produtos e "atividades, por vezes em estreita colaboração com a
ação salienta claramente que os interesses de diferentes segmentos da indústria alimentar e farmacêutica. Escrevem artigos, livros e falam nos
produção podem ser contraditórios, porém também podem ser apenas
meios de comunicação diariamente. Criam clínicas, institutos, academias
transitoriamente contraditórios. Um exemplo dessa situação é a indústria
para práticas esportivas, programas públicos e privadosparaa realização
automotriz, em princípio não muito interessada em normas de segurança
dos objetivos do movimento: contra a gordura, contra o fumo a favor
que aumentavam os custos dos automóveis e que adequou-se à nova
da atividade corporal. Na promoção da saúde os especialistas
situação quando, obrigadas pelas regulações legais, todas as empresas encontraram um campo que lhes permite lutar pelo prestigio na mídia
tiveram que enfrentar as mesmas normas e portanto terem os mesmos
e na moda e fazer bons negócios, protegidos pelo convencimento
custos.
moral de que estão lutando por uma causa justa e boa.
Um terceiro ator significativo é o conjunto de empresas
• Com diferentes ritmos e intensidades as pessoas de diferentes
128
129
partir da distinção entre o corporal e mental, o físico e o psicológico, o corpo e o
grupos sociais aderem aos objetivos e práticas do movimento pela
espírito domina amplamente o entendimento de seu relacionamento, quase pensado
saúde. Podemos por toda parte constatar que os valores de longevidade como circularidade ou condicionamento recíproco entre saúde ou disposição
e de manter a forma são aceitos como quase evidências que não corporal e espiritual.
9
demandam muitos argumentos a favor. Os objetivos principais e atuais As propostas de uma educação ísica conscientizadora aparecem como
do movimento, o combate à inatividade corporal, ao fumo e à gordura fundadas em três fonles. A primeira, e mais óbvia, é a fonte política, o educador
físico é concebido como um agente político. A segunda, é a recusa à divisão do
também estão espalhando-se rapidamente. Ao mesmo tempo se
trabalho dos especialistas, uns formando as mentes eoutros os corpos. Pretende-se
multiplicam as propostas de atividades corporais e de mudança nos reconstituir a unidade da formação. A terceira, pareceria residir no sentimento de
hábitos alimentares. Temos assim conformado um campo amplo para inferioridade dos educadores físicos em relação aos educadores das mentes e da
a educação física, quer no plano da intervenção, de formulação de própria educação física diante das outras áreas disciplinares nas universidades. Do
propostas e sua implementação, quer no da investigação das múltiplas sentimento de inferioridade pareceria emergira "ansiedade" por um objeto teórico
próprio. O trabalho de Sérgio M. (1989) dá abundantes sinais para confirmar essa
dimensões desse poderoso processo que temos diante de todos nós.
interpretação.
10
O sentido das pastorais da higiene e da saúde pode ser encontrado no
excelente trabalho de Vigarello (1988).
11
Sobre a expressão educadores físicos conferir o Capitulo 1.
12
A obra de Michael S. Goldstein. (1992), é de leitura obrigatória para
comprender o movimento nos Estados Unidos.
IJ
Várias pesquisas em curso no MEF-UGF, e algumas já concluídas,
focalizam aspectos parciais dessas inter-relações quer em perspectiva histórica,
1
Os trabalhos de Nisbet e Lê Goffsobre a idéia de progresso e suas reações quer a partir do presente, tomando como referências a intervenção no campo da
são um excelente guia de leituras. formação da criança, da-velhice e a saúde, da gordura e da saúde, das praticas
2
A importância da obra de Kuhn nesse campo deve ser destacada. alternativas ou soft no campo da educação física, entre outras.
14
3
Este é o caso do filósofo americano R. Rorty. Essa intenção faz parte de nosso projeto de pesquisa A formação dos
* A expressão mais clara destas posições estão no campo da antropologia corpos no Brasil em curso no MEF-LJGF.
15
cultural ou social. As fontes do movimento da saúde são altamente variadas. Para dar um
5
A importância concedida à saúde e refletida na esperança de vida, à exemplo dessa variedade diria queo trabalho de Savana, A Jtsiologia do gosto, onde
manutenção da forma física, à atividade corporal destinada a estetizar o corpo, às pretende criar uma ciência da gastronomia, ensinando a comer e cozinhar,
atividades corporais que objetivam a modificar hábitos corporais e mentais preocupa-se pelos aspectos que relacionam alimentação a saúde e atividade
desmente afirmações correntes na educação física, tais como que a sociedade corporal a saúde. Por ser aparentemente um contrasenso. o exemplo salienta a
tecnológica ou capitalista não confere importância ao corpo. Devemos considerar, história das preocupações pela saúde e sua incidência num texto que ensina que o
entretanto, que na educação física também circula com a mesma desenvoltura a alô de comer é o prazer que fica quando os outros nos abandonam.
16
afirmação, de intencional idade crítica, da sociedade tecnológica promover a O modelo aparece com toda clareza entre: alcoólicos anônimos e
corpolatria. Por vezes não fica claro se ambas críticas bem referem-s a níveis vigilantes do peso.
17
diferentes de leitura bem se são francamente contraditórias. Os trabalhos de Norbet Elias são fundamentais para o entendimento da
6
Esse estilo de crítica hoje também circula nos países ditos' 'ex-socialistas'' problemática teórica desporte-política-sociedade. Interpretações significativas sobre
e não apenas nos países com economia capitalista avançada. o tema.foram elaboradas por Roberto DaMatta. tomando como objeto o futebol no
7 Brasil. Conferir também o livro de A.J. Soares, Malandragem no gramado: o
Cf. a dissertação de Santiago (1993).
8
Pesquisas em cursos no MEF-UGF indicam que em diferentes atividades declínio de uma identidade.
18
corporais a atribuição de sentido das mesmas se estabelece pela sua contribuição R. Girard. A violência e o Sagrado, desenvolveu uma teorização geral
para o equilíbrio físico e mental. Ainda que diferentes informantes se pensem a sobre os processos mjimóticos de controle da violência no campo religioso.

130 131
19
A adesão, e mesmo o entusiasmo, de grupos religiosos pelo esporte nüo
necessita que o considerem essencialmente moral ou moralizador. É suficenle que
se lhe outorgue o caráter de "mal menor" que subsitui ou distancia dos "males
maiores" .

CapítuloS
Ciências do esporte:
interdisciplinaridade
ou mediação

132
133
Introdução: análise e intervenção

Acredito que podemos aproximarmo-nos do tema da '~


iníerdisciplinaridade nas ciências do esporte a partir de vários pontos ^
de vista e com várias questões que os estruturem. Trata-se, então,
especificar de onde falamos e quais questões tentamos esclarecer.
Emergem, de chofre, três áreas de questões que me parecem relevantes
e sobre as quais irei alinhavando minha exposição.
A primeira, refere-se aos tipos de acordos que estabelecemos^
para falarmos de interdisciplinaridade. Num nível muito básico,
poderíamos entender por interdisciplinaridade a utilização por uma
disciplina de modelos teóricos ou conceitos elaborados em outra mais
consolidada, ainda no caso que essa utilização seja mais metafórica e
alegórica que fiel.1 Num segundo nível, podemos entender por
iníerdisciplinaridade o diálogo das disciplinas, a abertura dos ouvidos .
e olhos de cada disciplina para os ditos e fazeres das outras e para /
conseguirmos, pela via do entendimento dialógico, uma soma de
esforços na solução de problemas teóricos e- práticos. De fato,
pessoalmente, inclinar-me-ia a pensar que esse tipo de diálogo foi mais
fecundo no campo da solução de problemas práticos do que teóricos./^
Podemos pretender, no entanto, num nível de exigência ainda maio4 Ç
e com maiores esperanças, que a interdisciplinaridade derive em algum
tipo de construção integrativa, holística, superadora dos pontos de
vistas parciais. Neste último sentido, a interdisciplinaridade aparece
carregada pelos desejos da unidade e da transparência.
A primeira questão diz então: que significa a palavra,
interdisciplinaridade para nós e que tipo de orientações e ações]
esperamos de seus significados?.
A segunda questão, obriga-nos a definir o que entendemos por]

135
Ciências do Esporte. Acredito que temos, pelo menos, duas grandes e nas quais acreditam, por vezes sem muito controle. Minhas
>pçoes~ou caminhos de respostas. O primeiro caminho entenderia que preocupações estão muito mais vinculadas ao como as disciplinas
Ciências do Esporte compõem um conjunto particular de ciências; interagem em contextos institucionais, universidades e institutos de
*\|O segundo que as Ciências do Esporte são apenas aplicações das pesquisa, do que ao como deveriam interagir. Dizem então a respeito
iinatrizes ou paradigmas disciplinares ao campo dos fenõmenõs^que de certos atores sociais desempenhando papéis, culturalmente
podemos reconhecere agrupar como esportivos. Pessoalmente, inclino- estabelecidos, e também a respeito da ação dos agentes sociais que, por
me por pensar que as Ciências do Esporte constituem aplicações para vezes, criam novos horizontes.2
um campo específico de conhecimentos disciplinares gerais. Ou seja, Com o intuito da mapear as dificuldades, e esta ação já é uma
não acredito na autonomia teórica das Ciências do Esporte. Penso que aproximação, eu pediria que me acompanhem realizando uma dupla
o esporte coloca problemas práticos que levam a trabalharmos com distinção -embora altamente inter-relacionados- entre, de um lado,
aplicações teóricas. Em casos felizes, os problemas práticos podem a atitude academicista e a atitude intervencionista e, do outro, o lugar
solicitar reformulações teóricas em disciplinas particulares. Minha das ciências, das técnicas e das artes no campo dos esportes.
crença me leva a pensar que não há um problema epistemológico
particular das Ciências do Esporte e que, portanto, enfrentamos os Conhecer e intervir
mesmosproblemas epistemológicos e metodológicos que se apresentam
e discutem nas ciências da natureza e nas ciências humanas e sociais. Conhecer uma coisa ou um processo é uma ação de grau
Neste caso, o problema da interdisciplinaridade então, nas Ciências do diferente que a de intervir sobre ou em essa coisa ou processo. Os povos
Esporte e sob o ponto de vista teórico, não seria diferente do problema domaram o fogo muito antes de poder explicar o mecanismo da
geral da interdisciplinaridade. combustão: Conhecer significa, basicamente, analisar uma coisa ou
r A terceira questão poderia assim ser formulada: quando processo. Conhecer significa* quê a coisa pode ser reduzida a seus
falamos^fre-Cigncias do Esporte, nos estamos referindo de fato^T elementos simples e processos básicos e, se a análise foi bem realizada,
^/ciências ou estamos também incluindo técnicas, saberes e artes? A termos a possibilidade de reconstituir a coisa a partir dos elementos
Tespostaaestaquestãodependedosacordosquecheguemos estabelecer. simples e dós processos básicos. Há, assim, uma atividade redutora ou
Se, por exemplo, aceitamos que um problema prático das'' Ciências do reducionista na construção científica: Trata-se então de desvendar uma
Esporte" é preparar a seleção de futebol para o Mundial, devemos caixa preta, criar uma teoria para dar .conta daquilo que acontece na
reconhecer que o programa de preparação implica conhecimentos caixa, para estabelecer seu funcionamento interno e as relações entre
científicos aplicados, experiência técnica acumulada, saberes e arte. as entradas e as saídas: Não.ha nenhuma necessidade interna, ao
Acredito que é neste tipo de problema que se centra grande parte de processo da análise, que mande, intervir ou modificar a coisa ou
nossas discussões e mal-estares. Insistirei bastante, portanto, sobre processo que está sendo analisado. Os astrofísicos estão, quando
esta questão. escrevo estas notas, profundamente interessados na colisão de um
Devo, entretanto, realizar um esclarecimento prévio. Pretendo cometa comum planeta, não pretendem, contudo, modificar ou intervir
falar da interdisciplinaridade como cientista social e não como filósofo sobre esse fenômeno natural. Mais ainda, Cjuandooobsewadorrriodifica,
ou epistemólogo. Evidentemente que, em minhas afirmações, há por mera presença, o campo dos fenômenos observados, a intervenção
filosofias em estado prático. Corresponde à competência filosófica torna-se um problema e não um objetivo do processo de conhecimento.
teorizar sobre as filosofias em estado prático que os cientistas utilizam Temosciências quando podemos reduzir e explicar, não necessariamente

136 137
quando podemos intervir. 3 ~Í futebol nacional para alcançar resultados no próximo mundial. Assim,
Podemos perfeitamente satisfazermo-nos com o conhecimento pode pretender utilizar ou aplicar conhecimentos científicos, acumular
derivado da análise se nos situarmos na tradição academicista que experiência técnica, desenvolver saberes e artes para melhorar a
entende o conhecer, a pesquisa, como um valor, como um compromisso seleção nacional. De fato, a maioria dos brasileiros quer intervir tanto
que temos por estarmos no mundo, como missão encomendada por escalando a seleção nacional ou estabelecendo o tipo de estratégia que
Deus ou como uma necessidade da_natureza humana. Assim, conhecer] devedesenvolveremseusconfrontos. Corisideramo-nòs, anósmêsmos,
é bom, independente das aplicações do conhecimento. A verdade é um expertos em futebol e a partir de nossa experticie tentamos intervir.
[valor e, para a tradição academicista,4 importa muito mais do que a O intervir situa-se assim num outro horizontérOlntêrvêntõf)
eficiência da intervenção. Da mesma^maneira, que jogar ou praticai pretende modificar uma coisa ou um processo e mesmo inventar uma
esportes é bom, por ser lúdico, com independência dos resultado:
psicológicos, fisiológicos ou políticos das práticas lúdicas e esportivas , v
As crianças, como é sabido, não esperaram pela teoria de Piaget pari '
5i
_
coisa ou um processo. O inventor é uma classe de interventor. O
interventor, ou inventor, parte de um objetivo, pretende alcançar um \
resultado. As análises estão submetidas à demanda do resultado, aoj\-
se dedicarem a seus jogos. Ser criança, no Ocidente, é situar-se numa j| objetivo da intervenção. A eficiência no atingimento dos objetivos
tradição de avaliação dojogo e dabrincadeira como atividade essencialA ^ muito mais importante que a verdade, é mais importante portanto quej
boa, natural, gratuita e espontânea. Por isso, se alguém apenas pode '~~ a especificação dos mecanismos. Os criadores ingleses realizavam]
brincar o consideramos criança, imaturo, ainda não desenvolvido. Da processos de seleção natural quando Darwin ainda não
mesma forma, há uma longa tradição que afirma que conhecer é bom, desenvolvido sua teoria da seleção. j
natural, espontâneo. Em tempos marcados pelo utilitarismo, O inventor com toda legitimidade, segundo seu ponto de vista,
conservador ou revolucionário, parece-me que é muito bom manter! pode-nos dizer: não sabemos como funciona, porém o importante é que
viva a tradição de que conhecer é um bem em si mesmo, independente funciona. Pode basear sua certeza .de funcionamento 'numa correlação
das utilidades imediatas ou mediatas que se derivem do conhecer. empírica, entretanto a correlação e:m si mesma não significa ciência.
Sustento que temos que manter aberta a legitimidade
legitimidade di
da resposta, Bronowski nos deu um exemplo do qual eu pessoalmente gosto muito.
diante da pergunta sobre a utilidade, de que conhecer serve para Conta que, quando editor de uma revista científica, recebeu um
conhecer, serve
conhecer para satisfazer
serve nara parcialmente nossa admiração
sati^farprnarríalmpntpnncca admirara diante do
trabalho que demonstrava que se dividissem os dias de gestação dos
mundo natural, social e cultural. ^> ] ^/\ pó RT~VA ^ ~^ E mamíferos pelo número Phy obtinha-se um número inteiro. O conselho
^ Assim, por exemplo, enquanto cientista social, sinceramente científico da revista discutiu o trabalho, seus resultados compunham
admirado pelas repercussões, a participação e a paixão do povo no uma significativa curiosidade, contudo, decidiram não publicar o
Mundial de Futebol, posso tentar analisar os mecanismos presentes trabalho pois, entendiam, que a relação não podia ser explicada pela
^-nesses processo^sociais sem, entretanto, pretender modificar nem as lógica científica. O interventor, embora possa saber, não necessariamente
formas organizativas nem os significados culturais do processo. Em precisa do conhecimento científico para intervir. O uso das anestesias
algum sentido meu trabalho situar-se-ia no campo das Ciências do funcionou muito antes de sabermos quais eram seus mecanismos, e esse
Esporte. Contudo, minha ação de conhecimento não tenciona modificar funcionamento possibilitou uma revolução no campo das técnicas
o conhecido, e a modificação do conhecido, se existir, será apenas uma cirúrgicas, dando lugar ao nascimento do século dos cirurgiões. Os
conseqüência não procurada do conhecimento. Entretanto, pode exemplos poderiam ser multiplicados-. Importa muito mais dizer, para
existir outro tipo de observador, preocupado em intervir sobre o o objetivo, de nossas discussões, que o interventor ou inventor pode

138 139
/\Au
articular variados conhecimentos, técnicas e saberes para atingir seus Cursos mosaicos e disciplinares
objetivos. A articulação que realize é avaliada pela eficácia da invenção
ou intervenção. No primeiro capítulo, denominei a articulação entre^ As reflexões realizadas nos levam na direção de pensar que o
'valores ou objetivos sociais, conhecimentos científicos e técnicos lugar favorável para a interdisciplinaridade, em algum dos sentidos que
saberes de arte da mediação no processo ou programa de intervenção.5 lhe podemos dar, é o da intervenção ou o da invenção. Sociológica e
Comparei essa mediação ao trabalho do bricoleur, que vai ao seu institucionalmente, então, importa mapear os lugares nos quais a
porão e, a partir de partes de objetos, produzidos sob circunstâncias e interdisciplinaridade teria maiores probabilidades de acontecer.
com objetivos diferenciados, compõe um novo objeto. Parece-me Nós sabemos que, no Brasil, quase noventa por cento das
bastante evidente que as Ciências do Esporte estão profundamente pesquisas se realizam nas Universidades e, mais especificamente, nos
marcadas pela necessidade de intervir e de inventar. Enfrentamos, cursos de pós-graduação. A Universidade, ademais, pelas características
então, um campo de atividade onde prima a relação de objetivos t de universalidade ou de abrangência disciplinar seria o lugar com
teóricos e práticos, de várias disciplinas c, sobretudo, a mediação entre maiores possibilidades para a interdisciplinaridade. Maisainda, podemos
valores traduzidos em objetivos, conhecimentos científicos e técnicos, formular a hipótese de que já na graduação existem cursos que se
artes e saberes. Assim, a interdisciplinaridade, entendida, em principio, caracterizam por uma formação poli ou multidisciplinar. Podemos
como diálogo entre as disciplinas, pareceria ou deveria formar parte da então nos perguntar se seriam os cursos de graduação e pós-\
mediação no processo de intervenção. , graduação, caraterizados pela multidisciplinaridade na formação, os^
Acredito que durante muitas décadas, por não dizer séculos, os lugares com maiores probabilidades de emergência e consolidação da';
papéis sociais do acadêmico e do interventor ou inventor foram bem interdisciplinaridade em algum de seus sentidos? ^
distinguidos. Osacadêmicos publicavam os resultados de suas pesquisas ^. J Uma classificação possível dôs:cursps universitários atuais^
e perseguiam prestígio e reconhecimento social. Os interventores |\ sob o duplo ponto de vista de: a) seus objetivos, conhecimento-|
pretendiam modificar o mundo, orientá-lo para determinados valores ej reprodução do conhecimento e intervenção, e b) sua estrutura
e objetivos. Os inventores patenteavam seus produtos e além do í| curricular, consiste em separá-los em dois.grandes grupos, sendo que
prestígio montavam indústrias, ganhavam dinheiro e até podiam, como .§ l_ o segundo grupo pode também ser subdividido. Proponho então queí
no caso de Nobel, premiar a pesquisa científica e literária. O que falemos de cursosdisciplinares e cursos mosaicos ou profissionalizantes
importa reconhecer é que publicar para partilhar o conhecimento é uma entre 6s últimos, distingamos entre cursos mosaicos ou
conduta bem distinta à de patentear para receber os benefícios de uma
profissionalizantes tradicionais e não tradicionais. J
patente ou da conduta de conhecer para transformar aquilo que é r O primeiro tipo de curso .estaria integrado pelos cursos
definido como um real negativo, atrasado ou injusto. Os sistemas de disciplinares, caracterizados por realizar uma formação concentrada
patentes, por certo, estimularam a invenção e ajudaram a revolucionar em um conjunto de conhecimentos vinculado s a uma matriz disciplinar.
o cotidiano de nossas vidas, embora tenham provocado efeitos perversos Este seria o caso, por exemplo, da formação em Física, Química,
significativos. As reivindicações de muitos interventores políticos e Biologia, Matemática, Economia, História, Antropologia, Sociologia
sociais fizeram as sociedades mais justas, embora em certos contextos e outros. Estes cursos formam os alunos tendo como objetivo
históricos hoje avaliemos que outros poderiam ter sido os caminhos de / principal a atuação em pesquisa (bacharelado) ou no ensino das
uma sociedade melhor.
/ próprias matrizes disciplinares (esta. formação habitualmente recebe
l nome de licenciatura no Brasil). .Em outros termos, o físico é

140
/formado para desenvolver a física ou para ensiná-la tanto quanto o j
\ Assim, os administradores de empresa ou os assistentes sociais são
antropólogo, apesar das diferenças existentes entre disciplinas/ formados para que contribuam na realização de valores, transformados
paradigmáticas e pré-paradigmáticas, para dize-lo na linguagemj em objetivos, que se supõem demandados por segmentos da sociedade
J kuhniana. Evidentemente que o panorama reitera-se nas pós-graduações e, às vezes, pela sociedade no seu conjunto. A orientação por valores
desses cursos. Observemos que os cursos disciplinares tiveram uma não pressupõe, entretanto, a eliminação do debate sobre os mesmos.
emergência tardia, especialmente no caso do Brasil, pois foram Na origem destes cursos figura o objetivo da intervenção ainda no caso
precedidos pelos cursos de formação profissional em medicina, direito/ que, na história interna, registrarem-se processos de afirmação de
e engenharia, objetivos de pesquisa e de ensino semelhantes aos do primeiro grupo.
O segundo grupo de cursos está formado peloscursos mosaicos Os cursos mosaicos não tradicionais nasceram em plena
e profissionalizantes. Dentro do grupo podemos distinguir entre os modernidade, e no contexto de sociedades que acreditam no papel da
cursos tradicionais ou clássicos, medicina, direito e engenharia e os D racionalização e do conhecimento do empírico na construção da ordem
cursos mais modernos, como serviço social, administração de empresas, social e na solução de seus problemas. Ern última instância, um
pedagogia, educação física, nutrição e outros. problema existe quando se afirma o acordo social de que um valor não
Os cursos mosaicos clássicos se caraterizam pelo domínio da está sendo, ou está insuficientemente, realizado (a justiça, a saúde, a
intervenção no horizonte de atuação e por um currículo mosaico qut educação básica, a eficiência, a qualidade ou qualquer outro
pode ser dividido em duas grandes áreas: a disciplinar e a técnica oi significativo). Corresponde assim aos especialistas elaborarem propostas
profissionalizante. Na verdade, a formação disciplinar é seletiva de intervenção que possibilitem uma maior realização dos valores
apresenta fortes concentrações. Por exemplo, no caso da engenhari desejados. A crença na racionalidade e empiricidade, levou os
domina a formação em matemáticas, física e química aliada as disciplinas] especialistas desses cursos a realizar, poderosos investimentos
de tipo técnicas. Em medicina, domina a biofísica, a bioquímica e as intelectuais para se convencerem, e nos convencerem, sobre o caráter
ciências biomédicas também em aliança com o aprendizado e prática científico de seus marcos referenciais e formas de intervenção. Suas
das técnicas, artes e saberes do campo. Nos cursos de medicina, por discussões, aparentemente infindáveis, por exemplo, sobre o objeto
exemplo, pode ser discutida a questão de se a formação deve ter como teórico de suas áreas de atuação são suficientemente conhecidas. ^
horizonte a teoria e a pesquisa ou a prática de intervenção médica. - - Entretanto, os problemas dê identidade e legitimidade dessas
O cursos mosaicos mais recentes, não tradicionais, também profissões são significativos, provocando44ansiedades1Y'angústias''
estão integrados por uma área de formação disciplinar e uma área e fortes investimentos na construção de teorizações que tentam
- - - --*• 1 — ™ *»V>iatrt tc>r\-r\ff\
instrumental, técnica ou profissionalizante. Contudo, sua característica
principal pareceria ser que o mosaico das disciplinas é muito mais
amplo, metioTcõncentrado. Estão estruturados a partir de um amplo
espètro de disciplinas (de matemáticas a filosofia, por exemplo) e uma
área instrumental ou profissional. O objetivo da formação também
vincüla-se a um processo de intervenção sobre áreas ou instâncias da
sociedade. Supõe-se que, a formação profissional, habilita par; acãoemicü, cimciam.*^ u.^ ui^^u^u^^ ..«*-. _ _
desenvolver ou atuar em programas de intervenção orientados por1 intervenções destinam-se à obtenção' da. legitimidade social, da
valores habitualmente codificados como objetivos da intervenção. possibilidade de intervenção e de suas modalidades. Agrega-se a isto J

142 143
para aumentar as dificuldades, o fato que a integração dos elementos intervenção
Contudo, parece existir um problema de fundo ou maior. É
da formação, e dos elementos constitutivos das propostas de
possível que o prestígio da ciência deva muito ao desejo, tornado mito,
intervenção, não é produto do cálculo, do algoritmo, senão que da
da transparência do real natural e social. O objetivo da ciência é fazer
arte de mediação (entre conhecimentos, técnicas, valores e objetivos)
transparente um mecanismo. O objetivo mítico da intervenção é operar
pela qual se constróem as propostas ou programas de intervenção.
com mecanismos transparentes ao invés de fazê-lo com os obscuros
Os profissionais dessas áreas atuam muito mais dentro dos
processos da interação social. O cientificismo, essa crença que afirma
marcos do papel do brico/eiir que no do cientista. Estão muito mais
que podemos operar com o social da mesma forma que o fazemos com
próximos do artistaou do técnico queagem a partir de uma experiência
o natural, supõe a possibilidade de um mundo transparente, presente
familiar que do cientista. Estão mais próximos do cozinheiro e da
tanto na etapa científica da humanidade deComte quanto no socialismo
gastronomia que do físico e sua física. Entretanto, rejeitam,
de origem marxista. Talvez porque já presentes em Rousseau? Assim,
habitualmente, a arte e a técnica do cozinheiro para representar o papel
a utopia da transparênciaagita-se no fundo dos cursos que formam para
de cientistas. Esta rejeição, ao mesmo tempo uma escolha, pareceria
a intervenção.
se explicar, em princípio, pelo prestígio da ciência na sociedade
No entanto, e aqui aparece meu desencanto, tanto a pesquisa
moderna, embora seja discutível tanto esse prestigio quanto as
nessas áreas quanto a pesquisa interdisciplinar em seus sentidos mais
possibilidades reais dos cursos e profissões do segundo grupo chegarem
fortes, deixa muito a desejar. A interdisciplinaridade pareceria que
a ser científicas. Na sociedade moderna valoriza-se, por certo, muito
encontra os maiores empecilhos onde, logicamente, deveria ter as
mais a utilidade de um artefato ou processo, que se diz freqüente e
maiores vantagens. Não sei porque, se a física e a sociologia ainda não
erroneamente criado pela ciência, que os processos de conhecimento
alcançaram a unificação ou integração teórica, fazemos tanto barulho
científico. Os científicos utilizaram-se da confusão -entre a inovação
c o m a interdisciplinaridade. .. •-. • - * ' - '
devida ao desenvolvimento da ciência e a derivada do próprio
desenvolvimento da técnica, enquanto família independente- para
Ciências do Esporte: intervenção e interdisciplinaridade
legitimar o papel dos científicos na sociedade e conseguir, portanto,
reconhecimento social e recursos para suas atividades.
Podemos agora concentrarmo-nos no campo dás Ciências do
f De fato, as ciências do primeiro grupo se caracterizam por
Esporte, e da própria Educação Física, para consolidar nossas
desvendar ou fazer transparentes mecanismos. Em outros termos,
apreciações e reflexões.
temos ciência quando explicamos os mecanismos que estão dentro da
No campo especifico das Ciências do Esporte e da Educação
ÜJ caixa preta. Algumas dessas explicações, desses desvendamentos, são. Física, a discussão sobre o objeto ou o eixo epistemológico.sabemos
H utilizados na geração de artefatos ou mecanismos. Freqüentemente que é significativa. A discussão parte, explicitamente, da ansiedade de
ocorre o contrário, a ciência entra para explicar os efeitos de um,
reconhecimento cientifico, de reconhecimento da igualdade no campo
t— acadêmico. Acredita-se que um meio para a igualdade reside em
quando desvendam mecanismos, o fazem dentro de uma matriz ,
tí sermos donos de um objeto teórico definido, pois, entende-se que,
0 disciplinar do primeiro grupo. Naverdade, eleshabitualmente utilizam possuindo-o se alcança a autonomia, a independência da aplicação de
QL explicações fornecidas pelas disciplinas do primeiro grupo para legitimar.
matrizes disciplinares elaboradas em outras áreas. Trata-se, assim, de
5 racionalizar e orientar os programas de intervenção, ou explicar os,
~~~ cursos (efeitos, impactos, eficácia, eficiência, etc.) dos programas de inventar objetos. Tenho a impressão, por vezes, de que a discussão

145
144
pretendetambém esquecer que os cursos mosaicose profissionalizantes sobre o esporte hoje circula nas boas revistas internacionais dessas
têm por função a intervenção para realizar valores e objetivos sociais: disciplinas. Acredito que, da mesma maneira, um bom trabalho de
ganhar competições, aprimorar a saúde da população, recriar os laços bioquímica, fisiologia ou psicologia no campo do esporte circule
comunitários, proporcionar lazer e recreação, desenvolver valores e também nas boas publicações dessas áreas. Gostaria, por certo, ver
identidades entre outros. Ao mesmo tempo, parece que pretendem excelentes versões de divulgação desses trabalhos em nossa Ciência
esquecer que no campo da intervenção trata-se de mediar entre Hoje. Estou querendo afirmar que em esporte, educação, administração
conhecimentos teóricos e empíricos, técnicas, artesesaberes. Esquecer, ou serviço social podem ser produzidos trabalhos de qualidade em
então, que deveríamos aqui também falar das técnicas, das artes, dos pesquisa. Acredito que, se bons, serão reconhecidos em esses campos
saberes e não apenas das ciências. Sobretudo, quando levamos em porém, também, nas áreas disciplinares que sejam suas matrizes
consideração que a intervenção deve, habitualmente, mediar entre teóricas. Penso que, dentro do grande tema desta reunião anual de
valores de difícil conciliação. Assim, por exemplo, deve conciliar os nossa querida SBPC, deveríamos entender a interdisciplinaridade em
valores da tradição estética de um esporte com o valor de ganhar a dois sentidos.6 Por um lado, como abertura para o diálogo, para
competição. Não foi esse um dos eixos das discussões sobre nossa aproveitarmos dos dizeres e fazeres dos colegas de outras disciplinas.
seleção nacional no Mundial? Não poderíamos explicar o auge Por outro, por nossa aposta na mediação entre valores, disciplinas,
internacional do basquete pelo fato dos americanos haverem conciliado técnicas, saberes e artes. Mediar significa reconhecer o valor cultural
valores estéticos do esporte com uma alta competitividade? e importância social de cada campo de atividade. Mediar significa
^~~ A intervenção demanda a mediação entre disciplinas díspares. apostar na diversidade. Mediar implica reconhecer o direito a vida das
Hoje, no treinamento de uma equipe não se pode depreciar a bioquímica expressões humanas. Devo reconhecer que a integração total e o
aplicada no campo da fisiologia e da nutrição, a fisiologia e a nutrição holismo soa, em meus ouvidos, com uma certa nostalgia, ou deveria ser
aplicada no desenvolvimento do potencial dos atletas, a psicologia saudade, de um paraíso totalitário no qual, o preço da felicidade, é'não
individual e de grupo, a psicologia social e tantos outros conhecimentos. provar os frutos da sabedoria. ' • . •. ' J
Entretanto, nessa aplicação, sabemos que precisamos do regente da
orquestra. O diretor que indica quando entra cada instrumento, o
tempo que tocará, a importância que terá no trabalho de conjunto.
/ Sabemos que o diretor ou regente precisa de, além dos conhecimentos,
M bom senso, tato, capacidade de mediação entre as diversas demandas.
1
QliPrecisa ser um mediador, sobretudo quando há uma forte crise do Observo que sem uma boa quota de tolerância diante da imprecisão ou
Q| autoritarismo e da autoridade da posição. No entanto, a mediação entre inexatidâo conceituai o desenvolvimento das ciências teria sido,impossível. O
conceito nasce tosco, grosso, impuro e é aperfeiçoado pelos cientistas ao longo da
(Mas disciplinas, na prática de intervenção, não parece provocar uma
história das disciplinas. Assim, a utilização metafórica dos conceitos também pode
interdisciplinaridade forte, uma integração dos conhecimentos. Tudo ser produtiva embora distorça os conceitos originais.
<] indica que as matrizes teóricas conservam sua autonomia, embora em :
Nas próprias ciências sociais há dois paradigmas.interpretativós» Por um
suas aplicações reforcem seus efeitos, se o regente possui a arte lado, explicamos a conduta como resultado do desempenho de papéis socialmente
suficiente para provocar o efeito de conjunto, a soma das participações estabelecidos. Ou seja, o ator atua em função de normas. É difícil.sob esta
particulares. perspectiva explicar e mesmo entender a mudança. Por outro, explicamos a conduta
sob ,o ponto de vista de um agente que persegue objetivos, que possui interesses.
-;Um bom trabalho de antropologia, sociologia ou histórica Embora ambos pontos de vista possam ser operados em conjunto é um problema
l
146 147
sério de sua unidade teórica. Ou seja. assim como não há ainda unia teoria integrada
no campo da física, não há uma teoria integrada no campo das ciências sociais ou
da sociologia.
-1 Um argumento forte da tradição que adiante dcnomi no como academicista.
foi ode proclamar quca verdade científica poderia ser aplicada, seria útil. mais cedo
ou mais tarde. O argumento possui um forte apelo legitimador. porem ná"o é nada
evidente. Bibliografia
4
A tradição academicista se baseia na renúncia ou separação entre
teologia-filosofia e ciência, política e ciência e conhecimento cientifico e
aplicação. Cf. Lovisolo, H.(1994).
5
Cf. capítulo I. AZEVEDO, F. Da educação física. São Paulo, Melhoramentos, s/
•A versão original deste lexto foi apresentada na Reunião Anual da SBPC. d., v. l (obras completas).
Vitória, julho de 1994.
BOUDON, R. Efeitos perversos e ordem social. Rio de Janeiro, Ed.
Zahar, 1979.
BROHM, J. M. et alii Lê corps, vol. l e 2, Paris, ed. Belin, 1992.

BROWN, P. Corpo e Sociedade: o homem, a mulher e a renuncio


sexual no inicio do cristianismo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor Ltda,
1990.
BURKE, P. A escrita da histôria-novas perspectivas, São Paulo,
Ed. Unesp, 1992. , ,. :. ' - . - . • . " ' . '

CLASTRES, ?. Arqueologia da Violência: Ensaios de Antropologia


Política. São Paulo, Brasiíiense, 1982.

CRESPO, Jorge. A História do Corpo. Lisboa, DIFEL, 1990.

Payot, 1943.

DELPRIORI, M. Ao sul do corpo. R.J.,Edunb-J.01ympio, 1993.

EBY,F. História da educação moderna. Porto Alegre, Globo, 1973.

ELIAS, N. Introdução à sociologia. Edições 70, Portugal, 1980.

Processo Civilizador. Rio de Janeiro, Jorge


Zahar Editor Ltda, 1990.

148 149
Deporte y ócio en ei proceso de Ia civilizaciôn. Educação popular: maioridade e conciliação
México, E.F.C.E., 1992. Salvador. Ed. OEA/UFBA/EGBA, 1990.
ELSTER, J., El cambio tecnológico. Barcelona, Ed. Gedisa, 1990. Tradição desafortunada: Anísio Teixeira, velhos
FEHER, M. et alii. Fragmentos para una História dei cuerpo textos e idéias atuais. In: Chaves para se lê r Anísio Teixeira. Salvador. Ed.
humano. Madrid, Taurus, 1990, 3 vis. OEA-UFB, 1990/b, pp. 9-85.
FINLEY, M., Democracia amiga e moderna. Rio de Janeiro, Ed. A legitimação da ciência na fronteira, Rio de
Graal, 1988. Janeiro, Revista Dados, n°2, 1994.
GIDDENS, A. A transformação da intimidade. São Paulo, Ed. MACFARLANE, A. A Cultura do Capitalismo. Rio de Janeiro,
UNESP, 1992. Jorge Zahar Editor, 1989.
GIRARD, R. A Violência e o Sagrado. São Paulo, Ed. UNESP MANDELL, R. Sport a cultural history. New York, Columbia
e Paz e Terra, 1990. University Press, 1984.
GOLDSTEIN, M. S. The Health Movement: Promotingfiiness in MENDONÇA, J.G., Crianças saudáveis. Pais neuróticos?, Rio de
America. TWAYNE PUBLISHERS, NY, 1992. Janeiro, dissertação de mestrado, UGF, 1993.
H.E.C. Lecorps, vol l e 2, Paris, ed. Marketing, col. ellipses, 1992. MERQUIOR, J. G. O Liberalismo: antigo e moderno. Rio de
Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1991.
HIRSCHMAN, A. As Paixões e os Interesses: argumentos a favor
do capitalismo antes do seu triunfo. São Paulo, Paz e Terra, 1979; NICOLACI-DA-COSTA, A, Sujeito e cotidiano; Rio de Janeiro,
E d . Campus, 1987. : ' ' ' ; " ' / • ' .
KUHN, T, A tensão essencial. Lisboa, Edições 70, 1989.
NISBET, R. A. História da idéia de progresso. Brasília, Editora
LÊ GOFF, J., História e memória. Campinas, Ed. Unicamp, 1990. Universidade de Brasília, 1985. •
LÊVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural Rio de Janeiro, Ed. POLIAKOFF,M. Combat sports in the ancient world. U.S,Yale
Tempo Brasileiro, 1975. University, 1987. ,
O pensamento selvagem, São Paulo, Cia Editora Nacional, 1976. PORTER, R. História do corpo. In Burke, 1992.
LOVISOLO, H. e WROBEL, V. Razões e estilos no ensino de l* RORTY, R., A filosofia e o espelho da natureza Lisboa, Ed. Don
Grau. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, n.51, 1985. Quixote, 1988.
LOVISOLO, H. Terra, trabalho e capital: produção familiar e SANTIAGO, L. V. Natação marter: resistindo à velhice. Rio de
acumulação, CAmpinas, Ed. Unicamp, 1988. Janeiro, dissertação de mestrado, UGF-MEF, 1993.
Escola e família: constelação imperfeita. In Ciência SIMMEL, G. Sociologia I e, 2, Madrid, Ed. Alianza Universidad,
Hoje, v.6, n.31, maio de 1987. 1977.

150 151
SÉRGIO, Manuel. 1979: Educação Físicaou Ciência da Motricidade
Humana. São Paulo: Papirus Editora.

El indivíduo y Ia liberíad. ensayos de critica de Ia


cultura. Barcelona, Ed. Península, 1986.

SOARES, A. J., Malandragem no gramado: o declínio de uma


identidade. Rio de Janeiro, dissertação de mestrado, Universidade Gama
Filho, 1990.

-:• TURNER, B. S. El Cuerpo y Ia sociedad: exploraciones en teoria Li


social, México, F.C.E., 1989.

VAINFAS, R. (org.) História e sexualidade no Brasil. Rio de ;


Janeiro, Ed. Graal, 1986.

VIGARELLO, O. O limpo e o Sujo: A Higiene do Corpo desde a


Idade Média. Lisboa, Editorial Fragmentos Ltda., 1985.,

152

Você também pode gostar