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TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE | 607

COMUNICAÇÃO | COMMUNICATION

Influência da televisão no consumo


alimentar e na obesidade em crianças
e adolescentes: uma revisão sistemática

Television influence on food intake and


obesity in children and adolescents:
a systematic review

Camila Elizandra ROSSI1


Denise Ovenhausen ALBERNAZ 1
Francisco de Assis Guedes de VASCONCELOS 1
Maria Alice Altenburg de ASSIS1
Patrícia Faria Di PIETRO 1

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi identificar a influência da televisão no consumo alimentar e na obesidade em
crianças e adolescentes. Realizou-se revisão sistemática nas bases MedLine, PubMed, SciELO-Brasil e Lilacs,
capturando-se 73 artigos publicados entre 1997 e 2007. Definiu-se não analisar artigos com adultos ou pré-
-escolares, notas, comunicações, revisões, amostras de população específica (indígenas, por exemplo) e enferma
(exceto obesidade), e estudos de intervenção, selecionando-se vinte artigos para análise. Em seis, dentre oito
estudos brasileiros, observou-se associação significativa entre televisão e obesidade, e, em um destes, também
se verificou associação positiva entre televisão e consumo alimentar. Nas investigações internacionais,
observaram-se seis, dentre dez artigos, evidenciando associação entre televisão e obesidade, além de se identificar
associação inversa entre televisão e tempo de atividade física. Em cinco artigos, do total de seis internacionais
que investigaram o consumo alimentar, observou-se associação significativa entre televisão e ingestão alimentar,
verificando-se que crianças e adolescentes que despendem maior tempo com a televisão tendem a ingerir
menos frutas e verduras, e mais porções de salgadinhos, doces e bebidas com elevado teor de açúcar. A
associação entre televisão e consumo alimentar foi evidente (85% dos artigos), e a associação com obesidade
apareceu em 60% dos artigos. Ao identificar-se que o tempo em frente à TV associa-se à inadequação dos
hábitos alimentares e à redução da atividade física, revela-se o hábito de assistir à televisão como um importante
fator que pode propiciar a obesidade entre crianças e adolescentes.
Termos de indexação: Adolescente. Consumo alimentar. Criança. Obesidade. Sobrepeso. Televisão.

1
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Nutrição, Pós-Graduação em Nutrição.
Caixa Postal 476, Trindade, 88010-970, Florianópolis, SC, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: C.E. ROSSI.
E-mail: <camilarnutri@yahoo.com.br>.

Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010 Revista de Nutrição


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ABSTRACT

The objective of this study was to identify the influence that watching television has on food intake and obesity
in children and adolescents. A systematic review of the MedLine, PubMed, SciELO-Brasil and Lilacs databases
was done which resulted in 73 articles published between 1997 and 2007. Articles with adults or preschoolers,
notes, communications, reviews, samples of specific populations (Indians for example) or diseases (except for
obesity) and intervention studies were excluded, resulting in 20 articles for analysis. In six of eight Brazilian
studies, there was a significant association between watching television and obesity. In one of them, there was
also a significant association between watching television and food intake. In six of ten international studies,
there was a positive association between watching television and obesity and a negative association between
times spent watching television and doing physical activity. In five out of six international studies that investigated
food intake, there was a significant association between watching television and food intake. It was also
found that children and adolescents who spend more time watching television tend to consume less fruits and
vegetables and more salty snacks, sweets and sugar-rich beverages. The association between watching television
and food intake was evident, found in 85% of the articles, and the association between watching television
and obesity was found in 60% of the articles. Since time spent watching television is associated with unhealthy
food habits and reduced levels of physical activity, it becomes an important factor in the promotion of obesity
in children and adolescents.
Indexing terms: Adolescent. Food consummation. Child obesity. Overweight. Television.

INTRODUÇÃO e onze anos, matriculados em uma escola no mu-


nicípio do Rio de Janeiro. Em Florianópolis, um
Entre crianças e adolescentes, altas preva- estudo realizado em 2002 revelou que crianças
lências de obesidade têm sido relatadas em diver- entre sete e nove anos de idade despendiam, em
sos países do mundo1. Na Europa ocorreu um média, 3,3 horas/dia em frente à TV, sendo que
aumento de dez vezes na taxa de obesidade nes- somente 35,7% dentre 1 689 crianças realizavam
tas faixas etárias, desde a década de 1970 até a algum tipo de esporte, além daquele praticado
atualidade2. Um estudo sobre a tendência de em horário escolar8.
sobrepeso, obesidade e baixo peso das crianças e
Quanto às práticas alimentares, Salmon
adolescentes nos Estados Unidos da América
et al.9 e Almeida et al.10 observaram associação
(EUA), Brasil, China e Rússia, mostrou um aumen-
entre o baixo consumo de frutas e hortaliças e a
to da incidência de sobrepeso no Brasil (4,1 para
elevada audiência de TV, entre adolescentes.
13,9%), na China (6,4 para 7,7%) e nos EUA (15,4
Almeida et al.10, ao analisarem a TV brasileira,
para 25,6%)3.
observaram que 27,4% das propagandas refe-
Dentre os motivos para esse aumento
riam-se a alimentos, e que a veiculação desses
podem-se citar os fatores comportamentais, tais
comerciais distribuía-se por todos os períodos do
como o estilo de vida sedentário e o excessivo
dia. Na TV dos EUA, Story & Faulkner11 identifi-
consumo de alimentos de alta densidade ener-
caram que 60,0% dos comerciais consistiam em
gética4-6. Nesse contexto, acredita-se que o tempo
publicidade de refrigerantes e outros produtos
excessivo dedicado a assistir à Televisão (TV) possa
açucarados. Outro estudo, realizado com escola-
ser um marcador para identificação de baixos
res de 3as e 5as séries residentes em uma cidade
níveis de atividade física e também de práticas
dos EUA, mostrou que 16,6% e 26,2% da energia
alimentares pouco saudáveis.
média consumida por dia era ingerida enquanto
Em relação ao sedentarismo, Pimenta & se assistia à TV, em dias de semana e de final de
7
Palma observaram que a média de tempo des- semana, respectivamente12. Em Florianópolis,
pendido em frente à TV (2,6 horas/dia) era maior Fiates et al.13 observaram que crianças de sete a
do que a média de tempo despendido com ativi- dez anos de idade assistiam à TV diariamente,
dade física (1,1 hora/dia), entre escolares de dez em especial durante as refeições, consumindo

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desde balas a refeições inteiras, em qualquer am- de outras enfermidades além da obesidade, e arti-
biente da residência onde estivesse a TV (cozinha, gos de intervenção.
sala ou quarto). Apesar disso, as crianças rela- Na busca realizada no MedLine, PubMed
taram existir alguma forma de interferência de encontrou-se um total de 49 artigos. Destes, 19
seus pais nas escolhas alimentares, mas não no foram selecionados a partir dos títulos, de acordo
tempo em frente à TV. com os critérios de inclusão e exclusão estabe-
O objetivo deste artigo é verificar se o tem- lecidos. No levantamento realizado no SciELO-
po despendido em frente à televisão exerce -Brasil foram encontrados dez artigos, sendo oito
influência no consumo alimentar e na obesidade selecionados. No Lilacs foram encontrados 16 arti-
em crianças e adolescentes, tendo como base gos referentes ao tema, selecionando-se dois,
empírica de análise revisão sistemática de artigos visto que 12 não se enquadravam nos critérios
científicos publicados entre 1998 a 2006. de inclusão, e dois já haviam sido selecionados
no SciELO-Brasil.

MÉTODOS Ao total, selecionaram-se vinte artigos


sobre a associação entre o hábito de assistir à TV
Realizou-se revisão sistemática de artigos com o consumo alimentar e/ou com a obesidade
científicos que analisaram a associação entre há- em crianças e adolescentes, sendo que o termo
bito de assistir à TV, consumo alimentar e obe- obesidade foi predominantemente usado neste
sidade em crianças e adolescentes. A identificação artigo em referência tanto ao diagnóstico de so-
dos artigos foi realizada nas bases eletrônicas de brepeso como de obesidade, para fins de padro-
dados MedLine, PubMed via Scientific Eletronic nização de nomenclatura e mais fácil entendi-
Library Online (SciELO-Brasil) e Literatura Latino- mento.
-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde Elaborou-se um roteiro de análise, desta-
(Lilacs). cando-se: autoria, país, ano de publicação, deli-
A busca foi conduzida no mês de março neamento dos estudos, características e tamanho
de 2007. Os unitermos utilizados no MedLine e da amostra, principais variáveis desfecho e expo-
PubMed foram: television combinado com food sição, principais testes estatísticos e resultados
intake e obesity. No SciELO-Brasil as palavras- mais importantes.
-chave utilizadas foram: televisão, consumo ali- A partir das variáveis investigadas em cada
mentar e obesidade, enquanto que no Lilacs artigo, os estudos foram agrupados em quatro
utilizou-se a combinação dos unitermos televisão categorias: a) consumo alimentar em frente à TV
e obesidade. e obesidade (três artigos)12,14,15; b) TV e consumo
Estabeleceram-se os seguintes critérios de alimentar (dois artigos)16,17; c) TV e obesidade
inclusão: artigos de livre acesso e disponíveis na (treze artigos)9,18-29; e d) TV, consumo alimentar e
íntegra; em inglês e português; pesquisas reali- obesidade (dois artigos)7,30.
zadas com ambos os sexos; crianças e adoles-
centes de 6 a 19 anos de idade; e artigos publi- RESULTADOS
cados nos últimos dez anos. Definiu-se não anali-
sar artigos que apresentassem dados referentes O Anexo sumariza os dados dos vinte arti-
a populações adultas ou pré-escolares, artigos não gos selecionados, destacando-se os principais
disponíveis na íntegra, notas científicas, comu- aspectos dos estudos, conforme delineado no
nicações, artigos de revisão, amostras represen- roteiro de análise.
tativas de população indígena e de apenas um Dos artigos analisados, oito foram realiza-
dos sexos, amostra contendo sujeitos portadores dos no Brasil7,15,21-23,25,29,30, seis nos EUA12,16,17,19,20,26,

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um em Porto-Rico18, um no Canadá24, um na Frutuoso et al.15 avaliaram o hábito de pra-


Austrália9, um na Suíça14, um na China28 e um ticar atividades passivas (assistir à TV, brincar com
em Dinamarca, Estônia e Portugal27. Em relação jogos eletrônicos e usar a Internet) associado ao
ao desenho dos estudos, dezessete são de corte consumo alimentar e ao sobrepeso e obesidade
transversal7,9,12,14-16,20-30, dois são longitudinais17,19 (definidos pelo critério Cole et al.31) entre 155
e um é de caso-controle18. A idade dos sujeitos crianças e adolescentes de 7-14 anos, residentes
participantes dos estudos variou entre 5 e 19 anos. em São Paulo. As autoras encontraram associação
significativa entre consumo alimentar em frente
à TV e sobrepeso e obesidade em ambos os sexos.
Consumo alimentar em frente à TV e Os alimentos consumidos com mais frequência
obesidade em frente à TV foram: biscoitos, refrigerantes, sal-
gadinhos, pipoca e pães. Praticar atividades passi-
Matheson et al.12 aplicaram três Recor-
vas teve associação com sobrepeso e obesidade,
datórios de 24 horas (R24h), em dias não conse-
também em ambos os sexos. Ressalta-se que as
cutivos em crianças de 3as séries e adolescentes
análises realizadas nesse estudo foram univariadas
de 5as séries, residentes na Califórnia. Os autores
e que, em modelos multivariados, possibilita-se
observaram que o valor energético consumido em mostrar as variáveis independentes mais forte-
frente à TV em dias de final de semana foi cerca mente associadas a um desfecho, especialmente
de 9% maior se comparado a dias de semana, e quando se procede ao controle do modelo para
frutas e vegetais foram menos consumidos em variáveis de confusão. Neste artigo, portanto, não
frente à TV quando comparados a refeições com se levou em conta a possível interação de outras
a TV desligada. A correlação entre Índice de Massa variáveis à obesidade, tais como as socioeconô-
Corporal (IMC) e densidade energética dos ali- micas, comportamentais e biológicas.
mentos consumidos em frente à TV não foi signi-
ficativa para os adolescentes, porém, a correlação
TV e consumo alimentar
entre IMC e percentual de energia proveniente
de gorduras dos alimentos consumidos em frente Com o objetivo de avaliar o consumo ali-
à TV, apesar de fraca, foi significativa nas crianças, mentar de crianças e adolescentes com média de
em dias de semana. idade de dez anos, Coon et al.16 aplicaram três
Stettler et al.14 investigaram a associação R24h em dias não consecutivos, indagando aos
entre fatores comportamentais e a presença de seus pais as atividades realizadas durante as
obesidade em 870 crianças suíças de 6-10 anos. refeições. A quantidade dos alimentos ingeridos
Os autores avaliaram o desfecho obesidade foi mensurada por meio de um pôster contendo
figuras dos tamanhos das porções, sendo que o
diagnosticado com a presença de sobrepeso pelo
primeiro recordatório foi aplicado pessoalmente,
critério de Cole et al.31, mais a soma das dobras
e os demais via telefone, pois as crianças rece-
cutâneas subescapular e tricipital igual ou acima
beram os pôsteres. Observou-se associação signifi-
do percentil 85, de referência dos EUA. Observou- cativa e inversa entre assistir à TV durante as re-
-se que a realização de eventos alimentares (re- feições e nível socioeconômico, escolaridade
feições e lanches) em frente à TV não se associou materna e nível de conhecimento dos pais sobre
ao estado nutricional. Porém, o tempo diário em nutrição. Encontrou-se também associação signifi-
frente à TV e o tempo gasto com jogos eletrônicos cativa entre assistir à TV durante as refeições e
tiveram associação significativa com a obesidade, consumo de carnes vermelhas, pizzas, salgadinhos
em modelo multivariado. Também se observou e refrigerantes, e associação significativa e inversa
associação significativa e inversa entre atividade entre assistir à TV durante as refeições e consumo
física e obesidade. de frutas e vegetais.

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No estudo de Boynton-Jarret et al.17, a TV e obesidade


energia proveniente do consumo de frutas e
verduras apresentou associação inversa com o No estudo de Stettler et al.14, com as crian-
hábito de assistir à TV, em adolescentes de 10 a ças suíças de 6-10 anos, apesar de os autores não
12 anos residentes em Massachuchets (EUA), terem observado relação entre consumo alimentar
mesmo após ajuste para variáveis antropométri- em frente à TV, encontraram associação signi-
cas, demográficas, consumo percentual de ener- ficativa entre hábito de assistir à TV e obesidade,
gia proveniente de lipídeos e atividade física. e tempo com jogos eletrônicos e obesidade, em
modelo de análise multivariado.
Frutuoso et al.15, ao avaliarem as 155 crian-
TV, consumo alimentar e obesidade ças e adolescentes de São Paulo, além de terem
encontrado associação significativa entre consu-
Salmon et al.9, avaliando 613 crianças de
mo alimentar em frente à TV e sobrepeso e obesi-
5-6 anos e 947 adolescentes de 10-12 anos, matri-
dade em ambos os sexos, observaram que a
culados em 24 escolas de Melbourne (Austrália),
prática de atividades passivas (assistir à TV, brincar
encontraram associação significativa entre hábito com jogos eletrônicos e usar a Internet) teve asso-
de assistir à TV por um tempo igual ou maior do ciação com sobrepeso e obesidade, também em
que duas horas por dia (≥2h/dia) e consumo de ambos os sexos.
bebidas altamente energéticas e de petiscos sal-
O principal objetivo de Rose & Bodor19 era
gados. Observou-se também associação signifi-
avaliar o nível de segurança alimentar e sua rela-
cativa e inversa entre assistir à TV ≥2h/dia e consu-
ção com a frequência de sobrepeso (percentil
mo de frutas. Os autores utilizaram questionário
85≤IMC/Idade<percentil 95) e obesidade (IMC/
de frequência alimentar aplicado aos pais para
Idade≥percentil 95, de acordo com o Centers For
avaliar os alimentos consumidos. O questionário Disease Control32, em 16.889 crianças de 6-7
continha 83 alimentos e bebidas, além de frutas anos, através de questionário aplicado aos pais.
e vegetais, todos previamente identificados em Os autores avaliaram também, de modo pros-
pesquisa anterior. O hábito de assistir à TV pectivo, a relação entre a segurança alimentar e
≥2horas/dia não apresentou associação signi- o ganho de IMC ao longo de um ano. Baseados
ficativa com obesidade (definida segundo o cri- em 18 questões da escala Household Food
tério de Cole et al.31) quando o modelo de re- Security Scale - Departamento de Agricultura dos
gressão logística foi ajustado por nível socioeco- EUA - os autores classificaram as moradias em
nômico, idade, sexo e nível educacional dos pais. três grupos: a) segurança alimentar, b) insegu-
Tanacescu et al.18 realizaram estudo de rança alimentar sem fome e c) insegurança ali-
caso-controle com 53 crianças e adolescentes de mentar com fome. Em análise multivariada, os
7-11 anos, comparando grupo de indivíduos não autores também avaliaram a relação da obesidade
obesos (IMC/Idade<percentil 85 da população de com outras variáveis, tais como as sócio-demo-
referência do Centers for Disease Control and gráficas e comportamentais. Assim, foi relatado
Prevention (CDC32) com grupo de obesos (IMC/Ida- que 54% das crianças que sofriam com a insegu-
rança alimentar apresentavam tempo de perma-
de≥percentil 85 do center for disease control32).
nência em frente à TV>2h/dia. A associação entre
Os autores encontraram associação significativa
entre obesidade e tempo em frente à TV, asso- assistir à TV>2h/dia e obesidade foi significativa,
ciação significativa entre ingestão de doces, salga- mas de maneira independente da segurança
dinhos, pipoca e amendoins e o hábito de assistir alimentar.
à TV, no sexo masculino, e relação entre ver TV e Mcmurray et al.20 avaliaram a influência
baixa atividade física no sexo feminino. de atividades físicas e sedentárias, bem como a

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associação da etnia e do nível socioeconômico, 30kg/m2, para sobrepeso e obesidade, respectiva-


no estado de sobrepeso (IMC/Idade≥percentil 85 mente), enquanto as distribuições percentilares
conforme National Centers for Health Statistics33), são construídas a partir de conceitos de média e
em 2.389 adolescentes de 10-16 anos. Os autores mediana oriundos de dados de alguma amostra
observaram associação significativa e inversa entre estudada. Tais métodos não têm equivalência e,
nível socioeconômico e hábito de assistir à TV. portanto, os valores de IMC/Idade propostos por
Assistir à TV≥2h/dia e jogar videogame≥2h/dia, Cole et al.31 não representam os percentis 85 e
entretanto, não se associaram significativamente 95 de quaisquer outros critérios de classificação.
ao sobrepeso, em ambos os sexos, quando foram Acredita-se, portanto, que o método escolhido
incluídas, no modelo multivariado, as variáveis por Oliveira et al.22 para avaliar o estado nutri-
etnia e nível socioeconômico. cional não tenha sido adequado.
No estudo de Terres et al.21, com adoles- Fonseca et al.23, avaliaram 391 adolescen-
centes de 15-18 anos, o tempo gasto com a TV tes de 15-17 anos, residentes em Niterói (RJ),
foi categorizado em <2, 3-4, 5-7 e ≥8 horas/dia. investigando a relação de fatores comportamen-
Não se encontrou associação univariada, através tais e biológicos com o índice de massa corporal.
do teste do qui-quadrado, entre essas categorias As autoras encontraram associação significativa
e sobrepeso e obesidade definidos pelo critério entre hábito de assistir à TV/jogar videogame/ver
de Cole et al.31. No modelo multivariado, as razões vídeos e IMC, no sexo masculino. As variáveis obe-
de prevalência não mostraram associação para sidade familiar e fazer dieta para emagrecer, en-
sobrepeso, em nenhuma das categorias de tempo tretanto, foram as mais fortemente associadas ao
de audiência à TV. Os adolescentes que relataram IMC, em ambos os sexos.
estar sob dieta apresentaram prevalência de so-
Hanley et al.24 avaliaram 242 adolescentes
brepeso 1,72 vezes maior, e o fato de omitir re-
de 10-19 anos, residentes numa comunidade iso-
feições também esteve associado. Quanto à obesi-
lada no Canadá. Essa comunidade apresenta alta
dade, adolescentes com cinco a oito anos de esco-
prevalência de obesidade e diabetes tipo 2 em
laridade apresentaram prevalência 2,53 vezes
adultos, por isso, os autores investigaram a preva-
maior quando comparados àqueles que possuem
lência de sobrepeso em adolescentes e os fatores
segundo grau ou mais. A presença de pais obesos
associados à mesma. Observou-se um maior risco
e fazer dieta e omitir refeições também se asso-
de desenvolver sobrepeso (IMC/Idade ≥ percentil
ciaram à obesidade.
85 conforme National Centers for Health
No estudo de Oliveira et al.22, com crianças Statistics33) nos adolescentes que assistiam à
de 5-9 anos, também não foi observada asso- TV≥5h/dia. Para a variável assistir à TV entre 2 e
ciação significativa entre assistir à TV e obesidade. 5h/dia não foram encontradas associações
Vale ressaltar que Oliveira et al.22 relataram ter significativas.
definido sobrepeso e obesidade a partir de IMC Dutra et al.25 avaliaram a associação do
igual ou superior aos percentis 85 e 95, respecti- sobrepeso com variáveis demográficas, socioeco-
vamente, adotando os pontos de corte obtidos nômicas, comportamentais e biológicas, em estu-
no estudo de Cole et al.31. Destaca-se, entretanto, do realizado com 810 adolescentes de 10-19 anos
que percentis e valores de IMC/Idade de Cole residentes em Pelotas (RS). As autoras encontra-
et al.31 constituem-se em métodos de avaliação ram que, concomitantemente ao aumento do
de diferentes naturezas classificatórias, não sendo tempo despendido em frente à TV, ocorreu um
conjugáveis. Os pontos de corte de Cole et al.31 incremento da prevalência de sobrepeso (IMC/Ida-
foram desenvolvidos com base no método mate- de≥percentil 85 conforme Must et al.34). No sexo
mático LMS, utilizando-se os pontos de corte de feminino, assistir à televisão≥4 horas por dia se
IMC usados para classificação de adultos (25 e associou significativamente ao sobrepeso.

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Eisenmann et al.26 observaram resultados observou-se se as crianças e adolescentes ava-


similares, sendo que ao aumentar o tempo em liados permaneciam pouco tempo em frente à
frente à TV elevou-se a frequência de sobrepeso mesma, já que o tempo semanal médio foi de
(IMC/Idade ≥ percentil 85 do Center For Disease 5,1 horas (eutróficos: Média - M=5,5, Desvio-Pa-
Control32) e o IMC em adolescentes de 14 a 18 drão - DP=5,1h/semana e sobrepeso: M=3,7,
anos, residentes nos EUA. Destaca-se que o estu- DP=4,3h/semana). O fato de permanecer em fren-
do desses autores avaliou amostra representativa, te à TV, portanto, não é fator associado ao sobre-
abrangendo 15.143 adolescentes. Eisenmann et peso, já que as crianças eutróficas assistiam signi-
al.26 verificaram que ver TV≥4h/dia (dummy) se ficativamente mais à TV do que as com sobre-
associou a sobrepeso, em ambos os sexos. Assim, peso. Vale ressaltar, também, que a prevalência
adolescentes que permanecem de duas a três de sobrepeso encontrada foi relativamente baixa
horas em frente à TV têm 20% a 25% menos se comparada àquela encontrada em outros estu-
chance de apresentar sobrepeso, e essa chance dos com crianças e adolescentes, totalizando
aumentou para 40% nos adolescentes que assis- 9,4%.
tiam uma ou menos horas de TV por dia. O estudo de Silva & Malina29 mostrou que
27
No estudo de Ekelund et al. , o tempo 323 adolescentes de 10-19 anos residentes em
destinado a assistir à TV e à atividade física e sua Niterói despendiam, em média, 4,7h/dia em frente
associação com obesidade (definida pela soma à TV, identificando associação significativa entre
das dobras cutâneas tricipital, subescapular, su- o tempo de TV e sobrepeso (IMC/Idade>percentil
prailíaca e bicipital), e medidas bioquímicas fo- 85 de acordo com critério de classificação de
ram avaliados em crianças (9-10 anos) e adoles- Himes & Dietz35).
centes (15-16 anos) residentes em três regiões Baruki et al.30, em município do Estado de
europeias. Os autores não observaram correlação Mato Grosso do Sul, verificaram a associação
entre tempo dedicado a ver TV e tempo de ativi- entre o estado nutricional de 403 crianças de
dade física, pois o tempo de atividade física foi 7-10 anos e a prática de atividades ativas e seden-
similar entre os que assistiam pouco (<0,5h/dia) e tárias. Os autores constataram correlação fraca e
muito (>2,5h/dia) à televisão. Observou-se asso- positiva entre tempo despendido em frente à TV
ciação significativa entre hábito de assistir à TV e e IMC e tempo despendido em frente à TV e per-
obesidade, e TV e insulina de jejum em modelo centual de gordura corporal. Os resultados indica-
multivariado ajustado para sexo, idade, maturação ram que as crianças eutróficas passavam menos
sexual, atividade física, peso ao nascer e nível tempo em frente à TV quando comparadas às
socioeconômico dos pais. Entretanto, ao inserir a com sobrepeso. Resultados semelhantes foram
atividade física no modelo ajustado, a associação encontrados por Pimenta & Palma7, que avaliaram
entre ver TV e a insulina de jejum perdeu a signi- o hábito de assistir à TV e a prática de atividade
ficância estatística. física de adolescentes de 10-11 anos. Os autores
Waller et al.28 estudaram o padrão de ati- observaram associação significativa entre hábito
vidade física e de consumo alimentar e a relação de assistir à TV e percentual de gordura corporal,
desses fatores com o sobrepeso (incluindo obesi- e a média de tempo de assistência à TV foi maior
dade), em 1.385 crianças e adolescentes chineses do que o tempo destinado à prática de atividades
físicas.
de 6-11 anos. O R24h aplicado em três dias foi o
instrumento utilizado para avaliar o consumo
alimentar, e para investigar questões sobre ativi- DISCUSSÃO
dade física e atividades sedentárias os autores
utilizaram um questionário sobre os sete dias ante- Em relação à influência da TV no consumo
riores à entrevista (semanário). Em relação à TV, alimentar, foi possível observar que seis estudos

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(cinco estrangeiros e um brasileiro), dentre nove aplicar o R24h de três a quatro vezes, em dias
(85% dos artigos), apontam uma interferência não consecutivos, em função da variabilidade
negativa da TV. Três estudos identificaram que intraindividual da dieta. Apenas três, dentre seis
quanto maior é o tempo dedicado em frente à artigos que utilizaram o R24h, aplicaram três vezes
mesma, menor é o consumo de frutas e vegetais esse inquérito, e em dias não consecutivos. Quan-
por crianças e adolescentes. Em quatro dos seis to ao QFA, quando aplicado em crianças e adoles-
estudos observou-se que o consumo de doces, centes, deve listar os alimentos que habitualmente
salgadinhos, refrigerantes e alimentos gordurosos são consumidos por estes grupos40, assim como
é maior quanto maior é o tempo despendido com fizeram Salmon et al.9 em seu estudo com os
a TV. Em dois estudos, dentre três que avaliaram escolares de Melbourne, na Austrália. Lanches
o hábito de assistir à televisão durante as refeições, feitos fora de casa e guloseimas como salga-
observou-se que se alimentar em frente à TV asso- dinhos, biscoitos, balas, doces e refrigerantes,
ciou-se à obesidade. É provável que essa inter- também devem ser listados. Dessa maneira, estu-
ferência seja devida, em boa parte, à publicidade dos com inquéritos dietéticos devem ser realizados
relativa a alimentos de baixo valor nutricional. Por mediante rigoroso planejamento metodológico,
outro lado, a aquisição de alimentos pelas famílias incluindo o treinamento da equipe de entrevista-
pode ser outro determinante. dores/coletores de dados para a aplicação dos
No Brasil, dados da Pesquisa de Orçamen- instrumentos escolhidos, a fim de evitar viés por
tos Familiares (POF) 2002-200336 mostraram que erro de aferição de dados.
a aquisição de açúcar e refrigerantes pelas famílias Apesar das limitações metodológicas dos
brasileiras compreendeu 13,4% do valor ener- artigos, é importante apontar que as constatações
gético, enquanto que o percentual relativo a relativas à influência da TV no consumo alimentar
frutas, verduras e legumes totalizou apenas 2,3%. de crianças e adolescentes levaram à adoção de
Considerando essa realidade, aliada ao fato da distintas iniciativas que visam à promoção da
TV influenciar o consumo de alimentos ricos em saúde e à prevenção de doenças associadas ao
gorduras e açúcares, faz-se necessário regula- estilo de vida. A American Academy of Pediatrics,
mentar o marketing sobre alimentos nos canais por exemplo, sugere que pais ou responsáveis não
de TV, já que frutas e hortaliças indubitavelmente permitam que suas crianças e adolescentes per-
não são anunciadas enfaticamente. Chaud & maneçam em frente à TV mais que 2 horas/dia41.
Marchioni37, ao analisarem estudos sobre os ali- No Brasil, sob a direção da Agência Nacional de
mentos alvo de publicidade, identificaram que é Vigilância Sanitária (ANVISA), órgão vinculado ao
forte o apelo de marketing sobre produtos de Ministério da Saúde, foi sancionada a Lei nº 11 265,
saúde e alimentação, e essa ênfase por muitas no ano de 2006, que regulamenta a publicidade
vezes é realizada sobre características nutricionais de alimentos para lactentes e crianças da primeira
que não são exclusivas dos produtos anunciados, infância42. O objetivo dessa lei é regulamentar a
mas podem ser encontradas em alimentos in publicidade de fórmulas lácteas, mamadeiras,
natura. chupetas e similares, para que não haja deses-
Vale ressaltar, nos estudos sobre o consu- tímulo à amamentação materna. Esse foi o pri-
mo alimentar, que o QFA e o R24h foram os instru- meiro passo para a que a publicidade não inter-
mentos mais utilizados. Ambos os inquéritos dieté- fira de maneira inadequada nas escolhas alimen-
ticos apresentam limitações, como a possibilidade tares dos indivíduos, sugerindo que outras medi-
de ocorrência de erro por sub ou suprarregistro das semelhantes podem ser tomadas quanto ao
por parte do entrevistado38. Segundo a World anúncio de alimentos de baixo valor nutricional.
Health Organization39, para se conhecer a inges- A associação entre o tempo despendido
tão média de forma mais precisa, seria necessário em frente à televisão e a ocorrência da obesidade

Revista de Nutrição Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010


TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE | 615

apareceu em 60% dos artigos. A maioria dos estu- que sugere a substituição das práticas de exercí-
dos brasileiros, seis estudos dentre oito, encontrou cio físico pelo tempo em frente à TV, fatos que,
associação significativa entre horas assistindo à estando presentes no estilo de vida, podem pro-
TV e sobrepeso/obesidade, e em um destes, tam- piciar o sobrepeso e obesidade. Na sociedade
bém se verificou associação positiva entre TV e contemporânea, parece haver uma tendência a
consumo alimentar. Nas investigações estran- se usar cada vez menos os espaços públicos de
geiras, seis dentre dez estudos, apresentaram re- lazer, o que pode ser devido ao problema da
sultados positivos para a associação entre TV e violência, principalmente em grandes aglome-
obesidade ou consumo alimentar em frente à TV rados urbanos. Em uma amostra de pré-escolares,
e obesidade, além de se identificar associação investigada em uma cidade dos EUA, observou-
inversa entre televisão e tempo de atividade física. -se associação significativa e positiva entre a per-
Quanto à avaliação nutricional, cita-se que a com- cepção de mães a respeito da segurança na vi-
paração entre os estudos analisados ficou preju- zinhança e o tempo que seus filhos despendiam
dicada devido aos diversos critérios diagnósticos em frente à TV, mostrando que se permanecia
mais em frente à TV quando o nível de segurança
aplicados para a estimativa da prevalência de
não permitia que se brincasse fora de casa46.
sobrepeso e/ou obesidade. Sabe-se que até
mesmo numa mesma população diferentes crité-
rios podem gerar dados distintos43,44 e, por isso, CONSIDERAÇÕES FINAIS
apesar de parecer haver associação entre essas
variáveis, vale destacar que um estudo de revisão Por fim, salienta-se que os resultados dos
mais vasto, utilizando artigos com o mesmo crité- estudos apontam a permanência em frente à TV
rio diagnóstico traria resultados mais consistentes como fator que influencia crianças e adolescen-
sobre essa associação. Além disso, as diferentes tes a desenvolverem hábitos alimentares menos
saudáveis, e também reduz o tempo dedicado à
maneiras de se categorizar e analisar a medida
atividade física.
de ver TV, pode ter gerado essas discrepâncias.
Apesar de não haver concordância entre
Outro fator a ser analisado é o fato de a
os estudos internacionais a respeito da influência
maior parcela dos artigos descritos apresentarem da TV na obesidade, destaca-se que as mudanças
delineamento transversal. Apesar de serem mais comportamentais provocadas por ela no hábito
rápidos, de menor custo e terem melhor opera- alimentar e no tempo dedicado à atividade física
cionalidade, estudos dessa natureza podem não são determinantes que podem propiciar o sobre-
demonstrar relação de causa e efeito. Para se indi- peso ou a obesidade, indicando a TV como va-
car uma causalidade em estudos epidemioló- riável que pode estar indiretamente associada. Por
gicos, um conjunto de condições e critérios deve isso, em estudos epidemiológicos nutricionais, é
ser atendido pela investigação45. Assim, os resul- de grande valia analisar o tempo dedicado a assis-
tados encontrados em 16 dos vinte estudos anali- tir à TV, em crianças e adolescentes.
sados podem estar mostrando apenas relações Esses achados devem alertar as autori-
estatísticas de dependência entre variáveis, sem, dades públicas, para que programas e políticas
no entanto, estabelecer o hábito de assistir à TV continuem enfatizando a promoção da alimen-
como causa direta do desenvolvimento do sobre- tação saudável e a prevenção da obesidade nas
peso ou da obesidade. mais tenras idades, podendo incluir medidas que
estimulem o lazer ativo e a redução do tempo
Apesar dessas limitações metodológicas, que crianças e adolescentes permanecem em
observou-se também que os estudos analisados frente à TV, bem como a regulamentação da
apontam associação inversa entre tempo em fren- publicidade de alimentos, tais como aquelas já
te à TV e tempo dedicado à atividade física, o adotadas por órgãos de saúde nos EUA e no Brasil.

Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010 Revista de Nutrição


616 | C.E. ROSSI et al.

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Revista de Nutrição Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010


TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE | 617

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from an expert committee. Am J Clin Nutr. 1994; Versão final reapresentada em: 12/11/2009
59:307-16. Aprovado em: 17/3/2010

Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010 Revista de Nutrição


618 | C.E. ROSSI et al.

ANEXO

RELAÇÃO DOS ESTUDOS SOBRE HÁBITO DE ASSISTIR À TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE EM CRIANÇAS E
ADOLESCENTES, PUBLICADOS NO PERÍODO DE 1998 A 2006, EM ORDEM CRONOLÓGICA E DE ACORDO COM: AUTORIA/ANO
DE PUBLICAÇÃO E LOCAL DE REALIZAÇÃO, DESENHO DO ESTUDO, FAIXA ETÁRIA E TAMANHO DA AMOSTRA, VARIÁVEIS
DESFECHO E PRINCIPAIS VARIÁVEIS EXPOSIÇÃO, RESULTADOS PRINCIPAIS E ANÁLISE ESTATÍSTICA

Autoria/Ano de Resultados principais e


Desenho Amostra Desfecho e exposição
publicação/local análise estatística

Baruki et al.30 Transversal 403 crianças Desfecho: risco de sobrepeso se


Crianças com sobrepeso perma-
2006 Brasil (7-10 anos) IMC/Idade ≥percentil 85 e <95
neciam mais tempo na TV e nos
e sobrepeso se IMC/Idade jogos eletrônicos se comparadas
≥percentil 95 do CDC32 às eutróficas e com risco de
Exposição: tempo de TV e de sobrepeso (p<0,05)./Teste de
jogos eletrônicos/dia Tukey

Dutra et al.25 Transversal 810 adolescentes Desfecho: sobrepeso se IMC/ O sobrepeso foi maior confor-
2006 Brasil (10-19 anos) Idade de Must et al.34 >percentil me aumentou o tempo de TV.
85 No sexo feminino, a variável
Exposição: variáveis demográ- manteve a associação em aná-
ficas, socioeconômicas, compor- lise multivariada (p=0,006 para
tamentais e biológicas,dentre TV≥4h/dia; RP=2,24; 95%
elas o tempo de TV/dia IC=1,24-3,96)./Regressão de
Poisson
Ekelund et al.27 2006 Transversal, de 1.092 crianças Três modelos: Associação entre TV e adiposi-
Dinamarca, Estônia e base (9-10 anos) e a) TV e adiposidade como des- dade (β=0,06; 95% IC=0,009-
Portugal populacional 829 adolescentes fechos e medidas bioquímicas e 0,11; p<0,05) e TV e insulina de
(15-16 anos) adiposidade como exposições; jejum (β=0,067; 95% IC= 0,014-
b) medidas bioquímicas como 0,12; p<0,05).
desfechos e ver TV como expo- Associação não significativa en-
sição; tre TV e medidas bioquímicas
c) análise post hoc: comer assis- (β=0,026; p=0,053)./Regressão
tindo à TV na associação entre linear multivariada.
TV e adiposidade
Rose & Bodor19 2006 Principal análise: 16 889 crianças Desfecho: sobrepeso se IMC/ Associação entre insegurança
Estados Unidos da Longitudinal; (6-7 anos) Idade de do CDC32 ≥ percentil alimentar e ver TV>2h/dia
América Para a análise do 85 e < 95 e obesidade se IMC/ (p<0,05). Qui-quadrado.
desfecho com o Idade ≥ percentil 95 Associação entre ver TV>2h/dia
tempo de Exposição:Segurança alimentar e obesidade (OR=1,24; 95%
televisão: e varáveis comportamentais, IC=1,12-1,38; p<0,001)./Re-
Transversal como >2h/dia de TV gressão logística multivariada.
aninhado em
longitudinal
Salmon et al.9 Transversal 2 460 escolares Desfecho: sobrepeso e obesida- Associação entre TV≥2 h/dia e
2006 Austrália (5-6 anos e de conforme Cole et al.31 consumo de bebidas muito
10-12 anos) Exposição: Consumo alimentar energéticas (OR=2,31; 95%
e tempo de TV IC=1,61-3,32) e de salgadinhos
≥1 porção/dia (OR=1,50; 95%
IC=1,04-2,24).TV≥2h/dia e obe-
sidade não se associaram
(OR=1,37; 95% IC=0,94-2,00)./
Regressão logística multiva-
riada.
Terres et al.21 Transversal, de 960 adolescentes Desfecho: sobrepeso e obesida- Fazer dieta (RP=1,72; IC 95%:
2006 Brasil base (15-18 anos) de conforme Cole at al.31 1,24-2,38), e omitir refeições
populacional Exposição: variáveis socioeco- associaram-se a sobrepeso
nômicas, comportamentais e (RP=1,69; IC 95%: 1,29-2,21).
demográficas, dentre elas o tem- TV não se associou a sobrepe-
po de TV em horas/dia (3-4h, so e obesidade./Qui-quadrado e
5-7h ou >8h/dia) Regressão de Poisson multiva-
riada.

Revista de Nutrição Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010


TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE | 619

ANEXO

RELAÇÃO DOS ESTUDOS SOBRE HÁBITO DE ASSISTIR À TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE EM CRIANÇAS E
ADOLESCENTES, PUBLICADOS NO PERÍODO DE 1998 A 2006, EM ORDEM CRONOLÓGICA E DE ACORDO COM: AUTORIA/ANO
DE PUBLICAÇÃO E LOCAL DE REALIZAÇÃO, DESENHO DO ESTUDO, FAIXA ETÁRIA E TAMANHO DA AMOSTRA, VARIÁVEIS
DESFECHO E PRINCIPAIS VARIÁVEIS EXPOSIÇÃO, RESULTADOS PRINCIPAIS E ANÁLISE ESTATÍSTICA
Continuação
Autoria/Ano de Resultados principais e
Desenho Amostra Desfecho e exposição
publicação/local análise estatística

Matheson et al.12 Transversal, com 1ª amostra: 91 Desfecho: IMC Correlação fraca entre IMC e
2004 Estados Unidos duas diferentes crianças de 3ª série Exposição: Percentual de ener- consumo de gorduras em fren-
da América amostras 2ª amostra: 124 ado- gia proveniente de gordura in- te à TV, em dias de semana
lescentes de 5ª série gerida em frente à TV, tipos de (r=0,25 e p<0,04)./Correlação
(7-12 anos) alimentos consumidos em fren- de Sperman, Análise de variân-
te à TV cia multinível.
Stettler et al.14 Transversal 870 crianças Desfecho: obesidade se há Consumo em frente à TV e so-
2004 Suíça (6-10 anos) sobrepeso por Cole et al.31 e brepeso não se associaram. As-
soma das dobras cutâneas trici- sociação entre TV e sobre-peso
pital e subescapular ≥ percentil (OR=2,83; 95% IC=2,08-3,86),
85 e jogos eletrônicos e obesida-
Exposição: tempo diário em de (OR=2,03; IC 95% =1,57-
frente à TV, tempo diário em jo- 2,61; p<0,001). Associação in-
gos eletrônicos, e assistir à TV versa entre atividade física e
durante as refeições e lanches obesidade (OR=0,80; IC
em dias de semana 95%=0,72-0,88; p<0,001)./Re-
gressão logística multivariada.
Boynton-Jarrett Longitudinal 548 adolescentes Desfecho: consumo de frutas e Associação inversa entre con-
et al.17 2003 Estados prospectivo (10-12 anos) verduras sumo diário de frutas e verdu-
Unidos da América Baseline em 1995 Exposição: consumo de frutas ras e TV (baseline: β= -0,16;
e follow-up em e verduras no baseline, tempo de 95%IC=0,22-0,10; p<0,008;
1997 TV e mudanças no tempo em follow-up: β=-0,16; 95%
frente à TV no período de dois IC=0,22-0,07; p<0,025)./Re-
anos gressão linear multivariada.
Frutuoso et al.15 Transversal 155 crianças e ado- Desfecho: sobrepeso e obesida- Associação entre sobrepeso e
2003 Brasil lescentes de conforme Cole at al.31 obesidade e consumo alimen-
(7-14 anos) Exposição: Consumo alimentar tar em frente à TV para meni-
em frente à TV, e prática de ati- nos e meninas (p<0,001). Asso-
vidades passivas: ver TV, brincar ciação entre atividades passivas
com jogos eletrônicos e perma- e sobrepeso e obesidade (pa-
necer na Internet ra os meninos se 14 a 28h/se-
mana; p=0,04; e para as me-
ninas se + 28 h/semana;
p=0,02)./Qui-quadrado e t de
Student.
Oliveira et al.22 Transversal 699 criança Desfecho: sobrepeso se IMC/ Ver TV, usar computador e jo-
2003 Brasil (5-9 anos) Idade gar videogame não se asso-
≥percentil 85 e obesidade se ciaram à obesidade (p = 0,17;
IMC/Idade≥percentil 95, adotan- 0,10; 0,84, respectivamente)./
do-se os pontos de corte de Cole Regressão logística multiva-
et al.31 riada.
Exposição: Tempo de TV, de As razões de chance e Interva-
videogame e de computador los de confiança não foram
mostrados.
Silva & Malina29 Transversal 323 adolescentes Desfecho: sobrepeso se IMC/ Associação entre TV > 3 horas e
2003 Brasil (10-19 anos) Idade>percentil 85 de Himes & sobrepeso (OR=1,17; p<0,05)./
Dietz35 Regressão logística multivariada.
Waller et al.28 Transversal 1.385 crianças e Exposição: tempo de TV/dia A exposição não teve relação
2003 China aninhado em adolescentes Desfecho: sobrepeso se IMC/ com o desfecho, pois os eutró-
longitudinal (6-11 anos) Idade>percentil 85 do CDC32 ficos passavam somente cerca
Exposição: Atividades sedentá- de 15 minutos/dia a mais assis-
rias, como tempo de TV e de jo- tindo à TV do que os com
gos eletrônicos em horas/sema- sobrepeso (p<0,02)./Teste t de
na Student.

Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010 Revista de Nutrição


620 | C.E. ROSSI et al.

ANEXO

RELAÇÃO DOS ESTUDOS SOBRE HÁBITO DE ASSISTIR À TELEVISÃO, CONSUMO ALIMENTAR E OBESIDADE EM CRIANÇAS E
ADOLESCENTES, PUBLICADOS NO PERÍODO DE 1998 A 2006, EM ORDEM CRONOLÓGICA E DE ACORDO COM: AUTORIA/ANO
DE PUBLICAÇÃO E LOCAL DE REALIZAÇÃO, DESENHO DO ESTUDO, FAIXA ETÁRIA E TAMANHO DA AMOSTRA, VARIÁVEIS
DESFECHO E PRINCIPAIS VARIÁVEIS EXPOSIÇÃO, RESULTADOS PRINCIPAIS E ANÁLISE ESTATÍSTICA
Conclusão
Autoria/Ano de Resultados principais e
Desenho Amostra Desfecho e exposição
publicação/local análise estatística

Eisenmamm et al.26 Transversal 15 143 adolescen- Desfecho: sobrepeso se IMC/ IMC e tempo de TV foram dire-
2002 Estados Unidos tes Idade ≥ percentil 85 do CDC32 tamente proporcionais, em am-
da América (14-18 anos) Exposição: tempo de TV em dia bos os sexos (p<0,01)./Análise
escolar e tempo de atividade fí- de covariância.
sica Ver TV ≥4 h/dia se associou a
sobrepeso, em ambos os sexos
( 2-3 h/dia OR=0,78; 95%
IC=0,61-0,99; p=0,04; e
OR=0,74; 95% IC=0,54-1,01;
p=0,0001)./Regressão logística
multivariada.
Coon et al.16 Transversal 91 crianças (idade Desfecho: comer enquanto se Associação entre o desfecho e
2001 Estados Unidos (setembro de média dez anos) assiste à TV consumo de carnes vermelhas
da América 1993 a junho de Exposição: frequência do con- (β=0,14; p < 0,01), pizzas e sal-
1995) sumo de alguns alimentos e gados (β=0,12; p <0,05), e re-
percentual de energia proveni- frigerantes (β=0,15; p<0,05); e
ente de alguns alimentos inversa com o consumo de fru-
tas (β=-0,01, p≤0,05) e vegetais
(β=-0,01, p≤0,01)./Regressão li-
near multivariada.
Pimenta & Palma7 Transversal 56 crianças e Desfecho:percentual de gordu- Associação entre TV e percen-
2001 Brasil adolescentes ra pelas fórmulas de Slaughter tual de gordura corporal
(10-11 anos) et al. (1988) e Lohman (1987) (r= 0,51 e p<0,01)./Teste t de
Exposição: tempo de TV Student.
Hanley et al.24 Transversal 242 adolescentes Desfecho: sobrepeso se IMC/ TV ≥ 5h/dia se associou a so-
2000 Canadá (10-19 anos) Idade ≥ percentil 85 do NANHES brepeso (p=0,03; OR=2,52;
III (1998) 95% IC=1,06-5,98)./ Regressão
Exposição: TV < 2h, 3-4 h e ≥ logística multivariada.
5h/dia. Associação não significativa en-
tre TV e sobrepeso (meninos: OR
= 1,07; IC 95% = 0,73-1,55;
meninas: OR 1,424; IC 95% =
Mcmurray et al. 20 Transversal 2.389 adolescentes Desfecho: sobrepeso se IMC/ 0,969-2,091)./Associação não
2000 Estados Unidos aninhado em (10-16 anos) Idade ≥ percentil 85 do NCHS33 significativa entre jogar
da América longitudinal Exposição: ver TV>2 h/dia e jo- videogame e sobrepeso (meni-
gar videogame>2 h/dia, etnia e nos: OR = 1,08; IC 95%=0,76-
nível educacional dos pais 1,51; meninas: OR = 0,68; IC
95%=0,415-1,17)./Regressão
logística multivariada.
Tanacescu et al.18 Caso-controle 53 crianças e Desfecho: obesidade se IMC/ Associação entre ingerir doces,
2000 Porto Rico adolescentes Idade ≥ percentil 85 das referên- salgadinhos, pipoca e amen-
(7-11 anos) cias do NANHES doins e ver TV em dias de se-
31 meninas, 19 Exposição: variáveis biológicas, mana (r=0,57; p=0,007) e final
obesas e 12 con- socioeconômicas e comporta- de semana (r=0,60; p=0,003),
troles, e 22 meni- mentais, entre elas: consumo em nos meninos. Relação inversa
nos, dez obesos e frente à TV, horas/dia de TV, entre TV e atividade física no
12 controles computador e videogames sexo feminino (p<0,05)./Corre-
lação de Spearman.
Fonseca et al.23 Transversal 391 adolescentes Desfecho: IMC como variável Associação entre obesidade e
1998 Brasil (15-17 anos) contínua TV (OR=1,86; 95% IC=1,02-
Exposição: variáveis comporta- 3,42; p=0,04)./Regressão logís-
mentais e biológicas, dentre elas tica multivariada.
o tempo de TV/videogame/ Associação entre TV/videogame/
vídeos por dia vídeos e IMC (β=0,27; R2=0,24
e p=0,02), no sexo masculino./
Regressão linear multivariada.

Revista de Nutrição Rev. Nutr., Campinas, 23(4):607-620, jul./ago., 2010

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