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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2020.

FICHAMENTO: CLASTRES, Pierre [1934-77]. “Do Etnocídio”.


In:_____. Arqueologia da Violência: pesquisas de
antropologia política. - 3a edição. - São Paulo: Cosac Naify,
2014. p. 77-87.

1. O conceito de etnocídio surge a partir Etnocídio ≠


da necessidade de dar conta de uma Genocídio
realidade que o conceito de genocídio
não abarca. Portanto, para se iniciar
uma reflexão séria acerca do etnocídio,
faz-se necessária a definição e a
diferenciação com o fenômeno que o
genocídio nomeia. (p. 77)
2. Criado em 1946 no processo de A origem e o
Nuremberg, O conceito jurídico de significado do
genocídio é a consideração no plano conceito de
legal de um tipo de criminalidade até genocídio
então desconhecido. Mais
precisamente, ele se refere à primeira
manifestação, devidamente registrada
pela lei, dessa criminalidade: o
extermínio sistemático dos judeus
europeus pelos nazistas alemães. (p.
77)
3. O delito juridicamente definido como O genocídio como
genocídio tem sua raiz no racismo. consequência do
As guerras coloniais que se sucederam racismo
desde 1945 em grande parte do
Terceiro Mundo deram, por sua vez,
ensejo a acusações precisas de
genocídio contra as potências coloniais.

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Mas o jogo das relações internacionais
e a indiferença relativa da opinião
pública impediram a instauração de
processos judiciais análogos a
Nuremberg. (p. 78)
4. Embora o genocídio antissemita dos O genocídio é
nazistas tenha sido o primeiro a ser anterior ao seu
julgado em nome da lei, não foi o reconhecimento legal
primeiro a ser perpetrado.
A história da expansão colonial no
século XIX, a história da constituição de
impérios coloniais pelas grandes
potências europeias, está pontuada de
massacres metódicos de populações
autóctones. (p. 78)
5. O genocídio dos indígenas O genocídio indígena
americanos é o que mais chama
atenção.
Desde o descobrimento da América em
1492, pôs-se em funcionamento uma
máquina de destruição dos índios. (p.
78)
6. O conceito de etnocídio foi O conceito de
desenvolvido a partir do estudo da etnocídio tem sua
realidade dos ameríndios por etnólogos, origem na etnologia
em particular o etnólogo Robert Jaulin.
7. Se o termo genocídio remete à ideia Genocídio =
de “raça” e à vontade de extermínio de destruição física
uma minoria racial, o termo etnocídio Etnocídio =
aponta não para a destruição física dos destruição da cultura
homens, mas para a destruição de sua
cultura. (p.78)
8. O etnocídio é a destruição Definição de
sistemática dos modos de vida e etnocídio

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pensamento de povos diferentes
daqueles que empreenderam essa
destruição. (p. 78-79)
9. Os missionários, propagadores Os praticantes do
militantes da fé cristã, eles se esforçam etnocídio
por substituir as crenças bárbaras dos
pagãos pela religião do Ocidente. (p.79)
10. O genocida extermina os outros Genocida =
porque consideram que eles são pessimista
absolutamente maus. Etnocida = otimista
O etnocida considera que os outros são
maus, mas que pode-se melhorá-los
obrigando-os a se transformar até que
se tornem idênticos ao modelo que lhes
é imposto. (p. 79)
A espiritualidade do etnocídio é a ética
do humanismo. (p. 80)

11. A hierarquia de culturas e a A hierarquia de


superioridade absoluta da cultura culturas e a
ocidental são os dois axiomas que se superioridade
destacam na prática etnocida. absoluta da cultura
ocidental
Exemplo: suprime-se a indianidade do
índio para fazer dele um cidadão
brasileiro. (p.80)
12. O etnocentrismo é a vocação de Definição de
avaliar as diferenças pelo padrão da etnocentrismo
própria cultura. (p. 80)
13. As sociedades tidas como primitivas Sistemas de
não tem uma autodenominação, na autodenominação e
medida em que se atribuem quase classificação dos
sempre um único e mesmo nome: os outros nas
Homens. Inversamente, cada sociedade

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designa sistematicamente seus vizinhos sociedades tidas
por nomes pejorativos, desdenhosos, como primitivas
injuriosos.
Exemplos de autodenominação: Os
índios Guarani se nomeiam Ava, que
significa os Homens; os Guayaki dizem
deles mesmos que são Aché, as
“Pessoas”; os Waika da Venezuela se
proclamam Yanomami, a “Gente”; e os
esquimós são Innut, os “Homens”. (p.
81)
14. Se toda cultura é etnocêntrica, Ocidente
somente a ocidental é etnocida. (p. 81) etnocêntrico e
A civilização ocidental é etnocida em etnocida
primeiro lugar no interior dela mesma.
(p. 81)
Um exemplo de etnocídio interno é a
história da França, que ao passar pela
francização, enxotou línguas
tradicionais como dialetos de indivíduos
atrasados, rebaixou a vida aldeã à
condição de espetáculo folclórico
destinado ao consumo de turista etc. (p.
84)
15. A distinção entre os selvagens e os Sociedades sem e
civilizados: o primeiro reúne o conjunto com Estado
das sociedades sem Estado, o segundo
compõe-se de sociedades com Estado.
(p. 82)
16. O Estado é o emprego de uma força Definição de Estado
centrípeta que tende a esmagar as
forças centrífugas inversas.
O Estado é a força atuante do Um, a
vocação de recusa do múltiplo, o temor
e o horror da diferença. (p. 83)

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17. A prática etnocida e a máquina A prática etnocida e a
estatal funcionam da mesma maneira e máquina estatal
produzem os mesmos efeitos: sob as
espécies da civilização ocidental ou do
Estado, revelam-se sempre a vontade
de redução da diferença e da
alteridade, o sentido e o gosto do
idêntico e do Um. (p. 83)
O Estado conhece apenas cidadãos
iguais perante a lei. (p. 84)
18. A violência etnocida, como negação Toda organização
da diferença, pertence claramente à estatal é etnocida
essência do Estado, tanto nos impérios
bárbaros quanto nas sociedades
civilizadas do Ocidente: toda
organização estatal é etnocida, o
etnocídio é o modo normal de
existência do Estado. (p. 85)
19. Estados bárbaros (Incas, faraós, Diferenças entre os
despotismos orientais etc.): a Estados bárbaros e
capacidade é limitada não pela civilizados
fraqueza do Estado, mas por sua força.
A prática etnocida cessa a partir do
momento em que a força do Estado não
corre mais nenhum risco. Exemplo:
Tolerância relativa dos Incas à
autonomia das comunidades andinas
quando estas reconheciam a autoridade
política e religiosa do Imperador.

Estados civilizados (o mundo ocidental):


capacidade etnocida sem limites,
desenfreada. É exatamente por isso
que ela pode conduzir ao genocídio e

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que se pode falar do mundo ocidental
como absolutamente etnocida. (p. 86)
20. O regime de produção econômica Etnocídio e
capitalista do Ocidente é o que torna o capitalismo
Ocidente civilizado etnocida sem
fronteiras.
Raças, sociedades, indivíduos; espaço,
natureza, mares, florestas, subsolo:
tudo é útil, tudo deve ser utilizado, tudo
deve ser produtivo; de uma
produtividade levada a seu regime
máximo de intensidade (p. 86)
21. Produzir ou morrer, é a divisa do Uma escolha: ou o
Ocidente. O Ocidente civilizado não etnocídio ou o
permitirá a tranquila improdutividade genocídio
originária, que significa, aos olhos do
civilizador, um desperdício a não
exploração econômica de imensos
recursos.
Exemplos: os extermínio, no final do
século XIX, dos índios do pampa
argentino para a criação extensiva de
ovelhas e vacas; o perecimento dos
índios amazônicos, no começo do
século XX, sob a ação dos exploradores
de borracha; atualmente, os últimos
índios livres sucumbem a pressão
enorme do crescimento econômico,
brasileiro em particular. (p. 85-86)

Rio de Janeiro, 03 de julho de 2020.

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FICHAMENTO: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Sobre a
Noção de Etnocídio, com Especial Atenção ao Caso
Brasileiro. Referência incompleta.
1. Pode-se considerar como “ação Definição de ação
etnocida”, no que concerne às minorias etnocida
étnicas indígenas situadas em território
nacional, toda decisão política tomada à
revelia das instâncias de formação de
consensos próprios das coletividades
afetadas por tal decisão, a qual acarrete
mediata ou imediatamente a destruição
do modo de vida das coletividades, ou
constitua grave ameaça (ação com
potencial etnocida) à continuidade
desse modo de vida. (p. 1)
2. Etnocídio é todo projeto, programa e Marcos legais para o
ação de governo ou de organização civil reconhecimento do
(missões religiosas proselitistas, por etnocídio
exemplo) que viole os direitos
reconhecidos no capítulo VIII da
Constituição Federal de 1988 (“Dos
Índios”), em particular mas não
exclusivamente aqueles mencionados
no caput do art. 231, que sancionam a
existência — e portanto o direito à
persistência — de “sua [dos índios]
organização social, costumes, línguas,
crenças e tradições, e o direito
originário sobre as terras que ocupam”.
Podemos acrescentar, entre os
elementos de configuração deste crime,
toda ação que constitua uma violação
da Resolução das Nações Unidas sobre
os Direitos dos Povos Indígenas,

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aprovada em 13 de setembro de 2007,
em especial seus artigos 8 e 10. (p. 1)
A Convenção 169 da OIT (1989),
ratificada pelo Brasil, especifica, por sua
vez, os direitos dos “povos indígenas e
tribais”, e, embora sem mencionar o
termo “etnocídio”, deixa perfeitamente
claro que o desrespeito aos direitos ali
estabelecidos é uma grave ameaça à
sobrevivência e autonomia
socioculturais dos povos concernidos.
(p. 1-2)
3. O conceito de “etnocídio” tem sua Origem do conceito
origem na obra do antropólogo francês de etnocídio
Robert Jaulin, notadamente em seu livro
La paix blanche: introduction à
l’ethnocide (1970), onde o autor oferece
um testemunho etnográfico detalhado
do processo de destruição da cultura e
da sociedade dos Bari. (p. 2)
4. Robert Jaulin entende que o Perspectiva de
etnocídio não se caracteriza pelos Robert Jaulin acerca
meios, mas pelos fins. Ele é um do etnocídio
processo que visa a destruição
sistemática do modo específico de vida
de povos diferentes, sob estes
aspectos, do povo, agência ou Estado
que leva a cabo a empresa de
destruição. (p. 2)
5. Entendo, entretanto, que a distinção Contraponto de
de Jaulin entre “meios” e “fins” é Viveiros de Castro à
especiosa, pois deixa aberta a perspectiva de Jaulin
possibilidade de algo como um
“etnocídio culposo” antes que “doloso”;
em outras palavras, sugere que ações

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etnocidas possam ser cometidas como
“resultado não intencional” ou “dano
colateral” de decisões, projetos e
iniciativas de governo cujo objetivo
precípuo não é a extinção sociocultural
e desfiguração étnica de uma
coletividade, mas antes a realização de
“projetos de desenvolvimento” que
visariam ostensivamente beneficiar toda
uma população nacional.(p. 3)
6. Como observamos, o conceito de Iniciativas que
etnocídio não é mencionado focalizaram a
diretamente nos documentos questão do etnocídio
diplomáticos mais importantes das
últimas décadas.
Não obstante, diversas iniciativas de
peso focalizaram explicitamente esta
forma de destruição de modos de vida
coletiva… Destaque-se aí o “Encontro
de Especialistas em
Etno-Desenvolvimento e Etnocídio na
América Latina”, patrocinado pela
UNESCO e realizado na FLACSO em
Costa Rica em 1981. (p. 3-4)

7. O conceito de etnocídio caminha Acolhimento oficial


lenta mas firmemente para seu do etnocídio
acolhimento oficial por parte dos
organismos internacionais, apesar de
uma persistente pressão contrária
exercida pelos Estados nacionais,
muitos dos quais têm em seu passivo
histórico e ético uma abundância de
políticas inequivocamente etnocidas,

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associadas ou não a ações genocidas.
(p. 4)
8.Uma definição minimamente Etnocídio – etnia –
aprofundada do conceito de etnocídio minoria étnica
depende de um consenso prévio sobre
o significado da noção de ethnos, grupo
étnico ou etnia. Acrescente-se que a
noção de “grupo étnico”, no contexto da
problemática do etnocídio, é dificilmente
dissociável do conceito de minoria
étnica.
No caso brasileiro, essa minoria étnica
é definida como indígena. (p. 4)
9. Segundo Anthony D. Smith, etnia Definição de etnia
pode ser definida como um grupo
humano cujos membros compartilham
mitos comuns de origem e
descendência, memórias históricas,
valores e padrões culturais, a
associação com um território
determinado, e um senso de
solidariedade… (p. 5)
10. A definição de Smith, entretanto, A reconstituição ativa
pode ser criticada por seu caráter pouco de coletividades
dinâmico, excessivamente externalista etnicamente
ou objetivista, ao não contemplar os diferenciadas
processos históricos de constituição e
especialmente de reconstituição ativa
de coletividades etnicamente
diferenciadas. Essa situação é de
especial relevância no Brasil
contemporâneo, sobretudo a partir da
promulgação da Constituição Federal
de 1988, que consagrou e perenizou o
instituto do indigenato, quando diversas

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identidades étnicas indígenas
“submersas” passaram a lutar para
terem sua condição indígena
reconhecida pelo Estado, com as
devidas consequências jurídicas
previstas pelo artigo 231 da CF. (p. 5)
11. Para Deleuze & Guatari, minoria e Maioria e minoria
maioria não se opõe de uma maneira
apenas quantitativa. Maioria implica
uma constante, algo como um
metro-padrão que lhe serve de
instrumento avaliador.
A maioria supõe um estado de poder e
de dominação, e não o inverso; ela
supõe o metro-padrão e não o inverso.
Mas por outro lado, a maioria, na
medida em que é analiticamente
compreendida pelo metro-padrão,
nunca é alguém, ela é sempre
Ninguém, ao passo que a minoria é o
devir [a variação, diferente de uma
variável] de todo mundo.

Exemplo de maioria: Homem, branco,


macho, adulto, urbanita, heterossexual,
falante de uma língua europeia ‘de
cultura’.

Por isso os autores distinguem entre o


majoritário como sistema homogêneo e
constante, as minorias como
sub-sistemas variáveis (incluídas e
dominadas pelo sistema majoritário), e
o minoritário como devir ou trajetória
potencial, como variação contínua,

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figura universal da consciência
minoritária.
“O devir minoritário como figura
universal da consciência se chama
autonomia”. (p. 7)
12. Neste sentido conceitual, as Minorias étnicas
minorias étnicas indígenas não são indígenas
simplesmente subconjuntos ou
subsistemas socioculturais “incluídos”
na Maioria, mas coletividades em
processo incessante de minoração, de
variação contínua, processo
propriamente intolerável pela máquina
administrativa da Maioria.
Exemplos: “quem é índio, afinal?”; “mas
esses caras não são índios”; “agora
todo mundo quer ser índio na
Amazônia”. (p. 8)
13. Reafirmação ou reemergência Definição de
étnica que marcam a história etnogênese
contemporânea. (p. 8)
14. Da “guerra justa” ao massacre do Exemplos de
paralelo 11; das expedições punitivas genocídios na
dos governos coloniais às incursões história do Brasil
predatórias dos bandeirantes paulistas;
dos massacres de índios nas “correrias”
na Amazônia ocidental durante o ciclo
da borracha à limpeza étnica dos
sertões do Sul e Sudeste para a
construção de ferrovias e implantação
do colonato europeu; ou, para
tomarmos um exemplo recente, a
ofensiva implacável, movida a ferro e a
fogo, pelos fazendeiros do MS contra
Guarani-Kaiowá, configurando um

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panorama com diversas analogias com
a situação dos palestinos da Faixa de
Gaza.
15. Da catequese sob o signo do Exemplos de
compelle intrare e “da prédica da etnocídios na história
espada e da vara de ferro” (Anchieta) do Brasil
ao recrutamento de tropas indígenas
pelos sertanistas e pelo Exército
imperial; das reduções e descimentos
missionários à proibição do uso dos
vernáculos nativos nas aldeias e
arraiais coloniais; da imposição de uma
língua franca nos séculos XVII e XVIII
ao sequestro, em pleno século XX, de
crianças índias pelas “escolas” dos
Salesianos no Rio Negro; da destruição
brutal dos sacra indígenas identificados
como manifestações do demônio ao
proselitismo evangélico-capitalista dos
missionários norte-americanos
generosamente tolerados, quando não
acolhidos, por todos nossos governos
“nacionalistas”; do Diretório dos Índios
pombalino à criação do “Serviço de
Proteção aos Índios e Localização dos
Trabalhadores Nacionais”; da Lei de
Terras de 1850 às restrições sofísticas
ao artigo 231 aprovadas pelo STF no
caso de Raposa-Serra do Sol em 2013;
das invasões por interesses minerários
da terra Yanomami à destruição
ambiental e econômica, a expulsão e
realocação forçada das comunidades
atingidas pelas obras do complexo
hidrelétrico de Belo Monte, feitas ao

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arrepio insolente da legislação (desde a
obtenção fraudulenta do tal “consenso
informado” até o desrespeito às
“condicionantes” socioambientais
exigidas para a obtenção da Licença de
Operação da usina). (p. 8-9)
16. Um aspecto fundamental da relação A convicção no
entre os descendentes dos invasores desaparecimento
europeus das Américas, seus aparelhos indígena
politico-administrativos e suas doutrinas
da nacionalidade era, e de várias
maneiras permanece sendo, a
convicção de que a condição indígena é
uma condição fadada ao
desaparecimento. (p. 9)
17. A doutrina da integração e O Estatuto do Índio x
assimilação dos “índios ou silvícolas” à Artigo 231 da CF
“sociedade nacional” circulou sem
contestação até a Lei 6.001 de
19/12/1973, o Estatuto do Índio.
O art. 231 da CF invalida de modo
cabal, tanto filosófica como
juridicamente, esse estatuto em pontos
essenciais. No entanto, ainda carece de
ser regulamentado. (p. 9)
18. A categorização do Estatuto, O Estatuto do Índio
herdeira de séculos de colonialismo e
de décadas de positivismo
evolucionista, supunha um processo
evolutivo, no duplo sentido de trajetória
unilinear e irreversível, por um lado, e
de melhoramento sócio-moral
incontestável, por outro lado.
Subcategorizações do índio segundo o
estatuto: “isolados”, “contato

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intermitente”, “contato permanente” e
“integrados”. Deixando de fora o índio
“assimilado”, transformado em
“brasileiro” (p. 9)
19. 1975-1978 (durante o Governo Projeto de
Geisel, proposto pelo ministro Rangel Emancipação dos
Reis) - Projeto de Emancipação que Índios
previa a extinção da condição de
indígena para aquelas comunidades
que já se encontrariam “integradas”.
O objetivo evidente era a liberação das
terras da União ocupadas pelos índios
para que pudessem ser incorporadas ao
mercado (lati)fundiário capitalista. (p.
10)
20. Fracassado, o Projeto de Reação pró-indígena
Emancipação despertou uma reação
pró-indígena e indígena, que influenciou
decisivamente na elaboração do
capítulo “Dos Índios” da CF de 1988 (p.
10)
21. O Projeto de Emancipação da Retirada da
ditadura consistia na criação de um responsabilidade
instrumento jurídico para discriminar tutelar do Estado
quem era índio de quem não era índio. sobre os tornados
O propósito era retirar da não-índios
responsabilidade tutelar do Estado os
índios que se teriam tornado não-índios,
os índios que não eram mais índios.
(p.11)
22. Foi em reação a esse projeto de Surgimento de
desindianização jurídica que comissões e
apareceram as Comissões PróÍndio e a organizações
Anaís (Associação Nacional de Ação pró-índio em

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Indigenista); as organizações como o resposta a
Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e o desindianização
PIB, o “Projeto Povos Indígenas no jurídica promovida
Brasil” do CEDI (projeto que deu origem pelo Estado.
ao Instituto Socioambiental). Tudo isso
surgiu para responder contra a pergunta
“quem é índio”, uma vez que a
indianidade não e um atributo
inspecionável por peritos. (p. 11)
23. Ser índio não é utilizar adereços Objetivos teórico e
característicos, mas antes de tudo, um político dos
“estado de espírito”. Um modo de ser e antropólogos
não de aparecer.
Em suma, a idéia era que “índio” não
podia ser visto como uma etapa na
marcha ascensional até o invejável
estado de “branco” ou “civilizado”. (p.
12)
24. Mário Juruna, Raoni, Marçal Tupã, Líderes indígenas de
Angelo Kretã, Álvaro Tukano e Aílton expressão supralocal
Krenak. (p. 13)
25. A “condição camponesa” (com Perspectiva da velha
opção de “proletarização”) era o devir esquerda popular
histórico inexorável e portanto a nacional
verdade das sociedades indígenas, e
que a descrição dessas sociedades
como entidades socioculturais
auto-referidas — como minorias étnicas
indígenas, entenda-se — supunha um
“modelo naturalizado” e “a-histórico” da
dinâmica histórica do Brasil. (p. 13)
26. Com a Constituição de 1988, Índio - comunidade
consagrou-se o princípio de que as
comunidades indígenas constituem-se

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em sujeitos coletivos de direitos
coletivos. O “índio” deu lugar à
“comunidade”.
A referência indígena não é um atributo
individual, mas um movimento coletivo,
e constitui coletivos transindividuais
intrarreferenciados e intradiferenciados.
Há indivíduos indígenas porque eles
são membros de comunidades
indígenas, e não o inverso. (p. 14)
27. Foi a partir desse momento que se A (re)emergência de
acelerou a “emergência” de comunidades
comunidades indígenas que estavam indígenas
submersas por várias razões: porque
tinham sido ensinadas a não dizer mais
que eram indígenas, ou ensinadas a
dizer que não eram mais indígenas;
porque tinham sido colocadas em um
liquidificador político-religioso, um
moedor cultural que misturara etnias,
línguas, povos, regiões e religiões, para
produzir uma massa homogênea capaz
de servir de “população”, isto é, de
sujeito (no sentido de súdito) do Estado.
(p. 14)
28. A Constituição de 1988 interrompeu Observações sobre a
juridicamente (ideologicamente) o CF 1988
projeto multissecular de
desindianização, ao reconhecer que ele
não se tinha completado, e ao
sancionar o direito permanente à
condição indígena.
O capítulo “Dos Índios” da Constituição
Federal de 1988 define com clareza os
direitos dos índios, mais particularmente

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os direitos coletivos das comunidades
indígenas. Entretanto, a Constituição
não define quem é o sujeito desses
direitos, ou por outras palavras quem é
índio no Brasil, e o que é uma
comunidade indígena. (p. 14-15)
29. Os pesquisadores da UFMG que A questão indígena
fizeram um levantamento do aporte não é meramente
genético ameríndio na população genética
nacional descobriram que ele é muito
maior do que se imaginava (33%)… Os
coletivos caiçaras, caboclos,
camponeses e índios são índios (e não
33% índios) no sentido de que são o
produto de uma história, uma história
que é a história de um trabalho
sistemático de destruição cultural, de
sujeição política, de “exclusão social”
(ou pior, de “inclusão social”), trabalho
esse que é propriamente interminável.
(p. 15)
30. 5. Quem é índio no Brasil. Definição de índio
5.1. “Índio” é qualquer membro de uma por Viveiros de
comunidade indígena, reconhecido por Castro
ela como tal.
5.2. “Comunidade indígena” é toda
comunidade fundada em relações de
parentesco ou vizinhança entre seus
membros que mantém laços
histórico-culturais com as organizações
sociais indígenas pré-colombianas.
5.2.1. As relações de parentesco ou
vizinhança constitutivas da comunidade
incluem as relações de afinidade, de
filiação adotiva, de parentesco ritual ou

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religioso, e, mais geralmente,
definem-se nos termos da concepção
dos vínculos interpessoais
fundamentais própria da comunidade
em questão.
5.2.2. Os laços histórico-culturais com
as organizações sociais
pré-colombianas compreendem
dimensões históricas, culturais e
sociopolíticas, a saber:
a) A continuidade da presente
implantação territorial da comunidade
em relação à situação existente no
período pré- colombiano. Tal
continuidade não exclui a derivação da
situação territorial presente a partir de
contingências impostas pelos poderes
coloniais ou nacionais no passado, tais
como migrações forçadas, descimentos,
reduções, aldeamentos e demais
medidas de assimilação e oclusão
étnicas;
b) A orientação positiva e ativa do grupo
face a discursos e práticas comunitários
derivados do fundo cultural ameríndio, e
concebidos como patrimônio relevante
do grupo. Em vista dos processos de
destruição, redução e oclusão cultural
associados à situação evocada no item
anterior, tais discursos e práticas não
são necessariamente aqueles
específicos da área cultural (no sentido
histórico-etnológico) onde se acha hoje
a comunidade;
c) A decisão, seja ela manifesta ou
simplesmente presumida, da

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comunidade de se constituir como
entidade socialmente diferenciada
dentro da comunhão nacional, com
autonomia para estatuir e deliberar
sobre sua composição (modos de
recrutamento e critérios de inclusão de
seus membros) e negócios internos
(governança comunitária, formas de
ocupação do território, regime de
intercâmbio com a sociedade
envolvente), bem como de definir suas
modalidades próprias de reprodução
simbólica e material. (16-17)
31. O ponto realmente fundamental na A comunidade como
escolha da “comunidade” como sujeito sujeito de definição
da definição é que o substantivo ou de índio.
adjetivo “índio” não designa ou qualifica
um indivíduo, mas especifica um certo
tipo de coletividade. (p. 17)
32. A idéia de vizinhança serve para Esmiuçando a
sublinhar que “comunidade” não é uma definição de
realidade genética; por outro lado, comunidade
incluir “relações de parentesco” na
definição permite que se contemplem
possíveis dimensões translocais dessa
“comunidade”.
A inscrição espacial da comunidade não
precisa ser concentrada ou contínua,
podendo ao contrário ser dispersa e
descontínua. (p. 17-18)
33. É parente quem os índios Esmiuçando a
consideram como seu parente, e não definição de relações
quem um laboratório oficial vai decidir, a de parentesco e
partir de um exame de sangue ou um vizinhança

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teste de ADN. Parentesco inclui a
afinidade.
As relações de afinidade são, em
muitas culturas indígenas,
transmissíveis intergeracionalmente,
exatamente como as relações de
consangüinidade.
A antropologia vem mostrando que a
afinidade é o arcabouço político e a
linguagem ideológica dominante nas
comunidades ameríndias.
Além disso, há muitos casamentos
interétnicos nos mundos indígenas de
hoje.
Portanto, quem determina os “vínculos
interpessoais fundamentais” são os
próprios índios. (p. 18)
34. Dimensão histórica: Não é qualquer Esmiuçando a
um; e não basta achar ou dizer; a necessidade de laços
autodeclaração requer a apresentação histórico-culturais
de razões históricas e etnohistóricas com as organizações
para tal ato. É necessário trazer para a sociais
definição, portanto, o reconhecimento pré-colombianas
explícito do fato de que existia um
mundo social pré-colombiano, e de que
há uma quantidade de comunidades e
coletivos no Brasil atual que se sente
ligada a ele.
Em caso de comunidades vítimas de
ações etnocidas, a persistência da
memória da origem é o único prazo de
validade. E a memória, como se sabe,
tem seus usos sociais. ( p. 18-19)
35. Dimensão cultural: Rituais, mitos, Esmiuçando a
configurações relacionais mais ou orientação positiva

Página 21
menos reificadas, a própria comunidade em relação ao fundo
enquanto ponto de orientação, polo de cultural ameríndio
territorialização, e assim por diante.
No entanto, tais discursos e práticas
não são aqueles específicos da “área
cultural”, no sentido histórico-etnológico,
onde hoje se acha a comunidade. Ou
seja, certos índios podem ter uma
orientação positiva e ativa em relação
ao fundo cultural ameríndio, mas um
fundo que remete a uma outra região
“original”, simplesmente por que a deles
foi destroçada. (p. 20)
36. Dimensão sociopolítica: Esmiuçando a
Constituir-se como entidade decisão da
socialmente diferenciada significa comunidade se
dar-se autonomia para estatuir e constituir como corpo
deliberar sobre sua composição, isto é, socialmente
os modos de recrutamento e critérios de diferenciado dentro
exclusão da comunidade. Estamos da comunhão
falando de coisas como “governança” nacional
comunitária, modalidades de ocupação
do território, regimes de intercâmbio
com a sociedade envolvente,
dispositivos de reprodução material e
simbólica.(p. 20)
37. O acolhimento dos índios como uma Ofensiva dos três
categoria sociocultural diferenciada de poderes aos direitos
pleno e permanente direito dentro da indígenas
nação suscitou uma feroz determinação
retaliativa por parte do sistema do
latifúndio, que hoje ocupa vários
ministérios, controla o Congresso e
possui uma legião de serviçais no
Judiciário. (p. 21)

Página 22
38. Com efeito, transformar o índio em Transformar o índio
pobre — a verdadeira definição em pobre
antropológica e política de etnocídio —,
que é o que pretende o “explorador”, é
também a realização objetiva da visão
de mundo do progressismo populista
que se aboletou no Estado.
Essa metamorfose conceitual faz do
índio o bem-vindo objeto de uma
pressurosa necessidade, a de
transformálo, paternalmente, em
“não-pobre”, retirá-lo de sua abjeção e
torná-lo um “cidadão”, passar de uma
condição de “menos que nós” à de um
“igual a nós”. A pobreza é condição que
deve ser remediada, é diferença injusta
que deve ser abolida. E tome “programa
de governo”, correndo logo atrás da
colhetadeira, do agrotóxico, do pivô de
irrigação, da barragem — tudo,
naturalmente, financiado pelas proezas
de nosso agrocapitalismo. (p. 23)
39. Mas um índio é outra coisa que um O direito à diferença
pobre. Ele não quer ser transformado
em alguém “igual a nós”. O que ele
deseja é poder permanecer diferente de
nós — justamente diferente de nós. Ele
quer que reconheçamos e respeitemos
sua distância. (p. 23)

Rio de Janeiro, 06 de julho de 2020.


FICHAMENTO: BRASIL. “Dos Índios” [arts. 231 e 232]. In:
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República

Página 23
Federativa do Brasil [recurso eletrônico]. Brasília: Supremo
Tribunal Federal, Secretaria de Documentação, 2019. p.
180-181.
1. São reconhecidos aos índios sua Artigo 231
organização social, costumes, línguas,
crenças e tradições, e os direitos
originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à
União demarcá-las, proteger e fazer
respeitar todos os seus bens. (p. 180)
2. § 1º São terras tradicionalmente Definição de terras
ocupadas pelos índios as por eles indígenas
habitadas em caráter permanente, as
utilizadas para suas atividades
produtivas, as imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais
necessários a seu bem-estar e as
necessárias a sua reprodução física e
cultural, segundo seus usos, costumes
e tradições. (p. 180)
3. § 5º É vedada a remoção dos grupos Proibição da
indígenas de suas terras, salvo, ad remoção de grupos
referendum do Congresso Nacional, em indígenas de suas
caso de catástrofe ou epidemia que terras
ponha em risco sua população, ou no
interesse da soberania do País, após
deliberação do Congresso Nacional,
garantido, em qualquer hipótese, o
retorno imediato logo que cesse o risco.
(p. 180)
Referências:
BRASIL. “Dos Índios” [arts. 231 e 232]. In: BRASIL.
[Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa
Página 24
do Brasil [recurso eletrônico]. Brasília: Supremo Tribunal
Federal, Secretaria de Documentação, 2019. p. 180-181.
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CLASTRES, Pierre [1934-77]. A Sociedade contra o Estado:
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JAULIN, Robert [1928-96]. La Paix Blanche: introduction à
l’ethnocide. Paris: Editions du Seuil, 1970. 428 pp.
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Direitos dos Povos Indígenas. Rio de Janeiro: Nações
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Convenção n° 169 sobre povos indígenas e tribais e
Resolução referente à ação da OIT. - 5a edição. - Brasília/DF:
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VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo [1951-]. Sobre a Noção de
Etnocídio, com Especial Atenção ao Caso Brasileiro.

Página 25
Referência incompleta. 23 pp. Disponível em:
https://bit.ly/3fKoF6U. Acesso: 25 jun. 2020.

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