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“Cidadão do mundo não é cidadão” – António Barreto

Recensão crítica – Disciplina “Educação para a cidadania”

24.03.2021, Mariana Pinto

O texto de opinião “Cidadão do mundo não é cidadão” escrito por António Barreto,
refere como as atuais crises nomeadamente a crise pandémica, a dos refugiados, a crise
climática e as desigualdades económicas e sociais, consequências da globalização,
parecem necessitar de respostas e ações a nível global, através da cooperação
internacional.

Barreto explica como a globalização trouxe novos direitos e liberdades, mas que ao
mesmo tempo estes “contrariam as determinações soberanas dos Estados.”

O autor realça a importância da necessidade inerente de agregação para a sobrevivência


da nossa espécie e como o ser humano se identifica com aquele que está mais próximo.
No entanto, esta identificação coletiva também chegou a extremos gerando conflitos e
problemas no passado, nomeadamente guerras e disputas. O autor conclui este
pensamento, afirmando que, apesar de este extremo ter também as suas falhas e
imperfeiçoes, que a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos só é conseguida
localmente e que nunca será possível fazê-lo a uma escala global.

O autor refere que o termo “cidadão global” tem sido muito usado devido à necessidade
de resposta às atuais crises globais, mas também que este termo apela inevitavelmente a
uma uniformidade e que é este o ponto de partida para o totalitarismo. Assim, como a
história demonstrou várias vezes que o totalitarismo oprime cidadãos, etnias e culturas,
o termo “cidadão global” é também, segundo o autor, anti-democrático e extremista,
uma vez que exerce um poder opressivo sobre a diversidade cultural, histórica e
linguística, única de cada povo.

O autor conclui, no último parágrafo, que a atual crise política europeia e o


ressurgimento nacionalista, devem-se ao problema de identidade chamado de “cidadão
global”, como se a identidade supranacional fosse mais importante em detrimento da
outra, neste caso, a nacional.
Após a reflexão do autor sobre os diversos extremos na medida em que o nacionalismo
gerou conflitos entre diversas nações, mas que ao mesmo tempo, o termo “cidadão
global” suprime a importância da individualidade nacional, este conclui que a cidadania
só pode ser realmente exercida a nível local e que, se quiser que os seus direitos sejam
exercidos, o cidadão se deve direcionar para as instituições que lhe estão mais próximas.

O autor deixa, por último, questões pertinentes sobre quem é que realmente defende e
protege os direitos dos cidadãos e que neste caso, segundo o autor, não são as grandes
instituições supra-nacionais e tecnocratas, mas sim, aquelas que estão mais próximas
das pessoas e do povo, neste caso, o Estado.

Por último, o autor refere que não se opõe à existência das instituições como a Unesco e
a NATO e reconhece a importância das mesmas e que ao mesmo tempo, ele próprio é
um grande crítico do funcionamento das entidades nacionais, mas é convicto de que são
as últimas (as nacionais) que “dão vida” às outras, que o global só acontece com a
existência do individual.

Penso que a mensagem do texto é de grande importância numa época em que cada vez
mais existe uma identificação política com os extremos, tanto no caso nacionalista como
de “cidadão global”. Acredito que um dos problemas do funcionamento das instituições
supra-nacionais é o fato de estas se demonstrarem inatingíveis e inacessíveis por parte
dos cidadãos. Os mesmos teriam de ter um conhecimento aprofundado sobre o
funcionamento das instituições, o que é incompreensível para a grande maioria das
pessoas. Sendo assim, os cidadãos ao sentirem-se distanciados devido à falta de
compreensão, acabam por sentirem-se carentes de representatividade e ao mesmo tempo
desconfiados se a defesa dos seus direitos estão no interesse destas instituições.

No entanto, apesar de o texto remeter para um tema pertinente, creio que o autor tentou
transmitir a ideia de que a verdadeira cidadania só poderá ser exercida nos lugares mais
próximos dos cidadãos, usando a expressão: “a liberdade e a democracia têm
geografia”. Com esta compreensão, não é possível agir globalmente sem ser primeiro no
ponto geográfico mais próximo de nós. Barreto também expressa a ideia de que a
cidadania só pode ser realmente exercida a partir do individual para que haja mudanças
a nível global.