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TENDÊNCIAS e REFLEXÕES

A medicina física e reabilitação no século XXI:


desafio e oportunidades
Physical and rehabilitation medicine in the XXI century:
challenges and opportunities

Filipa Faria1

RESUMO
Neste trabalho efetua-se uma reflexão sobre algumas das questões Palavras-chave: Pessoas com Deficiência, Medicina Física,
que estão a influenciar a reabilitação na atualidade. As alterações Políticas Públicas
demográficas e a epidemiologia das doenças, o aumento das
expectativas dos doentes, o crescimento dos custos dos cuidados de
reabilitação, e também a dificuldade em estabelecer os limites entre
a MFR, as outras especialidades médicas e outros profissionais de
saúde, são alguns dos desafios da nossa prática diária. Por outro lado,
as mudanças nos conceitos, mentalidades e políticas relacionadas
com a deficiência tal como a evolução tecnológica, são oportunidades
para alargar o campo de intervenção da Medicina de Reabilitação,
confirmando o seu papel decisivo na promoção do entendimento
social sobre a deficiência. Finalmente, abordam-se algumas novas
perspectivas para a reabilitação no século XXI.

ABSTRACT
This paper addresses some of the issues that are shaping rehabilitation Keywords: Disabled Persons, Physical Medicine, Public Policies
nowadays, such as changes in demographics and epidemiology of
diseases, raising patients’ expectations, increasing costs of rehabilitation
care and also the difficulties in establishing boundaries between
PMR, other medical specialties and rehabilitation professionals. Some
contextual changes which have occurred in the last years in concepts,
mentalities and policies related to disability and rehabilitation will be
pointed out, as well as the benefits of technological evolution as a tool
for enhancing social inclusion of people with disabilities. The recently
created network for continued and integrated care, which is being set
up in Portugal, will be referred, as a response to the need of providing
integrated services. These changes may represent opportunities to
enlarge PMR field of intervention and to confirm its role on promoting
social understandings of disability. Finally, some new perspectives for
rehabilitation on the edge of the 21st are suggested.

1 Assistente Hospitalar Graduada de Fisiatria, Directora do Serviço de Reabilitação de Adultos do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, Portugal

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA


Filipa Faria • Rua Prof. Queiroz Veloso, 5 • 1600-658 Lisboa, Portugal
fariaanjos@netcabo.pt

« Recebido em 19 de Fevereiro de 2010, aceito em 02 de Março de 2010 »


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ACTA FISIATR. 2010; 17(1): 44 – 48 A medicina física e reabilitação no século XXI: desafio e oportunidades

Ambos deverão ser considerados na organiza- e também, compreendendo as dificuldades das


ção e na prestação dos cuidados de reabilitação. famílias, apontar opções para a resolução dos
INTRODUÇÃO seus problemas.
A Medicina de Reabilitação constitui-se Epidemiologia das doenças
como especialidade médica há cerca de 60 O segundo ponto a considerar refere-se ao Expetativas dos doentes
anos, para providenciar cuidados para as padrão das doenças. Uma parte substancial O terceiro desafio consiste no aumento de exi-
pessoas com deficiência, desenvolvendo o da população – cerca de metade da popu- gência por parte do doente/utente, que consi-
seu potencial funcional e promovendo a sua lação dos países da União Européia e quase dera que os serviços prestados pelos hospitais
reintegração familiar, profissional e social. A 40% da população do Reino Unido sofre de são mais desorganizados e ineficientes que
especialidade tinha desde logo uma visão ho- doença crônica e muitos poderão ter mais de outros serviços que utilizam. Devemos ter esta
lística do indivíduo, valorizando não apenas a uma simultaneamente. Parte deste fenômeno percepção já que muitos dos nossos doentes
vertente física da sua condição, mas também está relacionado com o envelhecimento da tem uma condição crônica e se deslocam fre-
os aspectos psicológicos e sociais que pode- população anteriormente mencionado. Mas qüentemente ao hospital.
riam interferir na sua recuperação. também os avanços tecnológicos e médicos Também estão mais informados acerca da
Nas últimas décadas, a evolução da ci- têm permitido a sobrevivência de pessoas sua situação clínica, devido ao acesso mais fa-
ência determinou mudanças profundas na com deficiências muito graves, que irão por cilitado à informação. Freqüentemente, quan-
sociedade, afetando todos os domínios. sua vez beneficiar do aumento da esperança do são observados pelo Fisiatra já consultaram
Contudo, nem todas as áreas conseguiram de vida da população. a internet e já leram tudo sobre a sua situação.
ajustar-se de uma forma rápida e adequada. Pessoas com deficiências mais graves e Embora nem toda a informação que obtêm
Atualmente, os sistemas de saúde defrontam com incapacidades múltiplas, apresentam uma seja relevante e continuem a necessitar de ser
vários desafios que requerem uma mudança combinação de déficits (físicos, cognitivos e de esclarecidos sobre o seu caso particular, este
nos conceitos, modelos de funcionamento e comportamento),2,3 que requerem cuidados de fato contribui para uma mudança na relação
de gestão das organizações, de forma a garan- saúde diferenciados e muito dispendiosos. Na médico-doente.
tir o acesso aos cuidados de saúde, mantendo EU, por exemplo, este grupo consome cerca de Os doentes esperam mais dos serviços de
a qualidade e assegurando a sustentabilidade 80% dos custos totais em saúde.4 saúde/hospitais e exigem o direito a escolher.
financeira. São problemas complexos sem so- Os hospitais continuam a estar organiza- O conceito de escolha, que se encontra ineren-
luções fáceis. Os serviços de reabilitação, in- dos para tratar a doença aguda – os serviços te ao processo de reabilitação desde a sua con-
cluídos nos sistemas de saúde, também estão de reabilitação estão entre os poucos que tra- cepção, evoluiu para desafios éticos e direitos
a sofrer esta pressão para a mudança. dicionalmente se focaram no doente crônico. consagrados para os profissionais de reabilita-
Contudo, cada vez mais a maioria dos casos re- ção no final do século XX. A decisão do doente
Demografia quer acompanhamento a longo prazo. Esta dis- é baseada no acesso e total compreensão da in-
O envelhecimento da população é um dado paridade entre as necessidades dos doentes e formação necessária do ponto de vista do do-
comum nos países europeus e norte-america- a oferta dos prestadores causa sentimentos de ente. Deste processo resulta para o individuo
nos. Nas últimas duas décadas, por exemplo, frustração a ambos. Novos modelos de trata- uma decisão livre e informada sobre se deseja
Portugal envelheceu: a população de mais de mento e de prestação de cuidados, necessitam ou não serviços de saúde e quais os métodos ou
65 anos passou de 10% para 15%,1 correspon- de ser desenvolvidos para responder adequa- tratamentos que consente receber. Os serviços
dendo a uma taxa de crescimento de 50%. Para damente a estes desafios. de reabilitação não devem ser “impostos” sem
este fato contribuiu não só o aumento da espe- À medida que a doença crônica e a depen- o consentimento e a participação das pessoas
rança de vida (de +11% nos homens e de +7% dência aumentam, as famílias são cada vez mais que utilizam os seus serviços. Este é também o
nas mulheres), mas também a uma diminuição solicitadas a desempenhar o papel de cuidado- ponto de vista da ONU. Num relatório recen-
da taxa de natalidade (-26%). res. Este fato deve-se, sobretudo a duas razões: te,5 a ONU considera a reabilitação como um
Este fenômeno apresenta um desafio para por um lado, para manter a pessoa no seu meio processo no qual as pessoas com deficiência
diversos sectores, saúde, segurança social e e por outro, por razões de ordem econômica. tomam decisões sobre os serviços que neces-
mercado de trabalho. Por isso não nos surpreende que estas fa- sitam de forma a promover a sua participação.
Sabemos que com o envelhecimento da mílias sofram o chamado “burn out familiar”. De acordo com esta perspectiva, os profissio-
população, o rateio de mulheres/homens ten- Cuidar de uma pessoa dependente durante nais que prestam cuidados de reabilitação têm
de a aumentar. Apesar deste fenômeno se tor- muitos anos poderá ser uma tarefa árdua e a responsabilidade de apresentar informação
nar menos aparente à medida que a esperança extenuante. A maior parte destas famílias está relevante para que a pessoa com deficiência
de vida dos homens se aproxima da das mulhe- exausta pelo permanente ajustamento de atitu- possa tomar decisões informadas sobre o que
res nos países industrializados, ainda é relevan- des e comportamentos, que implicam freqüen- para si é mais apropriado. Este novo modelo de
te e tem implicações na prática clínica. temente uma mudança profunda nos papéis fa- prestação de serviços contribui também para
O envelhecimento da população tem ain- miliares que anteriormente desempenhavam. modificar a relação médico-doente.
da duas conseqüências importantes: primeiro, A estas questões sociais somam-se também
está diretamente relacionado com a perda de aspectos econômicos; freqüentemente, a ne- Aumento dos custos dos
capacidades e, portanto com a dependência, de- cessidade de prestar assistência implica deixar cuidados de reabilitação
corrente do processo degenerativo natural; em o emprego, agravando ainda mais a situação Outro desafio no contexto atual refere-se ao au-
segundo lugar, exige respostas articuladas por familiar. A equipa de reabilitação poderá de- mento dos custos em saúde. A percentagem do
parte da saúde e da segurança social, para a pres- sempenhar um importante papel ao providen- PIB (produto interno bruto) afeta à Saúde tem
tação de cuidados a este grupo mais vulnerável. ciar ensino sobre como cuidar destas pessoas aumentado. Em Portugal, por exemplo, o PIB

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subiu 2,3% ao ano entre 1990 e 2001; contudo, cia. Contudo, torna-se imperativo demonstrar (direito à educação, à saúde, ao emprego, À
as despesas com a saúde aumentaram em 6,1%. o valor e benefícios dos programas de reabilita- participação social e cívica, etc.) a todas as pes-
Esta tendência tende a acentuar-se no futuro. ção através da medida objetiva dos resultados e soas independentemente da sua deficiência.
De acordo com a estimativa da OCDE (Or- da realização de estudos científicos validados. O modelo clínico baseou-se numa rela-
ganização de Cooperação e Desenvolvimento Para o público, não existe uma diferencia- ção direta entre doença e deficiência sendo a
Econômico), as despesas públicas com a saúde ção muito nítida entre a MFR e outras pro- incapacidade percebida como pertencente ao
poderão subir de 6 a 7% do PIB para os 10% no fissões. O termo Fisioterapeuta é utilizado indivíduo com deficiência e todo o esforço da
ano 2050 (um aumento de cerca de 50%). inúmeras vezes quer por outros médicos quer reabilitação dirigia-se a reparar ou compensar
O envelhecimento da população, necessi- pelos doentes, quando se referem ao Fisiatra. o problema/ indivíduo de forma a aproximá-
tando de mais cuidados, e o desenvolvimento De acordo com HJ Fax,6 cabe ao Fisiatra escla- lo dos padrões de normalidade. Em 1981 a
tecnológico, consumindo mais recursos, po- recer o público em geral e os seus colegas mé- ONU propôs a seguinte definição: “ A reabi-
derá conduzir os sistemas de saúde para uma dicos sobre as características e os benefícios da litação tem como objetivo reduzir o impacto
situação de insustentabilidade econômica. nossa especialidade. das situações de deficiência e incapacidade, e a
Este receio tem provocado nos governos a uti- O Fisiatra é o profissional especialmente promover a integração social dos deficientes...
lização de medidas para limitar as despesas em treinado para a abordagem integral nos cui- treinando-os para se ajustar ao seu meio”.8
saúde. Contudo, não tem sido fácil e estas têm dados médicos às pessoas com deficiência. O Através da luta das pessoas com deficiência
continuado a subir acima da inflação. Fisiatra tem de prestar cuidados a uma grande e suas organizações surgiu um novo conceito
Em Portugal, enquanto o Serviço Nacio- diversidade de doentes, desde os recém-nasci- sobre a incapacidade – o modelo bio-psico-
nal de Saúde ainda sobrevive, na última dé- dos até ao grupo geriátrico. Estamos assim pre- social, que conduziu a uma consciencialização
cada, o sector privado tem aumentado a sua parados para o desafio do envelhecimento da do impacto das barreiras do ambiente na parti-
quota de mercado através de sub-sistemas população. Contatamos com diferentes espe- cipação das pessoas com deficiência. De acor-
de saúde tipo “managed care” e do estabele- cialidades médicas e cirúrgicas bem como com do com este modelo, as causas da incapacidade
cimento de parcerias público-privadas. Gra- outros profissionais de saúde. De fato, somos a não se circunscrevem ao indivíduo mas decor-
dualmente, um novo paradigma de gestão da especialidade que segue o indivíduo ao longo rem da interação da pessoa com o ambiente.
saúde está a emergir, envolvendo profundas da sua vida, estabelecendo colaboração com A mudança na percepção da deficiência
transformações nos modelos de financiamen- outras especialidades ou profissionais, quando refletiu-se em novos modelos e abordagens. A
to e gestão dos serviços de saúde. necessário. Alguns autores referem que a Fisia- Classificação Internacional do Funcionamento,
Os médicos estão sob pressão para cum- tria se assemelha aos cuidados de saúde primá- Incapacidade e Saúde (CIF)9 surgiu em 2002
prir o seu papel, enfrentando freqüentemente rios das pessoas com deficiência. e enfatiza a saúde e o funcionamento em lu-
interesses em conflito, por parte dos doentes e A reabilitação é sem dúvida um trabalho de gar da incapacidade. Reconhece que cada ser
dos gestores. Ainda é necessário encontrar um equipa; e tal como qualquer equipa necessita humano pode experimentar uma diminuição
equilíbrio entre a perspectiva econômica e um de liderança. Daquilo que foi referido ante- da saúde e desse modo experimentar alguma
ponto de vista mais humanista. riormente, podemos afirmar que o Fisiatra está incapacidade. Inclui estruturas e funções do
numa situação privilegiada para desempenhar corpo, mas também foca as atividades e par-
MFR e outras profissões esse papel. A abrangência da especialidade ticipação quer sob a perspectiva individual
A composição da equipa de reabilitação sofre- torna-a cada vez mais necessária para comple- quer da sociedade. A CIF inclui ainda cinco
rá provavelmente modificações à medida que mentar outras especialidades clínicas e para fatores contextuais que podem limitar ou
o custo de tratar a dependência a longo prazo estabelecer interface com múltiplas e parciais restringir a participação: produtos e tecnolo-
aumenta e a tecnologia se torna mais proemi- intervenções dos vários profissionais de saúde. gia, ambiente natural e ambiente construído,
nente. Novas competências profissionais são atitudes e normas sociais, cultura, e serviços,
requeridas para providenciar cuidados num Mudança nos conceitos e sistemas e políticas.
público-alvo em mudança. modelos face á deficiência A experiência tem demonstrado que as
A equipe deve estar aberta por um lado, Em 1993, as Nações Unidas aprovaram as barreiras sociais e do ambiente são mais res-
aos contributos de outros profissionais como Regras Standard para a Igualdade de Oportu- tritivas ao desenvolvimento do indivíduo e da
informáticos, engenheiros, entre outros, para nidades,7 ferramenta importante para a cons- sociedade que a condição física particular dos
beneficiar ao máximo dos avanços tecnológi- ciencialização dos direitos das pessoas com indivíduos, evidenciando uma mudança na
cos, e por outro, incluir também profissionais deficiência que encorajou os governos a pro- percepção da incapacidade com importantes
menos qualificados, para prestar os cuidados mover ações e desenvolver políticas nesse sen- efeitos em todos os domínios particularmen-
de vida diária. tido. A abordagem centrada nos direitos huma- te nas políticas.
Enquanto a inclusão de novos profissio- nos foi reforçada pela adoção pela Assembléia
nais parece fundamental, a nossa especialidade Geral da ONU em 2006 da Convenção In- Mudança das políticas
necessita de criar um maior conhecimento dos ternacional sobre os Direitos das Pessoas com A acessibilidade é talvez a questão mais rele-
serviços prestados pela MFR junto dos gesto- Deficiência, que entrou em vigor em Maio de vante em qualquer estratégia relativa à defici-
res e administradores. Tal pode ser consegui- 2008. Deste modo, as questões da deficiência ência. A acessibilidade refere-se à necessidade
do demonstrando que o tratamento fisiátrico passaram a integrar de forma explícita os nor- de assegurar o direito à participação em todos
oferece a melhor relação custo-benefício para mativos do Direito Internacional. Os governos os níveis da vida quotidiana, incluindo o tra-
tratar condições tão diversas como a lombalgia que a têm ratificado ficam assim obrigados a balho, a educação, o desporto, a cultura e o la-
e o AVC. Outro aspecto a salientar é o fato da promover as medidas necessárias para tornar zer. A igualdade de oportunidades é o objetivo
reabilitação diminuir os custos da dependên- efetivo o exercício dos direitos fundamentais definido na estratégia a longo prazo da União

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Européia, que pretende assegurar às pessoas aos bens e serviços e ao ambiente construído, de informação para promover a integração
com deficiência o direito à dignidade, não dis- as Tecnologias de Apoio desempenham um sócio-econômica e a vida autônoma das pes-
criminação, vida autônoma e participação na papel relevante. Apesar do investimento ini- soas com deficiência e dos idosos, oferecendo
sociedade. cial, os benefícios que advêm em termos de um suporte tecnológico para diversas áreas tais
As ações realizadas pela União Européia redução da dependência, aumento da produ- como, comunicação interpessoal, habitação,
(UE) sublinham o estabelecimento de valores tividade e melhoria da auto-estima, são consi- educação, emprego, lazer, entre outras.
econômicos e sociais comuns, permitindo às deráveis. Este é um campo em acelerado desenvol-
pessoas com deficiência aplicar as suas capaci- vimento e deste modo o futuro é imprevisí-
dades e participar na sociedade e na economia. Tecnologias de Apoio vel. Reconhecer as diferentes necessidades e
A estratégia da UE assenta em três pilares: A tecnologia é um campo complexo e em capacidades decerto estimulará a criatividade
1. legislação e medidas anti-discrimina- crescimento. Novos desenvolvimentos acon- na procura de novas soluções que possam ser
ção que promovam o acesso aos direi- tecem diariamente. Pessoas com deficiência utilizadas por todos.
tos individuais podem utilizar as tecnologias de apoio para
2. eliminação de barreiras no ambiente ganhar novas competências, para manter ou- Rede de Cuidados Continuados
que impeçam o exercício das suas ca- tras e para viver de forma independente. Con- Integrados
pacidades tudo, escolher a ajuda técnica (AT) adequada O envelhecimento da população, as alterações
3. “mainstreaming” da deficiência, que não é tarefa fácil. nos padrões de doenças e ainda na estrutura
consiste na estratégia de integrar as vá- O avaliador deve comparar as caracterís- social e familiar, determinaram novas neces-
rias questões da deficiência em todas ticas únicas de uma variedade de produtos sidades em saúde e por conseqüência, novas
as políticas da Comunidade Européia e decidir qual o que melhor responde às ne- abordagens na resposta a estas situações.
Esta estratégia é algo semelhante à que foi cessidades do indivíduo. Os procedimen- Na realidade, as necessidades específicas
seguida na questão do gênero e que está em tos devem incluir a avaliação dos ambientes dos idosos e das pessoas portadoras de defi-
prática há vários anos. onde a pessoa vai utilizar a AT, inquirindo o ciências graves implicou a integração, no pro-
O Plano de Ação da UE para a Deficiên- utilizador sobre as suas expectativas nesses cesso de resposta, de duas dimensões: a saúde
cia 2004-2010,10 estabelecido pela Comissão ambientes e questionando a necessidade de e a segurança social. É neste contexto que se
Européia para assegurar a continuidade das adaptações para a sua utilização. Todos esses desenvolveu o conceito e a prática de cuida-
políticas após o Ano Europeu do Deficiente são passos importantes que devem ser segui- dos continuados.
(2003) promove o enquadramento dinâmico dos pelo fisiatra antes de prescrever uma AT Portugal está a dar os primeiros passos na
para o desenvolvimento da estratégia, com es- para o seu paciente. organização de uma rede de cuidados conti-
pecial enfoque no mainstreaming da deficiência nuados. Em Junho de 2006, foi aprovado o
nas políticas da Comunidade, na acessibilida- Tecnologias de Informação diploma que criou a Rede Nacional de Cuida-
de e no emprego. Nos últimos anos temos assistido ao desen- dos Continuados, assinada em conjunto pelos
As estimativas para a Europa apontam para volvimento extraordinário das tecnologias de Ministros da Saúde e do Trabalho e Segurança
uma diminuição da população em idade ativa informação e das telecomunicações. O pro- Social. “Consiste num grupo de intervenções
face à totalidade da população. Torna-se mais gresso tecnológico está a conduzir-nos para seqüenciais de cuidados de saúde e ou de
crucial que nunca empregar toda a população um novo conceito - a Sociedade de Informa- apoio social, centrado na recuperação global
ativa incluindo os portadores de deficiência. ção, onde os cidadãos com diferentes capaci- entendida como o processo terapêutico e de
O Plano de Ação da UE para a Deficiência dades, necessidades, níveis culturais e educa- apoio social, ativo e contínuo... que visa pro-
sublinha o potencial econômico das pessoas cionais, terão de desempenhar, no contexto mover a autonomia, melhorando a funciona-
com deficiência e reconhece que a sua con- da sua vida quotidiana, diversas interações lidade da pessoa em situação de dependência,
tribuição para o crescimento econômico e do com aplicações multimídia e serviços telemá- através da sua reabilitação, re-adaptação e rein-
emprego deve ser ativada.11 ticos, oferecendo novas oportunidades para tegração social e familiar”.12
Atualmente, a taxa de desemprego das todos os cidadãos na sociedade, incluindo os A rede promove a articulação entre os hos-
pessoas com deficiência é o dobro compara- idosos e pessoas com deficiência. Contudo, pitais - que prestam os cuidados agudos, os
tivamente à da população não deficiente, indi- podem também constituir novas barreiras, cuidados de saúde primários – responsáveis
cando reduzidos níveis de reintegração e com- contribuindo para a exclusão e o isolamento por manter a saúde das populações, as ONG`S
parativamente baixos níveis de escolaridade e social, se as diversas necessidades dos poten- (organizações não governamentais) ou insti-
formação profissional. As razões para esta bai- ciais utilizadores não forem seriamente con- tuições de solidariedade social que prestam
xa taxa de empregabilidade variam consoante sideradas. È importante assegurarmo-nos que serviços e ainda os doentes e suas famílias.
nos países, mas tem sido apontado que a perda os desenvolvimentos tecnológicos emergen- Conceitualmente, a Rede Nacional de Cui-
de subsídios com o início da atividade laboral tes, dentro da Sociedade de Informação, irão dados Continuados parece responder de forma
é um dos maiores desincentivos. Outra razão contribuir para o empowerment nas atividades adequada às necessidades dos doentes, das fa-
possível poderá ser a relutância dos empre- quotidianas, de todos os cidadãos, incluindo mílias e dos profissionais de saúde, preenchen-
gadores em recrutar pessoas com deficiência, os idosos e pessoas com deficiência. do algumas das lacunas que existiam no Sistema
com receio de eventuais custos de adaptação Os avanços nas tecnologias de informa- Nacional de Saúde Português. A perspectiva ho-
do posto de trabalho. ção desempenharam um papel catalisador nos lística que esta rede está imbuída é semelhante à
Nas ações e nas políticas destinadas a pro- avanços das tecnologias de apoio, facilitando a abordagem da reabilitação e, neste sentido, po-
mover a “igualdade de oportunidades”, tais introdução de novos produtos e serviços. As derá ser uma oportunidade para afirmação dos
como a Estratégia da UE e na acessibilidade tecnologias de apoio utilizaram as tecnologias valores, princípios e práticas da MFR.

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dependência. Esta perspectiva envolve não 9. International Classification of Functioning, Disability


apenas as pessoas com deficiência mas toda and Health (ICF) [homepage on the Internet].Gene-
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Há 60 anos atrás, a sociedade foi confrontada linguagem de necessidades” para um discurso tions/icfbrowser/
com a necessidade de cuidar dos jovens muti- de direitos. 10. Situation of disabled people in the enlarged European
Union: the European Action Plan 2006-2007. Brus-
lados na II Guerra Mundial, tendo a especiali- Com efeito, a ONU reconheceu na Con- sels: Communication from the European Commis-
dade de MFR sido formalmente organizada e venção Internacional dos Direitos das Pessoas sion; COM(2003) 650.
entrado num período de grande expansão. Na com Deficiência, que as pessoas com deficiência 11. Situation of disabled people in the enlarged European
Union: the European Action Plan 2006-2007. Brus-
época, os serviços de reabilitação foram con- são cidadãos de plenos direitos. Assim, têm di- sels: Communication from the European Commis-
cebidos para tratar de um grupo específico de reito aos apoios e proteções da lei para garantir sion; COM(2005)24.
indivíduos portadores de deficiência, para de- o exercício dos seus direitos fundamentais (à 12. Rede de Cuidados Continuados Integrados de Saúde e
Apoio Social. [texto on the Internet]. Lisboa: Governo
senvolverem o seu potencial e atingirem uma saúde, ao emprego, à educação, etc), e liberda- da República Portuguesa [cited 2010 Jan 05]. Availa-
vida tão normal quanto possível. des, tais como os outros cidadãos. ble from: http://www.portais.gov.pt
As limitações físicas eram a principal pre- A mudança na percepção da incapacida-
ocupação e o programa de reabilitação tinha de implica novas abordagens e novos mode-
por objetivo restaurar as capacidades dos in- los de intervenção em reabilitação, que estão
divíduos de acordo com o padrão de norma- a ser modelados pela interação de fatores clí-
lidade. Seguindo os avanços científicos e tec- nicos, sociais e econômicos. Sensibilizar os
nológicos, ocorreram mudanças em todos os políticos para o investimento em reabilita-
domínios da sociedade – econômico, social, ção é crucial. Necessitamos de lhes demons-
político, e médico. trar que é menos oneroso reabilitar do que
No início do século 21, abrem-se novas pagar a dependência, considerando que os
perspectivas para a MFR, alargando os seus custos não são só econômicos mas também
horizontes. A abrangência da especialidade sociais e humanos.
torna-a cada vez mais necessária na comple- Temos ainda um longo caminho pela fren-
mentaridade de outras especialidades e na in- te, para passar dos conceitos e modelos para
terface com outros profissionais de saúde. O as atitudes e práticas relativas à deficiência/
envelhecimento da população e o aumento de incapacidade. A tarefa é exigente, desafiante e
prevalência das doenças crónicas contribuem árdua, requerendo a participação de todos nós.
para o aumento do número de pessoas com Os profissionais de reabilitação e a comuni-
incapacidades e em situação de dependência, dade de pessoas com deficiência são especial-
e assim, expandindo a necessidade de serviços mente chamados a desempenhar um impor-
de reabilitação e requerendo uma resposta in- tante papel na transformação da compreensão
tegrada na prestação dos cuidados. social da deficiência.
O desenvolvimento das tecnologias e da
engenharia de reabilitação continuará a propor
novas soluções para os problemas emergentes,
providenciando novos meios de diagnóstico e
de tratamento. Contudo, é fundamental provar
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