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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES

GRADUAÇÃO EM LETRAS

DEPARTAMENTO DE FUDAMENTOS DA EDUCAÇÃO

ESTUDOS SÓCIO-HISTÓRICOS E CULTURAIS DA EDUCAÇÃO

Nome: Gabriel Loiola de Alencar Dantas

N° de Matrícula: 494800

Com nota atribuída pel@ alun@:

Respostas das Questões de Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação

1) Fale sobre a interação dialética entre as dimensões sociológicas, históricas e

filosóficas da educação (Texto Introdutório). Nota: 2,5

Antes de se estabelecer as dimensões que compõe a educação, é necessário


compreender alguns outros conceitos que cercam o tema. Segundo as bases do
materialismo dialético, conceito este que foi constituído pelo filósofo Karl Marx, valida-
se os seguintes pressupostos, o primeiro, “a sociedade é o produto da ação recíproca dos
homens” (NOBRE, Texto Introdutório), ou seja, daquilo que produz de maneira
material e imaterial na sociedade; o segundo, o homem é essencialmente um ser de
necessidades, assim como é um ser que cria necessidades, no sentido ontológico de
homem; o terceiro, todas as relações que partem do homem são relações de trabalho,
isso quer dizer que o homem desempenha um esforço racional-cognitivo para agir
intencionalmente sobre a realidade.
Partindo desses pressupostos, é possível entender que o homem está agindo no
mundo, a fim de realizar seus desejos, e que essa relação de trabalho transforma o
mundo, pois a ação do homem sobre o mundo é ativa e consciente, portanto, é nesses
termos que entendemos o conceito de cultura como sendo as transformações resultantes
das necessidades humanas no mundo. E, é entendo que o ser humano está nessa relação
dialética com mundo, em que ele o transforma, como também é transformado, que
podemos entender a educação como o “processo de transmissão de cultura” (NOBRE,
Texto Introdutório), ou seja, a disseminação daquilo que foi preservado pelas
instituições sociais, como também daquilo que constitui a sociedade presente, sobre a
dialética homem-mundo e homem-homem.

A escola, como a principal das instituições transmissoras de cultura, é aquela


cuja função é constituir indivíduos de conhecimentos que foram acumulados no
contexto histórico-social, para que esses indivíduos formados possam contribuir no
desenvolvimento dessa sociedade.

A educação, no sentido exposto, é um conceito amplo, que abarca três principais


dimensões: a dimensão histórica, a dimensão sociológica e a dimensão filosófica.

A primeira dimensão diz respeito as diferentes formas que a cultura foi


transmitida na história humana. Essa dimensão da educação se aprofunda naquilo que o
homem e o mundo já foram, na maneira como as antigas relações de trabalho podem
servir de aprendizado para o homem presente, logo, a dialética homem-mundo não se
limita ao presente, ambos são renovados através desse retorno ao passado.

A segunda dimensão abarca as diversas sociedades e a maneira como cada uma


estabelece as relações de trabalho. É o contato com outros costumes sociais que capacita
ao homem modificar-se para além das limitações que existem na sua relação histórico-
social com seu povo, a educação supera fronteiras e amplia a dialética homem-mundo
do indivíduo, capacitando-o a compreender melhor os valores e as práticas de sua
própria cultura.

A terceira dimensão é a que possibilita as outras duas dimensões a


transformarem o indivíduo, pois é através da reflexão acerca dos problemas da vida que
o homem busca se modificar. A dimensão filosófica da educação possibilita a eficiência
das relações de trabalho, assim como a contestação dessas mesmas relações, logo, é o
pensar sobre o agir é o que perpetua essa constante dialética homem-mundo e homem-
homem.

Portanto, a interação entre essas 3 dimensões da educação são a base para a


formação do indivíduo e contribuem para o constante revisionismo dos valores
histórico-sociais, permitindo que, através desse conhecimento, o homem se modifique
para o progresso.

2) Por que para Antônio Joaquim Severino a Educação é uma mediação da existência

histórica do homem? (Texto 01). Nota: 2,5

A Educação, segundo, Antônio Joaquim Severino é a base da formação do


homem, a fim de que ele seja introduzido nas relações construtivas de trabalho, sendo
essencial para que se preservem as características sociais, culturais e históricas de uma
sociedade. Portanto, a Educação é tanto uma prática simbólica, pois prepara, através de
ferramentas teóricas, mentalmente os indivíduos para que sejam integrados nos valores
e nas relações sociais preestabelecidas, condicionando-os a uma determinada maneira
de agir, quanto uma prática social, pois, como qualquer outra atividade, é também
trabalho e tem sua função desempenhada por meio da força produtiva de outros agentes
sociais.

É por meio desse conceito de Educação que podemos compreendê-la como


mediadora da existência histórica do homem, pois esta “se elabora mediante a atividade
prática” (SEVERINO, 2001, pag.68), e aquela é formadora da ação do homem, logo, a
Educação define o sentido daquilo que movimenta a existência do homem, a atividade
prática, assim como molda suas relações com a natureza, a sociedade e o trabalho.
Atuando em três fundamentais esferas da existência histórica do homem: o trabalho, a
sociabilidade e a cultura, a Educação possibilita a continuidade dessas atividades, pois,
é a partir dela que o indivíduo é capaz de assumir um compromisso de
desenvolvimento, o que resulta na Educação como uma “práxis”, no sentido de ser uma
atividade social consciente dirigida a um objetivo. O indivíduo, ao firmar esse
compromisso com o desenvolvimento da sociedade, direciona suas ações a um fim
preestabelecido, o que resulta em atividades práticas objetivas carregadas de
significação teórica. Essa relação prático-teórica só ocorre pelo acúmulo de
conhecimento produzido pelo ser humano, que, através da Educação é capaz de ser
preservado, ensinado e aprendido.

Portanto, a Educação é aquela que forma os indivíduos em suas dimensões


históricas, culturais e sociais, pois intencionaliza suas ações na sociedade, através da
projeção teórico-simbólica sobre as atividades práticas reais, a fim de racionalizar a
existência do ser humano, ou seja, conscientizá-lo de sua função social. É nesse sentido
que Gramsci entende a educação como a propagação de uma ideologia, no sentido da
concepção de mundo que é manifestada e concebida pela maioria, e que, ao moldar até
as opiniões do indivíduo, pode ser usada como ferramenta de manipulação político-
econômica. Por ser entendida como uma ferramenta, na concepção de Gramsci, a
Educação pode ter uma função contra-ideológica, essa utilidade depende dos agentes de
ensino das instituições educacionais, que possuem o poder de dar voz as ideias
culturalmente não-hegemônicas e pluralizar o conhecimento de mundo desses
indivíduos ainda em formação social.

3) Quais os argumentos e as categorias centrais da análise que Terezinha Rios utiliza

para falar da educação como prática política e social. (Texto 02) Nota: 2,5

Terezinha Azerêdo Rios, em seu texto, utiliza-se de alguns prolegômenos que


devem ser estabelecidos para o entendimento do uso do termo educação. O primeiro dos
pressupostos é o conceito de homem, que se define como um “ser-no-mundo, no sentido
de que o homem está no mundo, assim como o mundo está no homem, logo, “o mundo
existe para o homem na medida do conhecimento que o homem tem dele e da ação que
exerce sobre ele.” (RIOS, 1999, pag.31). Isso não quer dizer que exista algum mundo
sem homem, mas sim, que a inevitável presença do homem no mundo modifico tanto a
ele, quanto o mundo no qual ele está inserido. É através disso que se pode entender o
conceito de cultura, que é o “mundo transformado pelo homem” (RIOS, 1999, pag.31),
como também entender que o homem é um ser biológico e que se constitui de
necessidades para viver, por isso tem a necessidade de modificar o mundo. Portanto, o
homem é também um produtor de desejos, os quais só podem ser alcançados pela força
do seu trabalho, e é através das atividades práticas que se constitui a essência do
homem, ou seja, o trabalho é condição para a perpetuidade existencial do homem.
É a partir desses pressupostos que podemos compreender educação como a
preservação e a transmissão da cultura, logo, todas as instituições que compõe a
sociedade são transmissoras da cultura, pois preservam conhecimentos práticos e
simbólicos. Porém, Terezinha Rios centraliza sua argumentação para a instituição que
detêm como principal função a transmissão de cultura para a formação de indivíduos,
sendo esta instituição a escola.

A educação, então, é compreendida como “uma atividade humana partícipe da


totalidade da organização social” (RIOS, 1999, pag.35). Dessa forma, a educação como
prática social possui uma relação intrínseca com a formação, a preservação e a
manutenção das instituições, no sentido de que forma indivíduos para se tornarem
agentes dessas instituições, preserva a continuidade das estruturas sócio-hegemônicas já
estabelecidas e, podendo atuar de maneira contrária sobre a entidade dominante,
transforma a cultura.

Essa dupla utilização da educação faz dela uma ferramenta de manipulação


ideológica, no sentido de exercer poder sobre o corpo social, através do controle das
instituições. Portanto, pode-se entender a educação enquanto prática política, pois a
maneira como a cultura é transmitida obedece a um bloco de informações selecionadas
pela estrutura político-hegemônica vigente, moldando a visão de mundo do indivíduo e
exercendo um controle ideológico sobre ele. Contudo, apesar da educação funcionar
como aparelho de controle, ela também é capaz de agir de maneira contra-ideológica,
podendo combater o sistema política estabelecido. E, para que isso seja possível, é
necessário que os agentes realizadores do ensino transmitam conhecimento suficiente
para abranger a totalidade social na qual o indivíduo está inserido.

4) Fale sobre a concepção de Homem, de Ser e de Saber nos períodos Cosmocêntrico,

Antropocêntrico, Historiocêntrico. (Texto 03) Nota: 2,5

Desde a antiguidade, a filosofia buscou representar a realidade de diversas


formas e, ao longo do tempo, essas representações passaram por mudanças que
transformaram o significado dos saberes para o homem. Por conta disso, de acordo com
o texto “Filosofia Política: de Hobbes a Marx, de Manfredo Araújo de Oliveira, é
possível dividir as visões de mundo em três principais períodos: o cosmocêntrico-
objetal, o antropocêntrico-subjetal e o historiocêntrico-relacional. A análise desses
períodos compreende três conceitos que definem cada época: de Homem, de Ser e de
Saber.

No período cosmocêntrico-objetal, o Ser, ou “cosmos”, é a ordem imutável do


todo real, que se encontra em oposição à desordem ou o “caos”, essa relação dualista da
realidade compreende que o centro das coisas não está no homem, mas que é, ao
contrário, o homem que está inserido nessa totalidade. Então, nessa perspectiva, o ser
humano obedece a uma predeterminação ontológica, pois sua essência se faz presente
na inserção do todo real, afim de que suas ações obedeçam a ordem imutável.

O fator da racionalidade está presente no homem com o intuito de capacitá-lo ao


seguimento destinado na organização da vida humana. Nesse sentido, a razão serve a
“práxis”, ou seja, a vida digna do ser humano se dá na concretização daquilo que ele
está predestinado a fazer, logo, é através da inserção do homem nessa normatividade
intersubjetiva que ele encontra sua auto-realização.

Segundo Aristóteles, o sentido do homem está na realização da atividade


política, ou seja, na construção coletiva da comunidade, entende-se a práxis como o
exercício da vida pública, na qual o homem passa de potência a ato, atualizando sua
natureza. O Estado, portanto, é compreendido não pelo seu caráter utilitário e funcional,
mas sim como intrinsecamente ligado ao homem, fazendo dele um princípio da essência
humana.

Contudo, com a chegada da modernidade, o homem passa dessa visão


cosmocêntrica-obejtal para a antropocêntrica-subjetal, na qual o homem, por meio de
sua subjetividade, torna-se o centro do todo, pois é ele quem concede o sentido das
coisas. O Ser, que antes estava fora do homem, agora habita dentro dele, ou seja, o
homem é quem dá o sentido ao todo, sendo o fator determinante para a construção do
Saber. Portanto, o conhecimento não possui mais um fim extrínseco ao homem, para
que ele se encaixe na organização estabelecida pelo “cosmos”, mas sim ele, a partir de
seu julgamento interno e subjetivo, age em prol de descobrir a verdade partindo de si.

É através disso que surge a frase atribuída ao pensamento de René Descartes, um


dos fundadores da filosofia moderna, “penso, logo existo”, pois o ser humano torna-se
em sua essência o centro da verdade. O Estado deixa de ter um papel central na vida
humana e passa a ser uma ferramenta utilizada pelo homem, sendo vista como criação
do homem e sujeita as suas vontades e necessidades.

A última das transições é a “reviravolta historiocêntrica-relacional” iniciada por


Hegel, em que o homem já não é mais o princípio fundador sentido, mas é aquele que
está sujeito a um processo histórico que estabelece o sentido, logo, a história vai
relaciona o homem àquilo que ele pensa. Dessa forma, o Saber torna-se fruto do
entendimento do homem nesse processo histórico, tendo em vista que ele, através da
efetivação da racionalidade, modifica o processo histórico, pois é capaz de estar
parcialmente ciente do todo em que está inserido, mas é incapaz de compreender as
consequências futuras de suas ações no mundo, reconstruindo o homem sem a sua
autonomia do período moderno, e sujeitando-o a um limitado entendimento da
realidade.

Essa reviravolta acarreta na transformação da natureza do homem, na qual o Ser


torna-se a visão histórica de mundo de uma determinada época, e o homem, em
decorrência dessa mudança, é essencialmente determinado pelo processo histórico,
perdendo sua individualidade subjetiva e fragmentando sua compreensão do todo real
em que está inserido.