Você está na página 1de 10

Apostila 1

Atuação da enfermeira no cuidado à pessoa com


ferida na Atenção Primária à Saúde

A atuação da enfermeira na Atenção Primária à Saúde (APS) está pautada


na legislação do exercício profissional. De acordo com a Lei nº 7.498/86, que
regulamenta o exercício profissional da enfermeira, o Art. 11 apresenta as
atividades privativas da profissão, como listado a seguir (BRASIL, 1986):

A Enfermeira exerce todas as atividades de enfermagem, cabendo-lhe:

I - privativamente:

[...] i) consulta de enfermagem;

j) prescrição da assistência de enfermagem;

II - como integrante da equipe de saúde:

[...] c) prescrição de medicamentos estabelecidos em programas de saúde pública e em


rotina aprovada pela instituição de saúde.

É a partir da fundamentação legal do exercício profissional, que a enfermeira


assume papel protagonista no cuidado ao paciente com feridas. Para colaborar
com a organização do cuidado, a resolução do Conselho Federal de Enfermagem
(COFEN) nº 358/2009, apresenta a Sistematização da Assistência de Enfermagem
(SAE). Esta resolução orienta que o cuidado precisa ser estruturado (BRASIL,
2009), o que não é, necessariamente, burocratiza-lo.

A SAE é uma metodologia científica a ser implementada na prática


assistencial, conferindo maior segurança aos pacientes, melhora da qualidade
assistencial, e maior autonomia dos profissionais de enfermagem. A SAE constitui
uma ferramenta que auxilia na gestão do cuidado, no sentido de organizar os
recursos e dispositivos para este processo/ação acontecer de forma planejada
(TANNURE; PINHEIRO, 2015).

Orienta-se que, independente da existência de um protocolo específico,


todos os atendimentos sejam pautados no processo de enfermagem, inclusive o
atendimento da pessoa com ferida. É através da consulta de enfermagem, que
essa ação deve ser registrada formalmente, sendo composta por 5 etapas:

I – Coleta de dados de Enfermagem (ou Histórico de Enfermagem);

02
II – Diagnóstico de Enfermagem;

III – Planejamento de Enfermagem;

IV – Implementação;

V – Avaliação de Enfermagem.

Vindo ao encontro da legislação profissional, a Política Nacional de Atenção


Básica reitera a consulta de enfermagem, a solicitação de exames complementares,
a prescrição de medicamentos e o encaminhamento dos usuários a outros pontos
da rede, como atribuição do enfermeiro. E para isso, protocolos e/ou normativas
técnicas devem ser estabelecidas pelo gestor federal, estadual e/ou municipal.
São esses documentos que garantem a autonomia da profissão (BRASIL, 2017).

Ainda, especificamente relacionada ao conteúdo desse curso, cabe o


enfoque a Resolução COFEN nº 567/2018, que regulamenta a atuação da equipe
de enfermagem no cuidado aos pacientes com feridas (BRASIL, 2018). A seguir,
alguns pontos que merecem ser destacados:

• É de competência do enfermeiro avaliar, prescrever e executar curativos em


todos os tipos de feridas em pacientes sob seus cuidados, além de coordenar
e supervisionar a equipe de enfermagem na prevenção e cuidado de pessoas
com feridas.

• Prescrever medicamentos e coberturas utilizados na prevenção e cuidado às


pessoas com feridas, estabelecidas em Programas de Saúde e/ou Protocolos
Institucionais.

• Realizar curativos em todos os tipos de feridas, independente do grau de


comprometimento tecidual.

• Executar o desbridamento autolítico, instrumental, mecânico e enzimático.

• Realizar a terapia de compressão elástica e inelástica de alta e baixa


compressão, de acordo com diagnóstico médico (úlcera venosa ou mista e
linfedemas).

• Participar da escolha de materiais, medicamentos e equipamentos


necessários à prevenção e cuidado aos pacientes com feridas.

• Delegar ao Técnico de Enfermagem os curativos de feridas, respeitadas suas


competências técnicas e legais, considerando risco e complexidade.

03
• Solicitar exames laboratoriais e radiografias inerentes ao processo do
cuidado, estabelecidos em protocolos institucionais, às pessoas com feridas.

• Realizar foto documentação para acompanhamento da evolução da ferida,


desde que autorizado formalmente pelo paciente ou responsável, por meio
de formulário institucional, respeitando os preceitos éticos e legais do uso
de imagens (APÊNDICE A - Sugestão de documento para consentimento do
uso de imagem).

É a partir do arcabouço legal apresentado que esse curso tem como


objetivo qualificar a assistência dos profissionais enfermeiros na APS no cuidado
às pessoas com feridas.

Registro das ações assistenciais


Segundo a Resolução COFEN nº 429/2012, é responsabilidade e dever dos
profissionais da enfermagem registrar, no prontuário do paciente e em outros
documentos próprios da área, seja em meio de suporte tradicional (papel) ou
eletrônico, as informações inerentes ao processo de cuidar e ao gerenciamento
dos processos de trabalho, necessárias para assegurar a continuidade e a qualidade
da assistência (BRASIL,2012).

Apesar da legislação vigente tornar obrigatório o registro de informações


inerentes ao cuidado e ao gerenciamento dos processos de trabalho, segundo
Silva et al. (2016) os registros de enfermagem são, em sua maioria, realizados por
técnicos/auxiliares de enfermagem, sendo inexistentes em algumas instituições.
Quando presente, este registro possui conteúdo deficiente, não retratando a
realidade do paciente, nem a assistência de enfermagem prestada. Quanto ao
conteúdo, a maioria dos registros é composta por procedimentos técnicos de
enfermagem (verificação de sinais vitais, realização de curativo e execução da
prescrição médica). As intervenções de enfermagem são pouco registradas e o
registro realizado pelo enfermeiro demonstra a mesma fragilidade (SILVA et al.,
2016).

Vale ressaltar que segundo a Resolução do COFEN Nº 429/2012 o registro


deve conter:

• Um resumo dos dados coletados sobre a pessoa, família ou coletividade


humana em um dado momento do processo saúde e doença;

04
• Os diagnósticos de enfermagem acerca das respostas da pessoa, família ou
coletividade humana em um dado momento do processo saúde e doença;

• As ações ou intervenções de enfermagem realizadas face aos diagnósticos


de enfermagem identificados;

• Os resultados alcançados como consequência das ações ou intervenções de


enfermagem realizadas.

Quanto ao tipo de registro, diversos estudos demonstram as vantagens


em relação ao registro eletrônico comparado ao registro em papel. Destaca-se:
facilidade de compreensão; maior agilidade, permitindo o uso simultâneo entre
os profissionais e permitido a consulta ágil ao histórico; legibilidade; eliminação
da redundância de dados; organização das informações; fonte de dados para
pesquisas e avaliação dos serviços; e maior compreensão sobre a inter-relação
das etapas do Processo de Enfermagem (TANNURE et al., 2015; RIBEIRO et al.,
2018; RONDINA et al., 2016).

Apesar das vantagens apontadas em relação ao registro eletrônico, vale


ressaltar que o registro deve ser realizado pelo profissional de enfermagem
independentemente do meio utilizado.

Enfermagem baseada em evidências

A Prática Baseada em Evidências (PBE) envolve a definição de um problema,


a busca e avaliação crítica das evidências científicas disponíveis para melhor
tomada de decisão, implementação e avaliação dos resultados obtidos, assim
como a integração desses elementos com a competência clínica do profissional
de saúde e as preferências do paciente, sendo uma forma segura e organizada de
estabelecer condutas profissionais (PEDROLO et al., 2009; DANSKI et al., 2017).

Na enfermagem não é diferente. Emerge da nossa prática a necessidade


de pesquisas que comprovem a efetividade das intervenções atuais, tornando-
as mais confiáveis. Para inovar na área da saúde, a tomada de decisão dos
enfermeiros necessita estar pautada em princípios científicos, a fim de selecionar
a intervenção mais adequada para a situação específica de cuidado, uma vez que
existem diferenças entre esperar que esses avanços tenham resultados positivos e
verdadeiramente saber se eles funcionam, ou seja, o uso da enfermagem baseada
em evidência torna-se uma estratégia para a tomada de decisão (DANSKI et al.,
2017).

05
No Brasil, observa-se o crescimento estudos tendo a PBE como referencial
teórico ou abordando as suas estratégias metodológicas para pesquisas de
qualidade, ressaltando a importância do método para prática do profissional da
enfermagem. No entanto, a enfermagem ainda não tem pesquisas suficientes para
formar um corpo científico de conhecimento necessário para sustentar a PBE.
Existe a necessidade de uma cultura gerencial, organizacional e de ensino que
estimule e favoreça a realização e a utilização de pesquisas na prática profissional,
além do conhecimento dos enfermeiros sobre a adequada realização de pesquisa
em serviço (PEDROSA et al., 2015).

De qualquer forma, há que se trabalhar o domínio da PBE no dia a dia do


trabalho em saúde. Para isso algumas habilidades devem ser desenvolvidas, como
(OPAS, 2018):

• Incorporar resultados de pesquisas e outras formas de conhecimento para


melhorar os processos e os resultados da prática;

• Buscar as melhores evidências para melhorar os resultados de saúde;

• Analisar guias clínicos para aplicá-los individualmente na prática;

• Implementar algoritmos, guias clínicos e linhas de ação com base em


evidências;

• Atuar como agente de mudanças por meio da implementação do


conhecimento translacional e da disseminação do novo conhecimento, o que
pode incluir apresentações formais, publicações, discussões informais e o
desenvolvimento de boas práticas clínicas e de políticas;

• Usar estratégias efetivas para mudar a conduta profissional e da equipe de


trabalho, promovendo assim a adoção de práticas e inovações com base em
evidências sobre o desempenho da atenção em saúde.

Evidências da efetividade do cuidado de enfermagem


Teston et al. (2018) verificou o efeito da consulta de enfermagem
fundamentada no autocuidado, na qualidade de vida e adesão às atividades de
autocuidado em pessoas com diabetes mellitus (DM) tipo 2. Esse estudo do tipo
ensaio clínico randomizado foi desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde em
um município de pequeno porte situado na região sul do Brasil. Participaram do

06
estudo 134 indivíduos alocados aleatoriamente nos grupos intervenção e controle.
A intervenção consistiu em três consultas de enfermagem bimensais intercaladas
por duas ligações telefônicas para monitoramento das metas pactuadas. O
grupo controle recebeu apenas os cuidados de rotina. O grupo intervenção
apresentou melhora em relação ao conhecimento sobre o diabetes, impacto da
doença na qualidade de vida, na atitude frente à doença e na adesão às atividades
de autocuidado, demonstrando a efetividade da consulta de enfermagem no
atendimento a este público (TESTON et al., 2018).

Vilchez et al. (2015), em um ensaio clínico randomizado, avaliou o efeito


de intervenções executadas por enfermeiros, presencialmente e por telefone, no
controle de fatores de risco cardiovascular (hipertensão, dislipidemia, excesso
de peso), qualidade de vida e outros parâmetros. Os indivíduos foram alocados
em um grupo intervenção (receberam 15 sessões terapêuticas com foco na
qualidade de vida, autoeficácia, e apoio social, sendo 10 sessões presenciais e 5
por telefone) e grupo controle, sem intervenções. Constatou-se nas mulheres
diminuição significativa do peso e aumento da qualidade de vida. Nos homens,
houve diminuição da pressão arterial sistólica e diastólica, LDL/HDL e risco
cardiovascular. A conduta realizada demonstrou-se uma estratégia eficaz para
controlar fatores de risco cardiovasculares e melhoria da qualidade de vida
(BARBOZA et al., 2016).

Esses estudos, realizados na APS e executados por enfermeiros,


exemplificam a efetividade das ações de enfermagem realizadas nesse ambiente
de assistência à saúde. Entretanto, como citado anteriormente, muitas ações
assistenciais de enfermagem carecem de comprovação de efetividade através de
estudos clínicos bem conduzidos.

07
Referências
BARBOZA, Vivian, et al. Effectiveness of personalized face-to-face and telephone
nursing counseling interventions for cardiovascular risk factors: a controlled cli-
nical trial. Revista latino-americana de enfermagem, v. 24, e2747, 2016.

BRASIL. Lei n° 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do


exercício da Enfermagem e dá outras providências. Diário Oficial da União, seção
1, Brasília/DF, 26 de junho de 1986. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/LEIS/L7498.htm. Acesso em: 17 nov. 2019.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017.


Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de di-
retrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS). Diário Oficial da União, seção 1, p. 68, Brasília/DF: 22 de setembro
de 2017. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/
prt2436_22_09_2017.html. Acesso em: 18 nov. 2019.

BRASIL. Resolução COFEN Nº358/2009. Dispõe sobre a Sistematização da As-


sistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em am-
bientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enferma-
gem, e dá outras providências. Diário Oficial da União, seção 1, p. 179, Brasília/
DF: 23 de outubro de 2009. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-co-
fen-3582009_4384.html. Acesso em: 17 nov. 2019.

BRASIL. Resolução COFEN Nº429/2012. Dispõe sobre o registro das ações pro-
fissionais no prontuário do paciente, e em outros documentos próprios da en-
fermagem, independente do meio de suporte – tradicional ou eletrônico. Diário
Oficial da União, seção 1, p. 288, Brasília/DF: 8 de junho de 2008. Disponível em:
http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-4292012_9263.html. Acesso em: 17
nov. 2019.

08
BRASIL. Resolução COFEN Nº567/2018. Regulamenta a atuação da equipe de
enfermagem no cuidado aos pacientes com feridas. Diário Oficial da União, Brasí-
lia/DF, 07 de fevereiro de 2018. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolu-
cao-cofenno-567-2018_6340.html. Acesso em: 17 nov. 2019.

DANSKI, Mitzy Tannia Reichembach, et al. Importância da prática baseada em


evidências nos processos de trabalho do enfermeiro. Ciência Cuidado e Saúde, v.
16, n. 2, p. 1-5, 2017.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Ampliação do papel dos enfer-


meiros na atenção primária à saúde. Washington, D.C.: OPAS; 2018.

PEDROLO, Edivane, et al. A prática baseada em evidências como ferramenta para


prática profissional do enfermeiro. Cogitare Enfermagem, v. 14, n. 4, p. 760-763,
2009.

PEDROSA, Karilena Karlla Amorim, et al. Enfermagem baseada em evidência: ca-


racterização dos estudos no Brasil. Cogitare Enfermagem, v. 20, n.4, 2015.

RIBEIRO, Wanderson Alves, et al. Implementação do prontuário eletrônico do pa-


ciente: um estudo bibliográfico das vantagens e desvantagens para o serviço de
saúde. Revista Pró-UniverSUS, v. 9, n.1, p. 07-11, 2018.

RONDINA, João Marcelo; CANÊO, Paula Krauter; CAMPOS, Mariana Santos de.
Conhecendo a experiência de implantação do prontuário eletrônico do paciente
no hospital de base de São José do Rio Preto. RAHIS, v. 13, n. 1, 2016.

SILVA, Thaynan Gonçalves, et al. Conteúdo dos registros de enfermagem em hos-


pitais: contribuições para o desenvolvimento do processo de enfermagem. Enfer-
magem em Foco, v. 7, n. 1, p. 24-27, 2016.

09
TANNURE, Meire Chucre, et al. Processo de Enfermagem: comparação do registro
manual versus eletrônico. Journal of Health Informatics, v. 7, n. 3, 2015.

TANNURE, Meire Chucre; PINHEIRO, Ana Maria. Sistematização da Assistência de


Enfermagem - SAE. In: TANNURE, Meire Chucre; PINHEIRO, Ana Maria. SAE: Siste-
matização da Assistência de Enfermagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2015. Cap. 1. p. 9-10.

TESTON, Elen Ferraz, et al. Efeito da consulta de enfermagem no conhecimento,


qualidade de vida, atitude frente à doença e autocuidado em pessoas com diabetes.
REME revista mineira de enfermagem, v. 22, p. e-1106, 2018.

10