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Universidade em Debate Artigo 1

ISSN 2318-700X
Licenciado sob uma Licença Creative Commons
DOI: 10.7213/univ.debate.02.001.AO01

A prática da administração universitária:


contribuições para a teoria
The practice of the university administration:
contributions to the theory

Victor Meyer Jr.

Victor Meyer Jr. é Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração, da Pontifícia Uni-


versidade Católica do Paraná. Doutor em Administração Universitária pela Universsity of Houston e
Pós-Doutor pela University of Michigan e Professor Visitante da School of Public Services, DePaul
University, Chicago.
Contato: victormeyerjr@gmail.com

Resumo
As universidades desempenham um papel relevante na sociedade. Por esta razão o desempenho dessas organiza-
ções merece maior atenção de estudiosos e praticantes da administração universitária. Aspectos decorrentes de
sua complexidade organizacional como ambiguidade de objetivos, estrutura decisória colegiada, pluralidade de in-
teresses, natureza do processo educacional, em especial a transmissão e produção do conhecimento e aprendizado
como também a promoção de valores humanos, com recursos escassos requerem administração adequada e teoria
própria. Este artigo questiona a adoção de teorias e modelos gerenciais empresariais pelas organizações acadêmi-
cas e destaca que os resultados obtidos são, muitas vezes, frustrantes e onerosos para as instituições. É destacada a
existência de uma teoria da administração universitária, ainda em formação, construída de forma incremental, por
ações, iniciativas, re�lexão e aprendizagem de seus praticantes. A racionalidade da prática necessita ser examinada
e resgatada de maneira a contribuir para a teorização da administração universitária.

Palavras-chave: Prática. Administração universitária. Teoria.


A prática da administração universitária 13

Abstract
Universities perform an important role in society. For this reason the performance of such organizations
deserve better attention of researchers and practitioners in the university administration. Elements de-
rived from the organizational complexity such as ambiguity of goals, collegial decision making, plurality
of interests, nature of the educational process, especially transmission and production of knowledge as
well as promotion of human values and scarce resources are demanding a suitable administration and
a theory of its own. This article challenges the adoption of theories and managerial business models by
academic organizations and pinpoints that the outcomes of such experience are disappointed and costly
for the institutions. The existence of a theory of higher education administration still being built follow-
ing an incremental approach based on actions, initiatives, re�lection and learning by the practitioners. A
rationality of practice needs to be analyzed and rescued in a way to contribute to the theorization of the
university administration.

Keywords: Practice. University administration. Theory.

Introdução compreender e interpretar os atos e fatos da vida


organizacional. Ambos os níveis são importantes
As universidades, importantes instituições para ao contribuírem para um melhor entendimento
o funcionamento da sociedade, têm em sua com- do comportamento humano em que pensamento
plexidade e gestão dois de seus maiores desa�ios. e ação, ou ação e pensamento, se entrelaçam no
O primeiro desa�io, a complexidade, está intrinse- cotidiano das organizações.
camente relacionado à natureza dessas organiza- Um dos pontos críticos da gestão das universida-
ções, sua estrutura, processo e comportamento de des tem sido a inexistência de uma teoria própria. O
atividades intelectuais, de produção e de transmis- fato de inexistir tal teoria tem impulsionado seus ad-
são do conhecimento. O segundo desa�io, a admi- ministradores a buscarem conhecimento e práticas
nistração, por seu papel de promover a captação e utilizadas no setor empresarial, no qual se concentra
integração de recursos diversos e utilizá-los de for- a essência da teoria administrativa e no qual a admi-
ma que a instituição possa cumprir sua importante nistração é, por excelência, mais praticada, incorpo-
missão educacional e social. rando-as em vários setores e áreas da organização
Impossível ignorar a complexidade das or- universitária. Também não se pode desconhecer a
ganizações educacionais caso se queira melhor in�luência da administração pública nas universida-
compreender a sua realidade, comportamento e des em especial na administração das instituições
desempenho. Administrar uma organização acadê- vinculadas à rede pública de educação superior.
mica, cuja missão é educar seres humanos, requer Este trabalho tem o propósito de examinar
visão, intuição, sensibilidade e o uso de ferramen- as práticas de administração nas universidades,
tas administrativas adequadas às especi�icidades como fonte e importante contribuição para a cons-
deste tipo de organização. trução de uma teoria nesta área.
Para March (1986), entender as organiza-
ções torna-se um desa�io pelo fato da vida orga-
nizacional existir em dois níveis: o da ação e o Organizações, complexidade e metáforas
da interpretação. O nível da ação implica em sa-
ber lidar com o ambiente em transformação. O Viver em uma sociedade organizacional refor-
nível da interpretação implica em um esforço de ça o papel da administração de tornar produtivos

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Se a administração é vital seus recursos. Para Mintzberg (2009), a sociedade que cada uma delas re�lete determinada faceta ou
para as organizações, são atual revela uma verdadeira obsessão pela “admi- dimensão de uma realidade de di�ícil compreen-
seus administradores os
grandes responsáveis
nistração”. Isto pode ser corroborado não só pela são. No caso das organizações, nenhuma metáfora,
pelo desempenho expansão signi�icativa de organizações privadas, por si só, re�lete a natureza da vida organizacional
organizacional, fazendo públicas e sem �ins lucrativos, mas também pela em sua totalidade.
com que recursos e
talentos sejam melhor
demanda crescente destas organizações por abor- Mintzberg (1994), ao examinar a prática do
utilizados de forma a bem dagens administrativas vencedoras. Acompanha planejamento estratégico, identi�ica dois tipos
servir à sociedade. este fenômeno o crescimento surpreendente dos contrastantes de organizações que ele distingue
cursos de graduação em administração e dos fa- por meio de metáforas: as organizações “máqui-
mosos MBAs – os conhecidos cursos de pós-gra- na” e as organizações “pro�issionais”. As primeiras
duação (especialização) e mestrados pro�issionais são regidas pela racionalidade econômica guiada
em administração de empresas. A propaganda por objetivos claros, relações de causalidade e
desses cursos se espalha por meio de websites, pela maximização de resultados. Já as segundas
outdoors, em redes de metrôs e ônibus, além de são conduzidas por formas menos ortodoxas, em
encartes ou anúncios em revistas e jornais de que se mesclam ações, intenções, interpretações e
grande circulação nacional. poder compartilhados por um sistema pluralista
Se a administração é vital para as organizações, composto por diversos grupos de interesse que
são seus administradores os grandes responsáveis desfrutam de autonomia na prática de suas ativi-
pelo desempenho organizacional, fazendo com dades pro�issionais.
que recursos e talentos sejam melhor utilizados As implicações para a administração destes
de forma a bem servir à sociedade. dois tipos de organizações são bastante claras.
Com o objetivo de compreender melhor as or- Ambos os tipos condicionam as atividades dos
ganizações sociais, seres humanos utilizam me- administradores criando estruturas, processos,
táforas. Alguns estudiosos como Brown (1978), práticas, rotinas e formas de relacionamento
Manning (1979), Morgan (1981) e Morgan (1986) com impacto no desempenho organizacional.
utilizam metáforas para abordar as organizações, Certamente a universidade é um bom exemplo de
para analisá-las e representá-las. Como destaca organização atípica, “pro�issional” e plural diante
Morgan (1986), metáforas são concepções cria- da diversidade de grupos de interesse atuantes
tivas a respeito do mundo, símbolos que ajudam em seu interior, com re�lexos na sua estrutura e
a compreender melhor a complexidade das orga- comportamento.
nizações. Metáforas auxiliam a estruturar e criar
signi�icado a partir da experiência. São tentati-
vas de dar forma concreta e signi�icado para algo Administração nas universidades
imaterial por meio de símbolos, linguagem, arte e
ciência. As metáforas são também uma maneira de A universidade não é uma empresa nem tam-
os estudiosos das organizações examinarem uma pouco uma entidade governamental. Trata-se de
realidade concreta, porém, complexa e a interna- uma organização sui generis cuja complexidade,
lizarem a abstração como sistema organizado, de objetivos e especi�icidades in�luenciam sobrema-
modo a permitir ações concretas. neira sua administração. Esta, por sua vez, está
Várias são as metáforas que procuram repre- a merecer abordagens mais adequadas e estu-
sentar a natureza multifacetada das organizações: dos mais aprofundados de parte dos estudiosos
máquinas, organismos, teatros, arenas políticas, das organizações. Como destaca a literatura nes-
sistemas interpretativos, culturas, dentre outras. ta área, a universidade tem sido caracterizada
Para Morgan (1986), a lógica das metáforas indica como burocracia (Baldridge, 1983), colegialidade

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(Millet, 1962), anarquia organizada (Cohen e organizações acadêmicas, como a natureza huma-
March, 1974), arena política (Baldridge, 1971), na da educação, o processo individual de apren-
sistema frouxamente articulado (Weick 1976) e dizagem e da aplicação do conhecimento, que
sistema cibernético (Birnbaum, 1989). exigem tecnologia múltipla e envolvem uma plura-
A relevância da administração para as univer- lidade de interesses. Trata-se de um sistema com-
sidades é sumarizada por Birnbaum (1989), de plexo que desa�ia seus administradores.
forma provocativa e desa�iadora, em três posições Pfeffer e Sutton (2006), professores da Escola
distintas e excludentes: a primeira destaca a im- de Negócios da Universidade Stanford, fazem um
portância de uma administração para o bom de- alerta sobre as inúmeras abordagens gerenciais
sempenho organizacional; a segunda entende que que se disseminam no mercado. Muitas dessas
a administração não é relevante para se atingir um abordagens não têm qualquer comprovação con-
bom desempenho organizacional e, �inalmente, a creta de sua validade teórica e prática, sendo deno-
terceira reforça o entendimento de que a universi- minadas “meias-verdades” ou algo “sem sentido”. Pode-se afirmar, contudo,
que o tipo de administra-
dade atinge bom desempenho apesar da existên- Os autores propõem uma administração baseada ção que as universidades
cia de uma administração. em evidências alertando aos administradores a necessitam ainda não
Seria a administração algo extremamente be- buscarem as melhores práticas comprovadamente existe. Certamente, como
tem revelado a experiên-
né�ico, que contribui efetivamente para o melhor evidenciadas para suas organizações. Essas práti- cia, não são os modelos
desempenho das universidades? Ou, quem sabe, cas teriam como base de identi�icação os seguin- da burocracia estatal e
seria a administração algo perverso, com mode- tes princípios: a) tratar ideias velhas como ideias tampouco as abordagens e
modelos de administração
los inadequados à natureza destas organizações velhas; b) suspeitar de ideias e estudos disrupti- importados das empresas
e contendo custos altos de operação, introduzin- vos, pois nunca se con�irmam; c) celebrar grupos as melhores e principais
do práticas gerenciais e controles desnecessários, de pessoas inteligentes e não gênios ou gurus indi- referências para os admi-
nistradores acadêmicos.
que pouco ou quase nada agregam ao seu real de- vidualmente; d) enfatizar as virtudes, limitações e
sempenho? Neste ponto, é fundamental perguntar incertezas de suas práticas; e) utilizar as histórias
se seria mesmo possível fazer funcionar uma uni- de sucesso e fracasso para ilustrar práticas apoia-
versidade sem uma “administração” e, portanto, das por outras evidências e f) adotar uma postura
sem “administradores”. neutra em termos ideológicos ou teóricos. As me-
Pode-se a�irmar, contudo, que o tipo de admi- lhores práticas são validadas pelas melhores evi-
nistração que as universidades necessitam ainda dências, reveladas pelas boas práticas e pesquisas
não existe. Certamente, como tem revelado a ex- sólidas e não pelo modismo.
periência, não são os modelos da burocracia esta- Não se pode, conscientemente, negar que a
tal e tampouco as abordagens e modelos de admi- administração é necessária para o funcionamen-
nistração importados das empresas as melhores to de qualquer organização social. Organizações
e principais referências para os administradores servem à sociedade como bem lembrava Drucker
acadêmicos. Questiona-se, seriamente, se compe- (1993) e, mais recentemente, Handy (2009), ao se
tentes administradores de empresas reuniriam as referir a um novo conceito de organização corpo-
habilidades necessárias para administrar organi- rativa. Seu papel é fazer funcionar um organismo
zações acadêmicas. Experiências feitas no passa- ao integrar esforços humanos tornando produti-
do nos EUA revelaram desempenho pí�io desses vos os recursos de forma a que os propósitos or-
administradores na ambiência das organizações ganizacionais sejam cumpridos e que as deman-
acadêmicas. das e expectativas da sociedade sejam atendidas.
A justi�icativa para o desempenho fraco con- Entretanto, pergunta-se: que tipo de administra-
centra-se no fato dessas abordagens e mode- ção requer uma organização acadêmica nos dias
los não contemplarem elementos próprios das atuais diante da sua natureza organizacional

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distinta, das transformações sociais e os desa�ios de teoria e métodos próprios valendo-se da con-
que lhe impõem o ambiente? Trata-se de uma tribuição de outras áreas do conhecimento ao lon-
organização social que teve sua origem nos mo- go do tempo, num esforço de formar uma base de
nastérios do período medieval e que têm sobrevi- sustentação teórica e metodológica.
vido ao longo dos séculos enfrentando inúmeras Ao abordar este problema, no contexto dos
transformações. Estados Unidos da América, Keller (1983) ressal-
A ideia de “universidade”, como instituição tou que a teoria da gestão universitária está sendo
social, vem se modi�icando ao longo do tempo. criada, de forma incremental, por novas gerações
Inicialmente, era uma “torre de mar�im”, um cen- de reitores, pró-reitores, diretores de escolas, por
tro das artes, das ciências e das letras, isolada da alguns elementos úteis da gestão empresarial e
sociedade. Outra imagem, mais recente, apresenta por contribuições mais recentes de estudos orga-
a universidade como uma instituição formadora nizacionais, da psicologia, de estudos gerenciais e
de pro�issionais em diversos campos do saber e de campos de estudo similares.
produtora do conhecimento relevante ao cres- Não se pode desconhecer também a efetiva
cimento econômico-social e às necessidades do contribuição de centros de estudos e pesquisas
sistema de mercado. Finalmente, um terceiro con- especializados na administração de instituições
ceito de universidade, mais atual, revela uma insti- de educação superior, existentes em muitos paí-
tuição na qual ensino e pesquisa mesclam-se, para ses, com destaque especial para os EUA, Canadá,
responder às demandas sociais e às expectativas Inglaterra e alguns outros países europeus. No
de seus inúmeros stakeholders, desempenhando Brasil, iniciativas desta natureza começam a sur-
uma função crítica da própria sociedade. gir, ainda de forma incipiente, disseminadas em
Dois principais fatores podem ser aqui desta- pequenos grupos e centros de pesquisa de algu-
cados para explicar a longevidade organizacional mas universidades, porém, ainda muito tímidas,
da universidade: um primeiro refere-se à impor- diante dos crescentes e prementes desa�ios en-
tância crescente da educação, bene�iciando dife- frentados por seus administradores.
rentemente indivíduos e a coletividade. Um segun-
do ressalta a relevância social das universidades,
como instituições imprescindíveis para o desen- As práticas da administração
volvimento da sociedade, por meio da produção,
transferência e aplicação do conhecimento. Quer A administração é uma atividade cuja essência
públicas, comunitárias ou empresariais, todas as é eminentemente prática. Para Mintzberg (2009),
universidades brasileiras desfrutam de autonomia trata-se de uma prática que combina arte, teoria
de gestão outorgada por lei, mas sempre sujeitas à e experiência. Arte no sentido de saber lidar com
supervisão do governo central. Os dois fatores ci- problemas gerenciais em que se inclui visão, intui-
tados contribuem para reforçar a legitimidade e a ção, insights e criatividade. Teoria porque implica
relevância social da instituição “universidade”. em saber desenvolver ou possuir conhecimento e
O que torna a administração universitária um habilidades analíticas exigidas para a solução dos
desa�io para os seus administradores é o fato de inúmeros problemas organizacionais. Experiência
ainda não existir uma “teoria da administração por proporcionar um conhecimento tácito, sen-
universitária” que possa ser utilizada para sibilidade e segurança requeridos para lidar com
administrar este sistema complexo sob a ótica imprevistos e solucionar os problemas cotidianos
estrutural, acadêmica, social e até mesmo política. da administração das organizações.
A própria administração, a exemplo de outras A prática da administração nas organizações
áreas das ciências sociais aplicadas, ainda carece tem merecido, nos últimos anos, maior atenção

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dos estudiosos desta área. O foco na prática da ad- Nessa linha de pensamento, Weick (2007) pro-
ministração indica também um interesse recente põe o abandono das ferramentas ou abordagens
e crescente de estudiosos nas atividades desenvol- utilizadas quando as circunstancias assim o exi-
vidas no seu dia a dia. Autores como Mintzberg gem. Lapierre (2005) vai mais longe ao reforçar
(1973) e Starbuck (1983) já traziam importante a posição de que diante de visões reducionistas,
contribuição sobre a natureza do trabalho do ad- em relação à realidade complexa das organizações
ministrador ao terem como foco a prática da ad- e dos sistemas humanos, pode-se adotar a posi-
ministração, das ações humanas no esforço de ção de recusa às teorias, modelos e modismos em
integrar recursos e talentos e interpretar o com- administração.
portamento das organizações.
Ao estudar a rotina de administradores,
Mintzberg (1973) desa�iou o paradigma en- As práticas na administração universitária
tão predominante na teoria da administração.
Segundo o autor, a �igura do administrador racio- Nas universidades, a exemplo de outras organi-
nal e re�lexivo, planejando, organizando, dirigindo zações, a administração tem sido praticada como
e controlando as ações não é compatível com a ad- resultado de interações sociais, psicológicas e po-
ministração praticada nas organizações. Os estu- líticas, envolvendo processos, iniciativas e rotinas.
dos de Mintzbeg (1973) revelaram que a essência Trata-se de um �luxo contínuo de ações e resulta-
do trabalho do administrador caracteriza-se pela dos, em que interpretação e ações dela decorren-
fragmentação, brevidade, variedade e desconti- tes – “enactment” (Weick, 1995), exercem consi-
nuidade, concentrando-se em três áreas: deciso- derável in�luência, tanto no conteúdo da prática,
riais, interpessoais e informacionais. quanto na sua intensidade e nos resultados decor-
Starbuck (1983), por sua vez, identi�icou um rentes das práticas.
hiato entre discurso, decisão e ação nas organiza- Muito pouco se sabe sobre a administração
ções, ao demonstrar que, na prática, os adminis- universitária e suas práticas. Uma das questões
tradores fazem coisas diferentes daquelas aponta- comumente levantadas em discussões sobre as
das em seus discursos. Dentre outros argumentos, formas de se administrar as universidades indaga:
o autor critica as ações nas organizações, pois en- São as universidades “empresas”? Embora pos-
quanto algumas estão voltadas para a solução de sam parecer que sim, não o são em sua essência,
problemas, outras motivam a criação de proble- como bem assinala Winston (1997), ao comentar
mas que justi�icam as próprias ações. características econômicas que distinguem as uni-
Salienta também Starbuck (1983) a importân- versidades das empresas.
cia do “desaprendizado” nas organizações. O au- Os seguintes elementos distinguem as univer-
tor destaca, dentre outras, duas situações em que sidades das empresas: não distribuição de lucros,
o “desaprendizado” ocorre: a primeira quando a informação assimétrica daquilo que se adquire ao
organização con�ia suas ações a praticantes que se registrar e pagar as mensalidades, princípios
geram ações que provocam inércia e, a segunda, idealistas educacionais e sociais, subsídios pro-
quando as organizações enfatizam justi�icativas porcionados aos estudantes na venda de serviços
explícitas que tornam rígida a racionalidade de educacionais de custos caros por um preço subsi-
suas ações. Há momentos, na prática da adminis- diado e, �inalmente, a estranha “tecnologia” utili-
tração, em que se faz necessário abandonar certas zada na produção dos serviços educacionais, cha-
ações ou rotinas diante da necessidade de se in- mada “cliente-entrada”, centrada no próprio aluno
troduzir novas práticas requeridas pelos contex- como único cliente. Neste particular, os alunos
tos interno e externo na solução dos problemas. ajudam a educar outros alunos (Winston, 1997).

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Há um entendimento disseminado entre mui- Praticantes da administração universitária


tos gestores, professores de administração e con-
sultores de que as universidades podem ser mais O administrador é um praticante dotado de
produtivas e atingir melhor desempenho ao utili- uma miríade de visão, habilidades, conhecimen-
zarem abordagens gerenciais praticadas nas em- to, competências, sensibilidade, todas necessárias
presas. Contudo, este entendimento não é respal- para fazer funcionar uma organização. Como os
dado pela pesquisa e tampouco pela prática. Se as seres humanos, em suas ações, carregam consigo
universidades são empresas, como argumentam de forma amalgamada, a cognição, as emoções, os
defensores desta posição, então, todo um con- sentimentos de amor, ódio, avareza, compaixão,
junto de abordagens e ferramentais utilizado em inveja e poder na busca de propósito e signi�icado
empresas poderia ser transplantado, sem maiores em suas decisões e ações (Keller, 1983).
problemas, para a administração das organizações Impossível abordar as práticas nas organiza-
acadêmicas. Dessa forma, reforça-se um paradig- ções acadêmicas sem deixar de examinar quem são
ma que reconhece a existência de uma teoria geral seus praticantes. Um dos conhecidos paradoxos da
da administração aplicável a distintos contextos administração universitária é apontado por Simon
organizacionais. Outra visão entende que as uni- (1967), ao ressaltar que um dos fatores que distin-
versidades constituem-se em organizações atí- gue as universidades de outras organizações é a
picas, sistemas complexos, cujas características forma como são administradas. As universidades,
especiais requerem uma abordagem própria para para Simon (1967), são instituições que formam
serem devidamente administradas (Meyer, 2003). profissionais e são administradas por amadores.
O que se observa mais recentemente é que essas A realidade das organizações acadêmicas revela
percepções, sob a ótica da administração univer- que esses pro�issionais aprendem, no desempe-
sitária, são fortemente in�luenciadas pela pressão nho do próprio trabalho, como administrar.
por maior produtividade e diferenciação em um Um olhar rápido sobre o per�il dos ocupantes
O que se observa mais
recentemente é que essas ambiente competitivo, gerando con�litos entre duas dos principais cargos administrativos nas univer-
percepções, sob a ótica da lógicas: uma voltada ao mercado e outra orientada sidades revela que, em sua esmagadora maioria,
administração univer- pela lógica acadêmica. Decorre daí profundas di- são professores universitários, com diversi�icada
sitária, são fortemente
influenciadas pela pressão ferenças no que se refere aos objetivos, estrutura, formação acadêmica e pro�issional bem como de
por maior produtividade tomada de decisão, práticas administrativas, de- interesses. É a chamada “administração professo-
e diferenciação em um sempenho e exame de resultados das organizações rial”. A experiência em administração neste caso
ambiente competitivo, ge-
rando conflitos entre duas acadêmicas. Enquanto a primeira tem como foco é, muitas vezes, pequena e limitada à própria ins-
lógicas: uma voltada ao resultado �inanceiro, algo bastante tangível, a se- tituição ou derivada de experiências vivenciadas
mercado e outra orienta- gunda concentra-se na valorização do aprendizado, em outras organizações congêneres.
da pela lógica acadêmica.
Decorre daí profundas na produção do conhecimento e na contribuição Mais recentemente, com a expansão da presen-
diferenças no que se refe- da educação para o desenvolvimento da sociedade, ça das empresas educacionais na educação supe-
re aos objetivos, estru- algo intangível e, portanto, de di�ícil mensuração. rior, surge um novo tipo de organização, voltada
tura, tomada de decisão,
práticas administrativas, Uma questão que necessita ser examinada refe- para o mercado. Para esse tipo de organização, fato-
desempenho e exame de re-se aos praticantes da administração nas univer- res como produção, competitividade e lucrativida-
resultados das organiza- sidades. Quem são essas pessoas responsáveis pe- de são críticos para sua sustentabilidade. Um novo
ções acadêmicas.
las práticas, como são selecionadas, que requisitos per�il dissemina-se neste setor: experientes admi-
são necessários para o exercício de tais práticas. nistradores são trazidos de empresas para atuarem
Esses são alguns questionamentos relevantes re- na administração de instituições de educação su-
queridos para uma melhor compreensão da admi- perior. É a “administração pro�issional” celebrada
nistração praticada em organizações acadêmicas. por alguns e praticada com base em princípios e

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práticas da administração empresarial com valores da administração. Assim, o efeito halo se materiali-
voltados à economia de mercado, aplicados ao con- za no momento em que as pessoas emitem juízo de
texto das organizações acadêmicas. valor e inferências a respeito de traços especí�icos,
No mundo atual, são muito conhecidos os com base em uma impressão de caráter geral.
tradicionais cursos de graduação e de mestrado Trata-se de uma forma da mente humana criar
em administração, que têm o objetivo de formar e manter uma impressão coerente e consistente,
pro�issionais para administrar os diversos tipos de para reduzir a chamada “dissonância cognitiva”
organização, em especial à administração empresa- (Rosenzweig, 2009). As práticas administrativas
rial. Na percepção de Mintzberg (2004), as escolas são in�luenciadas e formatadas por ilusões e en-
de administração formam analistas e não adminis- ganos provocados por erros de lógica e de julga-
tradores. A realidade da administração não é nem mentos falhos ou equivocados, que distorcem ou
pode ser praticada em sala de aula. Porém, a admi- mascaram as verdadeiras razões e fatores que
nistração pode ser ensinada nas escolas sem nunca contribuem para o sucesso e o para fracasso das
ter sido praticada pelo professor o que, sob o ponto organizações. Livros com narrativas e histórias a
de vista pro�issional, é um paradoxo. cerca das causas da ascensão e da queda das em-
French e Grey (1996) questionam a validade presas carregam em seu bojo um papel exagerado,
educacional dos cursos de administração, apre- ou desproporcional atribuído a fatores como lide-
sentando três fortes argumentos: o primeiro en- rança e práticas de administração.
fatiza a inexistência de evidências que con�irmam
uma relação clara e positiva entre a educação ge-
rencial e a melhoria do desempenho organizacio- Uma agenda para a administração universitária
nal. O segundo argumento assinala que a relação
entre educação e desempenho da organização Num esforço de organização de uma agenda,
depende da capacidade do gestor lidar com a mu- é possível classi�icar as áreas relevantes da admi-
dança. Finalmente, o terceiro argumento reforça nistração universitária em dois grandes grupos. No mundo atual, são
muito conhecidos os
o ponto de vista de que o valor da administração O primeiro grupo é representado por um con- tradicionais cursos de
educacional só é efetivamente reconhecido na junto de macro iniciativas ligadas aos sistemas graduação e de mestrado
própria prática da administração. de administração que sistematizam importantes em administração,
que têm o objetivo de
Autores como Phil Rosenzweig (2009) cha- áreas da atividade dos administradores universi- formar profissionais para
mam atenção para os métodos de pesquisa em- tários. Em sua maioria, referem-se à incorpora- administrar os diversos
pregados em estudos no campo da administração. ção, pela administração superior das universi- tipos de organização, em
especial à administração
Muitos deles têm servido de fonte à publicação de dades, de adaptações de modelos empresariais empresarial. Na percep-
livros populares, vendidos em livrarias e aeropor- trazidos para dentro das organizações acadêmi- ção de Mintzberg (2004),
tos, alguns best-sellers, que prometem revelar os cas (Meyer, 2003). as escolas de administra-
ção formam analistas e
segredos do sucesso das empresas ou o caminho A ideia central é examinar e compreender a não administradores. A
da fama. Muitos deles tornam-se não só bíblias contribuição de tais abordagens para o funciona- realidade da administra-
de administradores na busca de uma fonte para a mento da organização e, particularmente, para o ção não é nem pode ser
praticada em sala de aula.
construção de teorias, como inspiração para mui- desenvolvimento das áreas centrais que integram
tas práticas equivocadas e desastrosas. a essência do trabalho acadêmico. A maior parte
Como enfatiza Rosenzweig (2009), o efeito halo destes modelos e abordagens segue uma orien-
provoca interpretações equivocadas e ilusões a res- tação essencialmente racionalista, muitas vezes
peito do sucesso empresarial. Estas interpretações prescritiva e, fortemente in�luenciada por consul-
distorcem a realidade e negligenciam a pouca soli- torias, best-sellers, palestras de gurus e modismos
dez, rigor e relevância prática das pesquisas na área gerenciais. Planejamento e Gestão Estratégica,

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Balanced Scorecard – BSC, Qualidade Total, Orça- grupos possuam certa autonomia para iniciativas,
mento Programa, Benchmarking, Reengenharia, em diferentes níveis e áreas organizacionais, a
Administração por Objetivos, International Stan- introdução de novas abordagens, especialmente
dard Operations – ISO são alguns exemplos destas aquelas vindas de fontes externas são, via de re-
abordagens. Muitas delas constituíram-se em mo- gra, iniciativas da administração superior.
dismos (Birnbaum, 2000), enquanto outras ainda Igualmente iniciativas da administração in-
carecem de evidências validadas empiricamente termediária, na área acadêmica, ou operacional,
pela teoria e prática a que se referem (Pfeffer e requerem aprovação prévia ou posterior da admi-
Sutton, 2006). nistração superior, de forma a carimbar e legitimar
Um segundo grupo desta agenda inclui ativi- a ação. Isto ocorre quando iniciativas inovadoras
dades relacionadas à administração de áreas mais impactam outros sistemas administrativos, ou de-
especí�icas, de nível setorial e micro, muito rele- mandam um volume signi�icativo de recursos.
vantes para o funcionamento da organização como Muitas das iniciativas desenvolvidas são bem
a administração acadêmica, em que decisão, ação sucedidas, com resultados positivos e bene�ícios
e resultados estão mais próximos e em que inte- ao sistema de administração, com impacto no de-
rações formais e informais ocorrem com grande sempenho da organização. Administradores em-
intensidade. Estão aqui incluídas iniciativas volta- preendedores e criativos podem ser encontrados
das para a administração da área acadêmica e das não só no topo da hierarquia das universidades,
unidades que a integram. Procura-se examinar e mas principalmente em posições distintas, tanto
compreender aspectos formais e informais da ad- no nível intermediário como no operacional. Estas
ministração acadêmica como per�il e habilidades últimas estão mais próximas das principais ações
dos administradores nos diversos níveis organiza- e iniciativas que sustentam a atividade acadêmi-
cionais, liderança, estilo de administração. Busca- ca: transmissão e incorporação do conhecimen-
se conhecer práticas inovadoras relacionadas to, portanto, centrais à missão organizacional.
à administração de cursos, inovação curricular, Práticas relevantes emergem de iniciativas indi-
atração e retenção de alunos, produção acadêmica viduais ou grupais, oriundas muitas vezes de mi-
e sua avaliação, sistema de matrículas, avaliação cro-ações localizadas. Muitas dessas experiências
discente e docente, aprendizado, cooperação com raramente são compartilhadas para o resto da
o setor produtivo, avaliação de programas e ava- própria organização com perdas para o aprendi-
liação institucional, dentre outros aspectos. zado organizacional.
Uma vez que a esmagadora maioria dos prati- Práticas gerenciais são in�luenciadas por as-
cantes da administração acadêmica é constituída pectos do ambiente organizacional, em que são
por professores, muitos deles estão possivelmente modeladas. Neste particular, observa-se a rejeição
familiarizados com os métodos cientí�icos. Contudo, a modelos importados, ou a teorias ruins, que não
uma vez em posições administrativas esses admi- se coadunam com a realidade política, econômica
nistradores atuam inspirados por uma “intuição de e social da educação superior e com a natureza e
cientista” ao se apoiarem mais na experiência deri- especi�icidades das organizações universitárias.
vada de suas práticas do que em dados produzidos Ao comentar o uso de abordagens administra-
pelo sistema (Birnbaum, 1989, 2000). tivas em organizações educacionais, Weick (1982)
Ambos os grupos constituem-se em locus de aponta quatro propriedades que caracterizam as
práticas gerenciais, boas ou más, desenvolvidas organizações racionais e justapostas. A primeira
nas organizações acadêmicas todas, porém, me- destaca a existência de um sistema racional de
recedoras da maior atenção, tanto da administra- autocorreção, cujo trabalho é essencialmente in-
ção quanto dos pesquisadores. Embora ambos os terdependente; uma segunda trata da existência

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A prática da administração universitária 21

de consenso com relação aos objetivos organi- conhecimento à solução de problemas e ao cum-
zacionais e os meios para alcançá-los; uma ter- primento dos objetivos organizacionais.
ceira refere-se à existência de uma coordenação Para Schön (1991), o trabalho pro�issional é
responsável pela disseminação de informações. caracterizado pela existência de uma prática re�le-
Finalmente, uma quarta propriedade refere-se à xiva e, por conseguinte, de um praticante re�lexi-
capacidade de predição de problemas e de respos- vo. Trata-se de uma prática em que o pro�issional
tas a estes problemas. pensa enquanto age, ocorrendo, por conseguinte,
Uma vez que as organizações educacionais uma interferência desta mesma re�lexão na pró-
não apresentam essas propriedades, apontadas pria ação praticada. Simultaneamente ocorre um
por Weick (1982), os modelos de administração impacto quase imediato dos resultados das prá-
convencionais nelas fundamentados não se apli- ticas locais sobre a re�lexão, de modo a instaurar
cam à realidade dessas organizações. Assim, ini- um �luxo de natureza circular não linearizada en-
ciativas de incorporação de modelos de adminis- tre a prática e a re�lexão.
tração empresarial nas organizações acadêmicas, Nesta prática social, como enfatiza Weick
caracterizadas como corporatização da educação (1979, 1995), contribui sobremaneira o sense-
superior (Lamal, 2001) e managerialism (Stacey, making que implica em um processo retrospec-
2010), (Meyer & Meyer, 2013), esbarram na com- tivo, pelo qual indivíduos e grupos buscam a re-
plexidade e características especiais dessas orga- dução dos equívocos, por meio da interpretação,
nizações, já comentadas, que se constituem em busca de signi�icado e importância dos atos e
barreiras intransponíveis para essas abordagens. fatos da vida organizacional decorrentes de prá-
Como bem assinala Ghoshal (2005), em muitas ticas sociais. No entendimento de Weick (1995),
ocasiões teorias ruins destroem boas práticas da a construção do sentido implica em desenvolver
administração, reforçando o entendimento de que insights e enfatizar como distintas realidades são
nada é tão malé�ico para a prática da administra- construídas pelos indivíduos via racionalização.
ção quanto a utilização de uma má teoria. No caso Discrepâncias e surpresas são identi�icadas, bus-
das universidades, a crescente absorção de mode- cando-se explicações plausíveis.
los empresariais não só descaracterizam a nature- Compreender o que é administração de uma
za educacional das organizações acadêmicas como organização, como se manifesta e como se mate-
são inócuos em termos de bene�ícios e resultados. rializa requer o conhecimento de suas práticas.
Estas se constituem em elemento central, con-
centrando as intenções e as ações dos administra-
Práticas e a construção da teoria da dores, os desa�ios, as conquistas, os sucessos, os
administração universitária fracassos, as frustrações, bem como os paradoxos
inerentes ao ambiente das organizações sociais.
Autores como De Certeau (1988), Giddens Nele, a racionalidade e o subjetivismo, inerentes
(1984), Bordieu (1990) e Argyris (1992) já enfati- ao ser humano, mesclam-se e se projetam em mo-
zavam a importância da prática nas organizações, delos, abordagens, modismos, intenções e ações,
para a formação da teoria nas Ciências Sociais. A diante da complexidade organizacional e dos de-
sociedade pós-industrial e suas instituições, como sa�ios impostos por um contexto dinâmico, impre-
assinala Schön (1991), são organizadas em torno visível e incerto.
da competência pro�issional. O sucesso desses Práticas também são fonte de conhecimento.
pro�issionais é, em grande parte, atribuído à ex- Como bem assinalam Weick e Roberts (1993), o
plosão do conhecimento, cujo resultado é repre- conhecimento começa com ações. No entendi-
sentado pela responsabilidade na aplicação do mento de Tsoukas (1996), as organizações são

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sistemas de conhecimento distribuído e, como Estudos etnográ�icos, pesquisa-ação, grounded


tal, reúnem um poder discricionário, na forma theory e narrativas são outros exemplos de méto-
como tomam decisões, utilizam recursos e como dos utilizados nas ciências sociais aplicadas que
de�inem quais serviços serão derivados desses podem trazer insights importantes sobre a natu-
recursos. Para isto, as organizações utilizam-se reza e forma das práticas, das habilidades e da vi-
do conhecimento nelas existente, quer na forma são dos praticantes da administração a respeito de
individual ou coletiva. Há aqui o entendimento de suas práticas nas universidades.
autores como Nonaka e Takeuchi (1995) de que Ao se aplicar uma variedade de métodos de
os praticantes criam conhecimento novo a partir estudo, no exame das práticas e de sua raciona-
Uma variedade de méto- de suas práticas, seja este conhecimento tácito ou lidade, se estará aumentando a compreensão das
dos de investigação faz-se explícito. As práticas, neste caso, falam por si mes- inúmeras dimensões da complexidade organi-
necessária para um melhor
mas, por meio das ações de seus praticantes. Há zacional e de suas implicações para a prática da
conhecimento da adminis-
tração e de suas práticas também a necessidade de se explorar as práticas administração. Com isto, passa-se a examinar e
nas universidades. O uso e a natureza das regras, que orientam, ou de onde resgatar as boas e más experiências, constituin-
de diferentes perspecti-
derivam as ações sociais dos agentes, como lem- do-se em importante contribuição para re�lexão
vas, quer funcionalista,
interpretativa ou crítica, bram Weick e Roberts (1993). e entendimento de uma racionalidade prática e
traz olhares distintos a um Uma variedade de métodos de investigação para a formação de uma teoria da administração
fenômeno tão complexo
faz-se necessária para um melhor conhecimento universitária.
como a prática da adminis-
tração nas organizações da administração e de suas práticas nas univer- O aprendizado pela experiência de seus pra-
acadêmicas. sidades. O uso de diferentes perspectivas, quer ticantes constitui-se também em fonte preciosa
funcionalista, interpretativa ou crítica, traz olha- para a construção de uma teoria da administração
res distintos a um fenômeno tão complexo como a universitária. Aprende-se com base na experiên-
prática da administração nas organizações acadê- cia vivenciada. Boas experiências in�luenciam as
micas. Assim, Eisenhardt (1989), por exemplo, já ações humanas, havendo uma tendência de repe-
apontava a importância dos estudos de caso para a ti-las sempre que o contexto assim o permitir, en-
construção de teoria. No campo da administração, quanto as más experiências apontam para aquilo
o método do estudo de caso constitui uma abor- que se deve evitar ou não repetir.
dagem empírica largamente utilizada, servindo de Autores como Gheradi et al, (1998) desta-
base para evidências que contribuem para o avan- cam a importância das microações nas organi-
ço do conhecimento e construção de teorias. zações enquanto Johnson et al., (2003), Rouleau
Este método proporciona o contato direto com (2004) e Stacey (2011) reforçam a necessidade
as experiências, as pessoas e suas práticas rela- do foco de atenção da administração estratégica
cionadas a determinado fenômeno, ou aspecto da se mover do nível macro para o nível micro, em
vida real das organizações, permitindo conhecer que práticas importantes acontecem, de forma
aquelas experiências que resultaram em sucesso dinâmica interativa e auto-organizativa. Nas
ou fracasso, proporcionando aprendizado indi- universidades, vistas como sistemas complexos,
vidual, grupal e, em alguns casos, organizacional pluralísticos e frouxamente articulados, profis-
Argyris e Schön (1978), Argyris (1992), Gherardi sionais desfrutam de autonomia no desempe-
et al. (1998), Tsoukas e Vladimirou (2001) e nho de atividades individuais e grupais. Parte
Antonacopoulou (2006). As organizações são co- significativa das ações estratégicas é praticada
munidades de praticantes nas quais uma dinâmica por meio de micro-ações nas unidades acadêmi-
social é estabelecida reforçando a interconectivi- cas em que se concentram o ensino e a pesquisa,
dade e interdependência entre pessoas e estrutu- funções essenciais ao cumprimento da missão
ra (Gherardi et al. 1998, Antonacopoulou, 2009). organizacional.

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A prática da administração universitária 23

No caso das universidades, as práticas da ad- da administração, a identi�icação da racionalidade


ministração carecem de maior atenção e inter- dessa prática e construção de uma teoria própria.
pretação, não só do contexto e forma como são Ao examinarem a prática nas organizações,
praticadas, como também dos resultados delas Philips, Lawrence e Hardy (2004) propõem um
decorrentes. Essas práticas, muitas vezes, resul- modelo que ressalta as relações entre textos, dis-
tam do uso de espaço de criatividade e inovação, cursos, instituições e ação. Para os autores, dois
próprio de organizações pro�issionais como as tipos de ação produzem resultados de maior im-
universidades e absolutamente necessário para pacto: ações caracterizadas pela novidade e grau
que novas ideias, experimentação e inovação pos- de surpresa, por elas gerados e, ações que colo-
sam emergir. cam em cheque ou afetam a legitimidade de uma
A identi�icação dos problemas, a busca de so- organização. A pressão por e�iciência e e�icácia e
Há, portanto, em termos
lução, as decisões, as ações praticadas, as experi- maior qualidade da educação têm impulsionado práticos, a necessidade
mentações e os resultados, não necessariamente as universidades, como já ressaltado, a incorpora- de se disseminar política,
nesta ordem, integram a agenda dos administra- rem modelos e abordagens gerenciais do mundo estrutura e cultura que
estimulem os administra-
dores acadêmicos. Identi�icar experiências bem empresarial. Muitos destes modelos e abordagens dores acadêmicos a ou-
sucedidas, por meio de abordagens como narra- contêm, aparentemente, ideias novas e integram o sarem e buscarem novas
tivas, observações e estudos de caso, contribuiria chamado “modismo gerencial” (Birnbaum, 2000). iniciativas. Nesta mesma
linha, há que se permitir a
para a descoberta de boas e relevantes práticas, Algumas delas são propostas antigas com novos esses profissionais, como
gerando aprendizado, de forma a alimentar novas rótulos, sem qualquer contribuição maior para a seres humanos, a possi-
práticas e fortalecer a construção de uma teoria. administração do complexo mundo acadêmico. bilidade de cometerem
erros e falharem em suas
Há, portanto, em termos práticos, a necessida- Introduzidas com grande expectativa pela admi- iniciativas de inovar e
de de se disseminar política, estrutura e cultura nistração são mais adiante abandonadas diante implantar novas práticas,
que estimulem os administradores acadêmicos a dos resultados pí�ios e nenhuma contribuição ao sem punição, na tentativa
de melhoria dos serviços
ousarem e buscarem novas iniciativas. Nesta mes- desempenho organizacional, gerando frustrações educacionais.
ma linha, há que se permitir a esses pro�issionais, e desapontamentos além de gastos elevados às
como seres humanos, a possibilidade de comete- instituições.
rem erros e falharem em suas iniciativas de inovar
e implantar novas práticas, sem punição, na tenta-
tiva de melhoria dos serviços educacionais. Comentários Finais
Diferentemente de outras ciências, como as
Ciências Físicas, Exatas e Biológicas que pos- É chegado o momento de se voltar a atenção
suem uma teoria consolidada, as Ciências Sociais para um campo de atuação muito pouco explo-
Aplicadas e, particularmente, a Administração ca- rado por estudiosos da administração: a prática
recem desta base teórica, algo ainda em formação. da administração universitária, quem são seus
Seu objeto de estudo são as organizações sociais e praticantes, o que fazem e como fazem quando
as interações humanas que as fazem funcionar. No dizem que estão praticando a administração nas
caso da administração, o relevante é compreender universidades.
os seres humanos, seus discursos, suas ações, suas Novos tempos exigem uma nova adminis-
formas de agir e de fazer funcionar as organiza- tração universitária. Abordagens empresariais
ções, constituindo-se no foco maior da pesquisa predominantes na literatura e na prática da ad-
e das observações. No caso especí�ico das univer- ministração, com seus pressupostos racionalis-
sidades, compreender como esses sistemas com- tas, não se coadunam com a realidade complexa
plexos se estruturam e funcionam, constitui-se das organizações acadêmicas e suas especi�ici-
em requisito para o aprimoramento das práticas dades. É fundamental ter em mente que a teoria

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24 Meyer Jr., V.

da administração universitária é uma construção esforços e agirem com estratégias adequadas res-
incremental graças às ações e iniciativas de seus pondendo aos desa�ios que se apresentam.
praticantes, por sua re�lexão e aprendizado. A administração das universidades é muito
Ter o foco nas práticas como campo de estudo importante para �icar na dependência de teorias
da administração universitária vai exigir a utili- e modelos inadequados ou ruins que nada contri-
zação competente de um conjunto de métodos buem para o desempenho e relevância do trabalho
qualitativos e quantitativos, sua sistematização e acadêmico. Resgatar a racionalidade da prática
legitimidade organizacional. Estes elementos são com suas lições poderá contribuir para a constru-
essências para que as práticas administrativas ção de uma teoria da administração de que tanto
possam contribuir para a melhoria do desempe- carecem as universidades e seus administradores.
nho organizacional e para a construção de uma
“teoria da administração universitária”.
É tempo de recuperar a racionalidade da prática Referências
na administração das organizações acadêmicas,
de resgatar as boas experiências, compreendê- Antonacopoulou, E. P. (2006). The relationship between
las, aprender com elas e disseminá-las. Para isso, individual and organisational learning: new evi-
é crítico que se crie incentivos à criatividade, dences from managerial learning practices. Man-
originalidade, e inovação na administração das agement Learning, 37(4), 455-73.
universidades. Estas carecem de administradores
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O contexto atual, com novas e renovadas de- ing: a theory of action perspective. Reading. MA:
mandas impostas às universidades, pressiona a Addison-Wesley.
busca novas formas de atuação e de melhoria da
Argyris, C. (1992). On organizational learning. Cam-
qualidade dos serviços educacionais, desempenho
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e relevância dos serviços educacionais prestados.
Neste esforço, não se poderá prescindir além das Baldridge, J.V. (1971). Power and Con�lict in the Univer-
ciências econômicas, a sociologia, as ciências polí- sity. New York: John Wiley & Sons.
ticas e a psicologia.
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Pretende-se com este ensaio estimular o de-
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bate em torno de um tema tão fundamental para
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práticas são vistas como um processo dinâmico,
Jossey-Bass.
complexo, interativo e social necessário para per-
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