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UM ESTUDO DAS RELAÇÕES RACIAIS EM

TESES E DISSERTAÇÕES BRASILEIRAS NO


PERÍODO DE 2004 A 2013

A STUDY OF RACIAL RELATIONS IN BRAZILIAN


DISSERTATIONS AND THESES FROM 2004 TO 2013
Franklin Eduard Auad Thijm
Wilma de Nazaré Baia Coelho
Universidade Federal do Pará - UFPA

Resumo voltadas às questões raciais. Essas produ-


ções tomam como eixo, no campo da educa-
Este artigo aborda a produção do conheci-
ção, diferentes propostas, passando pela le-
mento sobre Relações Raciais em circula-
gislação e sua efetivação, pela cultura extra
ção nas teses e dissertações dos programas
e intraescolar, culminando na organização
de pós-graduação em educação brasilei-
do trabalho pedagógico em suas dimensões
ros, entre os anos de 2004-2013, e procura
políticas, práticas e técnicas. Em todos os ca-
compreender, a partir da vigência da Lei no
sos, os trabalhos acadêmicos compreendem
10.639/03, de que forma o conhecimento
ser o momento de questionamentos sobre
sobre Relações Raciais se constitui nesse
o papel dos agentes pedagógicos, tanto no
campo. Com esse intuito, foi realizada uma
âmbito escolar, como fora dele, na promo-
pesquisa do tipo qualitativa por meio da mo-
ção de uma educação para as relações raciais
dalidade estudo bibliográfico, utilizando-se
que, de fato, proporcione a conscientização e
o procedimento de coleta online de dados. A
problematização sobre o negro na sociedade
busca das informações se efetivou a partir do
contemporânea.
acesso ao sítio da Biblioteca Digital Brasilei-
ra de Teses e Dissertações (BDBTD) no perí- Palavras-chave: Relações Raciais. Educa-
odo mencionado, tendo como suporte o aces- ção. Conhecimento.
so à home page de cada programa. Os dados
levantados foram interpretados a partir das
Abstract
teorizações que abordam tanto as questões
sobre relações raciais, como os processos This article discusses the production of
educacionais, tendo na teoria bourdieusiana knowledge on Race Relations outstanding
sobre habitus, o principal eixo de discussões, in theses and dissertations of graduate Bra-
e na análise de conteúdo, o suporte para o zilian programs in education, between the
tratamento das informações. Compreende-se years of 2004-2013; and seeks to understand,
que as produções acadêmicas não podem ser from enactment of Law No. 10.639/03, how
descontextualizadas do momento histórico knowledge of Race Relations is constituted
por que tem passado o país a partir da dé- in this field.To that end, a qualitative type re-
cada de 1990, principalmente no âmbito da search through bibliographic study has been
elaboração da legislação e políticas públicas carried out, using the procedure of collect-
ing data online. The search for information

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was accomplished by accessing the Brazil- dados, por meio de figuras e categorias. A
ian Digital Library of Theses and Disserta- coleta de informações foi efetivada a partir
tions website (BDBTD)in the fore men- da captura digital na Biblioteca Digital Bra-
tioned period, supported by the access to the sileira de Teses e Dissertações (BDBTD) e
home page of each program. The collected sua apreciação a partir da análise de conteú-
data were interpreted by theorizations that do de Bardin (2011).
address both the issues about race relations A escolha do sítio da BDBTD considerou
and the educational processes, taking Bour- como requisito, primeiro, a disponibilidade
dieusian Theory of habitus as the main fo- significativa de dados relacionados à temáti-
cus of discussion, and the content analysis ca e o conjunto de programas de pós-gradu-
as the support for the treatment of informa- ação em educação de instituições brasileiras
tion. It is understood that the academic pro- vinculados à página eletrônica.
ductions cannot decontextualized from the
historical moment through which the coun- Aproximamos o presente estudo das pes-
try has passed since the 1990s, mainly in quisas que primam pela perspectiva qualita-
the context of the preparation of legislation tiva, pois visamos estabelecer com o nosso
and public policies towards racial issues. objeto de análise uma interpretação da rea-
These productions take as axis in the field lidade social e suas múltiplas diferenciações
of education various proposals, including como fenômeno que se realiza em diferentes
legislation and its implementation, extra and ambientes (GODOY, 1995). O emprego, no
interschool culture, culminating in the orga- entanto, de algumas orientações da análise
nization of the educational work and its poli- de conteúdo (BARDIN, 1977) nos permitiu
cies, practices and techniques. In all cases, a organização das informações em três mo-
the academic works are considered to be the mentos: a) o da pré-análise, em que foram
moment of questions raised about the role of selecionados os textos ou trechos significati-
educational agents, both within school, and vos dentro do trabalho científico, tais como
outside it, in promoting education for racial resumo inicial, capítulo metodológico, e
relations that, in fact, provide awareness and leitura na integra do trabalho, constituindo,
questioning about the black in contemporary assim, o corpus da pesquisa; b) o da explora-
society. ção do material, em que as informações fo-
ram codificadas passando de dados brutos a
Keywords: Race relations. Education. dados organizados e agregados em unidades
Knowledge. de análise, que denominaremos de elemen-
tos-chave e, finalmente, c) o do tratamento
Introdução das informações, efetivado a partir do lugar
teórico em que se desenvolveu a pesquisa.
Neste artigo, procuramos construir um
estudo teórico baseado nas reflexões em tor- Vale ressaltar, também, que delimitamos
no de um trabalho bibliográfico, que se pro- a pesquisa focando-a em uma área de con-
pôs a analisar a produção acadêmica sobre vergência que se estruturou pela natureza do
relações raciais nos programas de pós-gradu- nosso envolvimento com o campo da educa-
ação em educação brasileiros entre os anos ção. Para Nilma Gomes et. al. (2012, p. 10),
de 2004 e 2013. As interpretações analíticas há uma crescente procura de pesquisadores
textuais do corpus de teses e de dissertações em aproximar suas pesquisas relacionando
não serão apresentadas neste artigo, porém os estudos em educação e relações étnico-ra-
estarão contempladas na configuração dos ciais. Essa proposição acadêmica “é capaz de

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produzir um movimento de mudanças, de in- tras consequências, que temáticas diversas, a
dagação do uso de categorias, de construção exemplo das relações raciais, tomem desta-
de novos conceitos, de articulação acadêmi- que nas análises.
co-política”. É neste campo de articulação Nessa perspectiva, consideramos neces-
em torno das ideias “acadêmico-políticas” sário um trabalho investigativo desta natu-
que nos posicionamos como pesquisadores reza, pela possibilidade de esse permitir a
da temática ao inquirirmos e tecermos consi- circularidade dos discursos sobre educação
derações sobre diferentes abordagens e dis- e relações raciais, podendo somar-se aos tra-
cussões que envolvem os estudos das rela- balhos acadêmico-científicos que problema-
ções étnico-raciais. tizam a temática, ao adentrar na pós-gradu-
A escolha de trabalharmos com a análi- ação brasileira, lugar que, além de ter fazer
se por elementos-chave se firmou em nossa parte significativamente da formação de pes-
pesquisa por percebermos os agrupamentos quisadores em educação, tem dado visibili-
que se formavam em torno de certos temas. dade ao debate em pauta. Compreendemos
As teses e dissertações foram separadas, in- que a visibilidade dada às discussões, nesse
vestigadas e classificadas conforme o grau campo, pode interferir na organização do ar-
de confluência de cada pesquisa. Compre- ranjo social, na garantia das regularidades do
endemos que o conjunto desses elemen- jogo social e de sua superação, uma vez que
tos representa um aporte importante para o as relações de diferentes agentes, em diver-
desenvolvimento do presente estudo, pois, sificados campos epistemológicos, podem
conforme Bardin (2011, p. 145), eles ope- constituir um capital cultural necessário nas
racionalizam considerando “a classificação lutas de forças em favor da garantia de direi-
de elementos constitutivos de um conjunto tos e configurar a superação de práticas de
por diferenciação e, seguidamente, por agru- exclusão voltadas para um cotidiano de dis-
pamento segundo o gênero (analogia), com criminação racial por que são colocados os
critérios previamente definidos”. negros brasileiros.
A dimensão que pretendemos atribuir
neste estudo, portanto, articula os discursos Elementos-chave gerados pelo
que estão contidos em teses e dissertações a agrupamento de temáticas
respeito da temática relações raciais na vi- De uma forma panorâmica os elemen-
gência da Lei no 10.639/03 no período de tos-chave surgidos com a leitura de teses
2004 a 2013, priorizando eixos de discussão, e dissertações em Relações Raciais, sob a
aos quais denominaremos de elementos-cha- orientação da análise de conteúdo, foram:
ve que passam pela constituição da educação movimentos sociais; identidades; racismo;
escolar, como identidades, currículo, forma- formação currículos e programas; propos-
ção de professores, instrumentos pedagógi- tas e práticas pedagógicas; memórias; ações
cos, políticas públicas e ações afirmativas. afirmativas e políticas educacionais; instru-
Diferentes estudos têm sido realizados mentos pedagógicos; e, por último, estado da
tomando como objeto de análise as relações arte e concepções teóricas.
raciais para a construção de estado da arte Partindo das informações acima e da im-
(SILVA, 1995; COELHO, SANTOS e SIL- possibilidade de, neste estudo descritivo,
VA, 2014), tendo em comum à constatação abordar todas as categorias, procuramos te-
de que um acentuado aumento nos progra- máticas secundárias dentro das teses e dis-
mas de pós-graduação acarreta, dentre ou- sertações que, tivessem igual peso das pri-

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márias e que permitissem o reagrupamento que, mesmo em locus diferenciado ou com
das categorias. Por exemplo: se o trabalho orientações teórico-metodológicas especí-
sobre estado da arte se voltasse aos estu- ficas, há práticas reiteradas que colocam as
dos sobre currículo, esse trabalho passaria a teses e dissertações, tomadas para investiga-
compor a categoria currículo. Essa escolha ção, como criadoras de um campo em que
conduziu à formulação de um novo grupo de é pertinente pensar e produzir conhecimento
categorias, a saber: seguido determinadas orientações.

1. Identidades, que considera repre- Identidades em teses e


sentações sobre o que é o negro ou as
relações raciais na escola e fora dela dissertações sobre relações raciais
e os aspectos culturais envolvidos em Ao seguirmos pela abordagem dos ele-
concepções, inclusive teóricas sobre mentos-chave, nos deparamos, primeira-
essas representações; mente, com o elemento identidade que com-
2. Formação, que atravessa a esco- preendemos, a partir de Hall (2005), como
la e os movimentos sociais voltados às deslocada ou descentrada, uma vez que a
questões sobre relações raciais e ocor- identidade, no contexto contemporâneo, so-
re em propostas, escolares e extraesco- fre um processo de politização, interpela-
lares; mentos e problematização que a constituem
3. Currículos e programas, que le- mais um processo de diferenciação do que de
vam em conta a prescrição legal dos identificação. Esse é um ponto de referência
conhecimentos veiculados em planos da concepção stuartiana sobre o que chama
curriculares de formação tanto da es- de identidades culturais – a compreensão do
cola básica como na acadêmica. que se deve entender por identificação:

No entanto, para além do perfil numérico Uma vez que a identidade muda de
das unidades de análise, torna-se pertinente acordo com a forma como o sujeito é
ponderarmos sobre alguns conceitos, como interpelado ou representado, a iden-
o de habitus em Bourdieu (1974). tificação não é automática, mas pode
ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se
Nessa perspectiva, consideramos, neste politizada. Esse processo é, às vezes,
estudo, a comunidade científica como campo descrito como constituindo uma mu-
em que as práticas socializadoras se fazem dança de uma política de identidade (de
presentes na circulação e reiteração de nor- classe) para uma política de diferença.
mas, valores, concepções teóricas, perspec- (HALL, 2005, p. 21)
tivas metodológicas, agentes sociais, dentre
outros aspectos, que criam condicionantes Para Woodward (2006), na perspectiva
sociais exteriores permitindo a formação das dos estudos culturais, a identidade é relacio-
subjetividades do pesquisador engendradas nal, assinalada por diferenças simbólicas,
em um habitus que funciona como um sis- sociais e materiais. Nesse sentido, cabe a
tema, nem sempre consciente que orienta o análise dos sistemas classificatórios, as dife-
pesquisador a fazer as suas escolhas, sejam renças e as exclusões sociais:
elas conceituais, teórico-metodológicas, ou
mesmo em relação ao objeto de pesquisa. O social e o simbólico referem-se
a dois processos diferentes, mas cada
Os elementos-chave considerados neste
um deles é necessário para a constru-
estudo partem, portanto, de um princípio de
ção e a manutenção das identidades.

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A marcação simbólica é o meio pelo go, da saúde, do acesso e da perma-
qual damos sentido a práticas e a rela- nência na educação escolar, a situação
ções sociais, definindo, por exemplo, ainda é de desigualdade, preconceito e
quem é excluído e quem é incluído. É discriminação. (GOMES, 2012. p. 19)
por meio da diferenciação social que
essas classificações da diferença são
Um debate por vezes secundário, mas
‘vividas’ nas relações sociais [...] [...].
de igual importância, deve envolver aspec-
Algumas diferenças são marcadas, mas
nesse processo algumas diferenças po-
tos produtivos na constituição identitária em
dem ser obscurecidas; por exemplo, a questão. Significa afirmar que não somente
afirmação da identidade nacional pode os sujeitos vivenciaram historicamente situ-
omitir diferenças de classe e diferenças ações de exclusão e preconceito, mas, que
de gênero. (Woodward, 2006, p. 14) participaram da construção cultural de um
povo, que construíram politicamente a so-
Gomes (2005) considera que a dinâmica ciedade e que contribuíram economicamen-
que envolve a construção identitária não é te para o seu desenvolvimento. No entanto,
algo inato, pois circula como status de valor poucas vezes esses aspectos merecem desta-
cultural que se espraia por práticas advindas que em se tratando de estudos que abordem
do conhecimento linguístico, por ritualiza- as relações raciais.
ções e pelos estabelecimentos que consoli- As amostras relacionadas, aleatoriamen-
dam a tradição de uma população. te, em forma de descritor, que constituíram
Para refletirmos sobre a construção iden- o primeiro elemento-chave denominado de
titária do negro na sociedade brasileira há identidades foram, respectivamente, cinco
necessidade de compreendermos os aspectos e três dissertações e teses. O elemento iden-
políticos, econômicos e culturais presentes tidades, no entanto, não constitui eixo iso-
nessa constituição, haja vista que processos lado, uma vez que dialoga com subtemas, a
de exclusão e vitimização têm sido mote de saber: identidades e formação: 1 dissertação
discussão de diferentes esferas de debates, e 1 tese; identidade em educação física: 1
colocando o negro ora como vítima do pre- dissertação; identidade e EJA: 1 dissertação;
conceito gerado histórica e culturalmente, identidades negras femininas: 1 dissertação;
ora como excluído dos bens produzidos pela identidade na escola: 1 dissertação; identida-
sociedade, seja no campo da cultura, no as- de na educação infantil: 1 tese e identidade e
pecto econômico e do poder político (HA- relações raciais no Brasil.
SENBALG, 2005 e GUIMARES, 2002). As dissertações e seus autores são: Nos
Esses, sem dúvida, são pontos de discussão meandros do processo de formação da iden-
que merecem destaque e que estão presen- tidade de professoras e professores negros
tes, principalmente, no âmbito da legislação (UFSCAR, 2006) de Regina Helena Moraes;
e políticas afirmativas e nos debates acadê- O estudante negro na cultura estudantil e na
micos. Educação Física escolar (UFRGS, 2007),
de Marzo Vargas dos Santos; Juventude,
De Norte a Sul do País, a presen- EJA e relações raciais: um estudo sobre os
ça negra é divulgada discursivamente
significados e sentidos atribuídos pelos jo-
como um forte componente da diver-
vens negros aos processos de escolarização
sidade cultural brasileira. Todavia, do
da EJA (UFMG, 2009) de Natalino Ne-
ponto de vista das políticas, das práti-
cas, das condições de vida, do empre- ves da Silva; Imaginário, racionalização e
identidades percebidas de mulheres negras

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escolarizadas (Uberlandia,1950-1969) de central sejam as relações raciais, estão pre-
Carmem Lúcia de Oliveira (UFU, 2006) e sentes questões de identidades de gênero.
Giz de Cor: um olhar de professores negros A partir dos trabalhos, constatamos, ain-
sobre as relações raciais na escola pública da, que os estudos voltados aos processos
(UNISANTOS, 2008) de Marcus Vinicius identitários e suas relações com as questões
O. A. Batista. raciais, procuram abordar, dentre outros as-
Nessa mesma linha de abordagem, as Te- pectos relacionados: a) a representação que
ses são: Identificação étnico-racial na voz crianças, jovens e adultos têm sobre o ne-
de crianças em espaços de educação infantil gro na sociedade e na escola, ressaltando
(PUC-SP, 2011), de Cristina Teodoro Trini- que essas representações estão atravessadas
dad; A construção social de identidades étni- por vivências em situações de preconceito e
co-raciais: uma análise discursiva do racis- discriminação, o que acaba por formar iden-
mo no Brasil (UnB 2009), de Francisca Cor- tidades negadas; b) a vinculação das identi-
délia Oliveira da Silva e Identidade e cultura dades raciais a outros processos identitários,
afro-brasileira: a formação de professores como a identidade na docência, a identida-
na escola e na universidade (UFBA, 2007), de de crianças, jovens e adultos e a identi-
de Maria de Nazaré Mota de Lima. dade de gênero, situação que promove, por
Um olhar atento em torno das abordagens vezes, a intensificação da existência rótulos
em teses e dissertações permite a compreen- envolvendo a identidade; c) a perspectiva do
são de que o elemento identidades aparece espaço de formação como possibilitador de
nos trabalhos ora como bandeira de luta de construção identitária, a exemplo, a educa-
um movimento, expressando a necessidade ção infantil, a formação inicial e continuada
de um agrupamento de pessoas com obje- de professores, em que se discutem currí-
tivos em comum, ora como designação da culos, programas e conteúdos de formação
diferença, entre outras qualificações. Em al- como potenciais agentes no processo dessa
guns desses trabalhos, considera-se as iden- construção, dentre outros aspectos.
tidades deslocadas e múltiplas, na perspecti- Esses elementos acabam por eliciar a ne-
va de Hall (2005, p.13) e partem do princípio cessidade de, imediatamente, abordarmos
de que: questões voltadas à formação inicial e con-
tinuada de professores, currículos e progra-
A identidade plenamente unificada, mas, dentre outros tópicos surgidos na orga-
completa, segura e coerente é uma fan- nização do material de estudo.
tasia. Ao invés disso, à media em que
os sistemas de significação e represen- Teses e Dissertações sobre relações ra-
tação cultural se multiplicam, somos ciais e suas implicações na formação do-
confrontados por uma multiplicidade cente
desconcertante e cambiante de iden- O debate sobre a formação docente tem
tidades possíveis, com cada uma das se colocado como central nas políticas vol-
quais poderíamos nos identificar- ao tadas à educação, principalmente, a partir
menos temporariamente .
da conferência de Jomtien, na Tailândia, em
1990, cujos princípios basilares foram tra-
Nesses trabalhos, não há a pretensão
çados para a educação do século XXI como
de desvincular as questões raciais de ou-
exigências para os países considerados “em
tras questões identitárias, a exemplo, a tese
desenvolvimento”. Esses princípios buscam
de Lima (2007), vista acima, que tomamos
adequar os países às políticas mercadológi-
como último exame. Nela, ainda que o foco

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cas e centradas nos países avaliados como nativas às mercadocêntricas, fazendo emer-
desenvolvidos e garante o controle desses gir debates diversos em torno, por exemplo,
sobre vários setores de países como o Brasil, da necessidade de formação continuada (IM-
principalmente o educacional. BERNÓN, 2006), de planos de cargo, salá-
Em face desse contexto, é primordial des- rio e carreira (FREITAS, 2007), de profis-
tacarmos que diferentes planos, propostas e sionalização e profissionalismo (LIBÂNEO,
legislação foram promulgados e estão sendo 2002), do trabalho pedagógico por saberes,
implementados, no país, com vistas a atingir em vez de competências (PIMENTA, 2002),
os princípios que são sintetizados em: for- dente outras propostas.
mar sujeitos com competências e habilida- Em se tratando da correlação desse tema
des; desenvolver trabalhadores polivalentes; com as relações raciais, maior se torna a
educar pessoas capazes de viver e trabalhar complexidade da discussão, uma vez que re-
em equipe; capacitar aprendizes aptos a se- quer conhecer como está posto o debate nas
lecionar e valorizar diferentes informações; duas frentes e qual legislação os sustenta.
habilitar indivíduos a mobilizarem saberes Prioritariamente, há necessidade de conhe-
para executar qualquer tarefa e para lidarem cer alguns dos principais órgãos criados para
com os dilemas das profissões sem maiores institucionalizar as ações prognosticadas na
questionamentos. Principalmente a partir da legislação com vistas à promoção de uma
aprovação da Lei no 9.394/96, esses planos e educação para as relações raciais, como os
projetos disseminam tais princípios. vinculados ao MEC, que, por meio da Secre-
De imediato, e em consequência das exi- tária de Políticas da Promoção da Igualdade
gências colocadas aos países em desenvol- Racial – SEPPIR e do Programa de Ações
vimento, a educação passa a ser considerada Afirmativas para a População Negra nas
uma das chaves fundamentais para resolver Instituições de Educação Superior – UNIA-
os problemas e adequar a sociedade às pro- FRO, têm sido responsáveis por investir em
postas dos chamados organismos multilate- projetos que requeiram recursos financeiros
rais. Nela, a docência tem se colocado como para o desenvolvimento de pesquisa e inter-
causa e consequência dos principais proble- venção e estejam vinculados a Núcleos de
mas elencados no relatório Jacques Delors Estudos de Culturas Afro-brasileiras – NEA-
(1996)44, daí a exigência de diretrizes para a Bs, dentre outros dessa natureza.
formação de professores como do documen- A discussão se torna ainda mais intrica-
to Resolução CNE/CP n.º 1, de 18 de feve- da porque pensar a formação de professores
reiro de 200245. para a educação das relações raciais requer
Nesse contexto, é possível afirmarmos o pensar sobre a atuação docente, pois é na
grau de complexidade que o tema formação prática docente que as proposições legais, e
docente carrega em si mesmo. Isso porque, os anseios da sociedade civil, de construção
ao debater o assunto, diferentes pesquisado- de novas formas de convivência no âmbito
res têm se posicionado com propostas alter- das relações raciais, têm a essência para se-
rem efetivados. Nesse sentido, Nilma Gomes
44 DELORS, Jacques (Org.). Educação um tesouro a
(2005, p. 147) destaca que:
descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre Educação para o século XXI. Para que a escola consiga avançar na
UNESCO/MEC, São Paulo: Cortez: 1996. relação entre saberes escolares/ realida-
45 Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a For- de social/diversidade étnico-cultural é
mação de Professores da Educação Básica, em nível preciso que os(as) educadores(as) com-
superior, curso de licenciatura, de graduação plena.

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preendam que o processo educacio- sa Mantovani Bedani (UFSCAR, 2006); e,
nal também é formado por dimensões Educando pela diferença para a igualdade:
como a ética, as diferentes identidades, professores identidade profissional e forma-
a diversidade, a sexualidade, a cultura, ção continua, de Rafael Ferreira Silva (USP,
as relações raciais, entre outras. E traba- 2010).
lhar com essas dimensões não significa
transformá-las em conteúdos escolares Sobre a temática formação docente, des-
ou temas transversais, mas ter a sensi- tacamos a compreensão do que seja forma-
bilidade para perceber como esses pro- ção e dos lugares onde ela se efetiva. Ou
cessos constituintes da nossa formação seja, os trabalhos elencados, de uma forma
humana se manifestam na nossa vida panorâmica, compreendem que a formação
e no próprio cotidiano escolar. Dessa ocorre em espaços apropriados para que ele
maneira, poderemos construir coletiva- se efetive. Esses espaços, inicialmente, são
mente novas formas de convivência e concebidos como os cursos de graduação em
de respeito entre professores, alunos e licenciaturas e pós-graduação lato sensu em
comunidade. É preciso que a escola se educação. No entanto, há, ainda, a compre-
conscientize cada vez mais de que ela
ensão de formação como um processo mais
existe para atender a sociedade na qual
amplo, que inicia anteriormente à vivência
está inserida e não aos órgãos governa-
institucional e pode ocorrer paralelamente a
mentais ou aos desejos dos educadores.
esta em programas de formação em serviço
ou mesmo em movimentos, associações etc.
É em torno dessa visão que as teses e dis-
e está associada não somente à aquisição de
sertações que discutem a formação de pro-
conteúdo, mas à aquisição de valores e atitu-
fessores e as relações raciais se colocam.
des, dentre outros.
Prioritariamente, a amostra aleatória desta
pesquisa elencou cinco dissertações e ne- Nessa perspectiva, enquanto há trabalhos
nhuma tese cujas temáticas se subdividem mais especificamente voltados aos progra-
em: formação de assessores educacionais: 1 mas que se preocupam em formar sujeitos
trabalho; formação inicial: 1 trabalho e for- para a educação das relações raciais, que
mação continuada: 3 trabalhos. oferecem em sua proposta a possibilidade de
capacitar professores para desenvolvimen-
As dissertações e seus autores são: For-
to de atitudes e valores, e com competência
mação de intelectuais negros e negras: a
técnica para criar situações de aprendiza-
experiência de assessores/as educacionais
gens capazes de contribuir para esse intento,
para assunto da comunidade negra no esta-
há também aqueles que avaliam os cursos
do de São Paulo, de Erivelto Santiago Souza
de formação em nível de graduação, princi-
(UFSCAR, 2009); População Negra, Rela-
palmente em Pedagogia, e os cursos de pós-
ções Inter-Raciais e Formação de Educado-
-graduação, prioritariamente lato sensu, que
ras/es: PENESB (1995-2007), de Sônia Que-
tenham a temática educação para as relações
rino dos Santos e Santos (PUC-CAMPINAS,
raciais, no sentido de compreender como
2007); Educação Continuada e o Ensino de
está a abordagem sobre as questões raciais
História e Cultura Afro-Brasileira e Africa-
nos currículos e nas práticas pedagógicas.
na: um estudo sobre o programa “São Pau-
lo: educando pela diferença para a igualda-
de”, de Ana Regina Santos Borges (PUC-SP,
2009); O curso de pedagogia e a diversidade
étnico-racial: trilhando caminhos, de Vanes-

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Currículos e programas em riculares nacionais vem se somar às
demandas do Movimento Negro, de
relações raciais: o conhecimento
intelectuais e de outros movimentos so-
nas teses e dissertações ciais, que se mantêm atentos à luta pela
Para o debate sobre currículos e progra- superação do racismo na sociedade, de
mas, nos filiamos às teorizações que consi- um modo geral, e na educação escolar,
deram o currículo como um campo contradi- em específico. Estes grupos partilham
tório e concorrido, um lugar em que se cons- da concepção de que a escola é uma das
instituições sociais responsáveis pela
trói, produz e faz circular conhecimentos,
construção de representações positivas
atitudes e valores capazes de forjar identida-
dos afro-brasileiros e por uma educa-
des. A condição de artefato cultural desenha- ção que tenha o respeito à diversidade
do em meio a disputas de forças e poder fa- como parte de uma formação cidadã.
zem do currículo um campo contestado, por Acreditam que a escola, sobretudo a
representar pleitos por atribuição de sentidos pública, exerce papel fundamental na
e significados móveis e instáveis, e, por ve- construção de uma educação para a di-
zes, envolvidos em contradições, pois: “Na versidade. (GOMES, 2008, p. 96)
medida em que os significados expressos na
representação não são fixos, estáveis, defi- Dentre as implicações de uma política
nitivamente estabelecidos, mas flutuantes, voltada ao estabelecimento de uma educa-
indetermináveis, o currículo pode se trans- ção para as relações raciais e sua influência
formar numa luta de representação, na qual no currículo da educação básica, está a pre-
eles podem ser refeitos, redefinidos, questio- ocupação em se saber de que forma os do-
nados, contestados” (SILVA, 1996, p. 172). centes ministrarão os conteúdos voltados ao
A preocupação com o currículo e as re- ensino da cultura africana e afro-brasileira,
lações raciais tem ganhado visibilidade, no se a formação, tanto a inicial como a con-
contexto atual, principalmente, a partir do tinuada, tem negligenciado a abordagem de
ano de 2003, com a promulgação da Lei nº tais assuntos. Esse impasse tem como con-
10.639, que, através de suas diretrizes cur- sequência a necessidade de se pensar uma
riculares, procurou atender às reivindica- política curricular nos cursos de graduação
ções do movimento negro e da comunidade que atenda às demandas por uma educação
epistêmica46 quanto à presença de conteúdos das relações raciais, que promova a revisão
voltados, principalmente, à superação do ra- das disciplinas existentes e da implementa-
cismo e reconhecimento da importância po- ção de normas voltadas, especificamente, ao
pulação negra em nossa sociedade. assunto.
Um olhar panorâmico, no entanto, de-
A implementação da lei 10.639/03 monstra que pouco se tem pensado na rees-
e de suas respectivas diretrizes cur- truturação curricular dos cursos de graduação
quando as temáticas são as relações raciais:
46 Compreendemos por comunidades epistêmicas grupos
de pessoas autorizadas a produzir, autorizar e fazer De um modo geral, essa discussão
circular conhecimentos (LOPES, 2006). Nesse senti-
não tem conseguido ocupar um lugar
do, são compostas por profissionais, cientistas ou não,
também por políticos, empresários, banqueiros e ad- relevante nos currículos de graduação
ministradores, movimentam o campo do conhecimen- do País nas mais diversas áreas. Mesmo
to como dispositivos de produção e implementação de que as universidades públicas estejam
políticas. Os grupos de uma comunidade epistêmica
passando por um momento de reestru-
partilham valores, modos de conhecimento, modelos
de raciocínio e têm projetos políticos pautados neles. turação dos cursos de licenciatura e de

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pedagogia, em função das diretrizes ... O conflito serve, antes de mais
curriculares nacionais específicas de nada, para tornar vulnerável e deses-
cada área, a diversidade étnico-racial tabilizar os modelos epistemológicos
enquanto uma questão que deveria fa- dominantes e para olhar o passado atra-
zer parte da formação docente continua vés do sofrimento humano, que, por via
ocupando lugar secundário. (GOMES, deles e da iniciativa humana a eles re-
2008, p. 196) ferida, foi indesculpavelmente causado.
Esse olhar produzirá imagens desesta-
O debate que se tem edificado nesse cam- bilizadoras, susceptíveis de desenvol-
po, considerando as teses e dissertações, ver nos estudantes e nos professores(as)
tem proposto um currículo emancipatório a capacidade de espanto, de indignação
no sentido freireano, que promova a cons- e uma postura de inconformismo, ne-
cientização capaz de mudança47, em diálogo cessárias para olhar com empenho os
modelos dominados ou emergentes, por
com uma proposta voltada à diversidade e
meio dos quais é possível aprender um
à diferença na perspectiva de Silva (1996),
novo tipo de relacionamento entre sa-
ou na perspectiva do multiculturalismo, em
beres e, portanto, entre pessoas e entre
detrimento de um currículo tradicional, uma grupos sociais. Poderá emergir, daí, um
vez que esse valoriza o conhecimento fecha- relacionamento mais igualitário e mais
do, negando as contribuições históricas de justo, que nos faça apreender o mundo
culturas como a africana, a judaica ou islâ- de forma edificante, emancipatória e
mica e possui tom fixado na supremacia da multicultural. (GOMES, 2008, p. 101)
cultura europeia, direcionando por muito
tempo a formatação de uma educação “or- No rol das teses e dissertações que abor-
ganizada” por programas conteudistas, que dam os currículos e programas com a temá-
se consolidam aos moldes culturais de uma tica relações raciais, encontramos diferentes
supremacia europeia e, consequentemente, abordagens que, em comum, concebem o
contribuem na desestruturação das outras currículo como um espaço de poder e terreno
formas de conhecimento, fragmentando-os, contestado capaz de promover a emancipa-
rechaçando-os e impedido de serem vividos. ção dos sujeitos em sociedade.
Uma concepção de conhecimento fechado,
Essas abordagens foram organizadas em
de certo, silencia os anseios vindos dos gru-
subcategorias de currículos e programas, a
pos marginalizados ou apartados por esse
saber: Identidade e diferença: 1 dissertação;
conhecimento, colocando-os em condições
gênero: 1 tese; currículos e programas, pro-
desiguais.
priamente: 2 dissertações; estado da arte: 1
De outro lado, uma proposta curricular tese; movimentos sociais: 1 dissertação; e re-
emancipatória em diálogo com o multicul- presentações de sujeitos: 3 dissertações.
turalismo e com outras teorizações críticas
Os trabalhos estão divididos, de um lado,
pauta-se na contradição, no conflito, nas
nas dissertações: Identidade e diferença ét-
disputas de força e, não meramente, no con-
nico-racial em currículos e programas: afir-
senso ou mesmo na homogeneidade. Nessa
mação ou silenciamento? De Sueli Borges
proposta, há espaço para a diferença, para
Pereira UFMA, 2006; Algumas contribui-
outros olhares, para a construção de novas
ções para um Programa de Estudos Afro-
formas e inusitadas propostas:
-Brasileiros de Andreia Barreto Rodrigues,
UFSCAR, 2007; O movimento negro e o
processo de elaboração das diretrizes cur-
47 Freire (1984; 1985).

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riculares para a educação das relações étni- parte dos profissionais que compõem a esco-
co-raciais de Andrio Alves Gatinho, UFPA, la. Por exemplo, pensar a inserção da Histó-
2008; Percepções das crianças sobre currí- ria Africana e de seus afrodescendentes, ou
culo e relações étnico-raciais na escola: de- mesmo a linguagem que o processo de hi-
safios, incertezas e possibilidades de Eliana bridismo cultural proporciona, permite ten-
Marques Ribeiro Cruz, UFSCAR, 2008; A cionar, ou problematizar, o currículo rígido,
introdução da definição de raça nas propos- inflexível e homogeneizador, promovendo a
tas curriculares brasileiras: a lente da nova descolonização necessária (GOMES, 2011).
lei e os olhos dos alunos de José Noberto Essas são sugestões incorporadas pela legis-
Soares, USP, 2009; Negro e ensino médio: lação que podem ser vivenciadas na prática
representações de professores acerca de re- da produção curricular para as relações ra-
lações raciais no currículo de Rosângela ciais.
Maria de Nazaré Barbosa e Silva – UFPA, Uma ponderação, contudo, pode ser feita
2009 e História e cultura afro-brasileira no quanto às prescrições curriculares no campo
currículo de História do 6º ao 9º anos da da educação. Ela diz respeito ao fato de que
Rede Oficial do Estado de São Paulo de Dei- o prescrito nem sempre é o vivido ou o acei-
ze Ponciano, UNIOESTE, 2011. to, e, que das suas formulações até o chão
Os trabalhos que tomam como foco o da escola, toda prescrição, em se tratando de
currículo questionam como esse artefato está educação, é renegociada e passada pelo cri-
organizado, em termos de distribuição de vo das contestações, ainda que os processos
disciplinas, relação de conteúdos e tempos de controle e avaliação exijam determinadas
de aprendizagem, enfatizando que, como se posturas, sem sempre almejadas pela socie-
trata de um lugar de disputas de força e po- dade.
der, o currículo acaba privilegiando determi- De nada adianta uma legislação curri-
nados saberes em detrimento de outros, por cular sem o compromisso dos que fazem a
exemplo, a divulgação de uma cultura bran- educação com o processo de mudança para
ca, masculina e cristã em lugar de culturas melhor, uma vez que a escola e os sujeitos
diversificadas ou a priorização de conteúdos sociais precisam de normatizações conso-
universalizantes em lugar da cultura local. lidadas no calor do cotidiano, sejam elas
O debate sobre currículo, no contexto chamadas de norte, sul, ideologia, discurso
atual, considerando-se as relações raciais, pedagógico democrático ou contradiscurso,
tem levantado vários questionamentos, po- que inclua as bases plurais, e por vezes anta-
rém praticamente todos eles passam por in- gônicas, da soberania popular.
dagações centrais: que conhecimento e qual
a forma de trabalhá-lo a educação requer,
se pensarmos em uma educação para as re-
Considerações Finais
lações raciais? E qual sujeito este conhe- A discussão efetivada neste artigo procu-
cimento trabalhado de determinado modo rou compreender o debate sobre relações ra-
pode ajudar a formar? Ou mesmo, quais os ciais, tomando como fonte investigativa te-
conteúdos prescritos legalmente para a edu- ses e dissertações dos programas de pós-gra-
cação das relações raciais se considerarmos duação brasileiros, entre os anos de 2004-
a legislação vigente como a Lei nº 10.639/03 2013, sob a vigência da Lei no 10.639/03,
e correlatos? por compreender que este contexto constitui
momento importante para a problematiza-
Atitudes devem ser tomadas, tanto por
ção do racismo e discriminações e ao debate
meio das políticas e legislação, como por
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aberto sobre as tensas relações raciais vivi- dos pelos diversos movimentos negros com
das no Brasil. a finalidade de reivindicar seus direitos de
Compreendemos que as produções aca- igualdade social, sendo, dessa forma, uma
dêmicas não podem ser descontextualizadas conquista da sociedade civil organizada e
do momento histórico por que tem passado preocupada com a construção de uma socie-
o país a partir das décadas de 1990 e 2000, dade mais justa (COELHO, 2006, p. 307).
principalmente no âmbito da elaboração da Passada mais de uma década, a imple-
legislação e políticas públicas voltadas às mentação da Lei ainda tem ressaltos nega-
questões raciais, que tiveram como eixo re- tivos no plano da divulgação da proposta
levante a promulgação da Lei nº 10.639/03. como projeto de afirmação de uma socieda-
Acreditamos, portanto, que as especifici- de que pensa sua diversidade racial, assim
dades da Lei atribuídas ao ensino como con- como na execução de ações especificas ao
texto de reflexão/ação sejam premissas para uso da Lei nº 10.639/03 que referenda as
o debate e para a consolidação de posturas posturas. Tomamos como objeto o contexto
afirmativas no combate a discriminação ra- educacional, principalmente quando avalia-
cial e a outras posições preconceituosas, mos o desempenho do conjunto de agentes
uma vez que práticas discriminatórias ainda específicos, professores e demais profissio-
são observadas na estrutura social do país. nais que lidam como o campo educacional,
pois não há como concretizar mudanças sem
A desigualdade social é visivelmente per- a conscientização que envolva desempenho
cebida pela pouca presença, ainda, de um e ética profissional. Por isso, nos questiona-
maior efetivo representativo da população mos sobre como tratar de assuntos como et-
negra em pontos socialmente estratégicos, nicidade e racialidade no contexto multidis-
fulcrais em espaços de poder. Dessa forma, ciplinar, que envolve estruturas que reforçam
sentimos a ausência na participação mais posicionamentos ideológicos e que imputam
consciente e da apropriação de ações que co- a discriminação e o preconceito no convívio
adunem para as mudanças e para a inserção dos diferenciados(-avéis), se há por parte de
de grupos historicamente excluídos dos pro- alguns agentes responsáveis pela formação,
cessos socioculturais. posturas incompatíveis? Será que não há ex-
Portanto, acreditamos que o espaço es- periências positivas no âmbito da educação
colar deva ser o lugar apropriado para a para a conscientização e superação da atual
construção e para a articulação de diferentes situação em que se encontra o negro no país?
habitus coletivos ou individuais (SETTON, Diante disso, há de haver um maior com-
2002) como possibilidade de uma consolida- prometimento de profissionais e instituições,
ção formativa mais articulada com as reali- principalmente as de ensino, com questões
dades multirraciais da população nacional, que envolvam os valores étnico-raciais na so-
produzindo conhecimentos compatíveis aos ciedade brasileira em que ainda são acentu-
diversos saberes e resguardando os traços adas práticas discriminatórias e preconceitu-
que neles articulam tais saberes a suas ma- osas contra negros, homoafetivos, mulheres,
trizes culturais. crianças, dentre outros, taxados de minorias,
A Lei nº 10.639/03, enquanto instrumen- a fim de constituir um habitus educativo em
to de reparação do Governo do Brasil junto que novos valores e posturas problematiza-
à população negra historicamente marginali- dos na sociedade em que estão inseridos pos-
zada, resulta, também, do conjunto de lutas sam mudar o quadro de exclusão.
e conquistas dos enfrentamentos organiza-

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A constituição de um habitus coeren- mente negada, edificando as relações raciais
te com as demandas de uma educação para em um processo de exclusão que usurpa
as relações raciais pode partir de atitudes, os domínios das relações pessoais e aufere
como a divulgação dos feitos da sociedade corpo às instituições sociais, como a esco-
e do sistema escolar que produziram resul- la, materializando-se nas distintas formas de
tados positivos quando da implementação relações, tendo como base uma profunda re-
das propostas garantidas e orientadas em Lei ferência de inferioridade sobre a população
para o processo de afirmação da comunidade negra, fruto de um aprendizado sistemático
negra no país e para a educação das relações e criação de um habitus que estabelece as ci-
raciais. catrizes de exclusão tanto em âmbito indivi-
As teses e dissertações cumprem parcial- dual, quanto coletivo.
mente esse papel, haja vista que o conhe- Os trabalhos referem-se ao contexto atual
cimento produzido não é acessível a todos, como momento imprescindível para a pro-
mas encoraja saber que muitos trabalhos, no blematização do racismo e as discrimina-
âmbito, escolar, ensaiam práticas, problema- ções, fazendo-se genuíno no que diz respeito
tizam e dão visibilidade ao debate sobre re- ao debate aberto sobre as tensas relações ra-
lações raciais. ciais vividas no Brasil.
Essas produções tomam como eixo, no Em todos os casos, os trabalhos acadêmi-
campo da educação, diferentes propostas, cos compreendem ser o momento de ques-
passando pela legislação e sua efetivação, tionamentos sobre o papel dos agentes peda-
pela cultura extra e escolar, culminando na gógicos, tanto no âmbito escolar, como fora
organização do trabalho pedagógico em suas dele, na promoção de uma educação para as
dimensões políticas, práticas e técnicas. relações raciais que, de fato, proporcione a
Os trabalhos acadêmicos, destarte, cer- conscientização e problematização sobre o
tificam que a educação para as relações negro na sociedade contemporânea.
étnico-raciais é motriz para a formação de Concordamos com essa postura e acredi-
uma sociedade que consolida na sua di- tamos que, somente dessa forma, podemos
versidade étnica, racial, sexual e religiosa. primar por uma educação que construa, na
Desse modo, as produções demonstram um formação de cidadãos, valores éticos com-
amadurecimento crítico no que diz respeito patíveis e contemplem a multiculturalidade
à problematização sobre identidade e dife- das diferenças: sociais, econômicas, políti-
rença, envolvendo as definições de si e de cas, de credo ou raça, oportunizando a cada
alteridade, que, quando pensadas em relação agente social participar mais ativamente da
aos negros, deve levar em conta as condições construção de um habitus social em que os
de escolarização, do atributo da renda e do direitos sejam garantidos. E isso requer pen-
acesso aos bens sociais como saúde, seguri- sar o currículo, a formação de professores, a
dade social, habitação e a criação de cotas no legislação e as práticas pedagógicas voltadas
ensino público e privado, dentre outros, que, à construção de uma identidade positivada
para essa fração social, tem sido historica- da população negra.

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Sobre os autores
Franklin Eduard Auad Thijm. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Pará.
Exerce atividade como docente pelo PAFOR/UFPA e no Ensino Básico como professor da
Disciplina Língua Portuguesa. Membro do NEAB/UFPA Núcleo de Estudos e pesquisas sobre
Formação de professores e Relações Étnico-raciais (GERA/UFPA). E-mail: franklinauad@
yahoo.com.br.
Wilma de Nazaré Baia Coelho. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN). Exerce, como docente Adjunto IV, atividades junto a Universida-
de Federal do Pará (UFPA) e atua na condição de docente do Programa de Pós-Graduação
em Educação da UFPA (PPGED) e do Programa de Pós-graduação em História Social da
Amazônia da UFPA (PPHIST). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Coordena
o NEAB/UFPA Núcleo de Estudos e pesquisas sobre Formação de professores e Relações
Étnico-raciais (GERA/UFPA). E-mail: wilmacoelho@yahoo.com.br

Recebido em: 12/07/2014


Aceito para publicação em: 27/08/2014

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