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João Sedycias, Ph.D.

[organizador]

Repensando a Teoria
Literária Contemporânea

Apresentação de Cíntia Moscovich

Projeto internacional em conjunto da


International joint project of

Southern Illinois University Edwardsville Universidade Federal de Pernambuco


Edwardsville, Illinois Recife, Pernambuco
Estados Unidos da América Brasil

Recife, PE, Brasil | 2015


406 Edu Teruki Otsuka

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está cifrada na intervenção do sujeito no processo
hermenêutico, de modo que as relações entre a
dimensão teórica e a pretensão prática se articulem
como base da consciência histórica, exigência
primeira para qualquer transformação da vida.
Rita Terezinha Schmidt
Introdução

Contemporaneamente, os estudos feministas têm-se constituído


em importante campo de pesquisa, presente em muitas áreas do
conhecimento, ensejando reflexões e ações diversificadas que têm
influído na transformação da sociedade. Conquistas significativas,
como o direito de a mulher eleger e o de ser eleita, de frequentar
uma universidade ou de exercer uma profissão foram triunfos do
movimento feminista, o que possibilitou a subversão da posição de
marginalidade à qual o gênero feminino sempre fora relegado. No
entanto, esse movimento não pode ser entendido como uma posição
monolítica, da mesma maneira como o conceito mulher não pode
ser percebido como categoria universal, mas um termo relacional,
conforme assertiva de Judith Butler (2003). Uma vez que tanto mu-
lher como movimento feminista apresentam múltiplas abordagens,
devem ser vistos em sua pluralidade, em consonância com verten-
tes teóricas específicas. A representação da mulher na literatura,
independentemente do sexo do autor/a, favorece aproximações de
variadas ordens, tais como psicanálise, pós-colonialismo, pós-mo-
dernismo, entre outras, constituindo um modelo de crítica literá-
ria muito produtivo, a crítica feminista. A teoria crítica feminista
desenvolveu-se a partir do movimento das mulheres e apresenta,
como um de seus resultados, novas discussões sobre a abordagem
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do fenômeno literário, a constituição do cânone literário e a escrita oportunidades de formação que os homens, pois, na sua opinião, da
da história da literatura. qualificação de homens e mulheres depende o progresso da nação.
A obra de Wollstonecraft foi traduzida e adaptada, com o título de
Retrospectiva Direito das mulheres e injustiças dos homens, em 1832, por Nísia
Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), também escritora e educa-
Relegada a uma condição subalterna, desde a Antiguidade, a
dora, considerada a primeira feminista do Brasil.
mulher detinha poucos direitos jurídicos, os quais foram ainda
No mesmo século, destaca-se a figura de Olympe de Gouges,
mais reduzidos no Período Medieval e, assim, prosseguiram
uma feminista avant-la-lettre, que exigia para as mulheres os mes-
até o século XVIII, quando o sistema absolutista e o direito
mos direitos dos homens. Ao questionar que a divisa da Revolução
romano reforçaram o poder patriarcal1. Na realidade, o co-
— Liberdade, Igualdade e Fraternidade —, expressa na Declaração
QKHFLPHQWR¿ORVy¿FRIXQGDPHQWDGRHP$ULVWyWHOHVRGLUHLWR
de direitos do homem e do cidadão, que consagrava o direito uni-
canônico, de base judaico-cristã, e o discurso político eram
versal à cidadania, não se aplicava às mulheres, Gouges, ainda em
fundamentados na superioridade masculina do pai de família
1791, portanto, durante a Revolução Francesa, proclama os direitos
e na sua autoridade, em detrimento da mulher, considerada fí-
femininos na Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, com 17
sica, intelectual e socialmente inferior. A partir do Iluminismo,
artigos. Integrando o partido político dos girondinos, Olympe de
o interesse pelas mulheres ampliou-se, bem como sua par-
Gouges foi guilhotinada por suas ideias avançadas. Perrot3, comen-
ticipação pública. Os debates que se realizavam durante a
tando o julgamento da feminista, aponta que “seu processo é rico
Assembleia Constituinte, na época da Revolução Francesa,
em ensinamentos quanto à desqualificação da mulher na política”.
despertaram a atenção de muitas mulheres, induzindo-as a
O feminismo, como movimento político e cultural, obteve
frequentá-la, assistindo aos trabalhos das galerias, enquanto
alguma visibilidade no século XIX com as campanhas em prol dos
tricotavam (as tricoteuses), uma vez que não podiam tomar
direitos civis e do voto. Andréa Lisly Gonçalves (2006) assinala a 1ª
parte das discussões. A participação na vida social, nos salões,
Convenção para o Direito das Mulheres, realizada em Seneca Falls,
e as conversações que ali se produziram celebrizaram muitas
estado de Nova Iorque, em 19 e 20 de julho de 1848, como o evento
PXOKHUHVDVIDPRVDV³SUHFLRVDV´ULGLFXODUL]DGDV HLPRUWDOL-
que desencadeou o movimento feminista no Ocidente. Gonçalves
zadas) por Molière na comédia As precisosas ridículas 2.
ressalta que essa Convenção foi o resultado da percepção de mulhe-
Ainda no século XVIII, desempenhou papel relevante a escri-
res, engajadas na luta contra a escravidão, de que sua posição não
tora e educadora Mary Wollstonecraft (1759-1797), que publicou,
era diferente daquela dos escravos africanos e seus descendentes,
em 1792, a obra Vindication of the rights of woman, na qual defende
pois, como eles, não possuíam direito algum. Nessa Convenção, foi
o direito à educação, de modo que as mulheres tenham as mesmas
discutido o posicionamento das mulheres em relação a questões
1 (BADINTER 1980)
2 (PERROT 1998) 3 (PERROT 2005:330)
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sociais, civis e religiosas, no entanto, o sufragismo não foi um as- Enquanto os homens aprendiam grego, as mulheres eram ensinadas
pecto considerado muito relevante, sendo aprovado, de acordo com a tomar conta da casa.
Gonçalves, por uma pequena maioria. Posteriormente, as discussões Entre outros ensaios relevantes de Virginia Woolf, destaca-se
sobre o direito ao voto ampliaram-se, com as sufragistas exigindo Profissões para as mulheres (2012), no qual apresenta as dificulda-
o direito à cidadania, representado pela possibilidade de participar des das mulheres escritoras, que precisam se desvincular de uma
de eleições (votar e ser votada), pois as mulheres, enquanto cons- tradição androcêntrica, a fim de poder escrever com autenticidade.
tituintes de parcela significativa da população, estavam alijadas de A autora reconhece que o maior mérito, tanto em sua produção de
qualquer representação. crítica literária quanto na escrita de romances, foi ter eliminado
No século XX, inscrevem-se, como baluartes do feminismo, uma figura que denominou de Anjo do Lar que a induzia a portar-se
duas eminentes intelectuais: Virginia Woolf e Simone de Beauvoir. de acordo com a tradição feminina, ser afável, elogiar, concordar
Virginia Woolf publica, em 1928, A room of one’s own. Nessa obra sempre, em suma, mistificar, enganar, utilizando artifícios atribu-
(originada de apontamentos para duas conferências em universi- ídos tradicionalmente ao sexo feminino. No entanto, sem opinião
dades femininas), Woolf discute a situação da mulher de maneira própria, é impossível até mesmo escrever uma resenha. Destruída
alegórica, procurando mostrar como a falta de condições materiais a imagem representativa da tradição, interroga “o que é uma mu-
inviabiliza a expressão literária. Para a autora, o gênio artístico tem lher?”5 E sua resposta é emblemática: “Duvido que alguém possa
possibilidade de manifestar-se entre os que tiveram uma boa educa- saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões
ção e recursos financeiros para realizar-se intelectualmente. A posse abertas às capacidades humanas”6.
de um quarto com chave e uma renda de 500 libras anuais constituem Simone de Beauvoir, feminista francesa, publica, em 1949, O
condições básicas para que a mulher possa refletir e produzir a sua segundo sexo, em dois volumes, nos quais discute a posição da mu-
poesia. Afirma: “A liberdade intelectual depende de coisas materiais. lher, que, na sua visão, nunca é o Um, mas sempre o Outro, dentro
A poesia depende da liberdade intelectual”4. Além disso, defende de uma totalidade (polos indispensáveis: homem/mulher), ou, como
que os textos escritos por mulheres devem traduzir a experiência afirma “O inessencial que não retorna ao essencial”7. A autora men-
feminina, uma vez que ocupam uma posição social diferenciada, e ciona o ingresso da mulher no universo do trabalho como uma das
não estar atrelados à produção masculina, instituindo uma tradição consequências da Revolução Industrial. Com isso, as reivindicações
específica. Selden, Widddowson e Brooker (2005) consideram que femininas passaram a fundamentar-se em argumentos econômicos.
a identidade de gênero não é inata, porém, construída socialmente, No entanto, para a burguesia conservadora de meados do século
daí a relevância atribuída à educação para atingir esse escopo. Nesse XX, a emancipação feminina é, ainda, vista como um perigo que
sentido, os autores ressaltam o posicionamento de Woolf, que ques-
tionava a modalidade de estudos que eram ministrados às mulheres. 5 (WOOLF 2012:14)
6 (WOOLF 2012:14)
4 (WOOLF 1985:141) 7 (BEAUVOIR 1980:13)
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“ameaça a moral e os interesses”8. Como a democracia pressupõe a sido deflagradora de uma consciência de gênero, não prosperou.
igualdade dos seres humanos, seria inconcebível considerar a mu- Retornada a paz, elas refluíram para o lar, deixando os postos de
lher inferior; porém, essa contradição aflora nas situações de confli- trabalho que ocupavam para os homens que voltaram da guerra.
to, em que a superioridade masculina tende a afirmar-se com todo Mesmo quando decidiram permanecer em atividade, as posições
o vigor. Para demonstrar a tese de que a mulher constitui o Outro, de liderança que exerciam anteriormente foram dominadas pelas
Beauvoir utiliza dados da biologia, da psicanálise e do materialismo figuras masculinas, restando às mulheres ocupações de menor im-
histórico, acatando algumas contribuições dessas áreas, para assi- portância e responsabilidade.
nalar que a mulher, cujo mundo de valores dominado pelo projeto A divisão do trabalho implica, entre outros aspectos, a natura-
do existente, direciona-se para a transcendência, posicionamento lização de procedimentos basicamente culturais. Assim, o trabalho
que desconstrói a assertiva de que ela se orienta para a imanência, doméstico e a criação dos filhos são considerados atividades femi-
enquanto o homem, para a transcendência. Essa proposição é refor- ninas, enquanto a conquista e a construção do mundo exterior são
çada quando se verifica o espaço ocupado por homens e mulheres: ocupações masculinas, consequentemente, estabelecem-se dico-
o domínio masculino é o exterior, o público, as grandes obras, en- tomias com desvantagem para a mulher. Razão, Sujeito, Produção
quanto o feminino é o interior, o privado, o pequeno cotidiano. No são prerrogativas masculinas em oposição a Emoção, Objeto,
início do segundo volume de O segundo sexo, Beauvoir enuncia que Reprodução, aspectos femininos.
a mulher não nasce como tal, mas que a sua constituição se deve Na década de 60 do século XX, o feminismo, efetivamente, as-
a interações de variadas naturezas que compõem o conjunto dos sume o caráter de força política e social. A partir de então, abrange
sistemas de interpretação das diferentes áreas, ou seja, é uma cons- um amplo espectro, discutindo a opressão feminina, originária do
trução social. Corroborando essa assertiva, Selden, Widdowson e regime patriarcal, reivindicando igualdade nas oportunidades de
Brooks afirmam: “Making the crucial distinction between ‘being educação, de emprego e remuneração, de autonomia corporal, entre
female’ and being constructed as ‘a woman’, de Beauvoir can posit outros aspectos. Bonnici justifica essa tendência, considerando que
the destruction of patriarchy if women can only break out of their “são geralmente grupos formadores de consciência que moldam
objectification”9. Na realidade, a própria mulher se coloca na posi- os temas políticos do feminismo contemporâneo, cuja pressão
ção de Outro, o que dificulta a superação das relações patriarcais, influencia decisões políticas para uma igualdade entre os sexos”10.
reforçando sua posição subalterna. Posteriormente, a discussão orientou-se para o reconhecimento das
Foram, porém, os conflitos bélicos que direcionaram, efetiva- diferenças que envolvem segmentos subalternos e marginalizados.
mente, as mulheres às linhas de produção industrial, subvertendo O sujeito feminista, ou o sujeito constituído no gênero, insti-
a equação proposta. No entanto, essa atividade que poderia ter tui-se na diferença (denominada différance, por Derrida), que provê
formas de subverter o patriarcalismo e a submissão feminina. O
8 (BEAUVOIR 1980:18)
9 (SELDEN; WIDDOWSON; BROOKS 2005:120) 10 (SCHMIDT 1994:31-32)
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feminismo confere às mulheres uma identidade política capaz de diferença, em cinco aspectos referentes a: biologia, experiência, dis-
identificar práticas discursivas e sociais mantenedoras do status quo curso, inconsciente e condições socioeconômicas, segundo Selden,
e a possibilidade de subvertê-las, facultando a intervenção não ape- Widdowson e Brooker12. Em relação aos aspectos biológicos, a fisio-
nas no universo acadêmico como também na sociedade em geral. logia feminina é vista como um atributo positivo e não mais como
A diferença, enquanto perspectiva epistemológica, representa uma responsável por sua inferioridade como historicamente ocorrera. A
das bases da teoria crítica feminista. experiência da mulher, por sua vez, é entendida como origem de
Na literatura, o feminismo, como elemento integrante dos valores positivos tanto em sua vida como na arte. O discurso tem
Estudos Culturais de Gênero, focaliza, precipuamente, a discussão sido compreendido como modalidade de opressão, uma vez que a
de questões relacionadas a: opressão patriarcal, construção da iden- linguagem é controlada pelo homem. Enquanto o inconsciente é
tidade, representação da mulher na literatura, escrita feminina, ex- focalizado nas teorias psicanalíticas de Lacan e Kristeva, mudanças
periência de leitura, entre outras. Schmidt refere-se a gênero como sociais e econômicas são estudadas pelo feminismo marxista. Os
um sistema “social, cultural, psicológico e literário construído a par- temas relacionados à segunda onda compreendem a discussão do
tir de ideias, comportamentos, valores e atitudes associados ao sexo, patriarcalismo, os problemas relacionados às organizações de mu-
através do qual se inscreve o homem na categoria do masculino e lheres e a diferença como ponto central da liberação feminina.
a mulher na do feminino”11. O aspecto sexual configura masculino A existência de uma terceira onda feminista é considerada com
e feminino a partir de características biológicas, portanto, o sexo restrições, uma vez que a agenda da segunda não foi cumprida ple-
é dado naturalmente, ao contrário do gênero que constitui uma namente. Esse novo período inclui discussões sobre pós-colonialis-
construção relacionada ao meio no qual o sujeito está inserido, com mo, teoria queer, sexualidade, entre outros, além de privilegiar seg-
implicações no aspecto psicológico e social do indivíduo. mentos ainda em processo de reconhecimento pela segunda onda,
A história do feminismo vincula-se a seu projeto político e tem tais como, migrantes, diaspóricos, não pertencentes à academia13.
sido apresentada em “ondas” que a situam temporalmente. A primeira
abarca os movimentos pelos direitos civis e direito ao voto, preconi- Feminismo e crítica
zando reformas de caráter social, político e econômico. A crítica lite-
O que vem a ser a escrita feminina? Numa tentativa de resposta,
rária dessa onda está mais preocupada em veicular as reivindicações
Virginia Woolf desconsidera, por óbvia, a diferença de experiências
da época do que em organizar-se como um discurso teórico. Virginia
que redundaria em especificidades temáticas. “[...] a diferença es-
Woolf e Simone de Beauvoir estão incluídas nessa etapa.
sencial não é que os homens descrevam batalhas e as mulheres o
A segunda onda corresponde aos movimentos de liberação dos
nascimento dos filhos, e sim que cada sexo descreve a si mesmo”14.
anos 60 (séc. XX). Muito embora os postulados do primeiro período
continuem em pauta, a questão da sexualidade é focalizada como 12 (SELDEN; WIDDOWSON; BROOKS 2005)
13 (BONNICI 2005)
11 (BONNICI 2007:87) 14 (WOOLF 2012:30)
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Cada sexo ocupa uma posição diferenciada na sociedade, o que francesa. O primeiro grupo inicia com Kate Millet e Mary Ellmann,
resulta em particularidades na constituição psicológica, como con- concluindo com reflexões teóricas de Kolodny, Showalter e Jehlen.
sequência, a visão que homens e mulheres possuem sobre determi- A obra de Kate Millet, Sex politics, publicada em 1970, portanto,
nados fatos não é igual. Relatos de experiências, do ponto de vista após a obra Thinking about women (1968), de Mary Ellmann, é
masculino, podem ser desagradáveis, se lidos por mulheres, ou, de considerada a precursora dos trabalhos posteriores de crítica femi-
outra parte, muito satisfatórios quando lidos por homens. Nesse nista anglo-americana. Moi (1989) considera que o sucesso de Sex
sentido, Jonathan Culler (1997) defende a relevância da leitura fe- politics deve-se à habilidade com que Millet promove a ligação entre
minina como uma experiência original relacionada à construção da duas expressões de crítica, a institucional e a não institucional. A
identidade da mulher. modalidade crítica proposta opõe-se ao New criticism, movimento
Ao observar histórias da literatura, percebe-se a quase ausência muito representativo na época. Em verdade, a proposta de leitura de
de nomes femininos até meados do século XX. No entanto, há muitas Millet, bastante inovadora, questiona a perspectiva do autor, privi-
autoras, cujas obras foram publicadas e circularam entre os leitores legiando o direito do leitor de apresentar seu ponto de vista. Assim,
de séculos anteriores. Esses nomes, entretanto, foram esquecidos, desconstrói a hierarquia que confere ao autor o poder e a autoridade
não figurando no elenco que acabou por constituir o cânone. Essa do discurso e à leitora, uma imagem de passividade, uma vez que
invisibilidade, como é denominada por Rita Schmidt15, leva a autora recebe a palavra doada pelo autor16. Um problema constatado nessa
a questionar “onde estavam as mulheres nos textos, nos programas obra é a dívida não referendada para com os postulados de Simone
de ensino de literatura, nas histórias literárias...”. Embora movimen- de Beauvoir que inspiraram a obra. Embora sem a repercussão do
tos de resgate de escritoras de séculos anteriores estejam em curso, a ensaio de Millet, Thinking about women, de Ellmann, está direcio-
posição das escritoras não tem se modificado substantivamente em nado para um público não acadêmico, não se preocupando com
relação à história da literatura. questões tanto políticas quanto históricas referentes ao patriarcalis-
As teorias críticas feministas estão ancoradas em abordagens mo, quando não se referem à análise literária. As obras de Millet e
pós-estruturalista, pós-colonialista e pós-modernista, nos aspectos Ellmann constituem os fundamentos da crítica denominada Images
que discutem o descentramento da autoridade e o questionamento of Women’ Criticism que busca estereótipos femininos não apenas
do conceito de verdade, consequentemente, são ampliados os sig- em obras de autores, como em resenhistas e comentadores de textos
nificados de literário, com a incorporação de novas perspectivas de produzidos por mulheres17. A tese principal defendida no livro de
arte, o que promove a ressignificação da composição do cânone. Ellmann refere-se ao pensamento por analogia sexual; isso significa
Toril Moi, em Sexual/textual politics: feminist literary theory que existe, na sociedade ocidental, a tendência de entender aconte-
(1989), após uma introdução em que discute a obra de Woolf, divide cimentos ou experiências a partir das diferenças sexuais, o que influi
a crítica feminista em dois grandes grupos: a anglo-americana e a
16 (MOI 1989)
15 (SCHMIDT 2002:34) 17 (MOI 1989)
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decisivamente na visão do mundo e na realização das atividades, maiores contribuições da autora é a redescoberta de escritoras que
inclusive, intelectuais. Muito embora pouco preocupada com o am- haviam caído em ostracismo.
biente acadêmico, Ellmann realizou uma modalidade interessante A terceira obra significativa é The madwoman in the attic,
de crítica feminista. de Sandra M. Gilbert e Susan Gubar, as quais estudam escritoras
Uma outra tendência de crítica feminista anglo-americana, relevantes do século XIX, tais como Jane Austen, George Eliot,
preocupada com as mulheres que escrevem, ocorre por volta da me- Mary Shelley, Charlotte Brontë, Emily Dickinson, entre outras. As
tade da década de 70 do século XX. Os trabalhos mais significativos autoras discutem não apenas a criatividade, mas também a natu-
dessa época foram Literary women, de Ellen Moers, publicado em reza da tradição literária feminina do século XIX. Considerando
1976; A literature of their own, de Elaine Showalter, em 1977; e The que a criação literária é atributo masculino, conforme a ideologia
madwoman in the attic, de Sandra Gilbert e Susan Gubar, em 1979, patriarcal, as imagens de mulher que aparecem na literatura são
as quais se tornaram obras clássicas da crítica feminista18. produto de fantasias masculinas, o que inviabiliza a criação de
A obra de Ellen Moers, Literary women, foi a primeira tentativa imagens de mulher fora dos padrões impostos. As autoras reputam
de mostrar a história da escrita das mulheres como uma poderosa que a mulher ideal, associada a uma imagem de doçura, beleza,
força que segue ao longo da corrente da tradição masculina, além de passividade, na realidade, não tem história, portanto, não tem vida.
descrever um território até então quase desconhecido. No entanto, No entanto, por trás do “anjo”, existe o “monstro”, o ser que deses-
ao enfatizar os “grandes autores”, a autora legitima o cânone, o que tabiliza o processo de harmonia do universo masculino, recusando
inviabiliza a inclusão de mulheres. De qualquer maneira, o trabalho o papel que lhe foi atribuído. Essa figura traduz o terror ancestral
de Moers é pioneiro, e assim deve ser lido, como uma etapa daquilo da feminilidade, encontrado em muitos mitos antigos como o de
que fundamenta a história literária feminina posterior19. Lilith. Gilbert e Gubar afirmam que a mulher-monstro tem uma
Showalter, em A literature of their own, numa clara alusão à história e pode contá-la ou não, de acordo com sua escolha, além
obra de Virginia Woolf, procura mapear a tradição literária femini- disso, dispõe de uma consciência não transparente ao olhar mas-
na, desde o século XIX, abarcando Jane Austen, as Brontë, George culino. Dentro dessa perspectiva, a leitura de uma obra feminina
Eliot e Virginia Woolf. Aponta três fases do desenvolvimento da do século XIX precisa levar em conta as estratégias que as autoras
escrita feminina que denomina de fase feminina, fase feminista utilizaram para subverter os parâmetros interpretativos patriarcais
e fase fêmea (female phase). Essa discussão é retomada no ensaio então vigentes, ou seja, essa leitura implica uma dupla tarefa de
“Feminist criticism in the wilderness”, de 1982. A história da es- decodificação, a fim de pôr a descoberto o conteúdo de diferentes
crita feminina inicia em 1840, com a utilização pelas escritoras de camadas, uma vez que as mulheres precisavam escrever de uma
pseudônimos masculinos e permanece até os dias atuais. Uma das forma dupla, na camada aparente, era seguida a tradição, enquan-
to, na parte subjacente, o verdadeiro significado da história era
18 (MOI 1989)
19 (MOI 1989)
construído. Nesse sentido, Gilbert e Gubar (2000) asseveram que a
422 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 423

escrita feminina lembra o palimpsesto, em que duas modalidades ideologia direciona não apenas a escrita e a modalidade de leitura,
de escrita se superpõem. mas também a maneira como o cânone é estabelecido. Finalmente,
A primeira obra do feminismo francês é a já referida O segundo o aspecto mais relevante deve consistir na qualidade literária do
sexo, de Simone de Beauvoir, publicada em 1949. A autora escreveu texto, independentemente do sexo do autor. “Texts have no fixed
esse livro sob a inspiração da filosofia existencialista, demonstrando meanings: interpretations depend on the situation and ideology
como, ao longo do processo histórico, a mulher foi transformada of the reader”20. Ainda considerando a perspectiva marxista, para
em mero objeto, tendo sua subjetividade negada, o que apresentou proceder às análises críticas, foram utilizados os teóricos franceses
reflexos na vida social. Essa visão patriarcal orientou, inclusive, a Louis Althusser e Pierre Macherey, nas abordagens sexista e classis-
representação que as mulheres tinham delas próprias, sedimentan- ta. A crítica literária de Macherey, de certa maneira, aproxima-se
do um comportamento de acordo com princípios androcêntricos. de postulados da Estética da Recepção. Para o autor, a obra não é
Beauvoir organiza sua obra negando qualquer espécie de essencia- uma mensagem de seu criador — suas intenções constituem apenas
lismo que predetermine comportamentos e atitudes, atribuindo-os um dos elementos —, mas um conjunto de aspectos referidos, de
à natureza. Na época, a autora não demonstrou qualquer interesse lacunas, de contradições nos quais é possível desvelar pressupostos
pelo feminismo, uma vez que considerava o movimento radical. teóricos, ideológicos, econômicos, sociais que se interrelacionam
Posteriormente, alinhou-se ao marxismo, acreditando que, somente na materialização do texto, vinculando-o a um contexto histórico.
por meio da luta de classes, a opressão feminina seria devidamente Essa modalidade de crítica estuda a formação histórica da categoria
equacionada. A aproximação de Beauvoir com o socialismo não gênero e analisa o papel da cultura na representação dessa categoria.
foi bem vista pelas estudiosas francesas, porém teve uma aceitação Na crítica norte-americana, o marxismo é apenas mais um tema
considerável na Inglaterra. No entanto, a produção teórica feminista discutido por alguns grupos.
inglesa direcionou-se mais para o cinema e para os meios de comu- Mais adiante, as mulheres começaram a formar seus próprios
nicação social e menos para a crítica literária. grupos, cujas teóricas fundamentaram suas teses na psicanálise, na
Uma nova modalidade de pensamento feminista francês estru- linguística e na semiótica. Selden, Widdowson e Brooker (2005),
turou-se a partir de 1968, ano em que ocorreram profundas modi- historiando a teoria feminista francesa, apontam que as teóricas
ficações tanto no âmbito acadêmico quanto no social. Os primeiros apresentavam uma clara preferência pela psicanálise lacaniana,
grupos que se organizaram seguiram a inspiração marxista-maio- como uma possibilidade de emancipação feminina, contrapondo-se
ísta. No contexto literário marxista, destacam-se Cora Kaplan, que às feministas da corrente anglo-americana que criticavam Freud,
critica a obra de Millett, e Michèle Barrett, que focaliza sua análise contestando suas assertivas sobre a definição negativa da mulher,
na representação de gênero. Barrett considera que as condições atribuída ao complexo de castração, reflexo da inveja do pênis. A or-
materiais de homens e mulheres, no que tange à produção literária, ganização teórica do feminismo crítico francês teve pouca influência
são diferentes, o que influencia a forma de escrita. De outra parte, a 20 (SELDEN; WIDDOWSON; BROOKER 2005:125)
424 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 425

externa devido a seu caráter intelectual, uma vez que foi construí- esse significante — o falo — como Lei do Pai. A criança, ao superar
da com base na filosofia alemã (Marx, Nietzsche, Heidegger), em o imaginário, por meio do estágio do espelho, ingressa na ordem
Derrida e em Lacan21. simbólica da linguagem que se organiza por meio de relações de
Os trabalhos de Jacques Lacan foram muito produtivos para similaridade e diferença. “Only by accepting the exclusions (if this,
a construção dos pressupostos da teoria feminista francesa, a qual then not that) imposed by the Law of the Father can the child enter
se apropriou de dois conceitos-chave da teoria lacaniana: a Ordem the gendered space assigned to it by the linguistic order”26. Com isso,
Simbólica e o Imaginário. Por Imaginário, entende-se o período ocorre o reconhecimento de que o papel desempenhado por esse Pai
pré-edípico, em que a criança não percebe sua individualidade, apresenta cunho metafórico. A abordagem lacaniana destaca-se por
sentindo-se parte da mãe22. A crise edípica assinala o ingresso na superar o determinismo biológico e aproximar a psicanálise freu-
Ordem Simbólica23, quando o pai destrói a unidade mãe-filho, diana ao sistema social.
marcando uma ausência. A entrada na Ordem Simbólica significa a Relevante para o feminismo francês, Derrida, na teoria des-
aceitação da Lei do Pai, consequentemente, o falo torna-se símbolo construcionista, criou o neologismo différance, para indicar mu-
de uma carência24. Ao recuperar o conceito ancestral, relacionado danças sutis que ocorrem no signo, cuja natureza dividida implica
aos ritos da fertilidade, como signo de poder, o falo é tratado como alguma modalidade de ausência. O desconstrucionismo propõe a
um conceito simbólico e não como órgão físico. A psicanálise la- subversão do sistema hierárquico binário da filosofia ocidental no
caniana resgata a importância da linguagem, ancorada nos estudos qual um termo é o dominante enquanto outro é o dominado. A
de Saussure, associando a organização do inconsciente com a lin- crítica à lógica binária apresenta, como consequência, que a cons-
guagem, que se estrutura através de signos (significações estáveis) trução de significados se produz por meio da livre combinação de
e significantes25. Significados (signos) e significantes são múltiplos, significantes. Isso quer dizer que um determinado significado se
não apresentando, obrigatoriamente, uma correspondência direta, materializa mediante o processo de aludir a todos os significantes
uma vez que muitos significados são reprimidos pelo inconsciente. ausentes, assim, a aquisição do sentido acontece na medida em que
Dessa maneira, o conceito de mulher, como um significante, não um elemento delega seu significado a outros elementos da lingua-
estabelece, necessariamente, correspondência com seu corpo físico. gem27. Na teoria feminista, a desconstrução indica que o pluralismo
Lacan associa o falocentrismo à estrutura do signo, denominando e a diferença suplantam o autoritarismo e a subserviência que consti-
21 (MOI 1989)
tuem o regime patriarcal. Entre as críticas feministas do movimento
22 “O Imaginário deve ser entendido [...] como um efeito de desconhecimento da francês, destacam-se Hélène Cixous, Julia Kristeva e Luce Irigaray.
H´FiFLD VLPEyOLFD GD RSHUDomR GH GHVHMR GR 2XWUR H GD HVWUXWXUDomR HGtSLFD
(castração)” (VALLEJO; MAGALHÃES 1981:60) Para Moi (1989), essas teóricas estão muito envolvidas com questões
23 A ordem simbólica acontece em conjunção da ordem do imaginário com a ordem
concernentes à linguagem e à escrita femininas. Inaugurando uma
do real, sendo que o real somente se organiza através da estrutura simbólica
(VALLEJO; MAGALHÃES 1981:101)
24 (MOI 1989) 26 (SELDEN; WIDDOWSON; BROOKER 2005:131)
25 (EAGLETON 1983) 27 (MOI 1989)
426 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 427

fase posterior ao feminismo existencialista de Simone de Beauvoir da corrente lacaniana. Para Irigaray, a mulher se relaciona com as
que postulava a igualdade, as teóricas do final dos anos 60 e anos estruturas da linguagem de forma passiva e imitativa, parodiando o
70 (século XX) ressaltam a questão da diferença, pois a igualdade discurso patriarcal, como estratégia de subversão desse discurso29.
condicionava as mulheres a procederem como homens. Spéculum de l’autre femme (publicada em 1985) é dividida em três
Hélène Cixous enfatizou a questão da écriture féminine, publi- partes: na primeira, apresenta uma crítica de Freud à feminilidade,
cando uma série de ensaios entre 1975 e 1977, nos quais discute quando trata do desenvolvimento psicossexual da mulher, por sua
relações entre mulher, feminismo e escrita. Um de seus textos mais subserviência à tradição filosófica ocidental; na segunda parte, apre-
importantes é Le Rire de la Méduse (publicado em 1975). Utilizando senta leituras de filosofia ocidental, abarcando de Platão a Hegel,
a teoria desconstrutivista de Derrida, Cixous procura desfazer o além de seus próprios pressupostos teóricos; na terceira, apresenta
sistema de oposições binárias (razão/emoção; civilização/barbárie; uma leitura do mito da Caverna, de Platão, à luz dos postulados
pai/mãe) distintivo da filosofia ocidental e do pensamento patriar- da segunda parte. Embora Spéculum de l’autre femme tenha sofrido
cal, o qual se caracteriza pela assimetria. Na oposição macho/fêmea, muitas críticas, especialmente, no que tange à linguagem da mulher,
a posição inferior cabe ao segundo membro, lugar da mulher na Moi considera essa obra um exemplo significativo de crítica ao dis-
sociedade. Partindo do conceito de différance (Derrida), a autora curso patriarcal, constituindo-se em inspiração para novas leituras
procura recuperar o lugar da mulher, valorizando o que considera de textos políticos e filosóficos.
écriture féminine, qual seja, uma modalidade de escrita libertadora, Dedicada aos estudos da linguagem, Julia Kristeva assinala
que trabalha com a diferença, opondo-se à lógica falogocêntrica e que a linguística contemporânea apresenta implicações políticas,
valorizando o final aberto da escrita28. Essa modalidade de texto linguísticas e éticas, relacionadas à linguagem. Considerando os
preconizada pela autora refere-se mais a uma forma de escrita do fundamentos filosóficos da linguística autoritários e opressivos,
que ao sexo do autor. Considerando a escrita praticada pelas mulhe- procura subverter esse posicionamento, sugerindo a substituição
res como um ato libidinal, Cixous inaugura uma nova modalidade do conceito de langue, de Saussure, como objeto de estudo da
de crítica em que vincula sexualidade e textualidade, utilizando-a linguística, pelo de sujeito falante, fundamentado no pensamento
para analisar não apenas textos escritos por mulheres, mas também de Marx, Freud e Nietzsche, o que transformaria a concepção de
por homens. linguagem de estrutura homogênea em um processo heterogêneo.
Também relevante, na teoria feminista francesa, é Luce Irigaray, Muito embora todos empreguem a mesma linguagem, os interesses
cuja tese de doutorado (Spéculum de l’autre femme, 1974) foi moti- convergentes no signo são distintos, dessa maneira, o significado
vo de sua expulsão da École freudienne, de Vincennes, o que de- do signo se amplia, tornando-o polissêmico. Essa produtividade
monstra o poder patriarcal vigente no âmbito acadêmico. Sua obra do signo justifica o discurso feminista30. Para organizar sua teoria,
motivou debates muito acirrados, especialmente, com as seguidoras
29 (BONNICI 2007)
28 (MOI 1989) 30 (MOI 1989)
428 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 429

Kristeva recorre ao trabalho de Mikhail Bakhtin e dos Formalistas Matthew Arnold. Como essa atividade era exercida precipuamente
para expor o conceito de intertextualidade31, o qual indica a trans- por críticos, Showalter constata a existência de uma hermenêutica
ferência de um sistema de signos para outro, propondo novas masculina, que dominava essa modalidade de avaliação. As mulheres
possibilidades de leitura, ampliando o espectro interpretativo da que praticavam a crítica deveriam utilizar os pressupostos estabele-
literatura lida/produzida por mulheres. Kristeva propôs uma teoria cidos, portanto, vagavam pelo território selvagem. Muito embora
de aquisição da linguagem, na qual procura definir o processo de as tendências de crítica feminista sejam diversificadas, a autora es-
significação a partir do discurso lacaniano, associando ordem sim- tabelece dois modelos que apresentam significativa produtividade:
bólica à semiótica e ordem do imaginário ao simbólico. A semiótica, a primeira, a crítica feminista, centrada na leitora, refere-se à in-
ligada a processos pré-edipianos, cujos impulsos terminam no chora terpretação de representações de mulheres na literatura em geral, a
(termo grego que significa espaço fechado), é constituída por as- partir de uma leitura feminista, possibilitando novas alternativas de
pectos recalcados da linguagem, o que a torna subversiva, uma vez leitura. Essa modalidade está concentrada em modelos já existentes,
que o simbólico nunca domina completamente o semiótico. Outro o que, de certa forma, atrela essa crítica ao modelo androcêntrico.
tema relevante da teoria de Kristeva é a definição de feminilidade O resgate das vozes excluídas bem como a reorganização do cânone
como marginalidade. Negando a escritura feminina, defendida por são contribuições relevantes tanto para a ressignificação da história
Cixous e outras feministas, Kristeva utiliza a recusa de definições e quanto para a materialização do projeto de emancipação intelectual
de representações do sujeito feminino como modalidade de subver- e social da mulher. A segunda, centrada na mulher como escritora,
ter o falocentrismo, o poder do patriarcado. Esse posicionamento é denominada por Showalter de ginocrítica.
revolucionário permite à mulher um alinhamento com movimentos Para a autora, ginocrítica consiste em “o estudo da mulher
revolucionários. como escritora, e seus tópicos são a história, os estilos, os temas, os
Entre as reflexões teóricas produzidas contemporaneamente, gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres”32. A grande dis-
é relevante considerar o ensaio “Feminist criticism in wilderness”, cussão da ginocrítica é verificar no que consiste a diferença entre a
de Elaine Showalter, publicado inicialmente pelo periódico Critical produção literária escrita por homens e por mulheres, respondendo
Inquiry, n. 8, em 1981, e, posteriormente, na obra de Mary Jacobus, aos questionamentos feitos por autoras e leitoras. Showalter aponta
Reading woman: essays in feminist criticism, de 1986. Foi publicado, quatro modelos que procuram estabelecer a diferença dos textos
em tradução — “A crítica feminista no território selvagem” —, na produzidos por mulheres, os quais sustentam as teorias críticas fe-
obra organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, Tendências e im- ministas ginocêntricas, são eles: biológico, linguístico, psicanalítico
passes: o feminismo como crítica da cultura, de 1994. Nesse texto, a e cultural.
autora discorre sobre crítica literária, considerando-a um território O modelo biológico, como diferença na escrita feminina,
selvagem, reproduzindo um conceito de outros autores, entre eles, está centrado no corpo, assim “anatomia é textualidade”33. Essa

31 ª7RGRRWH[WRVHFRQVWUyLFRPRPRVDLFRGHFLWDo}HVWRGRWH[WRpDEVRUomRH 32 (SHOWALTER 1994:29)


WUDQVIRUPDomRGHXPRXWURWH[WR« .5,67(9$ 33 (SHOWALTER 1994:32)
430 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 431

abordagem pode ocasionar um retorno ao essencialismo opressor feminino. Embora seja um modelo valorizado pela crítica feminista
que atribuía a inferioridade feminina à sua constituição física. Muitas francesa, apresenta dificuldades para relacionar a escrita feminina
críticas aceitam esse modelo, considerando a criação literária uma com aspectos teóricos e culturais.
paternidade metafórica. Essa modalidade de crítica atribui ao corpo Finalmente, o modelo cultural é, segundo Showalter, o mais
a capacidade imaginativa e caracteriza-se pelo tom confessional que, adequado para expressar a diferença, pois leva em consideração
quando bem realizada, apresenta grande qualidade. Muito embora fatores como raça, classe, história e nacionalidade, os quais são tão
a questão do corpo seja primordial na determinação de um espaço relevantes quanto gênero para a constituição de uma crítica literária
social e na constituição da identidade, a escrita envolve estruturas gendrada. De acordo com a autora, “a cultura das mulheres forma
linguísticas e literárias que formam outro tipo de corpo: o corpo da uma experiência coletiva dentro do todo cultural, uma experiência
escrita que deve ser afirmativo. que liga as escritoras umas às outras no tempo e no espaço”34. A re-
O modelo linguístico discute se há diferença na utilização da alização dessa crítica pode ser materializada por meio de estratégias
língua realizada por homens e mulheres. Esse aspecto tem sido de leitura tais como a proposta por Gilbert e Gubar, desdobrando a
objeto de teorização da sociolinguística e prioriza a necessidade de duplicidade do texto, colocando a descoberto ambas as camadas, a
examinar conceitos que promovem preconceitos e discriminação de manifesta e a silenciada; ou a análise contextual de Clifford Geertz
determinados grupos sociais, entre eles, os contituídos pelo gênero. que separa as estruturas significativas, avaliando sua relevância.
No imaginário masculino, a linguagem das mulheres provém de Outro texto muito significativo para a crítica contemporânea é
mitos e lendas ancestrais, ligada a feitiçarias e encantamentos, o que “A tecnologia do gênero”, publicado por Teresa de Lauretis, original-
ocasionou movimentos repressivos e caça às bruxas. Sonegado du- mente, em 1987. A autora discute, inicialmente, a questão da dife-
rante muito tempo, o acesso à língua deve ser privilegiado, de modo rença sexual embutida no conceito de gênero, considerando-a uma
que possam ser realizadas escolhas lexicais e sintáticas adequadas limitação, mesmo quando não esteja atrelada à biologia e refira-se
para expressar uma visão do mundo revolucionária, possibilitando aos efeitos discursivos, uma vez que se trata de uma diferença em
a materialização de uma crítica literária qualificada, independente relação ao homem. A autora propõe uma definição de gênero que
dos padrões masculinos. desconstrói e ultrapassa a diferença sexual, associando-a aos estu-
O modelo psicanalítico associa os modelos biológico e linguís- dos de Foucault, assim, gênero “é produto de diferentes tecnologias
tico, ao valorizar as questões do corpo e da linguagem. Inicia com sociais [...] e de discursos, epistemologias e práticas críticas institu-
Freud e seu conceito de inveja do pênis e complexo de castração, cionalizadas, bem como de práticas da vida cotidiana”35. Para expor
para explicar a relação da mulher com a escrita e a cultura, seguindo a relação entre gênero e tecnologia, a autora apresenta quatro teses:
com Lacan que amplia a questão de aquisição da linguagem, na fase a) o gênero é uma representação, essa assertiva remete à relação de
edípica, com o ingresso na ordem simbólica, com aceitação do falo
34 (SHOWALTER 1994:44)
como significante privilegiado e a consequente desvalorização do 35 (LAURETIS 1994:208)
432 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 433

gênero com classe, na realidade, pertencer a um gênero significa resgate de autoras e obras que haviam sido relegadas ao ostracismo
pertencer a uma classe. Dessa maneira, evidencia-se a diferença en- ocasionaram um alargamento do cânone e uma revisão da história
tre gênero e sexo, uma vez que sexo implica uma condição natural, da literatura. Tradicionalmente, o cânone é organizado a partir de
enquanto gênero refere-se a uma relação social. O sistema gênero um elenco de autores e obras consagrados institucionalmente, de
conecta sexo com elementos culturais existentes na sociedade; b) acordo com pressupostos ideológicos que atendem a interesses es-
a representação do gênero é sua construção. Para desenvolver essa pecíficos, relacionados à época, à cultura e à visão de mundo; nesse
tese, Lauretis focaliza a ideologia a partir de estudos de Althusser e contexto, dificilmente, uma literatura produzida por mulheres ou
outros; c) a construção do gênero está em processo, pois as tecnolo- por algum outro segmento subalterno teria oportunidade de inte-
gias e os discursos como formadores de opinião podem sedimentar grar o panteão literário.
representações de gênero de acordo com a ideologia patriarcal ou Ao considerar essa modalidade de história da literatura um fato
não; d) a construção do gênero implica sua desconstrução. Para retrógrado e ultrapassado, Ria Lemaire afirma ser essa uma forma
tanto, propõe uma construção de gênero a partir das margens dos de legitimar o poder masculino “por meio do recuo às origens e do
discursos do poder e nos escaninhos das instituições, afirmando-se mapeamento de uma evolução, factual ou hipotética, até o presen-
em nível da “subjetividade e da autorrepresentação”36, nas práticas te”37. A história da literatura, nos séculos XVIII e XIX, consistia em
discursivas, sociais e artísticas. uma espécie de narrativa de caráter totalizante, vinculada a um de-
Abordagens, como as apresentadas neste texto, possibilitam a terminado espaço e associada aos mecanismos de poder. Os grandes
leitura e a análise de obras por meio de um viés particular, dife- mestres, personagens dessa história, eram os modelos que constituí-
renciado da cultura androcêntrica. Reconhecendo e valorizando a am o cânone tradicional. Posteriormente, com o questionamento da
experiência da mulher e sua visão do mundo particular, a crítica ciência histórica, no final do século XIX, e seu redimensionamento,
feminista é hoje responsável por um acervo de estudos muito sig- através do trabalho desenvolvido pelo grupo dos Annales, o mo-
nificativo que contribui, de forma relevante, tanto para resgatar delo de história da literatura foi sendo discutido e transformado.
autoras esquecidas ao longo da história quanto para refletir sobre Contemporaneamente, com o advento dos estudos culturais e com a
produções contemporâneas. valorização de modalidades de expressão diferenciadas, como a lite-
ratura oral e a popular, o conceito de cânone sofreu uma significativa
Considerações Finais transformação, consequentemente, a história da literatura também.
Para finalizar, é imprescindível tecer algumas considerações so- Ambos, história da literatura e cânone, não podem mais ser enten-
bre a literatura produzida por mulheres e a história da literatura, didos no singular, devendo ser valorizados em sua multiplicidade.
bem como as transformações que se originaram dessa relação. O A constituição de uma história da literatura necessita explicitar
reconhecimento da produção literária feminina como também o os pressupostos que nortearão o trabalho; assim, o estabelecimento
36 (LAURETIS 1994:237) 37 (LEMAIRE 1994:58)
434 Cecil Jeanine Albert Zinani Capítulo 11 . Feminismo e literatura 435

dos conceitos de literatura e literariedade são indispensáveis, bem BONICCI, Thomas. 2007. Teoria e crítica literária feminista: conceitos e tendências.
Maringá: Eduem.
como as questões de ordenamento espaço-temporal, levando em
BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.
conta a parcialidade dessa história. Uma história da literatura que
Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
inclua a preocupação com o gênero precisa, também, ter em vista CULLER, Jonathan. 1997. Sobre a desconstrução: teoria e crítica do pós-
as condições de produção e circulação das obras escritas por mu- estruturalismo. Tradução de Patrícia Burrowes. Rio de Janeiro: Rosa dos
lheres. Considerando o apagamento da produção feminina até há Tempos.

alguns anos, cumpre realizar um trabalho de arqueologia, a fim de EAGLETON, Terry. 1983. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução de
Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes.
descobrir essas obras e organizar estratégias para analisá-las, como
GILBERT, Sandra M.; GUBAR, Susan. 2000. The madwoman in the attic: the
tem sido realizado por projetos que se dedicam a essa modalidade woman writer and the nineteenth-century literary imagination. 2ª ed. New
de pesquisa, ampliando o corpus de estudo e ensejando a escrita de Haven; London: Yale University Press.
uma história da literatura que contemple um segmento que tem sido GONÇALVES, Andréa Lysli. 2006. História e gênero. Belo Horizonte: Autêntica.

objeto de estudo na atualidade. KRISTEVA, Julia. 1974. Introdução à semanálise. Tradução de Lúcia Helena França
Ferraz. São Paulo: Perspectiva.
Portanto o feminismo, em sua relação com a literatura, possi-
LAURETIS, Teresa de. 1994. A tecnologia do gênero. Tradução de Suzana B. Funck.
bilitou a ampliação de seu escopo para uma outra área em que os es- In: HOLLANDA, H. B. de (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como
tudos eram dominados por homens. Desde a escrita da obra de arte crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, p. 206-242.
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o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, p. 58-71.
desses bens culturais. Quando as mulheres tiveram acesso à educa-
MOI, Toril. 1989. Sexual/textual politics: feminist literary theory. London; New
ção, graças ao movimento feminista, essa equação foi modificada. York: Routledge.
Atualmente, há estudos especializados para abordar o fenômeno PERROT, Michele. 1998. Mulheres públicas. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São
literário produzido por mulheres, avalizando o potencial político e Paulo: UNESP.

emancipatório dessa produção. ______. 2008. Minha história das mulheres. Tradução de Ângela M. S. Corrêa. São
Paulo: Contexto.
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Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. SCHMIDT, Rita.T. 2002. Escrevendo o gênero, reescrevendo a nação: da teoria,
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