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CENTRO DE ESTUDOS ACADÊMICOS - CEA

SEMINÁRIO SÃO JOÃO MARIA VIANNEY


CURSO DE FILOSOFIA

PEDRO HENRIQUE MACÊDO FÉLIX DA SILVA

CONCEPÇÕES DIALÓGICAS E EDUCACIONAIS

NA FILOSOFIA DE MARTIN BUBER

CAMPINA GRANDE – PB

2018
PEDRO HENRIQUE MACÊDO FÉLIX DA SILVA

CONCEPÇÕES DIALÓGICAS E EDUCACIONAIS

NA FILOSOFIA DE MARTIN BUBER

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Filosofia do Centro de Estudos
Acadêmicos, do Seminário São João Maria Vianney,
como pré-requisito para a conclusão do Curso de
Filosofia.

Orientador: Prof. Dr. Otacílio Gomes.

CAMPINA GRANDE – PB

2018
PEDRO HENRIQUE MACÊDO FÉLIX DA SILVA

CONCEPÇÕES DIÁLOGICAS E EDUCACIONAIS

NA FILOSOFIA DE MARTIN BUBER

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Filosofia do Centro de Estudos
Acadêmicos, do Seminário São João Maria Vianney,
como pré-requisito para a conclusão do Curso de
Filosofia.

Aprovado em: ____/____/______.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Otacílio Gomes Neto (Orientador)


Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Centro de Estudos Acadêmicos (CEA)

Prof.
Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Centro de Estudos Acadêmicos (CEA)

Prof.
Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Centro de Estudos Acadêmicos (CEA)
À Trindade Santa e a minha família, dedico.
AGRADECIMENTOS

À Trindade Santíssima, fonte de toda luz e inspiração nos caminhos da fé e da vida, e


a Virgem Maria, Mãe do Redentor, sob o título de Nossa Senhora do Livramento.
Aos Santos, reconhecidos oficialmente ou não, pelos quais nutro admiração: São Francisco de
Assis, Santa Teresinha, Santa Teresa de Calcutá, São Oscar Romero, Padre Mestre Ibiapina e
Dom Hélder Câmara. Àqueles que são a presença de Deus e o meu maior tesouro na terra:
meus amados Pais Ana Maria e Francisco Félix, ao meu muito estimado irmão João
Manoel e toda minha família por sempre me amarem e incentivarem.
À Diocese de Guarabira na pessoa do nosso Pastor, Dom Aldemiro e aos Padres e
religiosos que sempre estão presentes e incentivam a minha vocação: Pe. Pedro Alexandre,
Pe. José Floren, Pe. Silva, Pe. Joanderson Marinho de Lira, Pe. João Batista da Silva, Pe.
Adriano Henrique, Mons. Luís Pescarmona, Pe. Agostinho Justino, Frei Zezinho, OFM. Sou
imensamente grato à minha paróquia de Nossa Senhora do Livramento, em Bananeiras, bem
como as queridas Carmelitas Descalças presentes neste sublime solo, através da Ir. Maria do
Carmo. A este Seminário Diocesano de Campina Grande, na pessoa do Pe. João Jorge. E aos
meus irmãos de turma e meus amigos mais próximos, seja aqui ou fora deste ambiente, em
especial: José Eduardo, Vandilson da Silva, Romeu Arruda, Mércio Aurélio, Reinaldo Miguel
e Joálisson Ferreira.
Ao centro de Estudos acadêmicos com todo seu corpo docente, nas pessoas do
Professor José Nilton Conserva, Luseni Machado e Otacílio Gomes por possibilitar a melhor
execução deste trabalho de conclusão do curso, com a orientação e atenção. Aos demais
professores, em especial o nosso homenageado Francisco Diniz Meira, bem como ao
inesquecível e grande mestre, Dalmo Radimack, pelo incentivo no aprofundamento do
conhecimento Filosófico. E aos que colaboram na minha caminhada, quer acadêmica ou
vocacionalmente, seja por meio das orações ou através da presença fraterna, sou
extremamente grato, bem como a todos os que lutam, como profetas da esperança, libertação
e paz, na construção de um mundo novo, mais justo, irmão e pleno de diálogo, sem violências.
Que Deus a todos favoreça!
Ser gente significa ser o ente que está face a face.
(Martin Buber).
RESUMO

O presente trabalho apresenta uma análise das concepções filosóficas de Martin Buber que
encontram no diálogo humano intersubjetivo, através das palavras princípios Eu-Tu e Eu-Isso,
o alicerce para toda dimensão existencial. Com base na filosofia e na mística judaica, em
especial, a partir do movimento hassidista, Buber propõe uma nova ontologia tendo por
objetivo quebrar com os parâmetros substancialistas para repensar o homem como Ser de
Relação, cuja totalidade é atingida pelo diálogo intersubjetivo, no encontro dialógico. A partir
desses pressupostos, Martin Buber pode contribuir de forma eficaz para as reflexões
antropológicas acerca da alteridade uma vez que esta faz com que o ser humano saia de uma
perspectiva de reificação sobre si mesmo e passe para a autêntica realização humana. O
sentido primordial e necessário dá-se a partir do encontro verdadeiro e do diálogo sem
eclipses ou barreiras que obscurecem a procura e consequente encontro com a sua totalidade.
Concedendo ao homem a possibilidade de compreender também a maneira que se dá o
processo de formação através da Educação, baseado não meramente em uma erudição, mas,
em coerência e responsabilidade.

Palavras-Chave: Diálogo. Relação. Eu-tu. Eu-isso. Educação


ABSTRACT

Key words:
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................10
2 O PROJETO RELACIONAL DE BUBER...................................................................13
2.1 Os fundamentos das relações dialógicas.........................................................................13
2.2 A relação Eu-Isso..............................................................................................................14
2.3 A esfera relacional com a Natureza.................................................................................19
3 O ENCONTRO DIALÓGICO ENTRE OS HOMENS.................................................23
3.1 A relação Diálógica Eu-Tu...............................................................................................23
3.2 Concepção de homem para Buber...................................................................................27
3.2 A relação com o Tu Eterno..............................................................................................30
4 O PROJETO EDUCACIONAL DE BUBER.................................................................37
4.1 O educador e educando....................................................................................................38
4.2 Coerência e responsabilidade...........................................................................................42
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................47
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................49
10

1 INTRODUÇÃO
Dentro do contexto de pós-Guerras Mundiais, vários estudiosos das Ciências Humanas
se preocuparam com a situação do Homem após aquele acontecimento catastrófico, que
resultou na morte de inúmeras pessoas, vitimadas pelo ódio, falta de diálogo e de alteridade,
que são as bases para uma ética social concreta. Após esse cenário, o grande questionamento a
ser feito é de como o homem pode conceber seus relacionamentos na sociedade e qual o
sentido da vida. Inúmeros estudiosos tentaram responder a essa indagação com as mais
diversas perspectivas.
É partindo desse pressuposto que se encontra o filósofo Martin Buber (1878-1965),
que, fortemente influenciado pelas raízes familiares semíticas, busca unir a Filosofia e a
mística judaica, especialmente, a partir do hassidismo. Tal junção filosófica tenta explicar o
fenômeno Humano, suas implicações e relevâncias dentro da sociedade civil e religiosa, com
um olhar voltado para o contexto em que se inseria, especialmente no momento em que a
Comunidade dos judeus vislumbrava a própria reunificação a partir do movimento sionista.
Portanto, a relevância de abordar o pensamento que Buber postula, reside no fato que
este, procura responder aos grandes questionamentos humanos com um olhar profundamente
antropológico e existencial, apontando que uma das respostas mais plausíveis a isso se
encontra na palavra criadora, geradora da relação, que por sua vez se apresenta como o lugar
da realização, ontologicamente e existencialmente falando, do transcurso histórico humano.
Portanto, o objetivo deste trabalho é demonstrar como o Filósofo Martin Buber compreende o
fenômeno dialógico relacional, que culminam em uma nova forma de pensar o humanismo,
tomando por via a esfera das relações e do inter-humano. Esse trabalho, de viés filosófico, foi
fundamentado por meio da pesquisa bibliográfica, na qual evidenciaremos os principais
conceitos de Buber que norteiam a temática em estudo.
O filósofo expõe o princípio da relação, não como um conceito abstrato, mas,
enquanto vivência e experiência, já que, Buber, é um dos poucos pensadores contemporâneos
que consegue fazer uma união entre os conceitos reflexão e realidade, práxis e logos. E, isso
se dá, pelo fato de que, todo seu pensar filosófico está fundamentado em suas experiências de
vida, nos desencontros e encontros de sua história.
Buber aponta para a esfera das relações, local nas quais acontece o encontro dialógico
do homem com o seu outro, por meio da pronúncia - que aqui não é só um ato cognitivo, mas,
decisivo - das palavras princípios, que revelam a duplicidade de mundo que o ser humano
pode escolher, são elas: EU-TU e EU-ISSO. A relação EU-TU é a relação primordial e
11

necessária e que confere o sentido existencial do homem. Esse encontro pede, segundo Buber,
quatro atitudes: presença, responsabilidade, reciprocidade e imediatez, pois, o EU, não tem
sentido sem o TU, e vice-versa. Por isso é afirmado que o sentido do homem não está na
relação consigo mesmo, com o mundo ou com o outro, mas, no “entre”, isto é, no EU que se
encontra e acolhe o TU em toda sua plenitude. Trata-se de uma relação face a face, sem
recorrer aos meios, fins ou reificações. O outro eixo temático apresentado por Buber é o EU-
ISSO, que se dá na experiência entre os homens e os objetos. É um encontro necessário para
equilíbrio do cosmos, do mundo, mas, não essencial, pois, neste não há a relação, plenitude de
todo existir humano. Se a relação é plenitude da existência humana, a realização mais sublime
desta é o encontro com o TU ETERNO, como o Criador que nos ofertou sua criação, para
que, nela, nós o encontrássemos.
Além de questionar sobre o que é o Homem, o filósofo indaga também acerca da
formação deste e expõe a maneira como ela deve ocorrer plenamente, através de uma
disposição de abertura a realidade que seja assumida decididamente pelo Educador e possa ser
acolhida pelo educando, o que envolve da parte orientadora a necessidade de uma coerência
de vida, especialmente porque é esta que permite ao homem selecionar em qual mundo deseja
encarnar a sua dimensão de ser. E também envolve uma responsabilidade com o mundo, que
guie o aprendiz a uma auto-educação, que não consiste em uma preocupação consigo mas,
com o mundo.
O trabalho encontra-se dividido em três capítulos. No primeiro capítulo denominado o
Projeto relacional de Buber, contendo três tópicos, se apresenta a questão de como o Filósofo
aborda os fundamentos das relações dialógicas, iniciando com a experiência Eu-Isso que
conduz o homem ao contato e a experienciação dos objetos. Aqui, evidencia a tensão que
existe entre a presentificação e a utilização, contidas na palavra princípio evocada. Esta tensão
traz à tona, também, a questão do contato em A esfera relacional com a natureza, que situa no
limiar da palavra.
No segundo capítulo, O encontro dialógico entre os homens, levantamos a questão do
elemento dialogal que o pensador expõe e permeia toda sua análise filosófica, apontando
como isso acontece através da verbalização das palavras-princípio autênticas, por meio da
relação dialógica Eu-Tu que trará a tona da presença do homem no mundo e posteriormente
possibilitará abordar a Concepção de homem para Buber, na qual o filósofo fundamenta sua
ontologia da relação e expõe uma dimensão antropológica voltada para a realidade.
Fortemente influenciado pelo Judaísmo, o pensador aborda a questão no que diz respeito A
relação com o Tu Eterno, a partir da qual pensa a relação do homem com o seu Criador.
12

No terceiro capítulo, O projeto educacional de Buber, trata da perspectiva que o


pensador dá a formação humana a partir do elemento relacional e de como o educador e o
educando devem agir em meio a esta dimensão educacional para que ela se efetive de fato na
concretude existencial de ambos. Por essa razão, o pensador coloca como pedra basilar desta
perspectiva a coerência e responsabilidade, que vão trazer em si a dimensão da vida em
comunidade e seleção de mundo a partir da guia do educador.
13

2 O PROJETO RELACIONAL DE BUBER


2.1 Os fundamentos das Relações Dialógicas
Esse eixo temático será de suma importância nesta perspectiva filosófica, uma vez que
a grande contribuição do pensamento Buberiano reside, exatamente, no seu estudo acerca da
relação com o outro, numa ótica de profunda alteridade. A partir desses pressupostos que
Buber (2007) questiona a atitude de muitas correntes filosóficas de então, ao apontarem
somente para o aspecto racional e mecanicista do homem, esquecendo-se de colocá-lo como
fundamento para uma possível reflexão acerca do ser humano.
Nesse sentido, o pensamento de Buber, com respeito a atitude relacional, se baseia em
duas conexões indispensáveis para compreender o estudo do homem e suas ações,
respectivamente: a relação (Eixo EU-TU) e a experiência (Eixo EU-ISSO).
Aqui, a relação não é mais concebida como uma categoria acidental, como outrora fez
Aristóteles, mas é parte necessária e central para se pensar o ser humano, a partir do seu
cotidiano, nesse grande encontro com a realidade e com o outro, partindo sempre do
pressuposto do diálogo. Assim,

A relação é o momento nascente do encontro com a realidade e é, ao mesmo


tempo, o seu fim: parte como contato com a natureza e amadurece no
relacionamento com os outros homens, com o mundo dos valores com Deus.
Mas aquilo que a cada estágio a caracteriza é a sua modalidade dialógica de
abertura sobre o real, que Buber fixa na fórmula de reciprocidade EU-TU.
(RIZZI apud GALANTINO, 2003, p.112).

Daí se percebe que o desejo de Buber é abrir um novo horizonte sobre o problema do
Homem, renovar a existência humana fragilizada pelas guerras e distanciada da realidade por
meio de concepções extremamente abstratas. Por isso, é necessário dar ênfase ao projeto
dialógico que se desenvolve no cotidiano, por meio do encontro relacional, entre um Eu e um
Tu, que querem se tornar presença por meio da palavra.
Logo, o homem é ser de relação, e atualiza essa atitude e tendência no momento em
que faz uso da palavra princípio, seja ela qual for; já que é a partir dessa “pronúncia” que
estabelece qual é a relação que, dentre muitas, pode fazer acontecer. Porém, para Buber
(2004), essas relações ou encontros se resumem em duas expressões bem concretas e
definidas: A relação com os Homens e os objetos.
É Interessante perceber que o judeu-filósofo também busca a perspectiva do EU-
MUNDO, isto é, a partir da palavra princípio dita, o homem é inserido no mundo, fazendo
com que ele perceba que é no seu cotidiano que ocorrem as relações e suas possibilidades,
pois
14

O mundo é duplo para o homem, segundo a dualidade de sua atitude. A


atitude do homem é dupla de acordo com a dualidade das palavras princípio
que ele pode proferir [...] Desse modo, o Eu do homem é também duplo. As
palavras princípio [...] uma vez proferidas fundamentam uma existência.
(BUBER, 2004, p. 53)

Portanto, é através destas palavras que o Homem poderá orientar sua vida, pois, essa
dualidade apontada por Buber, significa o estabelecimento de perspectivas e escolhas para o
sentido existencial do ser no mundo, ora por meio da presença autêntica ou através da
separação utilitária, que coisifica o homem e não o conduz a totalidade. É necessário perceber
que toda abordagem filosófica deste pensador se guiará dentro desta linha demarcatória, entre
presentificação e reificação1.

2.2 A relação Eu-Isso


Outra forma de relacionamento será baseada na experiência do eixo “EU-ISSO”, que
diz respeito à proximidade com os objetos em um sentido de interesse situando-se na relação,
ainda que neste caso não ocorra a mesma (relação).
Na relação do EU-ISSO o que ocorre é a atitude da experienciação, objetivação das
coisas não estabelecendo com elas nenhum relacionamento, dado o fato de não ser possível
isso entre as palavras princípio essenciais, pois:

O homem explora a superfície das coisas e as experiencia. Ele adquire delas


um saber sobre a sua natureza e sua constituição, isto é, uma experiência. Ele
experiencia o que é próprio as coisas. Porém, o homem não se aproxima do
mundo somente através de experiências (BUBER, 2004, p. 54)

Essa forma de relacionamento tem por objetivo ajudar o homem, como um


instrumento, em seu fim, de ser-no-mundo, com a consciência que sabe o lugar das coisas e
pessoas na dimensão cósmica, tornando-se justamente necessário ao ser humano, para ajuda-
lo, a ponderar sempre que não é proveitoso alterar os eixos que guiam a ética relacional; por
exemplo, objetivar “TU” e essencializar o “ISSO”, reconhecendo qual o papel útil e preciso
dos objetos que existem. Entretanto, é necessário situar, que aquele que se reduz a experiência
não participa do mundo, enquanto presença autêntica, pois, esta, acontece em sua própria
pessoa, não na perspectiva do “entre”, portanto, o mundo não toma parte nessa atitude de
experienciação, apesar de ser passível para a experiência, ela em nada lhe diz respeito.

1
Vem do vocábulo “res” que significa coisa. Pode ser definido em geral como a ação ou efeito de converter
algo em coisa ou de conceber algo por analogia com a natureza e estrutura das coisas. Às vezes é empregado o
termo coisificação. (MORA, 2001, p.2493.)
15

Quando essas atitudes se tornam reais, é perceptível o fortalecimento de uma cultura


do descarte humano, da marginalização da pessoa e sua consequente objetivação, de modo a
perceber que o valor do homem não mais reside na capacidade de ser recíproco, presente e
responsável em relação ao diverso, mas, na possibilidade de o ser humano consumir, produzir
e vender. Entretanto, é preciso esclarecer que

A relação Eu-Isso não é nunca, em si, um mal. Mas, o mal pode residir na
escravidão humana a essa atitude, apagando da face do homem a resposta
responsável, a disponibilidade para o encontro com o outro, e dissolvendo no
anonimato a pessoalidade da condição humana. O homem precisa do mundo
do Isso para viver, mas, quem vive somente a relação Eu-Isso se desumaniza
(BARTHOLO, 2001, p.80)

É nesse aspecto que Buber quebra o paradigma totalitário e marxista, pois, este, ao
valorizar a “multidão”, esquece-se do outro, não percebendo sua singularidade e
subjetividade, observando-o como mero instrumento para o cumprimento de um fim ou um
meio para a obtenção de privilégios, e, deixando-o de lado, enquanto criatura, também Deus,
Criador, que é colocado à parte, uma vez que Ele é sempre o Tu Eterno.
Neste sentido, aponta Buber, que a frustração do destino humano é perceber que cada
Tu vai ser coisificado e transformado em isso. Por mais que a presença tenha sido intensa e
singular, logo sai da presença ou tenha sido contemplada com finalidades ou meios, a palavra
princípio essencial se converte em coisa entre as coisas.
O homem reificado acaba deixando de ser único e incondicionado e passa a
representar uma soma de qualidades ou um número formal. É preciso ressaltar que a
presentificação tornada experimentação não foi de todo extinguida, mas, permanece latente, a
espera de ser novamente reconhecida a partir da palavra princípio essencial. Apesar disso,
Buber insiste em expor que tal linguagem reificante capta uma dimensão muito pequena e
reduzida da vida autêntica.
Para falar do perigo do Homem atrelar importância demasiada ao mundo do Isso,
Buber, se valerá da lenda Hassídica do “Golem” 2, que na tradução linguística significa idiota
ou bobo. A lenda, escrita em 1674, narra, que:
Depois de recitar certas preces e observar certos dias de jejum, fazem eles
[judeus] de barro a figura de um homem, e depois de pronunciarem sobre ela
o schem hameforasch (nome de Deus) a figura adquire vida. E embora a
imagem em si não saiba falar, ela entende e obedece; entre os judeus
poloneses ela executa toda espécie de serviços caseiros, mas, não lhe é

2
A Lenda do Golem apresentou muitas formas desde seu princípio sendo usado algumas vezes pela literatura
Hebraica do medievo para designar algo animado sem alm. Na Biblia Hebraica a palavra aparece no livro dos
Salmos e tem por significado algo “sem forma”. Porém a narrativa que Buber usa provém da época do
Hassidismo a partir dos escritos de Christoph Arnold(CROMBERG, 2005, p. 92)
16

permitido deixar a casa. Sobre a testa da imagem, escrevem: (emet), isto é,


verdade. Mas uma imagem desse tipo cresce a cada dia; conquanto muito
pequena no começo, acaba ficando maior do que todas as outras pessoas da
casa. A fim de tirar-lhe a força, que por fim se torna de uma ameaça para
todos dentro da casa, eles apagam rapidamente a letra alef da palavra emet
sobre a testa, ficando apenas a palavra met, que significa morto (SCHOLEM
apud. CROMBERG, 2005, p. 92).

A narrativa apresenta que a figura é criada para serviços caseiros e demais afazeres,
com fins de praticidade na vida dos judeus poloneses, assim, ele é visto para a experienciação
e não para a relação. Um outro aspecto que Buber (2004) deseja ressaltar, é que o domínio do
Isso se constitui como o reinado do egótico, aquele que não permite a palavra sair da
perspectiva individualismo e da subjetividade, é por isso que, o autor, usa a metáfora e diz que
a figura não pode sair de casa, é refém daqueles que dela se utilizam.
Uma outra metáfora relacionada a narrativa, que o pensador emprega, é de que a
criatura (Golem) vai ficando cada dia maior, crescendo até mais do que os habitantes da casa.
Com isso, ele deseja mostrar o risco de deixar, crescer mais o mundo do Isso em face da
perspectiva relacional, fazendo com que, aumente mais a capacidade utilização e manipulação
do que a de relação.
À medida que o golem vai crescendo é necessário que se apague a letra alef para que
este volte a forma primitiva de barro do qual proveio. Entretanto, se aquele que criou esta
figura deixar passar o momento de destruí-lo, pode chegar um dia no qual será impossível
fazê-lo. E, caso o homem não aja logo, ele pode esmagar aquele que o chamou a vida.
Buber (2004) deseja expressar com tal intertextualidade que o domínio objetificante do
Isso tende, por si só, a crescer, de forma que, se o Homem não fizer algo para detê-lo, será
esmagado na sua dimensão ontológica pela reificação. Assim, a solução para tal tendência é a
pronúncia da palavra autenticamente humana.
Não se deve pensar que a figura mítica, símbolo do Mundo do Isso, seja uma criação
imbuída de mal ou criada para prejudicar os que dela se servem, de maneira que o equívoco
existente aqui, é “O fato da matéria pretender ser aquilo que existe”, segundo Buber (2004, p.
81). No domínio objetificante se sucede o mesmo, isto é, a inclinação para o mundo do Isso
deve coexistir em harmonia com a essência presencial, pois, se assim ocorre não haverá
prejuízo algum ao Homem, pois:
A vida coletiva do homem não pode, como ele mesmo, prescindir do mundo
do Isso, sobre o qual paira a presença do Tu, como o espírito pairava sobre
as águas. A vontade de utilização e a vontade de dominação do homem agem
natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de
relação e sustentadas por ela. Não há má inclinação até o momento em que
ela se desliga do ser presente; a inclinação que está ligada ao ser presente e
17

determinada por ele é o plasma da vida comum, e a inclinação separada é a


sua destruição (BUBER, 2004, p. 82-83).

Assim o agravante e causador da perdição humana, não é o mundo em si com suas


múltiplas ofertas de uso e experienciação, mas, a ação humana de deletar da mente o desejo
relacional e perder de vista o convívio face a face, inerente à sua pessoa. Por isso, conforme
aponta Buber (2004), o mundo do Isso tem sua importância reconhecida, enquanto
possibilitador da ordenação e categorização do cosmos, relevância esta que não deve ser vista
no mesmo nível que a relação plena de sentido, pois, ainda que a aproximação do homem aos
objetos seja importante, será, sempre inferior ao encontro essencial.
Neste sentido, é interessante perceber a influência do pensamento Hassídico na
afirmação acima evidenciada, quando o pensador usa o termo “má inclinação” (yetzer hará,
no Hebraico), que também pode ser traduzido mau instinto ou mau impulso. Esse termo não
tem ligação com o dualismo maniqueísta típico do mundo ocidental, mas, diz respeito àquelas
influências inferiores que subsistem no homem, as mais distantes da dimensão espiritual
humana caracterizadas por Buber como nefesh, isto é, de uma “alma animal.
Nessa concepção tal inclinação, não é um mal por si mesma, mas, uma potência que os
seres humanos usam de forma indevida. Influenciado por esse pensamento, Buber, colocará
que o Homem deve transformar, inclusive essa tendência, e conduzi-la para a perspectiva da
atualidade humana, e não permitir que ela inferiorize o homem fechando-o em uma só
dimensão e não permitindo que ele se decida, pois, é esse poder de escolha que norteará o fato
que deve acontecer e se atualizar na dualidade fundamental, baseada no eixo das palavras
princípio condutoras da relação ou da experienciação.
Neste sentido, o pensador vai apontar que muitos, na tentativa de superar essa
duplicidade principal, trarão à tona um “mundo das ideias” como forma de, a partir desse
universo, se sobreporem as contradições próprias da vida atual permeada de realismo, que
permita ao homem transcender sempre, quer sejam as determinações ou os conceitos, pois,
Buber faz questão de afirmar, para o homem no estado atual toda barreira é ultrapassada,
inclusive esse mundo das Ideias.
Quem se restringe a esse mundo ideal, acaba se alienando pelo mundo do isso, que lhe
dá calma e conforto, mas, não lhe permite a atualidade essencial, acaba vivendo assim, em um
outro mundo, inventado pelo egotismo, utópico e cego, permeado de conceituações, mas,
vazio de realidade e autenticidade, pois:
Sem dúvida, alguém que se contenta, no mundo das coisas, em experienciá-
las e utilizá-las erigiu um anexo e uma superestrutura de ideias, nos quais
18

encontra um refúgio e uma tranquilidade diante da tentação do nada.


Deposita na soleira a vestimenta da cotidianidade medíocre, envolve-se em
linho puro e reconforta-se na contemplação do ente originário ou do dever-
ser, no qual sua vida não terá parte alguma. Poderá, mesmo, sentir-se bem
em proclamá-lo. Mas a humanidade reduzida a um isso, tal como se pode
imaginar, postular ou proclamar, nada tem em comum com uma humanidade
verdadeiramente encarnada à qual um homem diz verdadeiramente Tu. A
ficção por mais nobre que seja, não passa de um fetiche; o mais sublime
modo de pensar, se for fictício, é um vício. (...) infeliz aquele que deixa de
proferir a palavra princípio, miserável, porém, aquele que em vez de fazê-lo
diretamente utiliza um conceito ou um palavreado como se fosse o nome
(BUBER, 2004, ps. 60-61)

A afirmação do pensador acima exposta é uma crítica, baseada na tradição Judaica-


Hassídica, com relação a alguns pensadores e filósofos que pretendem colocar a questão do
humano em uma esfera abstrata e desconexa com a realidade, de maneira que, o objetivo de
Buber, aqui, é acabar com a dicotomia entre a teoria estudada e a vida vivenciada. Entretanto,
tal olhar crítico não se volta só a pensadores e intelectuais, mas, é uma chamada de atenção
aos homens em geral.
Em uma sociedade mercantilizada como a que se vive no atual século, deve sempre
questionar-se acerca da autenticidade das existências, isto é, até onde, tantas tecnologias
possibilitam ao Homem estar verdadeiramente ‘conectado’ com sua realidade ou não. Um
outro questionamento se dirige aos estudiosos e acadêmicos. Buber, ao postular e reclamar tal
dimensão reificante, impele aos que se voltam para as análises humanas a repensarem a forma
de conduzir seus estudos, de maneira que, estes, levem o homem a se perceber como Homem
encarnado e não um ser virtual.
O que Buber evidencia no texto é a mediocrização da vida em virtude do reducionismo
objetificante que captura o ser Humano em uma redoma consumista e irreal, de forma que se
entrega, então, ao domínio do reificamento e do fetiche, como se pode contemplar na história
atual, onde a virtualidade substitui a presença e os bate- papos afogam o diálogo face a face,
plenificador da existência humana.
Portanto, a abordagem de Buber ao se referir desse contato do Homem com os objetos
no mundo irá situar o limiar dessa perspectiva na capacidade de ação humana frente a essa
realidade, de forma que é sempre a decisão que determinará qual mundo o homem acolherá.
O mundo do Isso não é mal em si, mas, perde seu objetivo quando o ser humano se
aliena apenas nessa realidade esquecendo da harmonia necessária que deve haver entre o
encontro essencial e o eixo eu-Isso, uma vez que este, possibilita ao homem um melhor
conhecimento de ordenamento do mundo em que vive, entretanto, não pode conduzir o
19

Homem a existência autêntica que só acontece na Relação plena de sentido, por meio do
encontro com o Tu.

2.3 A esfera relacional com a Natureza


Ao referir-se ao mundo da relação, Buber expõe que neste existem três esferas nas
quais as atitudes relacionais se desenvolverão, são elas: A vida com a Natureza, com os
Homens e com o Transcendente, Assim:

O mundo da relação se realiza em três esferas. A primeira é a vida com a


natureza. Nesta esfera a relação realiza-se numa penumbra como aquém da
linguagem. As criaturas movem-se diante de nós sem possibilidade de vir até
nós e o Tu que lhe endereçamos depara-se com o limiar da palavra (BUBER,
2004, p. 54)

Para compreender melhor esse estado onde os encontros se concretizam, faz-se


necessário esclarecer o que esse tríplice mundo vai ser sempre guiado pelo palavras-princípios
fundamentais, pois, para Buber, a linguagem é uma forma de escolha existencial,
fundamentos, quer sejam, da vida autêntica ou da distância originária, no sentido de que,
quando o homem não logra êxito na tentativa de realizar o encontro autêntico, a distância só
se expande e fortalece, fazendo com que Ele edifique anteposições ao evento dialógico.
Um outro ponto colocado pelo pensador, ao reflexionar acerca desta tríade
cosmológica, é que, em todas as esferas existe um vislumbre, ainda que limitado do
Transcendente, presentificado por meio do Tu Eterno, que oferece cada Tu como um dom
ofertado dele. A capacidade de atualizar esse dom difere em cada situação e possui uma
maneira própria de apresentar-se.
Porém, por mais diferentes que possam ser as formas de tornar presente esse sopro do
Eterno, todas as vidas possuem um mesmo sentido e se realizam com atitudes semelhantes,
por meio da reciprocidade, especialmente, da responsabilidade e, acima de tudo, da presença
atual e imediata.
A primeira forma de realização destas esferas é a vida com a Natureza, a qual Buber
situa para além da linguagem, onde a relação não se concretiza totalmente, pois a palavra
princípio dirigida não recebe a reciprocidade necessária para a realização plena do ato
essencial. Neste sentido a esfera da vida com a natureza ficará sempre em tensão superficial,
pois, as pessoas permanecem distantes e a verbalização das palavras fundamentais não
ultrapassam o limiar da linguagem, e, logo, fazem com a presentificação acabe fracassando.
Ao exemplificar esse tipo de vida em união com a natureza, Buber expõe a tensão
essencial entre relação e experiência, que permeará toda análise filosófica do autor acerca
20

desta questão. Assim, o autor toma por protótipo desta dualidade necessária a figura de uma
Árvore. A primeira atitude pode ser a de capta-la enquanto imagem no meio a um ambiente,
como parte integrante deste.
Ainda se pode percebê-la como algo dinâmico em suas composições de raízes, folhas e
frutos. Também é possível classifica-la como categoria ou espécie que se caracteriza por uma
forma de vitalidade e estruturação próprias. Ainda dentro desta perspectiva, pode-se analisá-la
segundo um conjunto de leis que coordenam o movimento de formação ou deformação de
substâncias. É cabível transferi-la ao reino dos números e dados, onde, possivelmente, ficará
eternizada na contagem e estatística.
Em todos esses casos a árvore permanece no tempo, espaço e natureza que lhe são
próprios, sendo assim um objeto de experimentação, um Isso, na linguagem de Buber (2004).
Entretanto, o autor, cogita ser possível ocorrer a relação mesmo nesse caso, a partir do
momento em que a encaramos como uma presença, por meio da qual é possível estabelecer
um contato de mutualidade, pois:

Quando acontece do Homem entrar em relação com algo- que pode ser um
objeto, uma pessoa, um ser espiritual, uma obra de arte etc.- não é com suas
características que se relacionará- com as leis que o regem, a espécie ou
categoria à qual pertence, sua composição, sua localização espaço-temporal,
a carga emotiva que lhe atribuímos, a imagem visual que produz, etc.-, mas
com ele mesmo; ele, que se fez agora Tu, ele, cuja totalidade implica uma
identidade que está mais além da soma de todas as propriedades, extrínsecas
ou intrínsecas (CROMBERG, 2005, p.40-41)

É necessário, porém, esclarecer que a forma natural, aqui em questão não tem uma
consciência semelhante a do ser humano, de onde se possa reconhecer a capacidade e
intencionalidade relacional. O que Buber postula aqui, é que a natureza não é meramente uma
representação ou sentimento, mas, algo que diz respeito à pessoa. E ela, por sua vez, liga-se
ao ser humano. Desta forma, a preocupação do pensador aqui é mostrar ao homem que a sua
relação com a Natureza não pode ser algo abstrato, distante.
O fato da pessoa Humana estar localizada em meio a natureza, deveria despertá-la para
uma atenção mais enfática para com esse sopro vital que o Tu Eterno, visualizado de maneira
própria em cada esfera. Por isso, se faz necessário nunca debilitar o aspecto recíproco da
relação, o que, certamente, faria do homem mais integrado com o Holístico.
Assim, Buber (2004) ao pensar o surgimento das Artes, fortes expressões do
sentimento humano, aponta que, não é o artista ou autor que enxerga na forma a obra de arte a
ser executada, mas, antes, é a primeira, (a forma), que se coloca diante dele com o desejo de
21

tornar-se expressividade do âmago humano, ou seja, arte. Não como um substrato do seu
intelecto, mas, como algo que aparece e inspira.
E, para que ela se concretize se faz necessário que o homem pronuncie à forma a
palavra princípio essencial, fazendo com que, a eficácia nasça e a obra tenha sua gênese. Para
Buber, a presente atitude gera uma oferta e um risco. O primeiro caso é a eliminação de toda
distância existente, que não poderá entrar no terreno da obra, para adentrar na exclusividade
do face à face.
O outro aspecto, é o perigo do Ser pronunciar a palavra presença sem estar na sua
totalidade, pois, quem se entrega ao evento dialógico não pode esconder o que há em si, ou
será absorvido pelo mundo do isso, pois, ou, o homem se entrega ao domínio da palavra
princípio e vive a autenticidade da estruturação humana ou será derrubado pelo reino da
objetividade, com as adjetivações que são colocadas, e só o autêntico encontro é que atualiza 3
a obra, pois:

Fazer é criar, inventar é encontrar. Dar forma é descobrir. Ao realizar eu


descubro. Eu conduzo a forma para o mundo do Isso. A obra criada é uma
coisa entre coisas, experienciável e descritível como uma soma de
qualidades. Porém àquele que contempla com receptividade ela pode amiúde
tornar-se presente em pessoa (BUBER, 2004, p. 58).

Assim, é a atitude que o ser humano tem diante do artístico que irá determinar qual
presença a palavra deve estabelecer naquele momento. Caso se submeta a forma ao critério da
objetividade, ela perde sua atualidade e passa a ser um objeto sobre o qual se estabelece
determinações. Mas, se, pelo contrário, há uma relação, existe também aí, uma reciprocidade
no sentido de que, há uma atuação mútua, de mim sobre a forma e dela sobre meu Eu. Desta
maneira, a expressão artística se torna uma realidade que brota do instante presencial, distante
do tempo e espaço, e se encaminha para a dimensão existencial.
Vimos nesse capítulo como o pensador em questão expõe as bases de sua reflexão
filosófica, partindo do diálogo e demonstrando como ele acontecerá concretamente na vida
humana, sendo uma das colunatas do seu pensamento a influência da mística judaica
hassídica, a partir da qual Buber faz uma crítica da tradição ocidental que até então percebeu o
homem sempre através de esferas abstratas, e, por isso, ele terá como ponto de partida de seu
pensar o encontro vivencial, onde acontece o diálogo e o acolhimento face a face. Desta

3
É expressada pela palavra Alemã “Gegenwart” e tem um sentido de Presente oposto ao passado e ao
futuro e presente como “em presença de”. O presente como momento presente transcende de algum
modo o puro instante unidimensional na intersecção de duas facções de tempo (ZUBEN apud
BUBER, 2004, p. 145).
22

forma, a partir do que o autor aborda sobre tais perspectivas tratou-se aqui da esfera dialógico
relacional dos homens com os objetos, apresentada pelas palavras EU-ISSO. Ao tratar dessa
palavra e suas implicações o autor faz questão de afirmar, em um primeiro momento, que elas
em si nada possuem de maldade ou prejuízo, antes, porém, são necessárias para um
ordenamento do mundo e a demarcação de cada coisa, logo, se compreende que esta esfera
comporta não o diálogo e o encontro, mas, a utilização e experienciação.
A problemática que se cria em torno dessas palavras deriva do equívoco de muitos
homens, a partir do momento que pretendem tratar seus semelhantes da mesma maneira que
os objetos. E, acabam esquecendo da resposta adequada que deveriam dar ao Tu que se lhe
apresente e convoca ao diálogo. Partindo disso, então, Buber (2004) chama a atenção do
Homem para que ele saiba notar, que, até mesmo a natureza é acolhedora e potencializadora
para o diálogo e não só da experiência. Para que aconteça então esse encontro com o natural é
necessário, então, um olhar decididamente contemplativo e livre de meios e fins. Inclusiva a
expressão artística deve partir do Encontro, uma vez que, o artista, para Buber, não será
aquele que vai exprimir seu eu isolado, mas, irá tornar concreto aquilo que se deu no
momento da relação dialógica essencial.
Tendo em vista que há a forte influência do judaísmo em todo pensamento de Martin
Buber, tratar-se-á da questão da Deus, a qual Buber postula como o protótipo e plenificação
de todos os encontros humanos e para onde estes se encaminham. Também será exposta a
crítica que o pensador faz aos dualismos entre Criador e criatura e os individualismos na
relação com o TU Eterno.
No próximo capítulo abordaremos com mais profundidade esse encontro relacional
Humano propriamente dito, expresso nas palavras princípio EU-TU, e, partindo daqui se
apresentará a definição antropológica de Buber e como ele a situará, evidenciando a sua
crítica ao aspecto distanciado da vivência que a tradição Filosófica ocidental abordou. Aqui,
se observará também, então, como o autor vai unir o Logos e a práxis para fundamentar,
então, sua análise do Homem.
23

3.0 O ENCONTRO DIALÓGICO ENTRE OS HOMENS


3.1 A relação Dialógica Eu- Tu
No que diz respeito à relação EU-TU, um elemento-chave para que ela ocorra será a
reciprocidade, que é a capacidade de se abrir ao TU enquanto totalidade do encontro, uma vez
que encontrar o outro e deste não receber uma resposta, é base para um niilismo, bem como a
transcendência se não possui um objeto de encontro, encaminha-se, da mesma maneira, para o
nada. Assim, Buber, apesar de estar situado entre os existencialistas, será o que mais se
afastará dessa corrente e de suas concepções antropológicas.
A palavra que introduz o Homem no mundo autêntico e pleno é a palavra princípio
Eu-Tu, revelada no encontro dialógico, que não se manifesta como uma propriedade privada
do existente, mas, como abertura ao que o cotidiano oferece e chama a atenção; não é à toa
que Martin Buber afirma categoricamente que não se pode abordar nada fora da dimensão
cotidiana, já que o homem nunca sai dela.
Pode-se dizer que na relação EU-TU o homem estabelece relação com o mundo em si,
de forma total, jamais totalitária, pela integração, envolvimento dos contrários e o
desaparecimento de peculiaridades ou contradições que se interpõem no diálogo, como as
delimitações ou categorizações. O Tu é aquele com quem se entra em relação na
reciprocidade, pois, sem esta o elemento relacional se torna débil.
O homem que pronuncia a palavra princípio essencial só pode fazê-lo na sua
totalidade, na medida que o Tu se encontro com o Eu, e a partir disso é que ocorre a relação
na sua imediatez necessária, que faz dos meios ou fins, coisas irrelevantes, pois:
Entre o Eu e Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação; e a
própria aspiração se transforma no momento em que passa do sonho à
realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os
meios são abolidos, acontece o encontro (BUBER, 2004, p. 59).

A grande busca que o ser humano realizará é de encontrar-se com seu Tu, e, na medida
que este se realiza, torna presença autêntica a vida humana, pois, os extremos da existência do
homem, estão, na escolha entre o Tu e o isso. A presença só acontece quando há a relação e o
encontro, por meio da palavra- princípio essencial, que continua diante de nós, e, logo, não é
passageiro, pois, acontece no face à face, na esfera do inter-humano.
A partir disso é que Buber coloca a relação dialógica como o fundamento necessário
da vida humana, como ele mesmo afirmará: “No começo é a relação” (2004, p.63),
demonstrando assim, que o novo predicado do homem é a categoria e capacidade relacional
24

dialógica, criando assim uma nova perspectiva essencial que foge a todos os antigos
parâmetros substancialistas. Bem como coloca a atitude relacional como fundamento para a
nova ontologia, aquela concretizada na dimensão do inter humano, que parte de uma
clarificação antropológica- filosófica que Buber realiza com o propósito de analisar essa
esfera profundamente relevante da existência do homem, apresentada pelo pensador como
familiar a todos. Porém, não compreendida de maneira total, apesar da sua importância para a
vida humana. Aqui, Buber não pretende falar sobre uma interação humana partindo de um
aspecto sociológico ou psicológico, mas, quer fundamentar uma categoria propriamente
ontológica, não abstrata e mais correlata com o cotidiano.
Ao seguir discorrendo acerca do tema já colocado, o filósofo Judeu busca estabelecer
uma distinção entre o elemento em pauta e a coletividade ou o social. A coletividade é aquela
que une a diversidade dos homens em agrupamentos sociais, fazendo com que vivenciem, em
certo grau, reações e sensações de forma comum. A grande diferença para Buber reside
justamente aí, pois, o elo de união perdura enquanto o grupo existir e por mais que no coletivo
se reúna o que é diverso, isso não será garantia do acontecimento singular das relações
essenciais na existência humana, uma vez que as atitudes do coletivo parecem querer limitar o
ser-com-o-outro apenas àquilo que interessa ao trabalho realizado pela regra ou ethos do
grupo, de maneira que o encontro parece ser confinado a um âmbito de irrelevância.

De maneira diferente ao domínio coletivo, o inter- Humano ultrapassa a perspectiva


psicológica da empatia ou simpatia e adentra até mesmo nas relações que o nosso filósofo
chama de “afundandas”, isto é, o encontro entre adversários ou desconhecidos. A maneira
como isso se realiza, aponta Buber, é uma influência mútua no comportamento de ambos,
mesmo que tal fato seja desconhecido ou despercebido.

De forma que o fator decisivo é que se tome consciência do outro não como um objeto
que está para um uso, mas que encarne o outro como um parceiro, numa inclusividade
relacional, já que é essa ação uma barreira que impede o homem de ser reificado pela análise,
pois, o agir em parceria será o grande indicador da percepção do outro como ser existente.
Logo, Buber compreende essa esfera do inter humano da seguinte maneira:

[..] Por esfera do inter- humano entendo apenas os acontecimentos atuais entre
homens, dêem-se em mutualidade ou sejam de tal natureza que, completando-se,
possam atingir diretamente a mutualidade; pois a participação dos dois parceiros é,
por princípio, indispensável. A esfera do Inter- Humano é aquela do face a face, do
um-ao-outro; é o seu desdobramento que chamamos dialógico (BUBER, 2007, p.
138).
25

Apesar do inter-humano ser uma esfera necessária à vida humana, existe nele uma
tensão que Buber aponta como a grande problemática de sua realização: trata-se da questão
entre Ser e Parecer, que se apresenta como uma dualidade a solucionar-se. Entretanto, a
proposta que o Judeu Filósofo lança não é a de uma análise moral dos fatos entre o dever ser e
o ser, mas situa-se no domínio antropológico de onde partirão suas observações.

De tal maneira que prosseguindo em suas abordagens, o autor em questão, percebe a


necessidade de distinguir a existência humana classificando-as em duas: uma que é ontológica
e uma outra virtual, como afirmará: “Nós podemos distinguir duas espécies de existência
humana. Uma delas pode ser designada como a vida a partir do ser, a vida determinada por
aquilo que se é; a outra como a vida a partir da imagem, uma vida determinada pelo que se
quer parecer” (BUBER,2007, p. 141).

A grande diferença entre essas duas qualificações existenciais se dá, de maneira muito
forte, no inter-humano, isto é nas relações dos homens com os outros, e a grande marca
concreta que permite delimitar a qual espécie pertencem os seres humanos é o, segundo
Buber, o olhar, uma vez que a ótica de quem vive de maneira coesa é livre e sem amarras,
diferente daquele situado no vive do dever ser, que não consegue ultrapassar o domínio da
aparência e sua afecção no outro.

É necessário ter em mente que o termo aparência ou imagem não necessariamente


evocam uma mentira, porém, Buber chama a atenção para tal fato afirmando que a imagem
que se baseia na não verdade ameaça de maneira contundente o inter-humano na sua
existência, pois, a falsidade aqui não é factual, mais se dá em relação a vida existencial,
portanto, ontológica.

Falando em termos de verdade e falsidade, se faz necessário clarificar o que para


Buber se segue como verdade na esfera do inter-humano. A veracidade aqui se configura
como a comunicação autêntica dos seres, ou seja, que cada qual dialogue com outro tal qual é,
procurando não deixar espaço onde a aparência possa estar subjacente e dando espaço para
que o ser do outro entre na vida de quem o acolhe. Logo, o que conta na perspectiva do inter-
humano é a autenticidade, sem ela, sequer o ser humano pode se realizar em sua plenitude e
totalidade.

Para que a perspectiva Inter-humana se realize é necessário que haja entre os homens o
diálogo, tendo em vista que este permeia toda filosofia Buberiana. Entretanto, Buber observa
26

que há uma insuficiência da percepção, que muitas vezes transforma a conversa genuína em
uma pretensa conversação que há entre os seres humanos, não sendo nada mais do que um
ajuntamento mecânico de palavras ou simples palavreado.

E isto se dá porque aquele que dirige a palavra não tem o desejo de falar um-com -o
outro, de tal maneira, que parece haver aí um reducionismo, ou seja, transforma-se o outro em
mero ouvinte da palavra subjetivamente enunciada; assim não é possível haver, nesta
situação, uma proximidade com o outro. Sendo localizado aqui o que Buber reconhece como
o grande fatalismo da existência moderna do “Homo sapiens”: enxergar nesta degeneração
uma parte constituinte da natureza do homem e no infortúnio o destino original da vida
humana, como o autor afirmará:

Quem reconhece realmente quão longe nossa geração se transviou da verdadeira


liberdade, da livre generosidade do Eu e Tu, deve, por força do caráter de missão
de todo grande conhecimento deste gênero, exercer ele próprio- mesmo que seja o
único na terra a fazê-lo- o contato direto e a este não abdicar, até que os
escarnecedores se assustem e percebam na voz deste homem a voz de sua própria
nostalgia reprimida.(BUBER, 2007, p. 146)

A superação deste caminho errôneo no qual o homem entrou se dará, aponta Buber, a
partir de um diálogo mais fidedigno, no sentido de perceber o homem como tal, vê-lo como
Outro de mim. Porém, isso só acontece quando se toma conhecimento íntimo da pessoa com
quem se dialoga, ou seja, buscar, experienciar 4 o ser humano em sua totalidade, não como
objeto ou conceito, mas, enquanto concretude. Aponta o filósofo judeu que a singularidade
do ser Humano, acima das coisas e demais seres, reside exatamente na presença do espírito, e
é esta presentificação que determina o Ser humano, a pessoa.

Porém, se é impossível conhecer intimamente o outro quando o procuramos como


objeto de uma contemplação ou análise, pois, reduzimos o ser humano a uma dedução, isto é,
um mero conceito provindo do raciocínio e o relegamos ao abstrato. Assim, conhecer de
maneira Totalizante, e não totalitária, só acontece quando o EU se põe de maneira essencial
para o TU, ou seja, quando o outro se torna presença para mim; logo, é aí que o conhecimento
íntimo se dá.

4
É necessário Ressaltar que neste contexto, o termo experienciar, difere da experienciação que Buber aponta
como uma das atitudes presentes na relação EU-ISSO. Aqui, esta palavra, tem um sentido de compreensão.
27

3.2 Concepção de homem para Buber


A antropologia buberiana é apresentada, através do mais famoso livro publicado pelo
Filosófo-Judeu, no ano de 1922, Eu e Tu, lançado contemporaneamente ao Eu e o Id, de
Freud. É por meio desse opúsculo que Buber fundamentará sua Filosofia do Diálogo, que,
conforme atesta Galantino (2003, p.111): “É uma resposta indireta, de um modo concreto para
dar sequência à interrogação adorniana sobre a possibilidade de fazer filosofia depois de
Auschwitz”. Dessa maneira, Buber deseja apontar que de fato é possível pensar o homem
mesmo após essa catástrofe tão portentosa, se propondo a mostrar que a relação, o estar
próximo sem meios, fins ou utilitarismos é o que plenifica o ser humano.
Nessa medida, a pergunta existencial: “Quem é o homem?” não pode ser respondida
por conceitos acadêmicos distantes da realidade humana, nem tampouco deve implicar uma
busca abstrata da essência, como pode ser visto em inúmeros clássicos, mas deve estar
permeada pela relação dialógica como esse grande fio condutor da perspectiva humana, tão
fragmentada pelo individualismo e totalitarismo.
É por essa razão que o pensamento de Buber tem provocado e chamado muito a
atenção. Pois, ao traçar seus conceitos fundamentais, o autor terá como base principal sua
experiência concreta, vivencial e não ideias ou ideologias abstratas, distantes da perspectiva
real e existencial do homem. De maneira que Buber não cria um sistema filosófico fechado,
mas, propõe uma análise patente do homem, através, de uma “nostalgia do humano”, que não
se constitui como um saudosismo cego ou volta ao passado, mas, como uma “conversão”, isto
é, um projeto a ser realizado existencialmente.
Assim, o pensador em questão une o pensar reflexivo com a prática experiencial,
fundamentando sua filosofia em uma união singular e de responsabilidade entre a práxis e
Logos, pois, para ele, é por meio desta experiência singular de ser presença no mundo, por
intermédio da relação, é que dará sentido e norte às suas reflexões, já que:

Não se preocupando com teorias ou sistemas, Buber não elabora


simplesmente discursos e elucubrações sobre palavras que visem rótulos e
modelos. A sua palavra deixa de ser simples logos contemplativo para
tornar-se a davar criativa dos Hebreus. A força desta palavra reside no fato
de ele mediar o verbo e a ação. Se, para João, no princípio era o Verbo, e,
para Goethe, no princípio era a ação, para Buber, no princípio é a relação.
Para esta época de indeterminação, de incertezas, de eclipse do humano, a
palavra questionadora e criativa mostra sua força. Para Buber a chochmá
(sabedoria) hebraica se distingue claramente da sophia dos gregos. Esta
última denota um conhecimento de ordem da contemplação e chocmá se
volta para a união entre conhecimento, a vida e a ação. (VON ZUBEN,
2003, p. 184-185)
28

Neste sentido, para Buber, a palavra não é uma forma contemplativa para olhar o
mundo real, mas, o lugar onde este (mundo) é gerado. E o fruto cabal desta geração é a
relação, que por sua vez, constitui-se como o sentido necessário de ser no mundo e, também,
o local onde, ontológica e existencialmente falando, se desenvolve a história humana. Por
isso, a relação será a principal coluna para a compreensão existencial do homem, pois, deixa
entrever que a importância deste existir humano não se encontro no sujeito em si, nem na
humanidade (mundo) e nem no outro, mas, “entre” eles (o mundo e o outro).
É nessa perspectiva que o pensador, propõe, que a antropologia não deve ser uma
matéria em meio as outras, mas, que independa destas, pois, elas não buscam o mesmo intento
antropológico, que é a realização da totalidade humana. Só adentrando na realidade e
compreendendo que o homem é diverso, ou seja, não se constitui de um único gênero, é que a
reflexão filosófica acerca do homem pode, de fato, assimila-lo e conhecer totalmente, pois

Tomar intimamente conhecimento de algo, ou de um ser, significa, de modo


bem amplo, conhece-lo na sua totalidade, sem, entretanto, recorrer ao
mesmo tempo a abstrações que os abreviem naquilo que têm de mais
concreto (BUBER apud VON ZUBEN, 2003, p. 201)

Assim, a correta análise antropológica, não buscará uma forma de conhecimento


baseada em enquadramentos abstratos do homem, mas, em sua perspectiva concreta,
percebendo sua singularidade e as diferentes perspectivas que são oferecidas pelo cotidiano
vivencial do homem.
Por isso, segundo o pensador, é necessário que o homem possua um auto-
conhecimento, não como um fim em si mesmo, mas, para que possa encontrar sua dimensão
singular, que é a totalidade; já que o intuito da reflexão antropológica é a do conhecimento
total do ser humano.
Vale salientar, que o termo autoconhecimento, não quer expressar posse de si, pois,
para Buber, esse verbo (possuir), só deve ser atribuído aos objetos; quando usamos essa
expressão para nos referirmos ao homem, estamos enxergando-o como algo objetificado,
coisa entre coisas. Logo, o auto- conhecimento é tarefa indispensável para melhor se refletir
acerca do humano.
Desta maneira, o método necessário para que a Antropologia filosófica alcance seu
objetivo será a aproximação com a concretude, a fim de que possa conseguir abarcar o ser
humano em sua dimensão holística e integral. E, para atingir essa integralidade, um duplo
caminho será necessário: o da distinção e da comparação. Por meio da primeira, chega-se ao
29

homem na sua dimensão real, e pela segunda, essa realidade ganha sua razão de ser por meio
do sentido cósmico que a circunda.
E dentro desta perspectiva, exige-se uma radicalidade, dado que, essa questão, não
envolve só o reflexionar filosófico, mas, também a prática enquanto processo dinâmico
existencial, isto é, nesses dois aspectos gnosiológicos do homem, estão contidos a razão de
ser, existencialmente falando do ser humano, assim:

A questão antropológica é radical, ainda, porque, exige um compromisso


radical no seu emergir, da reflexão filosófica com a experiência vivida,
experiência originária de presença no mundo. Embora diferentes em sua
natureza, tanto a reflexão filosófica quanto a experiência de vida guardam o
sentido da existência. É por isso que ambas exigem a instauração desse
compromisso radical, anterior à própria filosofia, com a práxis, a experiência
de presença atuante que é justamente o sentido de um discurso humano
(VON ZUBBEN, 2003, p. 214).

Daí se percebe que, para o pensador, a filosofia não se configura a partir de sistemas,
mas, de uma contemplação necessária que lança suas raízes num plano ontológico, pois, a
antropologia filosófica não se constitui como algo dedutivo, fruto de contínuas reflexões sobre
o tema, que nos daria um conceito próprio do que é o homem.
A única definição que se pode dar sobre o ser humano é aquela que parte de sua
existência, do que ele é, pois, é a práxis, isto é a realidade, o local onde a dimensão ontológica
humana se concretiza. Logo, a antropologia filosófica se une, de forma dialética à ética, ao
fazer essas ligações entre teoria e concretude, em especial, quando Buber, faz referência a
estrutura constitutiva o homem e aponta, que esta, vem da relação entre-dois, a qual, o autor,
denomina de encontro relacional dialógico.
Neste sentido, a palavra: logos, sai de um domínio meramente anunciador de algo,
para ser base existencial, deixando para trás o espaço da subjetividade e adentrando na
dimensão ontológica da inter-relação, que leva o homem a se comprometer com o destino de
seu outro, de forma que a verbalização criadora cria uma aproximação entre os homens por
meio da responsabilidade, reciprocidade e demais atitudes necessárias.
Por essa razão, a antropologia dialógica se baseia, também, em uma ontologia
relacional, no momento em que, ao se pronunciar a palavra- princípio, se traz à tona a
presença que esta verbalização implica, já que, para Buber, o homem nasce indivíduo, mas,
não pessoa; pois, só vem a tornar-se tal, quando entra no processo de uma relação dialógica,
na qual, o Eu aceita e responde ao apelo de um Tu, numa relação face à face, que será o
princípio de toda existência humana, logo o homem para Buber:
30

(..) Aparece no momento que entra em relação com as outras pessoas (..)
pois, a finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o Tu,
pois, no contato com cada Tu, toca-nos um sopro de vida eterna. Assim, a
pessoa toma consciência de si como participante do ser, como um ser-com
como um ente. (BUBER, 2004, p. 92-93)

O tornar-se pessoa vem à tona no momento em que o Homem realiza de maneira plena
seu chamado, ele deve existir como ser-de-relação, pois, é nessa aproximação com os outros
que o ser humano encontra sua plenitude e sua substância. Neste sentido, o termo aparecer
que o autor aqui faz uso significa o emergir daquele que toma consciência de si como pessoa e
como subjetividade, pois, este entendimento, enquanto melhor for realizado, possibilitará ao
homem ser mais pessoa e perceber por onde vai seu caminho e decisão, pois o Eu na
dualidade da palavra princípio deve ter o autoconhecimento necessário para que possa se
mostrar com a maior intensidade possível.
Assim, para que esse evento relacional aconteça de maneira total, é necessário que
haja uma resposta, do contrário, a atitude essencial não se realiza, uma vez que, para Buber,
essa ação só se realiza concretamente, se, houver responsabilidade, reciprocidade, imediatez e
mutualidade. Existem duas situações nas quais a existência humana pode realizar: o diálogo e
monológo. O primeiro, como já foi abordado, diz respeito e implica as relações humanas e
essenciais, enquanto, o segundo, se direciona, muito mais, a experiência entre sujeito e objeto,
pois, não há, resposta e nem reciprocidade.
Portanto, as relações, o mundo das palavras princípio, são pressupostos necessários
para que o homem, passe, de indivíduo a pessoa e realize sua existência, enquanto ser de
relação voltado para o diálogo.

3.2 A relação com o Tu Eterno


A partir da influência do Judaísmo no seu pensar filosófico, Buber, tocará com muita
veemência na questão da relação com Deus e o seu papel na vida do ser Humano, dialógico e
relacional. Para ele, não é possível conceber o homem sem olhar o seu Criador e fonte
primordial de toda existência. Além disso, falar deste encontro com Deus na ótica Buberiana é
perceber que Ele, além de ser o “Ser” essencial e necessário, é o modelo mais que perfeito do
diálogo e da relação, portanto, Esse será o encontro relacional Absoluto, ao qual devem tender
todos os demais encontros vitais.
É preciso, então, perceber que o eixo base de Buber para abordar esse encontro puro, é
o do TU ETERNO. Aqui, o pensador não pretende discorrer sobre Deus em si, mas, deseja
abordar a capacidade do homem relacionar-se com Ele, pois, mais importante que qualquer
31

atributo divino ao qual se possa fazer referência está o movimento da criatura em direção ao
seu criador, para com ele manter um vínculo imediato de relação e encontro.
Um outro aspecto que deve ser abarcado no caminho que o autor percorre ao analisar
sobre a questão da Divindade é que ele quer repensar o papel de Deus na contemporaneidade,
uma vez que as suas obras se destacam pela grande contribuição com a filosofia da religião.
E, vale a pena salientar que, a abordagem da presença divina, que se pretende realizar, não se
encaminha para perspectivas dogmáticas e tampouco teológicas, pois, segundo esse filósofo, o
Deus que muitas vezes é apresentado ao ser humano, é o deus coisa do utilitarismo e
objetivação, ainda que, o pensador insista em afirmar que o Tu eterno, por essência não pode
ser rebaixado ao status de coisa limitada ou medida, nem sequer a medida do incomensurável.
Agindo assim, Buber pretende mostrar o encontro com a divindade partindo de uma
perspectiva judaica, onde Deus é um Ser próximo, que não se distancia do mundo em que se
vive, pois ele é criação sua. Assim é que o judeu filósofo encara a revelação divina como um
evento no qual não há uma “captura” de Deus, a fim de deslocá-lo para o mundo do ISSO,
como o fazem alguns misticismos, mas, deseja apontar, que, a autêntica manifestação de Deus
é aquela que abre caminho para o encontro total, no face à face, já que:

Esta situação religiosa, de face a face, define-se essencialmente como


atividade total e movimento para o outro a desdobrar-se como plenitude e
constância, como perfeita aceitação da presença. Assim, Deus é o nome da
radicalização do encontro quando este é transfiguração do mundo pela
presença. A fenomenologia religiosa de Buber é, pois, uma fenomenologia
do encontro, e apresenta-se como doutrina da feliz inserção do homem no
mundo. (HUISMAN, 2011, p.175)

O pensador em questão chama a atenção que o verdadeiro contato com Deus, coloca
também o homem em relação com o mundo, não de maneira utilitária ou reificada, mas, atual.
Pois, uma vez que o mundo é uma criação divina, se o vemos como um objeto, certamente,
afirma o pensador, trataremos a relação com o Divino de maneira semelhante. Inclusive,
aponta Buber que existem meios usados pelo homem que acabam por tonar Deus algo
possível em uma perspectiva de usufruência, através da fé e do culto. Na primeira, o sujeito
“toma” Deus para sua segurança e bem-estar, esperando que Ele lhe dê o que quer.
Influenciado pelos mestres Hassidim, Buber, pensa que o objetivo da comunhão com o TU
Eterno é a sua Kavaná5, isto é a intenção em si mesma e nada mais. No que diz respeito ao
culto, Buber enxerga que a transformação de Deus em um Isso, acaba acontecendo por aquilo
5
É um termo da Cabala que se refere a intenção sagrada da comunhão com Deus (Cromberg, 2005,
p.137).
32

que ele chama de “devoção regulamentada”, isto é, troca-se a oração viva por uma petição que
não verbaliza a palavra sagrada, o Tu, e logo, não tem interlocutor. Entretanto, não é só a
partir do culto e da fé que se tenta perceber Deus em uma dimensão utilitária e reificada, para
Buber, também a gnosiologia tende também a reduzir a Divindade, ao tentar conhece-la a
partir de abstrações, e, isso se dá pelo fato de que o Tu eterno que o autor propõe é aquele
com quem o ser humano se encontra como com uma pessoa. E a expressão religiosa fidedigna
deve sempre reconhecer que mais necessário que falar sobre Deus é se dirigir a Ele, enquanto
presença viva, conforme citação:

Assim, o que é decisivo para a religião autêntica não é o aparecimento do


divino como pessoa, e sim que eu me comporte em relação a ele como em
relação a um ser diante de mim(...) Não é necessário que se saiba algo sobre
Deus para realmente pensar em Deus, e muitos fiéis verdadeiros sabem falar
a Deus, mas não sabem falar de Deus(BUBER, 2007, p. 28).

O autor distingue, a partir disso, religião e filosofia. A atitude religiosa é aquela que
toma parte e existe na dualidade Eu-Tu, pois, diz respeito ao encontro entre seres plenos.
Enquanto a filosofia se restringe a perspectiva do sujeito e objeto a partir de sua prática. E,
mesmo a teologia por pretender falar acerca de Deus e não com Ele é englobada também no
eixo eu-isso. Qualquer forma de expressar ou representar Deus, mesmo que ligada a mais alta
transcendência, será uma redução a um conjunto de prescrições ou qualidades que se possam
apreender. Ele é antes uma presença no mundo sem necessariamente ser absorvido por este.

Entretanto, a forma de perceber a atitude presencial do TU ETERNO se difere daquela


própria do eixo EU- TU, pois na primeira a tensão entre presença e ausência não tem
ocorrência como na segunda. Por ser o único Tu que existe essencialmente, Ele é também
aquele cuja presença é constante e atual. Se, porventura, o Homem alguma vez a percebe
como ausente, não é Deus quem se distancia, mas isso acontece por uma ignorância do
próprio ser humano, incapaz de perceber aquele que sempre se faz presente. É assim, então,
que o autor aponta que a presença do Criador está onde se reconhece-a pois,

Presença e ausência são oscilações que não existem no domínio do Tu


eterno. Quem as sofre é o Eu, é o Homem. Quando o Tu eterno parece estar
ausente, é na verdade o homem que não pode perceber a presença, é o sujeito
que não está presente. O Tu eterno caracteriza-se por sua presença constante.
Se o homem a ignora, ela se configura como ausência aparente (...) Embora
o mundo esteja cheio da presença de Deus, Ele só habita verdadeiramente
onde reconhecem sua presença. E embora Deus só habite verdadeiramente
onde Sua presença é reconhecida, o mundo está cheio da Sua presença. São
33

os dois lados da moeda: a presença constante de Deus e a oscilação do poder


de relação do homem. Segundo Buber, é nossa força de relação que diminui,
fazendo assim com que nossa presença também diminua- mas nunca a
Presença originária. (CROMBERG, 2005, p. 176-177)

Assim para Buber e para muitos mestres hassídicos o caminho e o destino do homem
subsistem, então, em meio a isso: a aparente ausência, distanciamento, nivelamento, de forma
que cabe a ele sempre reconhecer onde se faz presente a presença de Deus no cosmos,
manifestada das mais diversas maneiras possíveis, e, também, em cada Tu que vem ao nosso
encontro ter a sensibilidade de contemplar o Tu Eterno.

Desta maneira, se percebe a crítica que Buber principia com relação ao modo de
compreensão da revelação Divina exercida e incentivada por algumas tradições religiosas
ocidentais e orientais, quando, afirmam ser necessário afastar-se do mundo para uma
dedicação exclusiva e total a Deus. Entretanto, observa o pensador, que todo encontro com o
Tu Eterno deve colocar sempre o homem em ocupação com a sua ação no mundo, à maneira
de um encargo e chamado sagrado, pois, observa Buber, essa relação pura só atinge o seu
ponto de equilíbrio na dimensão do espaço e tempo na medida em que ela abrange toda
existência humana. Não se trata aqui de uma conservação do evento relacional, coisa que para
Buber seria impossível, mas, a capacidade de efetivá-lo no decurso da vida, através da
atualização deste encontro no mundo, isto é, do tornar presente a palavra princípio geradora
de sentido, que eleva os outros a condição de Tu e os transforma em seres de relação.

Pensando assim, Buber aponta como alguns Cristãos, se afastaram de maneira


profunda do seu mestre Jesus. Para isso o Filósofo Austríaco usará a passagem Bíblica na qual
Jesus é questionado acerca do Maior de todos os mandamentos e que terá como resposta uma
junção de dois dos mandamentos do Decalógo: “Ama a Deus com todo teu poder” e “Ama teu
companheiro como a ti mesmo”. Com isso Buber quer provar que a verdadeira vida relacional
com Deus é aquela que abrange a todos e a cada homem que for encontrado no caminho da
vida. Ele continua sua crítica argumentando que cada companheiro dever ser amado de forma
igual, e não como “a mim mesmo”, conforme alguns pensam, pois, segundo a perspectiva
Buberiana o ser humano não ama-se a si, mas, aprender a se amar no amor do outro.

Dessa maneira o Amor exclusivo a Deus acontece também de maneira inclusiva,


acolhendo e incluindo o amor como um todo, não havendo espaço aqui para dicotomias entre
Criador e criatura, já que, é isso que, segundo a perspectiva Buberiana, Jesus vem e quer
34

trazer à tona segundo nosso Judeu: que Deus e o homem não são rivais. Ao contrário, quando
o Tu eterno se manifesta, não o faz para si próprio, quando perdoa e redime não é a si mesmo
que direciona essas graças. E assim que o Ilimitado cria um lugar onde o amor dedicado a Ele
é espaço para o amor aos demais, como afirmará o próprio Buber:

A criação não é uma barreira no caminho que leva a Deus, ela é esse próprio
caminho. Somos criados um-com-o-outro e tendo em vista uma existência
em comum. As criaturas são colocadas no meu caminho para que eu, criatura
como elas, encontre Deus através delas e com elas. Um Deus que fosse
alcançável pela exclusão das criaturas não o seria o Deus de todos os seres,
em que todos os seres se realizam. Um Deus em quem somente se cruzam as
vias paralelas de acesso seguidas pelos Indivíduos é mais aparentado com o
‘Deus do Filósofos’ do que com o ‘Deus de Abrão, de Isaac, e de Jacó.’
(BUBER, 2007, p. 94)

Assim a verdadeira ‘Teofania’ se dá justamente no contexto de sua grande e


maravilhosa ‘Epifania’ que é a criação, essa estrada concreta para se chegar à plenitude ou a
totalidade da vida. Um Deus que for compreendido como aquele não acata nenhuma inclusão
será apenas uma projeção idealista das mentes humanas, tal como o ‘deus cartesiano’ e não o
Criador vivo, Deus das alianças. Desta maneira o autor é enfático ao afirmar que o caminho
mais curto para se chegar ao Deus vivo e verdadeiro é passar pelo longo caminho da vida que
envolve o mundo, possível a todos que desejarem, pois, segundo Buber (2007, p. 94) [...]
“Ensinar uma relação acósmica com Deus é não conhecer o criador”.

Logo, o relacionar-se com Deus não pode se reduzir e se fechar como um fim em si
mesmo, mas, pelo contrário, essa atitude deve ser vivida e expressa de maneira eminente com
os outros, pois, não se pode dizer o Tu somente a Deus e aos outros direcionar uma palavra
princípio não essencial, ainda que se identifique esse mundo como mundo decaído. E mesmo
que assim acontecesse, ainda assim não seria possível realizar uma separação do mundo e
Deus, pois, aquele é criação deste. Buber aponta que considerar essa separação como algo
correto, seria considerar que ação decaída é mais forte e atuante que a do próprio Deus.

Desta forma, pode-se dizer que Deus é totalidade de todas as relações, e corresponder
a ele significa ‘abraçar’ o mundo que lhe é oferecido como o próprio Deus faz, bem como, o
ser humano atualiza sua presença de imagem e semelhança da divindade quando tem a
capacidade de pronunciar a palavra princípio, o Tu, aos que lhe cercam.

Assim, Deus não é aquele que se especifica, racionaliza ou se torna lógico para dele se
fazer uma mera abstração. Buber aponta que o ‘deus’ a que se referem muitos estudiosos é a
35

divindade teológica ou o deus dos Filósofos e não o Deus vivo, e muitas vezes, não
conseguem tirar as amarras da religião enquanto fazem Teologia, assim, vale a pena retomar,
na perspectiva do autor, a distinção que Pascal outrora realizou: existem Deus e deus, isto é,
existe a divindade meramente dialética e lógica e existe aquela que só pode ser experienciada
pelas razões do coração e pelo ardor da fé.

Desta maneira, conclui-se, que o papel da religião não é atingir a especificação de


Deus, até porque, concebe-lo assim seria fazer uma brusca redução de Deus a um objeto. Ele
não é um objeto paralelo aos outros, de forma que renunciar aos mesmos não é certeza de
alcance divino. Tampouco é correto pensar que Ele seja o universo, mas, esse equívoco é
maior tanto quanto o de achar que ele quer menos o Ser que o mundo, de modo que não o
acharemos nem pela redução e muito menos tomar-se-á parte no seu Amor separando-nos de
tudo e todos, pois, o relacionamento com o Outro abre a senda para o relacionamento com
Deus, já que, o diferente, é criatura da Divindade e portanto, não se pode constituir como um
obstáculo ao encontro totalizante do Face à Face, iniciado no contato com a criação.
De forma que só vivendo a relação baseada na Presença-palavra essencial voltada ao
outro é que se pode chegar à relação essencial com o Tu eterno, vivo e verdadeiro que coloca
sua criação, para que amando-o cada vez mais, possa se descobrir sua presença nos
companheiros parte inclusiva e necessário deste Amor único e exclusivo.
Logo, vimos nesse capítulo que é a partir disso que a filosofia Buberiana se torna
compreensível: a constatação de que o diálogo é parte constituinte do ser humano e sem essa
dimensão o homem não pode ser compreendido, pois é essa esfera dialógica que o aproxima
das realidades eminentes de sua vida: o mundo e Deus. Assim, a existência, na perspectiva
buberiana, deve encontrar na relação com o ser humano e com o Tu eterno o grande sentido
existencial e fundamento necessário que toda pessoa busca para viver plenamente. Portanto,
não é possível haver aqui dualismos entre o mundo e Deus, pois ambos são necessários para
ocorrer a totalidade da Relação.
Também foi evidenciado aqui o pensar antropológico do pensador a partir da junção
das perspectivas grega e hebraica que ele faz, quando pensa o investigar acerca do humano
como pensamento e atitude, logos e práxis. Mostrando assim, que não se pode observar o
homem de maneira abstrata ou conceitual, mas, deve-se, acima de tudo, unir o pensar à sua
vivência. Com isso ele pretende apontar uma eloquente crítica a tradição filosófica ocidental,
que, em muito, esqueceu de perceber o aspecto vivencial do homem e o reduziu a uma
abstração bem construída.
36

E ampliando esse posicionamento, Buber aponta que o mesmo aconteceu com relação
a Deus. As múltiplas análises acabaram por criar uma relação distanciada e inautêntica com o
Criador de Tudo. Portanto, o Homem e Deus são os eixos fundamentais para se compreender
o pensar filosófico de Buber, bem como suas críticas a como eles foram interpretados ao logo
do tempo na História.
37

4 O PROJETO EDUCACIONAL DE BUBER

A pergunta pelo sentido do Humano sempre acompanha a existência dos homens e é


imprescindível que se possa estabelecer uma resposta que fale de maneira total a este. Assim,
unido a análise antropológica se encontra presente a questão da formação humana, pois, não
basta dizer aquilo que o homem é, mas, é preciso também elucidar como ele se forma
enquanto sujeito, como um Tu no mundo dentro da sua historicidade.
Assim após ter discorrido longamente acerca do Humano e de sua capacidade de se
tornar sujeito, Martin Buber vai lançar um olhar acerca da Formação educacional do Homem,
uma vez que para se falar do ato educativo é preciso saber qual é o conceito antropológico que
caberá a essa análise educativa. Aqui também o discurso filosófico estará envolto na
dimensão relacional dialógica do Homem, pois, para o pensador, não é possível falar acerca
desta formação humana sem apontar para a Ontologia da relação como grande colunata da
antropologia Buberiana.
Partindo, também, da influência Judaica dos mestres Hassidim, Buber compromissado
com a Educação de seu povo abrangerá essa responsabilidade para o ser humano como um
todo. À semelhança dos aspectos já outrora esclarecidos, a filosofia da Educação de Buber
também terá por grande alicerce o contato com a realidade e com as visões de mundo que
cada pessoa traz presente em si. Também influenciado pelo pensamento judaico, o pensador
irá incluir nas suas perspectivas educacionais a relação com o transcendente expressa na
categoria do Tu Eterno.

O pensamento Educativo de Buber pode ser situado dentro do


personalismo6 pedagógico, que reconhece ao lado do mundo natural uma
dimensão de transcendência. (...) Essa perspectiva não só afirma a condição
inconclusa do humano, mas vê na relação com Deus a possibilidade de a
pessoa finita existir. Por outro lado, esse caráter de inacabamento torna a
educação uma condição para a humanidade do homem. Ela não apenas se
estrutura a partir de determinados referenciais, que determinamos visão de
mundo, mas, em si, numa cosmovisão (SANTIAGO, 2012, p. 171)

Isso não significa dizer que essa análise se firma apenas no campo Religioso, mas,
que, apesar de adentrar neste não permanece ou se detém nele, embora reconheça que seu
papel é imprescindível, se situado dentro do diálogo e da relação. E, além disso, a educação
6
O personalismo é toda doutrina que sustenta o valor superior da pessoa em faca do indivíduo, da coisa, do
impessoal. O personalismo se opõe, portanto, tanto ao individualismo quanto ao impessoalismo. (MORA, 2001,
p. 2255.)
38

que se pauta nesse olhar da pessoa não se prende a uma visão de mundo estabelecida em
determinações sociais, mas, transcende e supera todas essas dimensões e alarga a perspectiva
para o universo, podendo assim perceber a relação que abarca não só o homem e os objetos,
mas todos os seres criados e existentes na esfera holística.
Portanto, a questão da educação na Filosofia de Martin Buber se mostra por meio da
capacidade do Homem olhar para o Outro, o mundo e o Transcendente. Isso permite
visualizar, então, a importância do processo educacional que dará ao homem a capacidade de
concretização da sociedade humana que a cada dia se renova e expande por meio do
nascimento de novas pessoas. Por essa razão a educação deve ser aquela que não só
possibilite a apreensão de conteúdos ou erudição, mas, a que concede ao homem a capacidade
de transformação e reformulação da sociedade como um todo.

4.1 O educador e educando


A educação para Buber tem por objetivo ajudar as pessoas a perceberem e
vivenciarem a relação, é por esta razão que o caminho da formação humana se estabelece na
perspectiva do diálogo autêntico, atitude esta que deve ser desempenhada desde a mais tenra
idade do educando. Neste sentido, a relação essencial se configura como centro da formação
educativa, pois, o modo e protótipo da realização dela é o da forma da palavra princípio
essencial, isto é, o encontro de um Eu com um Tu com quem se assume uma vinculação
autêntica através de sua totalidade.

Desta maneira, o pensador ao colocar a relação dialógica dentro da visão educativa faz
entrever a necessidade de ser superada uma visão reducionista e meramente analítica com
relação ao outro, pois, na situação relacional o diverso se coloca diante do eu enquanto pessoa
e interpela-me a face para o direcionamento de uma palavra a ser confirmada com a
presentificação.Com a fomentação dessa capacidade dialógica o Educador deseja que o aluno
supere uma visão meramente resignada às normas sociais e alcance uma unificação da
consciência que se torne capaz de perceber as desafiantes situações do meio social no qual se
insere.

O educador que tenho em mente vive num mundo de indivíduos, do qual uma
determinada parte está constantemente confiada à sua guarda. Ele reconhece
cada um destes indivíduos como apto a se tornar uma pessoa única, singular e
portadora de uma especial tarefa do Ser que ela, somente ela pode cumprir.
Todo ser com características pessoais mostra-se para ele como incluído num
tal processo de atualização e ele sabe de própria experiência que as forças
atualizadoras estão cada vez mais empenhadas numa luta microcósmica com
39

forças contrárias. Ele aprendeu a se compreender como um auxiliar das forças


atualizadoras. Ele conhece estas forças: elas também giram sobre ele e sobre
ele continuam a agir. É esta obra sobre ele realizada que ele as faz encontrar
sempre de novo e coloca à sua disposição para uma nova obra. Ele não pode
querer impô-la, pois, crê na ação das forças atualizadoras, isto é, crê que, em
todo homem, o certo está instalado de uma maneira singular, de uma maneira
única, própria da sua pessoa; nenhuma outra maneira deve impor-se a este
homem, mas uma outra maneira, a deste educador, pode e deve propiciar a
abertura daquilo que é certo- tal como aqui este quer se realizar- e ajuda-lo a
se desenvolver(BUBER, 2007, p. 150-151)

Desta forma, o educador, por sua vez, é aquele que reconhece a subjetividade e
unicidade de cada ser humano na sua tarefa atualizadora da presença. De forma que, o papel
do educador na concepção Buberiana é proporcionar ao ser humano uma abertura maior
daquilo que é correto, a partir não da imposição, mas, da compreensão que o ajuda, de fato, a
se desenvolver. Logo, nas relações deve existir abertura, sem imposições, uma vez que o
homem existe não a partir do seu isolamento ou quantificação numérica, mas, a partir da
reciprocidade da ação, que é, para Buber, uma chave de suma importância para se
compreender a natureza humana.

Ao se falar da abertura que o Educador deve proporcionar ao educando, é necessário


esclarecer que esta abrange também a dimensão do cotidiano. Não é possível acontecer um
processo educacional que deixe de tocar na concretude da existência e se limite a uma mera
particularidade ou a posicionamentos gerais. É a realidade com seus conflitos e complexos o
fundamento da educação. Sabendo disso, o papel da educação é possibilitar a familiarização
da unidade em detrimento da diversidade existente no mundo, o que não significa afirmar que
os fenômenos vivenciados no meio social sejam observados pelo autor como algo
desordenado ou sem nexo, mas, eles possuem elementos que devem ser interligados e a
responsabilidade de organizar os sentidos para captá-los é uma tarefa inerente ao educador,
bem como cabe a ele esclarecer que em meio as mais diferentes interpretações do mundo a
que deve prevalecer é aquela pautada na realidade em si. Por esta razão que a direção do ato
educacional em cada época vai trazer à tona todas o que se exige como resposta aquele
momento da história. Ao olhar para atualidade se percebe que cada vez mais a educação tem
se limitado a uma assimilação de conteúdos e não tem provocado os seus educandos a
perceberem as exigências que devem ser abordas por quem os guia neste caminho. Isso
acontece pelo fato de que cada vez mais as pessoas não se encontram em sua unicidade, mas,
vivem de forma massificada, não individualizada, inautenticamente e dispersas, e, com isso
40

acabam por viver um distanciamento do mundo com seus dramas e carências. A partir da
identificação com a realidade concreta é que o trabalho educativo pode ocorrer de forma
fidedigna.

O trabalho de formação que eu penso é guiar para a realidade e a realização.


O homem a ser formado é aquele que sabe distinguir entre aparência e
realidade, entre realização aparente e a realização verdadeira, e aquele que
nega a aparência e escolhe e acolhe a realidade, tanto faz que visão de
mundo escolha. O trabalho de formação educa os membros de todas as
visões de mundo para a autenticidade e para a verdade. Ele educa cada um a
tratar com seriedade a própria visão de mundo. (BUBER apud. SANTIAGO,
2012, p. 173)

A partir, desses pressupostos se pode compreender qual é a essência do ato


educacional em si e partindo disso esclarecer qual é a questão de maior relevância nesse
processo, isto é, perceber de que maneira o indivíduo pode ser responsável no mundo a partir
da sua atitude de abertura cujo cume é o encontro com o outro. O homem que se abre a
relação é autêntico e pode ajudar significativamente para transformar o mundo com a
transformação de si mesmo, desde que assuma o seu caminho, que é sempre específico e novo
para cada pessoa, pois “o que foi feito de grande e de sagrado deve ser um exemplo para nós,
por que nos mostra claramente o que é grandeza e santidade, mas não constitui um modelo
que precisa ser copiado”(BUBER, 2011, p. 15), logo, Buber rejeita toda e qualquer
padronização dos comportamentos ou costumes como as que viveu o autor ao revelar que no
seu ambiente escolar, predominantemente católico, os judeus eram forçados a participar dos
ritos e cerimônias próprias a esse credo7.

É evidente que com isso não se poderá eliminar a dimensão transcendente dessa
abordagem, uma vez que ela pretende abarca diversas dimensões do humano, entre elas a que
compreende o espiritual, como dimensão primordial da pessoa humana, o que permite
compreender a afirmação do autor e de outros estudiosos seus, que Buber propõe uma
educação espiritual ao homem, que é compreendida como “uma corresponsabilidade com a
plena realização dos entes e das coisas do mundo”( RÖHR, 2012, p.14). Uma outra visão que
Buber dá dessa educação transcendente é que ela constitui a grande força propulsora do ato
formador, pois, uma vez que a cada dia a humanidade se faz nova com cada nascimento, isso
possibilita um renovar dos homens, numa perspectiva histórica e da antropologia.

7
Antes das Oito horas da manhã todos os alunos tinham de estar reunidos. Às oito horas soava o sinal da
campainha; um dos professores entrava e subia à cátedra, sobre a qual, na parede, erguia-se um grande crucifixo.
O professor e os alunos poloneses faziam o sinal-da-cruz, ele pronunciava a oração da Santíssima Trindade e
eles repetiam suas palavras; então juntos, eles rezavam alto. Até nos podermos sentar novamente, nós judeus
ficávamos ali imóveis, em pé, com os olhos baixos. (BUBER, 1986, p. 15)
41

Assim, o educador é aquele deve reconhecer a singularidade do educando, a fim de


que este possa ser formado em sua forma singular com base na concretude do cotidiano, a fim
de que, a partir daí, possa desenvolver a criatividade. É necessário esclarecer que a
perspectiva de Buber acerca do desenvolvimento do aspecto criativo não é necessariamente
algo inerente ao ser humano, mas, se mostra através de uma disposição com relação ao Tu
Eterno, pois, é Nele que está de maneira essencial o criativo. Com isso, o autor não quer
afirmar uma atitude passiva do homem, mas, expressa que por meio desta consciência é
possível compreender a existência de um elemento que impele, ao qual Buber denomina de
impulso de criação, isto é, o desejo do homem, tanto no estágio infantil ou adulto, de tomar
parte no surgimento das coisas enquanto sujeito, que supera a concepção ou visão de encarar
tal atitude como uma ocupação ou ativismo. É antes um envolver-se no criar o que é, até
então, não existia.

Trata-se de um sentir-se envolvido na criação de algo antes inexistente e que


surge através da própria ação experimentada de forma intensiva. Uma
caracterização aproximada é encontrada no processo de fala, como vivência
de algo novo, que embora inscrito nas possibilidades humanas, resulta de um
processo singular. (SANTIAGO, 2012, p. 175)

Desta forma, o pensar educativo de Buber questiona as posições tendenciosas que


algumas abordagens educacionais fazem ao situar o ser humano em uma impulsividade de
afirmação ou à libido. Tal exposição é insuficiente para o pensador, pois, visa só um aspecto
de degeneração do humano, e, consequentemente paupérrimo quando se olha mais além. Por
entender o homem como ser múltiplo, ele aponta que o impulso de criação deve ser encarado
de maneira relevante, pois, é um dos nortes que orientam o educador no ato formativo. É
notável na obra do autor a tentativa de se distanciar daquelas possíveis leituras que tendam
para uma redução ou aniquilamento de algum aspecto do humano e, que, esquecidos não
oferecem fundamentos para uma análise da formação antropológica. Por isso, ele evidencia a
dimensão criativa do homem, que mesmo sendo necessária, ainda não tem o papel definitório,
pois, estas não conduzem a uma vivência da dimensão coletiva. Será a partir das forças
formativas que são “aquelas forças fundamentais que ainda não são étnicas e tampouco são de
natureza religiosa, mas as duas coisas em conjunto e, mais ainda coisas diferentes”. (BUBER
apud. SANTIAGO 2012, p.177). Apesar dos elementos culturais serem decisivos para a
formação humana em determinado lugar, não será o único meio para que isso ocorra. Elas se
encontram no ser humano enquanto interligação com o diferente, de forma que o labor
educativo deve possibilitar uma abertura de vias para a realidade, lembrando sempre, que o
42

educador não pode ter ações de imposição e por isso deve ser alguém que conduz o aprendiz
para a localização dessas forças sem querer modelá-lo ou projetar visões de sociedade nele.
Logo, o vínculo interligativo com o outro vai ser a condição fundamental para a compreensão
do humano e de seu aspecto educacional, uma vez que ele é um ser inacabado.
Portanto, é por meio do impulso de interligação que se fundamenta toda prática
formativa do homem, pois, é um ato de mutualidade que possibilita, então a relação essencial
do homem. Tal aspecto pode ser vislumbrado no cotidiano, afirma Buber, por exemplo, na
relação da criança com a mãe, a qual aguarda com ânsia. O pensador ao descrever esse
acontecimento aponta que a espera que aí existe não deriva de uma espera por usufruir dos
benefícios que o outro possa oferecer, mas, de um forte desejo de vivenciar a interligação,
pois, para Buber é o outro que confirma o ser do homem e o torne sujeito de fato, pois o
“mundo gero o indivíduo como pessoa, o mundo, todo o meio ambiente- natureza e
sociedade- ‘educa’ o ser humano”(BUBER apud. SANTIAGO, 2012, p. 181). Logo, deve
sempre estar presente na mente do educador uma dualidade de conexões: a do homem com a
realidade e a ligação com o outro, indispensáveis para se compreender o processo formativo
do homem.

4.2 Coerência e responsabilidade


Buber observa que a educação visa também a dimensão comunitária, pois, ao
questionar quem educa ou que possibilita tal ato, o pensado visa abordar a dimensão
espontânea do momento formativo, o que inclui não só a ação intensa do educador, mas, pela
própria vivência do educador e da comunidade 8 na qual está inserido o aluno. Embora o
pensador em questão trate da necessidade do uso das forças criativas, é igualmente preciso
que o educador desenvolva um senso de espontaneidade que orienta bem mais do que
qualquer teorização ou conhecimento, pois, “Quando ele educa, o faz com sua existência
pessoal”. (BUBER, 1987, p. 90) Por isso o educador deve se guiar pela realidade própria e ter
a capacidade de manifestar sua atitude frente aos desafios históricos, cada vez mais
singulares.

8
A comunidade é união de homens em nome de Deus numa instância viva de sua realização. Tal união pode
efetivar-se somente quando homens se aproximam uns dos outros e se encontram de modo imediato, na
imediaticidade de seu dar e de seu receber. Esta imediaticidade existe entre os homens quando são retirados os
véus de uma conceitualidade ditada pela procura de proveito, véus que não permitem ao indivíduo manifestar-se
como pessoa, mas como membro de uma espécie, como cidadão, como membro de uma classe; a imediaticidade
existe quando eles se encontram como únicos e responsáveis por tudo. Só então pode haver abertura,
participação, ajuda. Quanto mais pura a autenticidade, tanto mais autenticamente pode a comunidade realizar-se.
(BUBER, 1987, p. 47)
43

A comunidade também tem um papel preponderante aqui que desenrola de maneira


semelhante: não basta criar uma análise lógica do que é essa comum união, mas é preciso
vivenciá-la totalmente, pois a vida de diálogo fidedigno é também ato formativo e a vida
relacional que aí se desenvolve assume uma dimensão educativa imperiosa. Assim é no
educador que estão aqueles requisitos necessários para que o educando faça aquilo que Buber
denomina de seleção de mundo, isto é, possa escolher e compreender quais são os modos de
existência, de ser e saber que é por esta presença que se descortina a perspectiva de um
mundo ser formado.

O ato educativo requer a coerência pessoal, cuja relevância a torna um


imperativo na ação educativa, devido à exigência da necessária correlação
entre aquilo que se pensa, afirma e faz. Não pode educar quem não é capaz
de unificar esses momentos. O mundo selecionado pelo educador é aquele
que ele mesmo vive autenticamente. (SANTIAGO, 2012, p.182)

É tal pressuposto vivencial que possibilita um autêntico desenvolvimento humano, a


partir da intencionalidade com a qual o educador irá se apresentar ao educando através da
vontade de atuação com responsabilidade em relação ao outro. É preciso que o educador tenha
em mente que o selecionamento de mundo a ser realizado não pode partir meramente de si
mesmo, embora este saia de sua vivência, ou da imagem formada do educando, mas, da
realidade na qual o aprendiz se encontra.

Além da coerência apontada pelo Filósofo, um outro elemento fundamental na


dimensão pedagógica é o da responsabilidade que se constitui a partir do que Buber chama de
Compreensão profunda do outro9 que pode ser resumida na ideia de confiança, que está
relacionada, ainda, a perspectiva do surgimento criativo, isto é, em cada tempo histórico o
novo vem à tona e assim se faz necessário que o educador mostre o mundo e possa se tornar
responsável por ele, como pessoa que o representa e, por esta razão tal perspectiva é um outro
pressuposto basilar do educativo, pois, no assumir essa representatividade do mundo, o
educador se torna presentificação ao aluno na medida em que manifesta sua reciprocidade
com relação ao lado oposto, pois será esta a marca decisiva e especifica do diálogo
educacional.
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Vem da expressão Alemã “Umfassug” e pode ser compreendida como envolvimento ou compreensão profunda/
mútua e abrangência/ abarcamento. Em todas essas denominações ela está relacionada a um movimento de
compreensão do outro, que implica no colocar-se na situação na qual ele se encontra, a partir da forma como ele
propriamente compreende à situação na qual ele se encontra, a partir da forma Como ele propriamente
compreende à situação e, ainda assim, não deixar de senti-la em si mesmo, por isso ele a denomina de
experiência do lado oposto. (SANTIAGO, 2012, p. 190)
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A confiança revela a dimensão essencial do educativo, como relação


dialógica na qual o educador se coloca como um representante do mundo,
pessoa que assume verdadeiramente sua responsabilidade. A relação
educativa se realiza na presentificação de um para o outro, constituindo-se
na reciprocidade. Contudo, e por ser educativa, ela difere de outras relações
e é o sentido que a reciprocidade assumirá nesse contexto, que define a
especificidade do diálogo no educativo e da própria relação educacional.
(SANTIAGO, 2012, p.191)

Buber aponta que existem três formas de diálogo relacional, que se baseiam na
dimensão da compreensão profunda do outro. A primeira delas ele denomina de abstrata e
recíproca. Aqui essa dimensão está ligada à questões e experiências espirituais, intelectuais e
de crença das mais diversas formas possíveis. É possível nessa perspectiva se reconhecer
como legitimo o outro em sua mutualidade, sem necessariamente com isso haver um descarte
das concepções convictas de cada pessoa. A grande verdade que aqui vai entrar em cena é da
percepção da alteridade, marca fundamental da relação que é sempre parcial nos pontos de
vista. Por isso, tal relação exclui qualquer pretenso conhecimento que queria elevar-se acima
do outro.

A outra maneira de conceber a relação é aquela a qual Buber denomina de concreta e


unilateral e se concretiza no contato formativo com a pessoa a partir de uma vivência
compreensão mútua do outro unilateralmente. Nesse caso há uma suspensão e distanciamento
do que necessariamente possibilita a educação e isto se deve ao fato de que muitas vezes o ato
de educar e quem o escolhe acabam por fazer isto sem saber qual o significado e sentido de
realiza-la.

O educador que assume o papel de ter uma atuação direta na vida de seres humanos
não pode ignora que o ato educativo é um experienciar o lado oposto, que deve ser vivenciado
por ambos e pelo educador em especial, que deve buscar reconhecer o educando em sua
singularidade, pois não é suficiente que se imagine como é esse ser individual ou que se
entenda o mundo intelectual do aprendiz, mas, é preciso vislumbrar um contato de dois lados
humanos que encontram, deve-se olhar com alteridade pois, “não basta que ele experimente a
criança de forma intelectual e então a reconheça; só quando ele a capta e percebe a partir do
outro lado, com isso atua naquele outro ser humano”(BUBER apud. SANTIAGO, 2012, p.
193). É esse o marco distintivo da relação educacional, ela é um abarcar de maneira concreta,
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ainda que não possa apresentar o aspecto mútuo, pois, o educando não chega a vivenciar o ser
do educador, ainda que este esteja presente sempre nos dois casos.

Por sua vez a terceira concepção relacional é a concreta e recíproca, quando o


educador assume totalmente o educando a partir de sua realidade, frequentemente e não só
quando a necessidade o pede estabelecendo com ele relação cujo pressuposto é o diálogo de
um ser humano ao outro, ou seja, em sua singularidade e logo, aqui, o educador assume a
responsabilidade autêntica pelo mundo possibilitando, ao educador conduzir o educando a um
processo de auto-educação, isto é, que o aprendiz tenha a capacidade ter por ocupação o
mundo e não um egocentrismo.

Portanto, é grande a relevância que o pensador coloca ao afirmar esses pressupostos do


educacional: a necessidade de uma coerência do educador que gere no aprendiz uma
confiança geradora de responsabilidade para com o mundo e com os outros. Neste sentido, é
sempre necessário que o educador reconheça sempre a individualidade e unicidade a partir de
uma abertura a concretude da existência do aprendiz possibilitando a este selecionar o mundo,
escolher em qual realidade seu ser vivenciará, assim,

Com efeito, a questão fundamental é a decisão fundamental é a decisão


pessoal que caracteriza a ação educativa. A educação envolve uma
responsabilidade para que a pessoa encontre o seu caminho em direção à
transcendência. Tais questões nos permitem voltar ao debate inicial, relativo
ao desenvolvimento das forças criativas, cuja ideia fundamental revela uma
visão do humano capaz de abrir-se para a criação. Essa abertura que se
compreende na relação autêntica com o outro, como expressão da relação
com o Tu Eterno. É partindo desse princípio que Buber aponta os limites e as
possibilidades de uma educação para a comunidade. Para ele, toda e
qualquer mudança significativa encontra-se indissociavelmente ligada a uma
decisão, a uma responsabilidade que, mesmo assumida coletivamente, requer
a tomada de posição de cada um individualmente. (SANTIAGO, 2012,
p.195)

Desta forma Buber expõe que a verdadeira educação é aquela conduz o ser humano
não meramente a acumular conteúdos eruditos ou intelectuais, mas, ele deseja sublinhar, que,
sobretudo, o papel do educador é levar o homem a uma vida autêntica em relação com outros
acima de tudo, no face a face. Por meio disso pode-se dizer que o Filósofo propõe uma análise
educacional que evidencie a solidariedade, logo, libertadora sempre a partir de uma realidade
comunitária.
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É também imprescindível perceber que com essa proposta de educação é mostrar o


equívoco de algumas propostas desumanizantes ao esquecerem a tarefa essencial de apontar o
homem em sua capacidade dialógica em um processo de alteridade com o diferente. A partir
desses pressupostos se entende a intencionalidade do pensador ao discorrer acerca da
educação: mostrar que os homens têm capacidade de escolher quais caminhos pode trilhar e
de neles viverem em coerência com a opção feita. Em todos esses sentidos o educador sempre
é um condutor no direcionamento da via, sem imposições e projeções.

Foi o observado neste capítulo o pensamento educacional de Martin Buber, onde se


destacou, em um primeiro momento, suas influências Judaico-Hassídicas que o fazem propor
uma educação voltada para dois grandes eixos: a realidade e o transcendente. Será a partir
deles que se desenvolverá também a exposição aqui, onde tratamos em um momento inicial
do papel do educador e do educando na atividade formativa, qual deve ser a atitude
caracterizadora de ambos. Alguns pontos têm lugar especial nesta análise como por exemplo,
a abertura, diálogo relacional-que será o alicerce de toda teoria educativa de Buber- o
surgimento do criativo, a interligação e a compreensão mútua do outro.

Além disso, se expôs duas condições para que o ato educativo aconteça plenamente: a
coerência e a responsabilidade. A primeira se relaciona ao fato de que o ato formativo
humano é vivencial e se insere em uma comunidade e logo não pode ser desvinculado de uma
presença que seja autêntica e viva de maneira coerente com o mundo selecionado; essas
atitudes dizem respeito ao educador e vão servir de guia para relação com o educando.

A segunda está ligada a representatividade de mundo o que educa deve ter em si, e, ao
apresenta-la manifestar ao aprendiz a confiança de ser no mundo através da presentificação no
face a face. Portanto, a interação entre o diálogo e a educação constitui não um mecanismo
estratégico teórico, mas, a causa necessária do evento educativo.
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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um mundo marcado pelas inovações tecnológicas, científicas e sociais torna-se
necessário se fazer uma reflexão acerca das contribuições e deméritos que esses novos
mecanismos têm apresentado ao ser humano, esse “existente” de relação e encontro, tão
fomentado por Martin Buber em sua obra filosófica da contemporaneidade. O pensador,
inserido em um contexto de guerras e pós-guerra, preocupa-se em mostrar ao homem dos
tempos atuais que é possível a plenitude da vida humana a partir de uma autenticidade do
cotidiano, na relação e encontro que pedem do sujeito a presença, reciprocidade e
responsabilidade. O objetivo é fazer com que o ser humano não perceba o outro como um
objeto a ser utilizado e aproveitado, mas como um Tu, que deve ser acolhido e incluído de
maneira singular e própria.
Logo, com essa nova ontologia, Buber propõe é a da essência presencial que se assenta
no encontro recíproco entre pessoas, que sem fins ou meios, pretendem se relacionar, não a
partir do que podem oferecer-se, mas do que são enquanto seres de existência para assim
realizarem a totalidade de suas vidas a partir da grande dimensão dialógico-relacional.
Martin Buber contribui de forma eficaz nas reflexões antropológicas acerca da
alteridade: a partir do momento que possibilita ao ser humano sair da perspectiva reificante
objetiva para a autêntica realização humana, na qual pode encontrar o sentido primordial e
necessário a partir do encontro verdadeiro e do diálogo sem eclipses ou barreiras que
obscureçam a procura e consequente encontro da totalidade humana, que não se dá em outra
instância senão no cotidiano dialógico a partir do encontro, entre um EU e um TU
autenticamente.

A fim de que deste encontro brote também a capacidade de o ser humano superar as
barreiras que o impendem de se aproximar de Deus e de sua criação, pois, no pensamento
Buberiano não existem dualidades de ação; chegar junto a criação é caminho concreto para se
chegar ao Criador, de maneira que os únicos impedimentos nesse trajeto seriam o Egoísmo e
um fechamento subjetivo.
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É ainda o diálogo relacional que permite ao homem tomar parte no caráter formativo
da sua existência, pois, a educação só se realiza de forma essencial quando se for pautada
neste encontro essencial através da vida em comunidade; assim também o educador deve ser
um homem dialógico que leve o aluno, a partir da sua vivência presencial a assumir uma
responsabilidade com o mundo existente, assumindo uma postura de auto-educação, voltando-
se não a si mesmo, mas, ao universo como um todo, em uma atitude relacional.

Já que, não existe, para o Judeu filósofo, relações monológicas dado que o EU, só tem
sentido se for acompanhado de um TU, e sua existência tem fundamento a partir desta
enunciação, que se concretiza na perspectiva do Inter-Humano. Neste sentido, é possível a
afirmação de que Só dando espaço aos outros “Tu” é que se pode abrir as portas para o Tu
Eterno, pois o caminho da vida verdadeira é trilhado pelas palavras princípios EU-TU, EU-
ISSO e finalmente EU-TU ETERNO.
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Referências

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CROMBERG, Mônica Udler. A crisálida da Filosofia: a obra Eu e Tu de Martin Buber


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