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Qual Espaço para Discutir Gênero?

What is the Space to Discuss Gender?

Telma Ferreira da Silva


Universidade Federal de Rondônia ­ Brasil
telmaferreira.pvh@hotmail.com

Sheila Castro
Universidade Federal de Rondônia ­ Brasil

Elisângela Ferreira Meneses


Universidade Federal de Rondônia ­ Brasil

Maria das Graças Silva Nascimento Silva


Universidade Federal de Rondônia ­ Brasil

Josué da Costa Silva


Universidade Federal de Rondônia ­ Brasil

Resumo Abstract
A questão de gênero embora em alguns TThe gender issue, although presents
setores apresenta­se avançada, para a maior advancements in some sectors, for the most
parte da sociedade esse tema ainda não é uma part of society is not yet a really taught
realidade ensinada. E, em uma micro­escala theme. And, in a smaller scale, such as in
como nos empreendimentos do Rio Madeira some enterprises in Madeira River or in
ou em sala de aula, encontra­se em uma classroom, it is in a rather embryonic stage or
condição embrionária ou ausente. even absent. We tried, as teachers, to realize
Procuramos como professores compreender how students understand the question of
como os alunos entendem a questão da women relationships in society and in their
relação da mulher na sociedade e em seu daily lives. The theorist expounded in this
cotidiano. Os teóricos que explanamos neste article corresponded to our conceptual and
artigo corresponderam nossas expectativas organizational expectations; they, just like us,
conceituais e organizacionais, pois eles tal see the woman not as a non­human being, but
qual nós observam a mulher não como um ser endowed with physical and biological
a­humano, mas com diferenças físicas e differences. However, equal in rights and
biológicas. Contudo, iguais em direitos e duties. Some women are unaware of gender
deveres. Algumas mulheres que desconhecem equality and stay in obscurity and
a igualdade de gênero e acabam ficando na submission. By delegating the responsibility
obscuridade e submissão. Ao delegar a for dialogue and teaching for the media, a
responsabilidade do diálogo e do ensino para large proportion of parents perpetuate
a mídia, uma grande parte dos pais perpetua a ignorance about gender issues, without even
become aware of what they are doing. Thus,

Revista Latino-americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 6, n. 1, p. 169 - 183, jan. / jul. 2015.
ignorância sobre a questão de gênero, sem we seek support in geographers and other
tomarem consciência do que estejam authors, who have led us to understand the
fazendo. Deste modo buscamos respaldo em question of gender apprehension in the
geógrafos e outros autores que nos classroom and the role of women as part of
conduziram ao entendimento da questão do the colonization process in the state of
entendimento de gênero em sala e a atuação Rondonia.
da mulher como parte do processo
colonizador do Estado de Rondônia. Keywords: Education; Gender; Feminism;
Feminist.
Palavras­Chave: Educação; Gênero;
Feminismo; Feminista.

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Introdução do rio Madeira, que propiciou a consequente


contaminação da biota pela emissão do
Dentro do contexto educacional de uma mercúrio. Por fim, temos o terceiro
região como Rondônia que foi área de momento, caracterizado pelo avanço dos
diversos movimentos migratórios Macro­vetores de Desenvolvimento em
questionarem a situação do entendimento do direção a Amazônia, com destaque para
que é ser mulher e como entender o seu papel Energia, Transportes e o Agro business.
diante da força estatal e de uma sociedade Toda essa dinâmica das mudanças
machista, onde todo o processo migratório é estruturais que os moradores do estado de
extremamente difícil para todos os que vivem Rondônia passaram e ainda vivenciam em
imagine para a mulher que é esquecida e sua paisagem, no seu território, no lugar e no
anulada, sua participação demorou muito espaço são dentro dos estudos de cada
mais tempo para ser evidenciada e categoria abordados de maneira diferente.
reconhecida no cenário sócio do estado. Porém, é no lugar de vivência cotidiana como
Vamos primeiramente contextualizar família, escola e amigos que essas
brevemente alguns dos movimentos transformações têm maior impacto e vêm
migratórios depois adentraremos na questão ocorrendo antes da criação do atual Estado e
da busca para que a questão de gênero fosse seguem até o tempo atual. Os diversos
percebida no ensino médio na escola pública momentos econômicos que aconteceram e
de um estado que vive uma constante ainda acontecem no estado atraem
transformação e possui dinâmica migratória movimentos migratórios. Os movimentos
ainda muito elevada. migratórios foram caracterizados como: o
Rondônia, após os anos 90, passou a ser incentivo para a extração do látex ou
submetida a um novo processo de Borracha; os Garimpos de ouro do rio
configuração espacial, caracterizado por Madeira, os PIC e os PAD1, a criação da
arranjo e re­arranjo das ações ou intervenções Usina Hidrelétrica de Samuel, e o mais
do poder público na Amazônia Ocidental, recente, a construção dos Complexos
sendo os mesmos operacionalizados, tanto Hidrelétricos do Rio Madeira com a Usina de
pelos atores sociais locais ou regionais, mas, Jirau e de Santo Antônio.
fundamentalmente, pelos atores externos à A intensidade das reorganizações espaciais
região, o que nos remete à discussão do como consequência desses macrovetores
problema da não observância das proporciona um vasto campo para a reflexão
potencialidades endógenas da região científica. Neste trabalho nos interessa
amazônica. O processo de intervenção se refletir como ocorrem as discussões a
repete com o mesmo padrão, ou seja, de 'fora respeito do debate sobre as relações de
para dentro' da Amazônia, cujos reflexos se gênero dentro da escola e o comportamento
fazem sentir também em Rondônia. da mulher no âmbito educacional.
Três grandes momentos caracterizaram o Dentro desta perspectiva, a pesquisa para
processo de ocupação da Amazônia: o o ensino da relação de gênero deve ser
primeiro caracterizado pelo surto gomífero; o iniciada, ampliada e discutida no lar, na
segundo pelo processo de colonização escola e na universidade. Ao refletirmos
agrícola, do qual derivou uma série de sobre as dicotomias e o desconhecimento
problemas ambientais com destaque para os presentes no cotidiano ao tratarmos da
índices de desmatamento deflagrados em questão de gênero na sala de aula do ensino
Rondônia e a garimpagem de ouro na calha médio e, algumas vezes até mesmo na

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universidade. Embora em alguns setores metodológico da pesquisa e para o ensino da


apresentarem discussões avançadas sobre relação de gênero alguns teóricos os quais
esse tema, para a maior parte da sociedade nos reportaremos no decorrer da pesquisa,
esse tema ainda não é uma realidade pois como estávamos como professores logo
ensinada, apreendida e vivida. E, em depois de aplicarmos o questionário
microescala como nas salas de aulas do desenvolveram a pesquisa de modo, mais
ensino médio e nos empreendimentos como como um diálogo, onde cada um pudesse
da usina hidrelétrica do Rio Madeira expor sua opinião, sem que tivéssemos uma
encontramos em uma condição embrionária imposição teórica. Com essa postura os
ou ausente. alunos ficaram mais abertos a participarem
Com base em 'metodologia participativa', demonstrando como lidam com a questão de
buscamos compreensão de como os alunos gênero.
entendiam a questão da relação da mulher na A pesquisa ocorreu na escola EEFM
sociedade e em seu cotidiano. Aproveitamos Presidente Tancredo Neves, que possui em
o momento do contexto de 2010/2011 com a sua dependência o ensino matutino,
chegada de muitas pessoas, advindas no vespertino e noturno, neste último é aplicado
momento das construções do complexo o ensino supletivo seriado de jovens e
hidrelétrico, houve um crescimento da adultos. Realizada no período noturno com
população masculina da cidade, e as mulheres alunos do Ensino de Jovens e Adultos – EJA
procuraram trabalhar em diversas frentes de onde havia 255 inscritos foram preenchidos
trabalho, até mesmo a prostituição. 102 questionários, aplicados em cinco
Como o governo do estado e do município turmas. Nesta instituição o que nos chamou
incentivaram a contratação de pessoal local atenção, foram as respostas obtidas ao
houve a chamada das mulheres para questionarmos alguns alunos do que seria no
trabalharem no mesmo, umas partes das entendimento deles gênero, feminismo e
pessoas que residem em Porto Velho, capital feminino, as respostas que obtivemos foram
do estado conseguiram emprego direta ou as mais variadas possíveis dentro da sala de
indiretamente no Complexo Hidrelétrico do aula. Ao elaboramos questionários para esta
Rio Madeira, deste modo, vimos a pesquisa sobre o entendimento e do ensino
oportunidade para realizar nossos sobre gênero buscamos, entender onde
questionamentos para as pessoas que estavam poderia estar presente o fato do
estudando, já que a maior parte delas estavam desconhecimento, e do porque não falar com
inseridas no mercado de trabalho. O estudo seus filhos, marido e amigos sobre a questão
para a maior parte deles era para tentar uma de gênero.
vaga no consórcio Santo Antônio ou no A escola tida como um lugar de ensino,
próprio complexo hidrelétrico. para muitos lugares específicos onde o saber
Foram alvo da pesquisa jovens e adultos deve ser praticado como forma de
que estudam em uma instituição de ensino conscientização de todos os cidadãos, onde o
estadual, no período noturno­, a eles fizemos educador pode envolver os alunos na prática
três perguntas que havíamos elaborado em do aprendizado, de acordo com suas
questionário, a primeira era a respeito do que experiências, estes são princípios
entendiam sobre gênero? A segunda, o que é encontrados no PCNs, nos temas
feminismo e feminino? E, a terceira se há transversais, onde a Geografia como
conversa em casa sobre a relação de gênero? disciplina de ensinamentos críticos deve ser
Destarte, usamos para o entendimento ensinada ao aluno, com temas que possam

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envolvê­los à compreender a questão de que a cultura só existe através dos indivíduos


gênero voltados para ensinamentos que os que a utilizam e transmitem, transformando­a
levem a prática, em seu cotidiano. e difundindo­a, pois:
Para embasamento buscamos o 'referencial
teórico' das obras geográficas, Sem ela, eles estariam
antropológicas, sociológicas e de psicanálise. desamparados: o instinto não é
Sabemos que não há pensamento que não suficiente para guiá­los. Faz­se
esteja dentro de um espaço e enraizado em necessário dispor de armas para a
um lugar, por este motivo buscamos nos proteção e para a caça, de utensílios
teóricos, David Harvey (2003); Ornat (2008); para produzir, habitar e se vestir. A
Yi Fu Tuan (1983) e Paul Claval (2001) linguagem permite que os homens
auxílio, mesmo com divergências se comuniquem. Suas relações só se
epistemológicas todos possuem em comum o desenvolvem a contento quando
ponto da categoria essencial do espaço para inseridas em contextos admitidos
existência humana, e que o lugar é moldado por todos (CLAVAL, 2001, p. 89).
pelo homem para lhe proporcionar segurança.
Ao escrevermos a respeito de gênero E, com a certeza de que não há nem
trazemos autores que nos direcionaram como: mesmo conscientização sem o espaço, e que
S. Mill (2006); Beauvoir (1980); M. Mead as materializações de nossas atitudes dão­se
(2006), A. Caldas (2010) e Rossini (2006). no âmbito próximo, no lugar, compreendo
Seus posicionamentos corresponderam nossas Ornat (2008: p.310­311 apud COSGROVE),
expectativas conceituais e organizacionais, ao quando afirma que a geografia está em toda
observarem a mulher não como um ser a­ parte, e a discussão sobre gênero está na
humano ou vitimadas, mas com diferenças escola, em casa, no sindicato, na
físicas e biológicas, mais iguais em direitos e universidade, etc. Dentro da afirmação sobre
deveres. Algumas mulheres que desconhecem o espaço temos a abertura para entender a
a igualdade de gênero e acabam ficando na complexidade que transformou os conceitos
obscuridade e submissão. Ao delegar a relacionados ao feminino, feminista, tendo
responsabilidade do diálogo e do ensino para por base a experiência geográfica exposta no
a mídia, uma grande parte dos pais perpetua a decorrer do texto. Harvey (2003: p.187),
ignorância sobre a questão de gênero, sem quando apresenta o sentido e as atribuições
tomarem consciência do que estejam fazendo. do espaço, coloca­o como categoria básica
O que nos respalda, como geógrafas a para existência humana, porém raramente
discutir a questão de gênero, é saber que as discutimos o seu sentido, e ao lhe darmos
reflexões no campo geográfico são cada vez atribuições do senso comum acabamos por
mais dinâmicas, e nos propõem ir ao encontro ficarmos sem a devida noção de qual espaço
a ação social do ser humano, que tece suas estamos nos referindo.
redes de convívio, Oswaldo Bueno Amorim O espaço das experiências educacionais de
Filho (2007), relembra a pluralidade do gênero, que as pessoas demonstram conhecer
alcance que a geografia cultural abre para os ao serem entrevistadas, lhes levou a exporem
geógrafos. E para entendermos cada vez mais a intimidade do seu pensamento, como para
o metiê referente a Geografia Cultural Yi­Fu Tuan (1983), nos afirma que as
buscamos Paul Claval (2001), pois para ele, a relações de espaço e lugar existem na
cultura se dá na relação sensível e visível experiência, e o significado de espaço
com a superfície da terra, ele também entende frequentemente se funde com o de lugar,

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contudo: a erigir o que entendemos como gênero.


Homem, mulher, família cada um destes,
O 'Espaço' é mais abstrato do que o são constituídos de um conjunto de relações
'lugar'. O que começa como espaço internas, mais numerosas e mais complexas,
indiferenciado transforma­se em pessoais e impessoais, já que realizam a seu
lugar à medida que o conhecemos modo um tipo de organização doméstica que
melhor e o dotamos de valor. Os existe fora dela e que tende a ultrapassá­la. A
arquitetos falam sobre as qualidades transformação do grupo corresponde a um
espaciais do lugar; podem remanejamento profundo de seu pensamento.
igualmente falar das qualidades É como um novo ponto de partida. O espaço
locacionais do espaço. As ideias de produzido faz parte das modificações e
'espaço' e 'lugar' não podem ser transformações sociais realizadas pelos
definidas uma sem a outra. A partir homens e mulheres, por isso Soja (1993)
da segurança e estabilidade do lugar afirma que,
estamos cientes da amplidão, da
liberdade e da ameaça do espaço, e […] o espaço em si pode ser
vice­versa. Além disso, se pensamos primordialmente dado, mas a
no espaço como algo que permite organização e o sentido do espaço
movimento, então lugar é pausa; são produto da translação, da
cada pausa no movimento torna transformação e da experiência
possível que localização se sociais. […] O espaço socialmente
transforme em lugar (TUAN, 1983, produzido é uma estrutura criada,
p. 6). comparável a outras construções
sociais resultantes da transformação
Ao detectarmos a necessidade da de determinadas condições inerentes
discussão do papel conferido a mulher com ao estar vivo, exatamente da mesma
interpretações erigidas e elaboradas a partir maneira que a história humana
da pesquisa realizada, as próprias abordagens representa uma transformação social
internas feitas ao uso dos conceitos e dos do tempo (SOJA, 1993, p. 101­102).
costumes impostos pela comunidade local e
pela educação familiar e formal, entendemos A memória não tem alcance sobre todos os
o conceito de educação como todo processo estados passados e não os restitui em sua
de formação do indivíduo em sociedade, e realidade de outrora, senão em razão de que
nessa perspectiva ela dever abranger segundo ela não os confunde entre si, nem com outros
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação mais antigos ou mais recentes, isto é, ela
Nacional2 ­ LDB: Título I; Art. 1º. “os toma seu ponto de apoio nas diferenças
processos formativos que se desenvolvem na impostas pelo contexto social, pelo poder
vida familiar, na convivência humana, no exercido pelo homem. O poder referendado
trabalho, nas instituições de ensino e pela própria mulher ao se submeter, ao
pesquisa, nos movimentos sociais e delegar tamanha autoridade ao homem, é
organizações da sociedade civil e nas considerado por Bourdieu (1989), como o
manifestações culturais”. Desta forma, toda poder simbólico, que acaba por ser o
relação social pode ser entendida como principal construtor da realidade, por isso:
processo educativo, ou seja, as espacialidades
constitutivas da experiência humana auxiliam

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O poder simbólico é um poder de intelectualmente e sem poder de decisão,


construção da realidade que tende a relegada a um estado pior do que o da
estabelecer uma ordem gnosiológica: escravidão. Pois, o escravo almeja sua
o sentido imediato do mundo (e, em liberdade e em muitos casos, a mulher é
particular, do mundo social). Os presa por ela mesma e sua negação a si, não a
símbolos são os instrumentos de deixa romper com os laços. S. Mill (2006)
conhecimento e de comunicação afirma que:
social: enquanto instrumentos de
conhecimento e de comunicação eles os homens não querem unicamente a
tornam possível o consensus acerca obediência das mulheres; eles
do sentido do mundo social que querem seus sentimentos. Todos os
contribui fundamentalmente para a homens, exceto os mais brutais,
reprodução da ordem social: a desejam encontrar na mulher mais
integração lógica é a condição da próxima deles, não uma escrava
integração moral. A relação conquistada à força, mas uma
originária com o mundo social a que escrava voluntária; não uma simples
estamos acostumados, quer dizer, escrava, mas a favorita […] Portanto
para o qual e pelo qual somos feitos, eles colocam tudo o que for possível
é uma relação de posse que implica a em prática para escravizar suas
posse do possuidor por aquilo que mentes. Os senhores de todos os
ele possui. O campo político exerce outros escravos contam com o medo
de fato um efeito de censura ao para manter a obediência: ou o medo
limitar o universo do discurso deles mesmos ou o medo religioso.
político e, por este modo, o universo Os senhores de mulheres queriam
daquilo que é pensável mais do que simples obediência e
politicamente, ao espaço finito dos eles usavam a força da educação
discursos susceptíveis de serem para atingir seus propósitos (MILL,
produzidos ou reproduzidos nos 2006, p. 31­32).
limites. Os conflitos de competência
que os podem, opor a proximidade A discussão de gênero tratada neste artigo
dos interesses e, sobretudo, a é distintiva, é a tentativa de reter as
afinidade dos habitus ligada a especificidades das circunstâncias espaciais,
formações familiares e escolares históricas e sociais particulares sob a rubrica
semelhantes favorecem o parentesco do local da pesquisa sobre os sistemas de
das divisões do mundo sexo e gênero (sexo são os órgãos genitais
(BOURDIEU, 1989, p.9, 10). pênis e vagina distinguindo macho e fêmea),
ou a respeito de relações sociais de gênero
As mulheres ao delegarem poder aos onde mulher/homem vivem em sociedade em
homens colocam­se submissas a autoridade espaço determinado e moldado.
masculina. Para um dos primeiros teóricos a O papel narrado pelas mulheres que
questionarem a submissão das mulheres viveram e vivem sob o jugo masculino e não
retrata que, é a submissão da mulher ao poder tem consciência de seu papel como indivíduo
do marido, dos pais, dos filhos e quando já feminino e feminista, é o mais diverso
não há mais ninguém para comandá­la era algumas narram a que é normal, outras se
excluída, considerada inútil e inválida vitimam e sentem­se angustiadas por sua

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situação e, ao mesmo tempo demonstram identidades condizentes a necessária


revolta pelo tratamento que algumas vezes inserção na sociedade reprimem os
lhes é dado. desejos e instauram a racionalidade
Encontramos na questão feminista no e a lucidez do ser. A culpa pelo
âmbito educacional, pois a questão da desejo proibido conduz a
submissão, do desconhecimento, se mostram inevitabilidade de encenação dos
visíveis dentro das salas de aula, nas papeis sociais (COSTA &
concepções dos alunos. É como Benhur Pinós HEIDRICH, 2007, p. 83­89).
da Costa & Álvaro Luiz Heidrich (2007: 83),
retratam a fragmentação do sistema, as micro As mulheres fazem parte como atoras do
relações que os indivíduos aceitam como o contexto social, e todas as suas redes são
normal das estruturas sociais, já que estão estruturadas por ideais, que já estão
dentro do cenário que lhes levam a colaborar predispostos a elas para realizarem de acordo
com determinado papel elaborado pela com a sociedade em que estão inseridas.
sociedade: Para o antropólogo Laburthe (1997), a
identidade é um princípio de coesão
O ator social se encontra fragmentos interiorizada por uma pessoa ou grupo, ela
a um sistema de situações, por consiste num conjunto de características
muitas vezes discordantes, regidas partilhadas pelos membros do grupo, que
por normas, atividades e contextos permitem um processo de identificação das
morais específicos, porém abarcados pessoas em seu interior a diferenciação em
por uma totalidade que produz o relação aos outros grupos, tais como os
corpo integrado do social. O sistema hábitos de consumo, a alimentação, a
social que parece fragmentado é na moradia, as roupas, adereços, o lazer são
verdade uma rede de determinações moldados de acordo com o grupo em que
territorializadas que abarcam vivem. Para Margareth Mead (2006), a
parcialmente os indivíduos e os questão de gênero está associada a cada
identifica como atores, ou seja, que sociedade que organiza as atitudes sociais
representam convenções e estão de dos seus membros, condicionando o
acordo com as necessárias atividades comportamento pela cultura, atitudes sociais
singularizadas a contexto de temperamento de acordo com a diferença
produtivos. O ator apreende formas sexual.
de interação a cenários A concepção de gênero da ocidentalidade
determinados, adequando­se a imposta à mulher é preconceituosa, a mulher
convenções sociais fragmentadas é vista como um ser menor, frágil, delicada,
que compõem a integração da amorosa, meiga e de compreensão intelectual
totalidade […] Na vida privada inferior. As nomenclaturas usadas em
cotidiana, cujo centro repressor é a conceitos por grandes teóricos foram
família, se exerce a lei e se produz a embaladas na lembrança materna então as
culpabilidade que nasce da derivações de matri3 é fundamentada em
resistência do desejo à lei. É na vida fragilidade, bondade, amor, desapego, prazer,
privada que as convenções enquanto patri4 é fundamentado em firmeza,
repressoras pesam e condicionam a compreensão, autoridade. Na maioria das
formação do ator social. Regras de sociedades estas são características adjetivas
comportamento e o fundamento de que distinguem sempre o feminino e

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masculino. somente subproduto do capitalismo),


A explicação dos adjetivos impostos à mas a forma de existência de
mulher parece evidente, elas ao contrário dos qualquer conceito de realidade [toda
homens nas antigas corporações não tinham 'sociedade' existe somente em
como reivindicar, questionar qualquer que manifestação, em festa, em
fosse a imposição a elas atribuídas, até representação de papeis, em
mesmo por serem tratadas como inferior e de substituição da 'coisa' pelo 'ator'
existência frágil, dóceis. sendo, 'os dois', imaginários do
Para Simone de Beauvoir (1980), a mulher mesmo], como o próprio conceito de
não se reivindica como sujeito, porque não 'modo de produção: feixes, nódulos,
possui os meios concretos para tanto, porque dobras, torções discursivas num
sente o laço necessário que a prende ao jorro de conceito (CALDAS, 2009,
homem sem reclamar a reciprocidade dele, e p.17).
porque, muitas vezes, se compraz no seu
papel de outro. E muitas vezes por não ter E, por esse motivo que não invocamos a
conhecimento de sua situação se auto realiza ideologia da mulher frágil, ou do homem
em seu papel de submissão. vilão, mas as práxis sociais excludentes que
Os teóricos que nos expuseram as nuances envolvem a mulher e o desconhecimento, do
culturais impostas pela sociedade no decorrer que significa ser feminista e ser feminina.
da história, Margareth Mead (2006), Pois, ao observar as práticas sociais que
conceituam a sociedade modeladora do ocorreram dentro de algumas escolas e que
gênero e do temperamento, Caldas (2010), talvez de acordo com a realidade do ensino
expressa as mudanças impostas pelos no Brasil, e principalmente do estado de
homens, que criam conceitos para serem Rondônia é deveras assustadora, começamos
usados em seu favor, Beauvoir (1980), ao a compreender como esta teia emaranhada de
tratar da relação de uns indivíduos com fios que se cruzam e não são compreendidos
outros, de designações móveis e imóveis, da por quem os usa, funciona. Escrevemos 'usa',
práxis imaginária do cotidiano. Desse modo, pois as mulheres adultas que foram
pudemos averiguar quem são as engrenagens entrevistadas sobre o que é feminismo e
que acabam constituindo sem perceber 'a feminista têm cada uma, opinião diferente do
máquina tribal' e suas peças, Caldas (2010), que sejam verdadeiramente estes conceitos.
compara os indivíduos dentro de uma grande Será que não interessa para a mulher saber
máquina, colocados como engrenagens dessa quais conceitos lhes são impostos ou os que
máquina, ou dessas máquinas que podem foram conquistados? Será que ao culparmos
formar, ou mudar os costumes, com a ajuda os homens por machismos nos excluímos,
do tempo, ou seja, cada sociedade forma e nos esquecendo de que a culpa também recai
dispõem dos conceitos de acordo com seu sobre nossos ombros? Ao deixamos que, a
conhecimento: educação dada a nossos filhos não seja
diferente da que nos foi imposta e ao
Não há uma realidade e uma 'visão acreditarmos em tudo, que a mídia nos
de mundo', mas as 'duas' são oferece nas telenovelas, acabamos por aceitar
dimensões da mesma virtualidade. O e continuamos na ignorância. Como
espetáculo não é 'o resultado e o transmitir o conhecimento da questão de
Projeto do modo de produção gênero ao ponto que os alunos possam
existente' (o espetáculo seria praticá­los em sua residência, no convívio da

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família e na criação dos filhos? atitudes que afetam o


Rossini (2006) nos dispõe o conceito do comportamento e, frequentemente,
que significa gênero, de forma simples e de nem são percebidas (ROSSINI,
fácil compreensão: 2006, p.18).

Gênero é um conceito que identifica O caráter oposto para os dois gêneros,


o tipo de relação social que se masculino e feminino é de busca da
estabelece entre homens e mulheres, igualdade de direitos, que só serão possíveis
determinada pela cultura em que com a evolução educacional, não só da
vivemos. As relações de gênero são escola, mas da casa, da família, dos costumes
socialmente construídas e, como tal, da criação, é a necessidade de mudanças na
especificas de cada formação social práxis familiar, onde o gênero é formado por
que por sua vez sofre alterações designações de papeis. E, dessa maneira o
econômicas e culturais. O termo gênero feminino é envolvido em tarefas de
sexo é diferente de gênero, pois diz meninas e o masculino envolvido com
respeito às diferenças biológicas atitudes que lhe influenciaram no decorrer de
ente homens e mulheres. Igualdade e sua vida, um exemplo é o menino ser
equidade de gênero, quando falamos incentivado a não chorar 'por que homem não
em igualdade de gênero, estamos chora!' e a menina a brincar de boneca 'cuidar
aplicando essa definição às relações da filhinha'. Por causa dessas características
sociais entre mulheres e homens. buscamos enfocar nos teóricos que
Nesse sentido, a igualdade de reconhecem a mulher como o outro do
direitos de oportunidades e acesso homem (a fêmea do macho), os que buscam
aos recursos bem como a entender os dois como seres que detém
distribuição equitativa das sentimentos, ambições, desejos iguais ou
responsabilidades relativas a família diferentes em ambos os sexos, pois os
são indispensáveis ao bem estar sentimentos que as mulheres possuem não
social. Equidade de gênero refere­se são desconhecidos totalmente aos homens a
a igualdade de oportunidades, ao diferença que exclui ou inclui a mulher está
respeito pelas diferenças existentes na mente, no intelecto dentro de como somos
entre homens e mulheres e as capazes de ver o outro.
transformações das relações de Não é a ausência ou o possuir o falo, nem
poder que se dão na sociedade em mesmo a questão da sensibilidade ou
nível econômico, social, político e fraqueza da mulher, pois, estes assuntos já
cultural, assim como a mudança das estão ultrapassados em embates por diversas
relações de dominação na família, na correntes feministas, portanto é na diferença
comunidade e na sociedade em entre ambos imposta pela família em uma
geral. Preconceito de gênero sociedade de cultura machista, que procura
chamado também de sexismo, o na mulher ver inferioridades inexistentes, ou
preconceito de gênero é uma atitude impostas pela história que nega à mulher a
social que diminui ou exclui as equidade. É a partir das etapas iniciais da
pessoas em geral as mulheres, de vida que se transmitem os valores essenciais
acordo com o seu sexo. Relacionado para a formação da cidadania e não pelo
ao pensamento e aos hábitos nascimento de menino ou menina como
individuais e sociais, envolve nossa sociedade acaba perpetuando um

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engano antigo. estereotipo,


A maneira como as crianças são educadas
pelos pais desde quando nascem não tem É uma opinião pré­determinada que
consciência do que é masculino ou feminino, afeta as relações interpessoais. O
não distinguem as diferenças corporais, mas estereótipo aparece como uma
elas percebem o tratamento que os pais têm forma rígida, anônima, reproduz
entre si e com os outros. Quando vão para imagens e comportamentos e separa
escola necessitam de educação, e neste os indivíduos em categorias. Ex.
momento a escola deve dispor para o ensino meninas não choram. O preconceito
revistas ou livro que podem ajudar o docente de gênero afeta tanto meninas
a ensinar a questão da igualdade e equidade quanto meninos. Se for eliminado,
de gênero pode ser usado em sala de aula melhorará sensivelmente a vida de
para trabalhar a igualdade e equidade de todos, pois um ambiente livre do
gênero, pois para ela essa: sexismo oferece melhores condições
de desenvolvimento físico e
igualdade de direitos de psicológico além de possibilitar
oportunidades e acesso aos recursos maior aproveitamento escolar.
bem como a distribuição equitativa Agindo segundo estereótipos
das responsabilidades relativas a sexistas, o espírito humano funciona
família são indispensáveis ao bem de maneira binária, atribuindo as
estar social. Equidade de gênero mulheres qualidades e fraquezas que
refere­se a igualdade de são negadas aos homens, ao mesmo
oportunidades, ao respeito pelas tempo em que estes se veem
diferenças existentes entre homens e cumulados de qualidades e defeitos
mulheres e as transformações das que são negados as mulheres
relações de poder que se dão na (ROSSINI, 2006, p.19).
sociedade em nível econômico,
social, político e cultural, assim Para John Mill Stuart (2006), o princípio
como a mudança das relações de que regula as relações sociais existentes entre
dominação na família, na os sexos, é a subordinação legal de um sexo
comunidade e na sociedade em a outro, está errado em si mesmo, e, portanto,
geral, (ROSSINI, 2006, p.18). é um dos principais obstáculos para o
desenvolvimento humano, tal subordinação
É da mesma autora (2006), que também deveria ser substituída por um princípio de
pode ser usada para levar a turma a igualdade perfeita, sem haver qualquer poder
compreender que o preconceito de gênero é ou privilégio para um lado e incapacidade
uma atitude social, que diminui ou exclui as para o outro.
pessoas em geral as mulheres, de acordo com A discussão do feminismo, do imaginário
o seu sexo. Relacionado ao pensamento e aos feminino, ou do imaginário de mulher e de
hábitos individuais e sociais, envolve atitudes feminista, propicia a discussão que leva a
que afetam o comportamento e, própria mulher a reivindicar­se como sujeito,
frequentemente, nem são percebidas. porque não possui os meios concretos para
Podemos notar que o estereotipo de gênero e tanto, porque sente o laço necessário que a
o preconceito em sala de aula afetam todos os prende ao homem sem reclamar a
alunos independentemente de seu sexo, pois o reciprocidade dele, e porque, muitas vezes,

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se compraz no seu papel de outro. A o ensino da relação de gênero no lar, no


realidade de preconceito, submissão e convívio da casa, pois é neste lugar onde as
desconhecimento advinda das décadas de relações mais intimas ocorrem, tanto a
imposição da sociedade em perpetuar a visão mulher quanto o homem devem compreender
de mulher com preconceito embutido tanto que igualdade começa dessa relação intima
nos homens como nas mulheres. Pois às que, ocorre dentro do lar e vai ser
vezes a mulher é tão preconceituosa quanto o consolidada na sociedade.
homem. Ao serem questionados sobre quais
direitos foram conquistados pelas mulheres
Considerações Finais entre os séculos XX e XXI, se alguém sabia
de algum que fosse mais comum, quase cem
O gênero feminino em seu formalismo por cento afirmaram que o direito de usar as
dentro da academia vive constantemente roupas que quisessem, ou de sair quando
lutando para que haja igualdade no tivessem vontade, ou seja, confundem o
tratamento, nas aplicações da lei. Por mas direito político e de decisão, com direitos
que as mulheres cheguem a conquista, a sociais de lazer. Não lembram ou não sabem
vitória não é plena, pois ainda há muitos que o próprio ato da educação feminina teve
paradigmas a serem quebrados e as modificações enormes no século XX, a
vicissitudes que estão expostas entre homem mulher rompe a discriminação e entra no
e mulher devem ser explanadas e sanadas espaço acadêmico, que antes era composto só
com o referendamento intelectual e social. pelo sexo masculino e começa a lutar dentro
Dentro da sociedade o entendimento de da academia por agregação de mais direitos
que, o papel da mulher não é só como para a classe feminina. No ambiente de
coadjuvante, mas muitas vezes ela assume o trabalho, com a necessidade de mão­de­obra
papel principal no contexto em que se o comércio e as indústrias abriram as portas
encontra, exemplo disso são as mulheres que para que as mulheres pudessem trabalhar.
ajudaram os maridos na colonização de Esse exemplo não pode ser considerados
Rondônia, que tiveram participação especial como vitória, pois a mulher não foi inclusa
em muitos fatos, que formaram a sociedade, no mercado de trabalho pela sua competência
mas sempre foram deixadas nos bastidores. foi pela necessidade de uma mão­de­obra,
Os entrevistados na maior parte mulheres que no momento da Segunda Guerra Mundial
mostrou­nos, que, suas certezas são e estão ficou desfalcada, com a ida dos homens para
formuladas através das mídias televisivas, o campo de batalha, porém quando a guerra
que as iniciam em um circulo vicioso, de acabou houve uma tentativa de deixar as
formar cada vez mais pessoas alienadas. Ao mulheres em suas casas, contudo elas não
serem arguidas em sala de aula sobre qual aceitaram. Foi a negativa das mulheres ao
sua concepção de gênero, ao darem respostas recusarem ficar sem o emprego que
das mais criativas e voltadas para o que caracterizou uma das conquistas alcançadas,
aprendem pela mídia televisiva, acabam e mesmo essas mudanças que ocorreram há
ficando totalmente fora do contexto do que tanto tempo são quase totalmente
significa relação de gênero, por adquirirem o desconhecidas ou ignoradas.
conhecimento a respeito deste por veículo Ao culparmos os homens por machismos
descompromissado com a qualidade do excluímos as mulheres, esquecemos as vezes
ensino. que as mulheres são tão culpadas, pelo
Há necessidade de ser colocado em prática preconceito e discriminação ao propagarem

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aos filhos e filhas, a desigualdade de gênero certos estereótipos de figuras do gênero


essa culpa também recai sobre os ombros feminino são apresentadas nas telenovelas
femininos. Na maior parte dos questionários brasileiras.
aplicados a resposta a pergunta se há Os papéis sociais que homens e mulheres
discussão de gênero em casa a resposta foi possuem deve ser dosado com o respeito
negativa, esta resposta demonstra que se não entre ambos, demonstrar esse respeito aos
aplicarmos a nossos filhos educação com filhos para que desde a infância haja na
compromisso, a ensiná­lo a respeitar o outro, criança o modelo a ser seguido. Tanto
seja ele ou ela quem for, será difícil menino, quanto meninas devem ser
evoluirmos a discussão de gênero, se é na ensinadas o que é de igualdade de gênero.
família e em casa o primeiro lugar para Uma parcela da culpa pelo desconhecimento
discussão de gênero. É dentro de casa, no ceio pode ser atribuída a educação midiática, que
familiar, no relacionamento do pai com a mãe projeta o imaginário da mulher feminina, que
e dos pais com os filhos. Somente depois é deve ser desejada e cortejada, como se fosse
que a escola será outro espaço para o ensino o da mulher feminista, esta confusão que
da igualdade de gênero a criança vai ter esse deve ser gerada diante da parcela da
contato com os coleguinhas, que irão adentrar sociedade que não detém o esclarecimento
em sua vivência, nesse estagio da vida é dos conceitos de gênero dos termos de
importante que seja ensinado a igualdade, feminista e feminina, é assimilada pela
equidade e respeito pelo outro. comunidade e reproduzida em seus lares. Ou
Como na escola em questão não há seja, entendemos o que Sheila Castro (2009),
discussão e gênero com os alunos observamos afirma como consciência feminina, o que é
que ela deve surgir desde o ensino pré escolar diretamente imposto a mulher pela sociedade
com o incentivo às crianças respeitarem as e atualmente com mais força pela mídia –
diferenças e no nível médio a discussão de moda, televisão, revista, rádio. É o sujeito
gênero deve surgir como forma de formado diretamente para ser desejado,
entendimento do indivíduo enquanto cidadão. cobiçado, elogiado. E, a cada momento
Nos surpreendeu conhecer pessoas que desejar novos estereótipos.
pesquisam gênero, e estão passando por Do mesmo modo compreendemos Sheila
situações de violência sexual e intelectual, e Castro (2009), quando coloca que a questão
essas não são pessoas que faltam o do feminismo deve ser inserida no sujeito
conhecimento, mas por causa do meio social enquanto indivíduo, quando ele busca
não denunciam e demonstram com essa resgatar o conhecimento de seus direitos e de
atitude que conhecer não é entender, nem suas obrigações, pois este conhecimento
compreender. Essas mulheres mesmo ainda não é criado pelo habitus mas, sim pela
estudando sobre gênero e igualdade não necessidade individual criada pelo próprio
compreendem que a igualdade começa da sujeito quando nele há consciência política
dentro da pessoa, e só depois da do outro, a ou necessidade de exercer o poder decisório,
mulher precisa conhecer­se e respeitar­se para tendo a consciência de gênero ou política
poder conquistar o respeito do outro. sendo formada dentro da família e nas
A sociedade não deve continuar propensa, instituições de ensino.
a permanecer acreditando em tudo que a
mídia televisiva lhe oferece, as discussões
devem circular mediante a dúvida, e na
curiosidade em saber o como e o porquê de

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do dinamismo patriarcal, ele é o principal arquétipo
1 O Território Federal de Rondônia, ex­ organizador dos limites, das leis, dos deveres e metas
Guaporé, criado pelo decreto nº 5.812, de 13.09.43, é da vida individual e social. (BYINGTON, Carlos B. A
constituído de áreas desmembradas dos estados do Democracia e o Arquétipo da Alteridade. In:
Amazonas e Mato Grosso. O Serviço de Patrimônio da Junguiana. Revista da sociedade brasileira de
União (SPU) e Governo do Território de Rondônia até psicologia analítica. Nº. 10 ISSN 01308251989 Rio do
a promulgação do Estatuto da Terra – lei nº 4.504, de Janeiro, setembro 1992. p.p: 92­103. p.100)..
30.11.64, foram os órgãos responsáveis pelas
concessões de terras no território de Rondônia. Com a Referências
criação do Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária – INCRA através do decreto lei n°
1.110 de 09 de julho de 1970, como autarquia
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo.
vinculada ao Ministério da Agricultura, passando Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
desde então a ser o Órgão Federal executor, por
excelência tanto da política de desenvolvimento como BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico.
a reforma agrária do país. Entre 1968 e 1970, com a Rio de Janeiro: DIFEL, 1989.
conclusão da BR­364 entre Cuiabá e Porto Velho,
Rondônia despertava como o novo eldorado brasileiro.
E de várias regiões do país colocavam­se em marcha CALDAS, Alberto Lins. Nas Águas do
em caminhões, ônibus carros de passeio na estrada de Texto: Palavra, Experiência e Leitura em
terra, barro e poeira para chegarem a Rondônia. Nos História Oral. Porto Velho: Edufro, 2001.
dados contidos nos relatórios já não havia mais
condições de receber novos colonos devido a grande
intensidade de migrantes que chegavam a procura de
CALDAS, Alberto Lins. Máquina Tribal
lotes rurais. Por isto foram criados posteriormente Espinosa. Revista Primeira Versão, v. 27, n.
mais 04 Projetos Integrados de Colonização PIC’s 252, p. 2 ­ 15, 2010.
assim como 02 Projetos de Assentamento Dirigidos
PAD’s e 04 Projetos Fundiários PF’s que cobriram CASTRO, Sheila. A Presença da Mulher na
integralmente os 24.294.400.0000ha.; pertencentes a
extensão geográfica de Rondônia.
Trajetória da Colonização no PIC Ouro
Preto/RO. Monografia, apresentada na
2 Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Universidade Federal de Rondônia – UNIR –
Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Departamento de História, 2009.
3 nsanguíneo de sua mãe, e não de seu pai,
contudo isto não quer dizer que os descendentes
COSTA, Benhur Pinós da; HEIDRICH,
fiquem com a mãe mais sim com o irmão da mãe (o Álvaro Luiz. A Condição Dialética de
tio), logo a mulher continua sem poder possuir até Produção do Espaço Social:
mesmo seu filho. Matriarcal referente a governos microterritorializações culturais urbanas 'a
exercido por mulheres e o Arquétipo da Grande Mãe É Favor' e 'Contra' a Sociedade. In: KOZEL,
o dinamismo mais básico da psique. Seus princípios
fundamentais são os de sobrevivência e propagação da
Salete; SILVA, Josué da Costa; FILHO,
espécie, daí sue essência se expressar pelo prazer da Sylvio Fausto Gil. Da Percepção e Cognição
sensualidade e da fertilidade. (BYINGTON, Carlos B. à Representação: Reconstruções Teóricas
A Democracia e o Arquétipo da Alteridade. In: da Geografia Cultural e Humanista. São
Junguiana. Revista da sociedade brasileira de Paulo: Terceira Marge, 2007.
psicologia analítica. Nº. 10 ISSN 01308251989 Rio do
Janeiro, setembro 1992. p.p: 92­103. p.100).
FURLANI, Lúcia Maria Teixeira.
4 Na filiação patrilinear, chamada as vezes de Autoridade do Professor: meta, mito ou
direito paterno, todo indivíduo é membro do grupo nada disso? São Paulo: Cortez: Autores
parental consanguíneo de seu pai, e não de sua mãe Associados, 1988.
contudo o pai detém o poder sobre seu filho.
Arquétipo patriarcal Devido à capacidade de abstração

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