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Políticas Públicas em Saúde Mental:

abordagens e desafios

Carmem Lúcia Freitas de Castro


Cynthia Rúbia Braga Gontijo
Bruno Vasconcelos de Almeida
(Organizadores)

Universidade do Estado de Minas Gerais


Campus Belo Horizonte
Faculdade de Políticas Públicas “Tancredo Neves”
Eduemg - Barbacena 2013
Papel - Apergamiado 75g
Acabamento - Simples
Número de Páginas - 284
Não Comercializado
Tiragem - 1000 exemplares

Capa/Projeto gráfico/Diagramação:
Felipe Míquéias Vilaça

Revisão Português:
Vanda Rosignoli

Colaboradora:
Jaqueline de Souza Santos

Desenhos:
Antônio Carlos da Silva, Angelita Aparecida da Silva, Adriano Augusto
de Souza, Ângela Aparecida Cruz, Emerson Carolino Pereira, Edmar Vas-
concelos, Elida RaimundaBitencourt, Fillippe Augusto Campos, Glicério
Assunção dos Santos, Guilherme Rebuite Soutto, João Batista do Nas-
cimento, João Paulo Barreto, Paulo Sérgio de Lima, Rosane Aparecida
da Paixão, Roberto Gonçalves, Vanessa Cristina do Rosário e Wallace
Fernando Rodrigues

Agradecimentos:
Faenol - Fundação de Atendimento
Especializado de Nova Lima

P769 Políticas públicas em saúde mental : abordagens e desafios/


Carmem Lúcia Freitas de Castro, Cynthia Rúbia Braga Gontijo,
Bruno Vasconcelos de Almeida (organizadores). – Belo Horizonte:
EdUEMG, 2013.
324 p.

Inclui bibliografia.

ISBN: 978-85-62578-74-8

1. Política pública. 2. Educação. I. Castro, Carmem Lúcia


Freitas de. II. Gontijo, Cynthia Rúbia Braga. III. Almeida, Bruno
Vasconcelos de. IV. Universidade do Estado de Minas Gerais V.
Título.

CDU: 35:614
Ficha catalográfica: Fernanda Costa Rodrigues CRB 2060/6 ª
Universidade do Estado
de Minas Gerais
Reitor
Prof. Dijon Moraes Júnior

Vice-Reitora
Profa. Santuza Abras

Chefe de Gabinete
Prof. Eduardo Santa Cecília

Pró-Reitora de Ensino
Profa. Renata Nunes Vasconcelos

Pró-Reitora de Extensão
Profa. Vânia Aparecida Costa

Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação


Profa. Terezinha Abreu Gontijo

Pró-Reitor de Planejamento e Gestão e Finanças


Prof. Giovânio Aguiar

Diretor Geral do Campus BH


Prof. Roberto Werneck Resende Alves

Faculdade de Políticas Públicas


“Tancredo Neves”/CBH/UEMG

Diretora
Carmem Lúcia Freitas de Castro

Vice-Diretora
Cynthia Rubia Braga Gontijo

Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais


Coordenação: Daniele Alves Ribeiro
Sumário
APRESENTAÇÃO ................................................................................
07
PREFÁCIO ..........................................................................................
15
CAPITULO I
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL ATÉ O GOVERNO ATUAL
Monica Eulália da Silva........................................................................18
CAPITULO II
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIATRICA: unidade e oposição
Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto,
Annette Souza Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira ...........66
CAPITULO III
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS
Bruno Vasconcelos de Almeida, Luiz Augusto Lima de Ávila
..........................98
CAPITULO IV
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO Marisa
Sanabria................................................................................158
CAPITULO V
MULHERES USUÁRIAS DE ALCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a
economia solidária e suas contribuições no campo da saúde mental
Ana Paula Paes de Paula, Fernanda Tarabal Lopes...................................180
CAPITULO VI
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DE REDUÇÃO DE DANOS NO CAPSAD
Ricardo Wagner Machado da Silveira...................................................232
CAPITULO VII
RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS
COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de
todos nós - conhecer, valorizar e transformar
Mônica Regina Jacinto Reis ...............................................................27
8
ORGANIZADORES E AUTORES .........................................................3
7

APRESENTAÇÃO

Este livro tem sua grande consistência pautada


no trabalho exitoso, que a equipe do Núcleo de Extensão
da Faculdade de Políticas Públicas “Tancredo Neves” -
FaPP/CBH/UEMG desenvolveu a partir do ano de 2012,
junto à Superintendência Regional de Saúde de Belo
Horizon¬te (SRS-BH) / Núcleo de Redes de Atenção à
Saúde – NRAS - Secretaria de Estado de Saúde.

Na ocasião, a proposta foi a de possibilitar


diálogos consistentes sobre a saúde mental de crianças e
adolescentes, com as referências técnicas de municípios
da região metropolitana de Belo Horizonte.

As discussões surgidas nesses encontros de


formação abriram vista para um panorama riquíssimo,
instigando os registros de alguns aspectos relacionados
à saúde mental.

A partir desse movimento foi possível efetivar esses


diálogos extensionistas, que ganharam forma e expressão
pelos desenhos que ilustram o livro, os quais foram criados
por diversos sujeitos que compartilham os espaços
de atendimentos, disponiblizados pela Fundação de
Atendimento Especializado de Nova Lima (FAENOL). Esta
parceria não só abrilhantou este trabalho, como também
8

reforça o compromisso que a FaPP/CBH/UEMG cunha


aos programas e projetos de extensão que desenvolve.

Os capítulos que compõem essa obra transversam


o tema “Saúde Mental”, mas cada um apresenta uma
perspectiva que serve de base para fundamentações
sobre a temática. Num percurso independente, os textos
discursam sobre um universo que ainda é visto como uma
incógnita para a maioria da população.

Os mistérios que rondam o imaginário coletivo


sobre a saúde mental vêm solicitando, com urgência, que
alguns aspectos sejam desmistificados. Para isso, nada
melhor que as informações aqui tecidas. Informações
estas que têm a capacidade de descortinar certos
tabus, esclarecer dúvidas que intimidamos de povoar
nossas rodas de conversas e, principalmente, colocar-
nos como corresponsáveis pela trajetória das políticas
implementadas em favor dessa parcela da sociedade.

Na condição de coordenadora do Núcleo de


Extensão da FaPP/CBH/UEMG, sinto-me satisfeita em
assistir a edição desta obra, a qual de dispõe a aproximar
os leitores desse universo ainda tão sinuoso e delicado.

A escolha pela organização dos capítulos


considerou a abordagem de aspectos mais gerais para
os mais específicos. Assim sendo, o livro inicia-se com
o capítulo Histórico da saúde mental no Brasil até o
9

governo atual. Esse texto estabelece uma análise dos


paradoxos existentes entre o reconhecimento dos direitos
jurídicos e sociais do indivíduo diagnosticado como louco.
Como a sociedade se comporta diante dessa situação em
diferentes momentos da história? Como os status sociais,
clínicos e judiciais se alteram ao longo do tempo?

Estes questionamentos e a constituição do cenário


brasileiro são magistralmente delineados no texto. Ao
mesmo tempo em que nos permite conhecer o percurso
da “Reforma Psiquiátrica Brasileira”, encanta-nos com a
delicadeza com que os fatos são trabalhados. Instiga-nos
a curiosidade em conhecer a história e entender como
os movimentos sociais interferiram na Política Nacional
de Saúde Mental, no Brasil. E ainda nos deixa curiosos
por entender que rumos tomarão as políticas públicas,
diante de novas demandas trazidas pela modernidade,
questionando que “novas roupagens” o sistema apresenta
para enfrentar os desafios da contemporaneidade.

As autoras do capítulo A família e a reforma


psiquiátrica: unidade e oposição fazem, inicialmente,
um panorama histórico das políticas públicas que surgem
atreladas aos movimentos sociais em prol das adequações
dos modelos de atendimento aos “doentes mentais”.
O cenário destacado pelo texto inclui a participação de
usuários e seus familiares na organização de serviços
10

psiquiátricos, num protagonismo positivo em favor de


suas demandas e interesses.

Dessa forma surge, por exigência dos movimentos,


um diálogo de saberes; o que destaca atores sociais que
antes estavam silenciados. Conhecer como o “fraco” se
torna “forte”, tão capaz de deixar impresso sua marca
no movimento de reforma manicomial é, no mínimo,
interessante. Vale a pena, ler e conhecer.

Um dos princípios de nossa legislação é a igualdade


entre os indivíduos, entendendo que todo sujeito precisa
ter seus direitos garantidos. Tal pressuposto está
descrito em diversos documentos oficias, a exemplo de
nossa própria constituição. Por isso, parece-nos ilógico
conceber que um ser humano possa ter explicitamente
seus direitos violados. Essa é a abordagem apresentada
pelo capítulo Saúde Mental e Direitos Humanos. Por
meio dele, os autores discorrem sobre as contradições de
alguns pressupostos que regem as relações humanas,
suas premissas, desafios e contradições.

No decorrer da exposição, o texto pauta-se


em uma série de direitos e instrumentos oficiais sobre
os quais respaldamos nossas condutas e ações. As
legislações implantadas ao longo dos anos, com vistas
a regulamentar as políticas públicas, o que não garantia,
por extensão, a garantia do direito humano. O que, a
11

princípio, seria a garantia pode, muitas vezes, significar


exatamente o contrário.

Caminhar pelas cordas bambas impostas pelos


modelos sociais tem se configurado como um desafio
dos mais perversos nesta contemporaneidade. Isso
para o universo feminino é ainda mais doloroso, como
nos aponta o capítulo A Maturidade da Mulher no
Mundo Contemporâneo. Os tempos modernos,
paradoxalmente, impõem avanços profissionais ao
mesmo tempo em que mantêm padrões arcaicos sobre os
papéis e representações sociais. Tal situação tem gerado,
em muitas mulheres, uma tempestade de conflitos que
podem ocasionar sentimentos conflitantes e instabilidade
emocional.

Essa é a perspectiva sobre a qual a autora desse


texto discorre. Ela nos lembra de como transcorremos as
diferentes fases da vida e como a maturidade nos traz,
como vantagem, a resiliência diante das intempéries. De
forma clara e transparente, a autora descreve como a
maturidade se apresenta, ora como uma fase de grande
produtividade, ora como um peso extremo. Porém, ela
também nos lembra do que depende de nós para que, no
final, tudo dê certo.

Também, discorrendo sobre o gênero feminino


e o mundo do trabalho, o capítulo Mulheres usuárias
12

de álcool e outras drogas: reflexões sobre a


economia solidária e suas contribuições no campo
da saúde mental discute e reflete sobre os contextos
de atendimento às mulheres usuárias de álcool e outras
drogas. Debruçar-se sobre as nuances que provocam
movimentos tão drásticos no universo dessas mulheres,
é algo desafiador.

Um foco escolhido para imersão das autoras foi


como o trabalho e a economia solidária agregaram valor
à vida dessas mulheres. Um aspecto que fica explícito no
texto é como somos incapazes de prever toda a extensão
que uma política pode alcançar. A exemplo da economia
solidária, que conseguiu mais do que a inserção social pelo
trabalho, alcançando também as mulheres em situação de
extrema vulnerabilidade em função das drogas. O trafegar
nesse universo possibilita a efervescência de aspetos até
então desconhecidos.

O diálogo entre as teorias e as práticas


experienciadas tem sido cada vez mais necessário no
enfrentamento dos dilemas emergidos no cotidiano dos
profissionais. O autor do capítulo Em busca de uma
clínica da redução de danos num Capsad revela sua
perspectiva sobre o tema, ao relatar como se “deu a
trajetória de um projeto de pesquisa-intervenção”, do qual
participou.
13

Há um delineamento das ações adotadas a


depender da perspectiva com que o paciente é visto. Tal
olhar determina os procedimentos, que, a depender do
observador e do contexto, resultará em procedimentos
diferentes. A variação dessa perspectiva afetará
diretamente a escolha do procedimento a ser adotado por
parte de quem o atende.

A leitura desse capítulo, com certeza, dará uma


clareza das potencialidades que todo sujeito possui e de
como as contribuições são significativas para o avanço
de situações que aparentemente se apresentam difíceis.

Somos sujeitos múltiplos, constituídos pelas


ricas experiências que agregamos em nossas múltiplas
dimensões. Isso significa que devemos ser vistos para
além do corpo que possuímos, ou seja, somos as emoções
que sentimos, as ideias que elaboramos, as leituras que
fazemos da vida que vivemos. Foi nesse viés que a
autora do capítulo Relato e análise de uma experiência
pedagógica com alunos com necessidades
educacionais especiais: projeto histórias de todos
nós: conhecer, valorizar e transformar descreveu sua
experiência.

Atuando pedagogicamente junto a sujeitos que


precisam ter seus direitos garantidos, a autora relaciona
três dimensões muito importantes: política pública,
14

inclusão e educação. Carregada da emoção que uma


experiência dessa natureza possibilita, o texto flui com
a singeleza de quem atua com a convicção dos seus
propósitos e princípios, seja humano, seja político, seja
profissional.

Ciente de sua função mediadora nesse processo


de inclusão, a autora insere-se nesse contexto como
um agente que proporciona mudanças, favorecendo
transformações significativas na vida dos atores
envolvidos.

A leitura desses capítulos é simplesmente


deliciosa!!

Depois de nos deixarmos transversalisar por essas


diferentes perspectivas da Saúde Mental, certamente
não seremos mais os mesmos. Estaremos acrescidos e
desmistificados de um imaginário que nos metem “presos
em camisas de força” inúteis e mentirosas. Podemos
vislumbrar outras certezas e riquezas, depositando em
nós outras tantas esperanças e capacidade de agregar
forças aos que lutam por garantir políticas públicas de
qualidade para os que dela dependem.

Boa leitura!!!

Darli de Souza Dias


Coordenadora do Núcleo de Extensão da FaPP/CBH/UEMG
15

PREFÁCIO

O livro Políticas Públicas em Saúde Mental:


abordagens e desafios constitui-se no mais recente
lançamento da nossa Faculdade de Políticas Públicas
Tancredo Neves, da Universidade do Estado de Minas
Gerais. É oportuno ressaltar a importância da sua
concepção pelos motivos que se seguem.

Em primeiro lugar, pela grande pertinência do tema e


por tudo o que ele significa: que a saúde física tem seu
complemento natural na saúde mental, na busca do
equilíbrio entre corpo e mente, fato tão realçado pela
máxima mens sana in corpore sano, a famosa citação
latina derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal,
numa resposta do autor à questão sobre o que as
pessoas deveriam desejar na vida. A correta afirmação
de que a saúde física, associada à mental, representa o
desejável modo de vida para todos nós humanos.

Saúde é conceito amplo, que não se esgota nos limites


físicos do nosso corpo. Há que a estender à  mente, de
modo que cada ser humano possa usufruir da plenitude
da vida, do processo de sua própria criação. Corpo e
mente têm de ser, portanto, cúmplices e complementares.

Dos indivíduos que alcançam esse equilíbrio temos,


como resposta, cidadãos mais lúcidos, mais éticos e
uma sociedade, como um todo, mais equilibrada. Isso explica
e justifica a adoção de políticas públicas em saúde mental
visando ao bem-estar social.

Os organizadores do livro, e esse é o segundo item a ser


particularmente salientado, levaram em conta a complexidade
do tema. Assim, ao idealizá-lo, situaram-no na perspectiva
dos direitos humanos, contemplando temáticas relevantes e
atuais, consideradas desafios na implementação das nossas
políticas públicas, como histórico, racionalidade, trabalho,
cultura, álcool e drogas, judicialização, medicalização e
intersetorialidade.

Foi confiado a especialistas convidados discorrer sobre


diversos subtemas presentes nesta publicação, de modo a
garantir não somente a cobertura integral de uma proposta
de trabalho no campo das políticas públicas, como também o
cumprimento, com sucesso, da associação entre o desafio e
a abordagem.

Assim, cumprimento vivamente seus organizadores e os


articulistas. É com justificado orgulho que prefacio este livro.

Prof. Dr. Dijon Moraes Junior


Reitor da UEMG
Capítulo I
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ
O GOVERNO ATUAL

Desenho: Vanessa Cristina do Rosário


18

CAPÍTULO I

HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO


BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Mônica Eulália da Silva

O texto que se segue tem a finalidade de


estabelecer um panorama relativo à construção das
políticas públicas de saúde mental no Brasil desde os
primeiros movimentos da Reforma Psiquiátrica até os
dias atuais, no então governo Dilma Rousseff. Apoia-se
na orientação de que uma trajetória histórica não se faz a
partir de um movimento linear e evolutivamente casuístico,
mas, sim, comporta os avanços e retrocessos, as idas e
vindas de um processo vivo, que caminha deparando-se
com novos desafios e seus enfrentamentos.

Por uma questão meramente didática, que


logiamente visa a uma melhor compreensão do tema,
o texto e suas partes foram organizados de forma a
destacar, em cada etapa, os aspectos estruturais que
julgamos mais relevantes neste percursso.

Um eixo estruturante...

O campo público de atuação chamado de


saúde mental tem conhecido no Brasil, a partir do final
da década de 70 e início dos anos 80, um processo

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


19
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

de transformações político-sociais, que deram início


a um novo reordenamento institucional cujas ações
têm se sustentado a partir da ruptura com modelos
segregadores de assistência e da construção de um
estatuto de cidadania para o doente mental, sujeito este,
usuário deste sistema. No Brasil, como em outras partes
do mundo, tais ações têm buscado recriar novos lugares
de convivência para a doença mental nos espaços
das cidades e no imaginário social. Este movimento,
intitulado de Reforma Psiquiátrica, vem imprimindo,
em diversos países, características próprias, traços
marcantes e contribuições importantes para as tentativas
de constução de novos modelos assistencias no campo
público da saúde mental.

Produto da categorização da loucura como


doença, tal como afirma Foucault (1978, 2003), a
instituição psiquiátrica e sua ciência se estabeleceram
historicamente apoiadas nas funções de tratar, cuidar,
proteger e curar. No entanto, o olhar crítico de Foucault
desvela uma nova perspectiva sobre a produção do
saber científico que, por mais de 200 anos, submeteu
o louco a uma relação de dominação, qualificando-o na
condição passiva de objeto despossuído de razão.

A dimensão da tutela e do cuidado que sempre


estiveram presentes, tanto na origem quanto no decorrer
da história da assistência psiquiátrica, encontraram,

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20
Mônica Eulália da Silva

na experiência brasileira, um balizamento crítico e


questionador, como podemos constatar com Delgado
(1992) em seu livro As Razões da Tutela1.

As políticas públicas de saúde mental no


Brasil constituíram-se impulsionadas pelas atuações
reformistas protagonizadas por usuários, familiares
e trabalhadores, alertados sobre os perigos de um
discurso que se afirma pelo intuito de proteger, sem
cuidar, aquele que se faz, retirando do sujeito sua
dimensão de cidadão. Tais ações foram se instalando a
partir do interior das instituições, mas sempre orientadas
para fora delas a fim de fazer dialogar toda a sociedade
sobre a produção de novos lugares para os conceitos de
doença mental e de doente mental.

O estatuto de cidadania para o doente mental,


tão valiosamente defendido pela Reforma Psiquiátrica
Brasileira, desafia o enquadramento jurídico e as
convenções sociais, pois requer um novo arranjo
conceitual para o tema. A relação que se pretende
estabelecer entre a experiência da loucura e o conceito de
cidadania sempre foi uma discussão aberta ao debate e a
constantes contradições e questionamentos. No discurso
do Direito, loucura e cidadania são conceitos que se

1 Nesta obra, o leitor tem a oportunidade de refletir sobre diversas experiências, nas
quais a instituição psiquiátrica é chamada a ocupar, em nome do ordenamento jurí-
dico civil, um lugar que num só golpe pode ter o poder de ironicamente aniquiliar
o sujeito em sua cidadania e em sua subjetividade.

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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

opõem já que, no âmbito jurídico brasileiro, “o cives não


pode ser alienado da razão” (DELGADO, 1992, p. 35). A
ideia de uma cidadania plena se apoia numa perspectiva
racional que atrela o sujeito-civil à imagem daquele que é
responsável e consciente de seus atos, bem como capaz
de gerir sua vida. Segundo o Código Penal Brasileiro,
em seu artigo 26, “É isento de pena o agente que, por
doença mental ou desenvolvimento mental incompleto
ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão,
inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato
ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.”
(BRASIL, 1940). Se a razão é condição para o exercício
pleno da cidadania, ao louco resta-lhe a margem deste
sistema, já que sua condição de desrazoado o empurra
para este lugar.

A perspectiva psiquiátrica que localiza o louco como


deficitário da razão toca o campo do Direito, contribuindo
para a consolidação da noção de periculosidade e da
incapacidade do louco de exercer os direitos civis. O
estatuto da inimputabilidade2 surge no texto de lei como
uma espécie de compensação, que determina ao poder
público o dever de cuidar, tratar e proteger o doente
mental. “O instituto da inimputabilidade é das mais altas
2 Para uma análise mais aprofundada entre Loucura e Inimputabili-
dade no campo do Direito, ver o artigo de PERES, Maria Fernanda
Tourinho; NERY FILHO, Antônio. A doença mental no direito pe-
nal brasileiro: inimputabilidade, irresponsabilidade, periculosidade
e medida de segurança. 

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Mônica Eulália da Silva

expressões da generosidade da lei penal” (DELGADO,


1992, p. 44). Entretanto, impedido de responder por seus
atos, em um só golpe, o Direito acaba por retirar do doente
mental a possibilidade do exercício de sua cidadania.

Se por um lado a Reforma Psiquiátrica Brasileira


quer inserir a loucura no âmbito das questões coletivas
da cidadania, por outro, reconhece a radicalidade dessa
experiência humana. Se a Reforma Psiquiátrica Brasileira
reivindica a cidadania plena ao louco, ela o faz buscando
reinventar o próprio conceito de cidadania. Não se trata
de questionar se o louco é ou não um cidadão, mas, sim,
qual estatuto de cidadão pode ser atribuído a este sujeito.

Neste cenário, as ações desinstitucionalizantes


ganharam relevo, pois estão em consonância com uma
maneira de tratar que privilegia preferencialmente, quando
não exclusivamente, instituições abertas e modelos
assistenciais comunitários. Trata-se de uma mudança de
posicionamento que se desloca de uma vertente passiva,
representada pela figura do paciente, para outra dinâmica
protagonizada pela figura do sujeito-cidadão.

Agregando mais questionamentos a esta


temática, está o debate acerca de duas posições
extremamente antagônicas. De um lado, encontra-se
um viés que pretende a extinção definitiva dos hospitais
psiquiátricos por considerá-los ineficientes na função de

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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

tratar e extremamente danosos à subjetividade. “[...] por


mais grave que se apresente um caso, ele não há de
beneficiar-se de uma hospitalização; é em nosso serviço3
e não em outro, supostamente mais complexo ou com
mais recursos, que há de encontrar lugar.” (LOBOSQUE,
2003, p. 22-23). Do outro lado, encontram-se aqueles
que concordam com a necessidade de modelos de
assistência em saúde mental mais humanizados, mas
que consideram a extinção do hospital psiquiátrico um
radicalismo injustificável. Esta perspectiva privilegia o
discurso médico e propõe que a reforma se dê no interior
do hospital através da modernização deste e do acesso a
novos medicamentos e tecnologias.

A Política Nacional de Saúde Mental brasileira tem


adotado uma posição mais próxima da primeira versão por
considerá-la uma perspectiva que privilegia a dimensão
da cidadania, da individualidade e que é capaz de trazer
para o centro da questão um debate franco e aberto
sobre os Direitos Humanos e as relações de poder que se
estabelecem sorrateiramente nas relações institucionais.
Não ignora, contudo, os benefícios farmacológicos e
os avanços científicos, mas os engloba a uma visão
ampliada que se constitui através de ações psicossociais,
da articulação entre diversos campos de saber e da

3 A autora se refere aos serviços substitutivos ao modelo manicomial, os


CAPS (Centros de Atenção Psicossocial em saúde mental). No decorrer do
texto o leitor encontrará uma melhor definição dos mesmos.

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Mônica Eulália da Silva

construção de relações de cuidado não hierarquizadas de


poder.

Sem dúvida, este modelo se insere no cerne de


muitas polêmicas, principalmente nos tempos atuais em
que a sociedade questiona o viés desinstitucionalizante
desta política no que toca principalmente o uso abusivo
de drogas, entre elas o crack. Ainda assim, a história da
implantação da Política Nacional de Saúde Mental no
Brasil nos convida a um amplo e complexo debate sobre
a construção de um modelo assistencial de cuidados
que conversa com a sociedade através de uma rede de
serviços, ou equipamentos abertos, descentralizados e
territorializados.

Reforma Psiquiátrica: algumas experiências...

O consenso com relação à ineficácia do modelo


manicomial, associado a determinados contextos
históricos, levou diversos países a empreenderem uma
Reforma em seus modelos de assistência à saúde mental.

O fim da Segunda Grande Guerra ocorrido na


Europa foi identificado por Desviat (1999), um dos
principais autores que contribuem para a compreensão e
análise do campo público da saúde mental, como sendo
o momento em que surgiram as primeiras experiências
de contestação ao então modelo de assistência no qual o
manicômio havia se consolidado como elemento central. O
Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63
25
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

pós-guerra constituiu-se como um momento de profundas


mudanças sociais e econômicas que se refletiram no
fortalecimento de movimentos civis e na busca por uma
sociedade mais justa e humanitária. Momento este
em que, após os horrores do holocausto, a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (1948) surgia como uma
espécie de pacto pela vida e garantia dos direitos básicos
à dignidade humana.

O tipo de sistema público de saúde empregado,


bem como as diferenças culturais e socioeconômicas de
cada país influenciaram diretamente as características
dos diversos modelos de Reforma Psiquiátrica que se
seguiram. Estas ações foram desde tentativas de reformar
o manicômio, ideológica e estruturalmente, até as mais
radicais, ou seja, aquelas que buscaram sua extinção.

Os estudos de Desviat (1999) apresentam uma


análise sistemática dos principais movimentos de
Reforma Psiquiátrica ocorridos no mundo. Destacam-
se três importantes conceitos que, para o autor, sempre
estiveram presentes de maneira específica em todos os
modelos. São eles: a organização do território de atuação,
a continuidade do atendimento e a integralidade dos três
níveis de atendimento em saúde, primário, secundário e

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


26
Mônica Eulália da Silva

terciário4. Esses aspectos foram desenvolvidos, reforçados


ou abandonados em cada país. Apresentamos, a seguir,
algumas destas experiências.

No início da década de 40, surge, na França,


a Psicoterapia Institucional. Em 1940, Tosquelles, um
então exilado catalão, inicia no hospital de Sant-Alban
um modelo que ampliava a ideia de doença para toda
a instituição, pacientes e cuidadores. Tratava-se de
uma leitura psicanalítica, que, posteriormente, e a partir
de uma orientação lacaniana, privilegia a linguagem, o
hospital passou a ser considerado um campo de redes
de significantes, no qual a circulação da palavra poderia
transformar um contexto repressor em possibilidades
de cura. No campo das políticas públicas, entre os anos
de 1945 e 1947, surgia a política de setor, definida por
Desviat (1999) como uma tentativa de buscar novas
formas de institucionalizar a doença mental através de
transformações permanentes no interior do hospital e da
criação de instituições intermediárias a ele presentes num
mesmo território organizado através da descentralização
em pequenas zonas e pela multiplicidade de serviços
comunitários. A psicoterapia institucional foi considerada “a
tentativa mais rigorosa de salvar o manicômio” (DESVIAT,
1999, p. 25).
4 Atendimento primário refere-se à atenção básica de saúde. Atendimento
secundário refere-se ao atendimento especializado em saúde. Atendimen-
to terciário: refere-se ao atendimento de urgência e emergência em saúde.
Ver ABC do SUS (1990).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

A experiência da Inglaterra encontrou em Bion


e Maxwell Jones alguns de seus principais expoentes.
Seu elemento mais representativo foi, sem dúvida, a
criação das primeiras Comunidades Terapêuticas5. Nesta
proposta, buscou-se a transformação do hospital num
espaço humanizado onde todos, funcionários e pacientes
pudessem participar coletivamente, decidindo sobre as
questões internas a ele. Suas principais características
foram a liberdade de comunicação, a análise constante da
dinâmica institucional, a tendência em abolir as relações
de autoridade verticalizadas e a ênfase em atividades
sociais e festivas.

Tal iniciativa integrava-se ao Serviço Nacional


de Saúde inglês, que dividia o país em regiões de
aproximadamente 2 milhões de habitantes e estas
subdividiam-se em áreas de saúde com cerca de 250 mil
habitantes. Cada uma destas regiões era responsável
pelo planejamento e financiamento das ações de
saúde naquela área. Esta organização, que se dava
através de uma política sanitária planejada, permitiu o
desenvolvimento de um atendimento primário eficiente,
especialmente na tarefa de controlar a demanda e
permitir acesso a diversos dispositivos de atenção à
saúde presentes nos territórios adscritos. A continuidade

5 Para maior compreensão do modelo das comunidades Terapêuticas, ver


o texto “Crônicas do Hospital Santos Olhos”, presente no livro de BARRE-
TO, Francisco Paes. Reforma Psiquiátrica e movimento lacaniano.

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Mônica Eulália da Silva

do tratamento na atenção primária se dava através da


figura do médico generalista, considerado a base deste
sistema. Já os médicos especialistas poderiam, inclusive,
comparecer nas residências, desde que solicitados. As
demandas ambulatoriais e hospitalares eram cobertas
por esta mesma equipe.

Na verdade, para Desviat (1999), apesar da


enorme contribuição na tentativa de avançar nos modelos
de uma melhor assistência à saúde mental, a experiência
inglesa da Comunidade Terapêutica e a francesa da
Psicoterapia Institucional se resumiram em uma tentativa
restrita de reformar o interior do espaço hospitalar, mas
não propôs alterar em nada a forma com que a sociedade
compreendia o adoecimento mental.

A Psiquiatria Comunitária norte-americana, tal


como ficou conhecida, se apoiou sob dois conceitos,
a assistência comunitária e a prevenção. Os estudos
de Desviat (1999) apontam que, em 1963, no governo
Kennedy, foi apresentado à Câmara dos Deputados
um projeto cujo nome era Community Mental Health
Centers Act que propunha a criação de serviços para a
prevenção ou o diagnóstico, a assistência, o tratamento
da doença mental e a reabilitação das pessoas. A
criação destes Centros foi norteada pelos princípios
da acessibilidade aos serviços, ampla informação
à população dos diferentes programas oferecidos,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


29
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

gratuidade dos mesmos, levantamento das necessidades


de toda a população e pela responsabilização do governo
ao doente e sua família. Os centros de saúde mental
ofereciam atendimentos de urgência e hospitalização.
Funcionavam 24 horas por dia, sete dias por semana e
deveriam ser referência para uma população entre 75 a
200 mil habitantes. Atendiam casos de pacientes adultos,
infantis, idosos, egressos de internações e dependentes
químicos. No entanto, considerando que o sistema de
saúde americano historicamente privilegia os interesses
das grandes instituições de tratamento e prioriza o
atendimento centralizado no poder aquisitivo do indivíduo,
este modelo de assistência comunitária em saúde mental
não poderia se sustentar. Dos 2000 serviços previstos no
governo Kennedy apenas 600 foram criados.

Com relação à noção de prevenção, esta se


sustentou em conceitos epidemiológicos e de saúde
pública, apoiados na ideia de risco e populações de risco
(CAPLAN apud DESVIAT,1990). Era preciso intervir
não apenas no indivíduo, mas também no seu entorno,
ou seja, nas instituições, nas condições econômicas e
sociais nas quais o indivíduo estava inserido e no acesso
à cultura. Este viés preventivo dialogou harmoniosamente
com algumas perspectivas higienistas e eugênicas.
Teve como um de seus expressivos desdobramentos a

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


30
Mônica Eulália da Silva

psiquiatrização da vida cotidiana, desencadeando uma


espécie de banalização diagnóstica.

Na Itália, Franco Basaglia deu início ao modelo


mais radical e paradigmático da Reforma Psiquiátrica no
contexto internacional, foi a chamada Psiquiatria Anti-
institucional. Não é por acaso que esta foi a experiência
que mais influenciou o modelo brasileiro. Em 1961, no
cargo de diretor do manicômio de Gorizia, Basaglia
iniciou uma ampla mudança no interior do hospital,
transformando-o inicialmente em uma Comunidade
Terapêutica. Contudo, certo de que esse modelo trazia
importantes limitações, empreendeu obstinadamente um
segundo momento e o mais radical: devolver o doente
mental à sociedade e desarticular o aparato custodial do
manicômio. A Reforma psiquiátrica italiana considerava o
hospital psiquiátrico como uma ameaça real à dignidade
e aos Direitos Humanos. Considerava a instituição
totalmente ineficaz do ponto de vista clínico e um perigoso
foco de produção da violência institucional cujo resultado
era o aniquilamento da subjetividade humana. O modelo
italiano transformava a prática psiquiátrica em uma ação
efetivamente política.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


31
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Reforma Psiquiátrica Brasileira: um pouco de


história...

A história da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB),


motor que impulsiona e alimenta as políticas públicas de
saúde mental no Brasil, é objeto de estudo de diversos
autores como Amarante (1995), Desviat (1999), Pitta
(2011), entre outros. Para compreendermos um pouco
desta trajetória de mais de três décadas, recorremos às
suas contribuições e optamos por organizar esta parte
do texto em décadas para a melhor coerência do texto.
Muitos aspectos presentes nas experiências apresentadas
anteriormente poderão ser facilmente identificados aqui,
mas, sem dúvida, a mais marcante, como já foi dito, é a
influência italiana.

Se pudermos definir um primeiro momento, uma


das formas de fazê-lo é delimitar este período até o fim da
década de 70. Trata-se de um momento em que a saúde
mental no Brasil estava consolidada sob as estruturas de
enormes aparatos manicomiais. A chamada “Indústria da
Loucura” se caracterizava pelo financiamento de recursos
públicos para a iniciativa privada com fins de construção
e manutenção de grandes manicômios. Segundo Pitta
(2011), entre 1965 e 1970, a população manicomial nas
instituições públicas no Brasil permaneceu sem grandes
alterações, mas nas instituições privadas conveniadas,
esta clientela pulou de 14 mil em 1965 para 30 mil em

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


32
Mônica Eulália da Silva

1970. Em 1982, os leitos psiquiátricos em instituições


privadas já eram 98 mil. A proporção era de 20% de leitos
públicos e 80 % de leitos conveniados.

Esta realidade se inseria em um contexto mais


amplo que definia, segundo Amarante (1995), o sistema
de saúde público do país nas décadas de 60 e 70.
Tempos de governos militares e de uma assistência
seletiva e elitista com foco na cura da doença e não na
promoção da saúde. O acesso aos serviços públicos
era um direito apenas dos trabalhadores que possuíam
carteira profissional assinada e que, portanto, contibuíam
para o Instituto de Previdência Social. Somava-se a
isso o fato de que os verdadeiros beneficiados deste
sistema eram os proprietários de instituições privadas,
já que, em todas as áreas da saúde, se dava a política
que ampliava desproporcionalmente a contratação de
leitos, procedimenos e o consequente sucateamento
do sistema público. A ideia de que tal prática traria mais
qualidade ao sistema de saúde contrastava com a quase
total desassistência encontrada pela população. O campo
da saúde mental era um dos mais lucrativos para o setor
privado já que, nesta área, o número de internações só
aumentava, tendo em vista que, em sua maioria, eram de
longas durações.

Já no final da década de 70 e início dos anos


80, muitos trabalhadores da saúde mental já se

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


33
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

mobilizavam em torno da necessidade de mudanças.


Historicamente, este período ficou marcado como um dos
mais efervescentes da história política de nosso país em
função da grande mobilização popular que se organizava
pelo fim do regime ditatorial militar, que governava o
Brasil. Novos ventos sopravam nos diversos setores da
sociedade levando ideais de liberdade, de igualdade e
de justiça social. Um novo projeto político democrático
iniciava sua consolidação na sociedade brasileira. As
denúncias ao então modelo de saúde mental centrado
na figura do manicômio pediam um novo reordenamento
político pautado na superação de estruturas de cuidado e
proteção arbitrárias , bem como de práticas disciplinares,
tal como apontadas nas obras de Foucault (1978, 2003).
Os movimentos organizados de trabalhadores discutiam
melhores condições de trabalho e uma nova lógica de
assistência pública mais participativa e humanizada.
Destacam-se aqui, segundo Amarante (1995), a criação em
1976 do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES),
e do movimento de Renovação Médica (REME). Ambos
constituindo-se como importantes espaços de discussão
e construção das bases políticas das Reformas Sanitária
e Psiquiátrica no Brasil. No ano de 1978, destacou-se o
surgimento de um outro movimento de trabalhadores, o
Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental, o MTSM.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


34
Mônica Eulália da Silva

Esses movimentos conquistaram importante


prestígio junto à sociedade, atuando principalmente a
fim de levar ao conhecimento público as denúncias de
torturas, mortes e a má gestão do dinheiro público. Esse
momento abria para a sociedade brasileira a forma com a
qual o Estado administrava o tratamento aos seus doentes
mentais, assim como toda a violência institucional por ele
praticada. Entre as graves denúnicas, havia a de que os
espaços hospitalares eram utilizados para a prática de
tortura de presos políticos, bem como para a ocultação de
cadáveres no regime militar.

No caso dos hospitais do DINSAM, por


exemplo, que nos tempos do regime
militar foram utilizados para a tortura e
o ‘desaparecimento’ de presos políticos,
e instrumentalizados para servir às
empresas da loucura, existiram sérias
intervenções, marcando decisivamente
aqueles que delas foram objeto.
(AMARANTE, 1995, p. 95).

Situações como estas fizerem deste, um período


em que, segundo Amarante (1995), a saúde mental foi
utilizada como instrumento a serviço do governo, o que
também contribuiu para o questionamento do uso e
da função social das práticas médico psiquiátricas e
psicológicas existentes neste campo.

Justamente neste período, como vimos em Pitta


(2011) e Delgado (1992), o movimento reformista entrava

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


35
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

em contato, com todo vigor, com a influência das obras


de Michel Foucault, Fellix Gattari, Goffman, bem como
Robert Castell e Franco Basaglia. Alinhando-se ao
momento histórico e político de redemocratização do país
e a valorização dos direitos civis, a tradição italiana foi,
aos poucos, enraizando e fazendo ressoar o tema da
cidadania do louco no cenário brasileiro.
Se quisermos tomar um núcleo discursivo
em que tal problemática é mais nitidamente
evidenciada, podemos valer-nos das
experiências brasileiras que afirmam sua
filiação à recente tradição italiana. No
Brasil, embora com diferenças notáveis,
a introdução de práticas que afirmavam
uma ‘interlocução’ com a experiência da
Psiquiatria Democrática iniciou-se no final
dos anos 70 e começo dos 80, para tornar-
se mais enfática, posto localizadamente,
nos últimos 5 anos. O ‘problema’ da
cidadania do louco, embora central nessa
tradição basagliana, não é exclusivo
dela, e deve ser igualmente atribuído à
conjuntura brasileira de redemocratização
e redefinição constitucional. (DELGADO,
1992, p. 16-17).

O momento seguinte, na esteira da Reforma


Psiquiátrica brasileira, pode ser compreendido, tal
como aponta Amarante (1995), pelo que ele nomeou
de trajetória sanitarista. Iniciou-se nos primeiros anos
da década de 80 e caracterizou-se pelo processo que
culminou com o nosso Sistema Único de Saúde, o SUS.
A Reforma Sanitária imprimiu grandes e importantes
Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63
36
Mônica Eulália da Silva

contribuições na organização de um novo modelo de


política para o campo da saúde mental no Brasil. A criação
das chamadas Ações Integradas de Saúde, que mais
tarde se constituíram nos chamados SUDS (Sistemas
Unificados e Descentralizados de Saúde), refletiram as
novas diretrizes propostas para a saúde pública no cenário
internacional através da Organização Panamericana de
Saúde, a OPAS. Tais diretrizes tinham, como princípios,
a universalização, a regionalização, a hierarquização, a
participação comunitária, a integralidade e a equidade.
O projeto da Reforma Sanitária brasileira assimilou todas
elas, adotando os moldes de uma medicina de base
comunitária, preventiva e com o enfoque na atenção
primária6.

Para Pitta (2011), este foi um período de


importantes realizações, entre elas, destacam-se
algumas conferências de saúde e de saúde mental, bem
como de encontros históricos de trabalhadoes, usuários
e familiares. Destacam-se, entre eles, a 8ª Conferência
Nacional de Saúde, que ocorreu em 1986. Antes
reservada aos gestores do setor, ou seja, ao governo e
proprietários de instituições privadas, passou a contar

6 Atenção primária é o primeiro dos três níveis organizadores das ações


sanitárias de saúde pública. Consiste no nível de atendimento caracteriza-
do pelas ações básicas de saúde e é considerada a porta de entrada no
sistema. É na atenção básica, que se acredita poder intervir para deslocar
o enfoque da doença para o novo objetivo que passa a ser o da promoção
da saúde. Ver no ABC do SUS, publicação do Ministério da Saúde de 1990.

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37
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

com a participação de representantes da sociedade civil


e tomou, como um de seus principais desdobramentos, a
decisão de se realizar a 1ª Conferência Nacional de Saúde
Mental. Amarante (1995) lembra que, apesar disso, esta
deliberação não encontrou muita ressonância junto aos
dirigentes da então Divisão Nacional de Saúde Mental, o
DINSAM, órgão gestor da saúde mental.

O enfrentamento a este cenário culminou na


realização, em 1987, da 1ª Conferência Nacional de
Saúde Mental. No entanto, o DINSAM insistia em
adotar, para a organização da Conferência, o formato
de um evento técnico com a presença principalmente
de psiquiatras. Instituia também uma comissão redatora
própria, não previa a criação de grupos de discussão
e nem a participação de usuários e familiares como
delegados. Atitude esta que contrariava as decisões da
8ª Conferência Nacional de Saúde e, por isso, foram
rejeitadas pela assembleia presente no local, mobilizada
por militantes do Movimento de Trabalhadores de Saúde
Mental (MTSM).

Neste mesmo ano de 1987, morria na Itália,


o psiquiatra Franco Basaglia. Em Bauru, São Paulo,
acontecia o II Encontro Nacional dos Trabalhadores
em Saúde Mental. Foi neste Encontro, que, segundo
Amarante (1995), nasceu o conhecido lema “por uma

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


38
Mônica Eulália da Silva

sociedade sem manicômios”, que marcaria o viés adotado


pela Reforma Psiquiátrica Brasileira.

Foi em 1988, porém, com a promulgação da Nova


Constituição Brasileira, que as ações de saúde ganhariam
um novo destaque na agenda das políticas públicas. A
partir de então, na Constituição da República, em seu
artigo 196, a saúde passaria a ser considerada “[...] direito
de todos e dever do Estado” (BRASIL, 1988, art. 196).

A nova lógica assistencial que nascia com o SUS


propunha, como se vê na Lei 8080/90, a chamada lei
Orgânica da Saúde (BRASIL, 2004a), um conceito mais
abrangente de saúde que engloba fatores condicionantes
do meio físico (geográfico, saneamento básico, alimentação
e habitação), do meio socioeconômico e cultural (renda,
educação, profissão), assim como oportuniza o acesso
aos serviços prestados, visando à promoção, proteção
e recuperação da saúde. Por isso, a nova organização
do SUS passou a se estruturar em uma rede de serviços
regionalizados, hierarquizados e descentralizados a
partir de uma direção única em cada esfera de governo,
municipal, estadual e federal, contando ainda com o
controle e a participação paritária da população através
dos Conselhos de Saúde e das Conferências de Saúde. As
instituições privadas passariam a fazer parte do sistema
apenas na condição de equipamentos complementares a
ele. Dentre seus princípios está o da universalidade, ou

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


39
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

seja, todos passaram a ter o direito de utilizar os serviços


e as ações de saúde. A equidade, princípio que considera
a individualidade de cada um, garantindo o respeito pela
diferença. A hierarquização, que consiste em oferecer
níveis de complexidade assistencial crescente de acordo
com a demanda e as condições de cada região, garantindo
sempre, em cada município, mesmo que minimamente,
uma rede de atenção básica. Por integralidade entende-se
que “[...] toda pessoa é um todo indivisível; [...] o homem
é um ser integral, biopsicossocial e deverá ser atendido
[...] por um sistema de saúde também integral, voltado a
promover, proteger e recuperar sua saúde” (ABC do SUS,
1990, p. 10). O acesso ao serviço pode ser entendido pela
eliminação das barreiras burocráticas que por ventura
impeçam o usuário de utilizá-lo. A resolutividade, que é
a capacidade do serviço, quando solicitado pelo usuário,
de ter sua demanda atendida ou encaminhada a quem
de fato possa fazê-lo. A descentralização, que se refere
à redistribuição das responsabilidades entre os vários
níveis de gestão do sistema público de saúde e da ideia
de que quanto mais próximo do usuário estiver o serviço
e suas ações, melhor será o cuidado e mais responsáveis
os municípios serão para com seus munícipes.

A Reforma Psiquiátrica Brasileira se alojou dentro da


lógica do SUS, adotando seus princípios doutrinários e, em
1990, a Declaração de Caracas trazia em seu bojo, tal como

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


40
Mônica Eulália da Silva

afirma o Ministério da Saúde (BRASIL, 2004d), o marco


daquilo que se pretendeu para o projeto de assistência em
saúde mental nas Américas. Em seu texto, as organizações,
associações, autoridades de saúde, profissionais de saúde
mental, legisladores e juristas ali reunidos concordaram que
o modelo centrado no hospital psiquiátrico não era resolutivo
e apontaram, como alternativa, um modelo de atendimento
comunitário, descentralizado, participativo, universal e
preventivo. Consideraram, entre outros aspectos, que o
atendimento primário da saúde seria a estratégia adotada
pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e pela OPAS
(Organização Pan-americana de Saúde) e referendada
pelos países membros para que alcançassem, como
meta, saúde para todos. Declararam, por fim, entre outros
aspectos, que era necessário rever criticamente o papel
hegemônico e centralizador do hospital psiquiátrico.

A década de 90 compreendeu, para Amarante


(1995), o período da trajetória da desinstitucionalização ou
da desconstrução/invenção. Para o autor, este momento
da Reforma Psiquiátrica Brasileira deve ser entendido pela
abertura do interior dos espaços institucionais, ou seja, pela
influência italiana que se fazia presente. A tarefa aqui se
destinou a construir e implantar efetivamente algo novo,
ou seja, uma outra possibilidade de assistência em saúde
mental, que se baseasse numa lógica humanitária e voltada
para a cidadania.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


41
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Paralelamente ao afastamento daquelas


lideranças, existiu a produção de novas
culturas, o estabelecimento de uma
nova ética, de novas formas de pensar,
trabalhar e lidar com os pacientes e com
as instituições. (AMARANTE, 1995, p. 96).

A II Conferência Nacional de Saúde Mental


acontecia em 1992 e, de seus relatórios finais, tal como
verificamos em Pitta (2011), sairiam as diretrizes que
orientaram a reestruturação da atenção em saúde mental
nas Coordenações que se seguiram no âmbito federal.
Uma rede articulada de serviços substitutivos ao aparato
hospitalocêntrico precisava ser construída. Foi um momento
extremamente fértil, no qual se destaca a implatação
e liberação de recursos para os primeiros Centros de
Atenção Psicossocial, os CAPS, portarias e recursos para
os Serviços Residenciais Terapêuticos e incentivos para o
programa de desospitalização.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


42
Mônica Eulália da Silva

Os chamados CAPS7 (Centros de Atenção


Psicosocial) surgem então como um equipamento
regulador de todo o sistema. Sua arquitetura é descrita por
Lobosque (2003) como um espaço que em nada lembra o
modelo hospitalar. Assemelham-se muito mais ao estilo de
uma casa com salas, cozinhas e camas. Em consequência
disso, a circulação das pessoas também se dá de maneira
diferente. Os usuários podem, assim, transitar livremente
por quase todos os espaços. Nessa perspectiva, também
o atendimento individual ganha novas características. Ele
perde o caráter standard da clínica convencional, realizada

7 Tipos de CAPS:
“CAPS I - serviços para cidades de pequeno porte, que devem dar
cobertura para toda clientela com transtornos mentais severos du-
rante o dia (adultos, crianças e adolescentes e pessoas com proble-
mas devido ao uso de álcool e outras drogas).
CAPS II - são serviços para cidades de médio porte e atendem du-
rante o dia clientela adulta.
CAPS III – são serviços 24h, geralmente disponíveis em grandes
cidades, que atendem clientela adulta.
CAPSi – são serviços para crianças e adolescentes, em cidades de
médio porte, que funcionam durante o dia.
CAPS ad – são serviços para pessoas com problemas pelo uso
de álcool ou outras drogas, geralmente disponíveis em cidades de
médio porte. Funciona durante o dia. 
Todos os tipos de CAPS são compostos por equipes multiprofissio-
nais, com presença obrigatória de psiquiatra, enfermeiro, psicólo-
go e assistente social, aos quais se somam outros profissionais do
campo da saúde. A estrutura física dos CAPS deve ser compatível
com o acolhimento, desenvolvimento de atividades coletivas e in-
dividuais, realização de oficinas de reabilitação e outras atividades
necessárias a cada caso em particular”. Disponível em: http://portal.
saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=33882
Ver também a portaria ministerial 336/2002.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

apenas dentro dos consultórios e ganha os espaços dos


jardins, das salas de espera, das ruas ou mesmo da própria
casa do usuário. Outro aspecto característico é que, nestes
serviços, o usuário deve permanecer o mais breve possível.
São lugares de passagem que se constituem assim como
forma de evitar o sempre eminente risco de repetição do
modelo asilar.

A dimensão do trabalho em equipe visa descentralizar


as decisões clínicas com relação aos usuários. O chamado
técnico de referência, responsável por conduzir o caso
clínico, geralmente pode ser qualquer profissional de
nível superior. Não é a especialidade que conta, mas a
sensibilidade de saber conduzir sem dominar. No âmbito da
Reforma Psiquiátrica, o aspecto clínico não se sobrepõe
ao reabilitador. Lobosque afirma isso ao dizer que, no
âmbito da Reforma Psiquiátrica, “[...] a clínica não tem
um lugar central, não é de forma alguma o eixo diretor de
nossas ações ou estratégias, estas ações e estratégias
são de ordem diversa, levando-nos a intervir no âmbito
da política, do direito, das legislações, da cultura, do
trabalho”. (LOBOSQUE, 2003, p. 17-18).

Contudo, esta ainda é uma questão delicada e


que tem recebido várias leituras. Para muitos, trata-se de
negar a especificidade de certos saberes e seus fazeres,
o que nos parece um grande equívoco. O discurso de que
‘todos podem fazer tudo’, merece um olhar e uma escuta

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


44
Mônica Eulália da Silva

mais cuidadosa. Nos dizeres de Silva (2003), se trata


muito mais de
[...] nos permitirmos inventar dispositivos
novos onde resguardamos todas estas
especificidades e ao mesmo tempo,
experimentarmos lugares e funções
diferentes, é possível entre outras coisas,
questionar o ideal de um saber puramente
especialista e experimentar esse lugar de
não saber, lugar esse que nos causa, que
nos provoca e faz com que o inusitao surja.
(SILVA, 2003, p. 231).

Quanto ao que são e ao fazer que se realiza nos


Serviços Residenciais Terapêuticos, encontramos em
Generoso (2008) uma importante fonte de compreensão.
Em geral, os SRTs são moradias protegidas, destinadas
a pacientes egressos de longas internações, mais
especificamente acima de 2 anos, que, em função
do longo período de institucionalização, perderam ou
sofreram graves prejuízos nos vínculos familiares, bem
como na autonomia necessária à convivência e, por que
não dizer, à sobrevivência na vida social. Os SRTs foram
instituídos pela Portaria 106, de 11 de fevereiro de 2000
(BRASIL, 2000), em consonância com o Programa de
Apoio à Desospitalização (PAD).

Outro importante equipamento de reabilitação


psicossocial são os Centros de Convivência. Neste
dispositivo não há consultas agendadas ou tratamentos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


45
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

do tipo. Tampouco os profissionais que ali estão


originam-se necessariamente do campo psi. O que nele
encontramos são oficinas diversas, espaços de pura
criação que contam, em sua maioria, com profissionais
ligados ao mundo das artes. Entre muitos de seus efeitos
está a inserção, ou mesmo, a reinserção social do usuário
no mundo do trabalho através de iniciativas solidárias de
geração de trabalho e renda.

Os Centros de Convivência surgem nessa


estrutura, como espaços de expressão e
criação, propiciadores de inclusão social.
Trata-se de um dispositivo não sanitarizado,
onde o que se opera não é o tratamento
por princípio, mas a oferta de atividades
criativas e diferenciadas, relacionadas à
cultura, tendo nas oficinas seu elemento
organizador. Como os demais dispositivos
da saúde mental, acolhe, prioritariamente, os
portadores de sofrimento mental grave em
tratamento nas Unidades Básicas de Saúde
e nos Centros de Referência em Saúde
Mental-CERSAMs. (SOARES, 2011, p. 1).

Chegando aos anos 2000, o destaque é dado por


Pitta (2011) pelo avanço no panorama das legislações
em saúde mental. A Lei Federal 10.216/2001 ( BRASIL,
2004b), conhecida como a Lei da Reforma Psiquiátrica,
é, enfim, sancionada após doze anos de tramitação e
significou, entre outros aspectos, a entrada definitiva da
saúde mental no âmbito das políticas públicas de saúde
no Brasil. Esta lei

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


46
Mônica Eulália da Silva

[...] reflete o consenso possível sobre uma


lei nacional para a reforma psiquiátrica no
Brasil”.[...]. A lei redireciona o modelo da
assistência psiquiátrica, regulamenta o
cuidado especial com a clientela internada
por longos anos e prevê possibilidade de
punição para a internação involuntária
arbitrária ou desnecessária. (BRASIL,
2004b, p. 20).

Os desdobramentos da institucionalidade da Lei


10.216 também se fizeram ressoar no campo da Saúde
Mental para Crianças e Adolescentes (SMCA), como
aponta Ventura (2013). Somando-se às contribuições da
III Conferência Nacional de Saúde Mental, que ocorreu
no mesmo ano de 2001, ambas foram fundamentais para
abrir espaços e fazer surgir na pauta das políticas públicas
o sofrimento psíquico de crianças e adolescentes, antes
esquecidos e negligenciados durante quase um século.

As diversas legislações federais, estaduais,


portarias ministerias, resoluções e recomendações que se
seguiram contribuíram para a regulação e articulação da
rede psicossocial, para ampliação da clientela assistida,
para a normatização e avaliação do funcionamento de
hospitais, entre outras importantes ações da Reforma.
Destaca-se também a Portaria 336/2002 , (BRASIL,
2004c), que instituiu a criação e orienta o funcionamento
dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Em um estudo que abrange os períodos de 2002 até


o ano de 2007, Ventura, Duarte e Delgado (2008) avaliam
os avanços realizados na rede de atenção psicossocial
da Saúde Mental para Crianças e Adolescentes (SMCA),
no Brasil. O estudo aponta o então estado da arte
neste campo e apresenta uma análise de como essas
políticas avançaram até então, bem como seus principais
enfrentamentos e desafios. Embasados em documentos
do Ministério da Saúde, alertam para a escassez de
informações epidemiológicas neste âmbito e para o fato
de que, aquelas que existiam, estavam concentradas em
fontes governamentais. Apesar do crescimento no número
de CAPSi, estes ainda eram muito poucos se comparados
aos parâmetros populacionais apontados na própria
Portaria 336/2002, que indica a presença destes Serviços
em cidades cuja população seja igual ou superior a 200
mil habitantes. Até o ano de 2007, somavam-se apenas
86 CAPSi em todo o Brasil. Outras 130 cidades brasileiras
possuíam perfil que poderia comportar esses serviços.
Para as cidades de menor população a orientação
era e ainda é a de que tal assistência se dê a partir de
diversas estratégias tais como os demais CAPS (I, II, III,
AD), ambulatórios de saúde mental e/ou outros recursos
intersetoriais existentes.

Os autores ainda concluiam, em seus estudos,


que, apesar do número ainda insuficiente, os CAPSi se

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


48
Mônica Eulália da Silva

constituiam na principal ação estratégica para as ações de


Saúde Mental para Crianças e Adolescentes no campo das
políticas públicas de saúde. Eles conseguiam responder
com efetividade à necessidade de acesso da população às
demandas da área, oferecer informações epidemiológicas,
fomentar a necessidade de formação continuada dos
trabalhadores e, ainda, dar a visibilidade necessária à
clientela infanto-juvenil acometida de transtornos mentais
graves e persistentes. Os dados apresentados pelo estudo
apontavam ainda a necessidade de monitoramento e
avaliação desta rede de cuidados.

Com relação à temática da dependência química,


em 2002, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2004e) definia
o Programa Nacional de Atenção Comunitária Integrada
aos Usuários de Álcool e outras Drogas, inaugurando,
assim, um conjunto de procedimentos e ações específicos
para este público. De lá para cá o objetivo tem sido o de
proporcionar a ampliação do tratamento a partir de uma
abordagem mais ampla do problema apoiada, entre
outros aspectos, na perspectiva da redução de danos. Ao
contrário da exigência de abstinência, pregada em geral
por instituições filantrópicas e religiosas, a perspectiva da
redução de danos consiste em um trabalho diferenciado
de abordagem da questão, no qual se busca reduzir ou
amenizar as consequências da utilização dos psicoativos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


49
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

a partir do entendimento de que tal exigência é, em geral,


pouco efetiva.

O momento atual da Reforma Psiquiátrica Brasileira


continua se voltando para sua efetiva implementação,
no entanto, enfrenta novos desafios. Além dos diversos
caminhos a percorrer no fortalecimento das políticas de
atenção em saúde mental para crianças e adolescentes,
são as ações de enfrentamento ao uso abusivo de álcool e
outras drogas que, atualmente, parecem movimentar este
cenário.

Atualidades...

Superado os enfrentamentos dos primeiros


momentos de implantação da Reforma, outros desafios
vieram. Ainda há muito a avançar. Pitta (2011) faz
uma avaliação da Reforma Psiquiátrica Brasileira,
especialmente no momento atual, e pergunta-se se,
após mais de 3 décadas, estaria este movimento dando
sinais de exaustão. As políticas públicas acolheram e
veem implantando as principais propostas de um modelo
assistencial voltado para o tratamento comunitário
e não centrado no hospital. Dados do Ministério da
Saúde (BRASIL, 2012d) indicam que, até 2011, foram
implantados 1742 Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS). Entre eles, 821 CAPS I, 431 CAPS II, 63 CAPS
III, 149 CAPSi, 272 CAPS ad e 5 CAPSad III. Isso significa

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


50
Mônica Eulália da Silva

uma cobertura de 0,72 CAPS por 100.000 habitantes,


o que indica, segundo os parâmetros do Ministério,
uma coberura satisfatória8. No entanto, quando estes
indicadores analisam os estados, apenas 11 apresentam
uma cobertura acima da média. Dezoito estados possuem
pelo menos 1 tipo de CAPS 24 hs, dados estes que
interferem diretamente no número de leitos hospitalares.
Cinco estados não possuem nenhum CAPSi, o que
indica desassistência da população infanto-juvenil. Um
estado não possui nenhum CAPSad, apontando, assim,
para prejuízos na assistência à dependência química.
Até o final de 2011foram implantados 779 Módulos de
Residências Terapêuticas (SRT) para uma população
de 3470 moradores. Até fevereiro de 2012 mais de 4000
benefícios de reabilitação do programa “Volta pra casa”
foram pagos. A política de incentivo técnico e financeiro
que surgiu de uma parceria entre Ministério da Saúde e
a Secretaria Nacional de Economia Solidária beneficiou
640 projetos de Geração de Trabalho e Renda. As regiões
que mais ampliaram suas ações foram as sul e nordeste,
sendo que a que menos cresceu foi a região norte do país.

Os leitos psiquiátricos hospitalares tiveram uma


queda de 51.393 em 2002 para 32.284 em 2011, o que
indica uma inversão na histórica relação que, segundo
8 Indicadores de cobertura de CAPS/100.000 habitantes do Ministério da
Saúde (2012):Cobertura muito boa (acima de 0,70), Cobertura boa (entre
0,50 e 0,69), Cobertura regular/baixa (entre 0,35 a 0,49), Cobertura baixa
(de 0,20 a 0,34), Cobertura insuficiente/crítica (abaixo de 0,20).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


51
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Nogueira (2013), destinava recursos a instiuições


hospitalares, orientando-os, agora, aos serviços
substitutivos. Através do Programa Nacional de Avaliação
dos Serviços Hospitalares (PNASH- Psiquiatria), 18
hospitais psiquiátricos foram descredenciados do SUS por
condições inadequadas de funcionamento.

Com relação às Supervisões Clínicas e institucionais


que são importantes estratégias de educação permanente,
o Ministério da Saúde (2012) aponta que, de 2005 a 2011,
apoiou 851 projetos, estando agora em seu VIII edital de
chamada.

Esta ampla expansão é reflexo de uma política


pública consolidada. Diante disso, estaria a RPB esvaziada
de lemas mobilizadores? É o que pergunta Pitta (2011). A
provocação feita por este questionamento reorienta nosso
olhar para os atuais desafios e constantes processos de
transformação social. Apesar do aumento na implantação
de serviços tipos CAPS, encontramos profissionais que
ainda não apreenderam, ou mesmo não incorporaram a
real noção de que tais serviços não são meros ambulatórios
ampliados. Um serviço substitutivo ao aparato manicomial
porta em si, tal como afirma Lobosque (2003), o traço
marcante de uma proposta que não se apoia em estruturas
convencionais de funcionamento institucional. Trata-se de
um serviço que precisa ser reinventado a cada dia e que,
por isso, convoca a um trabalho que não se acomoda no

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


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Mônica Eulália da Silva

interior dos muros institucionais, mas que exige diálogo,


enfrenta intolerâncias e constrói caminhos. Um serviço
para cada sujeito, é o que afirma Ferreira (2013). Este
reordenamento é ainda, para muitos de nós, um exercício
distante da prática e, por isso, acaba por colocar em xeque
eficácia dos CAPS quando aposta e reforça políticas
públicas centralizadoras. A lógica manicomial pode se
instalar em posturas que acabam, por vezes, alimentando
um imaginário social que potencializa promessas
milagrosas sustentadas por ações imediatistas. Haja vista
o apelo às internações involuntárias e compulsórias como
medidas prioritárias a serem adotadas, especialmente
para usuários de crack.

Em tempos atuais, a figura do louco perigoso ainda


persiste, mas agora convive lado a lado com a do usuário
de crack. Este novo personagem surge nos noticiários
chocando à sociedade com as condições social e
moralmente miseráveis a que o ser humano pode chegar
no que tange a sua relação com a toxicomania. Entretanto,
esta condição extremamente vulnerável confunde-se com
a imagem de um ser humano desprovido da capacidade
de decidir sobre si mesmo. Situação esta que se opõe aos
direitos básicos do ser humano, que, inclusive, nos define
como tais, presentes na Declaração Universal dos Direitos
Humanos (1948).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


53
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

Em 2010, o então governo Lula lança, através do


Decreto nº 7179/10 (BRASIL, 2010b), o Plano Integrado
de Enfrentamento ao crack e outras drogas. Em resposta
às pressões midiáticas, o então governo Dilma anuncia,
em 2012, a liberação de 4 bilhões de reais em recursos
até o ano de 2014 para o combate e tratamento ao uso do
crack, droga barata que dominou o debate público sobre
o tema. Surge o programa ‘Crack, é possível vencer’ que
se estrutura a apartir dos eixos da prevenção, do cuidado
e da autoridade, tal como se verifica em Brasil (2012c).
Os recentes investimentos públicos no setor também se
orientam para programas de formação e capacitação
profissional com enfoque em políticas voltadas para
questões sociais mais amplas que abarcam espaços
multiprofissionais e intersetoriais nos campos da saúde,
educação, assistência social, jurídica, farmacológica, etc.

Para Moncau (2013), em seu artigo presente no


site do Conselho Federal de Psicologia, o Plano fomenta
uma abordagem policial do tema. O que lhe causa mais
estranheza, porém, é o direcionamento de recursos para
instituições privadas e para as chamadas Comunidades
Terapêuticas. Estas surgem no Plano em seu eixo ‘cuidado’,
juntamente com outras estratégias. O surgimento das
Comunidades Terapêuticas no Brasil se desenvolveu, em
sua maioria, em decorrência da inércia governamental
neste âmbito. Diante da omissão e negligência deixada

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


54
Mônica Eulália da Silva

pelo Estado, durante muito tempo, coube a elas a tarefa de


preencher os espaços vazios, sinalizando para a maioria
da população como a única alternativa para o tratamento
à dependência química. Contudo, tal como se verifica no
artigo de Moncau (2013), as Comunidades Terapêuticas
existentes no Brasil em nada se assemelham àquelas
originadas pelas ideias do psiquiatra inglês Mawell Jones,
presentes na experiência da Reforma Psiquiátrica inglesa.
Salvo algumas excessões, são, em sua maioria, instiuições
de abrigamento afastadas dos centros urbanos, que
se apoiam na ideia da abstinência e na cura através da
imposição religiosa. O lugar dado a estes equipamentos
é ainda um tanto incômodo para a Reforma Psiquiátrica,
tendo em vista que o funcionamento das mesmas se dá,
em muitos casos, de forma arbitrária aos seus princípios.

As críticas com relação à presença desses


equipamentos no âmbito das políticas públicas de saúde
mental são rebatidas pelo governo através da própria Lei
8080/90, Lei Orgânica da Saúde (BRASIL, 1990), que
indica a participação de instituições privadas e filantrópicas
como serviços complementares ao SUS. Desta forma,
a Portaria131/2012 (BRASIL, 2012a) institui incentivo
financeiro destinados a estados e municípios para apoio
ao custeio de Serviços de Atenção Residencial, incluídas
as Comunidades Terapêuticas, voltadas para pessoas

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


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HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

decorrentes do uso de álcool, crack e outras drogas, no


âmbito da rede de atenção psicossocial.

Contudo, a opção adotada nas políticas públicas de


saúde mental brasileiras, no que refere ao tratamento da
dependência química, continua sendo o cuidado em uma
rede articulada de serviços e que tem no Centro de Atenção
Psicossocial álcool e outras drogas, o CAPS ad, seu
principal regulador. Neste sentido, a aposta nos chamados
Consultórios de Rua (BRASIL, 2010a), dispositivo de
atenção, sustentado na proposta da Redução de Danos,
também são importantes aliados nesta prática. Até 2011,
segundo o Ministério da Saúde (2012), somavam-se 92
dispositivos em todo o país. A Portaria nº 3088, de 23 de
dezembro de 2011 (BRASIL, 2011a), que institui a Rede
de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento
ou transtorno mental e com necessidades decorrentes
do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do
Sistema Único de Saúde, bem como a Portaria 121, de
25 de janeiro de 2012 (BRASIL, 2012e), que institui a
Unidade de Acolhimento para pessoas com necessidades
decorrentes do uso de Crack, Álcool e Outras Drogas,
inclusive crianças e adolescentes, no componente de
atenção residencial de caráter transitório da Rede de
Atenção Psicossocial compõem, de uma forma geral, o
desenho das políticas públicas para este setor.

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56
Mônica Eulália da Silva

Apesar de medidas como essas, as políticas públicas


sobre drogas, no Brasil, ainda se mostram incipientes,
desarticuladas e pouco resolutivas. Convivemos ainda
com tímidas iniciativas para o tratamento ao uso abusivo
das drogas lícitas e de outras tantas ilícitas. O que se
percebe é que a questão da drogadicção é um fenômeno
crescente cuja abrangência perpassa os mais diversos
domínios sociais.

Há ainda diversos campos os quais as políticas


públicas de saúde mental precisam avançar, um deles
está no âmbito da infância e adolescência. Campo minado
por discursos técnico-científico-jurídicos que, muitas
vezes, insistem em se sobrepor à subjetividade ao reduzir
esses pequenos sujeitos a meros “objetos de adaptação
social e reeducação normativa” (VENTURA, 2013, p. 15).

Um tema relevante, que tem tomado a agenda


das ações neste segmento do campo da saúde mental,
é o debate acerca da categorização do Autismo como
deficiência mental e da construção de serviços específicos
para seu tratamento. Este cenário tem dividido opiniões.
De uma forma geral, associações de pais e familiares,
bem como profissionais sustentados por um viés médico
científico têm defendido estas propostas. Para esses
grupos, tanto o CAPSi quanto a saúde pública em
geral não têm oferecido um atendimento adequado às
necessidades apresentadas pelo autismo e, por isso,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


57
HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO BRASIL ATÉ O GOVERNO ATUAL

demandam uma política pública específica para esses


casos. Já para muitos atores da Reforma Psiquiátrica,
a criação de serviços específicos para o autismo, tipo
CAPS, “vem na contramão do trabalho em rede, propondo
novos ‘especialismos’ clínicos” (NOGUEIRA, 2012, p. 34),
que contradizem a ideia da inclusão ao criarem lugares
de tratamento que não permitem a convivência com a
diversidade diagnóstica de outros casos.

No final de 2012, o então governo federal publica a


Lei 12.764 (BRASIL, 2012b), que institui a Política Nacional
de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do
Espectro Autista. A importância desta lei está no impacto
que ela tem nos diversos segmentos de políticas públicas,
inclusive no âmbito educacional.

É fato, entretanto, que muitos CAPSi não tomaram


para si a tarefa de acolher e tratar esses casos, delegando
a instituições sem fins lucrativos esta incumbência ou,
simplesmente, desassistindo-os. É bem verdade também,
que muitos CAPSi ainda não assumiram mesmo o
tratamento não só do autismo, mas também de inúmeros
outros casos graves de sofrimento psíquico na infância e
adolescência.

Há também inúmeros exemplos de experiências


exitosas de serviços que atuam comprometidamente com
o acolhimento e o cuidado dos chamados casos graves

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


58
Mônica Eulália da Silva

de sofrimento psíquico em crianças e adolescentes.


Silva (2003) e Ferreira e Bontempo (2012) apresentam
várias dessas experiências através do relato de práticas
engajadas de diversos profissionais que trazem a público
sua prática, contribuindo assim para a formalização deste
campo. Demonstram, desse modo, a eficácia dos CAPSi
e de toda a rede intersetorial de cuidados no tratamento
não só do autismo, mas também das psicoses e de vários
transtornos que acometem esses pequenos e jovens
sujeitos.

A questão específica do autismo, bem como o


tratamento compulsório a usuários de crack e a pacientes
psicóticos, assim como tantos outros temas presentes
no campo da saúde mental são ainda assuntos abertos
a vários debates. Esperamos que o espaço ao diálogo
permaneça e também que aprendamos com os equívocos
de algumas velhas práticas que resurgem sob o manto de
novas e belas roupagens.

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Tânia e BONTEMPO, Valéria Lima (Org.). Crianças e
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Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo I - Pág. 18-63


Capítulo II
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA:
unidade e oposição

Desenho: Wallace Fernando Rodrigues


66

CAPÍTULO II

A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA:


unidade e oposição

Paula Cambraia de Mendonça Vianna


Teresa Cristina da Silva Kurimoto
Annette Souza Silva Martins da Costa
Marília Rezende da Silveira

A instituição do asilo, no século XVIII,


inaugurou uma nova conduta da sociedade frente à
loucura. Se durante a Antiguidade e a Idade Média, a
loucura era entendida e suportada pelos homens como
dotada de razão e verdade; na Idade Moderna, insere-
se no quadro nosológico da época como todas as outras
doenças, perdendo o caráter mágico e sagrado que
vigorava até então, podendo ser capturada e tratada
dentro das instituições psiquiátricas.

Para a burguesia nascente, a doença mental


era considerada uma falta, um pecado de ordem
econômica e moral: todos aqueles que não eram capazes
de tomar parte na produção, circulação e acumulação
de riquezas foram excluídos e confinados nos asilos.
“O internamento que o louco, juntamente com muitos
outros, recebe na época clássica não põe em questão
as relações da loucura com a doença, mas as relações

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


67
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

da sociedade consigo própria, com o que ela reconhece


ou não na conduta dos indivíduos.” (FOUCAULT, 1975,
p.79).

O advento do mercantilismo, o fim do


campesinato como classe e o declínio dos ofícios
artesanais elevam a loucura à categoria de problema
social, tornando-se corrente a concepção do louco
como ser improdutivo, portanto excluído da sociedade
(RESENDE, 1990).

O louco, limitado pela doença na sua


capacidade de produção, torna-se um fardo para a
sociedade capitalista nascente. Buscava-se, dentro
dos asilos, através da coerção e do tratamento moral,
a reorganização do louco como sujeito da razão, como
sujeito do contrato social, apto a viver em sociedade.

O espaço da loucura passa a ser o espaço


do asilo e o lugar destinado ao tratamento do doente
mental torna-se o lugar de sua exclusão, portanto do
não tratamento. “Essa exclusão social da loucura teve
como correlata a exclusão dos loucos do espaço familiar,
de forma que a instituição psiquiátrica e o Estado
passaram a definir os destinos sociais dos doentes
mentais no lugar da instituição familiar” (BIRMAN, 1992,
p. 81). A psiquiatria, legítimo instrumento do Estado na
segregação e exclusão social do louco, possibilita que a

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


68
Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

responsabilidade pelo doente mental e sua consequente


tutela seja transferida do núcleo familiar para o espaço
asilar.

Para Castel,
a importância crucial da questão da
loucura no momento da instauração da
sociedade burguesa se deve, inicialmente,
ao fato dela ter concretamente revelado
uma lacuna de ordem contratual: o
formalismo jurídico não pode controlar
tudo, existe, pelo menos, uma categoria
de indivíduos que deve ser neutralizada
por outras vias do que aquelas de que
dispõe o aparelho jurídico-policial [...] o
novo dispositivo instaurado para suprir
essas carências vai desenvolver um novo
modelo de manipulação, de plasticidade
quase infinita. (CASTEL,1978, p. 51).

O poder médico, por meio de novas formas de controle,


de sujeição e de novas relações de tutelarização, criou
uma nova forma de dominação.

Buscava-se, também, por meio do isolamento,


tanto a proteção dos familiares mais vulneráveis
(crianças, adolescentes e mulheres jovens) às influências
negativas oriundas do contato com o doente mental,
quanto o afastamento da família, que poderia ser a
propiciadora do adoecimento mental. Nesse sentido, “a
família seria, dependendo de seu funcionamento interno,
uma fonte de desequilíbrios, conduzindo à perda da

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

razão” (MELMAN, 1998, p. 9). Sustentados pela ciência,


doente e família são afastados, na certeza de que ambos
são nocivos à saúde e segurança um do outro.

Portanto, a instituição psiquiátrica ancorou-se


na culpa e na cumplicidade da família e se habilitou a
cuidar (e tratar) do seu membro doente. À medida que
a psiquiatria não pôde mais sequestrar impunemente
o doente e mantê-lo por longos períodos na instituição
procurou devolvê-lo para a família culpada. Para
Saraceno (1999, p. 101), “a história da psiquiatria tem
sido também a história das atitudes da psiquiatria em
relação à família do paciente: no velho manicômio, a
família era o cúmplice designado para a internação do
paciente identificado. A família era grata à instituição
por se ver aliviada do problema e a instituição se
autorreproduzia também graças a essa gratidão”.

Vigorosamente constituída sobre a base


de uma ampla rede institucional e sobre um conjunto
de fatores sociais e administrativos favorecedores da
segregação do doente mental no espaço hospitalar, a
política asilar permanece, até os dias atuais, como o
instituído da assistência a esse doente.

O movimento preconizado pela reforma


psiquiátrica, a partir dos anos 80, no Brasil, vem cumprir
um importante papel nas transformações ocorridas na

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

assistência prestada ao doente mental. Esse movimento


é definido por Amarante como “o processo histórico de
formulação crítica e prática que tem como objetivos
e estratégias o questionamento e a elaboração de
propostas de transformação do modelo clássico e do
paradigma da psiquiatria”. (AMARANTE, 1995, p. 91).

Não podemos dizer que essa é a primeira


reforma da assistência psiquiátrica no Brasil. Outras
já haviam acontecido, motivadas por diferentes
forças: a criação dos asilos no final do século XIX; as
técnicas utilizadas no tratamento da doença mental
no início do século, como os aparelhos eletrostáticos,
a insulinoterapia e o cardiazol, e a introdução dos
psicotrópicos no mercado nos anos 50. Todas elas
não apenas provocaram mudanças significativas na
assistência ao doente mental, mas também reforçaram
o poder do saber psiquiátrico sobre a loucura.

A reforma atual tem seu início marcado


por uma série de denúncias, por meio da mídia,
sobre a assistência prestada aos doentes mentais
nos manicômios. Revistas e jornais denunciavam o
tratamento desumano, a superlotação dos hospitais, o
número insuficiente de profissionais e as más condições
de vida dentro das instituições psiquiátricas.

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71
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

No final da década de 70, foi organizado


o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental
(MTSM). “No seu início, o MTSM busca uma
transformação genérica da assistência psiquiátrica, cujos
indícios podem ser encontrados seja nas denúncias
ao modelo oficial, de caráter predominantemente
privatizante e hospitalocêntrico, seja na elaboração de
alternativas inspiradas basicamente em propostas de
desospitalização” (AMARANTE, 1996, p. 15).

Inspirado pelo modelo de reestruturação


psiquiátrica italiana, o MTSM buscou “constituir-se em
espaço de luta não institucional, em locus de debate
e encaminhamento de propostas de transformações
psiquiátricas, que aglutina informações, organiza
encontros, reúne trabalhadores em saúde, associações
de classe, bem como entidades e setores mais amplos
da sociedade” (AMARANTE, 1995, p. 58).

É importante salientar que, na década de


70, tomou força o movimento denominado Reforma
Sanitária, caracterizado não apenas por fazer denúncias
contra a ditadura e os interesses econômicos nela
envolvidos, mas também por apresentar um projeto de
transformação do sistema de saúde vigente, marcado
pelo caráter centralizador, em nível federal, e por um
modelo hospitalocêntrico de atenção.

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

Com a superação do regime militar e o


surgimento da Nova República em 1985, esse movimento
social intensificou-se e a discussão sobre o projeto da
Reforma Sanitária criou vulto.

Para Silva, a Reforma Sanitária

representa a democratização
da saúde no país, propondo que a saúde
seja entendida como resultado das
condições de vida das pessoas. Isto é,
a saúde não é conseguida apenas com
assistência médica, mas, principalmente,
pelo acesso dos indivíduos ao emprego, a
um salário justo, à educação, a uma boa
condição de habitação e saneamento do
meio ambiente, ao transporte adequado, a
uma boa alimentação, à cultura e ao lazer
além, evidentemente, do acesso a um
sistema de saúde digno, de qualidade e
que resolva os problemas de atendimento
das pessoas quando necessitarem.
(SILVA, 1999, p. 9).

O direito à saúde é, pois, um direito humano e


de cidadania, e o Estado deve assegurar, mediante suas
políticas econômicas e sociais, os meios para que os
indivíduos tenham acesso aos bens e serviços que lhes
assegurem a saúde.

As principais propostas do Movimento da


Reforma Sanitária, explicitadas na 8ª Conferência
Nacional de Saúde – universalidade, integralidade,
equidade, regionalização e controle social, foram

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

incorporadas ao texto Constitucional, nos artigos 194


a 196 e regulamentadas pelas Leis 8080/90 e 8142/90,
criando o Sistema Único de Saúde (SUS).

O SUS pode ser definido como “uma


nova formulação política e organizacional para o
reordenamento dos serviços e ações de saúde
estabelecida pela Constituição de 1988” (SILVA, 1999,
p. 11). Esse sistema, portanto, define normas, princípios
e diretrizes para a atenção à saúde em todo o país,
inclusive na área de saúde mental.

É importante frisar que a Reforma Psiquiátrica


surgiu no bojo da Reforma Sanitária, que lhe deu
sustentação política. Com o passar do tempo, a
Reforma Psiquiátrica organizou-se como um movimento
social independente, que incluiu, em seus princípios, “o
desenho de um novo modelo de serviços que tem como
premissa fundamental a cidadania do usuário do serviço”
(BARROS, 1996, p. 1).

Essa luta pela cidadania necessita de uma


redefinição política e ética do espaço público que
garanta o direito à diferença. Diferença pautada no
direito de não sermos iguais uns aos outros, de termos
nossas próprias indagações, escolhas e projetos. Direito
a sermos sujeito.

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

Corroborando essa afirmação, Saraceno


aponta que “a cidadania do paciente psiquiátrico não
é a simples restituição de seus direitos formais, mas a
construção de seus direitos substanciais e é dentro de
tal construção (afetiva, relacional, material, habitacional,
produtiva) que se encontra a única reabilitação possível.”
(SARACENO, 1999, p. 18)

Segundo Lobosque (1997), a prática


antimanicomial deve se guiar por três princípios:

1- Princípio da singularidade – este princípio não


se deixa dissolver por um ideário individualista,
nem se faz amarrar por perspectivas de
unidade ou totalização. Pelo contrário, busca
produzir um coletivo de grande expressividade,
constituído pela articulação de diversas
singularidades.

2- Princípio do limite – este princípio denuncia


como excludentes todas as espécies de limites
que nossa cultura impõe ao que a loucura
possa ter de excessivo ou desordenado.

3- Princípio da articulação – este princípio prega


a articulação com os demais movimentos
sociais que tomam posição política incisiva
e clara em prol da cidadania, devendo estar

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75
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

atento às descobertas mais recentes de


diferentes disciplinas.

Essa articulação com os diferentes campos


teóricos e movimentos sociais, a troca de experiências
vivenciadas pelos diversos atores envolvidos na
construção de uma nova prática em saúde mental e
a realização de eventos são alguns dos fatores que
contribuem para o fortalecimento do movimento.

Um evento importante para a história do


movimento foi a I Conferência Nacional de Saúde
Mental (I CNSM), realizada em 1987, quando aconteceu,
pela primeira vez, a participação de entidades e
representações da sociedade civil. Ela surgiu como
desdobramento da 8ª Conferência Nacional de Saúde e
sua pauta abrangeu três temas importantes:

1- Economia, sociedade e Estado: impactos sobre


saúde e doença mental;

2- Reforma sanitária e reorganização da assistência


à saúde mental;

3- Cidadania e doença mental: direitos, deveres e


legislação do doente mental.

Entre as recomendações importantes dessa


Conferência, podemos citar o redirecionamento das

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

práticas em saúde mental, combatendo a “psiquiatrização”


do social; a necessidade de participação da população
não somente na elaboração e implementação das
políticas de saúde mental, como também no processo
decisório e a priorização de investimentos nos
serviços extra-hospitalares. Neste sentido, Amarante
(1995, p. 99) nos traz que “a I CNSM marca o fim da
trajetória sanitarista e o início de outra: a trajetória da
desinstitucionalização ou da desconstrução/invenção”.

Para esse autor, “o novo cenário tem


algumas características novas. A principal delas é o
reconhecimento/surgimento público de um novo ator no
movimento pela reforma psiquiátrica: as associações de
usuários e familiares” (AMARANTE, 1995, p. 88). Com
a incorporação desses novos atores na transformação
das práticas psiquiátricas, o MTSM perde a sua marca.
Ele deixa de pertencer somente aos trabalhadores e
abre suas asas para a sociedade, sob a bandeira “Por
uma sociedade sem manicômios” e passa a se intitular
Movimento da Luta Antimanicomial.

Nesse sentido, pode-se corroborar com a


afirmação de que

na esteira do movimento social que


vem se desenvolvendo em prol da
Reforma Psiquiátrica no Brasil, o projeto
político para a saúde mental parte de
avanços legislativos, de leis e projetos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

que promovem a cidadania de pessoas


acometidas de transtorno mental, das
experiências locais de novos modelos
de atenção à saúde mental e de novas
formas de financiamento de recursos
assistenciais alternativos ao hospital
psiquiátrico” (BARROS, 1996, p. 43).

Um evento importante que vem contribuir


na transformação da assistência em saúde mental
é a Conferência Regional para a Reestruturação da
Assistência Psiquiátrica, realizada em Caracas, em
novembro de 1990. Foi patrocinada pelas Organizações
Pan-americana e Mundial de Saúde (OPAS/OMS) e
contou com a participação dos Ministérios da Justiça,
Saúde e Seguridade Social, parlamentares e outras
forças políticas dos países envolvidos.

A Declaração de Caracas aponta questões


importantes e norteadoras para a reestruturação da
assistência psiquiátrica na América Latina, como vemos
a seguir:

- Promoção de modelos alternativos, centrados


na comunidade e dentro de suas redes sociais;

- Revisão crítica do papel hegemônico e


centralizador do hospital psiquiátrico na prestação de
serviços;

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

- Salvaguarda da dignidade pessoal e dos


direitos humanos e civis dos pacientes através
de recursos, cuidados e tratamentos racionais e
tecnicamente adequados, propiciando a permanência
do enfermo em seu meio comunitário;

- Ajustamento das legislações dos países,


assegurando o respeito aos direitos humanos e civis
dos doentes mentais e promovendo a organização de
serviços comunitários de saúde mental que garantam o
cumprimento das legislações;

- Capacitação dos recursos humanos em saúde


mental e psiquiatria de acordo com os princípios que
regem e fundamentam essa reestruturação;

- Compromisso das organizações, associações


e demais participantes da Conferência para advogar e
desenvolver, em seus países, programas que promovam
a Reestruturação da Assistência Psiquiátrica e a
vigilância e defesa dos direitos humanos dos doentes
mentais, de acordo com as legislações nacionais e
respectivos compromissos internacionais.

Em dezembro de 1992, foi realizada a II


Conferência Nacional de Saúde Mental, em Brasília,
resultado de longo processo democrático e de vários
eventos realizados anteriormente, por meio da
mobilização de diferentes atores sociais nas diversas
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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

conferências municipais, regionais e estaduais que


antecederam o evento. Ela teve, como indicador de
mudança, a participação efetiva dos usuários na
realização do evento, propiciando o surgimento de
uma nova dinâmica de organização do trabalho, que
transformou as relações e as trocas entre todos os
participantes. Os grandes temas sobre os quais se
centraram as deliberações foram a rede de atenção em
saúde mental; a transformação e o cumprimento de leis;
o direito à atenção e o direito à cidadania.

Essa Conferência configurou-se como o


marco decisivo para os novos rumos da assistência
psiquiátrica em nosso país. “É quando a psiquiatria e
as instituições psiquiátricas deixam de ser propriedade
exclusiva de psiquiatras e de profissionais de saúde
ou ainda, quando as discussões sobre a loucura e o
sofrimento psíquico deixam de ser objetos privados
dos técnicos e administradores, para serem assumidas
enquanto questões de vida, dos direitos das pessoas, da
cidadania” (AMARANTE, 1992, p. 4).

Como uma das deliberações, fica definida


a elaboração da Carta de Direitos dos Usuários e
Familiares dos Serviços de Saúde Mental no Brasil,
aprovada como um pacto entre as entidades civis,
movimentos sociais e associações implicadas. Essa
carta, na qual são resgatados os direitos civis, sociais,

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

assistenciais e políticos dos usuários e familiares,


foi elaborada em Santos, em 1994, no III Encontro
Nacional de Entidades de Usuários e Familiares da Luta
Antimanicomial. Segundo Capistrano Filho (1997, p.
154), “essa carta representa uma importante conquista
dos doentes mentais em nosso país. Ela nos faz confiar
numa perspectiva de mudança ao mesmo tempo em
que revela, em cada um dos seus princípios, um pouco
da história de dor e exclusão que tem marcado a vida da
maioria dessas pessoas em nossa sociedade”.

No ano de 1996, no IV Encontro Nacional


dos Usuários e Familiares, em Franco da Rocha (SP), a
Carta dos Direitos dos Usuários e Familiares foi revista
e passou a se chamar Carta dos Direitos e Deveres
dos Usuários e Familiares. A mudança evidenciou
um amadurecimento social e político desses atores
envolvidos no movimento da reforma psiquiátrica.

Em dezembro de 2001, foi realizada a III


Conferência Nacional de Saúde Mental, em Brasília.
Essa conferência, organizada nove anos após a II
Conferência, configurou-se como instância importante
de avaliação da reforma psiquiátrica brasileira nos
últimos anos. Contou com a participação expressiva dos
diversos atores envolvidos na discussão da assistência
em saúde mental, entre eles, usuários, familiares,
profissionais de saúde, gestores, formadores de

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

recursos humanos e políticos. Teve como temário central


a reorientação do modelo de atenção em saúde mental.
Para que essa conferência pudesse cumprir o papel a
ela definido, temas fundamentais como financiamento,
controle social, recursos humanos, cidadania e direitos
dos usuários nortearam as suas discussões.

Esse percurso histórico fez-se necessário


para entender que, subjacente à formulação das
políticas públicas, há movimentos sociais que lutam por
mudanças e transformações, desde a concepção do
que é ser “doente mental”, passando por participação
popular, até a configuração de novos cenários
assistenciais e territoriais em saúde mental. É nesse
contexto que se inclui a participação de usuários e
familiares na organização dos serviços que compõem a
rede de saúde mental.

Até alguns anos atrás, a voz das famílias e dos


usuários era calada por um movimento opressor dos
técnicos e instituições hospitalares, que definiam a
exclusão social do louco. Com a reforma psiquiátrica,
surgem novos protagonistas no movimento: os usuários
e familiares. “Com esse novo protagonismo delineia-se,
efetivamente, um novo momento no cenário da saúde
mental brasileira. O louco/ doente mental deixa de ser
simples objeto da intervenção psiquiátrica para tornar-
se, de fato, agente de transformação da realidade,

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

construtor de outras possibilidades até então imprevistas


no teclado psiquiátrico ou nas iniciativas do MTSM”
(AMARANTE, 1995, p. 130).

A partir das novas propostas assistenciais


da reforma psiquiátrica, as famílias organizam-se em
associações de familiares e/ou usuários dos serviços
de saúde mental. Segundo Sommer citado por Lougon
e Andrade (1995, p. 515), “o movimento de familiares
de doentes mentais surge nos EUA como uma resposta
à política de desinstitucionalização, na medida em que
esta devolvia às famílias a maioria dos cuidados com
seus membros doentes... Uma segunda causa do
surgimento do movimento envolve a necessidade de
retirar a culpa e o estigma lançados sobre as famílias
pelas teorias sociogenéticas”. No Brasil, as associações
surgem no bojo da Reforma Psiquiátrica e se organizam
contra ou a favor das propostas preconizadas por esse
movimento.

A organização dos familiares e usuários


dentro dessas associações fez com que o movimento da
reforma psiquiátrica introduzisse atores importantes nas
suas discussões sobre a assistência prestada ao doente
mental. Se algumas dessas associações assumem as
discussões sobre as propostas da reforma psiquiátrica,
buscando resgatar o direito tolhido ao louco sobre a
vida e a liberdade, outras lutam para que seja mantido

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

o modelo hospitalocêntrico de assistência. Resta


compreender o que motiva os familiares a participarem
de uma determinada Associação.

Entre as Associações que defendem a


reforma psiquiátrica, encontramos um grande número
de usuários dos serviços de saúde mental que discutem
desde a falta de medicamentos nas instituições públicas
de saúde e o tratamento a eles dispensado até questões
políticas mais amplas, que envolvem a reorganização
da assistência em saúde mental no Brasil. O usuário
passa a ser sujeito de sua própria história, passando a
reivindicar direitos e contribuir para a construção de uma
nova prática em saúde mental.

Contraditoriamente, existem as associações


que contam com a presença maciça de familiares e que
lutam pela manutenção do modelo hospitalocêntrico de
atendimento, fazendo clara oposição ao projeto de lei do
deputado Paulo Delgado. Esse projeto foi apresentado
ao Congresso em 1989 e dispõe sobre a extinção
progressiva dos manicômios, substituindo-os por outros
recursos assistenciais, além de regulamentar sobre a
internação compulsória.

Para Bezerra Júnior, esse projeto


não institui um modelo
terapêutico, não desaparece com as

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

internações, não propõe a ressocialização


compulsória dos milhares de brasileiros há
anos internados – apenas põe uma pedra
no processo de reprodução da situação
horrorosa que hoje vigora1. Nada garante
acerca da qualidade da assistência, mas
aumenta as possibilidades de reforçar as
experiências mais bem sucedidas. Deixa
intactas questões cruciais como a garantia
dos direitos daqueles que a sociedade
transformou em população asilar, ou
a necessidade de novos currículos na
formação dos profissionais. Mas oferece
pela primeira vez um instrumento legal de
defesa dos direitos civis dos pacientes.
(BEZERRA JÚNIOR, 1992a, p. 36).

Enfim, esse projeto inaugurou uma série de


discussões sobre a assistência psiquiátrica no Brasil
e fez com que as pessoas passassem a se organizar
contra ou a favor das disposições nele presentes.

No entender de Nogueira e Morgado (1998, p.


623), “temos que louvar a iniciativa do Deputado Paulo
Delgado, pela ousadia com que propôs uma mudança
radical na assistência psiquiátrica brasileira, sacudindo as
estruturas arcaicas em que se assentavam, mobilizando
paixões e aflorando ideologias, cuja bandeira principal

1 Atente-se ao fato de que o autor toma por ‘hoje’ o início da década de 90.
Atualmente, com a concretização de várias propostas de Reforma Psiquiá-
trica temos um cenário no qual instituições hospitalares continuam existin-
do, mas já não atuam com o modelo asilar, de sequestro. Some-se a isto
o surgimento de diferentes espaços de cuidados tais como os Centros de
Atenção Psicossocial (CAPS), as Residências Terapêuticas, os Centros de
Convivência dentre outros.

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

levantava a defesa dos direitos humanos da pessoa


com transtorno mental”. Para esses autores, o projeto
serviu para estimular a discussão sobre os rumos da
assistência psiquiátrica, mas, segundo eles, tornava-
se necessária a criação de um projeto que contasse
com a participação da sociedade e atendesse aos seus
interesses.

No Senado Federal, o projeto Paulo


Delgado recebeu pareceres dos senadores Lúcio
Alcântara e José Paulo Bisol antes de ser submetido
à votação. Recebeu uma emenda que dispunha sobre
a substituição progressiva dos leitos psiquiátricos
por outros recursos assistenciais, garantindo que a
desativação dos manicômios só seria efetuada se
fossem criados os serviços alternativos de atendimento.
Entretanto o Senador Lucídio Portella apresentou um
projeto substitutivo que dispunha sobre a manutenção
do modelo manicomial de assistência ao doente mental,
evitando, no seu entender, com a aprovação do projeto
de lei do deputado Paulo Delgado, a ocorrência de
um colapso no atendimento prestado a esse grupo
populacional com o fim dos hospitais psiquiátricos. Para
Nogueira e Morgado (1998, p. 624), “pode-se até dizer
que esse é um projeto reacionário, muito conservador
e que esteja mais ao gosto da política neoliberal, já
que agrada os donos dos hospitais psiquiátricos, e que

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

surgiu não em consequência de interesse prioritário


de melhorar a assistência psiquiátrica, mas como uma
alternativa ao projeto Delgado”. Era, portanto, um
projeto que deveria ser revisto e melhorado já que surgiu
apenas como oposição ao projeto do deputado Paulo
Delgado, atendendo ao interesse de donos de hospitais,
sem a preocupação de discutir e viabilizar mudanças na
assistência psiquiátrica brasileira.

Os dois projetos foram votados pela Comissão


de Assuntos Sociais do Senado em 23/11/1995, sendo
que o projeto do Senador Lucídio Portela ganhou por
18 votos a favor e 4 contra. O parecerista do projeto do
Senador Lucídio Portela foi o Senador Sebastião Rocha.
O texto apresentado por esse senador foi aprovado
pelo plenário do Senado em 20 de janeiro de 1999 e foi
enviado à Câmara Federal como Substitutivo do Senado.

A Câmara pôde optar, então, entre o projeto


Paulo Delgado e o Substitutivo do Senado, sendo que
este foi o votado. O projeto foi encaminhado à sanção
presidencial e transformado em lei em 6 de abril de 2001.

Para Macedo (1996, p. 150), diretora da


Associação dos Amigos, Familiares e Doentes Mentais
do Estado do Rio de Janeiro, “a situação das famílias
é de muita dificuldade porque, para a maioria dos
doentes, o fechamento dos hospitais significa condená-

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

los à rua e à desassistência, porque os recursos


comunitários disponíveis praticamente inexistem”. Essa
autora propõe a criação de hospitais-dia, hospitais-
noite, pensões protegidas e centros de saúde mental,
antes de se pensar em fechar os hospitais psiquiátricos.
Propõe, ainda, a distribuição gratuita de medicamentos
e programas especiais para os pacientes crônicos.
Expõe, claramente, a divergência e o antagonismo
entre os mentores da reforma psiquiátrica e as famílias,
afirmando que “as autoridades públicas e um pequeno
grupo de profissionais de saúde mental, influenciados por
Basaglia, tomaram como bandeira o fim do manicômio
[...] o movimento de familiares surge para fazer frente ao
que chamamos de Desospitalização Irresponsável, que
representa ameaça de desassistência com o fechamento
dos hospitais”.

É importante salientar, neste momento, o


desconhecimento das propostas preconizadas pela
reforma psiquiátrica pelos familiares de usuários dos
serviços de saúde mental. As propostas citadas por
Macedo (1996) coincidem com os ideais da reforma. O
que leva, então, essas famílias a se organizarem nas
diferentes associações, de maneira tão contraditória?

O Projeto de Lei Paulo Delgado criou as


condições para que, em 1992, fosse divulgada a Portaria
GM 224/92, instituindo oficialmente os Centros de

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

Atenção Psicossocial (CAPS) nos quais se descrevem


serviços regionalizados que buscavam oferecer um
cuidado intermediário, criando uma territorialização para
o atendimento em saúde mental. Atendido mais próximo
de sua casa, de sua comunidade, as idas e vindas, tantos
dos usuários desses serviços quanto de seus familiares,
ficam facilitadas.

Em 2002 com uma nova portaria (336/2002), os


CAPS passam a fazer parte da rede de cuidados do SUS
e são instituídos como a porta de entrada para todo o
sistema de atenção em saúde mental. E, assim, no lugar
de serviços substitutivos ao manicômio vai surgindo a
necessidade de se pensar toda uma rede comunitária de
cuidados substitutiva (BRASIL, 2004).

São nesses novos serviços que o protagonismo


da família vai encontrando alguma possibilidade de
se estabelecer de forma concreta como tal. Surgem,
nesses serviços, as experiências de acolher não apenas
o portador de transtorno mental em crise, mas também
seus familiares e lhes proporcionar um espaço de
discussão, de aprendizagem, de compartilhamento de
suas experiências (VIANNA et al., 2009).

Nesse processo de construção de novas


possibilidades de cuidar, aos poucos, vai-se delineando
a necessidade de um trabalho em rede, no qual os

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

muitos dispositivos de cuidados e os diferentes serviços


vão se aproximando da realidade das famílias. Mais
especificamente, quando as Equipes de Saúde da
Família vão se apropriando de seu território, elas vão
se deparando com familiares de doentes mentais, por
vezes famílias inteiras, também adoecidas e sofridas, às
voltas com uma realidade de cuidar de seu parente sem
muitas vezes reunir as condições (de toda natureza)
necessárias para fazê-lo.

Muito do que anteriormente se apresentava


como oposição das famílias vai sendo reconfigurado
e renomeado como desconhecimento, insegurança,
dificuldades financeiras, dificuldades logísticas,
sobrecarga, dificuldades diversas que passam a
aparecer nas falas dos familiares dos portadores de
sofrimento mental (COLVERO, IDE, ROLIM, 2004).
Nessa condição, não raro, encontram-se famílias que
necessitam de apoio, mas também que requerem algo
mais que isso. Não se pode desconsiderar, entretanto,
que se há uma via possível para se articular e pensar o
cuidado e a família de portadores de sofrimento mental,
essa, sem dúvida, só encontra lugar na parceria que
se estabelece entre profissionais, gestores, usuários e
familiares.

Um estudo recente mostra a sobrecarga objetiva


e subjetiva de familiares cuidadores de pessoas com

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Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

sofrimento mental e, como conclusão, as autoras desse


estudo afirmam que é importante para a formulação e
avaliação de políticas públicas considerar a participação
dos familiares e a sobrecarga deles ao assumirem esse
papel. Destacam-se ações como a implantação de grupos,
visitas domiciliares e auxílio para o desenvolvimento de
estratégias de enfrentamento da sobrecarga a fim de
melhorar a qualidade de vida também dos familiares
(BARROSO, BANDEIRA; NASCIMENTO, 2007).

Acreditamos, portanto, que é preciso considerar


a família como também necessitando de ser cuidada,
escutada naquilo que mais lhe incomoda e inquieta,
para além das orientações sobre como lidar, sobre o
comportamento, sobre medicações, trata-se de um
cotidiano de compartilhamento e troca.

A experiência docente nos mostra que os familiares


de pacientes atendidos em serviços substitutivos de
saúde mental, muitas vezes, aceitam o que é proposto
nos projetos terapêuticos, outros relutam em aderir,
aceitam aparentemente, mas as ações necessárias não
são implementadas em seu cotidiano. Não se conformam,
por exemplo, com o fato de o paciente estar em uso de
pouca medicação; partem em busca de profissionais de
outros serviços para alterar a conduta, quando não o
fazem por conta própria. Muitas vezes, insistem em uma
internação que não se justifica do ponto de vista clínico.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


91
A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

Os familiares vivenciam situações, na vida cotidiana,


repletas de significações em seus relacionamentos com
a pessoa em sofrimento mental. Cabe aos profissionais
identificar essas significações de modo a produzir
sentido para suas ações, bem como para os usuários e
para os familiares.

Como afirmam Schrank e Olschowosky: “No


CAPS, a inserção da família também se constitui como
uma dinâmica singular, na qual esse relacionamento
deve apoiar-se na desconstrução da ideia de estar só
no enfrentamento do sofrimento psíquico, integrando,
acolhendo, cuidando e incluindo os atores dessa relação
nos espaços cotidianos da vida: trabalho, lazer, moradia
entre outros”. (SCHRANK; OLSCHOWOSKY, 2008, p.
133).

Contra ou a favor da reforma psiquiátrica, a


família surge no cenário da saúde mental brasileira,
seja na formulação das políticas públicas, seja, mais
diretamente, na assistência, passando a ocupar um
lugar muitas vezes delegado aos profissionais e às
instituições psiquiátricas. “Com certeza, a família
passou da condição de cúmplice para a de protagonista
que produz consenso e dissenso ao mesmo tempo, mas
de qualquer forma ‘senso’, e não é mais simplesmente
‘usada’ como cúmplice ou como vítima” (SARACENO,
1999, p. 103).

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92
Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

Portanto, há que se considerar os sentimentos


e posicionamentos de famílias que convivem
cotidianamente com a pessoa em sofrimento mental,
de modo que nos serviços de saúde mental sejam
fortalecidas as relações com os familiares, entendendo
que são relações necessariamente abertas ao diálogo
para a consolidação de um projeto terapêutico possível.

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A FAMÍLIA E A REFORMA PSIQUIÁTRICA: unidade e oposição

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Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e
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Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do
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BRASIL. Lei n. 10216, de 6 de abril de 2001. Dispõe


sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo II - Pág. 66-95


94
Paula Cambraia de Mendonça Vianna, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, Annette Souza
Silva Martins da Costa e Marília Rezende da Silveira

transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial


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Capítulo III
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

Desenho: Rosane Aparecida da Paixão


98

CAPÍTULO III

SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS


Bruno Vasconcelos de Almeida
Luiz Augusto Lima de Ávila
O terror que se inoculou se expressa,
em muitos casos, como uma paralisia
do pensamento. Assim, vemos desfilar
essas personalidades que carregam um
corpo que não se arrisca para o gozo e
um pensamento que não se arrisca para
a criação. (SAIDÓN, 2008, p.111).

O presente capítulo discute a conectividade saúde mental


e direitos humanos. O ponto de partida é o desenho da
gênese histórica de constituição dos direitos humanos,
desde quando entendidos como direitos naturais até o
momento pós Auschwitz, quando sua dimensão política
se efetiva em relações imanentes nos jogos de força
sociais e de direitos. A identificação do louco com
Napoleão desemboca na indignação contemporânea,
exemplificada pelo panfleto de Stéphane Hessel. Com
a Constituição de 1988 e a criação do Sistema Único
de Saúde, a Reforma Psiquiátrica avançou e favoreceu
a produção de um novo escopo legal no campo da
saúde mental. O capítulo realiza uma breve análise da
Lei 10.216/2001 e de outras legislações pertinentes à
saúde mental, com o objetivo de percorrer os caminhos
de fortalecimento da cidadania no que tange à área da

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


99
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

saúde. Do ponto de vista conceitual, considera-se a


importância das ideias de Hanna Arendt ao problematizar
a ruptura nos direitos humanos; e de Gilles Deleuze, ao
afirmar a singularidade da jurisprudência. Por último,
abordam-se dois problemas da conectividade saúde
mental e direitos humanos nos dias atuais: a produção de
saúde nas clínicas de rua e a figura da cronicidade.

Ainterface saúde mental e direitos humanos parece natural


aos olhos de um contemporâneo; só se pode promover
e produzir saúde respeitados os direitos humanos, os
direitos sociais e os direitos à vida. Mas nem sempre
foi assim, a história humana é recheada de violência,
torturas, suplícios, assassinatos, etc. A lista dessas
violências é imensa. A Declaração de Independência dos
Estados Unidos (1776), a Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão (1789), e a Declaração Universal
dos Direitos Humanos (1948) prepararam o terreno para
o surgimento de políticas efetivas de resgate e respeito
aos direitos humanos.

O desenvolvimento das políticas de saúde, especialmente


a partir da criação dos sistemas nacionais de saúde,
favoreceu o surgimento de condições para a assistência
em saúde de caráter universal, equânime e integral. A
saúde mental testemunhou a luta por uma assistência
que reabilitasse a dignidade do cidadão portador de
sofrimento psíquico. Dispositivos, modos de atenção e

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


100
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

cuidado, gestão de programas e serviços, reinserção e


reabilitação propiciaram um novo lugar para a cidadania.

Novos perigos espreitam a conectividade saúde mental


e direitos humanos, a saber: medicalização excessiva,
judicialização da saúde e da vida, capsização com porta
de entrada e sem porta de saída, pessoas capturadas
na equivalência com objetos de consumo.

A epígrafe deste capítulo, extraída de um texto de


Osvaldo Saidón (2008), remete à condição daqueles que
sofreram as violências do estado quando das ditaduras
latino-americanas. Resquícios da violência organizada
sobrevivem no cotidiano.

Em uma forma ou outra, seja a violência cronificante


dos hospitais psiquiátricos e de alguns modelos de
saúde, seja o terrorismo de estado na América Latina, a
conectividade da saúde mental com os direitos humanos
aponta para múltiplas indagações éticas e políticas: como
viver juntos, como cuidar em saúde, como estabelecer
uma relação com o estado que não seja infame. O
capítulo que se segue problematiza alguns aspectos da
interface saúde mental e direitos humanos.

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101
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

De Napoleão ao ‘Indignai-vos!’ de Stéphane Hessel

A gênese histórica dos direitos humanos contempla os


esforços de inúmeros pensadores para definir os direitos
naturais das pessoas e a realização de campanhas
internacionais como, por exemplo, a abolição da
escravatura. O atual movimento dos direitos humanos
iniciou-se ao final da Segunda Guerra Mundial como
reação às atrocidades e à barbárie do holocausto.

A figura de Primo Levi, químico e escritor italiano


deportado para o campo de concentração de Auschwitz
em 1944, sobrevive como fonte inesgotável de
inquietação, quando perguntamos pela humanidade
de cada um, por aquilo que sobrevive do homem nos
limites da experiência de judeus presos nos campos, em
especial aqueles conhecidos como muçulmanos. A vasta
literatura do horror dos últimos setenta anos engloba
a memorialística de guerra, os relatos de atrocidades
e riscos, os relatórios redescobertos com registros de
torturas, mortes e genocídios.

A curiosa história da psiquiatria moderna nos informa seu


nascimento e expansão inicial no período monárquico e
no terror daí originado. A chegada dos restos mortais
de Napoleão à França coincide com a multiplicação de
homens que se acreditavam Napoleão, portadores de

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102
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

sua cabeça, monomaníacos orgulhosos, estridentes,


falastrões (MURAT, 2012).

O cenário da Revolução Francesa compõe igualmente


um dos planos de fundo do nascimento dos direitos
do homem, les droits de l’homme. O termo ‘direitos
do homem’ foi usado somente após 1789. De acordo
com Hunt (2009, p.19), os direitos humanos, human
rights, requerem três qualidades: devem ser naturais
(inerentes nos seres humanos), iguais (os mesmos para
todo mundo) e universais (aplicáveis por toda parte).
Do ponto de vista da experiência histórica, os direitos
humanos foram construídos ao longo de processo
que se inicia com a Declaração de Independência dos
Estados Unidos (1776), passando pela Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão (1789), e culminando
na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

Enunciados não coincidem com a efetivação


materializada das práticas. Uma declaração leva tempo
para que se distribua no conjunto das formações sociais.
O escopo legal da invenção dos direitos humanos
não coincide com sua implantação e reconhecimento
enquanto modos de experimentar direitos, autonomia e
liberdade.

Em termos históricos a inclusão de crianças, loucos,


prisioneiros e estrangeiros no âmbito dos direitos

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103
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

universais é algo bastante recente, e as três qualidades


atribuídas aos direitos humanos, qualidades acima
relacionadas, são um tanto quanto insuficiente. Hunt
(2009, p.19) afirma que os direitos se tornam significativos
quando ganham conteúdo político, inserem-se na
vida social e coletiva, e requerem ao mesmo tempo
participação ativa daqueles que os detém.

Liberdade, autonomia, autoafirmação, inviolabilidade


dos corpos, capacidade de julgamento moral, igualdade
constituem pontos e perspectivas que vieram ao longo
dos últimos trezentos anos, delineando o campo
dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que se
redefiniram modelos de coexistência político-sociais.

A invenção dos direitos humanos no contexto dos


processos históricos que conduziram ao desenho
cristalizado da discussão atual pode ser ilustrada no texto
inicial da Declaração da Independência e nos primeiros
artigos da Declaração Francesa e da Declaração
Universal:
Consideramos estas verdades
autoevidentes: que todos os homens são
criados iguais, dotados pelo seu Criador
de certos Direitos inalienáveis, que entre
estes estão a Vida, a Liberdade e a
busca da Felicidade. (DECLARAÇÃO DA
INDEPENDÊNCIA, 1776).

Os homens nascem e permanecem livres


e iguais em direitos. As distinções sociais

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104
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

só podem ser baseadas na utilidade


comum. (DECLARAÇÃO DOS DIREITOS
DO HOMEM E DO CIDADÃO, 1789).

Todos os seres humanos nascem


livres e iguais em dignidade e direitos.
São dotados de razão e consciência e
devem agir uns para com os outros num
espírito de fraternidade. (DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,
1948).

A igualdade está postulada como ponto de partida


autoevidente e os valores da liberdade e da vida são
comuns. A Declaração da Independência postula a
busca da felicidade e a Declaração Universal o espírito
de fraternidade. A Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão postula que as distinções sociais só podem
ser baseadas na utilidade comum.

A lista de direitos é dividida em duas categorias:


direitos civis e políticos, de um lado, e direitos sociais
e econômicos, por outro. Os primeiros protegem o
indivíduo contra o poder do estado: direito à vida,
liberdade, segurança pessoal, o direito de não ser
torturado ou submetido a tratamento ou castigo cruel, o
direito à não invasão na privacidade, a igualdade diante
da lei, o direito à liberdade de pensamento, consciência
e religião. A segunda categoria inclui o direito à
educação, segurança social, trabalho e padrão de vida

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


105
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

adequado para a saúde e o bem-estar. (DECLARAÇÃO


UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948).

Um sentimento de fraternidade, um espírito de


solidariedade, a ciência da indiferença como a pior das
atitudes fez com que Stéphane Hessel, judeu nascido
na Alemanha e naturalizado francês, único sobrevivento
dos doze homens que redigiram a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, publicasse um panfleto em 2010,
após sua estadia de dois anos na Palestina, intitulado
Indignai-vos!

O texto consiste de um alerta sobre a situação de


indiferença em relação à vida e à política. Hessel afirma
que ao seu tempo tinha inúmeros motivos para se
indignar: o nazismo, a barbárie, o campo de concentração,
entre outros. O panfleto é dirigido à juventude europeia,
com fins de estimulá-la a perseguir no combate pela
manutenção das conquistas sociais e no enfrentamento
das ditaduras dos mercados financeiros que, segundo o
autor, ameaçam a paz e a democracia.

Hessel postula a insurreição pacífica contra os inúmeros


problemas enfrentados atualmente nas sociedades: da
concentração de renda à imigração, dos mercados às
garantias da seguridade social. O autor fala em redes
e as compara ao modo de organização da resistência
francesa. Note-se que o percurso de Hessel em prol

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106
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

dos direitos humanos, sua participação em momentos


pontuais da história recente, e seu papel na elaboração
da Declaração Universal fazem dele um homem singular.
O panfleto tornou-se best-seller, lido em praticamente
todos os países europeus. Indignai-vos! problematiza
nossa relação com a história e com a luta pelos direitos
humanos. Por que ainda vivemos tão precariamente
seus postulados? Vejamos a seguir o caso da saúde
mental no Brasil.

Saúde Mental e Direitos Humanos no Brasil:


perspectivas em torno da Lei 10.216/01

Ao final da ditadura militar, o Brasil iniciou o processo


constituinte que resultaria na sétima constituição
brasileira, a Constituição de 1988. No esteio das
mudanças, o país produziu documentos e leis que
tiveram importante papel na recuperação de direitos e
no estabelecimento de práticas educativas da cidadania.
Entre estes, encontramos o Código de Defesa do
Consumidor (Lei 8.078/90), a Lei Orgânica da Saúde
(Lei 8.080/90) e o Estatuto da Criança e do Adolescente
(Lei 8.069/90), conhecido como ECA.

Desenvolveram-se no interior da sociedade brasileira, de


maneira bastante rica e diversificada, inúmeros debates
no campo social, especialmente na seguridade, isto é,
na previdência, na assistência social e na saúde.

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107
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

O Movimento Sanitário e a Reforma Psiquiátrica


favoreceram a determinação da saúde como dever do
estado e direito do cidadão. No campo da saúde mental,
até então, não existia o paciente como sujeito político.
Enunciados científicos, discursos corporativos, saberes
estratégicos, compunham os cenários da assistência
para os doentes, com claro predomínio do modelo
médico, hospitalar e manicomial.

A Lei 10.216/01 contempla em seu artigo primeiro a


garantia, sem qualquer forma de discriminação, dos
direitos e da proteção das pessoas acometidas de
transtorno mental. O artigo segundo dispõe sobre os
direitos da pessoa portadora de transtorno mental. O
artigo terceiro aponta a responsabilidade do estado no
desenvolvimento de uma política de saúde mental. Na
sequência o artigo quarto trata da internação, somente
justificável quando esgotados os recursos extra-
hospitalares. Vale lembrar que é vedada a internação
em instituições com características asilares. Já o artigo
quinto trata dos pacientes com grande dependência
institucional, para os quais é necessária uma política
específica. (BRASIL, 2001).

Na sequência encontramos ainda os seguintes


dispositivos: a internação psiquiátrica se fará mediante
laudo médico que caracterize seus motivos, através
de três formas, voluntária, involuntária e compulsória;

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


108
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

a internação voluntária depende de declaração por


escrito; a voluntária e a involuntária serão autorizadas
por médico com registro no Conselho Regional de
Medicina; a internação psiquiátrica involuntária, assim
como a alta, deve ser comunicada ao Ministério Público;
já a internação compulsória é determinada pelo juiz
competente; ocorrências como evasão, transferência,
acidente, intercorrência clínica e falecimento devem ser
comunicados aos familiares ou seu representante legal,
bem como à autoridade sanitária no prazo máximo de
vinte e quatro horas; por último, pesquisas científicas
dependem do consentimento expresso do paciente.
(BRASIL, 2001).

O longo debate estabelecido na sociedade brasileira,


entre o projeto de lei 3657/89 e a lei 10.216/01, resultou
na mudança da legislação e na transformação do lugar
do ‘louco’ na vida pública. Cidadania, direitos, restrições
à internação, respeito à pessoa humana são valores
presentes no quadro das transformações no campo
da saúde mental. Na sequência, estabelecemos um
breve levantamento dos decretos, leis e portarias, que
implicaram significativas mudanças no reconhecimento
e na cidadania das pessoas acometidas por transtornos
mentais.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


109
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

Outras legislações em Saúde Mental

Uma das possibilidades de se pensar as interfaces


entre saúde mental e direitos humanos é o campo de
aplicação jurídica, em que leis, portarias e resoluções
produzem eixos normativos do ordenamento de políticas
públicas, em especial no âmbito da seguridade social.
Neste sentido, encontra-se relacionado na sequência um
pouco da produção legal originada no Sistema Único de
Saúde, bem como no Conselho Nacional de Justiça e no
Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária,
com o objetivo de fortalecer as condições reais para
a cidadania de pessoas com sofrimento psíquico ou
transtorno mental.

Para fins de organização do complexo jurídico em


torno das aproximações entre saúde mental e direitos
humanos, dividimos a sequência em leis, decretos,
portarias e resoluções. Da mesma forma, estabelecemos
o critério cronológico tendo como ponto de partida a Lei
10.216/2001, comentada acima, e que se constituiu
como marco divisor na política de saúde mental no Brasil.

Dois anos após a Lei 10.216/2001, a Lei 10.708/2003


instituiu o auxílio reabilitação psicossocial para pacientes
egressos de internação psiquiátrica, internação superior
a dois anos ou ainda pacientes oriundos de hospitais
de custódia pelo mesmo prazo. A medida reforça o

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


110
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

programa denominado ‘De Volta Para Casa’ e visa ao


acompanhamento e integração social de pacientes
acometidos de transtornos mentais. Efetivou-se, com
esta lei, o recurso mínimo para reabilitação psicossocial,
estratégia esta que atende ao resgate de direitos
básicos para cidadãos submetidos às violências dos
poderes disciplinares, exemplificados pelos hospitais
psiquiátricos (BRASIL, 2003). Na prática, o dispositivo
acima constituiu importante estratégia de financiamento
para a saída do manicômio e retorno à vida social de
pacientes com longos anos de internação.

Em 14 de setembro de 2012, a presidente do Brasil


promulgou a Lei 12.714/2012, que dispõe sobre o
sistema de acompanhamento da execução das penas,
da prisão cautelar e da medida de segurança, com a
exigência do sistema informatizado e com os registros da
execução, dados da prisão e da medida de segurança,
para internação ou prisão. A inflação das medidas de
segurança e o não acompanhamento do sistema legal
produziram violações no âmbito dos direitos humanos e
da política de saúde mental.

O Decreto Número 7.508/2011, que regulamenta a Lei


8.080/90, e que dispõe sobre o planejamento da saúde, a
assistência à saúde e a articulação interfederativa, prevê
que, nas Redes de Atenção à Saúde, seja contemplada
a atenção psicossocial, inclusive como porta de entrada

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


111
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

às ações e serviços. Trata-se de estratégia de efetivação


da assistência no âmbito territorial ou, no máximo, em
perspectiva regional. Vale lembrar que o manicômio
ficava afastado da cidade e inscrevia no corpo do
chamado louco o isolamento e a exclusão. As lógicas
do território favorecem o desenvolvimento da cidadania,
bem como propicia a criação de redes pessoais e de
assistência.

A Portaria MS/GM Número 52/2004 instituiu o programa


de reestruturação da assistência psiquiátrica hospitalar
no Sistema Único de Saúde. Trata-se de uma estratégia
de redução do número de leitos psiquiátricos, da
obrigatoriedade de organização da assistência,
incluindo a instalação de equipes adequadas, bem como
estabeleceu prazo para a reorganização da atenção em
saúde mental em hospitais gerais.

A Portaria MS/GM Número 246/2005 destina incentivo


financeiro para a implantação de serviços residenciais
terapêuticos, serviços estes que acolhem pessoas com
longo histórico psiquiátrico, pessoas com passagens
pela saúde mental e sem moradia, usuários de álcool
e drogas sem referências familiares, sociais ou outras.
A residência terapêutica tem importância estratégica na
Reforma Psiquiátrica; foi uma das formas encontradas
para a saída do hospital psiquiátrico e um meio para

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


112
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

que os cidadãos tivessem residência, espaço de vida e


convivência.

A Portaria MS Número 1.876/2006 trata de diretrizes para


a prevenção de suicídio, respeitadas as competências
das três esferas da gestão de saúde. As diretrizes
implantadas de forma articulada preveem um conjunto
de ações e estratégias de enfrentamento, nos âmbitos
de promoção, prevenção, cura e reabilitação, com linhas
de cuidados integrais, mapeamentos epidemiológicos,
políticas de comunicação, entre outras ações. Questão
difícil do ponto de vista social, que atinge a população
em geral, e de maneira análoga, aos portadores de
sofrimento mental.

Já a Portaria Interministerial MS/SEDH Número


3.347/2006 instituiu o Núcleo Brasileiro de Direitos
Humanos e Saúde Mental. Vale a pena considerar o
trecho inicial do anexo que apresenta o Núcleo:
O ‘Núcleo Brasileiro de Direitos Humanos
e Saúde Mental’ é uma iniciativa do
Ministério da Saúde e da Secretaria
Especial de Direitos Humanos que visa
ampliar os canais de comunicação entre
o poder público e a sociedade, por
meio da constituição de um mecanismo
para o acolhimento de denúncias e o
monitoramento externo das instituições
que lidam com pessoas com transtornos
mentais, incluídas as crianças e
adolescentes, pessoas com transtornos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


113
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

decorrentes do abuso de álcool e outras


drogas, bem como pessoas privadas de
liberdade. (BRASIL, 2006).

Ele é composto por instituições governamentais,


universitárias e da sociedade civil. Entre seus objetivos
encontra-se o de criar e fomentar redes de proteção de
direitos das pessoas com transtornos mentais. O Núcleo
Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental tem
funções de ouvidoria, monitoramento, articulação em
rede e produção de conhecimento.

A Portaria MS/SAS Número 501/2007 criou o PNASH/


Psiquiatria, isto é, o Programa Nacional de Avaliação dos
Serviços Hospitalares. O programa, além de proceder
à avaliação e qualificação dos hospitais psiquiátricos,
prevê igualmente o planejamento do processo de
reintegração social dos pacientes e das altas, bem como a
expansão dos serviços extra-hospitalares. Essa portaria
é de grande importância, dado o conhecido quadro dos
hospitais psiquiátricos brasileiros, seja do ponto de vista
da infraestrutura, dos recursos humanos e da assistência
prestada. Com o ‘Núcleo Brasileiro de Direitos Humanos
e Saúde Mental’ e com o PNASH/Psiquiatria assistimos
ao fortalecimento da via institucional na Reforma
Psiquiátrica e a um novo desenho para as políticas de
saúde mental.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


114
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

A Portaria MS/GM Número 3.237/2007 aprovou as


normas de execução e financiamento da assistência
farmacêutica na Atenção Básica de Saúde. Ela prevê
execução, as fontes pactuadas do financiamento e
a lista dos medicamentos padronizados, incluídos aí
medicação psicotrópica.

Quatro anos depois, o Ministério da Saúde, em 26


de dezembro de 2011, promulgou quatro portarias
interligadas, a saber: Portaria MS/GM 3088; Portaria
MS/GM 3089; Portaria MS/GM 3090 e Portaria MS/GM
3099.

A Portaria MS/GM Número 3.088/2011 instituiu a Rede


de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento
ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do
uso de crack, álcool e outras drogas. A portaria descreve
a rede de atenção psicossocial como parte do Sistema
Único de Saúde (SUS), bem como seu ordenamento,
suas articulações e suas diretrizes. Ela apresenta a
Rede funcionando através da articulação de serviços:
1 a Unidade Básica de Saúde (UBS) e seus pontos
de atuação; 2 atenção psicossocial especializada, os
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em suas
modalidades; 3 atenção de urgência e emergência, com
seus pontos de atenção; 4 atenção residencial de caráter
transitório, utilizando seus pontos de atenção, como
Unidade de Acolhimento ou Serviço de Atenção em

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


115
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

Regime Residencial; 5 atenção hospitalar em hospital


geral e serviço hospitalar de referência; 6 estratégias
de desinstitucionalização, os Serviços Residenciais
Terapêuticos; 7 reabilitação psicossocial, com iniciativas
de trabalho e renda.

A Portaria MS/GM Número 3.089/2011 instituiu recurso


financeiro fixo para os Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS), variando de acordo com o tipo, CAPS I, CAPS
II, CAPS III, CAPS i, CAPS AD ou CAPS AD III. Nesta
portaria fica instituído também um recurso financeiro
variável de custeio para cada tipo de CAPS. A avaliação
e o acompanhamento serão estabelecidos por meio
de indicadores propostos pelo Ministério da Saúde.
Esta portaria corrobora a reversão do modelo de
financiamento da doença em prol do financiamento com
lógica na produção e promoção de saúde.

A Portaria MS/GM Número 3.090/2011 alterou a Portaria


Número MS/GM 106/2000, que criou os Serviços
Residenciais Terapêuticos (SRT) e dispõe sobre novas
implantações dos serviços e de seu funcionamento. Os
SRT deverão acolher pessoas com internação de longa
permanência, egressos de hospitais psiquiátricos e
hospitais de custódia. Eles terão duas modalidades de
moradias, uma para pessoas com transtorno mental em
processo de desinstitucionalização e outra para pessoas
com transtorno mental, que necessitam de cuidados

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


116
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

permanentes devido à dependência de outras pessoas,


em especial por comprometimento físico.

A Portaria MS/GM Número 3099/2011 refere-se a uma


nova forma de financiamento do Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS), incorporando seus recursos ao
teto financeiro anual da Assistência Ambulatorial e
Hospitalar de Média e Alta Complexidade. Essa portaria
também corrobora uma redistribuição dos recursos que
favorece lógicas atentas à produção de saúde.

Em 25 de janeiro de 2012, a Portaria MS/GM 121


instituiu a Unidade de Acolhimento para pessoas com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e
outras drogas, com funcionamento 24 horas, de caráter
residencial e transitório. A Unidade de Acolhimento faz
parte do componente de atenção residencial de caráter
transitório da Rede de Atenção Psicossocial, e deverá
oferecer acolhimento voluntário e cuidados contínuos
a essas pessoas, quando em vulnerabilidade social e
familiar. Os usuários serão acolhidos neste serviço
segundo critérios da equipe do Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) de referência.

Nesta mesma ocasião, outras duas portarias de interesse


da Saúde Mental foram promulgadas, ambas tratando
das equipes de Consultórios de Rua, a Portaria MS/GM
122 e a Portaria MS/GM 123.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


117
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

A Portaria MS/GM Número 122/2012 definiu as


diretrizes de organização e funcionamento das equipes
de Consultórios de Rua (eCR), seguindo as diretrizes
e fundamentos da Política Nacional de Atenção Básica.
Contam com equipes multiprofissionais, desempenhando
atividades in loco, com ações integradas com as
Unidades Básicas de Saúde (UBS), com os Centros
de Atenção Psicossocial (CAPS), com os serviços de
urgência e emergência, e demais pontos da Rede de
Atenção Psicossocial, quando o usuário necessitar.

A Portaria MS/GM Número 123/2012 vem complementar


a Portaria de Número 122/2012, estabelecendo critérios
para o número máximo de equipes de Consultórios de
Rua (eCR) por município.

A Portaria MS/GM Número 130/2012 refere-se à


redefinição do Centro de Atenção Psicossocial de Álcool
e Outras Drogas 24 horas e seus aportes financeiros. O
CAPS AD III deverá funcionar 24 horas do dia, todos os
dias da semana, inclusive finais de semana e feriados,
oferecendo atendimento integral às pessoas com
necessidades relacionadas ao consumo de álcool, crack
e outras drogas. Poderá atender adultos, ou crianças e
adolescentes, de forma separada ou conjunta, e poderá
se constituir como referência regional, pactuada pela
Comissão Intergestores Regional (CIR).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


118
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

Ainda se referindo ao atendimento integral às pessoas


com necessidades relacionadas ao consumo de álcool,
crack e outras drogas, foi promulgada a Portaria MS/GM
Número 131/2012, que trata do incentivo financeiro de
custeio aos estados, municípios e ao Distrito Federal, para
apoio de Serviços de Atenção em Regime Residencial,
incluindo as Comunidades Terapêuticas. Esses serviços
devem ter caráter residencial e transitório. Para o
recebimento desse incentivo o ente federado deverá
contar com pelo menos um CAPS, preferencialmente
um CAPS AD III, com pelo menos uma unidade de
acolhimento adulto, um serviço hospitalar de referência
e uma retaguarda de atendimento de urgência. Medida
polêmica no que diz respeito às relações saúde mental
e direitos humanos, pois traz de volta a questão das
comunidades terapêuticas, com histórico de desrespeito
e violações de direitos humanos em diversos estados do
país.

A Portaria MS/GM Número 132/2012 refere-se ao


incentivo financeiro de custeio direcionado aos
programas de reabilitação psicossocial. A portaria
contempla as iniciativas de geração de trabalho e renda,
empreendimentos solidários e cooperativas sociais. Para
o recebimento desse incentivo, o ente federado deve
desenvolver programa de reabilitação, estando inserido
na Rede de Atenção Psicossocial do SUS, incluído no

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


119
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

Cadastro de Iniciativas de Inclusão Social pelo Trabalho


(CIST) do Ministério da Saúde e em relacionamento de
parceria com Associações de Usuários, Familiares e
Técnicos, Cooperativas, Incubadoras de Cooperativas
ou Entidades de Assessoria e Fomento em Economia
Solidária para apoio técnico e acompanhamento dos
projetos. A geração de trabalho e renda se constitui como
importante fator de reinserção social e um dos motores
da reabilitação psicossocial.

A Portaria MS/GM Número 148/2012 definiu as normas


de funcionamento e habilitação do Serviço Hospitalar
de Referência para atenção a pessoas com sofrimento
ou transtorno mental e com necessidades de saúde
decorrentes do uso de álcool, crack e outras drogas.
O serviço hospitalar de referência para atenção ao
usuário de que trata a portaria faz parte do componente
hospitalar da Rede de Atenção Psicossocial, devendo
estar articulado aos outros pontos de atenção. A portaria
incorpora o atendimento a pessoas com sofrimento
ou transtorno mental nos leitos em Hospital Geral, já
habilitados como Serviço Hospitalar de Referência para
Atenção Integral aos Usuários de Álcool e Outras Drogas
(Portaria MS/GM 2842/2010). Essa portaria foi alterada
e acrescida pela Portaria MS/GM 349/2012, instituindo
incentivos financeiros e de custeio instituídos na anterior
portaria.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


120
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

Por último, as resoluções. Em 05 de maio de 2004, o


Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
promulga a Resolução de Número 5, na qual são
traçadas as diretrizes para o cumprimento das Medidas
de Segurança, de forma coerente com a Lei Nº 10.216,
de 06 de abril de 2001.

O Conselho Nacional de Justiça, na Resolução de


Número 113, de 20 de abril de 2010, aborda a questão
da medida de segurança, da pena privativa de liberdade
e outras providências. Ela está em sintonia com a Lei nº
10.216, de 06 de abril de 2001, ao abordar a medida de
segurança, na qual o juiz deverá, sempre que possível,
determinar políticas antimanicomiais, conforme
preconizado pela lei.

Já o Conselho Nacional de Política Criminal e


Penitenciária, em 30 de julho de 2010, estabeleceu a
Resolução de Número 4, que dispõe sobre as Diretrizes
Nacionais de Atenção aos Pacientes Judiciários e
Execução da Medida de Segurança. Nessa Resolução,
recomenda-se a adoção de políticas antimanicomiais
junto aos pacientes judiciários e à execução de Medida de
Segurança, devendo acontecer em serviços substitutivos,
com acompanhamento psicossocial contínuo, com
abordagem intersetorial, visando à inserção social do
paciente judiciário. A resolução estabelece um prazo de
10 (dez) anos para o Poder Executivo, em parceria com

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


121
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

o Poder Judiciário, implantar o modelo antimanicomial


e substituir o modelo manicomial de cumprimento de
medida de segurança.

Anotações em torno da conectividade ‘saúde mental


e direitos humanos’

Uma das imagens da violação dos direitos humanos


presente em nosso imaginário é aquela do pátio do
hospital psiquiátrico com internos nus e caídos pelo
chão. A imagem sinalizava o abandono e o descaso a
que eram relegados pacientes portadores de sofrimento
mental, assim como andarilhos, doentes, alcoolistas,
homossexuais, transexuais e outros, incluindo presos
políticos.

Hospícios se multiplicaram pelo Brasil e, na verdade,


eram depósitos de exclusão e morte de pessoas sem
cidadania. O início da Reforma Psiquiátrica ao final da
década de setenta, e após o discurso Kennedy (1961),
a reforma na Itália, as comunidades terapêuticas da
Inglaterra, a psiquiatria de setor na França, entre outros
movimentos de crítica e desconstrução das instituições
totais, culminou em complexos processos de reinvenção
da assistência e dos modelos de atenção à saúde.

A violação dos direitos humanos de pacientes portadores


de sofrimento mental era observada com frequência e
como regra, nas instituições e fora dela, e na ausência

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


122
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

de políticas que garantissem a assistência adequada.


Em muitos casos a internação por prazo indeterminado
desdobrava-se em internação até a morte. No Brasil,
projetos de reabilitação psicossocial tiveram início nos
anos noventa do século passado.

O leito psiquiátrico ainda sobrevive na política de saúde


do país. A maioria foi substituída pela criação de centros
de atenção psicossocial, com tratamentos ambulatoriais,
permanência em hospitais-dia e centros de convivência,
assistência domiciliar, políticas e programas de
reinserção social.

Contudo, novas estratégias que eliminam a conectividade


saúde mental e direitos humanos estão em curso, em
especial duas produzem efeitos ainda não mensuráveis
e de grande alcance no cotidiano de portadores de
sofrimento mental: a judicialização da vida e da cidadania
e a medicalização de comportamentos e existências.

A primeira diz respeito aos encontros infames


(FOUCAULT, 2003) entre o cidadão e o Estado, entre o
sujeito e o poder judiciário ou outro qualquer. Neles, até
o sofrimento e a vida comum viram alvo da biopolítica
que os captura no enredamento das malhas da lei. Já
a segunda estratégia, a da medicalização, expressa no
assalto do cotidiano através de relações entre a ciência,
a indústria farmacêutica e o mercado, acaba por produzir

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


123
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

modos subjetivos de existência que não reconhecem a


experiência singular, a tolerância ao sofrimento, a recusa
de performances nas vidas profissional e amorosa.

Na história da loucura, reconhecemos as figuras da


exclusão (FOUCAULT, 1991) e a tenebrosa lógica dos
tratamentos (PESSOTTI, 1996; 1999). Longa história
em que a ciência se afirmou pelo descaso absoluto no
qual se jogavam destinos, vidas, existências. Os nomes
da loucura variaram ao longo do tempo, classificações
se renovaram e, contudo, não é possível encontrar uma
linha que possa abranger um claro entendimento da
experiência da loucura atravessando as épocas, isto é, a
loucura tem a forma da história, das vicissitudes políticas
e científicas e do radical abandono da figura do homem
com sua solidão.

A própria ideia de vincular saúde mental e direitos humanos


sinaliza significativas transformações na perspectiva
ética que se desenha para o âmbito da assistência e
da gestão da saúde mental no cenário mundial e, em
especial, no Brasil. A separação, contudo, sinaliza riscos
permanentes para as conquistas realizadas no âmbito
da Reforma Psiquiátrica, do Sistema Único de Saúde e
da vigência, no país, do maior período democrático da
história republicana.

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124
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

Ruptura nos Direitos Humanos e Jurisprudência:


Hannah Arendt e Gilles Deleuze

Após a Primeira Guerra Mundial e com a ascensão


do nazismo e do stalinismo, a Europa criou uma
massa de homens ‘supérfluos’, excluídos socialmente
e excluídos do universo do direito. Esses homens
sem reconhecimento foram postos nos campos de
concentração e trabalho forçado.

A ausência absoluta de uma normatividade jurídica


apontou para o fim de certa ideia de homem presente
ao longo da história do humanismo. A forma clássica
da figura do homem esgotou suas possibilidades nos
campos de concentração.

Neste contexto, apátridas, minorias, homossexuais,


judeus e outros não tinham mais os direitos consagrados
como inalienáveis. A naturalização dos direitos humanos
cedia espaço ao entendimento, afirmado por Hannah
Arendt (1906-1975), dos direitos humanos entendidos no
contexto político e no espaço público, construído pelos
homens e fundado na igualdade entre eles. Tratou-se
de pensar a fundamentação dos direitos humanos na
política e não na natureza (ARENDT, 1989).

Outro aspecto da crítica de Arendt diz respeito ao


atrelamento dos direitos humanos ao contexto da
soberania nacional e dos direitos nacionais. Contudo,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


125
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

a autora avança ao recolocar o problema da seguinte


maneira: reconstruir os direitos humanos mediante o
reconhecimento do direito a ter direitos, para além das
fronteiras nacionais e das limitações impostas pelo
Estado.

Se a forma homem já dava sinais de arrefecimento


desde Nietzsche (DELEUZE, 2005), uma nova ideia
de subjetividade se delinearia como o desdobramento
de um século bárbaro, onde o não reconhecimento de
direitos, a tortura e a morte estariam presentes do início
ao fim.

Deleuze (1925-1995), em seu Abecedário (1988/1989),


fez uma afirmativa polêmica em torno dos direitos
humanos quando afirmou que estes não tinham
importância. Para ele, o que realmente importava era
a jurisprudência. Ao se criar condições para uma nova
situação de direitos políticos, a prática e o pensamento
são colocados em questão, de forma a fazer valer o direito
na sua vertente libertadora. Deleuze cita o exemplo do
extermínio dos armênios pelos turcos; massacrados
por estes e vítimas de desastres naturais, os armênios
encontraram-se emparedados entre o extermínio e a
sobrevivência precária.

A barbárie ultrapassou o campo discursivo e impôs seus


efeitos na vida desprovida de sentido e de força. Criar a

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


126
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

jurisprudência é apostar no movimento de reinvenção da


vida e do direito. As forças que compõem os processos de
subjetivação são variáveis e sua natureza afirmativa ou
destrutiva é dependente das composições e encontros
que estabelecemos na vida.

Vale notar que Hannah Arendt e Gilles Deleuze


recolocaram o problema dos direitos humanos ancorados
nas forças esmagadoras da violência institucional e da
barbárie, e que estas, de maneira definitiva, redefiniram
os modos de produção de subjetividade que se atualizam
nos problemas atuais. Muitos outros o fizeram, mas
a particularidade dos dois pensadores justificam os
apontamentos esboçados acima.

Direitos humanos inseridos no campo político e social,


universalização dos direitos para além das questões
nacionais e jurisprudência indicam um plano possível
para a discussão dos direitos humanos na atualidade.

Do ponto de vista da saúde mental, assistimos à


substituição do modelo de tutela para o modelo
de controle. Michel Foucault havia caracterizado a
sociedade de soberania e a sociedade disciplinar. Gilles
Deleuze antecipou o modelo da sociedade de controle.
Com o fim dos manicômios e o processo conhecido
como capsização, identificamos formas de controle que
incidem sobre os modos de produção de subjetividade:

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


127
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

do controle químico medicamentoso ao controle


visual do deslocamento nas cidades, da fabricação de
subjetividades desconectadas das forças disruptivas do
desejo ao adestramento e modulação dos corpos.

O manicômio usurpou a vida daqueles que ali


permaneceram. O modelo de clínica dos serviços
substitutivos e abertos precisa ser repensado para não
repetir as sutis estratégias da usurpação. A produção de
saúde pressupõe a construção e reconhecimento de um
campo, o respeito e a afirmação dos direitos humanos.

A passagem à sociedade de controle está ligada ao


enfraquecimento da sociedade civil. As instituições
não mais são capazes de fazer a mediação das
trocas sociais. O direito se enfraquece e a ‘sociedade
mundial de controle’ investe sobre as forças de criação
e resistência. Neste cenário, a relação com a loucura
parece ganhar novos contornos. Novos problemas se
impõem, demarcam territorialidades e capturam desejos.

A relação com a loucura ainda está marcada pelo jogo


psicopatológico, mas igualmente presa a uma lógica
que faz equivaler sua distribuição classificatória a bens
de consumo, através dos quais os sujeitos se definem
no balcão da farmácia contemporânea: síndrome do
pânico, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


128
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

anorexia, bulimia, obesidade, transtorno bipolar,


transtorno depressivo, etc.

Dado que o modelo é sempre insuficiente, testemunhamos


a judicialização da saúde e da vida. A indústria
farmacêutica se torna o agente mais importante de
fabricação dos processos saúde-doença. Da escola ao
trabalho, da família à igreja, da gestão pública à ciência,
todos os processos são judicializáveis. Medicalização e
judicialização constituem dois processos que perpassam
no atual as relações saúde mental e direitos humanos.

Saúde Mental nas Cidades: o trabalho de agentes


comunitários de saúde, acompanhantes terapêuticos,
redutores de danos e equipes de consultórios de rua

Desde o surgimento dos sistemas nacionais de saúde ao


longo da primeira metade do século XX, especialmente
com a criação do National Health Service – NHS no
Reino Unido, as políticas de saúde esforçaram-se por
ampliar o lócus das práticas de saúde. Com acesso
universal, cuidados integrais e financiamento por
impostos, os sistemas de saúde viram-se incapacitados
de multiplicar o conjunto de serviços do tipo hospital ou
ambulatório para atendimento da população. No modelo
liberal privado, a compra de serviços de saúde esbarra
na ineficácia e no alto custo de manutenção e prestação.

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129
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

Ao longo dos últimos sessenta anos, a saúde mental


como prática de cuidado e produção de saúde sofreu uma
espécie de mutação espacial. No caso brasileiro, a partir
dos anos setenta e oitenta, ela conheceu deslocamento
significativo da esfera privada para a esfera pública, de
clínicas e hospitais privados em sua maioria construídos
com financiamento público, para o conjunto precário
dos serviços prestados pelo Estado, especialmente
ambulatórios, fazendo crescer, ao mesmo tempo, o
quantitativo da prestação de serviços, assim como a
ineficácia dos mesmos.

Com o surgimento do Sistema Único de Saúde –


SUS, após o período embrionário do Sistema Único
e Descentralizado de Saúde – SUDS, e a partir da
necessidade social de ampliação da assistência em
saúde, ao final dos anos oitenta e ao longo dos anos
noventa, continuamos assistindo ao aumento do número
dos ambulatórios e posteriormente o deslocamento
destes para os denominados centros de atenção
psicossocial – CAPS.

Apesar da fragmentação do modelo assistencial, a ideia


de rede conectada de múltiplos modos tornou-se uma
necessidade do sistema de saúde na medida em que o
usuário passou a circular nos dispositivos de prevenção,
promoção, cura e reabilitação. No caso da saúde
mental, o modelo substitutivo assimilou e reproduziu

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


130
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

vícios oriundos do modelo hospitalar que o antecedeu,


com a ressalva evidente da melhoria da qualidade dos
serviços de saúde bem como da imperiosa inscrição da
assistência no respeito aos direitos humanos, diretriz
fundamental da clínica e das práticas em saúde.

Com a mudança do milênio nos deparamos com novo


deslocamento das práticas de saúde, desta vez dos
centros especializados para a assistência territorial,
fundamentado na ideia de que o lugar privilegiado da
produção de saúde é o lugar de vida da população. Lugar
de vida refere-se à casa, à rua, ao bairro, ao trânsito para
regiões centrais ou periféricas, aos órgãos públicos, às
instituições de um modo geral, ou seja, os espaços de
convivência cotidiana dos cidadãos. A noção de território
comporta a rede de serviços, espaços institucionais e
não institucionais, programas e projetos, organizados
em torno de agenciamentos geográficos, sanitários e
subjetivos.

No desenvolvimento do processo acima descrito, o


hospital perdeu a centralidade como espaço de saúde,
dando lugar ao entendimento da assistência em rede,
e ao território como lugar de vida e de cuidados. O
deslocamento espacial dos dispositivos em saúde
é acompanhado da produção de novos dispositivos
clínicos e de saúde mental. O vínculo saúde mental e
território amplia a força e a potência das práticas em

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


131
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

saúde ao favorecer o surgimento de modos de vida


saudáveis, ao levar em consideração o ambiente e os
recursos disponíveis no contexto social e ao fortalecer
os laços entre pessoas da comunidade e técnicos de
saúde.

No cenário atual quatro personagens dispõem da


primazia de uma atuação clínica e em saúde mental no
território, com origens e histórias diferentes: o agente
comunitário de saúde no contexto da Estratégia Saúde
da Família, o acompanhante terapêutico no contexto da
Reforma Psiquiátrica e fora dela, o redutor de danos –
personagem nascido no contexto do combate à epidemia
das doenças sexualmente transmissíveis (DST) e à
síndrome da imunodeficiência adquirida (HIV/AIDS), que
posteriormente ampliou sua atuação para outros setores
da saúde, especialmente na área de álcool e drogas. Por
último, os trabalhadores das equipes dos consultórios
de rua. ACS, ats, rds, eCR, siglas de abreviação para
os quatro, realizam seu trabalho na comunidade, nos
domicílios, nos fluxos entre casas e instituições, em
espaços de outra natureza, como casas paroquiais,
casas cedidas pelo comércio, ‘bocas’ – pontos do tráfico
de drogas, etc., enfim nos espaços de vida dos cidadãos.
Em comum entre os quatro, o conhecimento ampliado
da comunidade e das pessoas, a prática a céu aberto e
a produção de saúde favorecida pelo contexto. Algumas

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


132
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

diferenças entre eles, por outro lado, são significativas:


o grau de formação, o modo de contratação, a maneira
de se relacionar com a clínica.

O trabalho do agente comunitário de saúde está


previsto em lei. O exercício da atividade profissional
está regulamentado pela Lei 10.507/2002, pelo Decreto
3.189/1999 e pela Portaria 1.886/1997. A lei cria a
profissão, o decreto fixa as diretrizes para o exercício da
atividade e a portaria aprova as normas e diretrizes do
Programa de Agente Comunitário e do Programa Saúde
da Família.

Em 1991, o Programa de Agentes Comunitários de


Saúde, também conhecido como Pacs, foi implantado
pela Fundação Nacional de Saúde nas regiões Norte
e Nordeste com o objetivo de combater e controlar a
epidemia de cólera e outras formas de diarreia. Diante
da incipiente cobertura sanitária na região, na prática,
o agente comunitário de saúde passou a exercer
inúmeras funções na assistência, como cadastramento
e diagnóstico comunitário. O fato a ser observado é
que a experiência propiciou mudanças nas práticas de
saúde, com ações extramuros e não centradas na figura
do médico (GIOVANELLA; MENDONÇA, 2008, p.600).

A Portaria 692 de 1993 regulamentou o Programa Saúde


da Família, inicialmente em pequenos municípios e em

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


133
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

caráter restrito. As duas normatizações desenharam


um modelo de atenção primária, conhecido como
Atenção Primária em Saúde – APS seletiva. Como
estratégia, a Saúde da Família foi explicitada pela NOB
SUS 01/96 – Norma Operacional Básica do Sistema
Único de Saúde 01/96. Ela disciplinou a organização
dos serviços, caracterizando a atenção primária como
Atenção Primária em Saúde – APS Ampliada. No caso
da NOB, o foco da promoção de saúde já estava dado
(GIOVANELLA; MENDONÇA, 2008, p.601-602).

O agente comunitário de saúde trabalha em uma equipe


multiprofissional de saúde. Ela contempla o médico
generalista, o enfermeiro, um ou dois auxiliares de
enfermagem e cinco a seis agentes comunitários de
saúde. O número de equipes expandiu significativamente
nos anos noventa e atualmente cresce moderadamente.
Nos grandes centros, o fortalecimento da atenção básica
foi apoiado pelo Projeto de Expansão e Consolidação da
Saúde da Família – PROESF, a partir de 2003.

Em 2006, uma mudança de maior proporção e perspectiva


iniciou-se após a edição pelo Ministério da Saúde da
Portaria 648/2006. A Política Nacional de Atenção Básica
– PNAB ampliou a concepção da atenção primária
através de uma saúde mais abrangente, tornando-a o
ponto de partida para estruturação dos sistemas locais

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134
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

de saúde (GIOVANELLA; MENDONÇA, 2008, p.606-


607).

Antes de passarmos à contextualização do


acompanhamento terapêutico, é necessário o retorno à
definição da Atenção Primária, realizada na Conferência
Internacional Sobre Cuidados Primários de Saúde:
Os cuidados primários de saúde são
cuidados essenciais de saúde baseados
em métodos e tecnologias práticas,
cientificamente bem fundamentadas e
socialmente aceitáveis, colocadas ao
alcance universal de indivíduos e famílias
da comunidade, mediante sua plena
participação e a um custo que a comunidade
e o país possam manter em cada fase
de seu desenvolvimento, no espírito
de autoconfiança e automedicação.
Fazem parte integrante tanto do sistema
de saúde do país, do qual constitui a
função central e o foco principal, quanto
do desenvolvimento social e econômico
global da comunidade. Representam o
primeiro nível de contato dos indivíduos,
da família e da comunidade com o
sistema nacional de saúde, pelo qual os
cuidados de saúde são levados o mais
proximamente possível aos lugares onde
pessoas vivem e trabalham, e constituem
o primeiro elemento de um continuado
processo de assistência à saúde. (ALMA-
ATA, 1978).

Vale notar que o agente comunitário de saúde se


constitui como agente exatamente no lugar onde as

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


135
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

pessoas vivem e trabalham, sendo ele próprio oriundo


da comunidade. Atualmente está em curso uma
sofisticação do papel do agente – mais do que a porta
de entrada do sistema de saúde, a atenção primária é
o eixo organizador estruturante do todo o sistema, isto
é, a organização do modelo de saúde se dá a partir da
Atenção Primária em Saúde.

O trabalho do agente comunitário de saúde, inserido


no contexto essencial da assistência que é o lugar de
vida e moradia do cidadão, demanda maior capacitação
e qualificação na medida em que o eixo organizativo
da assistência é remodelado em função da atenção
primária. O agente possui base territorial e se desloca
permanentemente na adstrição de sua área de
abrangência, perpassando instituições e domicílios, ao
mesmo tempo em que se constitui como um trabalhador
a céu aberto, em movimento pelos fluxos de produção
de saúde na comunidade.

Ao contrário do agente comunitário de saúde, o


acompanhante terapêutico ainda não tem sua atividade
profissional regulada em lei, diferentemente de países
como Argentina e Espanha, onde já há legislação
pertinente ou ao menos projeto de lei em tramitação.
No Brasil, o acompanhamento terapêutico se constituiu
como prática de saúde de fundamental importância no
contexto da Reforma Psiquiátrica. No âmbito público

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


136
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

o acompanhamento terapêutico é estimulado por um


conjunto de pressupostos da Reforma e adotado como
prática de saúde em diversos municípios brasileiros,
como São Lourenço do Sul ou Diadema.

A partir dos anos cinquenta, com a crise do modelo


psiquiátrico hospitalar, e especialmente nos anos
sessenta com as transformações políticas do período,
surgiu, em diversos países ocidentais, um conjunto
de reformas com características próprias, mas que
tinham em comum a humanização do tratamento e
a saída dos internamentos de longa duração. Esses
movimentos receberam diversos nomes, como, por
exemplo, Psiquiatria Institucional ou de Setor, na
França; Comunidade Terapêutica e Antipsiquiatria, na
Inglaterra; Psiquiátrica Comunitária e Preventiva, nos
Estados Unidos; Psiquiatria Democrática, na Itália. No
Brasil, especialmente a partir do final dos anos setenta,
desenvolvemos a chamada Reforma Psiquiátrica,
com impasses e problemas concomitantes a grandes
sucessos.

A necessidade de sair dos hospitais fez com que


funcionários, estudantes de medicina e psicologia e,
posteriormente, profissionais de saúde acompanhassem
os pacientes para fora dos hospitais, em passeios
pelo circuito urbano, em visitas domiciliares ou na
frequentação de outras instituições. Os passos iniciais

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


137
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

dessa prática aconteceram na Clínica Pinel em Porto


Alegre, na Clínica Villa Pinheiros no Rio de Janeiro
e no Instituto A Casa de São Paulo. De lá para cá
multiplicaram as experiências de acompanhamento
terapêutico no Brasil, especialmente no Rio Grande do
Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais,
no Espírito Santo, em Santa Catarina, no Pernambuco e,
hoje, por vários outros estados da União (GONÇALVES
BENEVIDES, 2007).

Vale lembrar que a prática do acompanhamento


terapêutico nasce no contexto da Reforma Psiquiátrica
e da saúde mental, porém com os anos oitenta ela
se dissemina para outros campos da saúde, como
a dependência química, a assistência ao idoso, o
acompanhamento de crianças e adolescentes em
interface com a justiça e a lei, a alta hospitalar e a
atenção primária em saúde.

O acompanhamento terapêutico é uma prática clínica a


céu aberto realizada nos espaços de vida e convivência
das pessoas, no trânsito pela cidade ou pela zona rural,
no atendimento domiciliar, na parceria com as instituições
de saúde, nos serviços próprios ou conveniados. Os
acompanhados são pacientes cronificados ao longo
da vida em instituições do estado ou em instituições
privadas, pessoas com transtornos psíquicos, pessoas
em uso prejudicial de álcool e drogas, pessoas com

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


138
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

demandas de ordem clínica e subjetiva, doentes de


diversas patologias ou, de um modo geral, pessoas em
situação de sofrimento e dor.

As funções de um acompanhante terapêutico podem


ser agrupadas em estratégias de instigação, orientação
e apoio (ARAÚJO; DEL PRETTE, 2003, p.107). As
estratégias de instigação podem ser exemplificadas
como ações de estímulo à participação, integração,
interação, cooperação e responsabilização em
atividades cotidianas. As estratégias de orientação
consistem em fornecimento de informações, definição
de papéis, estabelecimento de limites, orientação para
deslocamento no trânsito, utilização de medicamentos,
compromissos e autocuidados. As estratégias de apoio
consistem em oferecer continência, demonstrar empatia,
propiciar modelos, elogiar, ajudar, traduzir os símbolos
sociais organizativos e valorizar capacidades.

Ao conjunto das funções de base na experiência


do cotidiano, é preciso acrescentar que a prática do
acompanhamento terapêutico se constituiu, ao longo do
tempo, como uma clínica, um modo de fazer e produzir
saúde nos espaços de vida das pessoas. A clínica do
acompanhamento terapêutico possui um importante
elemento estratégico na produção de saúde na medida
em que ela efetivamente participa do dia a dia de
indivíduos, famílias e comunidades, através de vínculo

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SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

transferencial intenso que promove na aproximação


entre trabalhador de saúde e cidadão.

Atualmente a Estratégia Saúde da Família conta com


aproximadamente 42.800 equipes credenciadas pelo
Ministério da Saúde, 25.600 equipes de saúde bucal e
317.000 agentes comunitários de saúde. Eles atuam em
5.287 municípios, ou seja, quase a totalidade das cidades
brasileiras. Em Minas Gerais são aproximadamente
5.400 equipes da saúde da família credenciadas pelo
Ministério, 2.500 de saúde bucal, e 35.600 agentes
comunitários de saúde. (Departamento de Atenção
Básica /DAB, 2013).

A qualidade desse vínculo está presente igualmente no


trabalho do redutor de danos. A política de redução de
danos é uma estratégia de saúde pública que objetiva
minimizar efeitos nocivos trazidos pelo consumo de
álcool, crack e outras drogas. A redução considera a
saúde como um direito fundamental, parte integrante
das políticas de promoção e prevenção voltadas para o
indivíduo e sua família.

Os passos iniciais dessa estratégia ocorreram na


Inglaterra por volta de 1926, quando um grupo de médicos
considerou a possibilidade de tratar dependentes
de heroína e morfina com monitoramento próximo,
aliviando os sintomas da abstinência. Por volta de 1980,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


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Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

o governo holandês criou uma política para lidar com o


número crescente de mortes pelo vírus HIV, através da
troca de seringas a fim de evitar o compartilhamento.

No Brasil, a primeira experiência ocorreu em Santos,


em 1989, com a implantação do programa municipal
de redução de danos. As ideias da redução expandiram
para outros campos da saúde, ampliou seu foco na busca
de formas diferenciadas para lidar com o problema, seja
o uso protegido, seja a diminuição quantitativa de uso
da droga, a substituição de uma droga por outra, com
menor risco, e ainda casos de abstinência.

Em 2009, a ‘Coordenação de Saúde Mental, Álcool e


Outras Drogas’ do Ministério da Saúde criou as Escolas
de Redutores de Danos, e valorizou as abordagens do
usuário em seu território de vida. Em 2010, o Ministério
da Saúde ampliou o número de escolas de redutores de
danos. Os redutores de danos são, geralmente, líderes
em suas comunidades, trabalhadores sociais e, em
alguns casos, cidadãos com histórico de uso de drogas.

As equipes de consultórios de rua são organizadas com a


função de quebrar a distância histórica entre os serviços
de saúde e a população usuária de drogas em situação
de rua. A equipe oferece cuidados nos espaços urbanos,
nas ruas e esquinas, para uma população com maior
vulnerabilidade social e distante da rede de atenção.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


141
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

A equipe volante mínima multidisciplinar é constituída por


profissionais de saúde mental, profissionais da atenção
básica, no mínimo um profissional da assistência social.
Estas formações incluem médico, assistente social,
psicólogo, outros profissionais de nível superior, redutores
de danos, técnicos de enfermagem, educadores sociais
e oficineiros. A ideia da eCR é possibilitar a identificação
da clientela com o dispositivo, favorecendo o vínculo
desde o primeiro contato.

O consultório de rua desconstrói o espaço tradicional


das práticas terapêuticas ao tomar a rua como lugar do
trabalho clínico e promover a busca ativa dos cidadãos
em situação de vulnerabilidade.

Agentes comunitários, acompanhantes terapêuticos,


redutores de danos e equipes dos consultórios de rua
trabalham nos espaços urbanos, e, portanto, vivenciam
o cotidiano das cidades. Saúde mental promovida e
praticada nos territórios de vida dos cidadãos, isto é, a
domicílio, na rua, no bairro, nos locais de convivência.
De certa forma, a cidade se constitui como espaço de
produção de saúde. O respeito e a valorização dos
direitos humanos, direitos de sujeitos políticos que
interagem na comunidade, ganham maior visibilidade
e fortalecem a cidadania. Não é de hoje que a rua é
associada, no imaginário das liberdades civis, aos
movimentos libertários, de protesto e de expressão, de

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


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Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

pessoas e grupos, com demandas políticas e sociais.


Rua e democracia como espaços de afirmação dos
direitos humanos.

A Figura da Cronicidade

A figura do paciente crônico talvez seja a mais emblemática


da violação dos direitos humanos, tratando-se de
saúde mental. A deterioração progressiva, enunciada
pela psicopatologia, e a cura improvável, forjada no
âmbito dos saberes médicos, se revelaram como uma
construção histórica, marcada pela segregação e pela
exclusão.

Podemos nos perguntar por que produzimos a figura


da cronicidade. Não são poucos os relatos atuais de
portadores de sofrimento mental, de maneira particular,
psicóticos e esquizofrênicos, que levam vida pessoal e
social sem prejuízos vitais e cotidianos.

O oposto de crônico é agudo e implicaria a impossibilidade


da cura e o aspecto residual da doença. A imagem do
doente mental idoso, nu, babando e abandonado no pátio
de uma instituição asilar está, portanto, atrelada ao modo
de vida segregado e excludente da manicomialização.
Esta manicomialização, por sua vez, se efetivava com a
violação dos direitos fundamentais da pessoa.

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143
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

A violação dos direitos fundamentais se dava, portanto,


com o aporte do conhecimento científico e com o
exercício de saberes e práticas que selavam o destino
de muitos cidadãos. Em trabalho jornalístico recente,
Arbex (2013) aponta as condições de vida e o número
de mortos em um dos maiores hospícios do Brasil, o de
Barbacena, totalizando sessenta mil mortos ao longo
de sua existência. Hoje sobra algo em torno de cento
e setenta; uns ainda na colônia, outros em residências
terapêuticas.

Não há por que continuar com a produção da cronicidade


em saúde mental, senão sob a forma de violação dos
direitos humanos. Nada no conhecimento e nas práticas
em saúde justifica a preservação de sua figura, a
assertiva de sua verdade. A experiência da loucura não
pode ser dissociada de suas condições de existência,
de sua adesão à vida nas cidades e nas ruas, de seu
reconhecimento no campo do direito e, por último, de
sua expressão como modo de vida.

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Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

Referências

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Acompanhamento Terapêutico e Reabilitação
Psicossocial: resultados de uma pesquisa-intervenção.
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(Orgs.). Psicologia e Saúde: um campo em construção.
São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo:


Geração Editorial, 2013.

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Tradução


Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras,
1989.

BRASIL. Decreto nº 3.189 de 04 de Outubro de 1999.


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Comunitário de Saúde (ACS), e dá outras providências.
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camara.leg.br/legin/fed/decret/1999/decreto-3189-4-
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Acesso em: 01 jul. 2013.

BRASIL. Decreto nº 7.508, de 28 de Junho de 2011.


Regulamenta a Lei no 8.080, de 19 de setembro de
1990, para dispor sobre a organização do Sistema
Único de Saúde - SUS, o planejamento da saúde, a
assistência à saúde e a articulação interfederativa, e dá
outras providências. Diário Oficial da União, Brasília.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_
Ato2011-2014/2011/Decreto/D7508.htm>. Acesso em:
24 jun. 2013.

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SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

BRASIL. Lei 12.216, de 06 de Abril de 2001. Dispõe


sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de
transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial
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http: // www. in.gov.br / imprensa / visualiza / índex . jsp ?
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BRASIL. Lei 12.714, de 14 de Setembro de 2012. Dispõe


sobre o sistema de acompanhamento da execução das
penas, da prisão cautelar e da medida de segurança.
Diário Oficial da União, Brasília – DF, 17 de Setembro
de 2012. Seção 1, p. 1. Disponível em: <http: // www.
in.gov.br / imprensa / visualiza / índex.jsp ? jornal = 1 &
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BRASIL. Lei nº 10.708, de 31 de Julho de 2003. Institui


o auxílio-reabilitação psicossocial para pacientes
acometidos de transtornos mentais egressos de
internações. Diário Oficial da União, Brasília - DF, 01
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//www.in.gov.br/imprensa/visualiza/index. jsp? jornal = 1
& pagina = 3 & data = 01/08/2003>. Acesso em: 24 jun.
2013.

BRASIL. Lei nº. 10.507, de 10 de Julho de 2002. Cria


a Profissão de Agente Comunitário de Saúde e dá
outras providências. Diário Oficial da União, Brasília
– DF, 11 de Julho de 2002. Seção 1, p. 1. Disponível
em: <http://www.in.gov.br/imprensa/visualiza/index.
jsp?jornal=1&pagina=1&data=11/07/2002>. Acesso em:
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Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

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e estabelece condições de cobrança para o Programa
de Saúde da Família e do Programa de Agentes
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Portaria nº 1.886, de 18 de Dezembro de 1997. Aprova
as Normas e Diretrizes do Programa de Agentes
Comunitários de Saúde e do Programa de Saúde
da Família. Disponível em: http://dtr2004.saude.gov.
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Unidade de Acolhimento para pessoas com necessidades
decorrentes do uso de Crack, Álcool e Outras Drogas
(Unidade de Acolhimento), no componente de atenção
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Psicossocial. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.
br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt0121_25_01_2012.html.
Acesso em: 24 jun.2013.

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SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

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Portaria nº 122, de 25 de Janeiro de 2012. Define as
diretrizes de organização e funcionamento das Equipes
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Acesso em: 24 jun. 2013.

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Portaria nº 123, de 25 de Janeiro de 2012. Define os
critérios de cálculo do número máximo de equipes de
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da União, Brasília – DF, 26 de janeiro de 2012. Seção
1, p. 48. Disponível em: <http:/ / 189.28.128.100 /dab
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Acesso em: 24 jun. 2012.

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Portaria nº 131, de 26 de Janeiro de 2012. Institui
incentivo financeiro de custeio destinado aos Estados,
Municípios e ao Distrito Federal para apoio ao custeio de
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as Comunidades Terapêuticas, voltados para pessoas
com necessidades decorrentes do uso de álcool,
crack e outras drogas, no âmbito da Rede de Atenção
Psicossocial. Disponível em: <http : // pfdc.Pgr.mpf.
mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/legislacao/saude-
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Portaria nº 132, de 26 de Janeiro de 2012. Institui
incentivo financeiro de custeio para desenvolvimento
do componente Reabilitação Psicossocial da Rede de
Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


148
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

Disponível em: http : / pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-


conteudos-de-apoio / legislação /saude-mental/portaria-
ms-gm-no-132-2012/view. Acesso em: 24 jun.2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro.


Portaria nº 148, de 31 de Janeiro de 2012. Define as
normas de funcionamento e habilitação do Serviço
Hospitalar de Referência para atenção a pessoas com
sofrimento ou transtorno mental e com necessidades
de saúde decorrentes do uso de álcool, crack e
outras drogas, do Componente Hospitalar da Rede de
Atenção Psicossocial, e institui incentivos financeiros
de investimento e de custeio. D.O., 01 de fevereiro de
2012. Disponível em: <http :// www.Brasilsus.com.br/
legislacoes/gm/111988-148.html>. Acesso em: 24 jun.
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Portaria nº 246, de 17 de Fevereiro de 2005. Destina
incentivo financeiro para implantação de Serviços
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Disponível em:< http : // dtr 2001 .saude . gov . BR /sas/
PORTARIAS/Port2005/GM/GM-246.htm>. Acesso em:
24 jun. 2013.

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Portaria nº 3088, de 23 de Dezembro de 2011. Institui
a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com
sofrimento ou transtorno mental e com necessidades
decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no
âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível
em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/
prt3088_23_12_2011_rep.html. Acesso em: 24 jun.2013.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


149
SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro.


Portaria nº 3089, de 23 de Dezembro de 2011.
Dispõe, no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial,
sobre o financiamento dos Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS). Disponível em: <http://
portal.cnm.org.br/sites/9700/9797/docPlanoCrack/
PORTARIAGMNº3.089,DE23DEDEZEMBRODE2011.
pdf>. Acesso em: 24 jun. 2013.

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Portaria nº 3090, de 23 de Dezembro de 2011. Altera
a Portaria nº 106/GM/MS, de 11 de fevereiro de 2000,
e dispõe, no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial,
sobre o repasse de recursos de incentivo de custeio e
custeio mensal para implantação e/ou implementação e
funcionamento dos Serviços Residenciais Terapêuticos
(SRT). Disponível em: <http://portal.cnm.org.br/
sites/9700/9797/docPlanoCrack/PORTARIANº3.090,DE
23DEDEZEMBRODE2011.pdf>. Acesso em: 24 jun.
2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro.


Portaria nº 3099, de 23 de Dezembro de 2011.
Estabelece, no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial,
recursos a serem incorporados ao Teto Financeiro Anual
da Assistência Ambulatorial e Hospitalar de Média e
Alta Complexidade dos Estados, Distrito Federal e
Municípios referentes ao novo tipo de financiamento dos
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/
prt3099_23_12_2011.html>. Acesso em: 24 jun. 2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro.


Portaria nº 3237, de 24 de Dezembro de 2007. Aprova as

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


150
Bruno Vasconcelos de Almeida e Luiz Augusto Lima de Ávila

normas de execução e de financiamento da assistência


farmacêutica na atenção básica em saúde. Disponível
em: http: <HTTP://bvsms.saude.gov.BR /bvs /saudelegis
/gm/2007/prt3237_24_12_2007.html>. Acesso em: 24
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BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro.


Portaria nº 349, de 29 de Fevereiro de 2012. Altera e
acresce dispositivo à Portaria n° 148/GM/MS, de 31 de
janeiro de 2012, que define as normas de funcionamento
e habilitação do Serviço Hospitalar de Referência para
atenção a pessoas com sofrimento ou transtorno mental
e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool
e outras drogas, do Componente Hospitalar da Rede de
Atenção Psicossocial e institui incentivos financeiros
de investimento e de custeio. Disponível em: <http://
pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/
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Acesso em: 24 jun. 2013.

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Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo III - Pág. 98-155


Capítulo IV
A MATURIDADE DA MULHER NO
MUNDO CONTEMPORÂNEO

Desenho: Angelita Aparecida da Silva


158

CAPÍTULO IV
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO
CONTEMPORÂNEO
Marisa Sanabria

As mudanças são companheiras iniludíveis do caminhar


para o encontro de uma vida adulta e autodeterminada.
Somos uma sociedade que amadurece e envelhece, ao
mesmo tempo em que cultiva, insistentemente, padrões
de juventude, vitalidade e performance difíceis de
alcançar.

Na mulher, o fantasma da maturidade, marcado pela


fronteira da menopausa, determina o medo, a ruptura e
a exclusão. Não estamos preparados institucionalmente
para reconhecer nem dar valor à experiência, à trajetória
de vida nem à serenidade nos posicionamentos.

Exigimos sempre um desempenho on-line medido por


critérios de eficiência.

A meia-idade, chamada de segunda metade da vida, nas


mulheres é um momento intenso de reformulação de
propósitos, mudanças de protagonismos e elaboração
de projetos novos, abandonando e se desapegando
de demandas sociais, solicitações familiares e ilusões
afetivas.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


159
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Este ciclo inicia o caminho para o envelhecimento;


entender e elaborar mágoas, ressentimentos e
frustrações faz parte do equilíbrio e da saúde psíquica e
emocional. Plantar e construir seu próprio jardim interno
é uma tarefa iniludível que está vinculada ao respeito e
à dignidade por si própria e à maneira como se entende
a perspectiva de futuro.

Amadurecer é uma nova etapa de colheita, aprendizado


e respeito pela vida.

Podemos constatar um triângulo que se configura a partir


de três aspectos: existência, tempo e transformações.
Essa forma geométrica dinâmica está estreitamente
articulada e seus pontos são inseparáveis. O movimento
dessa estrutura é interessante porque, na juventude,
queremos acelerar mudanças, criar situações de
desafio e assumir propostas que nos responsabilizem
na vida; à medida que nos aproximamos da maturidade,
tentamos frear, sem muito êxito, o tempo, com saudade
de momentos que já se foram e apreensão por um futuro
com algumas incógnitas.

Nesta tarefa, perdemos grandes oportunidades de viver


cada etapa com o seu dinamismo, aprender com novas
situações e desapegarmos do que já não nos interessa.
Se soubermos encontrar a cadência deste processo,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


160
Marisa Sanabria

podemos descobrir e viver quem realmente somos com


equilíbrio e alegria.

Deter o tempo é uma missão impossível, mas esta atitude


demanda energia, disposição e nos faz estrangeiros
de nossa vida, interdita-nos o protagonismo da própria
história e transforma-nos em pessoas que olham o
transcurso dos acontecimentos sem entender e sem
querer saber como as mudanças nos exilam do nosso
território.

“Não vi meus filhos crescerem... Quando acordei, já


eram rapazes...”

“Meu divórcio aconteceu sem eu perceber... Quinze


anos de um casamento difícil, que suportei achando que
as coisas poderiam melhorar...”

“Trabalhei anos... O tempo foi passando... nunca juntei


dinheiro, hoje preciso de um teto para morar...”

Como o vento nas navegações, na metáfora de assumir


o timão da nossa vida, precisamos aprender a navegar
com a brisa a favor e não contra; qualquer marinheiro
de primeira viagem descobre rapidamente que o vento
contra é perigoso e pode até quebrar o leme do barco.

As mulheres vivem o passar do tempo com angústia,


medo e, muitas vezes, carregada de ressentimento e

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161
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

mágoa; a passagem à maturidade torna-se um fantasma


que assombra a realidade de muitas profissionais, mães
de família... Enfim, mulheres comuns que vão sentindo,
sem entender, uma enorme fragilidade pessoal,
acompanhada de uma exclusão institucional.

Utilizaremos a menopausa simplesmente como uma


fronteira para o envelhecimento. Ela não é a única
provocadora de todas estas transformações, mas
socialmente determina que a mulher perde seu valor de
troca, não pode mais parir, quer dizer, não produz, não
cria cidadãos, portanto é excluída das trocas “comerciais”
que a civilização impõe.

A falência ovariana é um dos aspectos de um leque


de sensações, sentimentos e mudanças corporais que
invadem a mulher como uma avalanche que não se
pode conter. Este momento é vivido como um episódio
privado, fácil de identificar, mas difícil de entender,
processar e elaborar.

Muitas coisas serão colocadas em questão neste


momento: a relação com os filhos adultos, os vínculos
afetivos, o casamento, as amizades, as transformações
do corpo, a vivência da sexualidade... Enfim, a forma
como cada mulher encara e vive este momento terá
efeitos profundos e de longo alcance, não somente para

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


162
Marisa Sanabria

ela como também para as pessoas a sua volta e para a


sociedade como um todo.

Se lembrarmos que, segundo o Instituto Brasileiro de


Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida da
brasileira está em torno dos 75 anos, isso significa que
teremos mais 20 ou 25 anos para viver depois da última
menstruação, que acontece por volta dos 50 anos.

As mulheres que hoje estão na menopausa viveram sua


juventude a partir de códigos sociais bastante definidos e
aceitos sem grandes questionamentos. Alguns teóricos
do feminismo definem a juventude como a “primeira
vida”, na qual casamento, maternidade e a possibilidade
de construir uma família estável se impunham e, para a
sociedade, eram um atestado do êxito e da realização
feminina. (STEINEM, 1996).

Os anos 1960 trouxeram um marco importante nesse


modelo; a pílula e os anseios de liberdade individual,
laboral e sexual criaram possibilidades e perspectivas
com as quais suas avós nunca sonharam.

A “segunda vida” inaugura um momento especial de


dúvidas, inquietações, perguntas sobre si mesma e
outros projetos de futuro. Preparar-se para viver a
maturidade com saúde, disposição e novas propostas
de relacionamentos e trocas é um desafio, sobretudo
individual, uma vez que as instituições não estão

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


163
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

equipadas para receber esta mulher que não tem mais


tarefas sociais e se dispõe a viver sonhos e desejos de
uma forma renovada.

Na nossa sociedade, uma mulher é útil enquanto procria


e é atraente enquanto sua sexualidade ligada ao ciclo
menstrual inspira atração e medo. A possibilidade de
viver uma transformação na qual se perde aquilo que a
caracteriza é vivida como algo perigoso e indesejável.

Podemos entender por que, então, a menopausa se


transforma socioculturalmente em “medo/pausa”, um
momento acompanhado de dúvidas diante da mudança
clara do protagonismo social, afetivo e sexual que a
mulher desempenhava até o momento.

Somos estimuladas a permanecer na juventude, a


mulher sempre donzela, infantilizada, e celebramos a
primeira menstruação, quando alguém diz: “Você agora
já é uma mulher”. Isto quer dizer: será desejada e poderá
exercer sua sexualidade, parir, etc.

Na menopausa, a voz institucional diz: “Você já não é


mulher”, será invisível, não desejada e abandonada.

Este momento é tratado, do ponto de vista médico, como


uma carência: carência de hormônios, de menstruação
e de capacidade reprodutiva. Em termos metafóricos,
as bruxas nos contos de fadas são as mulheres na

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


164
Marisa Sanabria

menopausa, mostradas sempre como ressentidas, feias


e escondidas, simbolizando o lugar que a sociedade
determina para quem vive essas transformações.

Alguns dicionários norte-americanos definem a


menopausa como “mudança de vida”, reconhecendo
que se trata de uma alteração decisiva e permanente.
Analisar este momento como um câmbio exclusivamente
biológico, tratá-lo como uma doença tem feito com que
esta transição seja abordada com medicamentos e
remédios psiquiátricos, tornando-a um problema para a
medicina e não uma grande oportunidade de repensar,
transformar e definir, a partir de outros conceitos, a vida
das mulheres.

Ann Mankowitz (1990) diz que o fatalismo com que a


sociedade trata a menopausa dramatiza os sintomas,
desconhecendo que muitas mulheres podem viver este
período de forma natural, sem grandes desconfortos.

Ela é um reflexo do desprezo que o patriarcado sente


ante as mulheres que vão amadurecendo e que não
ficam estáticas na imagem dos 18 anos, ao mesmo
tempo em que existe uma impaciência e irritação com
pessoas maduras que exigem seus direitos, determinam
seus objetivos e colocam limites nas suas vidas. O
preconceito em relação à mulher que envelhece é uma
das tantas formas de violência social e institucional, que

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


165
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

se manifesta quando os modelos estabelecidos são


desafiados.

A Dra. Cristiane Northup (2005) diz que existe muito


mais neste momento do que transtornos hormonais; na
verdade, o envolvimento da mulher com os cuidados da
prole se modificam e é possível, então, viver uma grande
libertação das funções coletivas, situações de abuso e
exigências sociais, podendo dar, assim, lugar a projetos
postergados, vocações não exercidas e cuidados
pessoais abandonados. Em síntese, é também um grande
momento de libertação, de recuperar quem somos, de
saber para onde nos dirigimos e de nos colocarmos em
primeiro lugar na ordem de prioridades; um tempo de
avaliação, de entendimento e de reconciliação com os
problemas e as situações difíceis da nossa história. É
a primeira oportunidade, depois da puberdade, que a
mulher tem para se perguntar quem ela é realmente e
formular os propósitos que idealizou para si.

Este ciclo exige tempo e pausa e pede uma reorientação,


um reposicionamento interno, um exercício de vontade
e um esforço de disciplina junto com uma atitude de
tolerância e respeito por aquela mulher que somos hoje
na vida.

Sylvia Shneider (1999) afirma que estamos no momento


de redefinir o que entendemos por menopausa, porque

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


166
Marisa Sanabria

este conceito sempre foi determinado à revelia da


mulher. Esta transformação está deixando de ser uma
via morta para se converter em uma travessia, uma
ponte, uma passagem para novos papéis e diferentes
atitudes vividas pela mulher madura. Educadas como
seres para os outros, a menopausa marca a fronteira e o
fim de muitas disposições e preocupações e a retomada
do controle do seu bem-estar e do curso da vida.

Intelectuais espanholas, como Anna Freixas, são muito


expressivas ao enunciar: “Sin regla y sin reglas” – sem
ciclo menstrual (la regla) e sem normas (las reglas) –
para falar da liberdade e da não obediência a preceitos
que determinam o que uma mulher deva ou não fazer.

Este momento também está acompanhado de vivências


difíceis, a raiva dos abusos suportados, as queixas das
oportunidades perdidas, o medo e as incertezas do
futuro, a vergonha em relação às transformações do
corpo, etc. É uma enorme constelação de sentimentos e
emoções que, sem dúvida, está estreitamente vinculada
à maneira como conduzimos a primeira metade da
nossa vida.

Trata-se, desse modo, de considerar a menopausa não


somente como um fenômeno biológico de perda de
funções, mas também como um momento biológico,
psicológico e emocional muito amplo de transformação.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


167
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

O portal para a segunda vida, um ciclo de liberdade


e esplendor para viver o que Margaret Mead chamou
de “Entusiasmo Pós-Menopáusico” (EPM) pela vida
que escolhemos, e que Jean Shinoda Bolen considera
o grande momento da mulher madura, fresca e
esplendorosa, que tem algo sereno como a suavidade
da primavera.

É um grande aprendizado sobre as oportunidades e o


amor que está no interior de cada uma de nós. Sabemos
que o amor solicita um ‘‘outro’’, que pode ser um parceiro,
um projeto, uma obra de arte, a espiritualidade... Cabe a
cada mulher adulta escolher aquilo que lhe possibilitará
viver apaixonada, e assim recuperar sua vontade de
estar na vida.

A partir desta fronteira, iniciamos, em nossa sociedade,


o caminho para o envelhecimento. Na nossa cultura,
associamos envelhecimento à deterioração, ao descuido
e à feiura e não temos imagens e modelos de mulheres
maduras e elegantes desempenhando seu papel com
esplendor.

Anna Freixas (2005) define “Edadismo” como todas


as condutas, sentimentos e atitudes de rejeição que
expressamos em relação às pessoas de qualquer sexo,
que não são jovens, e afirma que este preconceito se
acentua muito quando tratamos de mulheres. É famosa

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


168
Marisa Sanabria

a frase popular que todos conhecemos: “Os homens


amadurecem, enquanto as mulheres envelhecem”.

Ela é transparente em relação a este olhar diferenciado


e, assim, enfrentamos dois preconceitos que fragilizam
e expõem uma população considerável: o “edadismo” (a
segregação pela idade) e o “sexismo”, ou seja, a exclusão
pelo fato de ser mulher. Estas atitudes discriminatórias
reduzem a autoestima e dificultam a própria noção de
identidade, não reconhecendo às mulheres nenhum
protagonismo possível depois que acaba seu período
fértil; a mulher idosa passa, então, a ser tratada com
desdém e ironia.

A estrutura patriarcal construiu para a mulher uma


subjetividade definida a partir da necessidade dos outros
e acorrentou a uma ditadura cultural de ter um corpo e
um comportamento desejável para o sexo masculino. A
consequência de tal comportamento foi a construção de
uma imagem passiva e estática, que aparece como a
definição do que é a identidade da mulher.

Os estereótipos da nossa cultura nos fazem esperar


este momento com enorme apreensão e desesperança:
Como será o futuro? Viver sozinha? Ter pouco dinheiro?
Existe e é claramente perceptível uma expectativa
negativa da vivência dos próximos anos, as angústias e
os desencantos em relação ao futuro.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


169
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Vivemos mais, é um fato, mas não temos modelos nem


referências de como será nossa vida aos 60, 70, 80
anos, qual a forma dos relacionamentos? Como dispor
do tempo? Como viver a sexualidade? E outros tantos
questionamentos, que ficam escondidos sob uma grande
cortina de medo, rejeição, exclusão e insegurança.

“Estou agora convivendo com esta pessoa difícil... Mas


que outra perspectiva tenho? Viver sozinha e doente?”

“Meu pai está morto... era meu ídolo... Minha sensação


de solidão é avassaladora, só me resta chorar.”

“Não me reconheço... sempre gostei de casa cheia,


cozinhava, preparava, fazia a festa para todo o mundo...
Agora não quero nem escutar falar... quero um tempo
para mim e não me preocupa o que os outros vão achar.”

Negamos o envelhecimento, pelo tanto cultivamos um


olhar ancorado na imagem fictícia de uma mulher situada
corporal e emocionalmente nos 20 anos. Isso nos faz
chegar à maturidade sem nenhum preparo psíquico nem
afetivo, fragilizadas e desorientadas em relação aos
nossos direitos, como cidadãs e mulheres maduras que
reivindicam espaços para sua existência.

Existem, neste momento de perplexidade, alguns


sentimentos como pano de fundo, por exemplo: a raiva.
Treinadas, desde a infância, a serem encantadoras,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


170
Marisa Sanabria

dóceis e suaves, as mulheres mascaram a raiva atrás


de muitas manifestações: as doenças, as depressões, a
fadiga crônica, a tensão pré-menstrual e outras mais e,
em geral, aquele eterno sorriso de boneca esconde, na
verdade, um vulcão interno com uma lava incandescente,
acumulada durante anos de submissão e concordância.

A fúria é um sentimento feminino e diz respeito à


dissimetria de poder e ao abuso a que a mulher sempre
foi submetida na estrutura patriarcal. Muitas vezes,
sabendo que nosso sentimento é genuíno, não nos
permitimos expressá-lo e não nos reconhecemos com
uma vivência afetiva de uma ordem incontrolável. Assim,
nós nos dissociamos dessa raiva, escondendo a tensão
no pescoço ou na mandíbula, e nos tornamos mulheres
maduras controladoras, exigentes, exageradas ou
ansiosas.

É imprescindível reconhecer e assumir este sentimento,


porque ele nos possibilita tomar decisões, mudar
vínculos, explicitar reivindicações e, sobretudo, articular
a trama da nossa história como um caminho próprio,
entendendo causalidades importantes no momento do
nosso amadurecimento. Costurar a trajetória pessoal
traz a libertação do fardo de fracassos ou equívocos e
esta atitude é importante para uma maturidade serena e
em harmonia.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


171
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

O medo é outra vivência que acompanha o


envelhecimento. Clara Coria (2005) nos fala do medo
da morte, das doenças incapacitantes da solidão e do
empobrecimento, entendendo que estas situações são
muito comuns nas sociedades ocidentais, estruturadas a
partir de relações hierárquicas e de desempoderamento
da mulher.

As mulheres, somos os pobres do mundo e, no


envelhecimento, a situação de vulnerabilidade social se
torna extrema, acompanhada de profundos sentimentos
de fragilidade e exposição. A mulher envelhecida perde a
capacidade de negociação institucional, aparentemente
não tem nada para oferecer e isso a torna alvo de abusos
e desrespeitos.

A melancolia e o entristecimento podem acompanhar


este momento da vida, a saudade de quem fomos e,
neste sentido, é fundamental manter vínculos de afetos
e ressignificar propostas para a existência.

Sabemos pouco sobre a subjetividade na terceira e


na quarta idade; como construir um enredo de sentido
para este momento da vida com uma sociedade
“que nos prohíbe ser viejas y tener pocas ganas de
complicarnos La vida...deseamos el disfrute tranqüilo de
la conversación y del silencio.” (FREIXAS, 2013).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


172
Marisa Sanabria

Se durante anos as mulheres foram obrigadas a ser


eficientes mães, trabalhadoras inesgotáveis e amantes
cordatas e complacentes, a maturidade aparece como
uma possibilidade de recuperar a liberdade e o desejo
próprio, um tempo de reflexão para costurar a história,
um espaço de entendimento para um novo desempenho,
que só poderá ser escolhido por cada uma.

Associamos envelhecimento à doença, morte e


decrepitude. Trata-se, sem dúvida, de um processo que
reestrutura todas as dimensões da vida. É importante
poder chegar a este momento com o sentimento de
ter feito o que foi possível dentro dos limites e fazer da
idade uma fonte de conciliação interna, celebração e
bem-estar.

Amadurecer é uma oportunidade de avaliar o tempo


transcorrido, os êxitos alcançados e os propósitos
que não foram possíveis realizar. Para as mulheres,
a diminuição das demandas externas possibilita um
trabalho de reflexão com quem somos hoje depois de
toda essa travessia.

Vivemos uma tendência contemporânea que medicaliza


o corpo que envelhece, mas entrar na maturidade não
é uma doença ou uma enfermidade. Incorporamos a
ideia de que, mantendo uma atividade febril e uma dieta
balanceada, poderemos ser os “sem idade”. Este pré-

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


173
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

conceito, que forma parte de uma atitude “idadista”,


ignora a sabedoria, a experiência, a sobriedade e a
liberdade que se ganha com o transcorrer da vida. Trata-
se de uma guerra com um inimigo para derrotar uma
ordem rigorosa, que não nos deixa entender o passo
dos anos como uma conquista.

Em relação ao corpo da mulher, esta exigência de


esconder o amadurecimento adquire contornos sórdidos.
Existe uma obsessão para que os signos da idade fiquem
camuflados, dietas, cirurgias e ginásticas obrigam a uma
dedicação permanente para que o coletivo não se sinta
incomodado com os sinais físicos que a história pessoal
vai deixando.

Vilhena Novaes (2006) lembra que as mulheres têm o


dever ético de estar bonitas em qualquer idade, e não
interessam os investimentos, abusos e esforços que
esse resultado possa exigir. Isso mantém a mulher
ocupada, indisposta consigo mesma, sem reconhecer
que o corpo muda com a idade de forma inevitável, como
se transforma também nossa percepção da vida, do
trabalho e dos relacionamentos. O pré-conceito social
em relação ao corpo envelhecido isola as mulheres e
as faz vítimas de um sentimento constante de vergonha
e inadequação. É preciso uma adaptação e aceitação
dessa nova forma física, que nem sempre percebemos
com nitidez e que localizamos no olhar dos outros.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


174
Marisa Sanabria

A experiência nos permite escolher entre permanecer


sedutoras eternamente ou viver com conforto e saúde.

Somos uma sociedade que envelhece. As mulheres


que hoje estão com 60 anos, as do Baby Boom, são
a geração da longevidade, um exército de mulheres
maduras com energia, disposição e curiosidade para
descobrir novas possibilidades. Isto representa uma
realidade socioeconômica e institucional desconhecida
até o momento, não temos experiência, história, nem
trajetória como país para os desafios que esta nova
situação impõe e isto determina uma reflexão sistemática
e detalhada sobre aposentadorias, políticas de saúde e
reinserção.

Existem pesquisas (FARRÉ, 2013) que sustentam que,


apesar de as mulheres na maturidade viverem algumas
situações estressantes, a maioria delas manifesta altos
índices de satisfação vital e avaliam positivamente sua
vida, considerando que existem ganhos em relação à
confiança, maturidade, serenidade e conquistas na
vida. Esta conclusão pessoal se diferencia da ideia do
envelhecer como uma vivência inevitável de tristeza,
solidão e abandono.

As pessoas na maturidade são resilientes. Elas têm


conseguido viver muitos desafios e a possibilidade de
enfrentar dificuldades aparece como uma capacidade

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


175
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

imprescindível para este momento da história. A vivência


de controle e condução da sua vida é fundamental e
possibilita uma organização adequada às mudanças e
transformações.

“La vida después de los 50 es outro país”, diz Gloria


Steine (1996). A consciência da finitude da existência
nos proporciona outro olhar sobre as coisas e apesar de
não termos uma cultura que nos permita uma aceitação
natural da morte, passamos a incluir esta reflexão no dia
a dia, o que torna relativos os sofrimentos e desgastes
cotidianos.

Envelhecemos sem referências nem modelos, de


uma forma muito diferente do que foi a velhice das
nossas avós e mães. Sem respostas definitivas, é
imprescindível entender que não existe uma forma
única nem homogênea, esta etapa do ciclo vital não está
organizada e vai depender de como as pessoas viveram
sua juventude.

É um fato evidente a feminização do envelhecimento.


As mulheres, vivemos mais, mas isso nem sempre é
garantia de uma maturidade com qualidade de vida. Em
síntese é chegar à etapa da colheita que vai depender
do que foi plantado.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


176
Marisa Sanabria

“Hay algo deliciosamente escandaloso em la frase:


mujer mayor fresca y esplendorosa” (SHINODA BOLEN
, 2003).

Referências

CORIA, Clara; FREIXAS, Anna; COVAS, Susana. Los


câmbios en la vida de las mujeres, temores, mitos y
estrategias. Barcelona: Paidós, 2005. p. 63, 66.

FARRÈ, FREIXAS, Anna. Tan frescas las nuevas


mujeres mayores del siglo XI. Barcelona: Paidós,
2013.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E


ESTATÍSTICA (IBGE). Disponível em: <WWW.ibge.gov.
br.Expectativa de vida>. Acesso em: dez. 2006.

MANKOWITZ, Ann. Menopausa, tempo de


renascimento. São Paulo: Paulus, 1990.

NORTHRUP, Cristiane. A sabedoria da Menopausa.


São Paulo: Gaia, 2005.

SCHENEIDER, Sylvia. Menopausia la outra fertilidad.


Barcelona: Urano, 1999.

SHINODA BOLEN, Jean. Las Diosas de la Mujer


Madura - Arquetipos femeninos a partir de los cincuenta.
Barcelona: Editorial Kairós, 2003.

STEINEM, Gloria. Ir más allá de las palabras.


Rompiendo las barreras del género: edad, sexo, poder,
dinero, músculos. Barcelona: Paidós, 1996.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


177
A MATURIDADE DA MULHER NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

VILHENA NOVAES, Joana. O intolerável peso da


feiura: Sobre as mulheres e seus corpos. R.J.Puc:
Garamond Ltda., 2006.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo IV - Pág. 158-177


Capítulo V
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS:
reflexões sobre a economia solidária e suas contribuições
no campo da saúde mental

Desenho: Elida Raimunda Bitencourt


180

CAPÍTULO V

MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E


OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a
economia solidária e suas contribuições no
campo da saúde mental
Fernanda Tarabal Lopes
Ana Paula Paes de Paula

Introdução

Este capítulo tem como objetivo refletir sobre a atenção


à saúde mental da mulher usuária de álcool e/ou
outras drogas, destacando a questão do trabalho pela
perspectiva da economia solidária. Essa reflexão é
fruto de uma pesquisa mais ampla intitulada Mulheres
usuárias de álcool e outras drogas: um estudo sobre
o trabalho e a economia solidária como recurso

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


181
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

terapêutico1, na qual se analisou a toxicomania entre


mulheres, a importância do trabalho como um operador
de saúde mental e, mais especificamente, o trabalho
pela perspectiva da economia solidária. Os dados dessa
pesquisa nos mostraram que ainda são incipientes as
iniciativas de economia solidária na saúde mental, álcool
e drogas, visto que a maior parte dessas experiências
se volta para a saúde mental geral e acabam por
desconsiderar as especificidades dessa demanda.
Outra lacuna diz respeito às particularidades da mulher,
que recebem pouca atenção tanto pela perspectiva
das ações e políticas de saúde mental voltada para a
dependência química, quanto em relação à perspectiva
de sua inserção pela economia solidária. Assim, as
reflexões que aqui propomos buscam alinhar esses três
eixos de análise: a economia solidária, a toxicomania

1Título do projeto: “MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS


DROGAS: um estudo sobre o trabalho e a economia solidária como re-
curso terapêutico”. Projeto financiado pelo CNPQ. Nesta pesquisa, elen-
camos os espaços de formação profissional relacionados à perspectiva da
economia solidária na saúde mental, segundo o Ministério do Trabalho e
do Emprego e o Ministério da Saúde, em São Paulo e Minas Gerais, cons-
tatando a incipiência de iniciativas voltadas para o público usuário de ál-
cool e outras drogas, bem como averiguamos que praticamente inexistem
serviços especializados para toxicômanas. As entrevistas realizadas nas
instituições abordadas e com as próprias dependentes demonstrou que,
de fato, o trabalho e a economia solidária podem significar um elemento
importante para recuperação das toxicômanas, tanto como recurso tera-
pêutico, quanto como forma de reinserção social, sendo que, no caso das
mulheres, a ideia ganha força pela identidade que elas em geral têm com
as questões sociais. A pesquisa também gerou uma série de recomenda-
ções para a elaboração de políticas públicas na área, bem como para o
tratamento da toxicomania.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


182
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

e mulheres. Intentamos contribuir com elementos de


discussão que se desdobrem em ações e políticas de
economia solidária que considerem as singularidades
das mulheres usuárias de álcool e outras drogas.

Muitos estudos vêm sendo realizados, tendo em


vista o trabalho como forma de reabilitação psicossocial,
resgate de cidadania, inclusão e emancipação do
sujeito; alguns deles apontam as formas de organização
do trabalho, preconizadas na proposta da economia
solidária como um caminho possível. Segundo Lisboa
(2005), a economia solidária consiste em um novo padrão
de desenvolvimento humano. Trata-se de uma economia
que se confronta com os interesses da reprodução do
capital e do poder, pois possui caráter anticapitalista: ela
não está aprisionada na lógica do capital, na valorização
da ideia de que “quanto mais se tem, mais se quer”, que
historicamente substitui o princípio de “o suficiente me
basta”. Dessa forma, a economia solidária aponta para
a compreensão de que a economia não é o fim supremo,
mas apenas um instrumento que objetiva o sustento da
vida e a melhoria da condição humana. Inserem-se,
nessa perspectiva, diversas experiências, que incluem
formas de agricultura familiar, empresas industriais ou
rurais, recuperadas por meio da autogestão, incubadoras
de empresas, cooperativas, cooperativas populares,
dentre outros espaços de formação profissional. O autor

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


183
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

defende que uma das dimensões importantes para se


caracterizar a solidariedade de uma economia consiste
na inserção de pessoas excluídas e como se incorporam
as relações de gênero no empreendimento.

A proposta da economia solidária na saúde


mental atua como forma de inserção social pelo trabalho.
Tais iniciativas compreendem as possibilidades de
geração de atividade e renda solidárias que permitam
o processo de emancipação dos usuários por meio do
desenvolvimento de empreendimentos, que promovam
espaços reais de trabalho e nos quais haja um
envolvimento da atividade cooperada, da participação
democrática e da autogestão, do fortalecimento do
coletivo, da validação dos saberes e dos recursos das
pessoas e dos contextos locais, da inserção no mercado
e da possibilidade de ganho econômico real para os
participantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE; MINISTÉRIO
DO TRABALHO E DO EMPREGO, 2006). Tal proposta
inclui:
Considerar que a inserção no trabalho
das pessoas com transtornos mentais e/
ou com transtornos decorrentes do uso
de álcool e outras drogas, compreendida
como exercício de direitos, constitui uma
das estratégias fundamentais nos projetos
e processos de produção de autonomia e
de fortalecimento da contratualidade

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


184
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

na perspectiva da inclusão social.


(MINISTÉRIO DA SAÚDE; MINISTÉRIO
DO TRABALHO E DO EMPREGO, 2006).

O trabalho na economia solidária surge como


proposta de inclusão e reabilitação psicossocial, sendo
baseada nos princípios da equidade, participação
coletiva, autogestão, democracia e cooperação. Dessa
forma, busca contribuir com produções significativas e
não alienantes, que procuram inserir o sujeito no tempo
e no espaço. Historicamente, tem-se o trabalho para
os portadores de sofrimento mental como limitado ao
simples desenvolver de tarefas que tendem a manter
o sujeito na restrição de seu campo existencial. Ao
contrário, a proposta do trabalho pela economia solidária
busca a “inserção laborativa”, ou seja, a inclusão social
pelo trabalho, de modo que o sujeito articule novos
campos de interesse, possibilidades e desejos (SILVA;
OLIVEIRA; BERTANI, 2007). Nessa perspectiva:
[...] o trabalho não significa apenas
a manutenção e (re)produção das
condições materiais de existência, mas
também a possibilidade de identidade
social e valorização pessoal, aspectos
estes, reconhecidos dentro da economia
solidária. Vemos aqui o trabalho não
apenas como produção de via material,
mas como possibilidade de inserção social,
de reconhecimento e de reconhecer-se
como sujeito de sua própria existência no
mundo (FAVERO; EIDELWEIN, 2004, p.
37).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


185
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

A questão de gênero na economia solidária


vem sendo abordada por alguns pesquisadores, que
apontam o papel central das mulheres nesse tipo de
iniciativa, pois, diante das dificuldades, elas tendem a
se mobilizar e auto-organizar. Guérin (2005) argumenta
que as mulheres são levadas a essas atividades, em
primeiro lugar, por necessidade, mas que, além disso, a
economia solidária permite que elas percebam o caráter
multidimensional da pobreza, constituam espaços
de discussão e deliberação coletivas e redefinam
a articulação com a família, o Estado, o mercado e a
sociedade civil, questionando as assimetrias no que se
refere às obrigações familiares.

Embora existam alguns estudos nesse sentido,


constata-se que as relações entre as mulheres e a
economia solidária foram escassamente estudadas e
essa lacuna é ainda maior quando se trata de abordar
o trabalho como via para superar o alcoolismo e a
drogadição pelas mulheres. Barfknecht, Merlo e Nardi
(2006) destacam que os estudos enfocando a saúde
mental nos empreendimentos solidários são raros. Mais
raros ainda são os estudos que se voltam para a relação
álcool, drogas e trabalho.

Tendo em vista a centralidade do trabalho na


vida do indivíduo, reforça-se aqui a importância de se
compreender o uso abusivo do álcool/drogas e sua

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


186
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

relação com a atividade laboral. Nessa perspectiva,


existe a necessidade de investigar formas de reabilitação
psicossocial e inclusão social pelo trabalho, o que é
vislumbrado na proposta da economia solidária. A nosso
ver, este caminho se constitui primordial para se pensar
medidas de prevenção e intervenção na dependência
química. Nesse cenário, reforça-se ainda mais a
necessidade de estudos que enfoquem a questão da
mulher. Inseridas na situação do uso abusivo de álcool
e outras drogas, tais mulheres estão sujeitas a uma
tripla exclusão: pelo mercado de trabalho, pela própria
dependência e pela desigualdade nas relações de
gênero.

A toxicomania e as mulheres

O campo de estudo do uso de psicoativos


por mulheres está em expansão, mas ainda é
reconhecidamente pouco sólido e com importantes
lacunas a serem preenchidas, lacunas presentes
tanto na dimensão sociológica, quanto na dimensão
psicológica e psiquiátrica. Apesar do consumo de álcool
e outras drogas não ser característica exclusiva do
homem moderno, há ainda poucos estudos na literatura
sobre a especificidade da dependência química entre as
mulheres. Para Brasiliano (2005), a noção de que o uso
problemático de substâncias intoxicantes configura um
padrão de comportamento masculino vem dificultando a

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


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MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

realização de estudos que investiguem as influências da


questão de gênero na toxicomania.

De acordo com os estereótipos sexuais, que


estabelecem limites ao comportamento feminino, as
mulheres não seriam enquadradas como prováveis
toxicômanas. Para Bertolote (1999), de fato, algumas
regras de comportamento social, de certa forma,
afastam as mulheres do uso de álcool, contudo as
mudanças de papéis que vêm acontecendo nos países
industrializados favorecerem a toxicomania feminina,
pois, atualmente, as mulheres “[...] compartilham uma
posição sócio-profissional idêntica àquela dos homens
e são solicitadas a consumir álcool ou drogas ‘leves’ na
mesma proporção que este” (Cardinal, 1991, p. 283).

De acordo com Bertolote (1999, p. 23), a ingestão


problemática de álcool por mulheres se relaciona a
eventos traumáticos como, por exemplo, “[...] a morte de
ente querido, perda de emprego, separações, rupturas
sentimentais, saída dos filhos de casa e menopausa”.
Segundo Hochgraf (2001, p.34), “[...] as mulheres passam
a beber a partir de eventos significativos, diferentemente
dos homens, que não apontam um desencadeante
especial”. No caso da cocaína, por exemplo, Hochgraf
alega que os indivíduos do sexo feminino apontam, como
motivos para iniciar o uso, a depressão, o isolamento
social, as pressões profissionais e familiares, bem como

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


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Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

problemas de saúde; ao passo que os homens fazem


referência aos efeitos prazerosos da intoxicação. Para
Nóbrega e Oliveira (2005), as mulheres associam o
uso de álcool principalmente a eventos internos, como
questões familiares e suas vidas íntimas, enquanto
os homens mencionam eventos relacionados com o
trabalho.

Brasiliano (2005), por sua vez, afirma que as


mulheres mais predispostas a dificuldades de adaptação,
quando confrontadas com os conflitos da modernidade
e a pressão por superação de expectativas, como
profissionais e mães, são impelidas à utilização de drogas
sem finalidade médica. Assim, é possível concluir que a
ansiedade oriunda de conflitos internos, ou de conflitos
que resultam da interação da mulher com seu ambiente,
é fator determinante para a indução do consumo de álcool
e outras drogas e para o aparecimento da dependência.
Esses conflitos, em geral, dizem respeito a uma baixa
autoestima que advém de uma tendência acentuada a
subestimar-se e desvalorizar o papel que exercem.

Alguns autores (Simão et al., 1996; Hochgraf,


2001) apontam que as mulheres geralmente começam
a usar drogas influenciadas pelos companheiros,
enquanto que os homens, pelos amigos. Bertolote
(1999) menciona a tendência das mulheres alcoolistas
se unirem a parceiros também alcoolistas, o que

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MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

decorre de uma proteção mútua, que retarda a busca


de ajuda em momento oportuno. Quando a mulher não
é toxicômana, é comum que incentive seu companheiro
a buscar tratamento, mas quando ela também é adicta,
os companheiros em geral se opõem ao tratamento.
Brasiliano (2005) também constata essa diferença e
acrescenta que as mulheres buscam ajuda sozinhas.
Isso é corroborado na investigação feita por Nóbrega
e Oliveira (2005, p.820), pois os autores constataram
que “[...] a motivação em buscar tratamento partiu das
próprias mulheres, quando as mesmas têm a percepção
de seus prejuízos e sofrem com as críticas recebidas”.

O pertencimento de tanto homens quanto


mulheres a famílias disfuncionais, com altos índices
de violência e em que costuma haver a presença de
mais de um dependente, contribui para a iniciação ao
uso de drogas e para o agravamento da dependência
química (Brasiliano, 2005). A maioria das famílias de
adolescentes toxicômanos possui laços conflitivos:
os membros não são muito próximos, a comunicação
entre eles é precária, há falta de afeto e uma hierarquia
bem demarcada e, além disso, alguns pais não dão
exemplo positivo quanto ao uso de drogas (Guimarães
et al., 2008). Em entrevista, a doutora Silvia Brasiliano,
coordenadora geral e executiva do Programa de Atenção

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


190
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

a Mulher Dependente Química2, acrescentou que as


famílias que buscam a felicidade em fatores externos
a elas próprias (“o dia que a gente vai ter um carro
novo”, “o dia que a gente conseguir comprar aquela
televisão”) estariam mais propensas à dependência
de substâncias psicoativas. As meninas parecem se
adaptar melhor ao estilo de família monoparental do que
os meninos; contudo os estudos apontam que a criação
por ambos os pais ainda é um fator de proteção para os
adolescentes contra a dependência de álcool e outras
drogas. As garotas precisam de mais apoio familiar para
não se envolverem com grupos desviantes. Alem disso,
são tão sensíveis ao abuso psicológico quanto físico, ao
contrário dos garotos que acham pior a violência física
(Guimarães et al., 2008).

No que se refere à comorbidade, de acordo com


Simão et al. (1996), de modo geral os dependentes
alcoólicos, sejam do sexo masculino, sejam do feminino,
parecem exibir mais frequentemente outras patologias
associadas do que a maioria da população. Entretanto,
as mulheres alcoolistas frequentemente apresentam
mais comorbidades com transtornos de humor (Bertolote,
1999), principalmente aqueles relacionados a quadros
depressivos e ansiosos, o que inclui também transtornos
2 O Programa de Atenção a Mulher Dependente Química (PROMUD) é
um serviço especializado oferecido pelo Departamento de Psiquiatria do
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


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MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

alimentares, enquanto os homens manifestam mais


comorbidades com transtornos de personalidade
(Hochgraf, 2001). Além disso, as mulheres alcoolistas
apresentam maiores taxas de dependência e uso
abusivo de sedativos e anorexígenos (Bertolote, 1999).
De acordo com Hochgraf (2001), essas comorbidades,
frequentes no alcoolismo feminino, não são tão nítidas
quando se trata de outras drogas.

Outro fator que chama atenção, segundo Nóbrega


e Oliveira (2005, p. 819), é que, nas mulheres, o início
dos transtornos psiquiátricos precede o uso do álcool,
enquanto que no caso dos homens ocorre o contrário.
Dessa forma, acreditamos que é possível conjecturar
que, nos homens, a evolução da dependência leva a
um quadro psicótico, enquanto que, nas mulheres, a
disposição a esse tipo de patologia antecede o uso de
drogas.

Bauer (2010) fez um estudo do alcoolismo


em mulheres francesas, no qual apresenta quatro
casos clínicos discutidos a partir de uma perspectiva
psicanalítica. As quatro mulheres estudadas relataram
uma relação difícil com suas mães, consideradas
destrutivas e intrusivas, projetando expectativas positivas
em seus pais, que são, por elas, figuras bastante
idealizadas. Além disso, veem os casamentos de seus
pais como insatisfatório: havia nelas algo de errado,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


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Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

porém escondido e negado. Trata-se de mulheres que


anseiam por certos padrões de perfeição, mas que se
encontram feridas em sua feminilidade por uma mãe
negativa e presas a um ideal masculino que as levam a
desposar homens que não correspondem às suas altas
expectativas.

De acordo com Simão et al. (1996) e Hochgraf


(2001), as mulheres alcoolistas começam a beber mais
tarde do que os homens, mas apresentam sintomas de
dependência mais rapidamente. Já em relação à cocaína,
segundo Hochgraf (2001), as mulheres iniciam o uso
mais cedo do que os homens (15,6 vs. 18,5 anos), o que
demonstra que, neste caso, elas não passam de drogas
mais leves para drogas mais pesadas como costuma
acontecer com os homens. Como não é possível afirmar
que as mulheres tenham maior predisposição psíquica à
dependência que os homens, é importante considerar que
a rapidez com que o a dependência ocorre nas mulheres
também está relacionada à sua conformação biológica: a
maior sensibilidade feminina ao álcool se deve ao menor
volume de água e a maior quantidade de gordura, o que
dificulta a diluição alcoólica (Hochgraf, 2001; Nóbrega;
Oliveira, 2005). Além disso, elas apresentam níveis
menores da enzima álcool–desidrogenase que auxilia
no metabolismo da substância em questão (Simão et al.,
1996; Hochgraf, 2001). Por outro lado, a predisposição

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


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MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

genética também deve ser considerada, pois há 50% a


60% de probabilidade de a mulher vir a ser alcoolista,
caso um dos pais o seja.

Por causa desta configuração biológica, as


complicações físicas decorrentes do álcool iniciam mais
cedo e são mais graves nas mulheres. Dentre esses
problemas, podem-se destacar: transtorno alimentar,
pancreatite, cirrose, neuropatias e maior probabilidade
de morte (1,5 a duas vezes mais) do que os homens
(Hochgraf, 2001). Nóbrega e Oliveira (2005) mencionam
ainda que o orgasmo feminino reduz sua intensidade
e sofre aumento da latência com níveis elevados de
álcool no organismo. Na pesquisa desses autores,
uma entrevistada relata que o cabelo e a boca ficam
muito secos e a barriga e o rosto ficam inchados em
decorrência da dependência alcoólica. Por fim, pode-
se lembrar os problemas causados ao feto, no caso de
gravidez. A dependência de cocaína, por sua vez, pode
acarretar amenorreia, dismenorreia, infertilidade, partos
prematuros, além de problemas para os filhos, por
exemplo, anomalias congênitas, retardo de crescimento,
baixo peso ao nascer, morte neonatal e síndrome de
morte súbita na infância. As complicações causadas
diretamente no corpo da mulher e os efeitos na gestação
decorrentes do consumo de drogas são úteis para
mobilizar o tratamento (Hochgraf, 2001).

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Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

Outro importante prejuízo para a saúde se refere


às doenças sexualmente transmissíveis, já que muitas
vezes as mulheres utilizam o corpo como moeda de troca
para ter acesso à droga e participam de relações sexuais
desprotegidas com parceiros que costumam ser também
dependentes (Brasiliano, 2005). Em sua pesquisa com
mulheres em tratamento especializado no ambulatório
de clínica e pesquisa em álcool e drogas, Nóbrega e
Oliveira (2005) apontam que a perda de controle sobre
o consumo de álcool levou ao descaso das mulheres em
relação às atividades diárias; a agredirem verbalmente
familiares; e a terem prejuízo no desempenho do papel
de mãe, filha, esposa e profissional. Também foram
citados os problemas financeiros decorrentes das
dívidas feitas em bares; houve, inclusive, relato de uma
toxicômana que pagava bebidas para várias pessoas.
Há também que se ressaltar o alcoolismo como preditor
da vulnerabilidade feminina à violência em situações
diversas. As mulheres alcoolistas são mais propensas
a episódios de agressão/violência, como vítima na
infância, sendo a agressão inicialmente cometida pelos
pais, também alcoolistas, e, posteriormente durante
a vida adulta, pelos companheiros (Simão et al, 1997;
Brasiliano, 2005).

Na tentativa de minimizar o real problema, as


mulheres dependentes buscam uma forma indireta

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MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

de tratamento, vão a serviços de ginecologia e clínica


geral, onde os profissionais da saúde não possuem
treinamento e aparato especializado para o diagnóstico
e tratamento da dependência química (Brasiliano, 2005).
Além da falta de treinamento das equipes primárias
de saúde, a baixa detecção de mulher toxicônoma
está associada à escassez de centros especializados
focados especificamente nas mulheres, que seriam
mais atrativos para essa população (Hochgraf, 2001).
Pode ocorrer de os profissionais de saúde não relatarem
ou anotarem o problema por considerá-lo um dado
irrelevante (Simão et al.,1996). Dificuldades financeiras
e responsabilidades domésticas, como cuidar dos filhos,
também constituem barreira à busca por tratamento, mas
estudos mostram que a maior barreira é a do estigma
social, no qual a mulher dependente é associada a
uma atitude de agressividade e de promiscuidade
(Brasiliano, 2005). Inclusive, Nóbrega e Oliveira (2005)
revelam que, no ambulatório onde foi feito o estudo, as
mulheres raramente comparecem com algum familiar
ou companheiro, pedindo até para que eles não sejam
informados sobre o tratamento, pois têm vergonha e
receio de fracassarem.

Em relação às barreiras que as mulheres se


deparam ao buscar tratamento, a Doutora Silvia
Brasiliano destaca que:

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196
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

[...] um homem pode ficar internado pelo


período que se achar necessário, uma
mulher, isto pode não ser absolutamente
verdade, por quê? Porque toda vez que
um homem vai pro hospital a mulher
automaticamente assume o cuidado com
a casa e com os filhos. Uma mulher, ela
precisa, pra ser internada, de que alguém
se disponha a cuidar dos filhos dela, a
levá-los na escola, a tomar conta do dia
a dia. Isso nem sempre é automático, não
é sempre que uma mulher é internada
que o marido se dispõe automaticamente
a fazer isso. (Silvia Brasiliano. Entrevista
realizada por nós em 2010).

Simão et al. (1996) revelam que, dentre os


pacientes alcoolistas atendidos entre 1987 e 1993, no
Ambulatório de Psiquiatria da Faculdade de Medicina
de Botucatu, as mulheres aderiram mais ao tratamento
do que os homens, embora o padrão de abstinência
fosse semelhante para os dois sexos (50%). A hipótese
dos autores diante dessa diferença se relaciona a
maior motivação feminina em iniciar o tratamento e as
dificuldades em fazê-lo e em admitir publicamente a sua
situação. Nóbrega e Oliveira (2005, p. 817) afirmam que
a mulher, ao buscar tratamento, tem maiores chances
de se recuperar do que os homens, “[...] na medida
em que percebe a gravidade do problema e procura
maneiras de enfrentá-lo, mesmo com os poucos serviços
que ofereçam atenção especializada para elas.” Na

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


197
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

entrevista concedida, a professora Silvia Brasiliano


relata que “a mulher em geral, quando ela busca ajuda,
ela tende a negar menos o seu problema [...] tende a ter
maior clareza de seu sofrimento, o homem tende a ter
menos clareza.”

Bertolote (1999), por sua vez, relata que


aparentemente as mulheres buscam ajuda assim que
surgem problemas inerentes ao uso de álcool, antes
mesmo do diagnóstico de alcoolismo ser formalmente
estabelecido por um profissional da saúde. No entanto,
quando esse diagnóstico é feito, parece ocorrer o inverso:
elas recuam diante da necessidade de tratamento.
Discorre, ainda, sobre a existência de dados que indicam
a melhor recuperação das mulheres em curto prazo (6
a 12 meses) e pior em longo prazo (mais de 12 meses).
Dessa forma, a hipótese que formulamos de que há
maiores chances de sucesso quanto mais precoce for o
tratamento parece se confirmar no caso das mulheres,
que, quando procuram ajuda, o fazem mais cedo do que
os homens.

Os dependentes químicos não constituem um


grupo homogêneo, ainda mais quando se fala em
homens e mulheres toxicômanos. Nesse sentido, várias
diferenças foram apontadas, que atestam a necessidade
de tratamentos voltados exclusivamente para as
mulheres. Hochgraf (2001) e Nóbrega e Oliveira (2005)

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


198
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

alertam para o predomínio dos interesses masculinos


em detrimento dos femininos nos tratamentos mistos, o
que decorre do maior número de homens. Tratamentos
específicos para as mulheres permitem trabalhar com o
abuso sexual, a violência doméstica, as preocupações
com os filhos e com o corpo e a baixa autoestima, dentre
outros assuntos. Além disso,
[...] no processo de recuperação a mulher
basicamente não fala sobre a substância
psicoativa, a mulher quer falar sobre
os problemas que ela tem associado
à substância psicoativa, [...], tais como
problemas com o filho, com o marido,
com o pai, com o vizinho, bem como o
problema que ela tem porque ela quer
voltar ao mercado de trabalho, porque
ela tá sem dinheiro ou porque ela precisa
fazer faculdade. Por sua vez, o homem
basicamente quer falar sobre o álcool, a
abstinência, como é que ele se sentiu,
porque que ele recaiu, porque que ele
não pode passar na frente do bar, porque
que ele não pode se encontrar com os
amigos [...] (Entrevista com Brasiliano,
feita por nós em 2010).

Outra diferença importante, que a professora


destaca, no que concerne ao tratamento é que
[...] pro homem é fundamental, muitas
vezes, ficar longe do grupo de amigos,
em geral ele usa a substância com o
seu grupo de pares; a mulher, como ela
vai ficando muito isolada pelo uso da
substância, ela tem que se reinserir na

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


199
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

sociedade para a sua recuperação. É o


processo oposto, o isolamento pra mulher
favorece o uso, pro homem o isolamento
faz com que favoreça com que ele fique
abstinente. (Entrevista com Brasiliano,
feita por nós em 2010).

Quanto a essa asserção feita por Brasiliano na


entrevista, acreditamos ser fundamental acrescentar que,
no caso do alcoolismo, tanto homens quanto mulheres
começam a beber em situações sociais, na companhia
de outras pessoas, como festas e reuniões em bares.
Nos casos clínicos das quatro mulheres alcoólatras
francesas, examinados por Bauer (2010), isso fica
evidente. Para Colette, por exemplo, que frequentava
círculos sociais badalados em Paris, o álcool significava
uma ponte para um mundo onde tudo podia acontecer,
assim:
No contexto social, particularmente
com homens, a bebida também criava
possibilidades de experiência que,
de outro modo, ela não ousaria fazer.
Eliminava tabus e inibições, dando-lhe
uma sensação de “temeridade”. Já não
precisava manter uma persona e podia
dizer o que queria, ser franca e mesmo
desagradável – proferir as tais “verdades
que ninguém quer ouvir”. Na presença
de homens, sentia-se solta e dionisíaca.
(BAUER, 2010, p.106).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


200
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

Para Solange, os prazeres do álcool começaram


com a vida de modelo, sendo que, pouco a pouco, ela
passou a beber sozinha:
Solange bebeu pouco até a idade de 22
anos. [...] Só quando se tornou modelo é
que exposta a uma vida muito diferente
da que levara em seu mundo burguês,
descobriu os prazeres do álcool. Quis
conhecer “barzinhos” chiques e logo se
acostumou a frequentá-los à noite. Às
vezes tinha um encontro, mas quase
sempre preferia sair sozinha, a fim de
beber em esplendor solitário e elegante
até a hora de voltar para casa. Todavia,
depois que deixou de ser modelo –
dispondo de mais tempo e menos
dinheiro para gastar – mostrou-se mais
liberal na sua escolha de bares. Dos
locais finos, frequentados por gente da
alta sociedade, passou aos botequins dos
pobres. Deixou a champanha pelo vinho
barato. Bebia à noite sozinha, mas não
em casa e muito menos durante o dia. Em
sua vida de casada, a bebida continuou
sendo o principal lazer, com a única
diferença de que marido e mulher se
embriagavam juntos e não sozinhos. [...]
A morte dele deixou-a sem companheiro
de copo e sem objetivo na vida. Foi
então que passou a beber o tempo todo.
Começava de manhã e só parava à noite.
Não mais se interessava por buscar nos
bares a companhia de outros alcoólatras.
Só se vestia por decência, para sair e
comprar garrafas, que levava para casa
e esvaziava sozinha. (BAUER, 2010, p.
110-111).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


201
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

Os casos estudados por Bauer (2010) evidenciam


que, quando as mulheres começam a beber sozinhas, é
sinal de que o alcoolismo se instalou: passam então a
beber em casa e a esconder as garrafas do marido e dos
familiares, em uma tentativa de não enfrentar o problema.
No entanto, ironicamente, é justamente quando elas
passam a beber sozinhas é que resolvem pedir ajuda.
Para Bauer, o isolamento permite que elas abandonem
a identidade coletiva de alcoólatras e assumam uma
identidade individual:
Poderíamos aventar também que o ato
de beber às escondidas, tão comum,
sobretudo no alcoolismo feminino, pode
ser uma continuação dos sentimentos
de culpa e pecado que a criança herda
sem compreender. Por um lado, como
todo fenômeno tem seu lado negativo
e positivo, esse segredo apresenta um
aspecto benéfico. Isola a pessoa e a
mantém em estado de inconsciência para
proteger a respeitável sombra familiar,
mas ao mesmo tempo força-a, pelo seu
próprio efeito isolante, a passar de uma
identidade meramente coletiva para
uma identidade francamente individual.
Quando as mulheres estavam no auge
alcoólico de seu isolamento e repúdio
[...] conseguiram pedir ajuda, entrar
para os AA e partilhar o segredo de seu
alcoolismo. (BAUER, 2010, p.135-136).

Assim, no caso das mulheres, o isolamento pode


preceder à busca da abstinência, enquanto que, para

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


202
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

os homens, o isolamento favorece a abstinência. Talvez


porque as mulheres consigam se conscientizar que,
mesmo em um grupo de alcoolistas, no fundo estão
solitárias; já os homens se iludem com a companhia dos
“camaradas de copo”. Nóbrega e Oliveira (2005, p.818)
também demonstram que, no caso da dependência
feminina, o trabalho é uma forma de sair do isolamento
e de reinserção da mulher na sociedade, pois, para as
entrevistadas de sua pesquisa, “[...] o trabalho significou
a via de acesso às oportunidades de participação social,
de ascensão, de melhoria das condições concretas de
sobrevivência, que passou a ser uma referência do
passado.”

Diante das peculiaridades constatadas, no que


se refere às dependentes de substâncias psicoativas,
concluímos que as mulheres buscam a toxicomania
por motivos diferentes dos homens e precisam ser
diagnosticadas de acordo com suas singularidades.
No entanto, é fundamental mesmo a diferenciação no
tratamento, pois elas ficariam mais à vontade para buscar
ajuda e permanecer em tratamento, caso dispusessem
de serviços de assistência social e legal, atendimento
familiar, nutricionistas e grupos de psicoterapia só
para mulheres. Um estudo realizado pelo Programa
de Atendimento à Mulher Dependente Química
(PROMUD), associado ao Grupo Interdisciplinar de

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


203
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

Estudos de Álcool e Drogas (GREA) e ao Ambulatório


de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM)
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(HOCHGRAF; ANDRADE, 2006), confirma o que vem
sendo constatado em outras pesquisas, pois verificou
que, após seis meses, 66,9% das mulheres alcoolistas
permaneciam em programas específicos, enquanto
34,8% delas permaneciam em um programa misto, e
após dozes meses esses números vão para 52,6% e
19,1%, respectivamente. Além disso, é importante que o
corpo da equipe de atendimento seja predominantemente
feminino, pois isso favorece a identificação das mulheres
com o tratamento (HOCHGRAF, 2001).

Discutidas as questões sobre a mulher e a


toxicomania, a seção seguinte abordará sobre a
economia solidária e suas possibilidades diante à
toxicomania.

Toxicomania e economia solidária: restaurando o


laço social

Apesar das inúmeras definições que têm sido


dadas ao movimento da economia solidária, que refletem,
inclusive, as diferentes perspectivas que coexistem
sobre o tema, alguns elementos são considerados
fundamentais. Independentemente do ponto de vista,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


204
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

é fato que a economia solidária constitui um caminho


alternativo, capaz de possibilitar aos envolvidos a
vivência da imersão de dimensões sociais – e aqui,
leia-se, “laços sociais, solidariedade, ajuda mútua” –
no campo econômico. Para alguns autores, os limites
da economia solidária apenas permitem que ela seja
entendida como uma alternativa para geração de renda
e inclusão social, mas a perspectiva assumida neste
trabalho é de uma economia solidária em seu sentido
mais amplo, como uma alternativa de mudança social.

Trazemos a economia solidária como um


contraponto à sociedade em que vivemos, que é
permeada pela lógica de mercado, lógica esta que
favorece a toxicomania. Segundo Dufor, vivemos em
uma sociedade que requer um sujeito “psicotizante”:
Na tendência à dessimbolização em que
presentemente vivemos, não é mais,
com efeito, o sujeito crítico, colocando
prioritariamente uma deliberação em
nome do imperativo moral de liberdade,
que convém, também não é o sujeito
neurótico preso numa culpabilidade
compulsiva, é um sujeito precário, acrítico
e psicotizante que é doravante requerido
– entendo por “psicotizante” um sujeito
aberto a todas as flutuações identitárias
e, consequentemente, pronto para todas
conexões mercadológicas. O cerne do
sujeito dá lugar ao vazio do sujeito, um
vazio aberto a todos os ventos. (DUFOR,
2005, p. 21-22).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


205
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

Para Dufor, uma das características deste sujeito e


sua tendência a adição à mercadoria, que pode ser tanto
os produtos de consumo, quanto a droga, considerada
por ele uma mercadoria especial. A toxicomania desloca
a possibilidade de sublimação, pois distorce a verdadeira
busca humana:
A questão não é mais a de fazer da
dificuldade de existir uma busca simbólica
na qual o que vem preencher imperfeição
usual do Outro deve ser sabiamente
construído e expresso, notadamente pela
expressão artística (poesia, dança, canto,
música, pintura [...]. Na toxicomania,
essa laboriosa busca é transformada em
uma simples dependência com relação
a um Outro retirado do campo do desejo
e, de algum modo, reinscrito no real
da necessidade. Pelo menos assim se
saberá o que é do Outro que nos falta:
nada mais que um produto químico tão
aditivo quanto possível, que poderemos
nos proporcionar desde que nos tornemos
seu escravo. (DUFOR, 2005, p. 113).

Nesse contexto, a crise da autoridade paterna,


que não está sendo reelaborada de forma a diferenciar
autoridade de autoritarismo, favorece a psicotização
do sujeito, mediada por uma tendência de foraclusão
do superego e um culto a uma existência totalmente
hedonista: a toxicomania emerge então como via
para realizar esta passagem. Quando inserimos a
economia solidária, estamos apontando para outra

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


206
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

maneira de pensar a vida social: grupos que dividem


responsabilidades pela convivência coletiva por meio de
uma lógica solidária, na qual o acesso à palavra está
garantido a todos. Há aqui, então, uma tentativa de frear
a psicotização do sujeito e da sociedade por meio da
restauração do laço social.

É importante destacar que trazer ao campo


da Saúde Mental a discussão sobre a proposta
da economia solidária insere-se nas conquistas e
transformações proporcionadas pelo movimento da
Reforma Psiquiátrica. No Brasil, esse movimento foi
fortemente influenciado pela experiência italiana de
desinstitucionalização em psiquiatria e sua crítica radical
ao manicômio, e se inscreve tanto na referência a um
contexto internacional de superação de um modelo
asilar, quanto em transformações provenientes da
Reforma Sanitária, iniciada no Brasil nos anos 1970, em
favor de mudanças nos modelos de atenção e gestão
nas práticas de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005).

Nacionalmente este movimento foi marcado pela


Lei nº 10.216, sancionada em 06 de abril de 2001, após
um longo e lento processo de tramitação iniciado em
1989. Tal legislação decreta, dentre outras questões,
a progressiva extinção dos manicômios (instituições
fechadas) e sua substituição por instituições abertas,
tais como: unidades de Saúde Mental em hospital

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


207
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

geral, emergência psiquiátrica em pronto-socorro geral,


unidade de atenção intensiva em Saúde Mental em
regime de hospital-dia, Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS), serviços territoriais que funcionem 24 horas,
pensões protegidas, lares abrigados, centros de
convivência, cooperativas de trabalho e outros serviços
que busquem preservar a integridade do cidadão. Tal
rede, que busca substituir a internação psiquiátrica,
tem como ideal o resgate de cidadania dessa parcela
de sujeitos excluídos. Em suma, a substituição da lógica
hospitalar por novas modalidades de atenção ao sujeito
com transtornos mentais se sustenta em princípios
de inclusão, solidariedade, cidadania e resgate ético
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005).

Além da sanção da lei, vale destacar que a


Reforma Psiquiátrica é um movimento complexo e
que vai além das mudanças na legislação, sendo
composto por vários atores, instituições e forças de
diferentes origens, incidindo em diversos territórios, nos
âmbitos governamentais, na educação, no mercado
dos serviços de saúde, nos movimentos sociais, no
imaginário social e na opinião pública. O movimento da
Reforma Psiquiátrica significou um grande avanço em
termos de transformações sociais do modo de ver e de
tratar a loucura, visto que representa a busca de uma
maior humanização no atendimento aos portadores

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


208
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

de sofrimento psíquico, optando por uma tentativa de


reinserção social em detrimento do afastamento outrora
realizado. Nesse sentido, a Reforma Psiquiátrica
compreende um conjunto de transformações nas
práticas, saberes, valores culturais e sociais, mas que,
no cotidiano das instituições, dos serviços e das relações
interpessoais é ainda marcada por impasses, tensões,
conflitos e desafios (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005).

Costa-Rosa (2006), ao comparar o paradigma


asilar anterior à Reforma Psiquiátrica com o psicossocial,
revela que o primeiro parte de uma concepção na qual
o indivíduo é tido como o centro do problema, o que
culmina no seu isolamento do meio familiar e social.
De modo contrário, o paradigma psicossocial se baseia
na noção de que o sujeito não é o único problemático,
visão que acarreta a inclusão da família no tratamento
e eventualmente de um grupo mais ampliado. Nesse
novo contexto, tem-se a potencialização do trabalho
como instrumento de inclusão social e promoção da
cidadania dos sujeitos portadores de sofrimento mental.
Para tanto, são fomentadas a criação de cooperativas,
associações e oficinas de geração de renda. Há, aí, o
marco da economia solidária, que “como movimento
de luta contra a exclusão social e econômica, surge
como parceiro natural para a discussão da exclusão

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


209
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

das pessoas com transtornos mentais do mercado de


trabalho” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005).

Nesse contexto, a proposta da economia solidária


emerge como uma via possível, tendo em vista, dentre
outras questões, a possibilidade de inserção, geração
de renda e mudança social. Essa possibilidade se faz
ainda mais evidente quando se considera o processo de
exclusão no mundo atual do trabalho, o que se torna
ainda mais crítico quando se pensa nos usuários de
serviços de Saúde Mental, em particular os dependentes
de álcool e outras drogas, que são o foco deste trabalho.
Além das dificuldades naturais que têm sido encontradas,
essas pessoas ainda esbarram no preconceito, o que
implica um processo de exclusão ainda mais acentuado.

É necessário evidenciar, primeiramente, em


que consiste a economia solidária. Cavedon e Ferraz
(2006) destacam que o desemprego e a exclusão social,
disfunções do capitalismo, fizeram emergir da sociedade
civil iniciativas que buscam a (re)inserção social. Tais
iniciativas representam uma possibilidade para os
excluídos do mundo do trabalho, sendo conhecidas
atualmente como economia solidária. Esta representa
então,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


210
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

[...] uma forma alternativa de


autossustentação de uma parcela da
população que não encontrou seu espaço
no modelo capitalista, seja por não ter as
qualificações exigidas pelo mercado de
trabalho, seja por seguir fundamentos
ideológicos diferentes daqueles
propugnados pelo modelo econômico
vigente. (CAVEDON; FERRAZ, 2006, p.
94).

As autoras também destacam que a economia


solidária tem como objetivo novas formas de atuação
que permitam a construção de redes de solidariedade
e de igualdade, dentro de uma prática que se diferencie
do modo de produção e/ou comercialização capitalista.
Essa nova perspectiva de atuação tem como finalidade a
realização de objetivos sociais em detrimento do acúmulo
do capital, buscando a inserção de indivíduos na teia
social. França Filho (2001) expõe que o fenômeno da
economia solidária está intimamente relacionado a esta
problemática da exclusão social crescente. Ressalta
que esta experiência reúne indivíduos preocupados em
gerar atividades econômicas que não se distanciem
da perspectiva social. Dessa forma, destaca que a
economia solidária busca, mesmo que de forma modesta
no momento presente, novas formas de regulação da
sociedade.

Inserem-se, na perspectiva da economia solidária,


diversas experiências que incluem formas de agricultura

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


211
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

familiar, empresas industriais ou rurais, recuperadas


por meio da autogestão, incubadoras de empresas,
cooperativas, cooperativas populares, dentre outros
espaços de formação profissional (SINGER, 2002).
Embora exista tal multiplicidade, é válido destacar
que todos os empreendimentos que vivenciam a sua
proposta, em linhas gerais, apresentam características
comuns que acabam por revelar a identidade da mesma.

A economia solidária baseia-se na ideia de que


os benefícios da atividade econômica devem estar
ao alcance daqueles que a realizam, ou seja, dos
trabalhadores. Nesse sentido, tal proposta se apresenta
como um mecanismo viável de inclusão social, na
qual as pessoas podem se autorrealizar por meio do
desenvolvimento do seu trabalho, dos laços pessoais que
dele originam bem como do sentido de comunidade que
dissemina. A proposta da economia solidária diferencia-
se da realidade da sociedade centrada no mercado
justamente em função dos seus princípios e valores.
Seus fundamentos são o humanismo, a liberdade, a
igualdade, a solidariedade e a racionalidade (SINGER,
2002).

No campo da Saúde Mental, que inclui os


dependentes de álcool e outras drogas, a proposta da
economia solidária se apresenta como forma de inserção
social pelo trabalho. Tais iniciativas compreendem as

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


212
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

possibilidades de geração de atividade e renda solidárias


que permitam o processo de emancipação dos usuários
por meio do desenvolvimento de empreendimentos
promotores de espaços reais de trabalho, nos quais
estejam implicadas a atividade cooperada, a participação
democrática e a autogestão, o fortalecimento do
coletivo, a validação dos saberes e dos recursos das
pessoas e dos contextos locais, a inserção no mercado
e a possibilidade de ganho econômico real para os
participantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE; MINISTÉRIO
DO TRABALHO E DO EMPREGO, 2006). Tal proposta
inclui:
Considerar que a inserção no trabalho
das pessoas com transtornos mentais e/
ou com transtornos decorrentes do uso
de álcool e outras drogas, compreendida
como exercício de direitos, constitui uma
das estratégias fundamentais nos projetos
e processos de produção de autonomia
e de fortalecimento da contratualidade
na perspectiva da inclusão social.
(MINISTÉRIO DA SAÚDE; MINISTÉRIO
DO TRABALHO E DO EMPREGO, 2006).

O trabalho pela economia solidária surge como


proposta de inclusão e reabilitação psicossocial, sendo
baseada nos princípios da equidade, participação
coletiva, autogestão, democracia e cooperação. Dessa
forma, propõe contribuir com produções significativas
que busquem inserir o sujeito no tempo e no espaço.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


213
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

Historicamente, tem-se o trabalho para os portadores de


sofrimento mental como limitado ao simples desenvolver
de tarefas que tendem a manter o sujeito na restrição
de seu campo existencial. Ao contrário, a proposta do
trabalho pela economia solidária busca a “inserção
laborativa”, ou seja, a inclusão social pelo trabalho,
no qual o sujeito articula novos campos de interesse,
possibilidades e desejos (SILVA; OLIVEIRA; BERTANI,
2007). Nessa perspectiva:
[...] o trabalho não significa apenas
a manutenção e (re)produção das
condições materiais de existência, mas
também a possibilidade de identidade
social e valorização pessoal, aspectos
estes, reconhecidos dentro da economia
solidária. Vemos aqui o trabalho não
apenas como produção de via material,
mas como possibilidade de inserção social,
de reconhecimento e de reconhecer-se
como sujeito de sua própria existência no
mundo (FAVERO; EIDELWEIN, 2004, p.
37).

A declaração de um dos usuários de um tratamento


de saúde mental que participa da Oficina de Geração de
Renda, no ambulatório do Hospital das Clínicas de Porto
Alegre, ofertada pela Secretaria Municipal de Saúde,
corrobora nossa proposição:
A economia solidária, para mim, é uma
experiência rica, que além do trabalho
promove trocas maravilhosas de apoio,
carinho, onde não se tem patrão, mas

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


214
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

todos trabalham com responsabilidade,


sem discriminação, solidariamente,
independente do tamanho do
empreendimento. O trabalho além de
uma atividade física ou intelectual, para
promover riqueza (ou ganho) para si, é
um remédio contra o ócio ou algumas
limitações, onde o maior capital é o social.
(PACHECO, 2008, p. 222).

Dessa forma, a economia solidária acena


como uma saída para utilização do trabalho como via
terapêutica na recuperação de pessoas com problemas
de saúde mental, entre eles os toxicômanos, na medida
em que seu ethos situa o trabalho como uma forma
de criação de identidade e de autorrealização, em um
ambiente que refaz os laços sociais e resgata a noção
de espaço público. No caso das mulheres, isto assume
uma conotação especial, justamente pela identidade
que existe entre as iniciativas de economia solidária e o
gênero feminino. É o que trataremos na seção seguinte.

Economia solidária, toxicomania e mulheres

No atual cenário econômico e social brasileiro,


as relações vêm sendo pautadas cada vez mais pela
escassez de trabalho e, consequentemente, pela
distribuição desigual de renda. Entre os indivíduos que
se encontram nessa situação, as mulheres ocupam um
papel de destaque, sobretudo por questões históricas.
Para Kollonntal (1977), os homens e as mulheres vivem

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


215
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

em condições diferentes, não ocasionados pelas suas


diferenças biológicas, mas, sim, pelas construções
sociais e econômicas, que ocasionaram uma relação
social de sexo.

Essas diferentes condições citadas podem ser


observadas nos ambientes de trabalho, mediante as
suas divisões sexuais, nos quais as relações de gênero
são sustentadas e estruturadas por uma divisão rígida
do trabalho; uma vez que o trabalho masculino é, na
maioria das vezes, mais valorizado que o feminino.
Nos últimos anos, a palavra gênero traz consigo uma
proposta de desconstrução da ordem dos poderes
cotidianos naturalizados, das relações e dos papéis
da mulher e do homem. Segundo Scott, o conceito de
gênero integra duas proposições. “[...] é um elemento
constituído de relações sociais baseado nas diferenças
percebidas entre os sexos [...] é uma forma primeira de
significar as relações de poder”. (SCOTT, 1989, p.16).

A própria conceituação de gênero demonstra


as perspectivas de diferenciação das relações sociais
e econômicas intrínsecas na temática. E vem ao
encontro da crescente feminilização da pobreza
e a persistência da desigualdade entre os sexos,
demonstrando a emergência de novas formas de
solidariedade. É importante destacar que essas novas
formas de solidariedade precisam, sobretudo, levar

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


216
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

em consideração novas práticas de trabalho, que


levem em consideração relações mais homogêneas,
principalmente no que diz respeito ao gênero.

Nesse âmbito, há que se destacar o trabalho de


Guérin (2005), que afirma que, cada vez mais, diante
das carências do Estado e do mercado, o recurso
à economia solidária aparece como a solução para
reinserir o econômico no social e no político. A economia
solidária surge como uma possibilidade real de inserção
econômica, social e política, das pessoas que se veem
excluídas do mercado de trabalho e, devido a sua
premissa de igualdade, apresenta-se como uma proposta
real para as mulheres. Embora existam alguns estudos
sobre o tema, constatou-se, nesta pesquisa, que as
relações entre as mulheres e a economia solidária foram
escassamente investigadas e esta lacuna é ainda maior
quando se trata de abordar o trabalho como via para
superar o alcoolismo e a drogadição pelas mulheres.
Barfknecht, Merio e Nardi (2006) destacam que estudos,
enfocando a saúde mental nos empreendimentos
solidários, são raros. Mais raros ainda são estudos que
se voltam para a relação álcool, drogas e trabalho.

A questão de gênero na economia solidária


vem sendo abordada por alguns pesquisadores que
apontam o papel central das mulheres neste tipo de
iniciativa, pois, diante das dificuldades cotidianas, elas

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


217
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

tendem a se mobilizar, enfatizando principalmente os


valores comunitários e a autogestão (SINGER, 2002).
Guérin (2005) argumenta que as mulheres são levadas
a essas atividades, em primeiro lugar, por necessidade,
mas que, além disso, a economia solidária permite que
elas percebam o caráter multidimensional da pobreza,
constituam espaços de discussão e deliberação
coletivas e redefinam a articulação com a família, o
Estado, o mercado e a sociedade civil, questionando as
assimetrias no que se referem às obrigações familiares.
Desta forma, as mulheres frequentemente são as
primeiras agentes práticas da economia solidária, que
oferece uma oportunidade para elas lutarem contra as
desigualdades de gênero.

Guérin (2005) então demonstra que as iniciativas


de economia solidária desempenham um papel de “justiça
de proximidade”, essencial em um contexto de pobreza e
desigualdade. Além disso, por se constituírem um espaço
de troca, interação e discussão, elas permitem o acesso
à fala pública para que as pessoas possam participar,
oportunizando reivindicações coletivas e transformações
institucionais. Considerar as iniciativas da economia
solidária como geradoras de espaço público é crucial
para os propósitos da nossa pesquisa, pois temos como
premissa fundamental, partindo das contribuições de
Dejours (1996), que o trabalho só possibilita condições

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


218
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

concretas de sublimação na medida em que instaura um


espaço da palavra, ou seja, de expressão autêntica do
ser, de elaboração e de ressignificação.

Ocorre que, nos ambientes convencionais de


trabalho, permeados pela mecanização e burocratização,
inibe-se o estabelecimento do espaço público e abrem-
se as portas para as patologias laborais. A economia
solidária se apresenta, assim, como uma via para o
restabelecimento do trabalho como espaço público. No
caso das mulheres, isso adquire maior importância, pois
elas costumam ser as protagonistas dessas iniciativas
e, segundo Guérin (2005), elas têm necessidade de
espaços públicos de proximidade para discutir e debater
problemas que afetam sua vida cotidiana. Considerando
que o abuso de álcool e substâncias psicoativas entre as
mulheres é um tabu e um problema que elas costumam
ocultar, esses espaços de trabalho e diálogo surgem
como uma possível alternativa terapêutica. Guérin
(2005, p.25) ainda aponta que estes espaços levam
as mulheres a reencontrar sua dignidade, pois “[...]
permitem a construção de uma identidade, não herdada
e imposta pela norma e pelas tradições, mas escolhida
e reivindicada.” Além disso, esses espaços permitem o
encontro e a troca de experiências que permitem dirimir
os sentimentos de vergonha e culpa, que acreditamos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


219
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

ser elementos fundamentais, quando de trata de


dependência alcoólica e/ou química.

A autora ainda afirma que as iniciativas de


economia solidária permitem a familiarização e a
refamiliarização com reciprocidade, que é chave para
o estabelecimento de laços sociais. A dimensão da
sociabilidade de proximidade é própria do gênero
feminino, que se envolve ativamente na criação e
manutenção de redes relacionais. Por outro lado, as
mulheres transgridem as hipóteses da teoria econômica
padrão em dois aspectos: ao racionalismo utilitarista elas
opõem o altruísmo familiar, e às normas de mercado de
trabalho elas impõem suas diferenças como mães e
mulheres.

De acordo com Guérin (2005), essa lógica


feminina é congruente com as iniciativas de economia
solidária, nas quais se reconhece a importância das
práticas reciprocitárias, que aqui não são um resíduo da
tradição, mas uma virtude feminina que advém de uma
forma diferente de agir economicamente. Assegura-se,
assim, que a finalidade econômica seja acompanhada
pela finalidade social, que é produzir vínculos solidários,
de auxílio mútuo e reciprocidade. Além disso, a
posição feminina compartilha da elaboração de formas
alternativas à concorrência na medida em que constrói
espaços públicos de proximidade que levam a uma

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


220
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

“coconstrução” da oferta e da demanda. Esta construção


conjunta se articula pela vivência cotidiana das pessoas,
referida ao contexto espaço-temporal e sociocultural que
estabelece “microespaços públicos de proximidade”, que
possibilitam às pessoas fazerem uso da palavra, decidir,
elaborar e colocar em ação os seus projetos.

De um modo geral, a partir da ótica das relações


de gênero e emancipação feminina, a economia solidária
pode contribuir das seguintes formas (NOBRE, 2003):

a) para aliviar o cotidiano das mulheres, pois


estas partilham o peso de suas “obrigações”,
contribuindo para uma melhor articulação entre a
vida familiar e profissional;

b) no contexto de trabalho solidário, as


mulheres contam com espaços de discussão
privilegiados para expressar reivindicações e
pressionar efetivamente as autoridades públicas
para a construção de políticas públicas de
gênero, ajudando, assim, no desenvolvimento
da capacidade da mulher contribuir para as
mudanças sociais e institucionais mais favoráveis
para elas;

c) viabiliza o acesso ao crédito; e,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


221
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

d) proporciona a emancipação financeira da


mulher.

As pesquisas apontam que é grande e expressiva


a participação das mulheres nas organizações de cunho
solidário, sobretudo ocupando cargos de dirigentes
nesses empreendimentos. As experiências coletivas,
em funções de liderança ou não, são possibilitadoras
do reconhecimento e da visibilidade das atividades das
mulheres e a sua atuação ultrapassa a ação comumente
a elas atribuída, de reivindicações sociais. Assim, quebra-
se a ideia de que as atividades na economia solidária
são muito próximas do trabalho comunitário, tido como
território das mulheres, pois tratam de atividades de
trabalho coletivo e solidário, mas não assistencialistas,
uma vez que são atividades produtivas geradoras de
renda (CULTI, 2004).

Há que se considerar ainda o caráter dual da


economia solidária, pois, como demonstra Lima (2006),
ela tanto pode significar a autonomia do sujeito quanto a
precarização do trabalho, uma vez que, quase sempre,
tem um caráter informal. Isso é fundamental, pois é preciso
considerar que a inserção das mulheres no mercado
de trabalho é cercada de diversas problemáticas,
entre elas justamente a precarização dos contratos
(OLIVEIRA, 2008). No entanto, não se pode subsumi-
la aos aspectos negativos, pois, como aponta Gaiger

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


222
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

(2007), as iniciativas de economia solidária atuam no


âmbito da diminuição das desigualdades e possibilitam
uma participação efetiva e democrática, uma vez que a
união e o espírito de solidariedade são vias de luta pela
dignidade e de transformação social.

Reflexões finais: recomendações para políticas e


ações

Buscou-se, com este trabalho, refletir sobre a


questão da mulher usuária de álcool e outras drogas,
trazendo para a discussão a perspectiva da economia
solidária na saúde mental. A intenção é que, por meio do
suporte teórico oferecido e das discussões estabelecidas,
seja possível traçar relações entre essas variáveis, em
geral pouco estudadas, e assim oferecer elementos que
subsidiem ações e políticas voltadas para as mulheres
usuárias de álcool e outras drogas, seja pela atenção
às singularidades do gênero e sua saúde mental em
específico, seja pela perspectiva da economia solidária.

Ao se pensar em ações voltadas para a mulher,


é importante considerar suas particularidades, no que
dize respeito às questões sociais, culturais, subjetivas e
psíquicas. O referencial teórico estudado nos demonstra
que o trabalho apresenta, para a mulher, uma condição
fortemente estruturante, tanto psíquica quanto
socialmente. Isso se reforça na condição cultural, na

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


223
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

qual a mulher, embebida pelo preconceito, se isola


socialmente e tende a esconder o problema. Assim, o
trabalho atua como um elemento reconstrutor de laços e
que possibilita a inserção da mulher em espaços e grupos
sociais. Essa inserção possibilita o estabelecimento do
laço social deteriorado pela utilização da substância
psicoativa. Além disso, entendemos que a (re)construção
desse laço ocorre, de fato, quando há possibilidade de
estabelecimento de relações autênticas entre os sujeitos,
quando há, de fato, a construção de um espaço público,
caminho este que percebemos via economia solidária.
Considerando o trabalho como elemento fortemente
estruturante para a mulher e o fato destas serem, em
geral, maioria nessas iniciativas, além de terem maior
afinidade com elas, conforme constatado na literatura;
percebemos, nesta via, um enorme potencial.

Gostaríamos de destacar que o trabalho


representa um elemento fortemente importante a se
considerar na atenção à saúde mental para recuperação
das usuárias de álcool e outras drogas, no que se refere
ao seu potencial de recurso terapêutico, atuando como
forma de reinserção social.

Nessa perspectiva, cabe-nos recomendar, das


reflexões tecidas neste capítulo, que sejam criadas
políticas públicas específicas para o atendimento das

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


224
Fernanda Tarabal Lopes e Ana Paula Paes de Paula

mulheres toxicômanas, nas quais sejam observados


aspectos como:

- a drogadição entre as mulheres tem


características específicas, e assim depende de
tratamento especializado;

- centros de tratamento de drogadictos com


profissionais especializados devem ser criados e
a abordagem do gênero feminino como um caso
específico deve ser levada em consideração;

- questões econômicas, sociais e subjetivas devem


ser tomadas como referência na elaboração das
políticas e, no caso das mulheres;

- tais tratamentos precisam se valer de uma


abordagem sistêmica e multidisciplinar,
envolvendo o grupo familiar do qual a toxicômana
faz parte;

- nossa discussão aponta que o uso do


trabalho e da economia solidária como recurso
terapêutico pode ser uma saída, pois contribui
para restabelecer a noção de espaço público e
dialogicidade, que é fundamental no tratamento
da toxicomania, sendo que no, caso das mulheres,
a ideia ganha força pela identidade que elas em
geral têm com as questões sociais;

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


225
MULHERES USUÁRIAS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS: reflexões sobre a economia
solidária e suas contribuições no campo da saúde mental

- para a implementação de oficinas de trabalho


no âmbito da economia solidária como recurso
terapêutico e forma de geração de renda precisa
levar em conta as características dos toxicômanos,
especialmente da população feminina.

Por fim, espera-se que este trabalho possa


contribuir com elementos norteadores para políticas e
ações que se voltem para a saúde mental da mulher
toxicômana, no que concerne à sua singularidade
e à possibilidade terapêutica do trabalho, mais
especificamente via economia solidária.

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Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo V - Pág. 180-229


Capítulo VI
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS
NUM CAPSAD

Desenho: Roberto Gonçalves


232

CAPÍTULO VI

EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO


DE DANOS NUM CAPSAD
Ricardo Wagner Machado da Silveira

Este trabalho pretende contar a trajetória de


um projeto de pesquisa-intervenção, realizado num
CAPSad da rede pública de saúde mental, de uma
cidade do Triângulo Mineiro, de 2009 a 2013. Este
projeto, que esteve sob a nossa coordenação, contou
com a participação de discentes do curso de psicologia
de uma universidade pública federal. O embasamento
teórico e metodológico teve como principais referenciais
conhecimentos advindos da Análise Institucional e das
Políticas Nacionais de Redução de Danos e de Educação
Permanente em Saúde, com o intuito de contribuir com a
melhoria do trabalho em equipe e a mudança do modelo
de cuidado em saúde, realizado em tal serviço, e que, até
aquele momento, privilegiava o atendimento baseado na
lógica da abstinência total. Ao final desta experiência,
podemos dizer que contribuímos, na medida do possível,
para a implantação e o fortalecimento da política e das
práticas clínicas e educativas de redução de danos,
preconizada pelo Sistema Único de Saúde dentro e fora
do CAPSad e da rede pública de cuidados em saúde
mental da cidade.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


233
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

Em 2009, fomos procurados pela coordenadora


do CAPSad da rede pública de saúde mental de uma
cidade do Triângulo Mineiro. Ela havia sido empossada
no cargo recentemente e, como já atuava como psicóloga
no serviço desde sua implantação em 2004, trazia-nos
uma demanda de intervenção junto à equipe a fim de
promover maior integração desta, bem como mudanças
nas formas de tratamento oferecidas no serviço para
alcançar uma maior coerência com as políticas públicas
de saúde mental, propostas pelo Ministério da Saúde
para o cuidado de pessoas em uso prejudicial de álcool
e outras drogas. As práticas de cuidados em saúde
e o discurso dos profissionais giravam quase que
exclusivamente em torno da busca da abstinência total
como objetivo terapêutico e critério de melhora e alta do
tratamento, enquanto o Ministério da Saúde estimulava
a implantação da inovadora proposta política e clínica de
Redução de Danos (RD).

Para início de conversa, então, tratemos


brevemente da crítica ao modelo da abstinência
total. De acordo com o Ministério da Saúde (2003),
historicamente, as práticas de cuidado em saúde para
pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras
drogas foram sempre baseadas em preceitos religiosos
e psiquiátricos, tendo como meta fundamental a
busca da abstinência total através do controle moral e

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


234
Ricardo Wagner Machado da Silveira

medicamentoso, acontecendo em estabelecimentos de


internação e exclusão social com contenção e tutela,
justificada pela desintoxicação e suposta readaptação
social.

Segundo o Ministério, tais tratamentos podem


beneficiar em torno de 30% da população atendida,
sendo este um dado questionável e provavelmente
superestimado. No caso de tratamentos compulsórios,
as recaídas são muito comuns, os danos sociais
(especialmente a violência intrafamiliar) são graves,
a adesão à rede de atenção em saúde mental fica
muito difícil e o risco da porta giratória, com infindáveis
reinternações psiquiátricas e em fazendinhas
(estabelecimentos que insistem em se denominar
comunidades terapêuticas, terminologia tão cara para a
história da reforma psiquiátrica) acaba por comprometer
gravemente a reinserção psicossocial destes pacientes
que tendem à cronificação (NUNES et al., 2010).

Neste cenário, a lógica manicomial hegemônica


baseia-se em três formas de interpretação do que vem
a ser o uso de drogas e o que deve ser feito com o
usuário: do ponto de vista da saúde, o uso de drogas
é denominado uma dependência química e deve ser
tratado com internação psiquiátrica para desintoxicação;
do ponto de vista da justiça, o uso de drogas é considerado
delito e deve ser tratado com punição legal; do ponto

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


235
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

de vista da religião, o uso de drogas é um pecado e


o tratamento é a conversão. Portanto, os usuários
são, assim, encaminhados para as cadeias, as igrejas
(fazendinhas), as enfermarias e prontos atendimentos
psiquiátricos (SIQUEIRA, 2010).

Essas três formas de interpretação do uso de


drogas compõem o chamado paradigma da abstinência,
que não se restringe a uma meta a ser alcançada no
manejo clínico, mas a uma série de dispositivos de poder,
capilarizados no social, que definem a “governabilidade
das políticas de drogas e que se exercem de forma
coercitiva na medida em que fazem da abstinência
a única direção de tratamento possível, submetendo
o campo da saúde ao poder jurídico, psiquiátrico e
religioso” (PASSOS; SOUZA, 2011, p. 157).

Voltemos um pouco na história das políticas


públicas de saúde brasileira para melhor contextualização
deste processo de mudança paradigmática proposto
pela RD. Como estratégia de cuidado e prevenção
da disseminação do HIV, inicialmente voltada para
grupos sociais mais vulneráveis (como era o caso de
usuários de drogas injetáveis) e, mais tarde, para toda
a população, que passa, também, a se reconhecer
vulnerável, surge a política de RD, baseada nos Direitos
Fundamentais da Pessoa, no qual o usuário de álcool
e outras drogas é visto como cidadão e não mais como

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


236
Ricardo Wagner Machado da Silveira

pecador, criminoso ou doente, ampliando-se a clínica


e as possibilidades de cuidado e responsabilização de
todos os envolvidos nesse cenário. Cenário este agora
destituído de estigmas, implicado na busca da saúde
e minimização de vários agravos provocados pelo uso
prejudicial de drogas (como é o caso das hepatites,
absenteísmo, solidão, falta de moradia, de alimentação,
de dignidade, etc.), respeitando o direito do usuário de
escolher manter o uso com ou sem o desejo de alcançar
a abstinência, ajudando-o a dar conta de cuidar de si o
quanto for possível para que possa ter o aconchego em
um território de vida minimamente vivível (SIQUEIRA,
2010).

Tendo em vista a indissociabilidade entre clínica


e política de que nos falam Passos e Barros (2004),
considera-se que a RD opera uma ampliação da clínica
através de uma postura ética de acolhimento integral
aos usuários de álcool e outras drogas, em que o
cuidado se dá a partir do “protagonismo dos diferentes
atores implicados nas práticas de saúde, de tecnologias
relacionais fortalecedoras dos vínculos, da defesa do
direito dos usuários e da força dos coletivos” (PASSOS,
2010, p. 8-9).

Nos dias atuais, vemos que o uso de drogas está


frequentemente associado ao hedonismo, à evitação da
dor, ao narcisismo e ao individualismo consumista, que

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


237
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

caracterizam a produção hegemônica da subjetividade


contemporânea. Diante disso, a sociedade tende a
considerar que a solução para o usuário de drogas
seria a abstinência total e imediata numa “guerra contra
as drogas” sensacionalista e pouco resolutiva. Em
contrapartida, a RD vem propor uma nova maneira de
abordar/tratar o usuário de drogas, colocando “entre
parênteses” a questão da droga para dar ênfase à
existência da pessoa e o resgate da sua cidadania. Os
critérios de tratamento e as expectativas de melhora
do usuário não são maniqueístas. A flexibilidade e a
capacidade de acolhimento no manejo clínico, juntamente
com o fomento à autonomia, à responsabilização por
parte do usuário em relação aos cuidados da sua saúde
são objetivos fundamentais desta política, sempre
considerando que a busca de maior justiça social é a
base desta e de qualquer política pública a ser implantada
com sucesso no país.

Diante das grandes dificuldades de implantação


de um eficaz programa de atendimento aos usuários
de droga, devido a fatores como o estigma, a falta de
capacitação profissional das equipes de saúde, a baixa
adesão do usuário, a falta de tecnologias eficientes
de busca ativa e construção de vínculos, além da
precariedade dos cuidados na Atenção Primária em
saúde, consideramos estratégica a necessidade de

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


238
Ricardo Wagner Machado da Silveira

capacitação profissional para o trabalho nesse novo


paradigma com a disseminação, em todos os níveis de
atenção à saúde, dos pressupostos e ações preconizadas
pela clínica-política da RD.

Nesse sentido, é interessante notar que, diante


do “falso” embate entre uma clínica da abstinência e
uma clínica da RD, acabamos por testemunhar a prática
de terapeutas que se dizem partidários da abstinência,
agindo como redutores de danos sem se dar conta
disso e vice-versa, o que retifica os ensinamentos da
Análise Institucional, quando afirma que, ali onde a
positividade e o saber de uma instituição se afirmam,
é exatamente onde se engendra a negatividade desta
mesma instituição e o seu não saber.

A Análise Institucional é uma corrente


do Movimento Institucionalista que prima pela
transdisciplinariedade, critica todas as formas de
especialismos e profissionalismos que gerem uma
concentração macro e/ou micro fascista de poder de um
suposto saber sobre outro, como o que historicamente
acontece na relação entre saberes científicos e
populares; luta pela força investigativa e interventiva
da autoanálise e da autogestão dos coletivos e contra
toda forma de exploração, dominação e segregação
(LOURAU, 2004, BAREMBLITT, 2002; L’ABATTE, 2003;
PEREIRA; PENZIM, 2007).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


239
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

As instituições se caracterizam por serem sistema


de normas, que incluem os modos como os indivíduos
concordam, ou não, em aderir a essas normas e, assim,
as relações sociais reais e as normas sociais também
fazem parte do conceito de instituição. A instituição não
atua a partir do exterior para regular a vida de grupos
ou condutas dos indivíduos, mas “atravessa todos os
níveis dos conjuntos humanos e faz parte da estrutura
simbólica do grupo, do indivíduo” (LOURAU, 2004, p.
71).

O CAPSad, como estabelecimento, é atravessado


por várias instituições com suas forças instituintes e
instituídas que têm, como condição de sua existência,
o embate incessante, visível e/ou invisível. Trata-se
de forças instituintes de contestação e transformação
institucional pedindo passagem, tentando se atualizar
em luta com forças instituídas que representam uma
ordem estabelecida, normas e modelo de normalidade
que tentam se perpetuar. E esses dois polos se
materializam no cotidiano do serviço e dinamizam sua
vida organizacional (BAREMBLITT, 2002; LOURAU,
2004, 2004a).

Ao fazer a análise da demanda que nos foi


apresentada pela coordenadora do CAPSad, nosso
primeiro passo foi debatê-la com o coletivo envolvido,
ou melhor, com parte do coletivo envolvido, a equipe

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


240
Ricardo Wagner Machado da Silveira

de trabalhadores do CAPSad. Dizemos parte, porque,


quando cogitamos perguntar também aos usuários
atendidos no serviço o que eles achavam dessa
demanda, surge o primeiro ruído na nossa comunicação
com a equipe, que reage justificando que a demanda
apresentada dizia respeito apenas a ela, equipe, e
não aos usuários. A ausência quase que constante
deste importante protagonista, o usuário, no processo
investigativo-interventivo nos atravessou desde o início
e foi objeto constante de análise da nossa implicação ao
longo do trabalho, mas disso trataremos mais à frente.

Na análise institucional, uma das ferramentas


privilegiadas é a análise da implicação da equipe de
analistas institucionais. A implicação é um processo que
ocorre nessa equipe a partir dos encontros que se dão
com a organização analisada, inspira-se na ideia de
contratransferência da Psicanálise, mas não se restringe
ao que se produz consciente e inconscientemente na
relação analista-analisado. Trata-se de um processo
de materialidade heterogênea, complexa, um processo
econômico, político, psíquico, não reativo, mas
recíproco, simultâneo, parte indissolúvel do processo de
análise variável dos encontros e embates, que ocorrem
quando operam os analisadores (LOURAU, 2004a;
BAREMBLITT, 2002).

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EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

A análise da implicação passa pela análise da


demanda e da oferta numa tentativa de desconstrução
das ilusões da neutralidade analítica. De qualquer
modo, é sempre o analisador quem dirige a análise. E o
importante para o analista é tudo aquilo que lhe é dado
por sua posição nas relações institucionais e, nessas
posições, ele tem a possibilidade de tomar consciência
dos efeitos dos analisadores que desencadeiam a
intervenção. “Não tem apenas de reconhecer e legitimar,
ou mesmo exaltar, a existência dos analisadores; deve
compreender que somente os analisadores o constituem
como analista” (LOURAU, 2004, p. 80).

Afinal, o que são os analisadores? O analista


deve atentar-se e procurar identificar os analisadores,
fenômenos produzidos espontaneamente pela própria
dinâmica institucional ou construídos pelos analistas
institucionais, com finalidade investigativo-interventiva,
por serem eles constituídos de uma materialidade
expressiva heterogênea, que manifestam e denunciam
aspectos institucionais conflitantes, reprimidos,
inconscientes, ao mesmo tempo em que contêm os
elementos para dar início ao processo de seu próprio
esclarecimento (LOURAU, 2004).

Como já foi dito, consideramos o processo


de capacitação para o trabalho com novas políticas
públicas, como é o caso da RD, uma das estratégias

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


242
Ricardo Wagner Machado da Silveira

privilegiadas de mudança na produção de saberes


e práticas coletivas no CAPSad. Somado a isso,
acreditamos na autoanálise e na autogestão como forma
de exercício do protagonismo grupal, como apregoa
a Análise Institucional e foi a partir destes princípios
teórico-políticos e clínicos e das demandas que nos
foram apresentadas, que elaboramos uma proposta de
pesquisa-intervenção, que se realizou desde 2009 até o
mês de maio de 2013, no CAPSad.

Orientados pela ideia fundamental de Lourau de


que quem faz a análise é o analisador e não o analista,
propôs-se à equipe dois analisadores construídos,
que chamamos de roda de autoanálise e observação
cartográfica. Para trabalhar as relações de equipe, foi
pactuado que utilizaríamos a “roda de autoanálise”
como espaço privilegiado para trabalhar as relações
de trabalho e interpessoais da equipe no dia a dia
do serviço. O outro analisador pactuado foram as
observações cartográficas do cotidiano do CAPSad,
a serem feitas pela equipe de analistas institucionais,
analisador que se mostrou de grande importância
para o processo de cartografia das relações de poder
em jogo e que nem sempre ficavam claras nas rodas
de autoanálise, contexto em que a equipe ficava
mais exposta para si mesma e, consequentemente,
processos de resistência ao trabalho em grupo para

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


243
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

lidar com seus sofrimentos, conflitos e potencialidades.


As rodas de autoanálise ocorriam quinzenalmente, as
observações cartográficas eram feitas semanalmente
por dois analistas institucionais, alunos do curso de
graduação em Psicologia e participantes deste projeto,
que se configurou como projeto de pesquisa de iniciação
científica sob a nossa coordenação e com uma bolsa
fornecida pelo CNPq.

Vale esclarecer que a pesquisa cartográfica ou


pesquisa-intervenção é uma forma de fazer pesquisa
que parte de um modo de ação não prescritivo, sem
regras iniciais formuladas previamente, nem objetivos
previamente estabelecidos, sem que com isso tenhamos
aqui uma ação sem direção. Assim, é necessário ao
“cartógrafo um mergulho no plano da experiência, lá onde
conhecer e fazer se tornam inseparáveis, impedindo
qualquer pretensão à neutralidade ou à suposição de um
sujeito e de um objeto cognoscentes prévios à relação
que os liga” (PASSOS, KASTRUP; ESCÓSSIA, 2009, p.
30).

A riqueza dos dados produzidos e da implicação


da equipe de analistas institucionais é exaustivamente
debatida nas rodas de autoanálise, que ocorrem a cada
semana e a que chamávamos de roda de autoanálise da
equipe de analistas institucionais. A intenção era ampliar
ao máximo a comunicação, o contágio e as ressonâncias

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


244
Ricardo Wagner Machado da Silveira

entre os analisadores: roda de autoanálise, observações


cartográficas e rodas de autoanálise da equipe de
analistas institucionais, com o intuito de fazer operar a
transversalidade.

A transversalidade diz respeito a uma


desterritorialização dos saberes instituídos,
problematização do setting clínico, como no caso de uma
interpretação que desmantela uma dada sintomatologia
do grupo e que possa advir de qualquer pessoa, não
necessariamente daquelas que institucionalmente detêm
uma parcela do poder de interpretar, como os “psis”,
os enfermeiros, os assistentes sociais ou os médicos.
A força instituinte está no fato de que qualquer um dos
atores envolvidos pode se apropriar/criar/potencializar
um saber. Qualquer um que não se encaixe, que escape
aos profissionalismos, aos especialismos, e que costume
ser visto como portador de um não saber ou um saber
destituído de verdade, tem a possibilidade de colocar
em palavras, de dar novos significados ao que acontece,
ao que é problematizado no dia a dia. A transversalidade
faz uma diagonal que desvirtua uma pura verticalidade e
uma simples horizontalidade, constituindo novos modos
de ver e falar sobre o que se passa (GUATTARI, 2004).

A ideia é de que a roda possa servir para a equipe


“parar para pensar” em seus modos de fazer clínica,
“parar para pensar” como fundamento do manejo clínico

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


245
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

dos usuários de álcool e outras drogas que se estende


aos cuidadores dessas pessoas (LANCETTI, 2006).

Por outro lado, a roda é uma das estratégias


de Educação Permanente em Saúde, defendida pelo
Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da
Educação e Cultura, para capacitação dos profissionais
de saúde em serviço. A proposta pedagógica da
Educação Permanente em Saúde, defendida pelo
Ministério da Saúde, é considerada uma metodologia
mais eficaz para a capacitação dos profissionais de
saúde em serviço já que busca a articulação entre as
necessidades de aprendizagem e as necessidades do
trabalho, em que o aprender e o ensinar se incorporam
ao cotidiano das pessoas e das organizações de saúde.
Nesse sentido, a educação permanente em saúde pode
funcionar como uma estratégia de gestão do serviço e
da equipe, das demandas e dos modos como a equipe
lida com elas (BRASIL, 2005).

Os profissionais da saúde mental sofrem


cronicamente de uma formação profissional, balizada por
dicotomias historicamente construídas e ideologicamente
alimentadas em uma sociedade que investe o poder
no saber científico e tecnicista, resultando na definição
de objetos de estudo formatados por binômios como
saúde-doença, indivíduo-sociedade, saúde individual-

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Ricardo Wagner Machado da Silveira

saúde coletiva, desconsiderando sua coexistência e


suas múltiplas determinações históricas e políticas.

Quando se segue esta lógica das binarizações,


perdemos de vista a riqueza dos atravessamentos e
ressonâncias possíveis entre as singularidades dos
casos atendidos na clínica e os recortes das análises
coletivas sobre tais casos e sobre o cotidiano de práticas
e relações dentro dos estabelecimentos, num jogo
de forças entre o público e o privado, o individual e o
coletivo, que se imbricam e se constituem mutuamente
e, indissociavelmente, o que possibilitaria a criação de
saberes e práticas em saúde a partir de uma lógica das
transversalidades e não mais das dicotomias (BRASIL,
2004a).

Desconstruir esta dicotomia reducionista é um dos


grandes desafios que se apresenta. Nesse sentido, todas
as iniciativas de educação permanente em saúde podem
“se inscrever como uma “micropotência” inovadora do
pensar a formação, agenciamento de possibilidades de
mudança no trabalho e na educação dos profissionais de
saúde e invenção de modos no cotidiano vivo da produção
dos atos de saúde” (CECCIN; FEUERWERKER, 2004,
p. 45). O objetivo é poder vislumbrar o funcionamento
do quadrilátero que integra ensino-atenção-gestão-
controle social e, nesta convocação pedagógica, nessa
trama de conexões, possa se traçar um caminho que

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247
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

produza tecnologias leves, termo cunhado por Merhy


(1994) para o que designamos como escuta, interação e
olhar acolhedores, que propiciam os bons encontros, os
atos de saúde inovadores e mais resolutivos (CECCIN;
FEUERWERKER, 2004).

Concomitante à tarefa destrutiva destas lógicas


binárias, nossa tarefa construtiva é forjar uma pedagogia
em ato, que acontece em cenários de práticas
profissionais, concebidos como campo de investigação e
aprendizagem recíproca, dando-se através de processos
interativos entre trabalhadores, docentes, discentes e
usuários do SUS com vista a ações que transformem a
realidade locorregional.

Além disso, a autoanálise e a autogestão como


operadores de uma Análise Institucional têm grande
coerência com os princípios de corresponsabilização
pelos processos de saúde-doença-cuidado defendidos
pelo SUS, em que todos os atores sociais envolvidos são
protagonistas de práticas inovadoras que concretizem
a política de promoção, prevenção, reabilitação e
reinserção social dos usuários da rede de atenção em
saúde mental.

Depois desta breve apresentação de políticas,


teorias e metodologias, que constituíram as bases
desta experiência, podemos voltar ao nosso caso com

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


248
Ricardo Wagner Machado da Silveira

melhores condições de contar esta história investigativa


e interventiva realizada.

No primeiro ano de trabalho, o CAPSad estava


credenciado no nível II pelo Ministério da Saúde. Tratava-
se de uma equipe formada por aproximadamente 20
profissionais, entre eles psicólogos, assistente social,
psiquiatras, uma pedagoga, profissionais de serviços
gerais e vigilantes que, até então, adotavam, como
estratégias de atendimento, as oficinas terapêuticas,
a psicoterapia individual e alguns poucos grupos
terapêuticos, além de um grupo de familiares e alguns
grupos informativos. Esta equipe se dividia em dois
turnos e tinha importantes problemas de comunicação,
principalmente na passagem dos turnos, ao ponto de, às
vezes, parecer se tratar de duas equipes distintas.

A equipe iniciava a reflexão e consequente


construção do papel de terapeuta de referência que,
muitas vezes, era confundido com o psicoterapeuta
individual do paciente, com riscos de se tornar o
responsável quase que exclusivo pelo caso, em vez de
ser um membro da equipe com vínculo significativo com
o paciente e que deveria catalisar e repassar para a
equipe informações relevantes e atualizadas em relação
ao seguimento do caso, além de se responsabilizar
junto à equipe pela construção e adequação do projeto
terapêutico do paciente, todas as vezes que fosse

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


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EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

necessário. Ou seja, não se trata de um membro da equipe


responsável pelo paciente e seu projeto terapêutico, a
responsabilidade deve ser sempre compartilhada por
todos, principalmente pelo maior interessado, o próprio
paciente, obviamente, e sua família, quando possível
(BRASIL, 2004).

Nossa primeira roda foi exemplar. Emergiu como


protagonista a única pedagoga da equipe, que reclama
ter sido maltratada por um dos psicólogos que trabalhou
ali e que a menosprezou por um comentário feito por
ela em relação a um determinado paciente ou a uma
determinada intervenção feita pela equipe. Naquela
cena, ela sentiu na pele a violência do microfascismo
de um especialista “psi” que despreza qualquer tipo de
comentário “inconveniente” a respeito da terapêutica ou
do paciente feito por uma “atrevida” não especialista.
Esta cena levou a um trabalho psicodramático, focado
no embate entre relações de poder despóticas entre
especialismos e profissionalismos no campo do trabalho
e, por outro lado, a luta por solidariedade e respeito no
ambiente de trabalho, de amizade e alegria como forças
revolucionárias vividas no cotidiano do serviço.

Um dos temas mais recorrentes nas rodas era: o


que fazer com o portão? Como manejar a pressão que o
usuário faz para sair do serviço por conta da sua fissura?
E o seu desejo de voltar para o aconchego de uma casa

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


250
Ricardo Wagner Machado da Silveira

que lhe dê um teto para descansar, uma comida para


matar a fome, pessoas para conviver e até mesmo,
dependendo das demandas de cada um, um tratamento
para suas dores e vícios?

Ao recebê-los de volta, “estaria prestes a exercer


a iatrogenia?”, perguntava-se a equipe, movida por uma
suposta e/ou real benevolência e compromisso com a
oferta de um tratamento de qualidade... Estaria a equipe
sendo manipulada pelos pacientes e sua capacidade
de “mangar”? (mangar é um termo usado pelos
pacientes para referir às suas habilidades de conseguir
o que querem com esperteza, pedindo, seduzindo,
mendigando, enganando o outro). Se assim fosse,
víamos, por vezes, a equipe ter reações (disfarçadas ou
não) de raiva dos pacientes e de si mesma por ter sido
tão “ingênua”.

Como facilitadores, sentíamos na pele o quanto


a equipe nos clamava com olhares sutis ou pedidos
escancarados, para que lhe déssemos a resposta à
pergunta: “o que fazer com o portão? Como manejar
as saídas e entradas?” De nossa parte, fomos tentando
aprender a arte dos malabarismos e esquivas, como
numa dança. Como numa luta de capoeiras, tentávamos
fugir por todos os cantos que conseguíamos mirar ou
que surgiam diante de nossos olhos nos momentos mais
providenciais, e assim tentávamos não ceder a este

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


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EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

atraente suposto lugar do poder do saber, lugar vaidoso


da resposta miraculosa para o que quer que fosse.

Diante disso, não somente devolvíamos a


pergunta, tal como aprendemos nos bancos acadêmicos
da psicologia, as nossas preciosas “palavras de ordem”,
digo, nossos manejos/intervenções/pontuações; mas
tentávamos, na medida do possível, sustentar junto
ao grupo o angustiante e germinativo clima de não
saber, de silêncio, torcendo, desejando que alguma
coisa, um rastro, um resto, uma insignificância, um
grito, um agenciamento coletivo, um fluxo transversal
conseguisse arrastar o grupo paralisado diante do
silêncio de respostas, um devir que pudesse dar o ar
de sua graça e levar o grupo para outro lugar. Algumas
vezes a equipe suportava a angústia, mesmo sem
autoanálise e autogestão de novas práticas; quando
isso ocorria, alguns frustrados pareciam projetar em nós,
facilitadores, a raiva e a responsabilidade por salvá-los
do não saber, do não saber o que fazer ou simplesmente
do ter-lhes provocado a desacomodação e a ilusão da
promessa de uma nova clínica que pudesse substituir
aquela tão familiar a todos, que apregoava, desde
sempre, a abstinência e suas práticas burocráticas.
O que sabíamos apenas é que não se tratava de um
novo modelo de clínica, a da redução de danos, pois, se
assim o fosse, seríamos totalmente contraditórios aos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


252
Ricardo Wagner Machado da Silveira

nossos princípios. Trata-se de uma clínica ampliada por


seu caráter de experimentação, uma clínica por se fazer,
uma clínica porvir.

Apesar de inaugurarmos a roda de autoanálise


com uma tecnologia psicodramática, com uma postura
ativa de facilitador como diretor de cena, a maioria das
rodas iniciava com uma ajuda à memória, feita com o
esforço do coletivo em resgatar o que havia acontecido
de significativo na roda anterior e, a partir daí, ter como
tarefa precípua a definição de uma pauta para a roda
que se iniciava. Ao resgatar o que aconteceu na roda
anterior e constatar que, por exemplo, a questão do
portão voltava como pauta, muitos avaliavam de forma
tímida, no início, e, depois que se sentiam mais à
vontade com os facilitadores, de modo mais assertivo,
que o tema se repetia e nada mudava. Em contrapartida,
outros retrucavam dizendo ser este um processo em
andamento com mudanças lentas e às vezes sutis e
alguns corroboravam com este argumento falando de
suas experiências, quase imperceptíveis no começo,
como gestos e atitudes mais flexíveis e acolhedoras
em relação aos usuários que voltavam para dentro do
serviço logo depois do uso de drogas e que reagiam
agradecendo a acolhida e, às vezes, tendo participações
interessantes nas atividades da rotina.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


253
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

Para nós, a questão do portão funcionava, muitas


vezes, como um ritornelo1 em que, gradativamente,
percebíamos a atualização de diferenças nas
repetições, a mudança, às vezes sutis, de posturas dos
profissionais que passavam a desenvolver tecnologias
leves de cuidado como efetivos redutores de danos. Em
contrapartida, víamos também o recrudescimento de
posturas de tutela de outros que faziam um grande esforço
para tolerar os pacientes “fora de si”, mas que, no seu
íntimo, pareciam acreditar serem pacientes inacessíveis
a qualquer intervenção terapêutica naquelas condições.

Por vezes, na tentativa de escapar das angústias


provocadas pela responsabilização coletiva de
condução das rodas a partir da definição das pautas
de forma autogestiva, ou porque determinados casos
demandavam o “socorro” da roda como instância
de supervisão clínica, ou porque um terapeuta de
referência precisava socializar informações sobre o

1Para Deleuze (1997) o ritornelo é o ponto comum, está ligado ao problema


do território, da saída ou da entrada no território, ao problema da desterrito-
rialização. Volta-se para o território conhecido ou desterritorializa-se, esta
é a questão. Zourabichvili (2004) dirá que o ritornelo merece duas vezes o
seu nome: em primeiro lugar como traçado que retorna sobre si, em algo
que é retomado e que se repete sempre que o caos se mostrar afugenta-
dor; e em segundo lugar, como circularidade, uma fuga que sempre faz
retornar, que sempre retoma o punhadinho de terra necessário, mas aquilo
que retorna sempre se mostra como estrangeiro, pois mesmo que se volte
para a casa, não se será mais o mesmo – a estrangeiridade se dá por esta
impossibilidade de um reconhecimento pleno na retomada, afinal de con-
tas, ela nunca será a mesma.

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254
Ricardo Wagner Machado da Silveira

caso que deveriam estar à disposição de todos há mais


tempo, ou porque a equipe tinha realizado importantes
intervenções ou tido acesso a dados relevantes sobre
o caso e que o terapeuta de referência desconhecia, a
roda acontecia como discussão de casos clínicos e o
trabalho da equipe se evidenciava de forma contundente,
revelando de forma nua e crua as potencialidades e/
ou as dificuldades do coletivo. Era comum a roda
constatar as consequências das limitações da sua
rede comunicacional e da qualidade de alguns vínculos
estabelecidos no cotidiano. Trocar estas experiências
era uma forma privilegiada da equipe se dar conta das
limitações e avanços dos casos atendidos e do seu
próprio trabalho como equipe.

Essas discussões revelavam a potência


terapêutica de vários dos atores que compõem a equipe,
independentemente de sua formação profissional,
rompendo com discursos instituídos, nos quais
predominam os saberes dos ditos especialistas, com
maior horizontalidade no uso da palavra.

Foi isso que ocorreu quando uma vigilante


surpreendeu a equipe ao compartilhar informações
sobre um paciente e que mudou os rumos da discussão
do caso sobre a equivocada ideia de crise e necessidade
de internação desse paciente; ou quando essa mesma
vigilante, com grande apreensão por medo de ser

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


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EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

repreendida pelos expertos, teve a coragem de dizer


que estava preocupada com o risco de crise de outro
paciente que, até então, ninguém se apercebera. Ele
desabafou com ela suas dores e em seguida disse que
havia feito uso de drogas no serviço e mostrou a droga
que portava. Ela, que poderia ter reagido de forma
moralista e normativa, ficou tranquila e ajudou-o a pensar
sobre as possíveis razões de ele ter feito uso dentro do
serviço, se poderia tê-lo feito, sem grandes problemas,
fora dali. Em seguida, de forma firme e coerente, pediu
ao paciente que trocasse de papel com ela e a ajudasse
a pensar sobre o lugar delicado que ela ocupava naquele
momento, estando diante de alguém que confiou nela e,
ao mesmo tempo, colocando-a numa situação delicada
de conluio com algo que ela não concordava e que
poderia prejudicá-la em seu trabalho, ou seja, ela não
se omitiu, envolveu-se e o levou a se implicar também
com a complexidade da situação e com os vários papéis,
pontos de vista e efeitos da situação problemática em
jogo. O resultado dessa habilidosa intervenção foi que
o paciente deu um jeito de se desfazer da droga ou,
pelo menos, de não a portar durante o tempo em que
esteve no CAPSad naquele dia (SILVEIRA; REZENDE;
MOURA, 2010).

Tendo como meta o acolhimento da crise e a


implantação de uma clara política e prática de redução

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Ricardo Wagner Machado da Silveira

de danos no e a partir do CAPSad, a coordenação do


serviço e alguns dos profissionais da equipe apostam
cada vez mais no analisador roda de autoanálise e
autogestão da equipe, nas discussões e leituras que
avançam, em profissionais de notório saber, muitos deles
consultores do Ministério da Saúde, que fazem palestras
e workshops para os profissionais da rede municipal de
saúde e do CAPSad. Alguns profissionais da equipe
se mostram descontentes com a nova perspectiva de
manejo clínico adotado pelo serviço, alguns explicitam
que não concordam e/ou não querem, e/ou não
conseguem trabalhar nessa nova proposta clínica.
Chegam a resistir à mudança, criticando profissionais e a
gestão do serviço sem a compreensão de que se tratava
de uma política ministerial alinhada com os princípios da
reforma sanitária e psiquiátrica brasileira.

Outro analisador, agora espontâneo, vem para


precipitar ainda mais este processo de transformação do
serviço, a partir de denúncias recebidas pelo Ministério
Público referente a maus tratos e cárcere privado
acontecendo em algumas “fazendinhas” da região.
Diligências são feitas, muitos desses estabelecimentos
fechados sumariamente e vários pacientes são
devidamente inseridos na rede de atenção integral
aos usuários de álcool e outras drogas. A maioria
é encaminhada para o CAPSad para avaliação e

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


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EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

construção de projetos terapêuticos, alguns vão


diretamente para o serviço de psiquiatria do hospital
universitário e uns poucos para a atenção primária em
saúde. O fato é que o CAPSad repentinamente recebe
pacientes muito debilitados, com sequelas de maus
tratos e internações longas. Uma parte deles não adere
ao tratamento proposto, demandando busca ativa e
novas tentativas de inserção na rede e muitos passam
a ter uma rotina intensiva no serviço, a crise chega de
modo contundente.

O absenteísmo de profissionais já insatisfeitos


é inevitável, remanejamentos de pessoal ocorrem, a
equipe precisa crescer em vários sentidos, as rodas
se tornam um suporte fundamental de cuidado aos
cuidadores, a gestão entra com projeto de transformação
do CAPSad para nível III com proposta de sete leitos
de hospitalidade e a perspectiva da equipe, no mínimo,
duplicar seu tamanho. De qualquer forma, entram novos
profissionais e o “sangue novo” turbina o CAPSad
(LANCETTI, 2006).

Nessa época, estávamos iniciando o segundo


ano de nosso projeto de pesquisa-intervenção e fomos
todos contagiados por forças instituintes que tomam a
cena dentro e fora do CAPSad, nas suas bordas. Digo
nas bordas, porque, desde o início, sabíamos que um
CAPS turbinado, como diz Lancetti (2006), é um serviço

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


258
Ricardo Wagner Machado da Silveira

que se abre para o trabalho em rede e que passa a atuar


no território, construindo laços de cuidado significativos
e resolutivos ali onde as coisas acontecem, nessa
clínica do “corre”, onde tudo é rápido, certeiro, onde
se paga caro pelo erro, onde a lei do talião vigora sem
mediações e onde devemos desenvolver tecnologias
leves de abertura de campo como são as intervenções
breves (COMTE, 2012), as estratégias para fazer parte
da paisagem, ser aceito e conhecido pela comunidade,
os acompanhamentos terapêuticos de casos graves
indicados pelas equipes das UBSFs ou por pessoas
da comunidade, o que vai nos exigir coragem, astúcia,
trabalho em equipe, respeito ao usuário em crise e às
leis do território que o acolhe.

Este trabalho feito nas bordas do CAPSad,


que teve início um pouco depois das diligências nas
“fazendinhas”, tornou-se e é até hoje uma referência
fundamental nessa empreitada político-clínica. Trata-se
da criação de duas Escolas de Redução de Danos e um
Consultório de Rua, iniciativa de profissionais da rede
de saúde mental e docentes de uma universidade que
concorreram a editais abertos pelo Ministério da Saúde
e, desde 2010, vêm tendo seus projetos refinanciados
e ampliados, o que tem possibilitado a divulgação
cada vez mais ampla e o fortalecimento do trabalho
dos agentes redutores de danos na rede municipal de

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


259
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

atenção integral a pessoas que fazem uso prejudicial de


drogas.

Quanto ao dentro do CAPSad, objeto privilegiado


deste trabalho, finalmente a crise passa a ser
efetivamente acolhida, com a mudança para CAPSad
III a equipe cresce, se fortalece, novos profissionais
engajados, motivados e crentes no trabalho no SUS
e na política e prática de redução de danos como
forma de acolhimento e tratamento, muitos deles
recém-formados, mas com experiências interessantes
como acompanhantes terapêuticos, como oficineiros
e militantes políticos enchem o serviço de vida e
qualidade no atendimento oferecido. A clientela muda
e começam a chegar os moradores de rua, os noias,
aos poucos, sentem que o espaço é deles também e
uma das reações que vai ficando clara são os atritos
mais frequentes entre usuários de drogas lícitas e de
drogas ilícitas. O preconceito entre estes dois grupos se
acirra, as desavenças e diferenças que acontecem nas
ruas atravessam a rotina, a polícia e os bombeiros são
mais acionados e as dificuldades de falar uma mesma
língua se acirram entre estes profissionais e a equipe do
CAPSad, mas quando as agressões chegam ao limite
de tolerância e o vínculo não mais é capaz de contornar
a situação crítica, eles acabam sendo acionados.

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260
Ricardo Wagner Machado da Silveira

As assembleias se tornam uma das práticas


mais importantes na rotina. O grupo problematiza
cada vez mais as intercorrências com cuidado para
não ser capturado por discursos e práticas moralistas,
a cidadania e o sujeito entram na roda de autoanálise
de forma contundente nas discussões dos casos e dos
projetos terapêuticos, os protocolos para o manejo das
dificuldades relacionadas ao portão ou a qualquer tipo
de intercorrência deixam de ter tanta ênfase e ficam
menos investidos de paranoia. Apesar da resistência
de alguns, as interrupções na rotina passam a ser mais
suportáveis, a circulação se intensifica, é incessante,
a crise acelera processos, as brigas paralisam menos
a equipe e os outros pacientes, que passam a atuar
no corpo a corpo quando necessário. A sensação é
de estar vendo acontecer diante de nossos olhos tudo
aquilo que Lobosque (2003) descreve sobre o CERSAM
como uma casa muito cheia, tumultuada, tensa, mas “de
forma alguma caótica e inadministrável: inventando sua
própria ordem, só enfrenta a repetição, a voracidade,
a agitação, quando consegue promover a criação e o
riso, as trocas e os trânsitos” (LOBOSQUE, 2003, p.
27), sempre zelando pela liberdade e pela busca da
solidariedade.

Nem tudo são flores, porém, é claro que a violência


social mostra mais a sua cara no coletivo e no cotidiano.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


261
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

As observações cartográficas descrevem brigas entre


pacientes, que geralmente culminam no julgamento
sumário daqueles que estão sob o efeito de substâncias
ou fazendo uso compulsivo fora e até dentro do serviço,
a tendência é a punição a ferro e a fogo. Outras vezes,
profissionais da equipe, que presenciam situações como
as citadas acima e, para não se implicarem, fazem “vista
grossa” para o que está acontecendo com medo de
retaliações, por comodismo, por atitudes destrutivas e
cínicas em relação ao modo como o serviço funciona.
Outras vezes, pacientes reagiam com revolta às
intervenções dos terapeutas para coibir o uso de drogas
no serviço e ameaçavam agredir o terapeuta; os outros
pacientes tomavam as dores do terapeuta e investiam
com grande agressividade contra aquele que o ameaçava
e o manejo ficava muito difícil nessas circunstâncias.

Como observadores cartográficos, várias foram as


vezes que estes analistas institucionais e colaboradores
do projeto se implicavam em cenas como as relatadas
acima e interviam com a potência de um analisador,
que é contagiado por forças instituídas paralisantes e,
ao mesmo tempo, deseja produzir linhas de fuga para
processos repetitivos, segregadores e desumanos que
ali eram testemunhados.

Vez por outra, a coordenadora do serviço


recebia informações de denúncias feitas (inclusive

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


262
Ricardo Wagner Machado da Silveira

por funcionários do serviço) aos seus superiores na


Secretaria Municipal de Saúde e no Ministério Público,
que acusam o CAPSad de ser uma bagunça, um
serviço que não trata, mas piora os pacientes, que o
uso de drogas é uma constante no serviço. Essa é uma
delicada situação, que também faz parte da rotina, mas
sempre contou com o apoio fundamental dos gestores
da saúde mental, do secretário da saúde e do promotor
da saúde por confiarem e pactuarem com a seriedade e
o compromisso para com a implantação de uma política
de redução de danos que, é claro, sofreria grandes
resistências, vindas de vários segmentos sociais.

Algumas vezes os observadores cartográficos,


por sua posição estratégica, tinham a possibilidade de
perceber condutas da equipe ou de parte dela que se
contradiziam com o que a equipe insistia em mostrar
nas rodas de autoanálise. A constatação dessas
contradições foi importante, por vezes, para garantir a
potência disruptiva e instituinte da roda como analisador.
Os não ditos nas rodas, por vezes, não escapavam
às observações cartográficas da rotina e, a partir dali,
nós, como equipe de analistas institucionais, tínhamos
a delicada e difícil tarefa de facilitadores para ajudar
a roda a realizar um trabalho o mais autoanalítico e
autogestivo possível, capaz de levar a se dizer o não
dito, de se elaborar o que quer que fosse e crescer como

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


263
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

equipe. Sempre soubemos dos riscos aí presentes, da


possibilidade da equipe, ou parte dela, estabelecer
uma relação paranoica conosco como facilitadores e
observadores cartográficos. Não acreditamos ter sempre
alcançado êxito nesta difícil situação, mas entendemos
que, boa parte do tempo, nosso vínculo com a maior
parte da equipe foi de confiança e parceria.

Uma das situações tensas vividas nas rodas e


nas observações cartográficas dizia respeito ao grau de
envolvimento da equipe com cada paciente, da rotina
e a delegação do cuidado e responsabilidade maior
ao terapeuta de referência. Muitas foram as vezes em
que os terapeutas de referência de pacientes em crise
ou de mais difícil manejo cobravam de alguns colegas
maior implicação no caso e tentavam esclarecer que o
paciente, dos quais são referências, não estão sob a sua
responsabilidade total, mas são da responsabilidade de
todos. Além disso, como o discurso que preponderava
no dia a dia do serviço (e isso também se confirmava nas
rodas e nas observações cartográficas) era o discurso
“psi”, como somente os psicólogos assumiam o papel
de terapeuta de referência, foi uma grande conquista
autoanalítica e autogestiva da roda, acompanhada de
grandes embates na roda e na rotina, o fato mudar
essa situação e demandar dos assistentes sociais e
dos enfermeiros que assumissem também o papel

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


264
Ricardo Wagner Machado da Silveira

de terapeutas de referência, tanto que, no início, eles


somente aceitaram essa tarefa se fosse dividida com os
psicólogos. Quanto aos médicos e outros profissionais
de nível médio, esta proposta não avançou, ou melhor,
nem mesmo foi cogitada pela roda por razões que
consideramos óbvias.

Como já dissemos, apesar de todos os embates


motivados por relações de poder, atravessadas pelos
especialismos e profissionalismos, que afetavam a
potência do trabalho em equipe e pelo moralismo diante
das tecnologias leves de cuidado, defendidas pela
redução de danos, a equipe renovada e ampliada se
mostrava muito motivada e engajada nessa empreitada
clínico-política. Alguns profissionais se destacavam pela
habilidade em fazer rapport, em intervir na hora e do jeito
mais eficaz e pertinente, em conduzir grupos e oficinas,
em ter a arte como potente intercessor da terapêutica,
de tal modo que a equipe passou gradativamente a ter
uma sinergia e força grupal invejável.

Mas também, com o tempo, foi ficando claro,


para alguns destes potentes terapeutas, os seus
próprios limites, a ultrapassagem deles e os efeitos
danosos para eles mesmos, para a equipe e para os
pacientes atendidos. Não podemos deixar de considerar
que algumas dessas saídas nada tinham a ver com
estes fatores, mas com escolhas profissionais, por

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


265
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

vários motivos, como ascensão na carreira, melhores


condições de trabalho, etc. De qualquer forma, começam
a acontecer saídas, remanejamentos, desistências e
a equipe de remanescentes, que ainda era a maioria,
sentiu muito algumas dessas perdas. Em contrapartida,
novos profissionais entram na equipe, que se renova.

Algo que nos chama a atenção é o fato de que a


equipe passa a privilegiar a ideia de que a rotatividade
de profissionais está relacionada às dificuldades
cotidianas de se trabalhar num CAPSad, acolher a crise
de pacientes graves, em que a adesão ao tratamento
proposto é muitas vezes efêmera, claudicante, o mesmo
ocorrendo com os efeitos terapêuticos alcançados,
muitas vezes sutis, com recaídas frustrantes, além do
difícil enfrentamento da violência urbana, que marca
a vida de pessoas pobres, envolvidas com o uso e
o tráfico de drogas, constantemente privadas dos
direitos humanos fundamentais e ameaçadas de morte.
Consideramos que o privilégio dado a esta causa para a
saída de alguns reflete, de certo modo, não somente a
dor da perda dos que ficam, mas também a dificuldade
e sofrimento vivido no cotidiano do trabalho pelos que
ficam.

Vale ressaltar ainda que alguns dos bons


profissionais que saíram do CAPSad o fizeram com
muito pesar e deixaram muita saudade. Lembramo-nos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


266
Ricardo Wagner Machado da Silveira

de, particularmente, um deles, que, na roda, disse que


saía com muito pesar, mas precisava respeitar-se, não
se agredir, cuidar-se, ou seja, ele dizia à roda que se
implicar é fundamental e apaixonante nesse trabalho,
que esse trabalho vale muito a pena exatamente por ser
tão difícil e tão repleto de aprendizagens significativas e,
o que entendemos, é que é preciso prudência para não
correr o risco da sobreimplicação2.

A nosso ver, apesar de tudo se mostrar nebuloso,


tamanha a sua complexidade, a saída de membros
importantes e a rotatividade na equipe, somada aos
históricos e crônicos problemas de desvalorização dos
profissionais da saúde, particularmente aqueles que
trabalham com a saúde mental, a falta de investimentos
na educação permanente em saúde e nos processos de
humanização do/no trabalho de cuidar de casos graves
com vistas à tão desejada reinserção psicossocial,
etc., parece ter sido um dos grandes motivos para
a desmotivação que foi se alastrando no cotidiano
do serviço. As atividades grupais e até mesmo as
assembleias deixaram de ter tanta vivacidade, a equipe
se queixa cada vez mais de cansaço, a rotina por vezes
se burocratiza, o fantasma da abstinência como modelo

2A sobreimplicação é a ideologia normativa do sobretrabalho, gestora da


necessidade do “implicar-se”... não só produz sobretrabalho, estresse
rentável, doença, morte e mais-valia, como também cash-flow – benefício
absolutamente nítido consagrado ao reinvestimento... (LOURAU, 2004b,
p. 190, 195).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


267
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

volta a rondar com mais força, o absenteísmo aumenta


apesar das injeções de ânimo trazidas por novas
contratações e pela proximidade cada vez maior dos
agentes redutores de danos, que passam a participar
efetivamente da rotina de práticas do serviço.

Em uma dada roda, alguém disse que o narcisismo


da equipe foi atacado, o que explicaria a desvitalização
reinante, e isso nos remeteu imediatamente a Guattari
(2004), quando ele fala do grupo-sujeito e do grupo-
sujeitado. O grupo-sujeito, como sujeito de sua história,
se esforça por elucidar seu objeto, é ouvido e ouvinte
em busca de mais altos graus de transversalidade e
escape de lógicas totalitárias e rígidas hierarquias, o que
possibilita uma dinâmica que lhe permite abrir-se para
além dos interesses do grupo, se afirma como grupo que
experimenta e acolhe o nonsense, sujeito de sua própria
morte e fragmentação, numa espécie de autodestruição
criativa. Enquanto o grupo-sujeito enuncia algo, o grupo-
sujeitado deseja que sua causa seja ouvida, tenta se
ajustar a outros grupos, tenta conjurar toda possível
inscrição de não sentido, de morte e estilhaçamento,
impedir o desenvolvimento de destruições criativas,
assegurar mecanismos de autoconservação fundados na
exclusão de outros grupos (DELEUZE apud GUATTARI,
2004, p. 12-13).

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


268
Ricardo Wagner Machado da Silveira

Como nos adverte Deleuze neste mesmo texto,


não se trata de uma tipologia dos grupos, mas de duas
vertentes institucionais: pilotado por forças instituintes, o
grupo-sujeito sempre corre o risco de se deixar sujeitar
por fluxos paranoicos e narcísicos, por forças instituídas
mortíferas. Talvez tenha sido algo dessa ordem que
capturou a equipe turbinada do CAPSad e a nossa
equipe de analistas institucionais, ao perdermos a
vitalidade para cuidar e se autocuidar.

As rodas se esvaziaram gradativamente durante


os últimos seis meses de realização deste projeto.
As observações cartográficas ainda conseguiam
testemunhar momentos de potência terapêutica na rotina,
que envolvia alguns dos profissionais mais implicados e
principalmente pacientes que se esforçavam por manter
a agitação, a alegria e o caos na rotina, como se fossem
despertadores desesperados por acordar a todos ali.

E nossa equipe de analistas institucionais tentava


lidar com a angústia que este esvaziamento provocava e
passamos a uma recorrente pergunta: será que estamos
velando o morto? Não conseguimos enterrá-lo? As
respostas oscilavam, a vida e a morte se revezavam no
dia a dia, desejávamos que a roda tomasse a palavra
e tratasse do tema do esvaziamento de forma mais
autoanalítica e autogestiva possível. Como facilitadores,
por vezes, propusemos na pauta a discussão de casos

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


269
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

clínicos e a roda parecia respirar novamente. A sensação


que tínhamos era de que os casos eram como boias que
nos mantinham na superfície e evitavam o mergulho na
profundidade do vazio, mas sentíamos que se tratava
de um subterfúgio, que não era esse um caminho em
direção ao que realmente importava naquele momento.
E foi novamente a angústia coletiva, provocada pelo
deserto, pelo vazio como condição de possibilidade
para a enunciação coletiva, o propulsor para a tomada
da palavra mais uma vez.

A partir daí surgiram tentativas da roda de manter-


se de pé. Alguns diziam que deveríamos ser mais atuantes
como facilitadores do grupo, que não era possível
mais aguentar o silêncio, que trabalhássemos com
psicodramas, sociodramas, etc. Surpreendentemente,
nessa roda, a equipe, ao pedir ajuda, cogita, pela
primeira vez, que os pacientes sejam ouvidos naquele
setting; a equipe quer saber o que eles têm a dizer.

Aconteceram três rodas com a presença dos


pacientes e com pouquíssimos profissionais da equipe,
o que nos faz perguntar: será que queriam realmente
ouvir os pacientes? De qualquer forma, o que ouvimos
foi um desabafo de quem reivindica, como cidadão, um
cuidado de qualidade; de quem reconhece, do fundo do
coração, o quanto aquela equipe teve e tem importância
na sua melhora e conquista de mais saúde; de quem

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


270
Ricardo Wagner Machado da Silveira

se solidariza com uma rara e potente equipe, que cuida


sem cobrar, sem persuadir, sem dogmatizar, respeitando
a liberdade e lutando por direitos humanos.

Na roda que se seguiu, repassamos tudo o que


aconteceu à equipe que nesse dia estava presente
em número maior e, voltando à problemática do
esvaziamento das rodas, surge a proposta de fazer
uma convocação formal para todos da equipe estarem
presentes na próxima roda. E foi isso o que aconteceu,
apesar das dissonâncias claras de uma convocação em
relação a um convite para o trabalho coletivo autoanalítico
e autogestivo. A partir desse fato, passamos a ter maior
convicção e menos dúvida sobre o fim da existência
deste analisador, tamanha a contradição que ali se fez.

As duas rodas seguintes, para as quais todos


foram convocados a comparecer pela coordenadora do
serviço, trataram respectivamente de um caso de difícil
manejo para toda a equipe e, novamente, da dificuldade
de manejo de uma situação criada pelo grupo, no qual
o portão novamente é um dos protagonistas. Foram
sociodramas intensos, nos quais a implicação do coletivo
se fez de modo efetivo e importantes decisões sobre a
rotina e o manejo de casos foram elucidados. Vale dizer
que, nesta última roda, decidiu-se por não fazer mais a
convocação para a roda e diziam: por que convocar a

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


271
EM BUSCA DE UMA CLÍNICA DA REDUÇÃO DE DANOS NUM CAPSAD

equipe para uma atividade que é de sua rotina? Não faz


sentido!

A roda que se seguiu sem convocação, como


combinado anteriormente, novamente foi esvaziada e,
como analistas institucionais, concluímos que nossa
colaboração e a existência dos analisadores: roda
de autoanálise e observações cartográficas não mais
fazia sentido, até porque, depois de quase quatro anos
de existência, se tornaram atividades da rotina que
perderam sua potência disruptiva. Ao contrário, pareciam
ter sido mimetizados por forças instituídas paralisantes
e o nosso papel, a partir daquele momento, seria então
sermos sujeitos da enunciação de nossa própria morte,
da autodissolução dos analisadores, apesar de todas as
forças contrárias a isso.

Como nos ensina Lourau (2004c), a crise do


conceito de analisador na análise institucional se
deve ao fato desse conceito ter se transformado em
um instrumento para a objetivação dos problemas
dos outros, perdendo-se de vista que os analistas
institucionais se constituem a partir dos analisadores
e do que eles produzem. “Daí o perigo, de neutralizar
tais problemas... como se as contradições que os
analisadores revelam nos outros não atravessassem
igualmente os socioanalistas” (LOURAU, 2004c, p.135)

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


272
Ricardo Wagner Machado da Silveira

Dissolver o saber instituído e fazer dos


analisadores o centro da análise institucional implica não
os objetivar, pois isso seria negar a análise institucional.

“Problema árduo para as forças dissolventes


da análise... a autodissolução da instituição da análise
experimenta e “profetiza” a autodissolução generalizada
das formas do velho mundo pelas forças do novo”
(LOURAU, 2004c, p.135, 139).

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Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VI - Pág. 232-275


Capítulo VII
RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA
COM ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS
E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer,
valorizar e transformar.

Desenho: Antônio Carlos da Silva


278

CAPÍTULO VII

RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA


PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM
NECESSIDADES EDUCACIONAIS
ESPECIAIS: Projeto Histórias de Todos Nós:
conhecer, valorizar e transformar
Mônica Regina Jacinto Reis

INTRODUÇÃO

A diferença envolve as múltiplas formas de ser


e perceber o mundo, expressar-se e agir, pois somos,
ao mesmo tempo, semelhantes como seres humanos,
mas diferentes quanto à forma de constituição e
contribuição das diversas culturas ao longo da história
da humanidade. Em face disso, sabemos que trabalhar
com as diferenças implica sair do foco de uma situação
ideal para uma situação real, livrando-nos de estereótipos
e desapegando-nos de concepções que tendem a
uniformizar tanto os saberes quanto os fazeres.

Essa referência pressupõe, no entanto, o


desenvolvimento de uma postura ética de não hierarquizar
as diferenças, mas criar vários caminhos possíveis de
percepção, aceitação e valorização das mesmas, a fim
de que as aprendizagens levem a um processo amplo

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
279
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

de formação humana, já que as transformações e tudo o


que seja inerente ao ser humano são produtos de suas
relações sociais e culturais. Assim, a educação é um
dos meios para que essas transformações ocorram, na
medida em que as escolas produzam uma cultura de
paz, de tolerância às diferenças, de respeito aos direitos
humanos para a construção de um espaço de cidadania
compartilhada por todos.

Nesse sentido, conciliar temas tão complexos,


mas absolutamente necessários, como políticas
públicas em saúde mental e educação de portadores
de necessidades educacionais especiais, ainda que
num simples e breve relato de experiência pedagógica,
não pode deixar de enfatizar a importância de pensar o
processo educacional e social na perspectiva inclusivista,
mesmo porque, todos sabemos, a luta pelos Direitos
Humanos, a Pedagogia Institucional, a emergência da
Psicanálise e o Movimento de Desinstitucionalização
Manicomial foram os desencadeadores históricos desse
problema público que é a questão da inclusão social.
Esses eixos, no entanto, fizeram emergir o Paradigma
da Inclusão, que vem tomando forma e exigindo,
cada vez mais, novas práticas educacionais e sociais,
que, em suma, requerem de nós o rompimento com a
homogeneidade e, sobretudo, o trato pedagógico às
diferenças como elemento positivo e enriquecedor não

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


280
Mônica Regina Jacinto Reis

só do processo educativo, como também de garantia


para uma boa qualidade de vida e saúde mental dos
envolvidos nesse processo.

É nesse bojo que a FAENOL: Fundação de


Assistência Especializada de Nova Lima, por meio
da Escola Ana do Nascimento Souza de Educação
Especial, tem se mostrado uma instituição social ímpar
no projeto de modernidade que se instaura na cidade de
Nova Lima, tendo em vista o paradigma da Educação
Inclusiva, que enfatiza a qualidade de ensino para
todos os alunos, respeitando seus tempos e ritmos de
aprendizagens, compreendendo seus modos diferenciados
de ser, pensar, agir, sentir. Portanto, se não nos envolvermos
de fato, mesmo que as políticas públicas, sejam da educação,
sejam da saúde mental, contribuam para criar espaços e
ainda assegurar direitos e deveres, bem sabemos que não
há garantia nenhuma sobre uma verdadeira inclusão dos
portadores de necessidades educacionais especiais. Porém,
certos estamos que envolvimento requer responsabilidade,
compromisso e vontade política, inclusive.

Partindo desse pressuposto, o fazer pedagógico


na Escola Ana do Nascimento Souza tem, como principal
instrumento, sobretudo nas aulas de Literatura, a
valorização da escuta, pois se acredita ser, o ato de ouvir o
outro, uma forma de intervenção com forte fundamentação,
capaz de gerar produção, construção, bem como

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
281
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

promoção de crescimento pessoal e social, auxiliando


os alunos a encontrarem formas de se conhecerem, de
aceitar suas limitações e não as ver como obstáculos
para o descobrimento de capacidades e, dessa forma,
humanamente se posicionarem no mundo.

REFLETINDO SOBRE A PRÁTICA PEDAGÓGICA:


tecendo caminhos para as “Histórias de Todos Nós”

Ao percorrermos fatos e vivências de nosso


passado, analisamos de que forma nossa história de vida
marca a formação de nossa identidade docente, ao mesmo
tempo em que nos permite identificar fatores que, segundo
Cannen (2004), configuram certas posturas com relação
a aspectos da educação, que podem ser reconstruídas
em uma perspectiva transformadora do cotidiano escolar.
Isso ocorre, de um lado, individualmente, na medida
em que nós, alunos, professores e toda a comunidade
escolar adquirimos conhecimento da realidade e nos
habilitamos para enfrentá-la e, de outro, na grupalidade
social, pela forma como nos organizamos para mudá-la,
uma vez que o conhecimento produz alterações nos modos
de sentir e de inserir nessa realidade. De tal maneira, não
podemos nos comportar diante da realidade como se nada
tivéssemos a ver com ela, mesmo porque, como nos lembra
Rodrigues (1986), a realidade é, sobretudo, pedagógica e
educativa. Ela é educadora para além das instituições.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


282
Mônica Regina Jacinto Reis

Observa-se, como Gadotti (1997), que a escola


não deve se preocupar apenas com a transmissão de
conhecimentos, mas sua maior preocupação deve estar
voltada para a formação global dos alunos, numa visão na
qual o conhecer e o intervir no real se encontrem.

Considerando o exposto acima, percebe-se que a


consolidação da prática pedagógica como sendo uma prática
social tem refletido, nas aulas de literatura da Escola Ana do
Nascimento Souza, uma experiência de convivência com as
diferenças, em que se busca privilegiar o debate de ideias,
o confronto de valores e visões de mundo e, em que nossos
interesses e motivações determinam nossas intenções.
É essa intencionalidade que sustenta o nosso desejo de
mudança, de reforma, de cada vez mais refletirmos sobre a
nossa própria prática, despindo-nos de tradicionalismos, da
ideia que sabemos o que é ensinar e aprender como algo
certo, pronto, inquestionável, mas, ao contrário, abre-nos
a possibilidade de um novo olhar sobre as pessoas, sobre
o diferente, sobre a singularidade, comprometendo-nos a
desenvolver, em nossos alunos, atitudes positivas quanto
às suas identidades, diante de fatos de sua realidade,
possibilitando a valorização e transformação dessa. Mas,
afinal, o que é que a relidade da Escola Ana do Nascimento
Souza de Educação Especial, em suas experiências
pedagógicas e, mais especificadamente mediante o Projeto
“Histórias de Todos Nós”, nos apresenta, que pressupõe

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

uma ação problematizadora, desafiando, a todo tempo, os


alunos a desenvolverem suas potencialidades?

Segundo Rocha (2007), o trato pedagógico das


diferenças não é uma tarefa fácil, e enfrentar o desafio
de implementar práticas pedagógicas, nesse sentido,
reveste-se de uma complexidade ainda maior. Portanto,
precisamos de um novo formato de prática pedagógica, na
qual a escola possa, de fato, ser local da aprendizagem de
uma nova cultura: a da aprovação, inclusão e da formação
da cidadania, apontando a necessidade de mudança do
enfoque, na qual se percebe a necessidade de que nossa
responsabilidade deva ser algo mais de “dentro para
fora”, chamando para a ação, para o compromisso, para
a superação de dificuldades inerentes, bem como para os
direitos sociais de todos os cidadãos.

Nessa perspectiva, o trabalho com o projeto


pedagógico “Histórias de Todos Nós”, assim como
qualquer trabalho que empregue a metodologia de
projetos no âmbito da interdisciplinaridade, integrando
saberes, constitui-se, em nossa vivência pedagógica,
nas trocas afetivas entre professores e alunos nas várias
situações, nas quais o educador e o aluno, quando em
interação, trocam experiências e significados, ampliando
seu repertório de ações, construindo o conceito de
“situações significativas”. Porém, como perceber tais
situações?

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


284
Mônica Regina Jacinto Reis

O ponto de partida é a observação dos alunos:


o que buscam saber sobre o mundo à sua volta e
sobre eles mesmos, quais suas preocupações e que
perguntas estão fazendo, num dado momento, que
direcionem a curiosidade de cada um. Isso, todavia,
torna possível a constante reflexão sobre a prática
pedagógica, articulando as experiências realizadas
com o contexto vivenciado, que, por sua vez, traduz-
se além da preocupação em trabalhar aspectos que
façam parte da realidade dos alunos, nos conteúdos
delimitados e considerados significativos para a
aprendizagem deles, pois o trato para com o processo
de desenvolvimento e aprendizagens destes implica
não apenas o conhecimento, mas também a atenção
às suas particularidades, ou seja, suas características
sociais, etnicas, físicas, psicológicas, etc...

Nesse sentido, sabendo que o ser humano, como


sujeito, possui uma história e apresenta desejos que são
movidos em relação a outros seres humanos é, que a
oralidade, a audição, os gestos, as mãos do educador
para registro da escrita, a emoção e os silêncios
constituem–se nos elementos fundamentais para as
“Histórias de Todos Nós”, com os quais estamos, agora,
transpondo os muros da escola.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

HISTÓRIAS DE TODOS NÓS: dimensões norteadoras


e metodologias

Utilizar o espaço da Biblioteca da Escola Ana do


Nascimento Souza de Educação Especial e as aulas
de literatura como oportunidade ímpar de expressão
de sentimentos e exercício da autonomia, bem como
ferramenta para o enfrentamento positivo de conflitos,
em que os atores envolvidos possam reconhecer-se
em suas histórias de vida, compartilhando saberes que
intensifiquem o aprendizado do conhecer, do fazer,
e essencialmente, do ser e do conviver é o objetivo
central do Projeto Pedagógico “Histórias de Todos Nós”,
que tem, como público-alvo, os alunos desta escola,
principalmente os da faixa etária compreendida entre
quinze e cinquenta anos (alunos da Escola de Artes e
Ofícios). Aliado ao objetivo central, outros como: trabalhar
de forma transversal as histórias contadas para e pelos
alunos sobre suas famílias, sobre eles próprios e suas
descobertas cotidianas de mundo; utilizar a oralidade, a
escrita, a música, o desenho e a fotografia como forma
de apresentar o mundo e de sentir-se parte dele, bem
como vivenciar a oralidade como forma de registro,
entretenimento, preservação e valorização de si e do
outro, também se fazem de suma importância para essa
busca incessante a qual nos propomos, ou seja: enxergar
o outro além de suas limitações. Enxergar apenas o ser

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


286
Mônica Regina Jacinto Reis

humano, plural e singular, tal qual ele é, compartilhando


emoções e sentimentos, valorizando as vozes e gestos
que virem à tona, através do saber ouvir e refletir sobre o
que foi dito e ouvido. De tal modo, pensar uma educação
para a igualdade é pensar que as heranças da memória
não são apenas individuais, mas podem também ser
coletivas. Portanto, o formato transversal das histórias
contadas essencialmente pelos alunos leva-nos a
refletir, cada vez mais, sobre as questões identitárias
deles, pois só conhecendo quem são podemos dialogar
com suas realidades e expectativas.

Refletindo nessa direção, o Projeto “Histórias


de Todos Nós” justifica-se pela crença que nossas
práticas pedagógicas e vivências contribuem para que
nossos alunos ampliem os conhecimentos sobre si
mesmos. Justifica-se pela aliança do caráter ancestral
da oralidade como fonte de formação e informação e,
ainda, pelas várias possibilidades de aprendizagem
mediante a exploração das diferentes linguagens como
forma de expressão de sentimentos e de se situarem no
mundo, inclusive.

A circularidade como forma de compartilhar os


saberes privilegia o formato ancestral das rodas, sendo,
no entanto, o procedimento metodológico que nas
“Histórias de Todos Nós” busca tratar pedagogicamente
as diferenças e a diversidade como elementos positivos e

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

enriquecedores do processo educativo, dialogando com


práticas que levem em consideração ouvir os sujeitos
de aprendizagem, em que os conhecimentos, saberes
e aprendizagens propostos oportunizam o trabalho,
permeando todo o fazer pedagógico. Para tanto, as
dimensões deste têm como norte a contextualização
dos saberes dos alunos, criando condições para que se
localizem e compreendam a realidade em que vivem,
pois, de acordo com Senra (2008), a construção de
possibilidades educativas, aqui, devem ajudar os alunos
a desenvolverem um plano de ação, que tenha ligação
íntima com os interesses e intenções dos próprios
alunos.

Isso requer, como desenvolvimento de ações,


o reporte às concepções que orientam os propósitos
do grupo, culminando num processo de reflexão/
ação que se desdobra em “tarefas”, com definição de
responsabilidades e prazos, considerando que o preceito
da Inclusão pressupõe uma ação problematizadora,
desafiando permanentemente o aluno a desenvolver
suas potencialidades através de ações planejadas e
articuladas de forma coletiva, objetivando maior sintonia
entre o pensar e o fazer.

O Relatório, para a UNESCO, da Comissão


Internacional sobre Educação para o Século XXI (2003)
apresenta, como imperativa, a importância do papel do

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


288
Mônica Regina Jacinto Reis

professor como agente de mudança no que se refere ao


favorecimento da compreensão mútua e da tolerância.
Desse modo, oportuno se faz pontuar que, mesmo que
alguns alunos não conheçam, de fato, a vericidade ou a
íntegra de suas histórias no tocante às suas necessidades
especiais, a essência do projeto “Histórias de Todos
Nós” não consiste em detectar diagnósticos, mesmo
porque, diagnosticar é uma atribuição advinda da área
clínica e, sendo o projeto em questão uma ação de cunho
pedagógico, a relevância está na intencionalidade,
espontainedade e intensidade daquilo que os alunos
relatam, como relatam e na concretude do desejo
imbuído nesses relatos, que, a nosso ver, é a forma de
materializarem sua própria existência. De tal forma, a
ênfase está na criação de possibilidades educativas
que favoreçam a aprendizagem, criando recursos dos
quais os alunos possam utilizar para potencializar suas
habilidades (SENRA, 2008, p.78).

Segundo Ceccon (1986), todas as pessoas


sonham com uma escola que funcione bem e cumpra o
seu papel, que é dar instrução a todos, indistintamente. E
se todas as pessoas sonham, quem sabe já não estamos
imersos nessa realidade? Quem sabe estejamos
vivendo, de fato, um tempo de crise da utopia, em que,
de acordo com Gadotti (1997), afirmá-la novamente se

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

constitui, para nós, num ato pedagógico essencial na


construção do futuro?

Quem sabe... afinal, como extravasa o


carnavalesco: “sonhar não custa nada”... E o nosso
sonho é tão real quanto como as “Histórias de Todos
Nós”.

Real. Plural. Singular...

“HISTÓRIAS DE TODOS NÓS”: oralidade, gestos,


mãos e silêncios como formas de se perceber no
mundo

Como tudo começou...

Aprendemos por meio das experiências concretas


das quais participamos, mas também das quais
tomamos conhecimento por meio do que os outros nos
contam. Assim, foi através de uma história contada por
uma de suas tias, que a aluna A. A. C. deu origem ao
Projeto “Histórias de Todos Nós”. O planejamento sobre
Relações Etnicorraciais já estava preparado, porém bem
sabíamos que esse planejamento era só pra cumprir
formalidades, pois as aulas de Literatura são flexíveis e é
o aluno quem mostra a direção. Direção que a aluna A. A.
C. apontou, ao dizer que gostaria de contar a história de
suas avós, pois, contando essa história, estaria falando
de suas origens, de sua ancestralidade. Fizemos, então,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


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Mônica Regina Jacinto Reis

a roda e literalmente nos tornamos “ouvidos”. E assim


permanecemos até os dias de hoje...

Contraste: uma história de ancestralidade

Minha tia me conta histórias e essas mostram


quem sou; de onde vim. Ela conta que minha avó, C.
P., era de origem italiana e tinha os olhos verdinhos, da
cor de folha e era muito vaidosa. Ela era loira e tinha um
segredo para manter a cor de seus cabelos: passava
cerveja.

Vó C. era mãe da minha mãe e ela não tinha


preconceitos. Quando minha mãe conheceu meu pai,
essa minha vó achou o máximo! Papai era ainda mais
escuro que meu amigo M.B., ele trabalhava na Mina de
Morro Velho.

A mãe do meu pai, vovó B., também era pretinha...


pretinha... Ela andava descalça, usava lenço e mascava
fumo.

Minhas avós eram tão diferentes!

Vovó B. era muito desconfiada. Ela não acreditava


que minha mãe, por ser branca, pudesse amar meu
pai, tão negro! Mas, meu pai e minha mãe se amavam
independente da cor de cada um.

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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

Eu sou fruto desse amor. Em minhas veias correm


sangue de minha vó C. e de minha vó B.: Itália e África.

É muito bom conhecer a história de nossos


antepassados. A nossa história.

(A.A. C.)

Os desdobramentos pedagógicos dessa história


foram fantásticos. O simples contar ou descobrir
origens fizeram com que outros alunos também se
descobrissem quanto a seu pertencimento etnicorracial
e entendessem questões complexas do sentido humano
do preconceito, sem muita explicação (mesmo porque é
difícil, praticamente impossível, explicar o inexplicável).
A culminância dessa história foi a dramatização para a
comunidade escolar com participação de professores
e alunos como personagens. Porém, a partir daí,
começou uma inquietação nos alunos. Uma vontade de
contar suas histórias, agora colocando a diferença, não
mais sob a ótica do pertencimento etnicorracial, mas
a diferença como percebedores do “ser especial”. Um
desejo coletivo de aprender por meio do compartilhar
das experiências pessoais e sociais, ampliando
conhecimentos e construindo aprendizagens.

Segundo Coelho (2003), as relações de


aprendizagem e vivências que se estabelecem entre
a Literatura, entendida como arte, e o indivíduo são

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


292
Mônica Regina Jacinto Reis

fundamentais para que este alcance sua formação


integral, que se traduz na soma de sua consciência do
eu mais o outro, mais o mundo em harmonia dinâmica.
Em face disso, dessa necessidade humana de contar
e ouvir histórias, novas relações, que vão além do
respeito às diferenças, têm possibilitado que muitas
vozes possam ecoar no espaço escolar, chegando-se
à consciência que é na diversidade que se constrói algo
novo, que descobrimos quem somos, quem o outro é e,
ainda, quantas emoções importantes podemos sentir.

Nesse sentido, ao apresentarmos, a seguir,


as oito histórias selecionadas, por já apresentarem
desdobramentos no ambiente escolar através de
palestras, excursões, campanhas solidárias, concurso
de desenhos, dentre outros, ousamos, mais do
que emprestar nossas mãos como instrumento de
materialização da oralidade de nossos alunos, deixar
também fluir a emocionalidade a que nos remete a
intenção de suscitar possibilidades reais de trabalhar a
questão do “ser especial” como afirmação da diferença,
numa sala de aula, pelo viés da literatura, buscando,
ainda que brevemente, analisar essas histórias no intuito
de refletir o fazer pedagógico, bem como a educação
a partir de um campo ampliado no qual a convivência
com as diferenças se faz fundamental no processo de
humanização.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

A História de V. C. R.

Meu nome é V. C. R. Eu tenho 29 anos. Quando


nasci, eu era bem gordinha!

Uma vez, quando eu era bem novinha, eu estava


sentada no tapete de minha casa e meu avô tirou uma
foto. Essa foto está lá em casa até hoje.

Quando minha mãe me teve, ela ainda não era


casada. Então, minha tia cuidava de mim para minha
mãe trabalhar. Mas, logo meu pai se casou com minha
mãe e ela parou de trabalhar para cuidar de mim e de
nossa casa.

Eu sempre fui linda! Sou muito caseira e gosto de


escutar músicas e dançar.

Vim para a escola Ana do Nascimento ainda


pequena. Todos eram e ainda são doidos comigo. Eu era
chamada de “Amor Colorido”. Ainda sou “Amor Colorido”.
Eu me sinto “Amor Colorido” porque sou especial.

Tenho muitos amigos e gosto muito deles. Esse


povo é minha paixão!

Lá em casa sou muito amada. Meus vizinhos


também gostam muito de mim. Sou capaz de fazer
muitas coisas e nisso não sou diferente de ninguém. O
que mais posso dizer? Talvez, apenas um recado:

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Mônica Regina Jacinto Reis

“Síndrome de Down não é doença”!

Segundo Macedo (2005), o pior em uma


deficiência é o gozo de uma superioridade sobre alguém,
pois muitas vezes a deficiência está em nós e não no
outro.

Num universo em que as diferenças são legítimas


e reais, devemos preservar-nos como seres únicos e, ao
mesmo tempo, ser parte. Portanto, é a diferença que nos
iguala como sujeitos humanos e isso implica descobrir
cada um em sua condição singular, nos fazendo, por
inteiro, escuta de subjetividades.

A história de G. S.

Quando eu era pequeno, bem pequenininho,


teve uma época que eu pintava muito. Eu tinha uns dois
anos. Nossa Senhora!, eu fazia bagunça demais! Agora
sou mais quieto.

Eu já nasci gordo demais e bem pequenininho. O


médico falou com meu pai e minha mãe que eu não ia
andar. Aí, eu comecei a andar. Só não sei com quantos
anos.

Eu nasci bem mole. Tinha o corpo molinho...


molinho. Por isso os médicos achavam que eu não ia
andar e diziam:

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RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

- É, não tem jeito, não.

Minha pressão é um pouco alta.

Eu comia a merenda dos outros. Agora estou


cooperando comigo mesmo. Estou fazendo academia
dois dias da semana.

Sou especial. Sou “Pado William1”. Eu não sabia


que eu era “Pado William”. Minha mãe me contou. Ela
disse que a coisa é grave. É por isso que sou uma
pessoa obesa, tenho ansiedade e tenho dificuldade
para aprender a ler e escrever. Agora estou aprendendo.
Estou pegando as manhas. Tenho vinte e oito anos. Vou
fazer vinte e nove.

Eu não gostava de pessoas negras ou mais


morenas. Aí, aqui na escola Ana do Nascimento,
conheci uma “pessoa muito especial2”, com um jeito
muito especial e eu me encantei por ela. Hoje, ela já não
está entre nós, mas foi ela que me ensinou a gostar de
pessoas negras, junto com a professora M. que trabalha
com a gente o respeito ao negro e sua cultura. Aprendi
que todo mundo merece respeito.

1 O aluno quis dizer Síndrome de Pader Willi.


2 O aluno se refere à aluna A. F. T. que faleceu no ano de 2011.

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Mônica Regina Jacinto Reis

Eu sou um artista porque imagino histórias,


represento e faço acontecer. Gosto de mim e agora
estou feliz demais!

Quero paz e vitórias. Mais vitórias, né? Porque já


sou um vitorioso.

Talvez não seja viável conciliar, aqui, uma


analogia entre preconceito racial e deficiência, pois os
vários pontos de vista sobre tais abordagens situam-
se dentro de perspectivas diferentes, apesar de ambos
estarem dentro de um contexto educacional e social
complexo e multifacetado. Porém a história contada
pelo aluno G. instiga-nos a aproximar os dois temas,
não pelas mazelas, mas sim pela possibilidade explícita
em que sujeitos singulares e diferentes descobrem
suas capacidades, suas possibilidades por se darem e
por lhes serem permitidas oportunidades positivas de
interação.

Tal qual Senra (2008), partimos do entendimento


que os alunos com necessidades educacionais
especiais e os negros (grifo nosso), ao chegarem em
nossas salas de aula, trazem consigo suas marcas, suas
histórias, seus arranjos próprios, bem como respostas
ao que lhes apresenta com relação às transmissões que
lhes foram feitas, ao lado das aquisições do corpo e de
características inatas próprias. Isso leva-nos a refletir

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RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

sobre a importância da história de cada um, quando


atribuímos sentido à mesma e com sua apropriação nos
deparamos com sujeitos que vão descobrindo maneiras
singulares de inventarem-se, ao longo de suas vidas.

A história de P. S.

Quando eu era pequeno, eu caía toda hora. Aí,


o médico descobriu que eu tinha um problema sério na
cabeça. Não posso ficar perto de piscina, lugar alto,
buraco, porque dá tonteira. Quando dá tonteira, eu
caio pra trás. Fico batendo a cabeça e babando. Isso é
epilepsia. Não dá pra saber quando ela vem ou quando
ela não vem.

Foi o Doutor C. que descobriu que eu tinha isso.


Ele chamou minha mãe e orientou ela. Falou que era
perigoso. Desde pequeno tomo remédios pra controlar
as crises: Tecretol e Gadernal. Tô tomando... Tô
tomando... E é até hoje.

Teve um dia, D. era minha professora, ela não


sabia do meu problema, não deu dois minutos e eu caí
perto dela. Bati a cabeça e comecei a babar. Ela ficou
nervosa e foi procurar ajuda. Mas, hoje em dia, lá vou
melhorando... Lá vou melhorando...

Tenho trinta e quatro anos e trabalho aqui na


escola.

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Mônica Regina Jacinto Reis

Gosto de conversar com J. B., meu companheiro.

Entrei nessa escola, pequeno. Já tive várias


professoras. Gosto daqui. Aqui é o meu local, entendeu?

A escola é um pequeno espaço dentro da


cidade, mas esse espaço nos permite muitas formas
de trocas e interações. Essas interações, no entanto,
têm possibilitado aos alunos uma visão de mundo em
tempo real, desmistificando aquela visão de simples
espectadores de situações desconhecidas ou de
contextos do acaso.

Nessa lógica, a das interações, Ceccon (1986)


alerta-nos que é procurando resolver problemas
concretos que as pessoas aprendem coisas úteis e se
convencem que podem aprender sempre mais. Assim,
esse convencimento pode ser a perspectiva pela qual
os alunos olham, constroem o mundo e nele fazem suas
intervenções.

A história de G.R.

Eu sou o G. Tenho 18 anos. Quando eu era


pequeno, criancinha, a minha avó cuidava de mim. Ela
ainda cuida de mim.

Quando fui para a escola, bem pequeno, eu


conseguia acompanhar as atividades. Depois fui para a

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RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

escola H. J. e ainda conseguia acompanhar as atividades.


Chegou um tempo que eu não conseguia acompanhar
os outros alunos. Tive dificuldade de aprender. A escola
chamou minha família e disse que eu tinha dificuldade.
Minha avó achou então, que, aqui, a escola Ana do
Nascimento era a melhor escola pra mim.

Sou especial. Tive uma crise convulsiva e fui parar


no CTI. Quando fui para casa, já não era mais o mesmo.
Voltei para a escola H. J., mas, lá não era mais o meu
lugar. Meu pai, minha avó e minha mãe me apoiaram.
Eles entenderam que eu, agora, era especial.

Eu gostava de mim. Mas sou jovem e estou


aprendendo que posso gostar muito mais.

Gosto de jogar futebol. Aqui, conheci o G. e a V.,


meus amigos. Eu quis namorar a V. e foi uma confusão.
Fui parar até na sala da diretora. Agora não estou
namorando ninguém. Só tenho muitos amigos, inclusive
R., meu psicólogo e L., professora de educação física,
que eu gosto muito.

Parece difícil que as interações com as diferenças


e com os diferentes não sejam afetadas nas escolas, pela
representação negativa e preconceituosa que circula
em nossa cultura. Exemplo disso, de acordo com Senra
(2008), é o fato de a dificuldade de aprendizagem ser
considerada “deficiência”. A autora ainda nos interroga

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


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Mônica Regina Jacinto Reis

quanto a supor que um aluno que tenha dificuldade de


aprendizagem implica que é ele que tem dificuldade
para aprender ou se somos nós que temos dificuldade
para ensinar.

Nesse sentido, salientamos, mais uma vez,


a necessidade de enxergar cada aluno na sua
potencialidade humana e criadora, e não nos apegarmos
à particularidade das dificuldades que apresentam.
Não se trata, no entanto, de negar a importância do
conhecimento escolar, mas sim, como nos adverte
Gomes (2007), de eliminar o equívoco da escola e da
educação que, historicamente, tem como foco prioritário
os conteúdos e não os sujeitos do processo educativo.

De tal forma, mais vozes emanam das “Histórias


de Todos Nós” que reforçam o exposto acima:

A história de J. P. B.

Quando eu era pequeno, acho que comia muito


doce. Por isso acabei ficando com diabetes e tendo
crises. Fiquei internado e não foi em Nova Lima. Foi no
Pronto Socorro, em Belo Horizonte.

Meu pai pensou:

- meu filho vai morrer...

O médico falou:

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RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

- seu filho está muito fraco!

Os médicos me furavam o dedo e o exame só


dava alto. Me puseram numa máquina e foram dando
remédios para abaixar a glicose.

Quase morri de pequeno!

Agora, todos os dias tenho que medir a glicose,


mas a crise está controlada.

Eu caía toda hora.

L. é um bom amigo. Já me socorreu muito.

Tenho que me alimentar de três em três horas.


Comer uma fruta, biscoito ou queijo. Pode ser leite
também.

Um dia, tive tonteira, bati a cabeça e ele me levou


para a Policlínica.

Agora, tomo um remédio mais forte que controla


a crise.

Quando fico nervoso, não é porque eu quero, mas


estou conseguindo me controlar mais. Para isso, estou
tendo ajuda dos amigos, de algumas professoras e da
minha psicóloga, K.

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302
Mônica Regina Jacinto Reis

Eu cheguei a estudar em outra escola, quando


era pequeno, mas a professora me via muito quieto, só
tomando água e indo ao banheiro toda hora. Eu também
dava muito trabalho na hora de fazer as atividades.
Então a diretora chamou a minha mãe e falou que eu não
tinha condição de estudar lá, porque eu não aprendia a
ler nem escrever. Eu dava muito trabalho lá. Aí, o que
aconteceu: me mandaram pra cá: para a escola Ana do
Nascimento.

Até hoje não aprendi a ler e nem a escrever.


Minha mente é fraca pra isso. Eu gosto mesmo é de
fazer teatro com G. e caixa com a professora K. Ela me
manda fazer a caixa e eu faço. Do jeito que faço, ela fala
que está bonito.

Eu não queria isso, não. Ficar com diabetes,


tomar muita insulina, furar o dedo todo dia, mas, muita
coisa não é a gente que escolhe, é Deus.

Meu caso é complicado: tem dia que estou bem.


Tem dia que não.

Sabemos, pois, que o conhecimento do quadro


clínico e de diagnósticos médicos de nossos alunos nos
são necessários para o entendimento de características
e de situações próprias a que os alunos estejam sujeitos.
No entanto, o foco nesses pontos acaba por excluí-los
das escolas.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

Para Macedo (2005), a escola, quando era


organizada pela lógica da exclusão, era seletiva e as
competências de ensinar dos professores estavam
dissociadas das competências de aprender dos alunos.
Isso significa que apenas os conteúdos curriculares
sustentavam a excelência da escola.

Em consonância com o parágrafo anterior, fica


evidente que, pela lógica da exclusão, o professor
percebe os alunos apenas como seres de cognição
e, mesmo assim, de forma equivocada: sua maior ou
menor capacidade de aprender conteúdos, sua maior ou
menor disciplina (DAYREL, 1986, p. 155).

Nessa perspectiva, observa-se que uma prática de


educação inclusiva é coisa séria e exige uma mudança
de mentalidade que implique nossa capacidade de
entender e reconhecer nossos alunos, respondendo-os
em suas necessidades diversas, acomodando tanto seus
estilos quanto ritmos diferenciados de aprendizagem.

A história de F. C.

Quando eu nasci, passou do tempo e da hora de


eu nascer. Aí faltou oxigênio no cérebro, paralisando um
lado e deixando o outro normal. Se eu tivesse nascido
na hora e no tempo certo, às vezes, eu viria normal,
mas, esse negócio de os médicos falarem que não está
na hora e ir segurando o bebê, às vezes dá nisso...

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304
Mônica Regina Jacinto Reis

Foi feita uma cesariana de última hora e eu nasci


assim. Eu não culpo os médicos. Se nasci assim é
porque Deus achou que seria melhor. Faço muitas coisas
melhor que pessoas ditas normais. Igual, nessa questão
de enturmar, ter amigos, sair, viajar sozinho, sem os
pais, minha mãe acha que vou dar trabalho aos outros.
Mas, a questão não é essa. Se eu fosse dar trabalho,
as pessoas nem me convidariam. Sairiam fora. Quem
me convida já sabe que vai ter que levar cadeira, me
carregar. Minha mãe não está de todo errada, porque ela
se preocupa comigo, mas eu preciso viver. As cadeiras
são as minhas pernas.

Minha mãe não me prende em tudo, mas em


algumas partes, tipo fisiológicas, que eu não posso falar
aqui, ela acha que as pessoas vão rir, vão achar que não
dou conta. Podem existir as dificuldades, mas é preciso
superá-las.

Por exemplo: tenho muita vontade de trabalhar,


fazer um estágio, sei lá. Preciso ter um currículo. O
povo precisa parar com essa mania de achar que a
gente é coitadinho. Eu não aceito isso. Não sou nenhum
coitado. Sou muito capaz. Sei reivindicar meus direitos,
principalmente de ser atendido por quem acredita em
minhas capacidades e não enxerga apenas minha
deficiência.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

Tem uma vez que fomos ao Gabinete do prefeito.


Fomos orientados a não falar assuntos diferentes da
escola ou do combinado. Quando chegamos lá, o prefeito
veio me cumprimentar e começou a falar sobre política
comigo. Perguntou se eu ia sair candidato a vereador e
outras coisas. Foi ele quem começou o assunto. Disse
que não ia sair vereador, ainda, e, quando ele perguntou
o porquê, eu disse que tinha uma professora que achava
que eu não tinha condição. Ele achou um absurdo.

Foi bom para as pessoas verem, que os outros


acreditam no potencial da gente, às vezes. Até mais do
que aqueles que estão capacitados para nos educar.

Tenho o sonho de ser vereador e não é de hoje!


Tem um deputado que é cadeirante, e daí? Comigo não
cola, não. Posso não saber projetos na escrita, mas na
cabeça ninguém me segura.

Acho deficiente uma palavra muito forte. Somos


eficientes e capacitados, embora tenhamos algumas
limitações.

Conforme Gomes (2007), a construção histórica


e cultural da deficiência, como diferença que se faz
presente nos mais diversos grupos humanos é permeada
de diversas leituras e interpretações. No entanto, o olhar
que precisamos ter é de que todos podem ser diferentes,
mas são absolutamente necessários.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


306
Mônica Regina Jacinto Reis

Partindo desse pressuposto, é possível refletir


sobre o processo pelo qual alunos com necessidades
educacionais especiais aprendem a serem membros
participativos da sociedade, assumindo o seu papel,
cuja construção, na concepção de Dayrel (2005), faz
com que entre em jogo a identidade que cada um vai
construindo a cada momento, em tradição familiar, em
relação com a escola e com suas experiências pessoais.

Nesse sentido, ao expor seus anseios, suas


vivências, seus desejos, os alunos tornam suas questões
em temas para discussão coletiva, fazendo com que o
espaço da sala de aula e o cotidiano da escola sejam
pautados por vivências de experiências que, uma vez
compartilhadas, contribuem para formar identidades
múltiplas.

A história de A.L.C.
(contada por sua mãe, C. C.)

Boa tarde para todos. Começo aqui a minha


história. Casei aos dezenove anos e tinha desejo de ter
filho depressa. Casando, arrumei o A. Fiquei muito feliz.
Para minha surpresa, aos sete meses caí, grávida, mas
ele nasceu no tempo certo.

Ao passar dos meses, seis meses, o pediatra me


falou que ele não era normal. Que ele não ia chegar a
falar nem andar. Aí eu disse:

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
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EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

- Para Deus nada é impossível, pois eu sei que,


um dia, lá em cima, nós seremos todos normais.

Aí comecei os tratamentos. A neurologista me


deu esperança quando ele tinha uns dois anos e meio,
por aí. Tenho fé até hoje que Jesus possa curá-lo.

Hoje ele tem trinta e um anos e, por ele ser assim,


eu o amo demais. Tenho muito carinho por ele como
pelos outros. Se Jesus me deu o A. assim, é porque Ele
sabe que eu teria paciência para olhá-lo. Por isso sou
feliz. Tenho saúde para cuidar dele.

Agora, nessa idade, ele usa sonda. Antes, ele


não usava. Ele é um exemplo para todos os “especiais”
que têm alegria de viver.

A. tem pai e irmãos. O pai não vem vê-lo. Quando


vem, demora muito. Os irmãos o amam muito. Quanto
ao pai, ele está vivo e com saúde e, é isso que importa.

Estou gostando muito da escola Ana do


Nascimento e estou notando muita diferença
depois que viemos pra cá. A. tem paralisia
cerebral. Os médicos disseram que não tem nada
a ver com o tombo que levei, mas até hoje fico
cismada.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


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Mônica Regina Jacinto Reis

A gente nunca pensa em ter filho com “problema”,


mas Deus me dá saúde pra olhar ele. Fica aí, o exemplo
para as grávidas terem mais cuidado pra não cair,
durante a gravidez.

O fazer pedagógico do Projeto “Histórias de Todos

Nós”, em sua metodologia de escuta, propõe a valorização

da escuta também de mães, ou de outros membros das

famílias dos alunos, que queiram contribuir com esse

processo de aprendizagem significativa, respeitando

a singularidade de cada caso, acreditando que todos

podem contribuir de algum modo para o proveito de uma

expressão humana que está além das imagens.

Considerando, no entanto, o âmbito familiar, de

acordo com Macedo (2005), às vezes, a mãe é a única

pessoa que se dispõe, de modo regular, a conviver e

a cuidar das dificuldades de seu filho. Dar, receber

e transformar são verbos que fazem da interação


mãe/ filho com necessidades educacionais especiais

um relacionamento de mão dupla. Assim, ter um

filho, mais do que questões biológicas e científicas,

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
309
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

envolve questões sociais e culturais e, ainda, crenças,


religiosidade, superstições, de acordo com a cultura

a qual pertencemos. Porém, sabe-se que dificilmente

uma mãe pensa na possibilidade de ter um filho com

deficiência ou portador de algum tipo de necessidade

educacional especial, pois qualquer eventualidade

desconhecida ou não planejada pode ser uma realidade

dura de ser assimilada.

Por outro lado, Gutfreind (2005) mostra que criar


um filho com necessidades educacionais especiais
pode ser uma experiência enriquecedora, quando há o
entendimento de que é possível aceitar a vida, abrindo
mão de uma idealização, sem renunciar, contudo, as
lutas e possibilidades de avanços, ainda que mínimos.

Portanto, aprofundar o olhar para uma questão


simples, mas que pouco desenvolvemos: o ato de
escutar o outro, pressupõe, talvez, simplesmente uma
sensação de conforto por parte de quem fala, ou pode ir
mais além, ajudando a superar sentimentos de angústias,
medos, possibilitando o enfrentamento de dificuldades.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


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Mônica Regina Jacinto Reis

A história de G.T.

Eu sou o G .T. Tenho vinte e oito anos. Antes de


vir para a escola Ana do Nascimento, estudei em Entre
Rios. Tem APAE lá.

Eu sou especial porque eu caio muito, perco o


controle das pernas. Elas ficam fracas. Minha coluna dói.
Eu não enxergo direito. Uso óculos. Tenho válvula na
cabeça. Não sei ler. Não sei escrever. Quero aprender.
Isso é importante. Quero ser padre, um dia. Estudar a
Bíblia.

Minha mãe me dá tudo na mão. Faz a minha


barba.

Pra tomar banho, sento numa cadeira pra não


cair. Minha mãe me ajuda.

Eu sou adulto, mas preciso da ajuda da minha


mãe. Minhas pernas são fracas, caio à toa, não tenho
controle, não.

Gosto da minha escola. Gosto das oficinas.

Eu quero melhorar as vistas, as pernas. Quero


emagrecer para andar melhor.

No momento vou precisar usar cadeira de rodas,


na escola. Mas quero melhorar um dia, se Deus quiser.

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
311
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

Complementando a voz

Meu filho G. tem hidrocefalia. No começo ele


era praticamente uma criança normal: fazia de tudo,
brincava como as outras crianças. Na medida em que
ele foi crescendo é que foi ficando pior a dificuldade para
se locomover e aprender.

Ele precisa mesmo, muito da minha ajuda. (M. T.


mãe do aluno G. T.)

Quem é mãe sabe que cada filho é um filho


e, para cada um, estabelece-se um tipo de relação.
Assim, no decorrer de suas existências, mães e filhos
vão aprendendo a se conhecer, a criar vínculos. Com
relação aos filhos com necessidades educacionais
especiais, todos sabem que a tendência das mães é a
de superproteção.

Para Almeida (2004), os modos de vida são


configurações que vão sempre se atualizando, onde não
há instabilidade e o que se apresenta é a produção da
existência humana nos diferentes momentos.

Refletindo nessa direção, crescente é a percepção


de que o desenvolvimento humano não está pautado
somente em aspectos cognitivos, mas principalmente

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


312
Mônica Regina Jacinto Reis

em aspectos afetivos. Portanto, ainda que a escola não


seja a solução para todas as dificuldades dos alunos,
o apanágio de todos os males, como bem nos lembra
Dayrel (2005), como órgão educacional responsável
pela formação de cidadãos, sujeitos e construtores
de suas histórias, precisamos entender que nossas
práticas pedagógicas devem ir além de dar aulas, e,
sim, ajudar os alunos em suas buscas por respostas
que lhes permitam ser quem são, propiciando a escuta
das diferenças, contribuindo para que possam encontrar
bem-estar dentro dessas escutas por se sentirem
valorizados e acolhidos em seu saber, que não é mais
nem menos, mas simplesmente atende a ritmos e
tempos diferenciados.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES, POR ENQUANTO...

Muito se tem falado em políticas públicas


nessa era de contemporaneidade, sobretudo, políticas
públicas de educação inclusiva e de saúde mental.
Ao pensar nos desafios e nas perspectivas que nos
lançam essas políticas, direcionamos nosso olhar
para a FAENOL (Fundação Especializada de Nova
Lima), onde no cenário da Escola Ana do Nascimento
Souza de Educação Especial, vemos emergir práticas
pedagógicas inovadoras, que realmente atendem à
proposta da escola inclusiva, por reconhecer e responder

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
313
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

às diversas necessidades de seus alunos, acomodando


tanto ritmos quanto estilos diferentes de aprendizagens.

Nesse parâmetro, surge o projeto pedagógico


“Histórias de Todos Nós: Conhecer, Valorizar,
Transformar”, que utiliza a escuta dos alunos como
principal metodologia, tornando a biblioteca da escola,
através das aulas de Literatura, um espaço privilegiado
de respeito e acolhimento às diferenças, no qual
histórias contadas espontaneamente pelos alunos sobre
suas vivências e a forma como se vêm no mundo como
pessoas com necessidades educacionais especiais,
vêm tornando o fio condutor da prática pedagógica,
com desdobramentos que permitem aos alunos serem
mediadores do seu processo de ensino – aprendizagem
e, ao mesmo tempo, ao educador, refletir sobre sua
própria prática.

Portanto, consolidar uma cultura cotidiana


de reconhecimento e respeito às peculiaridades e
singularidades de cada aluno, tem possibilitado a
valorização das diferentes formas de expressividade,
principalmente a oralidade, como referencial para a
compreensão e valorização das diferntes histórias,
contextualizando-as às situações de vida cotidiana e
como forma de interação com o outro, pelas experiências
articuladas com a realidade enfrentada e trazida por
nossos alunos, contemplando-os como sujeitos de sua

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


314
Mônica Regina Jacinto Reis

história,capazes de atuar criticamente na realidade que


os cerca.

Quando aceitamos o desafio de considerar o


conhecimento na perspectiva de uma construção,
apropriamo-nos das teorias de Piaget e Vygotsky para
basear nossas ações pedagógicas, transformando
a relação professor / aluno em ricos momentos no
processo ensino-aprendizagem. Conquanto essa
relação nos coloque diante de práticas e políticas
voltadas para o respeito, melhor enxergaremos nossos
alunos em suas potencialidades humanas, criadoras,
singulares e diferentes. Melhor ouviremos suas vozes,
expressividades, complementos e silêncios. Melhor
buscaremos construir possibilidades pedagógicas a
partir de necessidades e potencialidades.

De tal forma, as “Histórias de Todos Nós”


continuam movimentando alunos e toda a comunidade
escolar da Escola Ana do Nascimento Souza de
Educação Especial, pois, assim como Gomes (2007),
acreditamos que a convivência com a diferença é salutar
para a reeducação do nosso olhar, dos nossos sentidos
e de nossa visão de mundo, tanto quanto o aprendizado
do imperativo ético que esse processo traz.

Considerando os desdobramentos e ações


que estão sendo possíveis com o desenvolvimento do

Políticas Públicas em Saúde Mental - Capítulo VII - Pág. 278-317


RELATO E ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA COM ALUNOS COM NECESSIDADES
315
EDUCACIONAIS E ESPECIAIS: projeto histórias de todos nós - conhecer, valorizar e transformar.

Projeto “Histórias de Todos Nós”, até aqui, o que de


forma mais compreensível melhor ilustra os resultados
obtidos e análises, metaforicamente, seria a comparação
da sala de aula com um jardim florido. Nessa ótica, nos
indagamos:

- Por que os jardins florescem?

Pensando na singularidade de cada aluno,


apostando na capacidade de cada um construir saídas
e expressões singulares para as limitações que a
existência lhes impõe, certos estamos de que os jardins
florescem porque flores diferentes são capazes de viver
e conviver juntas, sem que umas tirem ou minimizem o
perfume e a beleza de outras, mesmo que muitas não
possam ter suas pétalas definidas em sua completude,
e ainda, mesmo que cada uma tenha seu tempo certo
para germinar e florir.

Referências

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Humana. São Paulo: Didática Paulista, 2004.

CANEN, Ana. Organização dos tempos escolares.


Coleção Veredas - Formação Superior de Professores.
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CECCON. C. e Oliveira. M. A vida na escola e a escola


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GOMES, Nilma Lino. Indagações sobre o currículo:


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GUTRFREIND, Celso. Vida e Arte: a expressão humana


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SENRA, Ana Heloisa. Inclusão e Singularidade:


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318

Autores e organizadores
ALMEIDA, Bruno Vasconcelos de. Graduação em
Psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas
da Fundação Mineira de Educação e Cultura de
Belo Horizonte (FCH/FUMEC). Especialização em
Saúde Mental: Família e Comunidade pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e
em Administração de Serviços de Saúde pela UNAERP.
Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Doutorado
em Psicologia Clínica pela PUC-SP e, atualmente, pós-
doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG). Professor na PUC-MG e na FaPP/
CBH/UEMG. http://lattes.cnpq.br/8613658334369276
ÁVILA, Luiz Augusto Lima de. Graduação em Direito
pela Universidade Cândido Mendes. Especialização
em Filosofia pela PUC-MG e em Direito Processual,
em Direito do Trabalho e em Direito Empresarial pela
Faculdade de Direito do Oeste de Minas. Mestrado em
Teoria do Direito e em Direito Internacional e Comunitário
pela PUC-MG. Doutorado em Linguística e Língua
Portuguesa pela PUC-MG. Professor na Faculdade
Mineira de Direito (FMD), na PUC-MG e na FaPP/CBH/
UEMG. http://lattes.cnpq.br/3413301061328951
CASTRO, Carmem Lúcia Freitas de. Graduação
em Direito pela UFMG. MBA executivo em Gestão
de Instituição de Ensino Superior pela Universidade
Presidente Antônio Carlos (UNIPAC). Diretora da FaPP/
CBH/UEMG. Coordenadora do Núcleo de Formação
Continuada de Conselheiros Tutelares e de Direito do
Estado de Minas Gerais e do Observatório Estadual
dos Direitos da Criança e do Adolescente. http://lattes.
cnpq.br/1219249095318987
319

COSTA, Annette Souza Silva Martins da. Graduação em


Enfermagem e Obstetrícia pela PUC-MG. Especialização
em Enfermagem Psiquiátrica e em Sistematização da
Assistência de Enfermagem pela PUC-MG. Mestrado em
Enfermagem pela UFMG. Doutorado em Enfermagem
pela Universidade de São Paulo (USP). Professora na
Escola de Enfermagem da UFMG. http://lattes.cnpq.
br/8166614311904899
GONTIJO, Cynthia Rúbia Braga. Graduação em
Pedagogia pela Faculdade de Educação da UEMG.
Especialização em Gestão Social pela Escola de
Governo da Fundação João Pinheiro (FJP). Mestrado em
Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação
Tecnológica do Estado de Minas Gerais (CEFET-MG).
Doutorado em Educação pela FAE/UFMG. Vice-diretora
e Professora da FaPP/CBH/UEMG. http://lattes.cnpq.
br/9643980375076522
KURIMOTO,Teresa Cristina da Silva. Graduação em
Enfermagem e em Psicologia pela UFMG. Mestrado
em Enfermagem pela UFMG. Atualmente doutoranda
na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
de Campinas (UNICAMP). Professora na Escola
de Enfermagem da UFMG. http://lattes.cnpq.
br/5469905336655570
LOPES, Fernanda Tarabal. Graduação em Psicologia
e, mestrado e doutorado em Administração pela UFMG.
Assessora da Reitoria/UEMG. Professora na PUC-
MG e na FaPP/CBH/UEMG. Pesquisadora do Núcleo
de Estudos Organizacionais e Psicanálise (NEOP) e
do Núcleo de Estudos Organizacionais e Sociedade
(NEOS). http://lattes.cnpq.br/4933468482590261
320

PAULA, Ana Paula Paes de. Graduação em


Administração de Empresas pela USP. Mestrado em
Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio
Vargas de São Paulo (FGV-SP). Doutorado em Ciências
Sociais pela UNICAMP. Professora e pesquisadora
do CEPEAD-UFMG. Subcoordenadora do Núcleo de
Estudos de Gestão Pública (NEGP) e do Núcleo de
Estudos Organizacionais e Sociedade (NEOS). http://
lattes.cnpq.br/4117542128793688
REIS, Mônica Regina Jacinto. Graduação em Normal
Superior pela UEMG. Pós-graduação em Psicopedagogia
e em História da África e Cultura Afro-brasileira pelo
Instituto Pedagógico de Minas Gerais (IPEMIG).
Professora na Escola Ana do Nascimento Souza da
Rede Municipal de Ensino de Nova Lima. Assessora
técnica em Educação das Relações Etnicorraciais da
Coordenadoria de Políticas Públicas de Promoção de
Igualdade Racial de Nova Lima.
SILVA, Mônica Eulália da. Graduação em Psicologia
pelo Unicentro Newton Paiva. Pós-graduação em
Psicanálise e Direito, e mestrado em Psicologia pela
PUC-MG. Professora na Faculdade Pitágoras e na FaPP/
CBH/UEMG. http://lattes.cnpq.br/8704614484355256
SILVEIRA, Marília Rezende da. Graduação em
Enfermagem e Obstetrícia pela UFMG. Mestrado e
Doutorado em Enfermagem pela UFMG. Professora na
UFMG. http://lattes.cnpq.br/8802693863812062
SILVEIRA, Ricardo Wagner Machado da. Graduação
em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia
(UFU). Mestrado e Doutorado em Psicologia Clínica
321

pela PUC-SP. Professor do Instituto de Ensino Superior


da UFU. http://lattes.cnpq.br/7915690637782350
TEJERA, Marisa Estela Sanabria. Graduação em
Psicologia pela Universidad Católica de Montevideo.
Mestrado em Filosofia pela UFMG. Professora na
UNIPAC. Psicóloga supervisora da Clínica do Feminino.
http://lattes.cnpq.br/5998699901690260
VIANNA, Paula Cambraia de Mendonça. Graduação
em Enfermagem pela UFMG. Especialização em
Enfermagem Psiquiátrica pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestrado em Enfermagem
pela UFMG. Doutorado em Enfermagem pela USP.
Presidente da Associação Brasileira de Enfermagem,
Seção Minas Gerais (ABEn-MG). Assessora técnica
da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais
(SEE-MG). Vice-diretora e Coordenadora de Programas
e Projetos da Escola de Formação e Desenvolvimento
Profissional de Educadores (Magistra). Coordenadora
da Câmara Técnica de Saúde Mental do COREN-MG.
http://lattes.cnpq.br/3028064067925093