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Diplomacia 360 graus – Módulo Atena – Direito Internacional Público – Aula 14

Prof. Guilherme Bystronski – 30.10.2018

REFÚGIO

A terceira vertente da proteção internacional da pessoa humana é formada pelo Direito


Internacional dos Refugiados. São normas de direitos humanos que se destinam a administrar o
deslocamento de pessoas que abandonam seu Estado de nacionalidade e a ele não podem
retornar devido a fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade,
pertencimento a grupo social ou opiniões políticas.

→ Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados (e seu Protocolo Adicional de 1967):

O Protocolo Adicional de 1967 foi importante para derrubar barreiras temporais e geográficas
que existiam originalmente na Convenção de 1951.

→ Brasil:
- Lei no 9.474/97 – Estatuto dos Refugiados
- Lei de Migração (13.445/17) complementou o Estatuto dos Refugiados.

O Estatuto dos Refugiados foi influenciado por uma declaração regional – a “Declaração de
Cartagena das Índias”, de 1984.

→ Lei no 9.474/97 – artigo 1o – cláusulas de inclusão:

“Lei no 9.474/97. Art. 1º Será reconhecido como


refugiado todo indivíduo que:
I - devido a fundados temores de perseguição por
motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo
social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu
país de nacionalidade e não possa ou não queira
acolher-se à proteção de tal país;
II - não tendo nacionalidade e estando fora do país
onde antes teve sua residência habitual, não possa
ou não queira regressar a ele, em função das
circunstâncias descritas no inciso anterior;
III - devido a grave e generalizada violação de
direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de
nacionalidade para buscar refúgio em outro país.
(...)”

Além de repetir a cláusula geral contida na Convenção de 1951, prevê que também é refugiado
aquele que abandona seu Estado de nacionalidade devido a graves e generalizadas violações de
direitos humanos.

Nesse sentido, hipóteses que a nossa legislação não contempla em matéria de refúgio, como a
que envolve questões ambientais, foram, pela Lei de Migração, em particular em seu artigo 14,
§ 3o, deixadas para a acolhida humanitária.
“Lei no 13.445/17. Art. 14. (...)
§ 3o O visto temporário para acolhida humanitária
poderá ser concedido ao apátrida ou ao nacional de
qualquer país em situação de grave ou iminente
instabilidade institucional, de conflito armado, de
calamidade de grande proporção, de desastre
ambiental ou de grave violação de direitos
humanos ou de direito internacional humanitário,
ou em outras hipóteses, na forma de regulamento.
(...)”

Em casos que envolvem o apátrida, tanto no Direito Internacional quanto no Direito brasileiro,
o refúgio envolve perseguição no Estado de residência habitual.

Ao trabalharmos com as cláusulas de inclusão que se encontram na Convenção de 1951 e na


Lei no 9.474/97, devem ser considerados 2 (dois) elementos:
1) Elemento subjetivo: Brasil vai averiguar a existência de fundado temor de perseguição.
2) Elemento objetivo: Brasil vai verificar se a perseguição mencionada existe de fato.

→ Cláusulas de cessação e cláusulas de exclusão.


- Convenção de 1951. Art. 1o.
- Lei no 9.474/97. Cláusulas de exclusão (art. 3o); Cláusulas de cessação ou perda (arts. 38 e 39).

O refugiado, em virtude do disposto no artigo 7o da Convenção de 1951, tem, no mínimo,


direitos equivalentes aos dos estrangeiros residentes naquele país. Há diversos direitos em que
a proteção tem que ser a mesma conferida aos nacionais. Um exemplo disso é o direito à
liberdade religiosa.
“Convenção de 1951 sobre o Estatuto de
Refugiados.
1. Ressalvadas as disposições mais favoráveis
previstas por esta Convenção, um Estado
Contratante concederá aos refugiados o regime
que concede aos estrangeiros em geral. (...)”

Lei no 9.474/97. Art. 2o. Permite a reunião familiar. Familiares do refugiado no Brasil podem
requerer a extensão da condição de refugiados a eles também.

“Lei no 9.474/97. Art. 2º Os efeitos da condição


dos refugiados serão extensivos ao cônjuge, aos
ascendentes e descendentes, assim como aos
demais membros do grupo familiar que do
refugiado dependerem economicamente, desde
que se encontrem em território nacional. (...)”

Para gozar desse direito, os familiares devem estar no Brasil. O governo brasileiro pode facilitar
a concessão de vistos para a família que ainda se encontra no país de nacionalidade do
refugiado, mas não tem obrigação de trazê-los para o Brasil.
❖ Pontos importantes da Lei no 9.474/97

→ Artigos 7o e 8o:
Refúgio pode ser requerido à primeira autoridade migratória que a pessoa em questão
encontrar no Brasil. A situação migratória irregular não impede em absoluto a concessão de
refúgio pelo Brasil.

“Art. 7º O estrangeiro que chegar ao território


nacional poderá expressar sua vontade de solicitar
reconhecimento como refugiado a qualquer
autoridade migratória que se encontre na
fronteira, a qual lhe proporcionará as informações
necessárias quanto ao procedimento cabível.
§ 1º Em hipótese alguma será efetuada sua
deportação para fronteira de território em que sua
vida ou liberdade esteja ameaçada, em virtude de
raça, religião, nacionalidade, grupo social ou
opinião política.
§ 2º O benefício previsto neste artigo não poderá
ser invocado por refugiado considerado perigoso
para a segurança do Brasil.

Art. 8º O ingresso irregular no território nacional


não constitui impedimento para o estrangeiro
solicitar refúgio às autoridades competentes. (...)”

→ Artigos 21 e 22.
Enquanto o pedido de refúgio é examinado, a pessoa em questão possui direito a residência
provisória no Brasil, incluindo os familiares que eventualmente estiverem com ela. Essa pessoa
poderá, enquanto aguarda, obter carteira de trabalho provisória e CPF, para que possa exercer
seus direitos aqui.

“Art. 21. Recebida a solicitação de refúgio, o


Departamento de Polícia Federal emitirá protocolo
em favor do solicitante e de seu grupo familiar que
se encontre no território nacional, o qual
autorizará a estada até a decisão final do processo.
§ 1º O protocolo permitirá ao Ministério do
Trabalho expedir carteira de trabalho provisória,
para o exercício de atividade remunerada no País.
§ 2º No protocolo do solicitante de refúgio serão
mencionados, por averbamento, os menores de
quatorze anos.

Art. 22. Enquanto estiver pendente o processo


relativo à solicitação de refúgio, ao peticionário
será aplicável a legislação sobre estrangeiros,
respeitadas as disposições específicas contidas
nesta Lei. (...)”
Artigo 32. Proibição do refoulement (rechaço).
A Convenção de 1951 impede, enquanto regra, que o refugiado seja devolvido ao Estado onde
sofre perseguição. Princípio do non-refoulement é costume internacional geral. Mesmo os
países que não participam na Convenção de 1951 não podem rechaçar para o Estado de
nacionalidade. Deverá haver, nesse caso, o reassentamento da pessoa em um terceiro país, com
o envolvimento do ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados).

“Art. 32. No caso de recusa definitiva de refúgio,


ficará o solicitante sujeito à legislação de
estrangeiros, não devendo ocorrer sua
transferência para o seu país de nacionalidade ou
de residência habitual, enquanto permanecerem
as circunstâncias que põem em risco sua vida,
integridade física e liberdade (...)”

CONSELHO NACIONAL PARA OS REFUGIADOS (CONARE)

Órgão do Ministério da Justiça responsável por analisar em primeira instância pedidos de


refúgio. Haverá sempre a participação, como observador (sem direito a voto), do ACNUR, que
dará apenas sua opinião sobre o reconhecimento ou não da condição de refugiado da pessoa
em questão, sem direito de conceder o refúgio em si.

Em matéria de refúgio, estamos diante de ato de natureza declaratória, e não constitutiva.


Aqueles que preenchem os requisitos para serem refugiados possuem direito subjetivo ao
refúgio. Se o CONARE denegar o pedido de refúgio, cabe recurso ao Ministro da Justiça (artigos
29 a 32, da Lei no 9.474/97).

❖ Outros pontos importantes da Lei no 9.474/97:

→ Artigo 36. Permite a expulsão do refugiado por crimes graves contra a ordem pública ou
segurança nacional.

→ Artigo 37. Essa expulsão nunca poderá ser efetivada para o Estado de nacionalidade. Nossa
lei é mais protetiva.

→ DIREITO INTERNACIONAL: Artigo 33, § 2o, da Convenção de 1951. Expulsão para o Estado de
nacionalidade em situações gravíssimas.

“Artigo 33.
§ 2o O benefício da presente disposição não
poderá, todavia, ser invocado por um refugiado
que por motivos sérios seja considerado um perigo
para a segurança do país no qual ele se encontre ou
que, tendo sido condenado definitivamente por
crime ou delito particularmente grave, constitui
ameaça para a comunidade do referido país. (...)”
ASILO POLÍTICO

→ O asilo politico pode ser tanto territorial quanto diplomático:

Asilo territorial: quando a pessoa que o requer alcança o território do Estado asilante.

Asilo diplomático: pode ser requerido em missão diplomática, navios, aeronaves e


acampamentos militares no exterior.

OBS.: não há a possibilidade de requerimento de asilo diplomático em repartição consular.

→ NO BRASIL:
- Lei de Migração (Lei no 13.445/17).
- Decreto no 9.199/17.

Art. 27 da Lei de Migração: ato discricionário do Poder Executivo; ato de natureza constitutiva.

“Lei no 13.445/17. Art. 27. O asilo político, que


constitui ato discricionário do Estado, poderá ser
diplomático ou territorial e será outorgado como
instrumento de proteção à pessoa. (...)”

O asilado não possui direito subjetivo ao asilo, que pode ser revogado a qualquer momento.
Entretanto, a legislação brasileira, no artigo 113 do Decreto no 9.199/2017, impede a retirada
do asilado para país onde sua vida ou integridade física estejam em jogo.

“Decreto no 9.199/17. Art. 113. Em nenhuma


hipótese, a retirada compulsória decorrente de
decisão denegatória de solicitação de asilo político
ou revogatória da sua concessão será executada
para território onde a vida e a integridade do
imigrante possam ser ameaçadas. (...)”

Há 2 (duas) Convenções na América Latina de grande relevância sobre o tema asilo:

→ Convenções de Caracas de 1954 sobre Asilo Territorial e Diplomático.


Menciona em seu artigo 17 que o Estado asilante não pode, após a concessão do asilo e retirada
da pessoa para seu território, entregá-la novamente ao Estado da perseguição → Princípio do
non-refoulement.

“Artigo XVII.
Efetuada a saída do asilado, o Estado asilante não
é obrigado a conceder-lhe permanência no seu
território; mas não o poderá mandar de volta ao
seu país de origem, salvo por vontade expressa do
asilado. (..)”
→ Requisitos exigidos pelo Direito Internacional para que o asilo possa ser concedido:

1) É necessária a verificação de crime ou delito político.


- Decreto no 9.199/2017 – também meras opiniões políticas podem ser verificadas.

2) Urgência na concessão.
A perseguição precisa ser atual ou, no mínimo, iminente.

Com o preenchimento desses requisitos, o asilo pode ser requerido. O asilo possui natureza
humanitária, pois é uma forma de garantir os direitos humanos da pessoa que o requereu.

→ Não há direito subjetivo ao asilo.

→ Não há qualquer Convenção Universal regulando o tema, apenas tratados regionais.

→ Não há órgão específico de monitoramento para acompanhar as atitudes dos Estados.

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