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Fevereiro 2011 • Esta revista é distribuída com as edições dos jornais “Público” (edição sul), “Diário de Notícias” e “Jornal

de Notícias” de 23.02.2011

terras das
Edições Market Iniciative

www.visitazores.com
Ilhas de Bem-estar
Termalismo:
1001 Maravilhas
AÇORES
2011
02 | Fevereiro 2011
Índice| AÇORES
2011

nota editorial
Genuínos
e inesgotáveis
Uma jornada em terras açorianas deve ter por companhia o livro de Raul

Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro


Brandão intitulado “As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens”. Nessa
obra maior da literatura de viagens, o autor descobre maravilhado um
destino que não é o seu de origem. Página após página, Brandão busca
a alma das ilhas perdidas no meio do Atlântico, investiga aquilo que torna
cada parcela de Açores num lugar distinto do resto do mundo, descreve
com minúcia o sentido e o pressentido. Faz tudo isto com recurso aos
adjetivos apropriados, às metáforas perfeitas, quase como se a língua
portuguesa tivesse sido criada à medida das nove ilhas do Arquipélago,
para relatar paisagens, costumes, experiências, histórias. Porque aqui,

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


o preto da rocha de lava é cor majestática, num domínio resplandecente
que não impede o brilho das hortênsias rosadas, os verdes da floresta
laurissilva, o azul do mar alteroso transformado em branco espuma quando
embate na costa acidentada.
Tarefa ingrata a de medir por palavras, explicar por frases, abranger por
capítulos, sintetizar num livro, o que representa a experiência dos Açores.
Cada ilha tanto contribui para um conjunto harmonioso, como revela uma
identidade livre de amarras. Urge desbravá-las além da superficialidade
e encontrar a essência do azul das lagoas, dos corredores das grutas
vulcânicas, da vertigem das escarpas lávicas, da bonomia das fajãs Maravilhas: Destinos Inesquecíveis 04
aplanadas, da frescura das cascatas. Pede-se visão apurada, à procura
Maravilhas: Ilhas de Encantamento 06
dos detalhes que engrandecem o já de si magnificente. Mas é possível
ir além do que os olhos veem: este é um destino para ser sentido no Parques: Terra Nostra – Infinita Sedução 08
corpo. A génese vulcânica das ilhas presta-se a ser explorada com picos São Miguel 09
de adrenalina; na escalada de uma montanha, num voo de parapente, numa
aventura espeleológica, num mergulho subaquático. E também se empresta Whale Watching: Baleias – Encontro com Gigantes 10
à descoberta relaxante; em trilhos a passo de caracol, banhos em águas Pico 12
quentes das nascentes termais, viagens de barco à vela ao sabor do vento,
Mergulho: Encanto Subaquático 14
sabores de uma gastronomia intensa.
Este misto de experiências contemplativas e ativas encontra sempre um Praias: Emoções e Banhos 16
denominador comum: a emoção de estar-se num sítio do mundo especial Santa Maria 17
e incomparável. Os Açores são... os Açores: genuínos e inesquecíveis. Por
tudo isto, os visitantes dos Açores partem do Arquipélago já com a vontade Iatismo: Âncoras Atlânticas 18
de eterno retorno cravada no coração. Um regresso para apreciar o já Bombordo: Mar de Aventuras 20
admirado e, ainda assim, encontrar sempre uma visão diferente. E explorar
Faial 21
mais uma mão cheia de sensações singulares, proporcionadas pelo filão
inesgotável de turismo de natureza puro que dá pelo nome de Açores.  Trilhos: Cenários de Cinema 22
São Jorge 25
Ficha Técnica GeoCaching: Baú dos Tesouros 26
GeoMarket – Edições Market Iniciative Flores 26
Parque Peninsular, Rua David Mourão Ferreira, nº 5, Lote 3/4 - 1º Esq.
Vulcanismo: Mistérios Subterrâneos 28
2650-050 Amadora - PORTUGAL
Tel.: +(351) 309 991 731 email: geral@marketiniciative.com Alojamento: Acolhimento Confortável 30
Terceira 31
Edição: Market Iniciative; Direção e Coordenação Editorial: Market Iniciative
(João Teixeira); Redação: Market Iniciative (Paulo M. Morais); Fotografia: Market Termalismo: Ilhas de Bem-Estar 32
Iniciative, Futurismo, ATA, DRC, Montanheiros, Dive Azores; Foto capa: Market Enogastronomia: Sabores Marcantes 34
Iniciative (Carlos Duarte); Design e Paginação: FuturMagazine; Impressão:
Lisgráfica; Tiragem: 205.000 exemplares; Distribuição: Público (edição sul),
Graciosa 34
Jornal de Notícias e Diário de Notícias de 23 de Fevereiro de 2011. Escalada: Subir Além das Nuvens 36
Projeto desenvolvido para a Região Autónoma dos Açores com financiamento: Birdwatching: Aves de Três Continentes 38
Corvo 39
Agência Açoreana de Viagens: Parceiro de Eventos 40
Governo dos Açores Negócios: Trabalhos Prazenteiros 41
Golfe: Tacada Natural 42

Fevereiro 2011 | 03
2011 |Maravilhas
AÇORES

destinos
Inesquecíveis

A pesar da existência das várias teorias


do belo, o conceito de beleza natural assume
guardam o esplendor para quem as conhece
pessoalmente.
extinta. O feitiço obriga à descoberta de novas
perspetivas, guardadas para os 11 quilómetros
enorme carga subjetiva. Nem sempre o que A Lagoa das Sete Cidades cresce além da vista do trilho PR4SMI entre a Mata do Canário
agrada a um observador, agrada a outro. digna de monarca. Sim, a imagem das duas e as Sete Cidades. O trajeto, classificado como
Toda a regra tem exceções e algumas lagoas está captada. Agora falta explorar-lhe fácil, demora três horas a percorrer. Mas
delas encontram-se nos Açores. Elevadas a alma, naquela que representa uma porta essa cronometragem serve apenas quem não
pelos votos dos portugueses à categoria de entrada para a experiência açoriana. efetuar paragens para apreciar, sem demoras,
de Maravilhas Naturais de Portugal, a Lagoa O primeiro passo é retirar os olhos dos espelhos os deslumbres encontrados. Como o aqueduto
das Sete Cidades e a Paisagem Vulcânica de água e olhar as encostas circundantes. conhecido por Muro das Nove Janelas, onde
da Ilha do Pico representam dois casos onde Como será a vista do outro lado da caldeira? pedra e vegetação vivem em simbiose.
a beleza é sublime e consensual. A partir desse momento de dúvida, está lançado A ascensão até à vertente norte da Cumeeira
o feitiço. Para quebrá-lo, é forçoso conhecer da Lagoa Azul promete dificuldades que
Bilhete-postal da ilha de São Miguel, a Lagoa outras panorâmicas desta maravilha, missão se verificam irreais, quando combatidas por
das Sete Cidades conquista com facilidade a cumprir, em total segurança, através de dois pausas para apreciar magníficas panorâmicas,
o coração de quem a encontra pela primeira percursos pedestres devidamente assinalados. degustar o farnel transportado – o queijo
vez. Não é para menos, face ao jogo amoroso O PR3SMI leva-nos da Vista do Rei até às Sete da ilha a desfazer-se na boca enquanto
entre a Lagoa Verde e a Lagoa Azul, vincado Cidades. Duas horas de caminhada fácil pela se admira o voo de um melro-preto –, inspirar
no contraste entre os tons diferenciados das vertente oeste da Cumeeira da Caldeira das a pureza que domina a atmosfera. Cada
respetivas águas, num enquadramento de rocha Sete Cidades. De um lado, a extensa Caldeira passada neste contorno equivale à promessa
coberta de vegetação e flores. Do Miradouro Seca, bonita língua de terreno aplanado cumprida de novos êxtases. E assim se chega
da Vista do Rei, o maravilhamento é dado coberta por vários tons de verde. Do outro, de novo à freguesia das Sete Cidades, já na
garantido. Perde-se uma eternidade de minutos a costa oeste de São Miguel. O caminho plena consciência de se estar perante uma
a tentar captar numa imagem a perfeição das de terra batida, a certa altura, mostrará uma Maravilha de Portugal, eleita na categoria
Sete Cidades, mas o resultado no pequeno cortada com destino à freguesia das Sete de Zonas Aquáticas não Marinhas.
ecrã ficará sempre aquém daquilo que os olhos Cidades. Não se fuja da descida, mas fique-se Cresce então a vontade de regressar para
veem. É a magia própria das paisagens que ciente que a descoberta da Lagoa não está trás, refazer este e aquele trilho, fazer das

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Maravilhas | AÇORES
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A prova ficou nas “rilheiras”, sulcos deixados


pelos rodados dos carros de bois no extenso
manto cinzento. Nas áreas de escoadas lávicas
do tipo aa, a maciez dá lugar a uma aparência
áspera, desordenada, como se fosse uma
obra de colagem de pedra bruta. Por vezes,
a natureza esculpiu formas estranhas nestes
“biscoitos” à beira-mar plantados, ao sabor
do vento e das marés; como a cabeça de cão
no lugar de Cachorro.
A herança vulcânica da ilha do Pico é, assim,
propensa a atos de imaginação e motivo
de estranha contemplação. Os campos de lava
chamados localmente de “mistérios” propagam
este poder de sugestão. Fruto das erupções
datadas de 1562-64, a paisagem de magma
solidificado viu-se povoada de vegetação,
numa prova de que nascem cores viçosas
até do negro mais profundo. Será opção
inteligente percorrer o trilho denominado
Caminho dos Burros, extensão máxima de 8,4
quilómetros projetados para serem cumpridos
em três horas e meia. É neste percurso que
se encontram os “Cabeços do Mistério”, cobertos
de uma vegetação rasteira que esconde a alma
vulcânica do Pico, e se chega ao Parque Florestal
do Mistério da Prainha, embelezado por plantas
endémicas, como a urze e o cedro-do-mato,
e promontório privilegiado para admirar o dorso
espraiado da ilha de São Jorge.
Ainda assim, o Pico vulcânico não está extinto.
Há o tubo lávico da Gruta das Torres para
explorar, os ilhéus dos cones vulcânicos
submarinos da Madalena ou o Cabeço Debaixo
da Rocha para mirar e... e o Pico, dito montanha,
que em todo este trajeto nunca deixou
de assinalar a sua presença magnética. Atração
Sete Cidades - São Miguel
semelhante à provocada por um conjunto
de nove ilhas atlânticas, a descobrir em ritmo
calmo ou acelerado, simples ou aventuroso. Mas
Sete Cidades uma obsessão. Sim, porque esta que parecem ter sofrido a intervenção humana, sempre numa experiência sem igual, que só
maravilha não se esgota numa vista digna verdadeiras autoestradas naturais utilizadas em pode ser proporcionada por um local abençoado
de rei. A área da Lagoa das Sete Cidades é um tempos para o transporte das pipas de vinho. pelas maravilhas da natureza. 
movimento de encanto perpétuo que pode ser
explorado por vários dias. E mesmo assim, será
sempre capaz de gerar uma nova surpresa.

Vestígios de grandeza
A outra Maravilha Natural de Portugal que
se pode encontrar nos Açores – o que torna
a região autónoma na área mais premiada
do território português – insere-se na categoria
dos Grandes Relevos. Designação adequada
para esta Paisagem Vulcânica da ilha do Pico,
que engloba o ponto mais alto de Portugal.
Os 2351 metros de altura da montanha do Pico
mostram-se num formato cónico perfeito, onde
nem sequer falta o piquinho a tocar o céu. Este
Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

vulcão que atrai todas as atenções, representa


apenas um dos vestígios da natureza ardente
que forjou os Açores.
O resultado das erupções vulcânicas – ora num
negrume intenso, ora num cinzento reforçado
– espraia-se por várias partes da ilha, criando
diferentes tipos de paisagem. Como os campos
Montanha do Pico
de lava do tipo pahoehoe, superfícies tão lisas

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2011 |Maravilhas
AÇORES

ilhas de
Encantamento
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

Flores – Poço da Alagoinha


Mirante privilegiado para o conjunto de quase 20 cascatas que escorrem sobre uma imensa parede coberta de verde, numa sinfonia de cores, sons e emoções.

P or vezes, as paisagens mais famosas


fazem sombra a outras menos conhecidas.
desvendar, das faladas às ainda secretas.
Por isso, citar mais alguns dos prodígios
oportunidade; apenas significa que haverá sempre
novos e diferentes locais, ansiosos por arrebatar
Os Açores têm duas das 7 Maravilhas Naturais da natureza que se podem encontrar nos os visitantes. Nestas nove ilhas atlânticas,
de Portugal. Mas podia ter as 7 ou até 70... As Açores, pecará sempre pela escassez. é mesmo possível que cada pessoa encontre
ilhas do Arquipélago são uma fonte inesgotável um recanto exclusivo que corresponde, como
de lugares especiais. Esta é a autêntica terra Ainda bem. O que poderia ser encarado como em nenhum outro lugar do mundo, à sua definição
das 1001 maravilhas, das conhecidas às por uma tremenda injustiça, é afinal uma enorme individual do que é o... deslumbramento. 

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Maravilhas | AÇORES
2011

Faial – Vulcão dos Capelinhos


Extensa “superfície lunar” cinzenta pontuada por um farol despido e a terminar abrupta no mar azulado, num quadro surrealista pintado pela força
criadora do Vulcão dos Capelinhos.

São Jorge – Fajã da Caldeira de Santo Cristo Terceira – Mistérios Negros


Condensado de sensações assombrosas, apenas acedíveis por caminho Três domos, resultantes de lavas de erupções vulcânicas recentes,
pedestre, impressas tanto no sabor ímpar de uma amêijoa como juntam esforços para prender os visitantes num sortilégio de tons
na paisagem de beleza excecional. negros que sobressaem do verde circundante.

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

Santa Maria – Barreiro da Faneca Graciosa – Ilhéu da Baleia


Planície ondulada de terra avermelhada, num tesouro tímido de argila Rocha vulcânica que deu à costa na forma de baleia, atraída pela luz
que ganha vida sob os raios dourados do sol poente e nos remete para do farol imaginário que entretanto o homem concretizou, para poder
paisagens de Marte. apreciar do cimo esta dádiva da natureza.

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2011 |Parques
AÇORES

Terra Nostra
Infinita
sedução

Fotos: Market Iniciative


O Parque Terra Nostra é um repositório
de inúmeras espécies de árvores e plantas
-se perante os fetos viçosos e a alameda das
gingko biloba. Sonha no Vale das Cycadáceas,
observadas ao longo do jardim. Medra a certeza
de estar-se perante um património histórico
capaz de extasiar desde o botânico mais ao conhecer uma compilação única destes irrepetível, felizmente preservado e dinamizado
conhecedor ao simples amante da natureza. “fósseis” vivos, antecedentes aos dinossauros, por gente apaixonada. Tudo para deleite
Para qualquer um deles, circular nos provenientes de várias partes do mundo. do visitante, já enxuto e a caminho de mais
recantos deste paraíso colorido será uma E também estaca perante a delicadeza dos uma gloriosa descoberta no Terra Nostra. 
experiência para repetir uma e outra vez. metrosideros, camélias (pertencentes a uma
colecção com mais de 600 variedades),
Jardim bicentenário, o Parque Terra Nostra azáleas. Traça-se então caminho, à procura
é um jardim em constante mutação. Parte desta de mais detalhes, de raridades como o pinheiro
mudança é realizada pelas próprias espécies, nobilis-wollemi, do reconhecimento de cada
em danças próprias da passagem das estações metro de Terra Nostra, cada regato e riacho,
do ano. Mas há outras transformações que cada gota de orvalho pendente de diferentes
assumem toque humano, por exemplo, através tonalidades de verde.
da introdução de novas espécies. Deste modo, A viagem termina sem sequer ter começado.
o espólio botânico e arbóreo iniciado em 1780 Falta o lago com nenúfares, a encosta de
por Thomas Hickling, então cônsul dos Estados hortênsias, o jardim de plantas endémicas, Lago artificial de águas férreas
Unidos da América na ilha de São Miguel, tem os eucaliptos, o canteiro de flores anuais
conhecido uma evolução constante. Razão e o resto das 200 espécies e milhares de
porque mesmo os que repetem a visita ao Terra variedades inseridas no perímetro do parque.
Nostra, sentem uma emoção semelhante Um museu natural, devidamente ordenado
à da primeira vez. e classificado, que cerca de beleza as escassas
O jardim teve sucessivos proprietários construções humanas, como a gruta romântica,
ao longo dos anos, estando nas mãos o mirante conhecido por “O Açucareiro”,
da família Bensaude desde os anos 30. a Memória aos Viscondes da Praia e a Casa
Atualmente acarinhado por patronos e alvo do Parque, com vista para as águas castanho-
dos cuidados de uma equipa muito entusiasta -dourado do lago artificial de água férrea.
de jardineiros, o Terra Nostra alia o grandioso Enquanto o corpo aquece nas águas quentes,
ao detalhe. O visitante pasma perante o porte a mente relaxa ao sabor das impressões
Coleção de cycadáceas
das sequóias, carvalhos, araucárias. Admira- deixadas pelas árvores, plantas e flores

08 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

SÃO MIGUEL

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Lagoa do Fogo

A alma da maior ilha açoriana é um


contraste entre o branco e negro ardente
chove miudinho. O mesmo acontece na mais
virgem Cascata Velha, lá para a Ribeira Grande,
da Igreja do Espírito Santo e a popular Ponte
dos Oito Arcos. Percebe-se, num instante, que
das cidades e o verde e azul da terra encontrada após um delicioso percurso pedestre a arquitetura de São Miguel tem alma de fogo
a bailar com o mar. Um tom acobreado, entre vegetação frondosa. Ou nos miradouros a preto e branco. E o coração arde, apaixonado
rasto deixado pelas águas ferrosas das semeados pela costa do Nordeste da ilha, por este ponto no Atlântico. 
nascentes geotérmicas, faz a ponte entre a servirem panorâmicas que agasalham.
estes dois mundos tão distintos quanto Altura de descer à cidade, seja na Povoação
complementares. dispersa pelas sete lombas avistadas
do Miradouro da Lomba do Cavaleiro, ou
Sim, há essa maravilha chamada de Lagoa das em Vila Franca do Campo, onde se comem
Sete Cidades. Mas São Miguel, na sua grande de enfiada as queijadas locais enquanto
extensão, é um universo de diversidade, que se observa o pôr-do-sol além do Ilhéu da Vila
integra paisagens naturais e citadinas. Não a convidar a um banho no seu cone vulcânico.
é preciso afastarmo-nos muito da afamada As freguesias micaelenses são quase todas
lagoa verde separada por um fio de pedra à beira-mar. Eis a Caloura, terra de porto
da lagoa azul. Por perto, há outras lagoas e piscina natural, adiante Lagoa e, num círculo
mais pequenas que ainda assim pedem meças que se fecha perto das Sete Cidades,
na escala do belo, provocando a fantasia os Mosteiros decorados com um ilhéu ao largo.
com nomes estranhos... Éguas, Empadadas, Deixou-se para o fim o que pode vir em
do Canário, de Santiago, Rasa e do Caldeirão primeiro: Ponta Delgada, capital económica
Grande, do Carvão, Pau Pique. do Arquipélago, casa dos arcos emblemáticos
Prossigamos até outras duas lagoas, gigantes das Portas da Cidade (1783) e da estreita igreja
novamente em tamanho e fascínio. No onde se guarda com devoção a Imagem
mirante para a dita do Fogo suspende-se do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Prodigiosa
a respiração e o tempo; nas Furnas contorna- é igualmente a Igreja do Colégio, Núcleo de Arte
-se o vasto espelho de água até encontrar Sacra do Museu Carlos Machado e repositório
a fantasmagórica ermida gótica de Nossa do maior retábulo de madeira existente
Igreja do Colégio
Senhora das Vitórias. Sinal do que espera em Portugal, exemplo virtuoso da arte
o visitante no vale das Furnas, imerso numa decorativa da talha dourada.
névoa brotada das fumarolas e caldeiras Falta visitar o museu ao ar livre chamado Ribeira
de águas geotérmicas. Entra-se num dos Grande, onde se descobrem com facilidade
tanques da Poça da Dona Beija para sentir inúmeras lições do jogo cromático entre o negro
na pele o efeito da nascente de água sulfurosa, da pedra basáltica e o branco da alvenaria.
que corre a 38º C. Em redor, um cenário Despedidas só após a apreciação da escadaria
de relva tratada, fetos e árvores, canteiros e torre sineira, ambas escuras, da Igreja de Nossa
Plantação de chá
de flores, acolhe os banhistas mesmo quando Senhora da Estrela, a extravagância barroca

Fevereiro 2011 | 09
2011 |Whale Watching
AÇORES

baleias
Encontro com giga
O s Açores são exemplares no modo como
se sustenta o presente e o futuro preservando
já existente. Avistar um cachalote é, por isso, ver
um cenário típico e intrínseco aos Açores.
outubro, mais o golfinho-de-risso, ocasionalmente
o golfinho-riscado...
o passado. O Arquipélago em tempos dado Além da intensidade histórica e cultural deste Há operadores turísticos especializados
à caça da baleia, indústria que foi sustento encontro, junta-se a emoção de conhecer um na observação de cetáceos em várias ilhas,
de várias famílias, transformou-se num dos mamíferos mais fantásticos da terra. Será embora grande parte esteja concentrada em São
santuário de proteção de cetáceos. Hoje quase um quebra-cabeças sem solução o facto Miguel, Terceira, Faial e Pico, esta a ilha de maior
em dia, baleias e golfinhos de várias espécies dum animal de tamanho porte conseguir ser tão tradição baleeira. A deslocação no mar pode ser
nascem e vivem em paz nas águas açorianas. gracioso. Ninguém ficará indiferente ao charme feita nos tradicionais botes semirrígidos ou nos
tímido do cachalote. E como se não bastasse barcos de maior porte, devidamente adaptados
O cachalote é simbólico: representa em simultâneo a presença assídua destes gigantes de cabeça a esta prática, que já existem no arquipélago.
décadas de história açoriana, envolta nos cheiros quadrangular e pele cinzenta, há registo de cerca A experiência a bordo é bem diferente. Nos
da indústria da baleia, mas também uma nova de 30 espécies diferentes de cetáceos, entre semirrígidos sente-se um contacto mais próximo
consciência de proteção da fauna e flora baleias e golfinhos residentes e migratórios, que com o mar, com a adrenalina a subir perante os
do nosso planeta. Espécie residente nas águas se avistam neste pedaço de Atlântico. Ao todo, saltos e a velocidade imprimida. Nas embarcações
do Arquipélago, é comum encontrarem-se grupos os Açores têm cerca de um terço do total mais compridas, prima a estabilidade e o conforto.
de fêmeas com crias durante praticamente todo de espécies atualmente existentes no mundo. É comum que as viagens sejam acompanhadas
o ano. Os machos abandonam este santuário Quase dá para iniciar – ou completar – uma por bandos de golfinhos que interagem com os
durante o verão para rumarem, isolados, coleção de avistamentos. Os cachalotes em visitantes humanos. Melhor ainda é descer ao mar
a destinos mais a norte. Mas acabam por qualquer altura (embora a época alta seja entre e nadar junto deles, no respetivo habitat natural,
regressar na época de reprodução ao mar abril e outubro), as baleias de barbas de março atividade que integra os programas de alguns
amistoso que tão bem conhecem. Deste modo, a junho, o mesmo para a gigantesca baleia azul... operadores. Uma coisa é certa: ir aos Açores
o número de cachalotes com bilhete de identidade e os simpáticos golfinho-comum e roaz-corvineiro e ficar sem conhecer uma ou mais espécies
açoriano continua a crescer, aumentando a colónia sempre presentes, o golfinho-pintado de junho a de cetáceos, é bem mais difícil do que ir a Roma

10 | Fevereiro 2011
Whale Watching | AÇORES
2011

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Regata de botes baleeiros

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


ntes
Foto: Futurismo

Museu da Indústria Baleeira - São Roque - Pico

e não ver o Papa. Neste santuário atlântico,


as baleias e os golfinhos estão em casa. E fazem
questão de receberem os visitantes. 

Vigias solitários
Atualmente, algumas das torres de vigia que
antigamente serviam de abrigo aos homens
que perscrutavam o horizonte em busca
de presas, continuam a ser utilizadas por gente
de olhos no binóculo. Profissão que exige
paciência, repleta de horas solitárias à espera
da companhia da baleia, os vigias ganham
experiência na observação atenta dos sinais
marítimos; o esvoaçar agitado de bandos de
cagarros junto ao mar, prenúncios de cardumes
de atum ou chicharro, alusões à baleia
submersa invisíveis aos leigos na matéria. E de
repente, confirma-se: baleia à vista. É tempo
Foto: Futurismo

de os barcos se lançarem ao mar e de o vigia


serenar. Hoje haverá rostos felizes.

Fevereiro 2011 | 11
2011 |Whale Watching
AÇORES

O bom gigante azul


Espécies há muitas, mas ver uma baleia azul frequente destes mamíferos que chegam
é pura magia. Além de estarmos perante a medir 30 metros e a pesar 150 toneladas.
o maior animal terrestre, a quantidade Face à raridade e à dimensão deste gigante
de espécimes existente a nível mundial de pele azul acinzentada e cabeça achatada,
tornou-se tão diminuta, que cada vez mais ter a oportunidade de observar uma baleia
é difícil avistá-lo. Nos últimos anos, os Açores azul representa um momento muito especial
têm sido afortunados com a passagem na vida de qualquer pessoa.

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

M esmo à distância, sente-se


o peso da montanha. O ponto mais alto
de Portugal emana uma energia seminal
a todo o território envolvente e avança
mar adentro até tocar nas ilhas adjacentes.
Paragem mítica na história baleeira
do Arquipélago, o Pico está repleto
de provas de perseverança humana.

O cinzento, em cambiantes mais ou menos


escuros, enquadra tudo o que desponta na ilha.
É uma espécie de moldura omnipresente a que
o olhar se adapta com o passar dos minutos,
das horas, dos dias. O enredo dramático
do Pico, taciturno à partida, acaba por revelar-
-se dos mais marcantes em todo o Arquipélago.
Porque nesta ilha comprida, esquadrinha-se
o pormenor com especial atenção. Sugam-se
as cores de uma nesga de vegetação
ou de uma flor vadia.
Atentas, as gentes locais aprofundaram
os contrastes. Edificaram casas de pedra
basáltica e, como num sublinhado de que
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

domaram a natureza, pintaram as madeiras


de vermelho garrido ou verde floresta.
As casas de paredes escuras e portas coloridas
espalham-se pelas povoações associadas
à cultura da vinha – Lajido, Cachorro, Arcos,
Santana, Cabrito. Localizadas na beira-mar
da costa norte, fazem a ponte com o interior
Museu dos Baleeiros - Lajes - Pico

12 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

PICO

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Lajido

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Criação Velha

Foto: Market Iniciative


Madalena Rilheiras - Lajido

fim de muros negros, edificados por milhões


de gotas de suor picaroto, rola-se com estranha
graciosidade até Santo Amaro, freguesia
pontuada pelo cavername das embarcações
que por ali ainda se constroem. Num pequeno
museu particular, dá-se conta da importância
que a construção naval teve na freguesia.
É a antessala de outras histórias, as da caça
à baleia, preservadas na atmosfera dos portos
e ruelas de Calheta de Nesquim, São Mateus
ou Madalena, bem como no espólio do Museu
da Indústria Baleeira, em São Roque,
e do Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico.
Nem assim se esquece o magnetismo
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

da montanha do Pico, a clamar por atenção


sempre em surdina, porque os gigantes não
necessitam de gritar. É preciso encontrá-
-la espelhada com perfeição na Lagoa
do Capitão; subi-la até ao topo, em caminhada
para um dia. No cume do mundo português,
entende-se Raul Brandão, quando escreveu
Ilhéus da Madalena
que esta é uma ilha de insistência. Talvez
por ser a mais jovem das nove, com cerca
acentuado pela Paisagem da Cultura da Vinha de lava conhecidas por “lajido”. A história de 300 mil anos, e ter o espírito vulcânico
da Ilha do Pico, considerada pela UNESCO, desde do verdelho, em tempos uma bebida de czares muito vincado. Pensa-se no assunto em torno
2004, como Património da Humanidade. da Rússia, descobre-se no Museu do Vinho, nas de um copo de vinho tinto local, acompanhante
Criação Velha e Santa Luzia são áreas típicas “rilheiras” (sulcos deixados no solo lávico pelos dum pedaço de queijo de São João.
de terreno vinhateiro, com a geografia retalhada carros de bois que transportavam uvas e barris), E então, num instante impreciso, o cinzento
por uma malha quadricular de muros de basalto: nas “rola-pipas” (rampas talhadas para facilitar transforma-se na cor mais encantadora que
os “currais”, protetores máximos dos pés o deslize das pipas até aos barcos). existe; e a ilha do Pico aloja-se no coração
de videira, cravados com obstinação nas pedras Embalados pela paisagem delimitada por um sem e na memória de quem a visita. 

Fevereiro 2011 | 13
2011 |Mergulho
AÇORES

encanto
Subaquático

Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro


Jamanta

U m corpo humano some-se no azul


profundo. O resto do mundo fica esquecido,
Abundância é a palavra adequada ao cenário
encontrado, face às quase 700 espécies
é sinónimo de memórias que apetece partilhar.
Até à próxima saída para o mar. 
na companhia de uma roda de jamantas, de peixes que povoam os mares do Arquipélago.
na descoberta de um barco afundado,
na contemplação de grandes meros. Apenas
Cardumes de chicharro, barracuda, atum,
bicuda, albacora, anchova, cavala, enxaréu. Tipos de mergulho
três exemplos das inúmeras sensações Amostras de estrela-do-mar, lagosta, polvo, - snorkeling
reservadas pelos mares açorianos aos ouriço-do-mar. Espécimes de mero, garoupa, - batismo e cursos de mergulho
amantes do mergulho. moreia, caranguejo, tartaruga, patuço. - zonas costeiras
Exemplares de tubarão, espadim-azul, cavala- - baixas oceânicas
O Arquipélago encerra quase uma centena -da-Índia, serra, lírio. E as jamantas, em forma - naufrágios
de spots assinalados no mapa que representam de losango e cauda alongada, a arrastarem-se - baixas litorais
diferentes tipos de mergulho: zonas costeiras, pelas águas como se estivessem a desfilar - baixas oceânicas
naufrágios, mergulho noturno, baixas litorais, para deleite da assistência. Todas estas
bancos oceânicos... Uma oferta adequada espécies encontram guarida neste pedaço
a mergulhadores principiantes e experimentados
e a oportunidade, para os que ainda desconhecem
de Atlântico, num intrincado de montanhas,
vales e cordilheiras subaquáticas, em Bagagem adicional
a beleza e vertigem do mundo subaquático, grutas, passagens, recifes, arcadas, paredes A SATA Internacional, nos voos operados
de um batismo de mergulho extraordinário, vulcânicas. Ou nos vestígios dos navios pela companhia e que não tenham partida
efetuado em águas cálidas que variam, ao longo afundados, de nomes estrangeiros como ou destino nos Estados Unidos, oferece
do ano, entre uma temperatura de 17 e 24 Slovonia e Papadiamandis, Dori e Olympia, 10 quilogramas adicionais à franquia de
graus centígrados. No inverno, chega a estar ou bem portugueses como o Viana, bagagem para transporte de equipamento
mais quente dentro do mar do que fora dele. o Terceirense e o Corvo. de mergulho. O transporte do material
No verão, à temperatura mais quente, junta-se Em comum, há as histórias para ouvir – das está sujeito a reserva antecipada pelo
uma visibilidade acrescida dentro de água, que tragédias dos naufrágios às características passageiro e confirmação por parte
nalguns spots pode atingir os 30. É a cortina que das espécies encontradas – e as histórias para da companhia aérea.
se abre para mostrar a vida que existe no mar. contar. Porque mergulhar nos Açores

14 | Fevereiro 2011
Mergulho | AÇORES
2011

Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro


Foto: Direção Regional da Cultura dos Açores
Cemitério das Âncoras - Baía de Angra

Museus subaquáticos
Na baía de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, existe um Parque Arqueológico Subaquático que
possibilita ir ao encontro do naufrágio do vapor Lidador e do chamado Cemitério das Âncoras,
jazida de variadas âncoras de diferentes estilos e datas. Debaixo de água, os mergulhadores
encontram um circuito de visita identificado que inclui placas explicativas.

Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro


Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro

Foto: ATA / Dive Azores / Tiago Castro


Mergulho seguro
A prática do mergulho requer um apertado controlo dos equipamentos a utilizar, bem como
o conhecimento das condições específicas que se vão encontrar nos spots, e das próprias
capacidades e limitações do mergulhador. É aconselhável recorrer a operadores de mergulho
devidamente credenciados e ao apoio dos centros náuticos espalhados pelas várias ilhas para
desenvolver a atividade em total segurança. Alguns centros incluem os serviços de aluguer
de equipamento e enchimento de garrafas. Nas saídas de mergulho organizadas, o seguro
obrigatório já está incluído no preço. Como apoio à atividade, existem câmaras hiperbáricas
Foto: Direção Regional da Cultura dos Açores

em Ponta Delgada (São Miguel) e na Horta (Faial).

Maior peixe do mundo


Há múltiplas referências de avistamento de tubarão-baleia ao largo da ilha de Santa Maria.
Considerado o maior peixe do mundo, os exemplares desta magnífica espécie medem entre cinco
e dez metros. Muito dóceis, proporcionam um mergulho excecional, quer em termos de emoções
vividas, quer em termos de fotografia subaquática.
Cemitério das Âncoras - Baía de Angra

Fevereiro 2011 | 15
2011 |Praias
AÇORES

emoções e
Banhos

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


O s Açores têm mais do que verde
e azul. Há o inesperado cinza claro dos
descalços. Tal como as praias de Água de Pau
ou do Pópulo. Já na Terceira, ganha fama e
areais e o negro de praias de pedra rolada proveito a Praia da Vitória, extensa antecâmara
das rochas que acolhem piscinas naturais. de areia até à entrada nas águas cálidas.
E o branco azulado da espuma das ondas Está feito o chamamento aos apaixonados das
a rebentar perto da costa. Oportunidades pranchas. Os spots abundam, seja em versão
para um banho de sol ou para a emoção surf ou bodyboard. Os windsurfistas podem
de surfar a onda quase irrepreensível. Porque quedar-se pela baía circular da Praia da Vitória Praia de Santa Bárbara - São Miguel
a realmente perfeita, pode ser a seguinte. para velejar ao sabor do vento transparente.
Surfistas e bodyboarders experientes
Em Santa Maria, a praia abrigada pela baía procurarão a costa norte, mais exigente, com
de São Lourenço fornece um quadro surreal: alguns spots onde os fundos são de calhau,
a faixa de areia fina estreitada pela imensidão com recifes à mistura. Destacam-se Santa
do vasto Atlântico e a encosta trabalhada por Catarina ou Quatro Ribeiras e, de novo na ilha
quartéis de vinha. O sol é companheiro deste de São Miguel, as praias de Santa Bárbara,
momento de repouso, enquanto se procura Monte Verde, Rabo de Peixe, Maia e Pópulo.
discernir se a visão é sonho ou realidade. Do O reconhecimento da qualidade das ondas Praia do Monte Verde - São Miguel
outro lado da ilha solarenga, a situação repete- açorianas leva a que uma etapa do circuito
-se na baía da Praia Formosa. Mas a areia aqui mundial de surf da ASP seja disputada todos
é ainda mais branca, quase caribenha. os anos nas águas da zona da Ribeira Grande
As praias açorianas são uma surpresa. Espera- (São Miguel). Mais reservadas, as ondas
-se ir ao encontro de oceanos de verde e, da Fajã da Caldeira de Santo Cristo, em São
afinal, também há mares de areia. Por vezes, Jorge, são um graal ao qual se acede por trilho
mais negra do que o habitual nas praias de pedestre. Uma vez na Caldeira, a adrenalina
Portugal continental, marca da génese vulcânica do surf tempera o sossego deste prodigioso
das ilhas. Veja-se a praia de Água d’Alto, em pedaço de natureza capaz de gerar, quem
Zona Balnear da Fajã das Almas - São Jorge
São Miguel, escurecida mas acolhedora aos pés sabe, a onda de uma vida. 

16 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

SANTA MARIA
Barreiro da Faneca

Farol de Gonçalo Velho

assinalados nos mapas. Vamos pedir auxílio


ao Farol de Gonçalo Velho, nome de navegador
e capitão-donatário, para alumiar o restante
trajeto a partir da Ponta do Castelo.
Primeiro até ao cimo do Pico Alto, cume
Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

da ilha que permite avistar mar por todos


os lados. Desça-se, com a confiança de um
trilho demarcado, até à costa norte. São 14
quilómetros até Anjos, mas antes de aportar
no povoado com estátua de Cristóvão Colombo
a custodiar a Ermida de Nossa Senhora dos
Anjos, recolhem-se experiências memoráveis
na travessia da floresta laurissilva. Conjuntos

F
de uva-da-serra, tamujo, pau-branco, louro,
urze ladeiam o troço e escondem o céu
amosos, os areais das baías de São uma idade estimada entre os oito a os dez milhões com abóbadas de ramos e folhagem. Sai-se
Lourenço e da Praia Formosa convidam de anos. Ouve-se o sussurro do ilhéu, a demandar do labirinto para se entrar noutro cenário
ao culto do sol. Mas basta olhar para um safari que junta geologia, paleontologia encantado: o deserto vermelho do Barreiro
as encostas que as empurram para o mar e turismo. Há a Pedreira do Campo, formação da Faneca. Os raios solares reforçam a cor
e abrem-se novas perspetivas da ilha rochosa outrora submersa que agora exibe hipnótica da extensa planície de terreno
de Santa Maria, ilha ainda com tanto por fósseis de conchas e ouriços-do-mar 100 metros argiloso ondulante. E somos transportados num
contar e descobrir. acima do nível do mar. A Pedra-que-Pica, jazida sonho até à imponente Cascata do Aveiro,
fossilífera exuberante onde dentes de tubarão a despejar-se do alto de 100 metros, ao barroco
Em tempos cultivou-se a vinha na baía e esponjas ganham destaque, e a Malbusca, imaginativo da Igreja de Nossa Senhora
de São Lourenço. Agora, o declive que protege mostruário de fósseis de moluscos e peixes. da Purificação, em Santo Espírito, ou até uma
a praia é dominado pelo mato, a crescer Ou ainda as jazidas ricas das arribas da Baía da Cré. casa retangular de Santa Maria com a tradicional
desregrado. Ainda assim, sobressai a habilidade Aproveite-se este balanço de esgatanhar chaminé cilíndrica.
do homem, perpetuada num glorioso reticulado a antiguidade para caminhar entre pastagens até Perdidos na paisagem, os moinhos de vento
de muros de basalto em imponente escadaria. às escoadas basálticas com disjunção prismática com as típicas armações de madeira, remetem-
Sobe-se ao Miradouro do Espigão, defronte da Ribeira do Maloés. Uma queda de água enfeita -nos para imaginários de ilha quixotesca. Aqui
ao Ilhéu do Romeiro (ou de S. Lourenço) que os bordões na parede lávica, como se a natureza mede-se a natureza aos milhões e a história aos
arremata a baía como se fosse um ponto final, tivesse esculpido uma escadaria monumental. séculos, num turbilhão de sensações imensas
para confirmar uma das panorâmicas mais Deixem-se por momentos as riquezas ocultas como a da baía de São Lourenço e singelas
extraordinárias dos Açores. de Santa Maria, destinadas a serem encontradas como as portas ogivais e janelas de traça
Estamos na ilha mais velha do Arquipélago, com pelos que não se limitam aos pontos turísticos manuelina das casas na Vila do Porto. 

Fevereiro 2011 | 17
2011 |Iatismo
AÇORES

âncoras
Atlânticas
O s iatistas que viajam entre as Américas
e a “velha” Europa, sabem que nos Açores
amarrações disponíveis. Por aqui passa também
a rota de famosas regatas internacionais (Les
Histórias de piratas e corsários misturam-se ao
espírito universal dos terceirenses, para criar uma
encontram portos de abrigo abençoados. Sables – Les Azores, La Route des Hortensias, escala tão ciosa do seu passado quanto moderna.
Para as embarcações, representa o descanso ARC Europe, Ceuta-Horta, OCC Pursuit Race), Ruma-se a Ponta Delgada, para mais um destino
das agruras atlânticas. Para as tripulações, que aumentam a fama internacional da Horta. âncora entre as Américas do Sul e do Norte
afigura-se a chegada a casa. Ou não fossem As peripécias vividas no mundo das vagas e a Europa. O porto de Ponta Delgada,
estas ilhas de marinheiros. alterosas partilham-se nas mesas do Peter Café requalificado, recebe com todas as comodidades
Sport, casa emprestada de todos os marinheiros, mais de seiscentas embarcações em simultâneo.
A Horta, no Faial, é o expoente máximo entre pratos com iguarias locais e copos de gin A bandeira azul hasteada, tal como na Horta e em
da ligação do Arquipélago ao oceano. tónico – dito o melhor do mundo. Angra, personifica a qualidade da infraestrutura
A atmosfera de lobo-do-mar começa logo Na ilha Terceira, entrar na marina de Angra do que inclui um cais de honra para mega iates.
no cais da marina, cujos muros fazem de tela Heroísmo é descobrir uma vista excecional para o Mas não é preciso ser-se personagem ilustre
cinza para as pinturas coloridas deixadas por casario da cidade Património Mundial da UNESCO. para ter-se uma receção amistosa nestas ilhas
velejadores de todo o mundo. Este catálogo Deixar o barco numa das 260 amarrações acostumadas à chegada de visitantes de todo
de arte informal está protegido dos ventos da marina, mimetiza o acontecido durante o mundo por via marítima. Um porto de abrigo
e marés pela situação geográfica do porto, os séculos XV e XVI, em que naus carregadas de é como uma casa emprestada, com tapete
tal como os veleiros estacionados nas 300 riquezas procuravam refúgio no porto angrense. de boas-vindas aos pés da porta aberta. 

18 | Fevereiro 2011
Iatismo | AÇORES
2011

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Marina de Pêro Teive - Ponta Delgada - São Miguel

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


Marina de Angra do Heroísmo - Terceira

Outras navegações
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

Além das principais marinas, existe uma rede de pequenos portos que permite a deslocação
inter-ilhas. Nas Velas, em São Jorge, ou na Vila do Porto, em Santa Maria, os iatistas
descobrem pequenas marinas. Portos de recreio espalhados pela costa, como os de Vila
Franca e Povoação (São Miguel), Lajes (Pico), ou Praia da Vitória (Terceira) completam
a rede de apoio aos que desejem conhecer as paisagens do Arquipélago via marítima.
Também é possível alugar embarcações, com skipper, nalgumas marinas.
Marina da Horta - Faial

Coração cosmopolita
Foto: Portos dos Açores

Na marina de Ponta Delgada sobressai o novo complexo das Portas do Mar; mais do que um simples Terminal de Cruzeiros, tornou-se um espaço
dinâmico da cidade. A população adotou o sítio e frequenta as esplanadas, bares, restaurantes, lojas, diversões, exposições. Os turistas aqui
desembarcados contactam diretamente com os açorianos, num local arquitetado sem barreiras urbanísticas ou choques paisagísticos. Apelativo
à vista, o complexo das Portas do Mar é uma nova artéria pujante na vida de Ponta Delgada.

Fevereiro 2011 | 19
2011 |Bombordo
AÇORES

mar de
Aventuras

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Vista de São Jorge

E rnest Hemingway escreveu um livro


inteiro dedicado à luta entre um pescador
locais apetecíveis. A extensa zona de rocha
recortada dá acesso a viveiros naturais
Com a devida licença de pesca desportiva,
o destino pode ser também algumas lagoas
e um peixe. “O Velho e o Mar” bem podia de pargo, bicuda, anchova, congro, goraz, e ribeiras. Seja qual for a opção, certamente dará
ser passado nos mares açorianos, onde a capturar com cana. Na pesca de fundo, para encher várias páginas de histórias para
os dias de grande pescaria se sucedem com apanha-se abrótea, besugo, sargo, meros contar entre pescadores; e sem necessidade
naturalidade incomum. exemplos da imensidão de espécies existente. de exagerar nas quantidades e comprimento... 

Os aficionados da pesca encontram nos Açores


um grande potencial de experiências. O big game
fishing é das atividades mais espetaculares,
nessa meça de forças entre o homem
e a energia teimosa de um bonito ou atum.
O alto mar açoriano está povoado de magníficos
exemplares de espadim branco e espadim azul,
que atingem recordes de peso e comprimento,
tornando as águas do Arquipélago num palco
habitual de competições internacionais.
Há operadores turísticos especializados
no aluguer de embarcações e equipamento
adaptado à pesca grossa desportiva. Geralmente,
utiliza-se o método de pesca do corrico e, nas
saídas de acordo com as regras da Internacional
Game Fish Association, os espadins são
libertados com vida, exceto se o espécime
Foto: Bigfishinggame / ATA

for suscetível de bater um recorde mundial.


Geralmente, a época alta de pesca decorre entre
o início do verão e o final de setembro.
Muito popular entre habitantes locais
e visitantes, a pesca costeira encontra inúmeros

20 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

FAIAL

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Horta

L igado intimamente ao azul, seja do


oceano ou das hortênsias, o Faial é um dos
o azul do céu. Volta a atração atlântica na Ponta
da Espalamaca, junto ao monumento dedicado
ornamentada pelo azul, da água e das flores.
E depois, a surpresa do Morro de Castelo Branco,
miradouros mais soberbos para a montanha a Nossa Senhora da Conceição. No miradouro, cone vulcânico esbranquiçado, povoado por
do Pico. Mas a inversão do olhar para o marca-se encontro com o vértice da grande aves marinhas. Mero prenúncio do cenário mais
interior da ilha, revela mares de outras cores, montanha vizinha. Raul Brandão escreveu sobre dramático destas paragens. Pisar a terra cinza
capazes de suscitar emoções semelhantes. o fascínio do Pico visto do Faial: “Tão longe que do Vulcão dos Capelinhos é como viajar até
a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por um astro diferente: um pedaço de lua negra
É na Horta que melhor se experimenta a ligação todas as portas dentro.” a desfalecer no mar, vigiada pelo farol esventrado
do Faial com esse Atlântico imenso que circunda Prossiga-se até ao Cabeço Gordo para ver o vale que assistiu às erupções vulcânicas de 1957 e
o Arquipélago. A marina respira maresia dos Flamengos num lado, a praia de Almoxarife 1958. Desce-se para dentro da terra ao encontro
no mais ínfimo traço dos desenhos ali soltados no litoral. Nomes de localidades que carregam do Centro de Interpretação para entender
por navegadores de todo o mundo. O amontoado memórias da saga dos Dulmos e dos Clark a história vulcânica dos Capelinhos e dos Açores.
de pinturas que forma uma galeria de arte no romance “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino E sobe-se à torre apagada para nova perspetiva
ao ar livre, revela o caráter desta cidade Nemésio. Vai-se rápido ao centro da ilha, do deserto de escórias e cinzas. Distante,
habituada a receber com amabilidade ao encontro da Caldeira imensa, revestida de verde o azul emite um canto de sereia. Cede-se ao
os forasteiros. O Peter Café Sport funciona como se tivesse vergonha de mostrar a génese chamamento e descansa-se da viagem emocional
como sala de receção informal de quem aqui de lava. Um trilho permite circundar o perímetro no Monte da Guia, dominante sobre as baías
chega. Fundado em 1918, tem paredes forradas deste depósito de faia, cedro, musgo, hortênsia, da Horta e de Porto Pim, conchas pontuadas
de flâmulas e bandeiras coloridas. Diz-se que feto, num jogo de embevecimento. por castelos e separadas pelo istmo do Monte
o gin tónico é o melhor do mundo. Talvez A estrada costeira reclama novamente as atenções, Queimado. Lá em baixo, haverá mais ruelas,
porque, pelo menos na imaginação, sabe cheia de mirantes para a paisagem faialense museus, igrejas e histórias para averiguar. 
a aventura oceânica. No piso superior, o Museu
do Scrimshaw aprofunda a relação marítima, face
à extensa coleção de peças de dentes e ossos
de cachalote com gravações e baixos-relevos.
Testemunhos do tempo em que a indústria
da baleia era sustento de muitas famílias.
Parte-se em viagem até ao interior, sempre
com a companhia de centenas, milhares
de hortênsias. O cromatismo azul é cortado,
ocasionalmente, por peculiares moinhos
de vento pintados de vermelho. As enormes
Marina da Horta Caldeira
pás rasgam o ar, como se quisessem resgatar

Fevereiro 2011 | 21
2011 |Trilhos
AÇORES

cenários de
Cinema

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

Fajã dos Cubres - São Jorge

22 | Fevereiro 2011
Trilhos | AÇORES
2011

O s vulcões açorianos esculpiram com


sapiência um território extraordinário para
meteorológicas adversas ou outros impedimentos.
Os caminhos, sinalizados de acordo com marcas
se conhecer a pé. Atentas, as autoridades e códigos internacionais de fácil interpretação,
locais assinalaram trilhos oficiais pelas nove podem ser percorridos de forma autónoma,
ilhas do Arquipélago. Cada um deles embora vários operadores turísticos promovam
é composto por cenários tão diferentes que saídas em grupo. Ao todo, já estão assinalados
nasce a dúvida de pertencerem ao mesmo mais de seis dezenas de percursos, sendo quase
filme. Mas são: uma longa-metragem metade deles em São Miguel.
de êxtases realistas, vividos em comunhão Grande parte dos trajetos definidos passou
com a natureza. pela reabilitação de velhos caminhos,
maioritariamente de pé posto, utilizados
Nos Açores, cada passada mede um quilómetro pelos habitantes das ilhas no transporte
de emoções. Veja-se o exemplo do trilho de produtos agrícolas e outras mercadorias, com
dos Mistérios Negros, na Terceira, num início o auxílio de cavalos, burros e mulas. Também
insuspeito de terra batida, a dar passagem se aproveitaram os carreiros por onde transitava
a uma pastagem, seguida de caminho de pé o gado a caminho das pastagens. Deste modo,
posto já entre mata de criptoméria, queiró, urze a rede de trilhos existente associa áreas
e cedro-do-mato. Desemboca-se na pequena de grande beleza paisagística a alguns vestígios
lagoa do Vale Fundo, contornada até se entrar da história dos Açores. Apetece esquadrinhar
novamente numa zona de vegetação endémica. cada metro existente, pelo interior das ilhas
É uma autêntica selva de cedro-do-mato, uva- ou junto ao mar, em planície lisa ou em terreno
-da-serra, louro, folhado, azevinho, tamujo, que acidentado, em pastagem descampada ou em
forma cúpulas dignas de catedrais e restringe floresta densa, em passo acelerado ou ritmo
o horizonte para uma paleta de tons esverdeados lento. Porque há a certeza de que (ao virar
e acastanhados. Quando a vista se alarga outra da curva, além da lomba, no cume do pico...),
vez, aparecem três domos negros, acumulações se encontrará nova sedução. Nessa altura,
de lavas recentes ainda virgens de vegetação. a paixão pelos trilhos açorianos já estará bem
São os “mistérios”, nesse negrume prenunciado alojada nas pernas, sedentas de mais uma
Mistérios Negros - Terceira
que revela, sem margem para dúvidas, a origem passada neste pedaço prodigioso de natureza. 
vulcânica dos Açores. Corta-se caminho por
entre dois domos, com os pés bem amparados
no piso irregular, e aproveita-se para se tocar
na essência destas ilhas: a pedra preta de onde
se assemelha impossível ter nascido tanto verde.
Nasceu de facto, espontâneo no caso
da floresta laurissilva, ou plantado como
a mata de criptomérias que se encontra antes
de entrar em nova pastagem. A reta final é feita
em subida, até ao cimo do Pico Gaspar. No topo,
junto à cratera repleta de endemismos, o silêncio
impera. Ouve-se o vento a afagar a vegetação
e o chilrear dos pássaros ecoa na acústica
do anfiteatro natural. O filme dos Mistérios
Negros está finalizado. Apetece bater palmas aos
vulcões que criaram este recanto da Terra, mas
a banda sonora circundante força a homenagem
introspetiva. É tempo de retemperar energias. Ali
ao lado, nesta ou noutra ilha, há mais um trilho
sôfrego por nos mostrar as suas maravilhas.

Difícil é escolher
Os percursos pedestres aprovados pelo
Governo Regional estão classificados em três
níveis de dificuldade: fácil, médio ou difícil.
Nos postos de turismo podem ser recolhidos
folhetos individuais de cada percurso, com
localizações, características topográficas,
tempo estimado de duração (medido num
trajeto sem paragens), distância e imagens
ilustrativas das paisagens. A mesma
informação pode ser consultada no sítio
de Internet www.trails-azores.com onde
se concentram os alertas sobre trilhos
Zona das Sete Cidades - São Miguel
fechados temporariamente, devido a condições

Fevereiro 2011 | 23
2011 |Trilhos
AÇORES

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Caldeira Funda e Caldeira Comprida - Flores

Antes de partir
- Confirme que o percurso escolhido está
ativo
- Consulte a meteorologia e, em caso
de condições propensas a nevoeiros, evite
os percursos em altitude
- Informe alguém do trilho que irá percorrer
- Use calçado e roupa adequados, incluindo
capa de chuva e chapéu
- Leve água e alimentos sólidos (fruta,
barras de cereais, sandes)
- Não saia do caminho assinalado
- Tenha em conta que o tempo indicativo dos
trilhos prevê um ritmo sem paragens; deve
adequar o tempo de que necessitará à sua
condição física e aos momentos de paragem

Passadas com ética


- Guarde o lixo para depositá-lo em local
apropriado
- Não recolha fruta dos pomares ou amostras
de plantas
- Evite perturbar os animais
- Se tiver de abrir cancelas, feche-as
em seguida
- Cumprimente as pessoas que encontrar
no caminho
Terceira

24 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

A definição científica refere que as fajãs

SÃO JORGE
resultam de escorrimentos de lava
e desprendimentos de terra das arribas
devido a abalos sísmicos. Os solos férteis
foram chamariz para povoadores, mas o clima
e os acessos difíceis ditaram o abandono
das fajãs mais agrestes. Muitas permanecem
habitadas, por gente que mantém uma
simplicidade desarmante nos costumes.
Um conjunto de seis trilhos oficiais abre
janelas para esta realidade ímpar açoriana.
Há a descida até à Fajã dos Vimes, onde
ainda se fabricam colchas em teares manuais
e se prova café feito de grãos por ali
semeados. O percurso até à Fajã do Ouvidor,
de génese lávica, onde o desenvolvimento
deu espaço a pequeno porto e zona balnear.
Através de uma escadaria de pedra antiga
acede-se à Fajã de Além, quase intacta nos
modos de estar e na conservação das adegas
tradicionais, moinho de água e explorações
agrícolas. E a viagem tripartida pela já falada
Fajã dos Vimes, Fajã dos Bodes e Fajã de São
João, com passagem por matas de incenso,
faia, urze e uva-da-serra, terras cultivadas
com vinha, casas e calçadas tradicionais.
Alheou-se da nomeação a Fajã da Caldeira
de Santo Cristo, porque tanta perfeição
levanta dúvidas de que seja real. Sábia,
a natureza preservou esta paisagem mítica,
dando-lhe apenas acesso pedestre. O trilho
disponível passa também pela Fajã dos
Cubres, mas será difícil avançar sem antes
provar as amêijoas que nascem na Caldeira.
Porque a magia de São Jorge é filtrada tanto
nos sabores – ah, o queijo de paladar
único! –, como nas vistas dramáticas – o Ilhéu
do Topo, num extremo, a Ponta dos Rosais,
no outro; tanto na arquitetura barroca -
– a Igreja de Santa Bárbara, em Manadas,
classificada como Monumento Nacional –,
Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

como nos encontros fantasmagóricos –


- a torre sineira da Urzelina, vestígio singular
da igreja soterrada pela erupção vulcânica
de 1808. E essa pacatez dinâmica das Velas,
vila que continua a acolher de braços abertos
os viajantes desembarcados, através
de um Portão de Mar bicentenário. 
Fajã dos Vimes

S eja no cimo da cordilheira central,


pontuada por uma sucessão de cones
Em dias de céu límpido, também a Terceira.
O grupo central do Arquipélago, reunido num
vulcânicos, ou no fundo das fajãs, único observatório.
a sedução da “ilha do dragão” é sempre Chamam a São Jorge a “ilha dragão”, alcunha
elevada. E amaciada na boca por um queijo acertadíssima quando se descobre, a partir das
célebre e umas amêijoas carnudas. ilhas adjacentes, este dorso de terra estendido
sobre o mar. No costado do drago, a vertigem
O perfil de São Jorge prenuncia que esta paisagística acentua-se pelas escarpas
é uma jornada de altos e baixos geográficos. a pique. Umas terminam no oceano, como
O maciço central, sequência de cumes garras à procura de alimento; outras culminam
e vales, estende-se por um planalto de 45 nas pequenas planícies chamadas fajãs. Descer
quilómetros. Em redor, avista-se o imponente até esses refúgios santificados, significa
Vila da Calheta
Pico, ladeado do Faial. Ao longe, a Graciosa. encontrar a genuína identidade jorgense.

Fevereiro 2011 | 25
2011 |Geocaching
AÇORES

baú dos
Tesouros

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Lagoa das Furnas - São Miguel

S e um dos objetivos do Geocaching


é mostrar sítios especiais do nosso planeta,
de obstáculos naturais. Muitas caches implicam
por isso um desafio físico e técnico.
então os Açores só podem ser um local Nos Açores, a resolução destes quebra-cabeças
de eleição para esta atividade. Há dezenas pode ter como prémio adicional uma panorâmica
de caches escondidas pelas ilhas desconhecida. Que pode ser partilhada, numa
do Arquipélago, em locais que são fotografia que ilustre a magnificência do sítio,
verdadeiras preciosidades da natureza. através de fóruns de geocachers. Prova de que
se chegou ao destino e se ficou a conhecer
Os participantes nesta caça ao tesouro moderna mais um recanto especial dos Açores. 
avançam pela paisagem através de coordenadas
de GPS. De aparelho na mão, atravessam-se

N
locais magníficos enquanto se ruma até ao
ponto final do percurso. Chegados ao destino,
em vez de uma arca cheia de moedas de ouro, esta ilha de abundância aquífera -
os participantes encontram uma “cache”, ali - em forma de cascata, lagoa, regato, gota
escondida por um geocacher. Dentro desse de orvalho... –, respira-se frescura.
“baú” – pode ser um tupperware, caixa As paisagens têm tanto de harmónico quanto
de munições, balde ou outro invólucro –, está de enérgico, pedindo uma contemplação
resguardado um “log book” onde os geocachers ativa, consciente de estarmos no ponto mais
registam o respetivo achamento. Pode ainda ocidental da Europa.
Sete Cidades - São Miguel
haver diversos brindes no interior e a regra dita
que caso se retire um objeto como recordação, O verde a bordejar as Caldeiras Rasa e Funda,
deve deixar-se outro em sua substituição, com separadas por uma língua de terreno, assume-
valor igual ou superior. Aventura na ribeira -se mais intenso. Entra-se no centro da ilha
A comunidade de Geocaching, bem como Modalidade que agrega as vertentes à procura de mais lagoas, aqui batizados
a listagem das caches espalhadas pelo do desporto e do lazer, o canyoning encontra de caldeiras: a da Lomba, a Comprida, a Seca
Arquipélago, está agregada em redor do sítio condições excecionais no arquipélago (que não faz jus ao nome), a Branca, e a Funda,
de Internet www.geocaching.com. Há dezenas açoriano. Os participantes neste concentrado repetida no nome mas nova nas sensações
de hipóteses espalhadas por todas as ilhas de adrenalina têm de percorrer troços que despertadas. Todas prometem algo de diferente:
açorianas, num inventário em constante passam por vales e ribeiras, escarpas seja o tom de azul da água, a companhia
mutação. Por misturar aventura e contacto e rios, utilizando técnicas como o rapel para de cachos de azálea e hortênsia cor-de-rosa, as
direto com a Natureza, a atividade tem transpor os obstáculos naturais. Flores, pegadas de vegetação nativa. Sobe-se ao Morro
conhecido um grande desenvolvimento nos São Miguel e São Jorge apresentam vários Alto para apreciar este maciço central de origem
últimos anos. Traçar um caminho no mapa percursos devidamente apetrechados, bem vulcânica, sobressaltado por cones e ravinas.
a partir de sinais GPS envolve uma certa dose como operadores turísticos especializados Numa elipse cinematográfica, voa-se até
de incógnita. Nem sempre o caminho mais direto no canyoning, possibilitando a realização à Rocha dos Bordões, alojada no topo de uma
de um ponto para outro no papel, acaba por ser da atividade em plena segurança. elevação. A aproximação a um dos monumentos
executável no terreno devido ao aparecimento

26 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

geológicas peculiares, como as silhuetas

FLORES
sugeridas no Morro dos Frades ou o perfil
galináceo na Gruta do Galo. Mais simbólico,
só o Ilhéu do Monchique. O ponto mais ocidental
da Europa, ponto parágrafo de um continente,
avista-se a partir da Ponta do Albarnaz. Caminho
infletido, novamente para o íntimo das Flores,
de encontro a outros ilhéus que marcam a zona
costeira – o do Pão de Açúcar, o de Álvaro
Rodrigues e do Garajau, o da Alagoa. Perto, outra
espécie insular: o Corvo, plantado no meio do
Atlântico como complemento umbilical das Flores.
E agora, as cascatas. Entre a Fajãzinha
e a Fajã Grande, vários miradouros servem
fatias de êxtase da fileira de quedas de água
que pontua a longa parede rochosa a dominar o
horizonte. Caminha-se até ao Poço da Alagoinha
para chegar quase ao sopé das cascatas, num
sítio a transbordar de energia reconciliadora.
A mesma sensação vivida na Cascata do Poço
do Bacalhau, a água precipitada numa queda
de 90 metros até à lagoa rodeada de laurissilva
que convida a banhos relaxantes. No Miradouro
do Monte das Cruzes, a perspetiva lembra que as
Flores também têm gente. Vê-se Santa Cruz das
Flores, e num segundo, entra-se no Museu cujas
coleções contam a história de ofícios do mar
e da terra. A fachada grandiosa da Igreja Matriz
de Nossa Senhora da Conceição traz recordações
Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte de outras construções religiosas, como a Igreja
de Nossa Senhora de Lurdes, alcandorada num
outeiro, e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário,
de fachada revestida por azulejo e um adro
povoado de araucárias que serve de miradouro
para o porto das Lajes das Flores. A saída de um
barco pressupõe uma despedida. No céu soletra-
-se um “até logo”. Porque as Flores nunca serão
Rocha dos Bordões
uma ilha de adeus. 

naturais mais famosos dos Açores, é para ser feita


em ritmo lento. A visão da disjunção prismática
está em constante mutação, metro adiante metro
atrás, sol oblíquo ou direito, luz intensa
ou diminuta. O conjunto de grandes colunas
verticais de basalto, escadaria própria de gigantes,
hipnotiza o observador. Arranca-se a partida
a ferros, à descoberta de outras formações

Poça do Bacalhau Poço da Alagoinha

Fevereiro 2011 | 27
2011 |Vulcanismo
AÇORES

mistérios
Subterrâneos
F alar da alma vulcânica açoriana
representa, à primeira vista, afirmação digna
céu de pedra, onde se fundem formas e cores
para uma experiência sempre renovada.
e o Algar do Carvão (Terceira), a Gruta das
Torres (Pico). As grutas, mais estreitas e baixas,
de contos de fadas. Não é. Está impressa As secções de prismas lávicos afiguram-se providenciam a sensação de se explorar um local
nas crateras que albergam lagoas, campos talhadas como se houvesse um propósito desconhecido. Nas Torres, o capacete na cabeça
e escarpas de lava, cones e montes que geométrico, uma composição mestra, que inclui uma lanterna que alumia a escuridão
definem a paisagem. Mas é nas grutas tudo subordinasse. Paira no ar um ligeiro odor do caminho. Desbravam-se com feixes de luz
subterrâneas que esta génese se transforma sulfuroso. É a respiração da Furna, a dar razão o trajeto no chão, ora rugoso, ora liso, que leva
numa evidência deslumbrante. ao nome selecionado pelo homem. aos tesouros escondidos pelo maior tubo lávico
Numa extremidade, a fumarola de lama desperta dos Açores: estalactites e estalagmites, bolas
Antes de se descer à Furna do Enxofre, na curiosidade. Apenas um pormenor do universo de de lava, bancadas laterais, paredes estriadas, lavas
Graciosa, pergunte-se onde se começam a contar detalhes desta maravilha natural. O chão coberto encordoadas.
os degraus. O número oficial refere 183, parte dos parcialmente por blocos desprendidos A Terceira tem duas experiências espeleológicas
quais na escada de caracol que termina no fundo da abóbada. O reflexo de luzes esverdeadas de eleição. Na gruta com nome natalício,
da caverna. Após um troço por entre a vegetação a bater na torre de pedra, em contraste com de percurso bem iluminado, veem-se musgos
frondosa da Caldeira da Graciosa, a entrada a luz natural proveniente de duas fendas que a decorar as belas formas impressas nas
na torre de pedra, construída para substituir comunicam com o exterior. A iluminação alaranjada paredes subterrâneas. E o imponente Algar
o antigo acesso por cordas, leva aos reinos que revela o extenso lago que espelha o teto terceirense, classificado como Monumento Natural
da penumbra. A cada volta de escadaria, uma trabalhado. E o barco a remos, ancorado num cais Regional, protetor de riquezas únicas como
janela abre perspetivas para o mundo subterrâneo, de pedra, a despertar novos sonhos de descoberta. as estalactites e estalagmites de cor branca
antecâmaras de deslumbres vindouros. leitosa. No fundo desta introdução perfeita
No solo da Furna do Enxofre, somos esmagados Espírito de explorador ao mundo da espeleologia, a lagoa alimentada
pelas dimensões do teto desta caverna lávica No Arquipélago são mais de 300 as grutas por águas da chuva remete para o espelho
de natureza basáltica. Situada a uma altura e cavidades vulcânicas conhecidas. O sonho da Furna do Enxofre. E para o barco ali deixado,
de 50 metros, a abóbada mede cerca de 200 transforma-se em realidade através de mais símbolo de destino ainda por cumprir. É preciso
metros de diâmetro. A cúpula iluminada desafia quatro cavidades abertas ao público: a Gruta do avançar para a próxima etapa da fascinante
as leis da gravidade, num convite a admirar um Carvão (São Miguel), a Gruta do Natal descoberta do vulcanismo açoriano. 

Gruta das Torres - Pico Centro de Interpretação da Furna do Enxofre - Graciosa

28 | Fevereiro 2011
Vulcanismo | AÇORES
2011

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Furna do Enxofre - Graciosa

Centros de conhecimento
As cavidades subterrâneas têm devido complemento
nos Centros de Interpretação adjacentes que ajudam
a compreender os fenómenos visitados. Aconselha-se
ainda a entrada no museu da Sociedade de Exploração
Geológica “Os Montanheiros”, situado em Angra
do Heroísmo (Terceira), para uma maior imersão
no vulcanismo açoriano. Quanto ao Centro de Interpretação
do Vulcão dos Capelinhos (Faial), destaca-se tanto pela
excecional arquitetura - onde desponta o enorme fuste,
simulacro de erupção vulcânica – como pelo magnífico
e moderno circuito expositivo.

Águas quentes vulcânicas


As orlas costeiras das ilhas estão repletas de enseadas
onde rastos de lava entram pelo Oceano Atlântico de modo
cenográfico, face ao embate violento das ondas nas rochas
negras. Alguns destes casos incluem também espaços abrigados,
devidamente adaptados aos banhos de sol e de mar. As piscinas
naturais de lava representam a união entre os habitantes
e a génese do Arquipélago, numa utilização harmoniosa
e defensora dos legados vulcânicos.
Poça da Dona Beija - São Miguel

Fevereiro 2011 | 29
2011 |Alojamento
AÇORES

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


acolhimento
Confortável Marginal de Ponta Delgada - São Miguel

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


aulatinamente, os Açores dotaram- de infraestruturas de quatro estrelas, oferta
-se de um parque hoteleiro moderno que complementada também por uma pousada de
oferece todas as comodidades aos visitantes charme, inserida no Forte de Santa Cruz, datado
do Arquipélago. Pousadas, aparthotéis do século XVI e classificado como Monumento
e empreendimentos de turismo em espaço Nacional desde 1947. Os quartos da Pousada
rural enriquecem o leque de hipóteses da Horta abrem vistas excecionais sobre a marina
disponíveis. e, no horizonte, a ilha montanha do Pico.
São Jorge e Pico apresentam alguns exemplares
Em termos de hotelaria, São Miguel destaca-se na hotelaria de três estrelas. Em Santa Maria, Hotel da Graciosa
pela oferta vasta e de qualidade na área das a oferta está muito direcionada para a época
quatro e três estrelas, bem como dos aparthotéis. de veraneio, ganhando força a hipótese dos

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Na Terceira, às hipóteses de alojamento em apartamentos turísticos. A recente abertura
unidades de duas a quatro estrelas, acrescerá de uma unidade de quatro estrelas na Graciosa
ainda este ano a remodelada Pousada de São veio enriquecer a oferta da ilha em termos
Sebastião, em Angra do Heroísmo. Prevê-se que de alojamento. Nas Flores, a construção de uma
as obras de renovação da unidade histórica, nova infraestrutura, classificada com quatro
instalada numa fortaleza do século XVI conhecida estrelas, veio complementar as propostas
por Castelinho de S. Sebastião, terminem em hoteleiras já existentes. No Corvo, o turismo
Hotel das Flores
finais de 2011. O Faial propõe um leque alargado é servido por um hotel de duas estrelas. 

Casas com
personalidade
As “Casas Açorianas” são uma das formas
mais características de alojamento
no Arquipélago. Esta associação agrega
52 casas na área do turismo em espaço
rural, todas reestruturadas para aliar
o máximo conforto a uma identidade
muito própria, vincada nos materiais
de construção, arquitetura e pormenores
de decoração. Pertencentes a diversas
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA

tipologias, a oferta abrange turismo em


casas rústicas, solares e casas apalaçadas,
aldeias de reconhecido valor arquitetónico,
hotéis rurais, casas de campo e espaços
de agroturismo. A maior concentração
de casas encontra-se em São Miguel, Pico
e Faial, mas existem empreendimentos
em todas as ilhas, à exceção do Corvo.
Turismo de Habitação - Graciosa

30 | Fevereiro 2011
ILHAS | AÇORES
2011

do Miradouro do Facho, a revelar a mesma

TERCEIRA
beatitude. Impõe-se a descida para ver
as praças e largos arranjados, as casas onde
Vitorino Nemésio nasceu e morou parte
da vida, a Igreja de Santa Cruz, os Paços
do Concelho.
Na Praia, ou no resto da Terceira, a geometria
disciplinada não cansa. Porque lê-se
nessa pauta de alinhamento o tal espírito,
domingueiro, folião, raiado de cores. Por isso,
a ilha entra em festa rija de Maio
a Outubro, com as típicas touradas à corda
a marcar o calendário, em parte já preenchido
pelas Festas do Divino Espírito Santo

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


ou as famigeradas Sanjoaninas. Nos Biscoitos,
o privado Museu do Vinho tenta preservar
a tradição do cultivo da vinha, reabilitando
a memória das épocas áureas do vinho
verdelho. Ergue-se um copo e brinda-se
ao que ainda falta desbravar.
Porque a Terceira tem outro lado, impregnado
Mistérios Negros
numa natureza taurina, como no trilho

L
de laurissilva que rodeia esses bem nomeados
Mistérios Negros, na selvática Serra de Santa
iderada por uma cidade com esmero, impresso na preparação das dádivas Bárbara, na dimensão da Caldeira de Guilherme
a chancela da UNESCO, a Terceira associa naturais para a receção cómoda dos visitantes. Moniz (a maior dos Açores), nas fumarolas
um espírito jovial e farrista a um território A deslocação às zonas balneares nas piscinas ao ar livre das Furnas do Enxofre. Observados
extraordinariamente composto. E a aparente naturais vulcânicas da Salga, de Porto Martins a partir da costa, os Ilhéus das Cabras e o Ilhéu
contradição enriquece-se ainda com mais ou dos Biscoitos, geram a mesma sensação da Mina voltam a meter ordem na paisagem,
cambiantes, seja o cuidado na preservação de ilha bem arranjada. Tal como a marina num arremate da natureza que alia perfeição
da história secular ou a manutenção intacta e casario da Praia da Vitória, observados no molde e no revestimento colorido. 
de partes de natureza mais selvagem.

Amarelo. Verde. Azul. Vermelho. Rosa. Violeta.


Em Angra do Heroísmo, aboliu-se o contraste
preto e branco das fachadas e pintou-se
a cidade de cores primárias, num reflexo
da maneira de estar festiva dos terceirenses.
Do Alto da Memória, assimila-se o traçado
ordeiro do centro histórico, numa estrutura
que dir-se-ia pensada para tirar o máximo
partido dos raios solares. Anda-se sem rumo
definido a fotografar janelas e portas,
a encontrar igrejas, Impérios do Santo Cristo,
casas senhoriais e palacetes, monumentos
e jardins. Descansa-se com vista para a baía,
enquadrada pelo Monte Brasil. E no Museu
de Angra, entende-se parte da rica história
desta Muito Nobre, Leal e Sempre Constante
Praia da Vitória Museu de Angra do Heroísmo
Cidade de Angra do Heroísmo, Património
Mundial da UNESCO desde 1983. Uma coleção
de viaturas de tração animal dos séculos XVIII
a XIX transpira um ar aristocrático que leva
a viajar até ao passado. Sem sair do museu,
as lápides, imagens, estátuas, azulejos da Igreja
de Nossa Senhora da Guia, empurram o tempo
ainda mais para trás, até aos Descobrimentos
e primeiros povoadores.
As primeiras e subsequentes gerações criaram
uma ilha metódica, de paisagem ajustada
por muros de pedra, sebes de hortênsias,
fileiras de criptomérias. Nas expedições
de espeleologia na Gruta do Natal
Angra do Heroísmo Praça Velha - Angra do Heroísmo
e no Algar do Carvão, sente-se o mesmo

Fevereiro 2011 | 31
2011 |Termalismo
AÇORES

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


ilhas de
Bem-estar Termas da Ferraria - São Miguel

P ela janela vê-se o oceano Atlântico.


O duche quente reconforta o corpo e,
de comunhão com a natureza. Além
da magnífica localização, a destilar um
num lance de dois degraus, mergulha-se dramatismo apaziguador, o complexo desfruta
em águas termais de temperatura amena da riqueza fornecida por duas nascentes
e tom azulado transparente. Descansa-se de águas termais de origem vulcânica, cujas
na piscina com a lembrança ainda do azul características criaram uma aura de devoção em
infinito. E antecipa-se o conforto do banho relação às propriedades terapêuticas da Ferraria.
de imersão, o bem-estar da massagem O mesmo se passa na ilha da Graciosa, onde
de relaxamento, o retempero da fome pelo ganharam fama as Termas do Carapacho, com
sumo de laranja e biscoitos açorianos. vista para o Ilhéu de Baixo. Recentemente
remodeladas, são hoje um espaço de design
Banhos quentes de mar - Ferraria - São Miguel
O termalismo, nos Açores, veste-se de aromas que usufrui dos benefícios provenientes das
de natureza e experiências exclusivas. nascentes geotérmicas do local. Os raios
Às propostas mais tradicionais de jacuzzi, de sol penetram na arquitetura minimalista,
banho turco, banho de imersão, duche vichy, que faz mesuras ao pensamento enquanto Termas dinâmicas
duche de agulheta, massagens de relaxamento, ilumina o negrume do basalto, a suavidade
as estâncias termais do Carapacho (Graciosa) da madeira, a energia das toalhas amarelas A definição de bem-estar associada
e da Ferraria (São Miguel), acrescentam e cadeirões laranja. Neste ambiente sereno, ao termalismo açoriano assume também
técnicas inovadoras como o pnf chi, o floating terapeutas qualificados renovam os laços uma faceta de grande dinamismo.
in (e)emotion ou o azorean stone massage. históricos entre as termas e os habitantes Na Ferraria, é possível praticar
Formas de cuidar do corpo e mente, num da ilha, ao mesmo tempo que acolhem com atividades exteriores como a escalada,
restabelecimento da energia necessária para afeição novos visitantes da Graciosa. pedestrianismo, mergulho, canoagem,
desbravar o infindável universo de experiências Ambas as termas apresentam uma extensa pesca ou geocaching. Prelúdios
proporcionado pelas ilhas açorianas. carta de serviços, devidamente requalificada de vigor físico que culminam nas
O SPA termal da Ferraria está situado numa para merecer a denominação spa. Tratamentos inúmeras possibilidades de relaxamento
extraordinária paisagem à beira-mar, individuais e de grupo, programas de nomes e revitalização disponíveis no complexo
no sudoeste de São Miguel. O moderno edifício sugestivos como Princess for a Day ou Body termal. No Carapacho, privilegia-se
integra-se de modo simbiótico numa fajã lávica, and Soul Escape, fisioterapia, massagens um clima intenso de cooperação com
pertencente ao Monumento Natural Regional de relaxamento, drenagem linfática, banhos a comunidade local, através de eventos
do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria. em águas termais, diferentes técnicas de duche... e atividades paralelas aos serviços
Uma piscina exterior, preenchida por água Tudo servido com simpatia, profissionalismo e tratamentos termais.
do mar e água termal, simboliza este estado e uma envolvência paisagística privilegiada. 

32 | Fevereiro 2011
Termalismos | AÇORES
2011

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Termas do Carapacho - Graciosa

Tratamentos gourmet
Entre a oferta de serviços disponível nas
termas da Ferraria e do Carapacho, destacam-
-se alguns produtos exclusivos, associados
a tratamento e/ou ao bem-estar, que revelam
o toque distintivo dos Açores.

PNF Chi. Abordagem ao movimento global,


aliando o exercício de baixo impacto
ao relaxamento. A técnica adequa-se
a grávidas, idosos, diabéticos, hipertensos,
Termas da Ferraria - São Miguel
fibromialgicos, entre outros.

Floating in (e)Motion. Combina a prática de


técnicas de fisioterapia no meio aquático com
outros princípios de técnicas mais recentes de
relaxamento na água como o Watsu e Jahara.

Olaria Corporal. Inspirada na milenar


massagem tailandesa, alia princípios de pressão
e alongamento, com técnicas de mobilização
passiva das articulações e posições
de estiramento de quem está a realizar
Termas da Ferraria - São Miguel
os movimentos.

Azorean Stone Massage. Tratamento relaxante para corpo e mente, numa combinação dos
benefícios da massagem geotermal com uma manualidade especializada em óleos essenciais.

Jazz Massage. Desenvolvida para apreciadores de jazz, é a oportunidade de usufruir de uma


massagem ao som de peças de renome em que a manualidade é adaptada ao ritmo da música.
Termas do Carapacho - Graciosa

Fevereiro 2011 | 33
2011 |Enogastronomia
AÇORES

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


sabores
Marcantes
O s prazeres da mesa intensificam-se
no Arquipélago mediante uma paleta
a linguiça e morcela, pratos principais quando
acompanhados por inhame e ovo estrelado.
de paladares vincados. Nas Furnas, o famoso Entremos no mar, para o contraponto piscícola,
cozido é mais do que um prato: é um laço onde o problema é a dificuldade da escolha.
cultural, demonstrativo da ligação umbilical Atum, congro, abrótea, albacora, cavala,
entre os açorianos e o vulcanismo. Tal como chicharros... todos fresquíssimos, preparados
as uvas ainda colhidas nas vinhas do Pico, de variadas maneiras, da simples grelha
plantadas em solo de lava. ou frigideira, às caldeiradas e caldos de peixe.
Passe-se ainda pelo polvo guisado e venham
A ementa açoriana é composta, acima de tudo, de lá os mariscos, comuns como as lagostas,
por produtos de exceção. Os solos férteis, santolas e caranguejos, peculiares como
juntamente com um clima de temperatura as cracas, ou essas inesquecíveis lapas regadas
amena, produziram condições naturais para com Molho Afonso. Na Caldeira de Santo Cristo
várias culturas exóticas, como a do ananás crescem as únicas amêijoas do Arquipélago,
e do maracujá de São Miguel, ambos com direito só por si razão suficiente para a deslocação
ao selo de Denominação de Origem Protegida. a São Jorge.
Começámos pela sobremesa de fruta mas Da mesma ilha é um dos queijos mais
há muito para degustar antes disso. Inevitável apreciados de Portugal, dito Queijo de São
a incursão imediata nesse exemplo do engenho Jorge localmente e “Queijo da Ilha” no território
humano que dá pelo nome de Cozido das continental. Mas há mais: o queijo fresco com
Furnas. Uma panela com os ingredientes típicos pimenta da terra servido como entrada,
do prato – enchidos, carnes, couves, batatas o queijo tipo São João fabricado no Pico,
–, ensacada e enterrada em buracos no solo o queijo artesanal do Corvo. Come-se tudo
geotérmico das Furnas. Ali fica, horas a fio, de uma penada, por vezes na companhia
a cozer no calor natural da terra, até ser içada do magnífico bolo lêvedo. Para rematar, adoce-se
para rumar até às mesas dos restaurantes a boca com as inimitáveis Queijadas da Graciosa

S
ou de casas particulares. e um cálice de Angelica, vinho licoroso saído
Falar de carne nos Açores é referirmo- das vinhas do Pico. Em alternativa, um chá,
-nos a uma indicação geográfica protegida a partir de folhas secas na Gorreana ou Porto éculos atrás, a ilha produzia
e aos bifes à regional, com tira de pimenta Formoso. Beber uma chávena de chá de São e exportava cereais e vinho.
da terra a encimá-los, que se cortam como Miguel corresponde a provar o resultado das O ímpeto económico naufragou com
manteiga quente. Depois há as especialidades, únicas plantações desta planta em solo europeu. o passar do tempo, mas o panorama
como a alcatra da Terceira, a molha Remate perfeito para a refeição, não fosse da Graciosa ficou marcada para sempre
de carne, os torresmos. E enchidos, como a vontade de voltar ao princípio. 

34 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

Moderno e atraente, o Museu localizado de rocha é uma baleia autêntica, como que

GRACIOSA
em Santa Cruz da Graciosa é exemplar petrificada para representar um Arquipélago que
no modo como mostra a relação estabelecida se transformou num santuário para os cetáceos.
entre os habitantes e o território geográfico O resto da zona costeira é pródigo em
desta pequena e pacata ilha. O circuito paragens obrigatórias. A Baía da Caldeirinha,
expositivo, entre outros temas, aprofunda cratera de antigo vulcão no seu negrume
as várias técnicas de moagem usadas na época à beira-mar; Barro Vermelho, zona onde
de grande produção cerealífera e contempla várias cores clamam pela atenção; a Baía
uma zona de três lagares originais, testemunhos da Folga, concha amedrontada pelos maciços
da pujante produção vinícola que segmentou de terra que trespassam o mar. Será impossível
parte da paisagem. Na Sala da Festa, entrar em comparações quando se ancora
um vídeo mostra os bailes e desfiles no Carapacho de horizonte marcado pelos
de Carnaval, manifestação popular desenrolada Ilhéus de Baixo. Sobe-se à Ponta da Restinga,
em clubes e nas ruas. Nesta janela para a índole sítio de farol, para novos ângulos dos pedaços
do graciosense, dá-se conta da musicalidade de rocha à tona de água. Corpo e mente
da ilha, que mantém ativas bandas filarmónicas, pedem um intervalo nas Termas, antes
academia musical, coros, grupos musicais de continuar até São Mateus (também dita
e folclórico. Talvez algum passe pela Praça Praia), com o imenso Ilhéu da Praia em frente.
Fontes Pereira de Melo, sombreada por árvores A fábrica das míticas Queijadas da Graciosa,
de grande porte espelhadas nos dois largos está escondida numa rua interior. Procurem-
tanques ali construídos. -se os moinhos pintados de vermelho vivo
Viaja-se pela ilha com a sonoridade própria da que pontuam o azul esbranquiçado do céu
viola da terra nos ouvidos. A audição aguça-se da Graciosa. Ou siga-se o cheiro que paira no ar.
na descida à Furna do Enxofre para ouvir Apetite saciado, falta regressar a essa
o borbulhar da fumarola de lama. E no encontro eterna atração que é a Caldeira, onde
com as já raras “burras de milho”, estruturas de o homem plantou um parque florestal capaz
madeira cobertas de maçarocas, jura-se escutar de impressionar a própria natureza. A subida
o som da mó a moer os grãos. É miragem à Furna da Maria Encantada leva à travessia
auditiva, sugerida pelos moinhos de vento de um túnel na rocha. Depois da escuridão,
de cúpula em bico a pautarem o horizonte. o miradouro para a Caldeira. E, imediatamente,
Da base ou do topo do Farol da Ponta da Barca, surge a vontade de regressar ao fundo
o Ilhéu da Baleia mostra-se sem necessidade da terra. Porque cada visita à Furna do Enxofre
de pedir largas à imaginação. Aquele pedaço compõe uma nova sinfonia de emoções. 

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA

Santa Cruz

São Mateus
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

por moinhos de vento e plantações


de vinha. E por heranças ainda mais
antigas e espetaculares, de origem
vulcânica, como a Furna do Enxofre
Museu da Graciosa Ilhéu da Baleia
e o Ilhéu da Baleia.

Fevereiro 2011 | 35
2011 |Escalada
AÇORES

subir além das


Nuvens
A atração provocada pela montanha
do Pico, com os seus 2351 metros de altitude,
profundidade, à espera dos olhares mais afoitos.
Nesse cume do mundo português, descobre-se o
auxiliadas por guias especializados, que aliam
a vertente pedagógica à experimental, através
vai para além do facto de constituir o ponto segredo do vértice que rompe o céu açoriano: um de explicações sobre a geologia e flora do Pico.
mais alto de Portugal. Aquela aparência em cone lávico de 70 metros, conhecido por Piquinho. O percurso leva entre três a quatro horas
perfeição cónica capta as atenções de todas A conquista da montanha faz-se a partir dos a cumprir, dependendo de fatores como
as objetivas fotográficas. E deixa instalar-se 1200 metros, altura até onde se pode aceder a condição física de cada indivíduo e das
um desafio: escalar o Pico. num conforto motorizado. Começa então condições atmosféricas do momento. Levará
a aventura íngreme, a exigir concentração outras tantas horas a descer, ou até mais,
Dizem os experimentados que o Pico é subido e respeito. Existe um trilho assinalado que que para baixo não são só facilidades. Que
pé ante pé. Ou seja, nada de passadas largas, permite realizar a subida de forma autónoma, sensações se experimentam ao longo
a desdenhar a empreitada em questão. opção a tomar apenas por montanhistas do caminho? Raul Brandão, no mítico livro
A escalada é tarefa acessível, mas requer experientes e com o apoio prestado na Casa “As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens”,
precauções. Estamos perante o terceiro maior da Montanha, onde se providencia um telemóvel/ salientou aquilo a que chamou “a exaltação
vulcão do Atlântico, encimado por uma cratera /GPS que monitoriza cada passada da ascensão. da vida livre”, impressa num acampamento
de 700 metros de perímetro e 30 de Vários operadores organizam escaladas em grupo, noturno em que cheirava ao fumo da urze

36 | Fevereiro 2011
Escalada | AÇORES
2011

Falésias sedutoras

Foto: Montanheiros / Carlos Medeiros


A subida aos céus, nos Açores, passa também pela vertente da escalada desportiva. As falésias de
rocha basáltica, possuídas pela sedução do negrume acinzentado, representam um manancial de
experiências para os amantes desta atividade. Os vários setores equipados, em condições de total
segurança, espalham-se pelas ilhas de São Jorge (Urzelina e Fajã do Ouvidor), Pico (Calheta de
Nesquim, Cachorro), São Miguel (Ferraria, Porto Carneiros), Terceira (Chupa Cabras, Grota do Medo,
Chanoca). A secção de escalada da associação os Montanheiros realiza cursos de aprendizagem.
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

Montanha do Pico refletida na Lagoa do Capitão

e onde o ouvido aguçado recolhia “o menor


ruído da noite”. Pernoitar na montanha do Pico,
Foto: Market Iniciative

uma alternativa à subida e descida no mesmo


dia, é sinónimo de duas coisas: um pôr-do-sol
grandioso. E um nascer do sol... grandioso.
Casa de apoio à Montanha
Esgotam-se os adjetivos sem se abarcar aquilo
que a experiência desta escalada representa.
É melhor voltar a Raul, nessa descrição das ilhas vizinhas: Faial, São Jorge, Graciosa, numa lembrança de espíritos acalentados,
da “áspera subida”, “cortando a direito a Terceira mais ao fundo. amparados, acarinhados pelo companheiro
e calcando pedra dura”. Na base da caldeira, Mais do que a paisagem revelada pelas alturas, de jornada. Quem vence a montanha mais alta
“a vegetação rasteirinha diminui de tamanho”, passar o teste do Pico é uma vitória pessoal. de Portugal, supera-se a si próprio enquanto
como se tivesse sido “tosquiada”. Olha-se para Diz-se que a montanha é tão portentosa que auxilia os restantes a consegui-lo. E encontra,
o interior e “sai o pico pequeno”. Em redor, consegue desunir casais, amigos, colegas. no topo dos Açores, uma das razões que fazem
a visão pousa nas paisagens picarotas Ou então entrelaçá-los ainda mais, para o resto deste pedaço de terra vulcânica plantado
e no mar que se estende até tocar a costa da vida, numa névoa de recordações irrepetíveis, no meio do Atlântico uma paragem tão lendária. 

Fevereiro 2011 | 37
2011 |Birdwatching
AÇORES

aves de três

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte


Continentes
N ão é surpresa para os aficionados
europeus da observação de aves que
canário-da-terra, alvéola, estrelinha, melro-preto,
pombo-torcaz, tentilhão... Ou às populações
Dos novatos aos experientes, todos quererão
encontrar a estrela da companhia. Cabeça
os Açores são um dos terrenos mais populares de aves marinhas, entre as quais se encontram de cartaz do birdwatching, o priolo é o único
para a observação de aves. À variedade o garajau-comum, garajau-rosado e o localmente passeriforme endémico dos Açores. Perseguido
de espécies residentes e migratórias, juntam- famoso cagarro. durante parte do século XIX por ser encarado
-se cenários de grande envolvência natural A iniciação ao birdwatching requer apenas como uma praga, esteve à beira da extinção.
para experiências memoráveis. um par de binóculos e um guia de observação. Atualmente, reside apenas na zona montanhosa
Além do prazer de ir ao encontro de aves a leste de São Miguel, com especial concentração
Todos os anos, especialmente no período muito diversificadas – delicadas ou imponentes, na mata endémica de laurissilva, tendo resistido
do inverno, é comum verem-se as ilhas do Corvo coloridas ou bicromáticas –, e observar-lhes aos efeitos nocivos do homem mediante vários
e das Flores cheias de amantes do birdwatching. o comportamento, esta atividade representa projetos de estudo e preservação, como
Basta o passa palavra eletrónico, através a oportunidade de conhecer habitats de excecional o Projeto LIFE-Priolo que originou o Centro
do anúncio de avistamento colocado na Internet, beleza. Perto do mar, as observações efetuam-se Ambiental do Priolo (www.centropriolo.com). Por
para o Grupo Ocidental receber novos hóspedes, em lagunas costeiras, praias de calhau ou de areia, isso, avistar um exemplar desta ave de pequeno
munidos dos seus telescópios, em busca falésias e vistosos ilhéus junto à costa. No interior porte (mede entre 15 e 17 cm), considerada
das aves migratórias norte-americanas. Mas das ilhas, há charcos, lagoas, matas e florestas uma das espécies mais raras em toda a Europa,
o manancial de experiências disponíveis alastra- à espera da visita de aves e seus admiradores só pode ser um momento muito especial. Para
-se à profusão de espécies nativas: milhafre, humanos. birdwatchers crónicos e não só. 

38 | Fevereiro 2011
Ilhas | AÇORES
2011

Descobertas
radicais
CORVO
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA

Os Açores são um destino de


características assumidamente adequadas
à exploração ativa. Um batismo de voo
em parapente (ou viagem autónoma para
os já experimentados), permite observar
da perspetiva das aves as magníficas
lagoas, os cones vulcânicos, as falésias,
as fajãs, os muros de pedra. Montar numa
BTT para acelerar nos caminhos de terra
batida, é certeza de adrenalina velocista
imersa na natureza pura. Rodear
de caiaque a zona costeira de algumas
ilhas é sinal de aventura e encontro com
enseadas e paisagens impossíveis a partir

Foto: ATA
de terra. Desbravar os caminhos rurais
Vila do Corvo
num “raid” de todo-o-terreno permite

S
e descoberta de novas miragens.

e cada dedo valer 100 pessoas, promontório ideal para panorâmicas


os habitantes do Corvo cabem numa mão. do interior da caldeira e das falésias corvinas.
Carreiras O clima de confiança entre os locais gerou O piso acidentado e os nevoeiros súbitos

regulares uma peça de artesanato única: fechaduras


de madeira, dado ser desnecessário pôr
requerem cuidados redobrados, mas
os prémios ao esforço são entregues de forma
tranca na porta. Visitar esta ilha é uma constante e cadenciada: cones vulcânicos,
experiência essencialmente humana. Mas a Ponta do Marco, uma praia, uma fonte
como estamos nos Açores, a natureza de água, caminhos ladeados por hortênsias.
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

também deslumbra. Toma-se o gosto e há mais um trilho para


desencobrir as maravilhas deste pedaço
A sensação de entrar na menor ilha de terra. O percurso pedestre da Cara do Índio
dos Açores equivale, quiçá, à descoberta inicia-se junto à Cova Vermelha, por antigas
do ponto mais remoto de Portugal. Os menos “canadas” ladeadas por muros de pedra.
de 500 habitantes residentes concentram- Já junto da falésia, há uma cara de índio
-se na Vila do Corvo, com vista para a ilha esculpida na rocha. Segue-se pela arriba até
vizinha das Flores. Toda a gente se conhece. ao caminho que desemboca na Vila do Corvo.
Um dos modos mais extraordinários Pernoitar uma, duas, três, mais noites Sobra tempo para calcorrear as calçadas
e económicos de conhecer as ilhas do nestes 6,3 quilómetros de comprimento de pedra, procurar os exemplares restantes
chamado triângulo, passa por embarcar e 4 quilómetros de largura máxima, equivale de casas com paredes negras, descansar nos
nas carreiras regulares que ligam Faial, a integrar passageiramente a comunidade bancos do Largo do Outeiro, entrar na Igreja
Pico e São Jorge durante todo o ano. local. Porque os visitantes não passam de Nossa Senhora dos Milagres, passear
A travessia proporciona vistas magníficas despercebidos. E isso, neste caso específico, no Porto da Casa. A rota à beira-mar levará até
das ilhas, primeiro ao longe, depois perto, só pode ser bom. aos moinhos de vento, junto à Ponta Negra,
com especial relevo para a deslumbrante Adiante com a descoberta da ilha. Acede- de tronco cónico branco e cúpula de madeira.
montanha do Pico. Além disso, muitos -se por estrada ao Caldeirão, caldeira No Corvo, tudo parece simples, sem
companheiros de viagem serão habitantes de extensão dominadora e superfície complicações ou complexos. Até os nomes
locais, imersos nas suas rotinas diárias, adornada por duas lagoas irregulares. Reza dos sítios. Na Praia da Areia, revisitam-se
o que possibilita um contacto direto com a lenda que os cones de cinzas vulcânicas as experiências proporcionadas por ilha tão
a vivência açoriana. E, numa conversa desenham na água as ilhas açorianas. ínfima. E, juntamente com a vontade
inesperada, até se pode ficar a saber É ver para crer e, depois, explorar a zona de regressar para uma conversa no Largo
de um sítio extraordinário que os ilhéus através dum trilho não sinalizado, de grau de do Outeiro, conclui-se que a dimensão
guardam em segredo, experimentando dificuldade difícil e a exigir acompanhamento métrica das ilhas não corresponde aos
em primeira mão a arte de bem receber. por guia especializado. Bordeja-se o cume, deleites lá confinados. 

Fevereiro 2011 | 39
2011 |Negócios
AÇORES

Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte


Agência Açoreana de Viagens
Parceiro de eventos Ponta Delgada - São Miguel

C om mais de meio século de atividade,


a Agência Açoreana de Viagens posiciona-se
pedestres, reservas de alojamento, viaturas
de aluguer sem condutor, passagens aéreas,
devidamente adequadas ao perfil dos clientes.
As hipóteses acumulam-se: observação
como uma entidade líder na área da Meeting espaços para eventos e animação turística. de baleias, natação com golfinhos, mergulho,
Industry. Aos serviços abrangentes prestados Na área dos congressos, a Agência Açoreana passeios a pé, birdwatching, circuitos de jipe,
ao cliente, junta-se a riqueza de um destino de Viagens apresenta um serviço chave-na-mão, passeios de bicicleta ou a cavalo, golfe, caça,
fantástico para congressos e incentivos. que pode cuidar das reservas de avião, transfers pesca grossa em alto mar, ou excursões
com guias turísticos, alojamento dos delegados, temáticas, como as relacionadas com
Fundada em 1955, a Agência Açoreana decoração e equipagem dos espaços, serviços a gastronomia, botânica ou vulcanologia.
de Viagens foi integrada em 1994 no Grupo de tradução, coffee breaks e almoços Apenas algumas das razões que levam a que
Bensaude, um dos maiores grupos empresariais de trabalho, jantares de gala, receção os congressos nas ilhas açorianas tenham uma
do Arquipélago. Vocacionada para a atividade e acreditação de congressistas, exposições particularidade: o número de participantes acaba
de incoming, a agência encontra-se dividida de posters, e todos os restantes serviços por ser sempre maior do que o inicialmente
em três departamentos: Individuais e Grupos, inerentes e necessários à execução do evento. perspetivado. É o apelo de um destino
Meeting Industry e Cruzeiros. Atuante nas nove Mas porque os Açores são um mundo exótico, onde o programa científico se conjuga
ilhas açorianas, disponibiliza ao cliente um vasto de experiências, a empresa organiza igualmente harmoniosamente com o lazer, para a criação
leque de serviços: transfers, excursões, passeios um conjunto de atividades complementares, de eventos inesquecíveis. 

Incentivos
espontâneos
Os Açores constituem um manancial
inesgotável para a área dos Incentivos.
Às possibilidades mais comuns, juntam-se
atividades radicais e invulgares, como o
canyoning, a escalada ou o geocaching,
para a criação de programas que geram
de forma muito natural a interação entre
os participantes, orientando o evento
para objetivos específicos nas áreas da
liderança, espírito de grupo, reforço de
confiança, obtenção de objetivos comuns,
entre outras.
Hotel Marina Atlântico - Ponta Delgada - São Miguel

40 | Fevereiro 2011
Negócios | AÇORES
2011

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


Teatro Micaelense - São Miguel

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte
trabalhos
Prazenteiros Centro de Congressos de Angra do Heroísmo - Terceira
Hall do Teatro Micaelense - São Miguel

A aliança entre infraestruturas modernas,


boas acessibilidades, gastronomia singular,
um enorme pavilhão modular e multiusos, capaz
de acolher exposições, eventos e reuniões.
segurança e uma oferta complementar Acresce a capacidade hoteleira de S. Miguel, cada
de variadas experiências turísticas numa vez mais reforçada por excelentes unidades
natureza intacta, são alguns dos ingredientes de quatro estrelas, com uma completa e oferta
que tornam os Açores num destino de eleição de serviços neste segmento.
para a organização de congressos e incentivos. Na ilha Terceira, a cidade de Angra do Heroísmo
tem um Centro de Congressos equipado com
Os Açores têm vindo a posicionar-se como material próprio de tradução simultânea para Portas do Mar - São Miguel
uma alternativa diferenciadora no mapa dos seis línguas. A estrutura altamente flexível
destinos de congressos e incentivos. cede espaço para 850 delegados, havendo
O Arquipélago já recebe um elevado número ainda um auditório pequeno para 150 pessoas.
de eventos, muitos deles realizados fora da época Ainda na mesma ilha, a cidade da Praia
alta. A oferta açoriana nesta área assenta da Vitória contempla um auditório, equipado com
na qualidade dos serviços prestados, simplicidade tecnologias de ponta, com capacidade para mais
dos procedimentos na colocação dos eventos, de 450 pessoas. Já no Faial, o Teatro Faialense,
apoio constante aos clientes. Mas o que a Biblioteca Pública da Horta, o espaço
a região representa de verdadeiramente único multifuncional Barão Palace e o Centro
é a possibilidade de experiências diferentes. Nesse Interpretativo do Vulcão dos Capelinhos
sentido, o fator novidade, aliado à criatividade dos representam oportunidades de organizar Auditório do Ramo Grande - Praia da Vitória - Terceira
agentes locais, tem vindo a ganhar notoriedade seminários e reuniões. Além destes locais, as
num apetente por destinos diferentes. unidades hoteleiras de várias ilhas estão dotadas
Várias ilhas estão dotadas de infraestruturas de salas com capacidade e equipamento para
apetrechadas para a receção de congressos acolhimento de eventos de diferentes dimensões.
e incentivos. Em São Miguel, é possível encontrar Fora da “ordem de trabalhos” dos eventos,
espaços que albergam com grande conforto os Açores mostram-se um destino seguro que
e qualidade congressos com elevado número apresenta uma oferta complementar diferente
de delegados, podendo chegar aos 1200. Em e de qualidade, onde se salientam as inúmeras
Ponta Delgada, o Teatro Micaelense, renovado experiências de turismo ativo – observação
e devidamente equipado, destaca-se pela grande de baleias, passeios a pé, mergulho, golfe,
beleza e centralidade. Na mesma cidade, termalismo – e os prazeres de degustar uma
Centro Interpretativo dos Capelinhos - Faial
o magnífico complexo das Portas do Mar oferece gastronomia cheia de caráter. 

Apoios públicos
Fotos: Market Iniciative / Carlos Duarte

O Governo Regional dos Açores tem disponível um apoio financeiro público a iniciativas, ações
e eventos de animação turística, que tenham um impacto significativo na promoção externa
do destino turístico Açores. O montante a atribuir é determinado consoante a qualidade
e/ou a expressão promocional reconhecida ao evento, tendo um limite máximo de cem mil euros.
As condições para a obtenção dos apoios podem ser consultadas no portal www.azores.gov.pt ou
contactando os serviços da Direção Regional de Turismo.
Auditório Municipal das Velas - São Jorge

Fevereiro 2011 | 41
2011 |Golfe
AÇORES

Via aérea grátis

Nos voos operados pela SATA, à exceção


dos que têm como partida ou destino
cidades dos Estados Unidos, os jogadores
podem transportar gratuitamente um
equipamento de golfe constituído por um
saco, tacos, bolas, casaco próprio, chapéu,

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


par de sapatos próprios e guarda-chuva.

Um jogo rústico
tacada
Natural
Um pneu assente no chão ou um círculo
de cal desenhado na relva. Uma bandeira
a assinalar o buraco fingido. Uma pastagem
de erva baixa, sem animais por perto, a fazer
Campo de Golfe da Batalha - São Miguel
de campo de golfe. Um vestuário que pode

V
contemplar botas de borracha. E, acima de
tudo, a partilha de um momento invulgar com
êem-se árvores, relva, flores, o azul de Golfe da Ilha Terceira, localizado a poucos os restantes jogadores. Eis o retrato do golfe
do mar. Nos Açores, as tacadas são dadas quilómetros de Angra do Heroísmo e da Praia rústico, atividade lúdica em contexto rural,
entre uma natureza deslumbrante, longe da Vitória. O campo destaca-se pela paisagem que já conta com alguns torneios organizados
de prédios ou casas. A exceção está nos pautada pelos renques de hortênsias e azáleas em várias ilhas do Arquipélago. Jogado com
Clubhouses, edifícios modernos que ao longo dos fairways e os jogos paisagísticos descontração e diversão, este golfe destaca-
se mesclam com a paisagem para entre árvores, montes e pequenos lagos. Tem -se pelo cunho ambiental, dado tirar partido
receber confortavelmente os praticantes uma área de treino com practice tee, chipping dos recursos naturais já existentes.
da modalidade. area e dois putting greens. 

No Arquipélago dos Açores existem atualmente


três campos de golfe, mas graças ao Campo

Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte / ATA


de Golfe da Batalha, na costa norte da ilha
de São Miguel, o número de circuitos disponível
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

passa para cinco. Os 27 buracos desenhados


em 1986 por Cameron Powell num espaço
de 120 hectares, caracterizam-se por fairways
longos e greens largos, alguns dos quais com
panorâmica para o mar. Dividido nos percursos
A, B e C, o campo permite três conjugações
diferentes que renovam a experiência golfista Campo de Golfe das Furnas - São Miguel Campo de Golfe da Batalha - São Miguel

na Batalha. A cerca de 15 minutos de Ponta


Delgada, dispõe de driving range para mais
de 30 jogadores, dois pratice putting greens
e uma chipping e pitching area. O Clubhouse
inaugurado em 1993 é cenário também de
casamentos, banquetes e eventos empresariais.
Imersos numa vegetação tropical exuberante,
os primeiros nove buracos do Campo de Golfe
das Furnas foram estabelecidos por Mackenzie
Ross, em 1936. Coube a Bob Cameron e Chris
Powell, em 1992, ampliar o campo em mais
nove buracos, em harmonia com o espírito
e o estilo preexistente. Localizado num planalto
Foto: Market Iniciative / Carlos Duarte

no cimo do Vale das Furnas e a 25 minutos


de Ponta Delgada, representa um teste
de habilidade num cenário de fairways ladeados
por cedros japoneses e greens torneados.
O Clubhouse, renovado em 2006, conta com
um acolhedor restaurante e bar, ao estilo
britânico, com capacidade para 100 pessoas.
Clube de Golfe da Ilha Terceira
Finalmente, na Terceira encontra-se o Clube

42 | Fevereiro 2011