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ESTUDOS EM MITOLOGIA GRECO-ROMANA

E SUAS REFERÊNCIAS NA ARTE E CULTURA


OCIDENTAIS

Prof. Me. Valdemar F. de C. Neto Terceiro


Graduado em Letras pela Universidade Estadual Vale do Acaraú
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Estadual Vale do Acaraú
Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Piauí

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SUMÁRIO

Módulo 1:
Conceito de mito e sua inferência no
pensamento clássico;
Módulo 2:
O mito como lugar cultural: o divino, o
político e o social;
Módulo 3:
A mitologia grega: origens, deuses e sua
significações
Módulo 4:
A reconstrução mitológica em Roma: o
mito e o político
Módulo 5:
O mito na época da fragmentação.

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MÓDULO 1:
Conceito de mito e sua inferência no
pensamento clássico

1. Definição de Mito

Para entender a profundidade do aspecto mitológico e sua explicação


constante no mundo, devemos, contudo, começar pela noção real da palavra.
Assim como nos explica RIES (2020), o mito, do grego mythos (), o
vocábulo em si, pode apresentar dois pontos de significância: 1) o mito pode
ser a própria palavra, nesse caso um verbo primordial, encarregado de
compelir uma estrutura original e até, de certa forma, sagrada no tocante
social; 2) o mito também pode significar relato, isto é, uma transposição das
palavras para uma narrativa maior com peso original e social concomitante ao
caráter social que implicar. Essa segunda noção, como podemos perceber, é
a noção mais básica e constitutiva da palavra mito, na qual reside a valoração
máxima que será foco do que estudaremos aqui. Mito é relato, uma narrativa
original e primordial que resguarda todo uma constituição cósmica ascendente
e, ao mesmo tempo, concerne uma introspecção humana sobre a própria
evolução da crença.
Com base nestas perspectivas, vamos agora entendê-las mediante a
construção vocabular contemporânea. Da mesma forma que a palavra épico
perdeu o seu significado latente na modernidade (isto é, antes o épico era uma
instância narrativa maior e grandiosa e hoje foi reduzida a todo e qualquer
narrativa, fílmica ou não, com efeitos e dramaticidades superiores), a palavra
mito também acabou se desdobrando por caminhos inertes que a levaram ao
locus do trivial. O mito hoje trata diretamente de qualquer coisa que, aparente
ou futilmente, salte os olhos para um enlace longe do comum. Nomeamos
políticos, artistas, influenciadores digitais etc. com o vocábulo helênico
generoso tão caro até bem pouco tempo. Na mesma esteira, é comum ouvir
de grande parte das pessoas certa relutância em afirmar, por exemplo, que a

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Igreja Católica é detentora de um estudo aprofundado em mitologia cristã, pois
o termo mitologia já está desgastado com a trivialidade que poucos
reconhecem a fundo que o mito nada mais é que um relato original, primordial
e estritamente sagrado. Ao mesmo tempo, é corretíssimo dizermos mitologia
cristã, uma vez que toda a cultura cristã ocidental, independente das crenças
e dogmas enveredados por outros caminhos, foi construída a partir de um
relato original acerca da vida, morte e ressurreição de um certo nazareno
denominado nos escritos por Jesus Cristo e a partir dele, toda uma base social,
religiosa e até mesmo ética foi construída. O mito cristão, afora isso, também
reconstituiu o tempo, facilmente dividido em antes e depois de Cristo. Logo, o
que vemos na mitologia cristã nada mais é do que a total efervescência do mito
no geral: uma toante primordial e original que constitui um todo sistemático
social, ritualístico e moral presente na vida humana.
A crença mitológica, como se deve acreditar, surge na oposição ao
racional. É de imaginarmos que a concepção sobre o que é o mito é um
contraponto à falta de racionalidade de determinado povo. Porém, antes de
pensarmos que quem só tem mito é quem é ignorante, devemos localizar a
perspectiva do mito em sociedade. Ora, para o grande mundo cristão, a
racionalidade acerca da morte é um assunto expressamente terminado, uma
vez que não há caminho de volta: mortos não voltam a vida. Isto é ciência, o
fim da atividade cerebral somada a outros fatores fisiológicos confirma estas
verdades. Porém, o mundo cristão inteiro foi construído ao redor da
perspectiva da ressurreição de seu maior expoente três dias após a sua morte.
O que temos aqui, então? Nada mais do que é ação mitológica que concerne
uma abertura na crença que vai além do físico. Logo, o mito não é um traço de
ignorância científica, e sim um traço de humanidade, haja vista que a crença
para além do mundo físico é um caráter humano inefável. Porém, é evidente
caracterizar a posição do mito mediante o racional. O mythos, em suma, é
contraditório ao logos, isto é, ao racional ou a razão, isso se verá mais adiante
quando a posição do mito for debatida a luz da filosofia. Sendo o mythos o
contrário do logos, este, como perspectiva do racional se atrela evidentemente
a história. Aqui temos, então, uma capitulação interessante acerca da posição
que o mito resguarda na cultura humana. O mito não é uma narrativa histórica
fortemente alocada. Na verdade, o mito concorre à história. Sendo assim,
podemos entender ambas a partir do seguinte esquema:

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REFERÊNCIAS DESTE MÓDULO:

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. Trad.: Pola Civelli. São Paulo: Perspectiva,
2016.
PLATÃO. A república (parte I). Trad.: Ciro Mioranza. São Paulo: Ed. Escala,
2005.
RIES, Julien. Mito e rito: constantes do sagrado. Trad.: Silvana Cabucci Leite.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.

PARA IR ALÉM:

CHATWIN, Bruce. O rastro dos cantos. Trad.: Bernardo


Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
RESENHA: A obra é um romance bem espiritualizado que
tem como fundo a pesquisa do narrador-personagem sobre
os mitos totêmicos dos aborígenes australianos. É uma
boa pedida para quem quiser entender a gênese de um
mito, além de ter uma narrativa surpreendentemente fluída
e eloquente.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Trad.: Leonardo


Pinto Silva. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
RESENHA: Livro conhecidíssimo do grande público, com
inúmeros exemplares já vendidos, esta obra é uma baita
viagem a construção do conhecimento filosófico. Os
primeiros capítulos já demonstram como o mito embasou
a perspectiva filosófica. Esta obra é uma excelente pedida
para entender filosofia de forma bem pura e cristalina.

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