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Ricardo Maranhã

O GOVERNO
JUSCELINO KUBITSCHEK

1981
CbpyrzkÀf(Ê) Ricardo Maranhão r
123(antigo 27)
Artistas Gráficos

Caricaturas :
Emílio Damiani

Revisão :
José E. Andrade

INDICK

Um mineiro quefez barulho 7

A caminho da presidência 16
Militares na briga pela posse 31
O plano de metas e o grande capital 44
Com cldireita, luvas de pelica 68
Com a esquerda, jogo de cintura 82
Vãos e sonhos panamericanos 93
Democracia e uma batata quente 98
Indicações para leitura 103

editora brasil pense s.a.


01042 -- rua barão de itapetininga, 93
sâo paulo brasil
UM MINEIRO QUE FEZ BARULHO

Este livro vai para 'Sobre a cabeça os aviões


REGINA, meu amor permanente Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões meu nariz. . .
HELENA, meu presente e futuro Eu organizo o movimento
e CAETANO VELOSO, que deu a idéia Eu oriento o carnaval
Eu inauguro um monumento no planalto central do país

7}'opfcá/fa -- Caetano Veloso

''O burro tinha sido substituído pelo jipe. Os


trilhos, abertos pelas antas, haviam desaparecido,
cedendo lugar às novas rodovias. Onde antes existia
um monjolo, acionadopor uma bica d'água, fume-
gava uma chaminé. E os morros pretos, que fais-
cavam ao sol, órfão de qualquer vegetação,eram
rasgados pelas escavadeiras, lavados em seus entu-
lhos, convertidos,enfim, em fontes inesgotáveisde
riquíssimos minérios.'' Juscelino Kubitschek de Oli-
veira fala sobre sua obra como governadorde Minas
Gerais. Refere-sea um final de mandatoem que jâ
8 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek
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tinha os olhos cobiçosos na cadeira de Presidente da defensores ecológicos da natureza, diante da própria
República. Em poucas palavras, dâ a sua visão .po/í- expansão do capitalismo ''selvagem'': os morros ''ór-
ffca do desenvolvimento nacional. Não faz mal que as fãos de qualquer vegetação''
palavras tenham sido escritas em 1975, e trabalhadas
pela elaboração de texto de Carlos Heitor Cony. O
que importa é perceber aí a ideologia ''desenvolvi- O estilopolítico
mentista'' de JK, misturada ao mesmo tempo com a
imagem nacfona/ que ele projetou de sua conduta
política. O mineiro de Diamantina, além de traba- Oito horas da manhã do dia 24 de agosto de
lhar em silêncio como convém, conseguiu fazer um 1954. Belo Horizonte vive a agitação nervosa e agres-
barulho dos diabos sobre alguns velhos sonhos da siva do povo à espera de definições e propostas diante
classe média brasileira, como o ''desenvolvimento do fato trágico do suicídio de Getúlio Vargas. Os
autónomo'', a ''industrialização'' e a ''democracia''. membros da oposição àquele que foi, a partir de
Sonhos que a classeoperária também almejou, com 1930,o estadistamais marcante da História do Bra-
outro sentido e com séria desconfiança, e que a bur- sil, estão apavorados com a possível reação da massa
guesia, apesar de faturar em ,cima, escoimou depois popular que, se até então legitimava Getúlio, na-
de alguns anos com suas atitudes autoritárias. quele momento o idolatra e pede vingança por sua
Todos os elementosque figuram nas palavras de morte. No Rio, a multidãojâ inicia a destruiçãoe o
JK fazem parte de um linguajar ideológico que recu- saque de jornais e instituiçõesdos inimigos de Var-
pera várias décadas de aspirações políticas nacionais. gas
Até mesmoa abra, figura-símbolode uma das ver- O governador de Minas Gerais chega preocu-
tentes literárias do Modernismo, carregada de um pado à Avenida Afonso Pena. Ali, populares exal-
patriotismo verde-amarelo e que desembocou em po- tados se concentram.A vaga humana se aproxima
sições extremamentereacionârias, está presente. E, das escadarias da Igreja de São José, onde oradores
em oposição ao velhojumento que servia no passado improvisados procuram descarregar toda a tensão e a
ao Jeca-Tatu, se colocamvárias das Metas que se- dor que tomam conta da massa, ao mesmo tempo
riam o prato principal da devoração antropofágica e estimulando a rebelião. Debaixo das sobrancelhas
ao mesmo tempo progressista do país durante o qüin- apertadas, os olhos pequenos do governador não
qüênio de JK: a Energia, os Transportes, as Má- param de se mover, até que encontraalguéme o
quinas, a Mineração. O texto contém até, ironica- manda chamar: é um deputadotrabalhistaque, em
mente, uma antevisão das preocupações anuais dos discurso rápido, expressa o ódio da multidão. O
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10 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek

governantedo estado retoma sua calma habitual, fa-


zendo o deputado dirigir o povo para o Palácio da
Liberdade, sede do governo, onde espera na esca-
daria. Depois de alguns discursos inflamados, o go-
vernador fala, pedindo calma. E consegue. O mi-
neiro Juscelino conseguiacontornar a crise e manter
sua autoridade de chefe do Executivo estadual. Anos
depois, ele comentaria, sobre a conduta da massa
rebelde: ''Convidei-os, em seguida, a entrar para o
parque do palácio, onde lhes seriam servidosrefri-
gerantes. Com essa atitude, consegui que a multidão
se acalmasse,desfazendoo tumultoque poderia
gerar fatos graves. Às onze horas da noite, tomando
o avião, rumei para o Rio''
'Voar, voar, voar'', sentencia a canção de Juba
Chaves sobre o comportamento de JK. Ao mesmo
tempo, ela o chama de ''Presidente Bossa-Nova'',
mesmo sem anotar a admirável qualidade política de
Juscelino, no que se refere ao trato com a população.
Com uma cordialidade efusiva e generosa, mas seM
perder o suti] distanciamento que a vontade de poder
e a educaçãoconservadorano SeminárioDiocesano
imprimiram ao seu caráter, JK nutria uma extrema
capacidade de se relacionar com as massas. Estas o
chamavam carinhosamente de ''Nona''. Ao mesmo
tempo, via-as com um certo desdém: não perderia
nunca seu talhe elitista, inevitável num homem com
a formação de militar-médicoe membro do velho
PSD. Suas origens na classe média, sua juventude de
modesto funcionário dos Correios, pouco têm a ver Juscelino, cordial e generoso, mas sem perder o sutil
com a definição do seu estilo. Este é muito mais um distanciamento.
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Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Ku bitschek

produto da convivência com a oligarquia mineira que elegância da boa cozinha mineira que fariam as delí-
formaria o PSD, e que o levaria ao cargo de deputado cias de um certo eleitorado feminino; acostumou-se à
ainda em 1934,aos 32 anos de idade. Convivência aliança permanente com os exploradores da classe
com pessoas como Benedito Valadares (de quem foi operaria, como os seus amigos do Grupo .Antunes,
sem perder a capacidade de ser apoiado pelos comu-
nistas nas eleições presidenciais de 1955; e manteve
sempre a habilidade de se cercar de um bom slaW de
çoso dé muitos dos pessedistas mineiros; antes, se assessorese técnicos, que Ihe forneciam dados capa-
aproximariado tino oportunistade um outro mi- zes de transformar suas promessas de comício em
neiro, Antânio Carlos, autor da famosa frase de propostas racionais e expressas em números e esta-
iVJU: ''l'açamos a Revolução antes que o povo a tísticas. Levando ao êxtase a eficácia pessedistaem
fazer grandes transformaçõessem mudar nada de
Juscelino, surgindoem época mais modema. essencial, JK acabou por provocar, durante sua pre-
levaria as atitudes do tipo da de Antânio Carlos"às sidência, mudanças significativas na realidade polí-
alturas dos seus frequentes vãos de avião: procuraria tica e social. Foi brilhante na sua capacidade de faci-
ernizar e renovar sempre, para galgar o .poder e litar, na chefia do Estado, a reprodução e ampliação
mantê-lo. Antes mesmo que se pensasse em disputas das relaçõescapitalistas, sem ampliar o uso da vio-
eleitorais, durante a ditadura do Estado Novo. fez lência e demonstrando notável tino para mascarar
como prefeito de Belo Horizonte (cargo que assumiu ainda mais o carâter de dominação e exploração do
em 1939) uma série de obras públicas de repercussão Estado brasileiro. Antes de tudo, agiu como um bur-
popular. Delas, passou a extrair a imagem do ho- guês democrata, num país onde a burguesia sempre
mem que substitui ''o burro pelo jipe'', imagem se caracterizou pela repulsa à democracia. Até mes-
multiplicada ao máximo durante sua gestão de gover- mo a realização que o imortalizou, Brasília, ''monu-
nador eleito de Minas a partir de 1950. Será ndo de mento de papel crepom e prata'', como diz Caetano
base para seu ideário ''desenvolvimentista'', a gestão Veloso, ele teveo cuidadode atribuir a uma aspi-
à frente do governo de Minas contribuiu também para ração popular; disse que a ideia Ihe veio como res-
consolidar sua imagem de político ''Populista'' e posta a um pedido feito num comício em uma cida-
capaz de se relacionar com habilidade com as classes dezinha do sertão de Goiâs. Comício, aliás, que dava
populares. início a uma série interminável de discursos e mani-
Inteligente e versátU, Kubitschek logo se prepa- festações públicas de um presidente que parecia estar
rou na escola do mando, sem perder o salofrlbfre e a permanentementeem campanha, depois de jâ eleito
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14 Ricardo Maranhão O Governo Juscetino Kubitschek

e empossado;porque, nas instáveisestnituras polí- processo de industrialização.


tiças brasileiras, JK sabia que era preciso fazer muita Na sua pratica de usar e devorar os mitos histó-
política para assegurar sua legitimação permanente. ricos nacionais, JK chegou mesmo a refazer na soli-
A compreensão dessetipo de atitude é essencial. dão do cerrado, onde se construía Brasília, a Pri-
Muito diferentemente da opinião dos que odeiam ou meira Missa, na mesma data de 3 de Maio em que
não compreendem a política, a dominação burguesa Cabral a fez rezar quando do Descobrimento.Frei
e a exploraçãocapitalistapodem ser feitas com eri- Henrique de Coimbrã foi substituídopor D. Cardos
ge/zÀoe erre. Isso não as toma menos odiosas; mas a Carmelo de Vasconcelos Mota; aliás, como na pin-
percepção disso abre caminho para o aprendizado tura famosa de Vitor Meirelles, na Primeira Missa
dos princípios e afazeres da ação política, indispen- brasiliense também comparecem, trazidos pela FAB,
sáveis para derrotar qualquer forma de dominação e uns atónitos índios carajâs. . .
exploração.
Conseguindo imenso prestígio e razoável estabi-
lidade política durante sua presidência, JK passou
para a história como o estadista da anistia, que duas
vezesconcedeu por iniciativa própria; como o gover-
nante brasileiro de maior prestígio intemacional, sa-
bendo extrair dividendos políticos mesmo de propos-
tas diplomáticas fracassadas como a Operação Pan-
Americana; como o chefe de Executivo que abriu as
portas ao capital estrangeiro, ao mesmo tempo que
afirmava posições independentes e nacionalistas.
rompendo com o Fundo Monetário Intemacional
(FMI). Antes de mais nada, passou com fortes tintas
a imagem do homem que agitou e despertou o ''gi-
gante adormecido'', com a construção do ''monu-
mento no Planalto Central'' e o fervor desenvolvi-
mentista. Do Pb/ír/co, enfim, que, sem fazer revolu-
ção alguma, soube capitalizar para seu prestígio
todos os aspectos positivos das importantes mudan-
ças da sociedadebrasileira, no difícil parto de seu
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O Governo Juscelino Kubitschek

Belo Horizonte vira a instalação de muitas novas uni-


dades fabris durante seu governo. Criando empresas
governamentais como a CEMIG, que ampliou bas-
tante a produção e distribuição de energia elétrica,
e a FERTISA, destinada à produção de matérias-
primas para fertilizantes, o mineiro de Diamantina
ampliava a imagem de administrador eficaz que
havia granjeado com a urbanizaçãoda Pampulha,
quando ainda era prefeito de Belo Horizonte.
A CAMINHO DA PRESIDÊNCIA A capacidade de JK de transformar a eficiência
em votos, e a oratória capaz de entusiasmar as mul-
tidões, eram critérios que não deixariam de impres-
sionar Varias e leva-lo a pensar no nome mineiro
Juscelino nos conta, em suas memórias, uma para seu sucessor.Até mesmopor intuição: assim
reve[ação que [he teria sido feita por Amaram Peixoto: como muita gente do povo chamava Getúlio de
''Certa vez, pouco antes da crise de agosto (de 1954), ''Gegê'', também Kubitschek tinha o apelido cari-
discutia-se no Catete a futura sucessão, com refe- nhosode ''Nona''. Mais do que tudo isso, porém, e
rências aos prováveis candidatos. A palestra era a considerando a realidade da política brasileira, sem-
mais íntima possível. Vergas, reclinado numa pol- pre pensada pelos seus dirigentes como algo de cima
trona, ouvia semnada dizer, fumando o seu charuto. para bizüo, pesariamna indicaçãode JK as suas
Diversos políticos foram citados, e ele, interrom- excelentes relações com os próceres do mais poderoso
pendo a enumeração, atalhou significativamente: 'Já partido político de 1945 a 1964: o Partido Social
que estão discutindo nomes, será bom não esquecer o Democrático, PSD.
do governador de Minas' ''. Depois de completar seus estudos de medicina,
Não é de surpreenderque o tino políticode ter-se especializadona Fiança e trabalhar como ca-
Varias o levassea expressar essa posição. Sabia do pitão-médico no Exército, Juscelino aproximou-se do
prestígio de Kubitschek no pape/ de golpernador. interventor mineiro Benedita Valadares, tomando-se
Como chefe do Executivo mineiro, ele desenvolvera secretariode seu govemoem 1933. Sob a égide do
um plano de industrialização do estado, consubstan- poderoso Valadares, elegeu-se deputado à Consti-
ciado no binómio ''Energia e 'Ftansportes'', com ra- tuinte em 1934, e foi nomeado prefeito em 1939.
zoável eficiência: a Cidade lq-dustrial próxima de A partir de 1945,Valadaresfoi um dos principais
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O GovernoJuscelinoKubitschek

mentores da organização do PSD; isso facilitou a JK, e os interessesdo empresariado(não apenas os vin-
deputado em 1946, a proximidade com as figuras culados ao capital estrangeiro, como os que depen-
essenciais do pessedismo, como os mineiros Tan- diam de créditos, pois a política financeira perma-
credo Nevese José Mana Alkmin, ou o político flu- neceu controlada pelo PSD), e das novas camadas
minense almirante Amaral Peixoto, genro de cargas. urbanas, mobilizadaspela redistribuiçãodas vanta-
O pessedismo mineiro, verdadeiro pilar da polí- gens advindas com o desenvolvimentoeconómico
tica brasileira, garantiu o governo do estado a Jusce- tO Governo Kubitschek -- Desenvolvimento Econõ-
lino. Entretanto, no plano nacional, ele tinha condi- mfco e Esfabf/idade Po/íffca, Paz e Terra, Rio, 1976).
ções de reproduzir a articulação partidária mais Para compreender o funcionamento dessa alian-
poderosa, que venceu a quase totalidade dos pleitos ça, não se pode esquecera sua importânciaao nível
durante o período democrático-liberalde 1945 a do poder Legislativo.No plano das instituições,o
1964:a grandeherança de Vargas, a coligaçãoPSD- Legislativo teve um peso nada desprezível, apesar de
PTB. Político da elite com grande repercussão entre perder continuamente sua capacidade decisória (essa
as massas, JK parecia talhado para expressar pes- perda, como se veria depois, no governoJogo Gou-
soalmente esse complexo partidário. lart, não implica redução da capacidade de obsfm-
ção do Congresso, por exemplo com relação à Re-
forma Agrária). A margem de autonomia decisória
A aliançaPSD-PTB do Congresso se revelava principalmente na possibi-
lidade de controlar o orçamento (coisa que o pós-64
rapidamente Ihe retirou), inclusive parte das verbas
No quadro histórico do regime vigente à época especiais da Presidência. O Congresso podia também
de JK, não é possívelpensar os mecanismos de fun- derrubar vetos presidenciaise instituir Comissões
cionamento e as articulações de interesses sem enten- Parlamentares de Inquérito de razóavel eficiência.
der a articulação PSD-PTB como cepzrra/,tanto no Por isso mesmo, a força da aliança PSD-PTB no
poder Executivo como no Legislativo. Sobre o qüin- Congresso garantia a continuidade do mando polí-
qüêniode Nona, diz Mana Vitória Benevides:''o go- tico, assegurava a legitimação desse mando no jogo
verno representava, objetivamente, os interesses da parlamentar, e fornecia munição ideológica para o
maioria parlamentar. Esses interessesestavam repre- governo e a imprensa. Ao mesmo tempo, fazia o
sentados na aliança PSD-PTB: os da elite rural pre- Congresso funcionar como canal de circulação de
servados, uma vez que o sistema de poder e proprie- demandas setoríais dos grupos sociais de apoio ao
dade no campo permanece intocável na sua essência, governo: os deputados da aliança dominante tinham
Ricardo Maranhão 21
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tanto a possibilidade de fazer passar proJetos de lei servidores civis no Brasil. Dos 700 013 serüdores civis
favoráveis a suas bases regionais, quanto o sucesso de federais registrados em 1966 no censo dos servidores
frequentar gabinetes ministeriais para assegurar públicos, 121328estavamna esfera do Ministério do
obras, empregose mais votos nas eleiçõesfuturas. Trabalho, e 95 619 destes trabalhavam na burocracia
Esse tipo de ação política, q/7caz na reprodução da Previdência Social.''
do mando, era mais poderoso dentro do PSD. Abe- Essa participaçãodo PTB no aparelhode Es-
lardo Jurema, um de seus líderes, conta como um tado não só garantia sua permanência no núcleo de
membro da UDN se referia a isto: ''Seu Jurema, poder ao nível do Executivo, como facilitava sua
a UDN não sabe de nada, vocês do PSD é que sabem continuidade eleitoral no Legislativo. Isso teria im-
de tudo, dos cargos e vagas existentes, dos comandos portantes consequências no próprio plano sindical,
úteis à política, das oportunidadesde ação em favor com limitações à própria democracia nesse plano;
do partido. ..''. Mas todos os partidos brasileiros sa- mas, no nívelparrfdárfo, essa situação dava ao PTB
biam praticar, bem ou mal, essejogo de trocas de possibilidades tanto de um contínuo crescimento
favores políticos, mesmo os udenistas, que tinham quantode uma legitimaçãocomo ''porta-voz''das
um discurso moralista de condenação a tais praticas. classes trabalhadoras, uma necessidade do jogo
O PSD apenasera mais eficaz por ter a tradição de populista. Isso permitiu tomar um pouco mais com-
mando mais arraigada, por ter reunido desdeo final plexa a aliança dominante, pelo afluxo de um apoio
do Estado Novo as oligarquias agrárias com altos de esquerda a ela.
burocratas, ex-''tenentes'', homens da alta finança e Esse apoio não provinha apenas da chamada
antigos interventores nos estados. ''esquerda nacionalista'', de extração pequeno-bur-
Mas o PTB tambémfazia bem essejogo, no guesa, formada de intelectuaise de membros da
âmbito do Ministério do Trabalho e na máquina'da burocracia do Estado. Também os comunistasen-
Previdência Social. Em seu estudo .Sfndíca/&mo no traram nesseapoio depois de 1954. A partir de 1952,
Processo PÓ/írlco no .Brasa/ (Brasiliense, São Paulo, com a revogaçãodo ''atestado de ideologia'' para as
1979), Kenneth Paul Ericsson mostra como o clien- eleições sindicais, já se registravam alianças tâticas
telismo e o empreguismo foram utilizados pelas pete- entre o PCB e os petebistasna base sindical. Mas,
bistas, não apenas como moedas de troca de favores com a morte de Vergas e a explosãopopular decor-
políticos, mas também como elemento de cooptação rente, ficou claro para os comunistasque a aliança
de lideranças sindicais. ''A importância do Minis- com o PTB deveria ter um carâter mais profundo e
tério do Trabalho como fonte de empregos públicos duradouro. Aprofundou-se a prática de apresentar
pode ser avaliada se observarmos a distribuição dos candidatos comunistas às eleições parlamentares
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O Governo Juscelino Kubitschek

atravésda legendado PTB, e a negociaçãoda pre- eleições de 1955. Como diz Jurema, ''Vargas coman-
sença de comunistas nas campanhas petebistas e na dava, do túmulo, os acontecimentos.Tudo passou a
cúpula sindical se intensificou . correr sob sua batuta imaterial. A sua carta-testa-
Por um lado, isso tendeu a deslocar o PTB para mento era uma bíblia. O seu nome, um hino.. . A vin-
o que Ericsson chama de ''populismo radical'', mes- gança do morto se fazia sentir, dia a dia, mês a mês,
mo sem alterar a essência das práticas petebistas; por até que Juscelino Kubitschek assume, levantando de
outro lado, isso facilitou o carreamento de votos para novo, de fato e de direito, a bandeira PSD & PTB,
o PTB, na medida mesma do crescimento das massas sob a égide da imagem de Varias''
operárias urbanas e das lutas trabalhistas nas cida-
des. Aliás, enquantoo PSD, ao longo de sua exis-
tência, se limitou a ma/zfer (com pequenos acrésci- Articulações e obstáculos da candidatura
mos) o número da sua representação parlamentar,
o PTB cresceusempre: de 22 deputados federais em
194S,passou para 51 em 1950,56 em 1954, 66 em Não foi fácil desenvolver ás jogadas necessárias
1958, saltando para 116em 1962, quando supera a para JK ser indicado candidato à Presidência. As
UDN e passa a disputar com o PSD o lugar de maior eleiçõespresidenciais se dariam em 3 de outubro de
partido nacional. 1955, apenas um ano e pouco depois dos trágicos
Imbatível e poderosa, a aliança PSD-PTB tinha acontecimentos do suicídio de Vargas. Guindado
que se ''atualizar'' em função das conjunturas. Du- momentaneamente ao poder pela subida de seu alia-
rante o interregno Café Filho, ela esteve fora do go- do Café Filho (embora Café evitasse assumir publi-
verno (embora não estivesse completamente fora do camente essa aliança, seus primeiros gestos foram no
poder), e no planoparlamentarera majoritâria, mas sentido de colocar em postos-chave do Executivo ele-
não agia sempre em consonância, nem tratava de mentos da UDN), os udenistas clamavam pela neces-
campanhas comuns. sidade de se adiar as eleições. Desde a primeira der-
Nesses anos de 1954 e 1955, o que uniu pesse- rota eleitoral do seu candidato Brigadeiro Eduardo
distas e petebistas foi a defesa da herança comum do Gomos, em 1945, a UDN se deslocavacada vez mais
getulismo,ameaçadapela UDN e por partidos me- para a direita, denunciando o regime liberal-demo-
nores. Como criaturas e herdeiros do getulismo, tra- crático recém-instalado como ''corrupto'', e ata-
tava-sede defender, mais do que as posiçõesideoló- cando violentamente as táticas eleitorais ''populis-
gicas da carta-testamento, as posições políticas con- tas''. Derrotado novamente o Brigadeü'o em 1950,
quistadas, preparando-separa a volta ao poder nas os udenistaspassaram a pregar abertamenteum
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golpe militar, capaz de ''regenerar'' as instituições. campanha antes que a idéia do ''candidato único''
Na oposição a Getúlio, foram os principais respon- ganhasse corpo.
sáveis políticos pela sucessão de fatos que levariam o Para consolidara força de sua candidatura, JK
velho presidente ao gesto extremo. necessitava do apoio decidido do PTB na luta contra
Aproximando-se do poder, os udenistas radicais a manobra. AÍ residia um problema: por motivos
desejavamexpurgar dele toda a herança do getu- regionais, o herdeiro da chefia nacional do PTB,
lismo, através de meios extralegais como a suspensão Jogo Goulart, havia sido derrotado nas eleições do
das eleições. Entretanto, os chefes mais experimen- seu próprio estado, o Rio Grande do Sul; abatido,
tados da direção do partido tentaram primeiro uma retirara-sedo primeiro plano do jogo político, dei-
tática que não violasse completamenteas regras do xando seu partido meio órfão naquele momento crí-
jogo: a escolha, por consenso das lideranças de todos tico. Mas a habilidade do mineiro Tancredo Neves se
os partidos, de um ca/zdldafo zínfco que expressasse o incumbilia de encontrar um interlocutor petebista à
desejode ''pacificação nacional''. A tâtica não era altura: o líder gaúcho Osvaldo Aranha, revolucio-
nova, nem deixaria de ser usada no futuro por polí- nário de 1930e de grande projeção. Aranha con-
ticos desejosos de ''remédios'' que excluem o povo cordou, negociandocom Tancredo e JI(, em conso-
das decisões. Através.do influente Marechal Cordeiro lidar a aliança entre os dois partidos, como elemento
de Farias, a UDN ganhoupara a idéia o líder pesse- até mesmo de reforço e reorganização do PTB, preju-
dista pemambucano Etelvino Lins, que logo no final dicado pelo govemo Café e traumatizada ainda pelo
de agosto de 1954procurou JK e a direção do PSD suicídio do seu fundador.
para defendo-la. Café Filho também manobrava contra ''Nona'',
Juscelino percebeu no mesmo instante a mano- insistindo na tese do candidato único e acenando
bra para afasta-lo da indicação à Presidência. Se o com a ameaça de um golpe militar caso ela não fosse
''candidato único'' tinha que ser alguém ''neutro e aceita. De fato, boa parte da oficialidadeera favo-
consensual'', obviamente isso se destinava a impedir rável à suspensão da consulta popular, influenciada
que houvesse combate eleitoral, no qual as chances pela pregação dos udenistas mais radicais como Car-
de JK eram grandes, e a dos udenistas, pequenas los Lacerda. Como veremos, os fatos posteriores mos-
(isso ficaria claro pela queda de votação udenista nas traram que essesoficiais não eram a maioria. Mas o
eleições para o Congresso em outubro de 1954). medo de uma solução armada balançou até mesmo
Diante da trama, só restava a JK apresentar-se como os arraiais pessedistas:o próprio Valadares, o antigo
o defensor da legalidade e da democracia, exigindo o chefe de Juscelino, com a imensa carga de prudência,
cumprimento do calendário eleitoral e atirando-se à moderação e conciliação que anos de pessedismo
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1-' 27
Rícardo .4/aranÃâo[ ' O Governo Jusce/fno .KublfscÀek

mineiro Ihe conferiram, começou a se interessar pelo dustrial mineira, estabeleceu boas relações também
''candidatoúnico". Com um trabalho de formiga, com empresas multinacionaiscom a Mannesmann.
em que era especialista, passou a minar a candida- Essas relações seriam decisivas para o financiamento
tura JK nas suas próprias bases. de seus incansáveis vãos de campanha de norte a sul
Os udenistas,na imprensae na tribuna, debla- do país. JK contava também com excelentesrela-
teravam sistematicamente contra JK, contra as elei- ções com alguns órgãos de imprensa bastante in-
ções e contra tudo que lembrasse o getulismo. Como f[uentes: o (]orre]o da M2zn&ãdo Rio de Janeiro, por
diz Kubitschek, ''como a UDN poderia disputar exemplo, de atuação política nacional desde a dé-
livremente as eleições, se o fantasma de Varias ron- cada de vinte, a partir de janeiro de 1956chegava a
dava a cabeceira de seus líderes, numa presença suspender a impressão do jornal, em plena madru-
quase física, transformando-lhes o sono numa suces- gada, para registraruma declaraçãodo líder mi-
são de pesadelos?'' Nas hostes que tinham a cabeça neiro. A ]b/anc&ere,
na épocauma das revistasde
mais fria, a resposta à pretensãopresidencial do mi- maior circulação nacional, estampada frequente-
neiro de Diamantina,já agitada em todo o país, mente em suas paginas a fisionomia simpática de
chegou a ser a de uma chapa de composição em que o 'Nona''. Ele se valia também das excelentes relações
general udenista Juarez Távora seria presidente, e que mantinha com o clero conservador de seu estado,
Juscelino o vice. Logo foi ironizada com o nome de fiador da imagem de homem ordeiro e religioso. A au-
' 'Chapa Juju'' . sência de alternativas para a expressão das massas que
votavam no PTB, por outro lado, desviava para o ca-
Consolidação das articulações risma popular juscelinista as atençõesdesse partido.
Em fins de outubro de 1954, JK declarou-se
As pretensões presidenciais de Juscelino tinham, totalmente em campo, na ofensiva. Voava sem parar
entretanto, bases mais sólidas. Do ponto de vista de um lado para o outro, com seus articuladores
social, havia parcelas significativas da burguesia que arrancando diariamente declarações dos mais remo-
se interessavampor suas propostas de empreendi- tos municípios mineiros em favor de sua candidatura
mentos públicos e privados de grande envergadura. (afinal, o PSD controlava300das 400 prefeituras do
Tinha, por exemplo,boas relaçõescom o Grupo estado,e Valadares não conseguiuagir com a pres-
Antunes, cuja gigantescaempresa de mineração de teza suficiente para esvazia ''Nona''). Logo surgi-
manganés no Amapá, a ICOMI, seria prestigiada em ram também manifestos de estudantes, intelectuais e
uma de suas primeiras viagens da campanha presi- empresários a seu favor. A jogada decisiva, porém,
dencial. Ao estimular os investimentos na Cidade In- foi a sua eficácia em encaminhar corretamente o
28 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek
29

problema da sucessãomineira. tares, acompanhadospela assinatura dos mais im-


De acordo com a Constituição vigente, ele devia portantes generais das Forças Armadas, entregaram
se afastar da govemança estadual dez meses antes da em 31 de dezembro a Café Filho um manifesto. Nele,
eleiçõespresidenciais, ou seja, em janeiro de 1955, com uma linguagem equívoca e fluida, típica dos
deixando seu posto para Clóvis Salgado, vice-gover- documentos coletivospara cuja redução se têm enor-
nador e membro do PR (Partido Republicano), mes dificuldades de obter consenso, os militares
velha sobrevivência oligárquica da Primeira Repú- apontavam para uma solução política que contem-
blica. Ocorre que o antigo chefedessepartido, Artur plasse o ''espírito de colaboração interpartidária'',
Bemardes (que foi presidente da República de 1922 necessária à ''preservação da ordem". Descartavam
a 1926), com insuspeita jovialidade pretendia usar os claramente a hipótese de uma candidatura militar, e
instrumentos de poder estadual para pleitear o Exe- apelavam para o fim dos ''ódios e dissensões". Não se
cutivo mineiro para o PR, se necessário em aliança tratava de um veto a Kubitschek, mas Café Filho
com a inimiga UDN. Valadares passou a usar des- passou a usâ-lo com esse.sentido, ameaçando o can-
sa pretensãopam espalhar que JI(, candidatando- didato. Os golpistas da UDN exultaram, e não foram
se à Presidência, estaria ''entregando o governo ao poucos os pessedistas que balançaram de vacilação.
PR''. Isso assustava muitos líderes locais do PSD, Mas JK já havia dado o tom de sua conduta, na
mais afeitos às disputas domésticas,para quem o mensagem de Ano Novo: ''Calúnias não me farão
Palácio da Liberdade ficava mais próximo que o ina- recuar... Poupou-me Deus o sentimento do medo!''
tingível Palácio do Catete. Juscelino conseguiu aliar- Respondendo no afo às conspirações contra si, Jusce-
se ao próprio filho primogénitode Artur Bemardes, lino deu andamentoà campanha nacional, que ja
esvaziando as propostas do velho; dessa forma, con- iniciara em dezembrocom comícios no Norte. Em
seguiu com muito esforço que o PR desistisse do janeiro, devidamente desincompatibilizado, conti-
mando estadual, tirando ao mesmo tempo uma reso- nuou a voar pelo país. Café Filho tentoujogar pe-
lução de apoio à sua candidatura à Presidência da sado, com um discursooficial na .Hora do .Brasa/de
República, desde que o PSD o lançasse. 27 de janeiro, em que fazia violentas acusações ao
A 25 de novembro, com apoio de inúmeros dire- candidato, atribuindo-lhe a responsabilidade por
tórios do partido, o Diretório Nacional do PSD apro- prováveis ''convulsões'' sucessórias, caso insistisse.
vava a candidatura de JK, por 123 votos contra 36. Com ousadia,JK desmentiupublicamenteo presi-
Faltava apenas a homologação do nome pela Con- dente interino no dia seguinte, e tocou o barco. Logo
vençãoNacional. Um último obstáculo,porém, e da depois, a:Convenção Nacional de seu partido homo-
maior gravidade, se interpôs. Os três ministros mili- logou seu nome e a campanha tomou um ritmo deli-
30 Ricardo Maranhão

unte.
Juscelino ''organizava o movimento'', ''orien-
tava o Carnaval'' e apontava ''seu nariz contra os
chapadões''. À UDN só restou oficializar a candida-
tura de Juarez Távora, enquanto o paulista Adhemar
de Barcos também se lançava, para tentar colher
votos em áreas sensíveis ao discurso ''populista''.
Mas a vitória de ''Nona'' era inevitável. Em primeiro
lugar pelo poder de sua aliança partidária, carac-
terística do próprio regime vigente e mantida prati- MILITARES NA BRIGA PELA POSSE
camente intacta pelo interregno Café Filho. Mas
também pela capacidade particular de JK e do nú-
cleo de mando do PSD mineiro, associada à vontade
política do filho de Diamantina. A força do PSD- Conhecidos os resultados do pleito de 3 de ou-
PTB era um fenómenoesfmfura/; mas a anãol,o/un- tubro de 1955,podia-seler em vários jornais que o
fárfa e conUtznrura/de JK foi decisiva para manter e eleitorado de JK era ''formado pela massa ignorante,
atualizar essa determinação histórica. sofredora, desiludida, trabalhada pela mais sórdida
Em 3 de outubro de 1955 Kubitschek obteve das demagogias e envenenada pela propaganda so-
36% dosvotosnacionais, contra 30%ode Juarez Tá- lene do Partido Comunista''.Tratava-sede uma
vora, 26%ode Adhemar de Barcos e 8%odados ao nota da Cruzada Brasileira Anticomunista, uma das
ridículo e insistenteex-líder fascista Plínio Salgado. primeiras manifestações da interminável série de
Há um detalhe que é interessante notar: mostrando a combates que a direita brasileira moveria contra a
força crescentedo PTB, o candidato a vice Jogo posse dos eleitos JK e Jango. A cruzada tinha pouca
Goulart obtevemais votos que o presidente: recebeu expressão, a não ser num restrito círculo de militares
3 591409, enquanto l(ubitschek era sufragado por e civis de nítida vocação fascistóide. Mas sua prega-
3 077411 eleitores. Deve-se levar em conta, porém, ção era encampada também pelos mais radicais da
que o eleitorado de tipo ''populista'' de São Paulo UDN, como CardosLacerda, que clamava pelo ca-
descarregou quase qtzafro vezes mais votos presiden- ráter ''comunista'' dos sufrágios do presidente eleito.
ciais em Adhemar de Baços do que em JK, nesse A maioria da opinião pública não entrava nessa
estado de grande peso eleitoral. Na área popular, jogada: sabia-se quanto o PCB estava enfraquecido
Janto não teve adversários suficientemente fortes. desde a sua cassação em 1947, enfraquecimento
32 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek 33

agravado, durante o govemo de Varias, pela inca- rique Teixeira Lott, para pedir apoio à solução legal
pacidade do partido em perceber o fenómeno de de se impedir a posse dos eleitos através de uma
massas que o getulismo representava. Com o suicídio decisão do Superior Tribunal Eleitoral. Lott deixou
do velho estadista, essa posição comunista tendeu a claro que não concordava com a manobra, apoiando
se modificar, e efetivamente a direção do PCB, apro- a posse de JK na data prevista. E na firmeza com que
ximando-semais do petebismo, apoiou a chapa Ku- tomou essa posição jâ se podia vislumbrar seu com-
bitschek-Jango e chegou a manter entendimentos di- portamento nas semanas seguintes: ele chegaria a
retos com o PTB sobre o problema. Mas sua capa- dar um contragolpemilitar em ll de novembropara
cidade de cartear votos, como todo mundo sabia, era assegurar a ordem constituída e a passagem da faixa
pequena. presidencial ao mineiro de Diamantina.
Esse argumento dos golpistas da UDN contra a Para se compreender os acontecimentos de 11 de
posse de JK entrava ''de contrabando'' numa justi- novembro, é necessáriocompreender duas coisas: a
ficação um pouco mais ''sólida'': o novo presidente posiçãode Café Filho e a dos militares. Café não
obtivera um pouco mais de um terço dos votos na- participava diretamente da conspiração contra JK,
cionais, e a Constituição, diziam, exigia que o Chefe mas não seopunha a ela. No fim de outubro, chegou
da Nação tivessea maioria absoluta. Mas isso tam- a cometer um lapso significativo ao solicitar o apoio
bém era um canto de sereias envelhecidas:jâ em do líder pessedistaJosé Mana Alkmin para uma
1950, o argumento da maioria absoluta fora usado determinada atitude de política financeira, argumen--
pela UDN contra Vargas, sem sucesso.Por isso tando com o ânus que essa atitude evitaria para as
mesmo, enquanto esbravQjavam na imprensa, os finanças da União, e dizendo: ''não seria justo lançar
udenistas radicais preparavam o caminho ilegal e essa carga sobre os ombros de quem quer que seja o
antidemocrático: o golpe militar contra a posse, arti- futuro presidente".Alkmin manifestousua estra-
culado junto aos jovens oficiais antigetulistas e de nheza, poisja havia um eleito,e retirou-separa aler-
direita que Lacerda influenciava. tar seus correligionáriosdo PSD. Alias, nas articu-
Esses jovens oficiais contavam pressionar o Alto laçõesde JK para garantir a posse, Alkmin teveum
Comando para a conspiração; o generalato, entre- papel essencial, movimentando-se incansavelmente
tanto, era mais sensívelà pregação menos radical de nos meios políticos e nos gabinetes militares para
militares udenistas como o Ministro da Aeronáutica, minar a conspiração golpista.
Brigadeiro Eduardo Games, e o Marechal Cordeiro Café Filho não viveria diretamente os difíceis
de Farias. O primeiro havia procurado logo depois de eventos de ll de novembro pois, no dia 3 desse
3 de outubroo Ministro da Guerra, General Hen- mesmo mês, teve um ataque cardiovascular que o
34 Ricardo Maranh ãa emoJuscetino Kubitschek

levou a se internar no hospital, com prescrição de centrosde poder; o Estado da Primeira República,
repouso absoluto. Velhas raposas, os pessedistas-do depois de consolidado com Campos Sales, teve que
sra# de JK nunca acreditaram muito na importância negociar com a chefia militar a legitimação e o apoio
da doença do presidenteinterino. Preferiram atri- ao poder oligárquico (outro não foi o significado, por
buí-la a mais uma manobra da conspiração udenista- exemplo, das concessõesde altos cargos políticos a
militar para afastar o General Lott, obstáculo essen- chefes do Exército durante as ''Salvações'' do go-
cial para que os eleitos fossem afastados do poder. vemo Hermes da Fonseca). Após a Revolução de
A compreensão
da posiçãode Lott e dos mili- 1930,a crise de hegemoniaque se instaurou conce-
tares envolvidosnos acontecimentosde novembro deu ao Poder Militar um papel ainda mais decisivo
exigeo entendimentodo próprio papel dos militares em um Estado relativamente mais autónomo; e não
na política brasileira. Para a sua atuação futura, se pode esquecerque, se Getúlio Varias não se
esses acontecimentos não foram apenas uma crise adiantasse como sempre aos acontecimentos, alian-
passageira. do-se ao Alto Comando, o golpe de 1937 seria dado
pelo Exército de Góis Monteiro.
No períodode 1945a 1964,o papel do Poder
Militar tem uma importânciaóbvia ao nível dos
O poder militar fatos, e não só por ter sido o general Dutra o primeiro
presidente;é importantelembrar que a estrepitosa
O episódio de ll de novembro tem uma impor- campanha que levou Getúlio em 1950 à vitória elei-
tância das mais fundamentais,na medida em que toral e à Presidência teve um n/#f/ obsraf prévio do
afzza/lzou para a década de 1950 um componente Alto Comando militar. Da mesma forma, esseAlto
estrutural decisivoda política brasileira: o Poder Mi- Comando exigiu o fim do governo Varias em agosto
litar. Este não pode ser concebido da mesma forma de 1954, levando-o ao suicídio.
que no modelo liberal clássico, como corpo profis- Alguns autorestendem a ver essa importância
sional que constitui um aparelho dos mais importan- do Poder Militar, no período, de um ponto de vista
tes dentro do Estado, voltado principalmente para a que nos parece incompleto porque meramente ope-
afirmação da soberania perante o Exterior. No Bra- racfona/. É o caso de Alfred Stepan, segundo o qual
sil, desdea guerra do Paraguai o Exército, princi- os militares exerceriam, na política, um papel mode-
palmente nos seus escalões mais altos, é um impor- rador. Eles seriam freqüentemente cooptados pelas
tante centro de ação e decisão política l/zfema. O elites políticas, atraídos para o apoio a posições
Império pagou caro por tentar manto-lo excluído dos dominantes, e chamados a intervir diretamente
36 Ricardo Maranh ãa
O Governo Juscetino Kubitschek 37

quando os civis não conseguem solucionar satisfato- Parece-nos exatamente esse o caso do General
riamente uma crise política. Depois de ''moderar'' a Henrique Teixeira Lott.. Ele está no centro do sistema
crise e pâr ordem na casa, eles se retirariam nova-
político pelo menos desde 1946, quando foi nomeado
mente aos quartéis (Os .A/f/ífareslza Po/ífíca, Arte- para o importantecargo de Adido Militar em Wash-
nova, Rio, 1975). ington e delegado da Junta Interamericana da Defesa
Ora, parece-nos que as chefias militares não são -- cargo que, na época, era mais importanteainda
''cooptadas'' pela elite política, e sim Fere/icem a
que hoje, num momento de rearticulação do sistema
ela. Não é por outra razão que a imensa maioria dos
de poder mundial dos EUA no pós-guerra, em pleno
soldados que sobem aos postos superiores ao de co- início da Guerra Fria. E que resultou, por exemplo,
ronel, o fazem por meio de uma conquista política, na constituiçãoem 1948da famosa ComissãoMista
muito mais que por acúmulo de pontos profissionais Brasil-EUA. Por isso mesmo, em agosto de 1954 foi
ou antiguidade.Chegarao Alto Comandoimplica necessária a assinatura de Lott, mesmo que em po-
em adentrar o núcleo de poder dentro do Estado, sição secundária, no Manifesto dos Generais que
com raras exceções.E embora esse núcleo de poder exigiu o fim do governoVargas. Muitos autores con-
tenha sofrido modificações ao longo de 1945 a 1964, sideram que, no ll de novembro, Lott nada mais fez
não há dúvida de que as principais chefias militares que manter uma posição ''legalista'', derrubando
tiveram dentro desse núcleo uma razoável capaci- Carlos Luz para assegurar a legalidade constitucio-
dade de permanência, maior do que a maioria das nal da posse de Juscelino Kubitschek. Para esses
elites civis. Se é verdade que os petebistas se manti- analistas, Lott teria conseguidoreunir forças para
veram, de 1950a 1964,enquistados no Estado atra- apoiar seu contragolpejustamentepor ser ''apolí-
vés do Ministério do Trabalho e da Previdência So- tico'', alguém a quem só interessava defender a lei.
cial, sem grandes abalos, não é menos verdadeiro A miopia estratégica desse raciocínio é por si só
que os generais que se destacaram no final dos anos evidente. Mas, ao nível dos fatos, a ''apoliticidade
40, entre os comandos do Exército e o Clube Militar, de Lott é ainda mais inconsistente. Participando
mantiveram no mesmo período um alto poder deci- intensamente dos grandes debates políticos do mo-
sório, não apenas ao nível do apare/Ào militar, mas mento, jâ como Ministro da Guerra de Café Filho.
também das ações do Executivo. Mantiveram-se no Lott desenvolveu uma série de articulações pela apro-
núcleo de poder e foram elite política durante todo o vaçãoparlamentarda ''cédulaúnica'' para as elei-
governo Juscelino, e reorientaram momentaneamente ções presidenciais de 3 de outubro de 1955. Chegou a
as próprias instituições, de agosto de 1961até o início ser atacado, pelo Corre/o da M2zn/zãdo Rio de Ja-
de 1963,no governoJogo Goulart. neiro, por fazer pressão direta sobre o Legislativo
38 Rlcardo ]Uaran/zâo 10 Governo Jusce/frio KtzbílscÀek
39

para a aprovação do dispositivo legal. Lott se resguardava,evitandotomar partido a não


A razão por que Lott conseguiu tanta força, ser pela ''defesa da Constituição'' e limitando seus
apoio e consenso militar para o ll de novembro pronunciamentos.
também mereceum pouco mais de atenção, na me- Mas Lott agia assim não por estar ''neutro'' no
dida em que chefes militares prestigiosos, como os jogo, e sim por perceber que a clara tomada de uma
generais Canrobert Pereira da Costa, Cordeiro de posição pública ao /ado de um parffdo clvf/ não era
Farias, Juarez Távora e outros também se opunham tão claramente simpática à ''maioria silenciosa'' dos
à posse de Juscelino Kubitschek. Não se pode deixar comandos militares. Na ''lógica do aparelho'', era
de afirmar que Lott agiu mais consentaneamente mais importante assegurar a posição majoritâria
com a ''lógica do aparelho'' militar de Estado que espec#icamenfemí/ífar, garantindo-secom o auxílio
com a lógica dos posicionamentos civis. Num mo- do mito da ''coesão das Forças Armadas'', procu-
mento em que a crise política polarizava e radica- rando parecer mais solidário com o esprff de coros
lizava as posições partidárias, Lott se apresentava a interno ao Exército do que com um partido dos ''pai-
nível público como o homem que ''defende a ordem sanos''. Da mesma forma, em 1963, o próprio chefe
acima das paixões políticas''; enquanto isso, Juarez do golpe de 31 de março de 1964, General Humberto
se posicionava claramente de maneira partidária, de Alentar Castelo Branco, procuraria manter-se no
como candidato presidencial da UDN e do antigetu- plano público com uma imagem não identificável
lismo; Cordeiro de Farias havia abandonadosuas com qualquer dos grupos civis em crescente conflito:
posições habitualmente moderadas (que Ihe valeram identificado então apenas com um grupo espec#íca-
até recentementeo papel de ''decano'' dos articu- menfeml/ífar: a ''Sorbonne'', elite da Escola Supe-
ladorespolíticosdo Exército), para fazer em agosto rior de Guerra.
de 1955 um pronunciamento contrário à realização Mesmo a maneira como Lott se tornou Ministro
de eleições, em coro com os antigetulistas como Car- da Guerra diz respeitoa essa posição. No dia 25 de
los Lacerca. Canrobert, até o dia 31 de outubro de agosto de 1954, Café Filho jâ empossado, os que
1955, em que faleceu, mantinha a sua postura parti- mais conspiravam contra Vergas exigiram a cabeça
dária de antigetulistafanático. Do outro lado, os do General Zenóbio da Costa e discutiram quem põr
militares que defenderam mais claramente Getúlio, no seu lugar: o próprio Coronel BizarTia Mamede,
comoseu Ministro da Guerra Zenóbioda Costa, es- publicamente o mais antigetulista, sugeriu o nome de
tavam ''queimados'' depois do 24 de agosto. Nos Lott, que não pertencia ao grupo vitoriosocom a
intermináveis debates de 1955, os oficiais ocupavam morte de Vargas, mas podia garantir a unidade mi-
com frequência incomum as páginas dos jornais; mas litar. O mesmo Mamede acabaria por sofrer, com o
40 J
Ricardo Maranh ão O Governo Juscelino Kubitschek

seu excesso de partidarismo ''civil'', pelas mãos do o Estado-Maior da Escola Superior de Guerra, Ma-
próprio homem que indicara: em lo de novembro de mede deveria ser punido pelo próprio presidente
1955, fez no enterro de Canrobert o discurso contra a Café. Este procurouadiar o problema,enquantoa
posse de JK que provocou as iras de Lott. imprensa pró-udenista jogava lenha na fogueira com
as repercussõesdo discurso do coronel. Intemando-
se no hospital no dia 3, Café tinha o acesso à sua
pessoa vetado por ordem médica, enquanto os quar-
O ll de novembro téis fervilhavam com a crise.
Durante uma curta estada no Rio, Juscelino
Até o dia lo do mês decisivo,Lott fizera tudo procurou reunir o máximo de forças entre os polí-
para preservar a sua imagem legalista. Concordara ticos, enquanto Alkmin intensificava seus contatos
em punir Zenóbioda Costa, ex-ministrode Vargas, com o Movimento Militar Constitucionalista(MMC) ,
pelo pronunciamentoque este fizera em favor do oposto aos udenistas, e com Lott. No dia 8, declarado
cumprimentoda Constituiçãoe, portanto, da posse pelos médicos como impossibilitado temporariamente
dos eleitos. Momentos depois, porém, puniu também de exercer seu mandato, Café passou a Presidência a
o General Etchegoyen, de posição oposta. Como, seu substituto constitucional, o Presidente da Câ-
diante desta última punição, vários dos militares mara Carlos Luz.
antigetulistas haviam feito manifestações públicas, A conspiraçãoandavarápida. Luz era clara-
Lott não teve dúvida em penaliza-los, exonerando mente alinhado aos golpistas: na tarde do dia 9,
cinco generais e vários coronéis de seus postos. falou claramente para Lott que não aceitava punir
Mas no dia lo de novembro derramou-se a gota Mamede.Em protesto,o Ministroda Guerra anun-
d'água das definições do Ministro da Guena. No ciou sua demissão, e já no dia 10 Luz preparava,
enterro do General Canrobert Pereira da Costa, o junto com Eduardo Gomes, com o udenista da Pasta
Coronel Jurandir Bizarria Mamede falou em nome da Justiça Prado Kelly e com o recém-nomeadoti-
do Clube Militar, na presençade Lott. Exaltou as tular da Guerra, General Fiúza de Castra, uma longa
virtudes anticomunistas e antigetulistas do falecido, lista de comandos militares a serem transferidos (cf.
atacando a ''pseudolegalidadeimoral e corrompida'' Thomas Skidmore, .Brasa/ -- de Geftí/ío a (lbsre/o,
e classificando a eleição de JK como ''vitória de uma Saga, Rio, 1969).
minoria'', que não podia justificar a posse. Lott ou- As rádios transmitiam sem parar informativos
viu calado, mas no momentoseguinteexigiu a puni- agitados e opiniões candentes sobre o assunto. SÓ à
ção do coronel. Ocorre que, por estar designadopara uma hora da manhã do dia 11, porém, Lott tomaria
42 Ricardo Maranhàa 43
O Governo Juscelino Kubitschek

a decisão, pressionadopelo General Odílio Denys e do alto oficialato, garantiu dessa forma a possede JK
pelos oficiais do MMC, entre outros adversários da emjaneiro seguinte. Não deixava de ser uma vitória
IJDN. O ministro demissionário rumou para seu contra os inimigos da democracia. Juscelino se vale-
gabinete e convocou com urgência as chefias do ria brilhantemente das instituições que o contragolpe
Exército. Às duas e meia da madrugada já havia preservou, para assegurar e desenvolvero domínio do
tropas se deslocando pelas ruas desertas do Rio de capital, na sua forma liberal-democrática.
Janeiro e ocupando postos estratégicos, sob o co-
mando de Lott. Ao mesmotempo, Alkmin reunia
seus aliados do PSD e do PR, além de Osvaldo Ara-
nha, do PTB, e da liderança do PSP. Nessa rápida
articulação, conseguiucom que o presidente substi-
tuto da Câmara, o velho gaúcho Flores da Cunha,
convocasseo Legislativofederal para uma reunião de
emergência às nove horas da manhão do dia ll.
A velocidade do contragolpe tornou-o uma reali-
dade inelutável, jâ ao alvorecer. O General Fiúza de
Castro jâ estava preso, as bases da Aeronáutica e o
Palácio do Catete cercados, a Central de Polícia ocu-
pada. Carlos Luz e seu sfal# conseguiramfugir por
pouco, refugiando-seno Arsenal da Marinha. Ali,
juntando-se a Carlos Lacerda e a outros líderes da
direita, como o Almirante Pena Bato, da Cruzada
Anticomunista, Luz e a UDN ainda fizeram uma
tentativa inútil: o rocambolesco episódio do embar-
que no navio Tamandaré, que zarpou rumo a São
Paulo para tentar estabelecer lá, em vão, um governo
provisorio.
Cumprindo o ritual constitucional, a Câmara de
maioria pessedista-petebista destituiu Luz e entregou
o governoao presidentedo Senado, Nereu Ramos. A
aliança dominante, fechada com o setor majoritário
O Governo Juscetino Kubitschek 45

O PLANO DE METAS
E O GRANDE CAPITAL

Se Brasília foi a grande arma simbólica da presi-


dência de Kubitschek, sua grande arma política foi o
desenvolvimentismo. Mas o sucesso no seu manejo só
foi possívelgraças à grande alavanca estratégica: o
Plano de Metas, ou Programade Metas. De posse
dessa alavanca, o presidentefoi capaz de remover os
obstáculosao seu triunfo, remanejar parte do pró-
prio sistema político para conseguir maior eficácia, e
consolidar seu prestígio e influência. Entretanto, o
Plano foi possível graças a um conjunto de determi-
nações históricas da sociedade brasileira, no quadro
de um processo de industrialização e de transforma-
ções capitalistas cujo início vem ainda dos anos 30.
Desde aquela época, a mudança de nossa fisionomia
social, de um sistema agrário-exportador para uma
formação capitalista industrial dependente, contou
Jusceiino e o novopadrão de acumulação
com a crescentementedecisivaparticipação do Es-
46 Ricardo Maranhão 0 Governo Juscetino Kubitschek 47

tado na economia. Como chefe de Estado, JI( am- cesso é bastante visível: de 1940 a 1961 a produção
pliou intensamente essa participação, ao mesmo industrial brasileira quase que sextuplicou, e teve um
tempo que estimulou como nunca o investimento ritmo de crescimentomaior do que o dobro do ritmo
privado, abrindo principalmente as portas ao capital de crescimento global da economia. Particularmente
estrangeiro. de 1955 a 1959, a expansão industrial superou de
Mas o Plano tambémfoi aplicadonum mo- longe os marcos de outra nação latino-americana em
mento em que uma série de transformações, até no processo rápido de industrialização: tomando-se para
próprio padrão de acumu]ação capita]ista no Brasi], 1955 o índice 100, em 1959 essa taxa se elevou no
estavam se operando; e numa situação em que o Brasil para 197 (quase dobrando em quatro anos),
grande capital monopolista, em escala internacional, enquanto no México a taxa foi a 134.
acelerava o processo de integração de economias Tendo limitadas as possibilidades de se basear
periféricas dependentes, exportando crescentemente essencialmente no setor agrário-exportador, pelas
capitaispara sua indústria. Contandocom um vasto restrições que o mercado internacional impunha ao
contingente de mão-de-obra barata, submetido à mi- crescimento efetivo do valor das exportações, o capi-
séria secular dos países ex-coloniais, o Brasil passava talismo brasileiro voltou-se cada vez mais para a
a ser um.terreno cada vez mais atraentepara as diversificação industrial. ''A industrialização ocorreu
grandes empresas multinacionais. Mas o país não aproveitando-se o mercado interno já existente para
teria essa característica, se não fosse a situação histó- produtos industriais importados, que eram substituí-
rica específica de seu processo de industrialização. dos por produtos fabricados no país. Tivemos assim
uma drástica redução do coeficientede importações,
que baixou de 12,6%ono período 50-54 para 8,6%o no
período 55-61. . . Os empresários industriais, nesse
Substituição de importações período, não tinham dificuldades maiores em decidir
em que setor investir, quais produtos importar. Bas-
Não hâ dúvida de que o período que estamos tava que examinassemnossa pauta de importações
analisando, apesar de apresentar mudanças no pa- para saberem onde investir'' , afirma Bresser Pereira
drão de acumulação capitalista, tem uma dinâmica (Z)escava/vfmenfo e Crise /zo .Brasa/, Brasiliense, São
de crescimento industrial cuja forma é ainda a do Paulo, 1976).
processo de ''substituição de importações'', que atin- Ora, no processo de substituição de importa-
ge seus limites e se esgota nessa etapa. Desde as ções, afirma-se claramente a presença crescente do
décadas anteriores, o crescimento dentro desse pro- Estado na economia, como elemento necessárioao
48 Ricardo Maranhõo 0 Governo Juscelino Kubitschek 49

processo, desde os anos 30. Mas deve-se anotar o burguesia industrial não conseguiu estabelecer sua
papel cada vez mais po/íflco dessa intervençãodo hegemonia na sociedadepolítica. Dependeu do Es-
Estado, seja como planejador, seja como proprietário tado, que Ihe asseguroua necessáriaparcelade
de meios de produção. Ao procurar, desde o final dos transferência de renda da agricultura para a indús-
anos 30, garantir as condições para o processo in- tria, mas sem subordinar o setor agrícola; esse Es-
dustrial, o Estado não se afirma apenas como ele- tado Ihe asseguroucapitais extemos para a expansão
mento central no plano económico: torna-se também do parque industrial, mas garantiu essa entrada mo-
o centro político decisivo para o qual se dirigem os vido também por outra defermípzação.
de caráfer
interesses e as demandas dos setores produtivos. í/zfernaclo/za/, como veremos, o que levaria à cres-
É evidente que esta característica não constitui cente subordinação da burguesia industrial a esse
uma especificidadebrasileira: efetivamente,em to- capital extemo. Um Estado, enfim, que não perten-
dos os Estados capitalistas o centro do sistema polí- cia efetivamente a essa burguesia, mas representava
tico é também o realizador efetivo dos interesses e também interessesdo setor agrário e dos grupos
demandas dos setoresprodutivos, enquanto tais de- exportadores/importadores, além de precisar .asse:
mandas dizem respeito à reprodução das relações de gurar migalhas da renda e pequenos benefícios à
produção e dominação na sociedade global. Mais classe trabalhadora, para legitimar e fortalecer o
ainda, na etapa monopolista do capitalismo essa pre- grupo no poder. Trata-se de uma situação que, no
sença do Estado, garantindo a reprodução do capi- essencial, havia definido suas características desde os
tal, é muito mais decisiva. anos 30, e que é assim analisada por Francisco Wef-
Entretanto, a especificidadepolítica do Estado fort: ''Resultandoem parte da Revoluçãode 30,...
brasileiro, no que se refere às suas ligações com os esse processo deveria conduzir a uma 'crise de hege-
setores produtivos, esta em que os empresários de monia'. . . Abaladas as bases de poder das velhas clas-
tais setoresmantêm uma forte dependência das ações ses agrárias, e na ausência de altemativas de outras
do Estado. Não constituindo formas sólidas de arti- classes fundamentais', entre as quais a burguesia
culação na sociedade civil pelas quais pudessem vei- industrial e a classe operária, a crise deveria receber
cular seus interesses, os setores empresariais têm precisamente esta solução que Gramsci designa como
necessidade de um acesso mais direto ao Estado, do 'transformista', ou seja, a preeminência do Estado
qual dependeme dentro do qual são incapazes de sobre a sociedade civil com a projeção dos detentores
estabelecer uma hegemonia efetiva de classe ou fra- do aparelho de Estado para a condição de árbitros do
ção de classe. É notório que, apesar do intenso instável compromisso entre os grupos dominantes,
desenvolvimentoindustrial dos anos 1956a 1960, a que desde então passaria a caracterizar o regime
50 Ricardo Maranhàa 51
O Governo Juscetino Kubitschek

brasileiro'' (Paridos, Sírzdfcafos e Z)emagrecia, São b.monetário Internacional (FMI) no plano económico,
Paulo, 1975,mimeog.,p. 65). Gudin tentou atacar de rijo a inflação crescente, por
É necessário observar sob esta ética alguns as- ele apontada como a herança mais trágica da política
pectos decisivos da ação do Estado no período; e não de Vargas, através de uma forte restrição de crédito e
apenas a política desenvolvimentistade Kubitschek, da contenção dos gastos públicos. Não teve êxito na
mas também um fato anterior que a facilitou, a con- aplicação de suas medidas drásticas, pois o governo
trovertidaInstrução 113da SUMOC, de 1955. não era suficientementeforte para isso; além das crí-
ticas dos nacionalistas, ele teve que enfrentar os pro-
testos dos empresários das indústrias de bens de ca-
Gudin e a Instrução 113 pital dependentesde créditosdo Estado, dos cafei-
cultoresque não aceitavamsuas idéias de acabar
com o programa de apoio ao café e, finalmente, dos
O governo Café Filho foi, pelo menos no plano bancos comerciais que não aceitaram sua exigência
dos fatos políticos e das aparências, um governo de que metade dos novos depósitos fosse recolhida
frágil, classificado como ''transitório'' até mesmo por na SUMOC (Superintendência
da Moedae do Cré-
alguns de seus integrantes. Dois mesesapós a posse dito)
l
de Café, as eleições parlamentares de 3 de outubro de Mas não é essaa importânciade Gudin. Seu
1954 haviam mostrado o avanço da oposição pete- ideário ''monetarista'' permaneceu como referência
bista (de 51 para 56 cadeiras) na Câmara dos Depu- para todas as práticas futuras desse gênero ''anti-
tados, o recuo eleitoral da UDN aliada ao presidente inflacionista'', criando uma verdadeira ''escola''; o
(de 84para 74 cadeiras), e a manutençãoda maioria mais importante, porém, é o problema de /findo em
pessedista, que não apoiava o governo. que a sua política económicase inseria e ao qual ele
Entretanto, a existência de um governo fraco daria uma nova solução.
não significanecessariamente
que o Estado não A política económica, como a dos govemos
intervenha nos rumos da economia. Efetivamente, brasileiros desde os anos 30, se movia entre interesses
o primeiro ministro da Fazenda de Café Filho, Eu- ora complementaresora conflitantes, do setor agrá-
gênio Gudin, marcou decisivamente em sua gestão o rio-exportador e do setor industrial. O primeiro era
capitalismo brasileiro, assinalando a preeminência sempre atendido, por exemplo, nos seus interesses de
do Estado mesmo durante um governo transitório. proteção estatal à renda do café, ou no desejo de que
Conservadorno plano político, udenista, e favorável não se alterasseo sistema de propriedade da terra
às medidas ''monetaristas'' preconizadas pelo Fundo (no qual nenhum governo até 1964 tentou tocar, a
52 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek
53

não ser Jango, pouco antes de ser derrubado). O se- No momentoem que Gudin assumiuo Minis-
gundo setor tinha a garantia, por exemplo, de que o tério da Fazenda, a questão se agravava, pois a venda
Estado Ihe proporcionasse crédito (e Gudin acabaria internacional do café estava em baixa; isso graças ao
caindo em abril de 1955 por tentar restringe-lo), e boicote imposto por Nova lorque ao produto brasi-
ajudasse a prover o capital necessário ao aparelha- leiro, como represália aos seuspreços mínimos consi-
mento do parque industrial (nesse sentido, foi impor- derados altos.
tante a criação do Banco Nacional de Desenvolvi- Sem procurar ''resolver'' essa contradição (cujos
mento Económico -- BNDE --, em 1952). Uma das efeitos se manteriam em nível ''aceitável'' dentro da
questõesque ocuparam o período Café Filho (e vários política económica ''branda'' dos ministros da Fa-
momentos posteriores) foi a de se se deveria suspen- zenda seguintes, José Mana Whitaker e Mário Câ-
der ou não o ''confisco cambial'' sobre o café, me- mara), Gudin atacoupor outro lado, com uma me-
diante o qual o Estado desviava parte dos lucros cam- dida que atingiria o próprio padrão de acumulação
biais, em exportações, para áreas de investimento cáfila/lsfa brasa/eira:a Instrução 113 da SUMOC,
consideradas prioritárias ao desenvolvimento econó- com a qual se vai procurar o recurso ao capital
mico. externo de investimento direto, ''de risco'', para o
Não se tratava de um efetivoconflitoentre a financiamentoda acumulação. É claro que isso jâ
indústria e a agricultura; a problemática era mais existia na indústria brasileira, desde o seu início;
referente a uma contradição do padrão vigente de mas, até então, o financiamento da acumulação in-
acumulação do capitalismo brasileiro, assim colo- dustrial se dava prioritariamente através do desloca-
cada por Francisco de Oliveira: ''a contradição... mento de excedentes da própria economia brasileira
resulta do fato de que, ao mesmo tempo em que se ou de créditos extemos obtidos a nível de govemo.
fazia mister transferir parte do excedenteda produ- Além disso, no artigo citado, Francisco de Oliveira
ção cafeeira para o setor industrial (estatal e pri- chama a atençãopara o fato de que, a partir daí, hâ
vado), era necessáriopreservar a rentabilidadeda uma expansãosem precedentesde um setor que
empresa agroexportadora,já que era ela a única a praticamente não existia no Brasil, o de bePzsde con-
proporcionar os meios de pagamento intemacionais sumo dtzrávefs,e tudo isso constitui-senuma mu-
indispensáveis''ao suprimento da oferta interna de dança do próprio padrão de acumulação capitalista,
bens de capital'' e insumos básicos (''Padrões de a ser implementadode maneira nítida no governo
Acumulação, Oligopóliose Estado no Brasil -- 1950- Kubitschek.
1976'', ín Estado e Ckzpífa/esmo no .eras//, Hucitec- A Instrução 113, baixada no início de 1955pelo
CEBRAP, São Paulo, 1977). fiel partidário de Gudin e chefe da SUMOC Otâvio
54 Ricardo Maranhão 55
O Governo Juscetino Kubitschek

Gouveia de Bulhões, permitia investimentosestran- cação de forças entre as classes dominantes, sem
geiros diretos sem cobertura cambial, assegurando tocar no delicado equilíbrio de alianças e compro-
ao investidor estrangeiro a importação de equipa- missos entre setores produtivos. Promovendo um
mentos industriais segundo uma classificação priori- intenso crescimento industrial, não procura solucio-
tária dada pelo governo. Mantida essa tendência no nar as agudas contradições do desenvolvimento, par-
período Kubitschek, ela obrigaria os industriais bra- ticularmente as do campo, cuja miséria e atraso aca-
sileiros a se associarem a estrangeiros, abrindo para bam por permitir a drenagem de mão-de-obra barata
estesuma ampla gama de facilidades. Juscelino per- para os centros urbanos em processo de industria-
mitiu, nos seus ''Cinqüenta Anos em Cinco'', a insta- lização. E mais, essa autonomia relativa do Estado,
lação da indústria de bens de consumo duráveis, trabalhada por um grupo de poder nascido das pecu-
ampliando também a de bens de produção como liares alianças do ''pacto populista'', permite ao go-
setor decisivo. verno usar como instrumento de legitimação popular
o próprio ''desenvolvimentismo'' industrial; as con-
cessões aos trabalhadores, embora restritas, fazem o
O capital monopolista resto em matéria de legitimidade. Mesmo que as
massas populares discutam a legitimidade deste ou
daquele governante, tende a reforçar-se entre elas a
Não há dúvida de que a adoção dessa política noção de que um Estado poderoso, mesmo sem a
corresponde também a outra derermfnação, externa, participação popular nas decisões, pode ser ocupado
a da nova etapa de expansão do grande capital por um ''bom'' governante que resolva suas necessi-
monopolista em direção ao investimento industrial dades imediatas e históricas.
direto nos países subdesenvolvidos,configurando a A compreensão do caráter das práticas demo-
nova fase do imperialismo. Mas, no plano das deci- cráticas do período JK passa por essa visão, bem
sões internas, não há dúvida de que a adoção dessa como a compreensão de seus limites. As instituições
medida, e pouco depoiso Plano de Metas de JK, que viabilizaram o desenvolvimentono período le-
constituem ações do Estado moldadas pelas suas varam necessariamente ao fortalecimento do Estado,
peculiaridades em nossa formação social. Mantendo mas principalmente ao do poder Executivo: é o caso
uma autonomia relativa diante das forças sociais em dos ''organismos paralelos'' de desenvolvimento, li-
conflito, o Estado redireciona a economia sem alterar gados diretamente ao Executivo Federal, que permi-
essencialmente os padrões de funcionamento dos tiram ao presidenteda República ''passar por cima''
setóreseconómicospreexistentes, sem alterar a corre- de seus limites constitucionais e adquirir mais pode-
56 57
Ricardo Maranhão IFt O GovernoJuscelino Kubitschek

res para a execuçãoda políticaeconómicae da Segundoo próprio Juscelino, o Programa visava


''racionalização administrativa'' ''acelerar o processode acumulação, aumentando a
Juscelino foi capaz de sobreviver com êxito às produtividade dos investimentos existentes e apli-
tensões criadas por um capital monopolista que, se- cando novos investimentosem atividades produto
gundo Florestan, tem necessidade de ''capturar'' ras''. O objetivo último era o de elevar o nível de vida
para os dinamismos e controles das economias cen- da população, através de novas oportunidadesde
trais todos os setoreseconómicosdo país. E que por emprego. Apresentavam-se 31 metas, distribuídas
isso tem de superar os obstáculos à ''satelitização'' da em seis grandes grupos:
própria ação económicado Estado. O mais irónico é a) energia (metas de l a 5): energia elétrica,
que governoscomo o de JK tiveram a possibilidade nuclear, do carvão, do petróleo (esta dividida em
de se valer de um discurso ''nacionalista'' para se produção e refinação);
legitimar, ao mesmo tempo em que a ''satelitização'' b) franspodes (metas de 6 a 12): reequipamen
avançava: mas quando o discurso nacionalista fosse tos de estudas de ferro, construçãode estudas de
levado a sério por alguns setores políticos e amea- ferro, pavimentaçãode estudas de rodagem, por-
çasse tornar-se uma prática, transformar-se-ia num tos e barragens, marinha mercante, transportes aé-
obstáculo a ser destruído. reos;
c) a/íme/zfaçâo (metas de 13 a 18): trigo, arma-
zéns e silos, frigoríficos, matadouros, mecanização
As praticas do Plano da agricultura, fertilizantes ;
d) í/zdzísfrlaide bale (metasde 19 a 29): aço,
alumínio, metais não ferrosos, cimento, álcalis, pa-
O exame da prática centra/ do govemo JK mos- pel e celulose, borracha, exportação de ferro, indús-
tra como este pode levar até o limite o equilíbrio tria de veículos motorizados, indústria de construção
contraditório entre o discurso nacionalista-desenvol- naval, maquinaria pesada e equipamentoelétrico;
vimentistae a realizaçãode aberturasao capital e) educação (meta 30).
monopolistaestrangeiro.Na sua origem, o Plano, ou .D consfmção de .Brmí7fa (meta-síntese). (Cf.
o Programa de Metas, tem base e inspiração nas Mana Vitória Benevides, O Governo .KtibííscÀek --
análisesdo grupo CEPAL-BNDE, formado em 19S2 Desenvolvimento Económico e Estabilidade Política ,
por membros da Comissão Económica para a Amé- Paz e Terra, Rio, 1976).
rica Latina e do recém-criadoBanco de Desenvol- Para a execuçãodo Plano, Kubitschek deveria
vimento. dispor basicamentede dois tipos de recursos: emis-
ITr
58 59
Rfcardo ]Waran#âo T O mover/zoJaspe/fno Ktzbifsc/zek

sões govemamentais e financiamentos extemos. É Mas este conseguiu obter logo um financiamento de
claro que, para a obtenção das emissões, ele precisou 125 milhões de dólares do Import-Expert Bank de
antes de mais nada superar as resistências dos que Washington, pelo interesse que essa instituição de-
preconizavam a restrição dos gastos públicos como monstrou nas metas sobre renovação do equipa-
forma de combater a inflação. Essas resistências mento ferroviário e reaparelhamento e dragagem de
''monetaristas'' não se encontravam apenas na gran: portos. Além disso, os governos europeus como o
de imprensa e na oposição udenista: dentro do pró- alemãoe o francês,e o governojaponês,se inte-
prio governo,Lucas l.npes, presidente do BNDE, era ressaram pelos planos de Juscelino: isso era resultado
favorável à reforma cambial e à contenção inflacio- direto dos interessesde grupos monopolistas sedia-
nâria, apoiado por outros membros da equipe gover- dos nesses países e que viam boas perspectivas de
namental, como Roberto Campos e Paulo Pook Cor- lucro em investimentosno Brasil. É o caso dos gru-
reia. Até março de 1956, houve inúmeras reuniões pos Krupp e Daimler-Benz da Alemanha, que desde
a nível ministerial para encaminhar o problema, na o início do governo passaram a investir aqui, bem
medida em que o líder pessedistae ministro da Fa- como dos gruposjaponesesque vieram a fundar a
zenda José Mana Alkmin era contrário a Lucas Lo- siderúrgica USIMINAS. Em pouco tempo, ficaria
pes, preconizandoa manutenção de uma taxa mode- claro para as grandes empresas multinacionais, mes-
rada de inflação(13,5%oao ano, conformeo Pro- mo para as sediadas nos EUA, que a política do
grama), e a melhoria da balança comercial através presidente era extremamente benéfica para a repro-
da defesa dos preços do café. SÓ em 17 de março é dução ampliada de seuscapitais em nosso país.
que JK optou claramente por Alkmin, assegurando Para ampliama captaçãode recursos, Kubits-
os recursos governamentaispara a vitória do Pro- chek propôs também ao Congresso a criação do Fun-
grama. do de Marinha Mercante, do Fundo Federal de Ele-
Quanto aos recursos externos, havia dificulda- trificação e a revisão da legislação do Imposto Único
des geradas pela resistência do FMI (Fundo Mone- sobre combustíveis. SÓ esta última medida propor-
tário Internacional)em aceitar uma política econó- cionaria um orçamento de 25.bilhões no qüinqüênio
mica não adequada aos seus parâmetros. O Banco para o Departamento Nacional de Estudas de Roda-
Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento gem. A meta de construção de rodovias, uma das de
(BIRD), subordinado ao FMI, não manifestou muito maior sucesso de JK, ficaria assim amplamente faci-
boa acolhida aos pedidos do governo brasileiro, dan- litada.
do início a uma série de divergênciasque culmina- É claro que, para a aprovação dos ambiciosos
riam no rompimento com o Fundo por parte de JK. planos juscelinistas, havia dificuldades em um Con-
'l 'rF
61
60 Ricardo .A/aranÀão 'l O Governo Jusce/í/zo .Ktzbífscáek

grosso que, à época, tinha um poder razoável sobre governamentaisde contençãoartificial do custo de
questões financeiras (que o regime pós-1964 Ihe iria vida atenuaramos efeitosdas perdas salariais: as
tirar). Os udenistas se esgoelavamcom grande perti- subvenções para importação de petróleo e trigo, por
nácia na tribuna, acusando o presidente de levar o exemplo, atenuaram os custos do transporte e do
país à bancarrota e considerandoBrasília um sonho pão, ao mesmo tempo que se procurou conservar o
delirante. Mas a eficácia da coalizão PSD-PTB, valor nominal dos aluguéis e as tarifas das ferrovias.
como veremos, só aumentoucom o Programa de Por tudo isso, o Programa pede ser apoiado pelo
Metas, no sentido de fazer aprovar os gastos pú- PTB sem que este perdesse ressonânciajunto às mas-
blicos. Para o PSD, cuja cúpula era bastante sensível sas urbanas; ao mesmo tempo, dava margem à pre-
às pressões das grandes empreiteiras, as obras monu- gação de tipo ''nacionalista'' , que identificava fndtzs-
mentaiseram um verdadeiroprato para efeitode trialização com desenvolvimentonacional autónomo.
negociaçõespolítico-eleitorais. As rodovias, centrais
elétricas, açudes, etc. passavam, é claro, pelo crivo
de interessesregionaise locais; por isso mesmo, o A ''Administração Paralela''
PSD procurava interferir no sentido de que sua loca-
lização fosse a mais po/írfca possível. Para o PTB, o Mais importante que as manipulaçõesno Con-
fato de que a inflação comia sistematicamente
os gresso, a alavanca decisivapara a execução tranquila
reajustes salariais dos trabalhadorespoderia ser um do Plano de Metas foi a criação dos órgãos de ''admi-
problema: um partido que pretendia ser da classe nistração paralela'' diretamente subordinados à Pre-
trabalhadora não podia permitir que essa classe fosse sidência. Na verdade, elesforam os elementosessen-
(como efetivamente foi) a principal fornecedora de ciaispara o fortalecimento
do Executivoe para o
valores para os custos extras do desenvolvimento. Ao aumento da autonomia relativa do Estado. Subordi-
mesmo tempo, porém, o Programa de Metas aumen- nados ao Conselho de Desenvolvimento(criado um
tou bastante o nível de emprego, o que podia ser dia após a posse de JK), essesórgãos eram os Grupos
agitado como um benefício do governo às massas; de Trabalho e Grupos Executivosprevistosno Pro-
e, apesar de tudo, é inegávelque desde 1944 até 1959 grama para incentivar, de maneira uniforme e cen-
os índices de salário mínimo real em São Paulo e no tralizada, investimentosde capital em setores consi-
Rio foram maiores exatamente no governo Kubits- derados estratégicos.
chek (ver Francisco de Oliveira, ''Crítica à Razão Antes do governo JK, os principais ''órgãos
Dualista'', ín Esftzdos Cebrap no 2, São Paulo, 1972, paralelos'' eram o BNDE, a Carteira de Comércio
pp. 47 e 53). Na verdade, uma série de medidas Exterior (CACEX) e a SUMOC. Juscelino percebeu a
62 63
Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Ku bitschek

utilidade de dispor de várias outras instituições que construção naval, o GELA, para a indústria automo-
Ihe fossem diretamente subordinadas, operando à bilística. e o GEIMAPE, para o setor de bens de
margem do complexojogo político de interessesdo capital e maquinaria pesada. Finalmente, entre os
Parlamento e da administração ''tradicional''; estas órgãos da ''administração paralela'', JK criou tam-
outras instituiçõesforam mantidas intocadas para bém, com atuação importante, o Conselho de Polí-
permitir a negociaçãopolítica corrente e não preju- tica Aduaneira.
dicar interesses criados. Mas as decisões efetivas fo-
ram cada vez mais sendo preparadas no silêncio dos
gabinetes de tecnocratas, embora estes estivessem Sucessos e problemas
sob o comando do presidente e dos políticos do grupo
de poder mais íntimo do Palácio. Os êxitos do Programa de Metas de Juscelino
Os Grupos de Trabalho, ligados ao Conselho de são inegáveis, do ponto de vista do crescíme/zfo.Os
Desenvolvimento, se incumbiam de preparar prole- investimentos em infra-estrutura permitiram, por
tos de leis e decretos, e se formavam cada um se- exemplo, estender mais de 20 mil km de rodovias
gundo as Metas específicas do Programa. Contavam novas, quando a meta no 8 previa a construção de
sempre com a participação de representantes de se- 10 mil km. O Estado brasileiro optava claramente
tores decisivosda administração, podendo assim ela- pelo transporte rodoviário, e os anos subsequentes
borar proletos que tivessem de antemão razoável via- assistiriam à continuidade e ampliação dessa opção,
bilidade, quanto a verbas, implementação,etc. com o país sendo rasgado em todas as direções por
Membros de Grupos de Trabalho participavam tam- tiras de terra vermelha e asfalto. Em compensação, o
bém dos Grupos Executivos que davam aprovação tradicional e barato transporte ferroviário ganhou
aos proletos. Estes órgãos foram criados por decreto, apenas 826 km a mais de trilhos (cf. Juscelino Ku-
fugindo à discussão do Parlamento e dispondo de bitschek, .A/etzCamln#o para .Brasa/fa, Bloch, Rio,
completa autonomia financeira. Nos Grupos Execu- 1978, vol. 111, pp. 447-448). O negócio passou a ser
tivos participavam administradores do Estado e tam- a estrada de rodagem, e a Belo Horizonte--Brasília
bém das empresas privadas, em geral técnicos. A de JK foi apenaso começode um vasto lequeque
oferta às empresas, de tecnologia e financiamentos permitiria cortar a Amazânia e os cerradões do Brasil
(quase sempre de origem estrangeira), era controlada Central, abrindo o caminho para a chegada do gran-
por estes Grupos em função dos horizontes do Pro- de capital à agricultura e à mineração nos mais re-
grama de Metas. Os mais importantes foram o GEl- motos rincões.
CON, encarregado de implementar a indústria de No setor energético, houve claro sucesso. A po-
64 65
Ricardo Maratthãa 0 Governo Juscetino Kubitschek

tência das centrais elétricas, de 1955, era de 3 mi- departamento é de propriedade dos grandes grupos
lhões de kw; em 1961, a capacidade instalada já privados estrangeiros: Mercedes-Benz, Volkswagen,
atingia 4 milhões e 750 mil kW e havia uma série de General Motors, etc., e mesmo a Ford, que no início
hidrelétricas em construção, particularmente as po- do govemo se opusera à idéia. Os investimentos pnvt:
derosas centrais de Fumas e Três Manas. Mais visí- legiados dessesgrupos permitiram que a meta de 100
vel ainda foi a dinâmica de crescimento da produção mil veículos para 1960 fosse amplamente superada,
de petróleo: de 2 milhões de barris por ano em 1955, atingindo-se a produção de 321 150 veículos motori-
ela chegou a 30 milhões em 1960, enquanto quase zados, com 90%ode suas peças e acessóriosfabri-
triplicava a refinação. O petróleo, cujo crescimento cados no Brasil. E.ssa indústria automobilística re-
decorria principalmente da criação da Petróbrás em presentou quase um símbolo característico da.inte-
1953, tinha uma importância decisiva nos planos gração brasileira ao capitalismo monopolista inter-
económicos ''desenvolvimentistas'': a perspectiva da nacional, ao mesmo tempo que se apresentava como
produção interna de combustíveis, importante para uma vitória da Nação na luta pela independência
abastecer a crescente frota de veículos visada pela económica.

Ü
meta de implantação da indústria automobilística.
Dentro do setor de bens de produção, consoli-
dado e bastante ampliado no qüinqüênio JI(, teve
especialdestaquea siderurgia:a produçãode aço
passou de [ mi]hão e 150 mi] tone]adas em 1955para
2 milhões e 500 mil em 1960; nesse ano, estavam em isto representa um belo desempenho, não hâ dúvida
construção usinas que, uma vez concluídas, permi- de que uma série de ''fracassos parciais'' oconeram
tiriam à produçãoatingir 3 mi]hõese 500 mi] tone- em várias metas. No artigo citado, Lafer atribui tais
ladas de aço em 1964. fracassos a uma estimativa falha das necessidades
É fundamental perceber que o desenvolvimento futuras, enquanto o sucesso decorreu do controle dos
de todos esses setores mantinha estreita relação com planejadores governamentais sobre as ''zonas de
a perspectiva de implantação da indústria automo- incerteza'' da economia. . .
bilística, núcleo central do departamento de bens de Obviamente, numa economia capitalista é im-
consumo durável que, como dissemos, se estrutura possível ter-se um controle estrito do desempenho de
no contexto de uma mudança do padrão de acumu- todos os setores e menos ainda um planejamento
lação, durante o govemo JK. O Estado faz os pode- completo. Por isso mesmo, não nos interessa muito a
rosos investimentosde infra-estrutura, mas o novo analise dos fracassos e sucessos do Programa de Jus-
O Governo Juscelino Kubitschek 67

celino. Importa mais considerar, como o fazem J. M. das disparidades regionais, das desigualdadesde
Cardoso de Melão e L. G. Belluzzo, que ''o capi- renda, dos focos de tensão, dos bolsões de miséria, e
talismo monopolista de Estado se instaura, no Brasa, isto se utilizarmos apenas a linguagem do próprio
ao término do período Juscelino, que marca a última discurso desenvolvimentista.
fase da industrialização. Isto porque só então são
constituídas integralmente as bases técnicas neces-
sárias para a autodeterminaçãodo capital, cristali-
zadas no estabelecimento de relações entre os Depar-
tamentos de Bens de Produção, Bens de Consumo do
Assalariado e Bens de Consumo Capitalista, o que
impõe uma dinâmica especificamentecapitalista ao
processo de acumulação'' (''Reflexões sobre a Crise
Atual'', flzEscn'ra-.Ensaü, ano 1, no 2, São Paulo,
1977,P. 18).
A ideologia desenvolvimentista e nacionalista
veiculada pelo governo JK tentava ocultar, com rela-
tivo sucesso, esse processo de implantação de uma
dinâmica monopolista submetida a centros externos,
essa subordinação do capital nacional ao estrangeiro.
É bem verdade que o próprio chefe de governopre-
feria dar ênfase maior no discurso sobre ''desenvol-
vimento'' do que no discurso sobre ''nacionalismo'';
e que, enquanto JK parecia acreditar na relaçãopaís
desenvolvido/país subdesenvolvido como uma rela-
ção de ''inferioridade'' e não de exploração, a ver-
tente nacionalista veiculada por alguns setores e
agências govemamentais tendia a ver nacionalismo
como combate ao capital estrangeiro. Entretanto,
mesmo a noção de ''desenvolvimento'' veiculada pela
propagandapresidencialnão podia ocultar que os
êxitos do período estiveram associados ao aumento
.T
O Governo Juscelino Kubitschek 69

quando o ministro daquela Arma, Brigadeiro Alves


Seco, convocadoàs pressas, Ihe afirmou que nada
podia fazer, pois os oficiais da FAB ''não obede-
ceriam às ordens da Presidência''. Nos dias subse-
quentes, muitos membros de bases aéreas em Salva-
dor, Belém e Fortaleza chegaram a ser presos por
solidarizar-se com a rebelião. Ao tomar providências
para reprime-la,contando com o Exército e um pe-
queno núcleo de oficiais-aviadoresseus aliados, JK
COM A DIREITA, LUVAS DE PELICA sentiu enormes dificuldades para organizar suas for-
ças: até mesmoum comandanteda Marinha (outra
Arma descontente) recusou-se a transportar tropas
de Belém para o local conflagrado. A imprensa ude-
No dia ll de fevereirode 1956,mal havia come- nista deu vasta repercussãoao fato, visto como evi-
çado o governo, Juscelino recebeu um comunicado dência da falta de apoio do novo governo, e exagerou
os números, fa]ando em ''cinco mi] homens'' na
urgente do ministro da Guerra. Interrompendo seu
selva.
almoço, Lott avisava o Presidente de que vários
aviões da Força Aérea Brasileira haviam decolado do Na verdade, o Major Veloso, representandoa
corrente mais extremada da direita do udenismo mi-
Campo dos Afonsos, no Rio, em atitude de rebeldia.
Comandadospelo Major Haroldo Veloso, um pu- litar, contava com pouco mais de 20 soldados arma-
nhado de oficiais da Aeronáutica se dirigiu para dos de metralhadoras, um punhado de civis e, para
Jacareacanga, no Para, destruindo equipamentos de acrescentar uma nota tragicõmica e tropicalista, al-
comunicação de vários campos de pouso, se decla-. guns índios meio desentendidos com seus arcos e fle-
bando em aberta rebelião contra o governo e contro- chas. Obviamente, o apoio de outras guarniçõespo-
lando a área delimitada por Belterra, ltaituba, Jaca- deria transformar o incidente em problema grave;
reacanga e Santarém. muitos oficiais do próprio campo dos Afonsos recu-
saram-se a seguir para o Norte para reprimir o le-
Uma rebeliãologo no início do mandato, par-
tindo de um setor como a Aeronáutica, descontente vante. A ação rápida dos paraquedistasdo Exército e
com o regime desde a primeira derrota do Brigadeiro o apoioum tanto constrangidodos oficiaisda FAB
Eduardo Gomes, e sensívelà pregaçãode Lacerda, não partidários conseguiu conter aquilo que poderia
não podia deixarde preocuparJK. Ainda mais resultar num golpe de direita; mas só no dia 29 de
I'r'p''
Rícardo .A/aran&âo il'
70 71
O Gol,ermo /usce/fno Ktzbífschek

fevereiro os rebeldes de Jacareacanga se renderam,


e o Capitão José Chaves Lameirão e o Major Paulo
Vector, que tambémhaviam decoladopara a selva
paraense em apoio ao movimento, refugiaram-se na
Bolívia. Veloso foi preso.
A aventura de Jacareacanga excitava alguns
apetites românticos dos radicais de direita. Juscelino,
porém, não os reprimiu: esvaziou-os, decretando em
seguida uma anistia geral para todos os que tivessem
conspirado contra o governo desde 10 de novembro
de 1955.O jogo da anistiatinha endereçoscertos.
Em primeiro lugar, os militares, a quem não inte-
ressava uma onda de represálias, retaliações e, me-
nos ainda, investigaçõessobre quem conspiravaou
não contra o governo. Kubitschek cortejou intensa-
mente as Forças Armadas em seu governo, indepen-
dentementeda posição política respectiva dos ofi-
ciais. O segundo endereço era a UDN: JK deixava
clara a não aceitação das provocações incendiárias
daquele partido, apresentando-se como o presidente
da Paz e da Concórdia. Ele tratou durante todo o seu
mandato a oposição de direita com os mesmos tapas
com luvas de pelica, impedindo a todo custo a radi-
calização dos conflitos. Dessa forma, manteve os
udenistas na função específica de oposição direitista
e reacionária,semlhesdar espaçono Poder, mas
sem aniquila-los.

A funçãoda UDN
Para os brasileiros que liam jornais entre 1945 e O golpismo de Curtos Lacerda
73
72 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek

1964, o que impressionava e passava como reacio- nos e médios industriais, comerciantes, lavradores)
nârio era o tom virulento com que os udenistas com. como profissional (profissionais liberais, altos tecno-
batiam as articulações dos pessedistas e dos popu- cratas e gerentes de indústrias'. ''A Política das
listas, emocionalmenteirritados com os sucessoselei- Classes Dominantes'' , fn Po/íffca e Rapo/tição .Socfa/
torais daqueles e com os seus próprios fracassos nas rzo .Brasa/, Civilização Brasileira, Rio, 1965, p. 83).
sucessivas eleições presiden.dais. Algumas de suas Seguramente dela não faziam parte representantes
manifestações contra as eleições ''viciadas'' e o elei- de setores populares expressivos, do operariado ou
torado ''ignorante e manipulado'' eram verdadeiras do campesinato, mas na busca de fotos a UDN ga-
pérolas de reacionarismo. Na campanha contra Jus- nhava setores de classe média, através do seu mora-
celino Kubitschek, o líder udenista Jogo Agripino lismo, e Lacerda não deixava de praticar um certo
chegou a desenhar um lúgubre retrato do ''abuso de ''estilo'' populista. Mas, na hora dos votos, ''o ser-
liberdade'' nas eleiçõese na política, dizendo que a tão'', os interesses regionais da oligarquia agrária
liberdade no Brasil era a de ''corromper e roubar'', e pesavam bastante, para definir o conservadorismo
que seria melhor ''viver limpo num cárcere do que dominante dentro da UDN. Além disso, o e/ífümo do
livre nessa podridão' comportamento udenista era decisivo para afastar
É verdade que as intervenções udenistas às vezes dela as grandes massas populares e defina-la como o
se pautavam por extremado liberalismo, em nome da partido ''dos cartolas''
destruição da tutela do Estado sobre a sociedade O fato é que, se no momentode sua fundação,
brasileira. Mas suas praticas apontavam sistemati- em 1945, a UDN ainda colocava no horizonte propó-
camenteno sentido de um go/pomo que substituísse sitos renovadores numa perspectiva liberal, isso se
o processo eleitoral e instaurasse uma ditadura ''rege- esvaiu desde o período em que sua liderança ficou
neradora'', que seria seguida pela verdadeira demo- com Otávio Mangabeira, um nome de oligarca pro-
cracia. Essa era a fala sistemáticado mais popular veniente da República Velha, e outros do mesmo
dos udenistas, Carlos Lacerda. naipe. E, ao longo do período que analisamos, o gol-
A postura conservadora da UDN não se explica pismo da agremiação foi sua tónica constante, ao
de maneira nítida apenas por sua composição social, lado do combate à ''infiltração comunista'' e à fanta-
bastante complexa em termos de representação de siosa ameaça de implantação de uma ''república sin-
interesses. Paul Singer a define como composta ''por dicalista'' por parte dos trabalhistas.
grupos da grande burguesia, tanto industrial como Ao longo do governo JK a UDN permaneceu
latifundiária, tanto nacional quanto estrangeira; gru- minoritária, oposicionista e favorável a um golpe
pos da pequena burguesia, tanto empresarial (peque- militar. Muitos de seus dirigenteschegaram a apoiar
O Governo Juscelino Kubitschek 75
74 Ricardo Maranhão

a revolta de Jacareacanga, embora esse radicalismo escancarou as portas ao capital estrangeiro, passou
esbarrasse sempre na aura de populista e político como mais ''nacionalista'' e faturou alto em prestígio
hábil do presidente. Juscelino conseguia sempre apa- popular, enquanto a UDN ficou como a única ''en-
recer como o homem ''da anistia'', sempre per- treguista
doando os rebeldes, e convencendo os políticos mais
''pragmáticos'' da oposição de que era melhor con-
viver com a aliança PTB-PSD que combata-lade PSD e PTB a todo o vapor
maneira radical.
A margem de manobra que JK possuía ampliou- No plana das lutas partidárias, a garantia prin-
se ainda mais com a construçãode Brasília, em- cipal de que JK poderia ''tourear'' a direita e a UDN
preendimento suficientementegrande para permitir era a eficácia da sua aliança de sustentação. Os ude-
''sócios'' de matizes variados. Assim, à exceção dos nistas viviam a preparar jogadas contra as tendências
udenistas ''radicais'' como Lacerda, a UDN não pu- de JK, ou contra Brasília, mas nas Comissõese no
nha efetivamente em cheque a aliança política domi- plenário do Congresso pessedistas e petebistas se
nante, ao mesmo tempo que os setores empresariais e uniam para desfazê-las.
financeiros que apoiavam o partido não deixavam de Em termos de distribuição de funções, já du-
se beneficiar dos ganhos da política ''desenvolvimen- rante as articulações pré-eleitorais de 1955 JK dei-
tinta''
S xava claro que o PTB, ao colocarJanto na vice-
Por outro lado, o udenismo não deixavade fun- presidência, levava também o direito ao controle das
cionar como agente legitimador do regime, mesmo pastas do Trabalho e da Agricultura, bem como de
que pelo lado negativo: existindo uma liberdade de todas as autarquias e órgãos ligados a elas. Durante
imprensa quase absoluta, os jornais da oposição po- o governo, apesar de algumas rusgas iniciais em que
diam malhar impiedosamenteo governo, desde um o PSD tentou interferir nos ministérios ''de proprie-
ponto de vista conservador. Ora, isso permitia ocul- dade'' dos petebistas, a aliança entre os dois partidos
tar das massas populares o conservadorismo ínfimo atingiu seu ponto ''ótimo'', segundo o citado traba-
ao governo, representado pelos principais setores do lho de Mana Vitória Benevides. No poder Executivo,
PSD; se as massas populares continuavam excluídas as ''áreas'' de comando de cada partido ficaram bem
do processo decisório, o governo não assumia a de- definidas. E, no Legislativo, a aliança garantia maio-
fessa dessa posição: o ónus da política elífísfa ficava ria para a apresentação e aprovação dos projetos
com a UDN, que ''não confiava nas massas''. No mais polêmicos, incluindo alguns aspectos do Plano
debate sobre a política económica, Kubitschek, que de Metas. Assegurava-se, inclusive, por essa via, a
76 Ricardo Maranhãa O Governo Juscelino Kubitschek 77

autonomia crescente do Executivo que marcou o pe- de outro. O PSD pregava uma chamada política de
ríodo. conciliação, de entendimentoentre as classes patro-
Para compreendercomo se garante essa auto- nais e os trabalhadores, e o PTB apoiava Q direito de
nomia, é necessário especificar que o preenchimento greve, as reivindicações salariais, melhores condições
de cargosao nível executivotinha uma dualidade de vida e participaçãode trabalhadoresem áreas
funcional: a maioria dos cargos era alocada de ma- governamentais... Consumadas as paralisaçõesde
neira 'jtradicional'', isto é, era garantida para as trabalho, as autoridades deparavam:ge com o apoio,
indicaçõesdos partidários do PSD e do PTB. As solidariedadee participação de trabalhistas ao lado
novas tarefas do Executivo exigiam, no entanto, um dos grevistas e no enfrentamento de situações. Em
crescimento do número de cargos ''modernos'', sqa 1958, numa greve de motoristas que tinham insta-
para técnicos, seja para burocratas subordinados lado seu comando na sede da UNE, num esforço de
diretamente ao presidente. Ora, a própria nomeação contornar esse movimento, levei ao Palácio do Ca-
'tradicional'' dos cargos destinados a elementos par- tete, numa tentativa de demover o presidente de uma
tidários constituía elemento de barganha para JK posição contra os grevistas, os membros da Diretoria
exigir apoio da aliança partidária, podendo criar do Sindicato dos Motoristas. O chefe da Nação não
cargos novos e novas entidades, como a SUDENE. quis receber os líderes sindicais e, à saída do Palácio,
Assim, sem mexer no clientelismotradicional, o pre- eram todos presos, inclusive eu, deputado federal.
sidente assegurava o crescimento de sua autonomia É evidente que horas depois éramos libertados e aí o
político-administrativa, bem como da autonomia do presidente e o governo pressionados por Jango e pelo
próprio Estado. PTB buscaram uma solução para aquele movimen-
No cotidiano do PSD-PTB dentro do governo, to'' (citado por Abelardo Jurema, Jusce/Ino & Jalzgo,
a ''otimização'' da aliança não implicava na ausência PSD &P7'B, Artenova,Rio, 1979,p. 186).
de conflitos. Pelo contrário, o caráter policlassista da Talarico exagera quando diz que o PTB defen-
composição não podia ocultar a necessidade de op- dia a ''participação de operários em áreas governa-
ções govemamentais diante das tensões sociais, cres- mentais''; na verdade, defendia a participação cres-
centes com o caráter contraditório do processo de cente de petebistas, eventualmente dirigentes sindi-
desenvolvimento.
Como diz José Comes Talarico, cais. Talarico está mais certo quando diz que pre-
''as questões sociais provocaram muitos choques e tendia ''contornar'' o movimento dos motoristas, jâ
confrontos dentro do governo, resultando, em muitos que o petebismo era uma arma para tentar mani-
ensejos, em discordâncias entre o presidente, de um pular o movimentooperário, em troca de concessões
lado, e o vice-presidentee os ministros trabalhistas, a este. De qualquer forma, para crescer, o PTB tinha
78 Ricardo Maranhão O Governo Juscetino Kubitschek 79

de fazer concessõescada vez maiores aos trabalha- xínio Bittencourt, da corrente ''nacionalista'' e de
dores, esbarrando no conservadorismopessedista, o grande atuação no ll de novembro, na chefia do
que criava conflitos. Mas a margem de manobra Conselho Nacional de Petróleo, não quer dizer que só
de JI( era suficientementegrande para contomâ-los. os elementos diretamente partidários de Lott fossem
contemplados. ''Na Petrobrâs militares assumem
todos os postos-chave. A presença militar é também
importante nos órgãos de planejamentoregional,
Manobrando com os militares como a.SUDENE e a SPVEA. A participação de
militares na SIJDENE intensificou-se a partir da
O contragolpe de Lott havia sido capaz de re- missão secreta do Coronel Ramagem, cujo relató-
novar a presença decisória dos militares no núcleo de rio... deu origem à constituição de uma comissão
poder político, como elemento que reforça e dá signi- com elementos do Estado-Maior das Forças Arma-
ficado à autonomia relativa do Estado no período. das (EMFA) para estudo e planejamento de obras
Entre outras coisas, o apoio à política económica contra a seca. Cabe ao exércitotambém a iniciativa
''desenvolvimentista'' de JK por parte dos militares de criação da SEAPE (Serviço Agropecuária), inicia-
pouco tem a ver com demandas da sociedade civil: tiva condenada pela oposição lacerdista como 'in-
diz respeito mais às necessidadesde modernização cursão em seara alheia', no caso o Ministério da
do equipamento militar, mais viáveis com o desenvol- Agricultura'' (Mana Vitória Benevides, op. cíf., p.
vimento industrial. Com a satisfação dessa demanda 186)
ílzferna.ao.Eirado, JK manteve também o apoio dos Um grande número de outros postos, inclusive
militares da corrente ''nacionalista'', herdeiros do de nível ministerial, foram ocupadospor militares, o
General Horta Barbosa e da Campanha do Petróleo, que esvaziou bastante a oposição dos quartéis que
e que resolveram assumir Lott como seu novo ídolo. não concordaram com o ll de novembro. SÓ mesmo
atraindo-o para suas posições. setores mais radicais, não pertencentes ao núcleo de
O governo de Juscelino fez da aliança com o poder, estimuladospor Carlos Lacerda e a UDN,
comando militar um importante fatos de estabili- persistiram em ações diretas contra JK.
dade política. Lott foi o artífice dessa aliança, e por Por outro lado, é importante acentuar que essa
isso mesmo se manteve como ministro da Guerra até presença militar aumentou a autonomia e a eficácia
o final do governo. Nessa aliança, foi possível a JK dos aparelhos de Estado. Ao mesmo tempo, deu a
incorporar em postos govemamentais um grande nú- seus ocupantes um desempenho mais decisivo e um
mero de altos oficiais. A presença do Coronel Ale- preparo mais acurado para traçar estratégias do pró-
80 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek 81

prio Estado. O EMFA passou a opinar sobre todos os particularmente das forças populares) o sistema de
problemas atinentes ao desenvolvimento económico decisões. Da mesma forma, é objetivamente anti-
do país, e muitas de suas comissõespassarama democrática a participação direta do Exército na
monopolizar as informações sobre atividades estraté- repressão a manifestações políticas, como a que foi
gicas como a extração de minérios. posta em pratica em maio de 1956 contra os estu-
Tem-seaqui, mais uma vez, uma evidênciado dantes que lutavam pela redução de tarifas de bon-
crescimentodecisivodo poder de uma burocracia de des no Rio; ou a que se fez para reprimir a ''Marcha
Estado sobre o conjunto da sociedade. Essa buro- da Produção'' , manifestação reivindicatória de cafei-
cracia não tem, porém, uma autonomiatão grande cultorespaulistas, mineiros e paranaenses, em maio
que fuja às determinações de classe: ela se propõe a de 1957. Entretanto, com tino e habilidade, JK con-
reproduzir e ampliar o caráter capitalista do Estado, seguiu passar para a História como um presidente
procurando viabilizar a própria realização plena do capaz de se relacionar democraticamente com as for-
capitalismo no Brasíl. Entretanto, ela não se liga ou ças populares.
privilegia um setor determinado da burguesia. Como
a política económica de que ela é autora, a buro-
cracia não procura resolver as tensões internas à
classe dominante, e sim busca pzorecurso eiclemo os
elementos necessários à expansão e desenvolvimento
do capital. Nesse sentido, em que pese a linguagem
nacionalista de alguns de seus setores, esse conjunto
militar-burocrático é agente, independente de sua
vontade, do capital monopolista. Para agir dessa
forma. é necessário ao referido conjunto impor /ímí-
fes à democracia, impedir que as varias forças sociais
participem do processo decisório .
Assim como a criação de órgãos administrativos
diretamentesubordinados à Presidência reduz obje-
tivamente o poder do Parlamento, é óbvio que a pre-
sença do aparelho militar nesses órgãos reforça o
superfortalecimento do Executivo, e deixa mais longe
dos olhos e das mãos das forças políticas civis (e
O Governo Juscelino Kubitschek 83

meda: ''Basta V. Exa. desembainhar a espada e três


milhões de trabalhadores do Brasil inteiro se levan-
tarão ao lado de V. Exa.!''
O envolvimento de Lott com a esquerda não
podia deixar de preocupar as hostes pessedistas. Não
apenas pelo seu conservadorismo de base, mas tam-
bém por saber que o fato reacenderia dentro dos
quartéis as iras e ódios anticomunistase antipopu-
listas tão penosamente contornados pelo govemo na
COM A ESQUERDA, crise de Jacareacanga. No dia da manifestação-mons-
JOGO DE CINTURA tro programada pela ''Frente de Novembro'' para
comemorar o aniversário do contragolpe de Lott, o
General Humberto de Alencar Castelo Branco, da
ESG, lançavaumanotadenunciando
o perigoda
Liderado pelo inefável Carlos Lacerda, formou- formação de uma ''força popular e nacionalista'' de
se nos primeiros meses do mandato juscelinista o ''soldados e trabalhadores
''Clube da Lanterna'', organização de claros propó- A manifestação ocorreu, apesar dos insistentes
sitos direitistas e golpistas; Leâncio Basbaum disse recados de Juscelino ao seu ministro para que não
um dia que o ''Clube'' era ''um aglomerado de fas- aceitasse a homenagem (Lott recebeu dos manifes-
cistas e senhorashistéricas''. Como reação a essa tantes uma espada de ouro); de imediato, desenca-
articulação de direita, setores petebistas e de es- deou-se uma crise político-militar que chegaria até a
querda, particularmentecomunistas, formaram a ameaça de publicação de um manifesto do Almiran-
Frente de Novembro'', que procurava mobilizar as tado da Marinha em advertência ao governo, num
massas contra o golpismoe em favor do naciona- claro ato de indisciplina forjado pela direita.
lismo. Tendo como presidente de honra o vice de JK, JK trabalhou o assunto da mesma maneira com
Jango, a ''Frente'' tentou com algum êxito atrair a que se relacionada com a esquerda durante todo o
simpatia de Lott: transformado em baluarte da luta seu governo: dando uma no cravo e outra na ferra-
contra o reacionarismo e o entreguismo, o ministro dura.
da Guerra chegou a ser saudado durante uma mani- ChamandoJanto para uma conversa,o presi-
festação na Confederação Nacional dos Trabalha- dente Ihe fez ver a necessidadede proibir a ''Frente
dores da Indústria (CNTI) com uma oração infla- de Novembro'', como elemento de ''agitação''; ao
84 Ricardo Maranhão O GovernoJuscelinoKubitschek 85

mesmo tempo, deixava claro que fecharia também o bem atenuadas com os reajustes salariais concedidos.
''Clube da Lanterna''. O vice-presidente advertiu-o O presidente também permitiu crescer o peso dos
para o risco de magoaro General Lott, principal dirigentessindicaisem uma certa faixa de decisões
homenageado dos novembristas, mas JK teve u®a sociais: basta ver a Lei Orgânica da Previdência So-
saída que contemplavatambém o ministro da Guer- cial de 1960,que assegurouum terço dos cargos nos
ra. Fez uma gravíssima ameaça ao Almirantado, órgãos dirigentes da Previdência para representantes
tradicional adversário de Lott: se seus membros pu- dos sindicatos. É claro que isso não eliminava a clás-
blicassem o anunciado manifesto, seriam lodos pu- sica exclusão dos setorespopulares das decisõespolí-
nidos com base nos regulamentosdisciplinares. En- ticas efetivas. Entretanto, isso permitia manter boas
quanto os almirantes se viam obrigados a suspender relações com um movimento operário que, na época,
sua declaração, ele decretou o fechamento das duas lutava por um espaço de atuação junto ao Estado.
agremiações opostas e saiu-se por cima da contenda, Desde 1952,o movimentooperário é carreado
em nome da tranquilidade e da paz. cada vez mais para de/irra dos sindicatos, sendo esta
a orientação predominante na esquerda operária,
por sua vez influenciada majoritariamente pelo PCB.
Do ponto de vista estritamente político, isso exigia
Estado e movimento operário dessa esquerda algumas concessões políticas, parti-
cularmente aos dirigentes sindicais patrocinados pelo
Num Estado capitalistacomo o brasileiro, que trabalhismo. Composições ao nível de diretorias sin-
não pertencia especificamente a nenhum dos setores dicais, entre comunistas e trabalhistas, tomaram-se
dominantes da burguesia, a chefia de govemo teria uma constante; ao nível da política parlamentar,
que jogar com o movimento operário, dando-lhe con- como vimos, isso se refletia numa aliança mais dura-
cessões,para ter maior apoio de massa frente a seus doura entre os dois setores, que tendiam às vezes a se
adversários da classe dominante. Juscelino, sem se confundir na ação concreta.
confundir com os getulistas, principais mentores Essas condutas por parte da esquerda eram
desse tipo de conduta, não deixou de oferecer uma moeda de troca por concessõesque os petebistas ob-
série de concessõesconcretas ao movimento operário, tinham ao nível de governo, para o conjunto da mas-
onde se concentrava a parcela da esquerda que tinha sa operária. Rejeitamosa idéia de que a política
efetivamente alguma importância. Como vimos, em populista era mera ''manipulação'' dos trabalhado-
seu governo as perdas dos trabalhadores com a in- res. Antes, os líderes sindicais e operários de esquer-
flação, se não eram compensadas, ao menos eram da obtinham concessõesobjetivas dos governospopu-
Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek 87
86

listas, tanto ao nível salarial, quanto ao nível da


aquisição de cargos políticos (e a jâ citada Lei Orgâ-
nica da Previdência Social de 1960 é um óbvio exem-
plo disso).
Manipulação pura e simples de massas havia,
sim, mas por parte principalmente das díreçõespefe-
bfsfas, que nesse aspecto se diferenciavam bastante
tanto da esquerda comunista quanto da própria es-
querda petebista. Basta ver a declaração particular
feita por Jogo Goulart, anos depois, contra seu mi-
nistro Almino Affonso, líder da esquerda petebista:
''quem desce dos morros com trabalhadores para me
apoiar não é o 'nosso Almino', é o Talaricol Quem
manuseia os sindicatos, evita greves de esquerda,
contrapõe-se à liderança comunista, é o Cochratt de
Sá. Esta que é a realidade política. ..''
É óbvio que as possibilidades de manipulação
dependiamde concessõesconcretas. Mas também é
verdade que as lideranças operárias que não deixa-
ram de lutar pela democracia e a liberdade sindical,
ao optar por lutar ''por dentro'' da estrutura, tiveram
uma limitação: a aliança com os petebistas implicava
em atenuar as críticas contra a subordinação dos sin-
dicatos ao Ministério do Trabalho.
Isso não impediu o movimento operário de apro-
veitar os espaços abertos nos vaivéns do pacto popu-
lista para avançar em organização e arrancar melho-
rias, independentementedo Estado. A greve de 400
mil trabalhadores, em outubro de 1957 em São Pau-
lo, foi um exemplodisso, embora sua vitóriafosse
apenas parcial. Na conjuntura específica daquela
88 Ricardo Marcarão O GovernoJuscelinoKubitschek 89

greve, a disputa entre setorespolíticos de corte popu- balhadores (CGT) de 1962.


lista facilitou a U'eve: janistas e petebistas disputa- É claro que, para aproveitar as ''brechas'' da
vam o controledos sindicatose o apoio da impor- política populista, as lideranças sindicais de esquer-
tante massa operaria daquela região industrial, estes da tinham que percorrer canais perigosos nas farpas
últimos em aliança com os comunistas. Essa conjun- do aparelho de Estado, já que atenuaram o combate
tura permitiu que os vários setores políticos do sindi- ao atrelamento de seus órgãos de classe. Para se com-
calismo se unissem através de uma coordenação preender isso, é necessáriolembrar que dentro do
intersindical englobando sete órgãos de classe dis- período JK, mesmo com os petebistas no Ministério
tintos da Capital. Na organizaçãoda greve, tevepa- do Trabalho, as grevesnem sempreeram aceitas.
pel fundamental um tipo de organismo que marcaria A greve da paridade de novembro de 1960, de
o padrão dos movimentos operários mais decisivos da ferroviários, portuários e marítimos, pela equipara-
época: um organismo intersindical ''paralelo'' , ilegal ção das escalas salariais entre servidores civis e mili-
nã medida em que contrariava a legislaçãocorpora- tares desses setores, é um exemplo. Juscelino reagiu
tiva e vertical vigente, mas que havia sido formado na violentamente à greve, ameaçando mandar ao Con-
pratica desde1953:o Pacto de Unidade Intersindical gresso um pedido de estado de sítio. O pedido não se
(PUI) consumou, pois ao mesmo tempo a bancada gover-
Ao longodo processoda greve,um fator de nista no Congresso fez com que fosse votada rapida-
importância pesou: a adesão de um contingente gre- mente a Lei da Paridade, satisfazendo os trabalha-
vista mais amplo qué o esperado, adesão até certo dores e encerrando a parede. A partir daí, tratou-se
ponto espontânea, e que fez o movimento quase esca- para as lideranças sindicais de esquerda de tentar
par do controle dos sindicatos. Ao mesmo tempo, o politizar o poder resultante do controle que exerciam
então governador Jânio Quadros não reprimiu o sobre as greves.
movimento, para manter o apelo aos setores organi-
zados dos trabalhadores. As lideranças sindicais de- As esquerdas
senvolverama percepção de que poderiam valer-se
das conjunturas políticas para deflagrar movimentos Cabe assinalar que, na qualificaçãodo que se-
de grande porte: tanto é que elas não abandonaram riam as ''esquerdas'' no período, um setor decisivoé
as práticas intersindicais,criando no lugar do PUI exatamente o da liderança sindical de que estamos
de São Paulo o Conselho Sindical de São Paulo; no falando. Os comunistas integram essa categoria, em-
futuro, desenvolver-se-iamoutros organismos inter- bora sejam distintos dos ''nacionalistas'' ou ''pete-
sindicais, chegando-seaté o Comando Geral dos Tra- bistas de esquerda'' pelas suas perspectivas estraté-
90 Ricardo Maranhão O Governo Juscetino Kubitschek 91

gicas ou de longo prazo. Mas o fato é que, no plano l guesia'' muito mal formulada, ou nos corredores
tático, suas perspectivasde aliança com os ''setores periféricos do aparelho de Estado. Mas não podia
progressistas da burguesia nacional'' os alinhavam deixar de defender a classe operaria de maneira deci-
junto com a esquerdanacionalista,em luta por re- siva, sob pena de desaparecer como força política.
formas profundas de estrutura política. Por isso mes- Quanto aos petebistas, antes de mais nada cabe
mo, os comunistas dos sindicatos, durante a greve de esclarecer que boa parte deles não estava na ''es-
1957, haviam inserido nas suas propostas, ao lado querda nacionalista''. Vários deles fechariam com a
das reivindicações salariais, a rejeição da Instrução direita nas articulações parlamentares, e viriam mais
135 da SUMOC (que criava dificuldades creditícias tarde a ser conhecidos como ''bigorrilhos'', por ade-
para as empresas), reivindicação pouco operaria, rir aos vitoriosos de 31 de março de 1964.
mas muito ''nacionalista'' no contexto da época. Um pouco menos à direita se encontravam os
Em todo o período, defenderam as empresas oportunistas mais ''fisiológicos'', dedicados exclusi-
nacionais contra as estrangeiras, embora as primei- vamente ao jogo de favores e cargos. Esses talvez
ras, por sua posição económicacada vez mais frágil, constituíssem a maioria da direção do PTB, apresen-
fossem justamente as mais intransigentes em conce- tando elementoscomo lvete Vargas e Cochratt de Sá.
der aumentos aos seus operários. A posição petebista chamada ''de esquerda'',
O que diferenciava os comunistas operários den- por ser comprometidacom um nacionalismoanti-
tro da aliança ''nacionalista radical'', em luta pelas imperialista e ofensivo, era apoiada pelos votos co-
reformas de base'', era que sua legitimidade pro- munistas, mas constituía minoria dentro da direção.
vinha justamente da proximidade com as massas Dentro do panorama das esquerdas, seria im-
organizadas. Os petebistaspodiam até certo ponto portante situar também o movimento estudantil e
''manipular'' ou ''passar por cima'', em ocasiões particularmente seu órgão máximo, a UNE. Desde o
específicas, dos interesses reais dos trabalhadores, seu XIX Congresso em 1956, essa entidade havia
po\s o PTB tinha dentro do próprio Estado uma eleito para a direção elementos da esquerda naciona-
parcela de sua força e legitimidade. Mas o PCB s6 lista, e a ênfase de suas campanhas se concentrava
podia entrar no jogo graças à sua capacidade de l
nas questõesdo ensino e na luta antiimperialista. Ela
mobilização e, para mantê-la, precisava defender não tinha o mesmo peso que viria a adquirir nos
efetivamente os interesses reais de suas bases operá- primeirosanos da décadade 60, e seu prometode
rtas intervenção política tinha muitas relações com um
Muitas vezes ele o fazia sem eficácia, perdendo- órgão ligado ao Estado e que reunia basicamente
se nos descaminhos de uma ''aliança com a bur- intelectuais: o Instituto Superior de Estudos Brasa
92 Ricardo Maranhão

leiras (ISEB) .
O ISEB, com a pretensiosaproposta de focar
uma ideologia para a luta pelo desenvolvimento na-
cional, reunia um espectrovariado de ideólogos. Mas
sua tendência era a de levar ao máximo de refina-
mento ''a luta do Povo-Naçãocontra o atraso e o
domínio estrangeiro'', mesmo que vários de seus
integrantes procurassem apenas, como Hélio Jagua-
ribe, a formulação de um moderado projeto nacional
de desenvolvimentoautónomo. O govemo JK nunca vOOs E SONHOS PANAMERICANOS
deixou de permitir o fornecimento de verbas para a
instituição, enquanto dentro dela a esquerda procu-
rava ganhar hegemonia. Concomitantemente, desen-
volviam-se no país os debates sobre a política externa A musiquinha de Juba Chaves na época do início
a ser levadapor um governocomprometidocom o do governo JK, ''Presidente Bossa-Nova'', insiste em
''desenvolvimento autónomo''
que eleera chegadoa ''voar, voar, voar'', ''voar até
Versalhes'', etc. Ela revelauma perplexidadebem-
humorada da população diante de um presidente que
não fazia nada de muito surpreendente,para quem
acompanha as andanças dos modernos chefes de Es-
tado latino-americanos. Mas a perplexidade brasi-
leira era explicável: o paradigma máximo de esta-
dista brasileiro, Getúlio Varias, nunca viajara ao
exterior como presidente. . . Varias não fizera sequer
a peregrinação tradicional dos presidentes eleitos da
República Velha, antes de tomar posse. Hábito que
JK retomou antes de receber a faixa presidencial
conquistada a duras penas, fazendo uma rotzrnée
pelos Estados Unidos e Europa, não Ihe faltando a
inefável visita a Versalhes, onde ''duas mineirinhas'
(suas filhas) ''valsinhag dançam como debutantes.. .'',
.h
94 Ricardo Maranhão \ O Governo Juscelino Kubitschek 95

dizia Juca. {
nova, em carta a Eisenhower: o descontentamento
Uma vez na presidência, ''Nona'' não viajaria manifestodurante a viagem de seu vice não seria
muito para fora do país, preferindo voar ''nestevasto uma conseqüência da miséria, atraso, subdesenvol-
territórionacional''.Uma de suas viagens,já no vimento e, portanto, descontentamento das popula-
ocaso do mandato, em 1960, foi a Portugal, cuja ções do continente? Não seria o caso de se pensar
diplomacia de defesa das prerrogativas colonialistas numa nova política norte-americana,em colabora-
ele sempre apoiou, para a alegria dos conservadores. ção com os governos latino-americanos, para erradi-
Essa fotzrnéenão teve maior importânciado que a car tais fatoresde atraso? A carta tem acolhidamí-
afirmação de um velho sfafus qzzo intemacional, e nima do poder da Casa Branca, que envia um sub-
pouco mais significou do que a retribuição da visita secretário de Estado ao Brasil para ''explicar'' a JI(
que o presidente luso Craveiro Lopes fizera ao Brasil que o problema que Nixon enfrentou foi um mero
em 1957. fruto da ação do ''comunismo internacional''
Mas houve uma viagem ao Exterior, ainda em Percebendo a pobreza do raciocínio, JI( parte
19S6, que Ihe abriria a mente para a importância de para sua grande jogada diplomática: a ''Operação
associar seus projetos intemos de desenvolvimento Pan-Americana'' (OPA). No dia 20 dejunho de 19S8,
com uma política externa um pouco mais indepen- os jornais e rádios passaram a estampar a idéia do
dente dos EUA, mais afastada da tradicional filiação presidente de uma cooperação multilateral dos países
automática da nossa diplomacia aos desígnios do do continente e mesmo do restante do Hemisfério
Pentágono e da Casa Branca. Trata-se da Confe- Ocidental, no sentido de erradicar o subdesenvolvi-
rência de Presidentes Americanos, realizada em ju- mento. Ousada projeção internacional de sua visão
lho de 1956no Panamâ. Ali, JK conferenciaem ''desenvolvimentista'' , a OPA tentava envolver o sis-
particular com o presidente dos EUA, Eisenhower, e tema político central do imperialismo em uma luta
se manifesta depois preocupado pela desinformação pelo desenvolvimentoefetivodas economias que Ihe
do chefe da maior potência capitalista com as dís- eram subordinadas. A repercussãoda propostana
pares realidades ao sul do Rio Grande. Quase dois América Latina, causadape]o peso do Brasi] e o
anos depois, em maio de 1958, essa ignorância fica prestígio granjeado por JK, criaram a necessidade de
mais clara por ocasião da visita do Vice-presidente se mandar ao nosso país o próprio secretáriode
Richard Nixon a vários países latino-americanos, Estado, John Foster Dulles; este veio ''explicar'' de
onde é repudiado e mesmo apedrejado em manifes- novo a doutrina vigente da Guerra Fria, segundo a
tações públicas. qual os latino-americanos precisavam mesmo era de
JK aproveita o ensejo para lançar uma idéia segurança policial-militar para combater a subversão
96 Ricardo Maranhão O GovernoJuscelinoKubitschek 97

comunista... Nos embates diplomáticos, JK obteve vario, um delírio expansionista, mas uma necessi-
algumas pequenas satisfações, mas no conjunto a dade vital''. A briga com o FMI rendeu muito mais
OPA revelou-se inviável. em faturamento político do que a fracassada OPA.
Isso não levou Kubitschek a uma radicalização E o mais irónico é que não se prejudicava objeti-
antinorte-americana. Tendo em vista a situação de vamente o investimento direto de empresas multina-
dependênciabrasileira, era difícil para a elite domi- cionais no Brasil.
nante chegar a cogitar sobre uma atitude dessas.
Entretanto, as necessidadesinternas do próprio de-
senvolvimento capitalista dependente de nossa eco-
nomia levariam a uma atitude relativamente drás-
tica: o rom.pimentocom o Fundo Monetário Inter-
nacional. As propostas ''monetaristas'' do Fundo
colidiam cada vez mais com os gastos públicos neces-
sários ao Programa de Metas, ao mesmo tempo em
que a política de câmbio e comércio exterior de JK,
consentânea com as necessidades de seu Programa,
era cada vez mais atacada pelo FMI. Em 1960, em
meio a difíceis negociações, os dirigentes do Fundo
condicionaram a concessão de um prometido crédito
de USS 300 milhões ao Brasil à rígida aplicação das
normas ''monetaristas''. Juscelino não teve outra saí-
da para continuar o plano de desenvolvimento: rom-
peu estrepitosamente, em 17 de junho daquele ano,
com o órgão intemacional.
As dificuldades de crédito iriam avolumar-se;
mas os ganhos políticos do mineiro de Diamantina
no último ano de seu govemocompensavama jo-
gada. Logo após seugesto, uma multidão arregimen-
tada pelos nacionalistascompareceu ao Catete, para
aplaudir e ouvir o presidente dizer: ''O desenvolvi-
mento do Brasil não é pretensão ambiciosa, um des-
O GovernoJuscetinoKubitschek 99

Partido Comunista, a exclusão da participação l:!Áe-


fÍva das camadas populares no processodecisório. O
que se pode dizer em favor de JK nesse campo é que
seu governo tolerou as ações dos comunistas, em
varias ocasiões, não aplicando dispositivosrepressi-
vos mais drásticos; permitiu que a esquerda tivesse
órgãos de imprensa próprios; não aplicou de maneira
sistemática a legislação antigreve; e tolerou a forma-
ção de organismos intersindicais proibidos por lei.
DEMOCRACIA Obviamente, tais conquistas não existiriam se o
E UMA BATATA QUENTE movimento popular não viesse desde 1952-1953em
uma crescente acumulação de forças; e se deve tam-
bém levar em conta que a democracia que JK deixou
como herança para seu sucessor se devia também à
Com o orgulho característico de quem passa participação do PTB no governo, bem mais sensível
uma faixa presidencial (mesmo para um adversário às pressõesdo movimentopopular do que o PSD.
político como Janto Quadros), Juscelino transmitiu A própria conduçãode Jânio Quadrosà Presidência,
seu cargo em 1961, na recém-inaugurada e monu- em oposição ao esquema pessedista, se deveu à am-
mental Brasília, com as seguintespalavras: ''Tenho pla liberdade de expressãodemocrática do processo
como razão de maior orgulho poder entregar a V. eleitoral, que permitiu inclusive a composição do vice
Exa. o Governo da República em condiçõesmuito petebistaJogo Goulart com o candidato presidencial
diversas daquelas em que o recebi, no tocante à esta- da oposição.
bilidade do regime. Está consolidada entre nós a Os êxitos económicos do qüinqüênio, sob a pa-
democracia, e estabelecidaa paz...'' Não há dúvida lavra de ordem dos ''Cinqüenta Anos em Cinco'', são
de que o governo Kubitschek foi estável e que, do inegáveis, como vimos. Entretanto, JK esgotou as
ponto de vista da democracia liberal, permitiu um possibilidades de sucesso daquele estilo de desenvol-
alto grau de liberdade política e de expressão. vimento. Em primeiro lugar, porque a clara inserção
Entretanto, os aspectos antidemocráticos do re- do Brasi] na etapa do capitalismo monopolista ge-
gime vigente não foram alterados na essência du- rava uma série de novos problemas: Os mais visíveis
rante seu governo: a estrutura sindical corporativa e se deviam ao agravamento de disparidades regionais,
atrelada ao Estado, a proibição da vida legal do ligadas à coexistência orgânica de setores avançados
100 Ricardo Maranhão O Gover"tlo Juscetino Kubitschek 101

da indústria de bens de consumo durável e de bens de Juscelino deixou para seu sucessor uma taxa de
capital, com bolsõesde atraso e baixa produtividade, inflação de 30,9%o, muito acima dos 13,6%oprevistos
bem como à manutenção e crescimento da miséria no no Programa de Metas. Isso era apenas um aspecto
campo e sua transferênciapara as grandescidades. de um problêina mais geral. Como dizem Mana da
Mas os problemas mais profundos diziam respeito ao ConcepçãoTapares e José Serra, ''há a partir de 1960
próprio fato de que o grande capital monopolista uma redução da taxa de investimento,ligada a uma
faria novas exigências, inclusiveno plano da política 'desaceleração' do processo económico, para a qual o
económica, incompatíveis com as possibilidades de crescimento da inflação contribuía fortemente. Até
jogo político do regime liberal-democrático. Como então, a inflaçãotinha um papel 'funcional' no sis-
diz Florestan Femandes, sobre as novas e abrangen- tema, pois permitia um amortecimentodas tensões
tes exigências do capital monopolista, ''ao adaptar-se entre os salários e os lucros; além de garantir uma
às estruturas e dinamismos de economias capitalistas taxa 'ilusória' de lucro para muitos investimentos,
dependentes e subdesenvolvidas, ele se associa a ve- ela era um componentedo 'jogo' populista no plano
lhas iniquidades e gera, por sua vez, iniquidades da política económica, na medida em que essejogo
económicasnovas,atraindopara si velhose novos permitia um crescimento de salários bem próximo do
descontentamentossociaise políticos'' (.4 Rel,o/tição crescimento dos preços, mantendo a legitimidade do
.Burguê3a-no .Brasa/, Zahar, Rio de Janeiro, 1976, sistema nesseplano. Porém, no período crítico, não
P 270) só passa a ocorrer uma série de estrangulamentos
No regime liberal-democrático vigente, com as financeiros das empresas, como o acelerado ritmo de
conquistas que os setores populares conseguiram, os aumento de preços levou a uma intensificação das
descontentamentos tenderiam a colocar problemas e pressões trabalhistas. . . limitando assim as possibili-
obstáculos à tranqüila dominação e exploração do dades de uma redistribuição forçada'' (''Além da
grande capital. Até mesmono campo, as tensõesno Estagnação'', in Z)a Subsfírtifçãode /mporfações ao
final do governoJK jâ se expressavamem movimen- Cáfila/ .Fina/zcefro, Zahar, Rio de Janeiro, 1978,
tos como as nascentes Ligas Camponesas. Por outro n I'\X)
lado, a dinâmica iniciada com a formação dos ''orga- Ao deixar o govemo, JI( deixava claro que pre-
nismos de administraçãoparalela'', retirando do tendia voltar em 1965, apoiado no seu bom conceito
Legislativouma parcela de seu poder decisório, só de estadista, de construtor de Brasília, de democrata
poderia ter continuidadecom a reduçãocada vez com grande prestígio popular. Mas a ''batata quen-
maior do próprio Legislativo,o que não seria possível te'' representada pelos graves problemas políticos e
sem graves problemas políticos. económicos que o padrão de desenvolvimento man-
102 Ricardo Maranhão

tido durante os ''Cinqüenta Anos em Cinco'' deixou, b

queimada não só as pretensõesde poder do notável


político, como reduziria a cinzas em 1964a própria
democracia.

INDICAÇÕES PARA LEITURA

É escassa a bibliografia específica sobre o as-


sunto. O livro fundamentale mais importante até
agora é o de Mana Vitória Benevides, O Goverpzo
Kubitschek -- Desenvolvimento Económico e Esta-
bl/idade Po/íffca (Paz e Terra, Rio, 1976). Há uma
contribuição no plano da análise ideológica, em Mí-
riam Limoeiro Cardoso, laca/orla do Z)escavo/l,í-
menfo -- .Bus//:/KIQ (Paz e Terra, Rio, 1977).
Sobre a ascensão de JK ao poder, ver Roland Cor-
bisier, JX e a lura pe/a Presfdêncía (Duas Cidades,
São Paulo, 1976), e Munhoz da Rocha, Radfogr({»a
de AXol,ombro(Civilização Brasileira, Rio, 1961). Hâ
uma série de.#asÀessobre o cotidiano da política no
período em Abelardo Jurema, Jusce/fno &Janto, .P5Z)
& P7B (Artenova, Rio, 1979).
E importante ler as memórias de Juscelino Ku-
bitschek, .A/ezz Cam/n#o para .Brasa/fa (Bloch, Rio,
À 1976 a 1978). Apesar de serem um tanto apologéticas
104 Ricardo Maranhão O Governo Juscelino Kubitschek 105

e cansativas(três volumesde quase 500 páginas (org.), Ed. CEBRAP-Hucitec, São Paulo, 1977), en
cada, em formato grande), elas reúnem uma impor- tre outros.
tante massa de informações, em grande parte nunca
publicadas numa só e mesma obra. Tendo Carlos
Heitor Cony como g&osf-wrffer,a leitura se torna
mais amena e agradável.
As obras que abrangemperíodosmais largos
não trazem quase nada mais efetivo sobre o governo
JK. Uma exceção é Thomas Skidmore, .Brasa/, de
Gefzí/ío a CasfeZo (Saga, Rio, 1969).
Finalmente, quanto à questão do Plano de Me-
tas. há o trabalho básico de Celso Laser, T#e P/a/z-
ning Process and the Politicas System in Brazil: A
Sfudy ofKubífscÀek Tarxef P/an (Dissertation Series
no 16, Cornell University, 1970). Hâ uma série de
informações também em Betty Mindlin Lafer, P/ane-
Jamenfo/zo.Braif/(Perspectiva,São Paulo, 1973);em
Octâvio lanni, Estado e Plandamenfo Eco/zõmfco
no .Brasa/ (.1930-70) (Civilização Brasileira, Rio, 1971),
e Carlos Lassa, Quinze .Anos de .Po/íffca .Econó-
mica (Brasiliense,São Paulo, 1975).Não se pode
deixar de citar, devido à importância do período
do ponto de vista económico, trabalhos que abran-
gem sob esse ponto de vista períodos maiores, dan-
do um peso importante à economia no qüinqüê-
nio JK: Mana da Conceição Tavares e José Serra, Z)a
Substituição de Importações ao Capital Financeiro
(Zahar, Rio, 1978), e Francisco de Oliveira e Frede-
rico Mazzuchelli, ''Padrões de Acumulação, Oligo-
pólios e Estado no Brasil -- 1950-1976''(fn Estado e
Ctzplfa/Esmo /zo .eras//, de Cardos Estejam Martins
COLEÇÃO TUDO É HISTÓRIA'
1 -- As Independênciasna América Latina -- l.eon Pomar
2 -- A Crise do Escravismoe a Grande Imigração
-- PaRIa Beiguelman
3 -- A Luta Contra a Metrópole(Ásia e África)
-- Murta Yedda Lineares
4 -- O Populismo na América Latina -- A4arla l,feia Prado
5 -=- A Revolução Chinesa l)arie/ ,4arão Reis FÍ//zo
6 -- O Cangaço -- Car/os .4/berço Dóría
Sobre o Autor 7 -- Mercantilismo e Transição -- Francísco Falc017
8 -- As Revoluções Burguesas -- A/odesfo F/orenzano
Ricardo Maranhão, historiador, jornalista e cientista político, 9 -- Paras ]968: As Barricadas do Desejo -- O/pária C. F. Abafos
nasceu em Piracicaba, São Paulo, em 194S. Fez seus estudos superiores 10 -- Nordeste Insurgente (1850-1890)-- Ha171i//o/z
de À/af/os À/o/zfefro
11 A Revolução Industrial -- Frapzcfsco /gléslas
na Universidade de São Paulo, onde obteveo grau de Bacharel em His-
tória e o de-Mestreem Ciência Política. Prepara atualmente seu Douto- 12 -- Os Quilombos c a Rebelião Negra -- C'/óvls .Votara
ramento. 13 -- O Coronelismo -- Afarlu de l,ourdes /ano/íf
Trabalho comojornalista, desde 1966, nas .Fb/Àas, n'O Estado de 14 -- O Governo juscelino Kubitschek -- Ricardo Maranhão
15 -- O Movimento de 1932 -- A4arfa He/e/la Ccípe/afo
S. Paulo, em Opínfão e Movlmenfo. Ê colaborador de várias publicações,
16 -- A América Pré-Colombiana -- Giro F/alnarío/i Cardoso
enfie as quais /sfo É, Senhor, e ]VossoSécti/o.
De 1976 a 1978. foi membro do Conselho Consultivo do Instituto de
Estudos Políticos. Económicos e Sociais do MDB. Atualmente é membro A Abolição da Escravidão -- Sue/í R. Reis de Oueiroz
do ConselhoEditorial das editorasAlfa-Omegae Oboré. Ê membro A Acumulação Capitalista na América Latina (Séc. XIX)
tambémdo CEPEA(Centro de Estudos, Produções Editoriais e Asses- -- Hecfor Bruit
soria). A Balaiada A4arfa c/e Z.ourdes /ci/lolrí
Entre seus trabalhos publicados tem os livros Sfndfca/os e .Demo- A Burguesia Brasileira -- /acob Gorender
crafízação(Brasiliense,São Paulo, 1979),Os Trabalhadorese os Par A Cabanagem -- Duice Heletla Passou Ramos
lidas (Semente, São Paulo, 1981) e a obra coletiva da qual é um dos A Comuna dc Pauis -- Florác'fo Go/zicí/ez
organizadores,junto com Antonio Mendes Jr. : BrasfJ -- /ll'sróna, Tufo A Construçãodo Socialismona China -- Dance/.barão Reis F
e Gonsu/fa (Brasiliense, São Paulo, 1976 a 1981), com 4 volumes já A Crise de ]929 -- ,4/bafio /Warsolz
publicados A Cultura na Era de Vargas -- Car/os Guí/ber/ne À4o/fa
Como professor, lesionou História desde 1966 em vários colégios e A Economia Cafeeira -- /osé /?. ,'amara/ l,apa
cursos pré-vestibularesda capital paulista, além de ter sido professor A Guerra Civl Americana -- Pe/er Efsenberg
assistenteda Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos A Guerra Fria -- Déa Fei?e/on
Campos. Atualmente, é professor de Ciência Política na Universidade A História do Espetáculo e Encenação -- Ferrando Pelxofo
C A História do Movimento Estudantil -- ,4n/onío À4epzdes /r.
Estadual de Campinas(UNICAMP).
A História do Trabalho Fabril -- Esgar de Decca
A l ndustrialização Brasileira -- FRUI?c isco Jg/ésías
A Inquisição no Brasil -- Álzífa Novínskí
A Intentona Comunista -- Marca He/ena Gare/afo
A Questão Árabe -- A,faria yec/(/c/ l,ílz/lares
A Primavera de Praga - Soda Goldfeder

h * Títulos numerados, já publicados