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CAPÍTULO 8: IMOBILIZAÇÕES

FUNDAMENTOS DE ORTOPEDIA & TRAUMATOLOGIA (José Batista Volpon)

SEÇÃO 3: PRINCÍPIOS DE TRATAMENTO

CAPÍTULO 8: IMOBILIZAÇÕES
José Batista Volpon

A imobilização é recurso importante no tratamento de afecções ortopédicas, mas pode apresentar complicações
e efeitos colaterais que devem ser evitados.
O tratamento ortopédico partilha com outras especialidades o uso terapêutico de analgésicos, anti-
inflamatórios, antibióticos etc., mas tem recursos próprios de tratamento que devem ser conhecidos e alguns praticados
pelo médico não especialista.
A Traumatologia foi, dentre os diversos ramos da medicina, um dos que mais precocemente surgiu na evolução
histórica. A imobilização dos segmentos corpóreos comprometidos passou por diversas fases ate que Antonius
Mathijsen, em 1852, introduziu a atadura gessada, método este que se mostrou de tal maneira eficiente que ainda não
encontrou substituto ideal ate nossos dias.
Antonius Mathijsen nasceu em 4 de novembro de 1805, filho de um médico de uma vila em  Budel , uma cidade
holandesa na fronteira com a Bélgica. Ele foi educado em hospitais em Maastricht , Bruxelas e na escola de medicina do
exército em Utrecht . Enquanto trabalhava em Haarlem no hospital militar em 1851, Mathijsen usou pela primeira vez o
gesso de Paris como curativo. Até então, um método belga era usado com amido que levava até um dia para secar e
endurecer. Do outro lado da rua, ele viu trabalhadores consertando rachaduras na igreja com tiras de mergulhadas em
gesso de Paris (gesso de calcinação incompleta, bastante refinado). Ele raciocinou que uma bandagem de juta embebida
em água e gesso aplicada da mesma forma que o método belga endureceria em poucos minutos e, portanto, faria uma
fixação melhor em ossos quebrados. Depois de testar sua ideia em galinhas, publicou suas descobertas em uma revista
médica holandesa, Repertorium, em fevereiro de 1852. Em 1853, sua ideia foi elogiada por um painel de pesquisa por
seu valor para os militares, "especialmente no campo de batalha". 
O gesso é constituído por sulfato de cálcio, retirado da natureza, que passa por processo industrializado especial
em que o gesso em pó é distribuído entre as ataduras de malha que servem de suporte. A água aquecida é ainda o
processo acelerador de melhor resultado.
A imobilização é recurso em que se restringe a atividade de um segmento do aparelho locomotor, com
finalidade terapêutica. Ela pode ser feita em diferentes graus, incluir uma ou mais regiões anatômicas, e tem as
seguintes indicações gerais:
- Aliviar a dor;
- Permitir regressão mais rápida do processo inflamatório;
- Permitir melhor reparação dos tecidos.
As principais indicações específicas das imobilizações ortopédicas podem ser resumidas em:
1. Imobilizar (estabilizar) provisoriamente uma fratura.
2. Imobilizar uma fratura reduzida (tratamento).
3. Imobilizar membro com traumatismo mesmo sem fratura.
4. Imobilizar articulação com processo inflamatório ou infeccioso.
5. Imobilizar mantendo correção de deformidades.
6. Imobilizar uma região operada.
Como qualquer outro método terapêutico, a imobilização pode apresentar efeitos colaterais e complicações que
devem ser conhecidas e evitadas. Uma das características fundamentais do aparelho locomotor são o movimento e
transmissão de forças, e quando se imobiliza, há interferência, em maior ou menor grau, com essas funções, o que leva
à atrofia dos tecidos, que será tão maior quanto mais prolongada e mais restrita for a imobilização. As principais
alterações decorrentes da imobilização estão apresentadas no Quadro 1.
Este conjunto de sinais e sintomas era conhecido, no passado, como “doença da fratura”. Mas é, de fato,
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consequência da imobilização prolongada que se usava na época, sendo, hoje, de ocorrência pouco frequente.

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Quadro 1. Principais alterações e complicações da imobilização.
Efeitos colaterais da imobilização
Tecido Grau Moderado Grau Acentuado
Pele Seca, descamante Fissuras, sensível
Perda de fibras, fibrose intersticial, diminuição
Músculo Redução do volume das fibras, flacidez
da contratilidade, força e elasticidade
Espessamento por fibrose, aderência, perda da
Articulação Atrofia
flexibilidade, rigidez
Cartilagem Articular Desidratação, diminuição da espessura Fissuras, ulcerações
Perda de massa óssea, degradação trabecular,
Osso Desmineralização, osteopenia
osteoporose (tendência a fraturas)

Atualmente realiza-se o chamado tratamento funcional, isto é, imobiliza-se o menor segmento possível, pelo
tempo mais curto, estimulando a função do membro afetado e a atividade do indivíduo como um todo, enquanto
imobilizado. A imobilização pode ser conseguida com vários recursos como tipoias, enfaixamentos, talas metálicas e
gesso (Figura 1).

Fig. 1. Ilustração de uma imobilização realizada com tala metálica (férula),


após redução de uma luxação da articulação metacarpofalangiana.

O gesso é um mineral formado de sulfato de cálcio associado a duas moléculas de água. É encontrado in natura
como rocha de onde é retirado, moído, limpo, peneirado e, quando aquecido, desidrata-se. Com este pó impregnam-se
faixas de malha que, enroladas, formam ataduras.
Ao ser molhado, o gesso recupera a molécula perdida de água e, por meio de reação exotérmica, endurece. O
gesso tem a vantagem de ser barato, fácil de manusear, endurecer rapidamente e não se contrair ou expandir
significativamente ao endurecer. Esta propriedade é importante, pois garante que o aparelho gessado não se torne
frouxo ou apertado.
A imobilização pode ser aplicada por meio de talas ou dos aparelhos gessados. Na tala, a atadura é espalhada de
modo a formar várias camadas e, no aparelho gessado, o membro é envolvido por sucessivas camadas de ataduras.
Modernamente, há outros materiais que podem substituir o gesso convencional, como uma mistura de fibra de
vidro e poliuretano ("gesso sintético") ou o gesso macio (soft cast).
Para a execução de um aparelho gessado temos necessidade fundamental de:
- Malha tubular, para cobertura e proteção da pele; auxilia também no acabamento; vários tamanhos;
- Algodão ortopédico, para proteção de saliências ósseas e melhor conforto e menor compressão;
- Atadura gessada, em diversas larguras (10cm, 12cm, 15cm, 20 cm) a depender da região a ser imobilizada;
- Água em temperatura ambiente;
- Vasilha especial ou pia funda.
Além dos seguintes Instrumentos especiais:
- Tesoura de gesso (tesoura de Lister);
- Lâminas e/ou bisturis;
- Serras elétricas oscilatórias;
- Afastadores de gesso.
Tais instrumentos são utilizados tanto na confecção como na retirada dos aparelhos gessados.

TIPOS DE IMOBILIZAÇÕES GESSADAS


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A imobilização gessada pode ser aplicada na forma de talas, geralmente usadas para traumatismos agudos e por
curto período.

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Como a tala gessada não envolve toda circunferência do membro, ela permite a expansão das estruturas com o
edema e previne compressão. Tem o inconveniente de não permitir a aplicação de pontos de apoio de maneira
adequada e, assim, é pouco usada na redução das fraturas. A maior indicação da tala é para a imobilização de curta
duração (até uma semana), com exceções.
O aparelho gessado envolve toda a circunferência do membro e propicia maior estabilização. Sempre que
possível, imobilizar as articulações na posição funcional para que atividades básicas possam ser realizadas (Figura 2). São
usados principalmente após a redução de fraturas e em períodos pós-operatórios mais prolongados. Apresentam o
perigo de causar compressão, se o membro edemaciar, com o desenvolvimento das temidas síndromes de
compartimento. Por isso, devem ser fendidos em casos de aplicação na fase aguda.

Fig. 2. Ilustração de uma imobilização gessada para o punho. Note que o


aparelho gessado deve permitir o máximo de função possível.

REGRAS GERAIS
Na confecção de uma imobilização, as seguintes regras devem ser seguidas:
1. Escolher, antes de iniciar a imobilização, qual material vai ser utilizado, pois da prática advém uma regra importante:
“após terem sido postas as ataduras gessadas dentro da água, o trabalho deve correr de modo único e sem improvisos”.
2. Colocar o membro a ser imobilizado na posição requerida pelo tipo de imobilização a ser realizada.
3. Verificar a higiene e a assepsia da região que vai ser imobilizada.
4. Proteger com malha tubular e algodão ortopédico toda a extensão cutânea do membro lesionado, com especial
interesse pelas saliências ósseas.
5. Colocar água dentro da pia ou bacia, enchendo-a de modo que a atadura fique totalmente submersa quando
colocada em seu interior.

TÉCNICA PROPRIAMENTE DITA


Coloca-se a atadura gessada totalmente submersa em água e somente é retirada quando cessar o
borbulhamento (até um minuto). Uma leve torção em suas extremidades e a atadura estará em condições de envolver o
membro, previamente acolchoado pela malha tubular e pelo algodão ortopédico, a primeira de diâmetro proporcional
ao membro afetado e o segundo cobrindo as saliências ósseas.
a) Deve-se iniciar a imobilização com o aparelho pela sua extremidade distal, pois isto facilita a sua execução e o retorno
da circulação.
b) A atadura gessada deve ser enrolada em espirais, observando-se as mudanças no diâmetro do membro. A
compressão regular uniforme é condição fundamental.
c) Em cada passagem da atadura deve-se alisá-la para facilitar a adaptação dos cristais com as camadas adjacentes.
d) Após envolver totalmente o membro com as camadas necessárias, inicia se a fase de modelagem, de muita
importância, pois daí virá a estabilidade do gesso e do segmento corpóreo comprometido.
e) O acabamento é feito com os recortes necessários, tornando o aparelho de bom aspecto e boa função. Jamais deixar
sujidades ou manchas de gesso fora da área de imobilização.
f) Deve-se esclarecer o paciente da necessidade de secagem completa do gesso para que possa ser dada movimentação
total ao membro, inclusive com carga nos aparelhos gessados para marcha, salientando ainda a observação da cor da
pele, do edema, da dor, das alterações de sensibilidade e mesmo da paralisia do membro imobilizado, fatos estes que
indicariam compressão pelo aparelho e, consequentemente, a necessidade da sua abertura e, por vez, de sua retirada.
g) Na execução do aparelho deve-se evitar um gesso muito fraco (fino), que quebra-se com facilidade, um gesso muito
pesado (grosso) que dificulta os movimentos e finalmente um gesso não uniforme, apertado, garroteado ou amassado,
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o qual poderia provocar escaras e prejuízos circulatórios.

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h) A retirada do gesso pode ser feita com o uso de serra de gesso elétrica ou de aparelho especiais que fendam
totalmente o gesso, em duas linhas opostas, tomando cuidado de evitar lesões da pele.

COMPLICAÇÕES
Em geral complicações consequentes a confecções imperfeitas dos aparelhos gessados ou de sua utilização por
tempo indevido podem ser:
- Compressão leve (caracterizada por dor, edema, cianose, extremidade fria etc.).
- Compressão grave (contratura isquêmica de Volkman*).
- Escaras (massa de tecido necrosado).
- Parestesia e/ou Paralisia (comprometimento de nervos).
- Rigidez articular (dificuldade de movimento da articulação devido ao tempo de inatividade).
- Hipotrofia ou Atrofia muscular (perda de tecido muscular resultante de doença ou por inatividade).
*Flexão permanente ou contratura do punho e da mão. Manifesta-se por uma deformidade da mão e dos dedos em
forma de garra.

CUIDADOS COM OS APARELHOS GESSADOS


Quando um paciente recebe uma imobilização gessada, deverá ser orientado quanto aos cuidados, ou seja, não
pode danificá-lo, cortá-lo, molhá-lo e deve preservar as condições higiênicas. Além disso, é muito importante a
orientação para prevenir a síndrome de compartimento, como manter o membro elevado e movimentar as articulações
adjacentes.
Os pacientes devem ser informados sobre os sinais de alarme para a síndrome de compartimento como
formigamento e alteração da cor da extremidade, e dor latejante, crescente, incomodativa, que impede os movimentos
das extremidades. Quando imobilizado, o indivíduo deve sentir-se confortável, apenas com uma dor basal relacionada
com a lesão e controlada com analgésicos comuns. Tentativas de coçar debaixo do gesso podem deixar corpos
estranhos que provocam úlceras (Figura 3).
Lembre-se que um paciente com queixa importante de dor, mau cheiro, secreção, sensações estranhas etc.,
com imobilização gessada, deve ser investigado, sendo necessária a remoção do gesso. É muita irresponsabilidade dizer
que "é assim mesmo", "se quebrou é natural que doa" ou o que paciente é muito exigente e nada há a fazer.

Fig. 3. Exemplo da algumas complicações da imobilização gessada. (A) Formação de escara no antebraço por técnica
inadequada de confecção do gesso. (B) O aparelho gessado do membro inferior foi aberto e encontradas duas canetas
usadas para “coçar” que aí ficaram e formaram escaras.

O médico, ao atender um paciente imobilizado com queixas importantes de dor, ou sinais objetivos de edema
acentuado, palidez ou cianose das extremidades, deve entrar em contato com o profissional que está tratando o
paciente, ou encaminhá-lo. Se isto não for possível de ser realizado rapidamente, deverá feita uma radiografia para
verificar se há fratura, acomodar o paciente com o membro elevado, verificar se há algum enfaixamento ou outro
elemento que esteja apertando, retirá-lo e estimular a movimentação da extremidade. Em caso de aparelho gessado,
ele deve ser fendido e alargado, mesmo que haja risco de perder a redução da fratura. Não devem ser usados
analgésicos entorpecentes. Não se deve omitir, mesmo considerando ser antiético interferir no tratamento que o colega
fez, se este não puder ser encontrado. Se, com estas medidas em tempo curto (15 minutos) o paciente não melhorar,
pode estar ocorrendo uma síndrome de compartimento, o que caracteriza uma urgência.
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RECOMENDAÇÕES AO PACIENTE
- A imobilização gessada é a melhor forma de recuperação do osso quebrado e de certas lesões por traumas.
- A duração do tratamento com gesso depende do tipo de fratura, local fraturado e idade do paciente.
- Apenas o seu médico poderá dizer quando retirar o gesso. Até lá, cuide bem do seu gesso.
- O abuso de exercícios físicos pode causar danos ao aparelho de gesso e prolongar o tratamento.
- Não molhe o gesso. A água poderá amolecer o gesso e complicar a sua lesão.
- Não tente remover o algodão de dentro do gesso, pois pode alterar o formato interno do gesso e machucar.
- Não tente coçar a pele sob o gesso inserindo objeto estranho, pois pode ferir a pele e ocasionar infecção.
- Ao tomar banho envolva o gesso em um saco plástico.
- Para não se cansar muito com o uso do aparelho de gesso procure usar uma tipoia ou muletas.
- Ao colocar gesso sempre procure elevar o membro nos primeiros dias para evitar edema e prejudique a circulação.
- Em caso de dor, edema (inchaço), ou cor escurecida da extremidade, procure imediatamente um médico.
- Qualquer dúvida procure seu médico para esclarecimento.
- Prevenir continua sendo o melhor tratamento.
A chave para a eficiência no tratamento com imobilização é o próprio cuidado da imobilização, durante sua
construção e seu uso.
O mundo de hoje vem exigindo profissionais mais preparados e capacitados em resolver problemas, de tomar
decisões em quaisquer situações, que respeitem e valorizem o trabalho em equipe e a conduta ética.

DOMÍNIO DE COMPETÊNCIAS
O médico deve dominar a técnica de imobilizações simples como tipoias, enfaixamentos e talas gessadas. Deve,
ainda, saber diagnosticar e lidar com as complicações agudas da imobilização, principalmente a compressão.

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