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Floresta

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daniel
gruber

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Floresta
O GRIFO
2021

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© 2021 Daniel Gruber

Preparação
Danilo de Albuquerque

Capa e projeto gráfico


Daniel Gruber

Fotos
p.2-3,6 e 9: Daniel Gruber
p.10-11 e 12: Louis Niemeyer (1866), Acervo Biblioteca Nacional.

Ilustrações
Claude Paradin, Devises heroïques (Lyons, 1557)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Gruber, Daniel
A Floresta / Daniel Gruber. — 1. ed. — Novo Hamburgo,
RS : O Grifo, 2021.

ISBN 978-65-990918-4-1

1. Ficção brasileira I. Título.

21-57174 CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção : Literatura brasileira B869.3
Aline Graziele Benitez — Bibliotecária — CRB-1/3129

www.ogrifo.com.br
/ogrifo
/ogrifoeditora

gri.fo sm 1 Animal fabuloso, com cabeça de águia e garras


de leão. 2 adj Diz-se de uma forma de letra inclinada para a
direita, também conhecida por itálica, bastarda e aldina.
3 sm Questão confusa e atrapalhada; enigma.

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Para todos os meus demônios

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apresentação

Irka Barrios

Costumo experimentar dois sentimentos (distintos, mas não


conflitantes) quando leio narrativas que abordam o tema bru-
xaria. O primeiro e mais antigo, conheço desde a infância. É o
medo em sua forma mais pura e genuína. Porque somos condi-
cionados a temer rituais que não compreendemos e assim leva-
dos a acreditar que, uma vez mantidos fora da crença ou cultura,
ou clube secreto que os pratica, naturalmente nos tornamos ini-
migos dos praticantes. Ou vítimas.
O segundo e mais atual é uma espécie de honraria ao poder
feminino, algo que me parece muito próximo de um orgulho,
um festejo em favor das mulheres que se levantaram para lutar
com as armas que, em suas épocas, possuíam.
Sabemos que, ao longo dos séculos, mulheres das mais va-
riadas crenças e religiões foram violadas, silenciadas, torturadas
e mortas. Algumas, porém (talvez as mais astutas), souberam
criar meios de lutar contra essa selvageria, ainda que de forma
igualmente selvagem. Mas o estigma de bruxa nunca foi bem
visto e a sociedade misógina não demorou a desenvolver méto-
dos cruéis de perseguição. A ameaça pairava em torno de todas

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as mulheres, estivessem em contato com rituais pagãos ou não.
A ameaça sempre foi um excelente método de opressão.
Habitar este mundo, mesmo protegida por uma armadura, pro-
vocava temor e nunca deixou de ser algo perigoso para a mulher.
A Floresta me desperta os dois sentimentos.
Filha de um pastor que não serve como exemplo de boas
condutas, e forçada a um casamento de conveniência com um
homem bruto, Anna Schutz se rende às tarefas da mulher do
final do século XIX. Precisa cuidar da casa, do marido, não pode
ter amizades, nem andar por aí sem explicar por que se ausen-
tou. Escrever, então, é praticamente uma afronta.
Anna conhece o mundo hostil em que vive e sabe que, caso
sofra um estupro, será responsabilizada e posta na rua. Talvez
rejeitada pelo próprio pai. Talvez assassinada. Todos os cami-
nhos a conduzem até Tilda, a amizade recente que torna a vida
de Anna menos penosa. E é a partir desta amizade que Anna
nos conduz aos mistérios da floresta.
Com uma escrita envolvente, que repercute as característi-
cas das obras clássicas de terror, sem deixar de nos surpreender
a cada novo capítulo, Gruber descreve cenas desconcertantes
que testam, ao limite, nossa capacidade de empatia, e nos fazem
refletir sobre vingança, punição e sacrifício.

Irka Barrios é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS,


autora de Lauren (Caos & Letras, 2019), finalista do
Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento.

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“Ninguém consegue nos enganar
melhor do que nós mesmos.”

Johann Wolfgang von Goethe

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g loss á rio

Brasileiros era como os imigrantes chamavam


quem não tinha ascendência germânica.

Fachwerk ou “enxaimel” é a técnica de cons-


trução típica do norte europeu que consiste em
paredes caiadas sobre hastes de madeira encai-
xadas em posições horizontais, verticais e dia-
gonais. Arquitetura trazida pelos imigrantes ao
sul do Brasil no século 19.

Kerb é uma quermesse de origem alemã. Geral-


mente realizadas na inauguração de uma igreja,
duravam três dias. Mais tarde passou a ser rea-
lizada anualmente, como forma de integração
das comunidades.

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Mazama

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No dia do seu aniversário, enquanto ela dormia e o sol se levan-


tava no horizonte, ele invadiu seu quarto e a levou.
Ela sonhava com um castelo de torres altas e jardins flori-
dos quando ele apareceu diante da porta feito uma sombra ne-
gra, tapou sua boca com a mão grossa e encardida, arrancou-a
da cama com um puxão e a imobilizou em seus braços. Ela ten-
tou lutar, mas ele a arrastou pela sala — onde o pai, a madrasta
e o irmão pequeno permaneciam sentados, calados e de olhos
baixos — e gritou ao ser colocada no lombo do cavalo, mas nin-
guém ouviu ou pareceu se importar.
Cavalgaram por fazendas e estradas desertas, e já era um
dia pleno quando chegaram a uma casinha no meio do mato,
de paredes brancas e revestidas de hera. Ele a jogou num quarto
pequeno e sufocante, de janelas pregadas com tábuas cheias de
musgo. Uma jarra de água, uma caneca e um prato de comida a
esperavam do lado da cama. Assim, por longas horas ela ficou
ali sozinha, mergulhada na escuridão.
Nenhum bravo cavaleiro viria resgatá-la, porque aquele
homem era seu marido.

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Anna era nome de moça boa, moça direita. Só percebeu isso


depois de ter uma visão em que seu pai era esfaqueado.
Seu casamento foi num domingo de sol, no final de abril.
Ela observou as mulheres trazendo mesas grandes da congrega-
ção e as dispondo no pátio, cobrindo-as com charque, linguiças
e cucas açucaradas. E penduraram varais de fitas coloridas e ar-
ranjos floridos em postes de madeira, e os homens trouxeram
carnes de caça para assar — veados, javalis e tatus — como se
uma dádiva estivesse se realizando ali.
Rapazes de ternos escuros tocavam gaitas e rabecas, e mo-
ças de cabelo trançado e vestidos levemente coloridos dançavam
marchinhas alemãs. Os mais velhos formavam um círculo ao
seu redor, como faunos em volta de ninfas indomáveis, batendo
palmas e dando tapinhas em seus quadris, muito sorridentes,
pois há anos ninguém mais fazia festas naquele lugar.
Anna ponderou sobre suas opções: fugir pelo mato e vi-
ver como um animal, se alimentando de ratos no banhado, ou
acatar a decisão do pai e ter uma vida medíocre para sempre.
Certamente ela poderia ter tido um futuro mais ensolarado, mas

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os desmaios e crises de sonambulismo na infância a confinaram
em seu próprio mundo de sombras. Então esse casamento pa-
recia ser o mais conveniente a todos. Pelo menos para o pai, o
pastor Franz Schutz, pois o vater sempre sabe o que é melhor
para as filhas. Mesmo que seja entregá-la ao herdeiro de um rico
e falecido fazendeiro da região. Mesmo que houvesse um dote
polpudo nesse acordo.
Die gute Tochter, cumprindo seu dever. A ovelha humilha-
da. Esse arremedo de vida que não haveria de lhe servir jamais.
Entocada no quarto, Anna se ajeitou com o vestido negro
que Catarina, sua madrasta, lhe emprestara de seu próprio casa-
mento (o primeiro e o segundo). Era tradição casar-se de preto,
que lhe soou um tanto apropriado, já que a cerimônia parecia
mais um funeral. Para uma moça, pelo menos, o casamento era
a morte de algo importante.
Deixou que a madrasta refizesse três vezes a trança em seu
cabelo castanho, volumoso e anelado, cortado à altura do queixo
depois que as pontas pegaram fogo em um acidente doméstico.
Contou até três em silêncio cada vez que Catarina insistia em
dizer que eles já estariam crescidos no verão. Prendeu-os com
o alfinete de ferro longo e pontudo que muitas vezes imaginou
atravessando sua garganta, e Catarina pôs uma grinalda de mar-
garidas sobre sua cabeça, do mesmo jeito que faria a uma linda
boneca de pano.
A madrasta empenhava-se em disfarçar a rigidez, contida
em cada um de seus gestos, mas àquela altura ninguém mais
podia deixar que um pensamento ruim lhes assombrasse.
No fundo, Anna era igual a qualquer moça de dezoito anos
naquela terra inculta, dura e pobre, à mercê de um pouco de
conforto e alegria. Mesmo que preferisse a companhia de livros
à de pessoas, aquele dia chegaria para ela também, o dia em que

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a terra árida terminaria por dobrá-la. Só quando olhava para as
crianças dançando, suando e gargalhando ao redor do gramado
é que pensava na vida como algo mais arejado que apenas o far-
do de sobreviver a um dia de cada vez.
Não se reconheceu no espelho, enfiada naquele vestido
apertado e pavoneante. Preferia as roupas soltas e leves, sem o
medo de sujá-las. Preferia os pés descalços, o cabelo solto. Suas
olheiras agora se destacavam mais fundas e arroxeadas, a cica-
triz na pálpebra mais brutal. O que enxergava ali, refletido, era
apenas um pálido fantasma de pé sobre a própria sepultura.
No pátio, seu pai espalhava sorrisos e discursos. Explicava
suas ideias grandiosas ao único homem que lhe concedia aten-
ção, que Anna gravou na memória por lhe causar um estranho
incômodo, alto, magro, todo vestido em couro cru.
Uma moça se aproximou dele, enroscando-se nos seus
braços, provavelmente sua filha. Foi então que Anna a notou
pela primeira vez, a moça mais loura que já andara por aquelas
terras. Pequena e de uma beleza estranha, a pele leitosa, o rosto
afogueado, os lábios como um coração sangrento. Uma trança
dourada descendo pelas costas, atraindo o olhar para o corpo
esguio, ela faria qualquer homem cair no pecado da luxúria.
A moça rondou a sombra do pai, olhando para a casa e
alisando o vestido muito asseado, curto demais nas pernas,
deixando à mostra suas botas masculinas. Parecia a roupa de
uma sereia, se sereias usassem roupas. Anna reparou nos seus
adornos, cuidadosamente deixados à mostra — uma garganti-
lha de renda preta em volta do pescoço, um bracelete prateado
dançando em seu pulso minúsculo. Ela era diferente de todas
as pessoas ali, e as atenções se voltavam a ela como uma força
de gravidade. Parecia levitar sobre as cabeças prosaicas daquela
gente como uma imperatriz em cima de uma liteira.

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Enfim o belo retrato de família que todos esperavam en-
contrar fora abalado pela sua presença. Pais puxavam suas crian-
ças para perto quando ela passava, a olhavam com julgamentos.
— Está na hora — a madrasta veio dizer na porta do quar-
to. — Faça o favor de não chegar atrasada, só para variar.
— Já vou — Anna respondeu com voz calma e firme.
Ao sair, percebeu que suas mãos tremiam. Tapou o rosto
por causa da luz. Viu o pai e o noivo na frente do altar, ensan-
guentados, as roupas retalhadas em muitos cortes e perfurações.
Fechou os olhos e abriu novamente para afastar aquela visão.
Depois de vencer o clarão, viu os convidados reunidos em
duas fileiras, formando um corredor para que ela passasse. Co-
meçou a contar. Demorou exatamente um minuto e treze segun-
dos para ter coragem de dar o primeiro passo. Alguém passou
correndo com uma jarra de água e respingou nela, encharcando
as costas de seu vestido. Como poderia ficar pior?
Então foi impulsionada pelas mãos de alguém. A voz can-
tada e aguda do pai soou em sua cabeça: você precisa mesmo de
um empurrão, não é, Anna?
Aquele que seria seu marido a aguardava na ponta do cor-
redor, metido num terno marrom-escuro, um chapéu largo na
cabeça e uma flor vermelha na lapela. Atrás dele, o pai de Anna
folheava a Bíblia, procurando as palavras certas para aquele mo-
mento. E o pastor Franz Schutz então falaria em nome de Deus
para declará-la mulher daquele homem.
Diante do altar, o irmãozinho trouxe as alianças. Seu noivo
tomou sua mão e enfiou o anel em seu dedo. Seu pai mastigou
alguns salmos, fazendo uma voz grandiloquente, e durante in-
termináveis minutos ele falou, falou e falou, até que Anna com-
preendeu que estava casada. Estava feito e era para sempre, do
mesmo jeito que se apunhala um coração desprevenido.

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Johannes, o noivo, se aproximou para beijá-la, mas Anna
desviou o rosto por reflexo. Os olhos dele ferveram, as mãos a
agarraram pela cintura e ele enfiou sua língua dentro da boca
dela, demarcando sua conquista. Os convidados aplaudiram e
assoviaram. Foi mais rápido que ela então: Anna o empurrou e
deu um tapa em seu rosto.
As vozes cessaram e Johannes permaneceu com a cabeça
inclinada, como se aquela reação o tivesse paralisado ou entor-
tado seu rosto. Anna se deu conta só um segundo depois de ter
feito, tarde demais para se arrepender. Manteve-se firme e se es-
forçou para não demonstrar medo ou arrependimento.
Johannes endireitou o rosto, ajeitou o cabelo com frieza e
sorriu sem olhar para os lados, o que fez Anna gelar. Ela jamais
tinha visto aquele homem sorrir. O rosto dele agora se averme-
lhava, não só do lado que ela estapeou, mas todo ele. Johannes
era um homem orgulhoso e acostumado a ter o que queria, e
homens assim não sabiam lidar com os olhares de uma plateia.
O pai de Anna se apressou em dar fim à cerimônia e todos
voltaram a tagarelar sobre seus assuntos. Aquela não seria a pri-
meira nem a última vez que algo escandaloso aconteceria em
um casamento. Mesmo assim, Anna desejou estar morta dali a
algumas horas. Não. Ela desejou que um grande incêndio apa-
gasse da História aquele lugar e aquelas pessoas.
O baile se iniciou com a Polonaise Aufzug e seguiu com
valsas e polcas. A comida foi servida e logo todos tinham se
esquecido dos problemas. Anna olhou para o outro lado da
mesa, atraída pelas risadas, e enxergou a loura magra na ponta,
cochichando com duas meninas da comunidade, germânicas
como todo mundo, sorridentes e vivazes, fazendo-lhes rir com
comentários ao pé do ouvido. Assim que Anna a avistou, sua
atenção se prendeu nela e não soltou mais. Desejou saber sobre

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tudo o que falavam. Desejou rir junto com elas, mas isso logo se
dissipou na enorme tristeza que engolia aquilo tudo.
Sob o olhar atento das outras duas, a loura tirou de dentro
do decote uma ampola de vidro e a despejou dentro de uma taça
de vinho. Uma das moças, a de vestido azul vulgar, mexeu o lí-
quido com o cabo de uma colher e levou a taça até um rapaz que
conversava num grupinho do outro lado do jardim. Trocaram
sorrisos e a moça voltou para a mesa.
Aquilo parecia uma simples travessura, alguma simpatia
que Anna teria feito na infância, se tivesse amigas. Mas talvez
aquele vidrinho não contivesse nada infantil.
Então aconteceu. A loura se virou e percebeu que Anna as
observava. Encarou-a por alguns segundos e sorriu. O estôma-
go de Anna se revirou num movimento involuntário e violento.
Sentiu-se impelida a levantar o rosto para as nuvens escuras que
se fechavam no céu e manteve os olhos ali por um longo tempo.
Mais tarde, todos se reuniram na frente da casa, onde um
fotógrafo vindo de São Leopoldo retrataria o momento. Anna
esperou de pé ao lado do marido até que todos se amontoassem
em volta deles e nenhum dos dois sorriu. Quando o fotógrafo
acendeu a pólvora do flash, um zunido tomou conta dos seus
ouvidos, sua visão escureceu e ela caiu sentada.
A madrasta veio lhe acudir e o pai lhe estendeu um copo
d’água. Então a chuva desabou e os convidados correram para
recolher as mesas.
Anna se deitou no quarto e não saiu mais de lá. Não disse
mais nenhuma palavra e não comeu mais nenhum pedaço de
carne, preparando-se para o inferno que acabara de adentrar.

***

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Quando a noite chegou, seu marido entrou no quarto sem olhar
em seus olhos. O quarto era dele e agora Anna era sua também.
Ela se sentou na cama com a camisola que ele lhe dera para
vestir. Johannes fechou a porta e desabotoou a camisa, seu chei-
ro de terra e suor impregnou todo o cômodo. Fez com que Anna
se deitasse e subiu a barra de sua camisola até os joelhos. Suas
mãos enormes e peludas separaram as pernas dela. Seus bigodes
negros, fartos e fedorentos roçaram seu pescoço.
Ele subiu em cima de Anna e seu corpo pesou sobre a bar-
riga dela. Anna sabia que não podia gritar. Sabia que, se gritasse,
ninguém viria lhe ajudar. Apenas virou o rosto para a parede,
para não encarar aqueles olhos assustadores. Segurou o grito
quando ele entrou. Deixou as lágrimas rolarem no travesseiro
até que elas não rolassem mais.
A luz do lampião projetou sombras disformes na parede,
como uma dança macabra no interior de uma primitiva caver-
na. Como se houvesse outras pessoas no quarto, mas não havia
ninguém. Um dia, talvez, Anna tomasse as rédeas de sua própria
vida, mas não seria naquela noite. Naquela noite ela estava sozi-
nha como sempre estivera até então.

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Pela manhã, enquanto esticava os lençóis sujos no varal do pátio,


Anna contava apenas com a companhia do vento para cumprir
sua primeira tarefa, a primeira ordem do marido. Era costume
o homem exibir a roupa de cama manchada pela mulher com
quem se casara, para que a vizinhança atestasse sua pureza.
Aquilo foi suficiente para fazer seu peito lacerar e teve de
se apoiar no fio do varal para não cair. A pior parte agora era
pensar que sua vida jamais seria a mesma, que algo se quebrara
definitivamente dentro dela.
Então, quase hipnotizada pelo som dos tecidos se debaten-
do, ela enxergou a moça loura do casamento. Vinha caminhan-
do pela estrada de chão crepitante, a observando com curiosa
atenção. Algum tipo de cumplicidade se passara entre elas na-
quele instante, mas o coração de Anna continuava sufocado.
Havia o peso de uma vigília ali.
Por algum motivo, lembrou-se do pesadelo da noite, em
que um estranho felino perseguia um cervo através do relvado.
Aquela moça era sua vizinha mais próxima, mesmo que as
casas ficassem a muitos metros de distância, e o pai dela era um

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tipo de açougueiro, que caçava animais silvestres para vender
nas redondezas. Pensar nisso lhe deixou arrepiada. Era tão bru-
to, tão feroz, que ela mal conseguia tirar da cabeça.
Tão envolvente e apavorante quanto uma serpente engo-
lindo um rato.
Então um dos cachorros veio até a frente do pátio e co-
meçou a rosnar. Nervosa, Anna deixou o cesto de roupa cair e
quase tropeçou nas galinhas ao correr para dentro.

Demorava a clarear e escurecia mais cedo naquele vale coberto


de sombras. O dia era curto e havia muito o que fazer. Anna lis-
tava as tarefas ao seu gato enquanto trabalhava, e logo se pegou
imaginando novas histórias com ogros e bruxas para espantar
aquela triste desolação.
Trouxeram o piano de sua antiga casa e instalaram na sala.
Seu pai achou que ajudaria a entretê-la, já que o tempo ali tam-
bém corria mais devagar. Mas houve apenas o peso das sólidas
madeiras recaindo sobre seus ombros e a lástima de que o pai
não tivesse lhe enviado no lugar os seus livros, uma das poucas
coisas que ainda lhe despertava interesse.
A casa nova era escura, apesar de espaçosa. Talvez tivesse
sido luxuosa algum dia, mas agora cheirava a poeira e madeira
velha, como tudo naquele lugar. O chão e as paredes rangiam a
todo o momento. Os poucos móveis deixavam a respiração ain-
da mais pesada. Principalmente quando ela olhava pela janela e
enxergava o morro coberto de mata escura, tão rente à casa, ele-
vando-se no meio de uma grande extensão de paisagens áridas.
Uma muralha mantendo a todos confinados.
Logo compreendeu que ali os homens eram covardes, en-
quanto as mulheres, em sua maioria, eram obedientes. As pes-

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soas racionavam tudo, inclusive palavras, falando apenas quan-
do não havia alternativa. Comunicavam-se com olhares, gestos
de cabeça e pela forma como entortavam a boca sem abri-la. Era
desolador presenciar aquilo todos os dias, a sensação de estar
gritando dentro de um porão fechado. Um mundo de roupas
sóbrias, vegetação sem vida e construções austeras.
Muitas vezes, enquanto relia seu romance preferido de Go-
ethe, Anna sonhava em se casar com um jovem apaixonado que
lhe desse dois lindos filhos e a levasse para viver em uma casinha
simples na cidade, onde escutasse os cascos dos cavalos nas ruas
de pedra. Nada poderia estar mais distante agora.
Então usava o tempo livre para escrever. Era seu único sus-
piro agora, já que não tinha quase nenhuma leitura à disposição.
Mas também podia pressentir o que seu pai lhe diria: você
vive no mundo da imaginação, Anna Schutz, já está na hora de
amadurecer. Conquanto escrever era a única maneira de usar as
palavras naquela imensidão silenciosa.
Depois do almoço ela se sentou à escrivaninha, ajeitou um
maço de papeis e afagou as orelhas de Werther, o gato.
— Inteligente é você, meu amigo, que passa o dia dormin-
do em volta do fogo. Há mais liberdade dentro de nossas cabe-
ças do que num campo arado por homens.
Werther ergueu a cauda e ronronou diante do tinteiro.
Anna terminava de escrever o capítulo final de um roman-
ce, o qual chamaria Der Wald. A Floresta. Era a história de dois
jovens apaixonados cujos pais não consentiam que se casassem,
e que por isso decidem fugir através de uma floresta amaldiçoa-
da, onde enfrentarão perigos inimagináveis para ficarem juntos.
Os dois morrem no final, obviamente, consumando pela eterni-
dade o seu amor.
Fez anotações no seu diário:

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Quando o livro estiver pronto, o enviarei a um jornal da ca-
pital da província que publica folhetins. Talvez eles o divulguem,
sob o pseudônimo de Wolfgang Schiller, homenagem aos meus au-
tores preferidos. Ora, talvez seja bem recebido pelos leitores cultos,
desde que não saibam que fora escrito por uma moça.
Sim, era bom sonhar. Viver outra vida por breves minutos.
Aliviar-se da realidade. Mas não era prudente.
Você sabe disso, Anna, não é prudente.

Ao entardecer, o marido chegou em casa com uma ovelha mor-


ta sobre os ombros. Estava animado, pois vários animais foram
atacados perto do bosque e seus proprietários estavam se livran-
do deles por um preço baixo.
Anna ficou admirada com aquela história.
— Atacados? Pelo quê?
Johannes a fitou com seus olhos pequenos e muito azuis.
Comprimiu todas as linhas desproporcionais do rosto, prestes
a sorrir. Finalmente a esposa havia quebrado seu silêncio. Ele
tocou o rosto dela com os dedos sujos de sangue e, quando se
deu por conta, limpou-o com a manga da camisa. Anna virou
o rosto e se afastou. Mesmo assim Johannes parecia satisfeito,
talvez pensando que ela começaria a desabrochar, que em breve
estaria dócil como aquele animalzinho morto.
— Lembra o que eu te disse quando a vi pela primeira vez?
Sim, Anna se lembrava. Ele disse que a buscaria em sua
casa quando ela fizesse dezoito anos e a poria diante de um altar.
Também lhe disse que nenhum outro homem aceitaria se casar
com um bicho arredio feito ela, e que ela fosse grata à generosi-
dade dele. Johannes tinha um jeito bruto, mas era sagaz. Tinha
aqueles olhos que, justamente por serem bonitos, a deixavam

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com tanto medo.
Ele pôs a ovelha sobre a mesa e, com um facão, abriu sua
barriga. Tirou as vísceras e as guardou num saco, para usar mais
tarde. Esfolou o bicho até ficar só um amontoado de carne. Lim-
pou a testa, olhando para o teto de forma reflexiva.
— Meu pai foi encontrado morto na mata, com o sangue
extraído do corpo — Johannes murmurou. Suas palavras eram
entrecortadas pelo mugido das vacas atrás da casa. — Disseram
que um animal chupou o seu sangue. Lembrei-me disso agora,
olhando para o estado dessa mesa.
O cheiro de sangue cobriu o ar, mas Anna não ficou en-
joada. Buscou o retrato em cima da lareira com os olhos, onde
posava o falecido Friedrich Klein e seus dois filhos — Johannes
e Mathias. Não teve nenhum sentimento por eles.
Lembrou-se de quando era pequena e seu pai abatia ani-
mais, e ela corria para o quarto repugnada. Durante anos ten-
tou não colocar aquela carne impura na boca, embora a fome
sempre sussurrasse em seus ouvidos e acabasse por vencer sua
teimosia. Agora havia até um fascínio em ver a pele se despren-
dendo do corpo e tingindo tudo de vermelho.
Com o rosto salpicado de sangue, Johannes contou sobre
as feras que apareciam por aquelas matas de vez em quando. Ca-
chorros selvagens e até um leão-baio, que os nativos chamavam
de suçuarana. No ano passado, um homem havia sido morto
por um desses bichos e, durante várias semanas, as pessoas dei-
xaram de sair de casa.
— Você está me contando isso pois não quer que eu saia —
Anna protestou.
— Deixe de bobagens.
Seu rosto ficou amarelo, pois subitamente aquele trabalho
o enojara. Ordenou que ela terminasse e secou as mãos num

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pano encardido. Depois saiu para fumar na varanda.
Anna jogou-se na cadeira, percebendo o quão selvagem e
desamparado era aquele lugar.

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