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A EDUCAÇÃO CLÁSSICA, LIBERAL E CATÓLICA – Prof. Clístenes Hafner.

É um prazer falar de assuntos que nos são tão caros, e tema de hoje é educação,
não qualquer educação, mas a educação de sempre, clássica, liberal e a
educação católica, que são a mesma coisa. “Ai, meu Deus! Educação liberal
não!”. Sim! Nós veremos por que a educação pode se chamar clássica, liberal e
católica, e que os antigos chamavam simplesmente de Educação.
Hoje em dia, nós dizemos quando alguém aprende um ofício, que aquilo faz parte
da educação dela; o sujeito vai ser engenheiro, aquilo é parte da educação
superior dele, o sujeito vai ser artesão e está sendo educado para sê-lo. Nada
disso é educação para os antigos – entenda-se gregos, romanos e medievais,
em certa medida. Isso tudo são aprendizados, com isso nós aprendemos novas
habilidades, mas mesmo um pintor como o Leonardo da Vinci é um sujeito que
não foi educado, resolvendo aprender latim já depois de velho, mas a princípio
ele era um artesão, não um sujeito educado, ele trabalhava com algo cujo fruto
era exterior a ele mesmo. Um sujeito que faz uma mesa não precisa de
educação, segundo a terminologia antiga, ele precisa de adestramento. Isso o
diminui de dignidade? Não! De forma alguma, só que educação era educação
do próprio espírito, ela aquela pessoa que se dedicava ao ócio e não ao negócio;
se dedicar ao ócio não é deitar na rede, bater papo furado, tomar chimarrão, nem
nada disso, se dedicar ao ócio é trabalhar para dentro e isso vem de educação.
Educação vem do vocábulo latino ex ducere, que significa conduzir, isto é, dux
é um condutor, um guia – na Itália, Mussolini era chamado de II duce, o que na
Alemanha se diz Führer -, que conduz para fora, e para isso é preciso ter alguma
coisa dentro que seja conduzida para fora, e a formação disso que está dentro é
o que nós fazemos em educação no sentido mais estrito da palavra.
A Grécia que existe hoje compreende aquilo que nós poderíamos chamar de
centro da cultura grega antiga, mas a cultura grega se espalha por todo o
Mediterrâneo e Mar Negro, se nós formos na Ucrânia ou na Bulgária, na
Romênia e em toda a costa do Mar Negro, ali ainda há aquelas ruínas de templos
gregos, conseguimos encontrar vestígios de cultura grega, assim como no norte
da África inteiro, na Espanha, nós encontramos cultura grega, aqueles templos
com colunas, que são uma coisa bem típica da Grécia Antiga. Por acaso, Lisboa
recebe esse nome de olisipo, a palavra foi se corrompendo até chegar em
Lisboa, que é uma outra força de dizermos Odisseu, já que em Latim nós
dizemos Ulisses, que era uma cidade fora das colunas de Hércules, ou seja,
dentro do Oceano Atlântico; Ulisses saiu navegando, chegou ali naquele lugar e
fundou uma cidade, que é Lisboa. Tudo na Europa, inclusive coisas pouco
prováveis como a costa do Atlântico, precisa ter uma ligação com a Grécia, e
essa ligação na maioria das vezes não é histórica mas mitológica, como nesse
caso de Lisboa, que nós não temos nenhuma ruína grega, não achamos nenhum
vaso grego, nenhum artefato arqueológico, nem mesmo relatos de que algum
dia algum grego tenha estado em Lisboa, mas tudo precisa ter uma relação com
a Grécia, e mais precisamente com uma guerra que foi travada entre os gregos
(que são europeus) e os troianos que (são asiáticos, pois Tróia fica onde hoje é
a Turquia).
Se os gregos em europeus, por que existe essa palavra Europa? Europa era
uma menina fenícia, ou seja, ela era de uma raça semitas, como por exemplo os
árabes, judeus e algumas etnias dos babilônicos; Abraão era um semita porque
saiu da Babilônia, nasceu na cidade de Ur, e foi chamado por Deus para sair dali
e se deslocar para uma terra que Ele havia guardado. Os fenícios também são
semitas, e eis que uma menina semita estava na costa da Fenícia – que nunca
existiu de forma concreta, já que ainda não sabemos ao certo onde se localizava
-, brincando com seu povo de navegantes, quando o deus Júpiter (Zeus, para os
gregos) a admira, acha ela muito bonita, resolvendo se transformar em touro,
descer do Olimpo e ir brincar com a menina; ao transformar-se em um touro
branco enorme, Zeus assusta todas as meninas que brincavam, menos a
Europa, que com coragem se aproxima e dá um pouco de capim para o touro
comer. Em um golpe súbito, o touro captura a menina e adentra o mar com ela
em suas costas, fazendo com que as outras meninas ficassem espantadas,
levando Europa para a Ilha de Creta, na Grécia (que existe até hoje). A partir de
então, todo o território acima de onde Zeus deixa Europa viver e crescer ganha
o nome da menina, passando a se chamar Europa. Nós usamos esse nome até
hoje, que surgiu de uma história que alguém inventou de cabeça, pode ter tido
algum fundo de verdade, pode até ter existido uma menina chamada Europa,
mas é muito improvável que ela tenha sido raptada por um deus que desceu do
Olimpo e se metamorfoseou em touro, mas se não fosse por essa história nós
teríamos perdido para sempre a justificativa de por que a Europa tem esse nome
e por que Lisboa se chama Lisboa.
E não é só isso, tudo tem que ver com essas histórias, a nossa cultura inteira é
baseada em histórias da carochinha como essas, que precisam ser conhecidas
e mantidas dentro da nossa memória, se não as coisas param de fazer sentido.
“Ah, mas como foi realmente na História?”, pergunte a um historiador, ele não
sabe, porque não há História antes da escrita, e mesmo quando se começa a se
escrever as coisas, não era uma ata, um diário oficial que era redigido, eram
histórias como essas. Nós estamos nos esquecendo das histórias, o ser-humano
cria estas histórias e precisa ensiná-las aos seus filhos, aí nasce o princípio que
nós chamamos de educação e que os gregos chamavam de paideia, que vem
de paidos que significa criança, ou seja, um paidagogos é um dux infantium, em
grego nós dizemos gogos, que é o indivíduo que conduz a criança no caminho
para a escola, ele não é um professor, mas alguém que acompanha a criança
para que ela não ande sozinha, o professor é didáskalos, mas um paidagogos é
o sujeito que anda de mão dada, ajudando a criança a carregar o seu material
para ir à escola, para encontrar-se com seu professor, quase sempre um escravo
que conduz a criança de perto.
Obviamente, as palavras acabam por sofrer ações, as línguas mudam e nós
pegamos palavras de outras línguas e isso tudo contribui para a mudança. A
palavra que representava uma pessoa que ama muito as crianças, como é um
caso de um professor ou de um pai e uma mãe, alguém dedicado à infância, em
grego se dizia paidofilos, ou seja, que ama as crianças, o que é diferente de um
pederasta, que é aquilo que nós conhecemos hoje como pedófilo.
As palavras mudam, paciência; mas, para que elas não mudem demais e para
que nós não nos escandalizemos quando lemos em um texto antigo a palavra
pedófilo, nós temos que conhecer as histórias e as origens das palavras, e nós
não conhecemos a origem das palavras consultando dicionários – que quase
não tem nada a nos dizer sobre isso -, nós precisamos conhecer as histórias.
Passando de geração para geração, algumas foram registradas de forma escrita,
mas quando aconteceu a história da Europa, ou a guerra de Tróia (troianos
asiáticos lutando contra gregos europeus), ainda não existia escrita na Grécia, e
começaram a contar a história dessa guerra, alterando, dando maior importância
a um guerreiro do que para outro, um soldado do que para outro, criando
diversas versões para as justificativas da guerra, os séculos foram se passando
até chegar em um momento em que aquilo é escrito, já que antes não existia
nem ao menos alfabeto. A lógica inicial era que a escrita faria com que a história
não se alterasse tanto, já que teriam documentos escritos que se copiariam,
apesar disso, as mudanças foram ocorrendo, atenienses que copiavam o texto
inseriam a participação de Atenas na guerra – apesar da cidade ainda nem
existir. A história é assim, a Literatura tem essa liberdade, não nos revoltemos,
portanto, ao ver que um filme não retrata tão fielmente um livro, já que pessoas
diferentes tendem a retratar as coisas de maneiras também diferentes. A
Literatura serve justamente para contar a mesma história de várias formas
diferentes. Um clássico exemplo é a Capitu, de Machado de Assis, em que lemos
a história dela e no final não fica explícito se a moça traiu Bentinho ou não, mas
nós podemos contar a história dela traindo muito descaradamente ou sendo
muito fiel e casta, porque é justamente para isso que serve a Literatura. Ela
poderia ter traído? Sim. Ela poderia não ter traído? Sim, também. As duas coisas
são possíveis, porque a Literatura não lida com as coisas como elas são, mas
sim como elas poderiam ter sido ou poderiam ser.
Os gregos escreveram muitos textos, mas haviam alguns que eram melhores e
mais bem escritos do que os outros, e no caso deixaram dois textos bem escritos
que existiam em milhares de cópias, e eram aqueles que todas as crianças
tinham de ler, já que eram os mais importantes. Não existia nada além disso?
Claro que existia; sempre existiram muitas histórias, o gênio humano é capaz de
criar muita coisa, mas aqueles textos eram excelentes, os melhores, os mais
bem escritos, os mais emocionantes, os que mais elementos haviam para formar
a imaginação das pessoas e suscitar muita alegria, com muitos exemplos morais
nos heróis, um era corajoso, outro inteligente, sábio, alguns negativos,
orgulhoso, outro belo, o que gerava imensas discussões em cima das histórias.
Não era preciso fofocar de ninguém, nem falar de ninguém em específico, havia
ali os exemplos das histórias, que não se importariam se falasse bem ou mal
deles. Só nisso já havia um material suficiente para se formar e refletir acerca da
própria vida.
Os gregos espalhavam a fama de Homero de geração em geração. A primeira
vez que eu ouvi falar de Homero, vi sua obra “Ilíada” e encontrei que tratava-se
de uma obra que se passava na terra de Tróia, também chamada de Ílion e o
outro era “Odisséia”, que tratava das aventuras de Odisseu, um herói que voltou
para casa e demorou dez anos até conseguir chegar. Esses textos, passam a
ser o que depois em Roma seria chamado de clássicos, os textos mais
importantes lidos por todos e com os quais nós também ensinamos as crianças
a ler, inclusive, ensinar as crianças a ler acontecia somente para que elas
pudessem ler tais textos, valia muito a pena lê-los; se alguém vai ser culto, quer
cultivar a sua própria alma, é preciso conhecer todas as virtudes que estão ali
expostas naqueles personagens, é preciso ler a Ilíada e a Odisséia.
Os gregos entenderam que as crianças precisavam aprender a ler, não para
fazer uma ficha ou preencher uma lista de compras, mas para ler Homero. Ler e
escrever muitos já sabiam nesse período, inclusive os escravos e os baixos
funcionários, pois eram responsáveis por muitas coisas. Para um rico, ele não
era obrigado a saber quanto de óleo ele tinha no estoque, como calcular a área
de seu terreno, deixando essas tarefas aos escravos. Por que alguém sendo
nobre, rico, forte, precisa saber escrever para ler a Ilíada e a Odisséia? Por que
alguém rico e forte precisa saber coisas que só os escravos sabiam, como
calcular a área de um quadrado? Por algum motivo – que deve ser divino -, eu
sinto um deleite em saber a área de um quadrado, pelo simples desejo de saber.
Aristóteles na sua “Metafísica” diz que todo homem naturalmente quer saber, e
as pessoas realmente queriam saber essas coisas, ainda que elas não tivessem
nenhum fim prático.
A Educação começa assim. Por que é importante saber calcular a área de um
quadrado? Porque é assim que eu sou ser-humano, eu sou feliz por saber a área
do quadrado, ainda que eu não vá construir uma pirâmide, nem fazer uma mesa
ou ter qualquer fruto da atividade fora de mim, eu construo o quadrado dentro da
minha própria alma e isso me traz uma felicidade. Por que eu preciso saber
dividir trezentos por cinquenta? E trezentos e dois por cinquenta? Porque é
satisfatório ao ser-humano, mesmo sem construir nenhum edifício com esse
conhecimento, só o fato de conseguir fazer o cálculo já foi bom. Por que tu queres
saber ler? Não foi para redigir documentos com a maior qualidade e exatidão
possível, nem para que os contratos humanos fossem bem travados, mas pura
e simplesmente porque um sujeito escreveu assim:

Que, da Ocidental praia Lusitana,


Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
Alguém poderia dizer que mora em um lugar super remoto de Portugal, e teve
um sujeito que resolveu contar a história desses homens que saíram em um
lenho leve, acometendo salso argento, mas como eu não sei o significado dessas
palavras eu preciso aprender a ler. O que parece salso? Parece salsa. O que
parece salsa? Salada. O que parece argento? Argentina. Qual o principal rio de
Buenos Aires? O Rio da Prata. Assim descobrimos que salso argento é um mar
prateado, por exemplo. Mas é muito mais bonito dizer “acometendo salso
argento em um lenho leve” do que “adentrando o mar em um barquinho”. E isso
é algo que se faz porque vai ter uma boa profissão? Por que vou ganhar
dinheiro? Por que é legal saber o que significa um salso argento? Por que é legal
saber ler? Por quê? É o mesmo motivo que, em grande escala, que é bom
escutar uma música. Não escutamos uma música para ganhar mais dinheiro,
nem para saber fazer algo mais específico, mas simplesmente porque é bom,
aquilo dá um deleite. Existe um deleite da música que é físico, aquilo mexe com
meu corpo, sentimentos e emoções e o deleite do esforço por entender as
coisas, que é mais elevado, acontece na mente e é difícil, assim como muitas
outras coisas. Por exemplo, saber o significado de salso argento é duro,
precisará de dicionários, bem como desenvolver equações matemáticas. As
raízes são amargas, mas os frutos são doces. É para saber ler “Os Lusíadas”
que existe a Educação (que será melhor definida posteriormente).
Na Grécia, diante dos textos clássicos, a Íliada e a Odisséia, iria se ensinar as
crianças a ler esses textos porque é bom, porque ela cresce em virtude, mas ela
não cresce por um simples falar de que é errado fazer. Moisés, apesar de ter
escrito os dez mandamentos, precisou escrever muitas outras coisas para
convencer os outros de que aquilo valia a pena, por exemplo, e para isso as
pessoas tiveram de aprender a ler, é este um dos motivos pelos quais Israel era
um dos lugares em que havia mais pessoas alfabetizadas dentro do povo
hebreu; era importante saber ler, saber ler e memorizar as genealogias, todo o
Gênesis, a história de José. Não bastava dizer: “Adore a Deus sobre todas as
coisas. Guarde os dias santos. Não matar. Não roubar”, era, por assim dizer,
apenas um tratado de Teologia Moral. Não existiria nem a possibilidade de existir
a palavra “virtude” se não houvesse a Literatura, porque nós começamos a usar
palavras como essas quando nós ouvimos histórias assim, de deuses que se
metamorfoseiam em touros, deuses que dão flechadas e fazem com que as
pessoas se apaixonem. Se nós não tivermos isso, não temos nem palavras além
de “mesa”, “livro”, “homem”, “mulher”, que são coisas que nós conseguimos
apontar e dizer, mas isso até o seu cachorro aprende, mas a palavra “virtude”
não pode ser apontada.
Sócrates estava inserido em uma sociedade que já sabia todas essas histórias
de cor, as histórias de Júpiter, de Vênus, Afrodite, Era, Hércules, etc., e ele diz
que existia certas coisas nos personagens que são boas e más, alguns são mais
virtuosos e outros em que lhes falta virtude, alguns mais sábios e prudentes do
que outros. Eram aplicados muitos exemplos. O que é prudência? Ser sábio
como Nestor. O que é fortaleza? Ser como Pátroco, amigo de Aquiles. O que é
a luxúria? É ser como Pares. Só porque eu tenho esses exemplos, eu consigo
criar palavras para descrever esses personagens, palavras diferentes para
descrever a cada um desses personagens específicos. Sócrates pergunta ao
jovem Ménon acerca do que é a virtude. O Ménon diz que a virtude é a justiça.
Sócrates volta a perguntar, dessa vez se uma forma geométrica era um triângulo
ou o triângulo é só um tipo de geométrica, assim como a justiça é só um tipo de
virtude. O jovem concorda na razoabilidade daquilo que diz o seu mestre. Sendo
assim, Sócrates surge em um momento em que todos conheciam a Ilíada e a
Odisséia quase de cor, conheciam todos os personagens, só aí ele pôde fazer
Filosofia, ciência, não precisava mais ficar apenas contando histórias da
carochinha. A maioria dos cursos universitários sustenta que o logos superou o
mythos, referindo-se a este último como ignorância, mas o próprio Platão – que
escreveu os diálogos com Sócrates – cita Homero em vários momentos.
Em seu diálogo “Hípias”, há o questionamento acerca da mentira. Odisseu era
um homem mentiroso ou astuto? O herói entra na caverna de Polifemo (ciclope
gigante), que vivia só, para procurar alimentos e outros mantimentos que
pudessem auxiliar em sua viagem, mas é trancado pelo gigante, que se alimenta
de seus companheiros de viagem; Odisseu tem o plano de oferecer vinho ao
gigante a fim de agradá-lo, e por isso é agraciado com a promessa de ser o
último a morrer mastigado. O gigante pergunta a Odisseu o seu nome, este
responde que o seu nome é Ninguém. O herói e seus soldados conseguem furar
o olho do ciclope com um tronco, deixando-o cego, mas inventam a história de
que o ciclope fora ferido pelos deuses, fazendo com que ele acreditasse na
história. Os ciclopes eram extremamente lógicos e acreditaram no raciocínio, se
ninguém havia o ferido, teria sido um deus. O ciclope gigante, portanto, tenta
libertar as suas ovelhas (que também eram gigantes) da caverna, e os homens
de Odisseu são libertos escondidos nelas. Esse é apenas um exemplo que evoca
um raciocínio: Odisseu mentiu ou foi astuto? Se não fosse Homero, quem
garante que haveria um exemplo universal que fosse conhecido pelas pessoas
para exemplificar isso?
Para que Platão conseguisse falar sobre as coisas, fazer a sua filosofia, o mais
elevado pensamento, a ciência – que hoje é tão gabada, mas que é
imensamente facilitada pela existência de línguas com vocabulários enormes -,
foi necessária a existência do mito. É muito fácil hoje existir a Psicologia, a
psicanálise, já que sabemos o que é angústia, medo, verdade, mentira,
consciência, inconsciência, mas todas essas palavras surgem de uma história.
O que é mentira? Aquilo que Odisseu fez com o ciclope, se não como seria
apontar a mentira? Por causa disso é possível surgir um pensamento mais
elevado. Por que o homem quer saber e definir o que é a mentira, verdade,
astúcia, coragem, prudência? Porque sim, é da natureza do homem. Há uma
questão de vocação como qualquer outra, tem gente que se sente mais
vocacionado a mudar as realidades materiais, então o sujeito acaba construindo
mesas, sapatos, roupas e coisas do gênero da forma mais bela possível, assim
como há uma vocação que quer mudar o próprio interior, e isso se faz ao saber
e conhecer as coisas. Pela própria natureza o homem quer saber. De onde vem
isso? Só pode ser divino, não tem outra forma, afinal, Deus criou todos os
animais, mas Adão ele fez e soprou dentro dele, nesse sopro vieram muitas
coisas difíceis de entender; Aristóteles percebeu, mesmo sem conhecer a
Revelação, sem ter lido os livros de Moisés, e diz que o homem tende
naturalmente ao desejo de saber, e o saber por si só já e algo impressionante,
digno de gozo e satisfação.
Nós começamos a ensinar essas coisas, ensinar as pessoas a ler, a ler Homero,
depois Platão, Aristóteles, “Os Elementos” de Euclides (que é uma obra
empolgante sob certo aspecto), onde ele diz que um ponto é tudo aquilo que não
tem comprimento nem largura, bem como que uma linha é a menor distância
entre dois pontos, por exemplo. Esse conhecimento não é óbvio. O que é um
ponto? Vamos a um exemplo: Joãozinho é o pior aluno da sala, mas pensa ter
superado Euclides ao conseguir medir um ponto feito pela professora em um
quadro, utilizando-se de uma régua. A mais errada nessa história é a professora
que fez o desenho no quadro, porque aquilo não é um ponto, mas uma
representação material de algo exterior a própria pessoa. Alguém pode até
chamar aquilo de ponto, mas a palavra não fora criada para descrever um
simples risco no quadro, uma pintura ou qualquer coisa do gênero. A palavra
“ponto”, na verdade, designa algo que não tem comprimento nem largura,
como por exemplo o centro exato de uma sala, que só pode ser conhecido por
aproximação – assim como todos os pontos materiais -, já que é impossível
precisar exatamente o que são as coisas materiais, o que é exato mesmo é o
espírito e a geometria de Euclides. A linha é a menor distância entre dois pontos,
e é formada por um conjunto infinito de pontos, apesar de ser uma linha finita
formada pelo ponto AB, esta, porém, é impossível de ser contada a não ser que
seja infielmente representada em material.
A Educação não trata das coisas materiais, não faz com que eu saiba desenhar
linhas perfeitas, apesar de ser bom saber, pois isso ajuda a entender o imaterial,
por meio das analogias. Esse é o princípio básico da Educação: a analogia.
Aquela história do touro que raptou a Europa, ou então de Ulisses que fundou
uma cidade em seu nome, não foi o que realmente aconteceu, mas foi como se
fosse, foi semelhante, parecido. Hoje a gente sempre diz “tipo”, isso acontece
quando há uma degradação na nossa linguagem e a gente precisa de analogias
para coisas simples, até o ponto em que nós só teremos uma palavra para dizer
“mesa” e nenhuma para dizer “cadeira”, e aí teremos de dizer “tipo mesa só que
diferente”. Isso acontece! Ainda que Platão fosse esse gênio, caso ele só tivesse
contato com pessoas com essa linguagem degradada, só lesse livros simples e
infantis, seria morta ali a sua inteligência. Outro pode dizer que estuda apenas
porque as matérias caem no vestibular, mas para quê você tem que fazer o
vestibular? Para ter uma profissão, alguém responderia. Mas para quê? Para
ganhar dinheiro. E para quê o dinheiro?
Concluímos, que a única resposta possível é porque sim. Por que nós temos de
ler Camões, “A Divina Comédia”, a “Odisséia”, a “Eneida”? Porque sim. Porque
tem uma coisa dentro de mim que faz com que eu seja eu mesmo, porque eu
sou um animal racional; ninguém nega que o ser-humano é um animal, com a
exceção de que ele é racional, uma diferente específica, como nos ensina
Aristóteles. Em um gênero próximo, o homem é tipo um macaco, é um animal
como qualquer outro, mas com uma diferença própria que o define; para definir
algo, é preciso um gênero próximo (animal), e qual é a diferença de um porco
para um homem? Este é racional. Antes de Aristóteles, já havia outras definições
para o que é um homem, como alguém que o definiu como um bípede sem
penas, até que alguém pegou uma galinha, depenou-a e disse: “Eis o homem!”.
As palavras não surgem assim, como se as pessoas pudessem combinar não
falar mais a Língua Portuguesa. Na verdade, ao olhar para o mundo,
percebemos e damos nomes individuais a pássaros, cachorros e gatos, mas
também percebemos que eles são unidos por um aspecto comum,
diferenciando-os de uma árvore, por exemplo. O que o pássaro, o gato e o
cachorro têm em comum? Eles se movem, diferente das árvores – que se
movem apenas no mesmo lugar, crescendo - e das pedras – que apenas se
decompõem, não mudam. Os que se movem são chamados de animais. Existe,
portanto, uma hierarquia entre os minerais, os vegetais e os animais, sendo
necessária a criação de palavras específicas que designem cada um deles. Você
não consegue enxergar o que é um “animal” no abstrato, mas vê animais
específicos, apesar de ter uma palavra para falar do todo. Um animal é algo
invisível, imperceptível aos sentidos externos, mas algo que se cria
interiormente, como um ponto. Ao dizermos: “Nós temos um ponto de encontro”,
não nos referimos a algo que não tem largura nem comprimento, mas fazemos
uma analogia, já que na realidade só existem analogias das coisas que são
perfeitas: linhas e pontos, por exemplo.
É disso que se trata a Educação para o homem antigo, e também disso que fora
cunhada a própria palavra “educação”, por analogia, pois nós sabemos o que é
ducere, que significa conduzir (um boi, por exemplo) e ex ducere, que é como se
pegássemos um boi e o conduzíssemos para fora do curral, puxando-lhe de
dentro do lugar; tirar alguém de dentro é ex ducere, e aí vem Platão dizendo que
a educação é como se houvesse pessoas dentro de uma caverna (semelhante
a que estava Polifemo ou a que foi morto nosso Senhor), e no momento em que
eles saem, tudo muda. Platão diz que dentro da caverna os homens só veem a
luz de fora, que reflete no fundo da caverna, e acham que aquilo é a realidade;
um deles resolve sair, sofre, porque não estava acostumado a ver a luz. Alguém
que deseja aprender inglês, ao começar os seus estudos não entenderá nada
se tentar assistir a um filme nessa língua. A dor intelectual é como a dor dos
animais: nós lembramos apenas da dor física. Se apanhamos de alguém, não
nos metemos mais com o sujeito, igualmente, se nos queimamos, não
colocamos mais a mão em coisas quentes, assim como se tomamos choque não
colocamos a mão no fio. A dor que temos para aprender inglês é facilmente
esquecida, como um cachorro que apanha e depois corre feliz ao encontro do
seu dono; a nossa memória para a dor intelectual é muito semelhante, ao chegar
no fim, os frutos são tão doces que não nos lembramos das dores de outrora,
não nos lembramos das duas horas gastas todos os dias no aprendizado do
Inglês, aprendendo preposições, verbos, substantivos etc. Ao me esquecer, volto
para dentro da caverna, nunca se arrependendo das dores, mas sempre as
mantendo na nossa memória. Platão diz que se o sujeito tenta voltar para dentro
da caverna a fim de mostrar que não é aquilo, os que estão dentro irão crucificá-
lo. Como Platão sabia dessas coisas? Porque as coisas são assim.
O mais interessante, é que dentre as histórias que todos – inclusive Platão –
contavam, tinham muitas histórias incríveis, como aquela que conta que deus
veio por Júpiter, desceu do Olimpo, ou de seu trono (que é o próprio planeta
Júpiter, pois para os gregos era estrela mais brilhante, e portanto, o trono do
mais potente dos deuses), rapta uma menina e termina por fundar uma nova
raça de pessoas chamadas de europeus, que são descendentes da Europa;
outra história conta que um deus coabitou com uma deusa metamorfoseada em
um cisne, dando origem à mulher mais bela do mundo, Helena, que será
posteriormente a causa da Guerra de Tróia. Isso era comum aos deuses, Afrodite
e outros deuses também têm os seus filhos, em uma relação constante entre os
deuses e os homens.
Quando Paulo de Tarso chega a Grécia para ensinar o Evangelho, muitos
pensaram ser apenas mais uma das inúmeras histórias, porque realmente
parece ser apenas uma história, a concepção, o nascimento, a paixão, a vida, a
morte a ressureição de nosso Senhor parece uma história como qualquer outra,
tem o mesmo enredo, com exceção dos versos bonitos e elegantes. Por que ela
não foi escrita em versos heroicos, em poesia como os versos de Homero?
Porque é verdade. É exatamente uma história como todas as outras, só que ela
aconteceu. Em princípio, os gregos acharam que era mais uma analogia, mas
Paulo esclareceu que era parte verdadeira da História, estava nos registros do
Império Romano, o Cristo realmente havia morrido, a mãe dele estava viva e
poderia ir até lá e confirmar a veracidade dos relatos, havia acontecido de
verdade. Quem são os primeiros cristãos de todos os tempos? Principalmente
os gregos; todos os Evangelhos foram escritos na língua deles, não foram
escritos nem na língua em que falava o Cristo, mas na língua comum que era
das pessoas letradas, portanto, o Cristianismo primeiro se propaga nas
comunidades mais cultas, de gente letrada, gente que conhecia Homero, Platão
e milhares de outras escolas filosóficas. Só depois disso foi possível escrever,
surgiram os primeiros apologetas que defendiam a fé das heresias, os primeiros
pregadores, a pregação do Evangelho a todas as pessoas.
As pessoas precisavam de Educação, precisavam saber ler. Um dos motivos
eram justamente as histórias inventadas, sem as quais não teríamos nada do
desenvolvimento intelectual, já que tudo nasce desse tipo de poesia, de história
da carochinha, sem a qual não teria ciência ou desenvolvimento algum. Nós
precisamos dessas histórias! Depois, os gregos conheceram a história do
Evangelho, que a princípio parecia ser apenas mais uma das outras, mas com a
diferença de ter acontecido de fato. Os que duvidavam foram interpelados pelos
milagres que começaram a acontecer no meio do povo. Foi apresentado o corpo
do próprio Cristo vivo, por meio da Santa Eucaristia, que fazia com que os
cristãos tivessem a força para serem comidos por leões e ainda assim
permanecerem inabaláveis. Se a história contada por Paulo realmente
aconteceu, o Cristo retratado é eterno e imutável.
É perene o contar a história através do mito, a gente sempre o conta e nunca o
esquece. A história que eu contei da Europa e do touro, do Odisseu, por
exemplo, são tão bons que nunca paramos de contá-las. Aquele mito que
aconteceu de verdade, que é a história de nosso Senhor – que parece um mito,
mas não é -, não é que não deixa de ser contada, mas nunca deixa de acontecer
na realidade.
Os heróis da Ilíada buscavam a imortalidade, porque eles eram mortais; existiam
os deuses e os mortais. Agamênon, Ulisses e outros estavam na guerra
justamente para terem a oportunidade de serem heroicos e fazerem coisas
virtuosas para que eles fossem lembrados para sempre. Essa é a forma como
nós, humanos, tentamos ser imortais, não é à toa que nós chamamos os
membros da Academia Brasileira de Letras de “imortais”. Quando os
personagens são imortais, é porque eles continuam vivendo na imaginação, na
boca, nas palavras das pessoas; existe uma palavra que faz com que ele não
desapareça, já quando a pessoa não fez nada, a vida desparece, pois ninguém
mais lembra do nome daquela pessoa. Uma das primeiras perguntas de Polifemo
a Ulisses é: “Qual é o seu nome?”, justamente para fazer com que ele se
imortalizasse um pouco mais, pois ser conhecido é o que nos faz imortais. A
imortalidade depende muito da deusa Fama, que é uma deusa que vai ao ouvido
de todos falar o nome de algumas pessoas. Para explicar o que é a palavra
“fama” é preciso criar uma história, pois sem ela não existiria a palavra. Sabe
aquela sua vizinha que é a maior fofoqueira da rua? Multiplique ela à décima
potência, porque ela é divina, tem mais habilidade e consegue estar em vários
lugares ao mesmo tempo: eis da deusa Fame. Apesar de em algum momento
esquecermos a origem das palavras, continuamos a utilizá-la, e isso só foi
possível porque ela é um nome de uma deusa, uma pessoa, um personagem,
que dá a imortalidade às pessoas. Muitos dos heróis dessas histórias
conseguiram a imortalidade, pois continuaram a ser cantados e escritos, por isso
sabemos quem é Péricles (grande governante de Atenas), Júlio César, César
Augusto, pessoas que fizeram grandes coisas e sempre tiveram os seus nomes
espalhados pela deusa Fama, fazendo com que nós ouvíssemos falar deles.
Cristo, portanto, que tinha uma história real, fez com que ela continuasse sempre
a acontecer, sendo uma história viva, assim como o próprio Cristo estava, está
e sempre estará vivo.
A educação clássica é a educação que nos ensina a ter acesso a essas histórias,
porque tem histórias que não valem a pena ser conhecidas, e nem todas elas
podem ser conhecidas no tempo limitado de vida que possuímos; separamos
alguns textos, algumas dessas histórias, alguns desses autores, alguns desses
temas (por exemplo, Geometria, Aritmética), aprender a Gramática para
aprender a ler esses textos e escrever semelhantes, números e letras, fez-se
necessária a observação da natureza e da sua constância e inconstância – com
destaque à observação celeste -, aprender sobre as estações do ano, etc.
A Astronomia foi um dos aprendizados mais essenciais, sem ela o homem se
desesperaria, principalmente devido à fixação do movimento dos grandes astros
que regem a vida na Terra; ter a certeza de que o Sol nos ilumina e que o seu
ausentar é breve, é um repouso para nossas mentes, o mesmo acontece com
as estações do ano, e perceber isso foi fácil conforme o passar dos anos,
favorecendo a crença na concretude. Foram criados registros de que a chuva
não acabava com o mundo, por exemplo. Esses registros são trazidos até nós,
e não precisamos nos preocupar mais, não fiquemos desesperados com as
coisas materiais, nem com as espirituais. Existem momentos em que eu estou
triste, onde eu rezo e sinto uma consolação e onde eu rezo e não sinto nada,
vou à missa e parece que não sou ouvido por Deus, mas se nós tivermos acesso
à Tradição, ao São João da Cruz, aos escritos sobre a noite escura da alma,
encontraremos ali a tranquilidade.
Sócrates era um desses sujeitos; conhecia muito a tradição, observava os céus,
até demais. Ele não era um bom exemplo de pai de família, na verdade, muito
pelo contrário, nos ensinou pelos exemplos negativos. Normalmente ele chegava
tarde em casa, pois ficava o dia inteiro na rua, conversando e filosofando, e era
completamente irresponsável em prover os alimentos e o dinheiro que a sua
casa necessitava para sobreviver, deixando a sua esposa à deriva das
circunstâncias. Em certo dia, Sócrates chega em casa e se depara com sua
mulher muito brava, cobrando-o acerca das necessidades básicas; ao ser
ignorada, sua esposa joga um balde de água gelada nas costas dele, e ele pensa
imediatamente: “Depois do trovão, sempre vem a chuva”. Esta é uma piada, uma
anedota, que tem o seu fundo de verdade, já que só esbravejando ela não
conseguiria despejar toda a sua raiva – muito bem fundada, por sinal -, Xantipa
precisaria fazer algo mais do que falar, já que parecia que Sócrates não se
abalava com nada (nem quando foi condenado à morte).
Essas informações que me são trazidas, porque olho para o céu, porque
conheço as histórias que a minha vó tinha ouvido pai dela, e assim por diante, é
onde a gente evoca o verbo latino tradere, em português tradição. O que é-nos
trazido não pode trazer tudo que foi produzido pelo homem, mas classifica
algumas coisas as quais nomeia clássicos e nos traz essas coisas; por isso nós
dizemos que precisamos de uma educação clássica, para que nós sejamos
livres. A educação é necessária para que sejamos livres como Sócrates, que
mesmo levando um balde de água gelada nas costas permanecia resoluto,
concluindo que o errado na história era ele mesmo, por ter ficado na rua mesmo
depois de haver trovejado. É conhecendo as coisas que nós somos livres; eu
não sou livre para ir a pé para casa, se eu não conhecer o caminho até lá,
portanto, se eu não conheço as coisas eu não tenho liberdade, e esta está
condicionada àquilo que eu conheço. Se eu conheço muitas línguas, sou livre
para me comunicar com várias pessoas, se conheço apenas a Língua
Portuguesa, poucas pessoas fora daqui vão me entender. Se eu consigo modular
mais a minha linguagem, me adaptar aos diferentes estilos, dentro do meu
próprio estado, país, continente e do mundo todo, mais livre eu sou para obter
mais informação, formação, entender mais pessoas, ter mais contato e mais
trocas humanas com tais pessoas. Se eu sei calcular a área de um quadrado, eu
também consigo calcular a área de um retângulo e até mesmo de um triângulo,
se não sei esse primeiro passo, dificilmente conseguirei alcançar o segundo; se
não sei o que é uma linha, dificilmente conseguirei calcular a área do quadrado,
mas com um primeiro passo, de calcular a área do triângulo – por exemplo -, já
posso tentar a de círculos, quadriláteros e assim por diante. Quanto mais eu sei,
mais livre eu sou para fazer coisas a mais. Essa liberdade é interior; existe
também uma liberdade por analogia, que é aquela de quando o sujeito está
preso, mas ainda é livre para o exercício de qualquer liberdade anterior.
É por isso que nós chamamos esse tipo de educação de clássica, pois ela visa
nos trazer os clássicos, aquelas coisas que foram preservadas e servem para
tudo aquilo de que falamos até agora. Além disso, a educação pode ser chamada
também de liberal, já que é voltada para a libertação do indivíduo, para a
liberdade interior; há também dois motivos pelos quais essa educação pode ser
chamada de católica: o primeiro deles é porque a palavra “católica” é muito mais
antiga do que a Igreja Católica e significa “universal”, bem como a história do
Odisseu o é, pois posso contá-la a um português, um indígena, um australiano,
todos eles entendem, não estou falando apenas da cultura grega, mas universal.
Se estou tentando explicar o Brasil para um estrangeiro, é bom contarmos uma
história e não mostrar o Vade Mecum, pois eles não entenderão nada, mas se
mostrarmos Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa e uma
duas ou três novelinhas da Globo e ele entenderá o Brasil muito melhor do que
se tivesse lido o Vade Mecum, ou qualquer coisa do gênero.
Ao assistir uma notícia, um estrangeiro não entenderá o que é o Brasil em
essência, mas absorverá apenas o entendimento do momento pelo qual passa
o País, apenas entenderá o que são as leis do Brasil, mas um país não é aquilo
que as suas leis dizem que ele deve ser, mas pelo contrário, as leis são um
reflexo daquilo que o próprio país é; nós só temos leis hoje, porque o Machado
de Assis, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa e as novelas da Globo existem.
Perceba que a gente só aprova alguma coisa no Brasil depois de passar na
Globo, tem que ter uma história antes, tem de estar na Literatura, as pessoas
têm de ser acostumadas àquilo. Imaginativamente, a Literatura não pode ter
esses fins pérfidos, mas chega uma hora em que a publicidade e a propaganda
descobrem que a Literatura pode servir a isso e muito bem. As novelas da Globo
passam na Coréia, na África, em Portugal, na Austrália e em qualquer lugar,
porque aquilo é universal, por pior que seja. A Constituição do Brasil, ainda que
traduzida, não é um discurso universal, mas a novela da Globo sim; é preciso
uma história inteira apenas para falar sobre o Brasil, por isso não é viável explicar
o País começando por seu regime político federativo, por exemplo. Para um
alemão que escuta a palavra federação, que se diz “föderation”, ele
imediatamente lembra do nome do país: Bundes Republik Deutschland, que tem
de ver com fedos, ou seja, a nossa palavra da qual emana federação, e que quer
dizer uma ligação, isto é, pegar alguns feixes, por exemplo, e ligá-los por meio
de um fechamento, uma junção.
O alemão escuta Bundes Republik e já entende que é uma república de ligação,
nós pegamos a palavra “federação” e já esquecemos, mas como o alemão não
é uma língua latina, eles usam o verbo bindend constantemente para expressar
essas ligações. Não adianta traduzir a palavra para o português, porque nós
continuaríamos sem entender exatamente aquilo que um alemão entende ao
ouvir a determinada palavra, já que para ele aquilo tem muito mais sentido, o
sentido do dia a dia, ninguém tem dúvida do que é federação, mas se pedirmos
essa informação a um brasileiro, a maioria não saberá responder. Sendo assim,
ao vermos a série Dark, entendemos mais da Alemanha do que ao lermos o
nome do país, ou a Constituição, ou ouvir qualquer sociólogo falando sobre o
assunto, pois aquilo é universal, que em grego se diz catholicos.
Primeiramente, a educação tem de ser universal, não no sentido de para todos,
mas ela deve ser para quem quer; se o sujeito não quer, não tem objetivo
nenhum obrigá-lo, ninguém deveria ser obrigado a sair da caverna e queimar os
olhos na luz, o simples convite deve bastar àquele que realmente deseja. É isso
que acontece, o povo obriga todo mundo, depois querem crucificar uns aos
outros, para achar o culpado, mas é completamente infrutífero obrigar um sujeito
que não tem vocação – e que não é menos digno por isso. Nosso Senhor até
aprendeu a ler e escrever, mas a profissão dele não era a mesma do Santo
Agostinho ou do Papa Bento XVI, que são filósofos e teólogos, mas era fazer
mesa, cadeira, se dedicar ao artesanato, a construir coisas, e foi Ele quem
universalizou a dignidade toda do ser-humano, já basta. Algumas pessoas são
também chamadas a contar e entender histórias, e são tão dignas quanto os
primeiros, e tais pessoas, caso se proponham a fazer algo que não condiz com
a vocação que lhe é apropriada será infeliz.
Sendo assim, a educação por ser universal é católica, mas existe um outro
motivo, é que até alguns anos atrás, cerca de 150 a 200 anos, quem realmente
fez com que essa coisa que começou na Grécia, expandiu-se entre os romanos,
não morresse e chegasse até nós foram os cristãos. Nós só sabemos que
existiram os deuses gregos porque o Cristianismo recuperou essas histórias.
Foram os cristãos que escreveram incessantemente, copiaram, interpretaram,
traduziram, o tempo todo, em matérias como Filosofia e muitas outras ciências,
isso era a principal ocupação de um certo grupo de pessoas dentro da Igreja
Católica. Mesmo no Egito e outros lugares remotos, é nítida a presença da Igreja
pagando, publicando livros, construindo bibliotecas e universidades onde essas
coisas fossem pesquisadas. Nós só sabemos de Zeus e Júpiter porque os
cristãos salvaram. Milhares de outras civilizações antigas produziram conteúdos
parecidos, inclusive nas Américas, como os Incas e os Maias; tudo o que nós
conhecemos da cultura indígena do Brasil devemos aos jesuítas, que pegaram
e anotaram nomes das divindades, vocabulários, fizeram gramáticas, assim
como São José de Anchieta que foi o responsável por escrever uma Gramática
Geral da Língua Tupi, por exemplo, ensinando-a ao lado da língua Portuguesa e
do Latim, compondo poemas no Tupi – já que uma língua não pode existir sem
alta Literatura -, tentando perpetuar a língua.
É certo que a Língua Portuguesa não existiria se não tivéssemos “Os Lusíadas”,
provavelmente hoje falaríamos espanhol, pois o sentido próprio de falar essa
língua se dá nesse texto magno. Na Alemanha, isto se dá com a Bíblia de Lutero,
apesar de haver uma vasta literatura anterior, é a tradução de Lutero que faz
com que o alemão realmente seja uma língua forte, utilizando-se da mesma
língua do Código Civil alemão. A primeira vez que Lutero leu a Bíblia na igreja
ninguém entendeu nada, pois ninguém falava aquela língua ainda, toda cheia de
helenismos e latinismos, uma gramática dura, mas Martinho era
inquestionavelmente um gênio linguístico, um gênio da tradução, que coordenou
uma equipe para traduzir a Bíblia e fizeram um trabalho muito bem feito, cheio
de erros teológicos, mas bonito demais, só comparável a tradução de São
Jerônimo, que já é mais bonita do que os textos originais, porque o Santo era
alguém dado a educação clássica; São Jerônimo teve um sonho em que nosso
Senhor aparecia para ele e dizia: “Jerônimo, você é cerdoniano, não cristão”,
porque ele tentava traduzir a Bíblia dando a ela uma aparência ainda mais bonita.
Sem Goethe o alemão moderno seria impossível e, portanto, seria também
impossível a linguagem mais técnica, filosófica e formal de Immanuel Kant; a
linguagem poética, fez com que o alemão, que era uma linguagem falada por um
povo muito pequeno numericamente, fosse uma língua importante, assim como
o italiano. Se não fosse a boa literatura, por que o italiano seria uma língua boa?
O italiano só se fala na Itália, mas é uma língua bela de se aprender. Por que as
pessoas aprendem mandarim, japonês, por exemplo? Por causa da Literatura,
dos mangás, crescendo com aquelas histórias, conhecendo a mitologia asiática,
pelo simples fato de que é bom aprender.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
ALUNO: Eu gosto muito de praticar memorização de poesia, e uma vez quando
eu estava memorizando, perguntei-me por que memorizar? Porque sim. Essa foi
uma resposta bastante objetiva que dei a mim mesmo, mas você consegue
destrinchar mais o porquê de fazer isso?
PROF. CLÍSTENES: Bom, por uma infinidade de motivos; um deles é porque
para eu aprender sintaxe, por exemplo, conseguir dentro de uma frase usar os
elementos corretos para expressar as palavras – que são símbolos, já que ao
dizer mesa, não sai uma mesa da minha boca, mas a simboliza -. As realidades
não são apenas palavras soltas, porém, é preciso frases inteiras para expressar,
e para isso não é necessário apenas um conjunto de palavras, mas é preciso
saber ligar umas as outras, usar os verbos corretos. Recorrer à gramática é uma
alternativa, decorar as regras, mas isso seria como ler o Vade Mecum para saber
viver no Brasil. Não precisaria de contador, se fosse necessário simplesmente
ler a legislação tributária, mas é necessário todo um “jogo de cintura”, que é
melhor apreendido em contato com os modelos mais excelentes, que faz com
que o conhecimento geral dos mesmos modelos – o que não significa dizer que
todos têm de ler as mesmas coisas -, gerando uma comunicação mais
especializada.
Os problemas de comunicação se dão principalmente porque um sujeito não tem
o mesmo conhecimento do que o outro, como por exemplo, um que só leu
Machado de Assis e outro só Guimarães Rosa. Todos conhecem aquele tipo de
professor universitário que responde toda pergunta com o exemplo de um
filósofo que ele estudou no doutorado, seja com Kant, Freud ou qualquer outro
autor, essa se torna uma mania insuportável. A comunicação torna-se difícil
quando não se tem a mesma referência. Em uma sociedade em que todos
conhecem as histórias bíblicas, aquilo ajuda, por mais que o sujeito creia ou não,
ou por mais diferente que possa ser a interpretação do sujeito acerca daquilo.
Alguém pode dizer que leu o Evangelho, mas não acha que a virgindade de
Nossa Senhora é perpétua ou que ela continua virgem depois da concepção do
Cristo, o que está errado de acordo com a Tradição inteira, mas com o texto
escrito e de conhecimento geral, todos podem discuti-lo, mas normalmente não
é isso que acontece. Quando existe a condição de um diálogo é porque os dois
sujeitos têm um conhecimento minimamente complacente, conseguindo
estabelecer uma conversa. Se nos propomos a falar de Graciliano Ramos, mas
eu leio apenas Machado de Assis e você apenas Guimarães Rosa, nós
falaremos sobre um autor que nenhum de nós dois leu, portanto, cada um tratará
o assunto de que se fala conforme a concepção do autor que se leu. É isso que
acontece!
Quando eu leio poesia e memorizo as coisas, é porque pelo menos com aquele
autor eu sei conversar, e portanto, sei do que ele está falando, já se eu não
memorizo é como se eu lesse tudo pela primeira vez, observo a poesia e não a
entendo; ele me diz algo, mas como eu não tenho as referências dele, ou eu só
leio um poema, ou ainda não tive tempo de pensar, ainda que seja em um verso
conhecido, como o de Fernando Pessoa:

Ó mar salgado, quanto do teu sal


São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Nós só entenderemos um poema curto, a lírica, depois que se memoriza, pelo


menos grande parte só é inteligível dessa forma. Talvez não fique perfeitamente
memorizado, mas isso é uma consequência comum, mas a princípio o que deve
ser buscado é a memorização completa, pois mesmo que não se consiga terá
valido a pena. Muito dessa experiência está descrita no livro “A Formação do
Estilo pela Assimilação dos Autores” do Antoine Albalat, onde o autor diz que a
imitação dos autores é uma transfusão, não ficar apenas imitando frases ou
mudando o nome de personagens apesar de manter a mesma história, mas
assimilar de forma a dizer “já não sou eu quem vivo, mas é o Padre Vieira que
vive em mim”, por exemplo. Quando lemos a vida de Cristo, isto tem a finalidade
de imitar a vida d’Ele; da mesma forma, quando lemos as obras dos diversos
autores, devemos ter o desejo de imitá-los, seja na escrita ou em outros
aspectos, buscando ser original, sobretudo. Um Santo é extremamente original,
apesar de se esforçar por imitar o Cristo, como dizia G. K. Chesterton, os Santos
imitam todos a mesma pessoa, mas saem todos diferentes, já quem tenta ser
original em si mesmo é sempre igual. Allan Bloom, no seu “O Declínio da
Civilização Ocidental” defende que uma geração decidira ter a personalidade
forte, pintar o cabelo, rebelar-se, e terminaram por ser uma padronização igual
entre si. Os pardais não têm essa possibilidade. Tentar ser eu mesmo é me
animalizar, pois eu só sou eu mesmo na medida em que busco ser outro maior.
São muitos os motivos, mas o principal é essa necessidade de transfusão. Saber
se o verbo obedecer, por exemplo, é transitivo direto ou indireto pode até ajudar
em termos teóricos, mas o melhor de decorar um poema é saber na prática que
“obedeci-lhe” é o mesmo que “obedeceu ao pai” e não “o pai”. Decorar uma
tabela de verbos transitivos diretos é bem menos eficaz do que decorar poemas,
porque nestes os verbos são empregados na prática, fazendo com que esse
emprego seja transferido a linguagem de quem o memoriza. Camões não sabia
o que era um verbo transitivo direto e indireto, mas havia lido Virgílio, Orácio,
Ovídio e decorado; Camões nunca teve aulas de português, assim como
Shakespeare não teve aulas de inglês, nem Dante de italiano ou Cervantes de
espanhol. Platão nunca teve aula da língua que falava em casa com os pais dele
e nem um tipo de grego homérico, mas conciliou os dois na criação do que fora
chamado de grego clássico, assim como fizeram os escritores de teatro que lhe
eram anteriores ou contemporâneos. Essa é uma invenção propriamente nossa,
a de pegar frases do nosso dia a dia – mesmo que com erros de gramática – e
tentar ensinar as nossas crianças como modelos de escrita. Em Roma, o sujeito
tinha de aprender primeiro a ler em grego (que não era a língua dele), para
depois ler em seu próprio idioma. Hoje em dia, há essa permissividade de
ensinar a língua materna, travestida, porém, do desejo de ensinar já uma língua
estrangeira, fato este pervertido, já que para a imaginação infantil a língua
materna é muito mais fácil.